trabalho de responsabilidade civil
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DisciplinaResponsabilidade Civil e Dano A Pessoa8 materiais363 seguidores
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DA RESPONSABILIDADE E SEUS FUNDAMENTOS
28.1 Origem da responsabilidade
Originariamente, não havia nenhuma distinção sistemática entre a responsabilidade civil e a responsabilidade penal. Inicialmente, prevalecia a vingança privada, coletiva ou não, pelo exercício da autotutela. Os conflitos entre os clãs eram comuns, e tão somente a partir do momento em que se concebeu um poder central a regular às diferentes relações sociais é que se vislumbrou a mediação e a supressão da anarquia na solução do conflito A vingança (vindicta) importava na reparação de um dano com a prática de outro dano. Impossibilitava-se, de fato, qualquer consideração sobre a noção jurídica de culpa leve ou lata, uma vez que se equiparava a prática de um delito a outro, com base na lei de talião (talio), que limitava a represália da vítima sobre o agressor à proporcionalidade do dano causado (antes dessa legislação não havia a regra da vingança proporcional). Mesmo assim, a represália ocorria muitas vezes de forma injusta e desmedida.
Com a Lei das XII Tábuas, em 450 a.C., institucionalizou-se o procedimento da autocomposição, já existente e que vinha se desenvolvendo gradativamente. Além disso, a referida lei romana teve por objetivo substituir a ideia generalizada de castigo, introduzindo as chamadas penas de restituição. Decugis explica que a lei das XII Tábuas procurou reduzir os conflitos entre famílias, introduzindo as penas retributivas. A disseminação da justiça retributiva contribuiu, ainda, para a adoção de penas patrimoniais e tarifadas. À vítima não restava outra opção senão contentar-se com a tarifa paga pelo autor do prejuízo por ela sofrido. O pagamento imediato ao dano acarretado sobre o ofendido era, no entanto, muito improvável. Não havia quantidade suficiente de moedas cunhadas, por isso, ensina D\u2019Aguanno que o devedor entregava bois e ovelhas ao credor.
Caso a vítima preferisse a intervenção do Poder Público a retribuição ou, ainda, o compromisso extrajudicial do dano, poderia valer-se da legis actio sacramento, com a finalidade de obter a condenação do agressor a efetuar o pagamento. O pretor, então, concedia um prazo para que o devedor efetuasse a reparação do prejuízo, mediante a concessão de garantia pessoal ou real até que a obrigação viesse a ser adimplida.
No entanto, a partir do momento em que a autoridade pública começou a reservar para si o direito de punição do autor do delito, com o abandono paulatino e parcial da concepção de que a pena privada teria o caráter de punição, surgiram pequenos traços distintivos entre os aspectos atualmente conhecidos como civis e penais da responsabilidade. Outras situações passaram a ser admitidas para os fins de responsabilização civil, além dos delitos (delictum). Foram denominadas quase delitos (quasi delicta), a saber, dentre outras:
 a) a responsabilidade do morador pela queda de objeto do edifício (positum et suspensum); 
b) a responsabilidade pelo derramamento de coisa em via pública (ef usum et deiectum), incidente sobre o morador (habitator);
 c) a responsabilidade do capitão do navio pelo furto de bens por ele transportados, cometido por seu preposto (receptum nautarum); 
d) a responsabilidade do dono de estábulo pelo furto de bem ali deixado por seu cliente, praticado por um preposto (stabularum);
 e) a responsabilidade do dono da hospedaria pelo furto de bem deixado pelo hóspede, praticado por seu preposto (cauponum);
 f) a responsabilidade do juiz por sentença proferida de má-fé (si iudex litem suam facit).
A noção de responsabilidade não se assentou, como se percebe, no conceito de culpa, mas no de dano, pois o delito se caracteriza pela existência do prejuízo. A introdução do conceito de culpa somente é perceptível com a edição da legislação aquiliana, em que pesem opiniões respeitáveis no sentido de que apenas após tal norma é que se inseriu a culpa como elemento indispensável da responsabilidade. Culpa foi elemento subjetivo, portanto, que veio a integrar a noção estritamente objetiva dada até então ao tema da responsabilidade civil.
