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INTRODUÇÃO À TEOLOGIA CURSO DE BACHARELADO EM TEOLOGIA – EAD Introdução à Teologia – Prof. Dr. Pe. Ricardo Gonçalves Castro Meu nome é Ricardo Gonçalves Castro. Sou Doutor em Teologia Dogmática pela Faculdade de Teologia N. Sra. da Assunção e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade de Louvain (Bélgica). Atuo como Padre da Congregação dos Missionários da Consolata, como Professor no Instituto de Teologia, Pastoral e Ensino Superior da Amazônia (ITEPES- AM); Professor visitante do Instituto Esperança de Ensino Superior (Santarém - PA); Assessor do Instituto de Pastoral Regional (IPAR-PA) e como Assessor da Associação Serviço de Ação, Reflexão e Educação Social (SARES - AM). e-mail: castrocardo@gmail.com INTRODUÇÃO À TEOLOGIA Guia de Disciplina Caderno de Referência de Conteúdo Prof. Dr. Ricardo Gonçalves Castro © Ação Educacional Claretiana, 2007 – Batatais (SP) Trabalho realizado pelo Centro Universitário Claretiano de Batatais (SP) Curso: Bacharelado em Teologia Disciplina: Introdução à Teologia Versão: jul./2010. Reitor: Prof. Dr. Pe. Sérgio Ibanor Piva Vice-Reitor: Prof. Ms. Pe. Ronaldo Mazula Pró-Reitor Administrativo: Pe. Luiz Claudemir Botteon Pró-Reitor de Extensão e Ação Comunitária: Prof. Ms. Pe. Ronaldo Mazula Pró-Reitor Acadêmico: Prof. Ms. Luís Cláudio de Almeida Coordenador Geral de EAD: Prof. Ms. Artieres Estevão Romeiro Coordenador do curso de Bacharelado em Teologia: Prof. Ms. Pe. Vitor Pedro Calixto dos Santos Coordenador de Material Didático Mediacional: J. Alves Preparação Aletéia Patrícia de Figueiredo Aline de Fátima Guedes Camila Maria Nardi Matos Cátia Aparecida Ribeiro Dandara Louise Vieira Matavelli Elaine Aparecida de Lima Moraes Elaine Cristina de Sousa Goulart Josiane Marchiori Martins Lidiane Maria Magalini Luciana A. Mani Adami Luciana dos Santos Sançana de Melo Luis Henrique de Souza Luiz Fernando Trentin Patrícia Alves Veronez Montera Rosemeire Cristina Astolphi Buzzelli Simone Rodrigues de Oliveira Revisão Felipe Aleixo Isadora de Castro Penholato Maiara Andréa Alves Rodrigo Ferreira Daverni Vanessa Vergani Machado Projeto gráfico, diagramação e capa Eduardo de Oliveira Azevedo Joice Cristina Micai Lúcia Maria de Sousa Ferrão Luis Antônio Guimarães Toloi Raphael Fantacini de Oliveira Renato de Oliveira Violin Tamires Botta Murakami Wagner Segato dos Santos Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, a transmissão total ou parcial por qualquer forma e/ou qualquer meio (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação e distribuição na web), ou o arquivamento em qualquer sistema de banco de dados sem a permissão por escrito do autor e da Ação Educacional Claretiana. Centro Universitário Claretiano Rua Dom Bosco, 466 - Bairro: Castelo Batatais SP – CEP 14.300-000 cead@claretiano.edu.br Fone: (16) 3660-1777 – Fax: (16) 3660-1780 – 0800 941 0006 www.claretiano.edu.br SUMÁRIO GUIA DE DISCIPLINA 1 APRESENTAÇÃO ................................................................................................ VII 2 DADOS GERAIS DA DISCIPLINA .......................................................................... VII 3 CONSIDERAÇÕES ............................................................................................ VIII 4 BIBLIOGRAFIA ................................................................................................. IX CADERNO DE REFERÊNCIA DE CONTEÚDO APRESENTAÇÃO ............................................................................................... 1 INTRODUÇÃO À DISCIPLINA AULA PRESENCIAL ............................................................................................ 2 UNIDADE 1 – TEOLOGIA: INTRODUÇÃO E MÉTODO 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................4 2 FAZER E VIVER A TEOLOGIA NA PRÁXIS1 E PELA PRÁXIS ......................................4 3 PRESSUPOSTO BÁSICO PARA A TEOLOGIA ...........................................................5 4 TEOLOGIA (CONTEÚDO E FORMA / DICIONÁRIO E GRAMÁTICA) .............................6 5 MÉTODO: APRENDER A FAZER ...........................................................................7 6 QUAIS PODERIAM SER AS POSSÍVEIS METAS PARA ESTE CURSO?...........................8 7 CONSIDERAÇÕES ............................................................................................9 8 AUTO-AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM .................................................................10 9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................10 10 E-REFERÊNCIAS ..............................................................................................11 UNIDADE 2 – CONCEITO E NATUREZA DA TEOLOGIA 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................14 2 CONCEITO DE TEOLOGIA ...................................................................................14 3 TEOLOGIA COMO HERMENÊUTICA DA FÉ..............................................................17 4 TEOLOGIA COMO CRÍTICA HISTÓRICA .................................................................18 5 TEOLOGIA COMO VIVÊNCIA ÉTICA DA FÉ .............................................................19 6 COMO NASCE CONCRETAMENTE A TEOLOGIA .......................................................20 7 O QUE ESTUDA A TEOLOGIA E EM QUE PERSPECTIVA ............................................21 8 ESTRUTURA DO DISCURSO TEOLÓGICO EM PARTICULAR .......................................21 9 CONSIDERAÇÕES ............................................................................................22 10 AUTO-AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM ...............................................................22 11 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................23 12 E-REFERÊNCIAS ..............................................................................................24 UNIDADE 3 – TAREFA DA TEOLOGIA – PARA QUE TEOLOGIA? 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................26 2 TEOLOGIA COMO “SABER” .................................................................................26 3 TEOLOGIA – UM SENTIDO HUMANO PARA A VIDA ................................................28 4 CONSIDERAÇÕES ............................................................................................30 5 AUTO-AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM .................................................................30 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................31 UNIDADE 4 – CONCEITOS BÁSICOS DE TEOLOGIA 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................34 2 FÉ – ALGUNS ELEMENTOS BÁSICOS SOBRE O ATO DE FÉ .......................................34 3 AUTO-AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM .................................................................39 4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................40 UNIDADE 5 – INTERAÇÕES DA FÉ 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................42 2 FÉ E RAZÃO – A RACIONALIDADE DA FÉ ..............................................................42 3 FÉ E PALAVRA – A EPISTEMOLOGIA DA FÉ............................................................43 4 FÉ E EXPERIÊNCIA – A AFETIVIDADE DA FÉ ........................................................46 5 FÉ E PRÁTICA – A PRÁXIS DA FÉ .........................................................................48 6 CONSIDERAÇÕES ............................................................................................48 7 AUTO-AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM .................................................................49 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................49de fé estão os problemas, as dificuldades, as b) suspeitas que provocam esse retorno ao que foi vivenciado. Em relação ao segredo de todo aprofundamento teológico, está a habilidade c) de captar a questão que gera a argumentação teológica e descobrir o modo mais adequado de debatê-la. No caso pessoal, é importante saber levantar perguntas ricas, gerais, d) básicas, novas, decisivas, suspeitosas, que nos obriguem a interpretar, recriar, atualizar a experiência da fé. Na terceira unidade, vamos refletir juntos sobre a tarefa da teologia, procurando responder à seguinte questão: para que teologia? Até lá! 10 AUTO-AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM Neste momento, convidamos você a fazer uma auto-avaliação de sua aprendizagem sobre os conteúdos estudados na Unidade 2. Tente responder para si mesmo: Como nasce concretamente a teologia?a) Qual a perspectiva e objeto de estudo da teologia?b) Quais as características da estrutura do discurso teológico em particular?c) Ainda tenho dúvidas em relação aos conteúdos estudados na Unidade 2? d) Quais? Como posso eliminá-las? Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 23 Versão para impressão econômica UNIDADE 2 O que posso fazer para ampliar meus conhecimentos sobre teologia, como e) hermenêutica da fé, crítica histórica e vivência ética da fé? 11 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALSZEGHY, Zoltan; FLICK, Mauricio. Como se faz teologia. São Paulo: Paulinas, 1970. DOS ANJOS, Márcio Fabri (Org.). Teologia e novos paradigmas. São Paulo: Loyola, 1996. BíBLIA SAGRADA. Bíblia sagrada – edição pastoral. São Paulo: Paulus, 2002. BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico. Petrópolis: Vozes, 1998. ______. Conselhos a um jovem teólogo. In: Persp. Teol., n. 31, p. 77-96, 1999. ______. Teologia e prática. Teologia do político e suas mediações. Petrópolis: Vozes, 1993. BOFF, Leonardo; BOFF, Clodovis. Como fazer teologia da libertação. Petrópolis: Vozes, 1993. FORTE, Bruno. Teoria em diálogo. Para quem quer e para quem não quer saber nada disso. São Paulo: Loyola, 2002. GEFFRÉ, C. Como fazer teologia hoje. São Paulo: Paulinas, 1989. ______. Crer e interpretar - A virada hermenêutica da teologia. Petrópolis: Vozes, 2004. GONÇALVES, Paulo Sérgio Lopes. Epistemologia e método sistemático da TDL - REB 60. p. 145-179, mar. 2000. HAIGHT, Roger. Dinâmica da teologia. São Paulo: Paulinas, 2004. RAHNER, K. Curso fundamental da fé. São Paulo: Paulinas, 1989. HICK, John. A metáfora do Deus encarnado. Petrópolis: Vozes, 2000. KÜNG, H. Teologia a caminho: fundamentação para o diálogo ecumênico. São Paulo: Paulinas, 1999. LACOSTE, Jean Yves. Dicionário crítico de teologia. São Paulo: Loyola, 2004. LIBÂNIO, João B. Introdução à vida intelectual. São Paulo: Loyola, 2001. ______. A arte de formar-se. São Paulo: Loyola, 2001. ______; MURAD, Afonso. Introdução à teologia. Perfil, enfoques, tarefas. São Paulo: Loyola, 1998. MONDIN, B. A linguagem teológica. Como falar de Deus hoje? São Paulo: Paulinas, 1979. PALACIO, Carlos. Deslocamentos da teologia, mutações do cristianismo. São Paulo: Loyola, 2001. PASTOR, Felix Alejandro. A lógica do inefável. São Paulo: Loyola, 1989. PLATÃO. A república de Platão. 6. ed. Atenas: Ed. Atena, 1956. PIKAZA, Xavier; SILANES, Nereo. Dicionário teológico - O Deus cristão. São Paulo: Paulus, 1998. REB 50. A Missão Eclesial do Teólogo. In: Subsídios de leitura e elementos para um diálogo em torno à “Instrução sobre a vocação eclesial do teólogo” - REB 50, p. 771-807. dez. 1990. RITO, Frei Honório. Introdução à Teologia. Petrópolis: Vozes, 1998. ATENÇÃO! É fundamental que amplie sua bagagem teórico-conceitual com pesquisas, aproveite este momento para eliminar eventuais dúvidas com seu tutor. . CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais24 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 2 SOBRINO, Jon. Como fazer Teologia. Proposta metodológica a partir da realidade salvadorenha e latino-americana. In: Persp. Teol., n. 21, p. 285-303, 1989. SUSIN, Luiz Carlos (Org.). Sarça ardente. Teologia na América Latina: prospectivas. São Paulo: Paulinas, 2000. ______. Fazer teologia em tempos de globalização. Nota sobre método em teologia. In: Persp. Teol. 31, p. 97-108, 1999. TABORDA, Francisco. Métodos Teológicos na América Latina. In: Persp. Teol., n. 19, p. 293-319, 1987. VILANOVA, Evangelista. Para compreender a teologia. São Paulo: Paulinas, 1998. WICKS, Jared. Introdução ao método teológico. São Paulo: Loyola, 1999. TAMAYO-ACOSTA, Juan Jose; SAMANES,F. C. Dicionário de conceitos fundamentais do cristianismo. São Paulo: Paulus, 1999. 12 E-REFERÊNCIAS SOLASCRITURA. Imago dei. Disponível em: . Acesso em: 10 jan. 2007. VATICAN. Documentos do Concílio Vaticano II. Disponível em: . Acesso em: 21 dez. 2006. ______. Catecismo da Igreja Católica. Disponível em: . Acesso em: 21 dez. 2006. (2) Anselmo de Cantuária: Imagem e Texto – WIKIPÉDIA. Anselmo de Cantuária. Disponível em: . Acesso em: 21 dez. 2006. (3) Concílio Vaticano II: Imagem – WIKIPÉDIA. Concílio Vaticano II. Disponível em: . Acesso em: 21 dez. 2006. Texto – CNBB. Concílio Vaticano II. Disponível em: . Acesso em: 21 dez. 2006. (5) Orígenes. Imagem e Texto – WIKIPÉDIA. Orígenes. Disponível em: . Acesso em: 21 dez. 2006. (7) Ano Sabático: Texto – SABÁTICO. Ano sabático. Disponível em: . Acesso em: 21 dez. 2007. (8) Ano Jubileu: Texto – MONTFORT. Ano Jubileu. Disponível em: http://www.montfort. org.br/perguntas/jubileu_dias.html. Acesso em : 20 jan. 2007. (9) Torah: Texto – WIKIPÉDIA. Torah. Disponível em: . Acesso em:20 jan. 2007. Objetivos Analisar a teologia como “saber”.• Reconhecer e interpretar a teologia como reconstrução • de sentido. Conteúdos Teologia como “saber”.• Teologia como reconstrução de sentido.• TAREFA DA TEOLOGIA – PARA QUE TEOLOGIA? U N ID A D E 3 CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais26 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Muitos estudantes de teologia, quando se apresentam em um ambiente secular, são questionados da razão de sua preferência acadêmica. Alguns são questionados sobre a utilidade de tal ciência: para que teologia? Nesta etapa, queremos enfrentar mais profundamente essa questão. Ainda precisamos de teologia? Se a resposta é afirmativa, então qual será sua tarefa? No início desta etapa, vamos assentar alguns elementos básicos que nos ajudarão a responder à questão sobre a tarefa da teologia para hoje. Inicialmente, é importante perceber que a teologia vive de uma tríplice tensão de salvaguardar a memória da fé presente na tradição e na recordação perigosa da memória do Cristo crucificado e ressuscitado, e do Deus que ele nos revela. Além disso, a teologia deve se confrontar com os desafios do hoje da história, ela é chamada a ler os sinais do Reino presentes na realidade da vida humana. E, finalmente, deve assumir no presente a promessa antecipadora do Deus que vem para realizar em plenitude seu projeto para a humanidade e para a criação. Tendo em conta esses elementos, podemos adentrar na problemática de esclarecer a tarefa da teologia para o nosso tempo. Bom estudo! 2 TEOLOGIA COMO “SABER” A teologia sempre apresentou um papel relevante no contexto social, a preocupação atual e o esforço são de descobrir e resgatar sua especificidade. Para descobrir o que é específico da teologia, é necessário passarpor uma humilde e sincera redefinição de seu lugar no conjunto dos saberes. A modernidade caracterizou-se pela busca de definir os diversos campos do saber. Esta situação faz com que nenhuma ciência ou saber possa se afirmar como conhecimento abrangente, total, completo ou perfeito. A questão religiosa, a questão sobre Deus, não é somente discutida pelo saber teológico. Teologia, como já vimos, tem seu modo específico de trabalhar essa questão, mas outros saberes também se confrontam com as mesmas questões. Desse modo, pode-se dizer que cada saber possui sua autonomia, mas, ao mesmo tempo, precisa de complementaridade. A teologia, como um saber sobre Deus e sobre o humano, é um saber autônomo, mas isso não significa que seja absoluta. Podemos talvez nos perguntar se compreender teologia desse modo significa limitá-la, relativizá-la ou des-absolutizá-la? O melhor seria compreender a teologia em processo de relação com outros saberes naquilo que lhe compete na apresentação específica de uma compreensão do “sentido último”, do divino, do transcendente, proveniente da fé e da revelação. Contudo, a teologia, como saber autônomo sobre Deus e o ser humano, precisa de outros saberes ATENÇÃO! No início e durante o desenvolvimento das unidades, é importante que você sempre fique atento às informações contidas no Guia de disciplina e na página inicial da unidade, a fim de que possa programar, organizar seus estudos e participar, ativamente, na Sala de Aula Virtual, ou enviando suas contribuições por fax ou pelo correio. Ter disciplina para estudar pode ajudar você a tirar o máximo de proveito em seu curso na modalidade a distância. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 27 Versão para impressão econômica UNIDADE 3 para que possa oferecer uma resposta mais eficaz aos desafios da vivência da fé no contexto histórico atual. Hoje já não é possível uma subordinação de uma ciência por outra. A filosofia já não pode ser vista como serva da teologia. A complementaridade que os saberes autônomos necessitam gera uma perspectiva bilateral das relações. A teologia ilumina, mas é também iluminada. Trata-se de saberes diferentes, mas não opostos. Relativizar ou especificar a tarefa teológica, o que isso quer dizer? A teologia é uma reflexão sobre a fé cristã. Seu específico funda-se no evento histórico Jesus Cristo, assim como foi testemunhado na vida de seus discípulos. Sobre este fato é possível compreender o ser humano e buscar um sentido para a história e para o mundo. Assim, no panteão da variedade de interpretações da realidade, a teologia possui uma interpretação específica, rica de sentido e de possibilidade de conduzir a vida humana e a história. Note que relativizar não significa necessariamente tirar da teologia sua particularidade e importância para a existência humana, mais que isso, é assumir sua relevância entre os demais saberes. O mais importante é relacionar a palavra, que lhe foi dada (revelada) e acolhida livremente, com a variedade de concepções do ser humano. Sua palavra tem implicações concretas para a humanidade porque se funda no mistério da vida humana de Jesus de Nazaré – lugar do encontro de Deus com o humano. Sua vida aponta para uma compreensão do ser humano, da história e de Deus. Reconduzida ao seu devido lugar entre os outros saberes, a teologia tem, evidentemente, uma palavra própria, pois ela nos foi dita na história concreta de um homem, Jesus de Nazaré, que é para nós a palavra indivisível sobre o homem, sobre a história e sobre Deus. A experiência cristã funda-se sobre dois aspectos fundamentais, a compreensão do mistério de comunhão do Deus Trinitário e a encarnação. Comunhão e história são partes intrínsecas da elaboração teológica. Teologia é para a comunhão, unidade interna da comunidade de fé e expressão de sua vocação missionária universal. Teologia é companheira histórica da aventura humana, apontando para seu destino e sentido final, chamado por Jesus Cristo de Reino de Deus (Lc, 17: 21 – BÍBLIA SAGRADA, 2002). Desse modo, ela está preservada da alienação e do fundamentalismo, tendências próprias do fenômeno religioso contemporâneo. A tarefa teológica como saber específico não é substituir as ciências ou repetir sua linguagem. É pôr em contato essa atualidade histórica com a tradição de Jesus de Nazaré, da qual vive a teologia. Nesse sentido, a função da teologia é de mediação: fazer que as questões do presente interroguem a tradição para que a tradição possa ressoar no presente. Desse modo, a teologia deve ressoar no coração humano o anseio por liberdade e sentido último. Seu método e princípio serão o diálogo, o confronto e a crítica. Frente a Jesus Cristo, não estamos simplesmente diante de um dogma ou de uma doutrina, mas perante um acontecimento concreto que coloca o ser humano ante a questão do sentido INFORMAÇÃO: A palavra própria da teologia é dada na história (é o sentido da “revelação”) e nela tem que ser acolhida livremente (é o sentido da “fé”). CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais28 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 3 (origem e meta da história humana) de maneira histórica, livre e pessoal. Isso quer dizer que a relevância social e a pertinência humana da teologia dependem da adesão livre a essa “palavra” e da capacidade que ela possui de suscitar um modo de viver que é “sensato” e pode interessar aos homens e às mulheres com os quais convivemos. Mostrar, com alguns exemplos, essa força “reconstrutora” da razão teológica é o que nos resta por fazer antes de concluir. 3 TEOLOGIA – UM SENTIDO HUMANO PARA A VIDA Atualmente, o grande desafio para a teologia é mostrar sua relevância para a vida humana. Se por um longo tempo a teologia procurou se mostrar relevante pela sua elaboração lógica e sistemática da verdade doutrinal, diante das crises da modernidade ela deve se tornar companheira da tentação niilista e mercantilista da vida humana. O niilismo não é o abandono dos valores, a renúncia a viver alguma coisa pela qual valha a pena viver, mas um processo mais sutil: ele priva o ser humano do gosto de se empenhar por uma razão mais alta, despoja-o daquelas motivações fortes que a ideologia ainda parecia oferecer-lhe. A doença que hoje mais se alastra é a falta de “paixão pela verdade”: este é o rosto trágico da pós- modernidade (FORTE, 2003, p. 17). Vamos compreender melhor com o estudo proposto a seguir. O sentido humano não está somente na razão lógica Para a modernidade com sua lógica sobre o ser, o sujeito se impõe sobre a realidade, atribuindo a ela sua hipótese interpretativa. Seu propósito é separar definitivamente o sujeito do objeto, gerando o isolamento do sujeito, a dificuldade de sentir-se membro, parte, processo, comunidade. Como sair desse subjetivismo exacerbado, da fragmentação da realidade, do absoluto da razão lógica? Seria esta a única maneira de compreender o ser humano? Os resultados negativos da modernidade tornam-se evidentes nos seus efeitos sobre o meio ambiente a ponto de levar à própria destruição do planeta. O econômico prevalece sobre o humano e os valores da vida, gerando exclusão e miséria humana. A tecnologia informática nos distancia cada vez mais dos encontros humanos significativos, duradouros e com a própria natureza. A tarefa teológica, neste contexto, sem prescindir dos aspectos importantes da razão, pode oferecer não somente uma palavra “reconstrutora”, mas uma compreensão mais ampla da razão e do conhecimento humano. Com efeito, em Jesus Cristo o ser humano aparece como ato de escuta e de acolhida da palavra que o constitui e o supera. O ser humano é constitutivamente dialogal, um “eu” diante de um “Tu”. Ser relacional em si mesmo. É a condição da filialidade de Jesus, isto é, de sua capacidade de reconhecer-se como filho, de reconhecer o Deus como Pai (e não como rival ou como poder) e de reconheceros outros como irmãos (PALÁCIOS, 2001, p. 83). A condição humana não pode ser reduzida ao “cogito ergo sum”, a razão não pode ser o centro fundamental da vida humana. Sem deixar de valorizá-la, faz-se Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 29 Versão para impressão econômica UNIDADE 3 necessário compreender o ser humano em sua totalidade, ou melhor, na sua relacional idade – capacidade de relacionar, capacidade de encontro, de amar com razão e raciocinar com amor. A unidade do conhecimento – o ser histórico A razão moderna fundada sobre a lógica leva ao esquecimento do ser, ao abandono do ontológico1. Esquece-se do existir em sua realidade histórica, perdendo- se, assim, a unidade da experiência. Sem pensar sobre o nosso existir histórico, corremos o perigo de perder o sentido de ser. Conhecemos para ser mais, para entrar em contato com aspectos mais profundos da realidade que podemos chamar de metafísicas, transcendentes. Conhecimento racional distante ou separado da experiência de existir na história faz do ser humano uma “razão” sem sentido. Proteger essa unidade entre razão, ser e saber, é vital para a teologia, mas também sua maneira discreta de prestar um serviço importante à antropologia. Porque, ao postular a unidade, a teologia aponta para o Absoluto que a habita e do qual fala. O ser humano é um ser situado: responsorialmente diante de Deus e responsavelmente diante dos outros. Nada escapa à totalidade dessa experiência (PALÁCIOS, 2001, p. 84). A teologia no discurso ontológico sobre o ser deve privilegiar a compreensão do ser humano para além do somente rentável, do econômico, do útil. O ser humano é imagem de Deus, na imagem do Filho. No Filho, o ser humano torna-se visitação de Deus, sua epifania. No contexto da criação, o ser humano é chamado a compor a comunidade da criação e reconhecer os resquícios de Deus e de seu poder na natureza. A tarefa da teologia, na busca de dar um sentido de unidade ao ser humano, será de religar conhecimento da fé com o ato de existir historicamente. A