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Universidade Federal do Rio de Janeiro RUMO AO PALÁCIO: AS ESTRATÉGIAS DE DOMINAÇÃO DOS ESPAÇOS POLÍTICOS NA BAHIA DURANTE A DITADURA (1966 – 1982) José Alves Dias 2009 RUMO AO PALÁCIO: AS ESTRATÉGIAS DE DOMINAÇÃO DOS ESPAÇOS POLÍTICOS NA BAHIA DURANTE A DITADURA (1966 – 1982) José Alves Dias Tese de doutoramento apresentada ao Curso de Doutorado do Programa de Pós-graduação em História Social do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de doutor em História Social. Linha de pesquisa: Sociedade e Política Orientador: Carlos Fico RIO DE JANEIRO 2009 Confecção da Ficha Catalográfica: Elinei Carvalho Santana – CRB 5/1026 D532r Dias, José Alves. Rumo ao palácio: as estratégias de dominação dos espaços políticos na Bahia durante a ditadura (1966-1982) / José Alves Dias, 2009. Vi, 218 f.: il.; 30 cm. Orientador: Carlos Fico. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro Programa de Pós-Graduação em História Social, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Rio de Janeiro, 2009. Referências: f. 206-210. 1. Bahia – política e governo (1966-1982). 2. Carlismo (Bahia) – Ditadura Militar. 3. Sociedade e política – tese. I. Fico, Carlos. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Programa de Pós-Graduação em História Social. III. T. CDD: 320.8142 AGRADECIMENTOS A dívida que contraímos ao concluir um trabalho como este é enorme, como também são as possibilidades de cometer injustiças, esquecendo-se de pessoas que colaboraram para que ele se tornasse viável. Ainda assim, é preciso correr o risco, esperando que as pessoas não mencionadas compreendam que a omissão é fruto de uma memória depauperada e não da ignorância de sua contribuição. Deste modo, gostaria de agradecer à Fundação de Amparo à Pesquisa na Bahia – FAPESB – pela bolsa de estudos; ao pessoal do CEDIG da UFBA, especialmente, Fábio e Luís, facilitadores do meu acesso aos microfilmes do jornal A Tarde; aos funcionários do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, do Arquivo Público Nacional, da biblioteca do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ e do Arquivo Público da Bahia, pela gentileza e auxílio na consulta aos respectivos acervos. Às funcionárias do Programa de Pós- graduação em História da UFRJ, Gleides e Sandra, pelo cuidado constante com os detalhes e a rotina acadêmica. Um agradecimento especial à banca de qualificação, professoras Marieta de Moraes Ferreira e Ângela de Castro Gomes que corrigiram os rumos da teses e deram indicações preciosas. Particularmente, agradeço ao meu orientador, Carlos Fico, pela paciência diante de minhas indefinições e limitações que foram resolvidas com sua precisão cirúrgica nos encontros de orientação. Tenho nítidos os momentos agradáveis de conversa com Renato Lemos, que entre um café amargo e outro, me emprestou alguns livros e os ouvidos para que eu resolvesse um rosário de questionamentos. Minha família, conquanto tenha se resignado, jamais aceitou passivamente a saudade nos longos dias de afastamento. Ainda assim, foi solidária nas incontáveis horas de distanciamento e reclusão para concluir a tese. Aos meus pares, no Departamento de História da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, que se sobrecarregaram com as minhas disciplinas para que eu fosse liberado integralmente durante esse período, o meu reconhecimento e gratidão. No mesmo patamar estão os que colaboraram para revisão, formatação e finalização da tese e aos professores que, gentilmente, aceitaram compor a banca final de defesa. INTRODUÇÃO Durante mais de trinta anos o carlismo controlou a política baiana, manteve uma base parlamentar sólida, influenciou em quase todas as decisões presidenciais e acumulou cargos importantes na estrutura organizacional do Estado brasileiro. Tudo isso despertou um grande interesse pelas razões de seu vigor e de sua longevidade. 1 Dentre as explicações existentes para esse fato, a do “autoritarismo congênito”, embora bastante simplificadora, é a mais difundida. Segundo essa interpretação, a dominação carlista resultou da identificação autoritária entre Antônio Carlos Magalhães e os governos militares e em decorrência disso, as administrações carlistas foram favorecidas com grandes somas de recursos federais que permitiram a expansão de suas bases. 2 O carisma e a popularidade foram os traços marcantes da imagem pessoal de Antônio Carlos Magalhães que explicariam seu sucesso político, derivado, exclusivamente, dessas características individuais. Esse ponto de vista, igualmente simplista, ignora a existência dos mesmos predicados em líderes de outras correntes como o lomantismo, o vianismo, o juracisismo e tantos outros grupos que disputaram, ainda que sem êxito, o poder com o carlismo. 3 Quando o registro dos fatos é feito a partir dessa percepção, descarta-se, sumária ou parcialmente, a maior parte destas frações e lideranças que compunham a elite política da Bahia no período, absolvendo-as, assim, de suas responsabilidades ou punindo-as com o ostracismo histórico. Contrariando essa interpretação, este estudo se propõe a encontrar as razões para o predomínio do carlismo no conjunto de idéias propostas e sistematizadas pela elite conservadora do país durante a ditadura. O viés autoritário, naquela situação excepcional, compunha a estrutura ideológica, entretanto, não definia os critérios de organização das políticas públicas ou as relações estabelecidas entre o governo central e seus representantes nos estados da federação. Durante a pesquisa, ao aprofundar a análise e ampliar o foco da questão para o cenário político nacional foi possível perceber que há uma infinidade de razões para o crescimento e 1 Considera-se aqui apenas o período de atuação conjunta e sistemática do grupo político de Antônio Carlos Magalhães que se inicia com a campanha para o seu primeiro governo estadual em 1970 e recrudesce com a derrota de seu candidato para o mesmo cargo em 2006. 2 A síntese desse entendimento encontra-se em João Carlos Teixeira Gomes. Memórias das trevas: uma devassa na vida de Antônio Carlos Magalhães. São Paulo: Geração Editorial, 2001. 3 A popularidade e o carisma de Antônio Carlos Magalhães estão bem destacados em José Batista Freitas Mattos. ACM: o mito. Rio de Janeiro: RGB, 2001. 10 afirmação do carlismo na Bahia. Entre elas, destacam-se a sincronia com o ritmo político dos governos militares, a disposição para a coesão ideológica em torno de temas convergentes do pensamento conservador e o controle efetivo dos espaços decisivos do poder estadual. A hegemonia carlista, vista por esse ângulo, ocorreu como resultado das mudanças conjunturais e da cadência imposta pelos atores históricos naquele processo político em mutação. A percepção do movimento sincrônico entre o carlismo e a ditadura é mais evidente nos períodos de crise acentuada e nos processos eleitorais. Um desses momentos destacadosno texto é a participação de Antônio Carlos Magalhães na época precedente ao golpe de 1964. Na condição de deputado federal, ele atuou como uma espécie de âncora parlamentar da bancada baiana semeando as idéias anticomunistas e conspirando contra o governo de João Goulart. Esgotada essa etapa do processo, ele se concentrou na formação do diretório regional da ARENA para atender aos reclamos da reforma partidária imposta no ano seguinte - essa é a fase embrionária do carlismo e a ocasião de afirmação da liderança política de ACM. Mais adiante, quando ocupou a prefeitura da capital baiana e o governo estadual direcionou suas ações para a urbanização e a industrialização, em consonância com os objetivos de construção e transformação do Brasil em uma grande potência. Durante todo o seu percurso como político da ditadura preocupou-se com o sincronismo das idéias. Moderou o discurso repressivo e continuísta nas primeiras e últimas sucessões presidenciais – momentos de afirmação e refluxo da ditadura – mas firmou posição autoritária e conservadora nas eleições intermediárias quando “a linha dura” ocupava o poder. Em tais condições a sincronia com a ditadura gerou resultados bastante satisfatórios para o carlismo. O contexto político da ditadura também foi favorável ao carlismo. A inexistência de simetria e continuidade nas propostas políticas dos governos militares afetaram a hegemonia habitual de antigos chefes políticos da Bahia, de modo que estes não conseguiram se manter no poder estadual por um longo período, após o golpe de 1964. Políticos como Luiz Viana, Lomanto Júnior e Juracy Magalhães integravam correntes políticas estaduais que subsistiam desde a década de 1930, mantiveram-se com o golpe e lideraram até o início da década de 1970. Não desapareceram depois disto, porém, após esse período, a sua permanência na política nacional não se converteu em vigor político para superar as demais etapas da ditadura. O apelo do carlismo à unidade ideológica da elite, após a reforma partidária e a imposição do bipartidarismo, foi um recurso para minimizar os efeitos da desagregação destes 11 grupos tradicionais, especialmente nos pequenos municípios da Bahia. Esses desafios, impostos por uma conjuntura dinâmica e complexa, exigiram unidade da elite brasileira e de seus representantes nos estados. Essa integração, todavia, só seria possível com a formação de uma coligação entre as correntes tradicionais, o predomínio de uma delas com extinção das demais ou o surgimento de um outro grupo que absorvesse todas as diferenças. Prevaleceu a última hipótese. Com o carlismo em ascensão, o período compreendido entre 1970 e 1982 pode ser definido como de acomodação das forças políticas remanescentes ou originárias do golpe de 1964. Ainda que cada um, ao seu modo, buscasse intervenção decisiva no diretório regional da ARENA e na Assembléia Legislativa da Bahia, o que prevaleceu foi a coesão do bloco conservador liderado por Antônio Carlos Magalhães. Isso porque, a certa altura, os grupos tradicionais, impossibilitados de dominarem individualmente os espaços de decisão, aceitaram a investidura de Antônio Carlos Magalhães como intermediador. O carlismo, então, surgiu como alternativa conciliadora dos interesses conservadores e autoritários. Desse modo, a inserção política estadual no movimento que desestabilizou o governo Goulart e implantou a ditadura no país foi resultado de uma articulação carlista entre os diversos setores da elite na Bahia e os temas convergentes que compunham a base teórica do pensamento conservador brasileiro. Assim, o carlismo além de estar em sincronia com o poder central nos momentos cruciais da política nacional, também manteve a integração da elite política na Bahia. Para tanto, foi fundamental a manutenção de um relacionamento no qual se garantissem o respeito à hierarquia e o funcionamento orgânico. A cooptação de indivíduos com potencialidades políticas e eleitorais para integrar-se ou associar-se ao carlismo não deveriam representar risco à liderança de Antônio Carlos Magalhães e isso explica atitudes refratárias com aqueles que ameaçaram a unidade do grupo ou sua hierarquia interna. Essa articulação foi essencial para a sobrevivência do carlismo em tempos de ditadura, nos quais a harmonia era um atributo raro, mas essencial para manutenção do status quo e preservação da proposta política conservadora da elite. Sem dúvida, Antônio Carlos Magalhães utilizou artifícios de intimidação, constrangimento e violência para articular essa integração. Entretanto, não foi o método, e sim o resultado, que diferenciou o carlismo das demais correntes políticas da Bahia. A escolha de uma plataforma ideal, composta de temas centrais como o anticomunismo e o desenvolvimento, além de manterem-se acima dos interesses locais e pessoais, causou boa impressão nas diferentes dissidências militares ocupantes do poder 12 durante a ditadura. Naturalmente que a convergência da elite para esses interesses não se efetivou automaticamente. Ela forjou-se mediante o convencimento constante de sua necessidade e pela ameaça crescente que o carlismo passou a representar para todos quantos estivessem à margem de sua influência. O carlismo também estabeleceu uma relação de interdependência com os governos da ditadura. Ao tempo em que buscava sua afirmação e apoio político federal, os mandatários desse período desejavam a normalidade institucional, dado ao caráter instável do regime, que sofria pressões internacionais e constante oposição interna, inclusive armada. Nesse contexto, a estabilidade das instituições e a segurança de seus dirigentes dependiam, em grande parte, do equilíbrio entre os diversos setores de apoio ao governo. A aparência de democracia que os militares tentaram transmitir em sua propaganda oficial forçosamente induzia a essa necessidade, sendo a unidade da elite uma medida prioritária. Entretanto, somente a intervenção dos militares na política dos estados não garantiu a unidade, ao contrário, rompeu com a hegemonia anterior a 1964 criando um movimento rotatório das forças políticas e, consequentemente, a sua renovação. Na Bahia, isso ocorreu precisamente nas eleições de 1970, quando Antônio Carlos Magalhães tornou-se governador. Como ocorria tradicionalmente, era imprescindível que o presidente da República avalizasse a indicação do diretório regional da ARENA para que o nome do eleito fosse resultado de um consenso. Desta forma, Castelo Branco aprovou a escolha da elite baiana, mas, ainda que o aval fosse um sinal importante, a construção do carlismo não dependeu apenas disto. Foi protegido por uma teia de relações meticulosamente construída, sustentado por uma engenhosa articulação política e sincronizado com os princípios ideológicos da elite dominante brasileira que Antônio Carlos Magalhães conseguiu ocupar o palácio do governo. Esse passo foi fundamental para a estruturação do carlismo como grupo aspirante à hegemonia política estadual, uma vez que, no comando do poder, foi possível a ele atuar decisivamente para cumprir a agenda da elite brasileira, credenciando-se para galgar posições superiores. A ocupação do referido cargo possibilitou a ACM o controle do diretório regional da ARENA e de sua bancada na Assembléia Legislativa. Não era suficiente ser governo e ter maioria parlamentar formal se não houvesse consenso nas decisões. As diferentes sublegendas com suas infinitas disputas locais podiam colocar em risco os interesses do governo e facilitar a intervenção da oposição. Com isso é importante notar que não havia um alinhamento 13 automático com as propostas governistas e nem se confirmao caráter submisso e dependente do Legislativo. Sendo assim, recusamos a interpretação do “autoritarismo congênito” encontrada também nos meios acadêmicos, onde se espera uma apreciação moderada e exaustiva dos temas. Porque se despreza com isso a ligação de Antônio Carlos Magalhães com uma elite ideologizada e ciente de suas funções na sociedade que pretende dominar. Ignora-se, por outro lado, o papel das oposições que, por esse viés, pareciam lutar contra o destino indócil e não por uma causa democrática. Para que o essencial não seja abandonado, a materialização dos fatos que compõem a trajetória da elite política na Bahia deve ser vista dentro de um contexto social, econômico e político e as instituições que direcionam, acolhem e legitimam o poder devem ser dissecadas juntamente com os agentes sociais que lhes atribuem essas funções. Deste modo, não se pode ignorar que a estratégia carlista foi vitoriosa porque Antônio Carlos Magalhães, consciente das contradições inerentes às conjunturas ao longo de sua trajetória política, atuou com desenvoltura no trato dessas diferenças. Sem a pretensão de fundir, aparar ou superar essas desigualdades, impôs, no curso dos acontecimentos, alguns ajustes que lhe garantiram apoio para materialização do controle dos espaços de poder ou execução pragmática de seus objetivos. Também se buscará demonstrar aqui que a hegemonia carlista na Bahia foi a combinação de uma mudança na conjuntura política e da adoção de estratégias eficazes e ideologicamente referenciadas no pensamento elitista da época. Por esse motivo, adiante se busca rever a atuação das elites políticas da Bahia nos partidos políticos e no parlamento, espaços importantes para definir quem ocupou os cargos eletivos e em que condições elas definiram suas estratégias de conquista e manutenção do poder. Aqui se explicitará a dinâmica da relação entre os elementos enunciados na problemática, no diretório regional da ARENA e na Assembléia Legislativa da Bahia durante o referido período, salientando, especialmente, aqueles que se relacionam com a disputa entre os vianistas, os juracisistas e os carlistas pelo poder estadual. Pretende-se com isso relativizar as atitudes passivas do “partido do governo” e a “submissão” do legislativo estadual chamando a atenção para as ações ativas e, por vezes, conflitantes da elite política na Bahia no processo de consolidação de suas bases nesse cenário excepcional. Por isso, ao longo dos sete capítulos que compõe este texto, iremos caracterizar essas correntes políticas que atuavam entre 1966 - ano das primeiras eleições indiretas para 14 governadores no bipartidarismo - e 1982 - quando o carlismo se consolida, em eleições diretas e pluripartidárias, como grupo. Verificar-se-á, concomitantemente, o grau de importância do partido e do legislativo estadual como espaços decisivos de cooptação e controle desses grupos políticos e de apoio às políticas dos governos estaduais. O mesmo período abrange desde a criação do sistema bipartidário e as primeiras eleições dentro dessa configuração partidária, até as primeiras eleições após o retorno ao pluripartidarismo. Pela ordem, foram eleitos governadores da Bahia nesse período: Luiz Viana Filho (1966), Antônio Carlos Magalhães (1970), Roberto Figueira Santos (1974), Antônio Carlos Magalhães - pela segunda vez - (1978) e, finalmente, João Durval Carneiro (1982). As articulações, conflitos e composições entre Juracy Magalhães, Luiz Viana Filho e Antônio Carlos Magalhães e seus aliados políticos, aspirando à dominação dos espaços decisivos do poder político, ou seja, o governo, o partido e o parlamento, são o foco principal deste estudo. No plano secundário, porém não menos importante, está o governo federal, num regime ditatorial dirigido por militares de alta patente e suas estratégias de controle político e social, incluindo a imposição do bipartidarismo e do pluripartidarismo em momentos estratégicos. Observar como essas lideranças e seus aliados se movimentaram para ocupação desses espaços, quais são suas estratégias, qual foi a manobra vitoriosa e que razões motivaram esse sucesso são finalidades primordiais. Tudo isso foi analisado a partir do conhecimento da trajetória política dos envolvidos, pela interseção de suas trajetórias individuais naquela conjuntura, através da percepção da rede de relações estabelecidas, com a análise dos discursos oficiais e das correspondências, pelo estudo da estrutura orgânica e inorgânica das instituições em apreço e com o exame dos depoimentos e entrevistas. Para conhecer a trajetória política, foi imprescindível a leitura da produção biográfica das referidas lideranças da elite política baiana, além dos verbetes do Dicionário Histórico- Biográfico Brasileiro. Uma revisão da literatura permitiu o conhecimento dos partidos políticos, do parlamento e do governo estadual no lapso de tempo coberto pela pesquisa. Os discursos oficiais, compreendendo principalmente mensagens governamentais e pronunciamentos parlamentares, foram consultados no Diário Oficial da Assembléia Legislativa no arquivo dessa instituição e no Arquivo Público da Bahia, como também em jornais de grande circulação dentro e fora do estado, particularmente, A Tarde e o Jornal da Bahia. Subsidiariamente, os Anais e Diários da Câmara dos Deputados, do Senado e do Congresso Nacional, disponíveis “on line”, também foram consultados. 15 No arquivo pessoal de Juracy Magalhães, no CPDOC/FGV, consultamos a correspondência pessoal rica em detalhes sobre a política baiana. Ela narra especificamente os desentendimentos entre o titular e Antônio Carlos Magalhães, mas também realça a participação de deputados estaduais e federais ligados ao ex-interventor de Vargas. Do mesmo modo, exploramos as agendas, anotações, correspondências, memoriais do arquivo de Luiz Viana Filho no Arquivo Nacional com atenção especial ao relacionamento do autor com outros políticos. Essas fontes foram copiadas, catalogadas e organizadas por tema e permitiram conhecer as origens da elite da Bahia e sua trajetória política. De posse dessas informações, foi possível situar alguns dos atores preferenciais deste estudo, avaliar suas relações, analisar as suas estratégias e a emergência de um dos segmentos no plano político local e nacional. Para proceder a uma consulta objetiva e sistemática utilizamos alguns instrumentos como os resumos de documentos e publicações, fichas de catalogação por tema, tipo de documento ou ordem cronológica. Em suas caminhadas rumo ao palácio do governo, as elites deixaram rastros de suas estratégias de dominação basilares para o esclarecimento dos fatos que envolveram o período político mais intenso da ditadura. ABSTRATC This work presents a research on the association between the political elite in Bahia and the military, during the dictatorship, and how this stimulated many questions, especially with regard to the rise of carlism as a hegemonic power. Generally, the carlist domination is interpreted as a result of the authoritarian identification between Antônio Carlos Magalhães and the military governments. However, the complexity of the relationships formed in that situation requires a broader assessment. It is a context permeated with conflicts, doubts and contradictions also involving juracisists, vianists and lomantists. The established links were not limited to the personnel convenience, the political pragmatism or the authoritarian identification. The driving questioning was the success of the carlist strategy in the hegemonization process of Bahia’s politics during dictatorship. The timeframe comprised the period between 1966 and 1982 andis justified because it was a time marked by the change in the correlation of political forces in Bahia. Thus, this study aims to find the reasons for the predominance of carlism within the set of ideas proposed and systematized by the conservative elite of the country during the mentioned period. The research was based on documentary analysis in biographies, statistics and letters, as well as literature on the main concepts addressed in the work. Therefore, even recognizing that this study is not conclusive and does not end in this research, one can infer that the carlist strategy was to integrate Bahia’s political elite around relevant political themes and of common interest. Anticommunism and the development stand out as unifying the conservative thought and this unit allowed the consolidation of this group and the dominion of decisive spaces in Bahia’s politics for several decades. Key-words: Bahia. Politics. Elites. Dictatorship. RESUMO Este trabalho apresenta uma pesquisa sobre a associação entre a elite política na Bahia e os militares, no período da ditadura, e como essa estimulou diversos questionamentos, especialmente, no que tange à ascensão do carlismo como força hegemônica. Geralmente, a dominação carlista é interpretada como resultado da identificação autoritária entre Antônio Carlos Magalhães e os governos militares. Entretanto, a complexidade das relações constituídas nessa conjuntura impõe uma apreciação mais alargada. Trata-se de um contexto permeado de conflitos, dúvidas e contradições envolvendo, também, juracisistas, vianistas e lomantistas. Os vínculos estabelecidos não se limitaram à conveniência pessoal, ao pragmatismo político ou à identificação autoritária. O questionamento impulsionador foi o sucesso da estratégia carlista no processo de hegemonização da política baiana durante a ditadura. O recorte temporal compreendeu o período entre 1966 e 1982 e justifica-se por ter sido uma época marcada pela alteração na correlação de forças políticas na Bahia. Desta forma, este estudo se propõe a encontrar as razões para o predomínio do carlismo no conjunto de idéias propostas e sistematizadas pela elite conservadora do país no período citado. A pesquisa baseou-se na análise documental em biografias, estatísticas e correspondências, como também bibliográfica sobre os principais conceitos abordados no trabalho. Portanto, mesmo reconhecendo que esse estudo não é conclusivo e também não se esgota nesta investigação, pode-se inferir que a estratégia do carlismo foi integrar a elite política baiana em torno de temas políticos relevantes e de interesse comum. O anticomunismo e o desenvolvimento destacam-se como unificadores do pensamento conservador e essa unidade permitiu a consolidação desse grupo e o domínio dos espaços decisivos da política baiana por várias décadas. Palavras-chave: Bahia. Política. Elites. Ditadura. SUMÁRIO Introdução. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 09 Capítulo I - O golpe e a ditadura: formação da elite dirigente e ampliação das bases de sustentação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 Capítulo II - Os referenciais de integração na Bahia: caminhos e descaminhos da elite política renovada em busca do poder. . . . . . . . . . . . . . . 36 Capítulo III - A criação do bipartidarismo em 1966 e a formação da ARENA na Bahia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59 Capítulo IV - A atuação dos partidos e das sublegendas no bipartidarismo e do legislativo estadual numa ditadura. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 Capítulo V - O predomínio do consenso: a defesa do desenvolvimento baiano nas estratégias da elite política. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117 Capítulo VI - A ferro e a fogo: o conflito como estratégia equivocada do carlismo para as eleições de 1974. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 142 Capítulo VII - O retorno ao consenso: as bases nacionais do carlismo e os despojos regionais do vianismo e do juracisismo nas eleições de 1978. . . . . . 179 Considerações finais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 202 Referências bibliográficas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 206 Anexos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 211 CAPÍTULO I O golpe e a ditadura: formação da elite dirigente e ampliação das bases de sustentação Perspectivas iniciais Há versões variadas para a conspiração e o golpe ocorrido em 1964 que originaram um universo considerável de interpretações sobre os agentes provocadores, os instrumentos e os desdobramentos desses fatos nas décadas seguintes. Os principais pontos de divergência referem-se às motivações do golpe e à extensão política e social alcançada nos anos seguintes. A conspiração realizada pelos setores militares e civis para a intervenção militar que depôs o presidente João Goulart foi impulsionada pela infiltração comunista nas instituições políticas e militares e pelo insatisfatório desenvolvimento econômico do país. Desta forma, essa intervenção se caracterizou como uma missão de tutela à democracia cumprida no tempo determinado e necessário. 1 Evidentemente a extensa bibliografia produzida durante as últimas décadas sobre o assunto não ratificam essas alegações, como também os fatos revelados pela própria documentação oriunda dos arquivos particulares e institucionais atualmente conhecidos. Parece mais coerente argumentar a existência de um pretexto conservador para o golpe, movido pelo temor das reformas de base e o crescimento da participação trabalhista. 2 De qualquer modo, ainda interessa continuar investigando em que momento, após 1945, se iniciam os preparativos para a desestabilização da democracia e quão diversa é a amplitude de suas conseqüências. 1 O entendimento de que as Forças Armadas são instituições militares autônomas que tutelam a Constituição Federal e a democracia está presente em quase todos os discursos de apoio ao golpe de 1964. Alfred Stepan (1975) concluiu que os militares participam de um sistema e reagem a todos os estímulos que afetam o seu funcionamento. As evidências demonstram que há restrições ao papel “moderador” dos militares no episódio brasileiro e que sua atuação não se traduziu em tutela da democracia, e sim, numa intervenção conspiratória contra um governo legalmente constituído. 2 Em que pesem as diferenças analíticas entre marxistas, não-marxistas, militares, etc., o conjunto bibliográfico sobre esse período é praticamente unânime nessa conclusão. 17 Ressalta-se ainda que, mesmo quando se sustenta a idéia de uma conspiração conservadora cuja intervenção, por meio de um golpe de Estado, desencadeou uma ditadura, não se pode ignorar as profundas divergências entre seus executores. Apesar de esse tema ter sido objeto de diversas pesquisas no meio acadêmico, ainda permanece como uma incógnita a amplitude das consequências provocadas por essas fissuras na correlação de forças existentes no interior dos diferentes governos que atuaram durante esse período. Isso porque, possivelmente, a disputa entre as forças heterogêneas do sistema autoritário vigente no Brasil exigissem, dos segmentos em conflito, uma movimentação constanteem direção aos seus aliados para garantir uma ampla base de sustentação no governo. Provavelmente, a dinâmica dos acontecimentos implicou em rearticulação dessa base aliada, cooptando uns e descartando outros, de acordo com o momento e as motivações. Sendo assim, possivelmente essas cisões na estrutura governamental afetaram diretamente as elites políticas nos estados da federação e interferiram sobremaneira nas indicações para governador e nas eleições proporcionais. No caso particular da Bahia, encontraremos Juracy Magalhães, Luiz Viana Filho e Lomanto Júnior como pivôs dessa engrenagem política e, mais adiante, Antônio Carlos Magalhães, como um novo ator político surgido durante a ditadura, que superou antigas lideranças e colaborou para materializar o projeto político e econômico da elite brasileira na última metade do século XX. Este capítulo pretende propiciar uma visão geral da situação política e econômica do país, bem como permitir uma exata contextualização dos agentes e dos episódios narrados adiante. Essa conexão entre a política global e suas ramificações na Bahia amplia, sobremaneira, a compreensão do modus operandi dos agentes da política baiana e explica certos comportamentos aparentemente tidos como fruto do autoritarismo congênito, como é o caso de Antônio Carlos Magalhães nesse processo. O golpe de 1964 e seus antecedentes As tentativas malogradas de um golpe de estado que possibilitasse aos civis do Partido Social Democrático (PSD) e da União Democrática Nacional (UDN) - como também a certos setores militares - a oportunidade de controlar o poder e dirigir a nação retrocedem a 1955, no início do governo Juscelino Kubitscheck. Porém, se apresentaram de maneira mais consistente em 1961, com a escolha da chapa Jânio Quadros (UDN) e João Goulart, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), para presidência e a posterior renúncia do primeiro alguns 18 meses depois da posse. A garantia constitucional da investidura do cargo vacante pelo vice- presidente eleito foi obstaculizada pelos referidos segmentos golpistas. 3 João Goulart, conhecido como Jango, era apoiado por Leonel Brizola e adepto de soluções reformistas para os problemas básicos que afetavam o país. Sua atuação ocorreu num período em que era evidente a polarização entre a direita e a esquerda, quando o comunismo e o liberalismo se expandiam e as contraposições entre as teorias sobre política e economia ocorriam na mesma proporção da polarização ideológica. Os políticos e economistas liberais compreendiam que o governo deveria ter menor intervenção em suas respectivas áreas, regulando-as quando necessário, mas, garantindo sua fluidez. Foram esses princípios que nortearam, em grande parte, o planejamento econômico desse período. Entretanto, ao longo desse estudo será possível perceber que, para a elite brasileira que dirigiu o país durante a ditadura, o liberalismo não era um conceito tão sólido quanto o anticomunismo que se tornou um grande elemento de coesão dos grupos reacionários. Em paralelo, o comunismo propunha um acirramento da luta de classes da qual originaria a revolução que inverteria as posições na sociedade garantindo igualdade para todos. Excepcionalmente, admitia-se a intermediação com fragmentos de classes distintas apenas como atalho para o objetivo final: possibilidade de fusão entre classes distintas, dentro de um mesmo país, para vencer o imperialismo. Essa solução intermediária permitiu a aproximação de Jango com grupos de esquerda causando inconformismo e desconfiança. O fato, porém, é que as posições de Jango, mesmo sendo apenas reformistas, atendiam às expectativas dos sindicalistas. Denis de Moraes percebeu na plataforma reformista de Jango uma resposta institucional aos anseios populares porque “as propostas nacionalistas, desenvolvimentistas, antiimperialistas e pelas reformas de base encontravam, nesses segmentos, uma audiência crescente”. 4 Nesse ponto Gorender foi ainda mais abrangente e percebeu que “apesar da imprecisão e de certa inclinação populista, a idéia de reformas de base correspondia às aspirações das massas trabalhadoras, de vastos setores das camadas médias e do setor nacionalista da burguesia”. 5 3 Houve uma tentativa de golpe, impedida pela ação do marechal Henrique Batista Duffles Teixeira Lott, que garantiu a eleição e a posterior posse de Juscelino Kubitschek. 4 MORAES, Denis de. A esquerda e o golpe de 64. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989. 5 GORENDER, Jacob. Combate nas trevas; a esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada. São Paulo: Ática, 1990, p. 51. 19 Os conservadores acreditavam que as reformas de base seriam o estopim para o despertar da consciência social que, alimentada pelo comunismo, colocaria em risco o capitalismo e, consequentemente, suas posições no poder e seus negócios no Brasil. De imediato, parte do PSD se afastou da coligação de apoio ao governo João Goulart, principalmente após 1963, quando se tornou inevitável um posicionamento do presidente. A UDN, em bloco, fazia oposição sistemática ao governo, enquanto dentro do PTB e do movimento sindical não havia consenso no apoio a Goulart. O fato de não conseguir a conciliação das forças políticas na base governista facilitou a desestabilização pretendida pelos conspiradores e espalhou o medo de uma crise política e econômica generalizada. 6 As articulações para desestruturar o governo federal ocorriam desde 1961: nos quartéis os generais se movimentavam para intervir militarmente a qualquer momento. Enquanto isso, a grande maioria dos empresários favoráveis a uma linha política conservadora produziu e disseminou para a sociedade, por meio do IPES e do IBAD, uma intensa propaganda anticomunista e divulgou sua proposta desenvolvimentista para vencer a crise econômica, demonstrando a inviabilidade daquele governo. O Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) surgiu em 1959 com o objetivo de financiar candidatos opostos ao populismo e direcionar capital para a propaganda anticomunista. O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) foi criado em 1962 por empresários brasileiros, especialmente do Sudeste, ansiosos por uma forma de organização capaz de enfrentar o crescimento qualitativo das organizações sindicais dos trabalhadores e intervir na base do governo – ou contra ele – para reverter os efeitos das reformas de base em seus empreendimentos. Quando o IBAD foi extinto por Goulart em 1963, o IPES manteve o financiamento de artigos e filmes anticomunistas. Somente no início dos anos 1970, cumpridos os seus objetivos, essa entidade foi dissolvida. Uma outra forma de conspiração contra o governo Goulart foi promovida por grupos femininos como a CAMDE, apoiados pelos IPES e o IBAD. As Marchas da Família com Deus Pela Liberdade foram mais que atos de reação da comunidade católica conservadora. Foi uma manifestação política, na tentativa de legitimar o anticomunismo como sentimento 6 Em depoimento ao autor, Ubirajara Pereira de Brito confirmou que João Goulart “tentou reunir todas as forças antiimperialistas para fazer as reformas de base”. Provavelmente, um movimento muito amplo, entretanto, sem a força política e militar necessária. Sua análise sobre o golpe de 1964 é muito bem fundamentada, visto que, sendo assessor muito próximo do gabinete de Jango presenciou vários dos acontecimentos que precederam ao golpe. Quando vários membros da equipe do governo deposto se exilou, Ubirajara Brito foi presença constante ao lado destes na articulação de estratégias para o retorno do país ao sistema democráticosendo, inclusive, assessor especial na candidatura de Trancredo Neves. 20 pleno e deliberado de toda sociedade e, com isso, alavancar, a propósito de um pretenso apoio popular, o golpe que se consumaria no final daquele mês de março. Aos poucos, a pressão dos setores políticos, industriais, empresariais e eclesiásticos, bem como de parte das Forças Armadas, tornou imperativo o posicionamento do governo federal. Numa análise recente sobre a construção memorialista sobre o golpe de 1964, Adriano Codato define a oposição a João Goulart, da seguinte forma: Os limites políticos da democracia brasileira estão definidos, nessa conjuntura, por duas impossibilidades. Pela impossibilidade de origem anti- liberal para aceitar as "regras do jogo" (daí a campanha direitista pela renúncia de Vargas e a campanha militar para impedir a posse de João Goulart após a renúncia de Janio Quadros). E pela impossibilidade de origem anti-republicana para aceitar a legitimidade do conflito político como constituinte da própria democracia. Por isso que, para as camadas médias tradicionais, para as cúpulas das Forças Armadas e para a burguesia brasileira, toda contestação aparecia como "desordem", todo movimento social conduzia à "instabilidade" e tudo isso junto instaurava o "caos". 7 Assim expressa, a opinião de Codato confirma a hipótese de que a crise desencadeada em 1964 foi a expressão-limite da luta de classes. Vejamos o complemento de suas idéias: O resultado do golpe de 1964 é muito menos a saída desastrada de mais uma crise do populismo conduzida pela inabilidade de um político – Jango – sem disposição para ativar o "dispositivo militar" e resistir a mais um golpe de Estado, e sim a reação política mais ou menos organizada de uma parte da sociedade brasileira à ameaça (ou melhor, à percepção subjetiva da ameaça) de uma "república sindical" ou, na pior das hipóteses, da instauração do "comunismo". Essa percepção estava ligada a três processos: o crescimento da pressão operária sobre o Estado em nome da «proteção social» diante de um capitalismo em rápida transformação. Daí o número crescente de greves e o reforço do movimento sindical urbano; a radicalização ideológica do movimento nacionalista, liderada pelo ISEB e pelo PCB; e o questionamento efetivo da estrutura agrária através das Ligas Camponesas no Nordeste. É justamente a perda de controle dos políticos populistas diante da ascensão do movimento de massas, e não a sua instrumentalização maquiavélica pelos "demagogos", que está no centro da ruptura dessa estrutura de poder. É ela que, no fim das contas, põe em xeque o compromisso assumido em 1930 e instiga o conjunto das classes dominantes a solicitar às Forças Armadas a restauração da "ordem social". 8 7 CODATO, Adriano Nervo. O golpe de 1964: luta de classes no Brasil - a propósito de 'Jango', de Silvio Tendler. In: Revista Espaço Acadêmico, Maringá (PR): v. 36, 6 maio de 2004. p. 1. 8 Ibidem, p.1. 21 O presidente João Goulart, impossibilitado de mediar a contento as tensões sociais e impedir as tentativas de desestabilização política ao seu governo, assistiu prevalecer a força da elite possuidora de meios para controlar subsidiariamente os preços e provocar a inflação descontrolada. A inconsistência da política e da economia provocada por todos esses fatores tornou o ambiente favorável aos golpistas de outrora que se mantinham a postos em busca de novas oportunidades. Em várias oportunidades Jango foi alertado para o perigo de golpe, inclusive pelos baianos Ubirajara Brito, Waldir Pires e Fernando Santana. Ubirajara presenciara reuniões de fazendeiros com o general Amaury Kruel e soubera do levantamento de recursos e da compra de armas para combater o comunismo e a reforma agrária. No dia 16 de fevereiro de 1964, o primeiro, assessor de Jango, reuniu os demais colegas e dirigiu-se ao presidente para relatar a manobra do general Kruel, presenciada no interior de Minas Gerais. O presidente ouviu o relato e estranhou o comportamento de seu compadre Kruel. Mesmo assim, mandou-nos conversar com o general Assis Brasil, chefe da Casa Militar. Esse estranhou ainda mais do que o presidente, disse- nos que tudo estava sob controle e que poderia ser uma ação diversionista do general Kruel ou destinada a evitar que lideranças golpistas perigosas assumissem o controle da região. 9 Entretanto, a nova tentativa de golpe de estado se materializou e, por conseguinte, manteve o status quo da elite brasileira. Daí por diante, os objetivos desses setores foram reordenar e “sanear” os partidos e as instituições para executar os seus propósitos. Pretendiam ocupar todos os espaços de poder com a finalidade de acelerar o crescimento econômico industrializado para potencializar os negócios no mercado interno e no exterior. A reordenação e o saneamento foram estabelecidos com imposição de um estado de exceção, no qual a ruptura dos direitos legais e a restrição dos processos eleitorais foram fundamentais. O processo industrializador foi imposto a um custo social altíssimo, somente percebido nas décadas posteriores. Um dos primeiros e principais articuladores dessa proposta foi o general Castelo Branco e, juntamente com ele, um grupo de assessores muito próximos. Certamente, não houve unanimidade entre eles, contudo, as divergências concentravam-se na forma e nunca no conteúdo ideológico que impulsionava o grupo. Por isso, a visão doutrinária da ditadura será vista nesse estudo a partir de alguns pressupostos gerais que englobam todo o período. Essa 9 BRITO, Ubirajara. Kruel. Ou...adesão antecipada. In: Nosso Caminho: Revista de arquitetura, arte e cultura. Rio de Janeiro: Sete Letras, 2008, p. 60. 22 caracterizou-se por estabelecer o anticomunismo e a confiança no desenvolvimento industrial do país como pontos de convergência entre todos os setores da elite durante a ditadura. Os “revolucionários” e o governo Castelo Branco Visto que essa apreciação contextual busca a correspondência entre a formação da elite dirigente brasileira durante a ditadura e ampliação de suas bases de sustentação na Bahia seria razoável ouvir a voz dos agentes centrais desse ciclo histórico. Desse modo, as visões que Luiz Viana Filho, Juracy Magalhães e Antônio Carlos Magalhães tiveram do governo Castelo Branco talvez sejam as mais indicadas como ponto de partida para a apreciação dessa matéria, visto que muito irão contribuir para validação das conclusões apresentadas. 10 Pela apreciação das obras legadas, tentaremos demonstrar que o “saneamento”, as reformas e as adaptações legais - providências tomadas durante o primeiro governo da ditadura - foram essenciais para a consolidação das propostas política e econômica da elite brasileira, dispersas num primeiro momento, embora bastante consistentes no início dos anos 1970. Evidentemente, não houve uma prévia articulação entre os golpistas no sentido de criar um projeto de gestão governamental sólido para o período em que ficaram no poder. A ação de grupos políticos e empresariais, como também as iniciativas militares antes do golpe, foram esparsas e, até certo ponto, desagregadas umas das outras. Somente no governo Castelo Branco, foram traçadas as primeiras metas e se constituíram, de fato, as diretrizes para atuação conjunta de todas as forças da elite, existentes nos campos político e econômico. Os depoimentos de Luiz Viana Filho, Juracy Magalhães e Antônio Carlos Magalhães também possibilitam a percepção da tentativa de unidade em torno dessas propostas que têm, prioritariamente, um caráter político com o anticomunismoe econômico, com o desenvolvimentismo. As reformas em todos os níveis pretendiam a conformação legal e institucional ao novo modelo e foram estratégicas para as ações seguintes. O anticomunismo foi, ao mesmo tempo, instrumento de pressão, propaganda e de força contra a oposição. O entusiasmo transparecia vividamente quando se expunha a idéia de desenvolvimento 10 São as seguintes as obras referidas: FILHO, Luiz Viana. O governo Castelo Branco. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1975; ABREU, Alzira Alves de et. all Juracy Magalhães: Minhas memórias provisórias – depoimento prestado ao CPDOC/FGV. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972; GÓIS, Ancelmo & et. all. Política é paixão: quem é Antônio Carlos Magalhães. Rio de Janeiro: Revan, 1995. 23 industrializado - elemento impulsionador do crescimento capitalista que as elites desejavam para se adequar, atender às exigências e manter sua posição na dinâmica do mercado internacional. Convém fazer, todavia, uma apresentação preliminar do personagem e dos primeiros atos desse cenário histórico. O general Castelo Branco foi um dos articuladores do golpe que destituiu o presidente João Goulart e, eleito pelo Congresso Nacional, assumiu como primeiro presidente militar do Brasil em 15 de abril de 1964. Nascido em Fortaleza, Ceará, obteve sua formação no Colégio Militar de Porto Alegre, na Escola Militar de Realengo, na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais da Armada, na Escola de Estado-Maior e na Escola de Aviação Militar. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi à Itália acompanhando a Força Expedicionária Brasileira junto à Seção de Planejamento e Operações. Durante sua carreira foi subchefe do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), comandante da Escola de Estado-Maior e diretor do departamento de estudos da Escola Superior de Guerra (ESG). Em 1962, foi nomeado comandante do IV Exército, em Recife, após ser promovido a general-de- exército, cargo no qual ficou até o ano seguinte quando passou a chefe do Estado-Maior do Exército, onde conspirou contra o governo João Goulart. 