O término do domínio romano no continente europeu não impediu que a Igreja e os estudos desenvolvidos pelos glosadores viabilizassem o renascer de vários princípios e normas anteriormente adotados, destacando-se a concepção segundo a qual a responsabilidade civil teria como pressuposto a culpa. Fortaleceu-se a sistemática da lex Aquilia de damno, conjugando-se o sentido religioso cristão conferido à culpa como pecado. E tal situação praticamente perdurou por toda a era medieval.
Com a revolução industrial, sucedeu a implementação dos meios de produção, de comunicação e de transporte. Esses acontecimentos modificaram a orientação doutrinária e jurisprudencial sobre a responsabilidade civil, ante a dificuldade de prova da culpa do autor do ilícito pelos prejuízos sofridos pela vítima, consequentes do uso das máquinas. Algumas atividades passaram a ser consideradas perigosas por sua natureza ou por determinação legal, a saber: a produção industrial e os transportes coletivos.
A culpa, que passou a integrar a teoria da responsabilidade com a lex Aquilia de damno, em atendimento a um plebiscito popular, para proteger a plebe dos abusos praticados pelos patrícios, trasmudou-se no principal óbice para se conceder a indenização em prol da vítima ou de sua família, em virtude da morte. Não havia como demonstrar que o proprietário da caldeira teria agido com culpa para que ela explodisse, gerando a morte de seu empregado e de outras pessoas. E a culpa, cuja noção praticamente se confundiu com a de responsabilidade durante a era medieval, não era comprovada, ficando a vítima à mercê de um milagre.
A doutrina e a jurisprudência do final do século XIX, a partir dos estudos de Salleiles e de Josserand, passaram a reconhecer a responsabilidade do administrador da atividade, independentemente da existência de sua culpa ou dolo, pelo risco que ela oferecia às pessoas. A exacerbação do perigo à vida e à saúde humanas sucedeu com a manipulação do átomo e a utilização da energia retirada de seu núcleo (atividade nuclear). Em tais atividades, considera-se desnecessária qualquer indagação acerca da culpa ou dolo do seu respectivo responsável, que deverá ressarcir os danos porventura verificados em desfavor da vítima. O reconhecimento da responsabilidade objetiva corrobora a tese histórica segundo a qual o elemento nuclear da responsabilidade é o dano, e não a culpa do autor do ilícito, que somente despontou a partir da lei aquiliana.
28.2 Responsabilidade e obrigação
A responsabilidade constitui uma relação obrigacional cujo objeto é o ressarcimento. Responsabilidade e obrigação não possuem propriamente o mesmo significado. O juramento de honra relaciona-se com o conceito de obrigação, como um reforço da responsabilidade pessoal. É, portanto, mais que o simples desenvolver uma atividade em prol do outro pela existência de um débito (Schuld). O vocábulo responsabilidade indica o dever jurídico de responder por certo evento futuro e seus efeitos (Haftung).
Maria Helena Diniz afirma que o objeto da responsabilidade civil é invariavelmente uma prestação de ressarcimento por inexecução contratual (de forma mais ampla e consentânea com o Código Civil novo, poderíamos dizer negocial) e por lesão a direito subjetivo. Já o objeto da obrigação é, conforme a autora, uma prestação que não decorre de tal situação necessariamente, pois pode advir não apenas de um ilícito por natureza (teoria da culpa, na responsabilidade subjetiva) ou por resultado (teoria do risco, na responsabilidade objetiva), mas decorre de norma jurídica ou de negócio jurídico.
28.3 Função da responsabilidade
A função da responsabilidade civil é dupla:
 a) garantir o direito do lesado, prevenindo-se a coletividade de novas violações que poderiam eventualmente ser realizadas pelo agente em desfavor de terceiros determinados ou não (titulares, portanto, dos interesses difusos e coletivos); e
 b) servir como sanção civil.
A função-garantia decorre da necessidade