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Teatro é jogo
Esperamos que, ao fi nal desta aula, você seja capaz de:
• distinguir a natureza sensível do saber teatral 
do conhecimento meramente intelectivo;
• identifi car os princípios lúdicos do teatro na Educação.
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Meta da aula
Apresentar a natureza lúdica do 
teatro na Educação.
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Artes na Educação | Teatro é jogo
INTRODUÇÃO Ouça... Preste atenção ao som de três sinais. Talvez ao canto de um pássaro, 
ao apito de um navio, à buzina de um carro, ao repicar de um sino ou, ainda, 
quem sabe, ao mugido de uma vaca, ou ao coaxar de um sapo. Solte a sua 
imaginação. Vamos dar início ao estudo do teatro. 
Molière, renomado ator e autor francês de comédias do século XVII, com o 
objetivo de silenciar o público muito barulhento da época, criou três pancadas 
ou sinais para avisar que o espetáculo teria início. Este costume virou moda e 
até hoje é utilizado.
SINAL VERMELHO!!! NÃO AVANCE NA LEITURA. EXPERIMENTE!!!
!
Um pouco de história
Meu nome é Jean-Baptiste Poquelin, mas sou conhecido como 
Molière (1622-1673). Adotei esse pseudônimo, provavelmente, 
para não causar constrangimento ao meu pai e poupá-lo 
do embaraço de ter um ator na família. Imagine, meu pai, 
próspero tapeceiro da corte, solicitado pelas mais nobres damas 
e cavalheiros, ter em casa um filho ator!!! Ser ator, naquela 
época, era sinônimo de ser boêmio, vadio e outros títulos mais. 
Apesar do preconceito, consegui tornar-me um prestigiado 
homem de teatro, produtor, ator e autor de comédias, que 
foram aplaudidas por toda a França.
Iniciei minha carreira teatral aos 21 anos, integrando a 
companhia L’Illustre Théâtre, sediada, primeiramente, em Paris 
e, depois, percorrendo em excursão as províncias.
Por volta de doze anos, nossa companhia viajou de um lado a outro e, assim, converteu-
se no mais perfeito grupo de comediantes do reino.
Então, partimos de volta para os arredores de Paris. Em outubro de 
1658, apresentamo-nos, finalmente, diante do rei Luís XIV e sua corte. 
A representação? Uma tragédia de Corneille. Um fiasco!!! Antes, porém, de estar tudo 
perdido, pedi permissão ao rei para encenar uma pequena farsa: O Doutor Enamorado. 
O favor foi concedido. A alegria tomou conta do salão e o rei morreu de rir. Foi um dia 
glorioso; recebi muitos aplausos e obtive; reconhecimento do rei.
Minhas comédias satirizavam a sociedade francesa, os valores e costumes da época, 
mostrando, ao mesmo tempo, um profundo conhecimento da natureza humana. Escrevi, 
ao todo, 30 comédias. Dentre elas, destacam-se As preciosas ridículas, O misantropo, O 
avarento, Tartufo, e O doente imaginário. Sugiro que você leia algumas delas para nos 
conhecermos melhor.
Da mesma maneira que Molière, convido você a silenciar a sua mente, 
os seus pensamentos e voltar a sua atenção para os ritmos internos do seu 
corpo. Feche os olhos por um momento; perceba a sua respiração. Perceba 
o ar entrando e saindo de seu corpo. Depois, sinta o ritmo do seu coração. 
Como está o seu batimento cardíaco agora? Acelerado? Lento? Faça uma 
pausa na leitura, feche os olhos e experimente por alguns segundos.
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 Agora, tome consciência do seu corpo. Onde você está? Como 
você se encontra? Sentado, em pé ou deitado? Perceba o estado do 
seu corpo. Seu corpo está atento, com vigor, ou está sem energia, 
sem vontade, entregue à força da gravidade? Como está à sua coluna 
vertebral? Procure alongá-la. Desperte o seu olhar para o que está à sua 
volta e perceba o ambiente ao redor, observando os objetos, as formas, 
as relações de distância entre eles, os volumes, as cores, a temperatura, 
a luminosidade, os sons, as pessoas, os gestos e os movimentos de cada 
uma delas. Somente observe. Não faça nenhum tipo de julgamento, não 
critique, apenas contemple...