fé unida com a esperança leva o ser humano a transgredir a fatalidade, dar sabor à vida, inspirar, alentar, animar, dar sentido. Isso será ter ciência com sabedoria, sistemas abertos de conhecimento e vida como um processo constante de tornar-se. Pascal disse: “O homem supera infinitamente o ser homem”. Sua percepção nasceu da fé. Transcendência difusa No contexto da pós-modernidade, “secularização” não é sair da esfera religiosa, mas é o declínio das religiões instituídas. Na atualidade, isto significa perda da importância cultural do fator religioso. Com o estreitamento social do espaço religioso, a religião é reduzida à esfera do culto e aos agrupamentos religiosos específicos. O fator religioso coexiste com outros valores e se reduz à opção pessoal e ao âmbito da consciência. Ocorre a perda da influência da religião na política e no social. É uma religiosidade que propõe a seus seguidores fins espirituais e religiosos. É uma tendência oposta às questões da década anterior sobre o compromisso político e uma prática libertadora. As religiões e a experiência religiosa na atualidade são organizadas dentro de um imenso mercado religioso. (i) Com o fim da religião institucional ou institucionalizada, como falar de Deus, de transcendência? Como uma experiência do transcendente sem a mediação da religião? O problema da religião, antes, era lidar com as carências de sentido para a vida e para morte, para, partindo daí, apontar para o mais além. Hoje, a religião tem que lidar com a onipotência do sistema neoliberal, cultura ocidental e norte-americana globalizada da onipotência, que toma forma de religião. Observe: (1) Ontologia (1 Rubrica: filosofia) Segundo o aristotelismo, parte da filosofia que tem por objeto o estudo das propriedades mais gerais do ser, apartada da infinidade de determinações que, ao qualificá-lo particularmente, ocultam sua natureza plena e integral; metafísica ontológica (DICIONÁRIO HOUAISS). VOCÊ SABIA QUE... A diversidade religiosa gera compromisso religioso? Assim, quanto mais religiões, mais pessoas religiosas, o que faz nascer a concorrência e, dessa forma, a religião torna-se um produto a mais. CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais30 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 3 A religião, antes, era uma resposta para o caos, colocava ordem. Hoje, é uma resposta à necessidade imediata, a necessidade de consumo se confunde com a necessidade de Deus e de transcendência. Assim, os pobres querem respostas imediatas, os ricos querem respostas para suas desilusões. Religião é para dar respostas a problemas; não é certeza do mundo, mas a forma de controlar as incertezas. Religião é mais magia: curas, expulsão de malefícios. No sentido do circo, é mágica, diverte, emociona. Este mapa da realidade religiosa atual aponta para uma sede e uma busca de Deus para fugir da dureza da realidade. Nesta experiência do divino, há o risco sério de compreender mal a transcendência de Deus e colocar em jogo a responsabilidade e autonomia humana. Na “transcendência difusa” da religiosidade atual, o ser humano é chamado a mergulhar no cosmo para transcender-se divino. Salvação é libertar o ser humano de sua contingência, de sua condição humana de limitada mortalidade. Para a fé cristã, é somente na contingência que se pode experimentar a transcendência de Deus. Na relação com Deus, o ser humano não se perde em Deus, porque vive de modo pessoal seu encontro com Ele, é um “tu” em diálogo, é uma existência nomeada e reconhecida. O Deus de Jesus Cristo é o Deus solidário do Reino que caminha com seu povo, na construção histórica por meio de nossas ações e orações na vida do mundo. O Deus comprometido com a luta dos pobres que morre assassinado na cruz e ressuscita para vida plena na história. Esta percepção parece estar cada vez mais distante da vida das multidões, que, em cultos espetaculares, nos quais se experimenta expulsão de demônios e pacotes milagrosos, são levadas a experimentar um deus assistencialista, paternalista e individualista. 4 CONSIDERAÇÕES No início desta unidade, você foi indagado sobre a necessidade da teologia hoje. O que você pensou sobre este assunto? Para ajudá-lo a responder a essa questão, esta unidade representou uma oportunidade de refletir sobre o estudo da teologia como “saber” e sobre o reconhecimento e a reconstrução da teologia como reconstrução de sentido. Assim, esperamos que tais conhecimentos tenham construído o referencial que precisamos para o alcance de nossos objetivos. Na próxima unidade, vamos procurar reconhecer a especificidade da experiência religiosa enquanto modalidade da experiência humana relacional: mundo, ser humano e o transcendente, compreender a importância da linguagem simbólica na matriz da experiência religiosa e, baseados na elaboração de José Severino Croatto, definir o mito e o rito, além de definir doutrina e seus aspectos estruturantes na religião. 5 AUTO-AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM Neste momento, convidamos você a fazer uma auto-avaliação de sua aprendizagem sobre os conteúdos estudados na Unidade 3. Tente responder para si mesmo: PARA VOCÊ REFLETIR: No contexto de sua comunidade de fé, quais as problemáticas e tarefas que se impõe à teologia? Quais os maiores desafios enfrentados pela teologia na sua relação com as ciências, as tendências econômicas atuais e com a expansão de grupos e ofertas religiosas? Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 31 Versão para impressão econômica UNIDADE 3 Qual a necessidade da teologia hoje? Como ela é interpretada?a) É possível interpretar a teologia como reconstrução de sentido?b) Que dúvidas ainda tenho em relação aos conteúdos estudados nesta c) unidade? O que posso fazer para ampliar meus conhecimentos sobre a religião nas d) sociedades urbanizadasda ameríndia? 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BíBLIA SAGRADA. Bíblia sagrada – edição pastoral. São Paulo: Paulus, 2002. FORTE, B. A essência do cristianismo. Tradução de Ephraim F. Alves. Petrópolis: Vozes, 2003. v. 1. LIBÂNIO, J. B.; MURAD, Afonso. Introdução à teologia. Perfil, enfoques, tarefas. São Paulo: Loyola, 1998. PALÁCIO, C. Deslocamentos da teologia, mutações do cristianismo. São Paulo. Loyola: 2001. ROLDÁN, A. F. Para que serve a teologia? Método, história, pós-modernidade. Londrina: Descoberta, 2000. ATENÇÃO! As obras colocam-nos em outros tempos, lugares e culturas. Em outras palavras, apresentam situações e dilemas que nem poderíamos imaginar que pudéssemos encontrar. Portanto, amplie seus horizontes, pesquise! Anotações CONCEITOS BÁSICOS DE TEOLOGIA Objetivos Interpretar a fé e alguns dos elementos básicos sobre o • ato de fé. Reconhecer o lugar real da revelação e duas afi rmações • básicas sobre a revelação de Deus. Identifi car e interpretar um breve histórico da Teologia. • Conteúdos Fé e alguns elementos básicos sobre o ato de fé.• Deus e Revelação Divina.• Breve histórico da Teologia. • U N ID A D E 4 CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais34 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 4 1 INTRODUÇÃO Na unidade anterior, estudamos o conceito de religião e os problemas de definição inerentes a ele. Nesta unidade, iremos focalizar os desdobramentos de alguns dos elementos básicos sobre o ato de fé, bem como tecer um breve histórico da Teologia. Vamos lá? 2 FÉ – ALGUNS ELEMENTOS BÁSICOS SOBRE O ATO DE FÉ Não há fé fora do contexto cultural em que vivemos. O universo cultural marca- nos a fé. Tanto a revelação é interpretada e lida a partir dessa situação, como a fé encontra aí suas respostas. O ser humano que responde ao chamado de Deus é um ser inteligente, histórico, que vive dentro de determinado contexto social. Por isso, a fé só pode ser entendida e vivida por ele nessa situação histórica. Assim, a fé supõe de nossa parte um assentimento, em que nossa inteligência aceita a realidade interpelante da Revelação, do Deus verdadeiro que nos chama à salvação – comunhão com a Trindade. Contudo, essa aceitação implica de nossa parte pleno obséquio, obediência de fé. É uma atitude pessoal de confiança, de comunhão com Deus. Toda essa realidade é orientada, destinada a um encontro definitivo e pleno com a Trindade. INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR: Teologia consiste na reflexão sobre essa fé eclesial. Ela tem a finalidade seja de justificar nossa própria fé, seja de oferecer elementos de ajuda a irmãos na fé que passam por túneis escuros de dúvida, de crise, de incerteza. A fé é problema de todos. Em cada pessoa que crê, dorme um ateu. Em cada ateu, esconde-se um crente. Somos crentes e ateus. Se a fé é a resposta do ser humano à revelação, as mudanças na compreensão do ser humano refletem na maneira de ele viver sua fé. A autoconsciência do ser humano não se constrói a não ser na relação com o mundo, com a história, com os humanos, com a Transcendência. Desse modo, a consciência histórica faz o crente entender a fé em diálogo responsável com Deus, interpretando os acontecimentos como resultado também da ação humana, e não unicamente determinado por Deus. Supera-se uma concepção de fé como “crer em verdade”, para redescobrir a dimensão primigênia e a experiência humana da fé como entrega, confiança. Se creio em alguém, não significa, no primeiro momento, um assentimento ao que ele diz, mas uma acolhida de sua pessoa. Somente num segundo lance eu aceito, é claro, como verdade aquilo que diz. Portanto, a tendência em direção à decisão não ATENÇÃO! Ao iniciar seus estudos sobre Introdução à Teologia, é importante considerar algumas técnicas que poderão potencializar sua aprendizagem: a) tente estabelecer um horário e lugar fixo para o estudo; b) procure ter à mão todos os recursos e materiais de que irá necessitar; c) participe ativamente do estudo: com compreensão, atenção e concentração; d) faça as reflexões sugeridas; e) distribua racionalmente os períodos de estudo. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 35 Versão para impressão econômica UNIDADE 4 desconhece o caráter de verdade, de comunicação de conteúdo, de tradição, de transmissão da fé. A fé na atual tendência adquire a função primordial de iluminadora, não da inteligência com muitas verdades, mas da vida, com um sentido radical. Volta-se ao momento inicial de nossa fé com novas elaborações de “credos”. Nesse esforço, intenta- se que cada um descubra realmente o que é significativo, primordial para sua existência, para sua fé. Deus Como pensar em Deus? Deus não é algo em que se possa pensar facilmente, e muito menos ainda escrever. Se estivermos interessados em discorrer a respeito de Deus, é porque provavelmente temos alguma “sensação”, alguma “premonição”, um “senso” ou “intuição” do que é referido como Deus. Sentimentos, premonições e sensações ainda não são, todavia, o que entendo por pensamento. Muito embora o termo possa ter aplicação mais ampla, por pensamento refiro-me aqui ao modo teórico mencionar ao tipo de cognição em que recuamos da imediaticidade de uma experiência e situamos essa experiência em uma moldura conceitual. Uma vez que tenhamos inserido nossa experiência imediata em tal arcabouço de idéias, a experiência original pode ser-nos mediada de uma maneira que nos permite relacioná-la com outras experiências e idéias: Vamos ver quais são? Teologia negativaa) : Deus só pode ser abordado como sujeito, e não enquanto objeto do pensamento humano. Todo encontro possível com o divino, afirmam eles, só pode ocorrer na adoração e na oração, mas não em tentativas teóricas de descrever como Deus pode ser. Podemos dizer o que Deus não é, mas não o que Deus é. Teologia positivab) : existe uma possibilidade de alguma espécie de referência positiva ao divino, muito embora, evidentemente, nossa linguagem seja sempre, na melhor das hipóteses, inadequada. Permite pelo menos a utilização de analogias em nosso discurso acerca daquele que é impensável. O simbolismo religioso, empregado por todas as tradições, já é uma linguagem analógica, e tal simbolismo inevitavelmente suscita-nos a necessidade de pensar e de teorizar a respeito de seu referente. Desde que tenhamos sempre em mente as deficiências de nossas metáforas e idéias acerca da realidade última, podemos e somos mesmo chamados a pensar a respeito do divino. A idéia de Deus não é uma invenção da teoria, e sim produto de uma modalidade única de experiência. Os filósofos não inventaram o conceito de Deus. Essa noção chegou ao plano da consciência humana e introduziu-se no âmbito da história pela mediação da vida espontânea das pessoas religiosas. A linguagem original em que se manifestou o conceito de Deus é a do símbolo e do mito, tendo-se implementado em rituais e outros tipos de atividade humana bem antes de tornar-se tema de discussão filosófica e teológica. PARA VOCÊ REFLETIR: A pessoa que se converte a uma determinada religião muda seu comportamento? Sua maneira de vestir? Por quê? CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais36 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 4 Entretanto, qualquer reflexão que façamos em nosso modo teórico deve referir-se continuamente a essas expressões ingênuas, pois é possível que nessas fontes simbólicas exista uma plenitude sempre renovável de sentido, capaz de continuar a nutrir nosso pensamento em todas as épocas, não importa quão cientificamente inclinados possamos nos tornar. Há alguma esfera comum da experiência humana que talvez possa ser iluminada por nosso discurso acerca de Deus? A pergunta sobre quem é Deus ou o que é Deus, na teologia atual, torna-se “onde está Deus?”. Quando o crente se pergunta “Deus onde estás?”, não está em busca deuma localização, mas se ele está aí. O nome de Deus não significa em primeiro lugar “eu sou aquele que É”, mas “Eu estarei aí, seguramente”. Não se pergunta por um lugar, mas invoca-se uma presença atuante e salvadora. Os nomes de Deus são invocações dessa presença salvadora, as expressões simbólicas daquilo que são experimentadas como fato, como também daquilo que se espera, da confiança que se impõe nessa presença. O Deus da fé é o Deus da história, é o Deus todo Outro que cria a questão da salvação no ser humano. O Deus, cuja resposta ultrapassa completamente as expectativas humanas, é um Deus procurado por causa de si mesmo, não um Deus “disponível”, adaptado pelo ser humano às suas necessidades. Deus é o mistério da gratuidade. Na vida de Jesus Cristo, Deus não é somente o Pai do povo. É o Pai que está sempre com ele, de modo muito pessoal, com o qual ele se relaciona numa unidade afetiva e efetiva, de amor e de beneplácito, na execução de seu projeto confiado a ele no amor e legitimado na comunhão para sempre, na ressurreição. A pergunta sobre Deus no contexto pós-moderno ocorre no crepúsculo ou na morte das grandes utopias (deuses). A ciência e a tecnologia passam a superar a capacidade de controle do ser humano, dominando-o. O mercado e a tecnologia econômica globalizada governam os destinos da humanidade, excluem e condenam os seres humanos à morte. A natureza rebela-se contra o ser humano como resposta à depredação da vida ambiental. Na busca de apreender o mistério insondável de Deus, a teologia ora recorre a conceitos e doutrinas, ora busca imagens, comparações simbólicas. Os conceitos são mais precisos, porém mais frios. As imagens e comparações simbólicas são mais atraentes, porém menos exatas. Em síntese, Deus é tanto imanente no mundo, como transcendente – Totalmente Outro. A presença de Deus penetra todo universo. Deus não é somente criador do mundo, mas também o Espírito (dínamo) do Universo. Deus cria por meio do Filho e para Ele, pela força do Espírito, a terra e, ao mesmo tempo, habita e descansa em sua criação (sábado). Assim, a presença máxima da imanência de Deus se dá no coração do ser humano e chega à plenitude no mistério da encarnação do Filho. Deste modo, a imanência de Deus aparece na sabedoria, na inteligência, na ordem existente no mundo, já que o mundo procede de sua sabedoria. Essa presença de Deus no mundo não lhe retira a autonomia e liberdade. Deus é o Deus da vida, sua glória é o ser humano vivo e a natureza em esplendor. Vida é a realidade concreta e cotidiana do ser humano. Na aliança com a humanidade, ATENÇÃO! Para aprofundamento do tema, sugerimos que procure em algum dicionário teológico ou bíblico algum termo que você tenha o interesse de conhecer. Em seguida, relacione esses conceitos com alguma experiência pessoal ou comunitária de fé. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 37 Versão para impressão econômica UNIDADE 4 Deus continua criando vida tornando, pois, o ser humano co-criador. Nas várias relações de vida, Deus é salvador e conduz a história para a plenitude de salvação. Além disso, Deus ouve o grito da terra articulado com o grito dos pobres. A terra é o pobre cuja morte acarretará a morte de todos nós. O Deus criador é o Deus da vida dos pobres e todas as formas de vida do planeta. Tudo está envolvido nesse mesmo projeto de amor e anseia por libertação e plenitude. Revelação A palavra revelação (latim, revelatio; grego, apocalypsis), etimologicamente, significa a remoção de um véu (latim, velum; grego, kalymma), conseqüentemente descobrir. Tradicionalmente, a revelação é descrita como a manifestação sobrenatural de Deus “de si mesmo e dos decretos eternos de sua vontade”. O Vat. II não propõe um conceito, mas uma ação de Deus que livremente torna conhecido o propósito escondido (sacramentum) da vontade divina e amorosamente fala aos seres humanos como amigos, convidando-os “à comunhão consigo.” (DV 2). O conceito teológico de revelação difere do popular, que usa o termo para designar uma descoberta súbita, inesperada, algo que vem ao indivíduo com força, profundidade e clareza excepcionais. A palavra grega apocalypsis, geralmente, refere-se a uma extraordinária experiência psicológica, em que o recipiente sai deste mundo e se transporta para um mundo superior. Do ponto de vista teológico,, a revelação não passa necessariamente por esse tipo de experiência. Muitos outros termos bíblicos devem ser levados em consideração no sentido • de entendermos a revelação. Vamos conhecer alguns?• logos theou (palavra de Deus);a) phanerosis (manifestação);b) epiphaneia (aparição);c) gnosis (conhecimento);d) e aletheia (verdade).e) Cuidado com a relação do termo com seu uso popular. O lugar real da revelação A revelação pertence à autocompreensão de toda religião, que sempre se a) considera a si mesma criação divina, e não meramente humana. A revelação acaba sempre reduzida a sua manifestação especializada de b) conhecimento mais ou menos formalizado do divino. Quando em vez a revelação é tudo: desde o rito, até o mito, oração, ação moral, templo, lugares sagrados, o tabu. Não se trata de fazer classificações ou comparações para assinalar qual o lugar que a revelação bíblica ocupa entre as religiões da revelação. Trata-se, antes, de ver como essas experiências, que pertencem ao núcleo de toda religião, apresentam-se na Bíblia: com que riqueza, com quais qualidades, com que pretensões. CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais38 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 4 Duas intuições básicas sobre a revelação de Deus A primeira intuição consiste na convicção de que Deus se revela sempre, em todas as partes e a todos quantos lhe é “possível”, na generosidade irrestrita de um amor sempre em ato, que se quer dar plenamente, de modo que os limites na revelação efetiva nascem apenas da incapacidade e do pecado humano, que freia, deforma ou não reconhece a manifestação divina. É o ser humano quem faz tão obscura e dramática a história da revelação, tanto nas religiões da humanidade como no peculiar caminho da Bíblia. A segunda intuição consiste em interpretar a palavra bíblica como “maiêutica histórica”, a saber, não como palavra que traz um sentido postiço, que informa sobre mistérios afinal externos e distantes: mas como palavras que ajuda a “a dar à luz” a realidade mais íntima e profunda que já somos, pela livre iniciativa do amor que nos cria e nos salva. História A história e a revelação estabelecem entre si um círculo hermenêutico. A História constitui-se horizonte de compreensão da revelação e, por sua vez, sua concepção é afetada pela revelação. Não se pode pensar a revelação cristã prescindindo da consciência histórica moderna. E a consciência histórica moderna sofre o impacto da realidade da revelação cristã. Desta relação nasce uma nova concepção de revelação e de história. Na ordem constitutiva do ser, está, em primeiro lugar, o caráter primordial, originário da revelação. O projeto de Deus de revelar-se em seu Filho já habitava a mente de Deus e presidiu tudo que foi criado. A revelação, como palavra falada e escrita, vem depois explicitar as marcas ontológicas do projeto de Deus, gravadas em todas as realidades. Entretanto, a inteligência humana, na ordem do conhecer, esbarra primeiramente na história humana. Uma concepção cientificista da história nega a própria possibilidade da revelação ao assumir, a priori, um pressuposto positivista. Só existe o que é verificável, constatável, observável pelo observador analítico na sua realidade empírica. A revelação, como realidade, é maior que a história humana, transcende-a ao nível ontológico. Nega a pretensão de o homem criar a totalidade absoluta de sua história. Nela está presente um Deus que é maior que ele. A história humana não encontra sua única sustentação ontológica nasdecisões humanas e nos fatores humanos e terrestres ligados a elas. A revelação atravessa-a no sentido de que Deus, não só como criador, mas também na sua automanifestação e autocomunicação, marca a história humana. Desse modo, a história humana é regida exclusivamente pela razão. A revelação divina desperta a preocupação humana para a presença e a ação divinas, que, sem esse toque livre de Deus, nunca seriam percebidas. A revelação ultrapassa os esquemas interpretativos que os seres humanos criaram ao longo da história, ainda que só possa ser apreendida mediatizada por eles. A revelação é mediatizada pela história no seu processo e nas suas diferentes manifestações. Um Deus que se revela na história não pode prescindir das estruturas e da inteligibilidade histórica. Uma compreensão de revelação que fosse incompatível com a historicidade não pode ser verdadeira. Não é revelação de Deus na história. Pode ser criação dogmática de seres humanos de consciência a-histórica. INFORMAÇÃO: História e revelação se diferem em natureza e peso axiológico, e se nutrem de diferentes fontes de verdade. A revelação nasce do ato livre e gratuito de um Deus que quer se comunicar a si e a seu plano salvífico ao ser humano situado na história. A história é construção humana que traça seu destino. Como a revelação de Deus se faz a um ser humano na história, ela se vincula à história. ATENÇÃO! Sugerimos que você faça uma pesquisa bibliográfica para que sua aprendizagem ocorra de maneira mais tranqüila. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 39 Versão para impressão econômica UNIDADE 4 Para a fé cristã, história não é somente o lugar ou contexto aonde Deus comunica as verdades eternas para a humanidade. A própria história é um ato criativo de Deus, por meio do qual Deus se manifesta e continua se manifestando para nós. O ponto culminante da história será sempre esse do evento de Jesus Cristo, pois Deus se revela por meio de atos criadores, e porque estes atos (aos quais respondemos e cooperamos) constituem história. Assim, conhecemos Deus à medida que refletimos sobre os acontecimentos principais da história da humanidade e sobre nossa própria história. O povo de Israel fez isso antes de nós, focalizando sua atenção no Êxodo de modo particular: Dt 20, 5-6; Jz 6,8, 13; Is 10,26; Jr 2,6; Ez 20,5; Sl 78,12-16; 105,23- 28. Como cristãos, não refletimos somente sobre as ações grandiosas de Deus no Primeiro Testamento, mas também sobre o supremo ato criador de Deus em Jesus Cristo e outros sinais dos tempos que continuam a caracterizar o mundo e a experiência humana. Esta percepção é bastante clara no evangelho da comunidade de Lucas. A História da salvação é uma perspectiva desenvolvida principalmente por dois grandes autores: Gerhard von Rad e Oscar Cullmann. Ela foi assumida pelo Vat II na LG (2-4,9) e na DV (2-4), reagindo à teologia existencialista de R. Bultmann, que rejeitava o AT como revelatório. Culmann e von Rad insistiram na conexão essencial entre os dois testamentos e na igualdade de status como documentos revelatórios unidos por Jesus Cristo, que aponta para seu cumprimento e que prepara sua chegada. HISTÓRIA – qualquer que seja o adjetivo colocado depois do nome – é proveniente da mão criadora de Deus. Na medida em que Deus é conhecido por meio da criação e por meio dos eventos que constituem a história, Ele é conhecido através dela, da totalidade da história da humanidade, nossa história pessoal, e não simplesmente a história de Israel, de Jesus Cristo e da Igreja. A própria história que a Bíblia fala será radicalmente transformada (1Cor 15, 35-58) e Deus será tudo em todos (15,28). Somente a morte resta na história como o último inimigo (15,26), mas a história está destinada para a glória, não para a morte. Este aspecto é revelado definitivamente na ressurreição de Jesus Cristo (1Ped 1,3-4,2; 2Cor 4,14; Filip 3,10; 2Tim 2,11; Jô 11, 25; 6,39 – 44,54; 1Cor 15). 