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■ ■ 3. FONTES DO DIREITO DO TRABALHO O ordenamento jurídico trabalhista é composto de disposições que provêm de diversas fontes. A expressão “fontes do Direito” é utilizada em sentido metafórico5 e significa origem, manancial de onde surge o Direito do Trabalho; são os modos de formação ou de revelação das normas jurídicas. As fontes do Direito do Trabalho classificam-se em fontes materiais (todos os elementos que inspiram a formação das normas jurídicas trabalhistas; os fatos verificados em uma sociedade em determinado momento histórico e que contribuirão para a formação e a substância das normas jurídicas trabalhistas) e fontes formais (os diferentes meios pelos quais se estabelecem as normas jurídicas trabalhistas; são as próprias normas jurídicas trabalhistas). As fontes formais podem ser divididas em heterônomas (são as elaboradas por terceiros, alheios às partes da relação jurídica que regulam; o comando normativo vem de fora) e autônomas (aquelas elaboradas pelos próprios destinatários da norma, ou seja, as partes da relação jurídica; são também chamadas de normas contratuais). 3.1. Fontes formais heterônomas Como normas jurídicas elaboradas por terceiros, alheios à relação jurídica regulada, são: a) as normas jurídicas de origem estatal, entre as quais se destacam a Constituição Federal, as leis, ■ ■ os atos administrativos; b) as sentenças normativas da Justiça do Trabalho, que constituem uma peculiaridade deste ramo do Direito; e c) a sentença arbitral, como norma jurídica decorrente da solução de conflitos coletivos de trabalho. 3.1.1. Constituição Federal É a principal fonte do Direito e, consequentemente, do Direito do Trabalho. Dela emanam todas as normas, independentemente de sua origem e formação, sendo certo que todas as demais normas devem estar em estrita consonância com suas regras e princípios. Em relação aos direitos trabalhistas estabelece os limites mínimos e máximos, entre os quais as demais normas podem estipular direitos e garantias. 3.1.2. Lei É o preceito comum e obrigatório, emanado dos poderes competentes e provido de sanção (MAGANO, 1993, p. 97). No sentido material, é toda regra de direito geral, abstrata e permanente, tornada obrigatória pela vontade da autoridade competente para produzir direito e expressa numa fórmula escrita, enquanto, no sentido estrito, é a norma jurídica emanada do Poder Legislativo, sancionada e promulgada pelo Presidente da República (SÜSSEKIND, 2003, p. 154). Especificamente em relação ao Direito do Trabalho, a CLT elenca o maior contingente de normas imperativas, mas existem diversas leis esparsas que tratam de matéria trabalhista (por exemplo, Lei n. 8.036/90 – FGTS; Lei n. 605/49 – DSR; Lei n. 4.090/62 – 13º salário). ■ ■ ■ ■ 3.1.3. Ato administrativo O art. 84, IV, da Constituição Federal prevê que compete privativamente ao Presidente da República expedir decretos e regulamentos que permitam a fiel execução das leis. Trata-se de poder regulamentar, no exercício do qual a Administração Pública estabelece normas jurídicas que, em sentido material, revestem-se de características de lei. 3.1.4. Sentença normativa Constitui a exteriorização do poder normativo da Justiça do Trabalho, previsto no § 2º do art. 114 da Constituição Federal. Decorre do julgamento pela Justiça do Trabalho de conflito coletivo, estabelecendo regra geral e abstrata aplicável a todos os trabalhadores e empregadores integrantes das categorias envolvidas no litígio. 3.1.5. Jurisprudência Formada pelas interpretações dos tribunais acerca da ordem jurídica, exerce inegável papel de criação do Direito. O art. 8º da CLT reconhece a jurisprudência como fonte normativa do Direito do Trabalho. 3.1.6. Sentença arbitral É a decisão de caráter normativo tomada por um árbitro escolhido por sindicatos e por empresas para a solução de um conflito coletivo de trabalho, na forma indicada pelo § 1º do art. ■ ■ 114 da Constituição Federal. 