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GEOMETRIA ANALÍTICA
Olá!
Por definição, as seções cônicas são a combinação de uma linha plana
e de uma cônica. Como exemplo dessas seções, pode-se citar a
circunferência, a parábola, a elipse e a hipérbole, que são muito usadas no
cotidiano para construir faróis automotivos e antenas parabólicas (parábolas),
espelhos de iluminação de consultórios odontológicos (elipses), telescópios
de reflexão (hipérbole) e outros instrumentos. Isso se deve às propriedades
que as seções cônicas possuem, como a reflexão, bastante útil nos espelhos
de iluminação, além da translação e rotação do eixo, ambas presentes nos
telescópios.
Nesta aula, serão abordadas as propriedades de reflexão das seções
e de translação e rotação de eixos, com representações gráficas e exemplos
matemáticos por meio da relação entre as propriedades e suas respectivas
equações.
Bons estudos!
AULA 5 – REFLEXÃO,
TRANSLAÇÃO E
ROTAÇÃO
5 REFLEXÃO, TRANSLAÇÃO E ROTAÇÃO
O estudo das seções cônicas começou na Grécia Antiga, ele permitiu analisar
a órbita dos corpos celestes e os fenômenos físicos. Mais adiante, surgiram os
estudos de astronomia, como os do astrólogo alemão Johannes Kepler (1571 – 1630),
que usou a elipse para descrever a trajetória dos planetas, enquanto o astrônomo
italiano Galileu Galilei (1564 – 1642) desenvolveu seus estudos sobre a queda de
corpos por meio das parábolas, que foram usadas para representar os movimentos
dos projéteis (Steinbruch; Winterle, 2014).
Todos esses estudos permitiram a compreensão das principais propriedades
das seções cônicas, como a reflexão, a translação e a rotação, que serão mais
aprofundadas nos tópicos seguintes.
5.1 Propriedades de reflexão
A reflexão das seções cônicas é uma propriedade que embasa a maioria das
aplicações práticas dessas seções. Santos e Ferreira (2009) destacam o caso das
parábolas nesse quesito, como mostra a Imagem 1.
Imagem 1 – Propriedades de reflexão das parábolas
Fonte: Adaptado de Santos e Ferreira, 2009.
Segundo a imagem acima, se F é o foco e P representa um ponto qualquer de
uma parábola, os ângulos α e β, definidos pela tangente em P com segmentos PF e
PQ (onde PQ é paralelo ao eixo da parábola), são iguais. A título de exemplo, os faróis
parabólicos demonstram, na prática, a aplicação dessa propriedade.
Ao girar uma parábola em torno de seu eixo, será obtida uma superfície
chamada paraboloide circular reto, que permite a obtenção de um farol parabólico
ao seccionar essa superfície por um plano perpendicular ao seu eixo. Quando a fonte
de luz é posicionada sobre o foco do farol parabólico, todos os raios luminosos se
refletem paralelamente ao seu eixo, como mostra a Imagem 1. Esse mesmo princípio
também é aplicado na construção de antenas parabólicas, onde os receptores são
colocados sobre o foco.
Os holofotes, os faróis de carro e as lanternas possuem essa estrutura onde o
emissor de luz fica no foco de uma parábola, voltado para um espelho parabólico
localizado no fundo do objeto. Conforme dito anteriormente, essa superfície reflete
raios luminosos paralelos ao eixo da parábola.
Considere um farol parabólico com abertura circular, diâmetro de 48 cm e
profundidade de 18 cm sobre seu eixo, como mostra a parte esquerda da Imagem 2.
É possível identificar a que distância a lâmpada poderá ser posicionada sobre o eixo.
Imagem 2 – Farol parabólico e seção transversal pelo seu eixo
Fonte: Adaptado de Santos e Ferreira, 2009.
