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doença de cushing e addison, OBJETIVOS: 1. Rever a morfofisiologia da adrenal e correlacionar com a produção dos glicocorticoides; 2. Compreender a fisiopatologia e manifestações clínicas da Doença de Cushing e Addison; 3. Conhecer o diagnóstico clínico e exames laboratoriais da Doença de Cushing e Addison; 4. Descrever o tratamento da Doença de Cushing e Addison MORFOFISIOLOGIA DA ADRENAL As glândulas adrenais ou suprarrenais são duas glândulas endócrinas situadas crânio-medialmente aos rins. Elas respondem ao stress por meio da síntese e liberação de corticosteróides, como o cortisol, e de catecolaminas, como a adrenalina, a noradrenalina e a dopamina. Esses hormônios produzidos nas adrenais desempenham importante papel na regulação da resposta adaptativa do organismo ao estresse, na manutenção do equilíbrio da água corporal, do sódio e do potássio, bem como no controle da pressão arterial. O córtex da suprarrenal produz hormônios esteroides, que são essenciais para a vida. A perda total dos hormônios adrenocorticais leva à morte em consequência de desidratação e desequilíbrios eletrolíticos no decorrer de poucos dias a 1 semana, a não ser que seja iniciada imediatamente uma terapia de reposição hormonal. A medula da suprarrenal produz três hormônios catecolaminas – a norepinefrina, a epinefrina e uma pequena quantidade de dopamina Durante o desenvolvimento embrionário, as glândulas suprarrenais se diferenciam em duas regiões estruturais e funcionais: um grande córtex periférico, que representa 80-90% da glândula, e uma pequena medula central, ambas envoltas por uma cápsula de tecido conjuntivo. As glândulas supra-renais direita e esquerda não são imagens espelhares uma da outra; ao contrário, a supra-renal direita tem o formato de uma pirâmide e está apoiada diretamente no topo do rim direito, enquanto a supra-renal esquerda tem mais um formato de crescente e fica localizada ao longo da borda medial do rim esquerdo, entre o hilo e seu pólo superior Córtex adrenal Essa região é subdividida em três zonas e cada uma secreta tipos de hormônios diferentes A zona glomerulosa, logo abaixo da cápsula de tecido conjuntivo, possui células densas em agrupamentos esféricos e colunas arqueadas, secretando mineralocorticoides que regulam a homeostasia mineral. A zona fasciculada, intermediária e a maior das três, é formada por células dispostas em longas colunas retas e produz glicocorticoides, como o cortisol, que atuam na homeostasia da glicose. A zona reticular, a mais interna, tem células organizadas em cordões ramificados que sintetizam pequenas quantidades de androgênios fracos, hormônios esteroides com efeitos masculinizantes. Hormônios da adrenal Mineralocorticoides: A aldosterona é o principal mineralocorticoide; regula a homeostasia de dois íons minerais – íons sódio (Na+) e potássio (K+) – e ajuda a ajustar a pressão arterial e o volume de sangue. A aldosterona também promove a excreção de H+ na urina; essa remoção de ácidos do corpo pode ajudar a evitar a acidose (pH abaixo de 7,35) Glicocorticoides, como cortisol, corticosterona e cortisona, regulam o metabolismo e a resistência ao estresse, com os seguintes efeitos: ● Degradação de proteínas: Os glicocorticoides aumentam a taxa de degradação de proteínas, especialmente nas fibras musculares, liberando aminoácidos na corrente sanguínea. Esses aminoácidos podem ser usados na síntese de novas proteínas ou para produção de ATP. ● Formação de glicose: Sob estímulo dos glicocorticoides, os hepatócitos convertem aminoácidos e ácido láctico em glicose, usada por células como fonte de energia, especialmente pelos neurônios. ● Lipólise: Glicocorticoides estimulam a lipólise, que é a degradação dos triglicerídeos, liberando ácidos graxos do tecido adiposo para a corrente sanguínea. ● Resistência ao estresse: A glicose adicional fornecida pelos hepatócitos disponibiliza uma fonte rápida de ATP para enfrentar diversos tipos de estresse, como exercício, jejum, temperaturas extremas, altitude elevada, infecções, cirurgias e traumas. ● Efeito anti-inflamatório: Glicocorticoides inibem a ação de