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Clínica Cirúrgica Politrauma 15ª edição Questões Comentadas sUMÁRIO 1 Politrauma 9 2 Atendimento inicial ao politraumatizado 13 3 Via aérea e ventilação 25 4 Trauma cervical 33 5 Trauma de tórax 39 6 Trauma abdominal 69 7 Trauma genitourinário 86 8 Trauma pélvico 100 9 Trauma cranioencefálico (TCE) 108 10 Trauma raquimedular (TRM) 120 11 Trauma musculoesquelético 129 12 Trauma pediátrico 135 13 Trauma em gestantes 145 14 Cirurgia para controle de danos 151 15 Síndrome compartimental abdominal (SCA) 158 16 Choque 163 17 Questões para treinamento – Politrauma 187 18 Gabarito comentato 227 267 Capítulo 1 Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201510 Introdução O trauma pode ser descrito como o dano físi- co produzido pela transferência de energia cinética, térmica, química, elétrica ou por radiação. Também pode ser causado pela ausência de oxigênio ou ca- lor. O intervalo de tempo a partir da transferência de energia ou da suspensão de elementos fisiológicos essenciais é conhecido como exposição, a qual pode ser aguda ou crônica. O trauma é, atualmente, a principal causa de morte entre 1-44 anos de idade desde o início da década de 1980. Por ano, segundo dados dos Estados Unidos, cer- ca de 60 milhões de americanos (1 em cada 4) sofrem algum tipo de trauma, com: � 145.000 mortes; � 30 milhões requerem tratamento médico; � 3,6 milhões requerem hospitalização; � 9 milhões são ferimentos incapacitantes, dos quais 300.000 serão de incapacidade definitiva e 8.700.000 de incapacidade permanente; � custo: 100 bilhões de dólares – 40% do orçamen- to do país. A melhor maneira de evitar toda essa morbimor- talidade e gasto econômico relacionado está na pre- venção do trauma. Mortalidade por trauma A morte está diretamente relacionada com o tem- po e a gravidade da lesão. Podemos dizer que a morte no trauma é um fenômeno trimodal, isto é, ocorrem em três distintos momentos ou picos de morte. Primeiro pico de morte – óbito praticamen- te irreversível. Ocorre nos primeiros segundos a mi- nutos do trauma, como no TCE grave com laceração do cérebro, lesão de tronco cerebral, no trauma raquime- dular (TRM) alto, no afundamento maciço de tórax, nas lesões cardíacas e trauma de aorta e grandes vasos. Esses pacientes dificilmente chegam vivos ao hospital e morrem de imediato. Segundo pico de morte – óbito por perdas de sangue. Acontece em poucos minutos (geralmente após os três primeiros minutos) até várias horas após o trauma. É mais frequente o óbito na primeira hora, a chamada Golden Hour. As principais causas são insuficiência respirató- ria aguda por obstrução das vias aéreas, pneumotórax (principalmente o hipertensivo), hemopneumotórax ou contusões pulmonares; TRM com instabilidade cervical; choque hipovolêmico por hemorragia trau- mática interna ou externa, trauma pélvico; TCE com hematoma extra dural, subdural e cerebral. O objetivo do Advanced Trauma Life Support ATLS é centrado em prevenir o óbito no segundo pico das mortes por trauma. Terceiro pico de morte – óbito por infec- ção. Ocorre dias, semanas ou meses após o trau- ma. Resulta de complicações e intercorrências como síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SIRS), broncopneumonias (BCP), infecções (prin- cipal causa de morte tardia ao trauma), disfunção de múltiplos órgãos e sistemas (DMOS) e doenças preexistentes agravadas pelo trauma (diabete, car- diopatias, nefropatias etc.). A vantagem do método do ATLS é que inicial- mente podemos tratar os traumatizados sem que te- nhamos o diagnóstico definitivo como pré-requisito. O caminho é estabelecer a padronização do politrau- matizado da mesma maneira: avaliação inicial para- lela e simultânea aos procedimentos de reanimação respiratória e cardiocirculatória. Reavaliação frequen- te, com reanimação das funções vitais e encaminha- mento para cirurgia ou para exames complementares específicos. A decisão de transferência para o hospital especializado deve ser feita até o final do fim do exame primário. Palavras chaves para as questões de re- sidência médica – reavaliar o paciente, tempo e sequência de atendimento padronizado. Distribuição Trimodal das Mortes por Trauma 1º Pico 2º Pico 1 Hora0 3 Horas 2 semanas Tempo M or te s 4 semanas 3º Pico Sepse DMOS Lacerações: Cérebro Aorta Medula Coração Epidural Subdural Hemopneumotórax Fraturas Pélvicas Fraturas de Ossos Longos Lesões Abdominais Figura 1.1 Distribuição trimodal das mortes por trauma. 1º pico: segundos a minutos do trauma. Nesse período os pacientes morrem por lacerações no cérebro, trauma raquimedular alto, trauma cardíaco, rotura da aorta, entre outras causas. 2º pico: minutos a horas do trau- ma. Este é o foco do ATLS. Causa morte: hematomas epi/extradurais, hemopneumotórax, trauma hepático, fratura de pelve e ferimentos associados com perda de sangue. 3º pico: ocorre tardiamente – dias, se- manas ou meses e se deve às intercorrências e complicações do trauma. 1 Politrauma 11 Figura 1.2 Vítima de trauma após colisão direta com trem. Trauma de tórax grave, com esmagamento e trauma de extremidades. Figura 1.3 Hematoma epidural à esquerda. Repare na convexidade para dentro do cérebro que desvia a linha média. O desvio na linha mé- dia é mais comum no hematoma subdural e raro no epidural (que tem bom prognóstico). Há sinais indiretos de hemorragia, meníngea que é o “aspecto em J”, na linha média, do sangue na foice do cerebelo. O hematoma epidural é caracterizado pelo intervalo lúcido de tempo: o paciente fala e morre. Na verdade, o paciente geralmente chega com Glasgow 15 e na evolução há rebaixamento súbito do nível de consciên- cia (Glasgow < 8) havendo necessidade de intubação. Índices de trauma Os índices de trauma são medidas quanti- tativas para avaliar a gravidade do trauma. Eles permitem que um serviço de emergência prepare ade- quadamente os recursos terapêuticos necessários an- tes da chegada de um paciente ao hospital. É possível avaliar as mudanças no estado do paciente durante um determinado período, prever diferentes desfechos e analisar prognósticos. Os escores de trauma permi- tem, ainda, avaliar e comparar a qualidade do atendi- mento em diferentes serviços. Índices anatômicos Escala abreviada de lesões (AIS) Em 1969 foi publicada a Escala Abreviada de Le- sões (AIS), sendo revisada em 1990. O AIS é um índice anatômico importante para cálculo de outros níveis frequentemente usados em publicações e compara- ções entre serviços como o ISS e o TRISS. É uma lis- ta que contém diversas lesões de todos os segmentos corporais, divididos pela gravidade. Os segmentos corporais são em número de seis: cabeça e pesco- ço, face, tórax, abdome, pelve, membros e lesões ex- ternas (Tabela 1.1). Cada lesão recebe um valor, com gravidade crescente, que varia de 1 (lesão mínima) a 6 (lesão possivelmente fatal). Vale lembrar que o AIS não prediz mortalidade. Sua importância está no fato de servir como base para outros índices prognósticos. Uma crítica do método seria a avaliação de pacientes com múltiplas lesões. Escala abreviada de lesões (AIS) 1. Menor 2. Moderado 3. Sério 4. Grave 5. Crítico 6. Mortal (não sobrevive) Tabela 1.1 Índice de gravidade da lesão (ISS) É utilizado para quantifi car a gravidade do trauma. O corpo humano é dividido em seis segmen- tos: cabeça e pescoço, face, tórax, abdome e pelve, ex- tremidades e ossos da pelve e superfície externa. Em cada um desses segmentos, a lesão recebe uma pon- tuação de 1 a 6, tendo como base os critérios do AIS, conforme descrito na Tabela 1.1. O ISS considera apenas a soma dos quadrados dos três maiores AIS que são os mais graves. O índice tem valor mí- nimo de zero e máximo de 75, e quanto maior o valor, maior a probabilidade de morbimortalidade e tempo de internação. Lesões maiores que 25 são consi- deradas traumas graves. Pacientes que apresentam lesão fatal correspondem a AIS 6 e, automaticamente, terãoum ISS de 75. Crítica a esse método são os pacientes que apre- sentam mais de uma lesão em um mesmo segmento corporal que serão desconsiderados no cálculo se não forem graves o sufi ciente. E qualquer erro no AIS au- menta muito o ISS. O ISS não é usado como triagem. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201512 Novo índice de gravidade da lesão (NISS) O NISS é obtido pela soma dos quadrados das três lesões mais graves do AIS, independentemente do seg- mento corporal acometido. Pacientes que apresentem lesões graves associadas ao mesmo segmento corporal, o que é relativamente frequente em traumas penetran- tes, podem ser considerados para calcular o NISS. Índices fisiológicos Escore de trauma revisado (RTS) O RTS é escore fisiológico com alta acurácia para predizer probabilidade de óbito. Variáveis do escore de trauma revisado (RTS) GCS PAS FR Valor 13-15 >89 10-29 4 9-12 76-89 > 29 3 6-8 50-75 6-9 2 4-5 1-49 1-5 1 3 0 0 0 0,9368 0,7326 0,2908 Constante Tabela 1.2 TS = 0,9368 GCS + 0,7326 SBP - 0,2908 RR Para o cálculo utilizam-se os valores iniciais da escala de coma de Glasgow (GCS), da pressão arterial sistólica (SBP) e da frequência respiratória (RR) que são convertidos em uma escala de gravidade de 0 a 4 como na Tabela 1.2. Após estudos de regressão logística, estratificou- -se a gravidade de cada parâmetro por meio de cons- tantes demonstradas acima na fórmula da tabela 1.2. Dessa maneira, o RTS varia de 0 a 8 (7,8408). O RTS é um prático índice fisiológico e deve ser calculado na admissão do paciente no hospital. Po- rém, ele não é um preditor de complicações, mas correlaciona-se com probabilidade de sobrevida. Um paciente com RTS < 4 deverá ser transferido a um centro de trauma. Probabilidade de sobrevida pelo RTS Pr ob ab ili da de d e s ob re vi da p elo R TS (% ) Revised Trauma Score (RTS) 1 0.9 0.8 0.7 0.6 0.5 0.4 0.3 0.2 0.1 0 0.027 0.071 0.172 0.361 0.605 0.807 0.919 0.969 0.988 Figura 1.4 Índices mistos TRISS É um índice que avalia a probabilidade de sobre- vida, utilizando-se do RTS e do ISS. Além do RTS e do ISS, consideram-se a idade do paciente (menor ou maior do que 54 anos) e o tipo de trauma (fechado ou penetrante). Esses valores são colocados em programa de computador e aplicados em uma tabela TRISSCAN, que determina através de regressão logística probabi- lidade de sobrevida. Atenção: vale lembrar quais são os índices ana- tômicos, fisiológicos e mistos e o seus significados ao invés de decorar fórmulas. É improvável que o exa- minador questione sobre a fórmula dos índices ainda mais que são calculados por programas de computa- dor, mas é interessante saber os componentes do RTS, por exemplo. ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA Capítulo 2 Capítulo 2 Introdução Se tempo é dinheiro, para os americanos tempo é sangue no ATLS. O tratamento de pacientes vítimas de trauma grave requer rápida avaliação de suas lesões e imediata instituição de medidas terapêuticas que possam garantir a sobrevivência desses pacientes. Uma vez que o tempo é fator essencial no resul- tado final do tratamento, é necessário fazer uma abor- dagem sistematizada, incluindo sequência hierar- quizada de prioridades. O processo é denominado avaliação inicial e in- clui diversas etapas como preparação pré-hospitalar, triagem, exame primário (ABCDE), exames adjuntos ao exame primário, reanimação, exame secundário e cuidados definitivos. O atendimento ocorre em dois cenários dis- tintos: atendimento pré-hospitalar e hospitalar. Existem diferenças entre países e continentes em relação ao sistema empregado. Na Europa, por exemplo, o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) francês adota certas medidas de tratamento na fase pré-hospitalar que podem retardar um pouco a remoção até o hospital, já que existe a presença de médicos que podem fazer procedimentos no local. No sistema norte-americano, há a figura do paramédico, que foca em fazer reanimação básica e transporte rápi- do para o centro de trauma (scoop and run). A equipe de atendimento pré-hospitalar, ao chegar ao local, deve observar: � segurança do local e da equipe; � mecanismo de trauma/gravidade; � número de vítimas. No Brasil, a equipe observa, mediante exame sumário, se existem alguma situação crítica e lesão ameaçadora de vida a ser tratada no exame primário como necessidade de desobstrução de vias aéreas, oclusão de ferimentos aspirativos de tórax (que possam levar a pneumotórax hipertensivo) , des- compressão de pneumotórax hipertensivo, ven- tilação mecânica, contenção de grandes hemor- ragias e suspeita de tamponamento cardíaco. No atendimento pré-hospitalar, antes de qualquer ABCDE, verifique: a cena está segura? Pelo ATLS de 2008, as novas mudanças incluem a necessidade de drenar um pneumotórax traumático ainda que pequeno antes de se realizar a transferência. É fundamental, no atendimento ao trauma, o cuidado com a integridade da equipe que está prestan- do o atendimento. O controle da cena é fundamental, identificando situações de risco (exemplo: risco de explosão), evitando- -as, afastando curiosos etc. Nessa mesma linha, temos a questão da divisão do atendimento ao trauma em zonas: � zona quente: é o foco principal do trauma, onde estão as vítimas (exemplo: local exato onde foi encontrada a vítima, dentro do carro, presa em ferragens). � zona morna: é um raio ao redor da zona quen- te onde ficam o pessoal de apoio, a unidade de resgate estacionada, os materiais necessários ao atendimento organizados etc. � zona fria: raio ao redor da zona morna, onde se controla e restringe o acesso ao foco do trauma e são afastados os curiosos etc. No atendimento pré-hospitalar suspeita-se de traumatismo grave quando: � ocorreram quedas de mais de 6 metros; � colisões a mais de 32 km/h (20 mph); � houve ejeção da vítima para fora do veículo; � houve morte de um ou mais ocupantes do veículo; � ocorreram danos graves ao veículo (perda total); Atenção: procedimentos secundários, como exames contrastados, tomografia, lavado peritoneal diagnóstico (LPD), arteriografia e ressonância, não devem ser realizados no hospital que irá transferir o paciente, mas sim priorizar e não retardar a transfe- rência. A decisão desses exames deverá ficar a critério do médico assistente do hospital de destino. Na fase hospitalar é preciso ter planeja- mento. Os equipamentos devem estar testados (la- ringoscópios, tubos etc.) e disponíveis para serem usa- dos imediatamente. Além disso, para o atendimento do politraumatizado deve ser usada proteção contra doenças transmissíveis (hepatite, AIDS etc.), usando máscaras, protetor ocular, avental impermeável, luvas etc. O ATLS obriga sempre o cuidado com o con- trole da infecção. Triagem É a avaliação e screening (classificação) dos pa- cientes politraumatizados de acordo com a probabi- lidade de sobrevida, recursos e pessoal disponível e tratamento provável necessário. O atendimento prestado deve ser baseado nas prioridades, com ênfase nas lesões ameaçadoras à vida. A classificação dos doentes no local do acidente Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201514 e a decisão do tipo de hospital para o qual deve ser transportado o doente são primordiais, principalmen- te tratando-se de catástrofes. Em situações de catástrofes, a triagem realizada pelas equipes deverá obedecer a dois aspectos: – O número de pacientes não excede a capacida- de dos cuidados disponíveis: pacientes com lesões gra- ves são cuidados primeiro. – O número de pacientes excede a capacidade de cuidados disponíveis: pacientes com maior chance de sobrevivência são tratados primeiro. Em princípio, devem ser encaminhados para um centro de trauma os traumatizados que apre- sentarem alguma das características apresentadas na Figura 2.1. Medida dos sinais vitais e nível de consciência Escala de coma de Glasgow Pressão sistólica Frequência respiratóriaEscore de trauma revisado (RTS) Encaminhar ao centro de trauma; alertar a equipe de trauma. As etapas 1 e 2 da triagem buscam identificar os pacientes mais gravemente lesionado no local. Em um sistema de trauma, esses pacientes deveriam ser transportados, de preferência, para o mais alto nível de assistência no sistema. Encaminhar ao centro de trauma; alertar o centro de trauma. As etapas 1 e 2 da triagem buscam identificar os pacientes mais gravemente lesionados no local. Em um sistema de trauma, esses pacientes deveriam ser preferencialmente transportados para o mais alto nível de assistência no sistema. Avaliar a evidencia do mecanismo da lesão e do impacto de alta energia • Todas as lesões penetrantes da cabeça, pescoço, tronco e extremidades proximais ao cotovelo e joelho • Tórax flácido • Combinação de trauma com queimaduras • Duas ou mais fraturas de osso longo proximal • Fraturas pélvicas • Fraturas abertas e afundamentos do crânio • Paralisia • Amputação próxima ao punho e ao tornozelo • Queimaduras grandes • Lesão automóvel-pedestre/automóvel-bicicleta com grande impacto (> 8 km/h) • Atropelamento de pedestre • Colisão de motocicleta > 35km/h ou com lançamento do motorista • Projeção do automóvel • Morte no mesmo compartimento do passageiro • Tempo de liberação > 20 minutos • Idade < 5 ou > 55 • Doença cardíaca, doença respiratória • Diabetes dependente de insulina, cirrose ou obesidade mórbida • Gravidez • Pacientes imunossuprimidos • Pacientes com distúrbios sanguíneos ou pacientes usando anticoagulantes Contatar a supervisão clínica e considerar transporte para o centro de trauma Alertar equipe de trauma EM DÚVIDA, ENCAMINHAR A UM CENTRO DE TRAUMA Reavaliar com supervisão clínica Contatar a supervisão clínica e considerar transporte até o centro de trauma Alertar equipe de trauma • Queda > 20 metros • Rolagem • Colisão do automóvel em grande velocidade Velocidade inicial > 70 km/h Grande estrago do automóvel > 50 metros Entrada no compartimento do passageiro > 30 metros Avaliar a anatomia da lesão < 14 ou2 < 90 ou < 10 ou > 29 < 11 Primeira etapa1 Segunda etapa2 Terceira etapa3 Quarta etapa4 .............................................................................. .................................................................................................... ....................................................................................... ...................................................................... Sim Sim Sim Sim Não Não Não Não Figura 2.1 algoritmo de triagem no campo do American College of Surgeons. Adaptado de SABISTON, 18ª ed. 2009. 2 Atendimento inicial ao politraumatizado 15 Avaliação e exames primário Os pacientes serão avaliados conforme priori- dades de tratamento. Para os gravemente lesionados, é estabelecida uma sequência lógica no tratamento, obedecendo-se às prioridades baseadas na avaliação geral do doente. Um paciente com problemas na via aérea morre mais facilmente do que aquele com pro- blemas respiratórios que, por sua vez, tem mais chan- ces de morrer do que um que tem hemorragia. Sempre obedeça à sequência do ABCDE (*)! O tratamento começa paralelamente ao exame primário rápido e consiste na reanimação das funções vitais comprometidas, pois o tempo é fator fundamen- tal no resultado final, em que as decisões terapêuticas exigem rapidez e precisão. (*) O ABCDE dos cuidados com o politraumati- zado é a sistematização do atendimento que objetiva identificar as condições que implicam risco de morte na sequência: A (Airway & Cervical Spine Control) – vias aéreas pérvias e proteção da coluna cervical. B (Breathing) – Respiração e ventilação. C (Circulation) – Circulação e controle da hemor- ragia. D (Disability) – Diagnóstico com exame neuroló- gico sumário: GLASGOW e pupilas. E (Exposure) – Exposição do doente (dedos em tubos em todos orifícios a ser realizado no exame se- cundário), com controle contra a hipotermia. Durante o exame primário, todas as condições que implicam risco à vida deverão ser diagnosticadas e, simultaneamente, o tratamento deverá ser instituí- do imediatamente. Essa sequência foi descrita para ser usada em ambiente hospitalar, no qual estiver disponível um médico com um auxiliar. É claro que, na prática, ela é desenvolvida quase que simultaneamente por pessoal treinado. No ATLS novo, é muito nítida a importância da realização do atendimento por uma equipe e não ape- nas por um único médico. Assim, em várias ocasiões, fica claro que, no momento que um examinador está fazendo o A, ele já consegue (quando muito experien- te) avaliar a escala de coma de Glasgow. Se a avaliação for retardar o atendimento (por exemplo – um único médico socorrista), deve-se prontamente proceder à sequência acima colocada. Deve-se sempre priorizar sequência, principalmente se o atendimento estiver sendo praticado por pessoas inexperientes. No trauma pediátrico e na gestante, as prioridades são as mesmas do adulto. Entretanto, peculiaridades fisiológicas e anatômicas inerentes à gravidez modificam a resposta ao trauma. A gestante tem aumento de 30-40% da volemia progressiva até pico na 34ª semana, em preparação para a perda sanguínea pelo parto vaginal ou cesárea. Assim, devido à hipervolemia fisiológica da grá- vida, o feto já pode estar em sofrimento fetal an- tes que a mãe apresente sinais de taquicardia, hipotensão ou oligúria. Isso resulta da redução abrupta de volume circulante da mãe ocasiona aumen- to da resistência vascular uterina, reduzindo a oxige- nação fetal. O foco então para salvar o feto é voltar todo o cuidado para a fase de ressuscitação da mãe. O diagnóstico de gestação é outro fator extre- mamente importante tanto para a sobrevida da mãe quanto para a do feto. Toda mulher em idade fértil deve ser considerada grávida até que se prove o contrário e possui prioridade absoluta. O idoso também merece cuidados especiais na reanimação. O processo de envelhecimento é frequen- temente acompanhado de doenças crônicas, com re- dução significativa das reservas fisiológicas, compro- metendo a resposta metabólica ao trauma. Isso sem considerar as inúmeras medicações que o idoso faz para múltiplas comorbidades. Vale lembrar que o ATLS coloca que o idoso do sexo masculino tem maior mortalidade. Por outro lado, o contrário é vis- to em jovens e atletas, que são capazes de compensar a agressão fisiopatológica com facilidade. Assim, se houver um idoso e um atleta hipotensos, ou seja, com o C comprometido, deve ser atendido primei- ro o jovem, que tem reserva funcional e, portanto, se esse descompensou, teve um volume de sangra- mento excessivo. Já um idoso sangra pouco e evo- lui para instabilidade hemodinâmica rápida. A – Manutenção da via aérea e proteção da coluna cervical Tarefas do A – Imobilização da coluna cervical e falar com o paciente; – Colar cervical; – Permeabilização da via aérea (Jaw Thrust ou Chin Lift, manobras para reverter obstrução por corpo estranho ou queda de língua); – Aspiração da via aérea (aspirador rígido); Na avaliação primária, a via aérea e a coluna cervi- cal são prioridades absolutas. A primeira ação que deve ser feita é a avaliação da via aérea, daí a importância de se falar com o paciente. Detalhe: sempre proteja a Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201516 coluna cervical antes de falar com o paciente. Se o paciente consegue responder verbalmente à abordagem inicial, signifi ca que a via aérea está patente (pérvia); doente consciente signifi ca boa oxigenação cerebral. Há de se fazer a imobilização do pescoço do do- ente com as mãos e então fale com ele: Você está bem? Se ele responder, ótimo! Por hora, duas questões fo- ram resolvidas: o paciente está consciente e as vias aé- reas (VA) estão pérvias. Instale o colar cervical. Considere a existência de uma lesão de coluna cervical em todo doente com traumatismo multissistêmico, especial- mente nos doentes queapresentam nível de consciência al- terado ou traumatismo fechado acima da clavícula. Quando se tratar de uma vítima de acidente de motocicleta, cuidado na remoção do capacete. Empregue a manobra-padrão de retirada do capacete, sem movimentar o pescoço. Não realize hiperex- tensão, nem fl exione a coluna cervical. A B C D Figura 2.2 note a retirada do capacete que deverá ser retirado em ma- nobra com duas pessoas. Um socorrista imobiliza a coluna cervical ali- nhando manualmente a cabeça e o pescoço (A), a segunda pessoa abre o capacete lateralmente, liberando os tirantes do capacete e retira o mesmo, cuidando para não ferir nem o nariz, nem o occipital (B) e (C). Note que uma pessoa deve fi car sempre com o controle da cervical, e no fi nal segura a cabeça do paciente (D) para a colocação do colar cervical. Manobras para assegurar a permeabilidade das vias aéreas: � Inspeção e remoção de corpos estranhos/pró- teses: abrir a cavidade oral, olhar no interior, remover próteses ou corpos estranhos, aspirar secreções e hemorragias com aspirador rígido. � Jaw-Th rust: anteriorização da mandíbula através da elevação do ângulo da mandíbula. � Chin-lift : elevação do mento. Manobras para remover corpos estranhos: � Manobra de Heimlich (Figura 2.7). Figura 2.3 aspiração de secreções e remoção de corpos estranhos da boca com aspirador rígido. Figura 2.4 Manobra de chin-lift: elevação do mento impedindo que a língua oclua a retrofaringe. Figuras 2.5 manobra de chin-lift no modelo de cabeça da via aérea: note que após a elevação do mento o ar fl ui com facilidade sem obstru- ção na retrofaringe. Figura 2.6 Manobra de Jaw-Th rust: elevação da mandíbula e tra- ção do mento a ser usada no trauma quando a manobra head-tilt-chin- -lift (hiperextensão da cabeça) está contra-indicada. 2 Atendimento inicial ao politraumatizado 17 Tosse + manobra de Heimlich (consciente) A B C Compressões abdominais Compressões torácicas (5 cm) Esterno Figura 2.7 manobra de Heimlich para remoção de corpo estra- nho. A: manobra de Heimlich em ortostase com paciente consciente; B: compressões abdominais no epigástrico; C: compressões torácicas semelhantes às usadas na reanimação cerebrocardiorrespiratória. Corpo estranho Pela última atualização do Circulation 2010, na suspeita de corpo estranho, deve-se estimular a tosse, realizar a manobra de Heimlich e ligar para serviço de emergência (193) quando o paciente cair inconsciente. Após a sequência, iniciam-se compres- sões torácicas, abdominais e ventilações na tentativa de desobstruir a via aérea. O finger sweep (“dedo em gancho”) não está mais indicado e pode ser preju- dicial (classe III). E o tapa nas costas não está mais contraindicado por relatos de que essa manobra foi efetiva em desobstruir previamente a via aérea. As compressões abdominais em crianças < 1 ano estão contraindicadas, preferindo-se as compressões to- rácicas e o tapa nas costas (back bows); no paciente obeso, a preferência é por compressões torácicas pela maior efetividade. Uma vez que o A (via aérea) esteja garantido com controle de coluna cervical, procede-se para o B (respi- ração). Se as manobras de permeabilização da vias aérea não foram efetivas, deve-se imediatamente garantir via aérea definitiva principalmente no paciente com re- baixamento do nível de consciência (Glasgow < 8). No doente que está falando, sem sinais de rouquidão ou dispneia, é improvável que haja obstrução de vias aére- as. Entretanto, o segredo do ATLS é a reavaliação constante do paciente que é fundamental. Via aérea definitiva: tubo na traqueia com balão insuflado e ventilando adequadamente. A via aérea da criança, por outro lado, exige co- nhecimento adequado das peculiaridades da traqueia infantil, que é mais curta e angulada em relação a do adulto quando a entubação nasotraqueal fica contra indicada em < 12 anos de idade. Figura 2.8 cânulas de Guedel. Figura 2.9 escolha do tamanho da cânula de Guedel consiste em: aproximar o bocal da cânula na rima bucal, verificar se a ponta da mes- ma atinge o ângulo da mandíbula e não ultrapassa o lóbulo da orelha. Exame neurológico isolado não exclui lesão de coluna cervical. Qualquer manobra no paciente com rebaixamen- to do nível de consciência deve ser feita com proteção da coluna cervical. Tal cuidado pode ser feito não só com colar cer- vical, mas na imobilização do doente com 2 soros de 1.000 mL, um de cada lado da cabeça, junto à maca do doente, fazendo a fixação com esparadrapo entre a maca, o doente e os soros fisiológicos. Assim, visa-se minimizar a movimentação antero-posterior da cabe- ça, bem como a latero-lateral da coluna cervical. Deve-se considerar a cinemática e o mecanismo do trauma para suspeição diagnóstica de lesões asso- ciadas. O uso de cinto de segurança pode relacio- nar-se diretamente com lesões de vísceras ocas retroperitoneis (trauma duodenal e explosão de ceco) e fraturas de Chance na coluna lombar, além de trauma a órgãos retroperitoneais como pâncreas, rim e ureter. O uso de air bags relaciona-se às fraturas de face, mas já foram descritos casos de rotura cardía- ca por esse dispositivo. Atenção: no doente com GCS = 15 e, portanto, consciente e não alcoolizado, sem queixas de dor na região cervical, o colar cervical poderá ser retirado Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201518 sem necessidade obrigatória de radiografi a cervical de perfi l C1-T1 (importante visualizar todas as vérte- bras), desde que uma pessoa realize a estabilização da cabeça e a outra faça a palpação da região cervical. É necessário avaliar se existem dor e sensibilidade local. Após, deve ser estimulada a movimentação ativa da cabeça (é o paciente que movimenta a cabeça e não o médico) no sentido antero-posterior e latero-lateral. Uma vez persistindo dor ou a dúvida de lesão de coluna cervical, o raio X de perfi l da coluna cervi- cal C1-T1 perfi l deverá ser feito. Uma vítima de trauma fechado acima da claví- cula deve ser considerada como possível portadora de trauma de coluwna até que se prove o contrário. A proteção da coluna com colar cervical é essencial. Na impossibilidade de intubação, a via aérea ci- rúrgica defi nitiva é mandatória, devendo ser feita de modo rápido e seguro. A escolha na maioria dos trau- mas é a cricotireoidostomia. A traqueostomia deve ser evitada, via de regra, mas existem situações em que seu emprego é necessário na urgência, como nas fraturas de laringe e também em crianças. Em doentes pediátricos, a cricotireoidosto- mia cirúrgica é contraindicação relativa na fai- xa etária abaixo dos 12 anos, pois a cartilagem cricóide constitui o esqueleto de sustentação da laringe, e dessa forma, se houver uma lesão exten- sa dessa cartilagem e da membrana cricotireoidiana, pode ocorrer um grave desabamento de laringe em direção ao mediastino, obstrução da via aérea e óbito. O que pode ser feito, em crianças é a crico- tireoidostomia por punção. Um jelco (Abocath) 16- 18 é colocado na cricóide e adaptado a um tubo T, que é conectado a 15 litros de O2/min. e até tempo máxi- mo de 30-45 min. para evitar hipercarbia, até que pos- sa ser realizada a traqueostomia, como será abordado no capítulo de via aérea. A cricotireoidostomia cirúrgica pode até ser fei- ta, desde que esse procedimento seja realizado por pessoa experiente e que conheça muito bem anatomia e não realize a incisão em local incorreto, o que pode ocasionar danos irreversíveis à via aérea da criança. Cricotireoidostomia por punção não é via aérea defi nitiva! B – Respiração e ventilação Tarefas do B – Máscara de O2 10-12 L/min. (reservatório de oxigênio); – Oxímetro de pulso + capnografi a; – Ausculta do tórax. Resolvido o A, inicia-se o B assegurando-se de que o doente ventila apropriadamente. Afi nal, via aérea pér- via não signifi ca necessariamente ventilação adequada. Todo paciente politraumatizado deve rece- ber O2 em máscara de 10 a 12 litros/minuto.Outra regra fundamental – sempre ofertar oxigênio suple- mentar – por máscara com reservatório de oxigênio. Uma boa ventilação exige funcionamento ade- quado da caixa torácica, funcionalidade adequada dos pulmões, da parede torácica e do diafragma. O paciente deve estar com o tórax exposto para a inspeção. A ausculta deve ser realizada, bem como a percussão para evidenciar a presença de ar/sangue no espaço pleural. Lesões ameaçadoras à vida devem ser reco- nhecidas no exame primário: � obstrução da via aérea; � pneumotórax hipertensivo; � pneumotórax aberto; � contusão pulmonar com tórax instável; � hemotórax maciço; � tamponamento cardíaco. Já as lesões potencialmente ameaçadoras à vida de- verão ser reconhecidas até o fi nal do exame secundário: � pneumotórax simples; � hemotórax; � contusão pulmonar; � lesão traqueobrônquica; � trauma cardíaco fechado; � rotura da aorta; � lesão diafragmática traumática; � ferimento transfi xante de mediastino; � ferimento de esôfago. Armadilhas: identifi car a origem da dispneia do paciente: avalie se o paciente está dispneico por um pro- blema de A (exemplo: obstrução), B (exemplo: pneumo- tórax), C (exemplo: hipovolemia), D (exemplo: TCE), E (exemplo: hipotermia) ou um somatório desses fatores. A diferenciação entre problemas pulmonares e obstrução de vias aéreas pode ser muito difícil. O paciente pode se apresentar profundamente taquipneico e dispneico, le- vando a crer que seu problema mais importante decorra de via aérea inadequada. Há de se lembrar que um pneu- motórax simples pode se tornar hipertensivo naqueles pacientes em ventilação mecânica com pressão positiva. Importante: o diagnóstico de pneumotórax é clínico! As radiografi as imprescindíveis deverão ser feitas na sala de trauma somente após término do exame primário (ABCDE), utilizando-se pre- 2 Atendimento inicial ao politraumatizado 19 ferencialmente de aparelhos portáteis, sem que o paciente seja transportado ou mobilizado des- necessariamente até a sala de radiologia. Lamentavelmente, inúmeros pacientes morrem ao serem transportados para o raio X. C – Circulação com controle da hemorragia Tarefas do C � Compressão de hemorragias; � Verificação dos pulsos; � Monitor cardíaco; � SF 0,9% 2.000 mL IV jelco 14-16 (soro aquecido - 39ºC); � Sangue para laboratório (hemograma, glicemia, β-hCG em mulheres em idade fértil, amilase, eletrólitos, creatinina, ureia, coagulograma); � Tipagem sanguínea; � Gasometria arterial; � Antitetânica; imunoglobulina se necessário. Hipotensão em politraumatizado é devida a choque hipovo- lêmico, até que se prove o contrário! A hemorragia é a principal causa de morte pós- -traumática evitável, após rápido tratamento em ní- vel hospitalar. Portanto, é essencial a rápida e precisa avaliação do estado hemodinâmico desses pacientes, verificando-se: � nível de consciência; � cor da pele; � pulso. 1- Nível de consciência A perfusão cerebral poderá estar prejudicada quando o volume sanguíneo estiver diminuído. Lem- brar que doente consciente também poderá ter perdido quantidade significativa de sangue, pois os mecanismos compensatórios são variáveis de paciente para paciente. 2- Cor da pele A coloração da pele poderá ser importante na avaliação do choque. A coloração acinzentada da face e pele esbranquiçada das extremidades são sinais suges- tivos de hipovolemia. 3- Pulsos Pulsos centrais de fácil acesso deverão ser checa- dos quanto à presença e simetria podendo se estimar a pressão sistólica pela detecção de pulsos: � pulso radial palpável = 80 mmHg; � pulso femoral palpável = 70 mmHg; � pulso carotídeo palpável = 60 mmHg. Pulsos regulares, lentos e cheios indicam normo- volemia desde que o doente não esteja fazendo uso de betabloqueadores. Pulsos filiformes e rápidos são su- gestivos de hipovolemia. Atenção: enchimento capilar > 3 segundos denota má perfu- são periférica. Taquicardia é o primeiro sinal de hipovolemia! Doente com pulso radial presente tem pressão sistólica de pelo menos 80 mmHg. Hemorragias Perdas sanguíneas externas devem ser identi- ficadas e controladas no exame primário. Deverá ser feita compressão manual direta sobre o ferimento. A pressão direta é o método mais rápido e eficaz para controle da hemorragia externa. Figura 2.10 pressão direta da ferida com compressa. Figura 2.11 compressão direta e elevação da área traumatizada. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201520 A tentativa de controle de sangramento com pin- ças hemostáticas, em campo de pouca visibilidade, é causa de iatrogenia, com frequentes lesões de nervos e vasos no local. O uso de torniquete, era contrain- dicado em versões de ATLS anteriores, mas ago- ra, pela experiência dos americanos em guerras com o mundo Árabe, poderá ser utilizado em ca- sos selecionados de amputações traumáticas porque o risco de lesão neurovascular associada ao torniquete é mais teórico do que efetivamente real. Além disso, paciente em choque persistente, de causa obscura, sem evidência de fraturas deve ser in- vestigado: fratura de pelve e lesão de esôfago. Os mecanismos de trauma por ejeção, esmaga- mento ou queda de mais de 3,6 metros são bastante sugestivos de fraturas pélvicas. E a presença de der- rame pleural e dor torácica sem fraturas com pa- ciente persistentemente em choque após trauma fechado fala a favor de lesão do esôfago. Perdas sanguíneas em fraturas Fratura de fêmur: 1.500 mL Fratura de tíbia/fíbula: 750 mL Fratura de úmero: 750 mL Fratura de bacia: 2 litros ou mais! Tabela 2.1 Armadilhas: a resposta às perdas sanguíneas é variável e não ocorre de modo semelhante ou mesmo normal nos pacientes idosos, crianças, atletas e indiví- duos portadores de doenças crônicas. – Idosos: mesmo saudáveis, têm capacidade li- mitada de elevação da frequência cardíaca (FC), devi- do à rigidez miocárdica e retardo eletrofi siológico na condução elétrica cardíaca. Muitas vezes, o primeiro sinal de choque (a taqui- cardia) pode não aparecer precocemente no idoso, so- bretudo quando o paciente usa betabloqueador. Além disso, o débito cardíaco não guarda correlação com a medida de pressão arterial nesse grupo de doentes. Atenção: a medida e reavaliação da pressão de pulso (pressão sistólica – pressão diastólica) é ponto fundamental de correlação com o débito cardíaco em qualquer faixa etária. – Crianças: demonstram poucos sinais de per- da volêmica, mesmo quando são signifi cativas, já que têm reserva fi siológica exuberante. Então, quando aparece a deterioração hemodinâmica, geralmente é muito rápida e catastrófi ca. – Atletas: normalmente são bradicárdicos. Quando fi cam taquicárdicos é porque já houve perda signifi cativa de sangue. O C começa com a compressão direta da hemor- ragia, monitorização cardíaca e reposição volêmica. O acesso venoso é calibroso (Jelco 14-16) em adultos que deverão receber cristalóide (soro fi siológico 0,9%) aquecido a 39ºC. Alternativamente poderá ser feito Ringer Lactato, mas o qual deve ser evitado sobretudo em pacientes com TCE, por trabalhos mostrarem a ne- cessidade de uma solução hipertônica para melhores resultados neurológicos. O ATLS de 2008 ainda men- ciona alternativamente a solução salina hipertônica (“salgadão”) que pode ser empregada temporariamen- te para manutenção cardiovascular com bons resul- tados. Entretanto, há ainda difi culdades na padroni- zação de sua fórmula e, por isso, apesar de poder ser utilizada, vale lembrar que não há ainda diferença de mortalidade na literatura atual. Acesso venoso A preferência é por duas veias periféricas (basíli- ca, cefálica ou safena interna no maléolo) e deverá ser feita a punção em no máximo três tentativas. No in- sucesso, indica-se a dissecção cirúrgica. Por exemplo: a veia safena deverá ser dissecada anteriormente ao maléolo medial; a veia basílica deverá ser dissecada 2 dedos acima do processo estilóide da ulna. Em crianças, após falhana punção, a veia axilar é a via de escolha na dissecção venosa na urgência. Nas crianças menores de 6 anos, pode-se tentar a via medular (intraóssea). Penetrando o platô tibial anterior, com uma agulha curta e grossa a cerca de 1,5 a 2 cm abaixo da epífi se, obtém-se uma boa via para a reposição volêmica, utilizando qualquer tipo de so- lução (cristaloide, coloide, sangue ou derivados) ou medicamento. Na via intraóssea, a administração de líquidos entra na circulação em cerca de 20 segundos. Classifi cação da hemorragia segundo a perda de volume Classe I Classe II Classe III Classe IV Perda de sangue (mL) > 750 750 a 1.500 1.500 a 2.000 > 2.000 Perda de sangue (% volume total) > 15% 15 a 30% 30 a 40% > 40% Pulso (bpm) < 100 > 100 > 120 > 140 Pressão arterial Normal Normal Diminuída Diminuída Pressão de pulso (mmHg) Normal ou aumen- tada Diminuída Diminuída Diminuída 2 Atendimento inicial ao politraumatizado 21 Classificação da hemorragia segundo a perda de volume (cont.) Respiração/minuto 14 a 20 20 a 30 30 a 40 > 35 Diurese (mL/hora) > 30 20 a 30 5 a 15 Desprezível Estado mental Pouco ansioso Moderada ansiedade Ansioso e confuso Confuso e letárgico Reposição (3/1) Cristaloide Cristaloide Cristaloide e sangue Cristaloide e sangue Tabela 2.2 D – Disability (Exame Neurológico Sumário) Tarefas do D – Glasgow; – Pupilas; – Pesquisa de sinais de TCE grave: sinal da bata- lha, sinal do guaxinin, sinal do duplo halo. Aqui, ao invés de exames neurológicos porme- norizados que poderão ser realizados no exame se- cundário, o foco será a detecção precoce do aumento da pressão intracraniana e compressão do III par cra- niano (nervo oculomotor) que resulta em midríase. Veja as tabelas abaixo para a classificação da GCS e da gravidade do trauma cranioencefálico (TCE). O mais importante não é um GCS isolado, mas a reava- liação frequente e seriada de GCS. Abertura ocular Espontânea 4 Estímulo verbal 3 Estímulo doloroso 2 Sem resposta 1 Melhor resposta motora Obedece a comandos 6 Localiza a dor 5 Flexão normal (retirada) 4 Flexão anormal (decorticação) 3 Extensão (descerebração) 2 Sem resposta 1 Resposta verbal Orientado 5 Confuso 4 Palavras inapropriadas 3 Sons incompreensíveis 2 Sem resposta 1 Tabela 2.3 scala de coma de Glasgow = motor + verbal + ocular. Classificação do Trauma Cranioencefálico Classificação GLASGOW Leve 13-15 Moderada 9-12 Grave ≤ 8 Tabela 2.4 E – Exposição do doente e proteção contra a hipotermia Todo paciente traumatizado deve ser totalmente despido, cortando-se as roupas para facilitar o acesso visu- al adequado de lesões e promover exame físico completo. Fluidos intravenosos devem ser aquecidos a 39ºC; cobertores devem ser utilizados e a sala deverá ser aquecida com ar condicionado. A hipotermia agrava a acidose e a coagulopa- tia e constitui a chamada tríade da morte, portanto, a necessidade de todo o paciente politraumatizado ter prevenção desde o atendimento pré-hospitalar. As vítimas de trauma devem ser retiradas da pran- cha longa antes de 2 horas, pois, após esse período, co- meça a ocorrer isquemia dos tecidos sob pressão e isso propicia a formação de escaras (úlceras de pressão). Acidose Coagulopatia Hipotermia Triângulo da MORTE Figura 2.12 atenção! Exames adjuntos ao exame primário e à reanimação � Oxímetro de pulso. � Monitor cardíaco/pressão arterial/frequência respiratória. � Gasometria arterial e laboratório. � Capnógrafo. � Exames radiológicos: raio X cervical perfil (C1- T1), tórax AP e bacia AP), devem ser usados ra- cionalmente, nunca retardando o tratamento de lesões ameaçadoras à vida. � Sondagem nasogástrica e vesical (atentar para as contraindicações). � FAST (Focused Assessment with Sonography for Trauma - ultrassom) e lavado peritoneal diag- nóstico (LPD). Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201522 � A decisão da transferência do doente e os cuida- dos defi nitivos devem ser tomados até o fi nal do exame primário. Exame secundário É o exame pormenorizado que se faz com a rea- valiação do paciente, sendo importante sobretudo no diagnóstico de lesões potencialmente ameaçadoras à vida. Na avaliação secundária, o paciente é exami- nado dos pés à cabeça e dedos e sondas são intro- duzidas nos orifícios naturais em busca de lesões. No exame secundário é a hora de se revisar a his- tória do doente. A mnemônica AMPLA é útil: A – Alergias M – Medicamentos P – Passado médico/prenhez L – Líquidos/sólidos ingeridos pela última vez A – Ambiente e eventos relacionados ao acidente É a hora do exame pormenorizado: � Cabeça: procura por lesões de couro cabeludo, tábua óssea (crânio), região mastóide e base do crânio. Sinais de fratura de base do crânio: Sinal de Battle (Sinal de Batalha); Sinal do Guaxinim (Racoon Eyes), otoliquorragia/otorragia (saída de líquor/sangue pelo ouvido); Sinal do duplo halo é líquor que se mistura com sangue e aparece no lençol do leito do doente sugerindo otoliquorra- gia e ou rinoliquorragia (mancha em alvo). Otoscopia e fundo de olho. Verifi car a presença de hemotímpano, e/ou ruptura do tímpano, otorragia (lesão do andar médio), e/ou perda liquórica que fala a favor de TCE e fratura de base de crânio. � Face: traumas maxilofaciais sem obstrução das vias aéreas ou sangramentos importantes só são tratados após completa estabilização dos doen- tes. Fraturas de terço médio de face podem es- tar associadas a fraturas de placa crivosa, assim a sondagem nasogástrica fi ca contraindicada e deve ser realizada por via oral. � Pescoço: pacientes com trauma craniano e maxilo- facial devem ser considerados como portadores de lesão raquimedular até prova contrária. Ausência de défi cit neurológico não exclui lesão de coluna cervical. Por vezes, as lesões medulares não podem ser avaliadas pelo fato de o paciente encontrar-se comatoso, assim a análise do mecanismo de trauma pode ser a única arma disponível para o médico. � Tórax: lesões torácicas signifi cativas podem manifestar-se por dor, dispneia ou hipóxia. A avaliação inclui a ausculta e o exame radiológi- co. Doentes idosos não toleram lesões torácicas, mesmo relativamente pequenas, entrando rapi- damente em insufi ciência respiratória. � Abdome: o diagnóstico e tratamento das lesões abdominais deve ser rápido e agressivo. Um exa- me inicial normal do abdome não exclui lesões intra-abdominais. Paciente com contusões abdo- minais deve ser observado de perto e com fre- quentes reavaliações. Doentes com hipotensão inexplicada, lesões neurológicas, alterações do sensório devido ao uso de álcool e/ou drogas e com achados abdominais duvidosos devem ser considerados candidatos a uma LPD / FAST. � Genitália/períneo: o períneo deve ser examina- do à procura de contusões, hematomas, lacera- ções e sangramento uretral. Atualmente, o toque retal pode ser realizado antes da introdução da sonda vesical. Nas mulheres, o toque vaginal é parte fundamental do exame secundário, desde que haja risco de lesão vaginal. Faça o toque va- ginal e retal. Nesse último, verifi que a competên- cia do esfíncter (lesão raquimedular), a presença de sangue na ampola, lacerações e fragmentos ou pontas ósseas (fratura de bacia) e presença de crepitação (trauma duodenal). Nos homens, ve- rifi que volume, forma e posição da próstata (na secção uretral, a glândula desloca-se para cima). Verifi car se existem equimose perineal ou locais de contusões (escoriações) e outras lesões (fratu- ras, luxações, perfurações e cortes). � Extremidades/musculoesqueléticas: as extremi- dades devem ser inspecionadas à procura de con- tusões e deformações. Fraturas pélvicas podem ser suspeitadas pela identifi cação de equimoses sobre as asas do ilíaco, púbis, grandes lábios ou saco escrotal. A dor à palpação do anel pélvico é um achado importante no doente consciente. � Sistema nervoso: a avaliação neurológica ade- quada não inclui somente a apreciação sensorial e motora,mas também a reavaliação do nível de consciência (GCS) e do tamanho e da resposta da pupila do doente. Qualquer evidência de perda de sensibilidade, paralisia ou fraqueza sugere lesão grave da coluna ou do sistema nervoso periférico. Exames adjuntos ao exame secundário Uma vez que as lesões ameaçadoras/potencial- mente ameaçadoras à vida foram identifi cadas e tra- tadas no exame primário, exames mais sofi sticados poderão ser feitos para confi rmar a suspeita diagnós- tica existente desde que o doente esteja hemodinami- camente estável. 2 Atendimento inicial ao politraumatizado 23 Todo paciente instável hemodinamicamente, sem resposta à reposição volêmica necessita de cirur- gia para a resolução da hemorragia. Entretanto, uma vez que exista a necessidade de transferência do paciente, é inadmissível que ocorra retardo em função de quaisquer exames, sejam eles quais forem e até mesmo LPD. São adjuntos ao exa- me secundário: � Exames contrastados (arteriografia, uretrocisto- grafia, esofagograma). � TC/Ressonância. � Demais estudos radiológicos sem ser aqueles in- cluídos no exame primário, incluindo os de ex- tremidades. � Endoscopias digestivas/via aérea (fibrobroncos- copia). Cuidados definitivos: realizado o tratamento das lesões ameaçadoras à vida no exame primário, e, em alguns casos, com o resultado de exames mais especiali- zados em mãos, procederemos aos cuidados definitivos. Controle de cena Abordagem primária rápida Abordagem primária completa Comunicação com médico regulador Comunicação com médico regulador Abordagem secundária Sinais vitais e escala de coma e trauma Segurança Mecanismo de trauma Controle cervical Consciência Respiração - sim/não Circulação • pulso • color/umidade • temperatura • enchimento/umidade Grandes lesões/hemorragia A= Vias aéreas/controle cervical B= Respiração-qualidade C= Circulação/controle hemorragia • Pulso • Enchimento capilar • Coloração/umidade D= Nível de consciência/pupila Cabeça Pescoço Tórax Abdome MMII MMSS Dorso 1º passo 2º passo 3º passo 4º passo 5º passo Figura 2.13 atendimento inicial à vitima de trauma. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201524 ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA Capítulo 2 Capítulo 3 Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201526 Introdução Via aérea (VA) é prioridade absoluta no atendimento ao politraumatizado. E a permeabi- lidade da VA não implica necessariamente ventilação adequada. O tórax do paciente deve ser exposto com- pletamente para avaliar a ventilação pulmonar. Além disso, devemos identificar a origem da disfunção res- piratória com diagnóstico diferencial do problema: será que a dispneia é por obstrução da VA, por proble- ma pulmonar ou ainda por má perfusão periférica ou problema neurológico associado? A VA pode ficar comprometida pela queda da lín- gua, no paciente inconsciente, pela presença de cor- pos estranhos, restos alimentares, sangue, hematoma e edema de laringe por trauma direto. Pacientes com TCE, trauma bucomaxilofacial e ou trauma na região cervical são particularmente propensos a apresentar problemas na VA. O diagnóstico de obstrução da VA começa no contato com o doente. A verificação da consciên- cia com as perguntas: “como você está?”, “qual é seu nome?” fornece-nos vários dados importantes. Doen- te que fala e está orientado mostra que a VA está pérvia e existe boa oxigenação cerebral. A agitação do paciente sugere hipóxia; já sonolência levanta suspeita de hipercapnia. Res- piração ruidosa, com roncos ou estridor, leva-nos a pensar em obstrução de faringe. Presença de disfonia sugere obstrução de laringe. As manobras de permeabilização da VA depende da causa da obstrução. Se o problema é a queda da lín- gua, a tração do mento e elevação da mandíbula (jaw- -thrust) ou a simples elevação do mento (Chin-lift) re- solvem. Deve ser usado aspirador rígido para aspirar secreções e corpos estranhos. Sondas flexíveis devem ser evitadas. Independentemente da manobra a ser realizada, há de se ter cuidado com a coluna cervical. Via de re- gra, o colar cervical deverá estar posicionado de modo adequado. Ele poderá ser mobilizado desde que um so- corrista fixe a cabeça, enquanto o médico responsável examina a região cervical e coloca o colar. Todo paciente politraumatizado deverá re- ceber suplementação com oxigênio (10-12 litros/ minuto) em máscara. O oxímetro de pulso deverá ser também aco- plado. Esse aparelho oferece informações sobre a saturação de O2, mas não garante que a ventila- ção esteja adequada. Via aérea temporária Para obtenção da via aérea temporária, po- demos utilizar: (a) ventilação com sistema balão-vál- vula-máscara (AMBU) acoplado a reservatório de O2; (b) cânula orofaríngeo (Guedel); (c) cânula nasofarín- gea; (d) máscara laríngea (intubação difícil); (e) tubo laríngeo (intubação difícil); (f) introdutor do tubo traqueal Eschmann (intubação difícil); (g) Combitube (tubo duplo lúmen, intubação difícil); (h) cricotireoi- dostomia por punção. Existem critérios padronizados para a obtenção da VA definitiva. A VA temporária não substitui VA definitiva, mas ela é importante até planejamento da VA definitiva a fim de garantir oxigenação adequada. Sistema balão-válvula-máscara (AMBU) acoplado a reservatório de O 2 O AMBU é um sistema de válvula unidirecio- nal que deve ser acoplado ao reservatório de O2 para maximizar a oferta de oxigenação adequada. Ele tem uma máscara transparente que permite visualização caso ocorra regurgitação. O balão adulto tem 1-2 litros e deve permitir ofertar volume corrente de 600 mL , o suficiente para a expansão do tórax e preservação normocarbia. A ventilação deve durar 1 segundo e o fluxo conectado é 10-12 L/min. No caso de ventilação durante reanimação cardiopulmonar (RCP), devem ser feitas 30 compressões para duas ventilações, o que equivale a uma ventilação a cada 6-8 segundos (não precisa mais ser sincronizado com as compressões e vai resultar 8-10 por minuto), mantendo-se frequên- cia de compressões torácicas de 100 por minuto. Vale lembrar também que a ventilação não invasiva (BI- PAP) no paciente consciente pode dar suporte tempo- rário até melhor planejamento da VA definitiva. Cânulas oro e nasofaríngeas Somente devem ser introduzidas em pacientes inconscientes porque provocam reflexo de vômito. E se o doente tolera uma cânula de Guedel, então é porque ele precisa mesmo de VA definitiva. O Guedel deverá ser introduzido e rodado 180º para a correta in- serção, voltando-se à concavidade para baixo. Momen- taneamente, evita a queda da língua na orofaringe. A cânula nasofaríngea é introduzido pelo nariz e introduzido para a orofaringe posterior. Máscara Laríngea (ML) Quando a ventilação com AMBU e a entubação orotraqueal falham durante VA difícil, a ML é proposta atraente naquele socorrista treinado com esse tipo de VA temporária. É colocado sem visualização da glote. 3 Via aérea e ventilação 27 Figura 3.1 máscara laríngea. Tubo laríngeo É dispositivo de VA extraglótica semelhante a ML usado em casos de VA difícil. Também é colocado sem visualização da glote e seu posicionamento não exige hiperextensão da VA. Figura 3.2 tubo laríngeo. Guia de introdutor de intubação (Eschmann) Nada mais é do que um fi o guia para entubação. O socorrista vai entubar e não enxerga as cordas vo- cais. Daí ele coloca o fi o guia de Eschman que tem uma dobra de 3,5 cm angulada em 40º. A posição traqueal é diagnosticada porque ocorre atrito entre a ponta do introdutor e os anéis cartilaginosos da traqueia em até 90% das vezes. Quando se sente a rotação do guia é porque o introdutor cruzou a carina e daí o tubo deve ser tracionado um pouco para cima. Imediatamente depois da intubação, o Eschmann é retirado e o tubo endotraqueal é conectado ao respirador. Figura 3.3 Eschmann. Combitube (tubo de duplo lúmen) O combitube é usado por muitas equipes no pré- -hospitalarnos EUA quando a VA defi nitiva não é vi- ável. Trata-se de um tubo de duas vias e com dois ba- lões na ponta. Uma via comunica-se com o esôfago e a outra com a traqueia. Os balões são insufl ados, com a ajuda de um capnógrafo, o socorrista identifi ca qual via está na traqueia e imediatamente a ventila. Então, o paciente quando chega ao hospital tem o combitube substituído por VA defi nitiva. Figura 3.4 Combitube. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201528 Cricotireoidostomia por punção É de fácil e rápida realização. A punção é reali- zada com jelco calibroso (14-16 no adulto e 16-18 na criança) na membrana cricotireoideana, usando-se inicialmente de seringa (pressão negativa) até entrada na laringe em 45º. Em seguida, deve ser conectado um tubo em T, para permitir a oclusão manual de 1 se- gundo, liberando por 4 segundos. Esse método oferece ventilação adequada por 30-45 minutos (depois come- ça a haver hipercapneia). Após esse período, deve-se proceder à VA definitiva (exemplo: traqueostomia). Precisa ser conectado também o oxigênio a 15 L/min. Na suspeita de obstrução de VA por corpo estranho, o O2 deve ser colocado em doses menores (5-7 litros/ min.). Note que a cricotireoidostomia cirúrgica não pode ser feita em crianças <12 anos, mas a crico por punção pode. Figura 3.5 cricotireoidostomia por punção: jelco 14-16 em adultos, sendo 16-18 em crianças. É conectada uma seringa e faz-se pressão ne- gativa até aspiração de ar, indicando-se a entrada da traqueia. É conec- tado O2 a 15 L/min., a não ser que haja obstrução, quando a pressão de O2 deverá ser mais baixa. Conecta-se à extensão em Y e se faz a oclusão de 1 s para 4 s sem oclusão. Complicações da cricotireoidostomia por punção 1- Ventilação inadequada – hipóxia e morte; 2- Aspiração; 3- Laceração esofágica; 4- Hematoma; 5- Perfuração posterior da traqueia; 6- Enfisema; 7- Perfuração da tireoide. Via aérea definitiva VA definitiva é tubo na traqueia com cuff inflado ventilando adequadamente. Existem três tipos de VA definitiva: - Intubação orotraqueal; - Intubação nasotraqueal; - VA cirúrgica (cricotireoidostomia cirúrgica e traqueostomia). A preferência é a IOT, mas tanto a endotraqueal como nasotraqueal são efetivas. Após cada tentativa de entubação deve ser feita ventilação com AMBU com duas pessoas até que a SaO2 esteja adequada. Na im- possibilidade de entubação em três tentativas, pode- -se proceder a VA temporária ou VA cirúrgica. A decisão de instalar a VA aérea definitiva é baseada em achados clínicos e fundamenta-se em: GCS < 8; Presença de apneia; Proteção da VA contra a aspiração de sangue, vô- mitos incoercíveis; Tratamento da VA comprometida, com lesão iminente ou potencial da VA, em queimaduras inala- tórias, fraturas faciais sangrantes, hematoma retrofa- ríngeo ou convul sões persistentes; Impossibilidade de manter a via aérea permeá- vel por outros métodos e saturação de O2 em queda progressiva; Critérios para a intubação endotraqueal (IOT): – PaO2 < 60 mmHg; – PaCO2 > 50 mmHg; – SaO2 < 88-90% (cuidado com paciente DPOC); – FC > 120 e FR > 35; – PaO2/FiO2 < 300 (lesão pulmonar aguda). 3 Via aérea e ventilação 29 Dica: esses critérios são importantes não só para a prova de residência médica mas para a vida como médico porque uma das piores situa- ções que pode acontecer é não entender a urgên- cia que existe no paciente que entra progressiva- mente em fadiga respiratória. Portanto, busque por esses sinais em todos os pacientes na urgên- cia, não somente no trauma. A gasometria arterial é fundamental para ava- liar adequadamente a ventilação após obtenção de VA definitiva. Intubação orotraqueal (IOT) A IOT é usada com maior frequência. A compres- são da cricóide (manobra de Sellik) é útil para melhor visualização das cordas vocais e prevenção de vômitos. A preferência é a IOT com duas pessoas (“manobra a 4 mãos”) onde um socorrista irá estabilizar a coluna cer- vical (posicionando-se à direita) e o outro procederá à IOT (posicionando-se à esquerda). De início, o doente deve ser pré-oxigenado e ventilado adequadamente. O material de aspiração deve estar em mãos em caso de vômitos. Da mesma maneira, todos os dispositivos de- verão ser checados e estarem funcionantes sobretudo as pilhas das luzes de laringoscópios. O laringoscópio deve ser usado com a mão es- querda, entrando na orofaringe com movimento de deslocar a língua da direita para a esquerda em movi- mento de levantar a traquéia na valécula da glote até visualização das cordas vocais (laringoscópio curvo) evitando-se o movimento de báscula que pode causar trauma dentário. O tubo para ser introduzido no paciente politraumatizado é o maior possível no adulto para minimizar a resistência na VA. O ATLS indica 8,5 para mulheres e 9 para homens. Após isso, introduz-se o tubo endotraqueal (TET) sem lesar estruturas. Na criança, o tubo adequado é aquele do tamanho do 5º dedo da mão da criança. O AMBU deve ser conectado e o paciente ventilado até a chegada do ventilador apropriado. Após IOT, deve-se proceder à checagem primária (ausculta pulmonar – ápices e bases – e ausculta epi- gástrica) e secundária (detector de dióxido de carbo- no). A detecção de níveis muito baixos de CO2 sugere entubação esofágica. Da mesma maneira, a presença de CO2 sugere IOT, mas não diferencia se a entubação fi cou seletiva no brônquio direito porque é mais ver- ticalizado, no qual a ausculta pulmonar torna-se ex- tremamente importante na verifi cação de som claro pulmonar bilateralmente, bem como o raio X de tórax. Dispositivos de auxílio na IOT são o monitor de CO2 (capnógrafo) e o oxímetro de pulso. O ATLS indica que o uso da capnografi a (medida contínua) é preferível e mais efetivo que a capnometria (medida isolada). O raio X de tórax é importante para inspecionar a presença de líquido ou ar no espaço pleural, atelec- tasia, expansão de tórax adequada, avaliação de deslo- camento do TET e intubação seletiva. Entretanto, ele não exclui a intubação esofágica. Predizendo a VA difícil Fatores externos: suspeita de lesão de coluna cervical, artrite cervical avançada, trauma mandibular e maxilofacial grave, limitação da abertura da boca e variações anatômicas como micrognatia, prognatis- mo, pescoço curto são desafi os que caracterizam a VA difícil. O ATLS 2008 traz a mnemônica LEMON para lembrete do potencial de difi culdade da VA. LEMON – Look: observe externamente. – Examine a regra 3-3-2*. – Mallampati: paciente sentado deve abrir a boca para avaliar o grau de visuabilidade da hipofaringe com o auxílio de uma lanterna. – Obstrução (epiglotites, abscessos e trauma). – Neck (mobilidade do pescoço): normalmente é avaliado pedindo-se ao doente para fl etir o queixo até o peito e hiperextender o pescoço olhando ao teto. É claro que o paciente politraumatizado com colar cervical não deve fazer isso e é classifi cado com VA difícil. *Na regra 3-3-2 há de se considerar se cabe a distância de: � 3 dedos dentro da boca em baixo dos incisivos superiores e inferiores; � 3 dedos abaixo da mandíbula até o osso hioide; � 2 dedos acima da protuberância laríngea. Caso não haja espaço sufi ciente colocados na re- gra 3-3-2, então se trata de VA difícil. Além disso, o uso de drogas sedativas, anestésicas e bloqueadores neuromusculares (curare) facilitam a entubação e ma- nutenção da IOT de modo confortável. Observe a fi gu- ra abaixo demonstrando a correta IOT somente após a visualização das cordas vocais. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201530 Classe I: palato mole, úvula, fauces e pilares visíveis Classe II: palato mole, úvula e fauces visíveis Classe III: palato mole e base da úvula visível Classe IV: apenas o palato duro visível Figura 3.6 classificação de Mallampati, utilizada para visualizar a hipofaringe. Figura 3.7 Intubação orotraqueal: necessariamente precisamos visualizar a glote e as cordas vocais.Caso contrário, não entube! Se o fizer, a sonda segue para o esôfago. Complicações da IOT 1. Intubação esofágica com hipóxia e morte. 2. Intubação seletiva (atelectasia). 3. Impossibilidade de intubação. 4. Indução ao vômito (aspiração, hipóxia, morte). 5. Trauma com hemorragia e aspiração. 6. Trauma dos alvéolos dentários (corpo estranho). 7. Perfuração do cuff (balão). 8. Fratura instável com déficit neurológico à mo- bilização da VA. Intubação nasotraqueal (INT) Antes de saber suas indicações é prudente ter ciên- cia das contraindicações. São contraindicações da INT: � Apneia; � Suspeita de fratura de 1/3 médio da face e fratura de base de crânio; � Criança < 12 anos (traqueia curta e angulada). Figura 3.8 Intubação nasotraqueal: ouvir as respirações para acer- tar a intubação; logo, não há como intubar com apneia. Além das mesmas complicações da IOT, a INT tem risco de lesão cerebral (caso haja fratura da lâ- mina crivosa), sinusites crônicas e maior incidência de pneumonias em um momento mais tardio. A INT tem como inconveniência a necessidade de um tubo muito pequeno como 6,5 que aumenta muito a re- sistência na VA. Entretanto, em uma urgência com um paciente com VA difícil, a INT pode ser alterna- tiva à IOT. No edema de glote, fratura de laringe ou intenso sangramento orofaríngeo, a intubação é por vezes difícil, quer por IOT quer por INT. Assim, a VA definitiva cirúrgica (cricotireoidostomia) está indica- da. A traqueostomia não é rotina na emergência e deve ser evitada no atendimento do politrau- matizado, com exceção dos casos de fratura de laringe e crianças < 12 anos. A traqueostomia é mais demorada, de difícil execução e leva muitas vezes a sangramento de di- fícil controle. Cricotireoidostomia cirúrgica Paciente em que não se conseguiu uma via aérea definitiva por intubação são candidatos a uma via aé- rea cirúrgica. No caso do trauma, a preferência recai sobre a cricotireoidostomia (exceto em crianças me- nores de doze anos, pois é contraindicada uma vez que a cartilagem é o único suporte circunfe- rencial para a parte superior da traqueia), a não ser em casos de fraturas de laringe, nos quais se deve realizar a traqueostomia de urgência. 3 Via aérea e ventilação 31 Figura 3.9 Cricotireoidostomia cirúrgica: é feito um corte com lâmina de bisturi na membrana cricotireoidea, vira-se o cabo do bisturi a 90º e, se o doente estiver ventilando, o ar já pode sair por ali. Feita corretamente, é rápida e não há sangramento. Após antissepsia e anestesia (doente conscien- te), estabiliza-se a traqueia com uma das mãos e faz- -se uma incisão sobre a membrana cricotireoideana; ao virar o cabo do bisturi e girando-o a 90º no local da incisão, o doente consegue respirar. Depois de se colocar a cânula de traqueostomia #5 ou #6, infl a-se o balonete e ventila-se o doente. Na ausência de cânu- la de traqueostomia, pode-se proceder à colocação do próprio tubo endotraqueal. Complicações da cricotireoidostomia cirúrgica 1. Aspiração; 2. Falso trajeto; 3. Estenose/edema glótico; 4. Estenose laríngea; 5. Formação de hematoma/hemorragia; 6. Laceração da traqueia/esôfago; 7. Enfi sema subcutâneo/mediastinal; 8. Paralisia das cordas vocais/rouquidão. Outros dispositivos auxiliares da via aérea Oximetria de pulso É dispositivo que mede a saturação de oxigênio e a frequência cardíaca por meio de sensores: diodo emissor de luz e fotodiodo receptor de luz. A luz emi- tida é absorvida em maior ou menor grau pela hemo- globina oxigenada em nível diferente da hemoglobina não oxigenada. Leitura prejudicada pela oximetria de pulso Má perfusão periférica, hipotensão, aparelho de pressão acima do local da medida, hipotermia (< 30ºC), anemia grave (< 5 g/dL), carboxiemoglobina, metemoglobinemia, esmalte e ambiente muito ilu- minado provocam uma leitura inadequada da oxi- metria de pulso. A relação entre saturação de oxi- gênio e curva de pressão parcial de oxigênio não é linear. Observe o quadro abaixo: PaO2 SatO2 90 mmHg 100% 60 mmHg 90% 30 mmHg 60% 27 mmHg 50% Tabela 3.1 relação entre saturação e pressão parcial de O2. Além disso, existem variáveis que infl uenciam na curva de dissociação da hemoglobina. 100 80 60 40 20 20 40 60 PaO2 (mmHg) pH pH Sa tu ra çã o O 2 (% ) 80 100 Figura 3.10 saturação de O2 x PaO2 – Desvio para a direita (hemácias liberam oxigênio aos tecidos): ↓ pH; ↑ temperatura; ↑ PaCO2; ↑ 2,3 DPG (produto da glicólise). A hemoglobina fetal é ávida por oxigênio e, se presente, pode deslocar a curva da hemoglobina para a esquerda (hemácias captam o oxigênio). Monitor de CO 2 (capnógrafo) Detecta a presença de CO2. Sob níveis baixos de CO2, o monitor mostra coloração roxa; já em níveis altos, a coloração é amarelada, o que sugere intubação correta. Deve-se esperar ao menos seis ventilações para ver a co- loração fi nal. O monitor de CO2 não permite diagnosticar intubação seletiva. Da mesma maneira, doente com dis- tensão gástrica pode mostrar altos níveis de CO2. Intubação de sequência rápida (RSI) Deve ser empregada quando a via aérea defi - nitiva é premissa e o doente está acordado e não in- consciente. Pelo risco de vômito, por necessidade de proteção ou mesmo de tratamento de VA acometida, podemos proceder à RSI: Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201532 1. Pré-oxigenar o paciente a 100%; 2. Deve ser feita pressão na cricóide (manobra de Sellick). 3. Pode ser administrado Dormonid® (midazo- lan) 0,1 mg/kg ou Diazepan® para diminuir a ansie- dade do paciente (flumazenil deve estar em mãos em caso de superdosagem); 4. Succinilcolina 1 a 2 mg/kg (Quelecin®); Ou seja, na urgência, em um doente de 70 kg, a succinilcolina deve ser diluída para 10 mL, aplicando- -se 7 mL (1 mL = 10 mg). A succinilcolina é bloqueador neuromuscular (curare) de curta duração, cujo efeito começa em me- nos de um minuto e dura por cinco minutos. A pior complicação é não conseguir intubar. Por isso, deve-se ter em mãos material pronto para a crico- tireoidostomia cirúrgica caso seja necessária. Lembrar que a succinilcolina causa fasciculações que antecedem o bloqueio muscular. Logo, devemos evitar seu uso quando existem grandes esmagamentos ou lesões musculares (queimadura elétrica), devido ao risco de uma liberação excessiva de mioglobina na cir- culação, que é extremamente tóxica ao rim. 5. Proceder intubação orotraqueal. A urgência deve justificar o risco! Contraindicações da RSI 1. Insuficiência renal crônica (risco de hiperpo- tassemia – succinilcolina). 2. Paralisia crônica. 3. Doença neuromuscular. O tiopental não deve ser usado em hipovolemia. A RSI em crianças deve ser precedida de atropina 0,1- 0,5 mg para evitar bradicardia. < 12 anos de idade? Lesão da laringe? Suspeitar de lesão da coluna cervical Indução por sequência rápida Continuar Reanimação Intubação orotraqueal Via aérea permeável? Respiração inadequada? GCS < 8? Medidas adicionais para via aérea Traqueostomia Cricotireoidotomia Sim Sim Sim Não Bem-sucedido? Sim Não Não Lesão maxilofacial grave? Sim Não Figura 3.11 Algoritmo para tratamento da via aérea no paciente com trauma. Existe um papel estabelecido da máscara laringea (ML) no tra- tamento dos doentes com via aérea difícil. Particularmente, quando a intubação endotraqueal e a ventilação com máscara falharem. ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA Capítulo 2 Capítulo 4 Introdução O pescoço abriga a maior quantidade de elementos nobres anatômicos em um pequeno espaço: traquéia, ca- rótidas, jugulares, artéria vertebral, vasos subclávios, esôfago, tireóide, paratireóide, medula cervical e parótidas. Do ponto de vista anatômico dividimos o pescoço em zonas (I, II e III) e trígonos (anterior e posterior), conforme a figura abaixo. Trígono anterior Zona III Zona II Zona ITrígono posterior Figura 4.1 Divisão anatômica do pescoço. A: triângulo anatômicos do pescoço. Os triângulos anatômicos anteriore posterior do pescoço são defi- nidos pelo músculo esternocleidomastoideo. As estruturas vasculares e aerodigestórias mais importantes no pescoço estão contidas no triângulo an- terior. Os ferimentos envolvendo apenas o triângulo posterior têm uma baixa probabilidade de necessitar de intervenção cirúrgica urgente. B: zonas do pescoço. O limite entre a zona I e a zona II está no nível da cartilagem cricoide. O limite entre a zona II e a zona III está no ângulo da mandíbula. Essas zonas são principalmente úteis no tratamento das lesões nos triângulos anteriores do pescoço. O músculo platisma na fáscia superficial do pes- coço é o ponto anatômico que classifica a profundi- dade das lesões do pescoço e diferencia o ferimento superficial do penetrante. Zona I: vai desde a clavícula na base do pesco- ço (incluindo a transição cervicotorácica), na fúrcula esternal, até a cartilagem cricóide (C6). Ali localizam- -se: artéria vertebral e carótida proximais, pulmões, traquéia, tireóide, esôfago, medula espinhal e laringe, além de outros vasos torácicos. Os ferimentos des- sa região são de grande poder letal, basicamente por lesão estruturas vasculares (artéria inomina- da e vasos subclávios) e também pela possibilidade de lesões torácicas associadas. É o segundo local mais comum dos ferimentos (5 a 31%). Zona II: vai desde a cartilagem cricoide (C6) até o ângulo da mandíbula. Ali localizam-se a veia jugular superficial e profunda, artérias carótidas comuns, tra- quéia, esôfago, medula espinhal e laringe, nervo frêni- co. Ferimentos penetrantes nessa região têm menor letalidade e melhor controle cirúrgico. Este é o local mais comum dos ferimentos (47 a 82%). Zona III: vai do ângulo da mandíbula até a base do crânio. Nessa área localizam-se a faringe, artéria vertebral e a parte distal da carótida interna e externa. É látero posterior. É região de alto risco e de difícil acesso cirúrgico, principalmente nas lesões de carótida interna. Racional do trauma cervical Nas lesões penetrantes, as lesões vasculares são as mais comuns (artéria carótida pode ser lesada até 80% das vezes por trauma penetrante), seguindo-se de lesões neurológicas e lesão do trato aerodigestório. O trauma cervical pode acontecer após trauma penetrante ou fechado no pescoço, e o paciente pode estar estável ou em choque. Existem três grupos de pacientes: I- Com risco de morte imediato. Esses pacien- tes estão em choque, com sangramentos profusos ou com hematoma contido com aumento progressivo da circunferência do pescoço. A lesão das carótidas é exan- guinante e o hematoma progressivo também pode levar à compressão da VA. Lesões de laringe podem levar a rouquidão, estridor e enfisema subcutâneo. Garantir a permeabilidade da VA é essencial. Lesões completas medulares altas (particularmente em nível de C4) le- vam à denervação frênica com consequente denervação diafragmática e o paciente entra em apneia pela ausên- cia da movimentação diafragmática. Os critérios para indicar a cirurgia imediata são bem estabelecidos: � hemorragia externa profusa; � instabilidade hemodinâmica, não responsiva à reposição volêmica; Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201534 � hematoma expansivo; � obstrução de vias aéreas; � piora dos sinais neurológicos; � enfi sema de subcutâneo rapidamente progressivo; � saída de saliva pela lesão. II- Sintomático mas sem risco de morte ime- diata. Esses pacientes são estáveis do ponto de vis- ta cardiocirculatório e tem VA pérvia, mas possuem hematoma cervical e dúvida da existência de lesão cervical. Isso porque o achado de hematoma cervical levanta a suspeita, mas não é patognomônico de lesão vascular. Outros sinais de trauma vascular são: a diminuição de pulsos carotídeos e do membro supe- rior, frêmitos, sopros na região cervical e perda da consciência. A lesão nervosa pode fi car sugerida por alterações de sensibilidade e motricidade, implicando na avaliação de lesão medular e do plexo braquial (per- da de força no membro superior). E vale lembrar também que as lesões de faringe e esôfago são traiçoeiras. Apresenta sintomatologia escassa (disfagia, hematêmese, enfi sema subcutâneo, hematoma cervical) e, se for inadvertidamente libe- rada a dieta a esses pacientes, ocorre mediastinite e choque séptico progressivo. III- Assintomáticos. Há apenas a presença do ferimento, mas na ausência de sintomas. Aqui en- quadram-se os pacientes com ferimentos de artéria carótida por trauma fechado que leva a grave lesões neurológicas mesmo dias depois do trauma. O exame clínico não é confi ável e a experiência do cirur- gião será importante no manejo desses ferimen- tos. Há de se saber os critérios para provável trauma vascular após trauma fechado: � Mecanismo do trauma de grande hiperextensão- -rotação (mais comum); � Contusão direta do pescoço; � Trauma intraoral; presença de fraturas do terço médio da face e mandíbula; associação muitas vezes com fraturas de cervical; � Fratura de base de crânio. TCE com lesão axonal difusa; fratura de esfenóide ou porção petrosa do osso temporal; � Sinal do cinto de segurança no pescoço. Esses traumas fechados podem resultar em dis- secção, trombose e formação de pseudoaneurisma, fístula carotídea-corpo cavernoso ou ainda rotura ar- terial completa (fatal). A síndrome de Horner (ptose, miose e anidrose) pode também aparecer em lesão as- sociada à trauma de carótida interna (ACI). Mais de 90% das lesões vasculares por trauma fechado aco- metem a artéria carótida interna na sua porção distal, sendo difícil de ser avaliado por Doppler. O raio X cervical perfi l (C1-T1), tórax PA, a endos- copia aerodigestiva e a ultrassonografi a arteriovenosa (ultrassom doppler colorido) poderão ser de grande valia na avaliação do trauma cervical. Atualmente, a angiotomografi a de cortes fi nos (multislice) vem subs- tituindo a arteriografi a e aumenta o diagnóstico de trauma cervical com diminuição do impacto signifi ca- tivo das lesões neurológicas que ocorriam em 50% dos casos da região cervical e transição cervicotorácica. Pacientes com trauma cervical instáveis he- modinamicamente tem de ir à cervicotomia com ou sem toracotomia (e mais raramente à esternotomia), dependendo da zona lesada. Já os pacientes estáveis poderão fazer os exames necessários para depois re- alizar a abordagem cirúrgica guiada pelos exames. Os pacientes com sinais clínicos evidentes de lesão vascular ou no trato aerodigestório requerem exploração cirúrgica do pes coço por cervicotomia na borda interna do esternocleidomastoideo desde a zona I até a zona III (descritas abaixo), fazendo-se a secção do músculo omo- -hioídeo. Esses sinais clínicos incluem hemorragia ex- terna signifi cativa, hematoma grande ou em expansão, saída de ar pelo ferimento com a respiração, fístula com presença de saliva na região cervical, crepitação no pesco- ço, alterações da voz, disfagia e odinofagia. Zonas do pescoço Zona I (zona da arteriografi a): o paciente com ferimento de zona I estável deverá ir à arteriografi a. Acesso cirúrgico: caso esteja instável hemo- dinamicamente, uma das melhores abordagens aos vasos subclávios é a retirada da clavícula e contenção direta do sangramento podendo associar-se com tora- cotomia anterolateral (4º ou 5º EIC) se necessário. Zona II (zona das endoscopias – EDA e bron- coscopia): pacientes com lesões penetrantes na zona II que eram todos de conduta obrigatoriamente ci- rúrgica na II Guerra Mundial, hoje têm abordagem mais seletiva, guiando-se conforme o resultado dos exames, sobretudo EDA e broncoscopia nessa região. Entretanto, a conduta obrigatória na exploração de ferimentos de Zona II deverá ser empregada na au- sência de equipamento diagnóstico necessário. Além disso, lesões transfi xantes por FAF de zona II têm alta probabilidade de lesão signifi cativa e ainda têm indicação de cervicotomia de urgência sem necessidade de maiores exames diagnósticos. O Doppler deregião cervical pode ser exame ini- cial em pacientes estáveis. A arteriografi a que era o padrão-ouro no diagnóstico de lesões vasculares vem sendo substituída progressivamente pela angiotomo- grafi a helicoidal, mas ainda é importante nos casos terapêuticos com colocação de stent. 4 Trauma cervical 35 Além disso, a angiotomografia tem papel impor- tante no diagnóstico de trauma de laringe, lesões ós- seas e do sistema nervoso. Em lesões medulares, a res- sonância magnética também é importante (exceto se houver projétil metálico, pois aí está contraindicada). A avalia ção do trato aerodigestório pode ser feita no pré-operatório e no momento da exploração cirúr- gica no intraoperatório. Os ferimentos cervicais que não necessitam de ex ploração operatória imediata po- dem precisar de avaliação aerodigestória com tomo- grafia computadorizada, fibrobroncoscopia, endosco- pia alta ou esofagografia para excluir-se uma lesão. Acesso cirúrgico: incisão na borda interna do esternocleidomastoideo desde a zona I até a III se ne- cessário. E se houver ferimento de zona I concomitan- te à incisão oblíqua poderá ser estendida ao tórax para a região supraclavicular ou para o esterno (esternoto- mia). Vale lembrar também que a incisão mais usada no trauma é a toracotomia anterolateral e não a ester- notomia. Reserva-se a esternotomia para ferimentos de subclávia na sua emergência junto à primeira cos- tela, bem como lesões de tronco braquioencefálico e veias jugulares de zona I (geralmente protegidos pela incisura jugular do esterno). Zona III (zona da arteriografia e de desarticu- lação mandibular): como é uma área de difícil acesso, se o paciente estiver estável, a arteriografia é boa opção para manejo diagnóstico e terapêutico. Na instabilidade, procedimentos mais complexos como a desarticulação da mandíbula e a divisão da parte posterior carnosa do músculo digástrico poderá ser necessária e então con- segue-se o controle vascular da artéria carótida interna junto à base do crânio no forame carotídeo, além de me- lhor acesso a ferimentos de transição da zona II e III. Conduta: atualmente, lesões altas da artéria ca- rótida interna em pacientes estáveis e assintomáticos são tratadas com tratamento conservador com anti- coagulação. Isso porque a maior parte das sequelas desses pacientes é neurológica e decorre de trombose aguda, propagação de trombo ou embolização distal, em virtude do trauma, que facilita a tríade de Virchow (estase venosa, lesão da parede vascular e hipercoagu- labilidade). Assim, a tendência no momento é trata- mento não operatório para dissecções e tromboses. Tratamento cirúrgico e conservador As prioridades do ATLS deverão ser sempre con- sideradas. A maior parte dos pacientes não irá ser ope- rado porque a conduta seletiva com sistematização diagnóstica é a regra em pacientes do grupo III assin- tomáticos. A cirurgia será realizada naqueles pa- cientes com ferimentos penetrantes (platisma) que estejam sintomáticos (grupo II) ou que apre- sentem lesões com risco de vida (grupo I). A preocupação volta-se para a restauração de ar- térias e restauração precoce de faringe, esôfago, larin- ge e traqueia. Ferimentos no trato aerodigestório: � Boca: operar/observar; � Orofaringe/rinofaringe: observar; � Hipofaringe/esôfago: operar (SNE); � Laringe: reparo + traqueostomia; � Traquéia: reparo + traqueostomia; � Tireoide: sutura hemostática/ressecção. As lesões traqueais devem ser desbridadas e fecha- das primariamente. Nas lacerações simples da traquéia, frequentemente recomenda-se sutura direta com fio não absorvível. Quando há perda de uma porção maior da traqueia, pode haver a necessidade de uma traqueos- tomia ou de complexos procedimentos reconstrutivos. Já as lesões da faringe são tratadas com sutura das lacerações da mucosa e redução das fraturas cartilaginosas. Nas lesões do esôfago, se o diagnóstico foi feito no período de até 24 horas, o reparo pri- mário pode ser praticável, caso contrário após esse período a esofagostomia proximal com drenagem (je- junostomia ou gastrostomia para a alimentação) é a melhor alternativa. Vale lembrar que a maior parte dos casos não será operado e em especial ferimentos de: � parede posterior de rinofaringe e orofaringe; � pequenos hematomas de laringe; � medula e cérebro concomitantes ao trauma cervical. Tratamento endovascular No trauma vascular cada vez mais vem sendo em- pregado o uso de próteses (stents). Nesse caso, a arterio- grafia não só é diagnóstica mas também é terapêutica. Tal abordagem é especial nas lesões de zona I e zona III em que o acesso cirúrgico padrão é bem difícil. Cuidados na UTI Pacientes vítimas de trauma de carótida de- vem ficar anticoagulados no pós-operatório. O exame físico e a reavaliação do paciente é importante sobretudo na avaliação dos pulsos e déficit neurológico motor ou sensitivo. Realiza-se a heparinização ple- na e depois o paciente é mantido com anticoagula- ção oral (variaria ou equivalente) por 3-6 meses. A anticoagulação precoce com heparinização plena em pacien- tes estáveis é a forma principal de tratamento de complicações de lesões vasculares não operatórias no trauma fechado. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201536 Complicações do trauma cervical Desconsiderando-se as complicações decorren- tes do trauma agudo e procedimentos no atendimento primário, uma das maiores preocupações no pós-trau- ma imediato é a mediastinite que pode se desenvolver após trauma de esôfago e faringe, porque essas lesões muitas vezes possuem sintomatologia escassa. A maior preocupação, a curto prazo, são as lesões vasculares e neurológicas (decorrentes das lesões vas- culares, sobretudo em artéria carótida interna). Daí a importância da anticoagulação no pós-operatório de pacientes com trauma vascular fechado até a decisão de se intervir cirurgicamente ou não. As dissecções e tromboses têm geralmente tratamento não operató- rio, enquanto que pseudoaneurismas têm tratamento endovascular ou cirúrgico (mas logo após o diagnósti- co o paciente já deverá ser anticoagulado até realiza- ção de cirurgia o mais breve). Por outro lado, pacientes vítimas de trauma penetrante da ACI devem ser abor- dados cirurgicamente naquelas lesões de fácil acesso, reservando-se o tratamento conservador com antico- agulação para tromboses e dissecções. Indicações clínicas à exploração do pescoço Vascular Hematoma expansivo Hemorragia externa Pulso carotídeo diminuído Vias aéreas Estridor Rouquidão Disfonia/alteração da voz Hemoptise Enfi sema subcutâneo Trato digestório Disfagia/odinofagia Enfi sema subcutâneo Sangue na orofaringe Neurológica Defi ciência neurológica lateralizada consistente com a lesão; estado alterado da consciência não causado pelo trauma cra- niano. Tabela 4.1 Fratura da maxila Pacientes com fratura da maxila no terço médio da face frequentemente apresentam concomitante- mente fraturas do nariz, malar (arco zigomático), fra- turas da base do crânio e lesão encefálica (atenção!). Classifi cação As fraturas da maxila são classifi cadas em: � Fraturas Le Fort I: fraturas com traço que tangen- ciam a margem inferior da abertura piriforme e se dirigem horizontalmente pela parede anterior do seio maxilar, em ambos os lados, até a tuberosidade da maxila, comprometendo o processo pterigoide. � Fraturas Le Fort II: mais frequentes. Traços de fra- tura que comprometem a região nasofrontal. Progri- dem pela apófi se frontal da maxila, estendendo-se lateralmente através dos ossos lacrimais, assoalho da órbita, rebordo orbital inferior e suturas zigomático- -maxilares até a parede lateral da maxila, atingindo a fossa pterigomaxilar, com fratura ou disjunção do processo pterigoide. Invariavelmente, associam-se a fraturas da pirâmide e do septo nasal. � Fraturas Le Fort III: disjunção craniofacial total (face alongada) através da sutura nasofrontal, das paredes medial e inferior das órbitas, desdeas su- turas zigomático-frontais e os arcos zigomáticos, até atingir o processo pterigoide do esfenoide. Le Fort tipo I Le Fort tipo II Le Fort tipo III Figura 4.2 Classifi cação das fraturas maxilares. Padrão horizontal (Le Fort I), padrão “V” invertido (Le Fort II) e padrão “W” da desjunção craniofacial (Le Fort III). Podem ocorrer ainda fraturas sagitais ou paras- sagitais, também conhecidas como fraturas de Lan- nelongue. Podem ocorrer ainda as fraturas transver- sas de maxila, chamadas de fraturas de Walther, que dividem a maxila em quatro segmentos. Destas, as fraturas parassagitais, de Walther e Le Fort I, quando isoladas, são as que determinam menor repercussão clínica do ponto de vista estético na avaliação inicial, por envolverem somente os processos palatinos e al- veolares, segmentos inferiores da maxila. Quadro clínico Os pacientes com fraturas tipo Le Fort I, II e III exibirão edema da face e hematomas periorbitais que podem ocluir as rimas palpebrais em poucas horas. Ocorrem sangramento nasal e sufusão hemorrágica nas regiões genianas e na mucosa oral. Ocorre ainda hipoestesia nas áreas de inervação dos nervos infraor- bitais (regiões nasogenianas, mucosa gengival e dentes superiores). Há difi culdade para deglutição e má oclusão dentária, que é o sinal patognomônico da fratura da maxila. Na palpação, pode-se perceber des- nível no rebordo orbital inferior e na crista maxiloma- lar. Pode haver crepitação entre os fragmentos ósseos e percepção de enfi sema subcutâneo facial. 4 Trauma cervical 37 Exame radiográfico A melhor combinação para estudo do esque- leto do terço médio da face é a obtida a partir das incidências de Waters e perfil do crânio. Waters permite a visão panorâmica de todos os ossos do terço médio da face, possibilitando identificar fraturas no processo frontozigomático, rebordo orbital inferior, crista maxilomalar, esqueleto nasal e seio maxilar. A incidência de perfil demonstra os desvios da maxila no sentido de intrusão e/ou de colapso posterior. As incidências em frontonaso e mentonaso demonstram os traços de fratura que causam disjunção frontozigo- mática e nasofrontal, bem como velamento de seios frontal e etmoidal. A incidência de Hirtz para arcos zi- gomáticos possibilita o estudo dos arcos zigomáticos. Tratamento A imobilização maxilomandibular é quase sem- pre necessária. A colocação das barras constitui a primeira etapa. Esses pacientes devem ser operados o mais rapidamente possível. A máscara ortopédica facial é dispositivo que permite a instalação de tração esquelética nos ossos da face, outra opção terapêutica para o tratamento dessas fraturas. A tração determinada por esse aparelho pro- move a redução posteroanterior da maxila. É útil quando da existência da impactação óssea e conse- quente mordida aberta anterior. Quando se utiliza a máscara ortopédica facial, a dieta deve ser líquida e pastosa, devendo orientar o paciente para que não mastigue durante o tratamento. O uso da máscara ortopédica facial é indolor, confortável e de baixo custo. Sua aplicação é fácil de ser realizada, com a vantagem de não ser necessário o uso de imobiliza- ção maxilo-mandibular. Complicações Complicações precoces: � imediatas: a mais frequente é a obstrução das vias aéreas superiores e a hemorragia. � mediatas: a mais grave é a fístula liquórica. Complicações tardias: as mais graves são a pseudoartrose e a consolidação viciosa. A pseudoar- trose é uma complicação rara das fraturas da face, mas a consolidação viciosa é frequente e caracterizada pela má oclusão dentária. Outras complicações tardias também ocorrem: diplopia por distopia ocular, oftalmoplegia e déficit na acuidade visual, advindos de lesões de nervos cranianos. Outro dano neurológico observado com certa frequência é a demora no retorno da sensibilidade cutânea no terço médio da face e na arcada dentária superior, consequente à neuropraxia traumática dos nervos infraorbitais. As fraturas da maxila são as mais relevantes para as provas de RM. Como reforço deixamos na ta- bela abaixo um resumo de outros sítios de fratura na região maxilofacial. Fratura Exames de imagem Principais achados clínicos Frontal Radiografias simples em norma de perfil de crânio e posteroanterior de face, tomografia computadorizada em cortes axial, coronal e sagital. Afundamento e presença de degraus ósseos, sangramentos, edema e hematoma, equimose, epistaxe e/ou rinoliquorreia, áreas de crepitação óssea, enfisema. Nariz Radiografias nas incidências de Wa- ters e perfil para ossos próprios do nariz. Edema e equimose em dorso nasal, epistaxe, ri- noescoliose, crepitação e degraus palpáveis nos ossos próprios do nariz, diminuição do fluxo aé- reo nasal. Zigomático-orbitais Radiografias nas incidências de Wa- ters e Hirtz para arco zigomático, to- mografia computadorizada em cor- tes axiais, coronais e saltitais. Edema, hematoma ou equimose periorbitários, oclusão palpebral, hiposfagma, quemose, enolf- talmo, proptose de bulbo, hipoftalmo, desni- velamento do nível pupilar, restrição de movi- mentação ocular; perda de projeção do corpo do zigoma, afundamento ou abaulamento do arco zigomático, limitação de abertura bucal, epista- xe, diplopia, amaurose, enfisemas extra e intra- orais, dificuldade em palpar a crista zigomático- -maxilar. Mandíbula Panorâmica de mandíbula, oblíquas e postero anterior de mandíbula, e Hirtz para mandíbula, incidência de Towne para côndilos mandibulares, tomografia computadorizada em cor- tes axial, coronal, sagital e reconstru- ção 3D. Edema e equimose extra e intraorais, limitarão e desvio da mandíbula durante abertura bucal, alteração da oclusão dental, desnível do plano oclusa) mandibular, avulsões dentárias, san- gramento, degraus ósseos palpáveis, mobili- dade, otorragia. Tabela 4.2 Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201538 ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA Capítulo 2 Capítulo 5 Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201540 Introdução O trauma de tórax representa a principal causa de morte em pacientes politraumatizados – 25% dos casos morrem pelo trauma de tórax sobretudo relacio- nado à hipóxia, acidose e hipercarbia decorrentes de rotura traumática de aorta, tórax instável com contu- são pulmonar e rotura traqueobrônquica. Aproximadamente 80% dos traumas de tó- rax serão resolvidos com medidas de drenagem torácica em selo d’água, passíveis de serem rea- lizadas em hospitais terciários por qualquer tipo de médico com conhecimento de urgências. Menos de 10% dos traumas fechados requer to- racotomia e 15-20% dos ferimentos penetrantes irão à cirurgia. Classificação proposta para os traumatismos torácicos Doentes instáveis Morte iminente (10-15%) Doentes estáveis Drenagem de tórax é o tratamento definitivo (70-80%) Drenagem de tórax não é o trata- mento definitivo (10-15%) Tabela 5.1 Avaliação inicial e atendi- mento O atendimento prestado deve ser baseado nas prioridades, com ênfase nas lesões ameaçadoras à vida a serem reconhecidas no exame primário. Lesões ameaçadoras à vida devem ser reco- nhecidas no exame primário: 1. Obstrução da via aérea; 2. Pneumotórax hipertensivo; 3. Pneumotórax aberto; 4. Contusão pulmonar com tórax instável; 5. Hemotórax maciço; 6. Tamponamento cardíaco. Lesões potencialmente ameaçadoras à vida de- vem ser reconhecidas até o final do exame secundário: 1. Pneumotórax simples; 2. Hemotórax; 3. Contusão pulmonar; 4. Lesão traqueobrônquica; 5. Trauma cardíaco fechado; 6. Rotura da aorta; 7. Lesão diafragmática traumática; 8. Ferimento transfixante de mediastino; 9. Ferimento de esôfago. Vias aéreas O atendimento deve seguir os critérios de priori- dade ABCDE. A orofaringe deve ser examinada na bus- ca de corpos estranhos. Os batimentos de asa nasal e tiragens denunciam o esforço respiratório na tenta- tiva de compensar possíveis distúrbios ventilatórios. Ver capítulo de VApara mais detalhes, lembrando dos critérios para obtenção de VA definitiva. Respiração A exposição do tórax permite a avaliação da am- plitude dos movimentos torácicos, presença de movi- mentos paradoxais (afundamento torácico), simetria da expansibilidade, fraturas do gradil costal, enfisema subcutâneo. Todo o paciente politraumatizado neces- sita de oxigênio em máscara com reservatório de O2. O tórax deverá ser auscultado em ápices e bases e a oximetria de pulso deve ser monitorada. A cianose é sinal tardio de hipóxia no paciente traumatiza- do e não há de se esperar que ela se manifeste para ser tomada alguma conduta. Contudo, a ausência de cianose não indica uma oxigenação tecidual ade- quada e via aérea permeável. A fáscies pletórica com cianose facial e cer- vicotorácica é alerta para possibilidade de pneu- motórax hipertensivo e tamponamento cardíaco como explicados a seguir. Circulação Paciente deverá receber reposição volêmica com 2 litros de SF 0,9% (39ºC) 1.000 mL em cada veia peri- férica do braço e sangue será retirado para exames (ver capítulo de choque). O diagnóstico de choque deverá ser precoce e a tipagem sanguínea é importante, mas dependendo da gravidade do choque, ela não é obriga- tória porque os pacientes podem receber temporaria- mente sangue O negativo até que a tipagem sanguínea específica seja feita. Checar qualidade, frequência e regularidade dos pulsos. Paciente gravemente hipovolêmico tem pulsos radiais e pediosos ausentes. A Pressão Arterial é mo- nitorada pela pressão de pulso (PA sistólica – PA dias- tólica). Perfusão tecidual pode ser avaliada pela cor e temperatura da pele. Observar estase jugular para suspeita de lesões de risco imediato de morte (tam- ponamento cardíaco, pneumotórax hipertensivo e até mesmo o hemotórax maciço). Lembrar que pacientes 5 Trauma de tórax 41 com tamponamento cardíaco e hipovolemia não têm distensão de jugulares. Monitor cardíaco deve ser instalado. A hipóxia e acidose aumentam essa possi- bilidade, bem como espasmo coronariano e contusão miocárdica, caso tenha ocorrido por desaceleração rá- pida ou ferimento em área do esterno. Há de se reava- liar o paciente. Tipos de trauma de tórax Lesões superfi ciais São tratadas do mesmo modo que aquelas em ou- tra parte do corpo, se o ferimento não atinge a fáscia endotorácica e o gradeado costal. A exploração digital ou instrumental de ferimentos superfi ciais deve ser evitada no tórax, em áreas de trajeto vascular e em precórdio, pelo risco de sangramento de ferimento tamponado e pneumotórax. Fraturas costais e esterno É a lesão mais comum do traumatismo torácico (35 a 75% dos casos), atingindo preferencialmente do 4º a 9º arcos costais. As fraturas de arcos costais com- prometem primariamente a ventilação, uma vez que a dor associada restringe os movimentos da parede torácica, pode levar a atelectasia e pneumonia. Além disso, fraturas de costelas inferiores podem ocasionar lacerações pulmonares (hemopneumotórax), trauma de baço e trauma hepático. As fraturas de costelas podem ser isoladas ou es- calonadas (múltiplas). São escalonadas quando três ou mais arcos costais são fraturados em um mesmo lado. O tórax instável (fl ácido) ocorre nas fratu- ras escalonadas na presença de fratura de três arcos costais em dois ou mais pontos. Assim, a re- gião vizinha às lesões ósseas se deprime, desabando a cada inspiração, em vez de se expandir como o restan- te da caixa torácica. Essa é uma situação que ameaça à vida não só pelas fraturas em si, mas pela dor e com- prometimento respiratório e pulmonar (lacerações, contusões, hemopneumotórax). Figura 5.1 Fraturas de costelas. Fratura do esterno Requer trauma grave, com grande energia ciné- tica para promover fratura do esterno, de tal forma que costuma haver lesões associadas graves, frequen- temente letais. As vítimas são jovens, com boa elas- ticidade da caixa torácica, que absorve o trauma sem desenvolver fratura. Representa 1 a 4% dos traumatis- mos de tórax. Os principais mecanismos de fratura do esterno são: impacto frontal e compressão direta (mais comum); secundário à fratura-luxação da co- luna vertebral; Traumas contra o volante ocasionam desacelera- ção brusca e o esterno é deslocado posteriormente re- sultando na fratura e compressão das estruturas me- diastinais sobre a coluna. O cinto de segurança e o air bag tem papel importante na profi laxia desse trauma. Além do acidente automobilístico, a queda livre e si- tuações menos frequentes, como massagem cardíaca, podem também determinar tais fraturas. Bem mais raro, as fraturas patológicas podem também ocorrer. Em função da fi xação do esterno à coluna verte- bral, através dos arcos costais, ele pode ser fraturado em consequência da fratura-luxação da coluna associada. O local mais comum de fratura é na tran- sição para o manúbrio esternal e em função de forte fi xação do esterno à clavícula, ele costuma deslocar-se anteriormente, cavalgando o seg- mento inferior. Apesar disso, o periósteo da face posterior do esterno costuma permanecer intacto. As fraturas costumam ser simples e transversas. O diagnóstico deve ser suspeitado quando clini- camente existe dor local à compressão profunda, equi- mose, hematoma, escoriação óssea. A radiografi a de tórax em perfi l ou oblíqua confi rma o diagnóstico. A fratura do esterno isolada apenas promo- ve dor. Quando associado às fraturas de costelas, pode fazer parte de tórax instável e contusão miocárdica descrita adiante. Tratamento O tratamento de fratura de costelas é con- servado com analgesia e eventual bloqueio anes- tésico. Com exceção no pneumotórax aberto que, por associação com perda de substância, podem ser fi xa- das concomitantemente à reparação do ferimento. O foco é para a identifi cação de critérios para a necessi- dade de se obter VA defi nitiva e IOT. A fratura de esterno é tratada com analgesia. Quando não existem outras lesões associadas, compro- metimento respiratório ou desvio importante dos frag- mentos, uma fratura simples de esterno deve ser Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201542 tratada apenas com analgésicos, eventualmente complementados por bloqueio local. A presença de movimento paradoxal sem comprometimento respira- tório ou dor importante não requer maiores cuidados e não é critério para obtenção de VA definitiva. A estabilização cirúrgica do esterno está in- dicada quando há desvio importante dos fragmen- tos. Entretanto, tal correção fica para segundo pla- no, uma vez que, na fase inicial, a prioridade são as lesões de estruturas vitais. Se há suspeita de que o fragmento desviado internamente possa estar ameaçan- do algum órgão interno, a correção pode ser precoce, mas essa situação deve ser considerada uma exceção. A corre- ção imediata pode também ser realizada se o paciente for ser submetido à cirurgia para reparo de uma outra lesão. A simples sutura das bordas da fratura com fios de aço é suficiente para estabilizar o esterno. A B Figura 5.2 fratura esternal. A: radiografia em PA não revelou a fratu- ra esternal que só aparece no raio X tórax perfil. B: radiografia em perfil demostrando a fratura em dois fragmentos. Pneumotórax aberto O pneumotórax aberto (ferida torácica aspirati- va) é causado por um defeito na parede torácica de di- âmetro superior a dois terços do diâmetro da traqueia. Ocorre equilíbrio entre as pressões intratorácica e at- mosférica, pois o ar passa preferencialmente de fora para dentro da cavidade pleural, uma vez que esse é o caminho de menor resistência. A ventilação é prejudi- cada, resultando em hipóxia e hipercarbia. O tratamento do pneumotórax aberto é com o curativo de três pontas de imediato e drenagem de tórax a seguir. O tratamento imediato se faz com um curativo de três pontas, transformando o pneumotórax aberto em fechado. Entretanto, um curativo oclusivo à mão pode ser usado temporariamente até realização do curativo de 3 pontas. Énecessário o curativo de três pontas porque ocorre efeito de válvula unidirecional, o qual faz com que, na inspiração, a entrada do ar seja bloqueada, pois o curativo é aspirado contra as bordas da lesão devido à pressão negativa; na expiração, o lado não fixado permite o escape de ar de dentro da cavidade torácica para a atmosfera. Imedia- tamente após o curativo de três pontas, há a necessi- dade de se realizar drenagem. O tratamento definitivo se dá por drenagem torácica sob selo d’água, inserindo-se o dreno longe do ferimento. Figura 5.3 A: pneumotórax. B: pneumotórax aberto. C: hemopneu- motórax. Figura 5.4 demonstração do curativo de três pontas. 