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manual de bolso fundamentos em medicina de urgência | 2015 | associação de cuidados intermédios médicos ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 1 | 155! ! | Manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 2 | 155! INDICE LEITURA DE ECG ! Catarina Gomes . . . . . . . . . . . . . !.!3 pag. DOR TORÁCICA ! Alexandre Pinto . . . . . . . . . . . . . !.!!9 pag. SÍNDROME CORONÁRIA AGUDA !! Catarina Gomes . . . . . . . . . . . . . !13 pag. FIBRILHAÇÃO AURICULAR !! Catarina Gomes . . . . . . . . . . . . . !18 pag. EDEMA AGUDO DO PULMÃO !! Alexandre Pinto . . . . . . . . . . . . . !!21 pag. TROMBOEMBOLISMO PULMONAR !! Alexandre Pinto . . . . . . . . . . . . . !!23 pag. HIPERGLICEMIA ! Marta Almeida . . . . . . . . . . . . . !!!26 pag. HIPERCALCÉMIA ! Marta Almeida . . . . . . . . . . . . . !!!32 pag. HIPOCALCÉMIA ! Marta Almeida. . . . . . . . . . . . . !!!!35 pag. HIPONATREMIA! Arlindo Guimas . . . . . . . . . . . . . !!38 pag. ANEMIA! Luísa Regadas . . . . . . . . . . . . . !!45 pag. TROMBOCITOPENIA & DISF. PLAQUETÁRIA !! Luísa Regadas . . . . . . . . . . . !.!!!.!!!!49 pag. INSUFICIÊNCIA HEPÁTICA E COAGULOPATIA ! Graziela Carvalheiras . . . . . . . . . . . !53 pag. HIPOCOAGULAÇÃO ORAL ! Luísa Regadas . . . . . . . . . . . . . !!!57 pag. HEMORRAGIA DIGESTIVA ALTA ! Diana Valadares . . . . . . . . . . . . . !63 pag. ENCEFALOPATIA HEPÁTICA! Diana Valadares . . . . . . . . . . . . . !68 pag. PERITONITE BACTERIANA ESPONTÂNEA! Diana Valadares . . . . . . . . . . . . . !71 pag. DIARREIA AGUDA INFECÇIOSA NO ADULTO! Filipe Nery . . . . . . . . . . . . . !.!!!.!!!73 pag. PANCREATITE AGUDA! Filipe Nery . . . . . . . . . . . . . . !.!!!76 pag. INFECÇÃO PELO VIH! Graziela Carvalheiras . . . . . . . . . . . !!!78 pag. SÉPSIS, SÉPSIS GRAVE E CHOQUE SÉPTICO Graziela Carvalheiras . . . . . . . . . . . !!!88 pag. NEUTROPENIA Graziela Carvalheiras . . . . . . . . . . . !!!95 pag. FEBRE NO VIAJANTE REGRESSADO Sandra Xará . . . . . . . . . . . !!.!!!.!!!.!!!!99 pag. INFECÇÕES DA PELE E TECIDOS MOLES Sandra Xará . . . . . . . . . . . !!.!!!.!!!.!!104 pag. CEFALEIAS AGUDAS Rui Felgueiras . . . . . . . . . . . !!.!!!.!!!107 pag. SINTOMAS E SINAIS NEUROLÓGICOS AGUDOS Rui Felgueiras . . . . . . . . . . . !!.!!!.!!!110 pag. COMA E ALTERAÇÕES DA CONSCIÊNCIA Arlindo Guimas . . . . . . . . . . . . !!.!!116 pag. CRISE CONVULSIVA Arlindo Guimas . . . . . . . . . . . !!.!!!.!!119 pag. LESÃO RENAL AGUDA Joana Ramalho . . . . . . . . . . . !!.!!!.!!121 pag. DOENÇA RENAL CRÓNICA Maria João Rocha . . . . . . . . . . . !!.!!125 pag. DOENTE TRANSPLANTADO RENAL Maria João Rocha . . . . . . . . . . . !!.!!!128 pag DIFICULDADE RESPIRATÓRIA AGUDA Pedro Vita . . . . . . . . . . . . . . . !132 pag! EXARCEBAÇÃO DPOC Ana Rego . . . . . . . . . . . . . . . 134 pag! PNEUMOTÓRAX Ana Rego . . . . . . . . . . . !!.!!!.!!!.!!!.!140 pag! PNEUMONIA E DERRAME PLEURAL Pedro Vita . . . . . . . . . . . . . . . 146 pag! ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 3 | 155! ! LEITURA DE ECG Catarina Gomes O electrocardiograma (ECG), com mais de 100 anos de história, desafia o tempo e mantém-se um dos instrumentos mais usados e importantes da cardiologia moderna, permitindo obter informações essenciais para o diagnóstico e tratamento de múltiplas patologias. Contudo, obter essas informações num traçado de ECG pode não ser fácil mas, em contexto de urgência, é necessário simplificar. Por isso, é de considerar uma leitura sistemática e rápida dos seguintes aspectos: Ritmo ! Frequência ! Condução auriculoventricular (AV) e intraventricular (IV) ! Segmento ST e onda T. Em primeiro lugar, é necessário não esquecer de confirmar o nome do doente e a data de realização do exame, as condições técnicas (colocação correcta dos eléctrodos) e a calibração (25mm/seg; 10mm/mv). 1 - Ritmo: O termo “arritmia” é muito abrangente e refere-se a todos os ritmos que não o sinusal. Para considerar que o ritmo é sinusal, ou seja, que o estímulo parte do nó sinoauricular, é necessário que todos os complexos QRS sejam precedidos de ondas P e que estas sejam positivas em DII, DIII e aVF e negativas em aVR. Figura 1 – Ritmo sinusal a) Arritmias supraventriculares mais frequentes em contexto de urgência Fibri lhação auricular (FA) ! Intervalos RR completamente irregulares. ! Ausência de ondas P distintas - pode ser observada actividade eléctrica auricular (ondas “f”) em algumas derivações do ECG (especialmente na derivação V1), sendo que o intervalo entre duas activações auriculares é habitualmente variável e < 200ms (> 300 batimentos por minuto). ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 4 | 155! Figura 2 – FA com frequência ventricular controlada Flutter auricular (FlA) $ Os intervalos RR podem ser regulares. $ Ausência de ondas P – ondas “F” à frequência de aproximadamente 300bpm (“em dente de serra”). $ A frequência ventricular é variável de acordo com o grau de bloqueio AV (mais frequente: bloqueio AV 2:1 – frequência ventricular 150bpm). Figura 3 – FlA com frequência ventricular controlada (Bloqueio AV 4:1) b) Arritmias ventriculares a reconhecer em contexto de urgência Taquicardia ventr icular (TV) - Três ou mais extrassístoles ventriculares consecutivas a uma frequência > 100bpm. Considera-se não sustentada se a duração é < 30s e sustentada se > 30s (ou causar instabilidade hemodinâmica). - Classificação morfológica: Monomórfica – Regular; QRS ≥ 0,12s e todos com a mesma morfologia; Polimórfica – QRS ≥ 0,12s de morfologia variável. Figura 4 – TV monomórfica ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos| ACIM | . . . . . . . . . . 5 | 155! Figura 5 – TV polimórfica Fibri lhação ventricular (FV) $ Actividade eléctrica caótica e irregular, que traduz uma actividade ventricular desorganizada e ineficaz. Figura 6 – FV 2 – Frequência " Bradicardia: < 60 bpm " Taquicardia: ≥ 100 bpm Cálculo da frequência cardíaca: Ritmos Regulares RÉGUA DE FREQUÊNCIAS: " nem sempre acessível; " incorrecta para ritmos irregulares. REGRA DOS “1500”: " 1500 / “nº quadrados pequenos” (0.04s - 1mm) REGRA DOS “300”: " 300 / “nº quadrados grandes” (0.2s - 5mm) Ritmos Irregulares " nº QRS em 6s x 10 ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 6 | 155! 3 - Condução AV e IV a) Bloqueios auriculoventriculares (BAV) Os BAV são distúrbios da condução do impulso eléctrico que ocorrem a qualquer nível do sistema de condução AV. Traduzem-se por um atraso ou por uma falha intermitente ou completa da condução. Bloqueio AV 1º grau $ Intervalo PR > 0,20s (Normal: 0,12 – 0,20 s). $ Todas as ondas P são conduzidas para o ventrículo. Figura 7 – BAV 1º grau Bloqueio AV 2º grau Mobitz I (Wenckebach) $ Intervalo PR progressivamente maior (por pequenos incrementos), até que uma onda P não é conduzida. Figura 8 – BAV 2º grau Mobitz I Bloqueio AV 2º grau Mobitz II – Intervalo PR é constante até que uma onda P não é conduzida. Figura 9 – BAV 2º grau Mobitz II Bloqueio AV 3º grau – Bloqueio completo da condução AV: as aurículas e os ventrículos são despolarizados independentemente, sem relação entre as ondas P e os complexos QRS. A actividade auricular é mais rápida que a ventricular. Figura 10 – BAV 3º grau ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 7 | 155! b) Bloqueios IV de relevo na urgência Bloqueio completo de ramo direito (BCRD) – QRS ≥ 0,12s (se > 0,10 e < 0,12s – bloqueio incompleto, actualmente designado como perturbação da condução intraventricular direita). – Onda R’ terminal em V1 e V2 (complexo QRS em forma de “M”). – Onda S “alargada” em DI, aVL, V5 e V6. Figura 11 – BCRD Bloqueio completo de ramo esquerdo (BCRE) – QRS ≥ 0,12s (se > 0,10 e < 0,12s – bloqueio incompleto, actualmente designado como perturbação da condução intraventricular esquerda). – Onda S dominante em V1 e onda R “larga”, entalhada ou monofásica, em DI, AVL, V5 e V6. – Ausência de ondas Q em DI, V5 e V6. Figura 12 – BCRE 4 - Segmento ST e onda T A análise do segmento ST e da onda T é primordial em contexto de urgência, dado fornecer informações valiosas sobre isquemia miocárdica. Contudo, é necessário não esquecer que outras patologias podem provocar alterações de ST-T, devendo ser consideradas no diagnóstico diferencial (exemplo: pericardite, miocardite, embolia pulmonar, hemorragia intracraniana, distúrbios hidroelectroliticos, hipotermia). ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 8 | 155! Supradesnivelamento do segmento ST Supradesnivelamento “de novo” do segmento ST no ponto J > 0,1mV, em ≥ 2 derivações contíguas (em V2-V3 tem de ser ≥ 2mm nos homens e ≥ 1,5mm nas mulheres) Infradesnivelamento do segmento ST e alteração da onda T Infradesnivelamento horizontal ou em rampa descendente, “de novo”, do segmento ST, ≥ 0,05 mV em ≥ 2 derivações contíguas OU Inversão da onda T ≥ 0,1 mV em ≥ 2 derivações contíguas, com onda R proeminente ou ratio R/S > 1 Tabela 1 – Manifestações no ECG de isquemia miocárdica aguda (na ausência de BCRE) Na suspeita de enfarte agudo do miocárdio posterior (infradesnivelamento do segmento ST V1-V3 e R >> S nas derivações precordiais direitas), devem ser efectuadas as derivações posteriores (5º espaço intercostal): V7 (linha axilar posterior esquerda); V8 (linha médio-escapular esquerda) e V9 (bordo paravertebral esquerdo). O critério diagnóstico é um supradesnivelamento do segmento ST ≥ 0,1mV. Na suspeita de enfarte do ventrículo direito, as derivações precordiais direitas devem ser realizadas: V3R e V4R. O critério