11 Juracy Magalhães julgou que a escolha do nome de Castelo Branco, ainda general, em detrimento de outros - como o ex-presidente Eurico Dutra, preferido do governador da Guanabara, Carlos Lacerda; o general Amauri Kruel, potencial postulante à vaga na avaliação do governador de São Paulo, Ademar de Barros; o ministro da Guerra, general Costa e Silva, o mais graduado no Rio de Janeiro a aderir ao golpe de 1964 - adveio em função da articulação das “forças políticas de Brasília” que, seguramente, eram os deputados e senadores simpáticos ao movimento militar. A articulação no Congresso Nacional foi realizada por Juracy Magalhães, a pedido de Castelo Branco, por meio de três baianos: Rui Santos, Luiz Viana Filho e Antônio Carlos Magalhães. Ordem unida em torno do governo castelista, esses quatro, além de Manoel Novais e Lomanto Júnior, se rivalizaram nos anos seguintes, quando tiveram que garimpar espaço dentro da nova configuração de forças formada nos meios militares com as sucessões presidenciais. (Quadro 1) 11 ABREU, Alzira Alves de et. all. (Coord.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro Pós – 30. 2.ª ed., Rio de Janeiro: Ed.Fundação Getulio Vargas, 2001. 24 A unidade era o ponto de partida para a concretização e o sucesso das propostas da elite para a reorganização do país nos moldes do capitalismo industrializado, e o presidente Castelo Branco não ignorava isso: Naquele dédalo de problemas, o presidente não perdia de vista o Congresso, peça essencial dentro da legalidade. Ganhara o gosto ao diálogo político, o conhecimento dos homens e o tato às composições de cada hora. Tudo era difícil num Congresso em que militavam treze partidos, dos quais os mais numerosos, o PSD e o PTB, haviam sido virtualmente contrários à Revolução. A própria UDN estava longe de se apresentar como um bloco, dividindo-se ao sabor das ocasionais posições dos governadores da Guanabara e de Minas Gerais. 12 Havia razão nas considerações de Luiz Viana Filho, visto que a resistência imediata à indicação de Castelo Branco para a eleição indireta no Congresso Nacional procedeu de dois governadores de estados influentes da federação. A resistência não ocorreu apenas no campo político, com realce especial dado a Carlos Lacerda e Magalhães Pinto. Houve críticas ao governo, também, nos quartéis, entre empresários, economistas. Os ataques mais intensos foram contra as medidas econômicas de controle da inflação e não partiram de opositores sistemáticos posicionados à esquerda. Os principais assessores do governo, entre eles Roberto Campos, insistiam na “contenção progressiva da inflação” através do controle monetário e cambial. Como disse Luiz Viana Filho, o presidente Castelo Branco tinha consciência de seu “governo de entressafra” e sabia que seu papel era preparar a economia e o país para um desenvolvimento ulterior que solidificasse a elite e evitasse novas tensões sociais como as que ocorreram entre Juscelino Kubitscheck e João Goulart. Um tratamento de choque na economia poderia aumentar seu prestígio entre os empresários e industriais ou mesmo com os trabalhadores assalariados, contudo não recuperaria o crédito internacional e inviabilizaria os investimentos em longo prazo na compra de bens de capital e insumos necessários ao desenvolvimento industrializado, em marcha desde os anos 1950, conquanto comprometido na década seguinte. Debelar a oposição dentro do próprio governo e controlar o poder legislativo exigiram medidas drásticas, dentre as quais a reforma do sistema político e partidário. O bipartidarismo pareceu a solução mais propícia para evidenciar situação e oposição, contudo a imensa 12 Viana Filho, Op. Cit, p. 144 e 145. 25 diversidade de posições e interesses não se diluiu a bico de pena. A ARENA, partido de sustentação do governo, era ambivalente, pois esteve coesa nos temas políticos amplos e relevantes, como o combate ao comunismo, o estímulo ao desenvolvimento e a sustentação da propaganda otimista, porém tropeçou na política de varejo e na definição dos interesses regionais. Para garantir a unidade, Castelo Branco combinou o controle político do Congresso com a cooptação de governadores aliados e capazes de manter a unidade dentro do diretório regional do partido governista. Já eleito, o presidente e seus assessores diretos acharam conveniente “sanear” a política com o enfraquecimento das oposições. Alguns, como Juscelino Kubitscheck, foram exilados do país, contudo, não pouparam os críticos internos com receio de “fogo amigo”. A opção para afastar Carlos Lacerda foi muito original, como ressaltou Juracy Magalhães: Julgando conveniente afastar Carlos do país, a fim de evitar que seu temperamento inquieto e suas posições extremadas lhe criassem problemas e ao próprio governo, amigos seus, entre os quais o presidente Castelo, conceberam a idéia de incumbi-lo de visitar vários países, com todo o apoio oficial, para explicar a revolução e compor uma boa imagem do novo governo. 13 Uma vez que a ditadura optou por manter o funcionamento de parte dos instrumentos e das instituições democráticas, era preciso continuar manipulando a rede de relações constituída como forma de controle e prevenção. Sem a coesão, também estavam em risco as questões macro políticas e econômicas - objeto de convergência na elite civil que sustentava o governo militar do general Castelo Branco. Todavia, uma vez estabelecidas as eleições indiretasnos estados, o presidente tinha o trunfo de opinar na indicação dos governadores e utilizou os seus critérios para escolha dos candidatos como instrumento a favor da unidade. Ao abrir o processo sucessório direto em 1965, o comando da ditadura percebeu os riscos de subestimar a participação popular quando alguns canais democráticos de manifestação estão abertos, mesmo em condições adversas. Em 1966, em outros onze estados do país, a disputa acirrada por uma indicação indireta das Assembléias Legislativas alertou o presidente Castelo Branco para o risco da dissidência nos diretórios regionais se a rivalidade 13 Alzira Abreu (coord.) Juracy Magalhães: minhas memórias provisórias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972, p. 177. 26 se mantivesse naqueles níveis. Estabeleceram-se, pois, condições mínimas de acesso ao grupo dos elegíveis, bem como um ritual para o processo eleitoral, como transcrito adiante: Condições políticas: a) Dispor de bom trânsito nos meios políticos e revolucionários; b) Ser filiado à ARENA; c) Não ter antagonismos frontais com o presidente da República e o governador do estado nem, de modo geral, com a orientação política e administrativa de cada um deles; d) Não ser elemento de posições radicalizadas, nem ter comprometimento com erros e vícios do passado, notadamente com a corrupção e a subversão; e) Poder reunir em torno de seu nome a maioria dos representantes da ARENA na Assembléia Legislativa; f) Permitir, por sua formação moral, plena confiança quanto à manutenção dos compromissos com o atual esquema político da ARENA ou do partido em que ela se transformar e bem assim com o presidente da República a ser eleito pela ARENA. 14 Note-se que os requisitos foram tão restritivos quanto subjetivos e o processo de escolha, organizado pelos diretórios estaduais, pretendia a articulação convergente para facilitar o pronunciamento do presidente da República. Todos os candidatos que cumprissem os requisitos e aceitassem as condições acima expostas seriam submetidos a uma eleição prévia pelo governador do estado, senadores, deputados federais e estaduais, bem como os integrantes do diretório regional que não ocupassem cargo algum. Os votantes deveriam escolher três nomes dentre os destacados e os candidatos que alcançassem pelo menos 1/3 dos votos do universo eleitoral seriam submetidos à escolha final do chefe da nação. Finalmente, esse nome seria referendado na Assembléia Legislativa. 15 Portanto, a reforma eleitoral foi importante para discernir o posicionamento político dos parlamentares no Congresso Nacional, nas assembléias legislativas e nas câmaras municipais e as eleições indiretas foram fundamentais para garantir a unidade no partido e no governo. Por isso, “a palavra do presidente era sempre conciliadora, atenuando divergências, em alguns estados profundas, entre antigos partidários da UDN e do PSD, por ele convocados para se reunirem na mesma agremiação”, ressaltou Luiz Viana Filho. 16 Em muitos casos, a obstinação de Castelo Branco em promover o alinhamento de posições no governo e, notadamente, nos estados da federação para garantir uma safra 14 Ibidem, p. 410. 15 Esse processo não era obrigatório, porém, recomendado. Não havia legislação que amparasse esse processo de escolha, sendo ele, de iniciativa pessoal de Castelo Branco. A lista final deveria ser tríplice ou quíntupla e, caso um, dois ou nenhum dos candidatos obtivesse a votação mínima de 1/3 do total de eleitores arrolados nesses critérios, ela poderia ser completada com os melhores colocados. 16 Op. Cit. p. 419. 27 opulenta aos seus sucessores, apresentou um alto custo. Ademar de Barros e Magalhães Pinto, por exemplo, em virtude de constantes atritos com o governo federal, foram lentamente repelidos do centro das decisões políticas até que o apoio recíproco se tornou penoso e escasso. Por outro, o apoio irrestrito ao governo Castelo Branco, como ocorreu com Luiz Viana Filho e Juracy Magalhães, dificultou o trânsito nas gestões posteriores pelo desgaste provocado pela defesa intransigente das posições castelistas. Enfim, ao falecer em acidente aéreo no Ceará, a 18 de julho de 1967, Castelo parecia ter as mesmas convicções de Luiz Viana Filho que defendia: Para o presidente, que assumira a responsabilidade das eleições, por muitos consideradas temerárias devido a impopularidade de medidas governamentais, e não admitira afastar-se do calendário estabelecido, a vitória da ARENA tinha particular significação, pois, além de traduzir o apoio do país à política revolucionária, permitia-lhe entregar a Costa e Silva um partido forte, com ampla margem de voto nas duas Casas do Congresso. Este não teria os mesmos percalços, para compor maiorias ocasionais, que havia variado frequentemente, e a Revolução, solidamente implantada no parlamento, poderia continuar confiante o seu trabalho de renovação. Vigilante, tenaz, hábil, Castelo soubera preparar bons ventos. Estes, agora, enfunavam as velas. 17 Resguardas as apologias que Luiz Viana Filho faz ao golpe e à ditadura, há em seu texto um raciocínio sensato, produzido poucos anos depois, sobre o papel desempenhado pela primeira equipe de governo após o golpe de 1964. O autor em tela demonstra que Castelo era cônscio de que, naquele momento político, o Congresso Nacional e a ARENA eram espaços de decisão importantes para a manutenção do regime. Evidentemente que o presidente possuía restrições aos políticos brasileiros, especialmente, em função da “crise moral” que supunha existir no país, contudo, acreditava na “assepsia” promovida pela ditadura. Ao mesmo tempo, o primeiro presidente militar construiu um projeto político e econômico sustentado em um nacionalismo híbrido, ou seja, extremamente otimista quanto às possibilidades de crescimento do país e, ao mesmo tempo, preocupado com o fluxo do mercado internacional e suas necessidades. Para atender tais expectativas, o projeto econômico definiu-se tendo o desenvolvimento industrial como meta principal. Concomitantemente, o anticomunismo predominou no campo político como medida de precaução às investidas estrangeiras de interferência na “democracia brasileira”. 17 Ibidem, p. 420 28 Na verdade, esses temas transversais ultrapassaram as barreiras da sucessão de Castelo e de Costa e Silva e chegaram intactos aos anos do “milagre econômico”. Pode-se afirmar que, nos anos 1970, a ditadura estava bastante consolidada e os setores de apoio da elite política nos estados também já haviam sido definidos. Por conseguinte, as ponderações de Luiz Viana Filho sobre o desempenho do governo Castelo Branco no processo de estabilização da ditadura fazem sentido. Entretanto, os resultados não prescindiram de um planejamento e de um ordenamento jurídico prévio. O planejamento e a legislação de amparo à nova ordem A equipe do governo Castelo Branco compunha-se de indivíduos comprometidos em preparar a economia brasileira para o desenvolvimento industrializado e manter, ao mesmo tempo, o controle social e político do país. 18 Como não havia um projeto sistematizado antes do golpe, os primeiros meses de trabalho foram dedicados à elaboração de propostas e ao estabelecimento de uma legislação capaz de viabilizar os projetos em gestação e legitimar os atos já consumados. O Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG), ainda que criticado e adaptado nos governos posteriores, tornou-se um dos mais importantes referenciais teóricos para a condução da política econômica durante a ditadura. 19As divergências eram sempre em torno do método que, na visão de alguns, afetava o desenvolvimento. Magalhães Pinto criticou a “desnacionalização da indústria” e o deputado federal Herbert Levi, amigo de Lacerda, banqueiro e vinculado aos produtores industriais e rurais de São Paulo, ressentiu-se da falta de crédito e subsídios para as referidas categorias, bem como, da previsão de aumento dos impostos. 20 Mais contundentes, diz Luiz Viana Filho, foram as críticas de Delfim Neto e Dias Leite, relator e membro do Conselho Consultivo do Planejamento, respectivamente. O 18 Octávio Gouvêa de Bulhões e Roberto de Oliveira Campos foram, respectivamente, ministros da Fazenda e do Planejamento e Coordenação Econômica, durante todo o período do governo Castelo Branco. O baiano Edmar de Souza assumiu interinamente o ministério extraordinário ocupado por Roberto Campos. Outro baiano, Luiz Augusto Navarro de Brito assumiu o Gabinete Civil nos últimos meses em substituição a Luiz Viana Filho, indicado governador da Bahia. Além desses, Juracy Montenegro Magalhães respondeu pela pasta das Relações Exteriores entre janeiro de 1966 e março de 1967. 19 O PAEG foi escrito entre maio e julho de 1964 sob à coordenação do economista Roberto Campos. Viana Filho, Op. Cit, p. 208 e 209. 20 Viana Filho, Op. Cit, p. 216 a 224. 29 primeiro, além de temer a falta de controle sobre as transações internacionais e a dependência de recursos estrangeiros para concretizar o plano, preocupava-se com a incompatibilidade entre as medidas de combate à inflação e a possibilidade de retomada do desenvolvimento brasileiro. As reflexões do autor sobre o professor Dias Leite são da mesma natureza, entretanto, pela riqueza dos detalhes, merece a transcrição integral: Embora discutisse vários aspectos do plano, o âmago da crítica consistia na posição atribuída ao desenvolvimento, diante do qual a inflação era irrelevante, devendo ser absorvida através da poupança e da eficiência do sistema econômico. O desenvolvimento se incumbiria de devorar a inflação. 21 O desenvolvimento foi um dos aspectos principais de coesão da elite dirigente do país durante parte do período da ditadura. Centrados em torno de um tipo de liberalismo econômico e político adaptado às circunstâncias autoritárias e movimentando-se na órbita do capitalismo norte-americano, esses grupos superaram as demais divergências e mantiveram sua hegemonia no poder durante mais de duas décadas. A sobrevivência dos fragmentos dessa elite nos estados, também, só foi possível com a internalização desses princípios e a conformação de suas metas a esse modelo. Do ponto de vista político, as reformas do governo Castelo Branco exigiram um amplo lastro jurídico. Os primeiros atos institucionais foram promulgados, essencialmente, para reordenar as instituições de acordo com as novas diretrizes e com a finalidade de sanear, em todos os níveis da sociedade, as oposições ao novo governo. O Ato Institucional n.º 2, em 27 de outubro de 1965, instituiu eleições indiretas para a presidência e vice-presidência da República, a extinção dos partidos políticos e o julgamento de civis por tribunais militares; o Ato Complementar n.º 4 (AC-4), de 20 de novembro de 1965, impôs o bipartidarismo e estabeleceu novas regras para a reorganização partidária; o Ato Institucional n.º 3, de 5 de fevereiro de 1966, determinou eleições indiretas para o governo dos estados e a indicação dos prefeitos das capitais pelos governadores; e o Ato Institucional n.º 4, de 7 de dezembro de 1966, impôs ao Congresso Nacional reunir toda essa legislação dispersa em vários atos institucionais numa nova Constituição, promulgada em 24 de janeiro de 1967. 21 Ibidem, p. 218. 30 A Bahia dentro da nova ordem Em 1964, o governador da Bahia, Lomanto Júnior, apoiava-se numa base política de largo espectro que incluía tanto políticos da UDN como Juracy Magalhães e Antônio Carlos Magalhães, quanto do PTB de João Goulart, partido do governador. Em suas primeiras manifestações, diante da possibilidade de resistência de Leonel Brizola no Rio Grande do Sul, Lomanto preferiu uma posição difusa lastreada no discurso da legalidade democrática. Nas primeiras semanas de abril, entretanto, quando a situação estava definida e a UDN fortalecida dentro do novo contexto, ele anunciou seu apoio irrestrito aos militares. (Documento 01) Por intervenção do cardeal dom Augusto Álvaro da Silva e do general Justino Alves Bastos, comandante do 4.º Exército, o governador manteve-se no cargo. Contornadas as dificuldades no governo estadual, o comando da 6.ª Região Militar focou suas ações em outros espaços políticos de decisão. Na Assembléia Legislativa da Bahia, a mesa diretora iniciou, sob vigilância do exército, o processo de cassação de vários deputados. Mesmo o prefeito de Salvador, Virgildásio Sena, eleito pela UDN em 1962, conquanto apoiador discreto das reformas de base, foi afastado do cargo, denunciado e cassado. O general Manoel Mendes Pereira enviou, ainda, tropas aos municípios do interior para cumprir a missão de “sanear” as prefeituras e câmaras municipais. O prefeito de Vitória da Conquista, José Fernandes Pedral Sampaio, submetido a este processo, relatou: Eu tive o direito político suspenso, o mandato cassado pela câmara de vereadores, numa sessão violenta, de metralhadoras, o quarteirão todo cercado. Prenderam os vereadores que podiam resistir, reagir. Convocaram os suplentes que não podiam ser convocados e uma reunião de cassação do mandato foi feita no mesmo dia da minha prisão. Posteriormente - eu estava preso ainda - li nos jornais que tinha tido os direitos políticos suspensos, por dez anos. 22 Esse prefeito, apesar de oriundo da elite conservadora no sertão baiano, se articulou à denominada “campanha da esperança” - composta por um grupo de jovens idealistas, com a finalidade projetar a cidade no cenário estadual - e, para isso, elegeu-se em 1962. Ele era muito próximo de Régis Pacheco (PSD) e postulou, juntamente com Goulart, as reformas de base. Desta forma, sua biografia de reformador determinou a sua prisão, assim referida: 22 Em depoimento ao autor entre os dias 15 e 20 de julho de 1999. 31 A minha prisão foi em circunstâncias assim muito de traição, como praticamente tudo que foi feito nesse golpe militar. [...] De manhãzinha, eu tive notícia de que tinha chegado uma companhia, vieram cem homens do exército, muitos armados, até carros, muitas metralhadoras, pra humilhar a cidade. A prisão foi da seguinte maneira: então eu soube que eles estavam aqui, [...] me aprontei pra ir ao quartel. Quando sai, - defronte da minha casa é o clube social - e o pessoal, a tropa [es]tava parada ali, o capitão Bendochi e outras pessoas, outros militares. Eu passei, cumprimentei e disse até que ia fazer uma visita lá no quartel. Ele disse: Ah! O senhor vai? Então ‘vum bora pra lá’. Na mesma hora entraram dois tenentes no meu carro e a gente seguiu até lá no quartel, que é a companhia, hoje, o batalhão militar, lá [...], mandaram eu me identificar, imediatamente disseram que eu [es]tava preso e me transferiram para uma cela onde eu fiquei incomunicável. Eles levaram pelo menos umas trinta e seis ou quarenta e oito horas sem fornecer, inclusive, alimentação. Nessa prisão aí, acho que cheguei a contar mais de sessenta companheiros que foram presos, ficaram detidos ou foram ouvidos e mandados embora. Depois então, [...] muitos deles foram transferidos pra Salvador e nós ficamos em prisões diferentes. 23Em Feira de Santana, outra cidade do interior do estado, muito próxima a Salvador, o seu prefeito, combinado com operários e estudantes, resolveu resistir ao bloqueio das tropas e retomar a capital, conforme afirmação do próprio Francisco Pinto: A cidade de Salvador encontrava-se cercada pelas tropas e centenas de prisões foram efetuadas. Vários líderes operários e estudantis que escapavam se deslocaram para o nosso município. Discutimos o que fazer e resolvemos resistir. Uma série de providências foram adotadas para enfrentar os golpistas. Não cabe aqui enumerá-las. A ausência de reação no resto do país nos levou à desmobilização. Providenciamos a fuga para a maioria dessas lideranças. 24 Francisco Pinto dos Santos originou-se de uma família politicamente diversificada. Sua mãe era getulista, seu pai udenista e ele um advogado socialista. Era, segundo ele mesmo definiu, “um produto do populismo, da rígida ética que a UDN pelo menos externava e, mais tarde, dos ideais socialistas absorvidos na universidade”. 25 Chico Pinto era respeitado pelos estudantes e sindicalistas passando a ser visto como opção de resistência por governar o segundo maior município do estado, com localização 23 Ibidem. 24 NADER, Ana Beatriz. Os autênticos do MDB: semeadores da democracia. História Oral de vida política. São Paulo: Paz e Terra, 1998. p. 148 e 149. 25 Ana Beatriz Nader. Op Cit., p. 142. 32 próxima de Salvador. Como uma ação conjunta de resistência, os mais afoitos pretendiam convocar a guarda municipal de Feira de Santana, fazer comícios e armar barricadas, na tentativa de transformar a cidade no centro da resistência, de onde sairiam para libertar a capital. 26 Tendo em vista essas manifestações, alguns anos depois, a propaganda da ditadura insistia que a principal motivação do golpe foram as crises econômica, política e institucional provocadas pela associação de Goulart com os trabalhadores: Esteve instalado no Brasil um movimento geral de subversão e corrupção, inclusive da própria cúpula administrativa, que tinha por objetivo desmoralizar o regime democrático existente no país. O solapamento das instituições adrendemente preparado por profissionais agitadores conduziu todos à descrença. A guisa de defender o país de grupos econômicos, pregavam contra o regime, exaltando as qualidades de sistemas de governo que atentam contra a ordem político-social estabelecida na nossa constituição. Pregava-se o crime contra as instituições abertamente. Por isso, era indispensável a [sua] segregação do meio social, por suas atividades antidemocráticas. 27 Entretanto, o movimento de reação foi inócuo diante da inexpressiva manifestação dos demais grupos no restante do país, bem como em função dos resultados políticos e militares alcançados pelos conspiradores poucas horas após o golpe. Ao final, as principais lideranças estaduais do PCB, AP e POLOP estavam presas ou escondidas. As propostas reformistas haviam caído com João Goulart, do mesmo modo que sucumbiram as alianças, os sindicatos e as lideranças populistas municipais. Apesar de todos os tropeços, a oposição à ditadura na Bahia se reorganizou e recompôs suas lideranças rapidamente. No final de 1964, o governo Castelo Branco decretou a Lei Suplicy, que atingia diretamente os estudantes baianos e previa a transformação dos antigos centros em diretórios acadêmicos subordinados à direção das faculdades, forçava a realização de novas eleições e tornava obrigatório o voto dos estudantes, sob pena de não poderem se submeter a exame parcial ou final, imediatamente subseqüente à eleição. Esses 26 JÚNIOR, Franklin Oliveira. A Usina dos sonhos: sindicalismo petroleiro na Bahia 1954/1964. Salvador: EGBA, 1996, p. 188. 27 Arq. da 6.ª RM. Apud: Autos do IPM, fls. 301 a 310. 33 reagiram violentamente a essa intervenção na autonomia da atividade política estudantil, como será visto adiante. 28 Não restam dúvidas quanto à rearticulação dos grupos de oposição à ditadura, especialmente estudantes, após 1964. Entretanto, pouco se discute a necessidade de reordenação das forças políticas dentro da Bahia após o mesmo episódio. Essa percepção é essencial para se compreender as mudanças ocorridas no panorama político daquele momento. As rearticulações da elite e da oposição A Universidade Federal da Bahia e o Colégio da Bahia foram ambientes de profundos embates políticos nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao golpe de 1964. No primeiro período letivo de 1965, as lideranças estudantis universitárias reagiram à imposição autoritária da Lei Suplicy e recomendaram aos estudantes o voto nulo. Era uma recomendação, na prática, pouco eficaz numa conjuntura autoritária em que faltavam vagas para os cursos superiores na Universidade Federal da Bahia e os estudantes temiam a punição prevista na legislação educacional recentemente imposta. Entretanto, do ponto de vista simbólico, foi uma ação bastante representativa, especialmente porque, na Faculdade de Filosofia, do total de setecentos e dezoito votos válidos, quinhentos e setenta e nove foram nulos. 29 Entre 1967 e 1968, os estudantes realizaram grandes manifestações contra a Lei Orgânica de Ensino proposta no acordo entre o Ministério da Educação e a agência USAID. O assunto esteve em discussão por vários dias na Assembléia Legislativa e os estudantes se mantiveram mobilizados e atuantes, praticamente parando o centro de Salvador nesse período. A participação da Bahia como área de recuo para os grupos de luta armada, as panfletagens e até mesmo ações armadas foram intensas até o período de refluxo das organizações que davam suporte a essas manifestações. 30 Do ponto de vista da elite, também houve preocupação com a nova ordem. O governador Lomanto Júnior, como dito, estava numa posição incômoda e optou por um 28 Lei Federal n.º 4464 de 09/09/1964, regulamentada pelo Dec. 56241 de 04/05/1965. 29 A Tarde, 23/08/1965, p. 11. 30 Sobre o assunto consultar Sandra Regina Barbosa da Silva. Ousar lutar, ousar vencer: histórias da luta armada em Salvador (1969-1971). Dissertação de Mestrado. Salvador: UFBA, 2003. 34 posicionamento difuso e prudente. A Assembléia Legislativa, enquanto importante espaço de decisão, deixou transparecer a força majoritária do grupo udenista apresentando a seguinte moção de apoio ao golpe: A Assembléia Legislativa do estado, fiel aos sentimentos democráticos do povo baiano, expressa sua solidariedade às forças democráticas, civis e militares, que, obedientes às lideranças dos governadores Magalhães Pinto e Adhemar de Barros, Carlos Lacerda, Ney Braga, Mauro Borges e Hugo Meneguetti e os generais Amaury Cruel, Mourão Filho, Humberto Castelo Branco, Justino Alves e outros ilustres militares, que estão lutando para restaurar no Brasil a legalidade democrática vítima da traição de um governo que se acumpliciava com os piores inimigos da liberdade, os comunistas. 31 Na 6ª Região Militar, sob o comando do general de Brigada Manoel Mendes Pereira, as visitas corteses de empresários e políticos passaram a ser constantes. Entre os estudantes, também havia apoio aos militares. Algumas entidades estudantis, como o Movimento Universitário Democrático (MUD), a Associação Soteropolitana de Estudantes Secundaristas (ASES) e o Movimento Estudantil Patriótico (MEP) firmaram nota pública contra a infiltração das idéias comunistas no movimento estudantil da Bahia e convocaram os voluntários para apoiar as Forças Armadas. 32 Todos esses acontecimentossão sintomáticos da reestruturação da ordem política que inquietou os indivíduos e colocou em dúvida as suas posições no poder ou em relação a ele. Por isso, a elite procurou se rearticular com as novas forças governantes do país e seus prepostos na Bahia. Dentro do esquema udenista baiano montado para a desestabilização do governo João Goulart e a conspiração contra a democracia, se destacam Juracy Magalhães e Luiz Viana Filho. Após o golpe, ambos foram prestigiados com cargos na embaixada nos Estados Unidos e no Gabinete Civil, respectivamente. Todavia, ainda que tenha sido uma distinção para ambos participar do governo Castelo Branco pelos méritos pessoais e políticos, além de sintonia ideológica com a nova ordem instaurada, o afastamento dos principais dirigentes udenistas da Bahia abriu um campo enorme de possibilidades para a influência direta de novas lideranças. Espaço esse aproveitado por Antônio Carlos Magalhães, que além pertencer ao grupo dirigente ainda foi 31 A Tarde, 02/04/1964, p. 02. Essa moção assinada pelos deputados Wilson Lins, Jutahy Magalhães, José Carlos Facó, Francisco Benjamim, Moitinho Dourado, Teódulo Albuquerque e Joel Muniz, não foi votada. 32 A Tarde, 03 e 06/04/1964, pp. 03 e 07 respectivamente. 35 indicado, em 1967, para o cargo de prefeito biônico de Salvador. A ausência das lideranças tradicionais na Bahia deu autonomia ao executivo e facilitou o controle político dentro do diretório regional da UDN. Juntamente com o governador Luiz Viana, Antônio Carlos Magalhães acelerou o desenvolvimento urbano e industrializado do município e assegurou a execução da proposta administrativa conforme os padrões da elite brasileira naquele momento. As bases de sustentação do governo Castelo Branco na Bahia tiveram, portanto, essa dimensão. À medida que os projetos políticos e econômicos do governo federal foram tomando forma, os baianos foram se agrupando por afinidade que, a certa altura, eram tão diversos quanto os militares. Essa fração de elite tinha seus referenciais políticos em Juracy Magalhães e Luiz Viana Filho, esses, porém, não garantiram a manutenção de um bloco sólido e homogêneo. A integração da elite somente se concretizaria pelo viés ideológico, combinando as idéias de desenvolvimento econômico e anticomunismo. Essas questões, porém, serão tratadas a seu tempo, no decorrer desse estudo. CAPÍTULO II Os referenciais de integração na Bahia: caminhos e descaminhos da elite política renovada em busca do poder Perspectivas iniciais Após o golpe, a correlação de forças na política brasileira se modificou e uma nova elite dirigente, que durante a ditadura esteve em constante atividade para ampliar suas bases de sustentação, assumiu o poder. Naturalmente, isso passava pela necessidade de convencimento da sociedade em geral com o uso da propaganda oficial, pela garantia da disciplina militar, pelo controle do judiciário e do legislativo e pela tentativa de legitimação de seus atos discricionários. Em virtude disso, a ampliação do apoio das bases políticas, tanto no Congresso Nacional quanto nos estados, incluindo aí o governo e o legislativo, consistiu, também, numa das prioridades desse grupo dirigente. O primeiro motivo para essa preocupação diz respeito à manutenção do sistema político, do funcionamento institucional e da governabilidade, já que boa parte das instituições características de um Estado de Direito continuaram em atividade. Em seguida, tratava-se de um embate interno, no qual cada sucessão presidencial significou o confronto de diferentes grupos políticos e militares. Uma base política bem formada no Congresso Nacional e o apoio de governadores com sustentação garantida na Assembléia Legislativa de seu estado garantiriam uma nomeação serena do candidato presidencial sem qualquer tipo de agitação social comprometedora das rotinas social e política brasileira. Dessa forma, a integração das forças políticas foi uma atividade contínua durante a ditadura. A elite na Bahia incorporou e repetiu o mote principal dessa estratégia - buscar a integração em torno dos temas centrais, ou seja, o anticomunismo e o desenvolvimento. Cada um desses temas agregou certa valoração - negativa no caso de anticomunismo e positiva no caso do desenvolvimento - e possui diversas ramificações. O anticomunismo foi a reação conservadora à possibilidade de mudança e ameaça ao “status quo”, e projeta-se na anulação do inimigo interno com a imposição de todos os mecanismos arbitrários adotados. Por outro 37 lado, a propaganda otimista e unificadora que estimulou o orgulho nacional constituiu-se em argumento convincente para agregar a elite no projeto de urbanização e desenvolvimento industrializado. O Brasil, nesse contexto, é um estado autoritário com idéias liberais, pois possui um tipo de liberalismo atípico não correspondente ao modelo teórico clássico, seja na perspectiva econômica ou política. Tradicionalmente, as idéias liberais em Adam Smith postulam a livre concorrência e a liberdade de ação do mercado, ao tempo em que esse mesmo paradigma em John Locke representa a separação e a independência dos poderes. 1 Ao contrário disso, os governos militares interferiram permanentemente na economia para regular os preços ou aumentar o capital de giro das empresas. No período de recessão econômica, em 1965, vários fundos foram criados para financiar projetos de compra de máquinas e equipamentos para pequenas indústrias, entretanto, o crédito para consumo foi regulado pelo Banco do Brasil como forma de controle inflacionário. A política tributária onerou determinados produtos e viabilizou o consumo de outros. Em sua crítica ao PAEG, o governador Carlos Lacerda o definiu como “um código de intervencionismo e dirigismo estatal”. 2 Na década de 1970, o governo direcionou sua política econômica para o setor industrial e definiu as regras para o investimento nesse setor. Nas crises do petróleo, interveio com ajustes na economia e na balança comercial para reduzir os prejuízos com o aumento do combustível em vários setores produtivos. O controle da inflação, mediante interferência nos salários e nos preços, foi uma constante na ditadura. 3 Por outro lado, permitiu a interferência de empresários e industriais na elaboração das políticas econômicas do país, planejadas por Roberto Campos, Octávio Bulhões e Delfim Netto, considerados “canais pelos quais a burguesia influenciava a política econômica”. 4 O liberalismo político resumiu-se em manter o funcionamento das instituições e a separação constitucional dos poderes, contudo, o poder executivo controlou o poder 1 Sobre o liberalismo econômico ver Adam Smith. A riqueza das nações. São Paulo; Editora Nova Cultural, 1996 (Coleção Economistas) e Laura Valladão de Mattos. As razões do laissez-faire: uma análise do ataque ao mercantilismo e da defesa da liberdade econômica na Riqueza das Nações. Revista Economia e Política, São Paulo: v. 27, n. 1, 2007; A respeito da separação de poderes no liberalismo consultar John Locke. Segundo Tratado Sobre o Governo Civil. São Paulo: Nova Cultural, 1978. (Coleção Pensadores). É ainda possível ver como ocorrem essas relações no Brasil republicano em Maria do Carmo Campello de Souza. Estado e partidos políticos no Brasil. São Paulo: Alfa-Ômega, 1976 e Fernando Henrique Cardoso. Autoritarismo e democratização. São Paulo, Paz e Terra, 1975. 2 Luiz Viana Filho. O governo Castelo Branco. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975, p. 234 e 235. 3 Cf. Eduardo Raposo. 1964: 30 anos depois. Rio de Janeiro: Agir, 1994, p. 49– 87. 4 Francisco de Oliveira. In: 1964 – 2004: 40 anos do golpe – ditadura militar e resistência no Brasil. Rio de Janeiro: UFRJ/UFF/CPDOC/APERJ, 2004, p. 221. 38 legislativo com reformas eleitorais e constitucionais, além de governar à revelia do poder judiciário ou independente deste, com imposição de Atos Institucionais e criação de tribunais especiais. Sem a pretensão de tornar este capítulo uma discussão teórica, pretende-se incorporar aqui esses referencias da elite política ao contexto histórico proposto. A finalidade é tornar claras as motivações dos personagens escolhidos e argumentar em favor da existência de uma ideologia que, arraigada aos indivíduos e aos partidos anteriores e contemporâneos à ditadura, fundamentou a estratégia vitoriosa do carlismo. As raízes da estrutura política baiana A Bahia é uma terra de tradições e sua elite viveu em constante conflito entre a preservação delas e a inserção na modernidade. A aura de cidade barroca teve de ceder espaço ao modernismo. 5 Na política, entretanto, pouco se modificou. O situacionismo dos grupos políticos baianos desse período tem sido constantemente referenciado na literatura. As constantes adesões, a conformação ou a acomodação têm sempre sido vistos como um ponto de fraqueza, todavia, se devidamente contextualizados, podem ser analisados como características de uma elite conhecedora dos seus limites que opta por fazer alianças quando é impossível hegemonizar o poder. Isso ficou evidente após a Revolução de 1930 e com a imposição de Juracy Magalhães como interventor no estado. Juracy não era baiano e nem civil, mas assumiu o poder executivo à custa do esfacelamento do bloco liderado por João Mangabeira, destituído por Getúlio Vargas e exilado com Washington Luís. Esse tipo de acomodação, da qual fala Consuelo Novais Sampaio, é ilustrativo desse processo de adesão bilateral. Juracy Magalhães convocou os coronéis para uma composição política e os oligarcas se convenceram de que a conjuntura estava momentaneamente definida a favor do varguismo. Conveniência de uma elite apegada ao poder. Entretanto, explica Consuelo Sampaio: 5 Segundo Antônio Guimarães, a Bahia concentra grande parte da herança cultural lusitana e, após a República, com a tentativa de dissociar o país desse legado português, o termo “baiano” carregado de tradições, perdeu sua aura de modernidade. Daí em diante o conflito entre tradição e modernidade se tornou dilema geral na sociedade baiana. Cf. Antônio Sérgio Alfredo Guimarães, Comunicação ao Congresso Internacional de Latin American Studies Association (LASA), Session: Lo afro en America latina: debates sobre cultura, politica y poder. Miami: março de 2000. 39 A expressão política de acomodação aqui empregada está desprovida de qualquer quietismo que o termo acomodação possa sugerir. Mesmo quando formalizada – atingindo a última etapa do processo – através de acordos e arranjos, o conformismo, a submissão individual é precária. A qualquer momento podem ser rompidos em função de novos interesses e/ou pelo que de renúncia individual essa política envolve. 6 Os interesses, aliás sempre tomados numa conotação negativa, devem ser vistos em função dos princípios que norteiam grupos da elite conservadora, com pretensões ao poder e inseridos num período de constantes mudanças. Visto dessa forma, a conduta da elite política baiana durante a ditadura foi bastante coerente com o seu perfil ideológico. Em 1964, a nova geração da elite havia se convencido da necessidade de urbanização e do crescimento econômico industrializado como parte indissociável do pensamento político moderno. A ameaça oposicionista estava controlada, mas o risco de dissensão interna era iminente. Cumpria, por isso, viabilizar a integração da diversidade agrupada na ARENA cuja desagregação significava mais risco que os ataques do MDB ou as ações armadas de esquerda. O anticomunismo e o desenvolvimento (re) apareceram flamejantes no discurso da elite. O anticomunismo como assepsia social Para a elite brasileira contemporânea, que estabeleceu e difundiu suas propostas políticas no governo e no legislativo canalizando-as através de partidos políticos, diversos e antagônicos, a integração, em momentos de crise, era essencial à sua existência. A ação anticomunista como forma de identificar, segregar e eliminar a oposição aos movimentos conservadores e às intervenções autoritárias foi, quase sempre, o elemento aglutinador da elite e estratégia eficaz de convencimento social. Carlos Fico considera que durante a ditadura “uma das variáveis mais importantes e unificadoras foi o sentimento anticomunista” visto que, tanto a população quanto os políticos, estavam expostos às idéias comunistas incompatíveis com a “democracia ocidental e cristã”. 7 6 SAMPAIO, Consuelo Novais. Os partidos políticos da Bahia na Primeira República: uma política de acomodação. Salvador: UFBA, 1975, p. 20. 7 FICO, Carlos. Conservadorismo durante a ditadura militar. In: SILVA, Francisco Carlos Teixeira da; MEDEIROS, Sabrina Evangelista; VIANNA, Alexander Martins (org.). Dicionário Crítico do Pensamento da Direita: Idéias, instituições e personagens. Rio de Janeiro: Faperj/MAUAD, 2000, p. 99-100. 40 Para os teóricos da ditadura, o anticomunismo foi uma ação contra a suposta guerra revolucionária com a qual os comunistas pretendiam dominar o ocidente, caracterizada como: Conflito, normalmente interno, de concepção marxista-leninista, estimulado e, até mesmo, auxiliado do exterior, que, utilizando intensivamente operações psicológicas e todas as formas de subversão e violência, visa a conquista do poder pelo controle progressivo da nação. 8 O combate, compreendido como uma ofensiva contra revolucionária, dependia da participação da Forças Armadas e do governo, convocadas, também, a população. Isso implicava em medidas que possibilitassem estimular o desenvolvimento e aprimorar a eficiência administrativa. Entretanto, não descuidava dos aspectos relativos ao controle social como fortalecer a moral, planejar a guerra revolucionária e munir-se de uma legislação para o combate à subversão. O planejamento da segurança interna em função da ameaça comunista pressupunha a oposição ao sistema manifesta dentro da própria sociedade. A natureza dessa ameaça, entretanto, é bastante vaga na concepção da Escola Superior de Guerra: A Segurança Interna integra-se ao quadro da Segurança Nacional, tendo como campo de ação os antagonismos e as pressões que se manifestem no âmbito interno. Não importa considerar as origens dos antagonismos e pressões: externa, interna ou externo-interna. Não importa a sua natureza: política, econômica, psicossocial ou militar; nem mesmo considerar as variadas formas como se apresentam: violência, subversão, corrupção, tráfico de influência, infiltração ideológica, domínio econômico, desagregação social ou quebra de soberania. Sempre que quaisquer antagonismos ou pressões produzam efeitos dentro das fronteiras nacionais, a tarefa de superá-los, neutraliza-los e reduzi-los está compreendida no complexo de ações planejadas e executadas, que se define como Estratégia de Segurança Interna. 9 Percebe-se que somente os resultados da ação são claramente definidos enquanto que a caracterização da ameaça é genérica, inconsistente e confusa. Entretanto, o mesmo documento 8 Escola Superior de Guerra. ManualBásico. Rio de Janeiro: Editora Lidador, 1977-1978, p. 117. 9 Ibidem, p. 261. 41 atribui ao estado a responsabilidade de coibir qualquer ameaça à ordem constituída, conceituando de forma precisa cada uma das atribuições dos governantes. 10 O anticomunismo também pode ser visto por uma outra ótica, considerando, antes, que ele não é um fenômeno restrito ao imaginário social e à prática política do Brasil. Sua extensão histórica também não se limita ao período em torno da ditadura mais recente do país ou como obra oportunista da elite conservadora. A obra de Rodrigo Patto Sá Mota, além de atual, é bastante esclarecedora sobre a complexidade e a extensão do pensamento e da atividade anticomunista. Conquanto o recorte histórico proposto se encerre em 1964, enquanto os marcos desse estudo são bem posteriores, tomaremos essa produção como referência para discutir a atitude anticomunista da elite política na Bahia e como esse tema interferiu nas escolhas e descaminhos de suas lideranças. 11 A obra citada ressalta que “a campanha contra o comunismo adquiriu ritmo intenso e ininterrupto a partir da ascensão de Goulart”. Na condição de associado do movimento trabalhista organizado, o presidente relacionou-se, por meio de seus colaboradores, com os comunistas e dissidentes influentes no sindicalismo brasileiro dos anos 1960. A partir daí “a intensificação das ações políticas comandadas pelos esquerdistas provocou forte reação anticomunista”. 12 Essa aproximação incomodou os setores conservadores que tinham, há muito, sérias desconfianças de João Goulart e de seus principais ministros. O temor da crescente influência dos comunistas nas decisões presidenciais, bem como a possibilidade do crescimento de uma possível candidatura radical de esquerda com apoio do governo desesperaram os setores produtivos e militares colocando sua vanguarda política no Congresso em alerta permanente. Por outro lado, empresários e religiosos importantes empreenderam uma ardilosa campanha de propaganda contra o comunismo com volumoso financiamento e destacada criatividade publicitária para convencer setores amplos da sociedade do perigo que representava a possibilidade de um governo de padrão bolchevique no país. A movimentação nas Forças Armadas, nesse sentido, foi constante entre os oficiais graduados que mantinham contato permanente entre si e com militares de outros países, prevendo a possibilidade de uma intervenção armada contra o governo ou a sociedade civil rebelada. 10 Ibidem, p. 263. 11 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o perigo vermelho: o anticomunismo no Brasil (1917-1964). São Paulo: Perspectiva/Fapesp, 2002. 12 Ibidem. 42 No parlamento nacional, os deputados e senadores dos principais partidos faziam referências constantes ao assunto. As intervenções no discurso alheio, por rotina, mostravam adversários políticos comungando do sentimento anticomunista. Essa é uma atitude teoricamente prevista em Motta, com a ressalva de que as divergências permaneceram: O anticomunismo é, antes que um corpo homogêneo, uma frente reunindo grupos políticos e projetos diversos. O único ponto de união é a recusa ao comunismo, em tudo o mais impera a heterogeneidade. Se esta diversidade muitas vezes passa despercebida, isto se deve ao fato de que, nos momentos de conflito agudo, os diversos tipos de anticomunismo se uniram contra o inimigo comum. A cooperação resultou no esforço de afinar o discurso e ação, o que contribuiu para nuançar as divergências existentes no interior das frentes anticomunistas. Mas a observação atenta é capaz de revelar as diferenças, mesmo durante os períodos de ‘união sagrada’ contra o comunismo. 