Prévia do material em texto
COACHING E CARREIRA Bruno de Souza Lessa Motivação, engajamento e comprometimento Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar a hierarquia das necessidades de Maslow e relacioná-la à trajetória profissional dos indivíduos. Conceituar motivação, engajamento e comprometimento sob o en- foque da psicologia positiva. Relacionar engajamento, flow e carreira. Introdução A motivação humana é um conceito central dentre aqueles estudados pelas ciências, tanto as teóricas quanto as aplicadas. Na maioria das organizações, é comum ouvir ocasionalmente que um funcionário específico não está motivado e, portanto, seu desempenho ficou em segundo plano. Essa é a razão pela qual as empresas investem, por exemplo, na organização de ses- sões de treinamento e eventos recreativos para motivar seus colaboradores. A motivação pode ser entendida como o desejo ou impulso que um indivíduo tem para realizar suas tarefas. Nesse sentido, é a motivação para realizar uma determinada tarefa que condiciona se um indivíduo em par- ticular consegue completar uma tarefa de acordo com os seus requisitos ou não. Além disso, a ausência de motivação leva a um desempenho in- suficiente ou à perda de competitividade, resultando, consequentemente, na perda de recursos para uma organização. É por esse motivo que os gerentes de recursos humanos enfatizam que os funcionários precisam ter bons níveis de motivação para realizar seus trabalhos. Neste capítulo, você vai estudar em detalhes uma das teorias mais difundidas sobre a motivação humana: a hierarquia das necessidades, de Abraham Maslow. Além disso, você vai verificar os conceitos de engaja- mento e comprometimento a partir do enfoque da psicologia positiva. Por fim, você vai analisar a relação entre engajamento, estado de flow e carreira. A hierarquia das necessidades de Abraham Maslow e a trajetória profissional Uma das principais questões que norteiam os estudos sobre a motivação humana é: “O que motiva o comportamento?”. Para responder essa pergunta, inúmeros pensadores e cientistas elaboraram, no decorrer da história, con- ceitos que pudessem explicar o que motiva o comportamento humano. Uma das teorias clássicas mais difusas nesse sentido é a chamada hierarquia das necessidades, proposta pelo psicólogo norte-americano Abraham Maslow, que tenta explicar o comportamento dos indivíduos por meio dos seus esforços para preencher certas necessidades. Maslow (1943) sugeriu que as pessoas são motivadas a satisfazer determi- nadas necessidades básicas antes de passarem para outras mais complexas, por exemplo. O interesse de Maslow era saber quais são os elementos que satisfazem as pessoas e quais movimentos elas fazem para alcançar um de- terminado grau de satisfação. Maslow propôs que seres humanos saudáveis têm um certo número de necessidades, e que essas necessidades estão organizadas em uma hierar- quia, com algumas delas se localizando em uma base de importância maior (como as necessidades fisiológicas e de segurança) e mais básica do que outras (como as necessidades sociais e de estima). A chamada hierarquia de necessidades de Maslow é frequentemente apresentada como uma pirâmide de cinco níveis, com as necessidades mais sofisticadas entrando em foco apenas quando as necessidades mais básicas tiverem sido atendidas, conforme lecionam Rasskazova, Ivanova e Sheldon (2016). Na Figura 1, você pode ver a hierarquia das necessidades conforme con- cebida por Abraham Maslow. Na base, é possível ver que estão as necessi- dades mais básicas, que se relacionam com a satisfação de demandas para a sustentação da vida biológica e social. À medida que essas necessidades vão sendo atendidas, outras mais complexas ganham prioridades e precisam ser contempladas concomitantemente. Motivação, engajamento e comprometimento2 Figura 1. A hierarquia das necessidades de Maslow. Fonte: Adaptada de Maslow (1943). Maslow chamou os quatro níveis inferiores da pirâmide de necessidades de deficiência, porque uma pessoa não sente nada se elas forem satisfeitas, mas fica ansiosa caso não estejam. Assim, necessidades fisiológicas como comer, beber e dormir são necessidades de deficiência, assim como necessidades de segurança, necessidades sociais, como amizade e intimidade sexual, e neces- sidades do ego, como estima e autorrealização. Uma vez que a pessoa tenha satisfeito suas necessidades de deficiência, ela pode voltar sua atenção para a autorrealização, conforme descrevem Neubauer e Martskvishvili (2018). 