leucócitos nas respostas inflamatórias, o que reduz hiperemia, resposta celular e migração de neutrófilos e macrófagos, contribuindo para o controle da inflamação . ● Depress ã o d a s r e s p o s t a s i m u n e s : D o s e s e l e v a d a s d e g l i c o c o r t i c o i d e s d e p r i m e m a s respostas imunes. Por esse motivo, os glicocorticoides são prescritos para receptores de órgãos transplantados com objetivo de retardar a rejeição tecidual promovida pelo sistema imune Androgênios: O córtex da glândula s u p r a r r e n a l s e c r e t a p e q u e n a s quantidades de androgênios fracos. O principal androgênio secretado pela g l â n d u l a s u p r a r r e n a l é a desidroepiandrosterona (DHEA). Nas mulheres, os androgênios suprarrenais desempenham funções importantes. Eles promovem a libido (desejo sexual) e são convertidos em estrogênios (esteroides sexuais feminilizantes) por outros tecidos corporais. Após a menopausa, quando a secreção ovariana de estrogênios cessa, todos os estrogênios femininos são provenientes da conversão dos androgênios s u p r a r r e n a i s . O s a n d r o g ên i o s suprarrenais também estimulam o crescimento de pelos axilares e púbicos nos meninos e nas meninas e c o n t r i b u e m p a r a o e s t i r ão d e crescimento prépuberal. Catecolaminas: A liberação das catecolaminas são fundamentais na resposta de estresse a uma agressão física ou psicológica, como perda grave de sangue, diminuição do nível de glicemia, lesão traumática, intervenção traumática, cirúrgica ou experiência desagradável. Seus efeitos fisiológicos consistem em alerta, dilatação das pupilas, piloereção, sudorese, dilatação brônquica, taquicardia, inibição da atividade do músculo liso e constrição dos esfíncteres no trato gastrintestinal. Medula adrenal ↠ A região interna da glândula suprarrenal, a medula, consiste em um gânglio simpático modificado da divisão autônoma do sistema nervoso (DASN). Desenvolve-se a partir do mesmo tecido embrionário de todos os outros gânglios simpáticos, porém suas células, que carecem de axônios, formam agrupamentos em torno de grandes vasos sanguíneos. Em vez de liberar um neurotransmissor, as células da medula da suprarrenal secretam hormônios. As células produtoras de hormônio, denominadas células cromafins, são inervadas por neurônios pré-ganglionares simpáticos da DASN. Como a DASN exerce um controle direto sobre as células cromafins, a liberação de hormônio pode ocorrer muito rapidamente A medula da glândula suprarrenal sintetiza dois hormônios principais: a epinefrina (adrenalina) e a norepinefrina (noradrenalina). As células cromafins da medula produzem esses hormônios em quantidades desiguais, sendo aproximadamente 80% de epinefrina e 20% de norepinefrina. Esses hormônios reforçam as respostas do sistema nervoso simpático em várias regiões do corpo, preparando-o para situações de "luta ou fuga". Em situações de estresse e exercício, impulsos do hipotálamo estimulam os neurônios simpáticos, que ativam as células cromafins para liberar epinefrina e norepinefrina. Esses hormônios intensificam a resposta de luta ou fuga, aumentando a frequência e força cardíacas, o débito e a pressão arterial. Eles também aumentam o fluxo sanguíneo para o coração, fígado, músculos esqueléticos e tecido adiposo, dilatam as vias respiratórias e elevam os níveis de glicose e ácidos graxos no sangue. obs.: A síntese de adrenalina ocorre a partir da noradrenalina e essa conversão é realizada pela enzima feniletanolamina-n-metiltransferase. Eixo hipotálamo-hipófise-adrenal O hormônio adrenocorticotrófico (ACTH), ou corticotrofina, é produzido pelas células corticotróficasda hipófise anterior e tem a função de estimular a produção de glicocorticoides e androgênios nas glândulas adrenais. A liberação de ACTH é regulada pelo hormônio liberador de corticotrofina (CRH), produzido pelo hipotálamo. Quando o nível de cortisol (principal glicocorticoide) aumenta, ele inibe a produção de CRH e ACTH, estabelecendo um sistema de retroalimentação negativa. Esse processo de feedback também ocorre com o próprio ACTH, que pode sinalizar para o hipotálamo reduzir a liberação de