diagnóstico é um supradesnivelamento do segmento ST ≥ 0,05mV. Figura 13 – Supradesnivelamento do segmento ST Figura 14 – Infradesnivelamento do segmento ST ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 9 | 155! DOR TORÁCICA Alexandre Pinto Introdução A dor torácica (DT) é uma das queixas mais frequentes que motiva admissões nos Serviços de Urgência (SU). A avaliação clínica é fundamental, devendo o clínico responder ás questões de elevada prioridade, mesmo na ausência do diagnóstico definitivo. São elas: Existe compromisso circulatório e/ou respiratório? Em caso de estabilidade clínica, qual o risco de presença de condição ameaçadora de vida, como síndrome coronário agudo, embolia pulmonar e dissecção da aorta? Na presença de baixo risco para condição ameaçadora de vida, é seguro alta hospitalar do SU e re-avaliação em ambulatório ou é preferível manutenção no SU para nova avaliação da evolução e/ou realização de outros exames auxiliares de diagnóstico? Estima-se que 15 a 25% dos doentes com DT têm síndrome coronário agudo ( SCA), e que o diagnóstico é perdido em cerca de 2% dos doentes com alta hospitalar. É um dos sintomas mais frequentes no Tromboembolismo Pulmonar, que na ausência de tratamento conduz a morbilidade e mortalidade elevadas, sendo responsável por 5 a 10% das mortes intra-hospitalares. É o sintoma cardinal da Dissecção da Aorta Torácica (DAoT) cuja mortalidade esperada é de 75% em 2 semanas, caso não seja atempadamente diagnosticada. A DT encontra-se também presente em contextos de natureza cardiogénica e não cardiogénica, com carácter não dominante em termos de manifestação semiológica, que quando não são também diagnosticados de forma célere originam potencial mortalidade. São exemplo: o pneumotórax hipertensivo, a ruptura esofágica e o tamponamento cardíaco. Avaliação da Dor Torácica A natureza complexa da dor torácica exige uma abordagem organizada e estruturada de forma a que todas as causas equacionadas sejam devidamente avaliadas (Tabela 1). A história clínica e o exame objectivo são fundamentais para o diagnóstico. A informação necessária para o desenho dos diagnósticos diferenciais é obtida após integração dos dados da anamnese, exame físico e electrocardiograma em 80 a 90% dos doentes. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 10 | 155! DOMÍNIO PERGUNTAS A CONSIDERAR Início Súbito ou Gradual? Intensidade máxima no Início? Localização Generalizada ou Localizada? Localizar com a ponta do dedo Duração Quando teve início? É constante ou intermitente? Se intermitente, existe algum precipitante ou é aleatório Carácter Aperto? Pressão? Dilacerante? Moedeira? Ardor ?Sintomas Associados Síncope? Diaforese? Dispneia? Náusea e/ou Vómito? Palpitações? Alívio \ Agravamento Posição? Eructação? Esforço? Inspiração profunda? Tosse? Irradiação Dorso? Maxilar? Garganta? Braço? Pescoço? Abdómen? Tabela 1 – Adaptado de Dargin JM, Huang DT. Chest Pain. Textbook of Critical Care, 6th Edition ETIOLOGIAS AMEAÇADORAS DE VIDA ETIOLOGIAS NÃO AMEAÇADORAS DE VIDA Enfarte agudo do miocárdio Refluxo gastroesofágico Angina instável Doença ulcerosa péptica Embolia pulmonar Pneumonia Dissecção da aorta Costocondrite Miocardite Dor musculoesquelética Ruptura esofágica Distúrbios da ansiedade Tabela 2 - Diagnósticos diferenciais de dor torácica NÃO MODIFICÁVEIS MODIFICÁVEIS Idade Tabagismo Género masculino Diabetes mellitus História familiar de doença coronária prematura ou doença cerebrovascular ( masculino < 55 anos / feminino <65 ) Hipercolesterolémia Raça Hipertensão arterial Obesidade Sedentarismo Uso de drogas ilícitas ( cocaína / metanfetaminas ) OUTROS FACTORES Hiperhomocistinémia Hiperfibrinogenémia Lipoproteína (a) elevada Lupus HIV Stress Tabela 3 - Factores de risco associados a síndrome coronário agudo ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 11 | 155! Algoritmo para abordagem do doente com Dor Torácica Dor Torácica ABCD \ Considerar as condições: o Síndrome Coronário Agudo o TEP de risco elevado de mortalidade o Dissecção Ao Torácica o Tamponamento Cardíaco o Pneumonia o Ruptura Esofágica ECG 12 derivações | RX tórax ECG Diagnóstico ou Sugestivo Avaliar Risco para SCA Doseamento MNM Elevação localizada seg ST (e baixa probabil idade para dissecção Ao) ou BCRE de novo o SCA c/SST Infra ST e/ou inv T o SCA s/SST [ MNM+s e Hx concordante SCA ] o Possível Angina Instável [ MNM-s e Hx concordante SCA ] Elevação di fusa seg ST ( concavidade superior ) o Pericardite Padrão S1Q3T3 ( McGinn -White ) o TEP Rx tórax Diagnóstico ou Sugestivo Área hiperlucente entre o parênquima pulmonar e a parede torácica o Pneumotórax Alargamento do Mediastino > angioTAC o Dissecção Ao Torácica o Ruptura Esofágica Infi l trado(s) / Consolidação(ões) o