3Motivação, engajamento e comprometimento Para Maslow (1943), as pessoas têm um desejo inato por alcançar a au- torrealização. Entretanto, para alcançar esse objetivo, seria imperativo que um número de necessidades básicas tivesse sido satisfeito — por exemplo, as necessidades de comida, segurança, pertencimento a um grupo e obtenção de reconhecimento social. Dito de outra forma, as necessidades que estão na base da pirâmide são os requisitos biológicos básicos. Quando uma necessidade de um nível mais baixo é atendida, é possível passar para os outros níveis mais sofisticados, conforme lecionam Rasskazova, Ivanova e Sheldon (2016). No decorrer de nossas trajetórias profissionais e no cotidiano do trabalho, precisamos satisfazer uma série de necessidades, tentando ir daquelas consi- deradas mais básicas àquelas mais complexas e que envolvem um conjunto sofisticado de fatores. Nesse sentido, no decorrer das nossas carreiras, fazemos escolhas orientadas por algumas dessas necessidades mais do que por outras, considerando o contexto no qual estamos inseridos. Por exemplo, uma pessoa pode ter um papel ou até mesmo um emprego específico em uma ONG ou em um serviço comunitário como voluntário, e esse trabalho satisfaz suas necessidades de estima. No entanto, por conta do tempo que precisa ser dedicado a essa atividade e da demanda por um salário para sustentar a si e a família, é possível que o indivíduo tenha que optar por outro emprego — nesse caso, um emprego que pague um salário melhor e que possibilite comprar o básico para sua sobrevivência. Nessa perspectiva, as necessidades acabam por guiar — algumas vezes, de forma sutil, e outras, nem tanto — as escolhas que fazemos nas nossas trajetórias profissionais. Diante da dificuldade de nos ajustarmos ao contexto e a essas escolhas, aspirações e capacidades, um profissional como um coach e as estratégias que ele desenvolve podem servir de suporte. Afinal, nem sempre é fácil adequar as expectativas subjetivas às condições reais que se impõem diante daquilo que planejamos para nossas carreiras. Os coaches possuem competências, treinamentos e técnicas que podem ajudar na escolha mais alinhada com nossos propósitos. Isso porque, apesar de termos um número limitado de alternativas, é possível optar por aquela que satisfaça nossas necessidades, sem que essa escolha cause infelicidade. À medida que o indivíduo avança na pirâmide, as necessidades passam a ter facetas mais sociais e psicológicas. Por isso, Maslow enfatizou a autorrea- lização como muito importante para qualquer indivíduo, pois se relaciona com a imanência individual por integração com o meio social e natural. Embora a teoria seja geralmente retratada como uma hierarquia rígida, Maslow observou que a ordem em que essas necessidades são atendidas nem sempre segue uma progressão padronizada. Por exemplo, ele observou que, para alguns indivíduos, Motivação, engajamento e comprometimento4 a necessidade de estima pode ser mais importante do que a necessidade de autorrealização, conforme apontam Neubauer e Martskvishvili (2018). As necessidades são descritas por Maslow (1943) conforme apresentado a seguir, indo da mais básica para a mais complexa. Necessidades fisiológicas: as necessidades fisiológicas são as mais basilares e incluem os fatores vitais para a nossa sobrevivência. Alguns exemplos de necessidades fisiológicasincluem: comida, água ou sono. Além dos requisitos básicos da nossa nutrição, as necessidades fisioló- gicas também incluem elementos como abrigo e roupas. Necessidades de segurança: nesse nível, as necessidades de segu- rança e proteção se tornam primárias. As pessoas passam a demandar controle e ordem em suas