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Júlia Pacheco-Medicina CIRROSE HEPÁTICA A cirrose hepática é o estágio final de diversas doenças hepáticas crônicas, caracterizada por fibrose difusa, formação de nódulos de regeneração e desorganização da arquitetura hepática. Trata-se do resultado de uma agressão crônica e contínua ao fígado EPIDEMIOLOGIA A cirrose hepática é uma doença de distribuição global, associada a elevada morbimortalidade, sendo considerada uma das principais causas de morte no mundo. No Brasil, apresenta impacto significativo no sistema de saúde, com aproximadamente 55 mil internações por ano e cerca de 8 mil óbitos anuais. SOUSA, Mikaelly Faria de et al. Cirrose hepática. In: Gastroenterologia e Hepatologia. 6. ed. [S.l.]: Editora Pasteur, 2024. Disponível em: Acessar capítulo. Acesso em: 5 abr. 2026. Subdiagnóstico frequente: muitos pacientes só diagnosticados em fase avançada Muitos pacientes permanecem assintomáticos nas fases iniciais e acabam sendo diagnosticados apenas em estágios avançados da doença, frequentemente já na presença de complicações como ascite, hemorragia digestiva ou encefalopatia hepática. ETIOLOGIA HEPATITE C DOENÇA HEPÁTICA ALCOÓLICA HEPATITE B DOENÇA HEPÁTICA GORDUROSA (ASSOCIADA À MASLD) Outras etiologias ➔ Doenças autoimunes ➔ Hemocromatose ➔ Doença de Wilson ➔ Doenças colestáticas ➔ Causas medicamentosas Esses fatores frequentemente coexistem e podem atuar de forma sinérgica, acelerando a progressão da doença hepática crônica para cirrose. MASLD MASLD = Doença Hepática Esteatótica Associada à Disfunção Metabólica Engloba: ➔ Obesidade ➔ Diabetes mellitus tipo 2 ➔ Dislipidemia ➔ Resistência insulínica https://sistema.editorapasteur.com.br/uploads/pdf/publications/Gastroenterologia%20e%20Hepatologia%20-%20Edi%C3%A7%C3%A3o%20VI-ed07e6b9-6233-427a-bc65-ac6f75029a5f.pdf?utm_source=chatgpt.com Mecanismo fisiopatológico FLUXOGRAMA Síndrome metabólica (Obesidade + DM2 + Dislipidemia + RI) → Causa a Resistência à insulina → a hiperinsulinemia induz a lipogênese hepática e induz a lipólise no tecido adiposo → Aumento de ácidos graxos livres circulantes → Captação hepática dos ácidos graxos aumentada → Diminuição de oxidação de ácidos graxos pelo fígado e menor exportação de triglicerídeos em forma de VLDL → ACÚMULO DE TRIGLICERÍDEOS NOS HEPATÓCITOS → Causa lipotoxicidade → Disfunção mitocondrial → Aumento de espécies reativas de oxigênio (ROS) → Lesão dos hepatócitos → INFLAMAÇÃO CRÔNICA Atualmente, é considerada a principal causa emergente de cirrose em diversos países, além de apresentar forte associação com o desenvolvimento de carcinoma hepatocelular, mesmo em estágios menos avançados da doença hepática. CONSUMO DE ÁLCOOL ➔ 50% dos casos de cirrose ➔ Efeito dose-dependente ➔ Influenciado pela susceptibilidade individual, fatores genéticos e condições associadas. Mecanismo fisiopatológico FLUXOGRAMA Etanol é metabolizado no fígado (pela ADH E CYP2E1) → Gerando acetaldeído (tóxico) → acetaldeído forma ligações com proteínas e lipídios → altera sua função e promove dano celular direto → Aumento a relação NADH/NAD⁺ → Inibe a oxidação de ácidos graxos → acúmulo de triglicerídeos nos hepatócitos LEMBRAR: Além disso tudo a própria indução do sistema CYP2E1 leva à produção excessiva de espécies reativas de oxigênio (ROS), gerando estresse oxidativo. ★ ADH = enzimas álcool desidrogenase ★ CYP2E1 = sistema microssomal oxidativo do etanol