13 Ora, a convergência em torno de um interesse comum é próprio da política em todos os planos e, inicialmente, parece elementar a percepção de que o anticomunismo foi o ponto de interseção das forças conservadores do país. Contudo, quem se propuser a fazer um retrospecto da atuação dos partidos brasileiros nesse período irá perceber que, em certos aspectos, existiam divergências profundas e o alinhamento em torno de questões dessa natureza não era automático. Mais do que isso, a coesão não explica o modus operandi de cada um desses grupos e nem a complexidade de suas ações. A colaboração entre entidades desse gênero foi intensa no período anterior ao golpe. Todavia, enquanto algumas fizeram manifestações comportadas outras recolheram e financiaram a agitação contra o governo ou se envolveram no contrabando de armas e no terrorismo. Ao passo em que os deputados e senadores faziam proselitismo entre seus pares, o IPÊS direcionava sua publicidade aos empresários. Certamente, essa intricada rede conspiratória não tinha uma direção centralizada que definisse a atuação de cada grupo. Isso ocorria em função dos interesses, das habilidades e da competência de cada um, mas produzia um resultado orquestrado e de largo espectro. A esse respeito, vejamos, por exemplo, o posicionamento de alguns deputados baianos na Câmara dos Deputados, com o propósito de ilustrar o anticomunismo de baianos que convergiam nesse discurso com os demais grupos citados para garantir uma frente única de combate. O mais afoito opositor de João Goulart na Bahia talvez tenha sido Antônio Carlos 13 Motta, Op. Cit, p. 15. 43 Magalhães, que não desperdiçou a oportunidade de alfinetar o presidente a propósito da Intentona Comunista: Há exatamente vinte e oito anos, a família brasileira se ensangüentava, cobria-se de luto com o Levante Comunista que representa o símbolo da traição. Hoje a nação inteira rendeu e rende a sua sentida homenagem aos que tombaram em 27 de novembro de 1935. O Sr. presidente da República foi ao Rio, compareceu ao cemitério João Batista, rezou, talvez, por alma das vítimas do atentado, o que não condeno, mas o que é, sem dúvida, um tanto estranho. Muito mais coerente seria não ir ao cemitério, não rezar, não prestar qualquer homenagem, enfim, aos que morreram no cumprimento do dever, na luta pela integridade da pátria. 14 A crítica ao chefe do executivo estendeu-se, também, ao ministro da Guerra, general Amauri Kruel, considerado por ACM conivente com a infiltração comunista no governo. Mais que isso, existe a suposição da preparação de um golpe com apoio nas Forças Armadas: Não entendo como se homenageiam as vítimas do comunismo, quando abertamente se luta pela sua implantação no país, com a ocupação dos postos-chave do governo pelas figuras mais declaradamente ligadas ao comunismo. Antes, o propósito, era se fazer lentamente a infiltração comunista na administração pública; hoje ela se faz acelerada e abertamente. Não falta, para isso, nem ao menos a formação de um poderoso esquema militar, onde os postos-chave da segurança nacional são entregues aos oficiais que rezam por essa cartilha que não rezam pelo catecismo da democracia. 15 A ousadia de Antônio Carlos Magalhães chega ao limite da agressão pessoal quando aponta fraqueza nas atitudes do presidente da República e remete há tempos outros, quando uma declaração como essa seria interpretada como desrespeito: Tudo isso se faz por ordem de quem, senhores deputados? Por ordem direta do senhor presidente da República que seria muito mais coerente se, no dia de hoje, tivesse a coragem de homenagear, como faz o governador de Pernambuco, os que propiciaram o golpe de 35, os que mataram à traição os soldados da lei e da democracia. Essa seria a atitude corajosa e digna do presidente da República. Mas, infelizmente para nós e para o país, ninguém14 Diário do Congresso Nacional. 28 de novembro de 1963, p. 8. 15 Ibidem. 44 pode esperar uma atitude de coragem do senhor João Belchior Marques Goulart. 16 O discurso anticomunista permaneceu no legislativo federal mesmo depois do golpe, com acusações, no mínimo curiosas, a respeito do governo João Goulart. O deputado baiano Tourinho Dantas teceu o seguinte comentário, no dia dedicado ao trabalhador: Cada vez mais vêm a lume os escândalos do governo passado, que justificam a revolução renovadora que tem sido até o contrário do que se propala muito suave na punição do dinheiro público. Da Bahia chega-nos a notícia de que diversos líderes sindicais receberam favores do governo. O presidente do Sindicato dos Estivadores foi nomeado tesoureiro do DNOC, quer dizer, tornou-se um pelego. O homem que dizia falar em nome dos estivadores baianos nada mais era que uma pessoa paga pelos cofres públicos para servir ao governante. Outros presidentes de sindicatos também foram nomeados para cargos públicos perdendo sua condição de trabalhadores. Perdeu-se assim, a representação sindical, sua condição de autonomia porque, na verdade, os trabalhadores brasileiros já não mais tinham representação. Eram homens submetidos a diversos aventureiros, autênticos pelegos que, grimpados (sic) nas direções sindicais nada mais fazem do que servir a seu senhor nos seus propósitos de instituir a ditadura sindicalista que, 4 ou 5 dias depois, seria substituída por uma ditadura comunista. 17 É possível destacar que, nesse discurso, as direções sindicais eram tuteladas pelo governo e tinham pretensões comunizantes. Ao contrário das acusações rotineiras de que o comunismo se infiltrou no palácio através dos sindicatos, Tourinho acreditou que esses foram instrumentalizados pelos comunistas no governo. Desse ponto de vista o golpe esteve mais que justificado. Além desses, os canais de disseminação das idéias anticomunistas na Bahia foram as associações de classe, em especial a Associação Comercial da Bahia, uma relevante parcela dos professores e estudantes das escolas secundárias tradicionais e das faculdades, algumas entidades religiosas católicas e protestantes, assim como a grande imprensa escrita, com destaque para o jornal A Tarde. O aproveitamento do discurso anticomunista e da perspectiva desenvolvimentista produziu resultados diferenciados para Luiz Viana Filho, Juracy Magalhães e Antônio Carlos Magalhães. Isso aconteceu porque, em parte, a aproximação dos dois primeiros com Castelo Branco praticamente inviabilizou maiores conquistas com a posse de Costa e Silva em 1966. 16 Ibidem. 17 Diário do Congresso Nacional. 1º de maio de 1964, p. 2785. 45 A situação se tornou ainda mais complicada quando o trágico acidente que vitimou Castelo Branco no ano seguinte deixou em apuros o grupo da Sorbonne que procurava meios de se impor aos adversários. 18 Antônio Carlos Magalhães, até por sua pouca experiência e participação à sombra de Juracy Magalhães, possuía compromissos tênues com o governo anterior. Sempre escorregadio, conseguiu se desvencilhar a tempo. De todos os presidentes da República do período da ditadura, somente Figueiredo o olhou com desconfiança. Todavia, o general Newton Cruz, um dos militares mais duros, sentenciou: Eu era chefe da Agência Central do SNI em 1982, quando acompanhei o general Octávio Medeiros, então chefe do órgão, a um encontro com ACM em Salvador. Nosso relacionamento com Antônio Carlos Magalhães era o melhor possível. Lideranças políticas, como Antônio Carlos Magalhães, ajudaram a sustentar o regime. Nós devemos muito a ele. 19 Isso foi resultado da sincronia entre o carlismo e o Palácio do Planalto independentemente do presidente que o ocupasse. Sem dúvida, Juracy Magalhães e Luiz Viana Filho estavam, também, sintonizados com os princípios políticos e econômicos da ditadura e exploraram convenientemente os temas relevantes que interessavam a elite naquele momento. Mas, enquanto Luiz Viana Filho criticava o bipartidarismo, o tecnicismo militar e discursava em favor da abertura política em 1977 - quando as crises militares eram profundas -, Antônio Carlos Magalhães encampou o discurso somente nos anos 1980, quando a situação dos militares no poder era insustentável e já se fazia uma autocrítica sobre o papel das Forças Armadas no país. 20 Posicionamentos como esses determinaram a dimensão do apoio dado e recebido nessa relação de interdependência estabelecida entre a elite política na Bahia e a ditadura. Todavia, a elite tinha pontos de convergência que foram utilizados na estratégia carlista: integrar os grupos baianos em torno da autocracia militar. Como visto, o anticomunismo foi um dos elos políticos dessa necessidade de integração. O desejo de uma industrialização modernizante, por outro lado, foi a conexão mais sólida do projeto econômico. 18 O grupo da Sorbonne era formado por oficiais intelectuais que se destacaram na Escola Superior de Guerra nos anos 1950. Os militares mais conhecidos desse grupo eram: Castelo Branco e Golbery do Couto e Silva. 19 CONTEIRAS, Hélio. Militares: confissões. Rio de Janeiro: Mauad, 1998, p. 95. 20 Luiz Viana Filho. O momento político. Brasília: Senado Federal, 1977. 46 Razões de insegurança nacional e atitude confiante no desenvolvimento A ação golpista de 1964 não foi simplesmente uma reação militar à crise econômica que o governo de João Goulart não conseguiu controlar. Foi, isso sim, a interrupção de uma proposta populista de desenvolvimento e sua substituição por outra com base no modelo da Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento. Esse conjunto teórico, cuja autoria é atribuída a Golbery do Couto e Silva, originou-se nos Estados Unidos e foi absorvida por oficiais brasileiros que frequentaram cursos em organizações estrangeiras. Tais referências foram utilizadas pela Escola Superior de Guerra para orientar as políticas de segurança e de desenvolvimento nacional. Em sua obra, Maria Helena Moreira Alves ressaltou que: A Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento foi formulada pela ESG, em colaboração com o IPES e o IBAD, num período de 25 anos. Trata- se de abrangente corpo teórico constituído de elementos ideológicos e diretrizes para infiltração, coleta de informações e planejamento político- econômico de programas governamentais. Permite o estabelecimento e a avaliação dos componentes estruturais do estado e fornece elementos para o desenvolvimento de metas e o planejamento administrativo periódicos. 21 Na prática, os fundamentos teóricos da ESG demonstraram ser de difícil realização tanto pelas “diferenças significativas que distinguiam os militares” quanto pela dificuldade de adaptação às circunstâncias políticas e econômicas do país. Para Carlos Fico, além da diversidade no pensamento militar, deve-se atentar para “a importância relativamente pequena que planos de ação e doutrinas sistemáticas tiveram posteriormente, quando da implantação de políticas efetivas dos governos militares”. 22 Todavia, o mesmo autor explica que “não é equivoco falar de um pensamento autoritário no período” porque “de fato, houve uma proposição sistemática de idéias e planos que, corretamente, pode-se chamar de Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento”. 23 Dentre aquelas idéias que compunham o corpo doutrinário da Escola Superior de Guerra, o anticomunismo e o desenvolvimento nacional integraram a agenda de todos os 21 ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil (1964 -1969). Petrópolis: Vozes, 1989, p. 35. 22 Carlos Fico, 2000, p. 99-100 23 Ibidem. 47 governos militares e podem ser considerados marcos unificadores na experiência política e econômica desse período. Sabe-se que a doutrina incorporava a noção de guerra total, na qual, os limites territoriais e temporais estendiam além daqueles admitidos numa guerra militar ou tradicional. Pressupunha ainda a presença de um potencial inimigo dentro do território nacional exigindo ações de segurança interna. O anticomunismo e a “assepsia social” realizados pela elite brasileira durante a ditadura se justificaram nessa teoria. Por outro lado, as questões geográficas e o posicionamento geopolítico do Brasil eram, na concepção dessa doutrina, definidoras de seu potencial econômico. Na condição de um país localizado na esfera de alcance norte-americana, o Brasil tinha por vocação natural aliar- se aos Estados Unidos na defesa do ocidente. 24 Por fim, a doutrina em questão supunha que o desenvolvimento econômico seria essencial para a segurança de um país e o modelo viável e proposto para o Brasil foi a industrialização com aproveitamento de seus recursos produtivos naturais, uso de uma extensa rede de transporte e comunicação e conseqüente acumulação de capital. 25 Um aspecto importante é ressaltado por Golbery do Couto e Silva quando se refere à necessidade de desenvolvimento e industrialização do país. Trata-se de justificar o avanço desenvolvimentista não apenas pela segurança representada pela acumulação de divisas, como também pela ocupação humana da vastidão de terras despovoadas existentes no interior do país. A criação de novos centros urbanos e urbanização crescente das cidades existentes configuravam-se em providências urgentes para garantir a integração territorial e a defesa desse mesmo território. 26 Nesse sentido, a contribuição dos estados da federação e das empresas multinacionais para a rápida progressão do país era prevista na Doutrina de Segurança Nacional. Portanto, os governadores eram aliados potenciais do governo federal e, quando sintonizados com essas metas, ainda melhores. Por vezes, alguns governadores ou deputados estaduais, mesmo em conformidade com pensamento conservador, criticaram o governo trilhando o mesmo caminho, entretanto, em ritmo descompassado àquele imposto pela ditadura, como foi o caso de Carlos Lacerda, na Guanabara. Já Antônio Carlos Magalhães foi exemplo de sintonia e sincronia com o pensamento conservador e o planejamento das metas em todos os governos da ditadura. O carlismo 24 Ibidem, p. 46. 25 Ibidem, p. 48. 26 Ibidem. 48 condensou em si os temas centrais que deram suporte ideológico àquela autocracia e para garantir a integração foi aparando as arestas internas nas mudanças, porventura ocorridas, nas sucessões presidenciais. Ao lado do anticomunismo, o desenvolvimento industrializado foi um tema integrante do ideário conservador durante a ditadura. Ambos se incorporaram a um conjunto de diretrizes que deu forma e sentido ao sistema e garantiu o estabelecimento de uma estrutura orgânica no estado capaz de agregar os mais diferentes setores conservadores em torno das propostas da ditadura, mesmo quando havia divergências em outros setores. O anticomunismo unia os conservadores temerosos com os efeitos de uma possível vitória política dos comunistas. Os proprietários temiam a socialização da propriedade; os produtores receavam a incorporação de valor ao trabalho; os católicos, a difusão do ateísmo; e os militares, a destruição da hierarquia. Portanto, a agregação conservadora em torno do anticomunismo, além de ter um caráter repressor e destrutivo, permitiu o prolongamento da hegemonia ditatorial. O exemplo de desenvolvimento proposto na ditadura contrastava, em parte, com o modelo anterior. Embora ambos priorizassem a industrialização como requisito para o desenvolvimento, a proposta populista, além do controle estatal sobre o trabalho, impôs “uma poderosa ação do Estado implantando mecanismos de acumulação forçada que deram sustentação à industrialização”. 27 Essa acumulação que se iniciou durante o período Vargas destinava-se, quase exclusivamente, ao financiamento das indústrias de base com capital nacional. Na ditadura, entretanto, a “transferência via preços administrados potenciou a acumulação privada” e deixou “reservado para o setor privado todo o rico desenvolvimento dos bens duráveis de consumo e, claro, o setor de bens não duráveis”. O grande contraste, neste caso, foi a internacionalização da economia, com a entrada de capitais estrangeiros neste setor porque “o financiamento da acumulação de capital tornou-se irreversivelmente externo”. 28 Como é notório, as crises internacionais do petróleo, associadas ao endividamento externo brasileiro, devastaram a economia brasileira no final dos anos 1970, entretanto, a confiança no potencial desenvolvimentista brasileiro foi, durante muito tempo, umas das 27 Francisco de Oliveira, Op. Cit., p. 219. 28 As citações e o raciocínio a esse respeito encontram-se, também, em Francisco de Oliveira, Op. Cit., p. 219 a 225. 49 principais estratégias para coesão da elite no Brasil. 29 Isso porque, para empolgar a sociedade, assim como no caso do anticomunismo, foi preciso encontrar um ponto de convergência em que as diferenças fossem minimizadas. As expectativas em torno de um país grandioso e a confiança nas potencialidades de seu povo foram os elementos impulsionadores que dinamizaram a propaganda e as ações governamentais nas variadas camadas da sociedade brasileira. Esse entusiasmo e credibilidade no futuro do país, notado e incentivado durante a ditadura, é resultado de um longo processo de construção do imaginário social brasileiro. A princípio, este sentimento de orgulho que os indivíduos têm de si e das riquezas naturais de sua terra foi genericamente definido como ufanismo. A influência vaidosa desse afortunado potencial brasileiro e de sua gente remonta à literatura colonial e foi amplamente explorada por poetas passados. Contudo, José Murilo de Carvalho, com base em pesquisas de opinião pública, destacou os aspectos edênicos da visão positiva existente no imaginário da sociedade brasileira. Interessante notar que, além de contínuas e atuais, as razões edênicas aparecem como compensação ao sofrimento, ao desamparo e aos problemas políticos e sociais. A esse conjunto negativo, o autor denominou de razão satânica. 30 Carlos Fico, por sua vez, mostra que, durante os governos Médici e Geisel, os militares enfatizaram o otimismo em relação às possibilidades de superação dos problemas brasileiros. Nesse caso, o discurso das agências de propaganda enaltecia os sentimentos nobres que transformariam e construiriam um país grandioso. 31 Foi assim que os governos militares brasileiros, cada qual a seu modo, buscaram no imaginário social nacional motivos de orgulho para incentivar a conquista do desenvolvimento industrializado. Nesse ponto, mais uma vez vem à tona a questão da integração, associada ao contexto nacional. A grande maioria dos discursos dos governadores da Bahia durante a ditadura destacava a viabilidade do desenvolvimento brasileiro. A proposta de desenvolvimento industrializado sustentava-se na convicção de que as potencialidades brasileiras conduziriam o país a um avanço irreversível nesse sentido. Enfim, o desenvolvimento não era apenas uma proposta, e sim uma possibilidade realmente viável. 29 Os dados a respeito podem ser conferidosem Wilson Cano. In: 1964 – 2004: 40 anos do golpe – ditadura militar e resistência no Brasil. Rio de Janeiro: UFRJ/UFF/CPDOC/APERJ, 2004, p. 226 a 239, bem como, em Vilmar Faria. In: Sociedade e política no Brasil pós-64. 2.ª ed., São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 118 a 163. 30 CARVALHO, José Murilo de. O motivo edênico no imaginário social brasileiro. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, V. 13, n.º 38, São Paulo: Outubro de 1998. 31 FICO, Carlos. Reinventando o otimismo: ditadura, propaganda e imaginário social no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997. 50 Por isso, os pressupostos gerais desse plano de desenvolvimento nacional encontravam-se descritos no escopo central da Doutrina de Segurança Nacional. O teor de integração, pela perspectiva de desenvolvimento durante a ditadura, é uma referência constante em vários momentos da vida política nacional visto que, por meio de um olhar introspectivo, a elite tentou fazer uma leitura peculiar do Brasil e consolidar um referencial de identidade nacional. As razões dessas atitudes positivas diante da crise são muitas e todas muito conformadas com o momento de afirmação da nova ordem arbitrária imposta pela ditadura. A Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento foi formulada com essa visão e previa a necessidade de aproveitamento otimizado do potencial desenvolvimentista brasileiro. Os motivos principais eram a dimensão territorial e a singularidade de seu povo que permitiriam ao Brasil crescer e multiplicar sua capacidade produtiva, seja com a ampliação agrícola ou com a implantação de grandes parques industriais. Urgia interligar uma questão de segurança nacional com o desenvolvimento industrial e a urbanização. Para a Escola Superior de Guerra, a grandeza do território poderia favorecer a aproximação com os Estados Unidos e gerar dividendos na relação com os demais países americanos e com o ocidente em geral. Contudo, representava, também, um perigo em potencial tendo em vista a existência de imensas faixas de terra desabitadas e desprotegidas das ameaças externas e fora de alcance do controle interno das elites. 32 A industrialização implicava a urbanização de áreas despovoadas, a construção de vias de acesso e a migração para as novas regiões produtivas. Assim, ao mesmo tempo em que o país se desenvolvia, a segurança nacional se consolidava. O otimismo militar acreditava na possibilidade de sanar as dificuldades e converter essas características em progresso: Resolvidos esses problemas, a maior extensão territorial será um fator muito importante no jogo de interesses internacionais. Um território de maior expressão, sobretudo um território rico, racionalmente ocupado e que desfrute de uma boa posição geográfica pesará, por certo, na oportunidade em que se tenham de resolver conflitos de interesses entre nações. 33 32 A Doutrina de Segurança Nacional sugeria que “a extensão territorial do estado também pode influir sobre a expressão política, à medida que favorece ou cria embaraços à sua eficiência ou eficácia”. ESG, Op. Cit., p. 117. 33 Ibidem. 51 Os elogios que, como Gonçalves Dias, exaltavam as belezas naturais do Brasil, à sua diversidade geográfica, à multiplicidade da flora e da fauna não foram apenas apelos românticos dos militares. Tratava-se de um potencial a ser explorado culturalmente, politicamente e economicamente para gerar divisas e riquezas conforme a definição da ESG: Os recursos naturais podem ser classificados tanto em função de sua extensão como de seu aproveitamento. Em ambos os casos os recursos podem ser atuais ou potenciais. São atuais quando disponíveis de imediato. Os recursos potenciais em extensão são os que se encontram em áreas economicamente vazias, exigindo prévio deslocamento da fronteira econômica. Em função de seu aproveitamento, os recursos potenciais exigem, para serem explorados, pesquisas, mudanças tecnológicas, novos investimentos ou iniciativas. 34 A sugestão para exploração produtiva dos recursos existentes no Brasil não prescindia de uma avaliação sociocultural como verificado adiante: Outra variável de inegável importância é o meio sociocultural. Nas sociedades pré-letradas, o homem não visava à exploração racional dos recursos naturais de seu meio ambiente e com eles se confundia; nas sociedades industrializadas, o homem assume atitude agressiva no sentido de dominar o mundo físico que o rodeia. Estas atitudes vêm demonstrar que os recursos naturais precisam ser descobertos, explorados e controlados para otimização do atendimento das necessidades humanas. Frequentemente deixam de ser utilizados de forma racional pela inexistência de fatores complementares. 35 Por fim, a harmonia social era outra meta com resultados previsíveis dado ao caráter benevolente do povo brasileiro. A crença otimista na cordialidade da população foi reiterada em discurso, por Emílio Garrastazu Médici, no Dia da Família: Encontro na família brasileira a vocação da solidariedade e da justiça, da serenidade, do consenso e da paz, com que o nosso homem haverá de dar a sua contribuição para o tempo e o mundo em que haja menos egoísmo e discriminação, instabilidade, conflito e agressão. 36 34 Ibidem, p. 143. 35 Ibidem. 36 Emílio Garrastazu Médici. Tarefa de todos nós. Brasília: Departamento de Imprensa Nacional, 1971, p. 11. 52 Portanto, a vocação brasileira para o progresso se constituiu num slogan da ditadura e o convencimento disso pela sociedade pareceu inevitável naquelas circunstâncias. Essa motivação contagiada de confiança nas potencialidades do povo e do território brasileiro permeou a elite e difundiu-se, também, na Bahia. Sendo, também, uma região onde o sentimento de pertencimento tinha uma significação importante não foi difícil associar o ufanismo da baianidade com o sentimento de brasilidade. Na Bahia, esse sentimento se regionalizou sem perder sua referência nacional, pois, ao mesmo tempo em que a baianidade se orgulhava das tradições culturais mais específicas buscava a integração nacional. O crescimento industrial na Bahia em tempos de confiança no futuro Ao mesmo tempo em que o governo brasileiro investia no desenvolvimento industrializado e na urbanização de áreas despovoadas, o carlismo se fortalecia como fração empreendedora da elite política do país. Se forem considerados os dados sobre a industrialização e a urbanização nas décadas de 1960 e 1970, quando a influência do carlismo na Bahia já era notada e crescia vertiginosamente, é possível perceber a sincronia desse grupo político com o modelo econômico vigente. As reformas urbanas e a criação de novos empregos aceleraram a migração para a capital e região metropolitana. A população baiana residente na zona rural em 1950 correspondia a quase 75 % do total de habitantes cadastrados pelo censo. Em 1960 esse percentual reduziu-se em dez pontos aproximadamente e, na década de 1970, quase metade do contingente populacional baiano já residia na zona urbana. 37 O crescimento demográfico na Bahia entre 1950 e 1970 se deu na proporção de milhões. Em números absolutos, a Bahia ultrapassou os 7,5 milhões de habitantes em 1970, dos quais, mais de um milhão residindo na capital e formando um exército de mão-de-obra disponível para a indústria. 38 Ao assumir o governo do estado em 1970, Antônio Carlos Magalhães passou a administrar uma extensa área territorial correspondente, à época, a mais de quinhentos mil quilômetros quadrados e distribuídos em pelo menos vinte e seis micro-regiões. As contradições entredesenvolvimento e ocupação do espaço urbano levaram ACM continuar a 37 Anuário Estatístico da Bahia, 1972. 38 Ibidem. 53 reforma urbana que iniciara em sua gestão na prefeitura de Salvador. Para viabilizar as obras viárias, desalojou milhares de pessoas acentuando as diferenças sociais já existentes. 39 Apesar do incentivo à industrialização, a agricultura era responsável por boa parte das exportações do estado da Bahia durante o surto milagroso da economia brasileira na ditadura. O cacau, produzido na região sul do estado, ainda tinha força para impulsionar a economia apesar dos sinais claros de declínio em relação a outros períodos. 40 Na verdade, a grande fonte de riqueza para o estado provinha do petróleo extraído e refinado na Bahia. Todas as importantes lideranças baianas se ocuparam em garantir a continuidade e a ampliação da participação baiana nos lucros da indústria petrolífera na Bahia. Tamanha importância se traduzia nos 8 milhões de metros cúbicos extraídos das plataformas marítimas situadas no estado e consumidos na região Nordeste do país. 41 A criação e manutenção de um amplo parque industrial foram, segundo as estimativas mais otimistas, a sustentação da economia baiana e a maior fonte geradora de emprego. Do total de mais de 1.400.000 indústrias instaladas na Bahia no final da década de 1960, pelo menos 97 % eram de transformação. 42 A conexão entre a proposta de crescimento nacional e as expectativas da elite nos estados nordestinos se fazia por meio da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste que tinha como função precípua acelerar o desenvolvimento da região e diminuir a diferença em relação às demais regiões em adiantado estado de industrialização. Desde Getúlio Vargas há uma preocupação política com o subdesenvolvimento nordestino, entretanto, no período da ditadura esse tema tomou ares de segurança nacional e tornou-se preocupação contínua em todas as gestões. O resultado foi que o aumento médio anual das indústrias de transformação nas décadas de 1960 a 1970 cresceu a uma taxa próxima de 11 %, sendo esse percentual pouco distante da média nacional. De um total de 74 projetos aprovados pela SUDENE para investimentos no setor produtivo da Bahia, 61 foram destinados à indústria. 43 Sabe-se do custo social que o desenvolvimento industrializado durante a ditadura ocasionou ao país. A concessão de incentivos fiscais para investimentos no Nordeste apenas expandiu os negócios dos empresários que migraram ou ampliaram suas fábricas para essa 39 NETO, Paulo Fábio Dantas. Tradição, autocracia e carisma: a política de Antônio Carlos Magalhães na modernização da Bahia (1954-1974). Belo Horizonte: UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ, 2006, p. 310 a 344. 40 Cerca de 60 % dos produtos exportados eram derivados do cacau e outros 24% vinham do fumo, do sisal e da mamona. Anuário Estatístico da Bahia, 1972. 41 Anuário Estatístico da Bahia, 1972. Sobre a importância econômica do petróleo na Bahia e sua influência para os trabalhadores, ver ainda, Franklin Oliveira Júnior. A usina dos sonhos: sindicalismo petroleiro na Bahia (1954-1964). Salvador: EGBA, 1996. 42 Anuário Estatístico da Bahia, 1972. 43 Dados recolhidos no Anuário Estatístico da Bahia e do Relatório Bianual da Sudene. 54 região. Por outro lado, o aumento do emprego nas indústrias nordestinas a um baixo valor de remuneração, além de não dignificar o trabalhador dessa região, ainda aviltou o salário dos demais trabalhadores nas outras regiões do país. 44 Para a elite política, todavia, o entusiasmo diante da possibilidade de crescimento com a industrialização não resultava da preocupação com as condições de vida da população trabalhadora, e sim, com o enriquecimento do setor produtivo e os recursos que isso geraria ao estado. No entanto, isso se constituiu em uma oportunidade e uma ameaça, na medida em que os que alcançaram sucesso na tarefa de mediar os conflitos internos do grupo dirigente e manter a integração exigida pela ditadura lograram poder e distinção, enquanto aqueles que malograram foram submetidos ao ostracismo. As crises militares e a correlação de forças na Bahia Ao contrário do que supõem os defensores da tese do “autoritarismo congênito”, as crises militares determinaram muito mais a reorganização dos grupos políticos na Bahia do que as semelhanças entre o segmento regional e nacional da elite. O oportunismo, por vezes observado no discurso de generais largamente envolvidos com a ditadura, não impede a constatação de pontos de inflexão que apontam a localização dos principais antagonismos. Um das questões mais recorrentes de colisão entre os oficiais do alto comando foi determinar o momento e a forma de se desvencilharem da enorme confusão na qual se envolveram com a conspiração de 1964. A associação golpista com os principais políticos conservadores do país para impedir que as reformas de João Goulart representassem um ônus irreparável para a elite transformou- se num processo deletério da instituição militar. Em vista disso, surgiram as críticas internas. No episódio da sucessão de Castelo Branco surgiram os primeiros desacordos causadores de um tremendo mal-estar na cúpula das Forças Armadas. O general Ayrton Pereira Tourinho afirmou “O general Costa e Silva tinha um grupo chamado de “linha dura” que defendia a sua candidatura, que não era o da preferência do marechal Castelo Branco, que pretendia um sucessor civil”. 45 44 Sobre as políticas da SUDENE ver Francisco de Oliveira em “Elegia para uma re(li)gião: sudene, Nordeste, planejamento e conflito de classes”. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977; a respeito da concentração regional das indústrias ver Wilson Cano em “Desequilíbrios regionais e concentração industrial no Brasil (1930-1995)”. Campinas: Ed. Unicamp, 1998. 45 Contreiras, Op. Cit., p. 75. 55 Segundo o almirante Hernani Goulart Fortuna, as razões apontadas para a discordância entre os militares de alta patente quanto à sucessão de Castelo Branco são as mesmas que impediram a posse do vice-presidente Pedro Aleixo quando Costa e Silva foi afastado do cargo por problemas de saúde. “Na realidade, houve uma ruptura entre os militares que haviam apoiado Castelo Branco em 1964 e aqueles que procuraram se perpetuar no poder. Ela foi bem caracterizada no impedimento do vice-presidente Pedro Aleixo”. 46 Essa primeira grande crise sucessória da ditadura foi prejudicial a Luiz Viana Filho e a Juracy Magalhães. Ainda que tenham mantido por algum tempo a liderança de um grupo político considerável na Bahia, a influência direta no governo federal e nos espaços estaduais de decisão diminuiu acentuadamente, ao passo que Antônio Carlos Magalhães ampliou gradativamente a sua inserção e o seu controle sobre os mesmos. A sucessão do presidente Emílio Garrastazu Médici coincidiu com indicação de Antônio Carlos Magalhães para o governo estadual e foi, talvez, a mais traumática para as Forças Armadas brasileiras, envolvidas nesse momento com as questões políticas do país. Médici, além de responsável por um dos períodos mais sangrentos na repressão à oposição foi, também, o pivô de uma crise entre Ernesto Geisel, João Batista Figueiredo e Golbery do Couto e Silva. Para a Bahia, contudo, essa tensão não teve maiores consequências, ao contrário, foi nesse período de governo que o presidente Médici se comprometeu em confirmar para o estado o segundo pólo petroquímico do país. A atuação de ACM na manutenção de uma base estadual sólida em apoio ao governo de Médici lhedeu crédito para assumir a Eletrobrás quando sua carreira política entrou em refluxo. 47 A indicação do general Ernesto Geisel foi intermediada pelo próprio presidente. Médici tinha preferência por um militar da reserva, pois compreendia que a “assepsia social” ou “pacificação” do país, como ele mesmo preferia, não estava completa. Para atenuar as crises originadas pela permanência dos militares no poder optou por um general da reserva, compreendendo ser isso uma medida paliativa para o processo transitório, entretanto, Quando Geisel anunciou seu ministério ele viu Golbery na Casa Civil, e Figueiredo, ao seu lado, como chefe do SNI, ficou imediatamente claro para ele que havia sido traído e que seu projeto político, que visava devolver o 46 Ibidem. p. 101. 47 A Tarde, 16 de Janeiro de 1971, p. 4 e Dantas Neto, Op. Cit., p. 460 a 464. 56 poder ao mundo civil, ao final do mandato de seu sucessor, não ia realizar- se. 48 Na mesma linha, o general Ivan de Souza Mendes admitiu o risco de uma degringolada na gestão de Ernesto Geisel quando preparava seu processo sucessório. Depôs ele: Quando [ocorre] a sucessão do presidente Geisel, houve o risco de ele perder o controle, em 1977. Por pouco isso não ocorreu. Mas ele conseguiu agir a tempo, evitando que a candidatura do então ministro do Exército, Sylvio Frota, um homem reconhecidamente honesto e ortodoxo, chegasse a se tornar inevitável. 49 Finalmente, há uma crítica generalizada quanto aos rumos tomados pela economia depois do “milagre econômico” tendo em vista, especialmente, o sacrifício do bem-estar social. A opinião do Almirante Hernani Goulart a esse respeito reflete, no mínimo, oposição a uma proposta econômica predominante em todos os governos militares: O modelo econômico predominante no regime militar, nos governos Médici, Geisel e Figueiredo, foi tremendamente estatizante, concentrador de renda, além de ignorar fatos graves como os dois choques de petróleo e a alta dos juros internacionais, o que fez com que a sociedade brasileira perdesse a década de 1980. 50 Ao assinalar esses momentos de crise na esfera militar é conveniente dar atenção a um comentário bastante pertinente de Roberto Médici, filho e assessor do presidente Emílio Garrastazu Médici, a respeito do grupo Castelo Branco que se opunha ao de seu pai. Segundo ele, Embora admirasse grande parte da obra administrativa de Castelo Branco, considerava-o um revolucionário de última hora que, por ter pequena carga revolucionária, teve de buscar apoio nas lideranças políticas para se fazer eleger presidente pelo Congresso Nacional, para concluir o que restava do mandato de João Goulart. 51 48 Médici. Op. Cit., p.34. 49 Contreiras. Op. Cit., p. 68. 50 Ibidem. p. 101. 51 Médici. Op. Cit, p. 24 57 Naturalmente, a relação afetiva com o pai não o deixou perceber que a elite teve papel preponderante em todos os governos da ditadura, sem exceção, e que não fosse essa participação determinante o período autoritário teria sido abreviado. As crises militares, entretanto, não abalaram o crescimento do carlismo e, mesmo no governo Figueiredo, Antônio Carlos Magalhães manteve o livre trânsito na Bahia. Era recebido sem agendar previamente no gabinete presidencial e nas agências de financiamento. 52 Conquanto a elite baiana estivesse integrada ao contexto nacional durante a ditadura, a participação de ACM nas decisões de governo foi cada vez mais frequente e acentuada. Isso se deve, obviamente, a expansão das representações carlistas no Congresso Nacional e na ARENA. A elite na agenda da ditadura A integração nacional da elite em torno dos temas centrais da ditadura ocupou posição de destaque na agenda de todos os governos deste período e estimulou o presidente Médici em discurso aos funcionários da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, no ano de 1971: A ação de meu governo no campo industrial alicerça-se na ponderada distribuição das responsabilidades pelo nosso processo de desenvolvimento. Ao empresário cabe identificar as oportunidades de investimento e decidir sobre a execução dos necessários projetos. Ao governo, compete criar as condições que permitam, em termos de infra-estrutura econômica e incentivos adequados, a transformação dos projetos adequados em realidade. As relações entre governo e empresários após a revolução de 31 de março e, sobretudo, nos dias que correm, autorizam-me a ser otimista no que concerne aos resultados dessa conjugação de esforços. 53 Paralelamente, após os resultados eleitorais satisfatórios, Médici falou a respeito de outro grupo de apoio fundamental ao seu governo: As relações de confiança e de cooperação entre o governo e as forças políticas, que o apóiam, afastam a mais remota possibilidade de se abalarem 52 A Tarde, 7 de dezembro de 1978, p. 4. 53 Médici. Op. Cit,. p. 42. 58 os fundamentos nos quais repousa o sistema revolucionário ou se modificarem as decisões tomadas no sentido de lhe assegurar a solidez. Mais perfeita não poderia ter sido, até agora, a identidade de pensamento e de propósitos entre o presidente da República e o partido da revolução. Pelos seus órgãos de direção, na órbita nacional ou no plano regional, pelos seus representantes, assim no governo dos estados, como nos corpos legislativos não me regateou a ARENA, em nenhum momento, a colaboração que lhe tenho solicitado para dar continuidade à obra revolucionária. 54 Esse é ponto de convergência entre a necessidade de integração da ditadura e a elite política na Bahia. A interdependência desses dois segmentos da elite mostra como a estrutura política de sustentação do governo arbitrário foi complexa e diversificada. Por um lado, a interdependência vista sob a ótica da elite nos estados tem uma justificativa comum a qualquer tipo de sistema ou governo. Isso significa dizer que a sobrevivência política de centenas de prefeitos e governadores após o golpe de 1964 dependia do governo federal em função das necessidades financeiras que sempre obrigaram os estados e municípios a recorrem à união para o repasse das quotas de tributos e ainda a reivindicar mais subsídios para custear obras e programas. Por outro lado, sem o apoio civil, os militares não poderiam impor o mesmo ritmo às reformas políticas e econômicas pretendidas para o país. Na prática, contudo, a instabilidade política provocada pelos conflitos militares dificultou esse apoio e influenciou na correlação de forças políticas regionais. Esse paradoxo exigiu estratégias muito aprimoradas para convencer setores minoritários a superar seus interesses individuais. Isso significa que a adesão dos grupos conservadores da elite política na Bahia à ditadura foi muito além de uma necessidade econômica, de estabilidade ou viabilidade institucional. Foi fruto da integração do carlismo a um projeto político e econômico que, embora inexistente no momento do golpe, foi sendo gestado ao longo dos anos até adquirir forma e consistência. A participação dos baianos nesse processo não é desprezível e merece um estudo bastante aprofundado. Lançar-se a essa tarefa é a pretensão dos capítulos subseqüentes. 54 Ibidem. CAPÍTULO III A criação do bipartidarismo em 1966 e a formação da ARENA na Bahia Perspectivas iniciais Ao assumir o poder em 1964, o primeiro governo da ditadura manteve o calendário eleitoral previsto para o ano seguinte, contudo muniu-se de váriosmecanismos jurídicos que possibilitaram o controle das organizações políticas e sociais. Inicialmente promoveu um expurgo geral e, posteriormente, com a promulgação do Código Eleitoral, em meados de 1965, tornou inelegíveis todos os candidatos que ameaçavam a nova ordem. 1 Os militares “linha dura” receavam que o resultado das eleições pudesse comprometer a estabilidade do governo central e, assim, promovesse a agitação social nos principais estados da federação. Ocorre que as medidas preventivas não impediram a vitória de Francisco Negrão de Lima (PSD/PTB), na Guanabara, sobre o grupo de Carlos Lacerda e de Israel Pinheiro (PSD), em Minas Gerais, que derrotou o candidato de Magalhães Pinto. Juscelino Kubitschek, ao tomar conhecimento da vitória de seu amigo e colaborador na Guanabara, resolveu voltar ao país. Luiz Viana Filho compreendeu que o ex-presidente contrariara as advertências da direção do PSD, retornando, imprevista e apressadamente, do exterior no dia imediato às eleições: fora uma chispa no ambiente inflamável. Vinha saborear a vitória. E extenso corso de automóveis, bandeirolas, lenços brancos e aplausos de 1 O expurgo se deu pela cassação de mandatos eletivos, pela suspensão dos direitos políticos e pela demissão, disponibilidade ou aposentadoria de funcionários públicos com base no Ato Institucional de 9 de abril de 1964. As inelegibilidades decorreram da aprovação da Lei n.º 4737 que impediu, através de vários dispositivos, a inscrição de diversas pessoas como candidatos a governadores nas eleições de 1965. Todo o processo de preparação, votação e promulgação dessa legislação foi descrito por Luiz Viana Filho. O governo Castelo Branco. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975, p. 310 – 331. 60 correligionários deram ao desembarque tom festivo, como se estivessem a um passo do poder. 2 O resultado final das eleições foi favorável ao governo que elegeu governadores em nove estados. As derrotas no Sudeste, entretanto, tiveram enorme repercussão pelo caráter simbólico que adquiriram. Logo, os militares mais ortodoxos sugeriram impedir a posse dos eleitos. Para ganhar tempo e reduzir a pressão da “linha dura” sobre o governo, os ministros militares e o presidente incumbiram Luiz Viana Filho, futuro ministro da Justiça, de elaborar propostas ainda mais restritivas que seriam, primeiramente, remetidas para aprovação pelo Congresso Nacional. Essa proposta de Emenda Constitucional, que tinha como objetivos ampliar os poderes de Castelo e promover uma série de reformas, não foi aceita pelos parlamentares. Carlos Fico, entretanto, adverte que, mesmo prevendo a derrota, o governo enviou a proposta ao Congresso. Na verdade, Castelo corria o risco de ser derrubado por seus pares, mas não quis deixar transparecer que a imposição do Ato Institucional n.º 2 ocorreu por determinação dos oficiais “linha dura”. A tentativa de mudança da Constituição através do parlamento foi apenas uma manobra para justificar um ato de governo. 3 Uma vez imposta, essa legislação autoritária restringiu a autonomia do Legislativo e do Judiciário ampliando a área de jurisdição do poder Executivo, inclusive para decretar estado de sítio, o recesso do Congresso Nacional e intervir nos estados; definiu as eleições indiretas para presidente da República; extinguiu os partidos existentes; impôs vários impedimentos à criação dos novos partidos e ampliou as punições aos adversários da ditadura. Entretanto, o dispositivo jurídico não definiu regras claras para a organização dos novos partidos e deixou a meio caminho uma discussão, do mesmo teor, que vinha sendo feita pelos parlamentares desde o trimestre anterior, quando foi aprovada a Lei Orgânica dos Partidos Políticos. Contraditoriamente, foi com base na Lei dos Partidos que o Ato Institucional propôs a criação das novas agremiações partidárias, embora a 2 Ibidem, p. 332. 3 FICO, Carlos. O grande irmão: da operação Brother Sam aos anos de chumbo. O governo dos Estados Unidos e a ditadura militar. Rio de Janeiro: Record, 2008. 61 mesma não fizesse qualquer alusão à estrutura partidária ou à limitação do número de partidos. Criou-se, então, uma situação embaraçosa para o bloco parlamentar e demais aliados do golpe de 1964, porque, mesmo com a imposição do AI2, ainda não possuíam uma base referencial jurídica para constranger os congressistas e atingir o objetivo do poder executivo de concentrar domínio e reorganizar as forças políticas de acordo com o interesse ditatorial. Em conseqüência, os congressistas tendiam a se associar de forma ainda mais difusa do que a configuração anteriormente existente, contrariando os interesses do poder executivo de centralizar as decisões, medida que se tornava cada vez mais urgente e necessária para consolidar a ditadura. Ao final, com a decretação do Ato Complementar n.° 4, prevaleceu o propósito de aglutinar as forças políticas em dois blocos distintos que representassem a situação e a oposição ao governo do marechal Castelo Branco. Para esse fim, o recurso mais restritivo foi delegar exclusivamente aos parlamentares em exercício a função de organizar os futuros partidos políticos, impondo quorum mínimo e tempo escasso para o desempenho da tarefa.4 Demarcados todos os limites, não restou alternativa senão o bipartidarismo e, desta forma, a elite política da ditadura se alojou na Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Se a acomodação dos interesses individuais, das diferenças ideológicas e programáticas foi tarefa difícil em nível nacional, sua execução nos diretórios regionais do partido se tornou ainda mais penosa para os que acreditavam serem capazes de conduzi-la a termo. Os atritos existentes nas seções estaduais dos partidos se estenderam, também, aos governos estaduais e às assembléias legislativas travando-se uma disputa ferrenha por um parco quinhão de poder, agora exposto à aspiração de uma enorme concorrência. Na Bahia, por esse tempo, concorriam para predominar no panorama político Juracy Magalhães, Luiz Viana Filho e o governador Antônio Lomanto Júnior. Na mesma trilha estava um número razoável de outros pretendentes de menor cacife, Jutahy Magalhães e Antônio Carlos Magalhães, respectivamente filho e tutelado do dirigente 4 O Ato Complementar n.