vidas, portanto, a necessidade de segurança e proteção contribui em grande parte para os comportamentos nesse sentido. Alguns comportamentos ligados às necessidades de segurança incluem: buscar estabilidade financeira, saúde e bem-estar ou mudar para um bairro mais seguro. Necessidades sociais: as necessidades sociais na hierarquia de Maslow incluem elementos como aceitação social e sensação de pertencimento. Nesse nível, a necessidade de relacionamentos emocionais impulsiona o comportamento humano. Alguns dos fatores que satisfazem essa necessidade incluem: amizades, família, grupos sociais e comuni- tários. Para evitar problemas como solidão, depressão e ansiedade, é importante que as pessoas se sintam aceitas por outras pessoas. Relacionamentos pessoais com amigos e familiares desempenham um papel importante para a nossa motivação, assim como o envolvimento em outros grupos sociais. Necessidades de estima: no quarto nível da hierarquia de Maslow está a necessidade de respeito e reconhecimento. Nesse ponto, torna-se cada vez mais importante ganhar o respeito e o reconhecimento dos outros. Em outras palavras, as pessoas têm necessidade de realizar tarefas e, em seguida, ter seus esforços reconhecidos. Por exemplo, a participação em atividades profissionais, as realizações acadêmicas e os hobbies pessoais podem desempenhar um papel no cumprimento das necessidades de estima. As pessoas que são capazes de satisfazer as necessidades de estima acabam por possuir boa autoestima e o reco- nhecimento dos outros, logo, tendem a se sentir confiantes sobre suas habilidades e capacidades. 5Motivação, engajamento e comprometimento Necessidades de autorrealização: no topo da hierarquia de Maslow estão as necessidades de autorrealização. Essa necessidade tem a ver com o sentimento que as pessoas constroem com o objetivo de atingir seu pleno potencial como seres humanos. As pessoas autorrealizadas são autoconscientes, preocupadas com o crescimento pessoal e menos preocupadas com as opiniões dos outros; ou seja, são interessadas em realizar seu potencial. A hierarquia das necessidades de Maslow é um dos modelos teóricos mais difundidos para entender as ações humanas e as motivações que são subjacentes a elas. Contudo, apesar de difuso, esse modelo precisa ser conhecido nos seus detalhes. No vídeo disponível no link a seguir, o professor Eduardo Abreu explica em detalhes esse modelo. https://qrgo.page.link/PgU4M Nos espaços de trabalho, por exemplo, as necessidades também são estrutu- radas em uma hierarquia. Somente quando um nível mais baixo de necessidade for atendido, um trabalhador passa a ficar motivado por uma oportunidade que se relaciona a ter a próxima necessidade na hierarquia satisfeita. Em termos práticos, seria o caso de uma pessoa que está com fome se sentir mais motivada a conseguir um salário para comprar comida do que se preocupar em ter o respeito dos outros. Uma empresa deve, portanto, oferecer incentivos diferentes aos trabalha- dores, a fim de ajudá-los a atender cada uma dessas necessidade e progredir na hierarquia. Os gestores também devem reconhecer que os trabalhadores não são todos motivados da mesma maneira, e nem todos ascendem na hierarquia no mesmo ritmo. Sendo assim, pode ser necessário oferecer um conjunto de incentivos ligeiramente diferente para cada trabalhador. O Quadro 1 resume e exemplifica a hierarquia das necessidades de Maslow. Motivação, engajamento e comprometimento6 Fonte: Adaptado de Maslow (1943). Ordem hierárquica Necessidades Descrição Exemplos 5 Autorrealização Realização do próprio potencial e autodesenvolvimento contínuo. É o impulso para que o indivíduo possa ser o seu máximo. Desafios e criatividade no trabalho; diversidade e autonomia; participação nas decisões. 4 Estima Maneira pela qual o indivíduo se vê e se avalia. Diz respeito ao status, à consideração. Sua frustração pode produzir desânimo e desamparo. Responsabilidade por resultados; orgulho e reconhecimento; promoções; autoapreciação; autoconfiança; aprovação social; respeito. 