FISIOPATOLOGIA É um processo progressivo que se inicia com lesão hepática crônica, decorrente de diferentes agressões ao fígado. FLUXOGRAMA I. Ativação inflamatória persistente II. Ativação das células estreladas hepáticas (células de Ito) III. Essas células sofrem transformação fenotípica em miofibroblastos IV. Produzir grandes quantidades de colágeno (tipos I e III) V. Promovendo fibrose VI. Ocorre formação de nódulos regenerativos e alteração da arquitetura hepática VII. Alterações vasculares intra-hepáticas, que comprometem o fluxo sanguíneo normal no fígado. CONTEXTO CELULAR Células de Ito: Ao se transformarem em miofibroblastos, tornam-se as principais responsáveis pela deposição de matriz extracelular Células de Kupffer: São macrófagos hepáticos, liberam citocinas inflamatórias e mediadores que amplificam o processo inflamatório e fibrogênico Endotélio sinusoidal: Sofre perda de suas fenestrações, o que dificulta a troca de substâncias entre o sangue e os hepatócitos, agravando ainda mais a disfunção hepática. CONSEQUÊNCIAS DA CIRROSE HEPÁTICA HIPERTENSÃO PORTAL Ocorre devido ao aumento da resistência intra-hepática ao fluxo sanguíneo, resultante tanto da fibrose quanto da vasoconstrição intra-hepática. ➔ Essa hipertensão portal é o eixo central das principais complicações da cirrose. 1º Cirrose → fibrose hepática → ↑ pressão da veia porta para passar pelo fígado 2º liberação de NO para tentar dilatar a musculatura vascular → vasodilatação periférica → ↓ pressão percebida nos barorreceptores (mácula densa ou carotídeos) 3º Vasodilatação esplâncnica → Elevação das catecolaminas, SRAA, HAD 4º Retenção hidrossalina → aumento do fluxo porta Resultado: pacientes Hipotensos devido à vasodilatação periférica, mas hipervascularizados ASCITE Vasodilatação periférica + ativação de sistemas neuro-hormonais (renina-angiotensina-aldosterona) o que contribui para retenção de sódio e água. REDUÇÃO DA FUNÇÃO HEPÁTICA ➔ Redução da síntese de Albumina e Fatores de coagulação ➔ Diminuição da captação de bilirrubina → ICTERÍCIA ➔ Diminuição da capacidade de detoxificação de substâncias, incluindo amônia e toxinas endógenas → ENCEFALOPATIA QUADRO CLÍNICO ➔ Icterícia ➔ Eritema palmar ou aranhas vasculares ➔ Ascite ➔ Circulação colateral ➔ Asterixis (Sinal neurológico característico da encefalopatia hepática) ◆ Perda súbita e transitória do tônus muscular DIAGNÓSTICO Anamnese detalhada Investigação de fatores de risco ➔ Consumo de álcool ➔ Presença de síndrome metabólica ➔ Histórico de hepatites virais ➔ Uso de medicamentos potencialmente hepatotóxicos Sintomas O paciente pode ser assintomático nas fases iniciais da doença, evoluindo posteriormente com: ➔ Fadiga ➔ Distensão abdominal ➔ Hemorragia digestiva, geralmente relacionada à ruptura de varizes esofágicas Exames laboratoriais ★ Avaliar tanto a lesão hepatocelular ★ Avaliar função hepática Avaliação da lesão hepática, ocorre alteração em: ➔ Aminotransferases (AST/ALT) ➔ Fosfatase alcalina (FA) ➔ Gama-glutamiltransferase (GGT) ➔ Bilirrubinas Avaliação da função hepática, ocorre alteração em: ➔ Dosagem de albumina(Encontra reduzida na cirrose hepática) ➔ Tempo de protrombina (TAP/INR): Se apresenta aumentado na cirrose hepática Outros achados importantes incluem a redução de plaquetas, frequentemente associada ao hiperesplenismo decorrente da hipertensão portal. Exames de imagem Ultrassonografia Frequentemente o primeiro exame solicitado, podendo