° 4, de 20 de novembro de 1965, definia que a iniciativa de criação dos novos partidos deveria ser exclusivamente de membros do Congresso Nacional e deveria ter no mínimo cento e vinte deputados federais e vinte senadores. Sobre o jogo estratégico das elites e dos militares nesse período ver: MOTTA, Paulo Roberto. Movimentos partidários no Brasil: a estratégia da elite e dos militares. Rio de Janeiro: FGV, 1971. 62 juracisista. Dentre eles, somente ACM, como ficou conhecido o mentor do carlismo, logrou sucesso e acumulou os maiores dividendos durante a ditadura. Ao longo desse capítulo, pretende-se situar como se acomodaram os personagens supracitados no diretório regional da ARENA, perceber seus deslocamentos nas sublegendas e compreender suas articulações com os demais núcleos decisórios de poder. O bipartidarismo e os interesses das elites regionais O governo Castelo Branco buscou legitimar seus instrumentos jurídicos discricionários por meio da cooptação ou submissão dos deputados e senadores no Congresso Nacional. No caso das Emendas Constitucionais propostas em 1965, a pressão sobre o PSD, o PTB e a UDN, por diferentes motivos, não surtiu o efeito esperado e a possibilidade de derrotada tropa civil governista era iminente. A indignação de alguns parlamentares, como expressou o deputado paulista Ewaldo Pinto, refletiu ao mesmo tempo preocupação com a ordem jurídica e desalento quanto à probabilidade de sua inversão: A Lei Orgânica dos Partidos Políticos resultou de quase um ano de estudos realizados por convocação e sob supervisão direta do Sr. presidente Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. Os estudos se iniciaram em novembro do ano passado, com a convocação dos Tribunais Regionais Eleitorais de todo o país. Portanto, a Justiça Eleitoral participou efetivamente, ofereceu alentados estudos sobre a matéria. Depois a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, ministros de Estado, estudiosos de ciências políticas, professores universitários, durante quase um ano, sob a direção e por convocação do Sr. presidente Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, também examinaram cuidadosamente o assunto. A Lei Orgânica dos Partidos e o Código Eleitoral, que ai estão, não representam pois, obras de um governo passado, não são da lavra revanchista de contra- revolucionários, de subversivos, de corruptos. É obra fundamentalmente do Sr. presidente Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. 5 5 Diário do Congresso Nacional, 20 de novembro de 1965, p. 9.886. 63 A reação parlamentar era motivada pela interferência na autonomia legislativa do Congresso Nacional uma vez que a proposta de reorganização partidária acima referida já estava sendo discutida. A legislação arbitrária não apenas antecipou conclusões sobre esse debate, excluindo, por exemplo, os partidos existentes, como impôs limitações às novas formas de organização dessas agremiações. Todavia, mesmo diante da insatisfação da oposição, o presidente cumpriu a ameaça de Juracy Magalhães, ministro da Justiça, e usou “de outros meios”, no caso, atos de exceção, para alcançar o objetivo. Os políticos, uma vez convictos da irreversibilidade da situação, começaram a especular sobre o caráter da reforma partidária, uma vez que o texto do Ato Institucional e a lei nele referida não faziam qualquer menção à organização e estrutura partidárias. Diante da situação, tornou-se imperiosa uma definição do governo que reuniu seus assessores mais próximos e iniciou os debates para formação dos novos partidos. Juracy Magalhães, admirador do modelo norte americano, logo passou a defender a tese do bipartidarismo e, antecipando-se a uma comunicação oficial, tornou pública a sua posição: O ministro da Justiça, que tem participado de todos os entendimentos patrocinados pelo presidente da República, disse que se acentua nas esferas do governo a tendência pelo bipartidarismo, chegando mesmo a lembrar a possibilidade de virmos a ter o Partido Republicano e o Partido Democrata ou o Partido Liberal e o Partido Conservador. 6 De pronto, a bancada juracisista na Assembléia Legislativa na Bahia e outros simpatizantes enviaram telegrama em apoio à tese do ministro da Justiça: Aplaudimos tese bipartidarismo atende melhor reordenação forças políticas sobre anular influência poder econômico época eleições. Ademais, não se criará faixa aglutinação espertos nunca se definem tempestivamente, só marchando para negociações apoio mediante vantagens, inclusive, multipartição cargos públicos. 7 6 A Tarde, 3 de novembro de 1965, p.3. 7 Ibidem. 64 A opção pelo bipartidarismo, todavia, não era consenso entre os aliados do presidente da República: O assunto não é, porém, pacífico, pois há no próprio Governo uma corrente que defende a existência de três partidos, de modo a que possa ser preservado o PTB, como expressão da esquerda brasileira. O governador Nei Braga, que esteve com o presidente da República, e o ministro Cordeiro de Farias, são pelos três partidos. Mas o Sr. Juracy Magalhães e grande grupo de líderes do governo entendem que o bipartidarismo é a solução que melhor convém ao país. 8 Curioso observar que, enquanto alguns encorajavam existência de três legendas pela possibilidade do terceiro partido vir a reunir os políticos de “centro”, outros criticavam a idéia porque entendiam que essa forma de divisão iria condensar a esquerda num único partido. Certamente que a vitória do bipartidarismo não se deveu ao simples desejo de copiar o modelo dos vizinhos do norte e sim aos interesses do governo. E seus interesses efetivos foram a concentração dos parlamentares em dois partidos para facilitar o controle e garantir a maioria nas votações. Convicto dos resultados imediatos dessa medida, o presidente Castelo Branco decretou o Ato Complementar n. ° 4 definindo claramente as regras para organização dos partidos provisórios até as eleições de 1966. Assim, a ditadura foi se adaptando à situação e, na medida em que encontrou resistências, foi criando os mecanismos jurídicos de ajustamento às contingências. A ARENA resultou desses procedimentos de ajuste e não poderia, portanto, ser um partido ideologicamente coeso ou programaticamente identificado. Seu dilema foi ser originário de legendas marcantes para servir a interesses de um grupo profundamente heterogêneo desde sua constituição, por isso, sua identidade deve ser buscada na ambivalência de suas ações e nunca na unidade de seus procedimentos. ARENA: novo partido e velhas origens Após a extinção dos antigos partidos políticos em 1965, todas essas ambigüidades desaguaram na ARENA, porque, apesar das especificidades da conjuntura em que foi criada, ela agregou a diversidade política oriunda das legendas 8 Ibidem. 65 anteriores. Maria D’alva Gil Kinzo salientou que, apesar do MDB ter sido formado com imensa dificuldade em virtude das exigências legais, na verdade, quem enfrentou maiores problemas, embora de ordem inversa aos da oposição, foi a ARENA: a dificuldade aqui era compor num único partido as diversas correntes estaduais e locais que optaram pelo apoio ao governo. Foi necessário que se prorrogasse por mais dois meses o prazo anteriormente fixado, de modo a se encontrar um meio para conciliar as forças divergentes, ou seja, a permissão de criar grupos opostos dentro do partido nas disputas eleitorais locais. 9 Foge aos objetivos propostos para esse estudo uma análise aprofundada sobre os partidos políticos brasileiros, entretanto, é imprescindível uma definição sobre os principais requisitos para a criação e o reconhecimento de um partido nos padrões estabelecidos pela sociedade contemporânea. 10 Na definição sociológica de Max Weber, o partido político possui antes de tudo um caráter associativo cuja ação direciona-se essencialmente para a conquista do poder político. Desde os partidos dos notáveis até os partidos de massa surgidos na Europa durante o século XIX, essa assertiva de Weber sempre pareceu apropriada para explicar os elementos imbricados na estrutura organizativa dos partidos. 11 Pressupõe-se, portanto, que, para o caso de uma caracterização preliminar em sentido amplo, esses requisitos seriam satisfatórios. Contudo, no debate sobre os 9 KINZO, Maria D’alva Gil. Novos partidos: o início do debate. In: Bolívar Lamounier (org.). Voto de desconfiança, eleições e mudança política no Brasil: 1970-1979. Petrópolis: Vozes, 1980. 10 Para uma discussão histórica e conceitual dos partidos políticos brasileiros ver: SOUZA, Maria do Carmo Campello. Estado e partidos políticos no Brasil (1930 – 1964). São Paulo: Alfa-Ômega, 1976. CHACON, Vamireh. História dos partidosbrasileiros: discurso e práxis dos seus programas. 2.a Brasília: Editora UNB, 1985; MONTEIRO, Brandão & OLIVEIRA, Carlos Alberto P. de. Os partidos políticos. São Paulo: Global, 1989; MOTTA, Paulo Roberto. Movimentos partidários no Brasil: a estratégia da elite e dos militares. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1971; ROQUIÉ, Alain. Os partidos militares no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1980; SCOTT, Mainwarning, MENEGUELLO, Rachel & POWER, Timoty. Partidos conservadores no Brasil contemporâneo. quais são, o que defendem, quais suas bases. São Paulo: Paz e Terra, 2000; REIS, Fábio Wanderley (org.) Os partidos e o regime: a lógica do processo eleitoral brasileiro. São Paulo: Símbolo, 1978; BENEVIDES, Maria Vitória de Mesquista. A UDN e o udenismo: ambiguidades do liberalismo brasileiro, 1945-1965. São Paulo: Paz e Terra, 1981; HIPPÓLITO, Lúcia. PSD de Raposas e Reformistas: e a experiência democrática brasileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985; DELGADO, Lucília de Almeida Neves. PTB: do getulismo ao reformismo (1945 – 1964). São Paulo: Marco Zero, 1989; DULCI, Otávio Soares. A UDN e o anti-populismo no Brasil. Belo Horizonte: Editora UFMG/PROED, 1986; OLIVEIRA, Lúcia Lippi. Os partidos políticos brasileiros: O Partido Social Democrático. Rio de Janeiro: [s.n.], 1973. (dissertação de mestrado). Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. 11 WEBER, Max. Economia e societá. Milano: Comunitá, 1961, pp. 241-242 e 718-728, v. II. In: Norberto Bobbio et. all. Dicionário de política. 5.a ed., São Paulo: UNB, 2004, pp. 898-905. 66 partidos brasileiros não se encontrou quem afirmasse que a estrutura dessas organizações se encaixasse rigidamente nos padrões weberianos. A coexistência de vários partidos políticos brasileiros e/ou de várias tendências em um mesmo grupo sempre apareceu como entrave à sua caracterização como partido, dada a maneira difusa como manifestavam suas posições. Contudo, as crises internas não se explicam pela inexistência de um perfil ideológico ou por eventuais divergências normativas, assim como as composições entre diferentes partidos não significam que os mesmos sejam desprovidos de diretrizes ou idéias mestras. No Brasil, há sempre um ponto de inflexão identificador do partido político como tal e, seja como for, as três maiores legendas do período anterior ao golpe de 1964 podem ser referência de tradição ideológica, mesmo com sua heterogeneidade e conflitos internos. O Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) foi dissecado por Maria Victória Benevides que buscou explicar o trabalhismo e o início de sua trajetória. Associando peleguismo e fisiologismo à sua prática, esse partido, referenciado em Getúlio Vargas, sempre apresentou dificuldades em se definir ideologicamente. Benevides admite que um dos principais objetivos da criação do PTB foi anular a influência dos comunistas nos sindicatos. Isso significa dizer que, pelo menos para parte da executiva e por certo tempo, o anticomunismo se constituía em elemento importante da tradição petebista. Lúcia Hipólito tem convicção de que a estruturação do sistema partidário pode determinar ou não a existência de crises políticas. Isso significa dizer que, segundo o modelo proposto por ela, o PSD teria sido um partido de centro com força suficiente para equilibrar o sistema partidário brasileiro entre 1945 e 1964. Suas hipóteses derivam de críticas à tipologia proposta por Giovanni Sartori, pela qual, os sistemas pluripartidários agrupam-se em pluralismo moderado e polarizado. Esses conceitos, definidos a seguir, compõem o referencial do autor citado. A moderação no sistema partidário plural é observada toda vez que a distância ideológica entre os partidos participantes é pequena, quando os partidos agem para preservar o sistema independentemente da posição que ocupam e o centro permanece vago apesar do desejo dos partidos em ocupar esse espaço. Sendo assim, todos procuram uma posição moderada no centro, sempre em busca do consenso e de coalizões ministeriais. Diferentemente, na polarização o centro político do sistema está ocupado, há grandes diferenças ideológicas entre os partidos e disputas entre a oposição e o sistema 67 governamental vigente. É improvável, segundo essa visão, a composição entre os elementos polarizados do sistema partidário. A concepção de centro político é a primeira retificação que Lúcia Hippólito faz ao modelo de Sartori visto que discorda da idéia do centro como um ambiente pulverizado e de amplo espectro. Ao contrário, esclarece ela, a dinâmica do sistema partidário não obedece, necessariamente, a uma deliberação individual dos partidos, sendo possível a existência de um partido vigoroso no centro. Assim, é possível existir um sistema pluralista moderado no qual o centro esteja ocupado por um partido consistente, e isso significa que: A existência mesma de um sólido partido de centro, que através de uma política de alianças e de coalizões alternativas atraia os outros partidos para uma posição de compromisso com a estabilidade do regime, é condição suficiente para o fortalecimento da tendência centrípeta e moderada do sistema – e não o oposto, como pretende Sartori. 12 Ao fazer a segunda retificação no pensamento de Sartori, a autora tem em mente as razões que levam a conversão de um sistema pluralista moderado em um sistema polarizado. Para o interlocutor de Lúcia Hippólito, quando o sistema multipartidário compõe-se de uma quantidade cada vez maior de partidos aumenta, também, a possibilidade de transformação do sistema em polarizado. Para ela, entretanto, Um sistema pluralizado moderado com o centro ocupado por um partido sólido se transforma em polarizado através de um processo de radicalização que atinge diretamente o centro do sistema, pulverizando-o; consequentemente, o centro político desaparece, embora o partido de centro possa continuar existindo. Entretanto, este partido é minado por um processo de fragmentação interna, que impede a manutenção da tendência centrípeta do sistema. 13 Desse modo, para confirmar suas hipóteses, Lúcia Hippólito considera que o PSD foi este partido sólido que garantiu, no interregno democrático entre Vargas e o golpe de 1964, a estabilidade política brasileira. De modo similar, o mesmo partido de 12 HIPPÓLITO, Lúcia. PSD de raposas e reformistas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. p. 31. 13 Ibidem, p. 34. 68 centro, sólido e moderado, se fragmentou devido às divisões internas, confrontos entre a base e a cúpula, entre a bancada e o diretório e, por isso, deixou de ser o estabilizador do sistema provocando o colapso de 1964. Essa conclusão sustenta-se na tese de que, naquele momento, havia um alto grau de radicalização das forças políticas conforme o pensamento de Wanderley Guilherme dos Santos, do qual a autora é devedora. Particularmente, nos interessou extrair da obra de Lúcia Hippólito as considerações acerca da existência de múltiplas variáveis na composição do PSD que vão das raposas tradicionais aos jovens reformistas. Ficou evidente no “manual do bom pessedista” a preocupação com a definição ideológica do partido e com suas vinculações sociais. Geralmente definido como um partido de centro e tendo como base social proprietários rurais, comerciantes e funcionários públicos, o PSD sempre buscou a aliança interpartidária para aprovar projetos de seu interesse no Congresso, afirma Lúcia Hipólito. Ao formular hipóteses sobre essas alianças parlamentares, a autora destacou as questões pragmáticas do acordo, entretanto, não desprezou a existência e a importância do caráter ideológico para essascoligações. Segundo ela, na aprovação de projetos de interesse comum “o partido majoritário se alia a todos os partidos ideologicamente mais próximos do principal oponente, deixando-lhe a possibilidade remota de se aliar a um partido ideologicamente antagônico”. 14 Esse pragmatismo político dos partidos brasileiros não é incompatível com a possibilidade de se referenciarem por princípios ideológicos vinculados, muitas vezes, a temas expressivos que importam realmente à categoria base daquela agremiação política. Isso porque, a formação das alianças partidárias dentro do Congresso resulta muito menos da deliberação individual dos partidos que do quadro institucional dentro de cujos limites se processa a vida parlamentar. Num regime democrático pluripartidário, a necessidade de se coligar advém do fato de que nenhum partido, ainda que majoritário, obtém a maioria absoluta das cadeiras. 15 14 Ibidem, p. 65. 15 Ibidem, p. 64. 69 Partindo ainda do pressuposto de que a ambivalência de diferentes forças numa mesma legenda não invalida a sua organicidade como partido político, iremos examinar a questão a partir de duas obras clássicas e perceber que posições foram defendidas por Maria do Carmo Campello de Souza e Maria Vitória Benevides sobre essa controvérsia. No primeiro caso, Campello de Souza abordou a relação entre os partidos políticos brasileiros e o Estado, nas duas décadas anteriores ao golpe e sinalizou com a tese do funcionamento sistêmico das legendas partidárias e a sua institucionalização. Ela definiu por sistema partidário “o interesse conjunto de relações de diversos partidos entre si, com o corpo eleitoral e com os grupos de interesse, por um lado, e com os diversos aparatos que compõe o Estado, em sentido estrito, por outro”. Ao exercício do controle e influência recíprocos entre os partidos e o Estado, de modo a assegurar estabilidade governamental, ela nomeou de institucionalização, ainda que “isto se dê de maneira camuflada, como a institucionalização de facções e normas de convivência dentro de um partido único ou dominante”. 16 A conveniência de obter aporte teórico numa obra clássica como essa é exatamente a coincidência entre sua elaboração e o contexto abordado. Nela, três aspectos chamaram atenção: a conexão entre o partido e a funções governamentais do Estado, a existência de partidos ideologicamente divergentes e o caráter positivo das alianças e coligações. Em certo sentido, mesmo que se faça restrições à noção de sistema ou a sua tese de institucionalização e do aparelhamento do sistema partidário, seu argumento a respeito da interferência dos partidos nas decisões de governo e vice-versa é muito interessante: O problema decisivo a respeito do sistema partidário é o grau em que ele consegue se constituir como centro de gravidade da política nacional, o que implica, de um lado, efetiva capacidade de formulação de política, e de outro, controle sobre os pontos de decisão. 17 16 SOUZA, Maria do Carmo Campello de. Estado e partidos políticos no Brasil (1930-1945). São Paulo: Alfa e Ômega, 1976, p. 43 e 50. 17 Ibidem, p.57. 70 Contrapondo-se às afirmações dos intelectuais liberais que insistiram na inviabilidade de partidos brasileiros, especialmente os de massa, ela explicou as razões dos receios ao vigor ideológico dos partidos republicanos: [...] ideólogos e homens de ação, representantes das mais diversas correntes, pouco diferiam, nos anos 30, em sua concepção sobre o papel dos partidos políticos na evolução política brasileira. Temerosos, por um lado, de uma crescente marginalização face às medidas centralizadoras do governo, e perplexos, por outro, em face aos primeiros sinais de participação política das camadas médias e populares urbanas, mesmo os liberais mais convictos parecem incapazes de visualizar uma nova etapa de desenvolvimento político, fundada em partidos de base social mais extensa. Presos a uma visão dos partidos como associações de “notáveis” e do Congresso como arena para a representação de interesses regionais, seu despreparo é patente, e amplo o terreno que cedem às doutrinas autoritárias, então notavelmente loquazes. 18 Nesse contexto, a tentativa de centralização do governo varguista contrapunha- se à autonomia das oligarquias estaduais e a uma estrutura política regionalizada. Tudo isso refletiu negativamente na organização de partidos políticos de massa. Após o Estado Novo, entretanto, os partidos políticos se organizaram em bases nacionais e com maior representatividade eleitoral. De 1945 em diante, o país passa a desejar “partidos fortes, competitivos e ideologicamente diferenciados”. 19 Naturalmente predominaram os partidos de quadros e a participação popular continuou reduzida, contudo, o sistema partidário se fortaleceu, tornou-se plural e estruturalmente complexo, evitando o controle unilateral do poder. Todavia, nessa forma de organização os partidos não produziram força eleitoral suficiente para hegemonizar as eleições e acabaram se associando para alcançar resultados favoráveis. Voltando ao ponto de partida, vale ressaltar que a autora em questão, apesar de apontar restrições ao funcionamento partidário brasileiro não considerou que, por suas características, os partidos fossem inconsistentes ideologicamente. Enquanto todos percebiam a associação dos partidos como sinal de fraqueza, ela endossou a afirmação de Gláucio Soares, segundo a qual “O aumento da proporção de eleitos por alianças e coligações ao longo do período decorreu da importância crescente da disputa eleitoral, indicando, não 18 Ibidem, p. 80, 81 e anteriores. 19 Ibidem, p. 169. 71 uma conduta irracional, mas ao contrário, crescente racionalização das estratégias partidárias”. 20 Considerando-se satisfatórias as explicações dessa tese sobre a evolução bem como a crise do sistema partidário nas décadas anteriores à ditadura e suas conclusões sobre a organização e desempenho dos partidos, convém, ainda, verificar se a outra análise, direcionada especificamente à UDN, também permite considerar os fatores programáticos e ideológicos como diferencial dos partidos brasileiros que precederam a ARENA. Maria Vitória Benevides, em obra bastante difundida, destacou a UDN como uma frente ampla, ambígua, heterogênea e com um programa político ligeiramente ajustado no decorrer de sua existência. Nos processos eleitorais, foi sempre derrotada, sendo vitoriosa, apenas, no momento mais crítico quando Jânio Quadros assumiu a presidência. Constrangida por apoiar um governo que não era seu e ainda assim em crise, reabilitou antigas propostas golpistas que aos poucos ganharam força até o ponto de se transformar numa das principais forças civis responsáveis pela desestabilização do governo João Goulart e solidária ao golpe de 1964. 21 A essa postura ambígua, à diversidade de posições e aos conflitos notados na dinâmica interna do partido, ela associou uma série de outras características como o liberalismo, o elitismo, o bacharelismo e o moralismo. No entanto, a UDN continuou sendo um partido político na percepção da autora. Benevides, entretanto, percebe uma dubiedade ideológica na UDN na medida em que, sendo essencialmente liberal, comportou-se reiteradamente de modo golpista: Sua ‘vocação’ liberal, em muitos sentidos anacrônica, em outros francamente colorida no autoritarismo e no elitismo, não se encarnava em práticas concretas. A ambigüidade do liberalismo udenista ai também se revela: a UDN era progressistaenquanto inimiga do Estado Novo, e reacionária enquanto seduzida no saudosismo histórico, sem uma proposta concreta para o futuro. Em outros termos, a UDN se revela progressista no que se opõe e reacionária no que propõe. [...] Com essa indefinição ideológica evidente – a vergonha de ser ostensivamente autoritária e o medo de ser inteiramente democrática – a UDN perde sempre o poder quando o alcança. 22 20 Apud Souza, Op. Cit., p. 154. 21 Op. Cit. pp. 15 a 146. 22 Ibidem, pp. 282 e 283. 72 Essa ambigüidade da UDN, no entanto, foi relativizada quanto considerada a relação entre a estrutura do partido e sua dinâmica interna, motivo pelo qual nem a caracterização partidária ou os pressupostos ideológicos podem ser menosprezados: Apesar da ênfase dada à característica, comum a todos os partidos brasileiros, do forte esquema de alianças e coligações eleitorais, conclui-se pela afirmação de que a UDN existia como partido exatamente na entressafra eleitoral, quando fixava-se nos grandes temas e no estilo próprio de sua linha política. Tal assertiva contraria a fama de ‘partido intermitente’ vigente apenas nas lutas eleitorais, mas não invalida, por outro lado, a veracidade da autonomia das seções estaduais. 23 Em essência, a UDN, ao mesmo tempo em que atuava de modo ambíguo, possuía uma característica ideológica que a diferenciava dos demais partidos. Embora essa característica fosse predominante no partido, isso não significou que fosse unânime e a posição de diversas UDN’s podia variar de acordo com as circunstâncias e do pêndulo do poder dentro do partido. Os partidos políticos brasileiros, portanto, são singulares neste sentido e essas características não os tornam inviáveis como tal. Ao contrário, a experiência demonstrou um aperfeiçoamento do sistema partidário no Brasil ao longo do tempo. Mesmo no caso da ARENA, na qual desaguaram todas as ambiguidades e contradições das legendas anteriores, os indivíduos que a compunham possuíam idéias e interesses comuns. Em uma tabela apresentada por Maria D’alva Gil Kinzo, é possível constatar que cerca de 90% dos deputados da UDN filiaram-se a ARENA, do PSD 65%, enquanto, apenas 30% do PTB migrou para o partido governista. Conquanto faça sentido que muitos tenham feito a opção de ficar na ARENA por uma “questão de sobrevivência política”, observa-se uma linha de continuidade na macro-política, visto que, o viés conservador permanece na composição do novo partido. Do mesmo modo, não se pode desconsiderar que a formação dos blocos parlamentares após a extinção dos partidos representou a insistência em demarcar claramente as diferenças ideológicas. Por outro lado, a dinâmica política e eleitoral durante a ditadura não funcionou sempre na órbita do governo ou em função dele. Estudos de vários autores mostram que, 23 Ibidem, p. 278. 73 nas eleições de 1974, o eleitorado brasileiro tinha preocupações políticas e a definição do voto não ocorria apenas em função de benefícios pessoais ou comunitários. Os eleitores manifestaram sua preferência por este ou aquele partido e nela transpareciam questões como eleições diretas, legislação de exceção, desenvolvimento e atuação governista. 24 Enfim, os partidos políticos durante a ditadura foram dinâmicos e por isso se constituíram em espaços importantes de decisão. Se ao final, houver consenso sobre a existência concreta de partidos políticos no período precedente à reforma partidária em 1965, não parece haver dúvidas de que a ARENA apenas agregou todas as ambivalências que caracterizavam os partidos formadores da frente política de apoio à ditadura. A formação da Aliança Renovadora Nacional O artigo 18, do Ato Institucional n.° 2, de outubro de 1965, extinguiu os trezes partidos políticos existentes e transferiu, através do Ato Complementar n.° 4, aos deputados federais e senadores à atribuição de criar os novos partidos, com base na Lei 7.470, que dispunha sobre o Estatuto dos Partidos Políticos. As legendas a serem criadas num prazo recorde de um mês e meio eram provisórias e seus registros teriam validade apenas para as eleições de 1966. Nessas primeiras eleições gerais após o golpe de 1964, somente os senadores, deputados federais e estaduais, vereadores e alguns prefeitos, foram eleitos diretamente pela população. Os cargos de presidente da República e de governadores estaduais foram ocupados por indicação legislativa e, por isso, foi importante um controle rígido do Congresso Nacional e dos parlamentos estaduais e municipais. A criação da Aliança Renovadora Nacional, nome escolhido pessoalmente por Castelo Branco, cuja sigla inicial era apenas ARN, foi um processo bastante desgastante e confuso, principalmente em função dos ajustes anteriormente existentes e da relação situação/oposição que seria estabelecida a partir da nova configuração dos partidos. 24 REIS, Fábio Wanderley (Org.). Os partidos e o regime: a lógica do processo eleitoral brasileiro. São Paulo: Símbolo, 1978. 74 Paulo Roberto Mota explica que, se por um lado, um grande número de legisladores subscreveu o requerimento para organização do partido da situação inviabilizando a criação de outra legenda de oposição, por outro, a grande afluência de diferenciadas correntes para um mesmo bloco causou sérios conflitos, notadamente em nível regional. 25 A Aliança Renovadora Nacional acabou por reunir uma quantidade muito maior de deputados e senadores do que o quorum mínimo. O empenho pessoal de Castelo Branco e o artifício da proporcionalidade fizeram afluir para a ARENA políticos de todas as antigas legendas. 26 No entanto, o cumprimento dos requisitos legais não significou a imediata harmonia política. A formação do diretório nacional foi o sinal mais evidente e instantâneo da ambivalência dos grupos agregados na ARENA. A composição do escalão superior era proporcional ao peso político dos antigos partidos, ou seja, repetia-se no comando do novo partido a mesma correlação de poder anterior à reformulação partidária. Compunham o diretório nacional da ARENA cinco antigos membros do PSD, três da UDN, dois do PTB e um do PTN. Sintomaticamente, refletia-se não somente a correlação de forças, como também a proporção em nível ideológico, uma vez que os trabalhistas, aliados do governo deposto, eram numericamente inferiores aos demais partidos em seu conjunto. Num dos eixos da discussão está a posição de Paulo Roberto Motta, segundo a qual os partidos brasileiros, incluindo a ARENA, são monopolizados por uma elite agrária que interfere diretamente em sua formação, divisão ou extinção. No caso específico do período ditatorial, essa influência foi exercida por ex-integrantes do PSD e da UDN complementada com o controle militar da vida política. No outro, está a relação entre esses interesses, porventura existentes e determinantes, e os objetivos do programa partidário da legenda em questão. 27 O conteúdo programático da Aliança Renovadora Nacional propunha a implantação de uma democracia pacificadora, o desenvolvimento econômico aliado à transformação social, a integração e a soberania do território nacional. As questões vinculadas ao desenvolvimento nacional e as restrições ao comunismo integravam o programa desse partido. 25 MOTTA, Paulo Roberto. Movimentos partidários no Brasil: a estratégia da elite e dos militares. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1971, pp. 70 e 71. 26 Segundo Motta, foram 240deputados federais e 32 senadores que aderiram ao bloco do governo. Ibidem, p. 71. 27 Op. Cit., pp. V a XV e 35 a 82. 75 Pressupunha o referido documento que a pacificação da sociedade seria alcançada com um desenvolvimento econômico que integrasse no mercado, ao mesmo tempo, o campo e a cidade. A reforma agrária seria admitida sempre que a estrutura fundiária representasse entrave ao desenvolvimento e à integração das regiões brasileiras. Não por acaso o tópico relativo a esse tema está no capítulo relativo à integração nacional. 28 O trabalho, a saúde, a educação e a habitação foram compreendidos numa perspectiva assistencialista, segundo a qual a população, tutelada pelo Estado, atingiria o pleno bem-estar. A finalidade precípua de tais preocupações com a sociedade era garantir “um regime de paz social” e “solucionar os conflitos entre grupos e indivíduos”. Uma boa parte do programa arenista destacava as Forças Armadas, notadamente, quando tratava da soberania nacional e da integridade territorial brasileira. São explícitas as referências ao anticomunismo e a adesão ao “modelo democrático ocidental”, bem como a defesa da harmonia na esfera militar, de sua modernização e integração com os demais segmentos da sociedade. Para a Aliança Renovadora Nacional, a inserção das Forças Armadas nos campos econômico, social e político era essencial para o desenvolvimento nacional, a integração regional e internacional e a preservação dos valores, da cultura e da soberania brasileiros. A predominância de uma elite agrária nos núcleos de decisão do governo federal, especialmente no partido de situação, como foi notado por Paulo Roberto Motta, não é um fator desprezível. Contudo, analisando o programa partidário não é possível notar um direcionamento político ou econômico que favoreça diretamente esse setor. Ao contrário, já foi visto que as políticas de ajuste de preços e controle do crédito no governo Castelo Branco retraíram a produção e o consumo para evitar o crescimento da inflação e, nesse ponto, os interesses do governo, dos empresários e dos produtores rurais, colidiam. Não obstante, a elite estava consciente da necessidade do desenvolvimento do país e suas representações partidárias influenciaram o parlamento e o governo nas políticas econômicas com essa finalidade. Isso levar a crer que a Aliança Renovadora Nacional, como os demais partidos brasileiros que o precederam, apesar da diversidade de sua constituição e ambivalência 28 Programa da Aliança Renovadora Nacional. Apud: Vamireh Chacon. História dos partidos brasileiros: discurso e práxis dos seus programas. 2.a ed., Brasília: Editora UNB, 1985, pp. 499 a 516. 76 de suas ações, possuía um conteúdo programático referenciado no pensamento de sua direção e de suas bases sociais e a prática política se orientava por ele. Em suma, as contradições encontradas na ARENA, em situações pontuais, refletem o pragmatismo político de suas bases e lideranças, particularmente em processos pré-eleitorais e na disputa pelo poder, devendo ser compreendidas como ambivalência de aspectos e valores que não descaracterizam a noção de partido em sua concepção mais elementar. Mas, de qualquer modo, as diferenças apontadas tiveram repercussão na ARENA e os desentendimentos nos diretórios regionais foram os maiores desafios à unidade partidária porque ali se manifestaram, concretamente, as hostilidades pessoais, os interesses regionais e as refregas pelo loteamento dos espaços nas arenas decisórias. Por conseguinte, como se verá na Bahia, ali se observou as técnicas mais sofisticadas de cooptação e agregação virtual de diferentes setores da política regional visando alcançar ou manter o poder. A formação do diretório regional da ARENA na Bahia Como se verá adiante, o governador da Bahia foi eleito, em 1962, por uma aliança dos principais partidos existentes à época. Pode parecer ao observador menos atento que essa conciliação para eleger Lomanto Júnior tivesse favorecido a coesão para organização da ARENA na Bahia, contudo, a mudança no cenário político nacional e a aproximação de novas eleições abriram outra concorrência para alteração na correlação de forças entre os segmentos da política baiana. Num primeiro momento, a prioridade geral foi o alinhamento político e ideológico com o governo Castelo Branco e, em contrapartida, o apoio federal para solidificar um grupo dominante em nível estadual. No desdobramento, particularmente em 1966, cada fração da elite tentou a ampliação da influência na formação do diretório regional da ARENA, a eleição de uma ampla frente parlamentar de apoio e a indicação de seus correligionários para os cargos de governador e prefeito da capital. O salto mais expressivo nesse sentido foi dado pelo próprio governador Lomanto Júnior que, se desligando do PTB, levou consigo um séquito considerável e uma virtual possibilidade de integração do partido ao bloco situacionista. Tal iniciativa se justificou 77 quer pelo temor das ligações do PTB com Jango e Vargas ou pelo espectro do anticomunismo como se observa nesse comentário: A sensação que causa a retirada do Sr. Lomanto Júnior dos quadros petebistas é a de um completo esvaziamento desse partido na Bahia e a perda, no âmbito nacional, da melhor “ponte” que teria para qualquer entendimento com forças políticas da situação. Como irá manter-se, neste Estado, o PTB não se sabe. Mas não é difícil prever- se que o claro aberto com a saída do governador e do cortejo que o acompanhou venha a ser preenchido por subversivos que o colocarão ainda mais na mira das forças responsáveis pelo status quo estabelecido pela revolução. Irá tornar-se um partido perigoso para quem deseje permanecer em suas hostes sem se ver envolvido em atividades subversivas. Até mesmo a sua aliança pode se tornar indesejável, pois como ensina o velho provérbio “diz-me com andas e te direi quem és”. 29 Na bancada parlamentar estadual, o deputado Renato Medeiros Neto foi o único a permanecer no PTB. Do seu discurso emana, ao mesmo tempo, um forte compromisso ideológico com o partido e a incerteza do seu futuro político: É mais um episódio lamentável da vida do meu partido, que vive ainda sob o signo das lutas por lideranças efêmeras, às quais se obstinam em ignorar as verdadeiras responsabilidades partidárias. Sigo uma filosofia – a do trabalhismo autêntico – sem sujeitar-me às lideranças individuais. Permaneço como simples soldado, no PTB, julgando ai estar a minha missão, qual seja a de contribuir para que algum dia venha a se tornar um partido realmente grande e capaz de exercer a sua verdadeira finalidade sem qualquer preocupação de ordem eleitoreira. No exercício do meu mandato permanecerei apoiando o governo do Estado, por não ter razões para tomar atitude em contrário. 30 Um manifesto lançado pelo governador em 8 de setembro de 1965 e referendado por dezenas de deputados estaduais, prefeitos do interior e membros do diretório regional, dava como razão para a debandada em massa não compactuar com a “traição ao programa do partido pela minoria que dele se apoderou até março de 1964” e que 29 A Tarde, 10 de setembro de 1965, p.3. 30 A Tarde, 10 de setembro de 1965, p.3. 78 “transitoriamente no domínio da agremiação, quer impor-lhe uma orientação evidentemente ruinosa aos interesses da Bahia, do país e da massa trabalhadora”. 31 Ao programa do PTB se davam duas interpretações diferentes: uma autodenominada “autêntica” e obviamente vinculada aos trabalhistas históricos, queainda acreditava na reversão da situação política emanada do golpe de 1964 e outra vanguardista e protetora, preocupada em manter uma posição “adesista” em benefício da classe trabalhadora. Em ambos os casos, a discussão girou em torno do programa do partido que, embora se adequasse às conveniências, sempre se norteou pelas idéias do trabalhismo brasileiro. Lomanto Júnior e os demais ex-petebistas foram convidados pelo presidente do Partido Democrata Cristão, Franco Montoro, para ingressar nos quadros do PDC. Isso calhou perfeitamente com os planos do governador da Bahia que encontrou ali, junto com outros governadores, uma sólida base de apoio ao presidente Castelo Branco. 32 A situação do vice-governador Orlando Moscoso, do extinto PSD, foi mais delicada porque seu partido havia se organizado no Congresso Nacional para apoiar o ex-presidente Juscelino Kubitschek contra as novas cassações. Na Bahia, divulgaram um ousado manifesto comunicando a intenção de criar um novo partido dentro dos mesmos princípios programáticos que orientaram o PSD. Essas iniciativas pessedistas irritaram profundamente o ministro da Justiça, Juracy Magalhães, e o presidente Castelo Branco. 33 O retorno de Juracy Magalhães ao Brasil depois de atuar como embaixador brasileiro nos Estados Unidos favoreceu o surgimento de especulações sobre sua indicação para suceder Castelo Branco. A pressão da “linha dura” favorável ao nome do general Costa e Silva logo arrefeceu o ânimo juracisista que se dedicou a cumprir a missão de fazer aprovar as emendas constitucionais no Congresso. Como visto, suas tentativas foram frustradas e Castelo Branco editou o Ato Institucional n.º 2. Preocupado com a situação política na Bahia, Juracy aproveitou a presença do governador Lomanto Júnior na sua recepção e inteirou-se dos fatos. Dias depois, em seu discurso de posse, Juracy Magalhães tratou de resolver a situação de sua liderança política na Bahia dedicando boa parte de sua preleção à sua relação com o antecessor, Luiz Viana Filho. Replicando os elogios deste último tratou de marcar as diferenças: 31 A Tarde, 10 de setembro de 1965, p.4. 32 A Tarde, 23 de setembro de 1965, p.3. 33 A Tarde, 06 de novembro de 1965, p.3. 79 O que o ministro Luiz Viana não disse é que nós nos vemos de dois ângulos diferentes da vida pública. Como amigos e como adversários. A nossa amizade se sedimentou através de lutas e, quando se firmou, foi para sempre, porque eu o vejo, na sua personalidade, como uma das figuras melhores da vida pública do meu estado em todos os tempos. Ele guarda em si mesmo as forças da renovação e da tradição. Não envelhece. Ele se renova sempre. 34 Sendo um político astuto e habilidoso, Juracy tinha consciência que esses momentos de indefinição favoreciam as mudanças e, por isso, distinguiu claramente as características do juracisismo e o do vianismo e demarcou a posição de cada um na política regional. Manifestou-se, desse modo, a diversidade partidária e pessoal, com suas respectivas concepções, cuja solução imediata resultou na acomodação das sublegendas da ARENA por critérios de afinidade, cooptação ou mera conveniência. Nenhum desses aspectos é nulo de sentido político ou deve ser excluído da análise sobre o comportamento partidário no período em estudo. Tradições e contradições da elite política estadual Das correntes que se destacaram no panorama político da Bahia durante a vigência da ditadura, o lomantismo, de Lomanto Júnior, e o vianismo, de Luiz Viana Filho, foram desdobramentos do autonomismo de Otávio Mangabeira, falecido em 1960. Originalmente, o mangabeirismo e o vianismo compunham uma frente única em favor da autonomia estadual e contra a intervenção varguista na década de 1930. 35 Já o juracisismo, do interventor de Getúlio Vargas, e Antônio Carlos Magalhães se associaram na década de 1950, em virtude de laços familiares pretéritos. Nesse intervalo, ocorreram, em períodos pré-eleitorais, algumas alianças entre juracisistas, 34 A Tarde, 20 de outubro de 1965, p.4. 35 Ao retornar do exílio, Otávio Mangabeira teve o firme propósito de fazer oposição a Getúlio Vargas e, por esse motivo, filiou-se à UDN, onde estavam, também, Juracy Magalhães e Luiz Viana Filho. Derrotado na campanha de 1950, Juracy aceitou o convite de Vargas para a presidência da Companhia Vale do Rio Doce e passou a cooperar com seu governo, contrariando o desejo de seus companheiros udenistas na Bahia. Otavio Mangabeira e Luiz Viana Filho, entre outros, passaram a integrar uma dissidência dentro da UDN chamada “ala autonomista” que, posteriormente, se desligou do partido e formou a seção baiana do Partido Libertador (PL). 80 mangabeiristas e vianistas, especialmente após o rompimento de Juracy Magalhães com Getúlio Vargas em 1937. Ao longo da segunda metade do século XX, os grupos citados evoluíram em torno de seus líderes e disputaram hegemonia nas seções regionais de suas agremiações partidárias e na Assembléia Legislativa - núcleos fundamentais de decisão na esfera estadual - com a finalidade precípua de ocupar o palácio do governo. Exatamente por essa motivação, na ocorrência do golpe de 1964, todos eles compunham um grande arco de alianças que sustentava o governo de Lomanto Júnior. Antes, porém, de situar cada um deles na política estadual recente é conveniente recuar um pouco mais na história para compreender os desdobramentos que culminaram nessa formação. A proclamação da República em 1889 foi um duro golpe nas elites tradicionais da Bahia, avessas a qualquer tipo de transformação. A decadência econômica do setor agrário e o fim do regime de escravidão durante aquele século já tinham causado grandes danos aos grupos dominantes da terra mater brasileira. Aos poucos, entretanto, foram se adaptando à nova situação política do país cuidando dos dedos e de alguns anéis. Esse processo de adaptação conduziu, como é notório, ao desenvolvimento de um sistema político concentrador e governista, na medida em que o poder convergia para um chefe local que operava com apoio dos governos estadual e federal. 36 Luiz Viana Filho seguiu o exemplo de seu pai que, nas décadas finais do Império, foi um político bastante influente e se manteve como uma liderança indiscutível nos primeiros anos da República. Quando Getúlio Vargas saiu vitorioso em 1930, Luiz Viana Filho acompanhou Otávio Mangabeira ao exílio e recebeu dele a influência liberal. 37 No outro extremo encontra-se Juracy Magalhães que, com a ascensão varguista ao poder, foi indicado interventor na Bahia. O militar cearense, adepto do movimento tenentista de 1920 e da Revolução de 1930, sempre esteve muito próximo do pensamento político liberal contrapondo-se à estrutura rural e clientelista que dominou a política brasileira na República Velha. Não obstante, ser representante do processo revolucionário que, teoricamente, consistia no rompimento com o “atraso” das elites 36 TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 10.ª ed. (revista e ampliada) São Paulo: UNESP/ Salvador: EDUFBa., 2001. p. 293 – 307; e RUY, Affonso. História da Câmara Municipal de Salvador. Salvador: CMS, 1953. p. 333 – 346. 37 ABREU, Alzira Alves de et.all. (Coord.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro Pós – 30. 2.ª ed., Rio de Janeiro: Ed.Fundação Getulio Vargas, 2001, p. 6049. 81 agrárias latifundiárias e clientelistas, Juracy Magalhães acabou por associar-se ao segmento da elite que pretendia combater. O pragmatismo superou as divergênciasideológicas iniciais por conta da reação orgânica dos coronéis à chegada do interventor, como constata o próprio Juracy: Logo ao chegar, consegui o milagre da unanimidade baiana. Todas as correntes se uniram contra mim. O Partido Autonomista de J.J. Seabra, de Simões Filho, dos Calmon, dos Mangabeira e dos Madureira de Pinho, lançou slongas para me constranger. Até Luiz Vianna Filho, (sic) que depois formaria a meu lado na UDN, manifestou-se, nesse tempo, como um autonomista enragé, declaradamente meu adversário. Eu era, de fato, um estranho no ninho, um tenente forasteiro que ousava pisar naquele solo sagrado há muito presidido por santos irredutíveis e ciumentos. 