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Daiane Fávaro 1- SOBRE A DOR VISCERAL A) DEFINIÇÃO A dor visceral é a dor nociceptiva decorrente da estimulação dos nociceptores das vísceras. É profunda e tem características similares às da dor somática profunda, ou seja, é difusa, de difícil localização e descrita como um dolorimento ou dor surda, que tende a se acentuar com a atividade funcional do órgão acometido. A dor advinda de diferentes vísceras do abdome e do tórax é um dos critérios que podem ser utilizados para diagnosticar inflamação visceral, doença infecciosa visceral e outras condições das vísceras. Com frequência, os receptores sensoriais viscerais servem apenas para perceber dor. Critérios fundamentais: • A marca característica é a localização imprecisa no tórax, no abdome ou na pelve. • pode ser percebida como se fosse localizada nas estruturas somáticas (dor referida). • pode sensibilizar as estruturas somáticas (hiperalgesia secundária). • geralmente está associada a alguma função visceral, como alimentação, micção ou evacuação. • pode ser causada por processos neoplásicos ou não neoplásicos. • Em geral, está associada a respostas emocionais e autonómicas intensas. Obs. as pesquisas clínicas demonstram que nem todas as vísceras respondem à dor. Alguns locais, com o os parênquimas pulmonar, hepático e renal, são praticam ente insensíveis à dor, mesmo quando estímulo saltam ente lesivos são aplicados. As vísceras ocas, tais com o estômago, intestino, ureteres e bexiga, são, em condições normais, praticam ente insensíveis ao corte e à queimadura, mas são dolorosos quando ocorrem distensão, isquem ia ou inflamação. Isso significa que, quando se estudam as vísceras, existe um a diferença entre estímulos potencialmente lesivos (nociceptivos) e aqueles que produzem dor. Os estímulos capazes de produzir dor visceral - estímulos elétricos, distorção mecânica, isquemia e aplicação de substâncias irritantes (algogênicas) - diferem de forma significativa daqueles pesquisados na avaliação da dor superficial. Uma das diferenças mais importantes entre a dor superficial e a dor visceral é que lesões altamente localizadas nas vísceras não costumam causar dor grave. Por exemplo, o cirurgião pode seccionar completamente uma alça intestinal de um paciente acordado em duas partes sem que ocorra dor significativa. Em contrapartida, qualquer estímulo que cause estimulação difusa de terminações nociceptivas ao longo de uma víscera causa dor de intensidade grave. Por exemplo, a isquemia ocasionada Daiane Fávaro pela obstrução do fluxo sanguíneo a uma grande região do intestino estimula muitas fibras nociceptivas difusas ao mesmo tempo, podendo resultar em extrema dor. A dor visceral tem algum as peculiaridades que a torna, ao mesmo tempo, complexa e única. Uma dessas características é a pouca capacidade que o ser humano tem em identificar com precisão a origem da dor visceral. A dor tem localização geralmente difusa nas proximidades do órgão afetado ou mesmo à distância. Sendo assim, um a dor de origem cardíaca pode se manifestar na região do membro superior esquerdo, um a dor pancreática pode manifestar-se com queixas álgicas no ombro esquerdo, um a dor relacionada à vesícula biliar pode referir-se à região do ombro direito ou interescapular à direita. Isso pode ser explicado pelo fato de que os estímulos viscerais penetram em diferentes segmentos da medula espinal, onde se juntam com fibras oriundas de estruturas somáticas. Por isso mesmo, a dor visceral provoca um fenômeno de sensibilização dessas estruturas somáticas superficiais, que resulta em hiperalgesia. Demonstra-se claramente, nesses pacientes, a ocorrência de maior sensibilidade à dor cutânea e, em especial, a existência de dor miofascial nos músculos do mesmo segmento espinal. As dores viscerais frequentemente são descritas como de intensidade variável, como em onda, com períodos de piora, seguidos de melhora. Devem corresponder aos períodos de contração do músculo liso. Outro fenômeno característico das dores viscerais é a associação mais exuberante com fenômenos neurovegetativos, tais com o palidez, mal-estar, sudorese e aumento do peristaltismo. Ocasionalmente, uma doença que acomete uma víscera pode se alastrar, passando a acometer nervos somáticos (p. ex., na pleura e no peritônio). Quando isso ocorre, a dor, antes difusa, pode se tornar mais localizada. Um exemplo clássico ocorre na apendicite, que, em um a fase inicial, tem localização abdominal difusa, passando a se localizar na fossa ilíaca direita após com prometimento peritoneal. Tal fato provavelmente se explique pela existência de nociceptores silentes, os quais não manifestam atividade em situações normais, mas seriam ativados pela presença de substâncias químicas liberadas na região afetada quando ocorre sensibilização. Conforme já se disse, a distensão mecânica nas vísceras ocas produz dor. Uma segunda causa de geração de dor visceral ocorre nos processos inflamatórios. Nas infecções de vias urinárias, o simples fato de urinar já se torna doloroso, assim com o na esofagite e úlcera gástrica ocorrem desconforto e dor relacionados à alimentação. Daiane Fávaro Outro importante evento doloroso estudado é a isquemia, com o aquela no infarto agudo do miocárdio ou na isquemia mesentérica. Provavelmente, o mecanismo de geração de dor se deva à liberação de substâncias algogênicas, das quais a mais estudada é a bradicinina. B) FISIOPATOLOGIA Vias de Transmissão das Dores Parietais abdominal e torácica A dor das vísceras costuma localizar-se em duas áreas da superfície do corpo ao mesmo tempo, em razão da transmissão dupla da dor através da via visceral de dor referida e da via parietal direta. Nesse sentido, a Figura 49.7 demonstra a transmissão dupla de um apêndice inflamado. Impulsos de dor passam primeiro pelo apêndice por meio de fibras nociceptivas viscerais localizadas dentro de feixes simpáticos e depois chegam à medula espinhal na altura de T10 ou T11. Essa dor é referida a uma área ao redor do umbigo e tem caráter profundo e de cólica. Impulsos de dor também são originados muitas vezes no peritônio parietal da região onde o apêndice inflamado toca ou se adere à parede abdominal. Esses impulsos causam dor do tipo agudo diretamente sobre a região peritoneal inflamada no quadrante inferior direito do abdome. Figura 49.7 Transmissão de sinais de dor visceral e parietal a partir do apêndice. Vias: Há muito se sabe que as vísceras apresentam receptores (aferentes) que se projetam ao sistema nervoso central através do sistema nervoso simpático e parassimpático. Alguns desses aferentes possuem função apenas regulatória (autonômica) enquanto outros geram respostas sensitivas, particularmente de dor. Esses aferentes são formados por fibras nervosas finas que podem ser pouco mielinizadas (A-delta) ou amielinizadas (fibras C). Uma questão ainda não resolvida diz respeito à existência de aferentes puramente dolorosos para determinado estímulo (específicos) ou se tais fibras teriam função mista (regulatória e sensitiva), https://jigsaw.minhabiblioteca.com.br/books/9788595158696/epub/OEBPS/Text/chapter49.xhtml#fig49-7 Daiane Fávaro passando a responder de uma forma ou outra de acordo com a intensidade do estímulo (teoria do padrão e intensidade). A