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O JOGO DE AREIA UM ESTUDO SOBRE INDICADORES DE

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podendo 
ativar o processo autônomo de cura da psique. Por isso, importa 
menos o significado do que o indivíduo está fazendo com a caixa e as 
miniaturas, do que o fato dele brincar acessando uma dimensão 
simbólica. 
O jogo de areia: um estudo sobre indicadores de resistência ao instrumento 
 
Boletim de Iniciação Científica em Psicologia – 2001, 2(1): 92-104 96 
Tendo em vista que esse instrumento proporciona ao terapeuta 
acesso aos aspectos do mundo interior do paciente, pode também ser 
utilizado como um instrumento projetivo. Segundo Trinca (1997), 
Van Kolk (1984) e Cabral et al. (1989), foi Lawrence Frank, em 1939, 
quem utilizou a expressão "instrumentos projetivos" pela primeira 
vez. Definiu como característica desses instrumentos evocar no 
sujeito a expressão de seu mundo psíquico e aspectos de sua 
personalidade. 
Existem instrumentos projetivos verbais, nos quais o sujeito 
expressa aspectos de sua personalidade por meio de verbalizações, e 
instrumentos projetivos não verbais, nos quais o sujeito se expressa 
mediante ações ou construções, sem ter necessariamente que usar a 
expressão verbal. Neste caso o instrumento torna-se mais 
abrangente uma vez que oferece mais possibilidades de resposta. 
O jogo de areia, em seu aspecto projetivo, pode aliar a 
expressão não verbal à verbal. A ação lúdica e a cena confeccionada 
fogem da sintaxe do discurso racional, oferecendo imagens que 
possibilitam o acesso aos conteúdos inconscientes. Esses podem ser 
conectados à consciência por intermédio do diálogo ativo promovido 
pela atividade associativa. 
No presente estudo o jogo de areia foi utilizado como técnica 
projetiva. 
Objetivo 
O objetivo geral do presente estudo é verificar a possibilidade 
de inserção do jogo de areia nos procedimentos clínicos utilizados na 
clínica escola da Faculdade de Psicologia da Universidade P. 
Mackenzie. 
O objetivo específico é identificar os indicadores de resistência 
ao jogo entre estudantes de psicologia, direito e engenharia e discutir 
as suas implicações para os procedimentos clínicos realizados nesta 
instituição. 
Método 
Melissa Migliori Machado; Rodrigo Manoel Giovanetti; Simone Correa Silva; Paulo Afranio 
Sant’anna 
Boletim de Iniciação Científica em Psicologia – 2001, 2(1): 92-104 97 
Sujeitos: Contribuíram para esta pesquisa alunos de três cursos 
da Universidade P. Mackenzie: engenharia, direito e psicologia. Ao 
todo selecionou-se dezoito estudantes cursando entre o terceiro e o 
décimo semestre de seus respectivos cursos, respeitando-se a 
proporcionalidade entre homens e mulheres. 
A natureza da amostra partiu do pressuposto de que alunos de 
diferentes áreas profissionais têm características específicas de 
personalidade, o que permitiu comparar as variações do grau de 
resistência entre grupos e suas peculiaridades. 
A formação do engenheiro privilegia a técnica, a razão e a sua 
aplicação prática na solução de problemas. No direto, desenvolve-se 
uma atitude argumentativa, um raciocínio pautado em interpretações 
e no conhecimento de códigos de conduta social. Na psicologia, 
desenvolve-se um raciocínio mais dinâmico, enfatizando a integração 
entre os aspectos emocionais e racionais, técnicos e compreensivos. 
Instrumento: Utilizou-se a técnica de observação direta em 
sessões experimentais com a utilização do jogo de areia. Convidou-se 
os colaboradores a participar de uma sessão única, na qual solicitou-
se que em um primeiro momento, entrassem em contato com a areia 
e na seqüência, construíssem uma cena sem tema preestabelecido. 
No final, estimulou-se o relato de uma história sobre a cena e 
solicitou-se um título para a mesma. 
Foram observados e registrados comportamentos verbais – 
verbalizações ao longo da construção da cena, associações realizadas 
com a cena e história relatada –, e não verbais – imagens expressas 
na cenas, atitudes ao longo da confecção e do relato da história – 
buscando identificar possíveis reações de resistência ao jogo de areia. 
As cenas e os comportamentos foram registrados em gráficos 
durante a sua execução e no término da mesma foi feita uma foto 
instantânea. A partir destes registros, foi possível identificar 
indicadores de resistência configurados na própria cena e no 
comportamento do colaborador.Análise: 
O jogo de areia: um estudo sobre indicadores de resistência ao instrumento 
 