38 Juracy permaneceu no governo da Bahia até a instauração do Estado Novo em 1937 quando rompeu com Vargas. Apoiado pela coligação de coronéis do interior conseguiu vencer a oposição de Otávio Mangabeira e Antônio Balbino e eleger a maioria dos deputados à Assembléia Constituinte estadual. No mesmo ano, os deputados constituintes o indicaram governador para o mandato constitucional iniciado em 1935. Em 1947, no primeiro pleito após a redemocratização do país, Otavio Mangabeira, agora na União Democrática Nacional, se elegeu governador da Bahia39. Um eventual apoio do líder estadual da UDN, Juracy Magalhães, ao último governo de Vargas levou Otávio Mangabeira a criar uma ala autonomista dentro do partido e, em seguida, ligar-se ao Partido Libertador (PL) no final de 1954. Nesse mesmo ano, o balbinismo, grupo político liderado por Antônio Balbino (Partido Social Democrático – PSD) apoiado por Otávio Mangabeira e uma frente ampla de oposição a Juracy Magalhães, venceu as eleições para governo estadual. Na eleição seguinte, em 1959, Juracy Magalhães foi reconduzido ao palácio estadual pela legenda da União Democrática Nacional (UDN). Por ocasião do seu falecimento em 1960, o grupo de Otávio Mangabeira perdeu expressão no conjunto da elite política na Bahia. 38 GUEIROS, José Alberto. Juracy Magalhães: o último tenente (depoimento). 3.ª ed., Rio de Janeiro: Record, 1996, p. 128. 39 Um dos maiores articuladores para a criação da UDN na Bahia foi Juracy Magalhães. Otávio Mangabeira retornou do exílio em abril de 1945 e, logo depois, se filiou a esse partido. 82 Ao governo de Juracy Magalhães, sucedeu Lomanto Júnior (1963–1967), político municipalista, originário da corrente liberal articulada nas décadas anteriores por Otávio Mangabeira. Sua atuação política foi intensa como vereador, na condição de deputado federal por três legislaturas e uma vez deputado constituinte e no cargo de senador. Durante quase meio século de vida pública, manteve sempre a postura ideológica liberal. 40 As sucessivas alianças entre legendas partidárias constituídas em função de pleitos eleitorais descaracterizaram, em vários momentos, seus conteúdos programáticos e suas tendências ideológicas conferindo a sensação de simetria no ideário dos partidos. No entanto, tais partidos, representados pelos grupos em evidência, traduziam diferentes setores da sociedade baiana e possuíam marcantes diferenças ideológicas.41 Otávio Mangabeira, um autonomista dentro da UDN, era um liberal histórico, defensor das liberdades democráticas e opositor ferrenho de Getúlio Vargas.42 Antônio Balbino, descendente da oligarquia agrária do interior do estado, sempre esteve muito próximo de Otávio Mangabeira, contudo, suas convicções não eram tão firmes e essa influência foi desaparecendo gradativamente após o golpe de 1964 quando se filiou ao MDB. Luiz Viana Filho, conquanto fosse um político de família tradicional e conservadora, apoiado pela elite agrária do estado, também foi um sistemático opositor de Vargas e constante aliado de Otávio Mangabeira nas dissidências autonomistas da UDN. Juracy Magalhães, o interventor de Vargas, esteio da Aliança Liberal, era um ousado defensor da modernização política e econômica do país por meio do processo de industrialização e da livre concorrência. As distinções apontadas acima não inviabilizaram os arranjos, muito comuns à época, para ocupação dos cargos públicos, contudo, houve demarcação clara de posições no campo político e ideológico, razão pela qual os pactos eleitorais não se sustentavam e os rompimentos ocorriam logo depois. Todavia essa elasticidade 40 O municipalismo foi uma corrente formada por vários prefeitos que propunha a reforma da Constituição Federal a fim de permitir autonomia e maior participação dos municípios na distribuição dos recursos financeiros. 41 O conceito de ideologia aqui empregado difere do sentido marxista de falsa consciência e pode ser tipificado como de “significado fraco” como quis Norberto Bobbio já que designa “o genus diversamente definido dos sistema de crenças políticas: um conjunto de idéias e valores respeitantes à ordem pública e tendo como função orientar os comportamentos políticos coletivos”. BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. 5.a ed., São Paulo: UnB, 2004, p. 585. 42 Sobre suas idéias ver: ARINOS, Afonso et all. Um praticante da democracia: Otávio Mangabeira. Salvador: Conselho Estadual de Cultura, 1980. Mesmo seus adversários admitem, por consenso, esses valores. 83 funcional provocou, via de regra, efeitos devastadores para a manutenção do status quo da elite política dominante. A diversidade das sublegendas no diretório da ARENA na Bahia Um exemplo dessa complexa engrenagem política são os blocos consolidados em torno do poder estadual na Bahia e que se movimentaram no diretório regional da ARENA, durante a ditadura, cujas características podem ser percebidas a partir de suas origens. Cita-se o caso de Otávio Mangabeira, um autonomista dos tempos da União Democrática Nacional (UDN), definido como um liberal histórico, defensor das liberdades democráticas e opositor declarado de Getúlio Vargas. Ao lado dele, Luiz Viana Filho, tradicional político conservador apoiado pela elite agrária do estado. O círculo se fecha em torno de Juracy Magalhães - militar, empresário e ligado ao capital financeiro. Esses se aliaram por diversas vezes, antes e durante o período da ditadura. Por longo tempo, Otávio Mangabeira e Luiz Viana Filho fizeram oposição a Juracy Magalhães, esteio da Aliança Liberal no estado, ousado defensor da modernização econômica do país através do processo de industrialização e da livre concorrência. Apesar das distinções apontadas acima, nenhum grupo ou liderança possuiu, enquanto sobreviveram na política regional, capital político e eleitoral suficiente para dominar os principais núcleos de decisão e sempre dependeram de arranjos com adversários para manter-se em alguma esfera do poder. Nas duas décadas que vão de 1947 a 1967 todos os governadores que se sucederam na Bahia foram eleitos através de coligações que, invariavelmente, uniam adversários políticos. Otávio Mangabeira (1947–1951) elegeu-se pela União Democrática Nacional (UDN), com o apoio do Partido Social Democrático (PSD), criado pelos interventores de Vargas e tradicionalmente adversário do partido presidido pelo governador eleito. Um importante apoio do PSD para a eleição de Otávio Mangabeira veio de Régis Pacheco (1951–1955), posteriormente eleito para o mesmo 84 cargo pelo PSD com o apoio do Partido Trabalhista Brasileira (PTB) derrotando o candidato da UDN, Juracy Magalhães. 43 Uma coligação formada por uma dissidência do PSD, pelo PTB e pela UDN elegeu, logo em seguida, o governador Antônio Balbino (1955–1959). Juracy Magalhães chefiou o executivo baiano de 1959 a 1963,conduzido por uma eleição na qual a vitória só foi possível devido a uma crise no PSD que cindiu o partido favorecendo o candidato da UDN. Nova conformação entre o PTB e a UDN levou Lomanto Júnior (1963 – 1967) ao cargo de governador do estado depois de fragorosa derrota do candidato do PSD. Em suma, as três maiores legendas - incluindo suas dissidências - embora fossem tão distintas, não conseguiam, separadamente, garantir uma hegemonia capaz de eleger seus candidatos. O entendimento do modo como se configurava a política baiana na ocorrência do golpe de 1964 e o contexto político e partidário em 1966 são imprescindíveis para uma percepção clara do paradoxo em que se encontrava a elite política na Bahia. É, também, a partir da composição política para a eleição de Lomanto Júnior ao governo da Bahia em 1962 que se poderá observar a articulação desses blocos no intricado jogo político que desaguou na ditadura e ter a dimensão da importância das estratégias adotadas para conciliar os interesses da elite regional com as ações prioritárias de consolidação da ditadura. As dificuldades encontradas pelo governo Lomanto Júnior para conciliar os interesses conflitantes dos partidos que o elegeram caracterizam bem as diferenças existentes no perfil da elite política da Bahia na década de 60, mas também evidenciam um arranjo eleitoral característico de uma elite pouco hegemônica. Quando se candidatou ao governo estadual em 1962, Lomanto Júnior, à época no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), reuniu em torno de si a fração majoritária da UDN liderada por Juracy Magalhães e a antiga fração autonomista da UDN vinculada a Otávio Mangabeira - agora sob a legenda do PL e liderada por Luiz Viana Filho - para se eleger. Não se pode esquecer que todos eles possuíam a mesma matriz udenista, embora tivessem uma trajetória pontuada por desentendimentos. 44 43 Sobre Otávio Mangabeira ver Alzira Alves de Abreu, Op. Cit., p. 3533 e, da mesma autora, Juracy Magalhães: Minhas memórias provisórias – depoimento prestado ao CPDOC, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972. Ainda, Euclides Dantas et. all. Régis Pacheco – esboços biográficos. Vitória da Conquista: Museu Regional/UESB, 1995, Série Memória Conquistense, n.º 1. 44 TAVARES, Luís Henrique Dias. Op. Cit., p. 473 a 476. 85 Ao assumir o governo, Lomanto Júnior se encontrou envolvido nessa situação que refletia nitidamente a ambivalência dos diferentes setores da elite política na Bahia forçada a uma agregação virtual, porém espontânea, para obter resultados eleitorais favoráveis. A referência proposital ao termo ambivalência se justifica em oposição às definições reducionistas que caracterizam o processo de acomodação política como adesismo congênito ou ausência ideológica na elite. Ao contrário, exatamente em função das posições divergentes e da presença pulverizada de cada um dos partidos no eleitorado baiano, as alianças eram necessárias. De sua parte, o governador eleito pela coligação ambivalente em 1962 procurou minimizar as diferenças após o período eleitoral visando manter a governabilidade e a estabilidade do grupo. Assim relata o historiador Muniz Ferreira: Lomanto procurou atuar, durante os doze meses de sua gestão que antecederam o golpe de 1964, como um ‘algodão entre os cristais’, amortecendo os atritos entre os Magalhães e Jango, o lacerdismo e o trabalhismo, a UDN e o PTB. 45 Originário do liberalismo democrático46 que orientava o grupo de Otávio Mangabeira, Lomanto Júnior esteve numa posição pouco confortável após o golpe. Se por um lado, a mudança conjuntural ocorrida em 1964 impossibilitou qualquer esforço de coesão desse agrupamento político, acima de tudo porque o populismo de Goulart e do PTB estava diretamente representado nele e a sua desestabilização havia sido o principal objetivo da mobilização dos militares, por outro, o governador acreditou numa reação legalista e no proveito que poderia tirar da situação. Todavia, os demais elos dessa corrente retesavam no sentido contrário e já haviam tomado posição desde 1963 quando o círculo se fechou no congresso com a participação ativa de deputados baianos, entre eles, Antônio Carlos Magalhães que, além de haver negociado nos bastidores a candidatura de Castelo Branco, foi o principal disseminador da tática sorbonista de criar um clima psicológico tenso que favorecesse a queda de Goulart. Entre maio de 1963 e março de 1964, dos 23 pronunciamentos feitos 45 FERREIRA, Muniz. O golpe de Estado de 1964 na Bahia. Salvador: 2004, p. 01 (inédito). 46 O conceito clássico de liberalismo possui diferentes definições a depender do tempo, do lugar e do grau em que se manifesta e do caráter histórico, político e filosófico que se queira dar. Nesse caso, a percepção que temos é de que a classificação atende aos requisitos de um indivíduo que se situa politicamente ao centro, debate com alguma tolerância as diferenças individuais e coletivas ao mesmo tempo em que busca na autonomia do Estado e das instituições o referencial de democracia. 86 pelo deputado federal Antônio Carlos Magalhães, 15 se referiam ao presidente João Goulart ou a seus auxiliares próximos com a clara intenção de desgastar a imagem do governante e promover a sua desestabilização política.47 Sua estratégia pretendia caracterizar o governo de Jango como ineficiente, corrupto e golpista: em julho de 1963 usou da tribuna para fazer um elogio ao presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, que, “no exercício da presidência da República, durante três dias, conseguiu trabalhar mais do que o presidente João Goulart em dois anos e meio”. 48 Durante todos esses meses insistiu no pedido de apuração de irregularidades no DNER. Em novembro de 1963, teceu considerações sobre a intenção do presidente da República de comunizar o país em virtude de nomear comunistas para cargos importantes nas esferas civil e militar do governo, conjecturando, logo em seguida, a necessidade de uma unificação política no sentido de organizar uma força capaz de se antepor às intenções golpistas do presidente. Infere-se daí os motivos do retraimento do lomantismo após o golpe e a necessidade da filiação em massa ao PDC e, por conseguinte, sua inclusão compulsória na ARENA. Do mesmo modo, os governadores baianos, Luiz Viana Filho, Juracy Magalhães, Antônio Carlos Magalhães e grande parte da elite política na Bahia convergiram para a Aliança Renovadora Nacional. As composições para a formação do diretório regional da ARENA Após a manobra militar em 1964, Juracy Magalhães e Luiz Viana Filho passaram a compor o núcleo civil do governo do marechal Castelo Branco com atuação decisiva para a consolidação da ditadura. Todavia, os efeitos diretos da ascensão de ambos na política baiana foram bem diferentes, como apontou Fábio Dantas Neto: A designação de Juracy Magalhães, em junho de 1964, para a embaixada brasileira nos EUA, afastando-o do cotidiano político, deixou espaço aberto à afirmação direta de Luiz Viana e Antônio 47 Diários Oficiais do Congresso Nacional, maio de 1963 a março de 1964. 48 Diário Oficial do Congresso Nacional, 20 de junho de 1963. 87 Carlos como interlocutores privilegiados de Castelo para os assuntos políticos baianos e também para a política nacional. 49 O marechal Castelo Branco tentou imprimir um ritmo eficiente e modernizador à sua gestão a fim de se contrapor, segundo ele, à letargia do governo anterior e suas práticas de favorecimentos. De modo igual, Luiz VianaFilho, ocupando o cargo de ministro da Justiça, estendeu essas atitudes à Bahia. Por meio de seu referendo, o presidente nomeou, em outubro de 1965, os juízes do trabalho para a Bahia seguindo a ordem de classificação no concurso. A atitude austera repercutiu positivamente para o governo e para o ministro: A orientação do governo, seguindo a ordem de classificação do concurso, repercutiu muito bem entre juízes, advogados e funcionários da Justiça do Trabalho, que não aceitam a interferência política, nestas nomeações, como ocorreu em governos anteriores. Aliás, o episódio da nomeação dos juízes do Trabalho nos deve dar bem a medida da mudança de fundo que a Revolução provocou na vida da administração pública brasileira. 50 Um novo convite presidencial para assumir a pasta da Justiça em agosto de 1965, e a assunção ao cargo em outubro do mesmo ano, trouxe Juracy Magalhães de volta ao Brasil e ao comando da política baiana. Na condição de ministro foi designado para propor e negociar com o Congresso Nacional o projeto de lei que ampliou os poderes do executivo e restringiu ainda mais os direitos civis e eleitorais. 51 Embora Juracy tenha fracassado na tentativa de negociação, o projeto foi imposto através do AI-2. Juracy retomava, desta forma, a posição de interlocutor do governo federal e os rumos da política baiana. Porém, com uma mudança fundamental, explica Dantas Neto: Quando retornou ao Brasil, em outubro de 1965, para assumir o Ministério de Justiça em meio à crise que resultou no AI-2, Juracy 49 DANTAS NETO, Paulo Fábio. Tradição, autocracia e carisma: a política de Antônio Carlos Magalhães na modernização da Bahia (1954 – 1974). Belo Horizonte: Editora UFMG/Rio de Janeiro: IUPERJ, 2006, p. 251. 50 A Tarde, 20 de outubro de 1965, p.03. 51 A Tarde, 21 de outubro de 1965, p.03. 88 retomou o leme da política, mas em vez de contar com dois expeditos operadores, teve de se adaptar a operações concertadas em trio. 52 O autor referia-se a Luiz Viana Filho e Antônio Carlos Magalhães que passaram a dividir com Juracy o espólio político da Bahia após o fim do mandato de Lomanto Júnior. Em meio a todos esses inconvenientes, Juracy se deparou com a resistência de setores das Forças Armadas à indicação de Costa e Silva como candidato indireto à presidência da República. Sendo ele o responsável por avaliar e decidir ou não pela viabilidade de apoio ao general linha-dura na Bahia, sua resistência inicial a essa candidatura, em fidelidade a Castelo Branco, lhe custou certo desprestígio no governo seguinte. A cumplicidade entre Luiz Viana Filho e Antônio Carlos Magalhães, na perspectiva de alijar o terceiro aliado da disputa, pesou sobremaneira para o seu desgaste. 53 Mas de certo modo, o domínio do juracisismo ainda era muito grande e a proximidade das eleições de 1966, como sempre, aflorava o pragmatismo político da elite que, abandonando parcialmente suas diferenças, buscava agregações que permitissem sua estabilidade no poder. Não por coincidência, nas eleições seguintes Antônio Carlos Magalhães foi nomeado prefeito; Luis Viana Filho, indicado governador; e seu filho, Luiz Viana Neto, indicado como secretário de estado para assuntos municipais com o objetivo de reforçar as bases políticas do vianismo no interior. 54 Depois de consolidadas as relações com o governo Castelo Branco, as articulações da elite baiana para formação da Aliança Renovadora Nacional na Bahia tinham uma configuração bastante parecida com aquela que sustentava o governo estadual em 1964. Desta feita, repetia-se a estratégia do diretório nacional de formar o diretório regional com representação proporcional aos antigos partidos. No início de dezembro de 1965 estava praticamente decidido que a direção baiana seria composta pelos ex-udenistas Antônio Carlos Magalhães e Jutahy Magalhães, indicados por Juracy Magalhães; Luiz Viana Neto, apontado por Luiz Viana Filho; Menandro Minahim, Vespasiano Dias e Valter Lomanto, recomendados pelo 52 Ibidem, p. 151. 53 Paulo Fábio Dantas Neto faz referência direta a testemunhos que dão conta da situação constrangedora a que Juracy Magalhães foi exposto nesse momento. Cf. Op. Cit. pp. 252-253 e 531. 54 FRANCO, Tasso. O círculo do poder na Bahia. Salvador: Franco Produções, 1990, p.141 e 142. 89 governador Lomanto Júnior; Manoel Novais e José Medrado, membros do ex-PR e José Penedo do ex-PRP. 55 Mantiveram-se, portanto, as mesmas características ideológicas anteriores e os mesmos grupos em disputa. Contudo, a aliança em torno das eleições de 1962 se pulverizou com o golpe de 1964 e lomantistas, vianistas e juracisistas se reorganizaram para as eleições de 1966. Os núcleos de decisão Percebemos que o diretório regional da ARENA na Bahia, apesar de funcionar com todas as restrições apontadas anteriormente, era uma importante referência como locus de decisão das políticas governamentais intermediadas pelos deputados estaduais e chanceladas pelo governador. Na direção inversa, o governo estadual interferia nos mandatos parlamentares, nas convenções partidárias e nas escolhas dos candidatos aos cargos eletivos diretos ou indiretos. Somente com uma visão global da política baiana se pode perceber as implicações existentes nesse processo. Aliás, Maria do Carmo Campello de Souza já havia chamado atenção para esse aspecto ao analisar os partidos políticos como um bloco pertencente a um sistema político e diretamente relacionado ao Estado. Isso implicou em verificar que o sistema partidário e Estado são, ao mesmo tempo, agente e paciente das pressões relativas ao poder. Supõe com isso que o partido não se restrinja à função de simples organismo de representatividade social e canal de suas aspirações, mas seja, também, instância decisória e governativa. 56 Se certas peculiaridades características dos partidos políticos, como uma base social concreta e de um programa ideologicamente coerente, são uma ausência recorrente em agrupamento desse tipo no Brasil, a personalização é uma característica ainda mais comum. A historiadora Consuelo Novais Sampaio enfatizou que, nos primeiros anos da República, a formação dos partidos políticos na Bahia ocorria muito mais em torno de um nome carismático, do que em função de uma ideologia ou prática política comum. “Na medida em que um novo segmento da elite emergia, criava-se ou 55 A Tarde, 01 de dezembro de 1965, p.03. 56 SOUZA, Maria do Carmo Campello de. Estado e partidos políticos no Brasil (1930 a 1964). São Paulo: Alfa-Ômega, 1976, pp. 27– 42. 90 adaptava-se um novo partido e sua subsistência era proporcional à vitalidade do seu chefe”,57 explica ela. Essa situação não se modificou com o getulismo e suas interventorias no estado e, tampouco, com o golpe de 1964 e seus desdobramentos. Apesar disso, o partido político, especialmente na esfera local, permaneceu como uma arena decisória para definição dos candidatos e dos cargos a serem ocupados por indicação ou eleição. Uma vez eleitos para os cargos parlamentares, os indivíduos ganhavam prestígio e a possibilidade de absorver verbas governamentais em troca de apoio e manutenção da governabilidade. Se estivesse ocupando o cargo de governador poderia dispor dos recursos e da máquina administrativa para negociar com os deputados. Assim, fechava- se o círculo nuclear das esferas de decisão política estadual. A todas essas implicações, características do sistema partidário nacional, acrescenta-se um fator xenofóbico:ser um baiano autêntico e com fortes tradições familiares eram características desejáveis e requisitos necessários para o reconhecimento de sua origem culta e tradicional. Entre os citados, apenas Juracy Magalhães era proveniente de outro estado e militou numa sociedade em que a tradição e a autenticidade eram valores referencias da cultura política. Sua inserção nesse universo ocorreu como um fenômeno transitório, dado que, quando surgiam interesses individuais, a baianidade era provisoriamente relativizada. Todavia, ainda que estivesse dissimulada pelas circunstâncias, sua força continuava latente e pronta a irromper no cenário político como estandarte e metáfora a ser apropriada por um novo segmento. Antônio Carlos Magalhães foi o único ator da política baiana, no período em apreço, que dominou simultaneamente todos os núcleos de decisão e superou as divergências individuais da elite. Quando surgiu, o carlismo reeditou esse anseio de pertencimento como metáfora política. O controle do diretório regional do partido e da Assembléia Legislativa estadual foi alcançado pela escolha intencional e sistemática de temas políticos relevantes e da construção seletiva de uma rede de relações. As divergências pessoais se comprimiram na blindagem do carlismo que, aprimorado pelo carisma pessoal, foram estrategicamente transferidas para o plano impessoal da baianidade que admitia a acomodação das diversidades e a agregação dos diferentes em função de um objetivo superior. 57 SAMPAIO, Consuelo Novais. Os partidos políticos da Bahia na Primeira República: uma política de acomodação. Salvador: UFBa, 1975 p. 175. 91 Ditadura e estratégia: régua e compasso para o embrião do carlismo Foi visto anteriormente que o golpe, as crises militares e as sucessões presidenciais propiciaram uma alteração na correlação de forças da política baiana e as tradicionais arenas decisórias como o partido, o parlamento e o governo se tornaram alvo predileto dos grupos em disputa pelo poder. Em períodos eleitorais, quando, tradicionalmente, as legendas partidárias faziam alianças, essa combinação de fatos cristalizou as diferenças existentes. Naquela crise de conjuntura política, o carlismo foi o elemento agregador que superou as diversidades inerentes ao partido de situação na Bahia. Antônio Carlos Magalhães juntou carisma e ideologia para unificar as divergências arenistas neste fenômeno denominado de carlismo. As idéias anticomunistas, a austeridade administrativa, o caráter incorruptível e o desenvolvimento regional integrado compunham o discurso unificador. Pessoalmente, sua imagem serviu como blindagem que incorporou contradições como modernidade e conservadorismo, cidadania e clientelismo, democracia e autoritarismo, baianidade e nacionalismo, elitismo e popularidade. Suas atitudes pragmáticas eram sustentadas por uma retórica incomum que por sua vez fundamentava-se em uma plataforma política rigorosamente escolhida. Ao fundo, delineava-se a tradicional e genuína baianidade, elemento cultural e atributo indispensável aos homens públicos da Bahia. Foi assim que tradicionais lideranças como Juracy Magalhães, Luiz Viana Filho e Lomanto Júnior, presos a estratégias tradicionais baseadas na “unidade do contraditório”, cederam espaço para o inexperiente Antônio Carlos Magalhães que, paulatinamente, transformou o carlismo em símbolo e estratégia de articulação para conquistar o poder. Com todas as suas crises, a ditadura deu a régua e ACM, por meio do carlismo, deu o compasso. Estabeleceu-se, assim, a fórmula geométrica que garantiu o predomínio do grupo carlista na Bahia por longos anos. Até o momento, este estudo se deteve no âmbito partidário para situar o leitor na política baiana de meados do século passado. Todavia, a atuação do juracisismo, do vianismo e do carlismo que redundou, em princípio, na harmonização desses segmentos e, posteriormente, na sua desagregação, favorecendo a formação de uma frente 92 hegemônica capitaneada por Antônio Carlos Magalhães, precisa ser revista, ainda, no parlamento e executivo baianos e esses serão os próximos temas de debate. CAPÍTULO IV A atuação dos partidos e das sublegendas no bipartidarismo e do legislativo estadual numa ditadura Perspectivas iniciais Como referido anteriormente, as insistentes tentativas de desestabilização política e a ação golpista de 1964 derrubaram o governo João Goulart, mas não garantiram, por si mesmas, o domínio político-militar da elite conservadora. Em função disso, a cúpula militar que executou o golpe empreendeu imediatamente ações “saneadoras” e reformistas para consolidar a ditadura. O expurgo imediato de centenas de civis e militares do serviço público, da carreira política e das Forças Armadas imobilizou os adversários, e as reformas política e constitucional, nos anos seguintes, proporcionaram o controle político e social. De modo particular, a reforma partidária, em 1966, foi essencial para demarcar o território político e as zonas de influência do governo Castelo Branco. Na tentativa de apresentar-se como um regime “democrático”, a ditadura não colocou em recesso definitivo o Congresso Nacional, as assembléias legislativas e as câmaras municipais. Entretanto, promoveu uma reforma política que possibilitou o controle das ações parlamentares em todo o país. Desse modo, a imposição do bipartidarismo foi uma tentativa de manter a atividade partidária e o funcionamento das instituições republicanas sob controle, sem abrir mão da aparência de legalidade democrática. A fórmula, entretanto, complicou-se sob dois aspectos: se, por um lado, a reforma partidária organizou, deliberadamente, as instâncias formais de representação política - por meio de uma vinculação maniqueísta, limitando os movimentos contrários ou independentes -, por outro, promoveu uma agregação artificial de remanescentes dos antigos partidos conservadores, aprofundando divergências e provocando um veemente impacto na estrutura organizacional das frações dessas elites nos estados. Diante da diversidade de idéias e interesses alocados em cada um dos partidos, os arenistas acabaram por se distribuir em sublegendas, criando a possibilidade de deslocamentos internos dos grupos menores como alternativa para sanear seus conflitos. 94 Ademais, as eleições diretas para deputados estaduais acirravam a disputa num plano político relativamente isento dos mecanismos de controle federal. Se por um lado, como no caso da Bahia, a criação de zonas de segurança nacional e a imposição de governantes obrigavam a elite regional a se submeter às decisões do comando central, por outro, a manutenção da eleição direta, em alguns níveis, possibilitava uma concorrência pelo poder, cujo resultado dependia de outras variáveis. Na disputa pelos cargos eletivos, a decisão que se iniciava no diretório regional do partido era confirmada nas urnas e tinha reflexos diretos na Assembléia Legislativa. Portanto, se o prestígio da elite política na Bahia dependia do irrestrito apoio federal, também estava associado a um mandato parlamentar. Como a indicação para governador dependia da capacidade de integração no diretório do partido e era homologada pela Assembléia Legislativa - que, por sua maioria, poderia garantir a governabilidade -, havia uma dependência recíproca entre os vários setores da elite para a manutenção do status e do poder político. Todos dependiam do funcionamento de uma complexa rede de relações que incluíam todas as correntes políticas do estado. Por isso, mesmo com a ditadura, o diretório regional do partidogovernista e a Assembléia Legislativa continuaram a ser núcleos de decisão política fundamentais, além do governo estadual. Tudo isso resultava em que o grupo que estivesse determinado a conquistar o governo estadual e hegemonizar o poder político em nível estadual, além de obter apoio da cúpula militar deveria controlar, também, o partido e o parlamento estadual. Cabe ressaltar que Aliança Renovadora Nacional (ARENA) - partido político de sustentação da ditadura, derivado da reforma partidária em discussão - foi um partido ambivalente, pois, ao mesmo tempo em que agregou em seus quadros vertentes políticas divergentes em vários aspectos, manteve o perfil ideológico conservador, característico das legendas que o antecederam. As diferenças, normalmente percebidas na política regional, não decorriam de atritos em torno do ideário principal, mas de pequenas arestas resultantes de conflito por idéias secundárias ou rompimentos pessoais. Concebem-se como pontos de coesão ideológica comuns à elite brasileira desse período o anticomunismo e o desenvolvimento econômico industrializado. A interação entre esses dois temas reveste-se de uma perspectiva autoritária em relação à sociedade e à política. Na Bahia, a referida reforma partidária reuniu, na ARENA, os lomantistas, associados ao governador Lomanto Júnior; os vianistas, vinculados a Luiz Viana Filho e os juracisistas, adeptos de Juracy Magalhães. Na órbita desses grupos, gravitavam outras lideranças com menor poder de influência que também se filiaram ao diretório regional arenista em que todos 95 disputavam a hegemonia partidária, as indicações presidenciais para o cargo de governador e o apoio da Assembléia Legislativa. Indistintamente, ambicionavam o poder político conscientes de que a estratégia era garantir a confiança dos militares que estavam no poder e o domínio absoluto dos núcleos de decisão. O prestígio político estava associado a um mandato parlamentar ou executivo e o poder de decisão, quanto à indicação dos candidatos, estava no partido. Ao garantir hegemonia no diretório regional, o líder era indicado para governador e dispunha de poder de pressão suficiente para escolher os candidatos ao cargo de deputado estadual, além do apoio e dos recursos suficientes para elegê-los. Após o pleito, tinha garantias de aprovação dos atos e projetos enviados à Assembléia Legislativa, possibilitando a estabilidade, a governabilidade e a continuidade do governo. Em situações de crise política como aquela iniciada em 1964, o desafio do chefe político estadual era agradar os militares, manter um perfeito equilíbrio entre todas as forças concorrentes, resguardar seus interesses e, ainda, concorrer a uma indicação para o governo. No caso baiano, o carlismo - dissidência do juracisismo liderada por Antônio Carlos Magalhães - foi o único fragmento de elite agraciado pelos militares que logrou êxito em influenciar os espaços políticos decisivos na Bahia entre 1966 e 1982, isso porque atuou na diversidade mantendo intocadas as diferenças pessoais. Enquanto seus ex-aliados e adversários adotaram a tática da acomodação de forças divergentes para propiciar a coesão necessária para fazer maioria no partido e no parlamento, ACM apostou na articulação em torno de um ideário comum à elite e aos militares. O carlismo superou seu fundador, posicionando-se acima dele como representação coletiva e símbolo das aspirações ideológicas da elite política na Bahia. Durante a ditadura, em meio a todas as diferenças que marcaram a elite e seus partidos ou facções, os setores conservadores da sociedade brasileira tinham como preocupação central combater o espectro do comunismo para garantir uma suposta estabilidade democrática e estavam ansiosos por um desenvolvimento econômico fortemente industrializado e urbanizador. Em outro plano, o ufanismo nacionalista sustentava o discurso em torno da união nacional. A estratégia de Antônio Carlos Magalhães foi selecionar para si esses temas e articular uma rede de relações em torno deles. No caminho para construção dessa engenhosa tarefa, ele viu a possibilidade de adicionar mais um elemento: a baianidade. Aos poucos, o carlismo se tornou bandeira de combate ao comunismo, sinônimo de industrialização regional e guardião dos interesses da Bahia e do Nordeste com vistas à integração nacional. 96 A estratégia do carlismo foi vitoriosa porque produziu e incorporou a sensação coletiva de que as diferenças pessoais alocadas em um nível regional da política eram secundárias e deveriam ser substituídas pelos interesses comuns à elite. Como a pauta ideológica do carlismo era realmente convergente com os interesses da ditadura e do conjunto da elite, a adesão foi enorme e fortaleceu o grupo atraindo, inclusive, adversários para alianças pontuais. Tendo sido indicado para o governo estadual, Antônio Carlos Magalhães mostrou sua sintonia com a cúpula militar dirigente do país. Ao agregar por afinidades uma maioria no partido e na Assembléia Legislativa, o carlismo influenciou os núcleos de decisão manipulando as brechas deixadas pela manutenção de certos mecanismos democráticos durante a ditadura. Assim, ele viabilizou uma estratégia diferente, porque híbrida, na medida em que associava o autoritarismo pessoal e do sistema à militância partidária e ao debate parlamentar. Sustentamos como tese principal que foram essas as razões de sua permanência no poder por um longo período. Vimos, em capítulo anterior, a movimentação dos setores da elite para organização da ARENA no estado da Bahia. O resultado da acomodação de tamanha diversidade foi o tensionameno, no limite, das relações entre ex-pessedistas, ex-petebistas e ex-udenistas. As soluções tradicionais foram a reorganização em sublegendas e a coalizão de forças na Assembléia Legislativa da Bahia, assunto que passaremos a tratar adiante. A Arena e as sublegendas Vimos que a Aliança Renovadora Nacional, ainda que diverso, foi um partido ideológico, na medida em que havia um mínimo de consenso em torno de temas como o anticomunismo e o desenvolvimento nacional, integrantes do seu programa e do ideário da maioria de seus filiados. Isso não significa negar a ambivalência, as dissensões em vários níveis e o oportunismo de alguns que aderiram ao governo em benefício próprio. Apesar das afinidades ideológicas, havia divergências em torno de temas como as reformas política e agrária e discordâncias com as políticas sociais vigentes. O arremedo das sublegendas pode ter sido suficiente para organizar sistematicamente os partidos existentes, mas não para garantir tranqüilidade e estabilidade aos chefes estaduais. Os problemas da pequena política, que opunham membros de um mesmo partido em disputa pelo domínio de pequenos municípios, também são elementos relevantes para análise e que 97 realçaram as nítidas contradições do sistema político vigente no Brasil após 1966, tornando inviável o bipartidarismo de fato. Como dito, na primeira formação do diretório regional da ARENA na Bahia, o grupo juracisista estava representado em Antônio Carlos Magalhães e Jutahy Magalhães; Luiz Viana Neto era delegado do pai, Luiz Viana Filho; Manoel Novais se auto-indicara juntamente com José Medrado; e Menandro Menahim, Vespasiano Dias e Valter Lomanto constituíam a base de apoio do lomantismo. José Penedo originara-se do antigo Partido de Representação Popular e monopolizava uma pequena fatia do bloco arenista. O miscigenado grupo representava o udenismo, o trabalhismo e o autonomismo, ou seja, as principais idéias políticas defendidas pelos partidos existentes na Bahia até 1965. Os arranjos para formação de uma diretoriatão diversa foram feitos por Juracy Magalhães, Lomanto Júnior, Luiz Viana Filho e Manoel Novais e sustentavam-se na tese da união dos contrários, uma estratégia comum, elaborada para fortalecer o conjunto da elite política na Bahia diante da situação adversa. Foi assim que explicou o deputado Vilobaldo Freitas, da ARENA: Não há porque esconder ou se devam esconder as divergências partidárias dentro da ARENA. E todas elas são uma forma legal e correta de manifestação do pensamento. E tanto isso é normal no processo democrático que estamos vivendo que existem as sublegendas, como a permitir, precisamente, esse ambiente que se verificou em alguns municípios do estado, numa forma de liberalização do processo eleitoral. Que esse ambiente, que essa luta partidária que se tenha ferido aqui e acolá, tangenciados pelos extremos da violência desse fato, não pode ter culpa, não tem culpa por ele, não é culpado o Sr. governador do estado, porque em inúmeros municípios onde a ARENA se dividiu em duas e três sublegendas a luta se feriu dentro do plano do respeito mútuo. 1 Esse debate não se iniciou com o tema das sublegendas, mas em virtude de denúncias da deputada Araguacy Gonçalves, segundo a qual houve pressões do governo estadual nas eleições proporcionais de 1970. O discurso arenista, ao mesmo tempo em que defendia o governo das acusações de coação nos municípios, justificava a existência das sublegendas: Então, haveremos que procurar para esses fatos a que alude a deputada Araguacy Gonçalves razões de caráter local; motivos adstritos à política municipal, nunca à orientação governamental, se é que houve uma orientação no pleito que se feriu na Bahia. O que houve foi uma 1 Diário Oficial da Bahia, 29 de abril de 1971, p. 63. 98 manifestação exclusiva em certos municípios de velhas dissidências, de velhas quizílias, tribais ou de famílias, mas nunca, absolutamente nunca imputando o fato ocorrido por sugestão, por influência ou com a conivência do governo. 2 O fato em evidência, ocorrido nos municípios de Campo Formoso, Antônio Gonçalves e Senhor do Bonfim, envolvia os deputados em debate e, pelo menos, as sublegendas vianistas e lomantistas. Essa reação contrária e imediata às distorções provocadas pela dualidade obrigatória dos partidos que veio, a princípio, do MDB, se devia ao fato dos mesmos se sentirem prejudicados pela infidelidade partidária ocultada pelas sublegendas. Proferiu, nesses termos, o deputado Newton Macedo Campos: Este, Sr. presidente, é o reparo que fazemos a este absurdo da sublegenda que desfigura o regime representativo e a autenticidade das eleições que o artigo 2.˚ procura afirmar. Mas, Sr. presidente e Srs. Deputados, a Lei Orgânica dos Partidos Políticos peca, também, sobretudo, no tocante à fidelidade partidária. Vêem V. Exas. que ela obriga apenas à fidelidade partidária os parlamentares em todos os graus: vereadores, deputados federais, estaduais e senadores, mas deixa à margem os detentores do Poder Executivo. Então vêem V. Exas. que os prefeitos e governadores poderão trair à vontade. É, sem dúvida alguma, outro grande absurdo. 3 Segundo o próprio deputado, para a ARENA convergiram 2/3 dos parlamentares federais que, em seguida se organizaram em três sublegendas e, com isso, os prejuízos provocados pelo bipartidarismo e os demais mecanismos da reforma partidária foram, se comparados ao Ato Institucional n. 5˚, muito maiores para o MDB: Com isso, o que vai ocorrer é que ficarão três partidos dentro de um só Partido. E concordo que para a oposição este artigo é muito mais pernicioso que o Ato Institucional que combatemos. Porque senhor presidente e senhores deputados, o Ato Institucional é contra toda a classe política, mas a sublegenda é apenas contra o Movimento Democrático Brasileiro, vale dizer, o partido da oposição.4 2 Ibidem. 3 Diário Oficial da Bahia, 31 de julho de 1971. 4 Ibidem. 99 Nesse embate, o deputado Vilobaldo Freitas ressaltou o propósito das sublegendas de “contribuir para somar os votos dos dissidentes ou das alas que porventura existem no próprio Movimento Democrático Brasileiro”, como era o caso do estado da Guanabara. Entretanto, o deputado emedebista permaneceu convicto de que “um partido político não pode se dividir em várias alas sob pena de ser um partido inautêntico”. Na esfera arenista, num entrevero sobre a sucessão para o governo estadual, o deputado Antônio Carlos Magalhães desafiou seu oponente, o deputado João Mendes, e apresentou, da tribuna, provas documentais de sua intenção de participar do partido em formação: A ARENA foi formada, e eu escolhido seu presidente. Todos sabiam de minha posição, de há muito tomada. Mas fui eu escolhido presidente à revelia do deputado João Mendes? Não. Está aqui uma das oito vias assinadas pelo nobre deputado, João Mendes, do ato constitutivo da ARENA na Bahia. 5 Em sua defesa, o antigo líder político estadual retrucou: V. Exa. sabe que não tomei parte em nenhum movimento de organização da ARENA na Bahia. Assinei isto em homenagem ao meu prezado amigo Antônio Carlos, pois jamais recusaria apor minha assinatura em papel que V. S a. me trouxesse; assinei como apoiamento pela simpatia que me merece o deputado Antônio Carlos Magalhães e pela amizade que lhe dispenso, mas não por conta do mérito, nem sequer li o documento. 6 É bastante improvável que o deputado João Mendes, um político experiente, naquele momento rompido com Antônio Carlos Magalhães, fosse um inocente útil aos desígnios carlistas, entretanto, seu recuo, após aderir ao partido, demonstra o nível de complexidade da organização do partido em sublegendas e os atritos provocados pelas diferenças pessoais e políticas. Essas diferenças, naturalmente, convergiam para o bloco parlamentar de apoio ao governo e amplificavam na Assembléia Legislativa da Bahia as diferenças pessoais e ideológicas existentes no diretório partidário. Por isso, cabe ressaltar, neste estudo, o comportamento político no parlamento baiano para que se possa perceber a relevância desses 5 Diário do Congresso Nacional, seção I, suplemento, 31 de março de 1966. 6 Ibidem. 100 espaços para a elite local e do modo como essas ambivalências demandavam um amplo conhecimento das condições políticas de cada grupo e certa prudência ao tratar com casos tão melindrosos. Poder e Legislativo O parlamento baiano tem tradição e longevidade. Em 1823, logo após a consumação do processo de Independência na Bahia, dom Pedro I convocou uma Assembléia Constituinte do Império e criou o Conselho da Presidência da Província com funções menos rígidas que atualmente. Na primeira Constituição após a independência, foram criados os conselhos gerais das províncias, sendo que o da Bahia somente veio a ser devidamente instalado em 1828 e seria extinto seis anos depois, para ceder lugar, em 1835, à Assembléia Legislativa Provincial. Em 1890, o conselheiro Virgílio Climaco, governador interino da Bahia, autorizado pelo bloco vitorioso, promulgou a Constituição Provisória do Estado, determinando a criação da Assembléia Geral com duas câmaras: a dos Senadores e a dos Deputados Estaduais. Em 1937 a ditadura varguista fechou a Assembléia Legislativa que voltou a funcionar somente em 2 de fevereiro de 1945. Utilizando a denominação de Assembléia Legislativa da Bahia e munida das atribuições delegadas pela constituinte de 1945, funcionou em diferentes locais até que, em 1974, mudou para o Centro Administrativo, projeto arquitetônicode Ary Magalhães Andrade, na primeira gestão de ACM. 7 A relação afetiva notada na relação entre a Assembléia Legislativa da Bahia e o governador Antônio Carlos Magalhães insere-se num contexto em que o carlismo começava a personificar o ideário da baianidade. Nas camisas de gola pólo, listradas com as cores da Bahia, os carlistas exibiam com orgulho o simbolismo de quem, pretensamente, havia conquistado o monopólio da defesa do estado e da região nordestina. Assim, durante muito tempo, as principais lideranças do carlismo, incluindo o próprio Antônio Carlos Magalhães, compareceram aos eventos públicos vestidos com essas camisas, incorporando o símbolo maior da baianidade. 7 Histórico da Assembléia Legislativa da Bahia, 2000. Em 1978, ocorreram três incêndios na nova sede da Assembléia Legislativa da Bahia que destruíram tudo, inclusive, os 10 mil volumes da biblioteca e o painel principal. Antonio Carlos Magalhães, em nova gestão como governador, restaurou o prédio. 101 FOTO: EDUARDO KNAPP No outro vértice, os deputados da ARENA usavam insistentemente a tribuna para fazer a defesa do governador, motivada pela sistemática oposição do MDB ou pela denúncia de antigos aliados deslocados do poder por articulação do dirigente carlista. Apesar das restrições impostas pela ditadura, o Poder Legislativo continuou a ser extremamente importante, não somente no desenvolvimento de suas atribuições clássicas, mas também como locus de decisão ou como elemento (des) estabilizador da correlação de forças políticas. A oposição, apesar dos temores das cassações, possuía posição marcante nos debates e nas votações dos projetos de lei. Para compreender em que termos se pode pesar cada uma dessas funções do parlamento, deve-se verificar, preliminarmente, alguns estudos sobre o Poder Legislativo no Brasil em tempos recentes, suas atribuições e seu comportamento frente ao Poder Executivo. É conveniente enfatizar que buscamos um nexo entre a função legitimadora do parlamento estadual baiano e as estratégias de domínio dos deputados estaduais no espaço legislativo visando a comprovação da hipótese segundo a qual a ascendência de qualquer liderança política, no período ditatorial, sobre seus pares partidários com cargos eletivos era fundamental para garantir o controle hegemônico do poder político. 