maior parte das fibras aferentes viscerais, antes de se dirigirem à medula espinal, trafegam para gânglios simpáticos pré-vertebrais e paravertebrais. Os gânglios pré-vertebrais são representados pelos gânglios celíaco e mesentéricos superior e inferior. Os gânglios paravertebrais são representados pelos gânglios cervicais superior, médio e inferior, gânglio estrelado, gânglios toracolombares, gânglio sacral e gânglio ímpar coccígeo (gânglio de Walther). Obs. Um a pequena parte dos estímulos dolorosos, no entanto, trafega por nervos do sistema nervosoparassimpático. Enquanto as fibras aferentes somáticas são numerosas e penetram na medula espinal em determinado segmento, as fibras aferentes viscerais são poucas (numerosas) e penetram no corno posterior da medula espinal em vários níveis, o que justifica a pouca localização espacial dessas dores. Na medula espinal, as fibras se dirigem especialmente à lâmina superficial (lâmina I de Rexed) e a outras mais profundas (V e X). Daí os estímulos são transmitidos pelas mesmas vias da dor superficial. Mais comumente, cruzam a linha média e ascendem pelo trato espinotalâmico lateral até os núcleos ventrais do tálamo e daí ao córtex cerebral. Outras vias, tais com o a espinorreticular e a espinomesencefálica, devem ter papel importante em fenômenos associados, tais como o alerta à dor e aos fenômenos neurovegetativos que o acompanham. Entendendo melhor... Fisiologicamente a dor é deflagrada por estímulos intensos e potencialmente lesivos que ativam os nociceptores e desencadeiam reação inflamatória com liberação de mediadores químicos (substâncias algogênicas), bradicinina, serotonina, histamina, íons potássio, acetilcolina, interleucina-1, óxido nítrico e Daiane Fávaro enzimas proteolíticas. Além disso, as prostaglandinas e a substância P aumentam a sensibilidade das terminações nervosas, mas não as excitam diretamente. Estas culminam em alterações vasculares e imunológicas inflamatórias, ativação dos nociceptores ou redução do seu limiar de excitabilidade, tornando-os assim mais sensíveis aos estímulos. Atualmente é proposto que a substância P seja o principal neurotransmissor central envolvido na dor relacionada com as fibras do Tipo C, devido à sua liberação mais lenta, o que caracteriza dor crônica. A inervação visceral é mediada principalmente por fibras C, tendo proporção de 1:8 a 1:10, enquanto na pele a proporção é de 1:2. Sendo assim as vísceras tendem a transmitir o tipo crônicopersistente de dor. Já nas superfícies parietais há extensa inervação somática, originada dos nervos espinhais periféricos, portanto a dor da parede parietal geralmente é aguda. Mantendo-se o caráter somático de, por exemplo, uma incisão é extremamente dolorosa, mas também somado a isso estímulos químicos, como a inflamação, e bacterianos também realizam ativação nociceptiva da porção parietal do peritônio. Danos viscerais focalizados raramente causam dor grave e, inversamente proporcional a isso, qualquer estímulo difuso dessas terminações nervosas causa dor grave. Já é consenso na literatura que compressão, isquemia, inflamação, espasmos ou dilatação são estímulos normalmente difusos. Já queimaduras, pinçamentos ou incisão são considerados estímulos pontuais e assim não resultam em processo álgico visceral. Os estímulos nociceptivos viscerais podem causar forte dilatação ou contração de um órgão e também resultam em liberação de mediadores químicos resultantes de inflamação, isquemia e manipulação do órgão. Os espasmos causam dor pela estimulação mecânica dos nociceptores ou também pela diminuição do fluxo sanguíneo em combinação com o aumento da necessidade metabólica do tecido. Essa dor ocorre em forma de cólicas intermitentes. Supõe-se que a dor resultante de isquemia seja devida a estímulos químicos de mediadores inflamatórios nos nociceptores. Na medula espinhal há basicamente duas vias ascendentes para condução da dor até o cérebro, que constituem a via espinotalâmica; a) a via neoespinotalâmica, que conduz dor somática, bem localizada, por meio de poucas sinapses, e b) a via paleoespinotalâmica, que possui localização pobre e conduz a dor visceral de forma lenta por várias sinapses. A via paleoespinotalâmica pode ser subdividida quanto à sua transmissão em via visceral verdadeira – que age por meio dos feixes nervosos autônomos simpáticos e em que se relatam as sensações em superfícies corporais geralmente longe do órgão afetado – e via parietal, que conduz Daiane Fávaro diretamente para os nervos espinhais locais e a sensação se localiza sobre a lesão. Essas duas vias muitas vezes são ativadas simultaneamente. Por exemplo, inicialmente a dor de um órgão lesionado não cirurgicamente é transmitida pela via de dor visceral verdadeira e essa dor, persistente e espasmótica, induz liberação de mediadores inflamatórios sobre a superfície parietal, ocasionando a ativação da via parietal, que culmina em dor pontual e aguda, já cirurgicamente a dor via parietal é inicialmente ativada, no entanto ocorre mais tardiamente ativação da visceral verdadeira devido ao procedimento. Após a percepção da dor pelo cérebro, são transmitidas informações pela via descendente, relacionada com as fibras C, que induzem liberação de opióides endógenos a fim de modular a liberação de substancia P, diminuindo a estimulação álgica. Também existe evidência da participação da serotonina, noradrenalina, ácido gama-aminobutírico (GABA) e acetilcolina neste processo. No sistema nervoso central (SNC), mais especificamente na medula, os receptores muscarínicos realizam uma alteração no eixo noradrenérgicocolinérgico aumentando as concentrações de acetilcolina nesses sítios para diminuir a hiperalgesia. C) TIPOS (PARIETAL E VERDADEIRA) Tipos de dor visceral: As doenças viscerais podem determinar dores de vários tipos: visceral verdadeira, visceral referida, parietal localizada ou parietal referida. Ou seja, a dor visceral pode estar relacionada com quatro condições: (a) comprometimento da própria víscera (dor visceral verdadeira); (b) comprometimento secundário do peritônio ou pleura parietal (dor somática profunda); (c) irritação do diafragma ou do nervo frênico; (d) relacionada a um reflexo viscerocutâneo (dor referida). A dor visceral verdadeira não referida: A dor visceral verdadeira tende a se localizar na projeção anatômica do órgão onde se origina. A dor cardíaca, por exemplo, tem localização retroesternal ou precordial; a pleural, na parede do hemitórax correspondente; a esofágica, na região retroesternal ou epigástrica; a gastroduodenal, no epigástrio e no hipocôndrio direito; a ileojejunal e dos cólons é predominantemente periumbilical; a do sigmoide e do reto, na região pélvica e perineal; a hepática e biliar, no hipocôndrio direito e epigástrio; a esplênica, no hipocôndrio esquerdo; a pancreática, no epigástrio, hipocôndrio esquerdo e parte média do dorso; a renal, nos flancos; a ureteral, nos flancos com irradiação para o baixo-ventre e genitália; a vesical e uretral proximal é pélvica ou no baixo-ventre; Daiane Fávaro a uterina, no baixo-ventre, região pélvica, perineal e lombar baixa; a originada nos ovários e anexos, na região pélvica, perineal, lombar baixa e nas fossas ilíacas. A qualidade da dor é específica para cada tipo de víscera. Assim, a dor