3.2. Fontes formais autônomas Originam-se da atuação dos sindicatos representantes de trabalhadores e empregadores na busca de soluções para os conflitos coletivos de trabalho, ou seja, decorrem da atuação direta dos próprios destinatários da norma, através da negociação coletiva de trabalho. Através dos instrumentos de negociação coletiva (convenção coletiva de trabalho e acordo coletivo de trabalho), os próprios interessados estabelecem a disciplina das suas condições de vida e de trabalho de forma democrática e dinâmica. A Reforma Trabalhista (Lei n. 13.467/2017) acrescentou o art. 611-A à CLT, prevendo a prevalência da convenção coletiva e do acordo coletivo de trabalho sobre a lei, indicando um rol exemplificativo de temas e questões a respeito dos quais referidas normas autônomas podem dispor com esse efeito de prevalência à lei. A questão sobre a validade de norma coletiva de trabalho que limita ou restringe direito trabalhista não assegurado constitucionalmente é objeto do Tema 1.046 de Repercussão Geral, que foi julgado em 2-6-2022 pelo STF, tendo sido fixada a seguinte tese: “São constitucionais os acordos e as convenções coletivos que, ao considerarem a adequação setorial negociada, pactuam limitações ou afastamentos de direitos trabalhistas, independentemente da explicitação especificada de vantagens compensatórias, desde que respeitados os direitos absolutamente indisponíveis”. 3.2.1. Convenção coletiva de trabalho ■ ■ ■ É o acordo de caráter normativo, pelo qual dois ou mais sindicatos representativos de categorias econômicas e profissionais estipulam condições de trabalho aplicáveis no âmbito das respectivas representações, às relações individuais de trabalho (CLT, art. 611). Aplica-se a todos os trabalhadores e empregadores integrantes das respectivas categorias profissional e econômica no âmbito da base territorial de representação dos sindicatos. 3.2.2. Acordo coletivo de trabalho Pactuado entre uma ou mais empresas e o sindicato representativo dos trabalhadores na base territorial respectiva. Aplica-se apenas às empresas signatárias e aos seus respectivos empregados (CLT, art. 611, § 1º). As condições estabelecidas em acordo coletivo de trabalho sempre prevalecerão sobre as estipuladas em convenção coletiva de trabalho (CLT, art. 620). 3.2.3. Costume Prática reiterada e espontânea de certo modo de agir de conteúdo jurídico por determinado grupo social. Os costumes constituem fonte do Direito do Trabalho à medida que, enquanto não se promulga uma lei relativamente a uma determinada prática, são utilizados como fonte informativa das relações entre empregados e empregadores. 3.2.4. Regulamento de empresa ■ ■ É um ato jurídico que, no âmbito interno da empresa, cria regras a serem adotadas nas relações jurídicas mantidas entre o empregador e seus empregados. 3.3. Hierarquia das fontes no Direito do Trabalho No Direito do Trabalho, tal como ocorre em relação às fontes do Direito em geral, as diversas fontes compõem uma unidade coerente, havendo uma hierarquia entre elas. Como é óbvio, a Constituição Federal é a norma fundamental e, nesta condição, coloca-se no topo da ordem hierárquica das fontes formais do Direito do Trabalho. Abaixo da Constituição, alinham-se, em ordem hierárquica decrescente, as leis, os atos do Poder Executivo, as sentenças normativas, as convenções e acordos coletivos de trabalho, os costumes. No entanto, apesar da existência de uma ordem entre as fontes do Direito do Trabalho, sempre se entendeu que no Direito do Trabalho a hierarquia existente entre elas é bastante peculiar, podendo ser chamada de flexível, e difere da regra de hierarquia rígida e inflexível aplicável no Direito Comum. Ocorre que, com a Reforma Trabalhista (Lei n. 13.467/2017), foram alteradas as premissas acima indicadas, com: a previsão pelo legislador de hipótese de hierarquia rígida de normas, na qual não é possível se falar em norma mais benéfica (prevê o art. 620 da CLT que as condições estabelecidas em acordo coletivo de trabalho sempre prevalecerão sobre as estipuladasem convenção coletiva de trabalho); ■ a possibilidade de que a convenção coletiva e o acordo coletivo de trabalho tenham prevalência sobre a lei, não sendo feita qualquer exigência no sentido de que isso somente ocorra quando contenham previsão mais benéfica para o trabalhador6, até porque o legislador impede que a Justiça do Trabalho faça qualquer valoração nesse sentido, à medida que limita sua atuação à análise apenas da conformidade dos elementos essenciais do negócio jurídico, respeitando o princípio da intervenção mínima na autonomia da vontade coletiva (art. 611-A e § 3º, art. 8º, CLT).