8 Observando um estudo de Sérgio Henrique Hudson de Abranches, conclui-se que o Poder Legislativo tem como funções essenciais: formular e ordenar a criação de leis para 8 De modo geral, os conceitos que definem o poder legislativo e as suas atribuições referem-se aos órgãos legisladores federais, contudo, se aplicam perfeitamente aos legislativos estaduais, sobretudo, quando se referem às atividades políticas de seus membros e à relação com o poder executivo. Sendo assim, utilizaremos indistintamente as referências para o termo, guardando as devidas proporções entre os limites de ação de cada um. 102 matérias específicas; fiscalizar os atos do Poder Executivo; legitimar o sistema em função de interesses dos grupos sociais que o compõem; atender a demandas específicas e interesses individuais e clientelísticos. Secundariamente, pode também servir como agência de socialização política e recrutamento para cargos de confiança do governo. 9 O mais interessante é notar como o autor relaciona o poder e o legislativo, especialmente quando trata do período entre 1946 e 1966. Ao observar projetos de reforma agrária, tributária e educacional, por exemplo, ele recomenda que não se compreenda como ineficácia o arquivamento dessas proposições nas comissões internas, já que, isso deve ser visto: Como resultado de um sistema de compromisso no qual esses itens entram como pontos de conflito e ameaçam, portanto, a sua manutenção. O Legislativo cumpriu, na verdade, sua missão de preservar um determinado sistema de dominação, composto por grupos com interesses divergentes. 10 Transparece ao mesmo tempo a função legitimadora e a diversidade de interesses, o que demonstra que o Poder Legislativo manteve parte de sua autonomia mesmo em conjunturas autoritárias. A afirmação de que o parlamento alimenta-se, muitas vezes, de uma relação fisiológica com o governo não exclui a possibilidade de resistência ou oposição. Isso apenas ressalta o caráter decisivo do espaço legislativo e reforça a tese, segundo a qual, a pessoa ou grupo que exerce influência no parlamento tem grandes possibilidades de hegemonizar a política no âmbito da ação dessa instituição. Parte daí a compreensão de que um dos fatores determinantes do predomínio do carlismo na Bahia foi a ascendência de Antônio Carlos Magalhães sobre os arenistas na Assembléia Legislativa do Estado. Naquelas circunstâncias, em que a ARENA fazia maioria parlamentar e era o partido de sustentação da ditadura, essa influência foi determinante. Voltando a questão da relação entre poder e legislativo, Clovis Brigagão demonstrou que a produção de leis pode vir a ser elemento de análise para acentuar o papel representativo e legitimador do Legislativo, pois: Ao mesmo tempo em que funciona como o corpo representativo da nação, no seu sentido mais político, compõe, juntamente com o executivo, o poder 9 Essa definição encontra-se em Sérgio Henrique Hudson de Abranches, O processo legislativo: conflito e conciliação na política brasileira. Dissertação de Mestrado. Brasília: Departamento de Ciências Sociais da UnB, 1973, p. 15 e 16. 10 Ibidem, p. 75. 103 do Estado e é quem vai ser, em última análise, o elemento de sustentação da legitimidade desse poder. 11 Depois de discorrer bastante sobre esse tema, o autor passa a examinar a produção legal dos políticos e dos partidos que representam em sua atuação parlamentar e nota a existência de uma “prática ideológica partidária” mesmo em situações caracterizadas como coligações interpartidárias dentro do Congresso. 12 Conclui esse autor que: Através da produção dos partidos por áreas levantamos as variações existentes segundo os partidos políticos e chegamos à observações a respeito de uma diferenciação ideológica pelo menos quanto ao PTB e PSP em termos da produção da legislação social. 13 Portanto, as coligações entre partidos ideologicamente divergentes ocorreram em períodos eleitorais e no exame de projetos apresentados para apreciação no legislativo. Nesses casos, o pragmatismo é mais evidente, contudo, não se deve esquecer que o caráter conservador da maioria dos partidos nacionais existente até 1966 implicou em convergência para uma mesma posição na discussão de reformas para o país. Os argumentos de ambos reforçam a insistência em torno da importância do Legislativo como força política capaz de influenciar diretamente as relações de dominação e determinar ou não a manutenção do status quo dos dirigentes que almejem esse poder. É sempre necessário lembrar que, apesar das relações fisiológicas estabelecidas com o governo, o parlamento não funciona sempre como extensão dos interesses do Executivo. Segundo Brigagão, No Brasil, a representatividade do Poder Legislativo, principalmente depois de 1945, procurou espelhar a existência diversificada dos interesses partidários da nação. Daí a existência em seu interior de vários partidos políticos que, bem ou mal, representaram a gama complexa de uma grande parte da nação brasileira. 14 11 BRIGAGÃO, Clovis. Poder e legislativo no Brasil: análise política da produção legal de 1959 a 1966. Dissertação de Mestrado.Rio de Janeiro: IUPERJ, 1971, p. 3. 12 Ibidem, p. 47. 13 Ibidem, p. 62. 14 Ibidem. p. 3. 104 A anuência com o pensamento dos autores citados não nos impede de relativizar a noção de representatividade dos partidos políticos e lembrar que as ações legislativas não são determinadas, exclusivamente, pelos interesses partidários e pelas convicções ideológicas. As práticas clientelistas e fisiológicas também interferem nas decisões parlamentares. Na verdade, a análise de Sérgio Abranches em torno dos sistemas e subsistemas, e a classificação quantitativa de Clóvis Brigagão conquanto fundamentadas em dados empíricos, resultam na busca de um modelo ideal de interpretação que nem sempre correspondem à realidade política com suas inúmeras particularidades. Essa noção clássica das atribuições dos poderes na democracia liberal foi formulada por John Locke, em seu O Segundo Tratado de Governo Civil, todavia, convém citar ainda, para encontrar o ponto de equilíbrio, Maria Isabel Valladão de Carvalho: Contrapõe-se também às previsões democrático-liberais o fato de que o partido político, que encontra-se no caminho da escolha feita pelo eleitorado e da produção de políticas ao nível governamental, não possui propósitos necessariamente coincidentes com os daqueles que elegeram seus membros. 15 As razões para isso são que “o partido precisa constituir-se burocraticamente e competir com seus adversários para atingir o poder político” e por isso, Fins específicos associados à manutenção da organização surgem e então passam a ser mais valorizados do que aqueles que o partido representa. Como a disputa pelo acesso ao governo exige que o partido se mostre coeso, os conflitos internos são abafados ou suprimidos pela facção dominante. 16 Nesse ínterim, há uma discussão que Eli Diniz faz sobre a evolução e as transformações do sistema partidário brasileiro durante a ditadura bastante apropriada para compreender o modo como o sistema partidário e o poder legislativo foram decisivos naquelas circunstâncias. 15 CARVALHO, Maria Isabel Valladão de. A colaboração do Legislativo para o desempenho do Executivo durante o Governo JK. Tese de Mestrado. Rio de Janeiro: IUPERJ, 1977. p.7. 16 Ibidem. 105 Para a autora em destaque, ao mesmo tempo em que o corpo legislativo e as representações partidárias ali existentes somavam forças em apoio ao governo nos anos 1960, aos poucos, tornaram-se um peso favorável à abertura política e aos princípios democráticos, na medida em que os partidos se impuseram como: O canal de expressão de um sentimento generalizado de insatisfação com o regime em vigor. Assim é que, a partir de 1964, tivemos sem dúvida partidos artificiais quanto à sua gênese, criados de cima para baixo, impostos à sociedade como camisa-de-força, num esforço das novas elites dirigentes para submeter o eleitorado e suas preferências, que já haviam alcançado um grau de consolidação ao longo do período anterior, a um novo arranjo. 17 A permanência da escolha direta, especialmente nos pleitos proporcionais, acirrou o debate político e a concorrência de idéias, tornando candidatos e eleitores mais propensos à diversidade partidária e ao processo democrático de escolha. Desta forma, ressalta Diniz: A despeito das origens favoráveis a uma atuação contida e tutelada, os partidos vieram a adquirir, no decorrer do tempo, um grau de autonomia bastante significativo, de tal forma que, de um mero recurso para a legitimação do sistema, passaria a operar como instrumento de sua transformação. 18 O principal momento em que ocorre essa transformação, segundo Eli Diniz, são as eleições de 1974 quando os votos para a ARENA diminuem consideravelmente e, paralelamente, o carlismo perde a eleição na Bahia e entra em refluxo. 19 Sem desconsiderar as questões locais que serão oportunamente tratadas, tal fato não é mera coincidência, visto que, a base de sustentação do carlismo nesse momento é o partido e o governo, e sua relação com o eleitorado baiano ainda está referenciado em candidatos como Lomanto Júnior e não em Antônio Carlos Magalhães. Todavia, há um outro dado a ser considerado sobre a análise de Eli Diniz. O processo de transformação dos partidos, do eleitorado e, por conseguinte, do legislativo levou boa parte 17 DINIZ, Eli. O ciclo autoritário: a lógica partidário-eleitoral e a erosão do regime. In: LIMA JÚNIOR, Olavo Brasil de (org.) O balanço do poder, formas de dominação e representação. Rio de Janeiro: Rio Fundo Editora/IUPERJ, 1990, p. 74. 18 Ibidem. p. 74 e 75. 19 A comparação que demonstra a retração de votos para a ARENA nas eleições de 1974 para o Senado, Câmara de Deputados e assembléias estaduais está em Eli Diniz, Op. Cit., p. 78. 106 da elite conservadora, inclusive na Bahia com o carlismo, a acompanhar a tendência geral e apoiar a erosão da ditadura. Evidentemente que, nesses casos, essa decisão foi mais tardia e o compasso mais lento, contudo, foi dessa forma que os militares e políticos interferiram no processo de abertura conduzindo o país a anistia restrita e a permanência das eleições indiretas. No geral, entretanto, os autores em questão concordam que o parlamento é um ambiente propício a tomada de decisões importantes uma vez que aglutina as principais forças políticas que representam os grupos sociais influentes. Parecem convergir também para a idéia de que essa diversidade está organicamente sistematizada através dos partidos políticos que se constituem em outro espaço de decisão efetivo. Ora, mesmo considerando o fato de que, em situações específicas, os pleitos eleitorais não sejam diretos ou que genericamente os interesses individuais ou o patronage sejam práticas constantes, a condição de “espaço de decisão política” continua inerente ao parlamento e ao partido. Foi dito que, em situações de normalidade democrática, são atribuições do Poder Legislativo legislar e fiscalizar e o partido mantêm-se como expressão política da vontade de certos segmentos da sociedade. A questão da legitimidade é proporcional ao peso das bancadas partidárias. Todavia, em situações de crise, como na recente ditadura brasileira, o grande diferencial está exatamente no manejo das atribuições não definidas regimentalmente ou publicamente reconhecidas. Neste caso, a legitimação do sistema político pelo Poder Legislativo passa a ser fundamental para manutenção da elite dirigente, e a unidade partidária insinua-se como a mais desejável de todas as virtudes para a agremiação ou para as coligações que controlam o poder. Após 1964, a principal ação da maioria na Assembléia Legislativa da Bahia foi legislar para legitimar a ditadura e os governos estaduais por ela mantidos, e a grande preocupação das lideranças vinculadas à elite política local foi manter a unidade do diretório regional da Aliança Renovadora Nacional. Vimos que, do ponto de vista partidário, os desafios para que Juracy Magalhães e Luiz Viana Filho mantivessem a coesão na ARENA foram enormes e ambos sucumbiram em seus desígnios de manter a organização ativa e unida, assim como, indicar e eleger pessoas politicamente habilitadas para o governo, a Assembléia Legislativa e a formação de gabinetes do Poder Executivo federal. Resta avaliar em que condições os deputados estaduais dirigidos por eles desenvolveram a estratégia de legitimação da ditadura e do executivo estadual e qual o resultado disso em termos de acomodação e deslocamento das forças políticas. 107 As sublegendas no diretório regional da ARENA divisavam, em princípio, três blocosdistintos: lomantistas, juracisistas, vianistas e, secundariamente, os resquícios do balbinismo acossados pelo fiel da balança, Manuel Novais, e fortemente influenciados pelas matérias jornalísticas do veículo criado Simões Filho. 20 Apesar da reforma partidária em 1966 e a filiação de todos esses ao partido governista, as diferenças entre os blocos permaneceram inalteradas, inclusive, no aspecto pessoal. Antônio Carlos Magalhães surge com possibilidade de destaque somente quando a maioria perdia influência política e eleitoral - excluindo-se Juracy Magalhães e Luiz Viana, como também, o poder econômico do clã calmonista e o prestígio do jornal À Tarde. Sendo assim, grande parte dos discursos legislativos de apoio ao governo estadual e federal faz referência a ACM, de modo que não nos ocuparemos em analisar a relação entre a Assembléia Legislativa da Bahia e o governo estadual, senão durante o período em que Antônio Carlos foi governador. A Assembléia Legislativa da Bahia e o governo estadual Ao assumir o mandato legislativo em 1971, o deputado estadual Stoessel Dourado salientou que era grato aos parentes e amigos da região noroeste do estado que o elegeu, contudo, Devo-lhes dizer que não vim, entretanto, imbuído de vãs esperanças no sentido de fazer milagres. Venho Sr. presidente, cônscio de que, sendo um dos membros do Poder Legislativo, incumbe-me o dever maior de servir ao Estado, de servir ao meu partido, de servir aos interesses públicos, dando de mim o máximo. 21 20 Lomanto Júnior, muito ligado à corrente autonomista de Otávio Mangabeira, foi governador entre 1963 e 1967; Juracy Magalhães teve extensa carreira política desde 1930; Luiz Viana Filho possuía a tradição herdada em família; Antônio Balbino foi governador entre 1955 e 1959 e permaneceu na política até 1971, como senador; Manuel Novais foi várias vezes deputado federal e constituinte no período compreendido entre 1934 e 1987, fundou e liderou o Partido Republicano na Bahia até filiar-se à ARENA. Ficou conhecido como vice- rei do São Francisco pela forma como controlava politicamente seu reduto eleitoral. A família Calmon, de banqueiros e políticos, herdou sua tradição de Francisco Marques de Góes Calmon, governador entre 1924 e 1928; Ernesto Simões Filho foi o fundador do Jornal A Tarde, veiculo da grande circulação na Bahia e adversário histórico de Juracy Magalhães. 21 Diário Oficial do Estado da Bahia, 6 de abril de 1971, p. 44. 108 O deputado em questão trazia consigo a experiência familiar, uma vez que substituía o pai, Moitinho Dourado, na carreira política, tendo sido, ainda, funcionário da Assembléia Legislativa e há muito se preparava para ocupar uma cadeira parlamentar. Por isso mesmo tinha consciência de que o parlamento era um espaço singular das decisões políticas, no qual o interesse público não era a única prioridade. No dia da posse, trouxe consigo uma proposta de reformulação do regimento interno, com a seguinte justificativa: O Poder Legislativo tem um regimento – pasmem senhores deputados – elaborado em 1947. Sabem os juristas da Casa, sabe o deputado Vieira Lima, líder do governo e eminente jurista que é, que as leis devem refletir a realidade social de seu tempo. O nosso regimento, portanto, não pode transmitir o pensamento atual, quando novos valores, novos processos, novos métodos de serviço publico foram introduzidos na administração pela Revolução de Março de 1964. Não fosse por isso, também, o regimento feito em 1947 e tantas vezes modificado por uma série de resoluções tem no seu bojo, textos evidentemente inconstitucionais, gritantemente ilegais. É, portanto, um instrumento caduco, que deve ser urgentemente reformado. 22 O comportamento em apreço está associado à idéia de legitimação do status quo como função precípua do legislador. Na condição de agente da autocracia, ele se sentia prejudicado no exercício da atividade parlamentar porque os instrumentos jurídicos de funcionamento interno da Assembléia Legislativa não correspondiam a realidade política do país. No mesmo dia, o deputado arenista Honorato Viana em sôfrega disposição de minimizar a oposição emedebista do deputado Newton Macedo Campos, declarou que “a Aliança Renovadora Nacional, pelos seus membros com assento nesta casa, ainda não teve oportunidade de empenhar-se em defesa ardorosa da ação do governo federal”. 23 E advertido pelo oponente de que os partícipes da Assembléia Legislativa deveriam rever suas posições, retrucou: Eu gostaria de declarar que a nossa bancada tem um líder e ele traçará a nossa vida nesta casa; é ele quem decidirá o instante em que devemos fazer isso ou aquilo; não seria jamais o deputado Newton Macedo Campos – meu particular amigo – quem ditaria normas ao nosso comportamento. Política é divergência e não podemos admitir que a oposição trace os rumos da situação, no mesmo passo em que nós da situação não ditamos normas à oposição. O nosso comportamento foi sempre assim: regular, equilibrado, consentâneo com a grandeza do Poder Legislativo da Bahia. Nós entramos no debate quando o interesse do povo está em jogo, quando as prerrogativas 22 Ibidem. 23 Diário Oficial da Bahia, 6 de abril de 1971, p. 38. 109 do governo devam ser defendidas. Por tudo isso, não nos importamos que o Ato Institucional n.˚ 5 continue em pleno vigor e por isso jamais pediremos a sua revogação. 24 Assim, o aparelhamento com o poder executivo colocava num plano secundário as atribuições inerentes ao legislativo. O aparelhamento com o governo superava a ação fiscalizadora e legisladora dos deputados e ignorava os protestos da oposição. Partia-se do pressuposto de que o interesse do povo sintetizava-se na doutrina autocrática regida por uma liderança carismática. O líder ao qual o deputado Honorato Viana se referia era Antônio Carlos Magalhães, eleito indiretamente pela Assembléia Legislativa da Bahia e já empossado como governador. Àquela altura, ACM já contornara os problemas mais críticos da ARENA e consumia parte de sua energia para constituir seu grupo político. Dividia o poder no partido e no parlamento com Luiz Viana Filho, embora com ligeira vantagem sobre esse último. O juracisismo, em franco declínio, tinha influência bastante reduzida no partido de sustentação da ditadura. O deputado Vilobaldo Freitas, líder da maioria, foi à tribuna ressaltar o comportamento ideal da Assembléia Legislativa da Bahia em face ao sistema de poder vigente e ao fortalecimento do Executivo: Entendemos estar vivendo um instante de grande importância para a Assembléia Legislativa da Bahia. Entendemos, mais, que esta é a oportunidade de voltar-nos sobre o Legislativo baiano, para dele e das nossas obrigações termos a dimensão exata, a dimensão que se ajuste ao tempo e à realidade baiana, ao tempo e a realidade nacional. Não entendemos que seja demasiado procurar, neste instante, situar o Poder Legislativo dentro da organização democrática do governo brasileiro e dentro do sistema cristão democrático que é o sistema ocidental de vida, aquele precisamente que elegemos, pela sua excelência, como nosso sistema. Diz-se por ai e por acolá, que o Legislativo é um poder que tem perdido a sua dignidade. Não acreditamos, nem participamos dessa convicção; ao contrário, o que entendemos é que o Legislativo de hoje realmente se investe das responsabilidades que lhe são próprias, face à hora, face aos acontecimentos. 25 24 Diário Oficial da Bahia, 6 de abril de 1971, p. 39. 25 Diário Oficial da Bahia, 6 de abril de 1971, p. 45. 110 Seu discurso,a todo o momento remetia à necessidade de restrição ao papel legislador e fiscalizador da instituição a que pertencia, contudo, tinha consciência do contexto em que atuava: Vivemos – nunca é demasiado repetir – uma conjuntura emergencial muito diferente da vida política em anos que nos antecederam, que foi o orgulho de outras gerações que puderam ter como solo comum, como alicerce de seu trabalho, uma estabilidade social que já não é e nem pode ser a tônica de nossos dias. 26 Ainda uma vez, diante da anuência de seus pares arenistas, Vilobaldo Freitas salientou a especificidade do momento político brasileiro e os ajustes que fortaleceram o Poder Executivo: No instante atual do Brasil, como no mundo de hoje, exige a administração que o Executivo se robusteça em suas prerrogativas, mas o Legislativo continua existindo, como exigência de uma sociedade democrática, porque a tribuna parlamentar, em qualquer instante, esteve, está e estará aberta ao representante do povo para, com suas palavras, também cooperar com o Executivo e o Judiciário na construção da coisa pública. 27 A atribuição fiscalizadora e formuladora das diretrizes legais inerentes ao Poder Legislativo se mantinha, segundo o parlamentar baiano, por exigência do processo democrático que ele defendia estar em desenvolvimento no Brasil, naquele momento. Seria demasiado prematuro afirmar que a Assembléia Legislativa da Bahia serviu inteiramente aos interesses da ditadura e a seus próceres no governo estadual, todavia, não seria ilação assegurar que o conjunto da elite ali representada ofereceu as condições de legitimidade necessárias à realização dos propósitos carlistas que, naquela conjunção, estavam orientados pelos militares. Nos discursos analisados até o momento, os parlamentares vinculados à Aliança Renovadora Nacional e entusiastas da ditadura política implantada em 1964 expressaram a sua determinação em operar como legitimadores do poder ditatorial e sustentáculo do governo estadual escolhido de acordo com as conveniências momentâneas. Torna-se necessário apresentar fatos que indiquem a prática contínua e sistemática de posturas em defesa dos 26 Ibidem. 27 Ibidem. 111 governos federal e estadual configurando-se como tentativa de legitimação do sistema e do status quo de certas personalidades. Em abril de 1971, logo após a posse de Antônio Carlos Magalhães, a imprensa divulgou, com grande estardalhaço, uma carta do governador ao presidente do Banco do Estado da Bahia – BANEB, Frank Sá, com a seguinte recomendação: Agradeço o relatório que me enviou com minuciosas informações sobre as atividades do BANEB, principalmente em relação aos seus devedores. Observei que, em matéria bancária, estamos acima dos partidos, pois a ARENA e o MDB freqüentam, igualmente, com a mesma assiduidade, a carteira de empréstimos do estado. Ainda bem que é um denominador comum. Recomendo ao ilustre presidente, que vem desenvolvendo excelente trabalho, verificar as operações dos parlamentares, que não devem receber tratamento melhor do que o dispensado aos demais clientes, em decorrência da função que exercem, pois não se justifica, em seu favor, qualquer discriminação. Por natural escrúpulo, até, tais operações precisam ser examinadas cuidadosamente, pois, qualquer falha implicará em desprestígio para o Legislativo que, certamente, não o deseja. 28 A atitude do governador Antônio Carlos Magalhães, recentemente empossado no cargo de governador, tinha justificativas econômicas e políticas. Como gestor, ele buscava resguardar o erário público, já que o estado era o maior acionista do banco, ao mesmo tempo, reafirmava a sua imagem de administrador dinâmico. Curiosamente, o missivista fez menção apenas às informações referentes aos deputados devedores, mesmo sendo notório que vários correntistas, proprietários de terras, amargavam prejuízos com a estiagem ou a crise das lavouras de cacau. Tornou-se público na Assembléia Legislativa que quase todos os deputados deviam ao banco estadual em função de atraso no pagamento de ajuda de custo e outros honorários ou de outras necessidades financeiras. De posse de informações tão preciosas, ACM poderia manobrar individualmente com aliados e desafetos constituindo-se, desta forma, o primeiro elo da construção de uma rede de relações que se articulava para apoiar incondicionalmente o dirigente carlista. Outro evento ocorrido na Assembléia Legislativa, que denota, mais uma vez, a sua importância - e explicita a estratégia carlista de construção de sua rede de relações dentro e fora do parlamento - foi a indicação do Conselho de Educação no primeiro governo de Antônio Carlos Magalhães, logo após a sua posse, em 1971. O deputado Newton Macedo Campos, do MDB, acusou o governador Antônio Carlos Magalhães de excluir, entre outros, o representante do ensino primário, requisito legal da Lei 28 Diário Oficial da Bahia, 20 de abril de 1971, p. 59. 112 de Diretrizes a Bases da Educação. Em defesa de ACM, o deputado Áureo Filho apresentou a solução para o impasse alegando que a reforma do ensino que tramitava no Congresso, e estava em vias de aprovação, excluía o ensino primário como nível formal. Todavia, outro comentário surgido durante a fala de Newton Macedo Campos despertou os parlamentares para um fato curioso na construção da rede de relações que ACM tecia naquele momento de organização do seu gabinete: Mas outra grande injustiça no atual Conselho, e V. Exa. Nobre líder do governo, pode dizer ao governador do estado que repercutiu muito mal nos meios educacionais e apolíticos a não recondução de dois dos mais eficientes, dinâmicos e operosos conselheiros que são o professor Ramakrisma Bagavan e o coronel João Mansur Damasceno de Carvalho. Não sei se a não recondução do coronel João Mansur é por ter sido o mesmo ajudante de ordens do ex-governador Juracy Magalhães. Mas saiba V. Exa. que foi o conselheiro que mais deu pareceres durante quatro anos. E pode V. Exa. perguntar a todas as pessoas ligadas a assuntos educacionais, a gregos e troianos, e verá que todos reconhecem que é uma injustiça gritante a não recondução do general Mansur, a quem não tenho a honra de conhecer. 29 Em situações como estas, a demonstração de forças na Assembléia Legislativa tinha um caráter mais simbólico que real e qualquer manifestação, independente do resultado produzido, era importante. Por isso, o deputado Jutahy Magalhães, presente no recinto, em defesa do amigo paterno, aparteou: V. Exa. está fazendo justiça a uma pessoa a quem muito prezo, o coronel João Mansur de Carvalho. O coronel Mansur é militar, mas mesmo na sua vida profissional, tem dedicado todo o seu esforço no sentido da educação, e, como professor que também o é, tem dedicado toda a sua vida a um ideal, que é o ideal de educar. E como conselheiro que foi, ele honrou o seu mandato, trabalhando, como V. Exa. disse e como podem testemunhar todos os seus companheiros do conselho. Agora, V. Exa. sabe, como ele também sabe, que o cargo não é vitalício, é da escolha do Sr. governador do estado e o Sr. governador do estado não o quis reconduzir, deve ter suas razões, mas o coronel Mansur merece todo o respeito e toda a consideração pelo trabalho que executou à frente do Conselho Estadual de Educação. 30 O desentendimento entre Juracy Magalhães e ACM surgira exatamente por aqueles dias. A motivação do dissídio foi a divulgação por este último de uma conversa, supostamente 29 Diário Oficial da Bahia, 24 de abril de 1971, p. 122. 30 Ibidem. 113 ocorridanuma reunião entre ambos no dia 15 de outubro de 1970, na qual Juracy Magalhães teria solicitado ao futuro governador Antônio Carlos, vantagens fiscais para a SANBRA, uma indústria de beneficiamento de mamona e para a Petroquímica União, empresa privada de refinamento de petróleo e concorrente do Pólo Petroquímico da Bahia, em Camaçari. ACM alegou que Juracy, descontente com a sua negativa, rompeu a relação pessoal e política, enquanto Juracy se disse vitimado pela traição e a mentira do correligionário. Vale recordar que Jutahy advertiu por diversas vezes seu pai da personalidade controvertida de ACM e dos perigos que ele corria tendo-o como aliado político. Mesmo assim, Juracy Magalhães apoiou plenamente a candidatura de Antônio Carlos Magalhães originando um conflito familiar de grandes proporções. Em correspondência ao general Carlos Alberto Fontoura, diretor Geral do SNI em 1971, buscando provar sua inocência, Juracy demonstra seu arrependimento por ignorar de seu filho a seguinte advertência: “não se deve dar poder a quem abusa do poder e Antônio Carlos abusa do poder”. 31 Enquanto o MDB - bancada da minoria - e Jutahy Magalhães - herdeiro juracisista - faziam a defesa do coronel Mansur, um exército de deputados arenistas, alocados na maior bancada da casa, fazia a defesa do governador. Por ocasião da indicação e posse de Antônio Carlos Magalhães, o deputado Vilobaldo Freitas asseverou: O exercício do governo é, por si só, algo que eu definiria como chefia. Há no cargo ou na função, predicados ou características que definem aquele que ocupa como chefe, como governador, como grande administrador do estado. A liderança decorre mais em mercê das qualidades pessoais de quem ocupa a chefia e, neste particular, ninguém pode esquecer ou ocultar, ainda que seja obnubilado, a extraordinária ação do governador Antônio Carlos Magalhães. 32 Daí em diante, o deputado governista deteve-se em demonstrar aos seus pares a popularidade de Antônio Carlos Magalhães, buscando legitimar, por analogia, a escolha indireta e a aprovação da Assembléia Legislativa para o cargo de governador de estado. Por diversas vezes, os deputados da ARENA assomaram à tribuna para fazer a defesa dos governadores e não era incomum manifestarem-se para resguardar os prefeitos aliados. Na ocasião em que os deputados Walter Lomanto e Araguacy Gonçalves acusaram o governador Luiz Viana Filho de omissão no caso dos policiais incendiários que aterrorizaram 31 Arquivo Juracy Magalhães, n. 326/71, CPDOC/FGV, Carta de 04 de agosto de 1971. 32 Diário Oficial da Bahia, 31 de agosto de 1971, p. 42. 114 os comerciantes do centro de Salvador, em 1971, o líder do governo, Djalma Bessa, apressou- se em explicar: V. Exa. quer julgar o governo por quatro funcionários da Secretaria de Segurança que estão sendo acusados de incendiários. É um julgamento muito pequeno, muito minucioso, muito minúsculo, Exa. V. Exa. deve julgar o governo pelas suas realizações, pelos seus trabalhos, pelo que o governo fez no setor da educação, pelo que o governo fez no setor de estradas, pelo que o governo fez no setor de saneamento básico, pelo que o governo fez no setor de abastecimento de água, pelo que o governo fez no setor de energia. Este sim é o julgamento correto. Esta é uma contestação que faço muito tranqüilo, porque o governo agiu corretamente: adotou as providências éticas e legais necessárias ao caso. 33 Em situação semelhante, um antigo deputado lomantista, que acompanhou a carreira política de ACM desde que esse era redator de debates da Assembléia Legislativa, saiu em defesa do prefeito carlista e de sua administração. Ao ser provocado pelo deputado Walson Lopes, da oposição, que solicitava atenção especial da administração municipal aos bairros de Salvador, reagiu: Ninguém nesta Casa tem mais condições de fazer uma análise do passado e do presente de Antônio Carlos do que este orador, deputado Rocha Pires, Francisco Rocha Pires. Há cerca de um ano e meio mais ou menos – não sou homem de elogiar sem merecimento, não sei adular, não sei acusar injustamente, sou homem de equilíbrio e bom senso – tive a oportunidade de assistir a inauguração de várias obras na Rua Saldanha Marinho, conhecida por Pau Miúdo. Ali quando eu contemplava aquela multidão imensa a demonstrar sua gratidão e reconhecimento à administração Antônio Carlos, tive um impulso, um entusiasmo incontido e não pude deixar de ir à tribuna para fazer uma análise daquilo que eu pensava, daquilo que eu sentia, porquanto, estava vendo uma obra admirável e o reconhecimento daquele povo a uma grande administração.34 Verificamos assim, que ao assumir o governo estadual, ACM completou um ciclo clássico de acesso ao poder, pois, já tendo sido presidente do diretório regional da ARENA - cargo no qual monopolizou as indicações de candidaturas à Assembléia Legislativa -, ao assumir o Poder Executivo dispunha de maioria absoluta para legitimar-se no poder. A percepção da atuação legitimadora do Poder Legislativo não é inovadora e ocorre com freqüência em regimes democráticos ou excepcionais. É claro, também, que Juracy 33 Diário Oficial da Bahia, 26 de janeiro de 1971, p. 2. 34 Diário Oficial da Bahia, 30 de abril de 1971, p. 61. 115 Magalhães, Lomanto Júnior, Luiz Viana Filho e Manoel Novais sabiam que o desempenho da Assembléia Legislativa no apoio ao Poder Executivo era decisivo para a manutenção da hegemonia política e partidária. Entretanto, manter a unidade do partido e do bloco parlamentar situacionista, mediante suas diferenças pessoais e ideológicas, e controlar sistematicamente as pressões internas, canalizando-as em benefício de um segmento da elite, era fundamental. Após 1964, o juracisismo, o lomantismo, o vianismo e todas as demais facções da elite política na Bahia tentaram se impor por meio de alianças pontuais embasadas única e exclusivamente no fato de apoiarem o governo federal e a ditadura. Esse elo era muito frágil porque desconsiderava os pontos de divergência quanto a temas políticos relevantes e minimizava as disputas locais que opunha membros de um mesmo partido. Para Antônio Carlos Magalhães, o partido atuava como esteio da legitimidade popular, através do qual, nas eleições diretas proporcionais, o eleitorado sufragava os nomes por ele indicados para concorrer a uma vaga na Assembléia Legislativa. Em um contexto de restrições severas aos direitos de cidadania, essa brecha lhe permitia ganhar popularidade e notoriedade, além de controle político dos municípios. A maioria governista no parlamento, por sua vez, formava um corpo legitimador da ação executiva e, poucas vezes, foi a expressão legítima das aspirações de todos os segmentos da sociedade. Todavia, ainda que trabalhando sob vigilância ostensiva dos órgãos de repressão da ditadura, a oposição militou ativamente para evitar o aparelhamento e a submissão. Ao assumir o governo – munido do poder de executar as políticas estaduais e legitimado pela ação e pelo discurso dos deputados eleitos diretamente pelo povo –, ACM usou os canais disponíveis, ação e representação, resquícios da democracia liberal ainda existentes na ditadura, para legitimar sua condição de chefe político e governante. Contudo, se a estrutura organizacional estava montada, não significava que ela funcionaria a contento. Em primeiro lugar, porque os modelos clássicos de funcionamento das instituições não são rígidos e podem variar de acordo com a vontade dos sujeitos que interferem cotidianamente em suas realizações. Em segundo lugar, porque a ditadura e seus prepostos operavam emmeio a contradições, ambivalências, diversidades e, sobretudo, improvisações, que exigiam muito mais que experiência política para o controle das instituições e compreensão das especificidades da conjuntura. Era necessária uma articulação cuidadosa da rede de relações na qual se constituíam os indivíduos que compunham a elite 116 política. Foi, sem dúvida, o comportamento carlista, nesse ponto particular, que levou esse grupo a hegemonizar a política baiana durante várias décadas. Por isso, no próximo capítulo iremos discutir a construção do consenso entre os juracisistas e vianistas em torno da indicação de Antônio Carlos Magalhães para o governo da Bahia nas eleições de 1970. CAPÍTULO V O predomínio do consenso: a defesa do desenvolvimento baiano nas estratégias da elite política Perspectivas iniciais Há uma grande polêmica sobre o momento e os motivos que levaram o carlismo a se tornar um grupo político hegemônico na Bahia durante várias décadas. Destacamos nos capítulos anteriores a atuação desse grupo na ARENA e na Assembléia Legislativa da Bahia, bem como a maneira como o mesmo interveio nesses espaços de decisão política. Propomos agora verificar como o carlismo, apropriando-se do discurso nacional- desenvolvimentista, impulsionou o crescimento da economia estadual e consolidou uma aliança da elite em torno deste tema. Importante salientar que, ao mesmo tempo, a convergência em torno dos nomes indicados para concorrer às eleições de 1970 foi parte da estratégia de Antônio Carlos Magalhães para fortalecer sua liderança no diretório regional da ARENA. Como é notório, o desejo de alcançar a integração dos vários setores da elite em torno de uma eleição é, geralmente, o requisito fundamental para o domínio dos espaços políticos de decisão e a garantia de apoio e legitimação do governo. A partir daí, quanto maior a coesão da elite, maiores serão as possibilidades de se manter no poder por um longo período. Em virtude disso, Antônio Carlos Magalhães buscou seu fortalecimento nas eleições de 1970 e, a partir desse momento, transformou suas aspirações pessoais em um projeto político coletivo. Por isso, garantir o consenso em torno do desenvolvimento estadual e das eleições de 1970 foi decisivo para o carlismo. As razões para a coesão da elite política na Bahia Em 1967, quando Juracy Magalhães se afastou oficialmente da política, o juracisismo ainda era a maior força orgânica da política baiana e ele imaginava estar preparado para manter essa influência nos espaços decisivos, por meio de seus legatários. 118 Bem antes, no dia 13 de setembro de 1931, quando desembarcou na Bahia para assumir o governo como interventor, já tinha a pretensão de unir as oligarquias em torno do desenvolvimento. Na ocasião manifestou o “desejo que todos os bons baianos, sem preocupação de partidarismo, colaborem na urgente obra de restauração econômica e financeira do estado”. 1 Quando Juracy foi governador do estado, entre 1959 e 1963, pela legenda da UDN, este usou, novamente, a estratégia de reunir as mais variadas correntes políticas em torno de seu projeto de “pacificação da Bahia” com o propósito de inserir novamente o estado no plano de desenvolvimento econômico da elite brasileira e, desta forma, recuperar seu prestígio político. Assim, na primeira fase, como preposto de Vargas, cedeu às pressões dos coronéis para garantir sua condição de interventor. No momento seguinte, conseguiu agregar uma parcela considerável da elite, insatisfeita com Vargas, na UDN. Finalmente, no período de grande recessão econômica, quando governador, apresentou-se como emissário da recuperação econômica estadual. 2 Entretanto, a situação econômica da Bahia era desalentadora e foi objeto de preocupação de vários governadores que antecederam a Juracy Magalhães. O historiador Luís Henrique Dias Tavares diz que, ao tomar posse em 1947, Otavio Mangabeira encontrou um estado da Bahia pobre, atrasado e ferido por sucessivas interventorias do Estado Novo, das quais a única que experimentou tímido programa nas áreas de educação e agronomia foi a de Landulfo Alves de Almeida. Faltava carne na cidade do Salvador. A carestia de vida era enorme. A economia baiana mais atuante era a do cacau. Ela fornecia, porém, “mais dividas ao país” do que à Bahia, dependia do mercado externo e sofria com a legislação tributária federal. Faltavam escolas, hospitais, estradas de rodagem, portos marítimos e fluviais, navios e estradas de ferro. 3 Intrigado com o fato de ser a Bahia um estado potencialmente rico e ao mesmo tempo com graves problemas financeiros, Otávio Mangabeira acreditou na existência de um “enigma baiano” e propôs um arrojado plano de recuperação e desenvolvimento econômico que se mostrou positivo, porém tímido diante da complicada situação. 1 FRANCO, Tasso. O círculo do poder na Bahia. Salvador: Franco Produções, 1990, p.130. 2 Ibidem, p. 123 a 139 e CARVALHO, Patrícia Carneiro Santos M. Juracy Magalhães e a construção do juracisismo: um perfil da política baiana. Dissertação de Mestrado. Salvador: UFBA, 2005. 3 TAVARES, Luís Henrique Dias Tavares. História da Bahia. 10.ª ed.. São Paulo, UNESP; Salvador: EDUFBA, 2001, p. 461. 119 Na mesma linha, atuaram Régis Pacheco e Antônio Balbino, governadores que sucederam Otávio Mangabeira. Ao assumir o mesmo cargo no final da década de 1950, Juracy Magalhães resolveu desafiar o “enigma” com o Plano de Desenvolvimento para a Bahia, coordenado pelo economista Rômulo Almeida, com a finalidade de “desenvolver ao máximo as possibilidades apresentadas pelos recursos naturais, industriais e humanos que a Bahia apresenta”. 4 O plano não surtiu o efeito desejado e a crise econômica, ao invés de ser debelada, tornou-se um impedimento para o desenvolvimento das ações propostas, dada a escassez dos recursos. A crise política provocada pela renúncia de Jânio Quadros acentuou ainda mais o fracasso do PLANDEB. Ainda assim, Juracy Magalhães conseguiu compor com outros partidos e eleger, em 1962, Antônio Lomanto Júnior para governar a Bahia. Porém, no início da década de 1970, não havia a mesma mobilidade para a elite e a correlação de forças na política baiana era completamente diferente daquela observada quando Juracy Magalhães foi governador. Sua derrota na convenção da UDN para concorrer, como candidato dessa legenda, à presidência da República, em 1960, foi o primeiro sinal de desgaste político do juracisismo. Ele terminou o governo estadual sob acusação de corrupção e ainda foi derrotado quando concorreu ao senado, pela Guanabara, em 1962. 5 Por conseguinte, apesar de ser um dos pilares da consolidação do golpe de 1964, o seu afastamento da Bahia, para ocupar o posto de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, deixou uma enorme lacuna na direção política do estado e abriu a possibilidade para o surgimento de novas lideranças. Por outro lado, Antônio Lomanto Júnior, seu sucessor no governo estadual e considerado o herdeiro político do ambicioso projeto autonomista de Otávio Mangabeira, enfrentou uma forte recessão econômica em sua gestão e viu seu projeto municipalista ser tragado pela centralização executiva do governo Castelo Branco. Além disso, sua vinculação ao PTB e sua adesão de última hora ao golpe de 1964 afastavam qualquer possibilidade de ocupar o posto do chefe juracisista. 6 Ao contrário do que possa parecer, o período de exceção não foi de todo conveniente para a elite que apoiava a ditadura, uma vez que as vantagens obtidas, especialmente pelos núcleos estaduais, tiveram o custo de muitas adaptações.Os primeiros ajustes ocorreram logo após o golpe de 1964 quando se redefiniram as relações das frações de elite política nos 4 Ibidem, p. 472. 5 Tasso Franco, Op. Cit., p. 138. 6 A Tarde, 31 de março de 2004, p. 6, Caderno Especial: 1964, o golpe na Bahia. 120 estados com o governo federal, tornando-as mais dependentes econômica e administrativamente. Em seguida, as reformas políticas ocorridas em 1966 determinaram uma reorganização partidária que, na Bahia, não correspondia, de fato, nem aos conceitos defendidos e nem às afinidades pessoais. Apesar dos revezes apontados anteriormente, todos os personagens políticos pré- ditadura mantiveram-se ativos de alguma forma. Em 1967, logo após o afastamento de seu patriarca, o juracisismo conseguiu impor o nome de Jutahy Magalhães como vice na chapa de Luiz Viana Filho ao governo estadual. Para a mesma eleição, Antônio Carlos Magalhães foi escolhido prefeito biônico da capital. Manuel Novais e Lomanto Júnior elegeram seus deputados estaduais e mantiveram pequena fatia do partido e da Assembléia Legislativa, além de prefeituras do interior. Apesar disto, no início da década de 1970, já sentiam os efeitos das mudanças políticas no país e esses grupos ocupavam outras posições no organograma de poder que se redesenhava na Bahia. A antiga influência nacional de Juracy Magalhães voltava-se, agora, para os prefeitos do interior do estado, através do mandato de deputado estadual Jutahy Magalhães. Lomanto Júnior não tinha o prestígio dos militares e seu governo não conseguiu resolver o “enigma” da Bahia. 7 O juracisismo e o lomantismo, especialmente, perderam espaço para o carlismo, este que sobressaiu como força emergente da política local. A crônica política baiana costuma explicar esse fenômeno como resultado da conciliação entre o autoritarismo congênito de ACM e o caráter autoritário da ditadura brasileira. Disso resultaram quadrinhas populares como essa: "vestiu uma camisa listrada e saiu por aí... depois de dar um tapa na moça, chutou o guri... saía com o dinheiro no bolso e o chicote na mão... e sorria quando o povo dizia: sossega leão". A camisa listrada nas cores da Bahia é uma referência ao símbolo do carlismo em seus anos áureos, a moça e o guri representam jovens jornalistas de veículos de comunicação que lhe faziam oposição no estado, o dinheiro refere-se à corrupção, o chicote à perseguição e a expressão final corresponde ao paradoxo entre “toninho ternura” e “malvadeza”. 8 Visto que a tese do “autoritarismo congênito” nos parece insuficiente para explicar a política baiana na ditadura, tentaremos demonstrar que a forma de articulação entre Antônio Carlos Magalhães e seus pares, nos espaços políticos de decisão, foi, dentro da conjuntura 7 Tasso Franco, Op. Cit., p. 139. 8 Essa expressão é um adágio popular e sua origem e a autoria são desconhecidas. 