Pneumonia [se clínica e análises concordantes] SE: Hx concordante com SCA e MNM+s o SCA s/SST Hx concordante com SCA e MNM-s o Possível Angina Instável Hx Não concordante com SCA e MNM+s o SCA s/SST o TEP o Pericardite / Miocardite o Trauma o Insuficiência Renal o Insuficiêcia Cardíaca Aguda / EAP Hx Não concordante com SCA e MNM-s o Considerar Diagnóstico alternativo Avaliar Risco para Embolismo Pulmonar (tabela 4 – ver capitulo TEP) Avaliar Risco para Dissecção Ao Torácica (tabela 5) Não Sim Sim ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 12 | 155! TROMBOFILIA HEREDITÁRIA CONDIÇÕES ADQUIRIDAS Níveis elevados factores da coagulação ( VIII, IX, XI ) Idade Mutação factor V Leidein Síndrome antifosfolipídeo Hiperhomocistinémia História de TVP Deficiência prot C, S e antitrombina III Síndromes de Hiperviscosidade [ MM \ Macroglobulinémia de Waldenstrom] Mutação do gene protrombina Imobilização Neoplasia Morbilidades - ICC / Obesidade / Sindrome nefrótico / Tabagismo / Doença Inflamatória Intestinal CVC Hormonoterapia \ Contraceptivos orais Gravidez Cirurgia Trauma Viagem de longo curso Tabela 4 - Factores de risco associados a embolia pulmonar HEREDITÁRIOS ADQUIRIDOS Síndrome de Marfan Gravidez Síndrome de Ehlers-Danlos Sífilis Ectasia anuloaórtica Cateterização cardíaca Doença renal poliquística Cocaína Síndrome de Turner Hipertensão arterial Válvula aórtica bicúspide Substituição da válvula aórtica Coartação da aorta Trauma Tabela 5 - Factores risco para dissecção da aorta ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 13 | 155! ! SÍNDROME CORONÁRIA AGUDA Catarina Gomes Definição A Síndrome Coronária Aguda (SCA) é um diagnóstico inicial e provisório, que engloba um espectro de quadros clínicos, habitualmente resultantes de isquemia miocárdica aguda, tipicamente atribuível a ruptura de placa aterosclerótica “instável” e formação de trombo suboclusivo / oclusivo numa artéria coronária. Por outro lado, o diagnóstico de Enfarte Agudo do Miocárdio (EAM) implica a confirmação de necrose celular (elevação e descida subsequente de marcadores de necrose miocárdica no sangue) num contexto clínico consistente com isquemia aguda do miocárdio (sintomas de isquemia ou alterações “de novo” no ECG ou alterações “de novo” em testes de imagem). ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 14 | 155! Classif icação A classificação inicial da SCA é baseada no ECG: • SCA com elevação do segmento ST (SCAcEST) (inclui bloqueio completo de ramo esquerdo “de novo”) Elevação do segmento ST no ponto J >1mm em ≥ 2 derivações contíguas (em V2-V3 tem de ser ≥ 2mm nos homens e ≥ 1,5mm nas mulheres). Reflecte geralmente uma oclusão coronária total aguda. Como ocorre necrose miocárdica na maior parte dos casos, é habitualmente designado desde o início de enfarte agudo do miocárdio com elevação do segmento ST (EAMcEST), mesmo sem confirmação analítica. • SCA sem elevação do segmento ST (SCAsEST) Pode ocorrer necrose miocárdica (EAM sem elevação do segmento ST - EAMsEST) ou não (angina instável). O ECG pode ser normal ou pode apresentar infradesnivelamento do segmento ST ou inversão das ondas T. Figura 1 – O espectro da SCA O EAM apresenta ainda uma classificação fisiopatológica: • EAM tipo 1 – enfarte relacionado com mecanismo aterotrombótico. • EAM tipo 2 – enfarte secundário a isquemia prolongada, por aumento das necessidades e/ou diminuição do fornecimento de oxigénio ao miocárdio, designadamente: vasospasmo ou embolismo arterial coronário, arritmias, anemia ou hipoxemia grave, hipotensão. ECG Sem elevação ST Com elevação ST SCAsEST SCAcEST Marcadores de necrose Miocárdica - + Diagnóstico Final Angina instável EAMsEST EAMcEST Diagnóstico In icia l (dor sugestiva; contexto clínico; exame objectivo) SCA ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 15 | 155! • EAM tipo 3 – morte com sintomas que sugerem isquemia miocárdica e alterações isquémicas no ECG, mas em que a morte ocorre antes da obtenção de amostras de sangue para avaliação dos marcadoresde necrose miocárdica. • EAM tipo 4a – necrose miocárdica relacionada com intervenção coronária percutânea. • EAM tipo 4b – enfarte associado a trombose de stent intracoronário. • EAM tipo 5 – necrose miocárdica associada a cirurgia coronária. Apresentação Clínica O sintoma clássico é o desconforto retroesternal, frequentemente descrito como sensação de pressão, esmagamento ou dor, com irradiação para o pescoço, mandíbula ou braço esquerdo, intermitente (geralmente com duração de vários minutos) ou persistente. Esse desconforto pode ser acompanhado por diaforese, náuseas ou vómitos. Contudo, apresentações atípicas não são incomuns, especialmente em mulheres, doentes idosos, diabéticos ou com insuficiência renal