das vísceras maciças e dos processos não obstrutivos das vísceras ocas é descrita como surda; a dos processos obstrutivos das vísceras ocas é do tipo cólica; quando há comprometimento da pleura parietal, em pontada ou fincada; na isquemia miocárdica é constritiva ou em aperto; e quando há aumento da secreção do ácido clorídrico (gastrite, úlcera gástrica ou duodenal), em queimação. A dor visceral referida: localiza-se nos miótomos e dermatômeros supridos pelos neurônios que se projetam nos mesmos segmentos medulares das vísceras afetadas. A dor parietal localizada ou a dor parietal não referida: resulta da irritação do peritônio parietal e localiza-se na parede abdominal correspondente ao local da lesão. A dor parietal referida: manifesta-se em ponto distante do local da estimulação nociceptiva. ATENÇÃO: DOR PARIETAL CAUSADA POR DOENÇA VISCERAL Quando uma doença acomete uma víscera, seu processo frequentemente se distribui para o peritônio, a pleura ou pericárdio parietais. Essas superfícies parietais, assim como a pele, são inervadas com muitas fibras nociceptivas dosnervos espinhais periféricos. Portanto, a dor que advém da região parietal que circunda uma víscera normalmente tem caráter agudo. Um exemplo enfatizando a diferença entre essa dor e a verdadeira dor visceral seria uma incisão através do peritônio parietal, que é muito dolorosa, ao passo que a mesma incisão no peritônio visceral ou na parede da víscera não causa dor significativa ou mesmo nem causa dor. D) CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS Qualquer estímulo que excite as terminações nervosas da dor em áreas difusas das vísceras pode causar dor grave. Esses estímulos incluem isquemia do tecido visceral, lesão química das superfícies da víscera, espasmo do músculo liso de uma víscera oca, distensão excessiva de uma víscera oca e estiramento do tecido conjuntivo externo ou interno de uma víscera. Essencialmente, toda dor visceral originada nas cavidades torácica e abdominal é transmitida por fibras pequenas tipo C, as quais podem transmitir somente o tipo crônico, profundo e sofrível de dor. Isquemia. A isquemia causa dor visceral assim como o faz em outros tecidos, presumivelmente devido à formação de produtos metabólicos ácidos ou degenerativos dos tecidos, como bradicinina, enzimas proteolíticas ou outras substâncias capazes de estimular terminações nervosas nociceptivas. Daiane Fávaro Estímulos químicos. Ocasionalmente, substâncias nocivas extravasam do trato gastrointestinal para a cavidade peritoneal. Por exemplo, o suco gástrico ácido proteolítico pode extravasar através de uma úlcera gástrica ou duodenal e causar digestão generalizada do peritônio visceral, estimulando amplas áreas de fibras nervosas. A dor geralmente tem caráter excruciante e grave. Espasmo de víscera oca. O espasmo de uma porção do intestino, da vesícula biliar, do ducto biliar, do ureter ou de qualquer outra víscera oca pode causar dor, possivelmente devido à estimulação mecânica das terminações nervosas de dor. Outra possibilidade é que o espasmo reduza o fluxo sanguíneo para o músculo e aumente o requerimento metabólico desse músculo por nutrientes, ocasionando dor grave. Com frequência, a dor oriunda de uma víscera espástica ocorre como cólica, com aumento até um grau intenso de gravidade seguido de amenização da dor. Esse processo continua de maneira intermitente a cada período de alguns minutos. Os ciclos intermitentes resultam de períodos de contração do músculo liso. Por exemplo, a cada vez que uma onda peristáltica percorre uma alça intestinal espástica, ocorre cólica. A dor do tipo cólica ocorre frequentemente em indivíduos com apendicite, gastrenterite, constipação intestinal, menstruação, trabalho de parto, doença da vesícula biliar ou obstrução ureteral. Distensão excessiva de uma víscera oca. O enchimento extremo de uma víscera oca pode resultar em dor, presumivelmente em razão do estiramento dos próprios tecidos. É possível a distensão também causar colabamento de vasos sanguíneos que circundam a víscera ou que passam através de suas paredes, talvez provocando também dor isquêmica. Vísceras insensíveis. Algumas vísceras são quase completamente insensíveis a qualquer tipo de dor. Essas regiões incluem o parênquima do fígado e alvéolos pulmonares. Contudo, a cápsula do fígado é extremamente sensível a traumatismo direto e estiramento, e os ductos biliares também são sensíveis à dor. Nos pulmões, embora os alvéolos sejam insensíveis, os brônquios e a pleura parietal são muito sensíveis à dor. Localização da Dor Visceral A dor de diferentes vísceras é geralmente de difícil localização, por muitas razões. A primeira delas é que o encéfalo do paciente não tem conhecimento acerca da existência de órgãos internos por experiência direta. Portanto, qualquer dor que se origine internamente só poderá ser localizada de maneira geral. A segunda razão é que sensações do abdome e tórax são transmitidas por duas vias para o sistema nervoso central: a via visceral verdadeira e a via parietal. A primeira é transmitida por fibras sensoriais nociceptivas dos feixes nervosos do sistema nervoso autônomo, cujas sensações são referidas a Daiane Fávaro áreas da superfície do corpo geralmente distantes do órgão de origem da dor. Já as sensações parietais são conduzidas diretamente para nervos espinhais locais do peritônio, da pleura ou do pericárdio parietais, sendo geralmente localizadas diretamente sobre a área dolorosa. Localização da dor referida de origem visceral. Quando a dor visceral é referida à superfície do corpo, o indivíduo tende a localizar a dor em um dermátomo a partir do qual aquela víscera se originou na vida embrionária, não necessariamente onde a víscera se encontra na fase adulta. Por exemplo, o coração origina-se no pescoço e na porção superior do tórax, de modo que as fibras nociceptivas viscerais do coração ascendem ao longo de nervos sensoriais simpáticos e adentram a medula espinhal nos segmentos C3 a T5. Portanto, conforme demonstrado na Figura 49.6, a dor advinda do coração é referida para a lateral do pescoço, do ombro, dos músculos peitorais e do braço, chegando à região subesternal do tórax. Essas são as regiões da superfície corporal que enviam fibras nervosas somatossensoriais para os segmentos C3 a T5. A dor ocorre geralmente do lado esquerdo, em vez do direito, porque em geral é o lado esquerdo do coração que está mais frequentemente relacionado às doenças coronarianas. Figura. Áreas da superfície da dor referida advinda de diferentes órgãos viscerais. O estômago origina-se aproximadamente do sétimo ao nono segmento torácico do embrião. Portanto, a dor no estômago é referida à região epigástrica anterior acima do umbigo, que corresponde à área de superfície corporal suprida pelos segmentos torácicos sete a nove. 2) DIFERENCIE DOR REFERIDA E DOR IRRADIADA Dor referida e dor irradiada, são tipos de dor nociceptiva visceral. https://jigsaw.minhabiblioteca.com.br/books/9788595158696/epub/OEBPS/Text/chapter49.xhtml#fig49-6 Daiane Fávaro DOR REFERIDA: (INERVAÇÕES PARALELAS SE CONVERGEM) A dor referida é condição em que a dor sentida não é localizada na região da lesão, mas em local adjacente ou distante. As dores referidas frequentemente decorrem de lesão em tecidos profundos, com os