121 ditatorial, a melhor estratégia para que o carlismo emergisse como força alternativa ao juracisismo. O consenso em defesa do desenvolvimento da Bahia Uma das atitudes mais comuns dos chefes políticos baianos para angariar simpatia popular sempre foi fazer a defesa intransigente da Bahia e da região Nordeste. Em um discurso histórico de Luis Viana Filho, realizado na Câmara dos Deputados, em 1960, já era possível deduzir a importância de ser reconhecido como defensor dos interesses do estado. Tratava-se da demanda colocada pelo governador Juracy Magalhães quanto ao aumento no pagamento dos “royalties” do petróleo retirado da Bahia pela Petrobras, considerados insuficientes pela elite política baiana e representada no Congresso pelos deputados federais. Desde muito tempo, a economia baiana dava sinais de fragilidade e ameaçava o patrimônio de famílias tradicionais da capital e do interior. Nessa época, os interesses econômicos em torno da exploração do petróleo foram utilizados, com êxito, pelo governador Juracy Magalhães como elemento de harmonização da política baiana e estratégia de manutenção da hegemonia juracisista no estado. Para que se tenha uma compreensão real da crise econômica experimentada pela elite na Bahia desde o esgotamento do modelo agro-exportador de monocultura, observemos a descrição de um trecho do livro do historiador Franklin Oliveira Júnior: De região básica para o desenvolvimento do país durante mais de três séculos, o Nordeste é colocado na condição de periferia do sistema econômico e de relações de poder. A Bahia, entre o final do século passado e o início desse século, vive um período de crise de sua principal atividade econômica – a lavoura açucareira – e, apesar da transição para a criação de usinas de açúcar no Recôncavo e o surgimento de novas culturas como a do cacau, sua industrialização, que já tinha caráter de complementaridade das atividades agrícolas, apresenta baixa produtividade e métodos artesanais, levando mais tarde à perda do dinamismo. 9 Segundo o autor, como conseqüência de um projeto de desenvolvimento energético dos setores conservadores da economia brasileira, a Bahia beneficiou-se com a criação, em 9 OLIVEIRA JUNIOR, Franklin. A usina dos sonhos: sindicalismo petroleiro na Bahia – 1954/1964. Salvador: EGBA, 1996. p. 26. 122 1946, da primeira refinaria estatal de petróleo instalada em caráter “experimental” na região de Mataripe, em Salvador. Depois veio a Petrobras, criada em 1954 e presidida inicialmente pelo próprio Juracy Magalhães. Ocorre que, por pressões de empresários nacionais e estrangeiros, foram instaladas, paralelamente a Mataripe, duas outras refinarias particulares em São Paulo e no Rio Grande do Sul, sendo essas responsáveis pela distribuição do óleo a multinacionais americanas. 10 A falta de investimentos e aportes tecnológicos na refinaria de Mataripe, bem como, as precárias situações de trabalho e o descontentamento com o pagamento do quinhão petrolífero geraram as condições de insatisfação que uniram a Bahia ao governador juracisista, segundo comentários do Diário de Notícias, relatados por Luiz Viana Filho: As queixas de anos jamais foram ouvidas. Raras promessas nunca cumpridas. Há poucos meses, com a presença do governador Juracy Magalhães – cuja insuspeição é total, pois quando Vargas quis fazer a Petrobras foi buscá-lo para primeiro presidente da empresa – as queixas começaram a tomar vulto e forma definidos. O assunto foi estudado seriamente. Objetivaram-se providências. Ante a carência de recursos com que luta o grande estado, cuja receita é pequeníssima, a decisão de obter meios daquilo que o próprio estado produz, segundo a política de seu governador, alcançou apoio geral. 11 No referido discurso, o deputado Antônio Carlos Magalhães aparteou em defesa da Bahia e de seu líder, ratificando a união em torno do tema: V. Exa. está sendo realmente muito preciso, não nas acusações, mas nas críticas inteiramente justas que vem fazendo. Ainda mais, levo ao conhecimento de V. Exa., talvez V. Exa. já saiba, o estado se comprometeu com a Petrobras a empregar a diferença do aumento do “royalty” da indústria petroquímica como contribuição do estado para que ela logo fosse estabelecida. De modo que V. Exa. com muita propriedade, nesta hora não representa apenas a sua voz, nem tão somente da nossa bancada; representa o pensamento unânime da Bahia, de revolta contra a orientação da Petrobras. 12 10 Ibidem, p. 28. 11 Luiz Viana Filho. Em defesa da Bahia. Discursos proferidos na Câmara dos Deputados. Departamento de ImprensaNacional, Rio de Janeiro: 1960, p. 3. 12 Ibidem, p. 7. 123 Se notadas isoladamente, as sucessivas interrupções do discurso de Luiz Viana Filho, por deputados baianos em apoio ao caso, demonstram uma coesão em torno de um tema tão polêmico. Naturalmente, é isso que se espera de uma bancada estadual no parlamento federal. Se, porém, associarmos a isso o fato de que Juracy Magalhães disputava naquele momento a indicação da UDN como candidato à presidência da República e que as demandas pela inserção da Bahia na política nacional de petróleo estavam sendo reiteradamente rejeitadas, iremos perceber que o juracisismo levava enorme desvantagem e começava a tropeçar em sua tentativa de ganhar projeção nacional. Basta salientar que, não fosse a aliança com o PTB, a UDN seria derrotada pelo candidato do PSD, Waldir Pires, nas eleições de 1962 que sufragou Lomanto Júnior. Em situação análoga, como se verá adiante, a Bahia, em pleno “milagre econômico”, perdeu uma de suas maiores fontes de recursos com o cancelamento dos royalties do petróleo extraído em seu território. Antônio Carlos Magalhães, que já era o governador do estado, utilizou esse fato a seu favor. No centro das discussões, estava a defesa dos interesses baianos. A baianidade como elemento de coesão das forças políticas também se incorporou ao discurso carlista. Seria desnecessário, e até mesmo dificílimo, citar todas as afirmativas de Antônio Carlos Magalhães sobre sua vinculação com a Bahia. Durante toda a sua trajetória política, ele salientou que a razão de sua militância era o povo baiano e, por qualquer motivo vinculava suas atitudes em defesa do seu estado natal e da gente que ali vivia. Certa vez, entrevistado por um grupo de jornalistas sobre seu percurso político no Brasil, assegurou ao jornalista Ancelmo Góis: “É o respaldo popular que busco para tudo o que faço, na Bahia. Nós temos de falar sobre a Bahia, porque lá é que é a base de tudo isso, da minha força política”. 13 Quando acusado de possuir um comportamento temperamental, agressivo e arrogante, Antônio Carlos Magalhães justificava suas atitudes em defesa dos interesses da Bahia. Segundo ele, em todos os episódios dessa natureza, no qual foi partícipe, defendia os interesses dos baianos. O caso mais expressivo foi, segundo ACM, o rompimento com Clemente Mariani, banqueiro que atuou na Bahia até os anos 1970. O referido banqueiro era proprietário do Banco da Bahia, com o qual o estado da Bahia possuía estreitas relações financeiras e ainda as mantinha durante o segundo período de governo de Antônio Carlos Magalhães. O país vivia o período do milagre econômico e do endividamento público. O carlismo, em fase de ampliação de suas bases para o cenário 13 GÓIS, Ancelmo & et. all. Política é paixão: quem é Antônio Carlos Magalhães. Rio de Janeiro: Revan, 1995, p. 114. 124 nacional, planejava a instalação de indústrias de base, expansão das indústrias químicas e petroquímicas, bem como a industrialização dos pólos agropecuários do estado. Paralelamente a esse fenômeno econômico brasileiro da década de 1970, intensificou- se o ufanismo e a propaganda oficial que desafiou os brasileiros a aceitar a ditadura como desejo intenso da “maioria” ou a abandonar o país. Vários anos depois, Antônio Carlos Magalhães ainda preservava a sensação de que um grande contingente social apoiou o golpe: O regime foi ditatorial, mas foi o povo que pediu a ditadura, na época. Isso é preciso que se diga. As coisas devem ser colocadas nos devidos termos, pois o regime de 1964 surgiu porque o povo quis. Assim como foi derrubado, também, pelo povo. 14 Contraditoriamente, ao mesmo tempo em que alguns brasileiros da oposição viviam sob a égide do medo e da tortura, o país iniciava um ciclo inédito de desenvolvimento. O consumo de energia elétrica cresceu em quase 10% ao ano, as montadoras de veículos chegaram a triplicar a produção de carros em 1970 e os aparelhos de televisão quintuplicaram nas residências dos assalariados de melhor renda. A propaganda do governo também estimulava os empresários e os políticos aliados a investir maciçamente no apoio à ditadura. Os lucros cresciam e os dividendos políticos, também. Os consumidores e os eleitores, com um perfil compatível com esses ganhos, podiam exibir com orgulho a fita verde e amarela ou cantar o hino nacional, desconhecendo ou ignorando os efeitos nefastos dessa política econômica para a população pobre. Essa opinião recorrente no discurso de ACM foi absorvida durante o governo Castelo Branco. Este, criou e difundiu pelo Brasil, através do Programa de Ação Econômica do Governo, as políticas econômicas e as reformas na estrutura produtiva que possibilitassem aumento do consumo e das exportações sem influências negativas para a balança comercial. Na verdade, essa opinião não é consensual entre os economistas que, segundo Fernando Veloso, divide-se em três grupos: A primeira interpretação enfatiza a importância da política econômica do período 1968/73, com destaque para as políticas, monetária e creditícia, expansionistas e os incentivos às exportações. Uma segunda linha de interpretação atribui grande parte do “milagre” ao ambiente externo 14 GÓIS, Ancelmo & et. all. Op. Cit., p. 23. 125 favorável, devido à grande expansão da economia internacional, melhoria dos termos de troca e crédito externo farto e barato. Já uma terceira explicação credita grande parte do “milagre” às reformas institucionais do PAEG (1964/66), em particular as reformas fiscal-tributárias e financeira, que teriam criado as condições para a aceleração subseqüente do crescimento. 15 Uma grande influência na formação ideológica de Antônio Carlos Magalhães foi Juscelino Kubitschek, que implantou, entre 1956 e 1961, as metas para que o crescimento possível em cinqüenta anos fosse alcançado em apenas cinco. Os princípios econômicos norteadores do pensamento carlista desde Juscelino Kubitscheck eram embasados na doutrina keynesiana, que estimulava a criação e o investimento em empresas estatais, especialmente, siderurgia, petroquímica e energia. Essas ações permitiriam o fortalecimento do Estado, desde que essas empresas fossem lucrativas, competitivas e independentes, contribuindo para o crescimento da indústria nacional de bens de consumo duráveis. Foi esse o tipo de desenvolvimento industrial brasileiro durante a ditadura e assim quis ACM que a Bahia se desenvolvesse no mesmo período. Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas, de 1968 a 1973 a inflação não ultrapassou os 20 %, enquanto o Produto Interno Bruto - soma de todas as riquezas produzidas no país - cresceu, em média, 10% ao ano. Ao fim desses anos de dilatação econômica, contudo, os índices de inflação chegaram a patamares astronômicos e se refletiram profundamente entre a população pobre. Por conta do tipo de política econômica estimuladora do crescimento urbano, a produtividade no meio rural decresceu, causando um grande fluxo migratório e uma maior incidência da pobreza, tanto no campo como na periferia das cidades. A Lei de Terras não foi suficiente para transformar a estrutura agrária arcaica no modelo de desenvolvimento pretendido. Nem mesmo as iniciativas paternalistas do Estado, severamente criticadas pelos setores econômicos liberais, resolveram o problema da distribuição de renda no país. Premidos pela pobreza e pela ausência de condições dignas de vida, os retirantes formariam 15 VELOSO, Fernando A.; VILLELA, André & GIAMBIAGI, Fábio. Determinantes do “milagre”econômico brasileiro (1968/73): uma análise empírica. Seminário de Pesquisa. Publicação on-line da Fundação João Pinheiro. Belo Horizonte: 2006. Os autores reforçam, em nota, que essas explicações não são, necessariamente, excludentes e apontam obras importantes em que as possibilidades se complementam. 126 uma imensa massa de desamparados nas favelas urbanas, cujo saldo de violência somente viria a ser contabilizado nas décadas posteriores. Aos setores dessa elite, representados nos estados, cabia manter o plano de desenvolvimento e encontrar soluções alternativas para as mazelas da urbanização sem planejamento. Assim, a pressão pela ocupação do espaço urbano na Bahia no final dos anos 1960 aumentou, sobretudo, na capital, Salvador, da qual era prefeito Antônio Carlos Magalhães. Diz Paulo Fábio Dantas Neto que “a criação nesse período de um mercado de terras” e de “uma burguesia imobiliária” foi tarefa do prefeito biônico. Ele dedicou um capítulo inteiro do seu livro para tratar da relação entre o carlismo e a administração pública nesse momento de industrialização e urbanização considerando, inclusive, as relações com o mercado imobiliário Segundo ele, O regime militar possibilitou, não a solução do problema dos moradores de invasões, e sim a “assepsia” de áreas estratégicas à expansão do capitalista da cidade. Mas numa economia de mercado a solução duradoura não pode resumir-se à repressão. Com ACM vieram soluções mais reclamadas para dar conseqüência local à abertura, pelo governo federal, de linhas de crédito imobiliário, no bojo da criação do Sistema Financeiro de Habitação. 16 A demanda de ações desenvolvimentistas foi confirmada por José Batista Freitas Mattos, que homenageou Antônio Carlos Magalhães com uma obra literária. Aquele, comenta que as metas básicas do programa de governo carlista nos anos 1970 incluíam a “limpeza” urbana da capital, a ampliação portuária, rodoviária, aeroportuária, das comunicações, da distribuição de energia e de água. No fim daquela década, a infra-estrutura já estava preparada para dar impulso aos desígnios carlistas: O objetivo era construir um sistema econômico e social moderno, em condições de possibilitar o ingresso definitivo da Bahia no grupo dos estados desenvolvidos, beneficiando, primeiramente, toda a sua população e, em circunstâncias outras, indiretamente, todo o Nordeste, envolvendo uma grande difusão de estímulos econômicos. 17 16 Dantas Neto, Op. Cit., p. 324. 17 MATTOS, José Batista Freitas. ACM: o mito. Rio de Janeiro: RGB, 2001, p. 103. 127 Esse processo de modernização da economia baiana teve um custo muito alto para os cofres públicos e o financiamento coube, em grande parte, ao próprio estado uma vez que os recursos provenientes do governo federal foram se tornando escassos após a gestão do presidente Castelo Branco. Essa constatação confere com o relato dos deputados carlistas que acompanharam as duas primeiras gestões de Antônio Carlos Magalhães: No ano de 1972, o Proterra concedeu 34.177 financiamentos a todo o Nordeste. Ocorre que a Bahia foi o único estado não incluindo no programa. Coube aos outros estados, divididos, um total de 479 milhões de cruzeiros. No ano de 1974, esses números subiram para 40.026 e 936 milhões, sendo que a Bahia continuava excluída. Em 1972, a Bahia obteve 11.750 empréstimos, gerando um total de 198 milhões de cruzeiros. Já em 1974, com a implantação da Lei de Terras, foram concedidos 17.701 empréstimos, totalizando um montante de 657 milhões de cruzeiros – dois terços de todos os demais Estados do Nordeste reunidos. 18 O poder executivo, comandado por Antônio Carlos Magalhães, obtinha internamente, suporte financeiro no Banco do Estado da Bahia, o BANEB; no Banco Econômico, de Ângelo Calmon de Sá e no Banco da Bahia, de Clemente Mariani. No auge das negociações de empréstimos para os investimentos em infra-estrutura, surgiram boatos no mercado financeiro de que o maior acionista do Banco da Bahia venderia esse empreendimento a um grande banco privado do sul do país. ACM confidenciou ao Clemente Mariani: Estão surgindo uns boatos, Dr. Clemente, de que o senhor vai vender o Banco da Bahia, e isso é ruim para a Bahia. Não queria que o senhor fizesse isso porque é ruim para o estado. 19 O governador da Bahia sondou o amigo banqueiro e obteve dele a certeza de que o mesmo não venderia o banco sob nenhuma hipótese. Ainda assim, Antônio Carlos propôs prioridade de compra, caso a instituição financeira estivesse à venda. Mesmo porque, Ângelo Calmon de Sá havia investido todas as reservas do Banco Econômico em ações do Banco da Bahia, disputando o controle acionário do banco concorrente. Se Clemente Mariani se desfizesse do seu banco quebraria, também, o Banco Econômico e as finanças do estado ficariam seriamente comprometidas num momento decisivo para a ascensão do carlismo. 18 Ibidem, p. 76. 19 GÓIS, Ancelmo & et. all. Op. Cit., p. 62. 128 Algum tempo depois, o negócio se concretizou com um banqueiro paulista e Antônio Carlos precisou recorrer ao presidente Médici para garantir o saneamento dos negócios de Ângelo Calmon de Sá. A justificativa para o rompimento com um dos maiores expoentes do capital financeiro da Bahia e para o empenho em colaborar com outro banqueiro secular do estado foi a defesa dos interesses baianos. Lembrando outros depoimentos de Juracy Magalhães e Luiz Viana Filho, descritos ao longo desse trabalho, verifica-se que essa veneração pela Bahia sagrou-se muito antes de Antônio Carlos Magalhães se iniciar na política. Ocorre que o ufanismo declarado pelo carlismo convergia com a propaganda nacionalista da ditadura brasileira e com o orgulho enxertado na sociedade pelos militares. Qualquer brasileiro indesejável para os governos militares era rotulado como inimigo da pátria e convidado a deixar o Brasil. No extremo oposto, acatar as designações do regime castrense e unir-se em torno dos ideais da elite era um gesto de profunda boa vontade, fartamente recompensado. Foi desse modo que Antônio Carlos Magalhães utilizou a baianidade como estratégia de coesão dos segmentos da elite política na Bahia, uma vez que havia um ambiente político e social propício a essa cultura política sustentada no ufanismo nacionalista. AUTORIA DESCONHECIDA A imagem representa esse sentimento de pertencimento à Bahia e a convicção de defensor, pretensamente outorgado pela sociedade, que há décadas vêm sendo capitaneados pelos políticos locais é, apenas, uma estratégia de legitimação de suas posições no poder. A eloqüência política não tem um locus definitivo, por isso, seu efeito é meramente retórico na maioria das vezes e tem reflexos mais consideráveis sobre o eleitorado na iminência de pleitos decisivos. Por causa disso, Antônio Carlos Magalhães declarou ao jornalista Ancelmo Góis, em 1995, que tinha certo fascínio pelo Rio de Janeiro e que se tivesse tentado uma candidatura 129 neste estado da federação teria uma boa chance de ser eleito. Questionado se mudaria de domicílio, caso não estivesse em avançada idade, para fazer sua carreira política, admitiu a possibilidade de fazê-lo mesmo quando já era senador eleito pela Bahia.20 Contudo, o emprego eloqüente dessa condição de identidade para agregar grupos dissidentes de uma mesma matriz produziu resultados satisfatórios para Antônio Carlos Magalhães. Consequentemente, no processo eleitoral de 1970, coordenado pelo incipiente líder carlista, o grupo arenista elegeu a maioria dos deputados federais e estaduais. Certamente que a hegemoniado partido governista, a situação delicada em que militava o MDB, a campanha pelo voto nulo e a pressão autoritária favoreceram o carlismo. Entretanto, executiva da ARENA no estado da Bahia, pelos motivos expostos em capítulo anterior, possuía fissuras enormes. Para garantir sua indicação ao governo estadual e obter o aval da Assembléia Legislativa, ACM precisou promover a harmonia no partido e superar as divergências pessoais, especialmente entre os candidatos às prefeituras do interior e ao poder legislativo estadual. Não havia como ocultar as diferenças existentes entre os candidatos da ARENA que disputaram as eleições em várias de suas sublegendas. O deputado Vilobaldo Freitas, líder da maioria na Assembléia Legislativa, declarou, resignado: Sei, não há porque se esconda ou se deva esconder as divergências partidárias dentro da ARENA. E todas elas são uma forma legal e correta de manifestação do pensamento e tanto isso é normal, no processo democrático que estamos vivendo, que existem a sublegendas como a permitir esse ambiente que se verificou em alguns municípios do estado, numa forma de liberalização do processo eleitoral. 21 Seguramente, as manifestações de violência verificadas em municípios do interior não decorriam de uma disputa entre pontos de vista diferenciados. O mesmo parlamentar, na tentativa de isentar o governador Luiz Viana Filho da responsabilidade pelas dissidências dentro do partido, emendou adiante “O que houve foi uma manifestação exclusiva em certos municípios, de velhas dissidências, de velhas quizílias, tribais ou de famílias, mas nunca por sugestão ou influência ou com a conivência do governo”. 22 20 GÓIS, Ancelmo & et. all. Op. Cit., p. 129. 21 Diário Oficial da Bahia, 29 de abril de 1971, p. 63. 22 Ibidem. 130 A estratégia carlista não foi aproximar inimigos pessoais e adversários políticos de um mesmo município. A deputada Ana Oliveira narrou a sua experiência no município de Juazeiro no qual, também, havia divergências, mas Antônio Carlos Magalhães tomou a iniciativa manter as preferências locais e integrar os dissidentes no plano da macro política. Disse ela: Veja como é o eleitorado. Tem aqui o deputado Raulino Queiroz que assistiu de perto ao pleito eleitoral no município de Juazeiro. Lá os dois governadores foram e recomendaram seus candidatos. No entanto, o meu antagonista, o meu adversário, o Dr. Lomanto Júnior, foi muito eleito. Não houve pressão, não houve nenhuma perseguição, nada ocorreu em Juazeiro que é fundamental para o governador Luiz Viana Filho. 23 Esse esforço traduziu-se na eleição de diversos deputados federais apoiados por Antônio Carlos Magalhães e na sua própria indicação para governador do estado da Bahia. Logo depois, o deputado Edvaldo Brandão Correia demonstrou, através de uma moção, em quais dimensões o carlismo operava: A Assembléia Legislativa do estado da Bahia ainda vivamente impressionada com a manifestação popular prestada ao nosso iminente governador Antônio Carlos Magalhães, por ocasião das comemorações do 2 de julho – a maior data cívica baiana – manifesta a sua alegria pelo acontecimento, uma vez que sente na atitude do povo, também, um aplauso ao grande presidente Médici que o indicou e ao legislativo que o elegeu. 24 O marco da independência na Bahia tinha um significado especial no imaginário popular e traduzia os mesmos sentimentos de edênicos, ufanistas e nacionalistas propagados pela ditadura. Concomitantemente, o sentimento que mais unia os baianos era o desejo de crescimento de sua economia e a esperança em seu desenvolvimento. Contudo, a oposição se opôs veementemente a acatar o requerimento de aplausos haja visto que o regimento interno impedia concessão a pessoas vivas e ocupantes de cargos públicos. Não obstante, após reiterados protestos, a moção foi votada e o assunto encerrado. No dia seguinte, entretanto, o deputado Newton Macedo Campos, o crítico mais radical da moção, se retratou dizendo que naquele dia “votaria a favor e seria até o autor” de um 23 Ibidem, p. 64. 24 Diário Oficial da Bahia, 13 de julho de 1971, p. 40. 131 documento de solidariedade ao governador Antônio Carlos Magalhães. O motivo da inesperada unidade foi “a reação digna e firme” do governador a “uma medida federal que trará conseqüências imprevisíveis à economia do nosso estado”. 25 Tratava-se da decisão do ministério de Minas e Energia de suspender progressivamente os royalties do petróleo extraído na Bahia. Na década de 1960, o baiano Josaphat Marinho, presidente do Conselho Nacional do Petróleo, havia autorizado a taxação de 3% sobre toda a produção. Agora, o presidente Médici, por sugestão de seus ministros da Fazenda e de Minas e Energia, propunha a supressão gradual de um recurso da ordem de 15 milhões de cruzeiros anuais. 26 O resultado da mobilização em torno desta questão foi a integração dos parlamentares à iniciativa do governador de ampliação do pólo petroquímico na Bahia e nesta ação, “todos os representantes do povo, aqui nesta Assembléia, estão unidos e reunidos em torno do governador Antônio Carlos Magalhães no sentido da defesa dos altos interesses da Bahia”. 27 Essa afirmação do deputado Afrísio Vieira Lima ainda se fez acompanhar da certeza de que todos poderiam “ficar tranqüilos e confiante que a Bahia tem quem cuide de seus interesses no setor estadual, representado pelo Sr. governador Antônio Carlos Magalhães e no setor federal, na grande figura do presidente Médici”. 28 Foi assim que Antônio Carlos Magalhães encontrou a unidade da ARENA, um partido heterogêneo e caracterizado por uma elite personalista e acostumada ao exercício exclusivo do poder em suas células regionais. Foram os temas predominantes da macro política que absorveram a elite e o desenvolvimento foi o principal deles. O sufrágio do consenso Alguns anos antes das eleições de 1970, ACM era o presidente do diretório regional da Aliança Renovadora Nacional, deputado federal e possuía pretensões de ser governador da Bahia. Um cálculo preciso de suas possibilidades, o levou a apoiar a candidatura de Luis Viana Filho e a contentar-se com uma indicação a prefeito biônico de Salvador. Com seu apoio pessoal, do governador Lomanto Júnior e a adesão dos deputados estaduais e da maioria 25 Diário Oficial da Bahia, 13 de julho de 1971, p. 43. 26 Ibidem. 27 Ibidem. 28 Ibidem. 132 dos prefeitos, a candidatura vianista foi vitoriosa e o carlismo estreou na prefeitura soteropolitana. 29 O deputado João Mendes, principal concorrente de Luiz Viana Filho, acusou o governador Lomanto Júnior, no plenário da Câmara Federal e nos jornais da Bahia, de aliciar os deputados da ARENA. Coube a Antônio Carlos Magalhães, da tribuna, defender o chefe do executivo baiano e a si mesmo das acusações de João Mendes. Naquela oportunidade, o carlismo aplicou o conjunto de estratégias que se tornaria habitual em sua trajetória. Assim, além de fazer convergir o apoio da maioria dos membros do partido, com mandato na Assembléia Legislativa, em torno de uma candidatura, contemporizou, pelo menos parcialmente, a dissidência em torno do deputado João Mendes. No apelo ao concorrente do mesmo partido, usou o peso ideológico para articular com a diversidade de interesses: Como o deputado João Mendes, em audiência com o presidente da República, declarou que se a candidatura de Luis Viana tivesse maioria, ele renunciaria à sua candidatura e ao sair do gabinete do presidente, ainda naquela ampla sala ondese encontravam os jornalistas, lançou, com a honradez que lhe é própria, o repto ao governador. Como portador, a pedido do presidente da Assembléia, trouxe os documentos de apoio àquela candidatura. Isso, porém, não era para que o Sr. João Mendes desistisse. O objetivo era maior. Temos o dever, V. Exa. e eu, embora eu seja mais moço que o nobre deputado, de trabalhar pela reunificação de nosso partido no estado. Este o nosso propósito. Não queríamos que o deputado João Mendes saísse de campo, abandonasse a luta. Nosso pensamento – e falo com emoção – era ver nosso partido forte engrandecido (...) unido, coeso, disputando na convenção, que é o lugar próprio das divergências, e acatando suas conclusões. 30 Ao rebater os argumentos de Josaphat Marinho, segundo os quais a vitória da ARENA no pleito de 1970 seria resultado de pressões no legislativo, de aliciamento de deputados e uso da máquina administrativa, Antônio Carlos Magalhães retrucou: O primeiro ponto para que a oposição sobreviva eleitoralmente é convencer- se de que a Revolução de março de 1964 é um movimento irreversível e duradouro, integrado na vida brasileira. [...] e é irreversível, não porque 29 GOMES, João Carlos Teixeira. Op. Cit., p. 60 e 61 e DANTAS NETO, Paulo Fábio. Op. Cit., p. 282 a 285. 30 Diário do Congresso Nacional, 31 de março de 1966, p. 7. 133 tenha a força armada para segurá-lo, é irreversível porque tem, hoje, também o batismo popular nas urnas de 15 de novembro de 1970. 31 Em meados dos anos 1960, o carlismo ainda aflorava como possibilidade política na Bahia e buscava significações na sua própria experiência para construir a unidade da elite política. A conjuntura era de desestabilização dos antigos partidos conservadores e de convergência compulsória dos interesses políticos no bipartidarismo. Com a estratégia de articulação na diversidade, resignificando as antigas práticas elitistas, o carlismo, favorecido pelo contexto ditatorial, garantiu o predomínio do consenso da elite na Bahia. No início dos anos 1970, o carlismo já ambicionava a ampliação de suas bases em nível nacional após garantir a coesão interna da elite política regional. No Brasil, a ameaça das organizações de luta armada e a pressão social, pelo voto nulo, inquietaram a ditadura que, outra vez, modificou a legislação e as regras eleitorais. Esses artifícios possibilitaram uma vitória esmagadora da ARENA na Bahia, como de resto no Brasil, e garantiram a indicação de Antônio Carlos Magalhães ao governo estadual. Antônio Carlos Magalhães, ao tomar posse, estava consciente de quem o elegera, em que circunstâncias e qual seria a sua função: Ninguém ignora como foram indicados os governadores no Brasil. Participaram desta escolha o organismo político, o SNI e todos os comandos militares. A maior demonstração que eu passei em todos os testes foi ter sido indicado, e o presidente Médici tem reiteradamente declarado que eu não devia minha escolha a ninguém, senão a mim mesmo. 32 Paralelamente à estabilização do carlismo, os lomantistas, os vianistas, os juracisistas, grupos de sustentação da ditadura na Bahia e aspirantes à hegemonia do poder político estadual estavam sequiosos por uma ampliação nacional de suas bases e desenvolveram diferentes estratégias para lidar com essas variações constantes do contexto e das diretrizes da ditadura. O passo seguinte é verificar a diferença nas estratégias de cada um. 31 Diário do Congresso Nacional, 26 de novembro de 1970, p. 5699. 32 Assembléia Legislativa da Bahia. Bahia de todos os fatos (1960 – 1969) Salvador: AL, 1996, p. 291. 134 As estratégias carlistas e a ideologia conservadora Um exame da atuação da elite política no governo da Bahia exige a demarcação dos seus limites no Estado contemporâneo que poderia ser definido, genericamente, como a forma de organização política da sociedade. Para Gustavo Gozzi, entretanto, não se pode falar desse conceito antes de “analisar exaustivamente as múltiplas relações entre o Estado e o complexo social e de captar, depois, os seus efeitos sobre a racionalidade interna do sistema político”. 33 As relações às quais se refere o autor supracitado têm duas vertentes distintas: com a elite, envolvendo os direitos fundamentais, e com os demais segmentos sociais, com destaque para os direitos sociais. Suas bases encontram-se em outro estudioso, que diz: Os direitos fundamentais representam a tradicional tutela das liberdades burguesas: liberdade pessoal, política e econômica. Constituem um dique contra a intervenção do Estado. Pelo contrário, os direitos sociais representam direitos de participação no poder político e na distribuição da riqueza social produzida. A forma do Estado oscila, assim, entre a liberdade e a participação. 34 No caso em estudo, uma parte bastante representativa dos direitos fundamentais e dos direitos sociais foi confiscada pela ditadura brasileira. Por isso, os fragmentos de elite que sustentavam esse mesmo estado autoritário tinham, ao mesmo tempo, o desafio de manter-se agregado para sobreviver em um ambiente hostil e garantir popularidade em um período de menor participação política dos eleitores. Isso implicava empregar antigas estratégias e agregar outras tantas se adaptando ao momento desfavorável. Parece razoável acreditar que Antônio Carlos Magalhães se inseriu no seio da elite política baiana, alcançou notoriedade nesse meio e projeção nacional durante a ditadura, utilizando-se de cincos estratégias principais, ou seja: a utilização da força e do carisma; o domínio dos espaços de decisão; escolha de uma plataforma ideal; manutenção de uma rede seleta de relações; articulação na diversidade. Dentre as quais, as duas primeiras foram integralmente utilizadas pelos demais concorrentes, outras duas eram insuficientemente aplicadas e a última foi empregada exclusivamente pelo carlismo. 33 GOZZI, Gustavo. Estado contemporâneo. In: BOBBIO, Norberto et. all. Dicionário de Política. Brasília: UnB/São Paulo: Imprensa Oficial, 2004, p. 401. 34 E. Forsthoff. Stato di diritto in trasformazione (1964), Giuffré, Milano: 1973. 135 Vale insistir que o contexto autoritário e os desentendimentos entre oficiais militares de alta patente que governaram o país naquele momento foram cruciais para o sucesso das posições assumidas por Antônio Carlos Magalhães e pelo grupo que liderou. Portanto, esse movimento histórico desestimula qualquer tentativa de dar credibilidade à tese do autoritarismo congênito. A elite política na Bahia durante a ditadura era pródiga em personalidades públicas carismáticas. A popularidade de Lomanto Júnior, a eloqüência de Luiz Viana Filho, a perspicácia de Juracy Magalhães e astúcia de Antônio Carlos Magalhães eram características que, no conjunto, serviam muito bem aos propósitos do sistema político implantado em 1964 pelos militares. Possuíam a força suficiente para governar numa ditadura e o carisma necessário para confundi-la como uma democracia. Eram características de partidos diferentes que se conectavam e fundiam-se no emaranhado ideológico que caracterizou a ARENA. Foi por isso, um fragmento da elite aproveitado à exaustão no governo de Castelo Branco - e nos seguintes -, quer na administração direta do Estado ou nos espaços políticos que se tomavam decisões importantes para o governo. Cada um obteve, por seus atributos pessoais, o proveito que desejou. O hábito de criar uma rede de apoio bem selecionada para dar suporte a uma liderança que, em geral, ambiciona o poder executivo,é bastante comum e não mereceria referência se não oferecesse alguma especificidade, nesse caso. Alías, o estratagema carlista de uma articulação política seletiva - escolhendo apenas os aliados, e às vezes adversários, de acordo com a necessidade e dotando-lhes da exata expressão que representavam no cenário político - foi mesmo banal nos demais líderes das correntes políticas existentes na Bahia durante a ditadura. 35 Segundo pesquisa de Paulo Fábio Dantas Neto, na renovação do Diretório Regional da ARENA em 1971, Antônio Carlos Magalhães contava com o apoio de vinte membros, Luiz Viana Filho com apenas quatro, Juracy Magalhães com três e Lomanto Júnior estava sozinho. De resto, A ARENA tornou-se correia de transmissão, comandada pela disciplina férrea do governador. Assim, por paradoxal que pareça, Antônio Carlos Magalhães acabava atendendo àqueles reclamos editoriais liberais, que lhe queriam governando, não para sua facção, mas, para todos. Seu modo peculiar de fazê-lo foi reduzir a todos, ou quase todos, à condição de membros de sua facção. 36 35 Conferir a biografia política dos juracisistas e vianistas em Tasso Franco, Op. Cit., p. 123 a 147. 36 Dantas Neto, Op. Cit., p. 387. 136 Constatada a hegemonia carlista, é preciso explicar as razões que motivaram a adesão e possibilitaram a cooptação, principalmente de juracisistas que, outrora, era um grupo soberano. Foi dito que esse comportamento na política é generalizado, entretanto o carlismo sofisticou essa estratégia e isso pode ser percebido em relato do próprio Antônio Carlos Magalhães ao jornalista Marcelo Pontes: Evidentemente que a ocasião faz o aliado. Ninguém escolhe o aliado sem saber da oportunidade. A oportunidade dita o aliado. Agora, há aquele aliado que você deseja mais, e o que deseja menos. Mas, infelizmente, em determinadas oportunidades, você tem que nivelar os aliados, mesmo que, interiormente, na sua cabeça e no seu coração, as coisas sejam diferentes. 37 Explorando ainda as condições favoráveis para uma articulação política com resultados positivos, ACM explicou ao editor de política, Mauricio Dias, que também era preciso escolher bem o adversário. Havia um cálculo preciso na escolha do momento oportuno, considerando a conjunção dos fatos; do alvo, mensurando o poder do adversário; e dos instrumentos, preferindo aliados que melhor se ajustassem às opções anteriores. Foi assim que apoiou Jânio Quadros após a Convenção da UDN, indicado como candidato do partido à presidência da República para as eleições de 1960, mesmo sendo amigo de Juscelino Kubitscheck. Da mesma maneira, aliou-se a Tancredo Neves, abandonando a candidatura fracassada de Mário Andreazza em 1985. No episódio de Fernando Collor, o acompanhou até o fim, apesar das grandes manifestações estudantis e da oposição da mídia que lhe pediam a renúncia. Nota-se que nessas situações, ao longo de quase três décadas, Antônio Carlos Magalhães se posicionou de maneira diferenciada em relação ao poder, contudo, obteve êxitos eleitorais e adicionou capital político independente do desdobramento dos fatos. Além da triagem dos aliados e dos adversários, foi fundamental para o carlismo a escolha de uma plataforma política ideal. Ocorre que, pertencendo durante toda a ditadura a um partido multifacetado originário de vários outros partidos, ele dificilmente poderia concentrar sua retórica em valores sobre os quais houvesse divergência no mesmo. De um modo geral, a posição ideológica, defendida por todos os líderes das correntes políticas existentes na Bahia durante o período da ditadura, era conservadora, porém diversificada em 37 GÓIS, Ancelmo & et. all. Política é paixão: quem é Antônio Carlos Magalhães. Rio de Janeiro: Revan, 1995, p. 70. 137 certos aspectos, dificultando as alianças. O carlismo sintetizou sua plataforma política baseando-se em três eixos: o político, o econômico e o cultural. No aspecto político, o tema de maior relevância era o anticomunismo; no plano econômico, estimulava o crescimento industrializado; e no requisito cultural, incorporava a representação do ufanismo nacionalista, regionalista e local. A seleção intencional e sistemática desses temas colocou o carlismo em sintonia com a orientação dos militares no poder. Um grande dissenso entre os estudiosos refere-se à vinculação entre ação e ideologia no comportamento político da elite política na Bahia. Para a maioria, as lideranças baianas sempre foram situacionistas e jamais defenderam ideais ou possuíam valores que impulsionavam suas decisões. Nesse tipo de análise, o pragmatismo evidenciado nas estratégias adotadas pelos indivíduos que conduziram a política baiana nos últimos tempos despe-se de seu referencial social e adquire uma autonomia exclusiva no campo político. Para melhor esclarecer essa relação, deve-se evitar a restrição e o isolamento do aspecto político procurando considerá-lo em um contexto mais amplo. Veja que essa visão foi reproduzida por Luiz Viana Filho. Questionado pelos jornalistas Cidélia Argolo e Gustavo Falcon, alguns dias antes de seu falecimento, sobre os princípios ideológicos que nortearam sua militância política na juventude, replicou: Para falar exatamente a verdade, naquele tempo não havia ideologia. Isso é uma coisa relativamente nova, naquele tempo havia governo e havia oposição, havia quem estava com o governo e quem estava com a oposição, por isso ou por aquilo. Aqui na Bahia ela tinha se caracterizado, sobretudo, pela autonomia, nossa bandeira, na época. Contudo, o vianismo, oriundo da tradicional elite baiana, marcou forte posição contra o getulismo ao cerrar fileiras com o autonomismo de Otávio Mangabeira. Saliente-se que mangabeira é o nome de uma árvore típica do sertão nordestino e foi adotado pela família, como sobrenome, após a Independência do Brasil. Apesar de várias alianças contraditórias que comprometeram suas bandeiras, o ufanismo nacionalista, a pluralidade partidária e a defesa das liberdades fundamentais sempre foram temas recorrentes no discurso mangabeirista. O situacionismo político não é desprezível na trajetória da elite baiana, contudo, não era um requisito absoluto e independente dos condicionamentos sociais. A elite não é homogênea, diverge e tem conflitos, por isso, quando parte dela se torna dirigente, é natural 138 que os demais setores se posicionem ao lado do poder. No conjunto, porém, ela tem valores, princípios e normas que regem suas ações em contraponto com o restante da sociedade. Embora Getúlio Vargas tenha permanecido muito tempo no poder, uma grande parte dos líderes políticos da Bahia estavam em partidos de oposição ao governo, nesse período. Mesmo Juracy Magalhães, que foi interventor de Vargas em 1930, afastou-se depois de 1937. Antônio Carlos Magalhães, certamente, foi o mais situacionista de todos e, mesmo assim, não se considerava um “governista compulsivo” e preferia dizer que era “um político que gostava de realizar no governo” e, por extensão, sempre “fazia opção por uma aliança com as forças políticas que tinham a melhor proposta para o país”. 38 Essa relação entre poder e conjuntura - que expressa, por um lado, a obsessão pelo exercício do poder como forma de realização pessoal e, por outro, o pragmatismo na articulação das relações que viabilizam o acesso a esse mesmo poder - vem associada a um notável conjunto valores que se manifesta, mais nitidamente, no governo. Um dos temas políticos relevantes mais evidentes dessa época era o desenvolvimento. A elite percebeu que a dimensão rural e a propalada “vocaçãoagrícola” brasileira deslocava o país do eixo central do capitalismo e constituía-se num entrave ao lucro. A urbanização e a industrialização eram elementos fundamentais do desenvolvimento almejado. Por isso, o respeito que ACM nutria por Juscelino Kubitscheck relacionava-se com esses temas políticos relevantes. Ele considerava que Getúlio “era o homem que não deixava o Brasil crescer para os brasileiros crescerem com ele”. Ele queria ser “o pai dos brasileiros” e esse paternalismo não coadunava com a expectativa de desenvolvimento autônomo pretendido para a região nordestina. A atuação de Juscelino, ao contrário, contemplou a Bahia, porque “foi ele que fez o Brasil grande, foi ele quem deu a dimensão do Brasil industrial, do Brasil no concerto internacional, deu otimismo ao Brasil, fez os brasileiros acreditarem no país, disse ACM”. 39 Aparentemente, a administração pública nesse novo cenário de desenvolvimento revestia-se de uma modernidade liberal. Seu mote principal era a substituição do apadrinhamento político, uma prática oligarca e tradicional, pela nomeação técnica de competentes especialistas, implementada pelos modernos administradores. Considerado como “prefeito do século”, por sua atuação nesses padrões durante a sua gestão na prefeitura de Salvador, no final dos anos 1960, Antônio Carlos Magalhães sempre indicou técnicos para alguns cargos importantes nas vezes em que foi governador. 38 Ibidem, p. 116 39 Ibidem, p. 47 139 A nomeação de técnicos nas funções burocráticas não era, exatamente, uma opção pela eficiência e a moralização do poder público, mas, a adequação liberal ao modelo de desenvolvimento do capitalismo, ao qual as elites precisavam se adequar para, finalmente, implantar um sistema econômico industrializado e moderno. A discussão sobre o caráter ideológico dessa tecnocracia, abordado mais densamente no próximo capítulo, faz perceber que a intenção refletida de trabalhar com um corpo técnico foi uma estratégia que, em última instância, o transformou em tecnocratas que preencheram, sob sua liderança, os espaços políticos vazios ocupados pelo carlismo. De modo geral, a preocupação técnica se restringia, apenas, aos setores financeiros e fiscal ou diretamente ligados às obras de manutenção da infra-estrutura estadual. A política de varejo continuou refém do fisiologismo corrente semelhante a qualquer das administrações de seus antecessores e concorrentes. A conexão entre tecnocracia e ideologia está na autonomia desejada por esse político liberal. Na ditadura, apesar da interdependência com as elites nos estados, o governo federal era bastante centralizador. O carlismo jamais poderia se projetar nacionalmente e migrar da ditadura à democracia com a mesma força política e eleitoral se não tivesse autonomia. Ocorre que o tecnicismo se opõe ao fisiologismo exatamente porque não estabelece uma relação de favoritismo nessa rede de relações e o facilita um possível rompimento sem causar grandes danos à estrutura organizacional do grupo político. Por isso, ACM afirmou enfático sobre a sua primeira gestão como governador da Bahia: “meu secretário da Fazenda, escolhi sem conhecer. Sabe por quê? Porque creio mais em mim do que neles. Sei que o auxiliar vai obedecer, sou o governador, dou o ritmo”. 40 Na mesma direção, se apresenta a questão do desenvolvimento da Bahia e do Nordeste que, para Antônio Carlos Magalhães, foi questão primordial desde sua atuação na Câmara dos Deputados. No final da ditadura, quando o carlismo já se impunha como grupo hegemônico, ainda insistia no caráter político do tema: Nos sucessivos pronunciamentos que tenho feito em defesa dos interesses do Nordeste, sempre considerei os aspectos políticos como dominantes. E assim ocorre não somente por eu ser um político, e sabidamente eu o sou, por temperamento, vocação e formação pessoal, mas, o que é de bem maior relevância, porque entendo que a solução para os problemas de nossa região 40 Ibidem, p. 146 140 devem ser buscadas e conquistadas no plano da política, pois é ai que se definem as grandes decisões, efetivas e de real validade. 41 A dimensão política em oposição à econômica era bastante propícia a um político forte, oriundo de uma região economicamente dependente. O discurso era parte da estratégia carlista de trazer o adversário para o território de sua competência. Do mesmo modo, era preciso fortalecer o Nordeste para garantir a independência econômica da Bahia e, consequentemente, a autonomia política em âmbito nacional. Suas impressões sobre o assunto demonstram que a defesa do Nordeste tinha bases, não apenas no ufanismo regional, mas, também, em princípios e valores concernentes do capitalismo, cuja expressão do liberalismo se opunha tenazmente. Disse ele: Acredito que concordamos todos, que os fenômenos econômicos, sociais e políticos encontram-se estreita e indissoluvelmente inter-relacionados (...). Ocorre que as ditas leis econômicas, que regem a mecânica da reprodução e acumulação do capital, condicionando o processo de concentração/centralização e determinando as disparidades regionais de desenvolvimento, não atuam de modo automático e espontâneo, como forças abstratas e fantasmagóricas. Elas se expressam no interesse de grupos e empresas. E por efeito da concentração das atividades econômicas, são interesses que aparentemente se identificam com os de determinados estados e regiões. 