3 AUTO-AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM Neste momento, convidamos você a fazer uma auto-avaliação de sua aprendizagem sobre os conteúdos estudados na Unidade 4. Tente responder para si mesmo: Quais são os elementos básicos sobre o ato de fé?a) Como ocorre a revelação? Quais são as afirmações básicas sobre a revelação b) de Deus? O que você entendeu sobre Deus e Revelação Divina?c) Ficaram dúvidas em relação aos conteúdos estudados? Quais?d) O que posso fazer para ampliar meus conhecimentos sobre o histórico da e) Teologia? CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais40 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 4 4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS EICHER, Peter. Dicionário de conceitos fundamentais de teologia. São Paulo: Paulinas, 1969. LACOSTE, Jean-Yves. Dicionário crítico de teologia. São Paulo: Paulinas/Loyola, 2004. ATENÇÃO! Sabemos que pesquisar e estudar são hábitos que precisam ser criados. Assim como qualquer outra habilidade, no início, ler e estudar precisam ser atividades realizadas com dedicação e esforço, até que se adquira gosto e se torne uma tarefa cotidiana comum. Pesquise! Assuma este compromisso e policie-se! Objetivos Superar uma compreensão positivista da teologia, • aprendendo a articular a fé com outros aspectos da condição humana: o afetivo e o prático. Interpretar a fonte da fé articulada teologicamente na • experiência afetiva e mística da revelação. Relacionar teologia racional com a dimensão afetiva e • prática da fé. Analisar o aspecto prático da fé como objetivo último e • avaliador de toda argumentação teológica. Conteúdos Fé e razão – a racionalidade da fé.• Fé e experiência – a afetividade da fé.• Fé e a palavra – a epistemologia da fé.• Fé e prática – a práxis da fé.• INTERAÇÕES DA FÉ U N ID A D E 5 CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais42 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 5 1 INTRODUÇÃO Na construção teológica, o ponto de partida é a fé, a qual ama compreender- se. Esse processo de autocompreensão da fé ocorre na interação dinâmica com vários elementos do âmbito teológico, nomeadamente com a razão, com a Palavra objetiva e textual da Revelação (Escritura), com a experiência afetiva e com a práxis. São essas interações, próprias do ato de crer, que nos permitem uma compreensão mais ampla e integral da teologia. Teologia não é só discurso racional da fé, é, também, encontro com o testemunho da Palavra, é experiência por meio dos sentidos, da intuição e da afetividade, é prática transformadora da vida e da história. Vejamos essas interações de modo mais amplo. 2 FÉ E RAZÃO – A RACIONALIDADE DA FÉ Normalmente, chamamos de razão a capacidade que todo ser humano tem de criar e articular palavras e pensamentos. Por isso, o ser humano é tido como um animal racional, que fala, pensa e tem idéias. Chamamos, também, de razão um modelo de pensamento, tipicamente ocidental, que nasceu entre os gregos e se tornou o orientador da conduta humana no mundo. Razão aqui não quer dizer somente pensar, mas pensar de forma organizada, esclarecida e contida, sem contradições, nem grandes emoções. Foi com Sócrates e Platão que esse modelo de pensamento nasceu na Grécia Antiga, um modelo que se faz presente até hoje. Entratanto, razão não é somente aquela chamada formal (pensamento lógico – matemático) ou a empírico-formal (técnica científica); há, também, a razão discursiva que usa de argumentos, raciocínios, provas de diversos tipos para se explicar. Os gregos chamavam de razão intuitiva (noûs) o que os latinos chamaram de intellectus. Na linguagem moderna, fala-se de pensamento, mente, espírito e, algumas vezes, consciência. Esse elemento é o aspecto criativo do ser humano, é o pensamento capaz de reconhecer o mistério do Ser. A razão intuitiva, noûs, é contemplação amorosa da realidade; é diferente da ratio (logos), que não intui de imediato, mas procura conhecer,conquistar, perseguir a verdade. Baseados nesses pressupostos, podemos distinguir duas coisas: a fé, com sua racionalidade originária, e a razão da fé, com suas razões teológicas particulares. De um lado está o intellectus fidei – inteligência da fé, e de outro lado, a ratio fidei – razão da fé. Nesse sentido, a fé nada tem a ver com um opinar incerto. A fé cristã não é confiança cega, e sim uma fé que enxerga de olhos abertos, pois não está desprovida de um objeto, mas tem um interlocutor que pode ser identificado na história, no presente e no futuro de Cristo. Crer e conhecer são os dois lados da fé cristã, o pessoal e o objetivo. No crer, estabeleço uma relação pessoal com Cristo e vinculo meu presente com sua presença; no conhecer, estabeleço uma relação objetiva com Cristo e o percebo como Ele é. ATENÇÃO! Nesta unidade, iremos aprofundar a nossos conhecimentos sobre as interações da fé. Ah, lembre-se de planejar cada passo de sua caminhada na construção dos conhecimentos, refletindo sobre as estratégias e assumindo uma postura crítica diante dos conteúdos estudados. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 43 Versão para impressão econômica UNIDADE 5 O Deus de Jesus Cristo não é um mistério obscuro, do qual devêssemos aproximar-nos com os olhos fechados e mediante imersão mística na interioridade pessoal, mas é o Deus da vida revelado, com quem nos deparamos na história de Cristo aberta para o futuro, porque ela nos envolve em seu processo. É por essa razão que os cristãos crêem no Deus vivo. A interação entre fé e razão é a tarefa da teologia, pois a manifestação de Deus por sua palavra, que pede ser aceita com fé, não nega a razão humana. Ao contrário, a fé em Deus, precisamente porque plenifica o ser humano, exige a compreensão e pede um “obséquio racional” (Rm 12,1). O Deus cristão quer ser acolhido não pela imposição e, portanto, chama o ser humano sem anular nenhuma de suas dimensões. Ama-se a Deus também com a mente (Dt. 6,5; Mt 22,37; Mc. 12,30; Lc. 10, 22). 3 FÉ E PALAVRA – A EPISTEMOLOGIA DA FÉ ides quae – tradição apostólica - Credo FÉ é-palavra – 1º lugar – testemunho é Experiência é Palavra é Prática Fé-palavra que nos transmite o conteúdo noético 1 essencial da fé – princípio inteligível da teologia Fé-Palavra, em primeiro lugar, não é palavra da doutrina, mas a palavra do testemunho. Este passa por meio do querigma, que é anúncio e proclamação, cujo portador é o Apóstolo ou Missionário; e passa, em seguida, mediante a homologia, ou confissão de fé, como se exprime na profissão que faz a comunidade dos fiéis. Só depois de ser testemunhada no anúncio e na confissão, é que a fé-palavra se torna doutrina, ou seja, ensino sob forma de catequese, do Magistério e, finalmente, da teologia. Lado antropológico da fé Revelação – Escritura – Fé CORRELATO OBJETIVO OU TEOLOGAL L A D O O B J E T I V O PALAVRA DE DEUS A teologia parte da fé do povo de Deus – Povo de Deus constituído pela Palavra – este é medido por ela, não a mede – Ela é a fonte determinante da teologia - A REVELAÇÃO. L A D O S U B J E T I V O PRINCÍPIO CONSTITUTIVO DA TEOLOGIA PRINCÍPIO OBJETIVO = PALAVRA DE DEUS – REVELAÇÃO DIVINA – NORMA DA FÉ – NORMA DA TEOLOGIA – NORMA SUPREMA FÉ – PRINCÍPIO SUBJETIVO – TESTEMUNHADA NA BÍBLIA – TRADICIONADA NA E PELA IGREJA – FÉ – NORMA PRÓXIMA O princípio determinante da teoria teológica (não da prática da vida) não pode ser nem a experiência, nem a prática, mas, sim, a Palavra (a de Deus, em primeiro lugar, a da fé da comunidade, em seguida). Isso porque tanto a experiência como a prática precisam ser avaliadas à luz da Palavra revelada e por ela animadas. (1) Noético (adjetivo): que pertence ao intelecto, à mente; racional. Que se caracteriza pela atividade intelectual. Etimologia gr. noétikós, ê, ón ‘racional’. CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais44 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 5 Escritura: testemunha da Revelação Praticamente, fazer teologia é confrontar criticamente as questões humanas com a Bíblia, o discurso da fé consiste, finalmente, na reductio ad Scripturas. A fé-revelada é o dado inicial, o ato inaugural, o marco zero de toda a teologia. Ela tem neste aspecto seu ponto de partida, qualquer que seja a teologia, sem essa fonte não será mais teologia. Além da Palavra, a Revelação é história. A teologia não reflete finalmente uma doutrina, mas a Revelação mesma, e esta como verdade-evento: o acontecimento da verdade na história, do qual a fé é a acolhida. A fé revelada é uma História com significado. Essa história é a que carrega uma significação muito particular: é história de salvação. É uma história para ser criada e testemunhada. A Revelação, em sua palavra profética, é grávida de teologia: contém, potencialmente, os germes de todas as teologias subseqüentes. De resto, a própria Bíblia inaugura a teologia, desenvolvendo, a partir de seu núcleo narrativo, um primeiro ensaio de elaboração doutrinal. Se a dimensão material da fé é a história, sua dimensão formal é Deus, Verdade primeira. Portanto, todo evento histórico é (na Bíblia) e deve ser (na teologia) compreendido em relação ao Deus salvador. Uso da Escritura na Teologia Inicialmente, a teoria teológica aqui desenvolvida opõe-se ao fundamentalismo e ao positivismo revelacional. Por que o fundamentalismo é rejeitado? A pressuposição teológica do fundamentalismo é que a palavra das Escrituras são palavras de Deus, inspiradas de tal forma à mente humana que não são historicamente condicionadas, mas provêm, infalivelmente e de certa forma, extra-historicamente de Deus. Esse positivismo revelacional é contraditado agora pelo que se afigura senso comum. E esse senso comum, por sua vez, estabelece a premissa para os enormes avanços no estudo da própria Escritura. A despeito de que a mera citação da Escritura não constitui evidência suficiente para uma asserção teológica hoje em dia, a Escritura não deixa de ser a constituição autorizada da Igreja, nem a teologia perde a condição de disciplina normativa. A lógica interna da teologia ainda subjaz a uma intenção de evidenciar o significado da fé cristã, de investigar, criticamente, a doutrina e a prática da Igreja, de modificá-la quando se aparta daquilo que é mediado por sua expressão clássica, de expor e de procurar justificar sua verdade. Mesmo em face da evidente confusão do pluralismo, por vezes extremado da teologia, a lógica interna da disciplina busca a normatividade, mesmo quando não consegue alcançá-la. O que está em jogo, portanto, não é a autoridade e a normatividade da Escritura em si mesma, por assim dizer, a questão é saber como pode ela ser utilizada, como pode ser aplicada a uma asserção ou proposição teológica de nossa época. INFORMAÇÃO: A história de salvação trata-se de uma história sempre interpretada, isto é, acompanhada de palavras que lhe revelam o sentido salvífico. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 45 Versão para impressão econômica UNIDADE 5 Texto como mensagem de Deus na Palavra de Deus A utilização do texto na teologia constitui-se em algo de grande importância. Tal abordagem dá-se em dois momentos: 1º Momentoa) : Síntese temática e teológica Perceber a idéia fundamental do texto em seu conjunto.• Perceber a teologia do texto. Que Deus aparece no texto? Como Ele atua? • Como o texto caracteriza Deus, o povo e a fé do povo? 2º Momentob) : Hermenêutica (interpretação e atualização) O que o texto significou (quis dizer) para seu tempo? Qual sua mensagem para a época em que foi escrito? O que o texto quer dizer para nós? Qual suamensagem? Em que sentido esse texto pode ser uma boa notícia, uma Palavra de Deus, de vida para nós? Como ele ajuda a perceber o Deus libertador na caminhada do povo hoje? Em todo este procedimento de análise, é preciso ter também a preocupação pastoral, relacionar o texto com a vida. A vida deve estar presente em todo esse processo metodológico. O pressuposto básico dessa leitura é perceber que Deus é o nosso Deus. O objetivo último dessa leitura é refletir teologicamente nossa realidade, ou seja, perceber Deus caminhando com seu povo. O método de análise não anula outros métodos que a tradição nos oferece. Podemos e até devemos deles nos servir quando necessário, uma vez que as etapas desse método não são estanques, ao contrário, elas se interpenetram e se complementam, de modo que possamos distinguir os diferentes momentos para um procedimento analítico. Desse modo, cada método é uma confluência de contribuições, e não de exclusivismos. O importante é percebermos que o texto é a proclamação da palavra de Deus, e a palavra humana veicula a Palavra de Deus, razão pela qual devemos chegar à teologia e a uma espiritualidade bíblica. Vivemos num momento novo na exegese, em que utilizamos a ciência não como palavra final, mas para chegar à leitura do povo cristão. Acolher na exegese a hermenêutica/leitura dos pobres. Os pobres têm uma maneira de se encontrar com a Palavra de Deus. Empenhar-nos numa leitura ecumênica que nos ajude a dialogar e a perceber a ação do Espírito de comunhão presente nas interpretações e vivências das diferentes comunidades cristãs. Dessa forma, faz-se necessário levar em conta o momento e o contexto histórico no qual vivemos, pois isso nos leva, atualmente, na América Afro-Latíndia (Africana, indígena, latina), a dar maior atenção a alguns aspectos da exegese que, em outras situações e momentos históricos, não mereceram tanta ênfase (por exemplo: uma leitura no contexto conflitual). CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais46 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 5 4 FÉ E EXPERIÊNCIA – A AFETIVIDADE DA FÉ A Fé-palavra determina formalmente a teologia. A Palavra da Revelação ressoa no espaço da experiência religiosa. O conhecimento da fé não é puramente teórico, e menos ainda mera informação. É, sobretudo, afetivo e experiencial, envolvendo o ser humano todo. A experiência, dentro do contexto do sagrado, não é simplesmente a aquisição de “conhecimento” (ciência) que o homem adquire, quando sai de si mesmo (ex) e estuda um objeto por todos os lados (peri). A experiência do sagrado situa-se dentro das experiências do mistério2, numinoso3 e da mística. O dinamismo é inverso daquele da experiência da realidade externa. Sua origem só pode ser compreendida primariamente fundando-se nas raízes humanas existenciais. É uma possibilidade que nasce do próprio existir humano; refere-se à “abertura” do ser humano às interpelações do que se chama de “sagrado”. O confronto com essas interpelações traz, em si mesmo, elementos paradoxais do “fascínio” e do “temor”. É estar diante do que é “o totalmente outro” – “daz ganz Andere”, o diferente, o singular, o insólito, o extraordinário, o novo, o perfeito, o estranho, o monstruoso, o misterioso, que ultrapassa a experiência humana comum, que pertence a outro tipo de realidade que vem carregada de força e de poder. Em outra perspectiva, a experiência do sagrado é simplesmente compreendida como o oposto do profano. Se o profano é o comum, o que não possui um valor ou significado especial, o sagrado é o incomum e o especial, que possui uma particularidade específica, absoluta e definitiva. O conhecimento do sagrado se manifesta, se autocomunica como algo absolutamente diferente do profano (hierofania), se automanifesta como sagrado. É uma experiência de algo que se revela e, ao mesmo tempo, se oculta no mundo sensível. As religiões, de modo geral, são constituídas pelas experiências da manifestação de realidades sagradas. FÉ – EXPERIÊNCIA EXPERIÊNCIA DA FÉ PALAVRA DA FÉ EXPERIÊNCIA DA FÉ PALAVRA DA FÉ Vem antes Ela está acima de qualquer palavra. O núcleo da fé é a experiência. Fé-palavra é o elemento discernidor da fé-experiência. Em que mundo habita aquele que crê ou a pessoa religiosa? A fé pressupõe a fé, efetivamente. O crente é sempre um ser que “espera ter a fé”. De acordo com a fórmula de João, o crente “está no mundo sem ser do mundo”. Noutras palavras: o crente habita o mundo de Deus no coração do mundo do humano; ele pertence, assim, totalmente, ao mundo do humano, inteiramente requisitado pela exigência do mundo de Deus. Enquanto ato, a fé pertence à existência do estar-no-mundo; mas enquanto ato-fé, ela transcende essa existência assumindo-a no seio de uma outra interpretação da (2) A experiência do mistério está diretamente ligada ao Absoluto (de Deus). Remete o ser humano para além de si mesmo e de sua imanência. Leva-o a situar-se de maneira nova. O ser humano experimenta-se como alguém de quem o outro dispõe, mas sem ser lesado no sentido de seu próprio valor. O mistério é um aspecto originário essencial e permanente da totalidade do real. Este se apresenta como totalidade (infinito) ao espírito finito e criatural. Apesar de sua finitude, o ser criado, em sua essência, está aberto à experiência do infinito (RAHNER, K.; VORGRIMLER, H. Dizionario di Teologia, p. 396). (3) Numinoso foi o termo designado por Rudolfo Otto para a consciência do misterium tremendum, que é algo misterioso e terrível que inspira temor e veneração; essa consciência seria a base da experiência religiosa da humanidade (ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia, p. 720). ATENÇÃO! Para saber mais, confira: VALLE, E., Psicologia e Experiência Religiosa, p. 40. ATENÇÃO! Amplie seus conhecimentos! Leia: ELIADE, M., O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 25. PARA VOCÊ REFLETIR: Antes de enveredarmos pela análise da interação entre fé e experiência, vamos refletir sobre algumas questões que poderão nos ajudar a compreender melhor este aspecto. Para que teologia (discurso racional da fé)? Não seria suficiente a experiência mística? Muitas vezes o que se tem é uma sabedoria vivida e elaborada na experiência da vida. Qual a função da teologia científica? Quem reza muito e reflete e estuda pouco faz que tipo de teologia? Quem estuda e reflete muito e reza pouco que tipo de teologia faz? Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 47 Versão para impressão econômica UNIDADE 5 realidade: o mundo de Deus. O conhecimento de fé é, portanto, o conhecimento do mundo humano como mundo de Deus. A fé, enquanto ato, é, em primeiro lugar, uma experiência do mundo de Deus. Esta instaura-se em todas as dimensões da existência humana: a vida mística e espiritual, a vida litúrgica, o compromisso, a exigência ética, a pesquisa especulativa, o testemunho, o trabalho etc. constituem os verdadeiros lugares da experiência do mundo de Deus, nos quais se forma o autêntico conhecimento de fé. De fato, esta consiste em conhecer o mundo humano como mundo de Deus. Habitar como crente o mundo humano significa conhecê-lo como criação de um Deus de bondade. Significa conhecer o ser humano Jesus como Filho de Deus, como Cristo de Deus, como encarnação de Deus, como palavra de Deus feita carne, como profeta da lógica de Deus (que é a lógica das parábolas, do sermão da montanha e do amor pelos inimigos), como revelador (denunciador) da lógica do humano (que é a lógica do talião). Portanto, o conhecimento da fé quer dizer habitar o mundo de Deus no coração do mundo humano. Experiência mística – gratuidade, dependência, liberdade e unidade A experiência mística é a relação misteriosa de cada ser humano com Deus. É uma relação pessoal e personalista em que entra o mistério de Deus e o mistério de cada um. E esta místicadepende muito da densidade de nossa militância cristã. Se o homem não tem militância de fé, esperança e caridade, o risco que existe é de que a mística vire mais uma técnica de fuga do que, realmente, uma experiência mística misteriosa de comunicação com Deus. Precisamos superar a separação entre razão e experiência sensível, sentimentos, emoções, que prevaleceu nas Igrejas tradicionais no século XX e sustentou uma religião racionalizada que contribuiu para o afastamento das massas. A experiência sensível, imediata, foi substituída pelos discursos na vida diária dos cristãos. As antigas devoções sensíveis foram deslegitimadas e não foram substituídas. A experiência do Espírito Santo envolve a unidade do ser humano em todos os seus aspectos, todos os seus dinamismos: em primeiro lugar é experiência direta, imediata (COMBLIM, J., Experiência espiritual o seu conteúdo – o seu alcance. In: FABRI DOS ANJOS, M., Sob o fogo do Espírito. São Paulo: Paulinas, 1998, p. 139). O que a experiência da fé dá à Teologia? Teologia é discurso racional da fé, é quando se passa da emoção religiosa para o nível do conceito. A experiência não dá evidência, mas dá certeza e convicção, aquece e ilumina. A experiência da fé confere unção, quentura, pathos, emoção, fervor e alegria. Desse modo, pode-se dizer que teologia é um saber carismático, é a razão banhada pelo saber da experiência da fé. Teologia não é devoção, mas a devoção está na fonte da teologia, é seu princípio existencial e motivacional. Fé – experiência - dá o frêmito da vida à teologia – só nela a teologia se torna viva e fecunda. Fé vivida, experimentada, é a alma da teologia. PARA VOCÊ REFLETIR: Procure refletir sobre a experiência religiosa em diversas óticas: a) Partindo de uma ótica psicológica: o que se está buscando na experiência mística? b) Partindo do Compromisso de vida: quais as conseqüências da experiência da fé? O que ocorre depois da experiência? c) Experiência religiosa como adoção de um estilo de vida – um modo de experiência do mundo e das pessoas – processo de integração pessoal, comunitária e ecológica. – Qual a diferença entre religião, espiritualidade e mística? CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais48 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 5 5 FÉ E PRÁTICA – A PRÁXIS DA FÉ A práxis da fé pode ser enfatizada em dois pólos: Prática – individuala) : desejo de agradar a Deus, conversão do coração. Fala-se mais de pecado individual, acentua-se a vida moral que se reduz ao aspecto sexual ou ao relacionamento interpessoal. Prática – socialb) : vive-se na vida comunitária e nas relações com a estrutura social, exige-se conversão estrutural (política), o pecado é também social, a vivência ética assume-se na luta pela justiça e se percebe as relações entre os grupos. . Desse modo, a Fé vivida na prática é um processo de libertação de tudo que não permite uma vida plena – vida em abundância. As pessoas são levadas a algum tipo de prática ou vivência de princípios quando, em termos de consciência, adquirem informação e se inserem dentro de um processo educativo transformador. Quando, no âmbito emocional, são motivadas a agir pelos seus sentimentos mais autênticos. Quando se tornam sujeitos do processo de transformação, quando a transformação não é algo que podemos fazer pelos outros, mas cada um é responsável por seu processo. A fé que interage com a práxis é fé que opera pela caridade. Teologia, nesse sentido, resulta do confronto da fé com a vida, que é sinônimo de realidade, história e cultura. O que deve ser teologizado aqui são as práticas concretas de vivência da fé, a realidade social concreta na qual o crente está inserido, é olhar os fatos da história para lhes dar um sentido, uma interpretação que possa gerar uma ação teológica. O objetivo da teologia é refletir a prática da fé, para que ela se torne fonte de vida e caridade libertadora. A fé esclarece a prática, mas também a prática esclarece, a seu modo, a fé. Assim, a teologia, como prática da fé, é construída para libertar as pessoas, ajudando-as a se tornarem críticas, criativas, livres, ativas e membros responsáveis da comunidade e da sociedade. Tudo o que Jesus diz Ele o fez, e é por isso que se atribui a Seu dizer Sua verdade. Além disso, a teologia, na abordagem da prática libertadora da fé, proporciona um ambiente, um espaço para refletir, crítica e ativamente, tendo como objetivo a solução dos problemas de viver concretamente a fé e suas implicações na história. Ela articula, pois, as questões da vivência da fé. Na teologia como prática da fé, a transformação do mundo em mundo de Deus não é privilégio de uma hierarquia de profissionais com suas receitas prontas. Ninguém tem uma resposta absoluta, mas todos têm uma resposta. Cada um tem diferentes percepções que nascem de sua própria experiência. Teologia, então, é um processo de aprendizado comunitário pela vivência da fé. Aprende-se fazendo e, fazendo juntos, na partilha do que foi vivenciado. Faz-se teologia na prática pela partilha de experiências – dialogando. 6 CONSIDERAÇÕES Vejamos algumas dúvidas que podem surgir após o estudo desta unidade e uma sugestão de como podemos resolvê-las: INFORMAÇÃO: Na dinâmica aqui estudada, a teologia é feita em mutirão, no coração da história, no qual todos estão ativos, descrevendo, analisando, sugerindo, decidindo e planejando a ação na fé. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 49 Versão para impressão econômica UNIDADE 5 Fé – razãoa) : Qual a conseqüência de uma fé que não argumenta, não busca se explicar, sem uma base racional? Procure no dicionário teológico os seguintes conceitos: Fideísmo, • Fundamentalismo. Fé – palavra de Deusb) : O que pode acontecer quando a fé se distancia de sua fonte, que é escutar o testemunho da Palavra de Deus, e torna-se mais argumentação teórica? Pesquise sobre os seguintes conceitos: Dogmatismo, Ideologia.• Fé – experiênciac) : O que pode ocorrer quando a fé não se alimenta da mística, não é vivida com o coração, expressa com sentimento e emoção? Busqu• e em algum dicionário de espiritualidade os conceitos: experiência religiosa, mística, misticismo. Fé – práticad) : O que significa para você praticar a fé? Como compreender hoje a expressão bíblica: “a fé sem obra é morta”? Pesquise os seguintes conceitos: práxis, ética. 7 AUTO-AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM Neste momento, convidamos você a fazer uma auto-avaliação de sua aprendizagem sobre os conteúdos estudados na Unidade 5. Tente responder para si mesmo: Entendi todos os conceitos estudados sobre Fé e razão? Fé e experiência?a) Tenho dúvidas a eliminar? Quais? b) Que temas ainda preciso pesquisar? c) Utilizei estratégias que facilitaram o estudo e a compreensão dos conteúdos? d) Quais? Lembre-se de que, caso necessite de ajuda, estaremos à disposição na Sala de Aula Virtual. 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico. Petrópolis: Vozes, 1998. GEFFRÉ, C. Crer e interpretar. A virada hermenêutica da teologia. Petrópolis: Vozes, 2004. HAIGHT, Roger. Dinâmica da teologia. São Paulo: Paulinas, 2004. ATENÇÃO! Amplie seus conhecimentos. Pesquise os livros citados nas Referências Bibliográficas. Anotações Objetivos Adquirir uma visão histórica da elaboração teológica.• Identifi car e interpretar as etapas, conteúdos próprios, • agentes e metodologias da teologia. Aprender a fazer teologia observando a maneira como ela • foi elaborada, descobrindo seus contextos e as questões teológicas próprias de cada etapa histórica. Conteúdos Teologia antiga.• Sistematização da teologia: teologia patrística.• Teologia moderna.• Teologia contemporânea.• Correntes teológicas atuais.• VISÃO PANORÂMICA DAS GRANDES FASES DA HISTÓRIA DA TEOLOGIA: COMUNIDADES PRIMITIVAS, PATRÍSTICA, MEDIEVAL, MODERNA E CONTEMPORÂNEA U N ID A D E 6CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais52 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 1 INTRODUÇÃO O nosso propósito nesta unidade é descortinar os diversos processos pelos quais passou a teologia, pois é sabido que ela leva a marca do contexto e do tempo em que está inserida. Vale salientar que a teologia é tão antiga quanto a autoconsciência da fé em Deus. A teologia cristã começa com os apóstolos. E a teologia do Novo Testamento é mais catequética que especulativa. A teologia torna-se mais sistemática à medida que os primeiros desafios intelectuais emergem contra a fé cristã, no contexto das heresias e na busca da verdade fundante da experiência cristológica. Desse modo, a teologia desenvolve-se à medida que seu contexto vai mudando: no contexto da casa, onde se reúnem grupos de famílias cristãs ao redor do presbítero, diáconos e diaconisas, sua preocupação primária é pastoral; no mosteiro, ela torna- se literária e ascética; na universidade, mais especulativa, e nos seminários, torna-se estritamente clerical. É somente nos séculos 19 e 20 que a teologia se torna mais pública e acessível a todos os cristãos. Vejamos de modo mais detalhado essas etapas! 2 TEOLOGIA ANTIGA Teologia prática: a teologia das primeiras comunidades cristãs A Teologia cristã começa com os apóstolos, e desenvolve-se por duas razões: porque os Apóstolos precisam reconciliar a mensagem de Jesus Cristo com a) sua experiência religiosa judaica; porque os Apóstolos tinham de pregar a Boa Nova que Jesus recomendou b) a eles, e isso significava interpretar e traduzir o Evangelho para diversas comunidades e culturas. Os quatro evangelhos são mais que narrativas históricas ou biográficas. Eles são, acima de tudo, testemunhos de fé: a fé do próprio evangelista e da fé da comunidade na qual estava inserido. Por essa razão, esta teologia é muito mais experiencial que especulativa. As perguntas fundamentais desta etapa: Quem é Jesus para nós? Quem somos nós a partir de Jesus? Estamos na teologia fontal, paradigmática e estimuladora de toda a futura teologia. Ela é a base irrenunciável. Teologia do princípio e princípio da Teologia. Brota do encontro de fé com Jesus Cristo. Em Jesus Cristo, a revelação chega ao ápice e nEle se lê e se interpreta a Sagrada Escritura. Essa experiência torna-se anúncio. Esta teologia é: pneumática, eclesial, missionária, vivencial, contextualizada e aberta ao futuro. ATENÇÃO! Lembre-se de que pensar sobre a intenção é um passo importante para mobilizar a utilização dos recursos adequados em busca do alcance de nossos objetivos. Desta forma, é necessário que você reflita sobre as atitudes que assume ou pretende assumir diante do estudo proposto para esta unidade. Para tanto, procure responder às seguintes questões: Quero me dedicar para aprender determinado conteúdo? Como? Pretendo realizar pesquisas para aprofundar e ampliar meus conhecimentos? Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 53 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 Sistematização da teologia: Teologia Patrística Esta etapa tem início com o Edito de Constantino em 313, momento em que a teologia recebe uma forte influência do neoplatonismo1 e do pensamento jurídico romano. É neste contexto intelectual que as questões do tempo são confrontadas: a vida interna da Trindade, o status divino e humano de Cristo, a necessidade e os efeitos da graça. Uma grande quantidade de reflexão teológica emerge nos primeiros séculos da era Cristã – numa grande variedade de gêneros, e em uma variedade de contextos e em diversas línguas – tudo isso é resultado da tentativa de discutir como a fé cristã deveria ser vivida em culturas tão diferentes daquela em que nasceu. Seu desafio é interagir com a cultura helênica no anúncio da Boa Nova. A fé cristã precisava se justificar diante da filosofia grega, que a considerava como algo secundário ou de pouco valor. Este período viu emergir lentamente a ortodoxia, aparentemente em razão do conflito entre o cristianismo católico e a gnose cristã. Aqui também se estabeleceu o Cânon Bíblico, o debate sobre a Trindade principalmente nos concílios de Nicéia (325) e Constantinopla (381) e os dogmas cristológicos nos concílios de Calcedônia (451). Sobre a pureza da Igreja no debate com os Donatistas e sobre graça, livre arbítrio e predestinação nos debates entre Agostinho e Pelágio. Desde que se iniciou no cristianismo uma reflexão mais sistemática e mais crítica, a filosofia começou a fazer parte dos instrumentos utilizados pelos Padres da Igreja na elaboração da teologia. Não se podia imaginar uma teologia tão sistemática como a de Orígenes sem o recurso da filosofia. Dois séculos depois de Orígenes, Santo Agostinho viu a relevância e o uso da filosofia como um instrumento, um serviço a ser prestado à teologia. Para ele, a filosofia é serva da teologia. 3 TEOLOGIA MEDIEVAL A teologia ganha seu status como “ciência da fé”: reflexão sobre a fé e conhecimento da fé ou clarificação e desdobramento metodológico da revelação divina recebida pela fé. O objeto do conhecimento teológico é a revelação divina. O acesso único a esta revelação é o auditous fidei (a escuta da fé) (a fé vem da escuta – disse São Paulo) que se quer tornar intellectus fidei (inteligência da fé). Do ponto de vista religioso, estamos com a posição fixada por Santo Tomás de Aquino2: a Teologia é a ciência que organiza, estuda e aprofunda, com o auxílio da Filosofia, a matéria fornecida pela revelação, e os dados revelados por Jesus Cristo servem de primeiros princípios para a Teologia e são aceitos pela fé. Já a Filosofia é a ciência da realidade, de seus primeiros princípios e dos últimos fins, alcançados e propostos pelo intelecto ativo, pela razão especulativa e prática do homem. Com isso, é assinalado o problema fundamental da Escolástica medieval: a articulação entre fides et ratio (fé e razão). A fé que procura a inteligência e compreensão tornou-se o princípio condutor de todas as articulações (especulações) teológicas. (1) O Neoplatonismo foi uma corrente de pensamento iniciada no século 3º que se baseava nos ensinamentos de Platão e dos platônicos, mas interpretando- os de formas bastante diversificadas. Apesar de muitos neoplatônicos não o admitirem, o neoplatonismo era muito diferente da doutrina platônica. O prefixo neo, inclusive, só foi adicionado pelos estudiosos modernos para distinguir entre os dois, mas na época eles se autodenominavam platônicos (WIKIPÉDIA, 2007). (2) São Tomás de Aquino, OP, nascido em Roccasecca, arredores de Monte Cassino, (perto de Aquino, Itália, 1227 - abadia de Fossanova perto de Priverno, 7 de Março 1274), canonizado pela Igreja Católica, foi um frade dominicano e teólogo italiano. Foi o mais distinto expoente da Escolástica (WIKIPÉDIA, 2007). CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais54 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 Como ciência, a teologia busca sistematicidade. Daí por que sua temática entende cobrir toda a área da fé, ou seja, a Doctrina Christiana por inteiro. O ambiente acadêmico em que se desenvolve, fora da vida normal, favorece uma visão teórica da fé, visão de conjunto e bem equilibrada, mas perdendo em fecundidade pastoral e histórica. 4 TEOLOGIA MODERNA Os séculos 14 e 15 viram o desmoronar do pensamento central da era medieval – ordem universal fundamentada no teocentrismo. Modernidade é, filosoficamente, um estado de espírito denotativo de um profundo antropocentrismo que superou, histórica e filosoficamente, o teocentrismo característico do período medieval e do cosmocentrismo da Antigüidade. A proposição cartesiana “penso, logo existo” explicitou que o pensar moderno, centrado no ser humano livre, autônomo, fundamentado na matemática moderna, sustentada no limite metódico da dúvida, é condição da existência humana. DessaUNIDADE 6 – VISÃO PANORÂMICA DAS GRANDES FASES DA HISTÓRIA DA TEOLOGIA: COMUNIDADES PRIMITIVAS, PATRÍSTICA, MEDIEVAL, MODERNA E CONTEMPORÂNEA 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................52 2 TEOLOGIA ANTIGA ............................................................................................52 3 TEOLOGIA MEDIEVAL ........................................................................................53 4 TEOLOGIA MODERNA ........................................................................................54 5 TEOLOGIA CONTEMPORÂNEA .............................................................................54 6 CORRENTES TEOLÓGICAS ATUAIS ......................................................................56 7 CONSIDERAÇÕES ............................................................................................63 8 AUTO-AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM .................................................................64 9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .........................................................................64 10 E-REFERÊNCIAS ..............................................................................................64 UNIDADE 7 – ENFOQUES TEOLÓGICOS 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................66 2 TEOLOGIA E SUA COMUNIDADE DE FÉ.................................................................66 3 ENFOQUES TEOLÓGICOS ...................................................................................67 4 CONSIDERAÇÕES ............................................................................................71 5 AUTO-AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM .................................................................72 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................72 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................72 Versão para impressão econômica G U IA D E D IS C IP L IN A 1 APRESENTAÇÃO Bem-vindo ao estudo de Introdução à Teologia, que é uma das disciplinas que compõem o curso de Bacharelado em Teologia, na modalidade EAD. Teremos satisfação em estudá-la com você! Com o estudo proposto nesta disciplina, você poderá conhecer um panorama epistemológico da ciência teológica, suas regras, seu objeto e sua relação com outros ramos da ciências. Por meio de uma breve apresentação histórica, vamos conhecer como foi construída esta ciência, como se faz teologia, quais os instrumentais e mediações, sua relação com as outras disciplinas e com a realidade social e eclesial. Iremos, ainda, distinguir as teologias produzidas nos diversos contextos eclesiais. Para tanto, sugerimos que não se limite ao conteúdo deste trabalho, e sim o interprete como um referencial por meio do qual você possa expandir seu horizonte de conhecimentos com o objetivo de formar sua própria opinião sobre o tema. Desejamos êxitos na realização de seus estudos, pesquisas, interatividades e atividades! 2 DADOS GERAIS DA DISCIPLINA Ementa Introdução, método, conceito e natureza da teologia. Tarefa e objetivos da teologia. Linguagem da experiência religiosa. Interações da fé. Visão panorâmica das grandes fases da história da teologia: comunidades primitivas, patrística, medieval, moderna e contemporânea. Enfoques teológicos. Objetivo geral Os alunos de Introdução à Teologia do curso de Bacharelado em Teologia, na modalidade EAD do Claretiano, dado o Sistema Gerenciador de Aprendizagem e suas ferramentas, serão capazes de reconhecer e analisar um panorama epistemológico da ciência teológica, suas regras, seu objeto e sua relação com outros ramos da ciência e interpretar, por meio de uma breve apresentação histórica, a construção desta ciência, como se faz teologia, quais os instrumentais e mediações, sua relação com as outras disciplinas e com a realidade social e eclesial. Com esse intuito, os alunos contarão com recursos técnico-pedagógicos facilitadores de aprendizagem, como Material Didático Mediacional, bibliotecas físicas e virtuais, ambiente virtual e acompanhamento do tutor complementado por debates no Fórum e na Lista. Ao final desta disciplina, de acordo com a proposta orientada pelo tutor, os alunos terão condições de interagir com argumentos contundentes, além de dissertar com comparações e demonstrações sobre o tema estudado nesta disciplina, elaborar um resumo, ou uma síntese, entre outras atividades. Para esse fim, levarão em consideração as ideias debatidas na Sala de Aula Virtual, por meio de suas ferramentas, bem como o que produziram durante o estudo. GUIA DE DISCIPLINA CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – BatataisVIII Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica Objetivos específicos Lidar com o instrumental teórico básico da disciplina: introdução, método, • conceito e natureza da Teologia. Reconhecer a tarefa e os objetivos da teologia.• Analisar as interações da fé.• Interpretar, por meio de uma visão panorâmica, as grandes fases da história • da teologia. Reconhecer e analisar os enfoques teológicos. • Competências (domínios cognitivos, habilidades e atitudes) Ao final deste estudo, os alunos do curso de Bacharelado em Teologia contarão com uma sólida base teórica para fundamentar criticamente sua prática profissional. Além disso, adquirirão não somente habilidades para cumprir seu papel nesta área do saber, mas também para agir com ética e com responsabilidade social, duas atitudes que contribuirão para sua formação integral. Modalidade ( ) Presencial ( x ) A distância Duração e carga horária A carga horária da disciplina Introdução à Teologia é de 30 horas. O conteúdo programático para o estudo das sete unidades que a compõe está desenvolvido no Caderno de referência de conteúdo, anexo a este Guia de disciplina, e os exercícios propostos constam do Caderno de atividades e interatividades (CAI). ATENÇÃO! É importante que você releia no Guia Acadêmico do seu curso as informações referentes à Metodologia e à Forma de Avaliação da disciplina Introdução à Teologia, descritas pelo tutor na ferramenta “cronograma” na Sala de Aula Virtual – SAV. 3 CONSIDERAÇÕES Neste Guia de disciplina, você teve a possibilidade de encontrar informações práticas e orientações para a sua trajetória acadêmica em relação à disciplina Introdução à Teologia. Para obter maiores informações sobre a metodologia de ensino e sobre o método de avaliação, você poderá consultar o Guia acadêmico. O próximo passo será conhecer o Caderno de referência do conteúdo. Nele, estarão os conteúdos da disciplina em questão, divididos em unidades. Serão conteúdos referenciais, que se oferecem com a intenção de facilitar a compreensão da Teologia. Boa participação e bom estudo! GUIA DE DISCIPLINA Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano IX Versão para impressão econômica 4 BIBLIOGRAFIA ALSZEGHY, Zoltan; FLICK, Mauricio. Como se faz teologia. São Paulo: Paulinas, 1970. DOS ANJOS, Márcio Fabri (Org.). Teologia e novos paradigmas. São Paulo: Loyola, 1996. BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico. Petrópolis: Vozes, 1998. ______. Conselhos a um jovem teólogo. In: Perspectivas teológicas, n. 31, p. 77-96, 1999. ______. Teologia e prática. Teologia do político e suas mediações. Petrópolis: Vozes, 1993. BOFF, Leonardo; BOFF, Clodovis. Como fazer teologia da libertação. Petrópolis: Vozes, 1993. FORTE, Bruno. Teoria em diálogo. Para quem quer e para quem não quer saber nada disso. São Paulo: Loyola, 2002. GEFFRÉ, C. Como fazer teologia hoje. São Paulo: Paulinas, 1989. ______. Crer e interpretar - a virada hermenêutica da teologia. Petrópolis: Vozes, 2004. GONÇALVES, Paulo Sérgio Lopes. Epistemologia e método sistemático da TDL - REB 60. p. 145-179,forma, o conhecimento oriundo da relação do sujeito com o objeto é inato ao ser humano e imbuído do poder de externar, no objeto, o conteúdo da subjetividade racional humana. A teologia assume posição de defesa, reafirma que o sistema aristotélico- tomista constitui a filosofia verdadeira. Surge a neoescolástica, principal base do Concílio Vaticano I (11 out. 1962 – 08 dez. 1965), centralizada na questão do primado de Pedro e a infalibilidade papal. Esta teologia nega-se a dialogar com o mundo moderno, ao contrário, busca combatê-lo, olhando para o passado com nostalgia e apelando para uma visão da cristandade. INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR: A teologia desenvolve-se, sobretudo, em três grandes áreas: fundamental, dogmática e moral. Na fundamental, prevalece a apologética, contra os incrédulos, funda racionalmente a necessidade de uma religião e divindade do cristianismo católico. A teologia dogmática segue o método regressivo, isto é, parte de uma tese para ser confirmado pelo ensinamento do magistério eclesiástico. Sua legitimidade encontra-se na Escritura, em perfeita continuidade, presente nas expressões de fé católica patrística e medieval. A moral estrutura-se, sobretudo, a partir da lei (divina, natural e positiva) e dos dez mandamentos. A compreensão reduzida da teologia como teologia dogmática e a ausência da reflexão histórica na reflexão teológica fizeram da teologia algo abstrato e cerebral de pouco interesse para as comunidades. Desse modo, a teologia torna-se algo para especialistas, algo muito complicado e de pouca importância para a fé popular. Com isso, as comunidades – a Igreja, povo de Deus – se esquecem de que elas são o sujeito principal da teologia. 5 TEOLOGIA CONTEMPORÂNEA O movimento de renovação teológica tem seu maior impulso no século 20. Nesse período, a vertente teológica protestante desenvolve um caminho especulativo que reflete a verdade sobre Deus, tendo em vista o profundo da realidade humana, individual PARA VOCÊ REFLETIR: Podemos pensar que esse estado acadêmico e abstrato da teologia seria o motivo de todo o seu desenvolvimento posterior rumo a uma teologia da vida e da realidade humana, social e natural, e que culminaria na Teologia da Libertação? Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 55 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 e social, com base na encarnação histórica do verbo divino denotativo da dialética da Palavra e assumindo a categoria história como relevante e pertinente à compreensão da revelação de Deus. A teologia católica, por sua vez, desenvolveu-se em percurso de contemporaneidade, efetuando-se como complexo teórico aberto, plural e dialógico. Nesse sentido, emergiu a teologia transcendental, que afirmou o caráter antropológico da teologia, demonstrando a impossibilidade da compreensão de Deus sem voltar-se para a realidade do ser humano. O transcendental foi caracterizado como a condição de possibilidade e estrutura do espírito infinito no mundo, presente a priori3 no espírito humano. Para a afirmação da teologia transcendental, foi importante também o desenvolvimento da teologia da história, presente no movimento Nouvelle Théologie das escolas de Lyon e Saulchoir, levadas a cabo pelos jesuítas e pelos dominicanos respectivamente. A história foi vista como uma categoria referente ao campo dos acontecimentos humanos em que o ser humano é manifestado como seu sujeito e produtor. Nessa produção, Deus se revela, utilizando-se do tempo e do espaço em que o ser humano está situado. Dessas correntes, emergem os temas do ecumenismo, do diálogo inter-religioso, do relacionamento entre fé cristã e ciência, entre cristianismo e ateísmo. Com base na perspectiva conciliar de abertura e de diálogo da teologia com o mundo, presente também na vertente protestante, surgiram novas formulações teológicas comprometidas com a afirmação da práxis. Assim devem ser entendidas as teologias da experiência, da esperança e política, as quais não são temas teológicos, mas novas perspectivas teológicas. São novas teologias de cunho fundamental que apresentam a incidência do sujeito humano na história, promovendo uma práxis efetivamente transformadora do mundo. Com isso, a experiência modifica-se em um elemento crucial para a elaboração de tratados teológicos que não apenas expressem caráter doutrinal, mas também apresentem caráter hermenêutico de atualização da fé positiva, teorizada com base em um lócus experiencial efetivo da realidade humana. A política permite à teologia ser narração, memória e solidariedade, relembrando o evento Jesus Cristo em contexto de vinda iminente do Reino, sendo um sinal eficaz desse mesmo Reino na história e proporcionando uma atuação de proximidade com os seres humanos privados de viver abundantemente na história. Da formulação das teologias da práxis, emergem as teologias da libertação latino-americana, feminista, negra norte-americana, africana, sul-africana, asiática e do pluralismo religioso. Essas teologias, denominadas contextuais, do gênero e da cultura denotam o espírito de historicidade e de diálogo desencadeado na formulação de complexos teológicos pelo Concílio Vaticano II. Alguns pontos são comuns nessas teologias: (3) A priori: Rubrica: filosofia. que não depende da facticidade, de nenhuma forma de experiência, por ser gerado no interior da própria razão (diz-se de raciocínio, método, conhecimento etc.) [Pensadores racionalistas como Descartes, Leibniz ou Kant afirmam a existência desse tipo de conhecimento; empiristas como Locke ou Hume o negam.] 2 Rubrica: filosofia. que explica um fenômeno designando a sua causa (diz-se de conhecimento, demonstração etc.); 3 Derivação: por extensão de sentido (da acp. 1). afirmado ou estabelecido sem exame, análise ou verificação; pressuposto. 4 Derivação: por extensão de sentido (da acp. 1). relativo a ou que resulta de raciocínio ou dedução cujos princípios ou definições foram dados inicialmente (DICIONÁRIO HOUAISS). CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais56 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 A articulação entre fé positiva e o lócus dos pobres no sentido econômico, a) político, social, cultural e religioso. O clamor dos pobres pela justiça, o seu sofrimento, a sua morte prematura e a sua esperança de um novum mundano tornam-se o lugar epistemológico de produção teológica. A partir desse lugar, efetua-se uma nova leitura da Escritura e da Tradição teológica - fé positiva – tornando-as efetivamente atuais e eficazes. A demonstração de que a esperança possui um lugar concreto de realização b) e que os pobres possuem força histórica transformadora e evangelizadora. A não-redução da categoria pobre ao seu c) status econômico, mas que abarca também a condição política, social, cultural e religiosa. Pobre é o assalariado explorado em sua força de trabalho, é o negro marginalizado, é a mulher vítima do machismo uxoricida, é o ancião visto em sua não-produtividade, é o jovem sem trabalho e drogado, é a criança que vive nas ruas sem ter onde reclinar a cabeça, é todo aquele que não tem terra nem casa para habitar. A dialética entre o universal e o particular, porque são teologias produzidas em d) totalidade contextual determinada e específica, mas são sempre complexos teológicos marcados pela articulação entre o auditus fidei e o intellectus fidei. A pluralidade que caracteriza a atualidade da história, possibilitando a e) percepção do diferente religioso, cultural, étnico, político, bem como o de gênero. A seguir, estudaremos algumas correntes teológicas atuais. 