músculos, articulações ou vísceras. Frequentemente, esse tipo de dor e a hiperalgesia associada são situadas pelo paciente nos músculos e nas regiões da pele do mesmo dermatômero áreas do corpo que possuem nervos sensoriais que possuem origem na mesma raiz nervosa) do órgão lesado. A dor referida aumenta com a intensidade e duração da estimulação nociva da víscera ou estrutura profunda aberta. Geralmente restringe-se a um mesmo segmento espinal. Entretanto, em alguns casos, há expansão para segmentos vizinhos ou mais distantes. A dor referida, na maioria das vezes, pode ser acompanhada de desenvolvimento de maior sensibilidade na área atingida, que é a hiperalgesia referida. Característica importante da dor irradiada é que obedece claramente à distribuição metamérica. Dor referida. O estímulo doloroso procedente de uma víscera é conduzido pelo neurônio aferente visceral (1) e penetra na medula com o neurônio aferente somático (2), responsável pela sensibilidade superficial daquele metâmero. Seja qual for a origem do estímulo – pele ou víscera –, este será conduzido aos centros superiores através do feixe espinotalâmico (3). DOR IRRADIADA: (TRAJETO DO MESMO NERVO) Se manifesta ao longo de um trajeto nervoso de onde está ocorrendo o estímulo. Temos como exemplo a ciatalgia. Daiane Fávaro Ex: Dor irradiada por hérnia discal entre L4 e L5 (lombociatalgia), comprimindo a raiz de L5. A dor é irradiada para a nádega, face posterolateral da coxa e posterolateral da perna 3) SOBRE O CÁLCULO RENAL A) DEFINIÇÃO E EPIDEMIOLOGIA NEFROLITÍASE - refere-se àformação de cálculo dentro dos túbulos renais ou do sistema coletor, embora os cálculos sejam, na maioria das vezes, achados nos ureteres ou na bexiga. Os mesmos são provenientes de substâncias que são filtradas na urina e usualmente apresentam coloração amarela ou marrom, sendo formado de um material sólido policristalino. Litíase urinária, urolitíase ou nefrolitíase são denominações que se atribuem a formação de policristais nas vias urinárias. A maioria dos cálculos renais é de oxalato de cálcio, fosfato de cálcio, estruvita, ácido úrico e cistina cálculos renais, sendo a maioria dele composto de ácido úrico, oxalato de cálcio, ou ambos. A apresentação clínica varia de pequenos cálculos assintomáticos a cálculos obstrutivos coraliformes que ocasionam danos à função renal e causam doença renal crônica (DRC). A gravidade da nefrolitíase depende da patogênese, assim como do tamanho, tipo e localização do cálculo. A nefrolitíase deve ser diferenciada de nefrocalcinose. Enquanto a primeira é caracterizada pela presença de cálculos no trato urinário, poupando o parênquima renal, a última caracteriza-se pela calcificação deste. Essas calcificações são usualmente de fosfato de cálcio ou oxalato de cálcio e podem se depositar no córtex ou na medula renal, dependendo da causa. De maneira geral, 97% dos cálculos localizam-se no parênquima renal, nas papilas, nos cálices, na pelve renal ou no ureter. Apenas 3% dos cálculos urinários localizam-se na bexiga e na uretra. EPIDEMIOLOGIA - Cálculos renais são comuns em nações industrializadas, com incidência anual de cerca de 1/1.000 pessoas, e o risco de formação de cálculos por toda vida é de cerca de 5% em mulheres e de aproximadamente 13% em homens, com taxas de recorrência de até́ 50%. Incidência tem picos nas terceiras e quartas décadas de vida, e a prevalência aumenta com a idade até cerca de 70 anos em homens e 60 anos em mulheres. Fatores que determinam a prevalência incluem idade, sexo, raça e distribuição geográfica. Nos EUA, caucasianos (raça branca) são mais propensos a Daiane Fávaro desenvolver cálculos renais que afro-americanos, latinos ou americanos de descendência asiática, mas a prevalência também tem aumentando em não caucasianos. O risco de nefrolitíase em indivíduos com IMC ≥ 30 kg/m2, comparado aqueles com IMC entre 21 a 23 kg/m2, é 30% maior entre os homens, mas quase duas vezes maior entre as mulheres. Alterações dinâmicas no peso corpóreo também aumentam risco: o ganho de aproximadamente 15 kg, a contar do início da vida adulta, aumenta o risco de nefrolitíase nos homens em 40% e nas mulheres em 80% Obs. O tipo de cálculo varia com a geografia mundial e a predisposição genética. B) FATORES DE RISCO - Os principais fatores de risco são: Idade de início precoce, por exemplo crianças, pelo risco de cistinúria e hiperoxalúria primária; História familiar de nefrolitíase; Nefrolitíase em rim único; Doenças associadas à nefrolitíase: Hiperparatireoidismo; ATR distal; Cistinúria; Hiperoxalúria primária; Bypass jejunoileal; Condições associadas com má absorção intestinal; Sarcoidose; Gota; Doença de Cushing; Daiane Fávaro Medicações associadas à nefrolitíase: Suplementos de cálcio; Suplementos de vitamina D; Acetazolamida; Vitamina C (em megadoses, frequentemente superiores a 4 g/dia); Sulfonamidas; Triantereno; Indinavir, atazanavir; Alterações anatômicas associadas à nefrolitíase: Ectasia tubular (rim espongiomedular); Obstrução da junção ureteropélvica; Divertículo calicinal, cisto calicinal; Estenose ureteral; Refluxo vesicoureteral; Rim em ferradura; Ureterocele. A história familiar é muito importante, sobretudo em pacientes jovens, pois determinados tipos de cálculo tem base genética, como a cistinúria e a hiperoxalúria primária. A avaliação da ingestão hídrica e o inquérito alimentar podem revelar importantes fatores de risco, como baixa ingestão hídrica e ingestão de alimentos ricos em sódio, purinas e oxalato. Muitos pacientes com nefrolitíase são erroneamente instruídos a diminuir a ingestão de cálcio. Dieta pobre em cálcio associa-se a maior absorção intestinal de oxalato, hiperoxalúria e aumento no risco de cálculos de oxalato de cálcio. C) FISIOPATOLOGIA Cálculos ocorrem em uma urina que está supersaturada em relação aos componentes iônicos de cada tipo específico de cálculo. Supersaturação é dependente do produto da atividade de íons livres dos componentes do cálculo mais do que de suas concentrações molares. Enquanto uma concentração crescente dos componentes dos cristais aumenta a sua atividade do íon livre, outros fatores a diminuem. Quando o cálcio e o oxalato são dissolvidos na água pura, por exemplo, a solução torna-se saturada quando a adição de qualquer quantidade de cálcio ou oxalato não resulta em posterior dissolução. Daiane Fávaro Entretanto, a urina, diferentemente da água pura, contém numerosos íons e moléculas que podem formar complexos solúveis com os componentes solúveis do cálculo. As interações com esses outros solutos (p. ex., citrato) podem resultar em redução da atividade de íons livres, o que possibilita que os constituintes dos cálculos aumentem em concentração total a níveis que poderiam normalmente levar à formação de cálculos na água. O pH urinário também influencia a atividade do íon livre. O nível de atividade do íon químico livre em que os cálculos não vão crescer ou serem dissolvidos é referido como produto de solubilidade de equilíbrio, ou o limite superior de metaestabilidade. Acima desse nível, a urina ficará supersaturada e qualquer cálculo presente irá aumentar de tamanho. Quando a solução se torna supersaturada em relação à fase sólida, íons podem se unir e formar uma fase mais estável e sólida, um processo chamado de nucleação. A