5 Trauma de tórax 43 Pneumotórax hipertensivo É uma das lesões torácicas mais rapidamente fatais no trauma. O escape progressivo de ar no espaço pleural em sistema de válvula unidirecional pro- voca o aumento de pressão intratorácica, ocasionando grave distúrbio ventilatório e circulatório. Lesões trau- máticas da parede torácica com laceração do pulmão, le- sões brônquicas e ferimentos penetrantes são causas de pneumotórax hipertensivo. Em pacientes internados em unidades de terapia intensiva com ventilação mecânica, o pneumotórax simples e a ruptura do pulmão por baro- trauma são causas comuns de pneumotórax hipertensi- vo. O diagnóstico de pneumotórax hipertensivo é clínico e o tratamento nunca deve ser retardado à espera de confi rmação radiológica. O paciente cursa com ausência do mur- múrio vesicular, turgência jugular, hipotensão arterial, hiperressonância, diminuição do frê- mito toracovocal, desvio da traqueia e sofri- mento respiratório muito signifi cativo, além de demonstrar SaO2 < 90%, tiragem intercostal e batimentos da asa do nariz. A atividade elétrica sem pulso (AESP) refor- ça o diagnóstico de pneumotórax hipertensivo. O achado de AESP deve ter como diagnósticos diferenciais a hipovolemia e o tamponamento cardíaco (atenção). O tratamento inicial do pneumotórax hipertensivo é a descompressão imediata pela inserção de jelco 14-16 no 2º EIC na linha hemiclavicular do hemi- tórax afetado. Essa manobra deve ser seguida de dre- nagem pleural com dreno tubular em selo d’água 38F inserido entre o 4º e 5º EIC entre a linha axilar anterior e média próximo à linha intermamilar. O diagnóstico de pneumotórax hipertensivo é clínico e refl e- te ar sobre pressão no espaço pleural. O tratamento não deve ser adiado à espera de confi rmação diagnóstica. Figura 5.5 Pneumotórax hipertensivo direito empurrando o pulmão direito (setas) e provocando deslocamento do mediastino para a esquerda. Figura 5.6 Raio X do tórax em AP, demostrando pneumotórax a di- reita com deslocamento do mediastino para a esquerda (seta preta). O pulmão fi ca atelectasiado e retraído medialmente (setas brancas). Note a ausência da trama vascular na periferia à direita. Figura 5.7 Toracocentese com agulha. O pneumotórax hipertensi- vo é tratado inicialmente pela inserção rápida de uma agulha de grosso calibre conectada a uma seringa no 2º EIC na linha hemiclavicular do hemitórax afetado. Descrição do procedimento de drenagem to- rácica (importante para a prova prática): 1. Paciente em decúbito dorsal + antissepsia e colocação de campos; 2. Anestesia com xilocaína sem vasoconstritor; 3. Incisão transversa com bisturi entre o 4º e 5º EIC do lado do hemopneumotórax junto à borda su- perior da costela inferior (porque abaixo da costela passa o feixe vasculonervoso do tórax); 4. Divulsionar com pinça de Kelly até sentir que penetrou a pleura parietal do pulmão porque verifi ca- -se a saída de ar da cavidade pleural. Introduz-se o dedo enluvado para palpar o pulmão e certifi ca-se que realmente se está na cavidade pleural, podendo tam- bém remover coágulos e aderências. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201544 5. Introduzir a ponta do dreno com múltiplos fu- ros que deverá estar pinçado na parte proximal com a Kelly. A introdução será no sentido posterior e cranial da caixa torácica. Deverão ser observados a existência de coluna móvel e embaçamento do dreno. 6. Conectar o dreno de toracostomia com o selo d’água. 7. Fixar o dreno em pontos em “U” e realizar curativo. 8. Solicitar raio X de tórax. Complicações da drenagem de tórax: � Drenagem do subcutâneo (principalmente em obesos) ao invés da cavidade pleural; � Lesão de nervo, artéria ou veia intercostal resultan- do em hemopneumotórax e nevralgia intercostal; � Dreno em posição incorreta no tórax; � Desconexão do selo d’água e obstrução do dreno com pneumotórax persistente; � Enfisema subcutâneo do dreno (ponto inadequado); � Recidiva do pneumotórax após remoção precoce do dreno; � Reação anestésica a xilocaína local; � Ausência de expansão pulmonar, com borbulha- mento persistente no frasco de selo d’água, mes- mo com um ou dois drenos, nesse caso deve ser solicitada broncoscopia por possível associação com lesão traqueobrônquica. � Edema de pulmão de reexpansão (evitar esvazia- mento do hemotórax tardio com vários dias de história maior de 1 litro subitamente). Pneumotórax simples (PTX) Tanto o trauma penetrante como o fechado po- dem causar PTX. A fratura-luxação da coluna torácica também pode estar associada ao PTX. A laceração pul- monar com vazamento de ar é a causa mais comum de pneumotórax após um trauma fechado. Normalmente, a cavidade torácica está comple- tamente preenchida pelo pulmão, mantido em íntimo contato com a parede torácica por uma tensão super- ficial existente entre as superfícies pleurais e presença de aproximadamente 10 mL de líquido pleural. A pre- sença de ar no espaço pleural rompe a força de adesão entre as pleuras visceral e parietal, permitindo o co- lapso do pulmão. Isso resulta em alteração na ventila- ção/perfusão, porque há sangue oxigenado, mas não ocorre perfusão com trocas de O2 por CO2. Na presença de um PTX, o murmúrio vesicular está diminuído no lado afetado e a percussão demons- tra hipertimpanismo. O raio X de tórax PA em expiração pode auxiliar no diagnóstico de pequeno pneumotórax. O diagnóstico é clínico com a presença de diminuição de murmúrio respiratório, hiperressonância e atenuação do frê- mito toracovocal. ATLS anteriores ao de 2008 declaravam que todo o PTX deveria ser drenado. Hoje sabe-se que o trata- mento conservador de PTX poderá ser feito conside- rando-se cada caso e a escolha deve ser feita por um médico qualificado. Entretanto, em casos de transfe- rência, aérea ou terrestre, deve-se fazer a drenagem do PTX conforme descrito anteriormente. Os doentes vítimas de PTX traumático não de- vem ser submetidos a anestesia geral ou a ventilação com pressão positiva, até que tenham seu tórax dre- nado. Um PTX simples pode transformar-se pronta- mente em PTX hipertensivo com risco de vida particu- larmente quando seu diagnóstico não é feito desde o início no respirador. Dica: não confunda PTX traumático com PTX espontâneo. No PTX espontâneo (não re- lacionado com trauma), o PTX < 20% pode ser observado clinicamente. Todavia, aquele pneu- motórax > 20% deverá ter drenagem de tórax. Geralmente, esses pacientes têm roturas de bo- lhas (blebs) no pulmão e necessitam ser avalia- dos para possível decorticação e talcagem pleu- ral para evitar recidiva de PTX espontâneos. Já a maior parte dos PTX traumáticos é drenado, mas a decisão final é do médico assistente. Tórax instável ou flácido (reta- lho costal móvel) Ocorre quando um segmento da parede torácica não tem mais continuidade óssea com o resto da caixa torácica. Isso é decorrente de mais de três fraturas de costelas em dois ou mais pontos. O achado clínico de movimento paradoxal desse segmento afeta- do, associado à crepitação das fraturas costais ou costocondrais, é indicativo do seu diagnósti- co. É importante entender que o tórax instável comu- mente é associado com contusão pulmonar. E nesse caso o tratamento final do tórax instável é o suporte respiratório e ventilaçãomecânica como recomenda- do nos critérios de indicação para ventilação mecânica no tórax instável. O ATLS 2008 orienta que aque- les pacientes com PaO2 < 65 mmHg e SatO2 < 90% deverão ser entubados antes da primeira hora pós-trauma. Entretanto, nem todos os pacientes terão crité- rios de VA definitiva e é importante a analgesia e mo- nitorização deles, sobretudo a cautelosa administra- ção da reposição volêmica porque neles ocorre edema de pulmão facilmente. 5 Trauma de tórax 45 O exame radiológico do tórax pode sugerir fra- turas múltiplas de costelas, mas a disjunção costo- condral pode passar despercebida. A dispneia pode ser aguda, logo após o trauma ou pode manifestar-se tardiamente. A insufi ciência respiratória que se segue vai depender de três principais fatores: o grau de instabilidade da caixa torácica, a intensida- de da dor e a extensão da lesão pulmonar subjacente (contusão pulmonar). O grau de insufi ciência respiratória quantifi cada com base em parâmetros clínicos (frequência e fadiga res- piratória) e gasométricos orienta o tipo de tratamento. Tratamento Cuidados gerais como melhorar a oferta de oxigê- nio, reexpansão pulmonar, reposição volêmica cautelo- sa na ausência de choque (para evitar hiperhidratação), analgesia para melhorar a dor (bloqueio intercostal in- termitente, anestesia peridural) e ventilação além de fi sioterapia respiratória são medidas essenciais. O momento apropriado de se obter VA defi nitiva vai ser defi - nido pela monitorização cuidadosa da FR, PaO2 e estimativa do trabalho respiratório. Os pacientes com FR > 30 mov/min. e hipóxia grave, mantendo PaO2 < 65 mmHg (equivale a SaO2 < 90% exceto em pacientes DPOC) mesmo com O2 suplementar 12 L/min., sinais de fadiga respiratória com FC > 120 bpm, necessitam de VA defi nitiva (IOT + ventilação mecânica). Atenção redobrada deve ser dada a pacientes com doenças associadas e lesões traumáticas em outros segmentos corpóreos, visto que a insufi ciência respi- ratória grave pode manifestar-se mais precocemente. Nesse último aspecto, a embolia gordurosa em pacientes com trauma torácico e fraturas de ossos longos é diagnóstico que deve ser lembrado quan- do há piora repentina na insufi ciência respiratória com alterações do nível de consciência e apare- cimento de petéquias conjuntivais e cutâneas na região torácica. Indicações de ventilação mecânica no tórax fl ácido • Fadiga clínica • FR < 8 ou > 35 ipm • PaO2 < 60 mmHg com FiO2 > 50% • PaCO2 > 55 mmHg com FiO2 > 50% • Shunt > 20% • Choque • Lesões associadas e de tratamento cirúrgico Tabela 5.2 critérios para ventilação mecânica. Figura 5.8 Tórax fl ácido ou instável. Observe o padrão de respira- ção paradoxal com retração do segmento fraturado a cada inspiração, ao contrário a fi siologia normal. Figura 5.9 Tórax fl ácido. Observe a perda de continuidade dos arcos costais em pelo menos dois pontos em três ou mais costelas e a presen- ça de enfi sema subcutâneo. Hemotórax O tipo de lesão torácica determinará o volume de sangue acumulado no espaço pleural. Os sintomas dependem do volume de sangue coletado. Perdas de 500-1.000 mL no espaço pleural correspondem a 15- 20% da volemia (ver capítulo de choque). Hemotórax simples é aquele menor do que 1,5 L. Hemotórax maciço é maior do que 1.500 mL. O ferimento periférico do pulmão é a causa mais comum do hemotórax. Por ser uma pequena circulação pulmonar de baixa pressão, a hemorragia que se dá por lesões a esse nível costuma ser de baixo volume e autocontrolada. A ausculta pulmonar revela murmúrio vesicular di- minuído, associado à percussão submaciça no hemitórax comprometido e diminuição do frêmito toracovocal. O diagnóstico do hemotórax traumático também deve ser clínico. Entretanto, eventualmente pequenos he- motórax sem sintomas poderão ser visualizados no raio X. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201546 Volume de líquido mínimo para aparecer no raio X de tórax para velar e deslocar medialmente o seio costofrênico é 150- 300 mL (derrame pleural subpneumônico) Pequenos derrames pleurais só são vistos no raio X em decúbito lateral. O derrame pleural > 10 mm no raio X em decúbito lateral exige realização de toracocentese para drenagem. A drenagem pleural deve ser realizada logo após o diagnóstico, com o propósito de aliviar o espaço pleural, quantificar o volume de sangue perdido e ob- servar o débito de sangramento pleural nas horas após a colocação do dreno. O sangramento oriundo da periferia do pulmão cessará com a reexpansão pulmonar em aproximadamente 85% dos casos. Caso haja sangramento persistente pelo dreno torácico com volume > 200 mL/h durante 2-4 horas, indica-se toracoto- mia para hemostasia cirúrgica. É também indicação de toracotomia de emergência: � hemotórax maciço agudo com drenagem inicial pelo dreno torácico > 1.500 mL de sangue; � ferimento penetrante de tórax com parada car- diorrespiratória; � hemotórax < 1.500 mL mas que persiste drena- gem > 200 mL/h por 2-4 horas; � tamponamento cardíaco. Ferimentos na área de Ziedler, também chama- da Zimmerman ou Salmer-Murdock (medialmente entre as escápulas e entre as linhas hemiclaviculares e a linha intermamilar) requerem atenção especial para o FAST e eventualmente ecocardiograma transe- sofágico para avialiação de tamponamento cardíaco. Ferimentos penetrantes nessa região têm alta incidência de toracotomia por lesões no coração, grandes vasos, estruturas hilares e pelo poten- cial descrito de tamponamento cardíaco. Figura 5.10 radiografia de tórax mostrando um volumoso hemotórax à direita, provavelmente maciço. Durante a reanimação do doente, deve-se con- tabilizar o volume de sangue perdido imediatamente após a drenagem, acrescido do que continuar drenan- do a seguir para o cálculo do volume total de fluidos requeridos para a reposição com SF 0,9%. A coloração do sangue (arterial ou venoso) não é um bom indica- dor para avaliar a necessidade ou não de toracotomia. O hemotórax retido ou coagulado é situação de ocorrência frequente em que a drenagem de tórax não foi suficiente para a expansão pulmonar adequada e há sangue coletado no espaço pleural. Os coágulos e as cole- ções de sangue não atingidas pelo dreno tubular podem dar origem à infecção (empiema pleural) e a consequente encarceramento pulmonar. Daí a importância de se fazer o raio X de tórax controle após a drenagem pleural. Diagnosticado o hemotórax coagulado, o melhor procedimento é a videotoracoscopia para limpeza e aspiração da cavidade pleural e decorti- cação pulmonar. Entretanto, procedimentos clínicos como a administração de antifibrinolítico (estreptoqui- nase) intrapleural pelo dreno vêm sido utilizados em alguns centros em pacientes sem condições cirúrgicas ou que não têm serviço de videotoracoscopia. Com- plicações de hemotórax coagulado e empiema inade- quadamente drenado incluem fístula broncopleural e broncopleurocutâneas. Situações essas que envolvem tratamento com pleurostomia, ressecção de costela, decorticação e outros procedimentos de reconstrução. Embora a radiografia de tórax seja útil como fer- ramenta inicial, ela não deve ser usada como único exame para selecionar pacientes com indicação de eva- cuação cirúrgica de hemotórax retido. A decisão deve estar apoiada também nos achados da tomografia computadorizada de tórax. O que parece ser imagem de hemotórax retido no raio X de tórax pode revelar-se como condensação pulmonar à TC. Videotoracoscopia é procedimento de escolha para o hemo- tórax coagulado que no raio X aparece sem expansão pulmo- nar adequada. Quilotórax Lesão do ducto torácico causa derrame linfático quiloso no espaço pleural sendo facilmente confundi- do com líquido purulento. A B C Figura 5.11 A: hemotórax de metástase pulmonar de câncer de mama; B: quilotórax de carcinoma brônquico que invadiu e obstruiu o ducto torácico; C: transudato pleural típico de pacientescom insufici- ência cardíaca e edema generallizado. 5 Trauma de tórax 47 Cerca de 50% dos quilotórax são por tumores mediastinais, especialmente linfoma. Vale lembrar que a ocorrência do quilotórax, como complica- ção de cirurgia torácica ocorre em 20% e é menos frequente de ocorrer no trauma (5%). Em se tratando de trauma: como o trajeto do ducto torácico é no mediastino posterior, o qui- lotórax à direita resulta de trauma torácico bai- xo; por outro lado, quilotórax à esquerda é por trauma torácico alto. O diagnóstico é baseado na toracocentese com triglicérides no líquido pleural > 110 mg/dL. Tratamento O tratamento é toracocentese ou drenagem pleu- ral com reexpansão pulmonar. A dieta prescrita deve ser pobre em gorduras com ascréscimo de triglicérides de cadeia média. Entretanto, dependendo da decisão do cirurgião torácico, o débito elevado por duas ou três semanas de um quilotórax, com complicações metabólicas ou nutricionais pode requerer toracotomia e ligadura do ducto torácico. Tratamento do quilotórax é com dieta POBRE em gorduras, além da prescrição de triglicérides de cadeia média. Contusão pulmonar Entre as lesões torácicas potencialmente letais de manifestação tardia, essa é a mais frequente. Nor- malmente se manifesta algumas horas após um trauma fechado. É típica a história da vítima que estava bem na admissão hospitalar e que, progressiva- mente, passou a apresentar dispneia. Em crianças, muitas vezes são comuns a ausência de fraturas de costelas (ou fratura em galho verde) e grave contusão pul- monar pela elasticidade da parede torácica. Na contusão pulmonar, ocorre alteração da per- meabilidade de membrana com inundação do espa- ço alveolar por líquido e destruição temporária dos pneumócitos tipo II (produzem surfactante). Histo- patologicamente, podem-se encontrar desde áreas de hemorragia alveolar e intersticial até lacerações de pa- rênquima. Fraturas costais múltiplas e principalmen- te, das três primeiras costelas, da escápula e, do es- terno alertam para a presença de contusão pulmonar. O principal fator determinante de hipóxia é o aumento do shunt pulmonar resultante da contusão do parênquima pulmonar subjacente às fraturas. Em alguns casos, ainda há pneumotórax e/ou hemotórax, o que é mais um fator de hipóxia. O diagnóstico fundamenta-se nos achados radioló- gicos de opacifi cações focais ou difusas homogêneas, que não respeitam a anatomia segmentar e lobar do pulmão. Em 1/3 dos pacientes o raio X de tórax pode ser ini- cialmente normal. O tempo médio de aparecimento das imagens radiológicas leva em média 6 horas, podendo ocorrer até 48 horas após o trauma. São necessários pelo menos 6 horas para o aparecimento da contusão pulmonar. Merece destaque a melhor defi nição oferecida pelos atuais aparelhos de tomografi a com tecnologia helicoidal e com vários cortes (multislice), permitindo avaliação mais rápida e fi dedigna da condição desses doentes. A extensão da contusão, avaliada pela tomo- grafi a de tórax, tem sido vista como fator preditivo da necessidade de ventilação mecânica. O tratamento é o mesmo descrito no tórax instá- vel voltando-se para a identifi cação dos critérios para via aérea defi nitiva e IOT, bem como reposição volêmi- ca cautelosa na ausência de choque hemorrágico. Enfermidades associadas, como doença pulmo- nar crônica e insufi ciência renal, predispõem à neces- sidade de intubação precoce e de ventilação mecâni- ca. Alguns doentes em condições estáveis podem ser tratados seletivamente sem intubação endotraqueal ou ventilação mecânica e apenas máscara de O2 com reservatório de oxigênio. Para um tratamento adequado são necessários monitoração da oximetria de pulso, determinações ga- sométricas arteriais, monitoração eletrocardiográfi ca e equipamento apropriado para ventilação, se neces- sário. Pacientes que irão ser transferidos e próximos aos critérios para a intubação deverão ser submetidos a IOT + ventilação mecânica para maior segurança. O prognóstico da contusão pulmonar está na dependência de lesões associadas. Isoladamente, a mortalidade é de 16%, mas, quando associa- da ao tórax instável, eleva-se para 42%. Em longo prazo, muitos pacientes com afundamento torácico e contusão pulmonar se queixam de disp- neia, baixa tolerância aos exercícios e dor torácica no hemitórax comprometido. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201548 Figura 5.12 Raio X de tórax mostrando área de opacificação em lobo mé- dio após trauma de trânsito, o que sugere contusão pulmonar à direita. Ferimentos traqueobrônquicos São lacerações na traqueia ou brônquios (maior parte < 2-3 cm da carina) que fazem fístula pleural, a qual pode ser persistente e necessitar de cirurgia. Deve haver suspeita de ferimento traqueobrônquico quando o pulmão não expandir, mesmo após drenagem de PTX e se o dreno torácico em selo d’água tiver borbulhamento persis- tente. A fibrobroncoscopia deverá ser solicitada o mais breve! Ferimentos transfixantes de mediastino médio ou superior, compressão torácica intensa e fugaz, des- conforto respiratório e enfisema subcutâneo evidente com hemoptise, no exame inicial, são situações que nos induzem a solicitar fibrobroncoscopia. Ferimen- tos que se comunicam com o espaço pleural podem resultar em pneumotórax hipertensivo. O borbulha- mento intenso do dreno em selo d’água sem ex- pansão pulmonar é o achado patognomônico do ferimento traqueobrônquico. O tratamento pode ser conservador por 3 a 5 dias. Entretanto, caso o escape aéreo persista, a to- racotomia guiada pelo resultado da broncoscopia será a escolha em pacientes estáveis. Todavia, pacientes instáveis hemodinamicamente deverão ser sub- metidos à toracotomia de urgência e realização de broncoscopia intraoperatória, além da “ma- nobra de borracheiro” para achar o local do furo irrigando-se a cavidade torácica. A toracotomia para abordagem é anterolateral ou posterolateral, dependendo das lesões acometidas como traqueia, carina e brônquio direito, com desalinhamen- to das bordas da ferida e obstrução de vias aéreas. Se as bordas estão alinhadas e tamponadas por hematoma e tecidos circunjacentes, o manejo pode ser conservador. Laringe É uma lesão rara. Manifesta-se por rouquidão, enfisema subcutâneo e crepitação palpável. Se o pa- ciente estiver em insuficiência respiratória, a intuba- ção é indicada; se não for possível, deve-se realizar uma traqueostomia. Com o objetivo de uniformizar os critérios de descrição das lesões e tentar estabelecer normas de conduta, as lesões da laringe podem ser agrupadas em cinco categorias: Grupo I – traumatismo mínimo restrito à endo- laringe, sem fratura. Grupo II – edema, hematoma com laceração moderada da mucosa, sem exposição da cartilagem. Podem existir pequenas fraturas da cartilagem, mas sem desvio. Grupo III – edema e laceração grave da mucosa. Presença de fraturas com desvio. Grupo IV – lesão grave da laringe com instabili- dade anatômica e funcional. Grupo V – disjunção laringotraqueal. A observação cuidadosa da localização da ferida e do trajeto do projétil (ou outro agente traumático), a constatação de enfisema subcutâneo, de enfisema do mediastino, de dispneia e de hemoptise podem condu- zir ao diagnóstico de lesão de traquéia cervical e/ou de laringe. A traqueoscopia não se mostrou importante para o estabelecimento do diagnóstico das lesões da região cervical. Eventualmente a diagnose da localiza- ção exata da ferida pode ser feita durante a exploração cirúrgica por manobra do borracheiro. Deve-se no- tar que nas feridas altas podem ser necessários desin- suflar o balonete e recolocar a sonda orotraqueal um pouco mais alta na traqueia para que o escape de gás pela ferida seja percebido. Em virtude da associação frequente das lesões de laringe e de traquéia cervical com feridas de esôfago e/ ou faringe, todos esses pacientes devem ser submetidos a um esofagograma com contraste hidrossolúvel. Essa associaçãopode estar presente em 26% dos portadores de lesões da traqueia cervical e laringe. Tal combinação acarreta maior morbidade e mortalidade, que aumen- tam proporcionalmente ao tempo decorrido entre o diagnóstico e o tratamento. Torna-se, portanto, impe- rioso que o diagnóstico de ferida de faringe e/ou esôfa- go seja estabelecido precocemente para evitar complica- ções graves tais como mediastinite e sepse. Traquéia e brônquios É lesão pouco frequente e potencialmente fatal. No trauma contuso, a lesão geralmente ocorre próximo à ca- rina e, na maioria das vezes, na parede membranosa. 5 Trauma de tórax 49 O doente apresenta hemoptise, enfi sema sub- cutâneo ou pneumotórax hipertensivo com desvio do mediastino. É comum esse tipo de lesão passar des- percebido. Pneumotórax com grande fuga aérea pelo dreno torácico sugere lesão traqueobrônquica. A fi brobroncoscopia continua a ser o exame pa- drão ouro para o diagnóstico da lesão e deve ser reali- zada, de preferência, em ambiente cirúrgico, com a via aérea protegida por intubação traqueal. A inserção de mais de um dreno de tórax fre- quentemente é necessária para superar um grande vazamento e expandir o pulmão. Para garantir um for- necimento adequado de oxigênio, pode ser necessária, em caráter temporário, a intubação seletiva do brôn- quio principal do pulmão oposto. Frequentemente a intubação pode ser difícil, seja pela distorção anatômica decorrente do hema- toma paratraqueal, pelas lesões orofaríngeas associa- das ou pela própria lesão traqueobrônquica. Nesses casos, está indicada a intervenção cirúrgica imediata. Já em doentes mais estáveis, o tratamento cirúrgico das lesões traqueobrônquicas pode ser postergado até a resolução do processo infl amatório agudo e do edema local. Acesso cirúrgico - Traqueia intratorácica, brônquio direito e brônquio esquerdo proximal – toracotomia pos- terolateral direita 4º-5º EIC (evita o coração e arco da aorta). - Brônquio esquerdo > 3 cm da carina – toracoto- mia posterolateral esquerda. Ferimento de grandes vasos A rotura traumática de aorta é a causa mais comum de morte súbita após acidente automobilístico ou queda de grande altura. A aceleração e desaceleração rápida fazem com que haja o cisalhamento nos pontos de fixação do cora- ção e da aorta. É importante entender que 80% dos pacientes com rotura traumática da aorta morrem no local do trauma (separação da base da aorta do coração). O local mais comum da rotura trau- mática da aorta nos pacientes que sobrevive- ram é na sua porção descendente junto ao li- gamento arterioso (ligamento de Botalo) e da saída da subclávia. Local mais comum de rotura traumática da aorta é na aorta descendente no ligamento arterioso (ligamento de Botalo). Se a adventícia estiver íntegra, forma-se o he- matoma contido e o paciente não morre de imediato. Essa é a característica encontrada nos sobreviventes de rotura de aorta (presença de hematoma bloqueado no mediastino). É muito raro, mas em 1-2% das vezes o paciente pode ter rotura traumática da aorta e não ter qualquer achado no raio X de tórax. Nesses casos, somente o conhecimento da cinemática do trauma de colisão de alta velocidade e queda de mais de 3,6 metros sugerem rotura traumática da aorta. Paciente que está hipotenso e tem sinais radiológicos suges- tivos de rotura traumática da aorta não está sangrando da aorta! Se não, já teria morrido. Buscar outras causas pro- váveis para o choque hipovolêmico, como fratura de bacia e trauma abdominal. Se todos os pacientes com achado radiológi- co de alargamento de mediastino fossem subme- tidos à aortografi a, apenas 3% confi rmariam a rotura real da aorta. Por isso que, atualmente, não se justifi ca a realização rotineira de arteriografi a em todos os pacientes com mediastino alargado. A pre- sença do mediastino alargado (90% das vezes asso- ciado) e fraturas nas três primeiras costelas podem se relacionar a outras lesões vasculares torácicas. A TC do tórax multislice contrastada substituiu a arteriogra- fi a no método diagnóstico de rotura traumática da aorta por apresentar 100% de sensibiliadade e especifi cidade. Entre- tanto, tal resultado depende da tecnologia disponível. Se a TC de tórax for negativa para rotura traumá- tica da aorta e para hematoma de mediastino, nenhum outro exame é necessário. A arteriografi a deve ser re- alizada na positividade de achados tomográfi cos para rotura traumática da aorta e caso seja considerado o tratamento endovascular de rotura traumática de aorta que atualmente é factível. Versões anteriores do ATLS indicavam a necessidade de realização de arteriografi a no caso de malformações não identifi cáveis à TC, mas com o advento da TC multislice essa conduta prescreveu. Sinais e sintomas eventualmente associados à ruptu- ra traumática da aorta Hipotensão arterial Pseudocoarctação aórtica (pressão arterial desigual dos membros superiores em relação aos inferiores) Desigualdade da pressão arterial entre dois membros superiores Sopro ou frêmito interescapular Desvio traqueal por hematoma Estridor por compressão extrínseca de traqueia (lesão de ca- rótida comum) Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201550 Sinais e sintomas eventualmente associados à ruptu- ra traumática da aorta (CONT.) Hematomas supraclaviculares Fratura de esterno e ou coluna torácica palpáveis Esmagamento torácico Hemotórax volumoso Tabela 5.3 Sinais associados à ruptura traumática da aorta Alargamento de mediastino > 8 cm (posição ortostática) “Borramento” do contorno aórtico Obliteração do espaço aórtico-pulmonar Relação entre as larguras do mediastino e tórax > 0,25 Rebaixamento do brônquio fonte esquerdo Desvio traqueal para direita Desvio da sonda naso ou orogástrica para direita Hematoma extrapleural apical (“boné apical”) Alargamento das linhas para vertebrais Alargamento da faixa paratraqueal Fratura do primeiro e segundo arcos costais (trauma de alta energia) Fratura da escápula (trauma de alta energia) Fratura de coluna torácica Fratura de esterno Hemotórax à esquerda Tabela 5.4 Figura 5.13 Aortografia demonstrando a topografia da lesão mais co- mum na aorta descendente e formação de pseudoaneurisma. Figura 5.14 Lesão de artéria inominada. Notar desvio discreto da traqueia para a esquerda acompanhada da SNG em paciente com he- matoma junto ao desfiladeiro torácico (ao contrário de hematoma no istmo aórtico). Tratamento Pacientes estáveis devem ser submetidos a tratamento endovascular com prótese (stent) por radiologia intervencionista. Além disso, o uso de betabloqueadores (propanolol ou labetalol) para con- trole de pressão é realizado na maioria dos centros. Na ausência de serviço endovascular, a cirurgia permanece como método de escolha. O interessante do tratamento endovascular é que evitam-se o risco da isquemia me- dular e paraplegia, as insuficiências renal e mesentéri- ca decorrentes do clampeamento aórtico, complicação possível no acesso cirúrgico por toracotomia. A orientação diagnóstica e terapêutica desses pa- cientes deve ser feita por serviço qualificado para tal atendimento, em que atuem tanto radiologistas inter- vencionistas como cirurgiões com apoio de equipe de circulação extracorpórea. A correção cirúrgica da lesão por toracotomia posterolateral esquerda com sutura primária ou prótese segmentar de aorta é a conduta cirúrgica recomendada. Figura 5.15 Sem alargamento de mediastino, mas tem apagamento do cajado aórtico (seta). 5 Trauma de tórax 51 Figura 5.16 Alargamento do mediastino. Depressão do brônquio esquerdo. Figura 5.17 Desvio da traqueia para direita: suspeita de rotura trau- mática da aorta. Trauma cardíaco Tamponamento cardíaco agudo Dos traumas cardíacos, 90% resultam de trau- ma penetrante (41% das lesões é ventrículo direito e 40% é ventrículo esquerdo). O trauma fechado tam- bém pode resultar em acúmulo de sangue no saco pe- ricárdico decorrente do coração, dos grandesvasos ou dos vasos pericárdicos. O tamponamento pode desen- volver-se rapidamente ou de modo mais lento porque o saco pericárdico é estrutura fi brosa inelástica e me- nos de 200 mL de sangue é sufi ciente para restringir os movimentos cardíacos (geralmente 50 mL mostra sintomas) e apresentar quadro clínico de tampona- mento cardíaco. Ferimentos penetrantes na área de Ziedler ou área de Salmer-Murdock sugere trauma cardíaco. Da mes- ma maneira, fáscies pletórica, engurgitamento de veias cervicais e pulso paradoxal sugerem trauma cardíaco. Limites anatômicos da zona de Ziedler: 1. Linha horizontal que passa pelo ângulo de Louis do esterno. 2. Linha horizontal que passa à altura da extre- midade anterior da décima costela. 3. Linha paraesternal D. 4. Linha axilar anterior E. Figura 5.18 zona de Ziedler. A tríade de Beck (hipotensão, abafamento de bulhas e turgência jugular) está presente em 1/3 dos pacientes. A distensão de veias do pescoço pode estar ausente em decorrência de hipovolemia. O pulso paradoxal é defi nido como a queda de mais de 10 mmHg de pressão sistólica duran- te inspiração profunda no fi nal da inspiração no traçado da pressão arterial média (PAM). Entre- tanto, vale saber que não é só o tamponamento pe- ricárdico que justifi ca o pulso paradoxal. Outras situ- ações como asma, embolia pulmonar, pneumotórax hipertensivo e pericardite constritiva também funda- mentam tal achado. O sinal de Kussmaul (aumento da pressão ve- nosa na inspiração espontânea) e a atividade elétrica sem pulso (na ausência de hipovolemia e de pneumo- tórax hipertensivo) sugerem tamponamento cardíaco. Quando disponível, o exame ultrassonográfi co na sala de emergência FAST (Focused Assessment with Sonography for Trauma ATLS®) avalia a presença de lí- quido no saco pericárdico com 90% de acurácia e 5% de falsos-negativos. O tratamento de escolha para tratamento de tamponamento cardíaco é a to- racotomia e rafi a da lesão sangrante através de toracotomia anterolateral esquerda, a qual é a incisão mais usada no trauma. Atenção: o tratamento de escolha para o tamponamento cardíaco é a toracotomia e não a pericardiocentese. A pericardiocentese ainda aparece no ATLS de 2008 ,mas somente sendo reservada como um dos últimos recursos quando a toracotomia não está disponível, podendo ser tanto diagnóstica quanto terapêutica, também podendo ser guiada por Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201552 ultrassom. Entretanto, a pericardiocentese não é tra- tamento definitivo para o tamponamento pericárdico porque esse paciente deverá ir necessariamente à tora- cotomia para rafia da lesão cardíaca. Um procedimento melhor do que a pericardiocen- tese e menos agressivo do que a toracotomia anterolate- ral esquerda passível de ser feito em indivíduos estáveis é a pericardiotomia subxifoidea (incisa a pele abaixo do xifoide e chega até o coração sem abrir pleura ou o pe- ritônio abdominal) realizada sob visão direta no centro cirúrgico. Ao explorar o saco pericárdico por pericardio- tomia subxifoidea, obedeça à seguinte orientação: a) saída de líquido amarelo citrino garante a pe- ricardiorrafia por planos; b) saída < 50 mL sangue em paciente hemodina- micamente estável significa que houve ferimento mí- nimo de pericárdio ou músculo cardíaco, sem lesão de câmaras cardíacas. Irriga-se o saco pericárdico com SF + drenagem pericárdica com Pezzer ou Malecot + ob- servação por 48-72 horas; c) saída > 50 mL com sangramento persistente e alterações hemodinâmicas garantem toracotomia anterolateral esquerda. Há ainda relatos do uso de videotoracoscopia e laparoscopia para drenagem de tamponamento cardíaco, mas esses dois últimos tra- tamentos não são regra e padrão, apesar de terem sido já descritos. Vale lembrar ainda os acessos cirúrgicos dos traumas vasculares arteriais cervicotorácicos: � aorta descendente (traumatizada 60% das vezes): toracotomia posterolateral esquerda; � arco da aorta (trauma em 10%): esternotomia mediana com circulação extracorpórea; � artéria inominada: esternotomia mediana. � vasos subclávios à esquerda: toracotomia ante- rolateral + incisão supraclavicular (toracotomia em alçapão ou janela); ou somente a remoção da clavícula e acesso direto. � vasos subclávios à direita: esternotomia mediana + cervicotomia, ou somente a remoção da claví- cula e acesso direto. � artéria carótida esquerda: esternotomia + cervi- cotomia. � artéria pulmonar: esternotomia. Pericardiocentese (punção de marfan) Deve ser feito com paciente em decúbito dorsal, antissepsia, colocação de campos e anestesia local e monitorizado (ECG). Introduz-se uma agulha longa (de peridural) no espaço xifocostal, dirigida para o om- bro esquerdo (via de Marfan) em 45º. Se houver alteração no traçado do complexo QRS, puxe a agulha para trás, pois provavelmente atingiu o músculo cardíaco. Aspirar com a seringa. A remoção de 30 mL de sangue incoagulável significa que está no saco pericárdico e produz significante me- lhora hemodinâmica. Logo após a pericardiocentese, introduz-se cateter por dentro da agulha e mantenha- -o posicionado no interior do saco pericárdico com torneira(dispositivo de três vias) na extremidade dis- tal até que o paciente possa ir à toracotomia. Talvez haja necessidade de aspirar mais sangue do saco peri- cárdico antes do tratamento definitivo. Figura 5.19 Punção de Marfan. Contusão miocárdica O trauma fechado do coração pode resultar em contusão do músculo cardíaco, rotura de câmaras car- díacas ou laceração valvular. A ruptura de câmaras car- díacas tipicamente se manifesta como tamponamento cardíaco. O FAST facilita o diagnóstico. O espectro de apresentação é amplo, variando desde uma condição benigna assintomática até arrit- mias, infarto e mesmo choque refratário à reposição volêmica. O trauma cardíaco fechado pode determinar ar- ritmias cardíacas, e o ECG (eletrocardiografia) é uti- lizado para triagem desses doentes. Os achados do ECG mais comuns são: extrassístoles ventriculares, alterações do segmento S-T, taquicardia sinusal inex- plicada, fibrilação atrial e bloqueios de ramos. Novas arritmias súbitas poderão ocorrer em 24 a 48 ho- ras, razão pela qual os doentes deverão ficar mo- nitorados. Após esse período de tempo a incidência de arritmias diminui consideravelmente. Os pacientes que apresentarem um ECG normal à admissão, dificil- mente apresentarão alguma arritmia posteriormente. 5 Trauma de tórax 53 Para os doentes com instabilidade hemodinâ- mica passageira inexplicada, está indicado o uso de ecocardiografi a, ou simplesmente o FAST (Focused Abdominal Sonography in Trauma), para afastar um eventual tamponamento cardíaco. Apesar de existirem vários estudos avaliando o uso de enzimas cardíacas como marcadores do trauma cardíaco, em especial enzimas cardíacas específi cas, como a troponina I, não há até o momento evidências que sustentem seu uso na prática clínica. Hérnia diafragmática traumática O trauma penetrante, na maioria das vezes, causa pequena perfuração no diafragma, que não leva imedia- tamente à formação de hérnia diafragmática. Já o trau- ma contuso produz grandes e radiadas lesões que con- duzem facilmente à herniação. O lado mais comum da hérnia diafragmática traumática é a esquerda. No entanto, estudos em cadáveres demonstraram que, em autópsias, o lado direito aparece mais frequentemente, porém, não é diagnosticado em razão da posição do fí- gado. Raramente, o trauma diafragmático é descoberto no período imediato pós-trauma. O paciente pode ser assintomático, mas achados radiológicos podem sugerir o diagnóstico através da elevação da cúpula diafragmática ou presença de nível hidroaéreo no tórax. O diagnóstico também pode ser melhor elucida- do por angiotomografi a de tórax ou esofagograma. To- davia, com certeza o método diagnóstico mais fácil da avaliação da hérnia diafragmática traumática é através de passagem de SNG e raio X de tórax PA, quedemonstrará a SNG enrolada no tórax, sugerindo o defeito traumático característico. Figura 5.20 Hérnia diafragmática traumática esquerda. Observam-se o fundo do estômago no hemitórax esquerdo pelo raio X de esôfago, estômago e duodeno contrastado (SEGD). Tratamento – Fase aguda: videolaparoscopia; – Fase tardia: toracoscopia. É importante entender que alternativamente em serviços que não tenham laparoscopia poderá ser feito a laparotomia exploradora e a toracotomia, respectivamente. No trauma agudo, a preferência pela via abdominal é indicada porque não há o pro- blema relacionado com a formação de aderências como existe em trauma diafragmático tardio. E as anuências ocorrem mesmo sem cirurgia e somente pelo trauma. Dica: não confunda hérnia diafragmática trau- mática com hérnia paraesofagiana e hérnia hitatal de deslizamento. As hérnias hiatais têm revestimento de peritônio enquanto as hérnias traumáticas não. A B Figura 5.21 raio X de tórax PA na suspeita de hérnia diafragmática. A: nível hidroaéreo no tórax à esquerda. Borramento do hemidiafragma à esquerda. B: observe a imagem da sonda nasogástrica no tórax. Lesão transfi xante de mediastino O trauma penetrante que atravessa o mediastino pode acarretar lesão de qualquer estrutura que esteja no tórax: coração, grandes vasos, ducto torácico, árvo- Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201554 re traqueobrônquica, pulmões, lesão medular e ainda esôfago. Suspeita-se desse tipo de lesão quando o fe- rimento de entrada encontra-se em um hemitórax e o de saída no hemitórax contralateral. A presença de pneumomediastino (enfise- ma mediastinal) faz suspeitar de lesão esofagia- na ou traqueobrônquica. Por outro lado, quando há hematoma de mediastino, deve-se pensar em lesão de grandes vasos. Há dois tipos de doentes com ferimento trans- fixante de mediastino: hemodinanicamente estáveis e instáveis. Pacientes instáveis deverão ter os dois he- mitórax drenados e encaminhados imediata- mente ao centro cirúrgico para toracotomia. Já os doentes estáveis hemodinamicamente também terão seus dois hemitórax drenados e irão provavelmente à toracotomia, mas terão tempo de fazer exames que auxiliarão no diagnóstico e reparo da lesão: FAST, EDA, broncoscopia, angiotomografia helicoidal, esofagograma com contraste baritado. O exame primário detectará as prioridades do atendimento. Caso exista hemopneumotórax com grande perda sanguínea e anormalidade hemodinâmi- ca com sinais de tamponamento cardíaco, a indicação de drenagem pleural imediata e exploração cirúrgica por toracotomia podem ser necessárias. O cirurgião deve optar por qual hemitórax vai iniciar a toracoto- mia, tendo como parâmetro a presença de tampona- mento cardíaco ou o hemitórax com maior volume de sangue drenado. O paciente em decúbito dorsal ho- rizontal é submetido à toracotomia anterolateral no 4º EIC que pode ser prolongada para o outro lado por meio de bitoracotomia. Os doentes estáveis hemodinamicamente (cerca de 50% dos casos), mesmo que não apresentem sinais clínicos e radiológicos iniciais de lesões de órgãos me- diastinais, devem ser avaliados por meio de exames auxiliares, para excluir lesões de esôfago, traqueia, brônquios, vasos mediastinais e coração. O FAST en- focando o pericárdio deve conduzir o início da investi- gação ainda como exame adjunto ao primário. A TC helicoidal deverá ser feita para descartar hematoma mediastinal e sinais de rotura traumática da aorta em pacientes estáveis, além de avaliar pene- tração da cavidade torácica. Ela tem sensibilidade e especificidade de 100% para a detecção de rotura traumática da aorta. A via de acesso cirúrgico, se toracotomia esquerda ou direita ou bitoracotomia, dependerá do diagnóstico das estruturas torácicas lesadas. A mortalidade global desse tipo de ferimento está em torno de 20%. Essa porcentagem duplica se o paciente se encontra instável. Trauma de esôfago Em 95% das vezes resultam de trauma pe- netrante. Entretanto, lesões de esôfago por trauma fechado podem ser causadas por golpe de forte inten- sidade no abdome superior, levando à expulsão força- da do conteúdo gástrico para o esôfago, produzindo lacerações no esôfago inferior e quadro semelhante à síndrome de Boerhaave com rotura de todas as cama- das do esôfago. A abertura para o espaço pleural causa empiema e mediastinite. O quadro clínico é igual ao da ruptura pós-hemética (Boerhaave). Deve-se considerar uma possível lesão de esôfago quando: 1. Presença de PTX ou hemotórax à esquerda sem sinais de fratura de costelas; 2. Cinemática de trauma em paciente vítima de golpe em região esternal inferior ou epigástrica; 3. Choque desproporcional sem causa aparente; 4. Eliminação de restos alimentares pelo dre- no torácico; A presença de ar no mediastino também sugere o diagnóstico, frequentemente confirmado por estudos contrastados e EDA. Classificação das lesões esofágicas segundo a Ameri- can Association for the Surgery of Trauma (AAST) Grau da lesão Descrição das lesões I Contusão/hematoma ou laceração parcial sem abertura II Laceração < 50% da circunferência III Laceração ≥ 50% da circunferência IV Perda tecidual ou desvascularização < 2 cm V Perda tecidual ou desvascularização ≥ 2 cm Tabela 5.5 Debate sobre exames contrastados Existe debate se usar gastrografina ou bário no esofagograma. Gastrografina, um contraste hidrosso- lúvel, é importante utilizar no abdome, mas não no tórax porque, se houver fístula esofágica e trauma pulmonar, poderá resultar em pneumonite química, já que é irritante para a mucosa respiratória na pre- sença de fístula traqueoesofágica. Entretanto, como a gastrografina é relativamente inócua no mediastino, alguns preferem esse contraste primeiro para depois usar bário. O problema da gastrografina é que ela é menos radiodensa e pode não delinear adequadamen- te pequenas perfurações e vazamentos. A maior parte dos cirurgiões torácicos prefere o uso de bário para fe- rimentos em esôfago torácico. 