42 Curioso observar nesse ponto que ACM faz uma crítica severa à condução do processo econômico e aos prejuízos regionais da concentração capitalista. Era a face contraditória do liberalismo brasileiro que, numa direção, estimulava-se a livre concorrência e a liberdade política do indivíduo em relação ao Estado e, na outra, centralizava o poder de decisão no governo e permitia a interferência política nas relações de produção. Diante das desigualdades sociais, o preposto economicamente mais frágil insurgiu-se contra a dependência gerada pelo processo de acumulação capitalista. Esse círculo vicioso da dependência econômica, que estimula a concentração do poder político como forma de equilíbrio nas relações entre os segmentos da elite, produzem lideranças fortes que tentam se impor como um caudilho a serviço da sociedade local. 41 Antônio Carlos Magalhães. Aspectos políticos do subdesenvolvimento do Nordeste. Seminário o Nordeste no Brasil: avaliação e perspectivas. Promovido pelo Jornal do Brasil, Centro Industrial do Ceará, Sudene e BNB. Fortaleza: Junho de 1981. 42 Ibidem. 141 Ai está a melhor aplicação da estratégia carlista e o diferencial em relação aos concorrentes. Se o desenvolvimento estava na ordem do dia dos militares que governavam o país, a exigência carlista era razoável, oportuna e compatível com a proposta da ditadura. O apadrinhamento da Bahia e do Nordeste gerava, em decorrência, dividendos políticos incalculáveis para Antônio Carlos Magalhães. O anticomunismo, a industrialização, o combate à corrupção, a urbanização, o tecnicismo na administração pública, valores capitalistas que embasavam suas propostas, eram comuns a toda a elite política brasileira, naquelas circunstâncias. Restou, enfim, ao carlismo, articular a conjuntura, a oportunidade e os indivíduos numa mesma simetria para garantir sucesso na hegemonização política da Bahia. Dos requisitos citados, alcançar a unificação da maioria dos líderes influentes e cooptar uma parcela representativa do diretório partidário foi impossível para os demais concorrentes citados, porque a interferênciadas relações pessoais no campo político sempre foi um impedimento ao estabelecimento de amplas coligações que permitissem alcançar um nível elevado de poder e o domínio de uma faixa territorial extensa. O carlismo obteve sucesso porque evocou os temas relevantes, como prioridade, e estabeleceu objetivos pragmáticos, colocando-os acima das disputas individuais. Com o predomínio do consenso, Antônio Carlos Magalhães venceu as eleições para o governo do estado da Bahia em 1970 e fez maioria na Assembléia Legislativa e na Câmara dos Deputados. Abria-se um vasto leque de possibilidades para a ampliação nacional das bases políticas do carlismo. CAPÍTULO VI A ferro e a fogo: O conflito como estratégia equivocada do carlismo para as eleições de 1974 Perspectivas iniciais As eleições de 1970 abriram para Antônio Carlos Magalhães as portas do Palácio de Ondina, contudo, ainda não lhe garantiam autonomia plena nas decisões governamentais. Em vista disso, uma vez instalado, sua preocupação primordial foi consolidar posições no diretório regional da ARENA e na Assembléia Legislativa da Bahia, espaços de decisão política, e reestruturar a rede de relações que lhe amparava. Durante os quatro anos de seu primeiro governo, ACM dedicou-se à tarefa de consolidar sua carreira política conferindo à administração estadual um caráter personalista e uma orientação conservadora. Sua personalidade forte, arrogante e autoritária impôs um ritmo frenético ao campo político e administrativo dando maior visibilidade às mudanças tecnocráticas e às alterações na arquitetura urbana. Essas características pessoais, impulsionadoras da modernização urbana e da industrialização econômica -, um modo de administração pública cada vez mais comum naquele momento -, refletiam a postura ideológica conservadora consoante com os princípios da elite política à qual ele pertencia. Essa forma de atualização no modus operandi da gestão conservadora manteve inalterada a sua característica de centralização autoritária no governo. Por isso, sempre que se configurava uma nova correlação de forças, as relações políticas sustentadoras do pacto das elites eram constantemente reestruturadas. Engana-se, portanto, quem supõe que as atitudes de Antônio Carlos Magalhães, mesmo as mais impulsivas, eram inconseqüentes e resultantes de uma personalidade desequilibrada. Ao contrário, eram delineadas para servir a um firme propósito, e alicerçadas no pensamento conservador da elite política brasileira. Adiante, observa-se a narrativa de uma sucessão de fatos encadeados que demonstram a lógica da estratégia carlista e contextualiza sua estréia na política baiana em função da situação delicada em que vivia o país. Propõe-se, desse modo, uma reflexão diferenciada 143 sobre a elite política na Bahia durante a recente ditadura política no Brasil que foge às simples elucubrações sobre a personalidade de Antônio Carlos Magalhães. Rompendo a rede de relações Durante a sua carreira política, ACM construiu em torno de si uma imensa rede de relações, mas, em virtude do quinhão de poder almejado, da conjuntura política em que militava e da doutrina conservadora que seguia, eram relações seletivas e pontuais. Na medida em que esses relacionamentos esgotavam suas possibilidades de viabilizar uma nova oportunidade ou passavam a obstruir o acesso ao poder, eram descartados. Alguns desses relacionamentos se mantiveram até que o carlismo alcançasse dimensão nacional, outros, entretanto, foram descartados mais rapidamente. Tudo dependia do modo como essas relações poderiam contribuir para garantir a maior ou menor integração da ARENA. Seus principais concorrentes - Lomanto Júnior, Luiz Viana Filho, Juracy Magalhães - foram colocados fora de combate ao longo do seu primeiro mandato como governador da Bahia. Mais tarde, alguns deles retornam para uma breve aliança marcada essencialmente pelo desejo de se manterem ativos no poder. 1 Em decorrência disso, é preciso amiudar a análise sobre esses fatos para que se tenha uma perfeita compreensão dessa fase conflituosa do carlismo que, tensionada ao limite máximo, provocou rompimentos pessoais e políticos, por fim, danosos à escalada vertiginosa da hegemonia dessa fração de elite. Na seqüência, far-se-á um recorte da carreira política de cada um deles e a relação estabelecida com o carlismo. Destaca-se nessa análise, o rompimento com Juracy Montenegro Magalhães, o melhor e mais forte aliado de Antônio Carlos Magalhães, como também seu maior concorrente, cujo rompimento teve impacto significativo na consolidação do carlismo, entendido aqui como agente e articulador das estratégias de dominação da elite política na Bahia. A sobrevivência do populismo 1 O primeiro período de Antônio Carlos Magalhães como governador da Bahia foi entre 1971 e 1975. Governou pela segunda vez entre 1979 e 1983 e, finalmente, entre 1991 e 1993. 144 Antônio Lomanto Júnior, descendente de uma família de imigrantes italianos, possuía uma popularidade cobiçada e invejada por seus adversários políticos e foi imbatível nos pleitos diretos dos quais participou. Aliado de João Goulart, foi eleito governador da Bahia em 1962 e, mesmo desestabilizado com o golpe de 1964, ainda conseguiu se eleger deputado federal pela ARENA, nas eleições diretas de 1970, quando ainda predominava o consenso entre os principais grupos políticos da Bahia. Em 1978, realinhado ao carlismo, que acabara de retornar ao acordo depois de uma derrota fragorosa em nível estadual, Lomanto obteve um desempenho significativo nas eleições diretas para senador. Novamente, entrou em rota de colisão com ACM, em 1982, lançando-se candidato a governador do estado, contrariando a tendência do diretório regional do Partido Democrático Social (PDS) de indicar Clériston Andrade, preferido de Antônio Carlos Magalhães. Sem o apoio carlista, entretanto, desistiu do intento e, mesmo tentando uma reaproximação com ACM, foi derrotado nas eleições para o senado em 1987. Somente em 1992, voltou a ser eleito prefeito de Jequié, cidade interiorana da Bahia, onde iniciou sua carreira política e mantinha influência. 2 Resguardando a tradição Luiz Viana Filho sempre teve forte influência na política nacional, especialmente no Congresso Nacional, sendo eleito senador em sucessivos pleitos após deixar o governo da Bahia. Todavia, em 1968, ele passou a defender a tese da “pacificação nacional” e a incentivar a distensão da ditadura brasileira. Foi enfático nessa posição durante a convenção nacional da ARENA, em julho desse mesmo ano, e chegou a reafirmar sua proposta diretamente ao presidente Costa e Silva. A partir daí, foi paulatinamente desprestigiado pelos segmentos militares avessos a qualquer tipo de distensão. A respeito desse assunto, declarou incisivamente: A verdade, porém, é que, apesar da firmeza, diria mesmo da obstinação com que o presidente Geisel tem preservado as conquistas iniciais da distensão, quase nada se tem avançado no caminho da institucionalização de uma ordem jurídica democrática. Dir-se-ia que, no particular, o presidente tem as mãos atadas. E, enquanto isso, tem-se a impressão de que imponderáveis setores da complexa máquina governamental põem pedras no caminho da 2ABREU, Alzira Alves de et. all. (Coord.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro Pós – 30. 2.ª ed., Rio de Janeiro: Ed.Fundação Getulio Vargas, 2001, p. 3264 e 3265. Algumas informações, também, foram extraídas de um roteiro biográfico cedido pela família. 145 democracia. Fazemas cousas difíceis, criam fantasmas terríveis, perigos assustadores, catástrofes ameaçadoras, dir-se-á com o objetivo de impedir a distensão. Até quando e até onde poderá resistir o presidente? Fomentam-se tais obstáculos à normalização que não falta quem tema surgir no campo político embaraços deliberadamente exagerados. 3 Nota-se que, apesar do comprometimento do senador baiano com a ditadura, ele deixa transparecer a condição de anormalidade institucional dentro de uma ordem jurídica autoritária. Mesmo com as ressalvas que faria adiante, a respeito das organizações armadas de esquerda, e ainda que elogiasse a firmeza do governo Geisel, seu discurso contrapõe-se a um dos pilares da ditadura: a ameaça anticomunista. Mais que isso, reconhece, em primeira mão, os efeitos danosos da ditadura para a sociedade brasileira e recomenda o retorno à democracia, sedimentando a discórdia entre militares e civis que pretendiam estender o quanto possível a abertura política e o processo de redemocratização exigidos por diversos setores da sociedade civil. Diante desse quadro ocorre-me perguntar, pois a meu ver é esse um dos pontos cardeais da nossa problemática, se, a exemplo do que ocorre em muitos outros países, nos é possível manter a ordem, conter a subversão, assegurar a tranqüilidade, dentro de uma ordem jurídica democrática, na qual nenhum poder esteja acima das leis e dos tribunais, onde a força não seja uma expressão de arbítrio; ou se somente pela postergação das leis e dos tribunais, com tudo quanto representam em relação aos direitos e garantias dos cidadãos, é possível manter-se a segurança indispensável à tranqüilidade e ao desenvolvimento do país. Sobre isso considero importante uma palavra franca que, diante de condições peculiares que ignoramos, nos diga que aqui, ao contrário do que ocorre em tantos e tantos países ocidentais, não nos bastam os tribunais nem as leis, por mais fortes, severas ou sumárias que sejam. Precisamos substituir as leis pelo arbítrio. Seremos, então, uma das exceções do mundo ocidental, e a ela, se for o caso, veremos como nos adaptar da maneira menos incômoda, menos violenta e menos chocante. 4 Percebe-se que Luiz Viana Filho mantinha no governo Geisel o discurso legalista do governo Castelo Branco, de quem tinha sido chefe da Casa Civil, e no qual era bastante prestigiado. O intelectual baiano estava em descompasso com a elite política da qual participava. 3 Luiz Viana Filho. O momento político, 17 de março de 1977, p. 3. In: Discursos Publicados de Luiz Viana Filho, Brasília: Gráfica do Senado, 1977. 4 Ibidem, p. 4. 146 Aliás, recorrendo às memórias de Wilson Lins, ex-deputado estadual e ex-presidente da Assembléia Legislativa da Bahia, verifica-se a habilidade de ACM em tratar as diferenças dentro de seu grupo político de modo a não comprometer nem o sistema vigente e muito menos a sua posição no poder. 5 No final dos anos 1960, quando Antônio Carlos Magalhães era prefeito de Salvador, apoiado por Lomanto Júnior e Luiz Viana Filho, ocorreu mais uma eleição para a mesa diretora da Assembléia Legislativa da Bahia e concorriam como possíveis candidatos o deputado lomantista Joir Brasileiro e Wilson Lins. O último, escritor renomado no estado, oriundo de uma oligarquia abastada do interior e líder civil de primeira hora em 1964, tinha trânsito livre na 6.ª Região Militar, sediada em Salvador, eventualmente apoiando Luiz Viana Filho. As posições do governador Luiz Viana Filho incomodavam profundamente os oficiais da “linha-dura” no comando militar da capital. Em virtude disso, insinuava-se a abertura de um processo de cassação do governante estadual na Assembléia Legislativa. Embora ACM e Wilson Lins se estranhassem constantemente na ARENA, havia uma questão de ordem imperativa para o carlismo: manter a unidade no partido e a estabilidade do governador para viabilizar a permanência de ACM na disputa pela sucessão estadual. Embora o iniciante chefe carlista fosse engenhoso na construção de uma rede de relações seletivas, estava consciente de que não era o momento de descartar o apoio de Lomanto Júnior e Luiz Viana. O primeiro tinha popularidade e o segundo trânsito nos meios militares. Ambos representavam importante apoio político no diretório regional da ARENA e na Assembléia Legislativa, como também não ameaçavam, ainda, suas pretensões de poder. Diante disso, Antônio Carlos Magalhães buscou contornar a situação envidando esforços para a manutenção de Luiz Viana Filho no governo estadual. Assim, o apoio de ACM à candidatura de Wilson Lins garantiu a eleição de um aliado que poderia, concomitantemente, manipular um possível processo de cassação e a permanência do governador que, devendo-lhe um favor, indicaria seu nome à sucessão. 6 Após garantir a viabilidade de sua candidatura, o chefe carlista também imobilizou seus concorrentes intimidando-os com as baionetas militares. Um deles foi o candidato preferido de Luiz Viana Filho à sua sucessão. A melhoria na qualidade da educação foi considerada meta prioritária do governo vianista e isso facilitou a projeção de Luiz Navarro 5 LINS, Wilson. O aprendizado do absurdo: uma casa após a outra. Salvador: EGBA, 1997. 6 Ibidem. 147 de Brito, signatário da pasta, que ocupara, anos antes, um cargo importante no governo de Castelo Branco. Esse também foi o artifício usado contra o candidato lomantista Joir Brasileiro, que isolou temporariamente Lomanto Júnior e seu grupo político. 7 Apesar disso, e de todo prestígio amealhado durante décadas como político e intelectual, Luiz Viana Filho manteve-se alinhado ao carlismo sem nunca ameaçar, de fato, as suas posições na Bahia. Em 1978, fez eleger seu filho, Luiz Viana Neto, como vice- governador na chapa vitoriosa encabeçada por Antônio Carlos Magalhães e garantiu candidatura única pelo PDS, ao senado, em 1982, apoiando Clériston Andrade, indicação de ACM, ao governo da Bahia. O rompimento definitivo só aconteceria em 1986 quando a família Viana filiou-se ao PMDB e apoiou Waldir Pires na campanha vitoriosa contra ACM. O golpe na matriz Já verificamos a gênese da estreita relação entre Antônio Carlos Magalhães e Juracy Magalhães sendo desnecessário reproduzir aqui todas as particularidades dessa trajetória. Cabe, todavia, salientar que a proteção recebida por ACM foi devidamente recompensada com o apoio irrestrito a Juracy em qualquer lugar ou situação. Pareceu ao patrono carlista, entretanto, que a sua popularidade, o sucesso da engenhosa articulação para se manter presidente do diretório regional da ARENA, a repercussão positiva de sua atuação como prefeito de Salvador e o endosso das mais proeminentes figuras da política estadual e nacional à sua candidatura ao governo estadual eram demonstrações suficientes da autonomia que ele insistentemente perseguira. Logo após sua posse como governador, ACM passou a ignorar deliberadamente os compromissos públicos assumidos com o dirigente juracisista. Desabafa o próprio Juracy a Albérico Fraga: Ando muito preocupado com o comportamento do Antônio Carlos, em relação ao Jutahy, pois muito me doerá ter conduzido meu filho a praticar um erro político. Confesso que não consegui entender, até hoje, a razão do procedimento do Antônio Carlos. Ele, de fato, parecia meu amigo, mas se 7GOMES, João Carlos Teixeira. Memória das trevas: uma devassa na vida de Antônio Carlos Magalhães. São Paulo: Geração Editorial, 2001, p. 95-98. 148 você soubesse quanta coisa ele tem feito, falhando a compromissos solenes,espontaneamente assumidos, você ficaria horrorizado. 8 Juracy Magalhães se afastou da política em 1967 e retornou à administração de negócios pessoais. Contudo, pretendia manter-se influente na política baiana com a ajuda de seu discípulo, Antônio Carlos Magalhães, estendendo-se, também, ao parlamento estadual, por meio de seu filho Jutahy, almejando-lhe futuras posições no executivo baiano e no Congresso Nacional. Essa foi, na verdade, a segunda vez que Juracy se afastava delegando poderes a aliados ou pretensos herdeiros políticos. Logo após o golpe de 1964, Juracy Magalhães se afastou da Bahia para atuar como embaixador brasileiro nos Estados Unidos e abriu caminho para a hegemonia carlista no diretório regional da ARENA e para uma aproximação estratégica entre ACM e Luiz Viana Filho. Desta última vez, rompeu as relações com Antônio Carlos, que por sua vez isolou Jutahy na Assembléia Legislativa da Bahia, restando-lhe o apoio de alguns poucos deputados federais, entre eles, Rogério Rego. As possibilidades de manutenção do juracisismo na Bahia não eram muitas, mesmo assim, a ofensiva carlista foi sistemática. Um episódio envolvendo o já referido deputado juracisista Rogério Rego mostra a intensidade do conflito. Em uma missiva enviada a Juracy, após sua eleição, relatou: Fiz, como sabe, o meu primeiro discurso no Grande Expediente, cuja cópia lhe remeterei tão logo me sejam entregues pela gráfica. Subi à tribuna um pouco nervoso – muito menos do que imaginara – e a partir do momento em que fui aparteado senti-me quase à vontade. Como poderá observar, o João Carlos procurou jogar-me contra os industriais baianos e ao mesmo tempo marcar ponto com o Antônio Carlos que, embora não diga abertamente, é contra o decreto do governo que criou o PROTERRA. 9 Mais que as limitações formais apresentadas a seu líder político, confessou insegurança no conteúdo: “Vacilei antes de encampar a tese que sustento, pois estava 8 Arquivo Juracy Magalhães, CPDOC/FGV. Correspondências Gerais. 3 de novembro de 1970. 9 Arquivo Juracy Magalhães, CPDOC/FGV. Correspondências Gerais, 3 de agosto de 1971. A íntegra dessa correspondência pode ser encontrada nos anexos (Documento 2), bem como, a resposta de Juracy (Documento 3). 149 profundamente influenciado pelo Rubens Costa, de quem li muitas entrevistas e assisti à conferência que pronunciou aqui na Câmara”. 10 O auxílio providencial veio de Lomanto Júnior que aparteou o conterrâneo e lhe facilitou as palavras. Contudo, os hábitos de oratória do companheiro de partido nem sempre favoreciam ao deputado juracisista. Relata Rogério Rego a Juracy um discurso de Lomanto Júnior: O Lomanto fez um discurso sobre o presidente Castelo Branco. Falou de improviso cerca de uma hora. Ia bem até certa altura, mas tem a infelicidade de não saber parar na hora própria e uma frase vai gerando outras frases, um assunto, outros assuntos paralelos e ele não consegue terminar. Repete-se e torna-se enfadonho. Ia aparteá-lo, mas deixei de fazê-lo porque no decorrer de sua exposição afirmou que encontrou o estado [após a gestão de Juracy Magalhães] em situação difícil e absolutamente parado. 11 A estratégia carlista de refração aos antigos aliados que representavam algum risco à liderança de Antônio Carlos Magalhães se evidenciava de fato. Se, por um lado, a situação juracisista não era sólida no plenário federal, por outro, foi, com a tentativa mal sucedida de João da Costa Falcão de processar o governador Antônio Carlos Magalhães por calúnia, que o deputado Jutahy Magalhães sentiu o peso da hegemonia carlista na bancada da ARENA atuante na Assembléia Legislativa da Bahia. Percebeu, ainda, a dificuldade de lhe fazer oposição num contexto político pouco diversificado e desprovido de opções para as frações de elite não dirigentes. Por força de lei, o Tribunal de Justiça da Bahia precisou solicitar à Assembléia Legislativa a licença para atender à solicitação do diretor do Jornal da Bahia, acusado de roubo e sonegação reiteradas vezes. Esse fato, na verdade, foi o desdobramento do rompimento, ocorrido em 1969, entre Antônio Carlos Magalhães e João Falcão, proprietário do Jornal da Bahia. Entre os dois, ou melhor, ao lado de cada um deles, havia vários personagens da política e da sociedade baiana, destacando-se, especialmente, o jornalista João Carlos Teixeira Gomes, cuja história pessoal corre paralela aos fatos políticos aqui narrados. Nos primeiros anos da administração de Antônio Carlos Magalhães na prefeitura de Salvador, João Carlos Teixeira Gomes foi convidado por seu antigo companheiro Flávio Costa para ocupar a direção da Superintendência de Turismo do município, a Sutursa. 10 Ibidem. 11 Ibidem. 150 Paralelamente, o jornalista continuava atuando profissionalmente no Jornal da Bahia, que não poupava críticas à administração municipal. Incomodado com essa situação e, ainda mais, com a tentativa do prefeito de instrumentalizar os órgãos da administração pública em benefício de sua campanha ao governo estadual, João Carlos demitiu-se. 12 Na carta demissionária expôs ao chefe do executivo as razões de sua saída advertindo- o tratar-se, também, de um rompimento pessoal. Entretanto, a contenda se ampliou quando os interesses de ampliação da sede do Jornal da Bahia convergiram para o gabinete central da prefeitura em virtude de uma licença especial para que a construção se fizesse em área pública. A tônica do conflito ocorreu mesmo em 1969 quando o professor e jornalista Newton Sobral, pioneiro do mesmo jornal, publicou um artigo responsabilizando ACM pela crise no diretório regional da ARENA. 13 Alguns trechos do citado artigo reiteram a tese aqui defendida de que as ações pontuais de Antônio Carlos Magalhães no interior do partido eram estratégicas e sustentaram sua ascensão ao poder estadual. Diz Sobral: É publico e notório para os que observam os fatos da política baiana que, quase por uma obsessão, o sr. Antônio Carlos almeja o governo. Em vista disso, procurou se apossar, ou pelos tirar dos seus possíveis concorrentes ao Aclamação, os cargos-chave da Executiva Regional da ARENA, de modo a lhe garantir um tranqüilo respaldo da agremiação dentro do processo sucessório. 14 Não se percebia, entretanto, que, ao mesmo tempo em que ACM reestruturava sua rede de relações excluindo seus prováveis concorrentes, ele absorvia as diferenças com o vianismo imputando-lhes uma importância menor que os interesses da administração Luis Viana que, pretensamente, se impunham em benefício de todos os baianos. A narrativa presente na mesma denúncia expressa isso: O prefeito Antônio Carlos Magalhães é tido pelos observadores políticos como o único culpado pela crise que atravessa a ARENA baiana. Sua ambição de poder, o desejo irrefreado de, a qualquer modo e por todos os métodos, ser o governador do Estado, levaram a política baiana ao impasse em que ela se encontra, com reflexos prejudiciais ao governo e à própria administração pública. O fato é que, segundo ainda os observadores, a preocupação do sr. Antônio Carlos Magalhães de controlar os instrumentos 12 Todas as informações estão baseadas na versão do próprio João Carlos Teixeira Gomes, Op. Cit., p. 68 -79. 13 Ibidem. 14 Jornal da Bahia, 4 de outubro de 1969, p. 3. In: João Carlos Teixeira Gomes. Op. Cit., p.63. 151 políticos do estado de modo a não permitir a qualquer provável concorrente a mínima chance de luta, e, em decorrência disso, o seu assessoramento no setor político ao governador Luiz VianaFilho, vez que pessoalmente este se encontra mais preocupado com os problemas administrativos, motivaram o pior: a cisão e uma lavagem de roupa suja de resultados imprevisíveis. 15 Apesar de todas as críticas, Antônio Carlos Magalhães conseguiu manter em torno de si a discussão sobre os temas políticos mais relevantes para a ditadura e, mesmo quando cercado de conflitos, direcionava a polêmica para um campo visivelmente próspero à ideologia da elite dominante. Nesse caso, o reduto da diversidade era o diretório regional do partido governista e, a despeito de ACM manipulá-lo, sua atuação continuava sendo coesa em torno da política repressiva do governo ao comunismo e da perspectiva de crescimento econômico da Bahia e do Brasil. A estratégia carlista de construção de uma rede seleta de relações, inteiramente voltada para os seus objetivos pragmáticos e perfeitamente aliada com os princípios ideológicos da ditadura política, também operava na Assembléia Legislativa onde os atritos entre Antônio Carlos e o Jornal da Bahia tiveram desdobramentos. Na condição de deputado estadual, amigo da família Falcão e rompido com o governador desde que o mesmo fez acusações graves contra seu pai, Jutahy Magalhães jamais apoiaria esse ato do governador, mas, seria para ele demasiado imprudente desafiar a bancada arenista à qual pertencia e formar fileiras ao lado do MDB contra um comparte de legenda. Sendo assim, resguardou-se ao máximo nos procedimentos regimentais adotando uma postura legalista para defender a isenção do processo. Nem por isso, intimidou-se com a conduta do presidente da Assembléia Legislativa, o deputado arenista Orlando Spínola, que manobrou todos os expedientes parlamentares até que a queixa-crime fosse, diante da abstenção do MDB, considerada inepta por trinta e um votos da ARENA. 16 A Constituição Estadual da Bahia previa que, se dois terços da Assembléia Legislativa Estadual julgasse procedente qualquer acusação contra o governador, esse responderia por crimes comuns no Tribunal de Justiça, por crimes de responsabilidade na própria Assembléia Legislativa e, no Superior Tribunal Militar, pelos crimes contra a segurança nacional e os demais colocados em sua alçada. Conforme o regimento interno, a solicitação de licença para dar prosseguimento ao processo, uma vez enviada pela justiça, seguia para a Comissão de 15 Jornal da Bahia, 4 de outubro de 1969, p. 3. In: João Carlos Teixeira Gomes. Op. Cit., p.62. 16 Assembléia Legislativa do Estado da Bahia. Atas das sessões ordinária e extraordinária de 11 de outubro de 1972 e 13 de outubro de 1972, respectivamente. Arquivo Juracy Magalhães/CPDOC/FGV. 152 Justiça a fim de que a mesma emitisse um parecer e em seguida o plenário decidia por votação secreta. O presidente Orlando Spínola, negando-se a fazer circular cópia do processo entre os deputados, designou a comissão Diretora, da qual fazia parte, rebatizando-a de comissão especial, para dar o parecer. Afinal, apresentou o parecer e, ignorando ostensivamente todos os protestos de Jutahy Magalhães e da bancada do MDB, procedeu à votação aberta e nominal. 17 Desfeitas as expectativas de abertura do processo-crime contra o governador Antônio Carlos Magalhães, restava ao herdeiro juracisista atenuar os prejuízos políticos decorrentes da derrota e buscar um ponto de convergência com os pares da ARENA. Em longo discurso na sessão imediatamente posterior à votação, expôs minuciosamente a motivação da denúncia contra o governador, defendeu firmemente a honestidade de João Falcão e reiterou a irregularidade dos procedimentos regimentais adotados pelo presidente Orlando Spínola. Na impossibilidade de desagravo jurídico a João Falcão, a estratégia de Jutahy foi recorrer à reparação moral. Na seqüência do discurso do deputado Clodoaldo Campos, em defesa do jornalista, atalhou: Agradeço o aparte de V. Exa. deputado Clodoaldo Campos, e vou mais longe, dizendo que não é necessário desagravar o Dr. João da Costa Falcão. Não é necessário porque um homem de bem pode receber essas acusações, mas não é atingido, a poeira da injúria é lançada fora pelos homens de bem. 18 Amistoso, cioso de seu dever familiar, todavia preocupado com sua posição política, justificou prontamente aos seus pares na Assembléia sua posição diante daquele processo: Desejo, Sr. presidente, Srs. deputados, terminar minhas considerações, dizendo o porque da minha posição. Não posso Sr. presidente, votar contra a concessão da licença, porque poderia parecer que com isso não considerasse o Sr. João da Costa Falcão atingido pelas idéias do Sr. governador. Poderia até pairar uma dúvida sobre o que considero as minhas [...] a respeito da figura do Dr. João da Costa Falcão e jamais desejaria que isso pudesse ser colocado em dúvida, porque, aqui repito, aceitei ser testemunha do Sr. João da Costa Falcão, nesse processo, porque tenho a honra de dizer que João da 17 O procedimento do Tribunal de Justiça da Bahia baseou-se § 1.º , do artigo 58, da Constituição do Estado da Bahia. 18 Arquivo Juracy Magalhães/CPDOC/FGV. Assembléia Legislativa do Estado da Bahia. Ata da sessão extraordinária de 13 de outubro de 1972. 153 Costa Falcão é um homem honesto e, por isso, posso ser testemunha de sua honestidade. 19 Poucos dias antes, o próprio Juracy Magalhães havia comparecido ao julgamento de João Carlos Teixeira Gomes, no qual ACM foi derrotado, para apoiar João Falcão e seu funcionário. O acusado estava no banco dos réus porque o governador Antônio Carlos Magalhães o denunciara à Justiça Militar, como também, o Jornal da Bahia e seu diretor, por supostos crimes de imprensa previstos na Lei de Segurança Nacional. A razão alegada foi a denúncia, feita pelo jornal, de favorecimento fiscal a uma empresa de minérios no interior do estado. O próprio tribunal considerou improcedente a iniciativa de julgar o caso como questão de segurança nacional e “o grupo político liderado pelo ex-governador Juracy Magalhães, tendo à frente seu chefe, fez fila para me abraçar e tirar fotos”, contou o jornalista baiano. 20 Apesar do apoio recebido pela corrente juracisista, João Carlos Teixeira Gomes sabia que a relação carlista com a ditadura não era apenas um fato político pontual e oportunista, como também, que não se tratava de uma mera convergência de autoritarismos. Talvez por isso, ele foi bastante prudente e procurou o quanto pode dissociar Antônio Carlos Magalhães do governo e do sistema vigente. É compreensível que, intimado por um tribunal militar a responder por uma denúncia contra um governador indicado pela cúpula militar, o réu usasse de extrema habilidade para manter uma postura coerente diante dos fatos sem melindrar os brios da caserna. Em sua defesa, João Carlos Teixeira Gomes declarou ao jornal Tribuna da Imprensa o seguinte: O sr. Antônio Carlos Magalhães parece ter-se em conta excessivamente alta quando julga – se é que julga – que as críticas ao seu governo, até agora inoperante e perplexo, constituem qualquer ameaça ao regime. Pelo contrário, é obvio que o regime só tem a lucrar quando a imprensa, cumprindo o seu papel e criticando com responsabilidade, exerce missão fiscalizadora sobre a conduta dos homens públicos. 21 Contudo, a correspondência entre ACM e os demais membros da elite política que governava o país era ideológica e não pessoal, como se pode perceber no desdobramento dos fatos. A ausência dessa percepção pode induzir a erros de avaliação, como fez o deputado 19 Ibidem. 20 João Carlos Teixeira Gomes.Op. Cit., p.203. 21 Ibidem, p. 184. 154 federal João Borges, no plenário da Câmara Federal, salientando o papel da Justiça Militar no julgamento de João Carlos Teixeira Gomes: Enquanto representantes da Justiça Militar funcionaram no caso, sob inspiração civilista, o governador do Estado agiu no episódio com caráter militarista. Mas esta decisão, que indiscutivelmente abre largas perspectivas para o acolhimento dos direitos da imprensa neste país, vem testemunhar, também, que nem sempre há cabimento para aquela observação do escritor Soljenitzyn. Observava aquele escritor russo que há presentemente no mundo uma descarada convicção de que o poder pode todas as coisas e a Justiça nada pode. Esta decisão vem, precisamente, provar que a Justiça ainda pode, sobretudo quando é uma Justiça que tem consciência de seus deveres. 22 Poder e Justiça nesse caso eram lados de uma mesma moeda e a decisão de rejeitar a Justiça Militar como tribunal competente para julgar a demanda interposta por Antônio Carlos não era contra ele, ao contrário, favorecia-o. Se imediatamente configurava-se como uma derrota, no futuro lhe pouparia o dissabor de ser responsabilizado por um erro ou uma injustiça propositadamente assumida pela Justiça Militar para lhe proteger. A proteção aqui referida caracteriza-se como não rompimento de uma rede de relações políticas construída no país inteiro para sustentar a ditadura e da qual Antônio Carlos Magalhães era parte integrante e sintonizada. Feita essa pequena digressão, voltemos à Assembléia Legislativa onde, ao final, selava-se o reconhecimento da dimensão avassaladora que o episódio havia tomado, determinando o nível da correlação de forças entre o carlismo e o juracisismo no partido e no parlamento. Resignado, Jutahy reconheceu que a unidade estava acima de tudo: Vejo, Sr. presidente, que acima de tudo, de qualquer divergência que tenha com o Sr. governador do estado – e é pública e notória a divergência que tenho com S. Exa. – está para mim a figura do governador da Bahia e não quero, Sr. presidente, votar pela concessão de seu afastamento do cargo, por um momento infeliz da sua vida que, lamentavelmente, não foi o único, já foi repetido várias vezes. Mas não aceito, Sr. presidente, com o meu voto, afastar o governador do cargo, que é o de governador da Bahia, como também, por ser S. Exa. um elemento do meu partido, embora, constantemente, esqueça S. Exa. que é um elemento do mesmo partido que eu, pelos atos que pratica contra mim e meus amigos, seus correligionários, eu não me esqueço de que ele faz parte, também, da ARENA, e como seu 22 Anais da Câmara dos Deputados. Discursos. In: João Carlos Teixeira Gomes. Op. Cit., p.222. 155 correligionário, também, não daria, aqui, meu voto para seu afastamento do cargo. 23 Aflorava em Jutahy Magalhães, ao mesmo tempo, a necessidade de integração, a sua genealogia de elite e o compromisso ideológico com a ditadura. Mas, certamente, o recuo estratégico não apagou as amarguras decorrentes do rompimento entre seu pai, Juracy Magalhães, e seu antigo aliado Antônio Carlos Magalhães. As razões do rompimento entre ambos têm várias versões bastante divulgadas pelos principais jornais do país e pela crônica política estadual. Na versão carlista, Juracy Magalhães queria beneficiar-se de contratos do estado com empresas privadas, enquanto este negou tais acusações. 24 Juracy, aos 66 anos, mesmo afastado da vida pública e com restrita influência política, ainda mantinha o hábito de doutrinar seus discípulos. Mas, sem perspectivas de formar um séquito de grande envergadura, suas palavras não escondiam o desânimo e a decepção que o rompimento com Antônio Carlos Magalhães provocara. Pouco depois do ocorrido, escreveu ao já referido deputado Rogério Rego nestes termos: Hoje, aposentado, politicamente inválido, ainda ouso dizer a moços como você, que o estudo deve ser uma preocupação diuturna na vida de cada um de vocês, pois o que souber amealhar nos caminhos da inteligência, irá servir bastante ao país no futuro. 25 Na mesma carta, expressa sua opinião mais recente sobre Antônio Carlos Magalhães, prova incontestável da amargura em que vivia o general cearense nos meses subseqüentes à divulgação das denúncias contra ele: Aquele ex-amigo, em que você tanto falou, não me preocupa. Já o enterrei no cemitério dos afetos perdidos, e não vejo meios de assistir a uma ressurreição, pois um pai jamais perdoará alguém que o tenha feito instrumento para trair o próprio filho. Lamento, apenas, que o caminho de 23 Ibidem. 24 Os debates foram reproduzidos especialmente no jornal A Tarde, no Jornal da Bahia e em O globo.. No caso dos dois últimos por solicitação do próprio Juracy Magalhães. 25 Arquivo Juracy Magalhães/CPDOC/FGV. Correspondências Gerais. 1. º de junho de 1971. 156 perda de autoridade, em que ele vem se embrenhando, acabe prejudicando a própria Bahia. 26 Acostumado às intempéries da vida militar e política, Juracy Magalhães martirizava-se muito mais pelas consequências desastrosas de seus planos na carreira de seu filho Jutahy Magalhães do que pelas denúncias veiculadas contra ele por seu antigo protegido. O fato de Jutahy ter alertado sobre a possibilidade das coisas se desencaminharem sob a batuta de Antônio Carlos Magalhães, impunha um peso de responsabilidade ainda maior sobre os ombros do antigo interventor. No dia de seu aniversário, em carta ao general Carlos Alberto Fontoura, diretor geral do Serviço Nacional de Informações – SNI, Juracy Magalhães pediu para constar, na pasta a ele destinada, seus argumentos de defesa contra as denúncias de ACM, com quem assumia, publicamente, o rompimento. No preâmbulo, ressaltou: Vossa Excelência deve conhecer os antecedentes da escolha do senhor Antônio Carlos Magalhães para governador da Bahia. Para servir a uma amizade de quase quarenta anos argumentei, entre outros amigos, com o meu filho Jutahy Magalhães, que se opunha, tenazmente, contra essa escolha, por considerar que faltava, ao meu candidato preferido, a devida serenidade. Lembro-me bem de ter ouvido de meu filho as sábias palavras, que os fatos vieram confirmar: ‘meu pai, não se deve dar poder a quem abusa do poder e o Antônio Carlos abusa do poder’. Rompi, com ele, as minhas relações pessoais, porque entendo que nenhum indivíduo tem direito de usar um pai para que seja enganado o seu próprio filho. 27 A um de seus pares, coronel Tércio Veras, afirmou que o rompimento, de sua iniciativa, foi pessoal e não político, assumindo que tal atitude seria “a única sanção válida que podia utilizar contra um homem que fez de um pai instrumento de premeditada traição ao seu próprio filho”. 28 A decepção de Jutahy Magalhães com Antônio Carlos Magalhães se justificava em função das ligações afetivas entre os dois, que se iniciara com Francisco Peixoto de Magalhães Neto, pai de ACM, e mantivera-se por longos anos. Mesmo ofendido, Juracy reconhecia as adulações do passado: 26 Ibidem. 27 Arquivo Juracy Magalhães/CPDOV/FGV. Correspondências Gerais. 4 de agosto de 1971. 28 Arquivo Juracy Magalhães/CPDOV/FGV. Correspondências Gerais. 24 de agosto de 1971. 157 As brigas que, por minha causa, duraram desde a infância e se prolongaram pelos debates e nas praças públicas, nos recintos parlamentares, nos anfiteatros das convenções partidárias, algumas vezes com risco da própria vida. Não sei de alguém que tenha sido mais persistente nos louvores e no apoio às minhas posições políticas, mesmo quando erradas;ninguém, quanto ele, me escreveu tantas vezes e de forma sempre encomiástica; ninguém me cobriu de mais gentilezas, de presentinhos, de palavras lisonjeiras e gestos de ternura. Algumas vezes, até as lágrimas brotavam dos seus olhos de jovem ou de homem já feito, nas explosões sentimentais da sua admiração pelos riscos que eu corria nas refregas da minha áspera vida pública. E achava sempre que novos e altos postos me deviam ser confiados na política e na administração. E lutava por isso, com coragem, aparente convicção e indiscutível eficiência. 29 E concluía o raciocínio questionando a si mesmo sobre os rumos tomados por essa amizade: Tudo isso lhe fez conquistar um lugar de relevo no meu afeto e uma posição ímpar na minha confiança. Entrava, numa intimidade de filho, pela porta que queria na minha casa e a ele entreguei missões da maior relevância para o meu destino político. Que direito tinha eu de duvidar dessas continuadas demonstrações de estima pessoal e de apreço político? 30 Naturalmente que a proteção oferecida pelo clã juracisista impunha um tipo de vassalagem à qual Antônio Carlos Magalhães não estava disposto a se submeter para sempre e nem, tampouco, repartir os dividendos resultantes da vertiginosa ascensão. Pouco depois, cumpria a previsão de Jutahy Magalhães. O marco do rompimento entre ACM e Juracy se deu após a divulgação, pelo primeiro, de uma suposta reunião entre ambos no dia 15 de outubro de 1970 na qual Juracy teria solicitado ao futuro governador vantagens fiscais para a SANBRA, uma indústria de beneficiamento de mamona e para a Petroquímica União, empresa privada de refinamento de petróleo. ACM alegou que Juracy, descontente com a negativa do governador, rompeu a relação pessoal e política, enquanto Juracy se disse motivado pela traição e a mentira do correligionário. As cartas enviadas e recebidas por Juracy Magalhães mostram um contexto político dinâmico e plural no qual as relações pessoais interferem de forma definitiva no processo 29 Arquivo Juracy Magalhães/CPDOC/FGV. Pronunciamentos. s/d. 30 Ibidem. 158 político. O ex-poderoso interventor de Vargas aparece nesta correspondência pessoal como injustiçado, melancólico e incapacitado para formar novos discípulos. Com essa visão do ‘eu’, ele transfere ao outro as razões de sua desolação. O tom amargo e desinteressado do discurso revela mágoa e ressentimento notados em outra carta ao deputado estadual Stoessel Dourado: Sinto-me como um indivíduo que foi mordido por um cão danado, mas passou no Instituto Pasteur e tomou a vacina adequada. Não sei se ainda voltarei a responder Antônio Carlos Primeiro e Único, também madrasta de Branca de Neve. O debate político já não me atrai, e confesso que passei a ter nojo do meu atual contendor. 31 Vejamos que no período em questão, Juracy parecia pouco preocupado com as questões políticas embora Jutahy estivesse eleito para a Assembléia Legislativa da Bahia e se preparasse para a eleição a deputado federal na qual foi eleito, em 1974, com cerca de 86 mil votos - considerada a maior votação do estado. O indivíduo político recluso à vida privada e decepcionado com os dividendos do capital político acumulado nos anos de atividade se constrange diante da ascendência de seu rival e busca situar-se num terreno menos pantanoso que o da política. Nos anos seguintes, mais seguro de sua situação com a vitória do filho, Juracy voltaria a emitir opiniões mais incisivas sobre a política na Bahia, inclusive em suas cartas a amigos. 32 Até o rompimento com Antônio Carlos em 1971, o discurso era contundente, as críticas aos adversários eram ácidas e a posição de chefe político estava bastante delimitada. A derrota do grupo castelista, os desentendimentos com o filho Jutahy e o rompimento com Antônio Carlos Magalhães isolaram Juracy Magalhães tanto no âmbito da política nacional como local. Restaram-lhe a solidariedade dos amigos e o consolo de sua vasta biografia política. As cartas do período refletem um homem cansado, um líder carente de autoridade e um pai arrependido. Entre 1972 e 1973, as relações entre Jutahy e ACM se mantiveram muito tensas e evoluíram significativamente nesse sentido quando o primeiro criticou frontalmente a aplicação da Lei de Terras no Estado da Bahia enviada pelo executivo para análise na Assembléia Legislativa. A repercussão positiva da posição marcada por Jutahy como 31 Arquivo JM n. o 333/71, CPDOC/FGV, Carta de 10 de agosto de 1971. 32 O acervo documental do arquivo de Juracy Magalhães no CPDOC/FGV é composto basicamente de correspondências pessoais que tratam da situação política nacional no governo de Castelo Branco, da política na Bahia até a década de 70 e das atividades políticas de Jutahy Magalhães. 159 deputado na elite econômica do Estado e sua vitória significativa para deputado federal pela Bahia em 1974 mudaram o estado de espírito de Juracy e, consequentemente, o tom de seu discurso. Nos meses seguintes as cartas enviadas e recebidas teciam críticas ao rival e possuíam um caráter político incontestável. Por outro lado, a visão que ele possui de ACM é uma espécie de alteridade ao contrário. Durante quase duas décadas, Juracy via o comportamento agressivo de Antônio Carlos como uma característica própria de jovens políticos aguerridos. Sabia ter ao seu lado um discípulo que não mediria esforços para defender sua honra e seus princípios. Pensava ele que ACM adotaria para sempre o mesmo discurso do deputado Rogério Rego nos primeiros dias de seu mandato como deputado federal, quando, em carta a Juracy, comentava o rompimento dos antigos aliados: “Haverá algum dia um exemplo de homem que chegue a desfrutar o poder e seja capaz de desprezá-lo a ponto de ser fiel e continuar orgulhoso de suas origens”. 33 Decepcionado com a inversão de papéis, Juracy Magalhães se viu obrigado a concordar com Rogério Rego quando este lhe disse em um trecho de outra carta: Há quem diga que o governador é um temperamental e age inopinadamente, ao sabor das desmedidas reações de seu gênio irascível e desequilibrado. Há, entretanto, quem afirme que tudo o que faz é pensado e medido cuidadosamente. Do episódio fica enfim a evidência de que o homem não tem fronteiras, não tem amigos e não se peja de investir como lhe pareça apropriado para o momento contra quem quer que seja que se constitua em possível obstáculo aos seus desígnios. 34 O desembaraço e a agressividade do comportamento político do governador da Bahia em 1971 passaram a se constituir em um problema para seu antigo chefe. A visão do outro como complemento de sua própria vida política se desfez quando a “criatura” se tornou mais forte que o “criador”. Um cidadão soteropolitano, em outra carta a Juracy, traduziu perfeitamente a visão que tinham de ACM nesse novo momento: A baba desse vira-latas hidrófobo, jamais o atingirá [...] Esse homem, general, está maluco. Aposto que não passaria num exame de sanidade mental, seria, por certo, interditado. A impressão que tenho é que o vírus da 33 Arquivo JM, CPDOC/FGV, Carta de 20 de maio de 1971. 34 Arquivo JM, CPDOC/FGV, Carta de 3 de agosto de 1971. 160 hidrofobia nele vive em estado latente desde que nascera, talvez anterior mesmo ao seu nascimento, por tratar-se de doença congênita. 35 A posição segura de chefe político produzia agora um discurso crítico voltado para o mundo exterior. Abaladas as estruturas de sua chefatura e não se sentido capaz de identificar- se como líder político, Juracy recolhe-se ao mundo interior e posiciona-se