nucleação homogênea refere-se à união de íons similares em cristais. As nucleações heterogêneas mais comuns e termodinamicamente favorecidas ocorrem quando cristais crescem adjacentes a outros cristais ou outras substâncias na urina, como as células epiteliais destacadas. Cristais de oxalato de cálcio, por exemplo, podem se nuclear com cristais de ácido úrico. Esses pequenos cristais podem, então, agregar-se e formar cálculos maiores, que irão passar na urina, caso eles não ancorem no urotélio, causando cristalúria. Cristais de oxalato de cálcio ancoram-se em áreas de depósitos de fosfato de cálcio, chamadas de placas de Randall, que estão localizadas na papila renal e são compostas de cristais de apatita (um complexo com maior parte de cálcio e um pouco de fosfato). Essa apatita parece originar-se nas proximidades da alça fina de Henle, na membrana basal tubular, e estender-se ao interstício sem preencher o lúmen tubular ou danificar as células tubulares. Cristais de oxalato de cálcio grudam nas placas de Randall, possibilitando crescimento significativo do cálculo. Doença litiásica clinicamente aparente ocorre quando os cristais de oxalato de cálcio separam-se das placas de Randall e causam lesão ou obstrução. Nucleação Cristalúria. Aumento do tamanho dos cristais com a agregação Cálculo Renal Daiane Fávaro d) TIPOS DE CÁLCULO RENAL ÁCIDO ÚRICO – ocorre principalmente em pacientes que possuem ácido úrico com níveis elevados. É mais frequente em homens. Pode ser consequência também de dietas com excesso de proteína ou em pessoas que realizam quimioterapia. Além disso, fatores genéticos também podem contribuir para o surgimento desse tipo de pedra. Três fatores principais influenciam a formação de cálculos de ácido úrico: pH urinário baixo, baixo volume de urina e níveis elevados de ácido úrico urinário. OXALATO DE CÁLCIO OU FOSFATO DE CÁLCIO - São o tipo mais frequente.Geralmente, ocorre em homens e mulheres com idade entre 20 e 30 anos, mas podem reaparecer mesmo após o tratamento ter sido finalizado com sucesso. Surgem por alguma disfunção do organismo, como o excesso de absorção de cálcio pelo intestino. A maioria dos cálculos de cálcio não deve exceder 1 a 2 cm de largura, embora a intervenção cirúrgica seja muitas vezes necessária para pedras maiores que 5 mm. Tipos de cálculo de cálcio: Hipercalciúria - Os pacientes afetados geralmente têm excesso de absorção intestinal de cálcio e também podem ter reabsorção tubular renal de cálcio diminuída e aumento da reabsorção óssea. Hiperoxalúria - Elevação dos níveis de oxalato urinário é resultado de excesso de ingestão (oxalúria dietética), distúrbios gastrointestinais que podem levar à má absorção (oxalúria entérica) ou de uma deficiência enzimática hereditária que resulta no metabolismo excessivo de oxalato (hiperoxalúria primária) Hipocitratúria - Várias condições reduzem a excreção de citrato urinário, predispondo à formação de cálculos. Ingestão excessiva de proteína, infecções, androgênios, jejum e acetazolamida foram implicados na redução da excreção urinária de citrato. Hiperuricosúria - Cristais de oxalato de cálcio geralmente formam núcleo com outros tipos de cristais, como o de ácido úrico. FOSFATO DE AMÔNIO MAGNESIANO (ESTRUVITA) - Cálculos de estruvita são também referidos como “cálculos de infecção” ou “cálculos de fosfato triplo”. Os cálculos crescem rapidamente a um grande tamanho, podem reduzir a função renal no rim afetado e são difíceis de se erradicar. Devido a morbidade significativa em pacientes com cálculos renais, eles também foram chamados de “pedra câncer”. A maioria dos cálculos coraliformes, grandes cálculos que penetram em mais de um cálice renal, são compostas de estruvita. A sua formação requer a presença de bactérias produtoras de urease na urina Daiane Fávaro CISTINA - Cistinúria é um distúrbio autossômico em que ocorre um defeito no transporte tubular aminoácido dibásico, resultando num aumento da excreção de cistina, ornitina, lisina e arginina. O padrão de herança pode ser autossômico recessivo ou autossômico dominante com penetrância incompleta. A doença litiásica é, na maioria das vezes, clinicamente manifesta nas segunda e terceira décadas de vida. Constituem 2% de todas as litíases. E) QUADRO CLÍNICO Os sintomas característicos de nefrolitíase são dor (cólica ureteral) e hematúria. Outras apresentações incluem ITUs e lesão renal aguda (LRA), causada por uropatia obstrutiva, quando cálculos causam obstrução renal bilateral ou obstrução unilateral em um único rim funcionante. DOR - A apresentação clássica de dor em pacientes com nefrolitíase é cólica ureteral. A dor é de início abrupto e se intensifica com o tempo até uma dor grave e excruciante no flanco que se resolve apenas com a passagem ou a remoção do cálculo. A dor pode migrar anteriormente pelo abdome e inferiormente pela virilha, testículos ou grandes lábios, à medida que o cálculo se move pela junção ureterovesical. Hematúria macroscópica, urgência urinária, polaciúria, náusea e vômitos podem ocorrer. Cálculos menores que 5 mm podem passar espontaneamente com hidratação, enquanto os maiores podem requerer intervenção urológica. Cólica ureteral pode ocorrer também pela passagem de coágulos de hematúria de qualquer causa (“cólica por coágulo”) ou com necrose de papila. Além de cólica, a nefrolitíase pode provocar dor dorsal menos específica que se localiza ao redor do rim e, portanto, apresenta amplo diagnóstico diferencial, particularmente se não associada a sintomas urinários. O achado de cálculo em um exame radiológico não exclui uma causa coincidente de dor de outra fonte. Daiane Fávaro HEMATÚRIA - Hematúria macroscópica ocorre mais comumente com cálculos maiores e quando há ITU e cólica. Embora tipicamente associada à cólica ureteral ou dor dorsal, a hematúria da nefrolitíase pode ser indolor. O diagnóstico diferencial de hematúria é, portanto, vasto. LITÍASE ASSINTOMÁTICA - Até cálculos grandes podem ser assintomáticos e descobertos apenas durante a investigação de sintomas não relacionados abdominais ou musculoesqueléticos. F) DIAGNÓSTICO O diagnóstico começa a partir de uma boa anamnese e exame físico. As manifestações clínicas da cólica renal e o trajeto da dor são muito sugestivos da nefrolitíase. Os achados da bioquímica do soro costumam ser normais, porém a contagem de leucócitos pode estar elevada. ▶ Anamnese: serve para descobrir uma causa sistêmica de nefrolitíase. A história de cálculo inclui o número e a frequência de cálculos formados, idade do paciente na incidência do primeiro cálculo, tamanho dos cálculos, tipo de cálculo (se conhecido) e se o paciente foi submetido à remoção cirúrgica do cálculo. Essas informações indicam a gravidade da doença litiásica e fornecem pistas para a causa da formação de cálculos. História familiar é importante porque vários tipos de cálculos têm uma base genética. A história social deve incluir detalhes em relação a ocupação e estilo de vida. Uma história dietética e uma revisão da ingesta de fluidos são essenciais na determinação de potenciais causas ou contribuintes para a formação de cálculos. O paciente deve ser interrogado sobre as principais comidas consumidas, com atenção a comidas contendo sódio, assim como quantidades de cálcio, proteína animal, purina e