Quem compreende a propriedade de reflexão das parábolas, sabe que a
lâmpada deve ser posicionada sobre o foco, assim, será preciso definir a distância do
foco ao vértice, representado pelo valor de p. Para isso, deve-se selecionar uma seção
transversal do farol que tenha seu eixo, assim como na Imagem 2. Conforme as
medidas, pode-se analisar essa parábola, cuja equação é y² = 4px, que passa pelo
ponto (18,24). Ao substituir as coordenadas desse ponto na equação da parábola,
tem-se:
𝑦2 = 4𝑝𝑥
242 = 4 𝑥 18𝑝
72𝑝 = 576
𝑝 =
576
72
= 8
Isso indica que a lâmpada deve ser posicionada sobre o eixo, a 8 cm do vértice.
Além das parábolas, as elipses também possuem propriedades de reflexão com
aplicações bem interessantes, como:
➢ Galerias de sussurro: consiste em uma câmara de forma elipsoide, uma
superfície de seções transversais elípticas, em que um sussurro emitido a partir
de um dos focos pode ser ouvido com clareza no outro foco, a uma distância
significativa, mesmo que esteja inaudível em pontos intermediários. Um
exemplo dessa galeria está no domo da Catedral de Saint Paul, em Londres.
➢ Litrotripsia extracorpórea: diz respeito a um tratamento usado em pacientes
com cálculos renais, ele se baseia na aplicação de choques de ondas
ultrassônicas, onde um refletor de seções transversais elípticas é posicionado
de forma que a pedra (cálculo) esteja posicionada exatamente sobre um dos
focos do refletor. As ondas ultrassônicas são produzidas no outro foco e
refletem exatamente sobre a pedra, que será fragmentada gradualmente e,
consequentemente, eliminada pela urina.
A parte esquerda da Imagem 3 mostra um exemplo prático da reflexão das
elipses, onde F1 e F2 são os focos e P representa um ponto qualquer da elipse. Os
ângulos α e β, determinados pela tangente de P com os raios focais PF1 e PF2, são
iguais.
Agora, a propriedade de reflexão da elipse pode ser visualizada na parte direita
da Imagem 3, onde foi posicionado um emissor de luz ou som sobre um dos focos,
isso faz com que as ondas sejam refletidas exatamente sobre o outro foco.
Imagem 3 – Propriedade de reflexão da elipse
Fonte: Adaptado de Santos e Ferreira, 2009.
Outra seção circular que possui propriedade de reflexão é a hipérbole. A parte
esquerda da Imagem 4 demonstra que, se F1 e F2 são os focos e P é um ponto
qualquer da hipérbole, os ângulos α e β, determinados pela tangente de P com os
raios focais PF1 e PF2, são iguais.
Com base na propriedade de reflexão da hipérbole, que pode ser observada na
parte direita da Imagem 4, se uma onda sonora ou um raio de luz se aproxima do lado
convexo de um dos ramos da hipérbole, na direção do foco, ele será refletido
exatamente sobre o outro foco.
Imagem 4 – Propriedade de reflexão da hipérbole
Fonte: Adaptado de Santos e Ferreira, 2009.
5.2 Translação de eixos
Santos e Ferreira (2009) conceituam a translação de eixos como a substituição
de um dado sistema de coordenadas por outro sistema, sem alterar as respectivas
direções dos eixos dados, cuja origem se localiza em um ponto de conveniência. A
Imagem 5 demonstra um exemplo de translação.
Imagem 5 – Translação de eixos
Fonte: Adaptado de Santos e Ferreira, 2009.
A parte esquerda da Imagem 5 demonstra um sistema de coordenadas uv com
origem no ponto (x0,y0) do sistema de coordenadas xy. Já na parte direita, o ponto P
foi assinalado como qualquer plano: no sistema uv, as coordenadas de P são P (u, v),
enquanto no sistema xy, suas coordenadas são P (x, y). Em suma, a imagem acima
permite notar que as relações entre as coordenadas do sistema xy e as do sistema uv
são dadas por:
{
𝑢 = 𝑥 − 𝑥0
𝑣 = 𝑦 − 𝑦0
Essas são as equações de translação de eixos. Algumas notações diferentes
podem ser usadas para representar a mesma situação, como a apresentada por
Winterle (2014), cuja escrita se difere um pouco, como será visto no exemplo a seguir.