Você conseguiu deixar-se envolver pelas instruções sugeridas? Qual 
foi o seu grau de credibilidade nos comandos propostos? Você resistiu 
ou se permitiu experimentar?
O ensino-aprendizagem do teatro passa, primeiramente, pela 
vivência das sugestões indicadas. Para que isso ocorra de forma efetiva, 
é necessário criar um estado de disponibilidade, ou seja, de abertura 
interior, para jogar, brincar, sorrir, imaginar e sentir prazer. Convido 
você, então, a iniciar o curso com essa postura de ousadia. Assuma uma 
atitude lúdica diante dele, explore e experimente as sugestões dadas. 
Entre comigo nessa aventura teatral.
A NATUREZA SENSÍVEL DO SABER TEATRAL
No estudo do teatro e de seus processos criativos, é importante 
reconhecer e praticar um novo modo de conhecimento, “o saber sensível”, 
que requer o envolvimento de todo o corpo no ato de conhecer. Este 
saber ainda pressupõe uma nova qualidade do olhar, atento, consciente, 
voltado para o momento presente, para os acontecimentos, formas 
e sentimentos humanos. É no corpo, portanto, que reside, segundo 
Duarte, o fundamento básico da Educação Estética:
Começa aí, portanto, nesse “corpo-a-corpo” primeiro mantido com o 
mundo que nos rodeia, a aventura do saber e do conhecer humanos. 
Sem dúvida há um saber sensível, inelutável, primitivo, fundador de 
todos os demais conhecimentos, por mais abstratos que estes sejam; 
um saber direto, corporal, anterior às representações simbólicas 
que permitem os nossos processos de raciocínio e refl exão...Aqui se 
insistirá, pois, na necessidade atual e algo urgente de uma educação do 
sentimento, que poder-se-ia muito bem denominar educação estética. 
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Contudo não nesse sentido um tanto desvirtuado que a expressão 
parece ter tomado no âmbito escolar, onde vem se resumindo ao 
repasse de informações teóricas acerca da arte, de artistas consagrados 
e de objetos estéticos. Trata-se, antes, de um projeto radical: o de 
retorno à raiz grega da palavra “estética” – aisthesis, indicativa da 
primordial capacidade do ser humano de sentir a si próprio e ao 
mundo num todo integrado (DUARTE, 2003, p. 12).
Na Educação Estética, a supremacia não é do intelecto, que 
atua, medindo, julgando, enumerando ou conceituando. Pensamento e 
sentimento surgem como resultado primeiro do contato sensível do aluno 
com o mundo. O saber sensível é, portanto, de outra ordem; abre espaço 
para a intuição, a imaginação e as novas formas de ver o mundo. Uma 
educação sensível se volta para o desenvolvimento e o refi namento de 
nossos sentidos, para a percepção sensível e direta da realidade.
Curiosidade
o verbo saber, nas acepções mais antigas, indica “ter o sabor de” ou “agradar ao 
paladar”. Assim, segundo Duarte (1999, p.14), “o saber carrega um sabor, fala aos 
sentidos, agrada o corpo, integrando-se como um alimento à nossa existência. 
Por este viés, o sábio se distingue do especialista, esse detentor de conhecimentos 
parcializados que, na quase totalidade das vezes, não se conectam às ações de seu 
próprio dia-a-dia”.
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 Por isso, um dos pré-requisitos básicos do “fazer e apreciar” teatral 
é aguçar e nutrir os sentidos. Como isso pode ser feito? Recorrendo, por 
exemplo, a atividades sensoriais como a auto-observação do corpo, seus 
sentimentos, pensamentos e emoções ou à contemplação da Natureza, 
das ações e das imagens cotidianas. Portanto, fi que atento às impressões 
presentes na sua rotina diária ou, ainda, existentes na memória de suas 
emoções: o cheiro da chuva, o aroma de café coado, a luminosidade de 
um dia de sol ou de um dia nublado, o perfume das fl ores, o fl orescer 
das árvores, o gosto de uma fruta comida ao pé da árvore, os sons que 
atravessam o seu dia, os gestos desenhados por uma pessoa, a maneira 
como