crónica. Queixas atípicas incluem dor epigástrica, dor torácica de características pleuríticas, dispneia ou síncope. A ausência de dor torácica leva à sub-identificação e ao sub-tratamento da doença. Exames auxi l iares de diagnóstico ECG: O ECG de 12 derivações é a ferramenta de diagnóstico de primeira linha na suspeita de uma SCA e deve ser realizado no prazo de 10 minutos após o primeiro contacto médico. Permite fazer imediatamente a distinção mais importante para o início do tratamento: SCAsEST vs SCAcEST. É de realçar que um ECG normal não exclui a possibilidade de uma SCA. Marcadores de necrose miocárdica (MNM): As troponinas (I e T) desempenham um papel fundamental de diagnóstico e estratificação de risco, tornando possível a distinção entre EAMsEST vs angina instável. As troponinas são mais específicas e sensíveis do que as enzimas cardíacas tradicionais, como a creatina-quinase (CK) ou a sua isoenzima MB (CK-MB). Contudo, é importante lembrar que uma elevação dos MNM, por si só, não faz diagnóstico de SCA, dado a existência de múltiplas outras causas de elevação de MNM (por exemplo: insuficiência cardíaca; arritmias; embolia pulmonar; doença neurológica aguda, incluindo o acidente vascular cerebral; hipoxemia grave ou quadros sépticos). Tratamento O tratamento de todo o espectro das SCA é baseado nos seguintes grupos: anti-isquémicos (nitratos, beta- bloqueadores e antagonistas dos canais de cálcio); antiplaquetários (aspirina, clopidogrel, ticagrelor, prasugrel e inibidores GPIIb/IIIa); anticoagulantes (fondaparinux, heparinas, bivalirudina) e terapêutica de reperfusão (intervenção coronária percutânea - ICP, fibrinólise, revascularização cirúrgica). ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 16 | 155! Fluxograma de actuação na Urgência Terapêut ica de Reperfusão Urgente S índrome Coronár io Agudo com Elevação do Segmento ST Intervenção coronária percutânea primária (tratamento de escolha) No caso de ser utilizada a fibrinólise, atenção: 1 – O ticagrelor e o prasugrel não estão recomendados. 2 – Dose de carga de clopidogrel em doentes < 75 anos é de 300mg e > 75 anos é de 75mg. 3 – Contraindicações absolutas: Hemorragia intracraneana prévia; lesão vascular ou neoplasia cerebral conhecida; AVC isquémico nos últimos 3 meses; suspeita de dissecção da aorta; hemorragia interna activa; alergia conhecida ao agente fibrinolítico. Aspirina 300mg PO + Ticagrelor 180mg PO ou clopidogrel 600mg PO ou prasugrel 60 mg PO (O prasugrel está contraindicado em doentes com história prévia de AVC/AIT e não está recomendado em doentes > 75 anos ou peso < 60 Kg) + O2 se saturações < 95% Para alívio da dor: • Nitratos de acordo com perfil tensional (SL ou EV) • Opióides EV para dor refractária (morfina 3-5mg EV) Hospital com Laboratório de Hemodinâmica 24h Monitorização electrocardiográfica contínua + TA e saturações O2 + Acesso vascular venoso periférico Fibrinólise Impossibilidade de realização de ICP nos primeiros 120m após contacto médico ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 17 | 155! Síndrome Coronár io Agudo sem Elevação do Segmento ST Estudo invasivo urgente (<120min) Aspirina 300mg PO + Ticagrelor 180mg PO ou clopidogrel 300mg PO Fondaparinux 2.5mg SC (contra indicado em clearance creatinina < 30ml/min) ou enoxaparina 1mg/Kg 12/12h SC (se contra indicação para fondaparinux; ajustar dose de acordo com função renal) + O2 se saturações < 95% Para alívio da dor: • Nitratos de acordo com perfil tensional (SL ou EV) • Opióides EV para dor refractária (morfina 3-5mg EV) Monitorização electrocardiográfica contínua + TA e saturações O2 + Acesso vascular venoso periférico Estratificação de risco (Clínica; ECG; MNM; Ecocardiograma TT; scores de risco) Estudo invasivo precoce (24 a 72h) Estratégia médica / Estudo invasivo electivo ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 18 | 155! ! FIBRILHAÇÃO AURICULAR Catarina Gomes Introdução A fibrilhação auricular (FA) é a arritmia cardíaca mantida mais comum, ocorrendo em 1 a 2% da população geral. Apresenta consequências frequentes e graves, encontrando-se associada a um aumento da mortalidade, do acidente vascular cerebral (AVC) e a uma diminuição da qualidade de vida. As seguintes condições podem provocar ou facilitar a progressão da FA e devem ser tratadas adequadamente, quando possível (Quadro 1). Cardíacas Não Cardíacas Doença cardíaca isquémica Doença valvular Miocardiopatias Cardiopatias congénitas Insuficiência Cardíaca Idade avançada Hipertensão arterial Diabetes Mellitus Obesidade Doença renal crónica Hipertiroidismo Tromboembolismo pulmonar Doença pulmonar crónica obstrutiva Síndrome de apneia do sono Drogas Quadros infecciosos Distúrbios metabólicos Quadro 1 – Condições associadas à FA ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 19 | 155! Definição A FA é definida como uma arritmia cardíaca com as seguintes características: 1. Intervalos RR completamente irregulares 2. Ausência de ondas P distintas - pode ser observada actividade eléctrica auricular (ondas “f”) em algumas derivações do ECG (especialmente na derivação V1), sendo que o intervalo entre duas activações auriculares é habitualmente variável e < 200ms (> 300 batimentos por minuto). Figura 1 – FA com frequência ventricular controlada Classif icação Primeiro episódio diagnosticado de FA – qualquer doente que apresente FA pela primeira vez, independentemente da duração ou da presença de sintomas relacionados com a arritmia. FA paroxíst ica – autolimitada, terminando habitualmente até às 48h. FA persistente – episódio com duração > 7 dias ou com necessidade de ser terminado com cardioversão eléctrica ou química. FA persistente de longa duração – persistência da FA>1ano, até se decidiradoptar estratégia de controle de ritmo. FA permanente – quando o doente e o médico aceitam a presença da FA e é adoptada estratégia de controle de frequência cardíaca. Apresentação Clínica Assim como todas as arritmias, a apresentação clínica da FA é muito variável e os doentes podem estar assintomáticos, mesmo com frequências cardíacas elevadas. Os sintomas mais comuns incluem palpitações, dispneia ou tonturas. Menos frequentemente os doentes podem apresentar-se com manifestações mais graves, como dor precordial, edema agudo do pulmão (EAP) ou síncope. A FA é ainda diagnosticada muitas vezes em doentes com AVC. Diagnóstico e Avaliação inicial O diagnóstico de FA faz-se através da leitura do ECG de 12 derivações. Em contexto de urgência, a avaliação inicial deve incluir sempre a história clínica sucinta e o exame físico. Se, de acordo com essa avaliação, existir suspeita de uma patologia subjacente a provocar ou facilitar a FA (por exemplo: quadro infeccioso, síndrome coronária aguda – ver Quadro 1), os exames auxiliares de diagnóstico devem ser dirigidos a esclarecimento dessa patologia. Posteriormente (e fora do contexto da urgência), deverá ser realizado ecocardiograma transtorácico para avaliação de cardiopatia estrutural e estudo analítico com função renal, hepática e tiroidea. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 20 | 155! Tratamento O tratamento agudo da FA deve concentrar-se no alívio de sintomas (através do controle de ritmo ou da frequência cardíaca), na avaliação imediata da necessidade de hipocoagulação e no tratamento da doença aguda subjacente (se existir). A escolha da estratégia controle de ritmo vs controle de frequência em contexto agudo, depende do tempo de início da FA (cut off das 48 horas), dado que, quanto mais tempo o doente estiver em FA, maior a probabilidade da formação de trombos intracardíacos (mais frequentemente no apêndice auricular esquerdo). O tratamento a longo prazo exige que sejam equacionados quatro aspectos: controle de frequência cardíaca/ controle de ritmo, terapêutica antitrombótica para prevenção de eventos tromboembólicos (utilização dos scores de risco, nomeadamente CHA2DS2-VASc), estudo/tratamento de doenças subjacentes que facilitem o aparecimento/manutenção da FA e consequências da arritmia para o sistema cardiovascular. Fluxograma de actuação na Urgência F ibr ilhação aur icular: Primeiro episódio ou frequência ventricular > 100bpm Instabil idade hemodinâmica; Dor torácica pers istente; EAP Não (e doente não hipocoagulado) Sim Cardioversão (CV) eléctr ica: - Choque sincronizado, sob anestesia, 150J (bifásico) Cardioversão (CV) eléctr ica: - Choque sincronizado, sob anestesia, 150J (bifásico) Enoxaparina 1mg/Kg SC (se doente não hipocoagulado ou sem níveis terapêuticos INR) Cardioversão química: - Amiodarona 300mg EV (em 50 a 100cc de soro glicosado, a perfundir 1h) Enoxaparina 1mg/Kg SC Contro le de Frequência Cardíaca: Digoxina 0,5 a 1mg EV (usar em doentes com insuficiência cardíaca descompensada) ou Beta-bloqueadores (1 - Propranolol 1mg EV durante 1m; até 3 doses com 2m de intervalo cada. 2 – Metoprolol 2,5 a 5mg EV durante 2m; até 3 doses.) ou Antagonistas canais de cálcio (Verapamil 5mg EV durante 2m; se ausência de resposta após 30m, administrar novamente) Mantém FA (esperar 2 a 3h) Iníc io FA < 48h Sim Não ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 21 | 155! ! EDEMA AGUDO DO PULMÃO Alexandre Pinto Introdução A designação de Insuficiência Cardíaca Aguda (ICA) tenta reflectir a instalação aguda, ou a mudança aguda de sintomas e ou sinais de insuficiência cardíaca. É uma condição potencialmente ameaçadora de vida que exige imediata atenção e necessidade de admissão em ambiente hospitalar. O Edema Agudo do Pulmão (EAP) é um