CRH. Esse ciclo, conhecido como eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenal (HHA), garante o controle dos níveis de ACTH e cortisol no sangue, evitando excessos. SÍNDROME DE CUSHING A Síndrome de Cushing consiste em uma constelação de anormalidades clínicas c a u s a d a s p o r c o n c e n t r a ç õ e s cronicamente elevadas de cortisol ou corticoides. Pode resultar da administração prolongada de doses suprafisiológicas de GC (SC exógena ou iatrogênica) ou, bem menos frequentemente, da hiperprodução crônica de cortisol (SC endógena) Epidemiologia A SC endógena pode ocorrer em qualquer faixa etária, mas é mais comum em adultos, com idade mediana de 41,4 anos ao diagnóstico, e predomínio no sexo feminino (3:1). Trata-se de doença rara, com incidência estimada de 0,7 a 2,4 casos novos por milhão de habitantes por ano e prevalência estimada de 37 a 39 por milhão em várias populações. No entanto, maior prevalência foi relatada para o hipercortisolismo subclínico (HCSC) em indivíduos com diabetes melito tipo 2 (DM2) mal controlado (2 a 3%), hipertensão (0,5 a 1%), incidentalomas adrenais (até 10%) e osteoporose de início precoce (até 11%) (VILAR, 2020). ↠ Cerca de 60 a 70% dos casos de síndrome de Cushing consistem em doença de Cushing causada por adenoma solitário de corticotrofos, embora raros casos sejam causados por hiperplasia dos corticotrofos ou até mesmo mais raramente por carcinoma de corticotrofos Etiologia A síndrome pode ser dependente e independente de ACTH. As causas ACTH-dependentes da doença de Cushing envolvem o excesso de produção de ACTH, que estimula as glândulas adrenais a produzirem cortisol em excesso. As principais etiologias ACTH-dependentes são: 1. Adenoma hipofisário produtor de ACTH (Doença de Cushing): Este é o tipo mais comum de Cushing ACTH-dependente. Um tumor benigno na hipófise secreta ACTH em excesso, levando a uma estimulação contínua das glândulas adrenais para a produção de cortisol. 2. Produção ectópica de ACTH: Tumores fora da hipófise, como o carcinoma de pequenas células do pulmão, carcinoma do timo ou tumores pancreáticos, podem produzir ACTH de forma autônoma. Esses tumores "ectópicos" secretam ACTH de maneira descontrolada, levando ao aumento do cortisol pelas adrenais. As causas ACTH-independentes da síndrome de Cushing são aquelas em que o excesso de cortisol é produzido pelas glândulas adrenais sem estímulo do ACTH. As principais etiologias ACTH-independentes incluem: 1. Adenoma adrenal: Um tumor benigno na glândula adrenal que produz cortisol em excesso de forma autônoma, sem necessidade de estímulo pelo ACTH. 2. Carcinoma adrenal: Tumor maligno na adrenal que também secreta cortisol independentemente do ACTH. Esse tipo é menos comum, mas geralmente causa níveis muito elevados de cortisol. 3. Hiperplasia adrenal nodular: Condição em que a glândula adrenal desenvolve múltiplos nódulos que produzem cortisol de forma independente. Ela pode ser esporádica ou relacionada a síndromes genéticas, como a síndrome de McCune-Albright. 4. Cushing exógeno ou iatrogênico: Uso prolongado de medicamentos corticosteroides (como prednisona) para tratar outras condições médicas, o que suprime a produção natural de ACTH pela hipófise e leva ao excesso de cortisol. Manifestações clínicas ↠ O excesso de cortisol leva a manifestações clínicas sistêmicas, com prejuízo metabólico, funcional e cognitivo Em estados de hipercortisolismo, encontraremos hiperglicemia associada à resistência à insulina. O cortisol estimula a proteólise, a fim de liberar aminoácidos para a gliconeogênese. Assim, na SC, há perda muscular levando à fraqueza muscular proximal (dificuldade de levantar-se da cadeira, por exemplo. Ganho ponderal e hiperlipidemia: o cortisol também estimula a lipólise, liberando ácidos graxos em circulação, que são depositados principalmente na região abdominal, ocasionando obesidade centrípeta. Isso ocorre devido a maior atividade da enzima 11-beta hidroxiesteroide desidrogenase tipo 1 (que deposita os ácidos graxos nos adipócitos) e de desregulação no metabolismo de carboidratos e lipídios. Esse acúmulo de gordura também pode ocorrer em outras