3 Sociais Necessidades de pertença a grupos. Quando não satisfeitas, o indivíduo se torna resistente, antagônico e hostil em relação aos que o cercam. Amizade dos colegas; interação com clientes; gerente amigável; participação, amizade, afeto e amor. 2 Segurança Busca por estabilidade, segurança contra ameaça ou privação do perigo. Emergem após a satisfação das necessidades fisiológicas. Condições seguras de trabalho; remuneração e benefícios; estabilidade no emprego. 1 Fisiológicas Relacionadas com a sobrevivência do indivíduo. São instintivas e nascem com o indivíduo. Quando não satisfeitas, dominam a direção do comportamento. Comer e dormir; intervalos de descanso; conforto físico; horário de trabalho razoável. Quadro 1. A hierarquia das necessidades de Maslow 7Motivação, engajamento e comprometimento Apesar de ser representada a partir de um modelo piramidal, a teoria da hierarquia das necessidades não pode ser compreendida de maneira estática ou dogmática. As necessidades fluem recursivamente, ou seja, estão em constante movimento, tanto dos níveis mais altos em direção aos mais baixos quanto no sentido oposto. Portanto, é preciso que a pirâmide seja observada como um fluxo de demandas que se renova e que está em constante movimento. Motivação, engajamento e comprometimento sob o enfoque da psicologia positiva Motivação, engajamento e comprometimento são conceitos que estão dire- tamente correlacionados na nossa vida social. Nos espaços de sociabilidade pessoal ou profi ssional, é necessário que as pessoas se sintam motivadas, para que possam se engajar em suas tarefas e se comprometer a permanecer executando-as. Por esse motivo, indivíduos e organizações investem não apenas em treinamentos, mas também em teorizações sobre como esses três elementos podem ser relacionados de maneira a gerar resultados positivos, seja no âmbito individual ou organizacional. O engajamento pode ser definido como um atrelamento dos membros da organização a seus papéis no trabalho. No engajamento, as pessoas se expressam fisicamente, cognitivamente, emocionalmente e mentalmente durante suas performances de determinados papéis. Nesse sentido, o enga- jamento pode ser visto como um estado de satisfação persistente e positivo. Nos espaços de trabalho, o engajamento pode ser delineado também como um estado motivacional afetivo, caracterizado pela dedicação e absorção por uma tarefa específica ou por um conjunto de atividades, conforme aponta Schaufeli (2013). Nessa perspectiva, colaboradores engajados são, por exemplo, entusiastas do seu trabalho e permanecem imersos nele, a tal ponto que o tempo parece passar rapidamente quando estão trabalhando. Fica claro que o conceito de engajamento no trabalho está intrínseco à psicologia positiva, na medida em que está fundamentado sobre o bem-estar psicológico. O engajamento no trabalho é, nesse sentido, um estado positivo, conforme sugerem Farina, Rodrigues e Hutz (2018). Motivação, engajamento e comprometimento8 Sendo mais específico aos espaços de trabalho, o comprometimento pode ser analisado de duas maneiras. Em primeiro lugar, é a antítese da exaustão (burnout). Em segundo lugar, o comprometimento no trabalho pode ser se- parado e não estar diretamente relacionado ao burnout, conforme apontam Schaufeli e Bakker (2004). Quando relacionamos engajamento e comprome- timento no trabalho, acabamos por unir vigor (ter altos níveis de energia e resiliência mental enquanto se trabalha), dedicação (estar fortemente envolvidoe derivar daí uma sensação de realização no trabalho) e absorção (estar total- mente absorto em trabalhar, para que o tempo passe rapidamente enquanto se trabalha), conforme leciona Schaufeli (2013). No que diz respeito à relação entre o engajamento no trabalho e o com- prometimento organizacional, aqueles colaboradores que são altamente engajados no seu trabalho também tendem a estar comprometidos com suas organizações. Portanto, existe uma correlação positiva entre o envolvimento no trabalho e o comprometimento organizacional. Além disso, o engajamento no trabalho pode ser entendido como um antecedente do comprometimento organizacional, pois as pessoas