6 CORRENTES TEOLÓGICAS ATUAIS Dando início aos nossos estudos sobre as correntes teológicas da atualidade, vamos tratar, agora, da teologia da libertação. Teologia da libertação: questões de base Quais seriam as questões de base da Teologia da Libertação? Vejamos: Como falar de Deus a partir de umarealidade de miséria e opressão?f) Se Deus é bom, por que o mundo é dominado pela injustiça e pela morte?g) Como falar de Deus para os pobres e miseráveis de nossa realidade?h) O que é salvação?i) O que é libertação?j) Qual a relação que existe entre fé e política, fé e realidade socioeconômica?k) Até que ponto a fé pode se tornar ideologizante e alienante?l) O que é possuir uma fé libertadora?m) O que é teologia da libertação? Para responder a esta questão, observe atentamente o esquema a seguir: Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 57 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 Teologia Revelação divina na História Peregrinação do ser humano ao Reino de Deus da libertação Dimensão coletiva e pessoal da existência humana Deus em sua imanência e transcendência Nesta ótica, teologia é o ato segundo, não neutro. O ato primeiro é a decisão, a opção pelos pobres e pela sua libertação, que se torna perspectiva da práxis e da teoria cristã. A teologia da libertação é a reflexão crítica sobre a experiência de fé vivida pelos fiéis nos processos históricos de libertação dos pobres. Não haveria teologia da libertação se não houvesse pobres, a sua tomada de consciência e a sua organização para lutar contra os mecanismos da injustiça e da exclusão; não existiria esta teologia se não houvesse a presença ativa de crentes, cristãos e não-cristãos nessas lutas pela libertação das grandes maiorias empobrecidas e sofredoras. Note que, por meio dessa categoria (libertação), a teologia reflete a presença de Deus nos movimentos que promovem a vida dos pobres e concretizam a justiça na luta contra a opressão. Reflete sobre o ser humano livre, solidário, capaz de acolher a graça para derrotar o pecado. Mediação dos instrumentos científicos A medição dos instrumentos científicos: Usa da mediação analítica das ciências humanas para reconhecer melhor os a) mecanismos do empobrecimento, da exclusão e do sofrimento do povo. Usa da mediação das ciências hermenêuticas, que servem para interpretar b) a Bíblia e os textos do passado a partir do ponto de vista da atual situação dos pobres. Usa da mediação da prática, que traz consigo uma carga crítica e criativa em c) relação à teoria, para mudar a realidade e para reformular melhor o sentido da fé na diversidade das situações. Fé positiva opção pelos Pobres = Libertação Totalizante Tal articulação possibilita a realização do escopo fundamental da teologia da libertação: refletir o Deus bom num mundo marcado pela opressão e pela morte prematura dos pobres. Fé Práxis histórica = ortopráxis CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais58 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 A ortopráxis na teologia da libertação foi efetivada, gradual e processualmente, mediante as necessidades históricas da AL e dos apelos da tradição teológico-eclesial. História da teologia da libertação 1a Fase – gestação, gênese e desenvolvimento: Teologia política libertadora: cristologia e eclesiologia A primeira obra relacionada à teologia da libertação foi Teologia de la Liberación, de 1971, escrita por G. Gutierrez. A obra trouxe como novidade metodológica a articulação da teologia com as ciências sociais, a elaboração dos conceitos fundamentais, a reorientação dos grandes temas da existência cristã a partir da libertação dos pobres, a indicação de uma espiritualidade construída a partir da práxis libertadora. 2a Fase – consolidação, revisão e ampliação de horizontes: Sua relevância para o Magistério da Igreja Compreende os anos de 1972-79, obras como a de H. Assmann, Teologia desde la práxis de la liberación e a de J. L. Segundo, Liberación de la teologia demonstram a elaboração básica de um complexo teórico. A teologia da libertação passa a adquirir importância significativa para a práxis da América Latina, para a fomentação de uma teologia do Terceiro Mundo, para os teólogos dos grandes centros de produção teológica e para o episcopado latino-americano. Já o período de revisão compreende os anos de 1979-87 e caracteriza-se pelo amadurecimento da teologia da libertação em meio a diversos conflitos com a sociedade e com a hierarquia. Estatuto teórico da teologia da libertação Pobre O pobre é o centro epistemológico da teologia da libertação por provocar indignação ética e por possibilitar uma experiência mística ao encontro do Senhor. Os pobres são divididos em três níveis: econômico – trabalhadores do campo e da cidade e todos os a) marginalizados; sociocultural – negros, índios e mulheres;b) socioantropológico – idosos, drogados, homossexuais, deficientes físicos e c) mentais. No âmbito místico-espiritual, o pobre denota um mundo de irrupção, de alegria e de concretização da esperança na construção de uma nova história. Libertação Trata-se de uma libertação integral, cuja primazia pertence à libertação soteriológica4. Esta primazia é realizada na prioridade da libertação histórica dos pobres como ponto de partida para a realização da salvação histórica. Libertação é libertação da miséria dos pobres e a libertação soteriológica de Deus realizada na potencialidade teologal da morte e ressurreição de Jesus. A libertação integral assemelha-se conceitualmente à redenção. A totalidade da práxis histórica da fé confronta-se com a real situação de opressão e de pecado. A libertação significa o desenvolvimento da vocação humana de realizar com Deus o Reino em sua amplidão. INFORMAÇÃO: Numa dimensão analítica, os pobres são raças desprezadas, classes sociais exploradas, povos dominados, culturas marginalizadas que mostram o seu rosto sofredor. (4) Soteriologia: Acepções: substantivo feminino. Rubrica: teologia. 1 parte da teologia que trata da salvação do Homem.1.1 doutrina da salvação da humanidade por Jesus Cristo. Fonte: Disponível em: http:// houaiss.uol.com.br/busca. jhtm?verbete=soteriologia. Acesso em: 20 jan. 2007. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 59 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 Práxis da libertação É aquela ação refletida que transforma a realidade numa perspectiva de futuro para o outro, sobretudo o pobre. Situa-se entre a realidade de opressão e dominação existente e a nova situação de libertação a ser criada por ela. Para isso, necessita ser teoricamente lúcida e praticamente eficaz. A lucidez teórica lhe esclarece o verdadeiro sentido que a ação concreta tem. A eficácia prática torna realidade a lucidez teórica, não como duas coisas separadas e separáveis, mas como duas faces de uma única realidade: a práxis. História É experiência de Deus na vida cotidiana dos pobres, marcada pelo binômio opressão-libertação. Não existem duas histórias (profana e sagrada), mas uma só história, na qual Deus se revela, está presente e salva a humanidade. A história dos oprimidos é história de libertação diante da opressão e é também mediação privilegiada para o encontro com Deus. O Deus transcendente manifesta-se na história, tomando o pobre como canal privilegiado da revelação. O destino da história, o lugar onde o Deus transcendente se revela, é torná-la trans-história que não elimina a história como campo de conflito entre a salvação e a perdição, entre o pecado e a graça, mas denota a total vitória de Deus sobre as forças da morte. Nela, Cristo é o ponto principal que revela um só Deus Pai, uma só criação, um só Reino de Deus, uma só escatologia, um só mundo e uma só humanidade. É o entrelaçamento entre o natural e o sobrenatural, entre Deus e o ser humano, entre o histórico e o mistérico. Mediações da teologia da libertação Análise da realidade Tem o objetivo de analisar a realidade histórica em sua totalidade por intermédio das ciências sociais e das ciências humanas. Hermenêutica É o momento privilegiado da leitura da Bíblia, da tradição e do magistério eclesiástico. Ela não é o substratoteológico puro, mas o momento de explicitação direta da experiência de Deus e seus derivados. O teólogo depois da análise da realidade recorre às fontes do conhecimento teológico para concretizar mais um passo de seu trabalho teológico: compreender especificamente o “hoje” de Deus no processo da revelação. Elabora-se, então, a leitura popular da Bíblia, que articula a letra escriturística com o espírito intrínseco na vida dos pobres. Aprofunda-se, também, a doutrina social da Igreja como instrumento que proporciona uma prática pastoral libertadora. Teórico-práxis É o momento da práxis libertadora. Por meio dela, a teologia da libertação é mostrada como um discurso de incidência histórica que reflete e proporciona a libertação dos pobres da opressão: análise de conjuntura, estabelecimento de projetos e programas históricos viáveis com objetivos a alcançar a curto e a longo prazos, define-se estratégias, sistematiza-se o critério ético-evangélico para apreciar as metas e as medidas propostas para a ação. CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais60 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 A Teologia da Libertação nunca teve Marx como pai nem como padrinho. Ela bebeu primeiramente de sua própria fonte, que é a tradição judaico-cristã, que sempre deu centralidade aos pobres, ao tema da libertação do cativeiro egípcio e babilônico e à prática histórica de Jesus, que foi pobre e disse “felizes de vocês pobres e ai de vós ricos”. E que não morreu tranqüilamente na cama como um piedoso rabino cercado de discípulos, mas na cruz, fruto de um juízo político-religioso que o condenou com o castigo dado a revoltosos sociais. Mas ela encontrou em Marx as boas razões para entender por que o pobre não é pobre, e sim um explorado e injustiçado. Ele é um empobrecido, feito pobre por fatores de ordem econômica, social e cultural, que hoje ganham corpo especialmente no capitalismo. Isso deu lucidez à Teologia da Libertação, mas também atraiu as acusações das classes sociais conservadoras − que sempre usaram a Igreja para legitimar seu projeto, que implicava a exclusão do povo −, e também do Vaticano, que, no contexto da guerra fria, sempre era contra o marxismo e a favor das forças do mundo ocidental. Estes nos viam como aliados dos “inimigos” ou inocentes úteis. E moveram todas as forças contra esse tipo de teologia: desde a difamação, a condenação por autoridades eclesiásticas, até o seqüestro, tortura e assassinato de alguns teólogos e agentes de pastoral (Entrevista com Leonardo Boff por Juarez Guimarães (FPA, 2007)). Teologias da Criação/Ecológica Na teologia, centrada na criação, o mundo criado é sacramental. É o lugar onde Deus revela sua divindade. A revelação não é um evento separado da vida (superação do dualismo: sagrado e profano), que ocorre somente em lugares e espaços sagrados, circunstâncias estranhas e fora do mundo ou mediante palavras ritualísticas. A revelação se dá na vida diária, com palavras ordinárias, por meio de pessoas comuns. Nesta teologia, pode-se falar de “sementes do Verbo”, “sinais do Reino”, “vias legítimas de salvação”. Esta teologia aproxima-se da vida com espírito e imaginação analógica, não dialética, que vê uma continuidade entre a existência humana e a realidade divina. A teologia da criação em contexto, na valorização da criação, não é ingênua diante do mundo, olhando seu aspecto positivo e esquecendo a dimensão do pecado. Esta teologia não nega a realidade pecaminosa e caótica da criação. O pecado, contudo, é visto como aberração do mundo bom feito por Deus, e a única forma de se confrontar com esta realidade é com o poder do bem e do belo. O termo ecologia é compreendido em um sentido mais amplo do que sua definição científica estrita; significa compreender a nós mesmos e nosso ambiente como parte da natureza. O conceito da ecologia traz em si a necessidade de encontrar nosso lugar no ecossistema. Teologia ecológica é compreender-nos como parte da criação de Deus. Com ligações inseparáveis dos seres humanos com o planeta. Os princípios da teologia ecológica são um conjunto de convicções religiosas e ao mesmo tempo uma espiritualidade que afirma a importância do respeito pela terra e por todos seus habitantes, usando-se somente os recursos que são necessários e apropriados, reconhecendo os direitos de todas as formas da vida, e reconhecendo que tudo que existe é parte de um todo. Deus quer salvar todas as suas criaturas. Desse modo, uma teologia ecológica que pretende a vida do planeta tem como tarefa a reconciliação e harmonia do ser humano com a natureza. Concretamente, ela deverá ajudar as comunidades de fé a reconhecer o valor intrínseco da natureza, fomentar uma vida de maior simplicidade e orientar o uso dos bens da natureza que pertencem a todos. ATENÇÃO! Para saber mais, confira: TRACY, D. Dar nome ao presente. In: Concilium, 227 (1994/1) 66-87. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 61 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 Além disso, promoverá o princípio da sustentabilidade que nasce da consciência de que nosso planeta possui recursos limitados. A tecnologia precisa ser julgada a partir de critérios éticos ecológicos. Na ótica do cuidado, promoverá uma consciência crítica ante a sociedade do mercado, na qual tudo tem um valor de consumo, e cuidará de nossa tendência consumista. Viver a fé será também adquirir hábitos de reciclar tudo que for possível. Tarefas de uma teologia da criação hoje Compreender a natureza como “criação”, ou seja, como contingência, como a) finitude, sem ser nem divina nem demoníaca. Ajudar a sociedade humana passar de um paradigma5 da conquista predatória da natureza para a cooperação e o cuidado de todas as formas de vida. Partir das diversas ciências da terra, aprender seu funcionamento e b) dinamismo, para melhor compreender teologicamente a criação como dom de Deus. Teologias do Pluralismo Religioso Pluralismo religioso é um fato e, mais do que a tolerância do diferente, está se tornando uma nova consciência de que a realidade e o modo como as coisas são e funcionam são compostos de formas diversas. No contexto do pluralismo religioso, sente-se o desafio do “um” e dos “muitos”. Se não é possível existir somente uma religião, certamente não podem existir simplesmente muitas. Neste dilema, quais são as alternativas de saída? A religião e seus pluralismos podem ser abordados de diferentes pontos de vista. A abordagem, aqui adotada, para analisar o fenômeno parte da relação entre secularização e pluralismo religioso. No contexto da chamada pós-modernidade, uma das crises vividas pela sociedade é a descrença nos pólos de legitimação da sociedade. Um desses pólos é a religião como instituição reguladora do pensamento e ação de uma coletividade. As religiões perdem o poder de submissão voluntária, fazendo nascer, a partir do subjetivismo exacerbado da pós-modernidade, a religião do mercado e o subjetivismo religioso, fontes básicas do pluralismo religioso. Desse modo, pluralismo religioso é um processo para se chegar à unidade. Nele, cada um dos elementos envolvidos (religiões) se sente habilitado a perder algo de sua individualidade (seu ego separado), para intensificar seus elementos radicais (adquirir autoconsciência por meio da relação). Neste processo, cada religião retém o que lhe é único e essencial. Contudo, neste único e essencial, a religião desenvolve e toma novos rumos mediante o relacionamento com as outras religiões envolvidas, descobrindo-se, deste modo, uma dependência mútua entre elas. As religiões conservam cada uma sua própria identidade, mas, na comunicação com outras tradições religiosas, elas reencontram sua própria identidade de um modo renovado. O pluralismo religioso é uma forma de colaboração e cooperação entre as religiões e tradições religiosas. Isso exige uma atitude respeitosa do outro, decisão de aprenderdo (5) Paradigma: um exemplo que serve como modelo; padrão. Rubrica: gramática: conjunto de formas vocabulares que servem de modelo para um sistema de flexão ou de derivação (p.ex.: na declinação, na conjugação etc.); padrão. 3 Rubrica: lingüística estrutural. Conjunto dos termos substituíveis entre si numa mesma posição da estrutura a que pertencem. Etimologia. gr. parádeigma,atos ‘modelo, exemplo’, do v. paradeíknumi ‘pôr em relação, em paralelo, mostrar’, pelo b.-lat. paradígma,átis ‘id.’; a acp. de ling.est é emprt. ao fr. paradigme ‘id.’; ver par(a) (DICIONÁRIO HOUAISS). CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais62 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 outro e com o outro, pelo diálogo. É uma tentativa de se construir uma comunidade feita de comunidades, com suas diferenças de expressão religiosa. Nesse sentido, o esforço de um pluralismo “unidade na diversidade” parece ser um imperativo no mundo contemporâneo. As várias comunidades religiosas, que se empenham na unidade, devem ser um modelo prático de convivência humana. No contexto do pluralismo religioso, nenhuma religião pode pretender uma posição privilegiada de se autoproclamar como exclusiva, absoluta e finalizada. Ao contrário, é chamada a ver-se em um contexto pluralístico, como um dos tantos ramos da vida religiosa, por meio do qual os seres humanos podem estar relacionados com esta Realidade Última, para a sua salvação. Exclusivismo da teologia das religiões Esse posicionamento exclusivista6 católico, que “teve seu equivalente protestante igualmente enfático na convicção de que fora do cristianismo não há salvação” (HICK, 1998, p. 13-14), tinha como base de sustentação a crença de que a igreja católica era a única e absoluta “[...] instituição divinamente constituída no sentido da salvação de todos os homens em Jesus Cristo” (CONGAR, 1964, p. 410). Daí que todas as pessoas deveriam estar ou ser trazidas para dentro dela a qualquer custo, ainda em vida, caso contrário, acabariam no “[...] fogo eterno, ‘preparado para o diabo e seus anjos’ (Mt 25,41) [...]”. Característica marcante dessa visão e modo de agir é a sua pretensão de uma universalidade ampla, geral e irrestrita, um cristianismo absoluto. Inclusivismo da teologia da religiões Visão cristocêntrica inclusivista – ligação do Deus único a toda a realidade. Inclusivismo é o consenso ou “quase consenso” (HICK, 1998, A metáfora do Deus encarnado, p. 22) de se abandonar o antigo exclusivismo. Oficializada na igreja católica basicamente a partir do Concílio Vaticano II, essa posição teológica atribui valor positivo às demais religiões; aceita que Deus tenha-se revelado também em seus fundadores e as reconhece como mediações salvíficas para seus membros, só que não à margem de Jesus Cristo. Claramente cristocêntrica, essa posição apresenta dois modelos iniciais: a “teoria do acabamento”, em que as religiões não-cristãs, naturais, são destinadas a encontrar o seu “acabamento” (remate) no cristianismo, e a “teoria da presença de Cristo nas religiões”, em que se afirma que nos valores soteriológicos positivos das diversas tradições religiosas da humanidade está a presença operativa de Jesus Cristo. É grande o avanço proporcionado por essa última! Para Schillebeeckx, “Karl Rahner deu um passo avante” e mesmo “as afirmações abertas do Concílio Vaticano II em ‘Lumen gentium’, ‘Nostra aetate’ e ‘Ad gentes’ [...] não foram, ao menos literalmente, tão longe”. Mas, ao negar a autonomia salvífica às demais religiões, essas teorias, cada uma a seu modo, e de uma outra forma, mantêm o cristianismo absoluto e a pretensão de universalidade ampla, geral e irrestrita do antigo exclusivismo. Um terceiro modelo, denominado de “inclusivismo aberto”, busca responder positivamente à questão da diversidade das religiões, “aceitando a interlocução fecundante do pluralismo”. De tal interlocução, surgem pontos comuns e, também, questionamentos mútuos. (6) Extra eclesiam nulla salus – ligação de toda a realidade ao único Deus. O centralizador axioma exclusivista católico- romano teve sua origem no século 3º com Orígenes e Cipriano, tendo sido retomado no Concílio de Florença (1442) a partir de seu sentido mais absoluto, aquele utilizado por Fulgêncio de Ruspe (468-533), discípulo de Agostinho. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 63 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 O reconhecimento de valores intrínsecos às demais tradições religiosas, a grande abertura ao diálogo inter-religioso e a negação de uma atitude fundamentalista são alguns pontos de aproximação, e as maiores crispações giram em torno dos seguintes temas: identidade cristã, relativismo, unicidade de Jesus Cristo, reserva escatológica etc. Pluralismo – a revolução copernicana No âmbito da teologia das religiões, os teólogos desse novo paradigma aderem à “revolução copernicana” (HICK, 1998, p. 23), segundo a qual, assim como os planetas giram em torno do sol, todas as religiões estão voltadas para Deus. Afirmam, com Hick (2001, p. 114), que a pretensão de tornar “as grandes religiões mundiais [...] dependentes secretamente da cruz de Cristo” equivale a fazer uma inversão na revolução copernicana, na qual “os raios solares que concedem a vida somente podem atingir os outros planetas se forem antes refletidos a partir da Terra” (HICK, 1998, p. 24). Toda religião que pretenda qualquer tipo de superioridade última deve poder demonstrar essa condição historicamente, colocando-a “como uma questão empírica a ser resolvida (se é que pode ser resolvida) pelo exame dos fatos” (HICK, 1998, p. 24). A alternativa à solução empírica seria a fé – que só é válida para os que dela comungam – ou, então, esperar até que “se produza a ‘verificação escatológica’” (do grego, tà eschatoi, as últimas coisas ou as coisas do fim), pois até que a “última curva” (HICK) não seja dobrada, nada se saberá de maneira definitiva. É no contexto dessa conceituação de paradigma que o presente estudo se move. Pontos interessantes para um desenvolvimento das Teologias do Pluralismo Religioso : Os três esquemas teológicos atuais de compreensão do problema - a) exclusivismo, inclusivismo e pluralismo. O valor salvífico das religiões não-cristãs. b) O pluralismo de religiões na história - um pluralismo de fato ou de direito, c) tolerado ou querido por Deus? Plenitude da revelação cristã – uma plenitude quantitativa ou qualitativa? d) O “privilégio” de ser povo “eleito” – qual é seu sentido? e) Todas as religiões são “verdadeiras” – em que sentido? f) O “proselitismo” é pecado – em que sentido? g) Sentido atual (e sentidos que já caducaram) da Missão evangelizadora.h) O pluralismo religioso, o encontro das religiões do mundo, o diálogo religioso, é um tema felizmente “de moda”, o tema do futuro, que durante um bom tempo deverá ser visto como a temática religiosa do novo milênio. Eu, como estudante de teologia, o conheço? Há ainda algo que devo estudar? Caio na conta de que não é um tema somente “teológico”, mas que tem conseqüências “teologais”, que afetam diretamente a imagem que eu possa ter de Deus e por isso mesmo as minhas relações com Ele, e que tal imagem é a mediação inevitável? 7 CONSIDERAÇÕES De seu trajeto histórico, podemos assinalar que a Teologia, após o evangelho dos apóstolos, no cenário mais antigo do cristianismo, se fortaleceu com o instrumental INFORMAÇÃO: Nicolau Copérnico (Toruń, 19 de Fevereiro de 1473 — Frauenburgo, 24 de Maio de 1543) foi um astrónomo e matemático polaco que desenvolveu a teoria heliocêntrica do Sistema Solar. Foi também cónego da Igreja, governador e administrador, jurista, astrólogo e médico. Fonte: Disponível em: http:// pt.wikipedia.org/wiki/ Cop%C3%A9rnico. Acesso em: 20 jan. 2007. PARA VOCÊ REFLETIR: Analisando etapas históricas da teologia, faça um levantamento das questões fundamentais edo modo como são elaborados os conteúdos próprios. Escolha uma corrente teológica e faça um esboço sintético de seus conteúdos e metodologias particulares CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais64 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 filosófico herdado dos gregos, na Idade Média, ganhando até mesmo o estatuto de ciência da fé. Na modernidade, o antropocentrismo predominou fortemente e a Teologia assume um papel defensivo e abstrato, que iria ser sua principal atitude diante das correntes filosóficas emergentes, o que a levaria a um distanciamento da comunidade. No século 20, seu desenvolvimento foi notável pela adoção da historicidade como pertinente à compreensão da revelação de Deus e pela abertura ao campo do humano, condição agora inevitável de seu processo. Daí a abraçar a realidade individual e social do homem foi um passo. Surge a teologia da libertação, cuja adoção dos pobres e da miséria humana em todos os aspectos em que se apresenta passou a ser sua razão de existir. Note-se nisso a coincidência de atitude e ação com o primeiro cristianismo dos apóstolos, cingindo, assim, os dois mundos num só e definitivo e estabelecendo a base viva da Teologia de hoje. 8 AUTO-AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM Neste momento, convidamos você a fazer uma auto-avaliação de sua aprendizagem sobre os conteúdos estudados na Unidade 6. Tente responder para si mesmo: O que você entendeu por visão histórica da elaboração teológica?a) Tenho dúvidas a eliminar? Quais? b) Que temas ainda preciso pesquisar? c) Utilizei estratégias que facilitaram o estudo e a compreensão dos conteúdos? d) Quais? Lembre-se de que, caso necessite de ajuda, estaremos à disposição na Sala de Aula Virtual. 