Considere o plano cartesiano xOy cujo ponto O’ (h, k) é arbitrário. Esse sistema
será introduzido de modo que os eixos O’x’ e O’y’ tenham a mesma unidade de
medida, a mesma direção e o mesmo sentido dos eixos Ox e Ou. Com isso, todo ponto
P do plano terá duas representações: P (x,y) no sistema xOy e P(x’,y’) no sistema
x’O’y’, como mostra a Imagem 6.
Imagem 6 – Translação de eixos de Winterle
Fonte: Adaptado de Winterle, 2014.
Pode-se extrair da imagem acima as seguintes equações: x = x’ + h e y = y’ +
k, ou x’= x – h e y’ = y – k, que são as fórmulas de translação. Nos subtópicos a seguir,
serão abordadas algumas das principais aplicações da translação nas seções
cônicas.
5.2.1 Circunferência de raio r e centro (x0,y0)
Um bom exemplo dessa aplicação está na Imagem 7, que mostra uma
circunferência de raio r e centro no ponto (x0,y0). A equação dessa circunferência pode
ser obtida da seguinte forma: se P é um ponto da circunferência, então |PC| = r. Por
meio da fórmula da distância entre dois pontos, tem-se:
|𝑃𝐶| = 𝑟 ∴ √(𝑥 − 𝑥0)2 + (𝑦 − 𝑦0)2 = 𝑟 ∴ (𝑥 − 𝑥0)2 + (𝑦 − 𝑦0)2 = 𝑟2
Essa é a equação reduzida de uma circunferência de raio r e no centro do
ponto (x0,y0).
Imagem 7 – Circunferência de raio r e no centro do ponto (x0,y0)
Fonte: Adaptado de Santos e Ferreira, 2009.
5.2.2 Elipse com centro em (x0,y0)
As elipses analisadas serão aquelas com eixo maior na horizontal e as que
possuem eixo maior na vertical. No caso daquelas com eixo maior na horizontal, a
parte esquerda da Imagem 8 introduz um novo sistema de coordenadas uv, cuja
origem fica no centro da elipse dada. Desse modo, em relação ao sistema uv, existe
uma elipse de eixo maior horizontal e centro na origem, cuja equação é:
𝑢2
𝑎2
+
𝑣2
𝑏2
= 1
Ao substituir as variáveis u e v pelas equações de translação dos eixos dadas,
será obtida a equação de uma elipse com eixo maior horizontal e centro no ponto
(x0,y0) em relação ao sistema xy:
(𝑥 − 𝑥0)2
𝑎2
+
(𝑦 − 𝑦0)2
𝑏2
= 1
Suponha que, na elipse, o comprimento do eixo maior é 2a, já o do eixo menor
é 2b e a distância focal é 2c. Na parte direita da Imagem 8, pode-se notar que, para
uma elipse de eixo maior horizontal e centro no ponto (x0,y0), tem-se:
➢ os focos nos pontos F1 (x0 – c, y0) e F2 (x0 + c, y0);
➢ os vértices nos pontos V1 (x0 – a, y0) e V2 (x0 + a, y0);
➢ as extremidades do eixo menor nos pontos P1 (x0, y0 – b) e P2 (x0, y0 + b).
Imagem 8 – Elipse com eixo maior horizontal e centro em (x0,y0)
Fonte: Adaptado de Santos e Ferreira, 2009.