que são engajadas em seu trabalho tendem a ser mais comprometidas também com suas organizações, segundo Rothmann e Jordan (2006). Nesse sentido, é possível definir o comprometimento organizacional como a disposição dos funcionários de fazerem um esforço maior em nome de suas organizações, ou a apresentação de um forte desejo de permanecerem em suas organizações e se alinharem com seus principais objetivos e valores. Em uma perspectiva mais tradicional, o comprometimento também pode ser definido como o sentimento de obrigação do funcionário de permanecer em sua organização. Esses sentimentos resultam das pressões normativas que os funcionários experimentam, de acordo com Viljoen e Rothmann (2009). Por outro lado, segundo Schaufeli (2013), o engajamento pode ser definido como uma mistura de três conceitos: 1. satisfação no trabalho; 2. compromisso com a organização; 3. comportamento extrafunção, ou seja, esforço pessoal para ir além da descrição do trabalho. Entretanto, no enfoque da psicologia positiva, tanto o engajamento quanto o comprometimento passam a se relacionar não apenas entre si, mas com aspectos afetivos no âmbito da positividade. Esta é expressa nas ações que se 9Motivação, engajamento e comprometimento estabelecem tanto no trabalho quanto fora dele, conforme sugerem Farina, Rodrigues e Hutz (2018). Seligman et al. (2009) também sugerem que a combi- nação de habilidades de enfrentamento baseadas em habilidades psicológicas positivas pode produzir benefícios na forma como as pessoas lidam com mudanças drásticas de humor. Podemos tomar como exemplo um caso de indivíduos que receberam um deter- minado programa de construção de motivação, engajamento e comprometimento, baseado no enfoque da psicologia positiva, e passaram a relatar maior aproveitamento, apresentaram melhores desempenhos nos seus aprendizados e aprimoraram suas habilidades sociais. Nessa perspectiva, eles desenvolveram habilidades também relativas à empatia, à cooperação, à assertividade e ao autocontrole. Além disso, esses mesmos indivíduos que receberam o programa apresentaram menos sintomas de depressão e ansiedade, conforme apontam Redzic et al. (2014). De forma a garantir o sucesso de um programa de melhoria da motivação, do engajamento e do comprometimento dos colaboradores nos espaços organi- zacionais, por meio da psicologia positiva, o primeiro passo deve ser garantir que eles estejam confiantes em adquirir determinadas habilidades sociais por meio dessa abordagem. Outro ponto relevante é que seja firmado um acordo entre os que vão participar desse tipo de programa, sendo necessário também que se construa um ambiente no qual seu uso seja visto como relevante e que o programa como um todo seja considerado interessante, conforme apontam Redzic et al. (2014). Outro passo importante na construção de motivação, engajamento e comprometimento nos espaços organizacionais, sob o enfoque da psicologia positiva, é examinar os comportamentos reais dos colaboradores e considerar as conexões entre habilidades e comportamentos. Por fim, as atividades de- senvolvidas devem abranger expressões comportamentais positivas, por meio de atividades que levem em consideração o contexto externo de mudanças rápidas e de instabilidade, como as mudanças tecnológicas e na economia, conforme orientam Redzic et al. (2014). Motivação, engajamento e comprometimento10 Engajamento, estado de flow e carreira Emoções positivas e o estado de fl ow são dois princípios centrais dentro da psico- logia positiva que, devido às suas semelhanças, são frequentemente discutidos em conjunto. Ambos são essenciais para a construção do engajamento nos ambientes organizacionais e nas carreiras. Embora determinados ramos da psicologia afi rmem que emoções negativas e traumas tendem a persistir mais, os psicólogos positivos afi rmam que as pessoas podem aprender a aumentar sua experiência de emoções positivas sobre o passado e o futuro por meio de práticas intencionais. As emoções positivas em relação ao passado incluem contentamento, realização, orgulho, serenidade e satisfação. As emoções positivas