dos perfis clínicos da ICA, que tem como precipitante mais frequente a crise hipertensiva em cotexto de hipertensão arterial sistémica não controlada. Para além deste precipitante de deterioração rápida, devemos considerar outros precipitantes como enfarte agudo do miocárdio, taquidisritmia, infecção, incumprimento terapêutico, etc. Exames Auxil iares de Diagnóstico Hemograma Bioquímica - perfil renal, hepático, Prot C-reactiva, marcadores de necrose do miocárdio ( Trop T ou I, mioglobina, CK total e CK-mB ), ProBNP Estudo da coagulação ECG Rx de tórax Ecocardiograma Gasometria arterial Questões que devem ser levantadas na abordagem inicial no doente com ICA / EAP 1. Estamos na presença de IC ou existirá outra etiologia alternativa [ DPOC, anemia, IRC, embolia pulmonar ] para os sintomas e sinais que o doente apresenta; 2. Caso o doente tenha insuficiência cardíaca aguda/EAP, temos precipitante identificado? Exige intervenção urgente? 3. É a condição do doente ameaçadora de vida em termos de hipoxemia e hipotensão com hipoperfusão de órgãos vitais [coração, rim, cérebro]? ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 22 | 155! Algoritmo de abordagem do Edema Agudo do Pulmão Morfina EV 2-8mg EV Metoclopramida 10mg EAP Diurético de Ansa EV [ 2,5x dose PO ] + Algaliação Hipoxemia / Insuficiência respiratória Sim O2 se Hipoxemia CPAP se IR tipo 1 BiPAP se IR tipo 2 Agitação / Desconforto Não Sim Pressão Arterial Sistó lica Não PAs < 85mmHg ou Choque PAs 85 - 110mmHg PAs > 110mmHg Vasopressor +/- Inotrópico Re-Avaliar DNI 1-20mg/h Ausência de resposta ao tratamento REAVALIAÇÂO PAs < 85mmHg Sat O2 < 90% Débito Urinário < 20mL/h Não • Stop DNI • Stop Beta-bloqueador • Considerar inotrópico +/- vasopressor • Rever diagnóstico(s) • Iniciar inotrópico se disfunção sistólica VE documentada • O2 • Considerar VNI [CPAP ou BiPAP] • Considerar EOT e VMInv se indicado • Confirmar patência da sonda vesical • Aumentar título de diurético e/ou usar outro diurético (Bloqueio sequencial do nefrónio) • Ultrafiltração / Diálise se indicado Não Sim Sim Sim ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 23 | 155! ! TROMBOEMBOLISMO PULMONAR Alexandre Pinto Definição O tromboembolismo pulmonar (TEP) define-se como uma condição que resulta da migração de coágulo(s)/trombo(s) da circulação venosa sistémica, para a circulação pulmonar, com possível repercussão hemodinâmica e respiratória. É um sindrome potencialmente fatal, com espectro clínico que vai desde o choque obstrutivo com cor pulmonale agudo e falência do ventrículo direito resultante da perda da propriedade contráctil via mecanismo de Frank-Starling, face à dilatação aguda do VD perante o aumento abruptoda resistência vascular pulmonar, até à eventual cronicidade por insuficiência respiratória crónica, à luz da hipertensão pulmonar tromboembólica crónica, que se estima ter uma incidência cumulativa entre 0.1-9.1% nos primeiros dois anos após o evento sintomático de TEP. É a terceira doença cardiovascular mais comum, a seguir ao enfarte do miocárdio e ao enfarte cerebral. A taxa de mortalidade do TEP é superior ao do enfarte do miocárdio. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 24 | 155! Ferramentas para auxíl io de diagnóstico Critérios de Wells modif icados Sintomas de TVP 1 pt Tromboembolismo venoso prévio 1 pt Hemoptises 1 pt Pulso > 100 1 pt Neoplasia 1 pt Cirurgia recente ou imobilização 1 pt Outro diagnóstico menos provável que TEP 1 pt TEP provável ≥ 2pts Score de Geneva simplif icado Dor unilateral membros inferiores 1 pt Dor e edema unilateral membro inferior 1 pt Tromboembolismo venoso prévio 1 pt Hemoptises 1 pt Pulso 75-94 1 pt Pulso > 100 2 pt Neoplasia 1 pt Cirurgia recente ou fractura 1 pt Idade > 65 1 pt TEP provável ≥ 3pts Exames auxi l iares de diagnóstico e estrat i f icação do r isco de mortal idade • Rx Tórax Sinais sugestivos de embolia pulmonar Bossa de Hampton ( infiltrado em forma de cunha ) Sinal de Westermark ( oligoemia focal ) Sinal de Palla ( proeminência do ramo direito artéria pulmonar ) • ECG Sinais clássicos de sobrecarga do ventrículo direito Onda S em DI, onda Q em D III, inversão da onda T em DIII ( McGinn-White ) Bloqueio ramo dto Inversão da onda T nas précordiais e derivações inferiores Outros achados que podem estar presentes: Taquicardia sinusal Fibrilação auricular • Exames Laboratoriais Marcadores de Disfunção do Ventrículo direito - ProBNP Marcadores de Lesão do Miocárdio - Troponina T ou I ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 25 | 155! Doseamento de D-dímeros [Valor de D-dímeros < 500ng/mL, combinado com baixa probabilidade clínica para tromboembolismo venoso (Critérios de Wells modificados <2pts / Score de Geneva simplificado <3pts), tem um