áreas, remetendo a características muito sugestivas de SC, como a giba (adiposidade em dorso torácico), o preenchimento das fossas supraclaviculares e a fácies em lua cheia. Adicionalmente, os elevados níveis circulantes de ácidos graxos também resultam em dislipidemias, principalmente hipertrigliceridemia. Ação pró-coagulante: o cortisol induz o aumento de fatores de coagulação, principalmente o fator VIII e o fator de von Willebrand, além de diminuir a atividade fibrinolítica, resultando em hipercoagulabilidade e risco aumentado de tromboembolismo venoso. Alterações hematológicas: nos estados de hipercortisolismo, ocorre mobilização de granulócitos da medula óssea para o sangue periférico, levando à neutrofilia. Entretanto, também encontramos linfopenia e eosinopenia, uma vez que há retorno dos linfócitos e dos eosinófilos aos órgãos linfáticos, nos quais ocorre apoptose dessas células. Tais modificações hematológicas aumentam a susceptibilidade a infecções (que correspondem a cerca de 20% da mortalidade na síndrome de Cushing). Alterações dermatológicas: o ganho ponderal excessivo leva à distensão da pele, com o aparecimento de estrias violáceas (lesões > 1cm de largura e de cor púrpura, principalmente em abdome e tronco). Além disso, o hipercortisolismo causa atrofia cutânea (por redução dos queratinócitos e fibroblastos), levando a maior friabilidade, dificuldade de cicatrização e ao desenvolvimento de equimoses. O adelgaçamento da pele também permite maior visualização dos vasos, o que leva ao aparecimento de pletora Na síndrome de Cushing ACTH dependente, podemos encontrar hiperpigmentação mucocutânea, assim como ocorre na insuficiência adrenal primária Alterações oftalmológicas: são mais comuns na síndrome de Cushing iatrogênica e incluem glaucoma e catarata. O cortisol liga-se a proteínas do cristalino, levando à formação da catarata, que costuma ser posterior e bilateral (o que a diferencia da catarata senil). Já o glaucoma pode ser resultante do aumento da pressão intraocular. Distúrbios neuropsiquiátricos: podem ocorrer em até metade dos pacientes com síndrome de Cushing. Manifestações como labilidade emocional, depressão, insônia, ansiedade e déficit de memória são relacionadas ao excesso de cortisol Diagnóstico Os três principais instrumentos diagnósticos atualmente empregados para estabelecer o diagnóstico de SC são o teste de supressão noturna com 1 mg de DMS (1 mg-DST), a dosagem do cortisol salivar ao final da noite e a medida do cortisol livre urinário (em amostra de 24 h). Recomenda-se a utilização de pelo menos dois desses testes ↠ Diante de resultados inconclusivos ou discordantes, pode-se lançar mão de testes complementares, como o teste de supressão com 2 mg de dexametasona durante 48 h e a dosagem do cortisol sérico no final da noite. Teste de Supressão com Dexametasona em Dose Baixa (Teste Noturno de 1 mg) Este teste é usado como triagem para a síndrome de Cushing. Procedimento: ● O paciente toma 1 mg de dexametasona por via oral às 23h. ● A amostra de sangue para medir o nível de cortisol é coletada na manhã seguinte, entre 8h e 9h. Interpretação:● Em indivíduos saudáveis, a dexametasona suprime o cortisol plasmático para menos de 1,8 µg/dL (50 nmol/L). ● Níveis elevados de cortisol pela manhã (acima de 1,8 µg/dL) indicam possível síndrome de Cushing, pois o eixo não está sendo adequadamente suprimido. Teste de Supressão com Dexametasona em Dose Alta Este teste é usado para diferenciar as causas da síndrome de Cushing após um diagnóstico inicial. Procedimento: ● O paciente toma 8 mg de dexametasona por via oral às 23h. ● A amostra de sangue para cortisol é coletada na manhã seguinte. Interpretação: ● Na doença de Cushing (adenoma hipofisário), o cortisol é parcialmente suprimido. ● Em casos de produção ectópica de ACTH ou tumores adrenais (ACTH-independentes), o cortisol geralmente não é suprimido. Medição do cortisol salivar à noite O teste do cortisol salivar à noite (23h a 0h) está sendo cada vez mais utilizado como exame inicial para avaliar pacientes com suspeita clínica de síndrome de Cushing. A sensibilidade diagnóstica desse teste é alta (80 a 90%), porém