relativas ao futuro incluem espe- rança, otimismo e confi ança. Por fi m, emoções positivas em relação ao presente incluem atenção e foco, conforme apontam Rashid e Seligman (2014). Aprender a focalizar com mais frequência nas emoções positivas, que estão associadas à resiliência, ajuda as pessoas a desenvolverem essa caracterís- tica, contrariando os efeitos das emoções negativas. Na carreira, isso tem o impacto de aumentar paralelamente a motivação e o comprometimento com a organização, possibilitando melhores resultados e o sentimento de satisfação com as tarefas realizadas tanto profissionalmente quanto em outros espaços de sociabilidade, conforme apontam Aulthouse et al. (2017). O estado de flow (ou estado de fluxo) é, por sua vez, uma condição na qual uma pessoa está altamente engajada em uma atividade direcionada por objetivos, a ponto de um indivíduo nessa condição perder a noção do tempo ou da autocons- ciência. Tanto as emoções positivas quanto o estado de fluxo estão relacionados a vários indicadores de eficácia no trabalho, incluindo uma maior satisfação e desempenho. Nesse sentido, o agregado desses aspectos promove o desenvolvi- mento profissional, constrói o engajamento e assegura sentimento de confiança e estabilidade na carreira, de acordo com Nakamura e Csikszentmihalyi (2009). De acordo com Csikszentmihalyi (2002), a experiência do fluxo é universal e tem sido relatada em todas as classes, sexos, idades e culturas, podendo ser experimentada em diversos tipos de atividades. Nesse sentido, se você já ouviu alguém descrever um momento em que seu desempenho se destacou, essa pessoa provavelmente descrevia uma experiência de fluxo. O fluxo ocorre quando o seu nível de habilidade e o desafio estão em patamares iguais. 11Motivação, engajamento e comprometimento A teoria por trás do estado de flow argumenta que essa condição é al- cançada quando as pessoas estão engajadas em atividades para as quais estão devidamente qualificadas e que acham desafiadoras. No âmbito das organizações, por exemplo, é mais provável que as emoções positivas sejam alcançadas quando os funcionários se tornam engajados em atividades posi- tivas relacionadas aos seus interesses, às suas habilidades e aos seus valores. Uma maneira de intensificar o estado de fluxo é identificar os pontos fortes e as oportunidades para usá-los com mais frequência. As emoções positivas e o fluxo têm várias implicações para o desenvolvimento de carreira, conforme apontam Seligman et al. (2009). A capacidade de nos engajarmos na realização das tarefas cotidianas é fundamental para o bom desempenho nelas. Entretanto, nem sempre encontramos as teorias e estratégias necessárias para fazê-lo. O estado de flow é uma tentativa de explicar e criar estratégias de maneira a permitir que nós nos engajemos nas tarefas e, assim, possamos executá-las com melhor qualidade, alcançando maior plenitude na sua realização. Na palestra disponível no link a seguir, o professor Mihaly Csikszentmihalyi fornece uma explicação simples e concisa sobre esse estado. https://qrgo.page.link/snvcC Um exercício possível em uma organização é pedir aos colaboradores que identifiquemos momentos em que vivenciam emoções positivas e entram em estado de flow. Nesse sentido, os gestores podem transformar uma determinada atividade em uma tarefa de longo prazo. Pode ser solicitado que os colaborado- res anotem quando experimentam emoções positivas ou o estado de flow em um diário de carreira, algo que pode servir posteriormente como um registro pessoal para suas carreiras, conforme sugerem Rashid e Seligman (2014). É comum que os colaboradores não consigam identificar prontamente as atividades que, à primeira vista, parecem ter implicações nas suas carreiras. Em outras palavras, é normal que os indivíduos identifiquem atividades secundárias como tendo uma importância mais primordial em suas vidas. Para tais situações, o diário de carreira pode contar com uma coluna que descreve atividades efetivamente prazerosas, que possam ser incorporadas Motivação, engajamento e comprometimento12 na rotina, por