evidenciar fígado com contornos nodulares, presença de ascite e esplenomegalia Elastografia hepática: Avaliação não invasiva do grau de fibrose Tomografia computadorizada (TC) e a ressonância magnética (RM) são indicadas principalmente para investigação de complicações e para rastreamento de neoplasias, como o carcinoma hepatocelular. Biópsia “A biópsia hepática não é exame inicial, sendo reservada para casos selecionados quando métodos não invasivos são inconclusivos” - American Association for the Study of Liver Diseases É o padrão-ouro para estadiamento da doença mas fica reservada para casos específicos, como: ● Diagnóstico duvidoso ● Etiologia incerta ● Discordância entre exames ● Suspeita de doenças específicas Permite avaliar o grau de fibrose e atividade inflamatória, embora atualmente sejamenos utilizada devido ao avanço dos métodos não invasivos. Avaliação da gravidade da cirrose Classificação de Child-Pugh: ➔ Classe A (5–6 pontos), cirrose compensada ➔ Classe B (7–9 pontos), de gravidade intermediária ➔ Classe C (10–15 pontos), associada à cirrose descompensada e pior prognóstico Escore MELD (Model for End-Stage Liver Disease): É um sistema numérico (6 a 40) que avalia a gravidade da doença hepática crônica e prediz a mortalidade em 3 meses, sendo usado para priorizar pacientes na lista de transplante de fígado. Ele é calculado com base em exames laboratoriais: bilirrubina, creatinina, INR e sódio. PRINCIPAIS COMPLICAÇÕES ➔ Ascite ➔ Hemorragia digestiva alta por varizes esofágicas ➔ Encefalopatia hepática ➔ Peritonite bacteriana espontânea ➔ Síndrome hepatorrenal MANEJO Sem tratamento específico para cirrose, tratamos a etiologia, ou seja, o que está causando a fibrose. O único tratamento definitivo é o transplante de fígado. Varizes esofágicas: Endoscopia digestiva alta para rastreamento e o uso de betabloqueadores não seletivos para prevenção de sangramentos Ascite: Restrição de sódio na dieta e uso de diuréticos Prevenção da peritonite bacteriana espontânea: Profilaxia antibiótica em pacientes de alto risco ENCAMINHAMENTO Deve ser realizado nos casos de: ❖ Cirrose descompensada ❖ Presença de complicações recorrentes ou valores elevados de MELD garantindo acompanhamento adequado e avaliação para possível transplante hepático. CARCINOMA HEPATOCELULAR (CHC) O carcinoma hepatocelular (CHC) é a principal complicação tardia da cirrose hepática. Estando presente em aproximadamente 90–98% dos casos em fígados cirróticos, o que evidencia a forte relação entre a agressão hepática crônica e o desenvolvimento de neoplasia maligna. O rastreamento é indicado para todos os pacientes cirróticos, independentemente da etiologia. MÉTODO INDICADO PARA RASTREIO ➔ Realização de ultrassonografia abdominal a cada 6 meses Estratégia que permite a detecção precoce de lesões suspeitas, aumentando significativamente as chances de tratamento curativo. DIAGNÓSTICO Tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RM) Evidenciam padrão típico caracterizado por lesão hipervascular na fase arterial com washout nas fases portal ou tardia. Nessas situações, a biópsia geralmente não é necessária, pois o diagnóstico pode ser firmado com base nos achados radiológicos em pacientes de risco. EPIDEMIOLOGIA ETIOLOGIA FISIOPATOLOGIA CONSEQUÊNCIAS DA CIRROSE HEPÁTICA QUADRO CLÍNICO DIAGNÓSTICO -American Association for the Study of Liver Diseases PRINCIPAIS COMPLICAÇÕES CARCINOMA HEPATOCELULAR (CHC)