sua especificidade é mais baixa (70 a 90%). Procedimento do Teste de Cortisol Salivar Noturno: Preparo do Paciente: É recomendado evitar alimentos, bebidas (exceto água), atividades físicas intensas e uso de certos medicamentos nas horas que antecedem o teste, pois podem influenciar os resultados. Coleta da Amostra: A coleta de saliva é feita em casa, geralmente por volta das 23h. O paciente utiliza um kit específico, com um tubo ou swab especial. O paciente deve deixar a saliva acumular na boca e, em seguida, cuspir no tubo ou mastigar o swab até que a amostra seja coletada. Armazenamento e Envio: A amostra deve ser mantida refrigerada e enviada para o laboratório conforme as instruções do kit. Interpretação dos Resultados: ● Níveis baixos de cortisol: Esperados em indivíduos saudáveis durante a noite. ● Níveis elevados de cortisol: Indicativos de possível síndrome de Cushing, já que o eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenal não está sendo adequadamente regulado. Procedimento para Medição do Cortisol Livre na Urina de 24 Horas: Preparação: O paciente pode ser orientado a evitar o consumo de certos medicamentos e alimentos que possam interferir nos níveis de cortisol, conforme indicado pelo médico. É importante beber líquidos normalmente durante a coleta, evitando a desidratação, pois isso pode alterar a concentração da urina. Coleta da Urina de 24 Horas: A coleta é iniciada após o paciente descartar a primeira urina da manhã. A partir daí, todas as urinas ao longo do dia e noite são coletadas em um recipiente adequado, até a mesma hora no dia seguinte. A amostra final é a primeira urina da manhã do segundo dia. Armazenamento: A urina coletada deve ser mantida em um recipiente especial fornecido pelo laboratório e armazenada em um local fresco ou refrigerada para evitar degradação até ser entregue ao laboratório. Interpretação dos Resultados: ● Níveis elevados de cortisol: Indicativos de possível síndrome de Cushing, pois refletem uma produção excessiva de cortisol ao longo do dia. ● Níveis normais ou baixos: Podem indicar função adrenal normal ou, se houver suspeita de outra condição, ajudar na exclusão de Cushing. Outros exames: determinação do ACTH plasmático, teste de estimulação com CRH, RM, cateterismo do seio petroso inferior Tratamento Os princípios do tratamento para a síndrome de Cushing são a reversão do quadro clínico por meio da normalização dos níveis de cortisol e, quando possível, a exérese do tumor responsável pelo excesso hormonal. ↠ O tratamento clínico para inibir a liberação de ACTH do corticotrofo, para bloquear a síntese de cortisol pelas glândulas suprarrenais ou para inibir a ação do cortisol em nível tecidual não é particularmente bem tolerada nem fácil de monitorar mifepristona, um antagonista dos receptores de glicocorticoides, e alguns de seus análogos recentes são eficazes contra a hiperglicemia e podem melhorar a qualidade de vida; no entanto, podem causar insuficiência suprarrenal grave devido ao bloqueio dos receptores, mesmo com altos níveis de cortisol e ACTH. Em tumores com cossecreção de prolactina e ACTH, a cabergolina pode ter efeito limitado. A pasireotida, um análogo da somatostatina, normaliza os níveis de cortisol em cerca de 20% dos pacientes, mas aumenta a hiperglicemia em aproximadamente 75%. Já a suprarrenalectomia química com cetoconazol, mitotano, metirapona ou etomidato é pouco tolerada e de difícil ajuste para uma função suprarrenal normal. O tratamento de escolha para a doença de Cushing é a ressecção transesfenoidal do adenoma hipofisário. Entretanto, há casos em que o adenoma não é visualizado pelos métodos de imagem ou o paciente apresenta contraindicações cirúrgicas. A cirurgia transesfenoidal é a opção mais eficaz para curar adenomas secretores de ACTH. Recorrências ocorrem em 7% dos casos quando o cortisol pós-operatório é inferior a 3 μg/dℓ, mas chegam a 100% quando o nível fica entre 3 e 8 μg/dℓ. Em pacientes com macroadenomas, apenas cerca de um terço alcança remissão a longo prazo. Se a primeira cirurgia falha, uma segunda intervenção na hipófise tem taxa de sucesso de cerca de 50%. DOENÇA DE ADDISON O