5 Trauma de tórax 55 Veja o algoritmo a seguir (fi gura 5.22) e apro- veite para relembrar o tratamento não só de lesões traumáticas de esôfago mas aquelas por cáusticos e Boerhaave que serão estudados na apostila de Cirur- gia do Esôfago SJT. Tratamento Conservador O manejo não operatório da perfuração esofági- ca ainda é controverso. Entretanto, já existem relatos de sucesso, principalmente nas lesões iatrogênicas e perfurações por corpo estranho. Nos traumas pene- trantes e contusos, o tratamento deve ser cirúrgico, permitindo a correção da lesão esofágica e a identifi ca- ção e correção das frequentes lesões associadas. Para indicar o tratamento não operatório, é neces- sário que o paciente esteja estável hemodinamicamen- te e não tenha evidência clínica de sepse. Além disso, deve ser excluída, por exame de imagem, a presença de abscesso ou sinais de mediastinite. As perfurações que ocorrem em esôfago patológico não devem ser in- cluídas na possibilidade de tratamento conservador. O tratamento consiste em observação rigorosa do pacien- te, passagem por via endoscópica de SNE ou nutrição parenteral total e uso de antibioticoterapia. Ocorrendo qualquer evidência de piora clínica e progressão de pro- cesso infeccioso, o tratamento não operatório deve ser interrompido e a cirurgia realizada imediatamente. Cirúrgico O segredo do tratamento do trauma de esôfago é o diagnóstico precoce das lesões (< 24 horas), sugerido por pneumomediastino (sinal patognomônico da per- furação) e enfi sema subcutâneo, além de avaliar se a perfuração é grande (há extravasamento de contraste por esofagograma). Esôfago cervical Quando as condições locais são adequadas e a le- são tem pouco tempo de evolução e baixa graduação, a sutura simples, em plano único, associada à drenagem da região, é o tratamento adequado. O debridamento do ferimento deve ser lembrado, principalmente nos ferimentos por projétil de arma de fogo, assimcomo a passagem de sonda nasoenteral (SNE) antes do fe- chamento da lesão, com o objetivo de nutrição preco- ce. Nas lesões em que já existem sinais importantes de infecção ou desvascularização, deve ser realizada ressecção com fechamento do esôfago distal e esofa- gostomia proximal ou, ainda, esofagostomia no local da lesão, em dupla boca, sendo que a jejunostomia, nessas duas alternativas, pode ser necessária. A opção por deixar pele e tecido subcutâneo abertos pode auxi- liar no controle de infecção local e impedir a formação de abscessos, que podem ocasionar fístulas, deiscên- cias ou dissecção para o mediastino, com consequente mediastinite descendente. Pode-se encontrar, duran- te o ato operatório, somente abscesso local com lesão puntiforme ou ausência de perfuração visível. Nesses casos, apenas a drenagem com passagem de SNE é a opção adequada. Lesão de Esôfago Cervical Pouco tempo de evolução Baixa graduação Sem infecção local Longo tempo de evolução Sinais de infecção ou desvascularização Esofagostomia no local da lesãoDebridamento Lesões puntiformes Abscessos sem visualização da lesão Ressecção local Fechamento distal Esofagostomia Jejunostomia Jejunostomia Drenagem SNE SNE Sutura Drenagem Figura 5.22 conduta nas lesões de esôfago cervical. SNE: sonda na- soenteral. Esôfago torácico A abordagem cirúrgica deve, preferencialmente, ser realizada por toracotomia posterolateral direita. Faz-se necessária entubação seletiva para exposição adequada do esôfago (tubo de Carlens). A conduta depende, sobretudo, do tempo de evolução e, conse- quentemente, das condições locais. Nas lesões com pouco tempo de evolução (<12 horas) e sem sinais infecciosos locais, pode ser realizado reparo primá- rio da lesão, passagem de SNE e drenagem pleural. Nas situações em que já existem sinais infl amatórios ou secreção purulenta restrita ao local, a lesão ainda pode ser debridada, reparada e drenada, mas é neces- sário desvio do trânsito mediante esofagostomia e re- alização de jejunostomia, pois a chance de fístula ou deiscência é grande. Nos casos em que a lesão é tardia (>24 horas), com sinais de mediastinite e as condições locais demonstram infl amação, infecção ou desvascu- larização e/ou, ainda, no paciente com choque séptico, a esofagectomia pode ser opção aplicável como forma de evitar complicações graves e fatais. Nos casos com infecção grave, a antibioticoterapia deve ser instituí- da, com fármacos de amplo espectro e com cobertura para anaeróbios, sendo a nutrição precoce fundamen- tal na prevenção e no combate à infecção. A cerclagem distal do esôfago, com o objetivo de impedir o refl uxo do conteúdo gástrico, é procedi- mento teoricamente adequado mas que não possui, na literatura, comprovação efetiva de sua validade. A prá- tica de gastrostomia, para também evitar refl uxo ou Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201556 para nutrição, deve ser evitada, pois estômago íntegro é necessário para posterior reconstrução do trânsito. Uma opção válida, quando se faz reparo do esôfago, é a colocação de um patch de pleura, pericárdio ou mus- culatura intercostal como reforço. A conduta diminui significativamente as fístulas deiscências. Alguns re- latos na literatura citam a colocação de um tubo em T no local da lesão,. quando não houver possibilidade de repará-la, orientando trajeto fístuloso. Lesão de Esôfago Torácico Tempo de evolução < 12h Sem sinais de infecção local Tempo de evolução > 24h Sinais de mediastinite Infecção grave e desvacularização Choque séptico Tempo de evoluçãointermediário (12-24h) Infecção restrita ao local EsofagectomiaDebridamento Debridamento Esofagectomia cervicalSNE Jejunostomia Reparo Reparo Esofagectomia cervical Drenagem Jejunostomia Figura 5.23 conduta nas lesões de esôfago torácico. SNE: sonda na- soenteral. Esôfago abdominal A maioria das lesões de esôfago abdominal é detectada no transoperatório, sendo importante ins- peção cuidadosa dessa região, que nem sempre é de fácil acesso. A base do tratamento lesões esofágicas abdominais é o debridamento e rafia da lesão, com re- forço através de fundoplicatura. A jejunostomia tem indicação para nutrir precocemente e servir como op- ção enteral nos casos de fístulas. Nas lesões em que existe necessidade de ressecção de um segmento do esôfago, não havendo alto grau de contaminação a anastomose deve ser realizada com o estômago e não com o próprio esôfago, diminuindo o risco de fístula ou deiscência. Caso o reparo ou a anastomose sejam proibitivos, o esôfago distal deve ser fechado e realiza- -se, primariamente ou após a estabilização clínica, je- junostomia e esofagostomia cervical. A drenagem da região após sutura ou anastomose deve ficar a critério do cirurgião, de acordo com sua avaliação e experiên- cia. A colocação de omento sobre o reparo também pode ser realizada com o intuito de reforçá-lo e evitar a formação de fístulas. Lesão de Esôfago Torácico Tempo de evolução < 12h Sem sinais de infecção local Tempo de evolução > 24h Sinais de mediastinite Infecção grave e desvacularização Choque séptico Tempo de evoluçãointermediário (12-24h) Infecção restrita ao local EsofagectomiaDebridamento Debridamento Esofagectomia cervicalSNE Jejunostomia Reparo Reparo Esofagectomia cervical Drenagem Jejunostomia Figura 5.24 conduta nas lesões de esôfago abdominal. Ferimentos da zona de transição toracoabdominal Devem ser investigados para excluir lesão de dia- fragma que está associado em 40% das vezes. Se houver saída de epíplon pelo orifício torácico, presença de pe- ritonite, o diagnóstico está confirmado e o paciente de- verá ir à laparotomia. Entretanto, se o paciente estiver estável, com pouca ou nenhuma sintomatologia, exames deverão ser feitos como FAST, TC e mesmo LPD (muitas vezes o líquido infundido no LPD aparece no tórax). Se o doente desenvolver peritonite ou o lavado for positivo, indica-se cirurgia (laparoscopia em pacientes estáveis). A melhor indicação da laparoscopia no trauma são naqueles ferimentos tangenciais toracoabdominais ou em flanco, em pacientes estáveis hemodinamicamente, quando existe dúvi- da da penetração da cavidade peritoneal visando evitar lapa- rotomias desnecessárias. Os ferimentos penetrantes da transição toracoabdominal são aqueles entre a linha in- termamilar anteriormente (4º EIC) até o final do rebordo costal e o 7º EIC posteriormente (ângulo da escápula). Os pacientes que se apresentam com desconfor- to respiratório após trauma abdominal fechado podem ter vísceras herniadas ao espaço pleural esquerdo, pro- vocando desconforto respiratório importante. A dre- nagem pleural esquerda no 5º EIC deverá ser urgente, com o importante detalhe técnico de se explorar o es- paço pleural digitalmente antes de se introduzir o dre- no tubular. Ao se suspeitar de víscera abdominal no espaço pleural, a introdução do dreno deve ser realiza- da de modo a se evitar lesão iatrogênica. A passagem de SNG se faz necessária para descompressão gástrica e melhora da ventilação pulmonar. Ainda como adjunto ao exame primário, deve-se fazer raio X de tórax para confirmação da posição do dreno pleural, sinais de hérnia diafragmática e avalia- ção de expansão pulmonar. A presença da SNG no me- diastino no raio X de tórax simples confirma a lesão. Em versões anteriores do ATLS, todo o ferimen- to toracoabdominal deveria ir necessariamente a lapa- rotomia exploradora. Mesmo com a evolução tecnológica, ainda podem existir dúvidas da penetração da cavidade peritoneal. Nesse contexto surgiu a laparoscopia no trauma que visa avaliar a ocorrência de penetração na cavidade abdomi- nal, sendo importante como técnica diagnóstica e tam- bém terapêutica em casos selecionados (ferimentos pa- renquimatosos de fígado, baço; ferimentos de estômago e diafragma). O uso da laparoscopia em víscera oca será discutido no capítulo de trauma abdominal. 5 Trauma de tórax 57 Na ausência de serviçode laparoscopia, o pa- ciente deverá ir à laparotomia exploradora para avaliação de penetração da cavidade abdominal. Uma vez realizado o diagnóstico de lesão dia- fragmática, devem ser avaliados no intraoperatório a presença de hemotórax e o grau de contaminação por conteúdo extravasado do tubo digestivo aspirado ao espaço pleural. A ampla limpeza do espaço pleural, seguida de drenagem adequada, diminui os riscos de complicações pleuropulmonares no pós-operatório. O uso da videotoracoscopia (VT) é alternativa na suspeita de ferimento diafragmático para os pacientes que já tiveram invasão da pleura por ferimento traumáti- co cujo tórax já foi drenado. O problema da videotoracos- copia é que ela não pode visualizar a cavidade abdominal. Nesse sentido, a laparoscopia no trauma, antes muito temida por alto índice associado de lesões despercebi- das, agora mostra-se procedimento efetivo no diagnós- tico de lesões traumáticas por ferimento penetrante quando empregada em protocolo racional, utilizando-se de pronta conversão para a laparotomia na presença de ferimentos aos “pontos cegos do abdome” (hematoma retroperitoneal de zona I, II ou III, ferimentos em seg- mento hepático VI e VII, lesão na parte posterior do baço e ferimentos de cólon) conforme publicado por Kawaha- ra & Alster no Journal of Trauma em 2009. Cabe salien- tar que esse protocolo padronizado em nível mundial foi brasileiro do HCFMUSP. Além disso, a laparoscopia tam- bém já foi descrita para autotransfusão e para correção de lesões cardíacas no tórax. Esse protocolo demonstrou que o diagnóstico de lesões de intestino delgado tem acu- rácia de 100%, mas a laparoscopia deverá ser contraindi- cada para uso no trauma retroperitoneal. Toracotomia no trauma de tórax Os traumatismos torácicos são, em sua grande maioria (80% dos casos), tratados por procedimentos simples e medidas conservadoras. Todavia, 20-30% dos ferimentos penetrantes tem indicação de toracotomia. Toracotomia de reanimação São objetivos essenciais: realizar massagem cardíaca interna e pinçamento da aorta, o que permite aumento no fl uxo do sangue oxigenado para as coro- nárias e artérias cerebrais, reduzindo simultaneamen- te uma eventual hemorragia. Não há tempo hábil para realizar exames. O doente está em parada cardíaca ou em vias de apre- sentá-la. Nessa situação, a via de acesso escolhida será sempre a toracotomia anterior esquerda, independen- temente do tipo e local do trauma. Toracotomia de emergência Os pacientes candidatos a esse tipo de pro- cedimento são aqueles hemodinamicamente ins- táveis: em choque profundo, sem parada cardíaca. Nesses casos, toracotomia de reanimação obviamente não se aplica. É necessário tratamento para coibir a he- morragia intratorácica, fonte da hemorragia. O diag- nóstico do local de sangramento só é obtido durante a cirurgia. Não há tempo para obter o diagnóstico por meio de exames. Pode ser difícil decidir sobre a via de acesso se a fonte de sangramento ainda não foi diag- nosticada. É preciso usar uma via que permita rápido acesso aos órgãos suspeitos de causar o sangramento. Deve-se preferir a toracotomia. Nos ferimentos pe- netrantes, a toracotomia deve ser direita ou esquer- da, conforme o hemitórax comprometido. A decisão fi ca mais difícil quando o ferimento é transfi xante no mediastino. Nesses casos, é preferível a toracotomia anterolateral esquerda, pois esta via permite acesso à maioria dos órgãos responsáveis por hemorragia: co- ração e grandes vasos. São raras as situações em que esta via não permite tratar a lesão. Se isto acontecer, deve-se ampliar a incisão via esternotomia transver- sal. Assim, pode-se alcançar o lado oposto do tórax. Toracotomia de urgência Os candidatos a este tipo de toracotomia são os pacientes hemodinamicamente estáveis. Nesses, há tempo hábil para realizar exames subsidi- ários e, portanto, tentar fi rmar o diagnóstico. Raio X, endoscopia, arteriografi a, TC, videotoracoscopia são exames que permitem confi rmar o diagnóstico, sendo realizados principalmente em função do mecanismo do trauma, não pelos sintomas dos pacientes. Na toracotomia de urgência, não há difi cul- dades para escolher a via de acesso, pois a lesão já é conhecida. Além disso, a maior disponibilidade de tempo para o atendimento ao traumatizado permite o concurso de um especialista. Videotracoscopia no trauma de tórax Para os pacientes portadores de hemotórax, pneumotórax ou hemopneutórax traumático, quando a drenagem pleural não for efi caz (são poucos os ca- sos) o próximo passo é a videocirurgia, logo, é trata- mento de exceção. Em relação ao ferimento da transição toracoab- dominal, uma área de difícil avaliação, particularmen- te no trauma penetrante e em especial no diagnóstico de lesão diafragmática, a videocirurgia é um método excelente, seja por via toracoscópica ou laparoscópica. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201558 Quando o ferimento está localizado no tórax e há derrame pleural dê preferência à toracoscopia. Caso se constate lesão diafragmática, complemente com videolaparoscopia. Peculiaridades da análise da radiografia de tórax Da mesma maneira como existe a sequência AB- CDE no atendimento ao politraumatizado, existe uma padronização da visualização do raio X de tórax , a saber: 1- Verificar se o raio X realmente é do paciente para não cometer procedimentos errôneos em outro indivíduo; 2A- Via aérea: avaliar traqueia e brônquios: desvio de traqueia para direita (PTX ou rotura trau- mática da aorta) ou para a esquerda (PTX ou lesão de artéria inominada) e/ou rebaixamento de brônquio esquerdo (rotura traumática da aorta). Visualizar se não há presença de pneumomediastino em linha tê- nue lateralmente à traqueia; 3B- Respiração: avaliar parênquima pulmonar: observar se a trama vascular vai até a periferia (PTX apa- rece preto no raio X e denota ausência de trama vascular); avaliar recessos costofrênicos se estão velados ou há des- locamento medial sugerindo presença de hemopneumo- tórax. Avaliar presença de infiltrações e opacidades su- gestivas de contusão pulmonar pela história do trauma. 3C- Coração: avalie o mediastino superior em busca de alargamento de mediastino (> 8 cm) ou apaga- mento do cajado aórtico (sinal mais confiável na rotura traumática da aorta); rever se não há nenhum pneumo- mediastino. No mediastino inferior, considerar altera- ção na silhueta cardíaca (pneumomediastino) e suspei- ta de insuficiência cardíaca (área cardíaca > 0,5). D- Diafragma: avaliar se não existe nível hidro- aéreo no tórax, elevação da cúpula diafragmática ou presença de pneumoperitônio (observe lâmina de ar à esquerda); localização de bolha gástrica. E- Esqueleto: analisar possíveis fraturas de cla- vícula, escápula, costelas e esterno. F- Falta ver partes moles (enfisema subcutâneo), drenos, tubos e monitorização do paciente. F (fat) subcutâneo: procurar evidência de enfi- sema subcutâneo e deslocamento ou interrupção de planos teciduais. G (guides and tubs) Guias e tubos: analisar po- sição de tubo endotraqueal, drenos de tórax, cateteres venosos centrais, sonda nasogástrica e outros disposi- tivos de monitorização. ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA Capítulo 2 Capítulo 6 Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201560 Introdução O trauma abdominal fechado é frequente, tendo como causa principal o acidente automobilístico em grandes núcleos de trauma. Por outro lado, centros de periferia têm maior incidência de trauma penetrante. Outras causas incluem atropelamento, aci dente de motocicleta, bicicleta, quedas e assalto. Durante a avaliação primária do trauma abdomi- nal fechado, a avaliação da circulação inclui o ponto de reconhecimento de hemorragias abdominopelvicas. Infelizmente, a lesão despercebida abdominal con- tinua sendo causa frequente de mortes evitáveis por trauma do tronco. A identificação do órgão abdominal mais fre- quentemente lesadorelaciona-se com o mecanismo do trauma porque a incidência dos traumas diferem para o tipo de trauma aberto (ferimento por arma branca (FAB) versus ferimento por arma de fogo (FAF)) bem como para o trauma fechado. Trauma fechado (contuso) � Baço: 40-55%; � Fígado: 35-45%; � Hematoma retroperitoneal: 15%; � Intestino delgado: 5-10%. Órgãos mais lesados por FAB: � Fígado: 40%; � Intestino delgado: 30%; � Diafragma: 20%; � Cólon: 15%. Órgãos mais lesados por FAF: � Intestino delgado 50%; � Cólon 40%; � Fígado 30%; � Lesões vasculares 25%. Trauma penetrante O trauma abdominal é definido como pene- trante quando existe solução de continuidade na aponeurose anterior. Antigamente se definia a penetração abdominal pela perfuração do peritônio, mas o ATLS e a maior parte dos centros coloca a fáscia anterior (aponeurose anterior) como ponto marco da identificação da penetração da cavidade abdominal. O trauma fechado é mais comum em países desenvolvi- dos, ao passo que as agressões por armas brancas ou projéteis de arma de fogo são mais comuns nos países em desenvolvimento e subdesenvolvidos. Repare que 90% dos FAF resultam em penetra- ção da cavidade abdominal com lesões intra-abdomi- nais importantes. Em comparação, apenas 30% dos FAB apresentam lesões intraperitoneais associadas. Qualquer paciente deverá ir à exploração cirúr- gica da cavidade peritoneal desde que apresente: � Choque não responsivo à reposição volêmica de 4 L de cristalóides; � FAF com suspeita de penetração na cavidade peritoneal; � Sinais de irritação peritoneal; � Penetrabilidade da aponeurose anterior. Cerca de 33% dos ferimentos penetrantes não atingem a cavidade abdominal. É nesse contexto que a laparoscopia no trauma vem para avaliar melhor a possibilidade de penetração da cavidade peritoneal em pacientes estáveis com o grande objetivo de evitar laparotomias desnecessárias e a comorbidade relacio- nada a esse procedimento (tema discutido a seguir). Anatomia Quatro áreas são importantes: � Parede abdominal anterior: entre os rebordo costais e os ligamentos inguinais, anteriormente às linhas axilares anteriores. � Flancos: zona entre as linhas axi lares anterior e posterior (limite suerior desde os rebordos costais no 6º EIC até limite inferior nas cristas ilíacas). � Região dorsal: área entre as linhas axilares pos- teriores, desde as pontas das escápulas até as cris- tas ilíacas. � Região toracoabdominal ou abdome intrato- rácico: vai desde a linha intermamilar até o final do rebordo costal anteriormente no 4ºEIC, 6ºEIC lateralmente no flanco e 8º EIC posteriormente. As vísceras intraperitoneais são mais lesadas nos ferimentos an teriores, já as retroperitoneais nos trau- mas posteriores. A necessidade de tratamento ope- ratório é maior nos ferimentos anteriores e menor nos posteriores. A apresentação clínica é diferente, sendo os sinais de peritonite mais frequentes nas lesões da parede anterior. A avaliação diagnóstica depende da região em análise, sendo os métodos de imagem (TC) mais sensíveis no diagnóstico das lesões posteriores e existem trauma de retro peritoneais em que não apa- recem sinais de lesões no lavado peritoneal diagnósti- co (LPD). 6 Trauma abdominal 61 Os ferimentos de parede anterior necessitam de menor ener- gia cinética para ocorrer porque é mais delgada em relação à região posterolateral do abdome e o dorso (protegido pe- los músculos paraespinhais) em que os músculos agem como importante barreira de proteção a traumas. Anatomia interna do abdome Entenda que o abdome possui três compartimentos: � cavidade peritoneal; � cavidade pélvica; � cavidade retroperitoneal. É importante saber essa classifi cação pois, du- rante uma expiração profunda, o diafragma pode elevar-se até o 4º EIC e fraturas nas costelas inferio- res abaixo da linha do mamilo podem causar lesões de vísceras abdominais. Estruturas que estão no espaço retroperitoneal: � aorta e cava; � duodeno; � cólon ascendente e descendente (faces posteriores); � rins, pâncreas e ureter. � componentes retroperitoneais da cavidade pélvica. É fundamental entender essas peculiaridades sobre o retroperitônio porque muitas das lesões nes- sa região não mostram sinais de irritação peritoneal, nem peritonite e tampouco LPD positivo. Avaliação História O paciente, quando consciente, é quem melhor presta essa informação. O pessoal do resgate e a polí- cia também podem fornecer detalhes importantes: a cinemática do trauma, uso de dispositivos de seguran- ça (cinto de segurança de duas ou três pontas, air bag), óbitos no local, posição no carro, se fi cou preso nas ferragens, tempo até chegada no hospital (delta t) e se houve perda total do carro. A distância do trauma pe- netrante também é fator fundamental a saber porque FAF com distância > 3 metros diminui a probabilidade de lesões viscerais. O paciente hipotenso precisa ser adequadamente avaliado quanto à causa da hipotensão, se realmente é abdominal. Fraturas podem sangrar muito, sobretudo as pélvicas (> 2 L) e fraturas de fêmur (1,5 L), podendo confundir a avaliação. A reavaliação no trauma , através do exame físico seriado re- alizado por um mesmo médico, tem a mesma sensibilidade para indicação de laparotomia do que uma TC de duplo ou triplo contraste! Portanto, reavalie o paciente. Figura 6.1 sinal do cinto de segurança: as marcas na pele evidenciam a síndrome do cinto de segurança, comprovadas pela presença de erite- ma. Equimoses violáceas e escoriações em faixa também podem prog- nosticar lesões internas por explosão ou cisalhamento de vísceras ocas (duodeno e ceco), bruscamente comprimidas contra a coluna dorsal. Fraturas de Chance na coluna, lesões de pâncreas e ureter também vêm sendo descritas e relacionadas com esse mecanismo de trauma. Em vítimas de trauma automobilístico é im- portante estimar: 1. A velocidade do veículo; 2. Tipo de colisão; 3. Se houve destruição grave do veículo, com in- trusão de partes do veículo no compartimento do pas- sageiro etc.; 4. Uso de dispositivos de restrição/airbags; 5. Condições dos outros ocupantes. Os integrantes do grupo de resgate devem forne- cer informações sobre: a) Sinais vitais; b) Lesões óbvias ao exame físico; c) Resposta do doente às medidas terapêuticas. Tratando-se de trauma penetrante é funda- mental saber: 1. Momento em que ocorreu a agressão; 2. Tipo de arma (FAB, FAF, qual calibre); 3. Distância entre a vítima e o agressor (3 metros); 4. Número de facadas (FAFs); 5. Intensidade da dor abdominal, sinais como irradiação para o ombro (sinal de Kehr na rotura esplênica). Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201562 Características dos Ferimentos por Projétil Nos ferimentos causados por projéteis, além da distância do disparo (distância menor de 3 metros maior o dano), temos: � Orifício de entrada: é menor do que o de sa- ída; geralmente tem formato oval, redondo ou, por vezes, em fenda. Os tiros a distância apre- sentam apenas zona de contusão e enxugo. Nos disparos à queima-roupa (curta distância), além das características peculiares a todas as distân- cias de tiro (contusão e enxugo), ainda pode- rão existir uma orla de queimadura e a clássi- ca área de tatuagem e esfumaçamento. � Buraco de mina de Hoffman: encontrado em marcas de FAFs encostados nas têmporas ou na mastoide. Por sua vez, os tiros encostados, prin- cipalmente quando feitos sobre áreas teciduais de grande densidade (osso), causam intensa des- truição sob a superfície tegumentar, em razão da rápida e poderosa expansão dos gases. Projéteis de grande massa e baixa velocidade (calibres 38, 44 e 45) produzem grande área de destruição, porém não muito profunda, enquanto os FAFs de alta velocidade (calibre 7.62) causam grande e profunda destruição tecidual, diretamente pro- porcionais à densidade do tecido atingido. � Orifício de saída: tem maior diâmetro que o de entrada. O contorno é irregular e as bordasgeralmente encontram-se viradas para fora. Não exibe nenhuma das zonas características do orifício de entrada. Exame físico A verificação abdominal deverá ser feita no exame secundário após o exame primário ter sido realizado (ABCDE) e exames adjuntos ao exame primário (raio X de tórax AP, coluna cervical perfil C1-T1, pelve AP) te- nham sido solicitados e avaliados conforme o caso. Inspeção O paciente deve estar completamente despido. As faces anterior e posterior do abdome, o tórax inferior e o períneo devem ser inspecionados em busca de es- coriações, contusões, lacerações e ferimentos penetran- tes. O paciente deve ser cuidadosamente rolado para permitir o exame completo do dorso, ou seja, tanto o abdome anterior como o posterior, incluindo o períneo. Atenção: o paciente deverá ser rolado com a pre- sença de pelo menos 4 pessoas. Um fica responsável pelo controle da coluna cervical, os outros dois na mo- vimentação do tronco e o último examinará e palpará o dorso. Nos EUA, dispositivos como o PASG (pneuma- tic anti-shock gargment) deverão ser removidos para exame, mas o paciente deverá ser bem hidratado para não entrar em choque hipovolêmico na desin- suflação do PASG. Esse mecanismo funciona como um grande esfigmanômetro visando aumentar a re- sistência periférica para o paciente ter melhor pres- são. Ele está contraindicado em situações como su- peita de trauma de diafragma. Se a pressão sistólica cair mais de 5 mmHg subitamente deve-se reinflar o PASG e hidratar mais o paciente antes de nova desinsuflação. O PASG não é mais usado tanto quanto no passado, mas em casos de fratura de bacia ele é muito eficaz porque é útil na fixação da bacia. Ausculta O abdome deve ser auscultado para a avaliação dos ruídos hidroaéreos (RHA). A presença de sangue ou conteúdo intestinal pode levar ao íleo paralítico ou adinâmico, resultando na ausência dos RHA. Entre- tanto, a ausência de RHA não é diagnóstica de lesões intra-abdominais. O íleo também pode ocorrer em consequência de traumas extra-abdominais, como fra- turas de costelas, coluna ou pelve. Percussão A percussão do abdome após o trauma tem por objetivo primário verificar, de forma sutil, se existe dor à descompressão brusca. Esta manobra deter- mina existência de irritação peritoneal (DB+). Pro- duz uma resposta similar à obtida quando o pacien- te tosse. E se presente nem precisa pesquisar dor a descompressão brusca porque já é sinal que existe irritação peritoneal. Macicez difusa leva a pensar em hemoperitônio. Palpação A palpação abdominal fornece informações sub- jetivas e objetivas. As primeiras consistem na avalia- ção, pelo próprio paciente, da localização e intensi- dade da dor. A dor inicialmente é de origem visceral e com localização imprecisa. Aumento voluntário da tensão da parede abdominal resulta do medo de sentir dor e pode não corresponder a lesões viscerais signifi- cativas. Por outro lado, um aumento involuntário da tensão da musculatura é um sinal fidedigno de irrita- ção peritoneal (DB+). Da mesma forma, dor bem ca- racterizada à descompressão súbita é sinal inequívoco de peritonite. Podemos encontrar sinais de irritação peritoneal por hemoperitônio e secreções do trato 6 Trauma abdominal 63 gastrointestinal na cavidade pela palpação, bem como estabelecer diagnóstico de útero gravídico e ainda es- timar a idade do feto. Toque retal O toque retal é um item importante da avalia- ção abdominal. Os objetivos básicos do toque retal nos traumas penetrantes são: detecção da presen- ça de sangue na luz intestinal (indicativa de perfuração intestinal) e avaliação do tônus do es- fíncter anal, para estimar a integridade da medula espinhal. Após uma contusão abdominal, a parede do reto também deve ser examinada na tentativa de palpar fragmentos ósseos (fratura de bacia) e para avaliar a posição da próstata. A próstata elevada e flutuante, sugere a possibilidade de rotura da uretra posterior. A presença de crepitação ao toque revela pneumo-retroperitônio, sugerindo ro- tura de estruturas retroperitoneais como duodeno ou parede posterior de cólon ascendente ou des- cendente. É mais raro esse achado no exame físi- co. Entretanto, no raio X de abdome e na TC pode aparecer enfisema retroperitoneal que diagnostica a rotura de víscera retroperitoneal. Existe uma dis- cussão sobre toque retal no ATLS 2008 que pode ser realizado antes da sondagem vesical. A substituição da obrigatoridariedade pela possibilidade de rea- lizar o toque retal é porque existem outros sinais no exame clínico sem ser o manejo retal com igual poder preditivo (99%) de lesão de uretra como: impossibilidade de urinar, sangue no meatro uretral e uretrorragia, equimose perineal, he- matomas no períneo e fratura instável do anel pélvico. De qualquer forma, no paciente com fra- tura de bacia ou com equimose perineal, o toque re- tal é aconselhável antes da sondagem vesical, assim como sangue no meato uretral e uretroragia tam- bém indicam uretrocistografia retrógrada antes do cateterismo vesical retrógrado. Avaliação de ferimentos penetrantes Sempre que existir a suspeita de ferimen- to tangencial (superfi cial ou de raspão à camada musculoaponeurótica do abdome), pode-se optar pela exploração da ferida com anestesia local para avaliar se ultrapassou ou não a fáscia anterior (aponeurose anterior). Esse procedimento está con- traindicado em lesões acima do rebordo costal, pelo risco de causar PTX, hemotórax e destamponamento de hematoma (ver capítulo de trauma de tórax - feri- mentos toracoabdominais). O ferimento penetrante é aquele que ultrapassou a aponeu- rose anterior do abdome e os músculos posteriormente. A exploração de ferimentos por arma branca é fundamental. Cerca de 25 a 33% dos FAB não pene- tram no peritônio. É conduta útil na dúvida da pene- tração da cavidade peritoneal se o paciente não está hipotenso e não tem sinais de irritação peritoneal. Deve-se proceder à antissepsia + anestesia e explora- ção do local da ferida. Em ferimentos tangenciais toracoabdominais e em fl anco, sejam FABs ou FAFs, em pacientes hemodinamicamente es- táveis, na dúvida da penetração da cavidade peritoneal, a la- paroscopia é o exame padrão ouro. Historicamente, a laparoscopia no trauma tinha um alto índice de lesões despercebidas intestinais com apenas 80% dos ferimentos sendo corretamente diagnosticados. Entretanto, por haver essa discrepân- cia na literatura, em recente publicação no Journal of Trauma 2009, Kawahara & Alster demonstraram que quando um protocolo racional, fi dedigno e reprodutí- vel de laparoscopia no trauma é empregado, as lesões intestinais são diagnosticadas em 100% das vezes em pacientes selecionados. Atualmente, a laparoscopia é procedimento efetivo no diagnóstico de penetração da cavidade peritoneal e lesões traumáticas por ferimento pe- netrante. Há de se entender que várias lesões intes- tinais passavam despercebidas porque antigamente não se fazia o correr de alças por laparoscopia que foi o grande objetivo da padronização dos procedi- mentos laparoscópicos desse trabalho também cita- do no ATLS. O trabalho demonstrou que na ocorrência de traumas penetrantes existem “pontos cegos no ab- dome” para a laparoscopia que se associam ao alto índice de lesões despercebidas. A evidência de feri- mentos penetrantes nos pontos cegos do abdome é indicação de conversão para laparotomia exploradora. Eis os pontos cegos: (hematoma retroperi- toneal de zona I, II ou III, ferimentos em segmento hepático VI e VII, lesão na parte posterior do baço e ferimentos de cólon). Laparoscopia no trauma é ótima para avaliação da cavidade peritoneal, mas não é efi caz nem efetiva para identifi cação de lesões traumáticas no retroperitônio que devem ser corri- gidas por laparotomia exploradora. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201564 FAB Toracoabdominal ou em �anco Penetração da cavidade peritonial? FAF ou FAB ABDOMINAL (Paciente Estável) Alta"Bowel running" + Laparoscopia Terapêutica Lesão Parenquimatosa Estômago Diafragma Laparoscopia LAPAROTOMIA Instável Considere Cristalóides TORACOTOMIA Pontos Cegos: -Hematoma retroperitonial (I, II e III); -Parede post. do baço; -Segmento VI e VII do fígado. -Lesão do cólon Estável FAST LPD + - - INSUCESSO Toracoabdominal LaparotomiaLaparoscopia SIM SIM NÃO Penetração Peritonial Alta Insucesso Lesão Parenquimatosa Estômago Diafragma "Bowel runnig" + Laparoscopia Terapêutica PONTOS CEGOS: -Hematoma retroperitonial (I, II, III); -Parede post. do baço; -Segmento VI e VII do fígado. - Lesão de cólon Abdominal (central) Tangencial A B Figura 6.2 Algoritmo de indicação de laparoscopia no trauma. Adaptado de Kawahara & Alster et al. Standard examination system for laparoscopy in penetrating abdominal trauma. J Trauma 2009; 67(3):589-595. Avaliação da estabilidade pélvica A compressão normal das espinhas ilíacas antero- -superiores ou cristas ilíacas pode revelar deslocamento anormal dos ossos ou ainda despertar dor. Se a pelve per- manecer estável, procede-se à tração das espinhas ilíacas anteriores. Em vítimas de traumatismo de tronco, tais achados sugerem fratura pélvica. Esse exame não deve ser repetido porque tal manobra pode piorar a hemorragia. Toque vaginal Lacerações da vagina podem ser oriundas de traumas penetrantes ou a fragmentos ósseos de fra- turas pélvicas. Toque retal Em vítimas de trauma contuso, o toque retal é útil para avaliar o tônus muscular esfinctérico, a posição da próstata e possível fratura dos ossos da pelve. Já em ferimentos penetrantes, além do tônus, a presença de sangue na luva indica perfuração de víscera oca. Exame do pênis A presença de sangue no meato uretral deve le- vantar a suspeita de laceração da uretra, bem como hematomas ou equimoses no períneo. Exame da região glútea A região glútea vai desde as cristas ilíacas até as pregas glúteas. Os ferimentos nessa região são acompa- nhados de lesões intra-abdominais em 50% dos casos. Ferimentos na região glútea geralmente in- cluem trauma de reto abaixo da reflexão peritoneal. Sondagens A inserção de sondas gástricas e urinárias é reali- zada como exame adjunto ao exame primário. Sondagem nasogástrica (SNG) Tem finalidade diagnóstica e terapêutica. O obje- tivo principal é o esvaziamento do conteúdo gástrico, reduzindo a pressão e volume do estômago e a possi- bilidade de broncoaspiração. A presença de sangue nas secreções aspiradas, excluída uma fonte nasofaringea- na de hemorragia, sugere lesão alta do trato gastroin- testinal (TGI). Cuidado: na presença de fraturas de face ou sinais de fratura de crânio (sinal do guaxinim, sinal da batalha, sinal do duplo halo), a sonda gástrica deve ser introduzida via oral para pre- venir a introdução acidental no interior do crâ- nio, por meio de fratura da placa crivosa. No início da fase de reanimação, a introdu- ção da SNG é para: 6 Trauma abdominal 65 1. Descomprimir possível dilatação do estômago; 2. Descomprimir o estômago antes do LPD, mi- nimizando riscos de aspiração e lesões associadas. Caso haja sangue na sondagem nasogástrica, afas- tada a presença de lesões oro ou nasofaríngeas, atentar para a possibilidade de lesões do esôfago ou TGI alto. Cateterismo vesical (sonda vesical de demo- ra – SVD) É o melhor indicador de perfusão tecidual no trau- ma. O débito urinário deve ser mantido 50 mL/h. As funções principais são: descompressão da bexiga e avaliação do índice da perfusão tecidual e débito uriná- rio. Além disso, é necessário descomprimir a bexiga antes de realizar LPD. A hematúria é um sinal importante de possível trauma renal ou de trauma não renal, mas afe- tando o sistema genitourinário. Nos EUA, a urina coleta- da pode ser utilizada na detecção laboratorial de drogas, porém não aqui no Brasil. A coloração da urina é impor- tante sobretudo em queimaduras e trauma com grande destruição muscular porque há a preocupação com o desenvolvimento de rabdomiólise (mioglobinúria). Nes- sas condições, há o acúmulo de mioglobina nos túbulos renais e insufi ciência renal, por isso a urina assume um aspecto de coloração âmbar (marrom). Nesses casos de rabdomiólise, o débito urinário deve ser mantido em 100 mL/h como discutido no capítulo de queimaduras. Cuidado: antes da introdução da SVD, examine o reto e os genitais, visando detectar sinais que contraindi- quem o procedimento. Elevação da próstata ao toque retal e a presença de sangue no meato uretral ou de hematomas escrotais ou perineais contraindicam o procedimento. Nesse momento, é necessário realizar uretrocistografi a retrógrada que confi rme a integridade da uretra. Uma vez existindo a contraindicação da SVD, é importante a realização da uretrocistografi a para diagnóstico de lesões de uretra ou bexiga extraperitoneal e intraperitoneal. Confi rmada a lesão da uretra, é fundamental que se faça uma cistostomia, sendo mais seguro a inserção guiada por ultrassom ou por aberta. Contraindicações do cateterismo vesical: 1. Impossibilidade de urinar espontaneamente; 2. Fratura instável do anel pélvico; 3. Sangue no meato uretral; 4. Próstata deslocada cranialmente; 5. Hematoma escrotal/equimose perineal. Coleta de sangue e urina Doentes hemodinamicamente estáveis = ti- pagem + provas cruzadas (demora 1 hora). Doentes hemodinamicamente instáveis = sangue O negativo (choque grau III e IV) que está dis- ponível de imediato, sangue tipo específi co (demora 10 min. e é compatível com sistema ABO e Rh) para os pacientes com resposta volêmica transitória. O ATLS recomenda que sejam solicitados leuco- grama, eletrólitos, principalmente potássio, glicemia, amilase, β-hCG em mulheres em idade fértil. Radiologia Trauma contuso Os raio X adjuntos ao exame primário são: � raio X coluna cervical perfi l C1-T1 (o raio X AP não faz parte da avaliação primária!); � raio X tórax AP; � raio X pelve AP. Lembre que o raio X de crânio não faz parte dos exames adjuntos à avaliação primária. nos do- entes hemodinamicamente estáveis, o raio X de abdo- me (supino e ortostase com proteção da coluna) pode ser útil para detectar pneumoperitônio ou ar extralumi- nal entre alças (Sinal de Riedler), ou, ainda, ar no retro- peritônio (pneumorretroperitônio). Todos os eventos acima indicam laparotomia exploradora sem demora. O apagamento da imagem do psoas também pode sugerir lesão retroperitoneal. Caso haja a impossibilidade de realizar o raio X em ortostase (dor ou suspeita de fratura de coluna), pode-se fazer raio X em decúbito lateral esquerdo. Trauma penetrante O doente que estiver instável não necessita de qualquer raio X, mas sim de tratamento cirúrgico. Já no paciente estável, considerar como portador po- tencial de lesão de tórax aquele trauma penetrante supraumbilical. O raio X de tórax em ortostase é útil para excluir hemo/pneumotórax, bem como detectar pneumoperitônio. Já o raio X de abdome supino pode detectar ar retroperitoneal e determinar o trajeto do projétil com o uso de clipes metálicos no orifício de entrada e saída. Estudos radiológicos contrastados Uretrocistografi a retrógrada (UCR) Deve ser realizada na suspeita de rotura da uretra. Realiza-se a injeção de 15-20 mL de contras- te não diluído em baixa pressão, com cateter 8 Fren- ch, com a extremidade mantida presa ao meato insu- fl ado com um balão 1,5-2 mL ou com clip apropriado para este estudo. O contraste vai sendo injetado des- de a uretra até a bexiga. Se possível acompanhamen- to por fl uoroscopia. a UCR Pode demonstrar extra- vasamento de contraste na uretra e ainda na bexiga intra e extraperitoneal. Dessa maneira, 300 mL de contraste são infundidos na bexiga e realiza-se raio X em incidência anteroposterior e oblíqua com estudo Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201566 pós-miccional necessário para excluir lesão vesical. As respostas que esperamos deste exame são: 1. exis- te ou não lesão de uretra,2. esta lesão é parcial ou total, 3. esta lesão é de uretra anterior ou posterior, 4. existe ou não lesão vesical, 5. esta lesão é intra ou extra peritoneal. A uretrocistografia deve preceder a TC de abdome sempre que houver a suspeita de lesão de bexiga, como no caso das fraturas pélvicas. Neste contexto, a CT pode caracterizar al- gum contraste que extravazou durante a uretrocistografia. Urografia excretora Era frequentemente realizado mas hoje foi subs- tituído pela TC. Então, a urografia excretora só é uti- lizada em serviços que não têm TC abdominal ou no intra operatório. Usam-se doses altas de contraste com injeção intravenosa rápida de 200 mg de contraste iodado/ kg. Administram-se 100 mL (1,5 mL/kg) de solução de contraste iodado a 60%, injetando durante 30-60 segundos, em duas seringas de 50 mL. Dois minutos após a injeção do contraste, deve-se visualizar os cálices renais. Caso não apareça, pensar em: � agenesia renal unilateral; � trombose/avulsão artéria renal; � lesão gravíssima do parênquima renal. Se houver alterações, prossegue-se para o diag- nóstico de imagem pela TC de abdome e arteriografia ou laparotomia exploradora. Urografia realizada no intra operatório (one shot urography) Para aqueles pacientes em que não foi possível estudo por imagem antes da cirurgia, com hematoma de zona II e com necessidade de avaliação do rim con- tra lateral. Utiliza-se 2mL/Kg contraste e após 15 mi- nutos se realiza uma imagem. Na suspeita de traumatismo renal e impossibi- lidade de realização de tomografia computadorizada, podem ser realizados alternativamente ultrassonogra- fia e orografia excretora A tomografia computadorizada no traumatis- mo abdominal deve ser realizada sem contraste via oral e com contraste ev. pois todo politrauma é um paciente potencialmente cirúrgico e deve ser manti- do em jejum vo. Exames gastrointestinais Lesões retroperitoneais isoladas (duodeno, có- lon, trato biliar, pâncreas) não levam à peritonite e não são detectadas pelo LPD. Se essa é a suspeita, devem ser feitos exames contrastados e específicos (lembrar do uso preferencial de contraste iodado sempre que houver suspeita de perfuração de visceral oca). Vale lembrar também que na TC nas primeiras 8 horas de trauma a TC de abdome pode ser normal em trauma pancreático. Lavado peritoneal diagnóstico (LPD) Certamente a LPD tornou-se um dos métodos mais difundidos e seguros no diagnóstico do trauma abdominal por duas décadas. Entretanto, como é in- vasivo, o FAST é preferível ao LPD. As indicações de LPD na investigação de trauma abdominal é para identificar presença de sangue ou secreções do TGI no líquido peritoneal. Tanto pacientes estáveis como instáveis hemo- dinamicamente podem fazer LPD na dúvida de lesão abdominal, sobretudo naqueles com alteração do nível de consciência por TCE ou drogas, trauma raquimedu- lar (TRM), com perda de sensibilidade abdominal por lesão de medula. Atualmente, o LPD é pouco utilizado. Todavia, nos casos em que há dúvida de trauma abdominal, em que o paciente está sendo operado pela neurocirurgia e vai ser anestesiado para realização de exames ou cirurgias, o LPD aparece como um bom procedimen- to. Da mesma maneira, em pacientes que receberam reposição volêmica em grandes quantidades, o FAST pode dar falso-positivo, mas na verdade é só SF0,9% ou Ringer que transudou para a cavidade peritoneal. Nesses casos, o LPD evitaria a laparotomia explorado- ra porque o resultado seria negativo. Além disso, o LPD pode ser alternativa em pa- cientes com síndrome do cinto de segurança (apre- sentam sinal do cinto de segurança) com suspeita de lesão de delgado em serviços que não dispõem de FAST. As contraindicações relativas referentes à realização da LPD são: presença de cirurgias abdo- minais prévias, obesidade mórbida, cirrose avançada e coagulopatia. A única contraindicação absoluta para a realização da LPD é a indicação de laparo- tomia já estabelecida. Indicações e contraindicações para LPD Indicações Exame físico equivocado Choque a esclarecer Alteração sensorial (TCE, drogas, intoxicações) Anestesia geral para cirurgias extra-abdominais (ex.: neuro- cirurgião) TRM com lesão de medula Contraindicação absoluta Indicação clara de laparotomia exploradora 6 Trauma abdominal 67 Indicações e contraindicações para LPD (cont.) Contraindicações relativas Laparotomia exploradora prévia Gravidez Cirrose hepática Coagulopatia Obesidade Tabela 6.1 Lavado peritoneal diagnóstico (LPD). LPD positiva para trauma abdominal fechado Aspiração de mais de 10 mL de sangue Líquido da lavagem com uma das seguintes características > 100.000 hemácias/mm³ > 500 leucócitos/mm³ Presença de bile, bactérias (Gram) ou secreções TGI, urina Dosagem de amilase > 175 UI/dL Tabela 6.2 Critérios de positividade para o LPD. Comparação entre os métodos diagnósticos para lesões abdominais (ATLS, 2008) Itens LPD FAST TC Indicação Diagnostica sangue > PA é normal ou caindo. Diagnostica líquido > PA é nor- mal ou caindo. Diagnostica lesões específi cas, se a PA é normal. Vantagens Rápido. Sensibilidade 98%, mas é invasivo e não dá para repetir. Rápido. Não invasivo e pode ser repetido. Acurácia 86-97%. Lesões intra-abdominais. Acurácia 92-98%. Desvantagens Invasivo. Não diagnostica le- sões em diafragma e retrope- ritônio. Operador dependente; ruim se muito meteorismo, enfi se- ma subcutâneo e gordura. Diagnóstico difícil do diafragma, mesen- tério e trauma de pâncreas (< 8 horas). Tabela 6.3 Métodos diagnósticos na suspeita lesões intra-abdominais. Técnica cirúrgica LPD infraumbilical: em nosso meio, tem-se preferência à técnica aberta. Após antissepsia e anes- tesia com vasoconstritor, realiza-se incisão de pele e subcutâneo mediana infraumbilical de 3 a 4 cm, in- cisa-se a aponeurose, realiza-se sutura em bolsa com fi o inabsorvível no peritônio, abre-se o peritônio e posiciona-se cateter de diálise peritoneal em direção ao fundo de saco de Douglas. A próxima etapa é a aspi- ração com seringa de 20 mL. Se houver saída de 5-10 mL de sangue ou conteúdo do TGI, considera-se a LPD como positiva. Caso contrário infundem-se 1.000 mL de soro fi siológico na cavidade peritoneal do adulto e 10 mL/kg de peso na criança. Ao fi nal, aspira-se por sifonagem o líquido infundido. Considere a Tabela 6.2 para os critérios de positividade do LPD. Em análise macroscópica, considera-se positivo o líquido que, colocado em tubo de ensaio, não permite a leitura de texto de jornal posicionado atrás do tubo. Na análise laboratorial, considera-se positivo o exame que apresente 105 (100.000) eritrócitos ou 500 leucócitos por mm3, presença de fi bras vegetais, bactérias, amila- se acima de 175 U/dL, secreções do TGI ou urina. Com LPD positiva, indica-se a laparotomia ou laparoscopia exploradora dependendo se tiver critérios para a cirur- gia minimamente invasiva (trauma penetrante toraco- abdominal ou fl anco em pacientes estáveis com dúvida da penetração da cavidade peritoneal). LPD também pode ser feito pela técnica fechada (técnica de Seldinger) com punção percutânea, mas o ATLS preconiza a técnica aberta por ser mais segura. LPD supraumbilical: na presença de fratura pélvica ou gravidez, a abordagem é supraumbilical aberta, para não entrar em hematoma pélvico, ocasio- nando hemorragias ou lesionar o útero e/ou o feto. Ultrassonografi a no trauma (Focused Assessment Sonography for Trauma – FAST) O FAST é exame focado para o doente traumati- zado e está direcionado especifi camente para a iden- tifi cação de líquido livre e não para o estudo detalha- do dos órgãos ab dominais. As indi cações do FAST são as mesmas da LPD. O FAST pode fi car prejudicado em doentes obesos (gordura diminui a acurácia), bem como a presença de ar, seja no subcutâneo, na parede toracoabdominal e nas alças intestinais. O FAST deve estudar o pericárdio, os espaços hepatorrenal (Mori- son) e esplenorrenal e o fundo de sacoposterior. Necessariamente há de se repetir novo FAST de controle 30 minutos após o primeiro. Assim, even- tual sangramento que ocorra nesse in tervalo ou um trau- ma muito precoce pode ser identifi cado com segurança. Figura 6.3 FAST: o ultrassom é utilizado para detectar a presença de hemoperitônio e hemopericárdio. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201568 Vantagens e desvantagens do FAST Vantagens Não invasiva Não requer radiação Útil no departamento de emergência ou na sala de ressuscitação Pode ser repetido Utilizado durante a avaliação inicial Baixo custo Desvantagens Examinador dependente Obesidade Interposição de gás Baixa sensibilidade de líquido livre < 500 mL Falsos-negativos: líquido retroperitoneal e lesão de víscera oca Tabela 6.4 Risco-benefício do FAST. Figura 6.4 Lavado peritoneal diagnóstico (LPD) é um procedimento invasivo, de execução rápida e tem uma sensibilidade de 98% para de- tectar sangue intraperitoneal com acurácia maior que 95%. Tomografia computadorizada (TC) A TC é o exame que possui maior especificidade para diagnóstico das lesões abdominais e retroperitoneais de ór- gãos específicos com acurácia superior a 95%. Entretanto: � Somente pode ser feita em pacientes estáveis sendo contra-indicada no choque; � O contraste via oral no estômago deve ser admi- nistrado pelo menos 30 minutos antes do exame; Deve ser ressaltado que o paciente politraumati- zado deve permanecer em jejum pois é potencial candidato a tratamento cirúrgico, desta forma o uso de contraste oral deve ser realizado apenas em pacientes estáveis e cujo risco benefício do método justifiquem a utilização deste contraste. Na suspeita de perfuração de visceral oca, o con- traste iodado é preferível � Necessidade de transporte (40-60 minutos) para que o doente seja conduzido para o aparelho; � Há necessidade de administração de contraste endove noso; � O custo é elevado; � Tem menor acurácia para trauma de diafragma, pâncreas (< 8 horas), bexiga e intestino delgado. A presença de líquido intra-abdominal na ausência de trau- ma hepático ou esplênico identificado na TC levanta alta pos- sibilidade para lesão de intestino delgado. Nessa eventualidade, o líquido acumulado no peritô- nio pode ter se originado de lesão intestinal mas também pode ser que tenha sido de lesão vascular no mesentério ou da bexiga. Isso porque a TC não identifica claramente ou diferencia essas lesões. Nessa situação, em se tratando de trauma penetrante com líquido na TC sem evidência de trauma de fígado ou baço, o paciente necessitará de lapa- roscopia exploradora. Já se for trauma fechado, o paciente poderá ir ao LPD e à laparotomia exploradora. Indicações e contraindicações para tomografia com- putadorizada do abdome Indicações Trauma contuso ou penetrante duvidoso Estabilidade hemodinâmica Contraindicações Indicação óbvia de laparotomia exploradora Instabilidade hemodinâmica Agitação Alergia ao contraste e insuficiência renal Tabela 6.5 Características da TC de abdome. Laparoscopia no Trauma (Laptrauma) A principal indicação para a laptrauma é no ferimento abdominal penetrante, com dúvida diagnóstica de penetração da cavidade peritoneal após lesão toracoabdominal ou em flanco, a fim de evitar la- parotomias desnecessárias e a morbidade relacionada com esse procedimento (20% de complicações). Trauma Fechado versus Penetrante: indicações da LAPTRAUMA Trauma Penetrante Nível II de evidência. Utilidade como méto- do de “screening”, diagnóstico e terapêutico; Ferimento tangencial em trauma toracoab- dominal com dúvidas de penetração*; Lesão da víscera parenquimatosa ou diafrag- ma*; Trauma gástrico. Trauma Fechado Nível III de evidência. Não tem indicação aceita de modo geral. Entretanto, pode ser usada, em centros de pesquisa, como “scre- ening”, sendo realizada laparotomia a se- guir para determinação do índice de lesões despercebidas; tratamento conservador do trauma hepático com coleção abdominal que precisa ser drenada; trauma de bexiga. *Pacientes hemodinamicamente estáveis, Glasgow > 12, pressão sistólica > 90 mmHg; reposição volêmica < 3 L na 1ª hora de aten- dimento. Tabela 6.6 6 Trauma abdominal 69 As contraindicações ao uso da videolaparos- copia no trauma abdominal são: (a) instabilidade hemodinâmica; (b) gestalção; (c) trauma craniencefáli- co com ECG < 13; (d) ferimentos penetrantes com orifí- cio de entrada em dorso; (e) existência de laparotomias prévias extensas e (f) crianças com idade < 12 anos. Indicações de laparotomia exploradora Esse procedimento deverá ser prontamente indicado para as seguintes situações: � Trauma abdominal fechado com hipotensão; FAST positivo; � Trauma abdominal fechado com LPD positivo; � Ferimento penetrante de abdome com hipoten- são; � FAF que atravessa o abdome e compromete a ca- vidade; peritoneal ou estruturas retroperitoneais; � Evisceração; � Hemorragia do estômago, reto ou TGU; � Peritonite; � Pneumoperitônio ou pneumorretroperitônio; � Ruptura de diafragma; � TC do abdome: lesão do TGI, de bexiga intra- peritoneal, de pedículo renal e parenquimatosa grave em pacientes instáveis. Lembrar que a única indicação de laparotomia de urgência no trauma renal é a hemorragia com risco de vida. Trauma Abdominal Ferimentos penetrantes Contusões abdominais Quadro clínico conclusivo Quadro clínico não conclusivo Condições hemodinâmicas estáveis Condições hemodinâmicas instáveis Indicação cirúrgica Exploração intraoperatória Correção das lesões Lesões de visceras parenquimatosas Lesões de vísceras ocas Positivos Negativos Reexaminar e continuar investigação Indicação cirúrgica Exploração intraoperatória Correção das lesões Considerar tratamento não operatório Tomografia computadorizada Ultrassom, LDP Figura 6.5 Conduta no trauma abdominal. Ferimentos por arma branca (FAB) Dos pacientes que sofreram FAB, 60% chegam ao PS eviscerados (exteriorização de epíploon ou vís- ceras), hipotensos e com sinais de irritação peritoneal. Na evisceração, não se deve reconduzir o conteúdo no- vamente para o interior da cavidade abdominal, pois tais estruturas, pelo contato com o meio externo, já estão contaminadas. O importante é a proteção com compressas úmidas com SF 0,9% e a preparação do pa- ciente para a laparotomia exploradora. Órgãos Frequência Fígado 40% Intestino delgado 30% Diafragma 20% Cólon 15% Tabela 6.7 órgãos mais frequentemente lesados por FAB (ATLS, 2008). Há pacientes que chegam ao hospital ainda com a arma branca introduzida. A prioridade é evitar a re- tirada da faca (ou outro objeto de empalamento) na sala de admissão. Estes pacientes, após as medidas iniciais (e se as condições clínicas permitirem), deve- rão ser encaminhados para estudo radiológico com o intuito de saber o tamanho, o trajeto e a posição da ponta da arma. A partir de então, o paciente deve ser encaminhado ao centro cirúrgico. O que determina- rá a indicação de cirurgia (laparoscopia ou la- parotomia exploradora) é a penetração da arma branca através da aponeurose anterior (parede anterolateral) ou da musculatura lombar (pare- de posterior). O melhor método para avaliar se um ferimento é penetrante ou não é a exploração local cirúrgica sob anestesia local com técnica antisséptica. Se o ferimento for pequeno, ou mesmo nos casos de ferimento puntiforme, a melhor conduta é a sua ampliação sob anestesia local e afastadores tipo Fara- beuff . Em caso positivo, está indicada a laparotomia exploradora para saber se há ou não lesão de estrutu- ras intra-abdominais. Ferimentos por FAB < 6 horas sem penetra- ção da cavidade peritoneal devem ser suturados e o paciente deverá receber a antitetânica caso desconheça o calendário vacinal. No caso de feri- mento profundo (> 1 cm) e contaminado com terra ou outros materiais, o paciente deverá receber adicional- mente imunoglobulina. FAB > 6 horas não são su- turados e a ferida deverá cicatrizarpor segunda intenção, pois já é considerada infectada. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201570 Toda a ferida traumática é contaminada. O ferimento acima de 6 horas é infectado e por isso não deve ser suturado. O raio X do abdome poderá mostrar pneumope- ritônio (rotura de víscera oca na cavidade peritoneal) e pneumorretroperitônio (rotura de víscera oca no re- troperitônio como duodeno, cólon ascendente e des- cendente), além de borramento do músculo psoas de- vido à presença de sangue no retroperitônio. O líquido livre na cavidade peritoneal aparece como borramento da pequena bacia pela presença de sangue ou líquidos digestivos, extravasados nesse local (sinal da orelha de cachorro). Procedimento para avaliar penetração na cavidade peritoneal � exploração digital (anestesia local); � raio X simples do abdome; � fistulografia; � FAST/ LPD; � TC; � laparoscopia (para ferimento penetrante tangen- cial toracoabdominal ou flanco em doentes está- veis, não acometendo dorso). Ferimentos por arma de fogo (FAF) Em caso de dúvida da penetração da cavidade pe- ritoneal, é melhor realizar uma laparoscopia ou lapa- rotomia branca (sem lesões intra-abdominais) a ficar na dúvida e deixar passar lesões que, se operadas tar- diamente, podem levar a quadros abdominais graves. Importante lembrar: � Até que se prove o contrário, toda lesão abdo- minal aberta deve ser considerada penetrante e avaliada. � Lesões na parte inferior do tórax, períneo ou ná- degas podem ter atingido o abdome, dependen- do do tamanho da arma branca ou da trajetória da arma de fogo. Órgãos Frequência Intestino delgado 50% Cólon 40% Fígado 30% Vasos 25% Tabela 6.8 Lesões mais frequentes por FAF (ATLS, 2008). Figura 6.6 Ferimento por arma de fogo. Note orla de queimadura esfumaçamento e tatuagem (externo) e junto ao centro a orla de es- coriação, enxugo e equimótica. Característico do orifício de saída FAF a curta distância. Trauma abdominal fechado Pode acontecer por compressão, esmagamento- -cisalhamento, ou, ainda, por lesões de desaceleração. O impacto direto pode causar rotura de vísceras intra- -abdominais com hemorragia e peritonite. Dentro da modalidade do esmagamento, há o cisalhamento pelo uso inadequado de dispositivos de segurança e restri- ção (cinto de segurança, airbag etc.). Nas lesões de de- saceleração, ocorre deslocamento desigual das partes mais ou menos fixas do corpo. Isso decorre, por exem- plo, em lacerações do fígado e baço (órgãos móveis) e seus locais de inserção (ligamentos de suporte), que são estruturas fixas. Pela lei de Laplace (quanto maior o raio de um tubo, maior a tensão de suas paredes) o ceco é um dos órgãos mais propensos à explosão durante um trauma fechado, bem como duodeno em pontos fixos (ligamento de Treitz). O exame clínico seriado em paciente politrauma- tizado (sem comprometimento neurológico) tem acu- rácia semelhante a da TC de triplo contraste. Nos casos em que o paciente está inconsciente ou com o grau de consciência diminuído (associação com TCE, pacientes alcoolizados ou drogados), naque- les portadores de TRM ou nos com hipovolemia inex- plicada, é necessária a realização de exames especiali- zados (FAST/ LPD, TC, laparoscopia) porque o exame físico ficará comprometido. O FAST é rápido e útil para identificar presença de líquido intra-abdominal com paciente estável ou instá- vel. Apesar do ultrassom poder identificar também le- sões em órgãos, o foco do FAST é para identificação de líquido e indicação precoce de laparotomia exploradora. Unindo-se os dados da história (quando possível) ao exame físico apurado, além da ob- servação clínica rigorosa e procedimentos com- plementares, consegue-se, na grande maioria dos casos, indicar ou não a laparotomia explora- dora nos casos de trauma abdominal fechado. 6 Trauma abdominal 71 Órgãos Frequência Baço 40-55% Fígado 35-45% Hematoma retroperitoneal 15% Intestino delgado 5-10% Rim 10% Estômago 4% Pâncreas 3% Diafragma 3% Duodeno 0,2% Tabela 6.9 Lesões mais frequentes no trauma abdominal fechado. Tratamento não operatório O tratamento não operatório das lesões em órgãos sólidos, em pacientes vítimas de trauma abdominal fe- chado, particularmente fígado, baço e rim, tornou-se pa- drão nos grandes centros médicos. Nos EUA os serviços de referência também realizam, em situações seleciona- das, o tratamento não operatório das lesões pancreáti- cas. Essas medidas obviamente evitam todas as consequ- ências e complicações de uma laparotomia branca. O tratamento não operatório das lesões de ór- gãos parenquimatoros por agentes penetrantes come- ça a ganhar corpo e passa a ser um campo promissor. Doentes selecionados a partir de avaliação clínica e por imagem (Tomografi a), devem ser constantemen- te monitorados preferencialmente em UTI. O exame físico deve ser seriado, pois o trauma é uma doença dinâmica e muitas vezes há grandes variações em um espaço curto de tempo. Devem ser colhidos hemogra- ma, amilase e gasometria arterial na admissão. Nas primeiras 24 horas, esses exames devem ser repetidos a cada seis horas. No segundo dia, a cada doze horas. Nos dias seguintes, uma vez ao dia é sufi ciente para a maioria dos doentes. As informações devem ser ano- tadas rigorosamente em prontuário. Condições básicas para o tratamento não operatória de lesões em órgãos sólidos: • Dependente do paciente: • Estabilidade hemodinâmica (PAsist ≥ 90 mmHg) • Ausência de sinais de peritonite generalizada • Dependente das condições locais: • Unidade de Terapia Intensiva ou Semi-intensiva • Equipe Cirúrgica com experiência disponível 24 h • Centro Cirúrgico disponível 24 h • Serviço de TC 24 h • Banco de Sangue 24 h • Laboratório 24 h Tabela 6.10 Diafragma As lesões de diafragma representam cerca de 3% de to das as lesões abdominais e 0,8% das admissões por trauma. Contudo, esses números po- dem variar entre instituições. 90% dos traumas de diafragma são acidente de trânsito. O trauma diafragmático é mais comum à es- querda em 54-87% das vezes. A lesão diafragmá- tica direita só se torna frequente quando forem considerados estudos de necropsia. A cavidade pe- ritoneal está sujeita à lei de Boyle. Quando ocorrer um trauma por compressão do abdome, haverá diminui- ção do tamanho da cavidade peritoneal, aumentando a pressão intra-abdominal. E o ponto mais fraco é o diafragma à esquerda, já que à direita o fígado absorve o impacto e protege do trauma. As lesões bilaterais ocorrem em aproxima- damente 2% dos casos. Em geral, as lesões por fe- rimentos penetrantes são pequenas e raramente pro- vocam herniação logo após a ocorrência. Na maioria das vezes são encontradas durante a laparotomia ex- ploradora. Já as lesões resultantes de trauma fechado são maio res, variando de 5 a 10 cm. Como dito anterior- mente, ocorrem mais frequentemen te na região pos- terolateral do lado esquerdo e produzem herniação mais facilmente do que os ferimentos pene trantes. A herniação pode ser identifi cada na radiografi a de tó- rax. Os achados da radiografi a são elevação ou borramento do hemidiafragma, apagamento do con- torno do diafragma, sombra gasosa e nível hidroaéreo no tórax e SNG na projeção torácica e hemotórax. Caso não exista a hérnia, a radio grafi a de tórax pode ser considerada normal. Há de se lembrar da cinemática do trauma porque 50% dos raio X de tórax podem ser normais ou limitados a pequenos hemopneumotórax. Não Invasivos Invasivos Raio X tórax LPD FAST Toracoscopia Esofagograma Laparoscopia TC/Ressonância Laparotomia Tabela 6.11 Métodos invasivos e não invasivos para diagnóstico de hérnia diafragmática traumática. O tratamento da lesão diafragmática deve ser feito por laparoscopia (hérnia diafragmática aguda) ou toracoscopia (hérnia diafragmática tardia > 6 me- ses) com retorno das estruturas herniadas ao abdome e sutura da lesão com pontos sepa rados de fi o inabsorvível em U com prolene 0 ou 1 (lesões <5 cm). Lesões maiores Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201572 exigem tela (Marlex, Dacron ou Prolene). Alguns cirur- giões preconizam a realização de outra sutura contínua sobre as bordas que restaram da sutura em U. Caso haja lesão pleural, pode-se drenar a cavidade pleural com dre- no de tórax tubular multiperfurado (36-40 F) sob selo d’água do lado do ferimento. A lesão diafragmática tam- bém pode ser tratada por laparotomia ou toracotomia. Existe 55% de associação de rotura traumática do dia- fragma e fratura de bacia. Em 93% a rotura do diafragma direito está associada a trauma hepático. As complicações agudas mais comuns da lesão diafragmática traumática são: deiscência de sutura, paralisia do hemidiafragma, decorrente de lesão traumá- tica ou iatrogênica do nervo frênico, insuficiência respi- ratória, empiema ou abscesso subfrênico. Complicações mais tardias são: a hérnia estrangulada e perfurada de vísceras abdominais e a obstrução intestinal recorrente. Trauma do diafragma Grau Descrição da lesão I Contusão II Laceração ≤ 2 cm Trauma do diafragma (Cont.) III Laceração 2-10 cm IV Laceração > 10 cm com perda tecidual ≤ 25 cm2 V Laceração com perda tecidual > 25 cm2 *American Associa- tion for the Surgery of Trauma – Organ Injury Scale (AAST- -OIS). Tabela 6.12 Classificação para trauma do diafragma. Trauma de estômago e intestino delgado As contusões abdominais raramente resul- tam em lesões gástricas (4%) e a maioria é na face anterior na pequena curvatura. O estômago é nor- malmente protegido pelo gradeado costal e o trauma ocasiona explusão do seu conteú do tanto para o esôfago como para o duodeno, sempre que a pressão intragástri- ca aumenta subitamente. Mesmo assim, o estômago é mais suscetível à rotura quan do cheio de alimentos. A rotura de víscera oca resulta em pneumoperitônio (víscera intra-abdominal, ex. estômago) ou pneumoperitônio (víscera retroperitoneal, ex. duodeno, cólon ascendente e descendente). Vale lembrar a síndrome do cinto de segurança que caracteristicamente ocasiona-se com a presença da marca do cinto e lesões viscerais (intra-abdominais ou retroperitoneais) do intestino delgado, fraturas de Chance na coluna lombar e fortuitamente lesões do estômago e do cólon. 60% dos pacientes com fratura de Chance têm lesões intesti- nais associadas ao trauma. Provavelmente a lo calização da lesão depende do somatório de diferentes fatores, tais como a na- tureza e a biomecânica do trauma, o estado de reple- ção da víscera no momento do impacto e a eventual con comitância de alguma doença gástrica presente ou passada. O ferimento penetrante é a principal causa de lesão do estômago e do intestino delgado em 80% das vezes. Nas vítimas de fe rimentos penetrantes de abdome, o intestino delgado é o órgão mais le- sado. O trauma fechado produz lesão por ruptura. No intestino delgado, as lesões ocorrem quando é criado um segmento de intestino que fica em alça fechada, com aumento súbito de pressão. A utilização errônea do cin to de segurança (cinto abdominal acima das es- pinhas ilíacas) pode provocar lesões tanto de intestino delgado quanto de mesentério. Nesses doentes é fre- quente a presença de equimose ou hematoma na pare- de abdo minal (sinal do cinto de segurança). Lesões por explo são de estômago e de intestino delgado estão frequente mente associadas a outras lesões, como a fratura de Chance. A fratura de Chance são fraturas transver- sais que passam horizontalmente através do pro- cesso espinhoso, lâmina, processo transverso, pedículos e porção posterior do corpo vertebral. Esse tipo de lesão foi descrito para o segmento lombar do esqueleto axial e frequentemente é acom- panhado pela síndrome do cinto de segurança, carac- terizada por trauma abdominal fechado. Figura 6.7 Fratura de Chance: note a linha horizontal de fratura com o acunhamento da vértebra lombar característico. 6 Trauma abdominal 73 O diagnóstico das lesões de estômago e de in- testino delgado nem sempre é fácil. Nos ferimentos penetran tes centrais de abdome, indica-se rotineira- mente a laparotomia exploradora e essas lesões são encontradas durante a ex ploração. Porém, existem al- guns sinais que podem ou não estar presentes. Sinais clássicos de lesão de estômago são: ex teriorização de sangue pela sonda gástrica, pneu- moperitônio na radiografi a simples de abdome e si- nais de irritação peritoneal. Os sinais de lesão de intestino delgado são mais sutis, destacando-se apenas a irritação pe- ritoneal. Em doentes que apresentam alteração do nível de consciência por lesão cerebral ou intoxicação e alteração de sensibilidade abdominal por lesão de medula, o exame físico fi ca prejudicado. O FAST só visa identifi car líquido sem avaliar se é sangue ou secreção do TGI. O LPD, com exame la- boratorial do lavado, apresenta boa sensibilidade para identifi cação dessas lesões. A TC com duplo e triplo con traste pode não identifi car a lesão de intestino del- gado mas a presença de líquido intra-abdominal sem evidência de trauma de baço ou trauma de fígado le- vanta alta suspeita. Pequenos pneumoperitônios podem ser identifi - cados à TC e abdome. O achado mais frequente da TC sugestivo de lesão intestinal é a presença de líquido livre na cavidade peritoneal, sem le- são de víscera parenquimatosa associada. O líquido livre pode ser oriundo de lesão he- morrágica do mesentério, lesão de bexiga e fi nalmen- te lesão de intestino delgado. Sinais indiretos de lesão de intestino delgado são espessamento de parede intestinal e de mesentério. É fundamental lembrar que diagnósti co e tratamento tardios da lesão intestinal estão associa dos ao aumento de morbidade e mortalidade. Após o diagnóstico defi nido de lesão gastroin- testinal ou indicação de laparotomia é realizada a son- dagem gástrica e vesical e administração de atibioti- coterapia 2 g de cefalosporina de segunda geração na indução anestésica (ver também ferimentos de cólon). Nos ferimentos com menos de 12 horas de evolução, a duração da antibioticoterapia limita-se ao ato cirúrgi- co ou é mantida por 24 horas. Prioridades de tratamento de lesões intra-abdo- minais: 1. suturar lesões que sangram (hemostasia); 2. suturar lesões com secreções do TGI; 3. no TGU proceder ao ato de desbridar o teci- do inviável, fechamento com sutura absorvível (para evitar formação de cálculos no futuro por matriz de corpo estranho) e drenagem tanto interna (duplo j) quanto externa. O tratamento de perfurações gástricas e de intes- tino delgado é cirúrgico. Após a aber tura da cavidade abdominal, a hemostasia é prioridade. Terminado o controle do sangramento, inicia-se o tra tamento das lesões de estômago e de intestino. Para ins peção ade- quada, a incisão deve ser ampliada e o estô mago mo- bilizado de maneira que permita avaliação adequada. As lesões gástricas devem ser suturadas em dois planos. Geralmente, a sutura contínua seromuscular é feita com fi o absorvível 3-0, e a sutura serosserosa com pontos separados e fi o inabsorvível 3-0 ou 4-0. Aquelas que envolvem o piloro de vem ser tratadas realizando-se sutura e piloroplastia. As lesões do cor- po gástrico devem ser cuidadas com sutura primária. Caso a lesão envolva a transição gastroesofágica, após a sutura do ferimento deve-se fazer esofagogastro- fundoplicatura, cobrindo a lesão ou somente Patch de Th al (fundo do estômago). Caso a lesão seja extensa nessa localização, pode ha ver lesão do nervo vago. Nessa eventualidade, deve- -se acrescentar a piloroplastia. Para as lesões extensas do es tômago, recomen- da-se a ressecção com reconstrução a Billroth I ou II, conforme seja possível. Deve-se ter cui dado especial com os doentes que apresentam associação de lesão gástrica e de diafragma. A contaminação da cavidade pleural, principalmente na vigência de choque hemor- rágico, está associada a complicações pleuropulmo- nares infecciosas. A cavidade pleural deve sercuida- dosamente lavada através da lesão diafragmática. Tratamento das lesões do intestino delgado: – menores de 50% e borda antimesentérica: rafi a simples; – maiores de 50% ou aquelas que acomen- tam borda mesentérica: ressecção e anastomose primária com um ou dois planos. O mesentério deverá ser fechado para não ocor- rer pontos de facilitação de hérnia interna. Se a lesão provocou isquemia de grande extensão de intestino, pode-se fazer ressecção e fechamento das bocas proximal e distal, para revisão programada em 24 horas, quando se realiza a anastomose. Nas lesões múltiplas próximas uma da outra, prefere-se a ressecção de todas as lesões e anasto mose primária. Em doentes com lesões extensas graves na vigên- cia de coagulopatia e anormalidade hemodinâmica, re- alizam-se ressecção e fechamento das bocas proxi mal e distal, deixando-se a reconstrução do trânsito para o momento em que o doente se encontrar equilibrado. Tanto em doentes portadores de lesão gástrica como na queles portadores de lesão intestinal, a cavidade peritoneal deve ser cuidadosa e meticulosamente la- vada para retirar todo conteúdo do tubo digestivo que tenha even tualmente ali caído. A laparoscopia faz melhor limpeza da cavidade peritoneal do que a laparotomia. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201574 Caso não seja possível oferecer dieta via oral, de- ve-se administrar nutrição enteral ou parenteral (ex.: lesões de duodeno). As complicações das lesões de estômago e de intes tino delgado são raras. As mais comuns são o sangramento, a formação de abscesso intraperitone- al e a fístula. Um grave problema que acompanha as ressecções de delgado é a síndrome do intestino curto (ressecções extensas e o paciente fica com menos de 100 cm de intestino delgado). Caso o cólon esteja ín- tegro, são necessários 50 a 60 cm de delgado para que seja possível nutrição via oral. Classificação da lesão de estômago Grau Descrição da lesão AIS-90 I Contusão ou hematoma 2 Espessura parcial 2 II Laceração da JGE ou piloro < 2 cm; Le- são 1/3 proximal do estômago < 5 cm; Lesão do 1/3 distal do estômago < 10 cm 3 III Laceração > 2 cm na JGE ou piloro; lesão em 1/3 proximal do estômago > 5 cm; le- são 2/3 distais do estômago > 10 cm 3 IV Perda tecidual ou desvascularização < 2/3 do estômago 4 V Perda tecidual ou desvascularização > 2/3 do estômago 4 *Aumente um grau para lesões múltiplas até a grau III. **AIS: Abbreviated Injury Scale. JGE: junção gastroesofageana. Tabela 6.13 Classificação para trauma de estômago. Classificação da lesão de intestino delgado Grau Tipo de lesão Descrição da lesão AIS-90** I* Hematoma Contusão ou hematoma sem desvascularização 2 II* Laceração Laceração de espessura parcial sem perfuração Laceração < 50% da cir- cunferência 3 III Laceração Laceração > 50% sem transecção 3 IV Laceração Transecção de segmen- to intestinal com perda de substância 4 V Laceração Desvascularização de segmento intestinal 4 Vascular *Aumente um grau para lesões múltiplas até a grau III. **AIS: Abbreviated Injury Scale. Tabela 6.14 Classificação para trauma de intestino delgado. Trauma duodenal A primeira parte do duo deno situa-se ao nível da primeira vértebra lombar (L1) e é intraperitoneal. A segunda porção do duodeno acompanha L2 e L3 e é re- troperitoneal contendo abertura da papila maior (co- lédoco e ducto de Wirsung) e menor (ducto de Santori- ni). Esse segmento pode ser mobilizado pela manobra de Kocher. A terceira porção da víscera cruza a coluna lombar ao nível de L3 e passa na frente da veia cava inferior, ureter, coluna lombar e aorta. Em cima da 3ª porção do duodeno passa a artéria mesentérica superior constituindo a pinça aortomesentérica. A quarta porção acaba no Treitz. Assim, com exceção dos dois primeiros centíme- trros em que o duodeno é intraperitoneal, ele situa-se na maior parte em posi ção retroperitoneal e é prote- gido medialmente pela coluna ver tebral e a posterior pela musculatura paravertebral. Exceção faz a quarta porção do duodeno que cruza a coluna e volta à cavida- de abdominal continuando-se com o jejuno. Por isso, as lesões duodenais resultam, habitualmente, de feri- mentos penetrantes ou de contusões graves do abdo- me frequentemente com sinal de sinto de segurança. Em virtude dessa localização, o duodeno situa-se em proximidade ou em contato com o fígado, o pedí- culo hepático, o pâncreas, o rim direito, a veia cava in- ferior, os vasos mesentéricos, a aorta e o rim esquerdo. Calcula-se que em cerca de 80 a 90% das ve- zes, e particularmente nos traumas penetran- tes, as lesões duodenais são acompanhadas de lesões de outras vísceras (princi palmente fígado, pâncreas, delgado e cólon, estômago, veia cava inferior e rim direito), o que torna mais complexa a abordagem terapêutica e dificulta a interpretação dos resultados dos exames diagnósticos. As taxas de morbidade e de mortalidade giram ao redor de 20-30%. Destaca-se, em decorrência da topografia duode- nal acima mencionada, a associação de ferimentos duo- denais com lesões pancreáticas, já que ambos dividem a mesma vascularização. Isso é importante porque há mortalidade de 20-30% relacionada e 60% de morbida- de relacionada principalmente à gravidade do trauma do duodeno, com ocorrência de hemorragia exsangui- nante (mortalidade precoce), e choque séptico e dis- função de múltiplos órgãos (mortalidade tardia > 48 h pós-trauma). Aproximadamente 90% dos trauma duodenopancreáticos têm lesões associadas. Os ferimentos penetrantes são a causa da lesão do duodeno em 75% dos casos. O trauma contuso também pode provocar lesões do duodeno e de estruturas vizinhas e nesse caso o mecanismo mais comum de produção da lesão do duodenal é a com- pressão direta do abdome. A lesão isolada do duodeno pode provocar pou- cos sintomas na fase ini cial. Essa lesão pode sangrar 6 Trauma abdominal 75 para o intra luminal com exteriorização pela cavida- de gástrica e consequentemente pela SNG. Quando o sangramento for extra luminal, pode ocorrer edema de alça ou hematoma peri duodenal. O raio X de ab- dome ou a TC também podem mostrar ar no retrope- ritônio. Os dois achados relatados podem levan tar a suspeita de lesão de duodeno. O diagnóstico de cer- teza pode ser feito por meio de raio X simples ou com contraste vo, arteriografi a do TGI ou TC com contraste oral e endovenoso. O contraste oral deve ser bem visível em todas as porções do duodeno e pode ocorrer extravasamen- to de contraste na lesão. É importante lembrar que existem exames falsos-negativos. A LPD não é útil na lesão de duodeno isolada porque não avalia o retroperitônio. Entretanto, o LPD pode ser útil em alguns casos, pelo alto índice de lesões associadas que podem fazer com que a LPD seja po sitiva. A LPD também apresenta taxa signifi cativa de falsos-negativos por lesões pouco importantes já que é exame altamente sensível, mas pouco específi co. Na laparotomia por trauma contuso, a presença de sangue, ar ou bile na região duodenal exige explo- ração minuciosa do duodeno. Na laparotomia por fe- rimento penetrante, deve-se fazer exame sistematiza- do de todo o tubo digestivo à procura de lesão. O segredo para o tratamento das lesões duodenais está na exposição adequada desse segmento de intesti- no, que é conseguida com dissecção cuidadosa e ampla, utilizando manobras como a de Cattell-Braasch (descolamento do peritônio junto ao cólon direito, libe- rando a goteira parietocólica direita) e de Kocker (des- colamento e exposição do duodeno). A lesão duodenal iso lada pode ser tratada com sutura simples. Re- comenda-se a sutura em dois planos com pontos sepa- rados com fi o inabsorvível. As lesões duodenais sim- ples com preendem 80% dos casos. Nas lesões mais extensas é possível também fazer a sutura duode nal e, a seguir, suturar a serosa de outra alça intestinal sobre a lesão suturada do duodeno. Outra opção seria a diver- ticulização do duodeno,na qual se realiza gastrectomia parcial com reconstrução a Bilrotth II. A literatura des- creve inúmeros procedimentos utilizados para proteger o local da sutura duodenal (exclusão pilórica, duodeno- duodenoanastomose, duodenojejunostomia e gastro- duodenopancreatectomia - GDP). Cabe mencionar a cerclagem pilórica associada à gastroenteroanastomo- se, pela técnica de Vaughan/Jordan. Esse pro cedimento deriva temporariamente o trânsito intestinal do duode- no. Outras técnicas recomendam a colocação de SNG e jejunostomia com posicionamento de sonda em direção ao duodeno, para descomprimir e dre nar obrigatoria- mente a secreção do duodeno. A lesão duodenal associada a cabeça do pâncreas, colédoco e papila, pode requerer procedimen tos maiores, como a GDP e pancreati- cojejunoanastomose, mas anastomose bileodiges- tiva não são procedimentos de escolha no trauma em um primeiro momento. O mais comum é deixar vários drenos e, após estabilização clínica na UTI, com diminuição de interleucinas, nova reinterven- ção e GDP ou pancreaticojejunoanastomose. Hematoma duodenal Uma lesão particular do duodeno que deve ser comen- tada é o hematoma duodenal. Embora possa ocorrer em adultos, ele é mais frequente em crianças e resulta da com- pressão súbita sobre o epigástrio. A instalação do quadro ocorre antes de 48 horas após o trauma. O doente quei- xa-se de difi culdade para comer e de vô mitos associados à dor no epigástrio. O raio X de esôfago, estômago e duodeno con trastado mostra parada de contraste no duodeno. Atu- almente a TC com contraste oral tam bém revela parada de contraste no duodeno. Em 20% des ses casos, pode ocorrer lesão associada do pâncreas. O tratamento do hemato- ma duodenal sem lesões associa das não é cirúrgico, voltando-se para colocação de SNG e aplica-se nutri- ção parenteral total. Habitualmente o hematoma é reabsorvido entre 5 e 7 dias. Caso isso não ocorra, pode- -se esperar até 15 dias para indicar ci rurgia com objetivo de esvaziar o hematoma cirurgicamente. 50% dos hematomas duodenais em crianças relacionam-se a abuso. Classifi cação das lesões duodenais (American Association for the Surgery of Trauma – AAST) Grau da lesão Tipo de lesão Descrição I* Hematoma Acometendo segmento único Laceração Parcial, sem perfuração II* Hematoma Acometendo mais de um seg- mento Laceração Rotura < de 50% da circunfe- rência III Laceração Rotura de 50-75% de D2 Rotura 50-100% de D1, D3 ou D4 IV Laceração Rotura > 75% de D2, envolven- do a ampola ou o colédoco distal V Laceração Rotura extensa do complexo du- odenopancreático Lesão vascular Desvascularização do duodeno Tabela 6.15 Classifi cação para lesões duodenais. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201576 A B Figura 6.8 Trauma duodenal. A: note estreitamento da primeira e terceira porções do duodeno no raio X contrastado de esôfago, estômago e duo- deno. B: TC de abdome com duplo contraste demonstrando espessamento duodenal da 3ª porção. Lesão abdominal/intestinal Lesão gástrica Piloro → piloroplastia Corpo → reparo primário Extensa → ressecção Lesão intestinal Manobra de Catell Lesão mesentérica Sem isquemia intestinal → reparo Isquemia → ressecção e anastomose Extensa → ressecção e second look Pequena → reparo Próximas → comunicação e reparo Múltiplas → ressecção e anastomose Múltiplas com instabilidade hemodinâmica e coagulopatia → damage control Junção GE Pequena Grande Reparo primário Anastomose e piloroplastia Lesão intestinal Controle de sangramento e contaminação Figura 6.9 Conduta no trauma duodenal. Para o reparo simples das lesões graus I e II o período de 6 horas é divisor de conduta. Nas primeiras 6 horas, reparo primário simples; decorridas 6 horas, o risco de deiscência de sutura aumenta, portanto descompressão duodenal é a conduta. Trauma pancreático O diagnóstico da lesão pancreática no trauma ab dominal contuso é dificultado pela inespecifici- dade das manifestações clínicas da lesão, mas tam- bém pela escas sa relação das manifestações clínicas, radiológicas e la boratoriais com a gravidade da le- são. Cerca de 60% das lesões pancreáticas são contusões, hematomas e lacerações capsulares (grau I), e cerca de 20% são lacerações do parên- quima sem ruptura maior de ducto ou perda de te- cido (grau II). A morbidade e a mortalidade da lesão pan- creática é alta em pacientes operados tardia- mente após período inicial de observa ção. São geralmente associadas à dificuldade diagnóstica pré-operatória ou à presença de lesões do ducto não de tectadas na primeira operação. A realiza- ção da TC espiral (multislice) e da colangiorressonân- cia mui to contribui para o diagnóstico de contusão pancreáti ca e principalmente para identificar lesão do ducto pancreático principal que é o critério para indi- car cirurgia. A posição retroperitoneal do pâncreas, a inativida- de con tinuada das enzimas pancreáticas após lesão isola- da e a reduzida secreção do fluido pancreático após lesão do parênquima poderiam explicar a ausência de manifes- tações de lesões ocorridas sobretudo nas primeiras 6-8 horas. Os pacientes estáveis, com trauma abdominal con- tuso por compressão anteroposterior com alto dispêndio de energia, apresentando abrasão na parede abdominal superior, e que à radio grafia simples apresentam fraturas concomitantes de vértebras torácicas inferiores, devem ser avaliados com alto índice de suspeita de lesão pancre- ática. Nesses casos, exames radiológicos são necessários além de determinações sequenciais de amilasemia. A avaliação do trauma pancreático em pacien- tes instáveis como em qualquer outro órgão abdomi- nal não requer nenhum exame porque a prioridade é 6 Trauma abdominal 77 que o paciente vá a laparotomia. Já naqueles estáveis, pode envolver TC com duplo contraste, CPRE, colan- giorressonância ou ainda laparotomia. O reconhecimento da lesão ductal é o principal determinan- te isolado do prognóstico no trauma pancreático. Frequentemente, pacien tes com lesões pan- creáticas despercebidas inicialmente mani festam crises abdominais em poucos dias após o trauma. Mesmo na ausência de achados clínicos, labo- ratoriais, e de exames por imagem indicativos de exploração cirúr gica, lesões graves como a transecção total do pâncreas ou do ducto pan- creático podem demorar semanas e meses para produzir sintomas. O valor diagnóstico de elevação da amilasemia no trauma pancreático requer atenção a vários as- pectos. A distinção da fração (isoamilase) pancreá- tica, da amilase salivar, não aumenta a acurácia da amilase como marcador de lesão pancreática. Além disso, a hiperamilasemia na presença de TCE não é marcador de trauma pancreático (o mecanismo da regulação da amilase é via SNC). Dosagens após 3 horas do trauma aumen- tam a sensibilidade e o valor preditivo positivo da amilasemia. Valores normais precoces de amilasemia não afastam a pre- sença de traumas pancreáticos graves. No período pós-trau- mático até 8 horas, a TC com duplo contraste pode não iden- tifi car trauma pancreático. O resultado da TC depende do tempo entre o mo- mento do trauma e do exame, por isso este deve ser repetido em caso de dúvida, posto que lesões graves do pâncreas podem ser assintomáticas. A sensibilidade e a especifi cidade da TC no diag nóstico do trauma pancreático podem chegar a 80%, na dependência da experiência do examinador, qualidade do aparelho e tempo entre o trauma e o exame. Imagens da TC tem sensibilidade e especi- fi cidade de 80% para detecção de trauma pan- creático e incluem: a visualização direta da lesão do parênquima do pâncreas, hematoma intrapancreático, líquido no omento menor, líquido separando a veia es- plênica do corpo pancreático, espessamento da fáscia renal anterior e líquido retroperitoneal. Esses achados são muito sutis e às vezes passam despercebidos e ini- cialmente 40% das TC nas primeiras 6 h do trauma de pâncreas podem ser normais. Pacientes com alterações na TC, persistênciade dor abdominal e hiperamilasemia deverão ir necessariamen- te à CPRE nas primeiras 12-24 horas para delimitação da anatomia pancreática e avaliação de rotura ductal. Lesões pancreáticas que acometem o ducto de Wirsung requerem laparotomia exploradora. A cirur- gia é voltada para drenagem do pâncreas e ressecção distal da glândula se necessário. Lesões pancreáticas que acometem o ducto de Wirsung reque- rem laparotomia exploradora e não tratamento conservador. A indicação principal da CPRE seria para esclarecer a suspeita de possível lesão de ducto pancreático, quer em pacientes em tratamento conservador de lesão pancreá- tica, quer em pacientes no intra ou pós-operatório. Figura 6.10 Trauma pancreático com rotura da cauda do pâncreas no 10º PO. A 1ª TC havia mostrado pâncreas normal porque foi feita em tempo menor de 6 horas pós-trauma. Os níveis de amilase começaram a subir no 9º PO. Esse paciente fez colangiorressonância que não mos- trou lesão de Wirsung e o paciente não foi operado. Classifi cação das lesões pancreáticas (American Association for the Surgery of Trauma – AAST) Grau* Tipo de lesão Descrição** I Hematoma Contusão menor sem lesão ductal Laceração Laceração superfi cial sem lesão ductal II Hematoma Contusão maior sem lesão ductal Laceração Laceração maior sem lesão ductal III Laceração Transecção distal ou lesão do pa- rênquima com lesão ductal (Wir- sung) IV Laceração Proximal à veia mesentérica supe- rior ou lesão de parênquima envol- vendo a ampola de Vater V Laceração Rotura da cabeça pancreática *Aumente um grau para lesões múltiplas até a grau III. **Baseando-se em estudos radiológicos, de autópsia ou acha- dos de laparotomia Tabela 6.16 Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201578 Figura 6.11 Colangiografia intraoperatória. Note a punção feita na vesícula biliar e o contraste sendo injetado. Ferimento demonstrando lesão com comprometimento de ducto de Wirsung proximal (grau III) com extravasamento de contraste. Figura 6.12 C mostrando transecção pancreática. Tratamento das lesões pancreáticas O tratamento do trauma pancreático volta-se para manter o fluxo pancreaticoentérico e bileoenté- rico, drenagem de lesões duodenopancreáticas e final- mente redirecionar secreções do TGI para minimizar estímulo pancreático se necessário. Dessa forma, defi- ne-se as seguintes condutas: A localização da lesão em relação à posi- ção dos vasos mesentéricos determina o mane- jo mais apropriado. As lesões à esquerda dos vasos mesentéricos, sem comprometimento ductal, podem ser manejadas com debridamento e sutura simples. As lesões distais que comprometem o ducto pancre- ático devem ser tratadas com pancreatectomia distal, preservando-se, sempre que possível, o baço. Alguns autores consideram factível a preserva- ção esplênica se esta não aumentar o tempo operatório em mais de 30 minutos ou não exigir a transfusão de mais de uma unidade de sangue. A ressecção esplênica pode tornar-se imperiosa para facilitar tecnicamente a ressecção do pâncreas em pacientes instáveis. As lesões pancreáticas proximais aos vasos mesentéricos possuem alto potencial para evo- luirem com fístulas pancreáticas. O debridamento e a drenagem ampla dessas lesões são o manejo mais apropriado, acompanhados de controle da hemorra- gia e das lesões associadas. As fístulas pancreáticas pós-trauma evoluem favoravelmente, desde que bem drenadas e com suporte nutricional adequa- do. A drenagem das lesões pancreáticas é recomen- dação universal, devendo ser ampla e realizada com drenos que permitam a irrigação e aspiração de debris e secreções, em geral por meio de sistemas fechados. Drenagens abertas com drenos tipo Penrose devem ser evitadas. As lesões pancreáticas mais graves, com en- volvimento da papila de Vater e do duodeno são mais bem tratadas com controle de danos (“laparotomia abreviada”), drenagem e reconstrução postergada, à semelhança das lesões duodenais de mesmo grau. A duodenopanereatectomia (DPT) está indicada somente quando a reconstrução for impraticável e, ainda assim, idealmente, em segundo tempo, com o paciente estabilizado. A DPT na abordagem inicial restringe-se aos casos de pacientes que foram “pancreatectomizados” pelo próprio trauma. Complicações do trauma pancreático Complicações do trauma pancreático: fístula (20-30%), abscesso subfacial ou peripancreático que resultam de debridamento inadequado (20%), pancre- atite (10-20%), pseudocistos, hemorragia requerendo transfusões (10%) e insuficiência exócrina e endócrina. A maior parte das fístulas pancreáticas é de pequeno débito (< 200 mL) e 90% resolve em duas semanas com tratamento conservador com nutrição parenteral ou enteral (SNE jeju- nal) pobre em gordura. Fístulas de alto débito (> 500 mL) são raras e exigem cirurgia. O uso do oc- treotide que é feito nas ressecções eletivas pancreá- ticas poderia ser interessante mas a administração 12 horas antes da cirurgia torna impraticável no trauma onde a maior parte das cirurgias é de urgên- cia. Os abcessos são resolvidos através de drenagem percutânea que também ajuda a diferenciar se é um abscesso ou um pseudocisto. A pancreatite pós-ope- ratória é tratada conservadoramente, com SNG, hi- dratação e jejum via oral além de suporte nutricio- nal. Felizmente, a pancreatite necro-hemorrágica ocorre em 2% dos pacientes que têm pancreatite. E ainda bem porque a mortalidade alcança 80% sem nenhum tratamento efetivo. Em relação aos pseu- docistos tudo vai depender da integridade do Wir- sung. Sem rotura do ducto pancreático somente a drenagem externa percutânea resolve. Entretanto, 6 Trauma abdominal 79 não há de se fazer drenagem externa em casos de pseudocisto que comunica com o Wirsung porque resultará em fístula crônica. Nesses casos de pseu- docisto e comprometimento do ducto pancreático podem ser feitos os seguintes tratamentos: � ressecção distal da glândula (tratamento preferi- do do pseudocisto de cauda); � cistojejunostomia em Y de Roux; � gastrocistostomia (pseudocistos que abaulam o estômago); � stent transpapilar endoscópico do ducto pancreático; É preciso 20% do tecido pancreático para função pancreática normal (ou seja, pode-se ressecar 80% da glândula distal aos vasos mesentéricos). Trauma hepático O fígado é o segundo órgão mais atingido no trauma fechado (baço é o primeiro) mas o trau- ma hepático representa 5% das admissões hospi- talares. Aproximadamente 85% de todos os pacien- tes com trauma hepático fechado estabilizam após a ressuscitação inicial. Os graus I, II e III correspon- dem a 75% das lesões hepáticas. A mortalidade global do trauma hepático é 10%. Classifi cação do trauma hepático Grau Tipo de lesão Descrição AIS I Hematoma Subcapsular, não expansivo < 10% 2 Laceração Lesão capsular, não san- grante, < 1 cm de profundi- dade no parênquima. 2 II Hematoma Subcapsular, não expansível 10-50%; intraparenquima- toso não expansível com < 10 cm de diâmetro. 2 Laceração Lesão capsular 1-3 cm de profundidade e com < 10 cm de extensão. 2 III Hematoma Subcapsular > 50% ou he- matoma expansivo subcap- sular roto com sangramento ativo; Intraparenquimatoso > 10 cm ou expansivo. 3 Laceração > 3 cm de profundidade pa- renquimatosa. 3 IV Hematoma Hematoma intraparenqui- matoso roto com sangra- mento ativo. 4 Laceração Rotura parenquimatosa 25- 75% de um lobo ou de 1-3 segmentos de Couinaud dentro de um único lobo. 4 Classifi cação do trauma hepático (cont.) V Laceração Rotura parenquimatosa > 75% de um lobo ou de > 3 segmentos de Couinaud dentro de um lobo. 5 Vascular Lesões venosas justa-hepá- ticas (veia cava inferior re- tro-hepática e veias hepáti- cas maiores) 5 VI Vascular Avulsão Hepática 6 *Aumente uma graduação para lesões múltiplas até a gradu- ação III. Tabela 6.17 Classifi cação do trauma hepático. O AIS é colocado a tí- tulo de curiosidade. Figura 6.13 Tomografi a computadorizada demonstrando hematomahepático do segmento VIII. Figura 6.14 TC abdominal demonstrando laceração hepática grau IV do segmento VII. Há de se lembrar que a maior parte da vasculari- zação do fígado vem pela veia porta (80%). Entretan- to, aqueles 25-30% que vêm pela artéria hepática re- presentam a maior parte do sangue oxigenado (50%). Figura 6.15 TC abdominal demonstrando o blush característico do trauma hepático arterial em segmentos VII e VIII em laceração hepática grau IV. A arteriografi a nesses doentes é diagnóstica e terapêutica. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201580 Tratamento não operatório das lesões hepáticas O êxito da conduta não operatória das lesões hepáticas está na dependência da seleção e estrati- ficação criteriosa dos pacientes e avaliação da capa- cidade insti tucional. Critérios fundamentais para a conduta não operatória: � pacientes hemodinamicamente estáveis; � UTI; � tomógrafo; � banco de sangue; � centro cirúrgico; � cirurgião do trauma. A instituição que oferece condições para trata- mento não cirúrgico de tais lesões deve contar com estrutura que possa proporcionar assistência intensi- va e imediata ao paciente traumatizado, em todas as circunstâncias e possíveis com plicações. Os pacientes candidatos ao tratamento não ope- ratório são os que preenchem os seguintes critérios: � Estabilidade hemodinâmica: este é um critério básico e fundamental que deve ser obedecido sem- pre. Pacientes instáveis, após reanimação ini cial, devem ser levados para laparotomia de imediato. � Transfusão < 4 U de concentrado de hemácias transfun didas nas primeiras 24 horas: se hou- ver necessidade de mais unidades é sinal de que o sangramento ainda persiste e o paciente neces- sitará de transfusão de sangue, arteriografia ou laparotomia exploradora. � Ausência de sinais de irritação peritoneal difu- sa: dor localizada em quadrante superior direito não exclui o tratamento não operatório, pois a le- são hepática por si só pode causar tal alteração. Entretanto, qualquer suspeita de lesões intestinais contraindicaria o tratamento conservador e de- clararia necessidade de laparotomia de urgência. � Graduação da lesão: a TC com contraste é fun- damental para que a lesão seja graduada. Há re- latos de lesões até grau V terem sido tratadas conservadoramente. Entretanto, quanto maior a graduação da lesão, menor a probabilidade de não necessitar cirurgia e maior a chance de san- gramento e instabilidade precoce ou tardia. O tratamento das lesões hepáticas de acordo com o grau das lesões pode ser assim resumido: Graus I e II: apenas hemostasia com cautério. Grau III: suturas com categute cromado 2.0 ou vicryl 2.0 com agulha atraumática longa. Grau IV: Damage control. Pode-se suturar ou realizar desbridamento do fígado. As hepatectomias regradas são evitadas no trauma. Grau V: Damage control. Pringle. Shunt atrio- caval. Transplante. Deve-se evitar suturas em massa e grosseiras, en- globando muito tecido hepático, pois essa técnica pro- voca necrose nas bordas da lesão aumentando o risco de formação de abscesso hepático e peri-hepático. Trauma hepático grave deve ser resolvido rapida- mente. As cirurgias de damage control também conhe- cidas como laparotomias abreviadas melhoraram muito a sobrevida do trauma abdominal exsanguinante sem resposta às manobras de controle da hemorragia. São colocadas várias compressas no fígado, tamponando áreas sangrantes do parênquima hepático, que são reti- radas dias depois, quando é feita revisão da cirurgia para verificar se o sangramento cessou (48-72 horas após). Caso ainda haja sangramento significativo, podem ser recolocadas novas compressas e o procedimento é repeti- do. Neste ínterim, o paciente fica na UTI e é estabilizado (controle da coagulopatia, hipotermia e acidose) e eleti- vamente operado para os reparos definitivos. A manobra utilizada para abordagem do trauma hepático grave é a manobra de Pringle, que consiste na oclusão do pedículo hepático através do forame de Winslow, com a colocação de uma pinça vascular em direção à margem do ligamento hepatoduodenal. Uma vez feita a manobra de Pringle, podem-se avaliar gros- seiramente quais são os prováveis vasos lesados. O Pringle pode ser mantido até 60 min. com segurança. En- tretanto, clampeamento de 20 min. com descanso por 5 min. vem sendo descrito e sugerido como apresentando menor le- são por isquemia e reperfusão. Caso o sangramen to cesse com a manobra de Pringle (clampeamento da veia porta, artéria he- pática própria e colédoco), supõe-se que a lesão é de ramos da veia porta ou da artéria hepática. Se o sangramento persistir, deve-se suspeitar de lesão de veia cava retro-hepática, justa-hepática ou de ramos das veias hepáticas cujo fluxo vem de cima do fígado. Figura 6.16 Demonstração da manobra de Pringle com clampeamen- to da veia porta, artéria hepática e colédoco. 6 Trauma abdominal 81 Figura 6.17 Ferimento transfi xante do fígado, demonstrando a colo- cação intra-hepático do balão de Sengstaken-Blakemore, o mesmo usado no esôfago para cessar hemorragia digestiva alta por varizes de esôfago. Quando o balão é insufl ado automaticamente ocorre hemostasia no fí- gado nesses FAF transfi xantes. Esse balão poderá ser retirado no pós- -operatório quando desinsufl armos e o paciente permanecer estável. O controle da cava inferior acima das renais e na altura do hiato diafragmático, bem como das veias hepá- ticas, pode ser necessário em casos de lesão da cava retro- -hepática. Para isso, faz-se extensa mobilização do fígado, que é liberado dos ligamentos, ou mesmo submetido à di- gitoclasia do parênquima, para acesso à veia cava retro-he- pática. Os shunts atriocavais, com cânulas de intubação orotraqueal ou sondas, antigamente muito utilizados, re- sultam em alto índice de mortalidade e estão sendo usados cada vez menos. São situações dramáticas, pois o controle vascular da veia cava inferior ao nível do hiato diafragmá- tico leva a redução do débito cardíaco que fi caria garantido apenas pelo território de veia cava superior. nesta situação pode ser necessário o clampeamento da aorta descendente para garantir perfusão de carótidas e coronárias deixando a perfusão menestérica prejudicada. Figura 6.18 Compressão manual de ferimentos hepáticos. A B Figura 6.19 Shunt atriocaval. Faz-se toracotomia anterolateral esquer- da e clampeia-se o átrio direito para incisão com bisturi para passar um tubo endotraqueal por dentro do coração até a veia cava inferior. Daí in- fl a-se o balão acima das renais. Obviamente o tubo endotraqueal estará preenchido por SF 0,9%. Será feita sutura em bolsa do átrio direito. Pelo tubo endotraqueal poderá ser administrado cristaloides e sangue e desse modo consegue-se o controle de todo o sangramento hepático. Trauma das vias biliares O local mais comum de lesão no trauma ao pedí- culo hepático é no ducto hepático comum. As lesões das vias biliares extra-hepáticas (vesí- cula biliar, cístico, ductos biliares direito e esquerdo, hepatocolédoco, colédoco e papila) são abordadas da seguinte forma: – vesícula biliar e ducto cístico: colecistectomia. – ductos hepáticos: sutura quando possível + dreno em T de Kehr. – ducto hepático comum e colédoco: lesão parcial, dreno de Kehr; lesão total, anastomose bilio- digestiva (hepaticojejunostomia em Y-de-Roux). Dica: não adianta tentar fazer coledococo- lédoco anastomose porque resulta em alta inci- dência de estenose. A hepaticojejunoanastomose é superior. Lesões vasculares do pedículo hepático: – veia porta: não pode ser ligada. Mortalidade > 90% se ligada. Há de se fazer rafi a ou enxerto. – artéria hepática: pode ser ligada em casos de trauma grave. Trauma esplênico O baço é o órgão mais lesado nos traumas fechados. Funções do baço: – Defesa: exerce função primordial como pri- meira linha de defesa do organismo; é responsável pela opsonização inicial contra antígenos circulantes (processo que facilitaa fagocitose), além de remover aqueles mal opsonizados. Isso se deve à anatomia da microcirculação esplê- nica. Os antígenos fagocitados por macrófagos do sis- tema reticuloendotelial dos sinusoides da polpa ver- melha são carregados para os centros germinativos, onde se dá a produção de IgM, uma imunoglobulina de fase aguda que surge 4-5 dias após o contato com o antígeno. A IgM é capaz de opsonizar e de ativar o sistema complemento, tanto pela via clássica quanto pela via alternativa. Enquanto isso, após 2-3 dias, já se pode titular IgG específi ca, de meia-vida mais longa, também produzida no baço. – Produção de tuftsina: tetrapeptídeo derivado da IgG que possui função imunoestimulante através do aumento da citotoxicidade de neutrófi los e células NK; estimula a quimiotaxia de neutrófi los e monócitos e po- tencializa a fagocitose estimulada por anticorpos. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201582 – Produção de properdina é uma proteína sintetizada no baço, de grande relevância na ativação da via alternativa do sistema comple- mento. Esta função pode ser ainda mais importan- te na ausência de anticorpos específicos. Toda essa função opsonizante e de ativação do sistema comple- mento assume importância maior na defesa contra germes encapsulados, naturalmente mais resis- tentes à fagocitose, notadamente os Streptococus pneumoniae, Haemophilus influenzae e Neisseria meningitidis. Estes germes podem provocar sepse fulminante em pacientes esplenectomizados devido à ausência de tuftsina e properdina. Essa sepse pode ocorrer mesmo anos após a cirurgia, o que justifica a vacinação contra esses germes em pacientes subme- tidos à esplenectomia total. Vacinação: nas cirurgias eletivas, deve ser feita no pré-operatório (duas semanas antes); nas de ur- gência (antibioticoprofilaxia na indução anestésica), e a vacinação será feita no pós-operatório imediato (na mesma internação). Figura 6.20 C de abdome, demonstrando laceração esplênica com hematoma. Escala da AAST* para Lesão Traumática do Baço (Revisão de 1994) Grau da lesão* Lesão Descrição da lesão I Hematoma Subcapsular, não expandido, < 10% da área de superfície Laceração Capsular, não sangrando, < 1 cm de profundidade II Hematoma Subcapsular, não expandido, 10-50% da área de superfí- cie; intraparenquimatoso, não expandido, < 5 cm de diâmetro Laceração Capsular, sangramento ati- vo, 1-3 cm de profundidade não envolvendo vasos trabe- culares Escala da AAST* para Lesão Traumática do Baço (Re- visão de 1994) (cont.) III Hematoma Subcapsular, > 50% da área de superfície; subcapsular roto com sangramento ativo; intraparenquimatoso ≥ 5 cm de diâmetro ou em expansão Laceração > 3 cm de profundidade ou envolvendo vasos trabecula- res IV Hematoma Intraparenquimatoso roto com sangramento ativo Laceração Envolvendo segmento ou vaso hilar que desvasculari- ze > 25% do parênquima es- plênico V Laceração Fragmentação completa do baço Vascular Lesão hilar com avulsão ou completa desvascularização do baço *Avançar um grau para lesões múltiplas até grau III. Tabela 6.18 Trauma de baço. Cerca de 60% dos traumas esplênicos irão resul- tar em cirurgia de urgência. A dor no ombro esquerdo após trauma levanta suspeita para a rotura esplênica (sinal de Kehr). Dos exames, a presença de blush na TC de ab- dome fala em favor de sangramento ativo no baço com extravasamento de contraste. Esses são os pa- cientes que caracteristicamente poderão ir preferencial- mente à arteriografia ou à laparotomia exploradora. Tratamento não operatório das lesões esplênicas O tratamento inicial segue as mesmas normas descritas no trauma hepáti co, ou seja, o paciente deve ser reanimado segundo as normas preconizadas pelo ATLS®. Após avaliação inicial e reanimação, o paciente pode ser candidato ao tratamento não operatório des- de que preencha os critérios (UTI, cirurgião do trau- ma, centro cirúrgico, banco de sangue, tomógrafo). A conduta não operatória como forma de tratamento só deve ser realizada caso o paciente preencha os seguintes pré-requisitos: � estabilidade hemodinâmica (PAS > 90). � ausência de sinais e sintomas de irritação perito- neal franca. � ausência de coagulopatia ou doenças sistêmi- cas graves. � lesão graduada por TC de abdome. � transfusão < 4 unidades de concentrado de hemácias. � sem múltiplas lesões associadas. 6 Trauma abdominal 83 A taxa de sucesso do tratamento conserva- dor para trauma de baço é 80% para adultos e 95% em crianças. Acompanhamento: Assim que o paciente com lesão esplênica for candidato ao tratamento não operatório, devem ser adotadas as seguintes condutas: � Observação contínua entre 2 a 3 dias (preferen- temente em UTI). � Jejum por 48 horas. � Avaliação clínica a cada 6 horas durante as pri- meiras 24 horas. � Dosagem de hematócrito e hemoglobina a cada 12 horas nas primeiras 24 horas. � Repouso absoluto no leito nos três primeiros dias; � É recomendável tempo de hospitalização de, no mínimo, 5 dias, e, após esse período, a alta de- penderá do grau de lesão esplênica e das condi- ções do paciente. É importante verifi car a estru- tura de apoio domiciliar, assim como o grau de compreensão deste e de seus responsáveis. � A TC de controle antes da alta é desnecessária, caso a evolução seja favorável; � Recomenda-se evitar esforços físicos e esportes de contato por, no míni mo, 2-6 meses. Na evidência de queda brusca do hematócrito, ins- tabilização hemodinâmi ca, aumento da dor abdominal com irritação peritoneal ou taquicardia persistente com palidez de mucosas, indica-se laparotomia exploradora. Mais de 70% dos pacientes estáveis estão sendo submetidos a tratamento não cirúrgico. Trauma de cólon Cerca de 90% das lesões colônicas são causa- das por ferimentos penetrantes. O toque retal com sangue é sugestivo de lesão intestinal. No trauma contu- so, quando não existe indicação absoluta de laparotomia, a TC com triplo contraste pode identifi car lesão de cólon. Trauma de cólon da AAST Grau* Descrição da lesão I Hematoma Contusão ou hematoma sem desvas- cularização Laceração De espessura parcial, sem perfuração II Laceração Laceração < 50% da circunferência III Laceração Laceração > 50% da circunferência sem transecção IV Laceração Transecção do cólon V Laceração Transecção do cólon com perda seg- mentar de tecido *Avançar um grau para lesões múltiplas até grau III. Tabela 6.19 Classifi cação para trauma de cólon. Tratamento A avaliação inicial, na sala de emergência, assu- me papel fundamental no prognóstico e deve ser re- alizada seguindo os preceitos do programa Advanced Trauma Life Support (ATLS). A antibioticoprofi laxia tem hoje sua indicação bem defi nida e a literatura aponta uma preferência pela mo- noprofi laxia com cefalosporinas de segunda geração por no máximo 24 horas de uso (grau de recomendação A). Em pacientes com traumatismo cranioencefálico ou raquimedular, e mesmo em casos de trauma ab- dominal em tratamento não operatório, é necessária avaliação clínica seriada, visando à identifi cação pre- coce de anormalidades na evolução do paciente. Acrescente-se ao arsenal diagnóstico desses pa- cientes, quando a indicação cirúrgica não é evidente, o lavado peritoneal diagnóstico (LPD), a ultrassono- grafi a e a tomografi a computadorizada com contraste (grau de recomendação A). As técnicas cirúrgicas utilizadas para o tra- tamento das le sões de cólon intraperitoneal são semelhantes ao intestino delgado: – menores de 50% e borda antimesentérica = ra- fi a simples; – maiores de 50% ou aquelas que acomentam borda mesentérica = ressecção e anastomose terminal (Hartmann), anastomose em alça (Mikulicz) ou anas- tomose primária com um ou dois planos. O mesentério deverá ser fechado para não ocor- rer pontos de facilitação de hérnia interna. Além dis- so, poderá ser feita anastomose de cólon mais colosto- mia proximal protetora com exteriorização nolocal da lesão após a ressecção ou am pliação da lesão. A sutura primária ou ressecção do có lon com anastomose pri- mária colocólica ou ileocólica são as alternativas mais frequentemente utilizadas. Critérios para realização da colostomia ao invés da anastomose primária: – choque; – politransfusão; – mais de 6 horas de trauma; – contaminação maciça da cavidade; – desnutrição; – infecção ou fator comprometedor da cicatrização; – predisposição de fístula. A cirurgia de Mikulicz (colostomia em alça) é mais segura, menos trabalhosa e facilita para posterior reconstrução do trânsito intestinal, pois não precisa fa- zer laparotomia, é só aumentar a incisão por onde sai a colostomia em alça. Uma vez reconstruído o trânsito é só retornar a alça para o interior da cavidade abdominal. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201584 Naqueles tratados com a técnica de damage con- trol, não se deve realizar o tratamento com anasto- mose primária da lesão, pois tanto a politransfusão quanto o edema de al ças são fatores determinantes de aumento de deiscência. Quando o doente não apre- senta as melhores condi ções, quando foi submetido a transfusão maciça e quan do apresenta doenças pré- vias importantes, dá-se preferência à realização de colostomia. Na cirurgia de controle de dano, o cólon pode ser fe chado temporariamente com sutura manual ou mecâni ca, realizando-se a colostomia no momento oportuno durante as reoperações. A maturação da co- lostomia deve ser feita após o fechamento da laparoto- mia. Para a realização de sutura primária ou ressec- ção segmentar com anastomose primária, deve-se conside rar extensão da lesão, presença de isquemia e compro metimento do mesentério. Caso haja dúvida sobre a viabilidade do segmento lesado, deve-se dar preferên cia à ressecção. Nas lesões proximais à artéria cólica média que neces sitam de ressecção, pode-se fazer com segurança a anasto mose ileotransversa. Esse tipo de anastomo- se apresenta boa evolução em doentes traumatizados. As anastomoses devem ser feitas sempre em condi- ções ideais: irrigação sanguínea adequada, ausência de tensão e utilização de boa técnica cirúrgica em um ou dois planos. As ressecções distais à artéria cólica mé- dia e as ressecções no cólon esquerdo provocam maior trauma para o doente e as reconstruções não são tão simples. Quando o doente não apresenta as melhores condi ções, quando foi submetido a transfusão maciça e quan do apresenta doenças prévias importantes, dá- -se preferência à realização de colostomia. Na cirurgia de damage control, o cólon pode ser fe chado temporariamente com sutura manual ou mecâni ca, realizando-se a colostomia no momento oportuno durante as reoperações. Os mesmos cuida- dos técnicos na anastomose devem ser adotados na confecção da colos tomia: irrigação sanguínea adequa- da, ausência de tensão e utilização de boa técnica ci- rúrgica. A maturação da co lostomia deve ser feita após o fechamento da laparoto mia. O coto distal do cólon ressecado pode ser fechado e deixado dentro da cavi- dade peritoneal (cirurgia de Hartmann) e ainda ser exteriorizado junto com o coto proxi mal na colosto- mia (cirurgia de Mikulicz ou em cano de espingar- da) ou no ângulo inferior da laparotomia. A lite ratura prefere a cirurgia de Hartmann à fístula mucosa na incisão, pois esta última opção está relacionada a altos índices de infecção. Trauma de reto As lesões do reto são por ferimentos pene- trantes por projétil de arma de fogo (80%), trau- ma fechado (10%) e o restante por via anal. As lesões retais diferem do trauma de cólon, uma vez que pelo menos metade do reto é retroperitoneal. A perfura- ção do reto extraperitoneal não causa peritonite, mas poderá causar retroperitonite e fascite necrotizante perineal. Nas lesões de reto intraperitoneal, o quadro de peritonite é precoce, não oferecendo maior dificul- dade da indicação cirúrgica. Todos os pacientes com suspeita de lesão retal devem ser submetidos ao toque retal; a presença de sangue deve ser investigado para uma possível lesão colorretal, no entanto vale lembrar que o toque retal pode não detectar sangue, e isto não exclui a presença de lesão (30% dos casos). Este proce- dimento simples, deve ser realizado em todos os pa- cientes vítimas de projétil de arma de fogo que estiver localizado em topografia pélvica inferior. Classificação anatômica das lesões do reto Do ponto de vista terapêutico é importante a classifica ção anatômica das lesões retais. � Reto intraperitoneal: parte superior e média do reto. � Reto extraperitoneal: 2/3 do órgão. � Subperitoneal: acima do assoalho pélvico. � Perineal: abaixo do assoalho pélvico. � Região pré-sacral. Classificação da lesão de reto da associação americana da cirurgia do trauma (AAST) Grau Descrição da lesão I Hematoma Contusão ou hematoma, sem desvas- cularização Laceração Laceração de espessura parcial II Laceração Laceração < 50% da circunferência III Laceração Laceração > 50% da circunferência IV Laceração Laceração de espessura total com ex- tensão para o períneo V Vascular Segmento desvascularizado *Avançar um grau para lesões múltiplas até grau III. Tabela 6.20 Trauma de reto. Tratamento Intraperitoneal: as mesmas condutas preconi- zadas para os demais segmentos colônicos. 6 Trauma abdominal 85 Extraperitoneal: desbridamento + sutura + drenagem pré-sacra + colostomia obrigatória. Figura 6.21 Note que à esquerda há necessidade de se fazer colostomia a hartman e desbridamento e rafi a da bexiga. A fi gura da direita demonstra claramente a demarcação entre lesão de reto intra e extraperitoneal, bem como o dreno pré-sacral colocado e a colostomia que nessas lesões de retro extraperitoneal são obrigatórias. O uso de antibiótico nas lesões de reto é defi nido conforme o tempo de evolução do trauma. Pacientes com evolução inferior a seis horas são tratados com antibioticoprofi laxia. Nas lesões com mais de seis ho- ras de evolução, indica-se antibioticoterapia com co- bertura para Gram-negativos e anaeróbios. O ferimento de reto intraperitoneal deve ser trata dos de maneira semelhante aos feri- mentos de cólon, isto é, o ferimento deve ser de- bridado e suturado. Nos ferimentos de reto extraperitoneal, sempre que possível, devemos colocar em posição ginecológi- ca modifi cada, permitindo acesso abdominal e retal simultâneos caso necessário para identifi car e tratar a lesão retal. A sutura pode ser por via abdominal ou transanal. Porém, algumas vezes, a identifi cação da lesão é muito difícil e a dissecção do reto extraperi- toneal poderá ser muito deletéria pelo risco de lesão neurológica, vascular ou urológica. Nestas circunstân- cias, a melhor abordagem é tratar o paciente como se ele tivesse a lesão, mesmo que fal te a evidência defi - nitiva de sua existência. Devemos ter em mente que a colostomia tem por objetivo propor cionar um desvio temporário do trânsito fecal, propiciando condições para a cicatrização da lesão e evitando complica ções relacionadas ao extravasamento de fezes para os tecidos adjacentes. As opções da colostomia incluem: colostomia em alça (Mickulicz), co lostomia proximal e fístula mu- cosa, e fi nalmente colostomia proximal e sepultamen- to do coto retal (Hartmann). A vantagem da co lostomia em alça é a rapidez na sua construção e facilidade do seu fechamento. Pode- -se reconhecer uma colostomia em alça pela presença da sonda retal que envolve a colostomia. A necessidade de drenagem das lesões de reto extraperitoneal está bem estabelecida. A drenagem pode ser feita por via transperitoneal ou por via pré-sacral. Dá-se preferência a via pré-sacral nos ferimentos de reto de parede pos terior e lateral e nos de parede anterior preferimos a drena gem por via abdominal. A drenagem pré-sacral é realizada com dreno de Penrose, colocado através de uma incisão ar- ciforme entre o ânus e o cóccix, sendo o dreno coloca- do no espaço pré-sacral por dissecçãoromba através da fáscia de Waldeyer. Atualmente muitos cirurgi- ões só realizam a drenagem quando não for pos- sível a sutura do ferimento. No que diz respeito ao fechamento da colosto mia, a maior parte dos cirurgiões resta- belece o trânsito em 3 meses. Entretanto, alguns cirurgiões optam por fechá-la na mesma inter- nação ao redor do 10º pós-operatório. Nesse perí- odo, a cica trização já ocorreu em 70% dos ferimentos retais e em 92% dos ferimentos colônicos. Se o feri- mento distal estiver cica trizado e o paciente estiver es- tável, sem quadro infeccioso, a colostomia poderá ser fechada na mesma internação, principalmente se for em alça que fi ca mais fácil ainda pois o procedimento pode ser feito com anestesia local e sedação. ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA Capítulo 2 Capítulo 7 ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA 7 Trauma genitourinário 87 Traumatismo renal Os rins são órgãos que se localizam no retrope- ritônio, sendo assim protegidos posteriormente pela musculatura paravertebral, medialmente pela coluna vertebral, lateralmente pelos arcos costais e anterior- mente pelas vísceras abdominais e pela parede mus- cular (músculo reto abdominal). Além disso, possuem mobilidade natural durante os movimentos respirató- rios e também são protegidos pela fáscia de Gerota. O trauma renal ocorre em 5 a 10% dos trau- mas abdominais, constituindo 3% das admissões hospitalares, sendo que os traumas renais mais graves são por trauma fechado. Cerca de 80% dos traumas renais são por trauma contuso. Antigamente era alto o índice de nefrectomias pelo atendimento de pacientes politraumatizados por cirurgiões pouco ex- perientes com o trauma renal. Hoje as taxas de nefrec- tomias não chegam a 30% quando há lesão penetrante ou trauma contuso, mas são bem maiores quando há lesão do pedículo vascular. Pacientes com lesão renal devem ser examinados, avaliados hemodinamicamente e de forma adequada, com o objetivo de preservar ao máximo o parênquima renal e evitar a realização de nefrectomias desnecessá- rias. A quantidade de hematúria e o tipo do trau- ma não são parâmetros para a indicação compul- sória de laparotomia. Classifi cação As lesões renais são classifi cadas de acordo com as normas da Associação Americana para a Cirurgia do Trauma, em 1989 e pode ser assim resumida (Figura 7.1): O sinal mais comum para sugerir trauma renal é a presença de hematúria. Trauma renal – Associação Americana da Cirurgia do Trauma (AAST) Grau Descrição da lesão I Contusão Hematúria (macro ou microscópi- ca). Estudos urológicos normais. Hematoma Subcapsular, não expansivo sem lac- eração parenquimatosa. II Hematoma Hematoma perirenal não expansivo confi nado ao retroperitônio renal. Laceração < 1 cm de profundidade do córtex sem extravasamento de urina. III Laceração Laceração > 1 cm de profundidade do córtex sem extravasamento de urina ou rotura do sistema coletor. Trauma renal – Associação Americana da Cirurgia do Trauma (AAST) (cont.) IV Laceração Laceração parenquimatosa se exten- dendo pelo córtex, medula e sistema coletor. Extravasamento de urina. Vascular Lesão de artéria ou veia renal com hematoma contido. V Laceração Esmagamento e esfacelamento do rim Vascular Avulsão do hilo renal com desvascu- larização do rim. *Avançar um grau para lesões múltiplas até grau III. Tabela 7.1 Classifi cação de Moore para trauma renal. Grau I Grau II Grau III Grau IV Grau V Figura 7.1 Classifi cação do trauma renal de acordo com a tabela da AAST. Diagnóstico É importante lembrar que 70% dos traumas são grau I e 20% grau II. O diagnóstico de lesões renais deve ser feito com uma boa história, investigando-se queixas do paciente e mecanismos do trauma. Exame físico deve identifi - car lesões no fl anco, ferimento na pele, hematomas e presença de hematúria macroscópica e sangue no me- ato uretral. Os exames laboratoriais (queda do hema- tócrito e hemoglobina) devem ser seriados, bem como urina tipo I (hematúria) e de imagem (TC abdominal). O raio X de tórax pode mostrar fraturas dos últi- mos arcos costais e/ou nas vértebras, apagamento do músculo psoas, escoliose voltada para o lado oposto da lesão, opacifi cação sobre a área renal mas não informa muito sobre trauma renal. A ultrassonografi a é sim- ples, rápida, barata, pode ser repetida várias vezes e, portanto, é utilizada para seguimento. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201588 Antigamente a urografia excretora com injeção de contraste IV também chamada de pielografia intra venosa era a escolha, entretanto, como 20% das uro- grafias excretoras podem dar falsos-negativos além de só informar sobre as vias urinárias, a TC abdominal passou a ser o exame de escolha para avaliação do trauma renal em pacientes estáveis. Vale lembrar que a urografia excretora avalia a morfologia e função renal, além de delimitar o sistema coletor e pode ser usada no intraoperatório para avaliação da função do rim contralateral (2 mL/Kg de contraste com o filme batido 10 - 15 min. depois da injeção do contraste). Figura 7.2 Técnicas de uretrocistografia. A: uretrocistografia retró- grada com injeção de 300 mL de contraste através de sonda vesical infantil introduzida no meato uretral na ponta da glande. Note o feri- mento de uretra que vai ser demonstrado pelo extravasamento de con- traste. B: cistografia de estresse que é o exame clássico para diagnóstico de rotura de bexiga onde 300 mL são injetados através de paciente que já está sondado (Foley) até o paciente ter sensação de urinar. Note que o extravasamento de contraste para a cavidade abdominal tipicamente revela a rotura de bexiga intraperitoneal. A TC abdominal com contraste é o exame de escolha para avaliação da suspeita de trauma renal com acurácia de 98%. A TC avalia a extensão e gravidade das lesões renais e do sistema coletor, hematomas retroperito- neais, lesões de outros órgãos e possível trombose de veia renal. É o melhor exame para esse tipo de situação (Figuras 7.3 a 7.4). Indica-se TC com contraste ev para pacientes que instáveis na admissão (PA sistólica < 90 mm/Hg), que apresentem hematúria macroscópica, crianças ou rebaixamento do nível de consciência. Na impossibilidade de realizar TC, poderiam ser realiza- dos Urografia excretora e ultrassonografia. Figura 7.3 TC com contraste no traumatis mo renal. A: TC com contras- te, corte axial (fase excretora) demonstrando lesão grau 4 no polo inferior do rim direito. B: TC com contraste, corte coronal (fase excretora), no mes- mo paciente anterior. C: TC com contraste, corte coronal (fase nefrogra- ma), explosão do polo inferior do rim esquerdo e grande hematoma perir- renal. D: TC com contraste, corte axial, demons trando a fragmentação do polo inferior do rim esquerdo, no mesmo paciente anterior de C. A B Figura 7.4 Trauma renal. A: TC de abdome, sugerindo oclusão de artéria renal após acidente de trânsito com motorista com cinto de segurança. O rim esquerdo não está perfundido e demonstra mínima intensificação com contraste dos vasos capsulares. Esse achado é patog- nomônico de oclusão da artéria renal e nem precisaria fazer a arterio- grafia (B) que só foi feita porque o cirurgião vascular achou necessário para planejar o tratamento. A TC não deverá ser indicada em pacientes ins- táveis hemodinamicamente refratários à reposição volêmica adequada (estes candidatos à laparotomia de emergência). Na fase arterial do exame são avaliados os vasos hilares e a contrastação homogênea do parên- quima renal, com atenção para a presença de sinais de sangramentos (blush arterial) ou hematomas em ex- pansão. Na fase tardia (excretora) deve ser avaliada a eliminação do contraste pela via excretora, com aten- ção para a presença de extravasamentos ou obstruções na passagem do contraste. Nos casos em que se suspeita de fístula arteriove- nosa ou se deseja realizar embolização terapêutica a arte- riografia é de grande valia para diagnósticoe tratamento. 7 Trauma genitourinário 89 Pacientes com trauma penetrante em fl anco ou abdome, hema- túria importante, ou hematúria microscópica e PS < 90 mmHg , ou crianças ou rebaixamento de nível de consciência, devem ser investigados radiologicamente com TC contrastada. A B C Figura 7.5 Trauma renal complicado após FAB em paciente com he- matúria macroscópica. TC de abdome, demostrando laceração profun- da no rim direito e hematoma perirrenal moderado. O paciente estava em tratamento conservador quando fez hipotensão (mas respondeu a cristaloides), hematúria macroscópica e precisou 4 UI de concentrado de hemácias. B: foi levado à arteriografi a que demonstra duas áreas de fístula aerocalicinal manejada com sucesso por embolização seletiva. C: arteriografi a tardia demonstrou área de infarto em forma de cunha de- vido à embolização. Esse teria sido um paciente que se tivesse ido à ar- teriografi a teria ido à laparotomia e provavelmente nefrectomia total. A ausência de hematúria (< 3 hemácias por campo) não ex- clui lesão renal. Tratamento As lesões renais podem ser tratadas de forma conservadora ou por meio de exploração cirúrgica. A maioria das lesões renais é tratada de forma conservadora em 80-98% dos adultos e 95% das crianças com trauma renal fechado não têm in- dicação de cirurgia, ao contrário daqueles com feri- mentos penetrantes (consegue-se fazer manejo coser- vador em 50% dos FAB e 25% dos FAF, desde que sem lesão intra peritoneal associada). RIM (Organ injury scale) Grau Tipo Descrição I Contusão Hematúria macro/micro com exam- es urológicos normais Hematoma Subcapsular. Não expansivo, sem la- ceração RIM (Organ injury scale) (cont.) II Hematoma Confi nado no retroperitônio renal. Não expansivo Laceração < 1 cm de profundidade parenqui- matosa, sem extravasamento uri- nário III Laceração > 1 cm de profundidade parenqui- matosa. Sem ruptura de sistema co- letor ou extravasamento urinário IV Laceração Extensão para córtex, medula e sistema coletor Vascular Lesão de artéria ou veia renal com hemorragia tamponada (contida) V Laceração Rim completamente destruído Vascular Avulsão de hilo renal. Desvaculari- zação do rim Observação: avançar um grau para lesões bilaterais até o grau III. Tabela 7.2 Cirurgia imediata: � Instabilidade hemodinâmica; � Queda progressiva do hematócrito necessitando de várias transfusões (> 4 UI); � Hematoma pulsátil ou em expansão; � Avulsão do pedículo renal. A presença de tecido não viável, trombose ar- terial, extravasamento de contraste e estadiamento incompleto devem ser avaliados com cuidado pois possuem indicações cirúrgicas relativas. A maior par- te das lesões traumáticas é leve, sendo que apenas 5% dos casos aparecem lesões signifi cativas (> grau II). Pacientes com lesões > grau IV são praticamen- te cirúrgicos, mas inicia-se sempre o tratamento conservador e avalia-se a evolução. O tratamento clínico conservador consiste em repouso, manutenção da volemia, correção do he- matócrito com transfusões e monitoração clínica e radiológica. Não se deve esquecer que um paciente submetido a tratamento conservador pode se tornar cirúrgico em qualquer momento de sua evolução. O tratamento cirúrgico é realizado por meio de la- parotomia por incisão mediana xifopubiana, isolamen- to e controle dos vasos renais (artéria e veia) antes da abertura da fáscia de Gerota e da exploração da lesão. O cólon é mobilizado antero superiormente, a fáscia de Gerota é então aberta e o rim é exposto. A cavidade ab- dominal é inspecionada cuidadosamente, com o intuito de identifi car e reparar outras lesões associadas. Na cirurgia, inicialmente procura se proceder a nefrorrafi a, nefrectomia parcial e, em último caso, a nefrectomia total, sempre procurando avaliar a função do rim contralateral. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201590 Indicações para a cirurgia no trauma renal Indicação Descrição Absoluta Persistência de sangramento de origem re- nal com risco de morte Absoluta Hematoma expansível e pulsátil retroperi- toneal não contido, que sugere lesão do pe- dículo renal Relativa Grande laceração da pelve renal ou avulsão da junção ureteropiélica Relativa Lesões pancreáticas e intestinais associadas Relativa Persistência da perda urinária mesmo após a colocação do cateter duplo J e drenagem das coleções perirrenais Relativa Segmento renal desvitalizado com extrava- samento de urina Relativa Completa trombose da artéria renal de am- bos os rins ou quando há apenas um rim Relativa Lesão vascular quando o tratamento hemo- dinâmico falhar Relativa Hipertensão renovascular Tabela 7.3 Indicações absolutas e relativas de cirurgia no trauma renal. A C B Figura 7.6 Controle do pedículo renal (principalmente o direito). A: exposição transperitoneal. Após evisceração das vísceras abdominais para a direita, faz-se excisão no peritônio posterior sobre a aorta me- dialmente aos vasos mesentéricos inferiores, podendo extender-se até o duodeno. B: a veia renal esquerda. Posteriormente a v. renal esquerda está a artéria renal direita que é melhor controlada por acesso medial. Tem que tomar cuidado porque às vezes da aorta até o rim a artéria renal bifurca-se. Nesse caso, a visualização de uma artéria renal caudal à veia renal esquerda significaria que há alta probabilidade de haver ou- tra artéria renal superiormente (as duas terão um diâmetro bem menor do que o esperado). O controle vascular do pedículo renal demonstrou diminuir a incidência de nefrectomias de 50% para 18%. C: incisão re- troperitoneal lateral ao cólon, expondo o rim. Indicações de Nefrectomia A nefrectomia é indicada nas extensas lacera- ções renais com desvitalização de grande parte do pa- rênquima ou avul são do pedículo, principalmente no indivíduo que possui o outro rim funcionante e está instável hemodinamicamente. Não se deve correr o risco de tentativas prolon- gadas de reconstrução renal, procurando-se evitar a tríade da morte (hipotermia, acidose, coagulopatia). Figura 7.7 Anatomia renal. Note a veia cava inferior (VCI) com tra- jeto retro-hepática que é onde encontra-se a maior mortalidade rela- cionada com esse tipo de trauma. Repare a aorta ramificando-se em artérias renais e a posição que fica atrás da veia renal que vem direta- mente da VCI. Note os dois ureteres passando por cima das artérias ilíacas comuns. Essas questões anatômicas são frequentes nas provas de residência médica. Alternativamente, a cirurgia de damage control com colocação de compressas para controle de sangra- mento, encaminhamento do paciente à UTI para cor- reção de distúrbios hidroeletrolíticos e anormalidades metabólicas seguido de reparo reconstrutivo renal tar- dio é boa opção. Entretanto, quando o reparo reconstrutivo não for viável tecnicamente e a vida do paciente está ame- açada por sangramento grave incontrolável, indica-se a nefrectomia. Complicações A classificação das complicações do tratamento das lesões renais pode ser dividida em precoce (de 4-6 semanas após o trauma) e tardia (após 6 semanas). As complicações precoces são hemorragia, dor, fístulas urinárias, infecção, sepse e trombose vas- cular. As tardias são atrofia renal, hipertensão reno- vascular (33%), litíase, hidronefrose e insuficiência renal (trauma em rim único ou bilateral). 7 Trauma genitourinário 91 Traumatismo renal em pediatria O rim da criança é mais vulnerável do que o adul- to já que as crianças têm rins maiores, menos gordura perinéfrica e maior incidência de anormalidades re- nais que facilitam o trauma. As causas de trauma renal fechado mais comuns na faixa etária pediátrica são quedas, acidentes recre- ativos e com veículos motorizados. Felizmente, ape- nas 3% dos traumas abdominais fechados na infância acometem o rim. Alguns fatores associados são predis- ponentes a esse tipo de lesão, tais como: rim em ferra- dura ou policístico, pielonefrite crônica, hidronefrose por estenose de junçãoureteropiélica, entre outros. A classifi cação do trauma renal é a mesma usada no adulto. A hematúria também não se correlaciona com a gravidade da lesão renal. Os pacientes pediátricos têm alta liberação de ca- tecolaminas e portanto o choque não é bom preditor do grau de lesão renal. A TC é o melhor exame para o diagnóstico de lesões renais e de órgãos outros. O exame de urina e a ultrassonografi a de vias urinárias são ideais para seguimento e seleção de casos duvidosos. O tratamento conservador é inicialmente reali- zado. As contusões simples e lacerações superfi - ciais representam 85% dos traumas em crianças. Até mesmo pacientes pediátricos com lesões grau IV podem ser tratados de maneira conservadora em 60% dos casos. Quando o tratamento cirúrgico é indicado, realiza-se reparo renal, nefrectomia parcial, nefrecto- mia total ou, em casos estritos, autotransplante renal podem ser necessários. Trauma do ureter As lesões ureterais representam menos de 4% dos ferimentos penetrantes e menos de 1% dos trau- mas fechados. A hematúria é um sinal importante no trauma ureteral mas pode estar ausente em 45% das vezes. Lesões de ureter po- dem ser assintomáticas. O alto índice de suspeição é importante e o diag- nóstico é feito através de TC contrastada (o ideal) ou urografi a excretora. Há de se ter cuidado de analisar uma fase tardia excretora de contraste mesmo na TC multislice para melhor identifi cação na falha da opaci- fi cação distal do ureter. A etiologia mais comum do trauma de ure- ter é iatrogênico classicamente no intraoperató- rio de cirurgias pélvicas ou endourológicas. Quando não diagnosticadas, ou quando identifi ca- das tardiamente, essas lesões podem determinar a perda da função renal em decorrência do extravasamento de uri- na com consequente formação de abscesso, fi brose periu- reteral e estenose cicatricial. Coleções urinárias infectadas podem ser causa de sepse e até consequente óbito. Anatomia ureteral Os ureteres estão no retroperitônio e apoiados sobre os músculos psoas, lateralmente às veias gona- dais, e vão descendo do rim até passar por cima das artérias ilíacas comuns. Vascularização: é segmentar. Os ureteres são fartamente vascularizados por meio de ramos oriun- dos das artérias renais, gonadais, lombares, aorta e ilí- acas. Isso é bom porque permite a realização de anas- tomoses terminoterminais sempre que possível, desde que essa anastomose possa ser realizada sem tensão. Quando amplamente dissecados, esta irriga- ção fi ca prejudicada aumentado a chance de fístulas e deiscência antastomóticas na reconstrução deste ureter lesado. Assim, deve-se ter o cuidado de obser- var a vascularização do coto ureteral quando houver dissecção extensa dessa estrutura, de modo a evitar estenose cicatricial e fístula anastomótica. É preferí- vel ressecar um pequeno segmento que possa eventu- almente ter sua irrigação comprometida, mesmo que isso implique em um procedimento mais complexo para a reconstrução do trato urinário, a correr risco de estenose ou fístula. Lesões de ureter inferior são tratadas preferencialmente com reimplante. A recons- trução ureteral se faz por meio de sutura absorvível. artéria renal artéria gonadal aorta artéria ilíaca comum artéria ilíaca comum artéria vesical superior artéria uterina artéria retal média artéria vaginal artéria vesical inferior Figura 7.8 Ureter. Anatomia retroperitoneal. Note a vascularização segmentar diretamente de ramos secundários da aorta e ramos da aorta. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201592 Em seu trajeto, os ureteres possuem três pontos de estreitamento anatômico: na junção com a pelve, no cruzamento com os vasos ilíacos e na junção com a bexiga. Esses locais devem ser observados com cuidado durante a manipulação endoscópica para evi- tar perfurações. Grande parte da extensão ureteral está frouxa- mente aderida ao retroperitônio, possibilitando avul- sões durante tentativas intempestivas de tração para retirada endoscópica de cálculos ou ao forçar a passa- gem de endoscópios. Por possuírem íntima relação com as artérias uterinas, podem ser lesados durante a ligadura desses vasos para a realização de histerectomia. O ureter é reconhecido no intraoperatório porque o seu pinça- mento com pinça anatômica demonstra peristalse significativa. Diagnóstico As lesões ureterais podem ser iatrogênicas (80%) ou decorrentes de traumatismos abdominais externos (20%) e, mais raramente, sequelas de trata- mentos radioterápicos. As lesões iatrogênicas são decorrentes de inci- sões e transecções inadvertidas, ligaduras, queimadu- ras por eletrocoagulação, isquemias do coto ureteral por dissecções extensas, avulsões e perfurações por manipulação endoscópica. As lesões por FAF ou FAB incidem em até 10% dos casos. Quando não identificadas no ato intraoperató- rio, as lesões ureterais devem sempre ser suspeitadas nas evidências de fístulas urinárias, abscessos retro- peritoneais e hidronefrose pós-operatória. Aproximadamente 50 a 70% das lesões ure- terais agudas não são diagnosticadas de imedia- to e, quando não tratadas, podem determinar seque- las graves como hidronefrose e perda da função renal. Nas situações em que exista suspeita de lesão intraoperatória, o ureter deve ser minuciosamente examinado e a injeção intravenosa de azul de metile- no poderá auxiliar no diagnóstico. Lesões mínimas podem ser tratadas com a introdução de cateter ureteral duplo J. Considerar o risco benefício do azul de metileno pois pode causar meta hemoglobinemia quando utilizado por via intra venosa. Quando a suspeita diagnóstica é tardia, a rea- lização de pielografia ascendente é o procedimento mais adequado, pois permite a identificação precisa do local da lesão e, eventualmente, seu tratamento, mesmo que temporário, por meio de cateter duplo J. Alternativamente, na impossibilidade de cateteriza- ção ureteral e na presença de hidronefrose, devem ser realizadas pielografia percutânea e nefrostomia com o objetivo de preservar a função renal e derivar o trato urinário, criando condições locais mais satisfatórias para o tratamento definitivo a ser realizado posterior- mente, em prazo não inferior a 90 dias. A TC com reconstrução sagital da via excretora mostra-se a mais adequada para avaliar conjuntamen- te lesões viscerais e ureterais nos traumatismos abdo- minais externos. Trauma de ureter - Escala AAST Grau da lesão ureteral * Tipo de lesão ureteral Descrição da lesão I Hematoma Contusão ou hemato- ma sem desvasculari- zação II Laceração < 50% transecção do ureter III Laceração > 50% transecção do ureter IV Laceração Transecção completa sem desvascularização V Laceração Avulsão do hilo renal com desvascularização Tabela 7.4 Escala de Moore para trauma de ureter pela escala da AAST: Associação Americana para a Cirurgia do Trauma. *Avançar um grau na classificação quando a lesão for bilateral até o grau 3. Figura 7.9 Urografia excretora: extravasamento de contraste no ureter direito (seta) demonstrando lesão do ureter direito. 7 Trauma genitourinário 93 Figura 7.10 TC de abdome e pelve, na fase excretora, mostrando le- são ureteral proximal e extravasamento de contraste para hilo renal e tecido celular subcutâneo. Avaliação da integridade da junção uretero- pélvica: diagnóstico realizado por TC contrastada vi- sualizando sistema coletor renal e ureter proximal com material de contraste excretado. Em pacientes instáveis onde a TC não pode ser feita a alternativa é realizar a urografi a excretora “em tomada única” com injeção do contraste 2 mL/Kg e raio X 10 - 15 minutos após. Tratamento Pequenas perfurações provocadas por procedi- mentos endoscópicos podem ser tratadas apenas com a colocação de cateter duplo J. � Ureter proximal: ureterouretoroanastomose primária (e o duplo J é colocado para facilitar a sutura). Caso haja perda extensa do ureter pode-se fazer autotransplante de rim e ainda interposiçãode alça intestinal. Nefrostomia ra- ramente é necessária. As lesões percebidas no decorrer de procedimen- tos cirúrgicos, assim como as avulsões decorrentes de procedimentos endoscópicos, devem ser tratadas de imediato com colocação de duplo J. Lesões que comprometem pequenas extensões do ureter são abordadas por meio de ressecção do segmento comprometido e anastomose termino- terminal. Para tanto, é necessário que a sutura seja feita sem tensão, com fio absorvível (Vicryl 3-0, 4-0 ou 5-0, categut cromado), tomando-se o cuidado de ampliar os cotos da anastomose por uma pequena incisão longitudinal (anastomose em bizel). Uma alternativa ao duplo J é o J simples que é exteriori- zado pela bexiga. � Ureter médio proximal: prefere-se anastomose terminoterminal mas quando não é possível há de se fazer transureteroureteroanastomose. Esse procedimento é bom porque permite anastomo- se em local longe de processos patológicos. Al- ternativamente, pode-se fazer ainda interposição de segmento ileal (pielo/ureteroileocistoanasto- mose) Este segmento pode ser tubulizado para adequação de calibre. Uma vez interposta alça, esta deve ir desde a lesão ureteral até a bexiga. � Segmento médio distal: reimplante ureterove- sical associado à fi xação bexiga-psoica (prefe- rido para diminuir a tensão na anastomose com ponto de vicryl 2.0, unindo-se a bexiga ao pso- as). Aqui há de se ter o cuidado de não lesar o nervo genitofemoral (que está na superfície do psoas) ou o nervo femoral. Alternativamente pode ser feito de fl ap para a confecção de um tubo de bexiga (técnica de Boari). Formas de tratamento do traumatismo ureteral • Cateterização com duplo J e/ou nefrostomia percutânea • Ureteroureterostomia (anastomose terminoterminal) • Transureteroureterostomia (anastomose terminolateral) • Reimplante ureteral sem mobilização vesical • Bexiga psoica (Psoas-Hitch) • Retalho de Boari • Substituição ureteral (ureter ileal) • Autotransplante renal Tabela 7.5 Tratamento do trauma de ureter. Terço proximal Anastomoser primária do ureter Transureteroureterostomia Terço médio Anastomoser primária do ureter Transureteroureterostomia Terço inferior Reimplante ureteral Bexiga psóica Retalho de bexiga à Boari Figura 7.11 Topografi a das lesões uretrais e opções terapêuticas. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201594 Princípios da cirurgia reparadora uretal • Preservação da adventícia e gordura periureteral • Desbridamento até bordas com irritação preservada • Espatulação dos cotos terminais • Colocação de stent ureteral transanastomótico • Sutura hemética e sem tensão (fios absorvíveis) • Dreno externo próximo à sutura (sem sucção) • Proteção da sutura com peritônio ou omento Tabela 7.6 Traumatismo vesical A bexiga é o terceiro órgão genitourinário mais traumatizado, depois do rim e órgão genital externo. Em traumas graves de bacia, a bexiga e uretra são os principais órgãos acometidos, sendo 0,5% a incidência de trauma vesical entre todos os traumas fechados ad- mitidos na sala de emergência. Na maioria dos casos em que se constata le- são vesical, o trauma é fechado em aproximada- mente 80% dos casos e, em geral, é consequência de acidentes automobilísticos. As lesões iatrogênicas de bexiga não são inco- muns. Algumas análises demonstram, por exemplo, incidência de 0,02 a 8,3% nas cirurgias laparoscópicas, sendo a histerectomia vaginal a que apresenta mais chance de ocorrência dessas lesões. Procedimentos como histerectomias abdominais, exérese de massas pélvicas, cesáreas, ressecções intestinais e correção de incontinência urinária são clinicamente importantes como causa de lesão vesical. Classificação das lesões de bexiga As lesões vesicais geralmente acompanham le- sões de uretra. Elas podem ser observadas como: � Contusões de bexiga: são resultados de força so- bre a área da parede detrusora, sem haver ruptu- ra do órgão. � Ruptura intraperitoneal: lesão de todas as cama- das da parede da bexiga com extravasamento de urina e sangue para a cavidade peritoneal. � Ruptura extraperitoneal: ruptura vesical com ex- travasamento de sangue e urina ao espaço retro- peritoneal, de Retzius, sem haver urina dentro do peritônio. � Lesão combinada: lesões intra e extraperitoneais concomitantes. Mecanismo de lesão Traumas como esmagamento, atropelamento e golpe contuso são mecanismos que oferecem estresse ao anel ósseo pélvico, favorecendo fraturas. Fraturas que comprometem a estabilidade da bacia são consi- deradas de maior potencial para trauma de bexiga e uretra. A fratura de bacia é a lesão que mais se as- socia ao trauma de bexiga. Obviamente, contusões abdominais, sobretudo em hipogástrio, no momento em que a bexiga está repleta, favorecem rupturas vesi- cais, sem haver necessariamente fratura de bacia. Na prática clínica, longe de ser regra, observa-se que fraturas que geram instabilidade vertical do anel ós- seo pélvico (isto é, impacto frontal, esmagamento ante- roposterior) são mais propensas a provocarem ruptura intraperitoneal. Fraturas com instabilidade rotató- ria (tipo livro aberto) podem causar lesões extrape- ritoneais. Com mais energia no impacto, lesões combi- nadas possuem maior probabilidade de ocorrência. Traumas penetrantes, como aqueles provocados por arma branca ou projétil de arma de fogo, podem comprometer a bexiga. Armas de fogo com projéteis de grande energia podem lesar a bexiga sem mesmo haver contato do projétil com o órgão. Nesses casos, a lesão ocorre por cavitação: a transmissão energética confere diferenças de pressão em diferentes locais da pelve, provocando ruptura vesical. Quadro clínico A lesão de bexiga, de causa iatrogênica, tem sua constatação no momento da lesão na maioria dos casos. Quando isso não ocorre, a lesão pode ser sus- peitada pelos sintomas apresentados pelo paciente. Por exemplo, lesões decorrentes de ressecções tran- sureteroscópicas de bexiga podem provocar rupturas vesicais cujo extravasamento de urina no espaço re- troperitoneal provoca dor lombar e até torácica dorsal importante. Essas lesões extraperitoneais podem evo- luir com infecção ou fístula para outros órgãos pélvi- cos ou para a pele. Lesões com extravasamento intra- peritoneal podem gerar desconforto e dor abdominal, além de sinais de irritação peritoneal. Figura 7.12 A-D: tomografia computadorizada de abdome e pelve mostrando lesão de bexiga com extravasamento intraperitoneal. 7 Trauma genitourinário 95 No paciente vítima de trauma pélvico fechado, a presença de fratura de bacia deve levantar a hipótese de comprometimento vesical, sobretudo na presença de hematúria total. A presença desse sinal deve indu- zir a hipótese de outros traumatismos genitouriná- rios; além disso, a fratura pélvica associada transpõe o paciente ao risco em torno de 40% de haver lesão vesi- cal. Nesses casos, não se deve esquecer a possibilidade de trauma de uretra e os cuidados com esse paciente devem ser tomados como tal. Nesse cenário, os pacientes podem apresentar ao exame físico dor e tensão abdominal suprapúbicas, re- tenção urinária ou difi culdade miccional, coágulos em urina, edema e hematoma perineal, distensão abdominal e ruídos hidroaéreos diminuídos. Pacientes com rebaixa- mento de nível de consciência necessitam de cuidados adicionais com base em exames complementares. A análise da urina pode revelar micro-hematúria, achado que se traduz em lesão vesical com um risco me- nor (cerca de 1%). Deve-se lembrar da contusão vesical como sendo também responsável por essa apresentação. Exames complementares O tempo necessário para se constatar a ruptura vesical em média é de 3,2 horas após a admissão. Nos casos em que esse tempo ultrapassa 24 horas, observa-se elevação da mortalidade. Com o intuito de realizar o diagnóstico de trauma vesical é importante a suspeita clínica pelo médico assistente já no momento do atendimento inicial, no setor de emergência. Além dos exames deavaliação hemodinâ- mica, urina tipo 1, creatinina e ureia são importantes para completa avaliação. Primeiramente, a realização dos exames específi cos de imagem deve pressupor que os pacientes estejam es- tabilizados do ponto de vista hemodinâmico. Dentre os exames de imagem, a cistografi a e a tomografi a compu- tadorizada são os exames mais realizados na prática clí- nica. A cistografi a apresenta sensibilidade próxima a 100%. Por outro lado, a tomografi a não possui grande acuidade em predizer trauma de bexiga, a não ser que se utilize contraste instilado pela sondagem vesical. O exame físico, atentando-se aos sinais clíni- cos do paciente, deve alertar o médico assistente a solicitar exames de imagem com o intuito de con- fi rmar ou afastar o diagnóstico de trauma vesical. A cistografi a merece ser realizada na presença de sinais e sintomas que são altamente sugestivos de trauma ve- sical (dor suprapúbica, distensão abdominal, diminuição de ruídos hidroaéreos, incapacidade de esvaziamento ve- sical, coágulos na urina, hematoma perineal ou edema, líquido livre na cavidade peritoneal à tomografi a ou ul- trassonografi a, presença de obstrução miccional prévia, cirurgia vesical prévia, elevação dos níveis de creatinina e ureia por reabsorção peritoneal). Nessas condições, a indicação é relativa, visto que a chance de ruptura vesical, embora existente, é menor quando comparada aos qua- dros com hematúria e fratura de bacia. Cistografi a após trauma Indicação absoluta: – Hematúria franca e fratura pélvica Indicação relativa: – Hematúria franca sem fratura pélvica – Micro-hematúria com fratura pélvica – Micro-hematúria isolada Tabela 7.7 Figura 7.13 Cistografi a mostrando pequeno extravasamento de con- traste no domo de bexiga, lesão encontrada no intraoperatório bloque- ada pelo cólon sigmóide. Tratamento O tratamento deve ser instituído assim que o diagnóstico é confi rmado e as condições clínicas do pa- ciente permitam. Muitas vezes, a lesão vesical é obser- vada apenas no intraoperatório, quando o paciente com instabilidade hemodinâmica e claro comprometimento abdominal é levado às pressas ao centro cirúrgico ou quando é verifi cada lesão em outros órgãos abdominais e pélvicos que necessita de tratamento cirúrgico. A lesão intraperitoneal normalmente é tra- tada com cirurgia aberta, seja pela indicação de lapa- rotomia exploradora por outras lesões, seja, nos casos iatrogênicos, pelo reconhecimento imediato. Traumas penetrantes podem necessitar de prévio desbridamen- to e posterior sutura em dois planos com fi os absorví- veis. A presença de lesões mais complexas pode envol- ver ampliação vesical, utilizando-se ou não retalhos. As lesões extraperitoneais em geral são conduzidas com simples sondagem vesical de de- mora, com o intuito de se derivar a urina favorecendo a cicatrização da lesão. O tempo de internação geralmente não apresenta di- ferenças em relação à gravidade da lesão vesical. Apenas a gravidade do trauma e suas lesões associadas determinam o tempo de internação. Casos em que há fratura de bacia, por exemplo, apresentam mais tempo de internação. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201596 Com a evolução, os pacientes podem apresentar disúria, retenção urinária crônica e aguda decorrente de tamponamento por coágulos. A longo prazo, po- dem ocorrer estreitamento uretral e impotência. Trauma de bexiga - Escala AAST Grau da lesão * Tipo de lesão Descrição da lesão I Hematoma Contusão ou hematoma intra- mural Laceração Espessura parcial II Laceração Rotura de bexiga extraperitoneal < 2 cm III Laceração Rotura de bexiga extraperitoneal > 2 cm. Rotura de bexiga intrape- ritoneal < 2 cm IV Laceração Rotura da parede da bexiga intra- peritoneal > 2 cm V Laceração Rotura de bexiga intraperitoneal extendendo-se até o colo da bexi- ga ou orifício do ureter (trígono) Tabela 7.8 Escala de Moore para trauma de bexiga pela escala da AAST: Associação Americana para a Cirurgia do Trauma. *Avançar um grau na classificação quando a lesão for bilateral até o grau 3. Suspeita de traumatismo fechado de bexiga Uretrocistogra�a retrógrada ou tomogra�a de abdome Lesão extraperitoneal Lesão intraperitoneal Exploração cirúrgica Sutura da bexiga sondagem por 10 a 14 dias Contusão Sondagemvesical por 10 a 14 dias Figura 7.14 Algoritmo de tratamento do trauma de bexiga. Traumatismo uretral As lesões traumáticas de uretra são pouco fre- quentes. Tradicionalmente, são divididas em lesões de uretra anterior e posterior, uma vez que o manuseio inicial varia de acordo com o grau e a localização destas. As rupturas de uretra posterior costumam estar associadas a lesões de múltiplos órgãos e mortali- dade considerável, ao passo que as lesões de ure- tra anterior em geral ocorrem de forma isolada. Etiologia A maioria das lesões de uretra posterior é decorrente de trauma contuso associado à fratu- ra pélvica. A ruptura uretral ocorre em aproximada- mente 10% dessas fraturas, que em geral são secundá- rias a acidentes automobilísticos (68 a 78%), quedas e lesões pélvicas por esmagamento (6 a 25%). As fraturas pélvicas têm maior incidência nas primeiras três décadas de vida, acometendo duas ve- zes mais homens do que mulheres. As mulheres são menos acometidas em razão de menor comprimento e maior mobilidade uretral em relação ao arco púbico. Os subtipos de fraturas pélvicas mais comu- mente associadas à ruptura de uretra posterior incluem a fratura em livro aberto, também cha- mada de fratura em borboleta, em que os quatro ramos púbicos estão fraturados, e a fratura de Mal- gaigne, que envolve ruptura pelo ramo isquiopúbico anteriormente, bem como através do sacro ou da jun- ção sacroilíaca posteriormente. Se a fratura em livro aberto estiver associada com disjunção sacroilíaca, a lesão uretral é mais prevalente. As lesões de uretra anterior também têm como prin- cipal causa os traumas contusos, incluindo acidentes au- tomobilísticos, quedas a cavaleiro e chutes no períneo. A uretra bulbar é o segmento mais acometido (85%). As lesões penetrantes são raras, em geral decor- rentes de perfurações por arma de fogo, envolvendo normalmente a uretra anterior em seus segmentos bulbar e peniano igualmente. Ocorre envolvimento da bexiga em 10 a 20% dos casos de ruptura uretral, sendo extraperitone- al em 56 a 78% das vezes e intraperitoneal em 17 a 39%. Lesões de colo vesical concomitantes costumam ter consequências graves na continência. Lesões ure- trais em mulheres na maioria das vezes estão asso- ciadas a lacerações vaginais (75%) e retais (33%). Mecanismo de lesão Na uretra anterior, a força de impacto no períneo es- maga a uretra bulbar contra o ramo púbico, ocasionando contusão ou laceração da uretra. Já o mecanismo de lesão da uretra posterior consiste em uma força de cisalhamen- to, que avulsiona o ápice da próstata da uretra membra- nosa, com rotura do ligamento pubo prostático, alto risco de lesão do esfíncter estriado, podendo assim comprome- ter a continência. Pokorny postulou três mecanismos por meio dos quais esse cisalhamento pode ocorrer. O primei- ro envolve o deslocamento superior de uma hemipelve (por exemplo, fratura de Malgaigne) com laceração para dentro da uretra. O segundo inclui lesões por fratura em livro aberto, pelo qual um fragmento da sínfise púbica é deslocado posteriormente, levando à ruptura. O último mecanismo consiste na diátese da sínfise púbica, por meio da qual a uretra membranosa é estirada até sua ruptura. 7 Trauma genitourinário 97 Classifi cação Colapinto e McCallum descreveram, em 1977, o mais aceito sistema de classifi cação de trauma de uretra posterior, que recentemente foi modifi cado por Goldman para incluir todos os tipos de lesão contusa. Essa classifi cação utiliza-se de achados radiográfi cos para enumerar os tipos de lesão: Tipo 1: ruptura do ligamento puboprostático e hematoma peri- prostático adjacente, estirando a uretra membranosasem ruptura Tipo 2: ruptura completa ou parcial da uretra membrano- sa acima do diafragma urogenital ou da membrana perineal. Na uretrografi a, o contraste é visto extravasando-se acima da membrana perineal Tipo 3: ruptura completa ou parcial da uretra membranosa, com ruptura do diafragma urogenital. O contraste extravasa para dentro da pelve e do períneo Tipo 4: lesão do colo vesical com extensão para dentro da uretra Tipo 5: ruptura vesical extraperitoneal com lesão na base da be- xiga e extravasamento periuretral, simulando uma lesão tipo 4 Tipo 6: lesão de uretra anterior Tabela 7.9 O tipo 3 constitui o tipo mais frequente, ocorrendo em 66 a 85% das lesões de uretra pos- terior. Os tipos 1 e 2 são incomuns, representando aproximadamente 10 e 15%, respectivamente. As le- sões tipo 4 são raras. O sistema de classifi cação utilizado com mais frequência para lesões de uretra anterior foi descrito por McAninch e Armenakas, também com base em achados radiográfi cos: Contusão: achados clínicos sugestivos de lesão uretral, mas com uretrografi a normal Ruptura incompleta: a uretrografi a demonstra extravasamen- to, porém a continuidade uretral é parcialmente mantida Ruptura completa: a uretrografi a demonstra extravasamen- to com ausência do enchimento da uretra proximal ou bexi- ga. A continuidade uretral é interrompida Tabela 7.10 A classifi cação da AAST modifi cada leva em con- sideração a extensão do trauma e a localização anatô- mica avaliadas na uretrografi a retrógrada. Classifi cação da AAST modifi cada Grau Tipo Descrição I Alongamento Alongamento da uretra sem extra- vasamento de contraste II Contusão Sangue no meato. Sem extravasa- mento de contraste Classifi cação da AAST modifi cada (cont.) III Ruptura par- cial de uretra anterior/pos- terior Extravasamento de contraste no local da lesão. Presença de contraste na uretra proximal/bexiga IV Ruptura to- tal de uretra anterior/pos- terior Extravasamento de contraste no local da lesão. Ausência de contraste na uretra proximal/bexiga V Ruptura total de uretra pos- terior Lesão de colo vesical ou vaginal associada Tabela 7.11 Apresentação clínica A presença de fratura pélvica, sangue no meato uretral e incapacidade de urinar (ou distensão vesical) consistem na tríade diagnostica de ruptura uretral. A capacidade de urinar, no entanto, não afasta a possibili- dade de lesão parcial da uretra. A presença de sangue no meato é mais um importante sinal de trauma uretral, sendo observado em 37 a 93% dos pacientes, com uma sensibilidade de 98% para lesão posterior e 75% para lesão anterior da uretra. Em geral, o volume de sangue expelido pelo meato não se correlaciona com a gravidade do quadro. Outros sinais sugestivos de trau- ma uretral incluem hematúria maciça, equimose ou he- matoma escrotal, peniano ou perineal, e difi culdade de cateterização vesical. O exame retal digital pode revelar uma próstata elevada ou deslocada em 34% dos casos, porém trata-se de um achado incerto na fase aguda, uma vez que o hematoma pélvico associado à fratura de bacia pode prejudicar a palpação prostática adequada, em particular em pacientes jovens. A lesão uretral feminina é suspeitada na pre- sença de fratura pélvica associada com sangra- mento vaginal ou laceração, uretrorragia, hema- túria, edema labial ou incapacidade de urinar. Diagnóstico A uretrografi a retrógrada é o exame de es- colha no diagnóstico de lesões uretrais em razão de sua simplicidade e acurácia, e possibilidade de ser realizada rapidamente na sala de trauma. A tomografi a computadorizada (TC) é ideal para visualizar lesões no trato urinário superior e na be- xiga, ao passo que a ressonância nuclear magnética (RNM) é útil na avaliação da pelve pós-trauma antes de intervenções reconstrutoras, não tendo papel no diagnóstico inicial dessas lesões. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 201598 Figura 7.15 A: radiografia de pelve mostrando fratura dos ramos ilio- púbico e isquiopúbico esquerdos e da asa sacral direita, em associação à diastase da sínfise púbica. B: uretrocistografia, na fase retrógrada, mos- trando opacificação até o nível da uretra bulbar. C e D: uretrocistogra- fia, na fase retrógrada, mostrando indefinição de uretra membranosa e prostática com extravasamento de contraste. E: uretrocistografia de controle evolutivo após três meses, na fase miccional, mostrando ainda extravasamento do contraste. Tratamento da lesão da uretra Normalmente não é reparada no trauma agu- do, mas sim tardiamente 3 meses depois. Entretan- to, com a evolução do serviço de endourologia algu- mas lesões vem sendo realinhadas na urgência, mas em pacientes selecionados. Rotura de uretra anterior Faz-se a uretrocistografia e procede-se o re- paro na fase aguda ou a cistostomia. Se o ferimento for incompleto < 2 cm o cateterismo pode ser tentado por urologista, mas na menor resistência o mesmo de- verá ser colocado sob endouroscopia direta. Confirmada a rotura total de uretra ante- rior, o reparo na fase aguda pode ser realizado, uma vez que não há comprometimento esfinc- teriano. Caso seja realizada cistostomia deverá permanecer por 3 meses (ou até o desapareci- mento do hematoma). Após esse período, que é quando desaparece o edema e hematoma perineal daí faz-se uretroplastia terminoterminal. Rotura de uretra posterior É possível tentar fazer o realinhamento endoscópico precoce naqueles pacientes estáveis quando houver dispo- nibilidade de material endoscópico. O realinhamento pri- mário por laparotomia também é factível, mas implica em chance de hemorragia. Este realinhamento precoce evita- ria estenose de difícil tratamento. A disfunção sexual (im- potência) e a incontinência urinária dependem da lesão e poderiam ser agravadas por uma tentativa de re anas- tomose primária na fase aguda. A principal vantagem do tratamento com realinhamento endoscópico é evitar algumas uretroplastias tardias e nestes casos facilitar a técnica pois o hiato entre os cotos saudá- veis comprometidos por estenose seria menor. Al- ternativamente pode-se fazer o tratamento convencional com cistostomia por 3 meses (ou no desaparecimento do hematoma) e daí repetir o uretrocistograma e ver se o he- matoma pélvico cedeu e a anatomia ficou melhor de ser identificada para finalmente fazer a uretroplastia. Suspeita de traumatismo uretral Uretrogra�a retrógrada e urogra�a excretora Lesão de uretra anterior Lesão da uretra posterior Simples ComplexaParcial Tentativa de sondagem ou cistostomia Abordagem cirúrgica imediata ou cistostomia Total Cistostomia Cistostomia Figura 7.16 Conduta imediata no traumatismo uretral. 7 Trauma genitourinário 99 Trauma peniano e testicular Trauma peniano Geralmente o trauma é fechado relacionado a ato sexual violento. O tratamento é cirúrgico com repa- ro direto da túnica albugínea. Em se tratando de fe- rimento penetrante, a conduta é exploração e reparo. A cistouretrografi a é importante porque pode haver lesão de corpo cavernoso e rotura de uretra concomitante. Amputações traumáticas do pênis precisam não só de manejo cirúrgico microcirúrgico, mas tratamen- to psiquiátrico porque os pacientes podem apresentar distúrbios psiquiátricos relacionados após essa desco- nexão genótipa e fenótipa do indivíduo. Trauma testicular Há de se explorar caso se acredite que houve rotura testicular e é interessante fazer um ultras- som Doppler testicular antes para avaliar se é ne- cessário cirurgia ou não nos traumas fechados de testículo. Já nos traumas penetrantes, o objetivo é evacuar o hematoma, debridar a fim de reparar e salvar o testículo. O mais importante é entender que ferimentos pelviperine- ais complexos exigem a realização de colostomia proximal e cistostomia para desviar o transito intestinal e urinário de lesões perineais para diminuir a mortalidade. ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA Capítulo 2 Capítulo 8 ROTEIRO PROPEDÊUTICOBÁSICO eM GINECOLOGIA 8 Trauma pélvico 101 Introdução Os acidentes automobilísticos são responsáveis pela maioria das fraturas da pelve, exceto para as pessoas acima dos 60 anos de idade, onde as quedas levam à maioria das fraturas pélvicas. As fraturas do anel pélvico estão presentes em aproximadamente 25% dos pacientes traumatizados. Os tipos princi- pais de fraturas pélvicas são: � compressão anteroposterior; � compressão laterolateral; � cisalhamento vertical. O anel pélvico é composto de três ossos: osso ilíaco direito, osso ilíaco esquerdo e o sacro que são estabilizados por ligamentos fortes. O osso ilíaco é formado pelo íleo, o pube e o ísquio que se fundem no acetábulo. Ligamento sacroilíaco anterior A Ligamento iliolombar Ligamento sacroespinhoso Ligamento sacroespinhosoB Ligamento sacroilíaco posterior Figura 8.1 A e B: imagens mostrando aspectos anterior e posterior da pelve, com suas estruturas ligamentares. Esses tipos de trauma têm associação com alta morbimortalidade sobretudo devido às lesões associa- das. Daí a importância de se reconhecer o padrão de lesão à pelve porque há relação com o mecanismo de trauma e o tratamento apropriado. O segredo é veri- fi car se houve deslocamento da hemipelve facilmente visualizado no raio X de pelve porque é isso que irá indicar a cinemática do trauma: Compressão lateral é o mecanismo mais co- mum. Pode ocorre rotação interna da hemipelve afe- tada com deslocamento do pube que geralmente leva à lesão de uretra associada, podendo haver disjunção sacroilíaca ou não. Geralmente, essas fraturas não des- troem os ligamentos pélvicos e não “abrem” a pelve, não necessitando ser estabilizadas. fraturas horizon- tais nos ramos púbicos são características. Está asso- ciado a lesão de uretra e geralmente não relaciona-se com sangramentos signifi cativos (exceto aquelas que lesam espinha esquiática maior que podem lesar arté- ria glútea, mas é muito raro). Compressão anteroposterior (fratura em livro aberto) é o segundo mecanismo mais comum. Como nota-se abaixo as características clássicas são o alargamento da sínfi se púbica (> 2,5 cm) e diástase de articulação sacroilíaca (disjunção sacoilíaca facilmente visualizadas no raio X de pelve AP). E quanto maior a energia cinética do trauma maior a rotação externa da pelve (a TC é melhor para avaliar a rotação externa ge- ralmente direita e posterior da pelve) em pacientes es- táveis. São fraturas verticais do quadril podendo ou não ter disjunção sacroilíaca. Fraturas em livro aberto ocasionam o pior tipo de sangramento (> 2 litros). Cisalhamento vertical: há deslocamento da hemipelve afetada em direção cranial que ocasiona disjunção sacroilíaca. É uma fratura orientada verti- calmente e caracteristicamente de um lado só. San- gram menos que as de livro aberto. Valores normais: • sínfi se púbica < 1 cm; • junção sacroilíaca < 0,4 cm. A gravidade da lesão é proporcional à violência do trauma. Assim sendo, a pelve pode sofrer lesão mínima e estável até roturas extremamente graves capazes de determinar óbito por hemorragia (fraturas pélvicas sangram > 2 litros); cerca de 30% dos poli- traumatizados com lesão do anel pélvico irão a óbito. As fraturas do anel pélvico verdadeiras (instá- veis - sínfi se púbica, sacroilíaca e sacro) precisam ser diferenciadas das fraturas que não afetam a estabili- dade (estáveis porque não rompem ligamentos ante- riores e posteriores da bacia, exemplo: fratura aceta- bular). Além disso, há de se olhar L5 para avaliar se há fratura de processo transverso que indica instabili- dade da pelve porque o ligamento ileolombar se insere aí, bem como a espinha ilíaca posterosuperior (o forte ligamento sacroilíaco posterior se insere aí). As lesões estáveis têm um bom prognóstico e raramente levam a alterações funcionais, enquanto as fraturas instáveis (fraturas posteriores) apresentam maior incidência de mortalidade, consolidação viciosa, não consolidação e dor crônica. Além disso, a avaliação do hematoma pélvico e a classifi cação de Tile serão um dos critérios para determinar a necessidade de arteriografi a. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 2015102 Classificação Várias classificações das lesões do anel pélvico são apresentadas na literatura, mas a classificação pro- posta por Tile e Pennal (Tabela 8.1), é a mais utilizada e relaciona-se à cinemática de rotação após o trauma, orientando para o tratamento. Fraturas da Pelve - Classificação de Tile e Pennal Tipo A - Estável (vertical e rotação) Al - Fraturas que não comprometem o anel: lesões por avul- são A2 - Fratura com desvio mínimo A3 - Fratura transversa do sacro e do cóccix Fraturas da Pelve - Classificação de Tile e Pennal (cont.) Tipo B - Instabilidade rotacional / Estabilidade vertical (open-book fractures) B1 - Instabilidade em rotação externa: lesão em livro-aberto B2 - Instabilidade em rotação interna: lesão por compressão lateral B3 - Lesão posterior bilateral Tipo C - Instabilidade rotacional e vertical C1 - Lesão posterior unilateral C2 - Lesão posterior bilateral - um lado com instabilidade ro- tacional e outro vertical C3 - Lesão posterior bilateral (ambos os lados com instabi- lidade vertical) Tabela 8.1 Classificação de Tile para fraturas de bacia. Compressão lateral (fechada) frequência de 60% a 70% Fratura fechada Compressão anteroposterior (livro aberto) frequência de 15% a 20% Fratura em livro aberto Cisalhamento vertical frequência de 5% a 15% Fratura cisalhamento vertical Figura 8.2 Mecanismo de trauma para as fraturas de bacia. Suspeitar de fratura pélvica em doente chocado, sem respos- ta à reposição volêmica, que não tem sinal de fratura ao exa- me físico. O alargamento de sínfise púbica sugere fratura instável do anel pélvico. A fratura pélvica é importante marcador da magnitude da lesão retroperitoneal. Tipo A Tipo B Tipo C Figura 8.3 Classificação das fraturas do anel pélvico de acordo com Tile. A classificação de Young e Burgess, que se baseia no mecanismo de trauma e no tipo de vetor força apli- cado na pelve, procura estabelecer uma sequência de prioridades diagnósticas e terapêuticas. Esses autores definiram a compressão anteroposterior, a com- pressão lateral e o cisalhamento vertical como mecanismos de trauma pélvico. Fraturas da pelve – Classificação de Young e Burgess Compressão anteroposterior (AP) I- Alargamento da sínfise púbica < 2,5 cm sem lesão pélvica posterior significativa. II- Alargamento da sínfise púbica > 2,5 cm sem lesão pélvica posterior significativa. III- Rotura completa da sínfise púbica e ligamentos posterio- res com deslocamento da hemipelve. Compressão lateral (CL) I- Compressão posterior da articulação sacroilíaca sem rotu- ra ligamentar. Fratura oblíqua do pube. II- Rotura do ligamento sacroilíaco posterior: rotação inter- na da hemipelve em direção anterior à sacroilíaca com lesão de esmagamento do sacro. Fratura oblíqua do pube. III- Compressão anteroposterior para a hemipelve contrala- teral. Cisalhamento vertical Tabela 8.2 8 Trauma pélvico 103 As lesões por compressão anteroposterior (APC), causadas por forças exercidas no sentido ante- roposterior da bacia, tendem a abrir a pelve com rup- tura da sínfi se púbica e das articulações sacroilíacas, promovendo a rotação das asas ilíacas para fora. A pel- ve tende a se abrir anteriormente como se fosse um li- vro (open-book). Essas fraturas podem ser subdivididas em 3 tipos, APC I, II e III. Ao tipo APC-I, corresponde a uma lesão estável do anel pélvico, com diástase isolada da sínfi se pubiana ou com fratura dos ramos do púbis. Corresponde a um afastamento da sínfi se < 2,5 cm e o anel posterior permanece intacto. As do tipo APC-II são rotacionárias, instáveis, associadas com a ruptura da sínfi se ou menos comumente, a fraturas de seus ra- mos, ou ruptura dos ramos púbicos e dos ligamentos sacrotuberosos, sacroespinhosos e sacroilíacos. Esses traumatismos sãoassociados com a grande afasta- mento da sínfi se pubiana, > 2,5 cm, e alargamento de 1 ou das 2 sínfi ses sacroilíacas. As lesões tipo APC-III são as que apresentam lesão completa das articulações sacroilíacas, as quais se tornam instáveis no plano ver- tical e rotacional. O cisalhamento vertical (VS) decorre de agressão anterior e posterior ao anel pélvico e da rup- tura dos ligamentos sacroespinhosos e sacrotubero- sos causando grande instabilidade pélvica. As forças verticais de cisalhamento tendem a deslocar uma das hemipelves em sentido cranial, com a resultante lesão da articulação sacroilíaca correspondentes. Todas as lesões pélvicas enquadradas nesta categoria têm des- truição completa da articulação sacroilíaca e são con- sideradas instáveis. Aspectos clínicos É importante entender que fraturas posteriores da pelve podem requerer arteriografi a de imediato em 10% das vezes. Mas o usual na maior parte dos traumas de bacia é priorizar: 1. Fização da pelve; 2. FAST/LPD e laparotomia exploradora para conter o sangramento com damage control e colosto- mia se necessário (associação com ferimentos pelvipe- rineais complexos). 3. Arteriografi a. A idade e a profissão do paciente são fatores que também influen ciam na escolha do melhor tipo de tratamento. Fraturas em livro aberto necessitam de reposição sanguínea em média de 11 U de concentrado de hemácias. No exame físico deve-se procurar, à inspeção, por discrepância dos MMII, deformidades rotacionais, deformidade pélvica e por lesões abertas. Sinais de he- morragia e áreas de contusão de partes moles na região pélvica podem sugerir a existên cia de fratura da pelve (secundária principalmente à lesão dos plexos venosos pélvicos e mais raramente, lesão da artéria pélvica). A existência de sangramento anal ou vaginal pode ser de- corrente de uma fratura com perfuração da vagina ou do reto, o que constitui a fratura exposta ocul ta. A avaliação neurológica dos membros inferiores é im portante, pois a raiz L5 pode estar comprometida, princi palmente nas lesões instáveis da pelve. A estabilidade rotacional pode ser determinada pela ma nobra de compressão da região anterossupe- rior dos ilíacos, tanto em rotação externa quanto in- terna. Essa manobra deverá ser feita apenas uma vez sob pena de agravar a hemorragia. A manobra de pistonagem (puxar-empurrar o membro inferior) deve evi denciar a presença de instabilidade vertical da pelve. As fraturas pélvicas, principalmente as instáveis, devem ser inicialmente tratadas com fi xação externa para a estabilização da pelve e o controle da hemorragia. A recomendação atual pelo ATLS é que havendo possibilidade de arteriogra- fi a com embolização, nos casos de fratura de bacia que não respondem hemodinamicamente à reposição vo- lêmica, esta pode ser feita antes da fi xação da fratura, mas somente nos casos de Tile B e C. É importante antecipar a necessidade de sangue nesses pacientes. O défi cit de base menor que -6 é fator de pior prognóstico e mais sensível do que o lactato. É importante entender que o sangramento arterial é responsável pelo choque em fraturas da pel- ve em 15% das vezes que é causado por fragmentos e deslocamentos ósseos. Entretanto, na maior parte dos casos o sangramento pélvico é venoso. Daí a necessidade de entender que a arteriografi a será efe- tiva só em casos selecionados. Pacientes com fratura pélvica e em choque tem mortalidade de 30-50%. O sangramento, na maior parte dos casos na fratura de bacia é venoso! Exames complementares Raio X de pelve AP Para a adequada avaliação das lesões do anel pélvi- co é fundamental a realização das radiografi as da pelve nas três incidências descritas por Pennal, ou seja: Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 2015104 � Anteroposterior (AP); � Inlet: raios centrados sobre a pelve com inclina- ção cranial caudal de 45°; � Tangencial ou outlet: raios centrados sobre a pel- ve com inclinação caudal cranial de 45°. FAST É exame adjunto ao exame primário. Útil para detectar coleções intra-abdominais ainda que o pa- ciente esteja instável. Em mãos experientes pode ain- da diferenciar coleção intra-abdominal de hematoma retroperitoneal. LPD O LPD é o exame padrão para a avaliação de san- gramento intra-abdominal. Entretanto, ele tem 30% de falsos-positivos em pacientes com fratura de bacia. TC da pelve A TC da pelve desempenha um papel fundamen- tal na avaliação da lesão que ocorre na porção posterior da pelve. Permite um diagnóstico preciso do compro- metimento dos ligamentos posteriores da articulação sacroilíaca, das fraturas do sacro e da região posterior do osso ilíaco. Pacientes com fratura em livro aberto e cisalha- mento vertical que estejam estáveis deverão fazer TC de pelve. A TC fornece dados sobre o tipo de instabilidade da lesão (vertical e rotacional e classifica o Tile. A reali- zação da TC é imperativa para o correto planejamento do tratamento definitivo das fraturas do anel pélvico. Todos os recursos diagnósticos (clínicos e de imagem) têm como objetivo avaliar a estabilidade do anel pélvico. Ainda que o LPD tenha sido positivo, a TC de abdome é o exame que diminui as preocupações em relação aos falsos-positivos do LPD (exemplo: se há líquido intra-abdominal mas lesão de fígado provavel- mente é do trauma de fígado e tem menos chances de ser rotura intestinal). É muito importante determinar quem realmente irá a laparotomia porque há morbi- dade e complicações ocorrendo em 40% dos pacientes que irão a laparotomias não terapêuticas. ATENÇÃO: 1. A TC com extravasamento persistente de con- traste (blush) tem sensibilidade variável (60-84%), especificidade entre 85-98% e valor preditivo positi- vo de 93% para o diagnóstico de lesões arteriais com hemorragia ativa. 2. A compressão da bexiga por hematoma pélvi- co também pode ser considerada como marcador de hemorragia arterial na TC, com indicação de arterio- grafia e embolização. 3. A determinação do volume dos hematomas retroperitoniais pélvicos de causa traumática sugere que volumes > 500 mL têm 45% de probabilidade de estarem relacionados com hemorragias causadas por lesões arteriais, permitindo indicação de arteriografia pélvica seguida de embolização. Arteriografia A prioridade do paciente com fratura de bacia é fazer FAST e LPD. Se forem positivos no paciente instá- vel, ele deverá ir à laparotomia. Se esses exames forem negativos, os pacientes devem ir à arteriografia e embo- lização mesmo que instáveis hemodinamicamente. Pacientes com hematomas retroperitoneais podem se beneficiar da arteriografia se houver um componente arterial associado porque aí o procedi- mento é diagnóstico e terapêutico em 11% das fra- turas pélvicas. Vinte por cento das fraturas em livro aberto e cisalhamento vertical requerem emboliza- ção, enquanto só 2% das secundárias a compressão lateral necessitarão desse procedimento. Caso o sangramento possa ser identificado pela arteriogra- fia, a embolização é capaz de tratar o sangramento em 90% das vezes. Daí a importância de se deter- minar precocemente quais os pacientes que se be- neficiarão da arteriografia (idealmente < 5 horas). A embolização com gelfoam é preferível. Há casos em que o paciente está exanguinando e a emboliza- ção às cegas da artérias hipogásticas (nesta situa- ção dramática a embolização é bilateral) com 2 mm de gelfoam pode funcionar. Pacientes com maior probabilidade de sangramento arterial: � compressão anteroposterior II e III e compressão laterolateral II e III; � cisalhamento vertical; � hematoma pélvico grande à TC; � pseudoaneurisma pélvico à TC; � instabilidade hemodinâmica com FAST e LPD negativos; � mais de 4 U de concentrados de hemácias em menos de 24 horas. Na maior parte dos sangramentos que se resol- vem com arteriografia, os vasos que mais sangram são ramos anteriores da artéria ilíaca interna (arté- ria obturadoria e pudenda) e mecanismo do trauma por compressãolateral. Pacientes que requerem em- bolização são aqueles de mecanismo de trauma AP II e III e LCIII. 8 Trauma pélvico 105 Tratamento Politraumatizado com lesão da pelve Hemodinamicamente estável Hemodinamicamente instável Pesquisa para sangramento no tórax e abdomeNegativa Positiva Radiografia da pelve com fratura instável Reposição de volume Ressuscitação do paciente Estabilização da pelve Fixador externo Clamp pélvico Tração Hemodinamicamente estável Hemodinamicamente instável Angiografiade emergên- cia com embolização ou exploração cirúrgica da lesão vascular Manutenção do fixador externo Programação de fixação interna definitiva Tratamento da lesão no tórax ou abdome para estabilizar paciente Radiografia da pelve Figura 8.4 Algoritmo do tratamento das fraturas da pelve. Figura 8.5 Fratura de bacia exposta e em livro aberto com ferimento complexo pelviperineal grave, com destruição e avulsão da genitália e sangramento expressivo. Em um primeiro momento, até a fi xação ci- rúrgica da bacia, a aplicação de talafi x pelo dorso + faixas ou mesmo len- çóis é útil na tentativa de fechar a pelve em livro aberto. Levá-lo para la- parotomia para realizar colostomia protetora é primordial para desviar o trânsito intestinal e evitar síndrome de Fournier nesses pacientes. Figura 8.6 Fixação externa da pelve com lençol no PS. Figura 8.7 London splint é esta faixa preta aplicada em fraturas de ba- cia no resgate pré-hospitalar. Figura 8.8 Vítima utilizando a calça antichoque (PASG). PASG: a calça antichoque conhecida nos EUA como PASG (pneumatic antishock gargment) não é dis- ponível amplamente no Brasil: ela realiza o controle da hemorragia por pressão direta em membros infe- riores e pelve (paciente com PA < 50-60 mmHg e au- menta a pressão), melhorando a perfusão para órgãos nobres como cérebro, coração e rim. O PASG faz uma compressão efetiva até na estabilização de fraturas pélvicas, mas para a retirada desse dispositivo deve-se hidratar muito bem o paciente porque ao desinsufl ar rapidamente este poderá entrar em choque refratário. Contraindicações da calça antichoque: ges- tante e rotura traumática do diafragma. Modo de aplicação da calça antichoque: in- fl á-la após posicioná-la sob a vítima até a pressão sis- tólica atingir 80 mmHg. Ao desinsufl ar tem que ser 5 mmHg a cada 10 min. e se o paciente apresentar hipotensão há de se insufl ar de novo e hidratar mais com cristaloides. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 2015106 Hematoma retroperitoneal Os vasos do retroperitônio são fontes de san- gramento grave e que cursam com alta mortalidade sobretudo nas fraturas de compressão AP. As lesões tamponadas e restritas ao retroperitônio resultam em grandes hematomas. Quando há ruptura para o peritônio livre, a morte ocorre em minutos. Nesses doentes, quanto mais precoce a hemostasia, melhor será o prognóstico. As 3 maiores fontes de sangramento são: focos de fraturas ósseas, lesões arteriais e lesões venosas. Admite-se que o sangramento oriundo dos focos de fratura e das lesões venosas seja auto-limitante devi- do ao aumento na pressão no espaço retroperitoneal pélvico. Atualmente, aceita-se que em 86% dos casos a hemorragia associada com as fraturas pélvicas seja constituída de sangue venoso proveniente dos focos de fratura e que em 10% dos casos o sangramento seja de origem arterial. A lesão em grandes veias é mais rara e ocorre em menos de 1% dos pacientes. Alguns autores entendem que a lesão das veias ilíacas é a principal causa de choque hemorrágico em alguns pacientes com fraturas pélvicas instáveis após trauma fechado. Embora menos frequentes, as lesões arteriais são as que mais costumam causar instabilidade hemo- dinâmica. As artérias pudenda interna, glútea superior, sa- cral lateral e hemorroidária média foram consideradas como as maiores fontes de sangramento nas fraturas pélvicas. As lesões nos vasos ilíacos comuns ou nos externos foram relacionadas com fraturas graves nos ossos ilíacos ou com luxação da articulação sacroilíaca. Lesões nas artérias obturatórias e pudendas internas podem ser causadas por fraturas nos ramos púbicos. Achados arteriográficos mais recentes permitem supor que as artérias pélvicas mais vulneráveis aos traumas fechados são: iliolombar (3%), glútea inferior (6%), obturatriz (16%), sacral lateral (23%), glútea su- perior (25%) e pudenda interna (27%). Classificação Hematomas da zona I: são os de localização central (retromesentéricos). Delimitados entre as li- nhas hemiclaviculares e a linha que passa entre as cristas ilíacas. Hematomas da zona II: localizam-se nas gotei- ras parietocólicas. Entre as linhas hemiclaviculares e a linha axilar posterior. Hematomas da zona III: pélvicos. Abaixo da linha horizontal que passa nas cristas ilíacas. Figura 8.9 zonas de hematomas do retroperitônio. Condutas cirúrgicas Hematoma de zona I: explora-se sempre (feri- mentos penetrantes e fechados). Hematoma de zona II: explora-se às vezes quan- do o trauma é penetrante e há suspeita de lesão vascular. Hematomas pélvicos (zona III) fechados: não devem ser explorados, exceção em trauma pene- trante com suspeita de lesão arterial. Entretanto, es- ses pacientes não devem ser abordados cirurgicamen- te, mas sim via arteriografia. Quando o hematoma estiver em expansão, tal- vez a melhor conduta seja a colocação de compressas para damage control, estabilizando o doente na UTI e procedendo à arteriografia para embolização dos va- sos ilíacos. Os hematomas causados por agentes penetran- tes (FAFs/FABs), mesmo os pélvicos e os das zonas I e II, devem ser explorados após controle vascular pro- ximal e distal. Geralmente os trajetos da aorta e da cava são abordados, respectivamente, pelas manobras de Mattox e a de Grande Kocher ou Catell. 8 Trauma pélvico 107 Na manobra de Catell, incisa-se a goteira pa- rietocólica direita, em seguimento à tradicional ma- nobra de Kocher. Figura 8.10 a manobra de Catell, incisa-se a goteira parietocólica direi- ta para acessar os rins e vasos do retroperitônio. Essa é a mesma mano- bra que fazemos para acessar o apêndice retroperitoneal. Nessa imagem foi feito também manobra de Kocher de liberação do peritônio da segun- da porção do duodeno que se pode palpar pâncreas e colédoco distal. Manobra de Mattox a. Renal Esquerda a. Mesentérica Superior Tronco Celíaco Figura 8.11 manobra de Mattox consiste na abertura da goteira parietocólica esquerda; há exposição da aorta; pode-se fazer Mattox deslocando-se o rim e baço apenas pela incisão de refl exos peritoneais. Manobra de Kocher Figura 8.12 a manobra de Kocher, a 2ª porção do duodeno é liberada de sua refl exão de peritônio e o duodeno volta a ter a mobilidade que possuía embriologicamente. ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA Capítulo 2 Capítulo 9 ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA Introdução O número exato de pessoas que anualmente sofrem traumatismo cranioencefálico (TCE) não é exatamente conhecido por diversas razões. Eles são sub avaliados. Muitas pessoas que sofrem TCE leve não procuram cuidados médicos, em situações de politrauma, TCEs leves podem não serem iden- tificados. Nos TCEs graves, a ausência de registros nos casos de morte resultante de lesões múltiplas graves e dificuldades na utilização dos critérios de classificação de TCE. O aumento da mortalidade resultante de TCE nos últimos anos, particularmente nos países em de- senvolvimento, chama a atenção para as consequên- cias sérias deste problema que Miller, em 1986, deno- minou epidemia silenciosa. Sabe-se que, anualmente, por volta de 2 milhões de pessoas sofrem TCE; 25% (500 mil) necessitam de hospitalização, 70 mil a 90 mil dos sobreviventes fi - cam com sequelas crônicas importantes e, aproxima- damente, 200 mil do total de pessoas que sofreram hospitalização fi carão com sequelas menores, mas que podem interferir na sua vida cotidiana. Cerca de 100 mil pacientesmorrem anualmente em consequência de TCE. O crânio é uma caixa óssea rígida que contém os seguintes elementos: � cérebro (70%/1.250 mL) e fl uido intersticial (10%/150 mL); � sangue (10%/150 mL); � líquido cerebroespinhal (10%/150 mL). Sabemos que o volume craniano permanece constante e que a expansão de um dos componentes da caixa craniana leva a uma diminuição compensa- tória dos outros compartimentos com o intuito de manter a pressão intracraniana (PIC) dentro de valo- res normais, de acordo com a doutrina de Monroe- -Kellie-Burrows (o volume total do conteúdo intra- craniano deve permanecer constante, já que o crânio é uma caixa rígida não expansível). Por exemplo, se um hematoma comprime o cérebro, ou há um ede- ma swelling (inchaço) no compartimento cerebral, os demais compartimentos tendem a diminuir. A saída forçada de volume igual de líquido e sangue venoso do cérebro mantém inicialmente a PIC normal. En- tretanto, quando os mecanismos de compensação se esgotam, ocorre aumento exponencial da PIC mesmo para um pequeno aumento do volume do hematoma. Com esta elevação da PIC existe resistência do san- gue para chegar até o cérebro com consequente má perfusão e suas consequências (sofrimento e morte neuronal). Apenas em crianças, nas quais as suturas não são fusionadas, o crânio pode expandir-se para acomodar um volume extra. Com o intuito de manter a pressão dentro dos li- mites fi siológicos, o sistema venoso colapsa facilmen- te, espremendo o sangue venoso nas veias jugulares e nas veias emissárias do couro cabeludo scalp. O líquido cerebrospinhal, de forma semelhante, pode deslocar- -se através do forame magno para dentro do espaço subaracnoideo espinhal. Quando esses mecanismos compensatórios entram em exaustão, mudanças míni- mas no volume precipitam aumento na pressão. Cha- ma-se hipertensão intracraniana quando a PIC é maior ou igual a 20 mmHg (valor normal varia de 10 a 15 mmHg ou 136 a 204 mmH2O). A curva que relaciona volume intracraniano em expansão e pressão intracraniana foi descrita por Lan- gfi tt (Figura 9.1); observe que ela não é linear e a de- terioração neurológica súbita pode ser explicada pela infl exão abrupta da curva, quando os mecanismos fi siopatológicos de complacência se exaurem (redis- tribuição do LCR e incremento do retorno venoso ce- rebral). Neste momento, o parênquima cerebral pode sofrer herniações que levam ao coma e morte, se não tratado imediatamente. Curva volume - pressão Herniação Ponto de descompensação Compensação Volume de massa PI C ( m m H g) 60 55 50 45 40 35 30 25 20 15 10 5 Figura 9.1 Curva volume-pressão. O conteúdo intracraniano é inicial- mente capaz de compensação, quando surge nova massa intracraniana, como um hematoma subdural ou extradural. Uma vez que o volume dessa massa atinja um limite crítico, frequentemente ocorre um au- mento rápido da pressão intracraniana, que pode levar a redução ou cessação do fl uxo sanguíneo cerebral. Os TCEs levam a falhas na barreira hematoen- cefálica permitindo que os componentes plasmáti- cos atravessem facilmente essa barreira para den- tro do tecido neural (edema vasogênico). A hipóxia (injúria secundária) afeta a ATPase sódio/potássio da membrana celular, promovendo acúmulo intra- celular de sódio, e o subsequente fluxo de água para dentro da célula por gradiente osmótico. Logo, o edema citotóxico também ocorre, porém em fase subaguda e/ou crônica. O edema intersticial, para ocorrer, necessita que haja complicação traumática por hidrocefalia. Como o crânio é inexpansível nos adultos, o edema cerebral parece ser de pior prog- nóstico nestes do que nas crianças. 