9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AAVV. Teologia Latino-Americana pluralista da libertação. São Paulo: Paulinas, 2006. BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico. Petrópolis: Vozes, 1998. LIBANIO, J. B. Eu creio nós cremos. São Paulo: Loyola, 2000. GIBELLINI, R. A teologia do século XX. São Paulo: Loyola, 1998. 10 E-REFERÊNCIAS FPA. Home page. Disponível em: . Acesso em: 19 jan. 2007. WIKIPÉDIA. Home page. Fonte: Disponível em: . Acesso em: 20 jan. 2007. ATENÇÃO! No AAVV sugerimos que leia, especialmente, o artigo de Marcelo de Barros, disponibilizado nas páginas: 103-119. ATENÇÃO! Na obra de Gibellini (1998) é importante que leia os capítulos: XII, XIII, XIV, XV. Objetivos Obter uma visão geral da organização do conhecimento • teológico a partir dos conteúdos básicos e metodologias teológicas. Interpretar o que é um enfoque teológico e como ele é • elaborado. Detectar os elementos básicos de cada enfoque e • saber valorizar seus elementos particulares para o enriquecimento da totalidade do conhecimento teológico. Conteúdos Teologia e sua comunidade de fé.• Teologia e seu conteúdo• . Teologia e seu método• . Enfoques teológicos• . ENFOQUES TEOLÓGICOS U N ID A D E 7 CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais66 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 7 1 INTRODUÇÃO Na unidade anterior, você pôde adquirir uma visão histórica da elaboração teológica, compreender as etapas, conteúdos próprios, agentes e metodologias da teologia além de aprender a fazer teologia olhando para a maneira como foi elaborada, descobrindo seus contextos e questões teológicas próprias de cada etapa histórica. Agora, você será convidado a estudar a organização do conhecimento teológico com base nos conteúdos básicos e metodologias teológicas, a interpretar o que é um enfoque teológico e como ele é elaborado bem como a entender os elementos básicos de cada enfoque e saber valorizar seus elementos particulares para o enriquecimento da totalidade do conhecimento teológico. Bom estudo! 2 TEOLOGIA E SUA COMUNIDADE DE FÉ Existem diferentes tipos de teologia. A interpretação da fé se diferencia com base na comunidade de fé. Em seu interior ela nasce e subsiste. Sua tarefa é dar uma interpretação à própria comunidade de fé de onde ela se origina. Há uma teologia cristã, mas dentro dela se encontram várias interpretações a) de fé: teologia protestante, católica, anglicana, ortodoxa e outras. Há também uma teologia judaica, islâmica e tantos outros tipos de teologia b) de acordo com as várias tradições religiosas. Qualquer intento ou busca autoconsciente de compreender melhor o que se c) crê sobre Deus, sobre o sentido da vida, de esperança para o futuro e sobre as obrigações morais é um esforço teológico em diferentes níveis. Para compreender melhor, vejamos no quadro a seguir a teologia e seu conteúdo: TEOLOGIA CONTEÚDO Dogmática Interpreta a fé que foi sendo expressa nos ensinamentos ofi ciais da Igreja (diferença entre dogma e doutrina). Moral Interpreta o impacto da fé sobre as nossas atitudes, motivos, valores e comportamentos. Espiritual Ascética Sua atenção se volta para a transformação interior infl uenciada pela fé e a graça (ação do Espírito Santo) no coração e mente humana. Pastoral Busca compreender e articular as implicações da fé sobre a situação atual da Igreja na história e no contexto local, especifi camente, na pregação, ministérios, pastorais e outras. Litúrgica (Sacramental) Interpreta o signifi cado da fé assim como são apresentados nos rituais e na vida sacramental da Igreja. Agora, observe a teologia e seu método: ATENÇÃO! Esteja atento (a) as orientações e procedimentos para o estudo dessa unidade e as semanas em que será desenvolvida. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 67 Versão para impressão econômica UNIDADE 7 TEOLOGIA MÉTODO Histórica Procura compreender e interpretar a fé, a partir de sua articulação nas fontes históricas principais, tais como na Bíblia, nos escritos da Igreja primitiva, concílios, as grandes controvérsias teológicas do século passado. Bíblica É uma subdivisão da teologia histórica. Pretende compreender a fé assim como é apresentada e comunicada nas páginas da Sagrada Escritura. Grande parte da teologia, até o século XX era teologia bíblica. Patrística É um tipo de teologia histórica. Tem a mesma intenção da teologia bíblica, mas em referência aos escritos das primeiras testemunhas da Igreja. Doutrinal Pode ser vista como uma subdivisão da teologia histórica, na medida em que pretende examinar o ensinamento ofi cial da Igreja em sua evolução histórica. examiamiamiamiaminar Teologia pode ser Especulativa Ela difere da teologia histórica, porque procura entender a fé à luz dos melhores conhecimentos e experiências contemporâneas, não limitando sua pesquisa somente ao aspecto histórico ou qualquer outra fonte dada, tal como a Bíblia ou a doutrina. Teologia Sistemática Esta engloba todos os tipos de teologias referidas acima. Ela é compreensiva em seu método. Procura entender e articular os diversos aspectos da teologia cristã através de exame da relação de cada parte com o todo. No próximo item estudaremos os enfoques teológicos. 3 ENFOQUES TEOLÓGICOS Nos anos do pós-guerra, como reação às abstrações de certa teologia neo- escolástica e para fazer frente a novos problemas emergentes, afirmaram-se as chamadas “teologias do genitivo”, como por exemplo — para relembrar as mais conhecidas e melhor elaboradas - “a teologia das realidades terrestres” (Thils) e a “teologia do trabalho” (Chenu). Nas teologias do genitivo, o genitivo (objetivo) exprime o âmbito, o setor da realidade, o objeto, sobre o qual se aplica a reflexão teológica. As teologias do genitivo são teologias chamadas de “setoriais”, e servem para dar mobilidade e concretude ao discurso teológico. Elas são de alguma forma, inevitáveis, mas pode-se abusar delas na medida em que os genitivos podem ser acriticamente multiplicados e nem sempre delimitam,sob o perfil metodológico, um adequado campo de pesquisa e de reflexão teológica. Nas teologias do genitivo escolhe-se como objeto de estudo teológico um tema, um aspecto da realidade, usando mediação hermenêutica teológica corrente. Tema, aspecto da realidade ATENÇÃO! Católicos confundem teologia doutrinal com a dogmática, como se a teologia cristã fosse somente uma reflexão crítica e defesa do ensinamento oficial da Igreja. Protestantes, algumas vezes, confundem teologia bíblica com o todo da teologia cristã como se a teologia fosse somente uma reflexão crítica sobre a mensagem bíblica. CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais68 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 7 Tema, aspecto da realidade Mediação hermenêutica teológica D ecifrar à luz da fé um setor ou aspecto da existência humana TEOLOGIAS DO GENITIVO ENFOQUE TEOLÓGICO - Chave de leitura para compreender e reelaborar toda a teologia ou grande parte dela. O que é um enfoque teológico? É uma perspectiva, ponto de vista global, ótica dominante que orienta o trabalho do teólogo. Elaboração do enfoque teológico Como é possível elaborar um novo enfoque teológico? 1º passo:• Elaborar NOVO ENFOQUE TEOLÓGICO-realidade humana e eclesial. Novas questões tóricas, existenciais, social e espiritual.• 2º passo• : Reler a revelação e a tradição. Processo de suspeita, de construção, crítica. Pode desencadear euforia, efeito inovador ou mal-estar, desconfiança e • temor. 3º passo• : Elaborar ensaios de reconstrução dos grandes temas teológicos, a partir da nova ótica. 4º passo• : Maturidade do enfoque teológico. Observe alguns enfoques teológicos atuais: Meta-sexista = teologia feminista Se quisermos utilizar a categoria de “teologia do genitivo” para dar uma primeira definição da teologia feminista, será preciso dizer que ela é, ao contrário da teologia da mulher, uma teologia do genitivo subjetivo, isto é, uma teologia de mulheres é feita pelas mulheres: “Pela primeira vez, concretamente, as mulheres se tornaram sujeito da própria experiência de fé, da sua formulação e da relativa reflexão, e por isso, sujeito do fazer teologia”, e, somente na dependência deste novo fato cultural e eclesial, a teologia feminista é também uma teologia do genitivo objetivo: mulheres cristãs refletem sobre sua experiência humana e cristã, e provam criticamente sua experiência. Desse modo, a teologia feminista introduz no círculo hermenêutico1 a outra metade da humanidade e da Igreja, enriquecendo a experiência de fé, a sua formulação e as suas expressões. A teologia feminista é a teologia de mulheres cristãs que têm a coragem de “fazer viagem rumo à liberdade”; ela não quer ser unilateral, mas reagir com eficácia à unilateralidade da teologia dominante e prática eclesial, e se apresenta como uma contribuição “à dimensão incompleta da teologia”, em vista de uma autêntica “teologia da integralidade”. (1) O círculo hermenêutico é aquele que liga à experiência do passado fixada nos textos da Bíblia e da tradição à experiência atual da mulher. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 69 Versão para impressão econômica UNIDADE 7 Étnicos = teologia negra e ameríndia Um traço marcante dessa teologia é o fato de que possui uma hierarquia de serviços e não de poder. Isso significa que, não possui um passado marcado pelo poder, como é o caso das Igrejas Católica e Protestante. “Para os negros, mais que para qualquer outro, salvação e libertação formam un todo único, indivisível”. Não há politeísmo na teologia afro-americana, fator que gerou vários preconceitos, provocados por uma ausência de compreensão e conhecimento dessa realidade. Não existe exclusão de idosos e crianças nas celebrações. Aqui, a figura feminina recebe grande importância, pois ela é a responsável pela realização dos encontros. Sem a presença de uma mulher não ocorre o “encontro”, porque ela detém a fonte da vida, a fertilidade, é portadora de axé. Esta teologia privilegia os pobres por serem os preferidos de Deus. “Ela não parte dos princípios gerais, das verdades incontestes ou dos dogmas proclamados. Humildemente, o teólogo da libertação contempla a realidade do povo e identifica nessa realidade os apelos do Senhor”. Não há separação entre corpo e alma, mas uma unidade indivisível. A visão da vida para o africano é a partir de uma “ótica espiritual”. O hoje não é visto como matéria somente, mas como vida humana em relação a algo superior, do além. Neste contexto humano, também estão todas as coisas existentes que, por sua vez, interagem influenciando com seu ser em movimento no outro ser. Assim, a ótica do africano não é o intelectualismo, o pensamento abstrato, mas a partir da experiência prática, concreta, expressando isso através de sinais e símbolos, envoltos de uma força encontrada em toda parte. Ela é energia, é axé, é a vida dinâmica, concreta e mística, essa força é transmitida pelas gerações, pela procriação, ele faz a vida acontecer. O espírito de comunidade é um sinal muito forte na vida dos afro-americanos. “… Deus da vida se revela ao povo negro como Aquele que o ajuda recuperar suas identidades pessoais e comunitárias, que reconstitui seus laços familiares, ampliando o parentesco a partir da fé que o leva a uma vivência comunitária, que o anima na luta contra a opressão...”. Em relação aos ritos, a Deus não se faz sacrifícios, mas oferendas, e estas não são de elementos em escassez, mas dos que há em abundância. Quanto à morte, esta não é um fim, mas a passagem para um novo modo de ser. A resposta de Cristo aos saduceus ilumina essa crença profunda na presença dos antepassados. Deus disse: “Eu sou o Deus de seus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e Deus de Jacó. Ora, Ele não é um Deus de mortos, mas sim de vivos (Mt 22,32)”. INFORMAÇÃO: Na teologia afro-americana, há uma grande valorização dos antepassados, porque se acredita que estes orientam e guiam suas descendências na Terra. CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais70 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 7 A teologia da libertação deu contribuições importantes à teologia afro-americana, de suporte para que esta se desenvolvesse e resgatasse a identidade religiosa negra/ africana na América Latina. De maneira sucinta, há três características imprescindíveis nesta teologia: Deus é criador. a) Aliança entre Deus e a humanidade. b) A religião leva a uma espiritualidade profunda.c) Teologia índia Para os povos indígenas, “Deus” não é uma realidade para ser explicada, mas tem a ver com a sabedoria religiosa que se torna resistência, convivência com o cosmo e natureza. Há múltiplas imagens para se descrever a experiência do transcendente, tanto para expressar as origens como para descrever a condição humana e os acontecimentos. Antes de ser uma busca racional de interpretação da experiência, é experiência cotidiana da vida que depois é expressa de modo mítico-simbólica. No vocabulário indígena existem inúmeros termos para designar o sagrado e o divino. Para expressar o mistério possui uma linguagem muito rica. Neste sentido, e de modo geral, se pode falar de um núcleo teológico que mais especificamente se pode chamar de “teocosmologia” ou “cosmoteologia” devido a seu ponto de partida. A maioria dos povos ameríndios não possui a figura de um Deus único, criador e retribuidor como aconteceu com as religiões monoteístas do Mediterrâneo e Médio Oriente. A religião, na sua essência, possui uma visão redutiva do tempo e do meio ambiente. O elemento utópico é relacional, o presente inclui o passado e o futuro. Este aspecto está presente, principalmente, no rito e na festa. O mundo físico se limita à biosfera ou à floresta e à terra natal. O mundo sociopolítico se encontra, principalmente,na família nuclear, parentes reais ou fictícios, na família extensa (linhagem), nas alianças tribais e intertribais. O mundo metafísico é constituído de heróis mitológicos, monstros, fantasmas, bruxos, espíritos, almas, animais em forma de pessoas que simbolizam o “alter-ego” das pessoas. A visão histórica tem o limite dos antepassados imediatos (quatro ou cinco gerações). De modo geral, as ações dos heróis mitológicos aconteceram durante a vida dos antepassados mais velhos. Veja, a seguir, quadro geral de enfoques teológicos: ENFOQUES CONTEÚDOS FUNDAMENTAIS Meta-sexista Gênero Sexo – erótica; poder-pedagogia; mulheres- marginalizadas. Crítica interdisciplinar do ετηοσ − ethos e práticas sexistas da discriminação de gêneros presentes nas estruturas patriarcais, sociais, políticas, culturais e religiosas e na linguagem e na mente androcêntrica. INFORMAÇÃO: Os povos ameríndios possuem, também, figuras mitológicas (demiurgos), cujas ações enaltecem. É uma visão cosmo-humana, mais que antropocêntrica. PARA VOCÊ REFLETIR: Qual a importância dos enfoques teológicos para a pastoral e a missão da Igreja nos vários contextos em que ela se insere? Defina os seguintes conceitos teológicos: inculturação, pluralismo religioso, sincretismo, religiosidade popular, diálogo, ecumenismo. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 71 Versão para impressão econômica UNIDADE 7 ENFOQUES CONTEÚDOS FUNDAMENTAIS Étnicos Teologia Índia, Negra Culturas, festa, gratuidade; ideologia, índios e negros. Parte da história da experiência concreta de opressão- libertação do povo negro. Como ser, total e plenamente, negro e cristão? Como recriar um cristianismo negro, superando os estereótipos do cristianismo branco, engendrado no contexto cultural centro-europeu e de matiz colonialista? Teologia negra questiona o etnocentrismo ocidental; teologia negra ( norte americana) o poder desideologizador da Palavra de Deus; teologia negra católica: o sentimento, o celebrativo, o familiar, a alegria, a narração etc. Teologia índia: experiência de alteridade, “cristianismos sincréticos”, “animismo” experiência simbólica de Deus; o corpóreo e o sensorial; luta pela descolonização ideológica, pela conquista social, política e religiosa. Ecológico Holística? Ecologia, desenvolvimento sustentável, sistêmica, holística. Atividade total do espírito humano, mente humana e o mundo que observa; transcendência, comunidade e conhecimento; a holística pode construir um cristianismo mais atualizado com a problemática do ser humano atual. Macroecumênico Teologia das/nas religiões Religiões, revelação e salvação, diálogo, macroecumenismo. Posições exclusivistas, inclusivista e pluralistas- relativistas; as verdades da fé cristã ( Jesus Cristo – plenitude da verdade de Deus); valores positivos e luzes de outras religiões; diálogo inter-religioso; teologia incorpora a alteridade religiosa no método e no conteúdo. Pluricultural Teologia inculturada Cultura, inculturação. Diversas teologias inculturadas (cultura e inculturação); teologia como hermenêutica situada da fé para a inculturação da fé. 4 CONSIDERAÇÕES Nesta unidade, estudamos a organização do conhecimento teológico com base nos conteúdos básicos e metodologias teológicas. Além disso, tivemos a oportunidade de interpretar o que é um enfoque teológico e como ele é elaborado bem como de entender os elementos básicos de cada enfoque e saber valorizar seus elementos particulares para o enriquecimento da totalidade do conhecimento teológico. Não se esqueça de consultar o Caderno de atividades e interatividades a respeito de suas atividades de aprendizagem. Neste encarte, você será orientado para apresentação de seus trabalhos na ferramenta escolhida pelo seu tutor. CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais72 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 7 5 AUTO-AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM Neste momento, convidamos você a fazer uma auto-avaliação de sua aprendizagem sobre os conteúdos estudados na Unidade 6 Tente responder para si mesmo: Quais são os enfoques teológicosa) ? Tenho dúvidas a eliminar? Quais? b) Que temas ainda preciso pesquisar? c) Utilizei estratégias que facilitaram o estudo e a compreensão dos conteúdos? d) Quais? Lembre-se de que, caso necessite de ajuda, estaremos à disposição na Sala de Aula Virtual. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta disciplina, conhecemos um panorama epistemológico da ciência teológica, suas regras, seu objeto e sua relação com outros ramos da ciências. Para tanto, estudamos a apresentação histórica da teologia e o modo como foi construída esta ciência. Além disso, vimos como se faz teologia, quais seus instrumentais e mediações, bem como sua relação com as outras disciplinas e com a realidade social e eclesial. Vimos, ainda, um pouco da produção teológica acumulada através dos tempos, e as teologias produzidas nos diversos contextos eclesais. Desse modo, esperamos que os estudos propostos tenham contribuído para sua compreensão sobre a teologia. Aproveitamos a oportunidade para solicitar que envie sugestões, críticas ou comentários, ou seja, sugerimos que você realize uma análise crítica da disciplina e, se for preciso, entre em contato conosco. Resta, por fim, desejar a todos sucesso nos estudos e que os ensinamentos adquiridos na presente disciplina sejam o primeiro passo de uma reflexão sobre a Introdução à Teologia. 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS LIBÂNIO, J. B.; MURAD, A. Introdução a Teologia, São Paulo: Loyola, 1996, Cap. 6, p. 245-284. ATENÇÃO! Sugerimos que prossiga pesquisando e discuta com seus colegas diferentes respostas para os antigos problemas. Afinal, o caminho é construído a cada passo! Esperamos que, nessa caminhada rumo ao saber, nos encontremos novamente para mais buscas.mar. 2000. HAIGHT, Roger. Dinâmica da teologia. São Paulo: Paulinas, 2004. RAHNER, K. Curso fundamental da fé. São Paulo: Paulinas, 1989. HICK, John. A metáfora do Deus encarnado. Petrópolis: Vozes, 2000. KÜNG, H. Teologia a caminho, fundamentação para o diálogo ecumênico. São Paulo: Paulinas, 1999. LACOSTE, Jean Yves. Dicionário crítico de teologia. São Paulo: Loyola, 2004. LIBÂNIO, João B. Introdução à vida intelectual. São Paulo: Loyola, 2001. ______. A arte de formar-se. São Paulo: Loyola, 2001. LIBÂNIO, João B.; MURAD, Afonso. Introdução à teologia. Perfil, enfoques, tarefas. São Paulo: Loyola, 1998. MONDIN, B. A linguagem teológica. Como falar de Deus hoje? São Paulo: Paulinas, 1979. PALACIO, Carlos. Deslocamentos da teologia, mutações do cristianismo. São Paulo: Loyola, 2001. PASTOR, Felix Alejandro. A lógica do inefável. São Paulo: Loyola, 1989. PIKAZA Xavier; SILANES, Nereo. Dicionário teológico - O Deus cristão. São Paulo: Paulus, 1998. REB 50. A Missão Eclesial do Teólogo. In: Subsídios de leitura e elementos para um diálogo em torno à “Instrução sobre a vocação eclesial do teólogo” - REB 50, p. 771-807. dez. 1990. RITO, Frei Honório. Introdução à teologia. Petrópolis: Vozes, 1998. SOBRINO, Jon. Como fazer Teologia. Proposta metodológica a partir da realidade salvadorenha e latino-americana. In: Persp. Teol., n. 21, p. 285-303, 1989. SUSIN, Luiz Carlos (Org.). Sarça Ardente. Teologia na América Latina: prospectivas. São Paulo: Paulinas, 2000. GUIA DE DISCIPLINA CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – BatataisX Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica ______. Fazer teologia em tempos de globalização. Nota sobre método em teologia. In: Persp. Teol. 31, p. 97-108, 1999. TABORDA, Francisco. Métodos Teológicos na América Latina. In: Persp. Teol., n. 19, p. 293-319, 1987. VILANOVA, Evangelista. Para compreender a teologia. São Paulo: Paulinas, 1998. WICKS, Jared. Introdução ao método teológico. São Paulo: Loyola, 1999. TAMAYO-ACOSTA, Juan Jose; SAMANES,F. C. Dicionário de conceitos fundamentais do cristianismo. São Paulo: Paulus, 1999. Versão para impressão econômica C A D E R N O D E R E F E R Ê N C IA D E C O N T E Ú D O Seja bem-vindo ao estudo da disciplina Introdução à Teologia, disponibilizada para você em ambiente virtual (Educação a Distância). Nesta parte, denominada Caderno de referência de conteúdo, você encontrará o referencial teórico das sete unidades em que se divide a presente disciplina. Com o estudo aqui proposto teremos a oportunidade de compreender os conceitos introdutórios, isto é, o método, o conceito e natureza da Teologia. Estudaremos, ainda, os conceitos, a tarefa, os objetivos da Teologia, bem como as interações da fé. Para finalizar, iremos construir juntos uma visão panorâmica das grandes fases da história da teologia: comunidades primitivas, patrística, medieval, moderna e contemporânea e sobre os enfoques teológicos. Você contará sempre com a ajuda de seu tutor para auxilia-lo em suas dúvidas e orientá-lo corretamente para que você adquira as bases teóricas necessárias para sua aprendizagem. Seja bem-vindo, participe e bom estudo! ATENÇÃO! Não tenha receio, aceite o desafio! Venha fazer parte desse novo processo de construção coletiva do saber! APRESENTAÇÃO Versão para impressão econômica IN T R O D U Ç Ã O À D IS C IP L IN A AULA PRESENCIAL Objetivos Interagir com os demais participantes do curso e o tutor, • tendo em vista o necessário fortalecimento do vínculo inicial para a construção do processo de aprendizagem na modalidade EAD. Reconhecer e enfocar os temas explicitados na disciplina • Introdução à Teologia. Conteúdo Programa para o desenvolvimento da disciplina.• U N ID A D E 1TEOLOGIA: INTRODUÇÃO E MÉTODO Objetivos Reconhecer a importância de se fazer e viver a teologia • na práxis e pela práxis. Identifi car o pressuposto básico para a teologia.• Defi nir teologia relacionando seus pressupostos: conteúdo-• forma e dicionário-gramática. Estudar o método, isto é, o “aprender a fazer”.• Analisar, refl etir e descrever sobre as possíveis metas • para um curso de teologia cristã. Conteúdos Fazer e viver a teologia na práxis e pela práxis.• Pressuposto básico para a teologia.• Teologia: conteúdo, forma, dicionário e gramática.• Método-aprender a fazer.