Boletim de Iniciação Científica em Psicologia – 2001, 2(1): 92-104 98 
Parte-se da hipótese que durante a atividade do jogar 
conteúdos inconscientes com tonalidades emocionais são ativados e 
podem desencadear uma resposta de defesa do ego, denominada de 
resistência. De acordo com o tipo de estruturação que esta apresenta 
pode-se verificar diferentes indicadores de resistência. Referências 
sobre esses indicadores em situações clínicas nas quais trabalha-se 
com as fantasias e imagens do paciente encontram-se em vários 
autores junguianos (Carey, 1999; Fierz, 1988; Jacoby, 1984; Jung, 
1998; Von Franz, 1998; Weinrib, 1993). 
O presente estudo apoia-se na descrição desses autores sobre a 
ocorrência de indicadores de resistência no trabalho com as fantasias 
e imagens e busca verificá-las no jogo de areia. Considerou-se, além 
do conteúdo expresso nas cenas, as expressões comportamentais — 
incluindo verbalizações — durante o ato de jogar. Classificou-se esses 
indicadores em dois grupos: indicadores expressos no 
comportamento e expressos na representação da cena. 
Verificou-se como indicadores expressos no comportamento: a. 
o excesso de verbalização, b. a descrição da cena ao invés do relato 
de uma história, c. a falta de manuseio da areia e, d. o tempo total 
do jogo reduzido. Como indicadores expressos na representação da 
cena: a. a construção de barreiras, b. invasão desorganizada de 
conteúdos, c. preocupação estética e, d. desorganização da cena. 
 Em relação aos indicadores comportamentais, a descrição da 
cena sugere a dificuldade do indivíduo em deixar a fantasia fluir e de 
estabelecer contato emocional, permanecendo como um observador 
distanciado da mesma. Não manusear a areia sugere certa 
dificuldade em se deixar envolver pelo jogo permitindo que o ato 
lúdico ocorra espontaneamente. Segundo Carey (1999), o contato 
com a areia facilita a emergência e a expressão de conteúdos 
inconscientes e para Weinrib (1993), tocar na areia é um fator 
estimulante das fantasias do sujeito. Devido a sua fluidez, a areia 
pode também desencadear sensações de perda de controle assim 
Melissa Migliori Machado; Rodrigo Manoel Giovanetti; Simone Correa Silva; Paulo Afranio 
Sant’anna 
Boletim de Iniciação Científica em Psicologia – 2001, 2(1): 92-104 99 
como, de repulsa ou medo, por representar para muitas pessoas, um 
elemento “sujo”. 
O excesso de verbalização sugere a resistência do sujeito em 
reconhecer e integrar o fluxo de imagens emergente na cena, 
procurando reduzi-lo, controlá-lo ou paralisá-lo por meio do discurso. 
Jacoby (1984) afirma que o fato dos pacientes saturarem o terapeuta 
com o relato de muitos sonhos é uma forma de não entrar em 
contato com o sentido dos mesmos e de controlar inconsciente o 
terapeuta. 
O tempo total de confecção da cena muito reduzido, além de 
indicar a dificuldade do indivíduo em permanecer jogando, pode 
também indicar a dificuldade de entrar em contato e de estimular sua 
fantasia. Weinrib (1993) assinala que o ato de jogar desperta 
ansiedade por ter um caráter não interpretativo. Portanto a 
resistência parece estar relacionada à dificuldade do indivíduo em 
permanecer jogando e atuando com sua ansiedade. Nesse estudo os 
colaboradores foram informados