oxalato. A ingesta de cálcio na dieta dever ser revisada já que muitos pacientes com nefrolitíase são erroneamente instruídos a eliminar todo o cálcio da dieta, uma sugestão que pode resultar não apenas em desmineralização óssea, sobretudo em mulheres e crianças, mas também em aumento da formação de cálculos. Refrigerantes adoçados com açúcar parecem estar associados a aumento do risco de formação de cálculo, enquanto o consumo de café, chá, cerveja, vinho e suco de laranja parece estar associado a menor risco. Todos os pacientes com nefrolitíase recorrente merecem avaliação metabólica para determinar a causa dos cálculos renais. O National Institutes of Health Consensus Development Conferencie on the Prevention and Treatment of Kidney Stones determina que todos os pacientes, mesmo aqueles com cálculo único, devem ser submetidos à avaliação básica, que não precisa incluir uma coleta de urina de 24 h. Aqueles com cálculos metabólicos ativos (cálculos crescendo em número ou tamanho em um ano), todas as crianças, formadores de litíase não cálcicas e pacientes em grupos demográficos não tipicamente propensos à formação de cálculos merecem Daiane Fávaro uma avaliação mais completa, o que inclui uma coleta de urina de 24 h feita pelo paciente com sua dieta habitual. ▶ Exame Físico: A maioria dos pacientes com hipercalciúria idiopática é saudável e tem achados normais ao exame físico. Pacientes com hiperuricosúria e formação de litíase de ácido úrico podem ter tofos (nódulos de cristais de ácido úrico rígidos se depositam no revestimento ou cartilagem da articulação (sinoviais) ou no osso próximo às articulações e, finalmente, na pele a seu redor.). Obesidade central é associada a predisposição de síndrome metabólica e cálculos de ácido úrico. ▶ Achados Laboratoriais: O pH urinário está quase sempre alto em pacientes com cálculo de estruvita e cálculos de fosfato de cálcio, mas menor em pacientes com ácido úrico e cálculos de oxalato de cálcio. Hematúria pode implicar doença calculosa ativa com passagem de cristais ou cálculos. Exame de urina pode revelar células sanguíneas vermelhas além de cristais característicos. Bacteriúria com pH urinário de 6 a 6,5 sugere cálculo de estruvita. A cultura da urina deve ser realizada e, já que muitas bactérias produzem urease mesmo quando a contagem de colônias de bactérias urinárias é baixa, o laboratório de microbiologia deve serinstruído a tipificar o organismo mesmo quando há menos de 100.000 unidades formadoras de colônia/mL. Exames sanguíneos requeridos na avaliação básica são eletrólitos séricos (sódio, potássio, cloreto e bicarbonato), creatinina, cálcio, fósforo e ácido úrico. Se o cálcio é elevado ou no limite superior da normalidade, o nível de hormônio paratireoideano deve ser dosado. Um nível de potássio ou bicarbonato baixo pode indicar uma causa de hipocitratúria, como a acidose renal tubular distal. ▶ Exame de imagem: Para fechar o diagnóstico, devem ser realizados exames de imagens. Pacientes devem ter uma radiografia simples de abdome com visualização de rins, ureteres e bexiga. Isso pode revelar opacificações em áreas de rins e ureteres que podem ser resultados de cálculos de cálcio, cistina e estruvita. Obs. Cálculos de ácido úrico e xantina são radiolucentes e não serão visíveis em radiografias. A tomografia computadorizada helicoidal de alta resolução (TC): também conhecida como Uro- TC, tem substituído a urografia excretora (UE) como o teste diagnóstico de escolha para cólica ureteral aguda; ela tem sensibilidade e especificidade mais altas que a UE para detectar cálculos ureterais e obstrução ureteral e evita a necessidade de contraste. TC é mais útil para revelar outras causas de cólica que não dos cálculos. É mais rápida, com resultados disponíveis em minutos em vez de horas, o que é uma vantagem na sala de emergência. Desvantagens da imagem por TC incluem dose de radiação três vezes maior que a UE convencional e maior custo. Ambos os testes devem ser evitados ou limitados em pacientes sob risco de exposição à radiação, como crianças e mulheres grávidas. O contraste deve ser Daiane Fávaro geralmente evitado em pacientes com disfunção renal ou com outras contraindicações ao uso de contraste. Na maioria das vezes, a UE demonstra obstrução do trato urinário que pode ser causada por cálculo e pode identificar anormalidades do trato urinário que predispõem à formação de cálculos, como rim esponjoso medular ou anomalias calicinais. Durante a cólica aguda, o contraste radiográfico usado na UE, por formação de uma forte diurese osmótica, pode ajudar na movimentação do cálculo ao longo do ureter. Se os cálculos são radiopacos, uma radiografia de rins e vias urinárias pode ser obtida se o paciente desenvolve sintomas sugestivos de doença litiásica recorrente. Ultrassom renal: fornece maior especificidade na avaliação de cálculos, mas não é um teste de rastreio sensível. Ambos os cálculos dentro dos rins – radiopacos e radiotransparentes – devem ser detectáveis no ultrassom, mas os cálculos ureterais não são geralmente vistos. Não obstante, esse é o exame de escolha para os pacientes em que se deve evitar a exposição à radiação. Avaliação BÁSICA Avaliação COMPLETA Síndrome da dor lombar e hematúria é uma condição mal compreendida que sempre deve ser considerada no diagnóstico diferencial de nefrolitíase. É diagnóstico de exclusão quando o paciente (a maioria tipicamente mulheres de meia-idade e jovens) apresenta dor lombar, hematúria microscópica persistente e hematúria macroscópica intermitente. G) TRATAMENTO ▶ MANEJO CLÍNICO Uma avaliação completa dever ser feita em pacientes com cálculos múltiplos ou metabolicamente ativos (p. ex., cálculos que crescem em tamanho e aumentam em número dentro de um ano), em todas as crianças, em pacientes de grupos demográficos que tipicamente não são propensos para a formação de cálculo e naqueles cujos cálculos não contêm cálcio. A avaliação completa deve incluir a medida do volume urinário e a quantidade de cálcio, oxalato, fósforo, ácido úrico, sódio, citrato e creatinina excretados na urina coletada em 24 horas, ou seja, todo conteúdo urinário de todas as micções, durante o período de 24 horas. Pacientes devem ser encorajados a realizar a coleta de urina de 24 horas em um dia típico enquanto estiver sob dieta típica. Daiane Fávaro Esse fenômeno, denominado “efeito clínico no cálculo” é provavelmente um resultado de modificações na dieta e ingestão de líquidos. Essas medidas não farmacológicas incluem: aumento na ingestão de líquidos, o que aumenta o volume urinário; restrição de sódio na dieta, o que leva à redução da excreção urinária de cálcio; restrição de proteína animal, o que também leva à redução da excreção de cálcio na urina e ao aumento na excreção do citrato que é um inibidor de calcificação; e ingestão de uma quantidade adequada para idade e para o gênero de cálcio na dieta. Ingesta de Fluidos. Um aumento no volume de urina para mais de 2 a 2,5 L por dia reduz comprovadamente a incidência de cálculos. A recomendação geral é de ingestão diária de líquidos suficiente para manter debito urinário de pelo menos 2 L/dia, de preferência com agua ou sucos de fruta ricos em nitrato e em potássio, como o de laranja. Embora o suco de uva também seja rico em potássio, detectou-se