exemplo. Contudo, é imperativo que a pessoa deixe bem explícita a atividade que gosta, detalhando-a bem, para que fique claro para si própria o porquê de aquela atividade ser vista como positiva, conforme indicam Aulthouse et al. (2017). Tornar explícitos os prazeres de uma atividade é muito importante, uma vez que temos a tendência de nos concentrarmos nos aspectos negativos das experiências emocionais. Além disso, não é incomum que as pessoas tenham uma ansiedade considerável quando pensam acerca do futuro. Portanto, no âmbito da carreira, é necessário que tanto os indivíduos quanto os gestores possam ter consciência ou mesmo ensinar aos outros que é possível ter controle sobre como percebemos os eventos ao nosso redor. Deve-se salientar também que é possível aprender a nos concentrarmos intencionalmente nos aspectos positivos das nossas experiências profissionais. Existem estratégias que podem nos ajudar a encontrar e estabelecer o estado de flow em nossas tarefas individuais. Veja, a seguir, exemplos de estratégias que podem ajudar nesse sentido. Escolha tarefas que envolvam suas emoções: pense em tarefas motivantes e animadoras, ou seja, tarefas que efetivamente façam com que você se engaje e se mantenha nelas. Ao escolher uma tarefa, é preciso que seja algo que envolva suas habilidades, sua racionalidade e suas emoções. Significado: faça coisas importantes, isto é, realize tarefas que estejam conectadas a um propósito maior. Envolva-se, por exemplo, em um trabalho que terá um impacto de longo prazo em sua carreira. Certifique-se de que as tarefas sejam desafiadoras, mas não muito difíceis: o estado de flow requer concentração total. Se a tarefa for muito difícil, você usará a maior parte de sua concentração tentando descobrir como fazer algo, ficando frustrado(a) e desencorajado(a). Estabeleça momentos para seu estado de flow: estabeleça um tempo em seu calendário para se dedicar ao seu estado de fluxo e, durante esse tempo, resolva tarefas complexas e mais sofisticadas. Se você for uma pessoa matutina, que se sente mais energizada nesse momento do dia, estabeleça esse período para seu estado de fluxo e deixe as tarefas que exigem menos foco para outras partes do seu dia. Evite distrações: por exemplo, comprometa-se a verificar o e-mail apenas em deter- minados momentos ao longo do dia. Se um pensamento lateral aparecer, mantenha um bloco de anotações por perto para anotá-lo. Além disso, tente manter sua mesa de trabalho organizada, pois isso também ajuda a diminuir eventuais distrações. 13Motivação, engajamento e comprometimento Se trabalhados de maneira integrada, o estado de flow passa a ter influência direta sobre o engajamento e a produtividade, levando a melhores resultados. Estudos apontam que esses elementos podem ser utilizados pelas empresas para criar um ambiente organizacional mais favorável e, consequentemente, gerar resultados superiores, tanto para os indivíduos quanto para as organiza- ções em si. Nessa perspectiva, os impactos se estendem para o desempenho individual de cada trabalhador e para seus níveis de satisfação com a vida pessoal, conforme aponta Schaufeli (2017). É preciso compreender também que o contexto de trabalho pode ser or- ganizado para promover a experiência de flow e o engajamento. Mas, para isso, as conjunturas que envolvem esses conceitos precisam estar articuladas, para gerar uma melhor utilização tanto das características pessoais quanto dos recursos organizacionais, ainda de acordo com Schaufeli (2017). Embora possam ser diferentes em cada organização, a forma como atributos pessoais e organizacionais são trabalhados pode potencializar substancialmente o flow e as experiências de engajamento. Portanto, é possível propor inter- venções focalizadas, que podem construir espaços para aprimorar o emprego desses recursos, impactando como os indivíduos organizam e gerenciam suas carreiras. Além disso, estar inserido em um clima organizacional favorável e positivo colabora para que os indivíduos possam ser mais eficientes e se sentir mais satisfeitos. Isso porque eles podem alcançar seus