9 Trauma cranioencefálico (TCE) 109 A monitorização contínua da PIC é um método difusamente usado para acessar a dinâmica intracra- niana, sendo a presença de hemorragia subaracnoide um dos critérios mais utilizados para a monitorização da PIC. Indica-se monitoração da PIC em todos os pa- cientes graves (3-9 pontos na ECG) seguindo-se as di- retrizes do Brain Trauma Foundation 1996 e 2004. O uso de cateteres intraventriculares de monitoração da PIC, além de permitir a mensuração da PIC, possibilita a drenagem de LCR, avaliar a shunt dependência, do paciente de necessitar de um sistema de derivação por válvula, e inferir a PPC com mais segurança. A drena- gem do sistema ventricular promove a redução da PIC e o redirecionamento do fluido intersticial cerebral ao ventrículo, que pode estar aumentado quando asso- ciado ao edema cerebral intracelular e vasogênico. Como complemento, a monitoração da PIC, a obtenção de monitoração da PAM de forma invasiva, proporciona o calculo indireto da PPC (PPC = PAM — PIC). Assim, pode-se ter uma ideia mais acurada do estado da perfusão tecidual do cérebro que deve ser 80 mmHg. O fluxo sanguíneo cerebral normal é de 55 a 60 mL/100 g de tecido cerebral/min. O fluxo na matéria cinzenta é de 75 mL/100 g/min., en- quanto na substância branca é de 45 mL/100 g/ min. Esse fluxo é suficiente para manter as necessi- dades metabólicas cerebrais. O fator mais importante para que o fluxo sanguíneo cerebral seja determinado é pressão de perfusão cerebral (obtida pela diferença entre a pressão arterial média e a pressão intracra- niana). Após um TCE, pressões de perfusão < 70 mmHg relacionam-se a evolução desfavorável. PPC (Pressão de perfusão cerebral) = PAM (pressão arterial média) – PIC (pressão intracraniana) PAM = PS - 2/3 PD É fundamental e prioritário manter a pressão de perfusão cerebral no TCE grave! Os fatores mais importantes que regulam o fluxo sanguíneo cerebral sob condições fisiológicas normais são: � pressão arterial sistêmica; � concentração arterial de CO2, hidrogênio e oxi- gênio. A tensão de CO2 é o estímulo cerebrovascular mais importante para a vasodilatação. O fluxo san- guíneo cerebral aumenta quando a tensão de dióxido de carbono situa-se entre 15 e 80 mmHg. A hipóxia também gera vasodilatação. O fluxo sanguíneo ce- rebral é autorregulado, mantendo-se normal na va- riação de 50 a 160 mmHg da pressão arterial média. Valores abaixo de 50 mmHg correspondem a choque hipovolêmico, e os acima de 160 mmHg levam a ede- ma vasogênico e hemorragia. O fluxo sanguíneo cortical regional (rCBF) é parâmetro objetivo da perfusão cerebral. O rCBF pode ser quantitativamente identificado por um flu- xômetro de difusão térmica. O fluxo normal cortical médio é o citado anteriormente, porém em geral pode variar de 40 a 70 mL/100 g/min. Os pacientes nos quais o rCBF é menor do que 20 mL/100 g/min. são considerados portadores de isquemia cerebral severa. Nos pacientes comatosos o rCBF situa-se entre 35 e 40 mL/100 g/min. e nos com morte cerebral o rCBF é menor do que 7 mL/100 g/min. A monitorização de pacientes com injúria cerebral severa demonstra que os pacientes com evolução favorável apresentavam tendência à normalização ou rCBF normal, enquanto os de evolução desfavorável possuíam rCBF abaixo dos valores normais. Os dados do rCBF permitem otimizar a hiperventilação, a oxigenoterapia e a osmoterapia. Classificação Os TCEs podem ser classificados em três tipos, de acordo com a natureza do ferimento do crânio: � Traumatismo craniano fechado; � Fratura com afundamento do crânio; � Fratura exposta do crânio. Esta classificação é importante, pois ajuda a defi- nir a necessidade de tratamento cirúrgico. O traumatismo craniano fechado caracteriza- -se por ausência de ferimentos no crânio ou, quando muito, fratura linear. Quando não há lesão estrutural macroscópica do encéfalo, o traumatismo craniano fe- chado é chamado de concussão. Contusão, laceração, hemorragias e edema (inchaço) podem acontecer nos traumatismos cranianos fechados com lesão do parên- quima cerebral. Os traumatismos cranianos com fraturas e afundamento caracterizam-se pela presença de fragmento ósseo fraturado afundado, comprimindo e lesando o tecido cerebral adjacente. O prognóstico de- pende do grau da lesão provocadano tecido encefálico. Nos traumatismos cranianos abertos, com fratura exposta, ocorre laceração dos tecidos pericra- nianos e comunicação direta do couro cabeludo com a massa encefálica através de fragmentos ósseos afun- dados ou estilhaçados. Este tipo de lesão é, em geral, grave e há grande possibilidade de complicações infec- ciosas intracranianas. Tanto no traumatismo fechado quanto no aberto pode ocorrer hematoma epidural, subdural e intracerebral. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 2015110 Os traumas de face e crânio, em que ocorreu fra- tura de clavícula, geralmente vêm associados à TRM. Esteja atento para trauma fechado acima das clavícu- las! Proteja a coluna cervical! Classifi cações do Trauma Cranioencefálico Mecanismo Fechado Penetrante Alta velocidade (colisão de veículos) Baixa velocidade (queda, agressão) Ferimentos por arma de fogo Outras lesões penetrantes Gravidade Leve Moderada Grave Escore GCS 13-15 Escore GCS 9-12 Escore GCS 3-8 Morfologia Fraturas de crânio De calota Basilares Linear vs. estrelada Com ou sem afundamento Exposta ou fechada Com ou sem perda de LCR Com ou sem paralisia do VII nervo Lesões intracranianas Focais Difusas Epidural Subdural Intracerebral Concussão Contusões múltiplas Lesão hipóxica/isquêmica Tabela 9.1 Tipos de edema pós-traumático Edema Causa Exemplo Vasogênico Lesão vascular Contusão, laceração in- tracerebral, hematoma Hidrostático Aumento da pressão vascular transmural Perda da autorregulação após descompressão do cérebro Citotóxico Falha da bomba de membrana devido a fator energético Hipóxia, isquemia (contusão) Hiposmótico Hiponatremia Hemodiluição (SIADH) Intersticial Hidrocefalia com aumento de pressão Efeito de massa com obstrução ventricu- lar (III e IV ventrícu- los) pós-hemorragia, bloqueio de vilosidades aracnoideas Tabela 9.2 Escala de Coma de Glasgow (ECG) Área de avaliação Escore Abertura ocular (O) Espontânea A estímulo verbal A estímulo doloroso Sem resposta 4 3 2 1 Melhor resposta motora (M) Obedece comandos Localiza dor Flexão normal (retirada) Flexão anormal (decorticação) Extensão (descerebração) Sem resposta (fl acidez) 6 5 4 3 2 1 Resposta verbal (V) Orientado Confuso Palavras inapropriadas Sons incompreensíveis Sem resposta 5 4 3 2 1 Tabela 9.3 Escore = (E + M + V); melhor escore possível = 15; pior escore possível = 3. Ao avaliar o escore na ECG, quando existe assimetria direita/ esquerda, é importante que se use a melhor resposta motora no cálculo do escore porque esta é o preditor mais confi ável do resultado. Exames complementares Em casos de TCE leve, normalmente é realizada uma radiografi a simples do crânio (AP e perfi l), porém este exame é útil somente para a pesquisa de fratura/ afundamento craniano, não sendo capaz de possibili- tar o diagnóstico de lesões intracranianas. Desta for- ma, caso o paciente permaneça sintomático (cefaleia, tontura, confusão), ou em traumas moderados ou gra- ves, faz-se necessária a realização de uma tomografi a computadorizada. A tomografi a computadorizada sem contraste (TC) é método por imagem que permite o diagnóstico precoce de lesões traumáticas, possibilitando que pa- cientes com exame normal recebam alta sem perma- necer em observação por períodos prolongados, redu- zindo o custo global do atendimento destes pacientes. Uma vez indicada, a TC deve ser realizada o mais rapidamente possível, pois a curva de pressão intra- craniana segue um padrão exponencial e, portanto, o diagnóstico das lesões traumáticas e seu tratamento deve ser instituído precocemente, evitando-se a insta- lação de défi cits neurológicos. 9 Trauma cranioencefálico (TCE) 111 Indicações de TC no TCE Leve A TC de crânio é necessária em doentes portadores de trau- ma cranioencefálico leve (por exemplo: perda de consciência testemunhada ou desorientação testemunhada em doente com escore na GCS de 13 a 15) e em qualquer um dos se- guintes casos: Alto risco para intervenção neurocinúrgica: Escore na GCS menor do que 15 até 2 horas após o trauma Suspeita de fratura exposta ou com afundamento Qualquer sinal de fratura de base de crânio (por exemplo: hemotímpano, olhos de guaxinim, otorréia ou rinorréia de LCR, sinal de Battle) Vômitos (mais do que dois episódios) Idade superior a 65 anos Risco moderado para lesão cerebral na TC: Amnésia para fatos anteriores ao impacto (mais que 30 mi- nutos) Mecanismo perigoso (por exemplo: atropelamento de pedes- tre por veículo automotor, ejeção do ocupante de dentro do veículo automotor, queda de altura maior do que 1 metro ou 5 degraus) Tabela 9.4 Indicações de TC no TCE leve. A TC possibilita o diagnóstico, define a indicação cirúrgica e monitora o tratamento das lesões intracra- nianas. Além da tomografia, o Doppler transcraniano e a ressonância magnética podem ser usados no diag- nóstico e seguimento dos pacientes com TCE. O Dop- pler transcraniano avalia a atividade do leito vascular intracraniano, permitindo diagnóstico de vasoespas- mo, hiperemia, hipertensão intracraniana e morte ce- rebral. A ressonância magnética de encéfalo permite avaliação adicional de isquemia aguda, embolia gordu- rosa e, por espectroscopia, o diagnóstico de lesão axo- nal difusa por diminuição de aspartato no esplênio do corpo caloso. Marshall et al., classificaram as lesões difusas de acordo com a apresentação à TC em quatro categorias (tabela 9.5). Categoria Definição Marshall I TC sem anormalidades visíveis Marshall II Cisternas livres Desvio da linha média < 5 mm Marshall III Cisternas comprimidas ou ausentes Desvio da linha média < 5 mm Marshall IV Colapso cisternal Desvio da linha média > 5 mm Tabela 9.5 Hematomas epidurais São decorrentes da lesão arterial, envolven- do a artéria meníngea média, após fratura tempo- ral. São chamados também de hematomas extra- -durais, pois estão localizados fora da dura-máter, mas dentro do crânio. Tipicamente, têm a forma biconvexa ou em forma de lente, sendo frequen- tes nas regiões temporal ou temporoparietal. São mais raros (0,5% de todos os TCEs), mas em 9% de todos os comatosos sua instalação é rápida e tende a evoluir para o óbito se não for feita a descompres- são rápida. Manifestam-se clinicamente por: � perda da consciência (intervalo lúcido); é o do- ente que fala e morre; � rápida piora neurológica (por isso é importante realizar repetitivas medidas de Glasgow); � coma (Glasgow ≤ 8); � pupila midriática unilateral (anisocoria) – o pa- ciente olha para a lesão. Geralmente, o lado da pupila midriática é o lado em que está ocorrendo o hematoma em 90% das vezes; � paresia contralateral ao hematoma. A TC é mandatória seguida de tratamento ci- rúrgico de urgência (craniotomia), sob o risco de uma herniação transtentorial se não houver evacu- ação do hematoma. Se tratado precoce e adequada- mente, o prognóstico do epidural é melhor do que o subdural. Intervalo lúcido = hematoma epidural! O tratamento, na maioria dos casos, é ci- rúrgico mesmo que o seu volume não seja crí- tico no momento do diagnóstico. Não raro, o hematoma visualizado no intraoperatório é mais volumoso do que a TC pré-operatória mostrava, in- dicando haver uma progressão sensível no volume ao longo do tempo; isto faz com que a espera para o tratamento cirúrgico seja muito deletéria ao pacien- te. Recomenda-se cirurgia para todo paciente com HED > 5 mm e naqueles com HED < 5 mm na admissão que apresentam expansão do he- matoma. Os pacientes com hematomas > 30 cm3 devem ser operados, independente da ECG. A cirur- gia consiste em programar a craniotomia para que seja suprajacente ao hematoma, retirada do hema- toma, hemostasia da fonte de sangramento (óssea, arterial ou venosa) e ancoramento dura) na tábua óssea interna. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 2015112 Figura 9.2 Hematoma epidural ou extradural. Observe o aspecto bi- convexo da lesão e a compressão do encéfalo subjacente.Estas lesões costumam estar associadas a fraturas em cerca de 40% dos casos. Figura 9.3 Extenso hematoma extradural parietotemporal direito (epidural). Hematomas subdurais São bem mais frequentes do que os epidu- rais – 30% de todos os TCEs são subdurais – e ocor- rem com a ruptura de vênulas encontradas entre a dura-máter e a aracnóide (espaço subdural). A ins- talação é insidiosa e pode manifestar-se nas formas aguda, subaguda e crônica, dependendo do efeito de massa exercido por seu volume e concomitante ao edema cerebral e ao brain swelling associados. Como os hematomas subdurais recobrem toda a superfície do cérebro e o acometimento cerebral tende a ser mais grave, o prognóstico é pior. Esse hematoma pode manifestar-se clinicamen- te pela: Tríade de Cushing: hipertensão arterial, bradicardia e bradi- pineia (respirações irregulares). Essa tríade é sinônimo de grave hipertensão in- tracraniana. Tal lesão, com frequência, está associada a lesões do córtex e hematomas intracerebrais. Após a TC, o tratamento é realizado por intermédio de cra- niotomia se houver desvio > 5 mm, sendo o prognós- tico reservado devido à mortalidade perto dos 60% e às graves sequelas. Seu aspecto na TC de crânio é de um crescen- te (lente côncavo-convexa), hiperdenso adjacente à tábua óssea interna. É mais frequentemente en- contrado na convexidade cerebral, mas também pode ser inter-hemisférico, junto ao tentório ou na fossa pos- terior. Os HSDA laminares (espessura < 0,5 cm) com DLM < 5 mm, volume < 30 cm3 quando supratentoriais, ou 16 cm3 quando infratentoriais, e cisternas basais pa- tentes podem ter conduta conservadora. Quando loca- lizados na fossa média ou posterior, em pacientes com 14 ou 15 pontos na ECG que piorem clinicamente ou TC revelando aumento de volume devem ser submetidos à cirurgia, principalmente se associado à tumefação ce- rebral hemisférica. O tratamento cirúrgico imediato é obrigatório em casos de rebaixamento de consciência. A craniotomia deve ser ampla para facilitar a drena- gem do coágulo e controlar pontos de hemorragia que se aproximem da linha mediana. Deve-se sempre con- siderar a monitoração de PIC no mesmo ato cirúrgico, pois pode haver inchaço cerebral após a reperfusão do hemisfério antes adjacente a lesão. Figura 9.4 Hematoma subdural com importante desvio de linha média. 9 Trauma cranioencefálico (TCE) 113 Hematoma subdural crônico Ocorre preferencialmente na faixa etária aci- ma de 50 anos. Em 25 a 50% dos casos de hema- tomas subdurais crônicos, há história de trauma- tismo craniano, sendo frequentemente de pequena intensidade. Existe uma predisposição em doentes idosos ou alcoólatras crônicos com atrofia cerebral, ou em doentes submetidos a tratamento anticoa- gulante ou com discrasias sanguíneas ou leucoses e em epiléticos. Contusão cerebral Em maior ou menor grau, ocorre a formação de hematomas intracerebrais, com importante compro- metimento cortical e subcortical. O quadro é de extre- ma gravidade, com coma profundo (Glasgow 5, 4 e 3), ainda mais quando associados, como frequentemente ocorre a hematomas subdurais, brain swelling, edema cerebral e lesão axonal difusa (LAD). O aspecto destas lesões à TC é heterogê- neo, com áreas de hiperdensidade (hemorra- gia) juntamente com áreas de hipodensidade (necrose/isquemia). Este aspecto pode variar bastante, ou seja, pode haver lesões com pre- dominância de hipodensidade e outras com maior hiperdensidade. Há também área hipo- densa em torno da lesão que corresponde ao ede- ma perilesional e tende a aumentar com a evolução dos dias, contribuindo com o efeito de massa tar- dio. Podem comportar-se de forma evolutiva com aumento do efeito de massa, por sangramento ou aumento da área de edema. Por isso os pacientes com contusões cerebrais, quando não operados nas primeiras horas, devem ser observados por vários dias, com necessidade de serem feitas TCs seriadas de controle. Por volta do quinto dia de evolução, geralmente as contusões atingem o pico de edema lesional) estabilizando seu efeito de massa. Quan- do presentes nos lobos temporais, principalmente em seus polos, são de maior risco, pois podem de- sencadear facilmente a síndrome de herniação un- cal. Nesses casos, quando há aumento do volume nos polos temporais, o uncus é empurrado medial- mente e comprime o mesencéfalo juntamente com o nervo oculomotor (III NC) originando midríase ipsilateral e hemiparesia ou mesmo postura em ex- tensão contralateral. Portanto, contusões tempo- rais são mais frequentemente operadas que contu- sões frontopolares ou occipitais. Figura 9.5 Área de contusão parenquimatosa frontal direita. Lesão axonal difusa É o coma pós-traumático prolongado, que não é resultante de lesões de massa ou lesões isquêmicas. Caracteriza-se pela perda de consciência no local do acidente, seguido frequentemente de coma prolonga- do. O paciente pode assumir a postura de descerebra- ção/decorticação. A lesão é por tosquia ou cisalhamen- to do axônio, de modo difuso. O diagnóstico é feito por sinais indiretos à TC, que não diagnostica a LAD. A ressonância magnética (RM), por vezes, o faz. O tra- tamento é eminentemente clínico, não havendo indicação cirúrgica. Concussão cerebral É muito frequente a perda temporária da consci- ência, com confusão, obnubilação e amnésia retrógra- da (o paciente não sabe o que aconteceu no acidente e, via de regra, fica fazendo inúmeras perguntas). A amnésia anterógrada pode ocorrer concomitantemen- te (após você explicar o que aconteceu no acidente, passam alguns segundos e o paciente volta a fazer as mesmas perguntas, como se nada lhe tivesse sido dito antes). O quadro decorre de pequenos TCEs contusos, de baixa energia, sem lesão estrutural do encéfalo constatável por exames complementares (TC e RM). Sua evolução é benigna e rápida. A concussão ce- Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 2015114 rebral é a lesão que leva ao nocaute de um lutador. Di- versas concussões sucessivas podem levar ao quadro neurológico conhecido por demência pugilística. Os pacientes com TCE, em geral, devem ser man- tidos com a cabeça elevada, principalmente os que apresentarem fístulas liquóricas, com generoso apor- te de oxigênio, se necessário, e intubado e ventilado mecanicamente; reposição hidroeletrolítica cuidadosa e correção dos distúrbios acidobásicos. História clínica É importante a coleta de informações sobre evento traumático a partir dos observadores. Deve-se procurar saber a causa do traumatismo, a intensidade do impacto, a presença de sintomas neurológicos, con- vulsões, diminuição de força, alteração da linguagem, e, sobretudo, é preciso documentar qualquer relato de perda de consciência. A amnésia para o evento é comum nas con- cussões. Pode haver, também, perda de memória re- trógrada (em eventos ocorridos antes do trauma) ou anterógrada (nos eventos que se sucederam logo após o trauma). A amnésia é característica dos TCEs que cursam com perda de consciência. Amnésia cuja du- ração é superior a 24 horas é indicativa de que o TCE foi mais intenso, e pode estar relacionada com prognóstico menos favorável. A amnésia de curta duração não tem maior signifi cado clínico. A alteração da consciência é o sintoma mais co- mum dos TCEs. A breve perda de contato com o meio é característica da concussão. O coma pode durar horas, dias ou semanas, dependendo da gravi- dade e localização da lesão. Lesões difusas do encéfalo ou do troncoencefálico podem levar a comas prolon- gados, sobretudo quando há contusão ou laceração de amplas áreas cerebrais, tumefação ou edema impor- tante. A melhora do nível de consciência tem relação direta com o grau de lesão. Dor de cabeça intensa, sobretudo unilateral, pode indicar lesão expansiva intracraniana, sendo ne- cessária investigação neurológica cuidadosa. Cefaléia intensa na região occipital pode ser indicativa de fra- tura do odontóide (estrutura da segunda vértebra, que se articulacom a primeira). Exame físico O exame físico inicial, na fase aguda, deve ser rápido e objetivo. É importante lembrar que pacien- tes com TCE são politraumatizados, sendo frequente a associação com traumatismos torácicos, abdomi- nais e fraturas inclusive de coluna cervical (use colar cervical!). Hipóxia, hipotensão, hipo ou hiperglice- mia, efeito de drogas narcóticas e lesões instáveis da coluna vertebral devem ser procurados e convenien- temente tratados. O exame da pele da cabeça deve ser feito com cuidado. Fraturas no crânio devem ser investigadas. Fraturas da base do crânio podem ser suspeita- das pela presença de sangue no tímpano e pela drenagem de líquido cefalorraquidiano pelo ou- vido ou nariz. O propósito do exame neurológico inicial é de- terminar as funções dos hemisférios cerebrais e do tronco encefálico. Os exames subsequentes são im- portantes para verifi car a evolução do paciente, se está havendo melhora ou deterioração do seu quadro clínico. Escalas neurológicas foram desenhadas para permitir quantifi car o exame neurológico. A escala de coma de Glasgow é uma medida semi quantitativa do grau de envolvimento cerebral, que também orienta o prognóstico. Entretanto, não é válida para pacientes em choque ou intoxicados. Existe uma escala modi- fi cada para crianças. A presença de traumatismo dos olhos e da medula espinhal difi culta a avaliação. A es- cala consiste em pontuar os achados do exame neu- rológico, avaliando a resposta verbal, a abertura dos olhos e a resposta motora. � Midríase unilateral: lesão do III (herniação ten- torial); hematoma EPI/subdural; se não tiver res- posta à luz ou perda de visão, pense em lesão as- sociada do II . � Midríase bilateral: perfusão cerebral inadequada; paralisia bilateral do III par craniano. � Miose unilateral: lesão do simpático (exemplo: trauma da bainha carotídea). � Miose bilateral: drogas (opiáceos), encefalopatia metabólica, lesão da ponte. Tabela 9.6 Sinais relacionados às diversas lesões cranioencefálicas. Os pares cranianos podem ser afetados no TCE contuso ou no aberto. As principais possibi- lidades são: I par (olfatório): resulta em anosmia (não sen- te cheiro) e perda parcial da acuidade gustatória. Sua lesão decorre das fraturas do frontal com comprome- timento da placa cribriforme. II par (óptico): fratura da órbita (esfenoide), causando cegueira ipsilateral. IV par (troclear): fratura da asa do esfenoide, levando à diplopia. VII par (facial): fratura que compromete o tem- poral, a apófi se estiloide e a base do crânio. Paralisia central de instalação tardia (5 a 8 dias) após o trauma. 9 Trauma cranioencefálico (TCE) 115 VIII par (auditivo ou vestibulococlear): fratura do petroso, cursando com hipoacusia, surdez (fazer diagnóstico diferencial com ruptura do tímpano) e quadro vertiginoso, por lesão dos canais semicirculares (órgão de Corti). Características clínicas e recuperação neurológica em lesões cerebrais traumáticas Concussão Lesão axonal difusa Leve Clássica Leve Moderada Grave Perda da consciência Não Imediata Imediata Imediata Imediata Duração da inconsciência Não < 6 h 6 - 24 h > 24 h Dias-sem. Postura descerebrada Não Não Rara Ocasional Presente Amnésia pós-traumátíca Minutos Min.-horas Horas Dias Semanas Déficit de memória Não Minutos Leve-moderado Moderado Grave Déficit motor Não Não Não Leve Grave Recuperação (3 meses) % % % % % Boa recuperação 100 100 63 38 15 Déficit moderado 0 0 15 21 13 Déficit grave 0 0 2 12 14 Vegetativo 0 0 1 5 7 Morte 0 0 15 24 57 Tabela 9.7 que não se usem soluções hipotônicas, assim como so- luções glicosadas, pois a hiperglicemia parece ser preju- dicial ao cérebro lesado. A melhor solução, portanto, é o Ringer lactato. Monitorização constante dos níveis de sódio deve ser feita, pois a hiponatremia está associada ao edema cerebral e deve ser prevenida ou tratada agres- sivamente quando presente. Hiperventilação A hiperventilação é o método inicialmente capaz de restaurar a autorregulação da perfusão cerebral, mas com o viés de também ser potencialmente danosa ao paciente. A principal aplicação é no resgate de pa- cientes em urgência de herniação cerebral. O uso generoso da hiperventilação para obter PaCO2 de 25 a 30 mmHg dentro dos primeiros dias de injúria cerebral é o observado na prática médica diá- ria. A redução da PIC ocorre por conta do efeito vaso- constritor da hiperventilação. A acidose lática secundária à injúria cerebral está relacionada com evolução pobre. A hiperventilação diminui o dióxido de carbono cerebral, resultando no aumento do pH e combatendo a acidose. O uso indiscriminado da hiperventilação de for- ma profilática durante um período de 5 dias é capaz de retardar a recuperação do paciente com injúria cere- bral. Os pacientes submetidos a esse método apresen- taram evolução estatisticamente pior em um período de 3 a 6 meses. Assim, surgiram dúvidas de quando devemos hiperventilar e até quando. Manejo clínico Medidas gerais As medidas clínicas para tratamento da PIC em UTI iniciam-se com medidas preventivas como: eleva- ção no dorso do leito a 30° com o plano horizontal; ma- nutenção do paciente em alinhamento neutro evitando flexões, extensões e movimentos laterais cervicocrania- nos > 15°; manutenção de vias aéreas pérvias e ventila- das para boa difusão de O2 pulmonar. Recomendamos níveis de Hb > 10 mg/dL para se otimizar suporte de oxigênio adequado, evitando-se lesões secundárias. Deve-se também manter a euvolemia e os distúrbios hi- dreletrolítico corrigidos. A febre aumenta o metabolis- mo cerebral e a hiperglicemia relaciona-se com um pior prognóstico no TCE grave, portanto devem ser tratadas agressivamente. As crises convulsivas são evitadas por meio de profilaxia medicamentosa. Soluções salinas intravenosas As soluções salinas intravenosas devem ser admi- nistradas conforme a necessidade para reanimar o do- ente e manter a normovolemia. A desidratação, apoiada anteriormente, é considerada atualmente mais prejudi- cial do que benéfica para estes doentes. Deve-se tomar cuidado, entretanto, para não sobrecarregar o doente com volume excessivo. Em pacientes com TCE, é crítico Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 2015116 Os estudos da diferença arteriojugular dos níveis de glicose e oxigênio mostraram que a hiperventilação deve ser otimizada, para o máximo de benefício do pa- ciente. A hiperventilação otimizada (PaO2 carotídea ≥ 100 mmHg e PaO2 jugular entre 60 e 65 mmHg) pare- ce estar associada com uma mortalidade menor e boa recuperação dos doentes. A terapia com hiperventila- ção objetiva manter normalizada tanto a PIC quanto a extração cerebral de oxigênio. A taxa normal de diferença arteriojugular de glicose é de 6,5 a 13 mg%, e não requer correções por ventilação me- cânica. Para que um método de diferença arterioju- gular de oxigênio funcione corretamente é necessário que a taxa metabólica cerebral de oxigênio e a concen- tração de hemoglobina permaneçam constantes, o oxigênio dissolvido seja ignorado e as reservas de oxi- gênio dissolvidos no tecido cerebral e no volume san- guíneo contribuam pouco nas variações das diferenças de saturação arteriovenosa. A hiperventilação deve ser usada somente com moderação e, tanto quanto possível, por período de tempo limitado. Manitol O manitol é largamente empregado para reduzir a PIC. A apresentação da solução a 20% é a normalmen- te utilizada, com uma dosagem de 0,25 a 1 g/kg intra- venoso rápido (em 5 minutos). Doentes hipotensos não devem receber manitol, sob pena de piorar a hipovolemia (trata-se de um diurético osmótico). Doentes comatosos com pupilas inicialmente normais evoluindo com midríase e pacientes midriáticos e com pupilas não reativas, desde que não estejam hipoten- sos, podem se benefi ciar do uso de manitol. Indicações para uso de manitol na sala de emergência 1. Evidências de herniação (dilatação pupilar, anisocoria) 2. Evidência de efeitomassa (défi cit focal, por ex.: hemiparesia) 3. Deterioração súbita antes da TC 4. Após a TAC se houver lesão associada a aumento da PIC 5. Após a TC se indicado tratamento cirúrgico com HIC 6. Garantir salvabilidade em casos de suspeita de lesão de tronco Tabela 9.8 Nos pacientes submetidos a uso prolongado de manitol devem-se ter os eletrólitos rigorosamente controlados, assim como a osmolaridade plasmática, a qual deve ser ≤ 320 mOsm/L. O efeito inicial do ma- nitol na diminuição da PIC é secundário à vasocons- trição e rápido. O efeito mais tardio é secundário à retirada de líquidos do tecido cerebral. Há também uma provável ação antioxidante do manitol que está atualmente em pesquisa. Sedação A sedação pode ser realizada quando não se tem dúvidas das causas determinantes do nível de consci- ência do paciente com injúria cerebral no momento presente e em um futuro, assim não é aconselhável sedar um paciente quando não há disposição de mé- todos complementares de imagem que permitam a identifi cação de lesões determinantes da diminuição do nível de consciência, como o hematoma epidural. A sedação é preferencialmente realizada com morfi na intravenosa em bolus, que pode ser repetida uma vez. Se a sedação for efi caz na redução da hiper- tensão intracraniana, uma infusão contínua de mor- fi na deve ser instituída na dose de 5 mg/h. Essa dose pode ser elevada de 5 a 20 mg/h, se necessário, para conter a agitação ou o excesso de atividade motora. O fentanil é uma alternativa aceitável no lugar da mor- fi na. Nos pacientes que requerem sedação com altas doses de narcóticos, essas doses devem ser retiradas gradualmente, e nunca de forma abrupta. Quando a hipertensão intracraniana persis- te mesmo com a sedação por narcóticos, e há tônus muscular elevado ou o paciente resiste à ventilação, um bloqueio neuromuscular pode ser adicionado para controlar a PIC elevada. Agentes como o vencuronium, pancuronium ou antracurium são efetivos na manu- tenção do relaxamento e podem ser administrados de forma contínua quando necessários. A agitação secun- dária por álcool pode contribuir para a PIC elevada e é refratária à terapêutica com narcóticos; drogas como os benzodiazepínicos podem ser úteis. Furosemida Costuma ser utilizada juntamente com o manitol quando a PIC está elevada. A diurese pode ser aumen- tada pelo uso associado desses agentes. A dose de 0,3 a 0,5 mg/kg de furosemida intravenosa é uma quanti- dade razoável. A acetazolamida (Diamox®) (250-500 mg/dia) reduz a produção de LCR pelos plexos coróides, no en- tanto tem um efeito vasodilatador cerebral que transi- toriamente exacerba a pressão intracraniana. Portan- to, ela é contraindicada em pacientes com TCE. Vasodilatadores As lesões secundárias levam a uma redução do fl uxo sanguíneo cerebral ou oxigenação, resultando em lesão hipóxica/isquêmica cerebral. Antagonistas do cálcio são usados em casos de isquemia cerebral e hemorragia subaracnoide. O tratamento com nimodi- pina aparentemente é capaz de minimizar os efeitos 9 Trauma cranioencefálico (TCE) 117 adversos da hemorragia subaracnoide (HSA); 44% dos pacientes tratados com nimodipina apresentaram evolução desfavorável, contra 61% do grupo placebo. Esteroides O tratamento com doses convencionais de es- teróides não mostraram benefício para os pacientes com injúria cerebral. Alguns estudos demonstraram aumento da mortalidade e complicações associadas com o uso de esteroides. Portanto, não se recomenda esteroides para o tratamento do TCE agudo. Barbitúricos O ácido barbitúrico é uma 2,4,6-trioxo-hexa-hi- droxi-pirimidina. O composto não tem ação depres- sora central, mas a presença de grupos alquílicos ou arílicos na posição 5 confere atividades sedativo-hip- nóticas. Os barbituratos deprimem reversivelmente a atividade de todos os tecidos excitáveis. O SNC é espe- cialmente sensível, podendo ser deprimido desde uma leve sedação até a anestesia geral. Certos barbituratos, particularmente aqueles que contêm um substituinte 5-fenílico (fenobarbital, mefobarbital e metabarbital), têm atividade anticonvulsivante seletiva. Nos pacientes com hipertensão intracraniana, a indução do coma com barbitúricos de ação curta é a última opção na redução da PIC, quando todas as ou- tras medidas falharam. Os barbitúricos decrescem a PIC por vários mecanismos. Eles inibem a liberação de peroxidase-ácida lipídica, inibem o metabolismo ce- rebral e reduzem o fluxo sanguíneo cerebral. A droga mais comumente usada é o tiopental, que é oferecido na dose ataque de 10 mg/kg por um período maior do que 10 min., e dose de manutenção de 1 a 2 mg/kg/h. O nível sérico deve ser mantido em 3 a 4 mg/L. Pacien- tes em coma barbitúrico requerem cuidados intensivos de monitorização hemodinâmicas, PIC e gasometrias. Vasopressores, como a dopamina, devem ser adminis- trados se surgir hipotensão. Outros efeitos colaterais podem ocorrer, como a insuficiência respiratória (os barbitúricos deprimem os impulsos neurogênicos, bem como os mecanismos responsáveis pelo controle rítmico da respiração) e manifestações alérgicas. Hipotermia A terapia por hipotermia tem a capacidade de pro- teger o cérebro e outros órgãos vitais durante períodos de diminuição ou ausência da oferta de oxigênio, sendo bem conhecida e usada cotidianamente durante cirurgia cardíaca, objetivando parada cardíaca total por mais de 60 minutos com 15 a 18°C, sem qualquer lesão neuro- lógica subsequente. A teoria da proteção cerebral hipo- térmica foi baseada no fato de que a hipotermia empiri- camente retardava os processos que conduzem à perda irreversível da função ou morte celular. Assume-se que a habilidade da hipotermia para proteger o cérebro ou ou- tros órgãos contra lesão da isquemia é devida somente à capacidade para diminuir o metabolismo cerebral global, diminuindo assim o consumo de substância de alta ener- gia e o acúmulo metabólico tóxico. A hipotermia diminui a energia global requerida pelo cérebro para diminuição do metabolismo necessário para a função neuronal e o metabolismo residual necessário para manutenção da in- tegridade neuronal. Na normotermia, o cérebro humano pode tolerar 5 a 8 minutos de isquemia global completa sem lesão neurológica, enquanto entre 15 e 20°C o cére- bro humano pode tolerar aproximadamente 60 minutos de isquemia. A essa temperatura, o consumo de O2 é de aproximadamente um décimo do valor da normotermia, permitindo que o cérebro possa tolerar, sem lesão, um tempo maior de isquemia. Diminuição leve na tempera- tura cerebral tem sido referida para reduzir significati- vamente a mortalidade e o déficit neurológico. Investi- gações preliminares referem que a hipotermia leve pode reduzir a PIC, melhorando os resultados neurológicos em pacientes com TCE grave. A indução e a retirada da hipo- termia é lenta. Não existem evidências de aumento de arritmia cardíaca, coagulopatia ou complicações pulmo- nares em pacientes submetidos à hipotermia leve. Anticonvulsivantes A epilepsia pós-traumática ocorre em cerca de 5% de todos os doentes admitidos no hospital com trauma- tismos cranioencefálicos fechados e em 15% daqueles com traumatismos cranioencefálicos graves. Três fa- tores principais estão ligados à alta incidência de epilepsia tardia: (1) convulsões que ocorrem durante a primeira semana, (2) hematoma intracraniano, ou (3) fratura com afundamento de crânio. Um estudo duplo cego identificou que a fenitoína reduziu a incidência de convulsões na primeira semana após o trauma, mas não após este período. Atualmente a fenitoína ou fos- fenitoína são os agentes habitualmente empregados na fase aguda. A dose de ataque habitual para adultos é 1 g administrado por via endovenosa com velocidade não superior a 50 mg/minuto. A dose de manutenção habi- tual é 100 mg/8 horas, com titulação da dose para obter níveis séricos terapêuticos. O diazepam ou lorazepam são usados além de fenitoína em doentes com convul- sões prolongadas,até a parada da convulsão. O controle de convulsões contínuas pode exigir anestesia geral. É imperativo que a convulsão seja controlada tão logo que possível porque convulsões prolongadas (30 a 60 minu- tos) provavelmente causam lesão cerebral secundária. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 2015118 • O doente não apresenta nenhum dos critérios para internação • Discutir a necessidade de retorno caso apareça qualquer problema e entregue um protocolo de instruções • Marque um retorno ao ambulatório • Não há disponibilidade de tomógrafo • TC com alteração • Todos os traumatismos cranioencefálicos penetrantes • História de perda prolongada de consciência • Piora do nivel de consciência • Cefaleia moderada para grave • Intoxicação significativa por álcool/drogas • Fratura de crânio • Perda de LCR: rinorreia ou otorreia • Traumatismos significativos associados • Falta de acompanhante confiável em casa • Escore GCS anormal (<15) • Défices neurológicos focais Observar ou internar no hospital Alta do Hospital A realização de TC de crânio é indicada caso existam critérios de risco moderado ou alto para intervenção neurocirúrgica Níveis sanguíneos de álcool e perfil toxocológico da urina Radiografia de coluna cervical e outras conforme indicação Definição: O doente encontra-se acordado e pode estar orientado (GCS 13-15) Exame neurológico sumário Exame geral para excluir lesões sistêmicas • Nome, idade, sexo, raça, ocupação • Mecanismo de trauma • Hora da ocorrência do trauma • Perda de consciência imediatamente após o trauma • Nível subsequente de consciência • Amnésia: retrógrada, anterógrada • Cefaleia: leve, moderada, grave História Figura 9.6 Algoritmo para o tratamento do trauma cranioencefálico leve. • Alta quando adequado • Segmento ambulatorial • Se o doente não obedece ordens simples, repita a TC e trate de acordo com o protocolo de trauma cranioencefálico grave Se o doente melhora (90%) Se o doente piora (10%) Definição: Escore GCS 9-12 Exame inicial • O mesmo que para trauma craniencefálico leve, mais exames rotineiros de sangue • A TC de crânio é realizada em todos os casos • Admitir em hospital que dispõem de tratamento neurocirúrgico definitivo Depois da internação • Avaliações neurológicas frequentes • Seguimento com TC se as condições piorarem ou preferivelmente antes da alta Figura 9.7 Algoritmo para o tratamento do trauma cranioencefálico moderado. De�nição: O doente não é capaz de obedecer ordens simples por alteração da consciência (escore GCS 3-8) Exame inicial • ABCDEs • Avaliação primária e reanimação • Avaliação secundária e história AMPLA • Admissão em hospital que dispõe de tratamento neurocirúrgico de�nitivo • Reação pupilar à luz • Agentes terapêuticos (habitualmente administrados após consulta ao neurocirurgião) Manitol Hiperventilação moderada (PCO2 = 35 mmHg) Anticonvulsivantes • Reavaliação neurológica: GCS Abertura ocular Resposta motora Resposta verbal TC Figura 9.8 Algoritmo para o tratamento do trauma cranioencefálico grave. 9 Trauma cranioencefálico (TCE) 119 ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA Capítulo 2 Capítulo 10 ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA 10 Trauma raquimedular (TRM) 121 Incidência Nos EUA, 10.000 casos/ano com prevalência de 191.000 casos, 80 em 100.000 hab. têm défi cits parciais por TRM e 20 em 100.000 hab. têm défi cits completos. O SUS, em 2004, para o diagnóstico de fraturas de colu- na vertebral registrou 15.700 internações, 505 óbitos, 1 óbito para 300.000 hab./ano (faixa etária: 16 a 35 anos). Cerca de 50% por acidentes de veículos, 20% queda e 30% (FAF, acidente de trabalho, esporte), sendo o princi- pal nível o cervical (55%), restante 45% (torácico, toraco- lombar e lombosacral). O C2 é o nível mais frequente, principalmente em idoso, seguido pelo C5 e C6. Considerações gerais O cirurgião na maioria das vezes é quem avalia ini- cialmente a coluna cervical, o dorso do politraumatizado e a condição da estabilidade da coluna vertebral para reti- rada do colar cervical e da prancha rígida na sala de emer- gência. Portanto, necessita de conhecimentos anatômicos da coluna vertebral e de exame neurológico tanto quanto o neurocirurgião. São 24 vértebras pré-sacrais, sendo que cinco fundidas formam o sacro e quatro o cóccix. No sen- tido crânio caudal as vértebras suportam mais peso e são progressivamente maiores. Existem 4 curvaturas sagitais, sendo duas torácica e sacral, que são côncavas e primárias, (presentes desde o nascimento), e duas curvaturas, cervi- cal e lombar, que são convexas. A cifose e a lordose são fi - siológicas e a escoliose pode ser apenas funcional. Para se poder identifi car o nível de lesões neu- rológicas no TRM é necessário conhecer pelo me- nos dois grandes tratos ou sistemas: somestésico e o piramidal. O sistema piramidal, ou trato motor, é a principal grande via eferente do SNC. Inicia-se na área 4 de Broca, giro pré-central, representado em corte sagital pelo homúnculo de Penfi eld, que mostra a distribuição somatotópica do córtex motor para cada região do corpo. As fi bras axonais formam a coroa radiata, passam pelo joelho e perna posterior da cápsula interna, porção an- terior do mesencéfalo (pedúnculo cerebral). Na ponte o trato assume forma piramidal, que dá nome à via, e na transição bulbomedular decussa 90% das fi bras e consti- tui o trato corticoespinal lateral. Na porção anterolateral do funículo lateral, o restante das fi bras seguem ipsilate- rais e formam o trato corticoespinal anterior. Entretanto antes de realizar sinapse com o motoneurônio medular, cruza para o outro lado no nível da raiz espinal. Outro sistema a ser conhecido para identifi car lesão neurológica é o somestésico, que na verdade se constitui de três tratos: um com receptores responsáveis pela sensação de dor e temperatura – testado pelo examinador com ob- jeto de superfície pontiaguda, que possui o primeiro neu- rônio no gânglio espinal, entra pela raiz dorsal, faz sinapse com neurônio do corno posterior, cruza para hemimedula contralateral e ascende no funículo lateral como trato espi- notalâmico lateral, fazendo sinapse no núcleo VPL talâmi- co e se distribuindo no córtex somestésico, área 3, 2, 1 de Broca, ou giro pós-central. Outro trato se inicia com recep- tores para tato protopático e pressão, que é geralmente o mais testado pelo médico em geral, com primeiro neurônio no gânglio espinal, entra pela raiz dorsal, faz sinapse com neurônio do corno posterior, cruza para hemimedula con- tralateral e ascende no funículo anterior como trato espi- notalâmico anterior, fazendo sinapse no VPL talâmico e se distribuindo no córtex somestésico. Diferente dos dois tra- tos anteriores próximos entre si, a sensibilidade para tato epicrítico e propriocepção, que são testados com objetos na mão ou pés para se defi nir nome e textura e com mudança na posição de dedos das mãos ou pés em relação ao espaço, o trato tem o primeiro neurônio em gânglio, entra no corno posterior da medula sem sinapse e ascende ipsolateral pelo funículo posterior no trato grácil para fi bras membros infe- riores e cuneiforme para membros superiores, até no bulbo. Quando fazem conexão nesses núcleos migram ventral- mente e cruzam para outra hemimedula, fazendo conexões em VPL e córtex. O que justifi ca em lesões em hemimedula a perda das sensibilidades dolorosa e térmica contralateral à lesão e tato epicrítico e propriocepção ipsilateral à lesão. Em resumo, com relação às vias aferentes: em lesões mais anteriores e laterais ocorrem perdas das sen- sibilidades dolorosa, térmica e de pressão e tato grosseiro; nas lesões mais posteriores à alteração ocorre na perda de reconhecimento da posição dos dedos no espaço (proprio- cepção). Outro dado anatômico importante é que existe também uma estratifi cação na posiçãodas fi bras motoras, nas quais a porção mais lateral se relaciona com as fi bras dos membros inferiores, tronco e membros superiores mais medial. Assim, a apresentação de lesões extrínsecas, como é a maioria das lesões em TRM, o défi cit se inicia primeiramente em membros inferiores e depois se apre- senta em membros superiores. Défi cits iniciais apenas em membros inferiores não excluem lesões cervicais. Epidemiologia Dados do Instituto de Ortopedia e Traumato- logia do Hospital das Clínicas da USP mostram que 94,3% dos casos atendidos eram do sexo masculino, com a faixa etária predominante variando de 21 a 30 anos. Consi dera-se bastante próximo do real um nú- mero entre 50 e 70 novos casos de vítimas de TRM por ano, para cada milhão de habitantes. Com os atuais avanços do tratamento das com- plicações decorrentes do TRM e, portanto, da sobrevi- da dos traumatizados, a prevalência vem aumentando a cada década. Os números variam de 900 a 1.200 se- quelados pós-TRM para cada 1 milhão de habitantes. Ainda, de acordo com Spósito, houve predomínio das lesões medulares completas em 75% dos casos, es- tando a paraplegia presente em 40% dos casos. Clínica cirúrgica | Politrauma SJT Residência Médica - 2015122 Quanto aos níveis de lesão, a região cervical predomina em cerca de 45 a 60%, a região toraco- lombar encontra-se presente em 25 a 35% dos casos, a região lombar está acometida em cerca de 15 a 20%, e a região sacrococcígea é atingida em 4 a 6% das vezes. Síndromes medulares Quanto ao grau de lesão, é completo se não hou- ver evidência de preservação de qualquer função mo- tora ou sensitiva abaixo da lesão e incompleta se exis- tir amplo espectro de disfunções neurológicas, mesmo que preservação sensitiva até apenas nos dermátomos sacrais. As classificações são usadas para facilitar a comunicação entre cirurgiões, como a classificação de Frankel, na qual: A (perda completa das funções motora e sensitiva abaixo da lesão), B (percepção sen- sitiva residual, paralisia motora completa), C (função motora residual, mas insuficiente), D (função motora útil, mas subnormal) e E (normal). O choque medular ou espinal ocorre por tra- ção das fibras na medula espinal e se relaciona à fase aguda do TRM, sendo caracterizado pela perda total da função motora no momento do traumatismo e acom- panhado por abolição completa de todas as formas de sensibilidade e de toda atividade reflexa abaixo do ní- vel da lesão. Evolui com postura flácida, diminuição de reflexos, priapismo, alteração da frequência respirató- ria, atonia gástrica, retenção urinária e fecal que tra- duz perda do controle da função neurovegetativa. Já o choque neurogênico ocorre por disfunção neuro- vegetativa por lesão das vias descendentes do sistema simpático na medula cervical, acarretando perda do tônus vasomotor com consequente vasodilatação e hi- potensão arterial, além de venodilatação e bradicardia ou perda da resposta com taquicardia à hipovolemia. Em algumas situações de TRM o exame neuro- lógico não tem déficit completo e o achado ajuda a entender a biomecânica do trauma e sua localiza- ção neurológica: na paralisia cruzada de Bell secundá- ria à fratura de C2 (fratura no processo odontoide com retropulsão sobre a medula) ocorre a perda ou redução da força muscular nos membros superiores com relativa preservação nos membros inferiores; existe lesão das fi- bras do trato corticoespinal na decussação das pirâmides. Síndrome medular central: é uma lesão por hiperextensão aguda, geralmente com estenose de canal raqueano preexistente (idoso). A hiperextensão traciona a região central que é zona de vascularização limítrofe, ocorrendo lesão isquêmica central. O pa- ciente apresenta déficit motor desproporcionalmen- te maior nas extremidades superiores, pois acomete mais as fibras dos MMSS, associada à perda da sensi- bilidade superficial e da propriocepção. Síndrome medular anterior: ocorre lesão por hiperflexão e carga axial, havendo infarto no territó- rio da artéria espinal anterior por fragmento ósseo ou disco herniado traumático e evoluindo com déficit motor e perda da sensibilidade térmica e dolorosa com preservação da propriocepção, sensibilidade vibrató- ria e tátil descriminativa. Síndrome de Brown-Séquard: é a hemissecção de uma hemimedula espinal mais comum em lesões traumáticas da coluna cervical e que na maioria das vezes é consequência de trauma penetrante, podendo ocorrer por compressão epidural. No exame haverá perda de força motora e da propriocepção consciente ipsolateral à lesão e perda de sensibilidade à dor e tér- mica contralateral à lesão. Síndrome do cone medular: o cone medular ocupa a região entre T11 e L2, sendo zona de transi- ção toracolombar mais susceptível a TRM. Ocorre pa- ralisia de extremidades inferiores, retenção urinária e atonia esfíncter anal, mas com variação na alteração motora em termos de grau e padrão de reflexos. Síndrome da cauda equina: em geral é associa- da à fratura abaixo de L2, acomete uma ou várias raí- zes e provoca paralisia assimétrica. O déficit sensitivo pode ser unilateral e assimétrico, em geral com perda do controle vesical. Síndromes neurológicas no trauma medular Síndrome cervicobulbar Sinais de comprometimento de tronco Encontrada em lesões cervicais altas Síndrome centromedular Paresia de membros superiores mais acentuada do que em membros inferiores Compressão anteroposterior da medula cervical em lesões por extensão Síndrome medular anterior Lesão motora com preservação da sensibilidade táctil e propriocepção Compressão medular anterior, lesão da artéria espinal anterior Síndrome medular posterior Rara Preservação do trato espinotalâmico Déficit de propriocepção Síndrome de Brown- Séquard Hemissecção medular Déficit motor e de propriocepção ipsilateral e de sensibilidade dolorosa e térmica contralateral Síndrome do cone medular Fraturas da transição toracolombar Bexiga neurogênica e incontinência fecal, associadas a graus diversos de lesão motora e sensitiva Síndrome da cauda equina Fraturas lombares Paraparesia, anestesia em sela, distúrbios esfincterianos Tabela 10.1 Atenção! 10 Trauma raquimedular (TRM) 123 Gravidade das lesões medulares Grau A Completa Ausência de qualquer atividade motora voluntária e de sensibilidade Grau B Incompleta Presença apenas de sensibilidade Grau C Incompleta Presença de atividade motora voluntária, mas com força motora menor que III Grau D Incompleta Presença de atividade motora voluntária, com força motora maior ou igual a III Grau E Normal Exame neurológico normal Tabela 10.2 Atendimento ao paciente O atendimento ao politraumatizado sempre deve se iniciar com a sinalização do local quando a cena não é segura, para diminuir o risco evidente para a vítima e equipe de socorro. O atendimento ao trauma raquimedu- lar se inicia no atendimento pré-hospitalar com o alinha- mento da coluna cervical e dorso, seguida da imobiliza- ção da coluna vertebral com: estabilização manual, colar cervical rígido, prancha longa com 3 tirantes e imobili- zadores laterais. Existem situações especiais como, por exemplo, em crianças abaixo de 7 anos que possuem a cabeça proporcionalmente maior que o corpo e necessi- tam de coxim desde o quadril até extremidade superior do tronco para que a coluna permaneça em posição neu- tra; quando o paciente está sentado preso nas ferragens, ele necessita do sistema KED (Kendrick extrication device) para imobilização cervical e toracolombar com o pacien- te sentado. Existem situações de necessidade de retirada rápida do local do acidente: como em risco iminente de vida, quando a cena do acidente não é segura ou necessi- dade de remoção rápida para acesso a outro paciente mais grave. Nessas situações deve-se imobilizar o paciente em no mínimo quatro pessoas para transporte adequado. Todo paciente politraumatizado deve ser sub- metido ao raio X de coluna cervical simples em AP e perfi