• Possíveis metas para um curso de teologia de tradição • católica. CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais4 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Para iniciar nossos estudos sobre a Introdução à Teologia, você será convidado a questionar-se sobre as seguintes questões: Qual a importância de se fazer e viver a teologia na práxis e pela práxis? Qual é o pressuposto básico para estudar teologia? Como posso definir teologia? Quais pressupostos definem a relação conteúdo-forma, bem como dicionário-gramática da teologia? O que é método? Como o método se relaciona e contribui com a produção de conhecimento da teologia? Que metas pretendemos atingir com nosso curso? Partindo deste momento, vamos começar a aprofundar nossos conhecimentos na busca pela compreensão e pela construção do conhecimento a respeito do que denominamos teologia. Bom estudo! 2 FAZER E VIVER A TEOLOGIA NA PRÁXIS1 E PELA PRÁXIS Podemos iniciar nossa caminhada para compreender o fazer e viver a teologia na práxis e pela práxis procurando estabelecer uma ponte de diálogo entre nossa vida pessoal e o curso de teologia, isto é, precisamos avaliar as intenções básicas que nos levaram a cursar teologia. Para tanto, sugerimos que responda às seguintes questões: O que levou você a freqüentar um curso de teologia?a) Existe diferença entre estudar, aprender e fazer teologia?b) Visando responder a essas questões, iremos construir um aprendizado entrelaçado dos papéis da teologia: aprender teologia, fazer teologia, aprender a fazer teologia, fazer e viver a teologia na práxis e pela práxis. Nesse sentido, será preciso estudar, detalhadamente, cada um dos papéis da teologia, observe: ESTUDAR TEOLOGIA Conhecer soluções dadas aos problemas vivenciados no passado. Aprofundar e ampliar o conhecimento sobre as teorias elaboradas. APRENDER TEOLOGIA Compreender e assimilar os conteúdos teológicos. Demonstrar capacidade para articulá-los. FAZER TEOLOGIA Aplicar e utilizar a técnica e o método teológico. Interagir com espontaneidade. Viver a teologia na práxis e pela práxis. ATENÇÃO! Durante o estudo desta unidade, além de organizar e programar a realização de suas atividades, participações e pesquisas, é muito importante que faça perguntas a si mesmo, tais como: O que já aprendi sobre teologia? Em que já usei meus conhecimentos sobre esse tema ou parte dele? O que ainda preciso e o que quero aprender? Lembre-se de que não será necessário muito esforço, as perguntas já induzem às respostas e o ajudarão a contextualizar sua aprendizagem e direcionar seus esforços! Pense nisso... (1) Práxis refere-se à “prática; ação concreta” (DICIONÁRIO HOUAISS). Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 5 Versão para impressão econômica UNIDADE 1 APRENDER A FAZER TEOLOGIA Aprender a usar o método e o instrumental teológico para elaborar novas teologias. CELEBRAR E VIVER TEOLOGIA Aplicar os conhecimentos teológicos na experiência religiosa. Amadurecer a espiritualidade cristã e ser mistagógico2. Assumir e tomar posições morais e éticas. É importante, ainda, saber que: Estudar teologiaa) : estudar algo definido, fixo, uma coisa que se pode conhecer, pegar, adquirir, saber que se pode transmitir. Uma série de perguntas é levantada por aquele que estuda teologia e que necessariamente, e muito provavelmente, não foram feitas por ocasião daquela elaboração teológica. Aprender teologiab) : esforço de apreender e assimilar os conceitospara ter o seu controle. Fazer teologiac) : é uma coisa viva, uma coisa que escapa, que se movimenta, que avança. Todo cristão faz teologia no nível do discurso religioso e espontâneo, buscando dar as razões de sua fé. Contudo, num nível mais rigoroso, fazer teologia exige o uso de regras internas próprias do discurso teológico. Aprender a fazer teologiad) : o aluno precisa entrar na mecânica da teologia, conhecer sua “cozinha”, preparando-se para fazer teologia no sentido técnico do termo. Celebrar e rezar a teologiae) : o estudo deve penetrar toda a vida, pois a teologia nasce da fé da comunidade e orienta-se para a fé. É necessária, aqui, a experiência mística. O acesso mais profundo ao mistério de Deus se faz pelo coração, pela conversão, pela vida. Agora que já obtivemos conhecimentos sobre o fazer e o viver a teologia na práxis e pela práxis, poderemos nos questionar: qual é o pressuposto básico para a teologia? 3 PRESSUPOSTO BÁSICO PARA A TEOLOGIA O ponto de partida da teologia é a fé – a teologia nasce do coração da própria fé – Teologia é “a fé que ama saber”. A fé possui três elementos básicos que nos ajudam a elaborar uma concepção do que é teologia: Fé + elemento cognitivo = fé-palavra (texto). Fé + elemento afetivo = fé-experiência. Fé + elemento ativo = fé-prática. Fé & Teologia = fé e razão. (2) Mistagogia é o “ato de iniciar e instruir (alguém) nas coisas misteriosas de uma religião” (DICIONÁRIO HOUAISS). CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais6 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 1 Com fé, vamos avançar em busca de nossos objetivos, dentre outras coisas, estudando o conteúdo e a forma da teologia. 4 TEOLOGIA (CONTEÚDO E FORMA / DICIONÁRIO E GRAMÁTICA) O importante primeiro não é o conteúdo da teologia (teórico), mas sua forma, seu processo, sua prática. Você pode se perguntar: mas o que se quer dizer quando falamos em dicionário e gramática da teologia? A resposta para tal questão é: Dicionárioa) : elementos articuladores da teologia, isto é, a fé, a escritura, a igreja, o senso dos fiéis, a tradição, o dogma, o magistério, a prática, as outras teologias, a razão, a linguagem, a filosofia e as ciências. Gramáticab) : regras de como esses elementos se articulam (gramática). A fé deve ter primazia absoluta na teologia; a Bíblia é o primeiro testemunho a ser ouvido; a razão precisa estar a serviço da compreensão do dado revelado; a prática é uma fonte de teologia, assim como uma de suas finalidades; a linguagem da teologia, pois só ela se adequa ao Mistério; o Magistério é critério de autenticidade. Dessa forma, aprender a fazer teologia implica: assimilar as regras da prática teológica;a) seguir o que fazem os teólogos;b) exercitar por própria conta a prática teológica.c) Para compreender melhor a importância da fé para a Teologia, veja o esquema a seguir: FÉ TEOLOGIA • Em quê? Quem? • Para quê? • Experiencial. • Prático-Vivencial. • Teórico. • Conteúdo doutrinal. • Tradição. • História.t • Bíblia. • Magistério. • A fé que ama saber, busca de se compreender. • O crer para entender – Santo Agostinho3. • A fé que se experimenta como construção humana e aposta em Deus. (3) “Aurélio Agostinho (do latim, Aurelius Augustinus), Agostinho de Hipona ou Santo Agostinho foi um bispo católico, teólogo e filósofo que nasceu em 13 de Novembro de 354 em Tagaste (hoje Souk-Ahras, na Argélia); morreu em 28 de Agosto de 430, em Hipona (hoje Annaba, na Argélia). É considerado pelos católicos santo e doutor da doutrina da Igreja”. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 7 Versão para impressão econômica UNIDADE 1 Após conhecer o conteúdo e a forma da teologia, convido-o a estudar o método, ou seja, aprender a fazer teologia. 5 MÉTODO: APRENDER A FAZER Para compreender o método, isto é, aprender a fazer teologia, observe o esquema a seguir: Teólogo É possível que você se pergunte sobre o que é hermenêutica? De acordo com o Dicionário Houaiss, hermenêutica é “a ciência, técnica que tem por objeto a interpretação de textos religiosos ou filosóficos, especialmente das Sagradas Escrituras”. Vamos aprofundar nossos conhecimentos, conhecendo o círculo hermenêutico da teologia: Como você pode observar, trata-se de um movimento circular, contínuo, primeiramente do contexto aos dados da revelação (o texto) e, depois, no sentido contrário, destes dados ao contexto, e assim sucessivamente. O círculo hermenêutico indica o processo dialético4, criado na teologia hermenêutica, entre um contexto concreto e os dados revelados. Em outras palavras, entre o texto e o contexto. No entanto, para ficar mais claro, parece preferível substituir a dialética entre os dois elementos pela ação e reação mútua de três componentes, denominados texto, contexto e intérprete. Cada um dos três pólos de interação recíproca, ou seja, cada elemento constitutivo do círculo, deve ser tomado na totalidade complexa da própria realidade. (4) Dialética “em sentido bastante genérico, oposição, conflito originado pela contradição entre princípios teóricos ou fenômenos empíricos” (DICIONÁRIO HOUAISS). CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais8 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 1 O dado revelado (texto) é sempre uma interpretação de fé no evento. Fazer teologia com base no contexto será continuar, na situação atual, o processo de interpretação do evento Jesus Cristo iniciado pela Igreja apostólica. Cada geração de cristãos, como também cada Igreja local, há de entrar no espaço e no tempo mediante o processo hermenêutico. Mas o que é texto, contexto e quem seriam os intérpretes? Textoa) : não é somente o dado revelado presente na Bíblia e, especialmente, no Novo Testamento, mas tudo que faz parte da chamada “memória cristã”, a saber, a Tradição objetiva. Estende-se, pois, às diversas leituras e interpretações do dado revelado feitas pela tradição eclesial, incluindo-se as formulações conciliares oficiais. O texto contém a Escritura, a Tradição e o Magistério da Igreja (Dei Verbum5 10). Contextob) : é o lugar e os diversos modos como o ser humano interage com sua realidade. É onde se experimenta e elaboram a cultura, as interpretações dadas à realidade. Contexto está relacionado com lugares e períodos particulares da história. Precisa ser analisado em cada caso, em sua complexa realidade, formada pelas condições sociais, políticas, culturais e religiosas. O contexto abrange toda a realidade cultural circunstante. Intérpretec) : é importante não pensar de imediato em uma pessoa individual como o teólogo, mas a comunidade eclesial a que o teólogo pertence e a serviço da qual é chamado. O intérprete é a comunidade de fé local, como povo de Deus que vive sua experiência de fé em comunhão diacrônica6 com a Igreja Apostólica e em comunhão sincrônica com todas as Igrejas locais na unidade da fé e do amor. O círculo hermenêutico consiste, desse modo, na interação mútua de texto, contexto e intérprete, tal como acabamos de descrever, isto é, na interação da memória cristã, realidade cultural circunstante e Igreja local. O contexto age no intérprete por meio da apresentação de problemas específicos e influi na pré-compreensão da fé, com a qual o intérprete lê o texto. Este, por seu turno, age no intérprete cuja leitura do texto oferecerá uma diretriz à prática cristã e assim por diante. Como se pode bem ver, a interação de texto e contexto, ou seja, da memória e da cultura, acontece, exatamente, no intérprete, isto é, na Igreja local. 6 QUAIS PODERIAM SER AS POSSÍVEIS METAS PARA ESTE CURSO? Após o estudo do método da teologia, de forma geral, convidamos você para refletir sobre as metas específicas do nosso curso de teologia, ou seja, para a teologia de tradição católica. São elas: Adquirir uma reflexão críticaa) : cadaaluno deve se engajar criticamente e de modo inteligente na reflexão do significado e unidade da teologia. Aprender em comunidadeb) : estabelecer uma comunidade de aprendizado disciplinado, na qual cada um assume a responsabilidade pelo seu aprendizado e o aprendizado da comunidade. Esta meta vai exigir respeito mútuo, vontade de participar nos trabalhos de grupo, compromisso pessoal de trabalhar no intervalo entre os seminários, respeito pela pluralidade teológica, reconhecendo que este curso deseja ser uma busca partilhada de estudo e reflexão. (5) “Dei Verbum, a constituição dogmática A Revelação Divina, é um dos principais documentos do Concílio Vaticano II. É designada ‘constituição dogmática’ por conter e tratar ‘matéria de fé’. De fato, o seu conteúdo aborda o delicado e complexo problema da relação entre Escritura e Tradição. Pode-se dizer que, a partir deste documento conciliar, como que se abriu para a multidão dos fiéis o oceano da bíblia se colocou nas mãos dos crentes a inesgotável fonte que é a Bíblia, a Palavra de Deus”. Para ler este documento na íntegra, acesse o site do Vaticano, o qual está referenciado ao término desta unidade e nas Referências da Sala de Aula Virtual. (6) O diacrônico é a ligação com a realidade histórica do passado, o oposto é o sincrônico que é a história presente que analisa o fenômeno do passado. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 9 Versão para impressão econômica UNIDADE 1 Elaborar a reflexão pela práxisc) : engajar-se no método, aprender, compreender concreta e praticamente. Aceitar o processo de desenvolver a capacidade de fazer teologia. Aprender por meio dos seus erros e sucessos. Aprender aceitar críticas construtivas no esforço de construir teologia. Para tanto, é preciso auto-envolvimento, auto-investimento, ver o processo como possibilidade de transformação e conversão. Para finalizar nossos estudos sobre a introdução e o método da teologia, teremos a oportunidade de expandir nossa reflexão sobre o método teológico por meio de algumas questões propostas. Em outras palavras, vamos continuar, com base em nossa experiência pessoal, aprendendo a fazer teologia: O MÉTODO QUESTÕES O método teológico supõe um caminho a ser trilhado, construído. 1. Quais os seus objetivos para este curso? No método teológico faz parte a pessoa do teólogo: seu jeito de ser, falar, trabalhar, agir. 2. O que motiva você estudar teologia? O método passa pela partilha em grupo, no qual há reflexão, planejamento, ação e avaliação. 3. Quais os assuntos de interesse religioso que seu grupo conversa? O método teológico é o encontro de pessoas e delas com Deus. 4. Qual o conceito que sua comunidade de fé tem sobre o ser humano e Deus? Método é procedimento: acolher, ver, julgar, agir, celebrar e avaliar. 5. Neste procedimento, qual é o passo mais desafiante? Método é aprender-fazendo, aprendendo e ensinando. É troca de saberes. 6. O que você quer aprender na teologia? E o que você traz como saber? Método é comunicação por meio da linguagem verbal e não-verbal (gestos e símbolos). 7. Para você, qual é o tipo de comunicação preferida? Verbal, simbólica, gestual, outras? Método é ação criativa e re-criativa, aprender e desaprender. 8. Quais os compromissos e atitudes que você deve assumir para aproveitar bem este curso? 7 CONSIDERAÇÕES Nesta unidade, tivemos a oportunidade de refletir sobre a importância de se fazer e viver a teologia na práxis e pela práxis. Estudamos, ainda, temas relevantes para nos contextualizar em relação ao curso que estamos iniciando, tais como: o pressuposto básico para estudar teologia, os pressupostos que definem a relação conteúdo-forma, bem como dicionário-gramática da teologia, o método, isto é, aprendemos a fazer teologia e, ainda, tomamos contato com as metas que pretendemos atingir com a realização de nosso curso. Nas próximas unidades, continuaremos o estudo da Introdução à Teologia, retomando e aprofundando os temas tratados nesta unidade, além de estudar novos conteúdos relacionados à teologia. CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais10 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 1 8 AUTO-AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM Neste momento, convidamos você a fazer uma auto-avaliação sobre os conteúdos estudados na Unidade 1. Tente responder para si mesmo: Qual é a importância de fazer e viver a teologia?a) O que entendi b) estudando o círculo hermenêutico da teologia? Ainda tenho dúvidas em relação aos conteúdos estudados? Que procedimentos c) posso utilizar para eliminá-las? O que posso fazer para ampliar meus conhecimentos sobre a teologia?d) 9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALSZEGHY, Zoltan; FLICK, Mauricio. Como se faz teologia. São Paulo: Paulinas, 1970. DOS ANJOS, Márcio Fabri (Org.). Teologia e novos paradigmas. São Paulo: Loyola, 1996. BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico. Petrópolis: Vozes, 1998. ______. Conselhos a um jovem teólogo. In: Persp. Teol., n. 31, p. 77-96, 1999. ______. Teologia e Prática. Teologia do Político e suas mediações. Petrópolis: Vozes, 1993. BOFF, Leonardo; BOFF, Clodovis. Como fazer teologia da libertação. Petrópolis: Vozes, 1993. FORTE, Bruno. Teoria em diálogo. Para quem quer e para quem não quer saber nada disso. São Paulo: Loyola, 2002. GEFFRÉ, C. Como fazer teologia hoje. São Paulo: Paulinas, 1989. ______. Crer e interpretar: a Virada hermenêutica da teologia. Petrópolis: Vozes, 2004. GONÇALVES, Paulo Sérgio Lopes. Epistemologia e método sistemático da TDL - REB 60. p. 145-179, mar. 2000. HAIGHT, Roger. Dinâmica da teologia. São Paulo: Paulinas, 2004. K.RAHNER. Curso fundamental da fé. São Paulo: Paulinas, 1989. HICK, JOHN, A metáfora do Deus encarnado. Petrópolis: Vozes, 2000. KÜNG, H. Teologia a Caminho — Fundamentação para o diálogo ecumênico. São Paulo: Paulinas, 1999. LACOSTE, Jean Yves. Dicionário crítico de teologia. São Paulo: Loyola, 2004. LIBÂNIO, João B. Introdução à vida intelectual. São Paulo: Loyola, 2001. ______. A arte de formar-se. São Paulo: Loyola, 2001. LIBÂNIO, João B.; MURAD, Afonso. Introdução à teologia. Perfil, enfoques, tarefas. São Paulo: Loyola, 1998. MONDIN, B. A linguagem teológica. Como falar de Deus hoje? São Paulo: Paulinas, 1979. PALACIO, Carlos. Deslocamentos da teologia, mutações do cristianismo. São Paulo: Loyola, 2001. ATENÇÃO! É imprescindível para sua formação que você amplie e aprofunde seus conhecimentos. Para tanto, sugerimos a leitura das obras e a consulta dos sites indicados nas referências bibliográficas e nas e-referências. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 11 Versão para impressão econômica UNIDADE 1 PASTOR, Felix Alejandro. A lógica do inefável. São Paulo: Loyola, 1989. PIKAZA Xavier; SILANES, Nereo. Dicionário teológico - O Deus cristão. São Paulo: Paulus, 1998. REB 50. A Missão Eclesial do Teólogo. In: Subsídios de leitura e elementos para um diálogo em torno à “Instrução sobre a vocação eclesial do teólogo” - REB 50, p. 771-807. dez. 1990. RITO, Frei Honório. Introdução à teologia. Petrópolis: Vozes, 1998. SOBRINO, Jon. Como fazer Teologia. Proposta metodológica a partir da realidade salvadorenha e latino-americana. In: Persp. Teol., n. 21, p. 285-303, 1989. SUSIN, Luiz Carlos (Org.). Sarça ardente. Teologia na América Latina: prospectivas. São Paulo: Paulinas, 2000. ______. Fazer teologia em tempos de globalização. Nota sobre método em teologia. In: Persp. Teol. 31, p. 97-108, 1999. TABORDA, Francisco. Métodos Teológicos na América Latina. In: Persp. Teol., n. 19, p. 293-319, 1987. VILANOVA, Evangelista. Para compreender a teologia. São Paulo: Paulinas, 1998. WICKS, Jared. Introdução ao método teológico. São Paulo: Loyola, 1999. TAMAYO-ACOSTA, Juan Jose; SAMANES, F. C. Dicionário de conceitos fundamentais do cristianismo. São Paulo: Paulus, 1999. 10E-REFERÊNCIAS VATICAN. Constituição Dogmática - Dei Verbum - Sobre a Revelação Divina. Disponível em: . Acesso em: 21 dez. 2006. (3) Santo Agostinho: Imagem e Texto – WIKIPÉDIA. Agostinho de Hipona. Disponível em: . Acesso em: 21 dez. 2006. (5) Dei verbum: Texto – WIKIPÉDIA. Dei verbum. Disponível em: . Acesso em: 21 dez. 2006. Anotações Objetivos Defi nir teologia.• Estudar a etimologia do termo teologia.• Analisar e enunciar a teologia como hermenêutica da fé, • como crítica histórica e como vivência ética da fé. Reconhecer como nasce concretamente a teologia.• Interpretar e identifi car a perspectiva e objeto de estudo • da teologia. Apontar as características da estrutura do discurso • teológico em particular. Conteúdos Conceito de teologia.• Origem do termo.• Teologia como hermenêutica da fé, como crítica histórica • e como vivência ética da fé. Como nasce concretamente a teologia.• Perspectiva e objeto de estudo da teologia.• Estrutura do discurso teológico em particular. • CONCEITO E NATUREZA DA TEOLOGIA U N ID A D E 2 CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais14 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Na unidade anterior, tivemos a oportunidade de estudar os conceitos introdutórios da teologia, refletindo, de maneira especial, sobre a importância de se fazer e viver a teologia na práxis e pela práxis. Nesta etapa, vamos aprofundar nossos conhecimentos ao entrar no mundo da teologia pela argumentação de um possível conceito de teologia. Observe que nossa pretensão não será de elaborar uma teoria fechada. Pretendemos, sim, criar uma plataforma que nos insira nesta área do conhecimento, descobrir os elementos básicos para construir, recriar e atualizar este saber. Seremos, então, capazes de interagir e relacionar a teologia com nossa experiência pessoal e comunitária da fé e com outras áreas do conhecimento geral. Nosso primeiro passo será definir o conceito de teologia. 2 CONCEITO DE TEOLOGIA O ato teológico fundamenta-se na experiência da fé. Teologia não pode ser feita sem fé. Sem a base da fé, o discurso torna-se filosofia da religião, sociologia da religião ou antropologia da religião. Estes conhecimentos são importantes para o saber teológico, mas não é teologia. Assim, quem teologiza reflete primeiro sobre seu próprio compromisso ou adesão de fé ou de sua comunidade. O filósofo, o antropólogo e o sociólogo da religião não estão envolvidos na experiência da fé, são observadores e refletem sobre a adesão de fé de outros. Santo Agostinho afirmou: crede ut intelligas1, o que nos faz pensar que a teologia não pode ser compreendida pelo descrente. Não vamos à teologia para nossa fé. Teologia existe para nos dar uma compreensão maior a respeito do que já cremos. Nesse sentido, a teologia não é um saber, individualizado, fechado e independente. É sim a relação entre a fé e a razão. A fé, entendida como encontro e adesão a Deus que se revela e se comunica aos seres humanos, é o fundamento da teologia. Isso quer dizer que a experiência da fé, nas suas dimensões subjetiva e objetiva, é a “matéria-prima” da teologia. Em outras palavras, para haver teologia, é preciso passar pela experiência de fé. Fé pessoal, mas também experiência comunitária que está inserida na história. Pela fé, o ser humano encontra Deus e conhece a si mesmo e ao mundo de forma específica. A fé vivida em nível pessoal e comunitário – no presente e no passado – leva ao autoconhecimento. A fé exige do crente honestidade consigo mesmo e com aqueles com os quais partilha sua fé. ATENÇÃO! Técnicas e métodos de estudo podem facilitar sua compreensão sobre os conteúdos estudados. Assim, confira, no Guia de disciplina e na página anterior, as informações práticas sobre o desenvolvimento desta unidade e aproveite a oportunidade para programar e organizar seus estudos. (1) Crede ut intelligas: “crê para que possas entender”. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 15 Versão para impressão econômica UNIDADE 2 Por isso, parafraseando a Primeira Carta de Pedro (BÍBLIA SAGRADA, 2002), a pessoa de fé necessita “dar as razões da sua fé” aos que perguntarem. A tarefa de compreender a fé que se professa tem como exigência saber articular, interagir com outras fontes do conhecimento. Usar a razão iluminada pela fé emerge como instrumento privilegiado na interação com outros saberes. Desse modo, a Teologia constitui-se de duas tarefas fundamentais: saber examinar com os recursos racionais a experiência da fé pessoal e a) comunitária; saber dialogar, interagir com os diversos conhecimentos. b) Se a fé é um conhecimento pessoal de Deus, este conhecimento é sempre sacramental. Isto é, nossa percepção de fé de Deus é mediada pela nossa experiência das realidades criadas: pessoas, eventos, objetos. Não existe uma fé pura sem mediações. Uma fé real e viva existe sempre em um estado cognitivo e reflexivo. Isso significa que o ato teológico é um modo de se tornar consciente da experiência e vivência da fé. Desse modo, não podemos expressar a fé em palavras e ações independentemente da teologia. INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR: A Teologia é uma disciplina simbólica. A epistemologia sobre a qual repousa é simbólica... Símbolo é qualquer fragmento da realidade finita, qualquer coisa, evento, pessoa, situação, conceito, proposição ou narrativa que medeia à consciência humana algo diverso de si mesmo. No caso da teologia, a única forma pela qual seu objeto próprio e específico torna-se acessível à consciência humana é por meio da mediação de símbolos finitos (HAIGHT, p. 241). O termo mais usado para compreender a teologia é fides quarens intellectum (fé que procura, ama saber) proveniente de Agostinho e de Anselmo2. Teologia é o processo pelo qual trazemos nosso conhecimento e compreensão de Deus ao nível da reflexão e da expressão. É a articulação, de um modo mais ou menos sistemático, da experiência de Deus dentro da existência humana. Teologia não é simplesmente falar ou discursar sobre Deus, ou sobre Cristo ou sobre a Bíblia, ou mesmo sobre fé. A teologia procura descobrir a relevância, o sentido, o significado para hoje da comunidade de fé. Teologia na busca de atualização e continuidade histórica entre o evento fundante (Jesus Cristo e a comunidades dos primeiros cristãos) e o evento atual (Igreja-contemporânea), se constituirá como vivência, conversão, práxis. Este será o elemento que avaliará o processo de fazer teologia, seu objetivo último. A teologia, então, não pode ser apenas história da teologia, mas reflexão da vivência da fé na realidade histórica concreta do povo de Deus hoje. Ela tem implicações imediatas sobre a dimensão Pastoral da fé. O cuidado pastoral e a atividade missionária da Igreja devem interrogar a Teologia e dela devem esperar orientação. Há uma interação constante entre a Teologia e a pastoral. A pastoral motiva a tarefa teológica e a teologia sustenta a atividade pastoral eficazmente. Do mesmo modo, a fé tem uma história e situa-se na realidade atual. Ela não pode se fechar num mundo à parte, mas precisa viver em diálogo com as mudanças e as situações concretas da vida, hoje. A fé é dinâmica e histórica. Por isso, a teologia é também uma tarefa nunca acabada. A fé pode também adoecer ou sofrer um processo de ideologização. Cabe, dessa forma, à Teologia uma tarefa crítica de diagnosticar e denunciar os processos viciosos. Se a fé e a religião são necessárias e benéficas ao ser humano e (2) “Anselmo de Cantuária (1033/1034 - 21 de Abril 1109), nascido Anselmo de Aosta (por ser natural de Aosta, hoje na Itália), e também conhecido como Santo Anselmo, foi um influenteteólogo e filósofo medieval italiano de origem normanda. Foi Arcebispo de Cantuária entre 1093 e 1109 (sucedendo a Lanfranco, ele também um italiano), por nomeação de Henrique I da Inglaterra, de quem foi amigo e confessor, mas depois divergiu com ele na Questão das Investiduras. É considerado o fundador do Escolasticismo e é famoso como o inventor do argumento ontológico a favor da existência de Deus. Viria mais tarde a ser canonizado pela Igreja Católica, e declarado Doutor da Igreja em 1720, pelo Papa Clemente XI. Santo Anselmo (1033-1109) nasceu em Aosta na França, filho de um nobre e de uma mãe rica, Ermenberga. Seguiu a carreira religiosa, fez estudos clássicos e escreveu sempre em latim. Foi eleito prior em 1063, porque tinha muita inteligência e piedade. Se esta é uma das definições mais fundamentais da teologia, não pode haver teologia sem fé. Teologia não é interpretação da fé de alguém, mas da própria fé, ou da própria comunidade de fé” (WIKIPÉDIA, 2006). CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais16 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 2 à sociedade, elas só podem cumprir esse papel se forem sadias. E para serem sadias, precisam de um processo teológico adequado. A fé vivida situa-se concretamente na estrutura e na conjuntura da realidade social, econômica, política e cultural. Ela tem uma dimensão de atualidade e de dinamismo. A teologia, da mesma forma, não é um conhecimento alheio ao que vivem as pessoas no tempo presente. Ela precisa encarnar-se na realidade atual e regional. O Concílio Vaticano II3 expressou isso numa fórmula bastante conhecida: “As alegrias e os sofrimentos, as esperanças e as angústias dos homens do nosso tempo, são também as alegrias e os sofrimentos, as esperanças e as angústias da Igreja”. Sendo da Igreja, são também do saber teológico. Como você pode verificar, aprender teologia é um processo complexo. Mas o que queremos dizer com “complexo”? A complexidade é um modo de pensar que se compara com a arte de tecer, colocar os fios juntos. Procura criar relações, tecer diálogos e perceber a interdependência que existe entre os diversos aspectos da vida humana. Aplicado à teologia, pretende em relação a ela uma metodologia menos positivista, procurando enfatizar o problema, as questões fundamentais apresentadas pela humanidade neste momento específico da história. Quais seriam os princípios que vão nortear este caminho teológico? Vejamos: Na comunidade de fé, lugar privilegiado do fazer teológico, aprende-se a) teuologia juntos, todos são sujeitos do processo; Dinamismo fecundante entre ação e reflexão, leitura da tradição e vivência b) histórica da fé; Ninguém entra vazio no processo de elaboração teológica e o que já se sabe c) influencia a compreensão, transformação do saber teológico. Aprende-se, também, desaprendendo, e desaprendendo se constrói novas pontes para o conhecimento. No aprendizado o que vale é a intensidade e a qualidade do processo de d) conhecimento. Aprofundar a fé é um desafio constante para o crente e sua comunidade. Você pode se perguntar: mas onde se originou este termo? Teologia é um termo cristão ou deriva de um outro sistema de conhecimento? Vamos responder a essas questões juntos. Origem do termo teologia Na etimologia da palavra teologia, podemos perceber dois aspectos importantes para sua compreensão: Teo – Deus é seu objeto principal; Logia – estudo, saber, discurso humano sobre Deus. Assim, Theologia – do grego, discurso sobre as coisas divinas, é um termo pré-cristão. Ele aparece pela primeira vez em Platão (1956) numa passagem em que este se interroga sobre a utilização pedagógica da mitologia. Aristóteles retoma o uso, modificando-o também: os “teólogos” são Hesíodo ou Homero, distinguidos filósofos. Eles falam de filosofia teológica e de conhecimentos teológicos para designar a mais alta das três ciências teóricas, após a matemática e a física. É ao estoicismo4, todavia, que cabe (3) “O XXI Concílio Ecumênico, chamado Vaticano II, terminou no dia 08 de dezembro de 1965. Durante três anos, um mês e vinte e nove dias (de 11 de outubro de 1962 até 08 de dezembro de 1965) viveu a Igreja Católica em estado de Concílio. Neste tempo cerca de 2.200 Bispos do mundo inteiro (incluídos os Superiores Maiores das Ordens e Congregações) encontraram-se quatro vezes em Roma, vivendo, rezando e trabalhando juntos durante 281 dias” (WIKIPÉDIA, 2006). Para saber mais, acesse o site do Vaticano referenciado ao término desta unidade. (4) Estoicismo: “doutrina fundada por Zenão de Cício (335-264 a.C.), e desenvolvida por várias gerações de filósofos, que se caracteriza por uma ética em que a imperturbabilidade, a extirpação das paixões e a aceitação resignada do destino são as marcas fundamentais do homem sábio, o único apto a experimentar a verdadeira felicidade [O estoicismo exerceu profunda influência na ética cristã]” (DICIONÁRIO HOUAISS). Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 17 Versão para impressão econômica UNIDADE 2 dar realmente o direito de cidadania filosófica a teologia e aos termos aparentados: a teologia torna-se ali, explicitamente, uma disciplina filosófica. (LACOSTE, 2004). Uso do termo na História Na Sagrada Escritura, não é usado o termo teologia. A teologia cristã começa com os apóstolos como testemunhos de fé, do evangelista ou da comunidade; Teologia é um termo comum e bem desenvolvido na cultura grega, que passou a ser mais utilizado com Agostinho e Orígenes5. Já a escolástica utiliza outros termos como: sacra doutrina ou doutrina cristã. Assim, a teologia assume o significado técnico que tinha a sacra doctrina. Na Idade Moderna, surgem outros aspectos da teologia, nascendo um pluralismo de teologias. Intelecção do termo Teologia – reflexão metódica e crítica sobre o que vem exposto no querigma6 da Igreja, aceito no ato de fé, pelo qual a pessoa se submete à Palavra de Deus. Como ato do teólogo – é reflexão sobre a fé. Visto do aspecto do objeto, ela faz ciência sobre Deus. Estes dois aspectos fundem-se em um único movimento que pode ser lido de duas maneiras: Deus é o objeto da teologia - aspecto objetivo - ao qual o teólogo tem acesso pela fé transmitida na pregação viva da Igreja – aspecto subjetivo -, e sua reflexão crítica e metódica se faz a respeito de Deus na mediação da fé acolhida na tradição viva da Igreja. 3 TEOLOGIA COMO HERMENÊUTICA DA FÉ Durante séculos, a razão teológica foi identificada com a razão especulativa, no sentido aristotélico da palavra. Aristóteles elabora sua filosofia na busca das causas últimas, de uma verdade absoluta e metafísica, por meio da lógica e da comprovação empírica. Já a teologia, como compreensão da fé em Deus que se revela na história e na experiência da comunidade, exige que teologizar seja uma prática interpretativa, isto é, hermenêutica. Podemos afirmar, portanto, que uma teologia que se pretende perfeita, completa e fechada em si mesma corre o risco de tornar-se ideológica e fundamentalista. Desse modo, compreender teologia como hermenêutica da fé é compreender a história e tudo que é possível relacionar dela com a fé. A hermenêutica que a fé faz da história se diferencia da prática do historiador, a fé interpreta os eventos históricos como memoriais, isto é, como carregados de sentido, de força e esperança para a fé de hoje. Como você já sabe, teologia é um processo contínuo de interpretação do testemunho da fé, vivenciado na comunidade cristã de ontem que anseia ser atualizada em nossa experiência histórica de hoje. Assim, a hermenêutica da fé exigirá um diagnóstico rigoroso de nossa situação atual, mas, também, a reconstrução da experiência cristã de uma salvação em Jesus Cristo vivida pelos primeiros discípulos e discípulas. (5) Orígenes, em grego Ὠριγένη̋, (c. 185 — 253 d.C.) foi um teólogo e prolixo escritorcristão. Padre da Igreja. Nasceu em Alexandria, Egipto, e faleceu, segundo alguns dados em Cesaréia, na atual Palestina ou, mais provavelmente, segundo outras fontes, em Tiro (WIKIPÉDIA, 2006). (6) Querigma significa, no novo testamento, pregação. É o primeiro anúncio do Evangelho, é como o primeiro badalar do sino, o badalo forte. Segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC – VATICAN, 2006), o querigma pode ser considerado como a pregação missionária para suscitar a fé. Ele não pode ser confundido com a catequese, que é o passo seguinte ao querigma. CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais18 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 2 Não há compreensão da fé como ato teológico sem reinterpretação criadora. Neste sentido, a revelação será sempre evento atual, não um fato do passado. Revelação torna-se uma palavra viva quando interpretada para os homens e mulheres do nosso tempo. Hermenêutica teológica não se refere somente às Escrituras fundantes da fé, mas também à releitura da tradição, em particular das fórmulas dogmáticas. 4 TEOLOGIA COMO CRÍTICA HISTÓRICA Sabemos que o ser humano é localizado e histórico. Desse modo, ele é chamado a reconhecer sua universalidade e naturalidade. Partilhamos, também, com todos os seres vivos e o cosmo de elementos comum. Mas esta compreensão se dá, no ser humano, partindo de um contexto que contribui e influencia em nossa construção pessoal e coletiva de vida. Estar consciente dessa condição é reconhecer os limites humanos. Somos incapazes de conhecer plenamente a realidade e de construir uma sociedade de acordo com nossas utopias. A consciência de seus limites não mata no ser humano seu anseio de plenitude, de transcendência, de felicidade. O ser humano é um ser de esperança, esta condição o leva a criar símbolos, de elaborar projetos e utopias, de regrar sua vida e sua liberdade partindo de valores, do belo, da ética, das causas justas. Sua vida, então, mesmo em meio às dificuldades e crises, orienta-se para um sentido último. Você pode pensar: de que modo a fé se insere na dimensão histórica do ser humano? Para encontrar uma resposta para essa questão, é importante saber que a fé não é somente um valor dotado de potencial ético e moral. Ela é um modo de conhecer e compreender o mundo em que vivemos. Não de modo passivo, como aceitação da realidade, mas de nos tornarmos sujeitos de transformação da própria história. A fé é um óculos para perceber realidades e potenciais que aos olhos superficiais não são perceptíveis. Quando Jesus curava os doentes, colocava na fé do doente o ponto fundamental de sua cura. “Vai, tua fé te curou”. Se a fé é um modo de ver o mundo e interpretá-lo, como aplicar este pressuposto na argumentação teológica? Teologia não será somente reflexão sobre Deus e realidades divinas, interpretação de dogmas e doutrinas. É, sobretudo, compreendida como interpretação da história que procura esclarecer e refletir criticamente as bases que fundamentam as esperanças e visões de mundo das correntes teóricas e sociais. Ela é a esperança de que a injustiça que caracteriza o mundo não pode ser a realidade final, que o injusto não pode se considerar como a última palavra. A teologia assume a tarefa de discernir entre o “ideológico” e o “Espiritual”, o que vem do Espírito e que é simplesmente falsificação e superficialidade humana. O ato teológico é um ato de discernimento ou de apropriação espiritual tanto do texto como da práxis para penetrar mais a fundo tanto nos mecanismos de morte e de dominação como na força da ressurreição e da vida plena do povo de Deus no mundo. A hermenêutica é um discernimento das armas ideológicas da morte e uma base da força do Espírito da vida (Jo, 1: 4 – BÍBLIA SAGRADA, 2006). ATENÇÃO! Para aprofundar seus conhecimentos sobre os assuntos referidos no texto principal, é importante que leia as páginas 24 e 25 da obra de Geffré denominada Crer e interpretar. Tal obra está referenciada ao término desta unidade. ATENÇÃO! Para ampliar seus conhecimentos sobre a hermenêutica, é importante que leia as páginas 30 e 31 da obra Sujeito e sociedades complexas, de Sung, referenciada ao término desta unidade. PARA VOCÊ REFLETIR: O ato teológico é um ato de discernimento ou de apropriação espiritual tanto do texto como da práxis para penetrar mais a fundo tanto nos mecanismos de morte e de dominação como na força da ressurreição e da vida plena do povo de Deus no mundo. Com base nesta afirmação, procure refletir sobre a seguinte questão: que feito poderia ser considerado um ato teológico? Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 19 Versão para impressão econômica UNIDADE 2 5 TEOLOGIA COMO VIVÊNCIA ÉTICA DA FÉ A fé, como resposta ao Deus da revelação, estaria traindo sua identidade e sua vocação se não afirmasse a dignidade intrínseca da pessoa humana, os deveres e direitos humanos, a defesa da natureza dessa terra como lar comum da humanidade e o bem- comum como propósito e razão de ser de toda ordem social. A santidade da vida de fé implica na afirmação da dignidade humana. Viver a fé e compreendê-la significa não compactuar com o mal, presente tanto no egocentrismo humano, como nas estruturas que geram a miséria, a exclusão, a opressão, o privilégio de poucos frente à exclusão de milhões. Note que a fé é um ato de liberdade ante o projeto de Deus, o que necessariamente defende o direito da liberdade de pensamento e de profissão religiosa. Defende, também, o direito à vida, que tem sua base na distribuição daquilo que é o bem-comum, o qual torna a história menos tirana e mais humana. Hoje, a doutrina social da Igreja centra-se sobretudo nos homens e nas mulheres enquanto que estão envolvidos numa complexa rede de relacionamentos, dentro das sociedades modernas. As ciências humanas e a filosofia ajudam a interpretar o lugar central da pessoa humana na sociedade e também ajudam a compreender o que é, afinal, um ser social. Porém, a verdadeira identidade duma pessoa só nos é revelada plenamente através da fé; e é precisamente com a fé que a doutrina social da Igreja começa. Enquanto aproveita todos os contributos das ciências e da filosofia, a sua doutrina social dirige-se para o auxílio da humanidade na sua caminhada de salvação (CENTESIMUS ANNUS, n. 53-54). A ética cristã, por um lado, afirma o ser humano como imago dei, com todas as suas implicações; por outro lado, reafirma a intrínseca ambigüidade moral da condição humana, a que a teologia denomina de pecado, o mal, o egoísmo, tornar o próximo objeto-instrumento. Pecado que está presente em todos os seres humanos e em todos os sistemas humanos. A teologia, em sua esfera pública, deve elucidar para indivíduos, governantes e sistemas a realidade do mal e suas perversas conseqüências sobre a vida humana e a criação. A Teologia tem como tarefa, juntamente com outras instituições, a formação da consciência para valores humanos e um chamado constante à conversão. Aqui, a teologia tem a tarefa de ser profética nas várias dimensões da vivência da fé: pessoal;a) comunitária;b) social;c) política. d) Assim, a competição representa a base da economia e do modelo de sociedade atual, já a fé e a ética respondem com o valor do amor e da solidariedade. Ao totalitarismo e ao individualismo, insiste-se com as noções de pessoa e de bem-comum. Ao materialismo que destina os seres humanos à produção e ao consumo, responde-se com as necessidades do espírito: “Nem só de pão o humano viverá, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”. ATENÇÃO! Amplie seus conhecimentos sobre imago dei. Para tanto, acesse o site referenciado a seguir. SOLASCRITURA. Imago dei. Disponível em: . Acesso em: 10 jan. 2007. CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais20 Bachareladoem Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 2 A fé e a ética afirmam que o planeta faz parte do universo, não é somente terra, mas também oikos, o lar comum da humanidade. Deste modo, não se pode aceitar um mundo de donos, mas, sim, um mundo onde todos podem ter um lar. O oikonomos só tem sentido se conseguir incluir a todos no oikos, no lar. Contudo, como falar de lar, quando não se tem um teto, escola, saúde, trabalho, lazer, segurança e realização? Quando, para muitos, lar tem sentido de exílio, desterro, prisão? Quando muitos não conseguem ganhar seu pão com o suor de seu rosto? O conteúdo de uma fé que se torna ética frente aos grandes desafios da humanidade não se baseia em ideologias políticas do século 19. Está fundado num patrimônio multisecular. Na herança do Ano Sabático7 e do Ano do Jubileu8 prescritos na Torah9. Também na herança dos profetas como Isaías, Jeremias, Amós ou Miquéias. Nada mais atual do que as palavras de Jeremias ao rei: “Assim diz o Senhor: Executai o direito e a justiça, e livrai o oprimido da mão do opressor; não oprimais o estrangeiro nem o órfão, nem a viúva, nem derrameis sangue inocente neste lugar” (Jr, 22:3 – BÍBLIA SAGRADA, 2006). Enquanto isso, os direitos sociais estão sendo ridicularizados em nossos dias, retirados das Constituições, extintos, aumentando a vulnerabilidade e a fragilidade do ser humano. A herança dos Pais da Igreja, como Crisóstomo, Gregório, Basílio ou Ambrósio (s/d), já nos ensinava: “Não é teu o bem que distribuis ao pobre, apenas retribuis o que é dele. Porque tu és o único a usurpar o que é dado a todos para uso de todos”. 6 COMO NASCE CONCRETAMENTE A TEOLOGIA Fides quaerens intellectum10! A clássica expressão de Santo Anselmo nos dá uma definição clara da teologia. Esta nasce do coração da própria fé. Igualmente, o amor nasce da fé e deseja saber as razões por que ama. Tal é a dupla fonte objetiva da teologia. Quanto à fonte subjetiva, é o próprio espírito humano que “deseja naturalmente conhecer” (ARISTÓTELES, s/d.) e disso não estão excluídas as coisas da fé. Toda a pessoa de fé, à medida que procura entender o porquê daquilo que crê, é, a seu modo, teóloga. Em sua raiz mais profunda, a Teologia nasce da fé, entendida em sua unidade como novo nascimento, mais simplesmente como conversão. Só um ser profundamente transformado pode, verdadeiramente, ter acesso aos mistérios divinos. A fé é uma realidade unitária, mas também complexa. E é segundo essa complexidade que a fé é fonte, objeto e fim da Teologia. De fato, a fé compreende: a)• um elemento cognitivo: é a fé-palavra; b)• um elemento afetivo: a fé-experiência; c)• um elemento ativo: a fé-prática. Há uma relação íntima e orgânica entre fé e teologia. Esta é a fé em estado de ciência. Porém, a fé sempre precede a teologia e tem primado absoluto sobre ela. (7) Ano Sabático. “O termo vem do hebraico shabbath, e significa repouso. É o dia de recolhimento semanal dos judeus. No Antigo Testamento, há referência ao ano sabático: um ano, a cada seis, em que a terra fica sem cultivo para depois iniciar um novo ciclo de fertilidade” (SABÁTICO, 2007). (8) Ano Jubileu: “O Jubileu tem suas raízes no Antigo Testamento, sendo comemorado a cada 7 anos = ano sabático, e depois de 7 vezes 7 = Jubileu. Diz o Levítico: «Santificareis o qüinquagésimo ano, proclamando no país a liberdade de todos os que o habitam. Este ano será para vós jubileu, cada um de vós recobrará a sua propriedade e voltará para a sua família” (MONTFORT, 2007). (9) Torah “(do hebraico ,significando instrução ,הָר וֹ תּ apontamento, lei) é o nome dado aos cinco primeiros livros do Tanakh (também chamados de Hamisha Humshei Torah, as cinco - הרות ישמוח השמח partes da Torá) e que constituem o texto central do judaísmo” (WIKIPÉDIA, 2007). (10) Fides quaerens intellectum: “a fé que deseja saber”. ATENÇÃO! Amplie seus conhecimentos, confira a obra, Teoria do Método teológico de Clódovis Boff, referenciada ao término desta unidade. Bacharelado em Teologia © Introdução à Teologia • • • CRC Batatais – Claretiano 21 Versão para impressão econômica UNIDADE 2 7 O QUE ESTUDA A TEOLOGIA E EM QUE PERSPECTIVA Vejamos a estrutura do discurso científico em geral: Sujeito epistêmico11 não é fruto da herança genética, nem resultado da ação do meio, nem ainda mera soma desses dois conjuntos de fatores; mas, antes, constituído pela ação do indivíduo sobre o meio e sobre si mesmo, numa relação de troca permanente com essas instâncias constituidoras do sujeito. Objeto teóricoa) : toda investigação parte de algum problema percebido (posto) ou formulado, de tal modo que não se pode prosseguir, a menos que se especifique claramente o que se quer obter. É necessário delimitar o contexto da investigação Método específicob) : uso de técnicas e ferramentas específicas para a observação, análise e elaboração de hipóteses sobre o objeto da investigação. Como em toda ciência, é preciso distinguir, na Teologia, o objeto material e o objeto formal: Objeto materiala) : define a coisa de que uma ciência trata, o que se estuda (matéria-prima, temática, assunto, questão) – objetum quod. b) Objeto formalb) : indica o aspecto segundo o qual se trata o ente escolhido (aspecto, dimensão, faceta, lado, nível, razão específica). O objeto formal só é captado partindo de uma perspectiva12 particular em que se põe o sujeito epistêmico. A perspectiva é o correlato (subjetivo) do aspecto (objetivo) que se tem em vista. Objetum sub quo. (BOFF, 1999, p. 40-56). 8 ESTRUTURA DO DISCURSO TEOLÓGICO EM PARTICULAR Qual é a estrutura do discurso teológico? Como você já sabe, o objeto de estudo da teologia é Deus. Diante Dele, o discurso teológico estrutura-se da seguinte maneira: Objeto material da teologia: a) Deus e tudo o que se refere a Ele.• Deus, como objeto primário (primeiro) principal. • Tudo o mais como objeto secundário (segundo), conseqüencial. • Objeto Formal da Teologia:b) Deus enquanto revelado.• Toda e qualquer realidade à medida que se relaciona com o Deus • revelado. Trata-se, portanto, de Deus e das realidades com ele relacionadas enquanto vistas à luz da fé (perspectiva). (11) Epistêmico: “relativo à epistema ou episteme - conhecimento ou saber como um tipo de experiência; puramente intelectual ou cognitivo” (DICIONÁRIO HOUAISS). ATENÇÃO! Convém lembrar que é o objeto que determina o método. Caso contrário, estaríamos pesquisando um objeto inexistente, sem correspondente na realidade objetiva. A despeito dessa obviedade, esse é um erro que acompanha os homens de ciência de todas as épocas. (12) Perspectiva neste contexto refere-se a: ótica, visão, ponto de vista, prisma, ângulo, abordagem. VOCÊ SABIA QUE... Não há nada que não seja, em princípio, teologizável, segundo certa medida. CRC • • • © Introdução à Teologia Claretiano – Batatais22 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 2 Desse modo, é o objeto formal que determina se um discurso é ou não teológico. 9 CONSIDERAÇÕES Nesta unidade, vimos que precisamos aprender a pensar teologicamente, adquirir uma imaginação teológica, passar de um modo espontâneo de elaboração teológica para uma prática teológica mais reflexiva e elaborada. Além disso, vimos que toda pessoa de fé, de alguma forma, elabora teologia. Mas nem sempre de forma sistemática. Assim, em um curso de teologia, o mais importante é aprender a pensar, usar a imaginação teológica de forma metódica mediante ferramentas adequadas. O que significa basicamente fazer o exercício de pensar de modo mais sistemático a teologia? Significa, especialmente, aprender a provocar a reflexão. Significa aprender a se voltar sobre a experiência feita, sobre o que ainda está no nível do relato, da narrativa. Concretamente, o que queremos dizer? Como apirendizes de teologia, devemos saber levantar perguntas, aprender a) a aprender. Na base de toda experiência