termo doença de Addison ou insuficiência adrenal ou adrenocortical (IA) é definida como a incapacidade do córtex adrenal em produzir quantidades suficientes de glicocorticoides ou glicocorticoides e mineralocorticoides, hormônios cruciais para a homeostase energética e hidreletrolítica. A IA pode ser causada por: 1. Distúrbio intrínseco adrenocortical (IA primária); 2. Doença hipofisária (IA secundária); 3. Distúrbio hipotalâmico (IA terciária). Etiologia 1.Destruição autoimune; 2. Doenças infecciosas; 3. D o e n ç as granulomatosas infiltrativas; 4. Hemorragia e trombose adrenal; 5. Adrenalectomia bilateral; 6. Hiperplasia adrenal congênita; 7. Carcinomas metastáticos; 8. Sín Imunodeficiência adquirida, na qual as glândulas suprarrenais são destruídas por vários microrganismos oportunistas. 9. Fármacos que inibem a síntese ou causam degradação excessiva dos glicocorticoides (p. ex., cetoconazol) também podem desencadear insuficiência suprarrenal. Observação: A IA secundária tem como causa mais comum o uso crônico de glicocorticoides em doses suprafisiológicas, que inibem diretamente tanto a secreção de ACTH como a de CRH. Os sintomas surgem após a suspensão indevida ou brusca dos glicocorticoides, bem como pela falta de um ajuste adequado da dose do medicamento em situações de estresse Manifestações clínicas As manifestações clínicas da IA crônica decorrem tanto da deficiência de glicocorticoides (astenia, mal-estar, anorexia, perda de peso, náuseas, vômitos, hipotensão etc.) quanto de mineralocorticoides (avidez por sal, hipovolemia, hipotensão e hipotensão ortostática) e androgênios adrenais (redução da pilificação axilar e pubiana, em mulheres). Para que a DA se manifeste clinicamente, em geral é necessário o comprometimento de pelo menos 90% do tecido adrenocortical. Nas formas autoimunes e infiltrativas, essa destruição habitualmente é gradual e progressiva. Nos processos hemorrágicos e septicêmicos, a destruição do córtex adrenal geralmente é mais rápida e a sintomatologia se apresenta de modo agudo, caracterizando a crise adrena Manifestações crônicas são muito inespecíficas: fadiga, perda ponderal, anorexia, diarreia, náuseas e dor abdominal. Nos quadros agudos (crise adrenal), desencadeados por aumento da demanda pelo cortisol (como em traumas, parto e sepse), a ausência de elevação dos níveis circulantes deste hormônio ocasiona agravamento dos sintomas, acompanhado de vômitos, desidratação, letargia, febre, confusão e choque não responsivo a volumes A hiperpigmentação, causada pelo aumento de melaninana pele, é o achado mais característico da Doença de Addison, presente em 92-94% dos casos. Ela ocorre devido ao estímulo do receptor MC1R pelos altos níveis de ACTH e α-MSH. A hiperpigmentação é geralmente generalizada, mas é mais visível em áreas expostas ao sol (como face e mãos) e em regiões sujeitas a fricção ou pressão (como dedos, cotovelos, joelhos e cintura). Também aparece nas dobras das palmas, aréolas, axilas, períneo, cicatriz umbilical e mucosa oral. Dosagem de ACTH plasmático Na prática clínica, você também deve suspeitar de insuficiência adrenal quando encontrar um paciente com hipertensão arterial ou diabetes mellitus que, sem outros motivos aparentes (modificações dietéticas, insuficiência renal), necessite de redução das medicações devido à presença de hipotensão ou hipoglicemia. Lembre-se de que o cortisol mantém o tônus vascular e é um hormônio contrarregulador de insulina; assim, sua deficiência pode reduzir os níveis pressóricos e glicêmicos mesmo em pacientes com hipertensão e diabetes Por fim, uma característica que deve chamar sua atenção para algumas etiologias da insuficiência adrenal central é a diminuição de acuidade visual, principalmente a hemianopsia temporal. Tumores expansivos na sela túrcica podem comprimir o quiasma óptico, levando à perda visual nos campos temporais Diagnóstico Dosagem do cortisol sérico basal O cortisol sérico (CS), coletado entre 8 e 9 h, deve ser o primeiro exame a ser solicitado; seu valor normal (VN), na maioria dos ensaios, é de 5 a 25 μg/dℓ. Nos indivíduos normais, geralmente situa-se entre 10 e 15 μg/dℓ. Enquanto níveis