objetivos com mais facilidade, ser encorajados a crescer nas suas carreiras e se sentir mais realizados, conforme lecionam Farina, Rodrigues e Hutz (2018). AULTHOUSE, M. et al. Positive psychology and career development. Journal of School Counseling, v. 15, nº. 15, 2017. Disponível em: https://eric.ed.gov/?id=EJ1158347. Acesso em: 10 jul. 2019. CSIKSZENTMIHALYI, M. Flow: the psychology of happiness: the classic work on how to achieve happiness. London: Rider, 2002. FARINA, L. S. A.; RODRIGUES, G. R.; HUTZ, C. S. Flow and engagement at work: a literature review. Psico-USF, v. 23, nº. 4, p. 633–642, 2018. Disponível em: http://www.scielo.br/ scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1413-82712018000400005&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 10 jul. 2019. Motivação, engajamento e comprometimento14 MASLOW, A. H. A theory of human motivation. Psychological Review, v. 50, nº. 4, p. 370–396, 1943. Disponível em: https://psychclassics.yorku.ca/Maslow/motivation.htm. Acesso em: 10 jul. 2019. NAKAMURA, J.; CSIKSZENTMIHALYI, M. Flow theory and research. In: LOPEZ, S.; SNYDER, C. R. (ed.). The Oxford handbook of positive psychology. New York: Oxford University Press, 2009. NEUBAUER, A. C.; MARTSKVISHVILI, K. Creativity and intelligence: a link to different levels of human needs hierarchy. Heliyon, v. 4, nº. 5, e00623, 2018. Disponível em: https://www. ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5986299/pdf/main.pdf. Acesso em: 12 jul. 2019. RASHID, T.; SELIGMAN, M. Positive psychotherapy. In: WEDDING, D.; CORSINI. R. J. (ed.). Current psychotherapies. 10th ed. Belmont: Brooks/Cole, 2014. RASSKAZOVA, E.; IVANOVA, T.; SHELDON, K. Comparing the effects of low-level and high-level worker need satisfaction: a synthesis of the self-determination and Maslow need theories. Motivation and Emotion, v. 40, nº. 4, p. 541-555, 2016. Disponível em: https://www.deepdyve.com/lp/springer-journals/comparing-the-effects-of-low-level- -and-high-level-worker-need-5s1XyDRZCu. Acesso em: 12 jul. 2019. REDZIC, N. M. et al. An internet-based positive psychology program: strategies to improve effectiveness and engagement. The Journal of Positive Psychology, v. 9, nº. 6, p.494-501, 2014. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/271756920_ An_Internet-based_positive_psychology_program_Strategies_to_improve_effecti- veness_and_engagement. Acesso em: 12 jul. 2019. ROTHMANN, S.; JORDAN, G. M. E. Job demands, job resources and work engagement of academic staff in South African higher education institutions. South African Journal of Industrial Psychology, v. 32, nº. 4, p. 87-96, 2006. Disponível em: http://www.ianroth- mann.com/pub/psyc_v32_n4_a12.pdf. Acesso em: 12 jul. 2019. SCHAUFELI, W. B. The job demands-resources model: a ‘how to’ guide to increase work engagement and prevent burnout. Organizational Dynamics, v. 46, p. 120-132, 2017. Disponível em: https://www.wilmarschaufeli.nl/publications/Schaufeli/476.pdf.Acesso em: 12 jul. 2019. SCHAUFELI, W. B. What is engagement? In: TRUSS, C. et al. (ed.). Employee engagement in theory and practice. London: Routledge, 2013. SCHAUFELI, W. B.; BAKKER, A. B. Job demands, job resources and their relationship with burnout and engagement: a multi-sample study. Journal of Organizational Behavior, v. 25, p. 293-315, 2004. Disponível em: https://www.wilmarschaufeli.nl/publications/ Schaufeli/209.pdf. Acesso em: 12 jul. 2019. SELIGMAN, M. et al. Positive education: positive psychology and classroom interven- tions. Oxford Review of Education, v. 35, n. 3, p. 293–311, 2009. Disponível em: https:// www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/03054980902934563. Acesso em: 12 jul. 2019. VILJOEN, P. J.; ROTHMANN, S. Occupational stress, ill health and organizational com- mitment of employees at a university of technology. South African Journal of Industrial Psychology, v. 35, nº. 1, p. 67–77, 2009. Disponível em: http://www.scielo.org.za/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S2071-07632009000100008. Acesso em: 12 jul. 2019. 15Motivação, engajamento e comprometimento