Por sua vez, as elipses com eixo maior vertical e centro em (x0,y0), como
mostra a parte esquerda da Imagem 9, configuram um caso parecido com as de eixo
maior horizontal, pois a equação dessa elipse no sistema de eixos uv é:
𝑣2
𝑎2
+
𝑢2
𝑏2
= 1
Ao substituir as variáveis u e v pelas equações de translação de eixos dadas,
será obtido:
(𝑦 − 𝑦0)2
𝑎2
+
(𝑥 − 𝑥0)2
𝑏2
= 1
Essa é a equação de uma elipse de eixo maior vertical e centro no ponto (x0,y0)
em relação ao sistema xy. A parte direita da Imagem 9 demonstra que, para uma
elipse desse tipo:
➢ os focos são os pontos F1 (x0, y0 – c) e F2 (x0, y0 + c);
➢ os vértices são os pontos V1 (x0, y0 – a) e V2 (x0, y0 + a);
➢ as extremidades do eixo menor são os pontos P1 (x0 – b, y0) e P2 (x0 + b, y0).
5.2.3 Parábola com vértice em (x0,y0)
A Imagem 10 ilustra uma parábola côncava para cima, com vértices no ponto
V (x0,y0), cuja equação no sistema de eixos uv é u² = 4pv. Quando as variáveis u e v
são substituídas pelas equações de translação de eixos dadas, será obtida:
(𝑥 − 𝑥0)2 = 4𝑝(𝑦 − 𝑦0)
Essa é a equação de uma parábola côncava para cima e vértices no ponto
(x0,y0) em relação ao sistema xy. Ainda nessa parábola, pode-se observar que:
➢ o foco é o ponto F (x0,y0 + p);
➢ seu eixo é a reta vertical x = x0;
➢ a diretriz é a reta horizontal y = y0 – p.
Imagem 10 – Parábola côncava para cima com vértice em (x0,y0)
Fonte: Adaptado de Santos e Ferreira, 2009.
5.3 Rotação de eixos
Winterle (2014) explana o funcionamento das propriedades de reflexão e de
rotação dos eixos das seções cônicas. No caso da parábola, o autor cita o exemplo
das antenas de TV e dos espelhos presentes nos faróis automotivos, no entanto,
esses objetos não são formados por apenas uma parábola, mas de um paraboloide,
que constitui a superfície de revolução obtida ao girar a parábola em torno de seu
eixo. Todas as parábolas possíveis que integram um paraboloide possuem o mesmo
foco F ilustrado na Imagem 11.
Imagem 11 – Paraboloide
Fonte: https://x.gd/rdivX
Para a elipse, imagine uma superfície obtida ao girar a elipse em torno do eixo
maior, denominado superfície elipsoide, e admite a parte interna como espelhada,
caso uma fonte de luz seja colocada em um dos focos (F1), todos os raios irradiados
por essa fonte serão refletidos no outro foco (F2), como mostra a imagem abaixo.
Imagem 12 – Elipsoide
Fonte: Adaptado de Winterle, 2014.
Esse mesmo processo pode ser evidenciado caso a fonte luminosa seja
substituída por uma fonte sonora, já que o som emitido de F1 vai se refletir nas paredes
da elipsoide e se convergir em F2. Por fim, pode-se considerar a propriedade de
reflexão da hipérbole como análoga à da elipse, isto é, a reta tangente t em um ponto
P da hipérbole é bissetriz do ângulo formado pelos raios focais F1P e F2P, portanto, a
= b, como mostra a parte esquerda da Imagem 13.
Imagem 13 – Hiperboloide
Fonte: Adaptado de Winterle, 2014.
A superfície do hiperboloide pode ser obtida ao girar uma hipérbole em torno
da reta que contém seu eixo real (a superfície é uma hiperboloide de duas folhas), e
a parte externa da superfície é admitida espelhada, isso faz com que todo raio de luz
incidente à superfície na direção de um dos focos seja refletido na direção de outro
foco, como mostra a parte direita da Imagem 13.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SANTOS, F. J.; FERREIRA, S. F. Geometria analítica. Porto Alegre: Bookman, 2009.
STEINBRUCH, A.; WINTERLE, P. Geometria analítica. São Paulo: Pearson, 2014.
WINTERLE, P. Vetores e geometria analítica. 2. ed. São Paulo: Pearson, 2014.