maior prevalência de nefrolitíase naqueles com ingestão aumentada de suco de uva Ingesta de Sódio. Excreção urinária de sal se correlaciona diretamente com excreção urinária de cálcio; assim, restrição dietética de sal está associada à excreção de cálcio diminuída na urina. Os pacientes devem ser instruídos a limitar a ingestão diária de sódio a 2 g (87 mmol de sódio). Ingestão de Proteína Animal. A ingesta de proteína na dieta aumenta a frequência de formação de cálculos renais por uma série de mecanismos. O metabolismo de certos aminoácidos conduz à produção de íons de sulfato, que diminuem a solubilidade de íons de cálcio urinário. Por isso, formadores de cálculo devem consumir apenas uma dieta moderada em proteínas (0,8 a 1,0 g/kg/dia). Frutose na dieta também pode aumentar a litíase de ácido úrico.). A restrição proteica moderada atenua as alterações. Cálcio Dietético: Recomenda-se, no entanto, uma ingestão adequada de cálcio para idade e gênero, mais bem derivada de uma dieta contendo uma quantidade adequada de produtos lácteos. Porque a formação de cálculo pode ser reduzida com a ingestão normal de cálcio e há risco de desmineralização óssea com restrição de cálcio, consideramos a dieta pobre em cálcio obsoleta. Ingestão de cálcio superior à recomendada para idade e gênero e suplementos de cálcio devem ser evitados em pacientes com cálculo renal de cálcio. Consumo de vitamina c - para pacientes com cálculos de oxalato, recomenda-se evitar o consumo de vitamina C em quantidade superior a 1 g/dia. Tratamento farmacológico- Os agentes farmacológicos mais comumente utilizados são os diuréticos tiazídicos, o citrato de potássio e o alopurinol. Daiane Fávaro Intervenção para remoção de cálculo pode ser necessária quando a dor, obstrução e/ou infecção resultantes de litíase renal não respondem ao tratamento conservador. Manejo cirúrgico de cálculos inclui litotripsia por ondas de choque extracorpóreas (LECO) e tanto a remoção endoscópica de cálculos quanto a cirúrgica. Deve ser dividido em três partes: tratamento da cólica renal; tratamento do cálculo; e terapêutica da doença litiásica. ▶ TRATAMENTO DA CÓLICA RENAL O alívio da dor é usualmente o passo terapêutico mais importante nos pacientes com episódio agudo de cólica ureteral. As duas principais classes de medicações utilizadas para analgesia na cólica renal são os antiinflamatórios não hormonais (AINH) e os opioides. Cálculo no ureter ocasiona aumento da taxa de filtração glomerular, aumento da pressão em via excretora e espasmo da musculatura lisa. Os AINH têm ação direta na patogênese da dor, ao inibirem a síntese de prostaglandinas e reduzirem a vasodilatação, a pressão intrarrenal e a inflamação. Ao inibirem a síntese de prostaglandinas, os AINH reduzem a inflamação e a hiperatividade muscular ureteral. O cetoprofeno é um dos AINH comumente utilizados, com boa ação analgésica e podendo seradministrado via IV. Outros AINH, como diclofenaco, ibuprofeno ou indometacina, também dispõem de nível de evidência 1b (dados de estudos individuais randomizados e controlados com intervalo de confiança estreito) e grau de recomendação A (dados de estudos com forte recomendação na escolha, em que os benefícios são maiores que os riscos). Deve-se lembrar, entretanto, que os AINH apresentam contraindicação absoluta ou relativa em situações como insuficiência renal, doença péptica grave e gestação – nesses casos, devem-se considerar os opioides. A morfina é o representante clássico dessa classe de medicamentos. Apesar de não atuar na fisiopatologia da cólica nefrética, apresenta ação analgésica rápida, potente e titulável. O tramadol causa menos sedação, porém à custa de um menor efeito analgésico. Os antiespasmódicos, como a hioscina, apresentam efeito controverso e limitado, mesmo quando utilizados em associações a outros analgésicos. No Brasil, muitas vezes utiliza-se o Buscopan® composto solução injetável (ampolas de 5 mℓ, com butilbrometo de hioscina, 4 mg/mℓ, associado à dipirona, 500 mg/mℓ). Daiane Fávaro A hidratação deve ser mantida VO ou com soluções IV. No entanto, a administração de grandes volumes de líquidos é controversa, visto que, no caso de ureter obstruído, pode elevar a pressão hidrostática e aumentar a dor. ▶ TRATAMENTO DO CÁLCULO A eliminação espontânea ocorre em até 80% dos cálculos menores que 5 mm. Para cálculos maiores que 7 mm, a chance é bem menor, em torno de 25% para os localizados em ureter proximal, 45% para aqueles em ureter médio e de 70% para cálculos de ureter distal. Indica-se consulta urológica urgente visando à remoção do cálculo ou drenagem do trato urinário em situações de dor refratária ao tratamento clínico, obstrução persistente com função renal alterada, infecção concomitante, risco de pionefrose ou urosepse, obstrução bilateral ou cálculo em rim único com hidronefrose. Já a hospitalização é recomendada quando houver necessidade de administração frequente de analgésicos parenterais, vômitos persistentes, suspeita de pielonefrite aguda associada, elevação da creatinina plasmática e desenvolvimento de anúria ou oligúria. Várias medicaçõestêm sido utilizadas como facilitadoras da passagem espontânea de cálculos ureterais, principalmente aqueles localizados no ureter distal e menores que 1 cm. A chamada terapia expulsiva medicamentosa (TEM) na litíase ureteral baseia-se na presença de receptores alfa1- adrenérgicos, localizados principalmente no ureter inferior. O bloqueio desses receptores inibe o tônus do músculo liso e o peristaltismo descoordenado, mantendo as contrações de propulsão. A tansulosina é o medicamento mais estudado. Vários estudos, a maioria randomizados e controlados, porém com pequeno número de pacientes, demonstraram que os alfabloqueadores aceleram a passagem do cálculo, diminuem a dor e, consequentemente, reduzem a necessidade de analgésicos, com mínimos efeitos colaterais (hipotensão, principalmente na primeira dose). A alcalinização da urina pode dissolver cálculos puros de ácido úrico. A terapia-padrão é realizada com citrato de potássio, com a finalidade de manter o pH urinário entre 6,5 e 7. O tempo para dissolução varia com o tamanho do cálculo e o grau de alcalinização da urina. As principais modalidades terapêuticas para cálculos renais e ureterais... A LITOTRIPSIA extracorpórea emprega ondas sonoras geradas fora do corpo humano, concentrando-as no trato urinário, diretamente sobre o cálculo. Consistem basicamente em uma fonte geradora de ondas (eletro-hidráulica, eletromagnética ou piezelétrica) e de um sistema de acoplamento e de localização de imagens (ultrassônico e/ou radiográfico). Os pacientes são tratados ambulatoriamente, sob analgesia ou anestesia local. Avanços nas técnicas e nos instrumentos de ureteroscopia possibilitam que cálculos sejam tratados praticamente em todo o trajeto ureteral. Daiane Fávaro A NEFROLITOTRIPSIA percutânea pode ser indicada isoladamente para cálculos de grande volume ou sequencialmente à litotripsia extracorpórea (técnica-sanduíche). Cálculos renais complexos e de ureter proximal maior que 10 mm constituem as principais indicações da nefrolitotripsia percutânea. Outros métodos incluem a litotripsia percutânea ultrassônica e a litotripsia a laser por ureteroscópio. Hoje, raramente se emprega a cirurgia aberta (uretero ou nefrolitotomia). Obs. Para o Tratamento Cirúrgico as principais indicações são: Dor intratável; dilatação de via excretora; infecção urinária; hematúria espoliante. Entendendo melhor... Tratamento Cirúrgico As principais indicações são: Dor intratável; dilatação de via excretora; infecção urinária; hematúria espoliante. A seleção do método intervencionista é determinada basicamente por fatores que dependem: : tamanho, localização, número e composição; da anatomia renal: presença de obstrução, variações anatômicas; : presença de infecção do trato urinário, obesidade, deformidades anatômicas, idade, morbidades, função renal. LITOTRIPSIA EXTRACORPÓREA (LECO) - método não invasivo e com baixa incidência de complicações, tem atualmente grande aplicação no tratamento da nefrolitíase. Os princípios físicos do tratamento baseiam-se no uso de fonte de alta energia e de baixa frequência concentradas no cálculo. A técnica visa à implosão do cálculo com a menor lesão possível ao propagar-se pelos tecidos perirrenais. O método é indicado no tratamento dos cálculos piélicos de cálice superior e médio com menos de 2 cm e nos cálculos de cálice inferior e ureter superior com menos de 1 cm. CIRURGIA PERCUTÂNEA (OU NEFROLITOTRIPSIA PERCUTÂNEA – NPL) - procedimentos denominados “minimamente invasivos” e assemelha-se à cirurgia videolaparoscópica moderna. Por meio de uma punção transcutânea e introdução de equipamento óptico dentro da via excretora, ocorre a extração de cálculos renais e mesmo ureterais. O método de escolha para o tratamento de cálculos renais maiores que 2 cm e para cálculos coraliformes. Pode ser usada também quando não houver sucesso com a litotripsia extracorpórea. Daiane Fávaro Tem como vantagens: não depender das características do cálculo, permitir recuperação rápida no pós-operatório, permitir abordagem em pacientes obesos que não obtiveram resposta com a litotripsia extracorpórea URETEROSCOPIA SEMIRRÍGIDA E FLEXÍVEL - quando comparada com a litotripsia extracorpórea, é técnica mais invasiva, o que gerou controvérsias no tratamento dos cálculos ureterais. No mercado, são disponíveis ureteroscópios rígidos e flexíveis. A ureteroscopia semirrígida: indicada no tratamento dos cálculos ureterais distais e proximais, principalmente em subgrupos com alto risco de complicações ou insucesso com a litotripsia extracorpórea, como os portadores de coagulopatias e os obesos, respectivamente. Além disso, seu uso pode ser reservado como segunda opção de tratamento para casos que não responderam à litotripsia extracorpórea. A ureteroscopia flexível: é disponível em poucos centros. Encontra suas indicações no tratamento dos cálculos ureterais superiores e mesmo nos piélicos e caliciais com menos de 2 cm que não responderam à litotripsia extracorpórea. Pode também ser usada no tratamento de cálculos renais com menos de 2 cm quando coexiste cálculo ureteral. Tal como na ureteroscopia semirrígida, pode ser considerada como alternativa à LECO nos portadores de coagulopatia e nos obesos. CIRURGIA ABERTA PARA TRATAMENTO DA NEFROLITÍASE - Apesar de ser cada vez menos utilizada, a cirurgia aberta ainda tem seu papel no tratamento de cálculos complexos ou quando existem alterações anatômicas importantes do trato urinário (como estenose do infundíbulo). Pode também ser utilizada quando o paciente apresenta deformidades esqueléticas importantes queimpeçam a realização dos procedimentos minimamente invasivos. H) COMPLICAÇÕES (HIDRONEFROSE E INFECÇÃO) HIDRONEFROSE - refere-se à dilatação das vias urinárias. Hidronefrose é o termo usado para descrever a dilatação da pelve renal e cálices associada a uma atrofia progressiva do rim devido à obstrução do fluxo de saída da urina. Mesmo com a obstrução completa, a filtração glomerular persiste por algum tempo, porque o filtrado subsequentemente se difunde de volta para o interstício renal e para os espaços perirrenais, de onde ele, por fim, retorna aos sistemas linfático e venoso. Devido a essa filtração contínua, os cálices e a pelve afetados se tornam dilatados, frequentemente de modo significativo. A alta Daiane Fávaro pressão na pelve é transmitida de volta através dos ductos coletores para o córtex, causando atrofia renal, mas ela também comprime a vasculatura renal da medula, causando uma diminuição no fluxo sanguíneo medular. Os defeitos vasculares medulares são inicialmente reversíveis, mas levam a distúrbios funcionais medulares. A obstrução também dispara uma reação inflamatória intersticial, levando eventualmente a fibrose intersticial. A obstrução aguda: pode provocar dor atribuída à distensão do sistema coletor ou da cápsula renal. A obstrução unilateral parcial ou completa: pode permanecer silenciosa por longos períodos, já que o rim não afetado pode manter uma função renal adequada. Na obstrução parcial bilateral: a primeira manifestação é a incapacidade de concentrar a urina, refletida por poliúria e nictúria. A obstrução bilateral completa: de começo rápido resulta em oligúria ou anúria e é incompatível com a sobrevivência a menos que a obstrução seja aliviada. Obs. Hidronefrose, refere-se à dilatação das vias urinárias – não é sinônimo de uropatia obstrutiva, já que a primeira pode ocorrer sem obstrução funcional do trato urinário e pode estar ausente em casos de obstrução estabelecida. INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIO - pode ocorrer quando as bactérias ficam presas na urina que se acumula acima de um bloqueio. Este mesmo bloqueio no trato urinário, durante um longo período de tempo, faz com que a urina reflui em direção aos tubos no interior do rim e provoca uma pressão excessiva que pode dilatá-lo resultando na hidronefrose, como citado acima. A estase urinária resultante da obstrução predispõe a infecções do trato urinário, e os pacientes podem desenvolver cistite, com disúria e frequência, ou pielonefrite, com dor lombar e sintomas sistêmicos. A infecção ocorre com mais frequência em pacientes com obstrução do trato urinário inferior que entre aqueles com obstrução do trato urinário superior. Episódios de infecção do trato urinário em homens ou crianças de ambos os sexos, infecções recorrentes ou persistentes em mulheres, infecções por micro-organismos incomuns, como espécies de Pseudomonas, e mesmo um único episódio de pielonefrite aguda exigem investigação mais aprofundada para se excluir quadros de obstrução. Além disso, a presença de obstrução dificulta a erradicação eficaz da infecção. As infecções do trato urinário por micro-organismos produtores de urease, como Proteus mirabilis, predispõem à formação de cálculos. Esses micro-organismos produzem amônia, resultando em alcalinização da urina e favorecendo o https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-renais-e-urin%C3%A1rios/infec%C3%A7%C3%B5es-do-trato-urin%C3%A1rio-itus/considera%C3%A7%C3%B5es-gerais-sobre-infec%C3%A7%C3%B5es-do-trato-urin%C3%A1rio-itus Daiane Fávaro desenvolvimento de cálculos de fosfato de amônio e magnésio (estruvita). Os cálculos de estruvita podem preencher toda a pelve renal, formando um cálculo coraliforme que, se não for adequadamente tratado, eventualmente leva à perda renal. Portanto, a formação de cálculos e a necrose papilar podem ser causas e consequências da obstrução do trato urinário.