valor preditivo negativo de 99%] Gasometria arterial Hemograma Bioquímica com perfil renal e hepático Estudo da coagulação • Estratificação do Risco Simplif ied Pulmonary embolism severity index (sPESI) Idade 1 pt ( se idade > 80 anos ) Neoplasia 1 pt Insuficiência cardíaca 1 pt DPOC 1 pt FC ≥ 110 bpm 1pt Pressão arterial sistólica < 100mmHg 1 pt Saturação O2 < 90% 1 pt 0 pts = risco de mortalidade, 30 dias, de 1.0% [ 95% CI 0.0%-2.1% ] ≥ 1pt = risco de mortalidade, 30 dias, 10.9% [ 95% CI 8.5%-13.2% ] Algoritmo de estrat i f icação, tratamento e alocação Normotenso Hipotensão / Choque sPESI < 1 sPESI ≥ 1 ProBNP + ou trop T+ ProBNP - e trop T- Sem dilatação VD HBPM Antagonistas vit K Anticoagulantes orais Hemodinâmica Clínica Biomarcadores EcoTT / TAC Estratificação Risco Tratamento Baixo Dilatação VD Intermédio-baixo Intermédio-alto Alto HBPM HNF / trombólise Trombólise Local Ambulatório Enfermaria Unidade Cuidados Intermédios Unidade Cuidados Intermédios ou Unidade Cuidados Intensivos ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 26 | 155! ! HIPERGLICEMIA Marta Almeida Ferreira Definição Glicemia venosa superior a 140 mg/dL (7,8 mmol/L). Pode ocorrer em doentes diabéticos e não diabéticos. Quando ocorre em doentes internados, associa-se a internamentos mais longos e morbi-mortalidade mais elevada. Importante identif icar o doente em risco através da história cl ínica: • Diagnóstico conhecido de DM • Antecedentes de hiperglicemia • Doentes com infecção, trauma ou submetidos a intervenção cirúrgica • Doentes sob corticoterapia, anti-psicóticos, anti-retrovirais, imunossupressores, octreótido • Doença pancreática diagnosticada ou suspeita Manifestações cl ínicas: Dependem da gravidade da hiperglicemia e do facto de existir défice total ou parcial de insulina. • Ausência de sintomas • Polidipsia, poliúria, emagrecimento • No caso de existir síndrome hiperosmolar hiperglicémico (SHH): polidipsia, poliúria, alteração do estado de consciência que pode ir da confusão ao coma, sinais de desidratação • No caso de existir cetoacidose diabética (CAD): polidipsia, poliúria, alteração do estado de consciência que pode ir da confusão ao coma, sinais de desidratação, anorexia, náuseas, vómitos, dor abdominal, hálito cetónico, respiração de Kussmaul Pode surg ir em três s ituações diferentes • DM agudamente descompensada sem critérios de síndrome hiperosmolar hiperglicémico ou cetoacidose diabética • Complicação aguda da DM: síndrome hiperosmolar hiperglicémico ou cetoacidose diabética • DM cronicamente descompensada DM previamente diagnosticada DM não diagnosticada Hiperglicemia de stress ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 27 | 155! Exames complementares de diagnóstico: Glicemia <200 mg/dL Glicemia >200 mg/dL Gasometria arterial Cetonémia ou cetonúria Osmolaridade plasmática calculada Glicemia venosa Creatinina e ureia Ionograma Urina tipo II e sedimento urinário Hemograma Enzimas pancreáticas e hepáticas Adequar os restantes exames a cada caso: $ Rx tórax e outros exames de imagem $ ECG (este deve ser feito em todos os doentes que se apresentam no Serviço de Urgência com DM descompensada, uma vez que o síndrome coronário agudo pode ser assintomático nos diabéticos) e marcadores de necrose do miocárdio $ Hemoculturas $ Pesquisa de drogas na urina $ Teste de gravidez Os doentes com glicemia >140 e <200 mg/dL normalmente são identificados apenas através do estudo analítico efectuado no contexto da situação que os levou ao Serviço de Urgência Orientação terapêutica: ! Glicemia <140 140-200 201-250 251-300 301-350 351-400 >400 Insulina sc (UI) 0 2 4 6 8 10 5U IM 2/2h até glicemia <250 mg/dL => se não resultar, iniciar perfusão * Como no doente diabético sem complicação aguda Doente em r isco, sem diagnóstico conhecido de DM (histór ia cl ínica + exame f ís ico) HbA1c Glicemia venosa >140 mg/dL Glicemia capilar durante 24 a 48h (antes das principais refeições ou de 4/4-6/6h, se o doente estiver em jejum) Intervenção terapêutica (durante as 24 a 48h que está em vigilância de glicemias apenas) Se glicemia antes das refeições >140 mg/dL ou se glicemia ocasional >180 mg/dL Análogo rápido ou insulina humana de acção rápida antes das refeições ou de 4/4 (se uso de análogo)-6/6h (se uso de insulina humana) se o doente estiver em jejum ou se estiver com soro glicosado, segundo esquema Intervenção terapêutica com esquema de insulina basal-bólus (doente estável, a comer) ou em perfusão (doente instável, em jejum)*! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 28 | 155! Doente com diagnóst ico prévio de DM, sem SHH ou CAD Pesquisa de glicemia capilar antes das principais refeições e ao deitar (ou a cada 4 a 6h se o doente estiver em jejum) + pesquisa às 3h00, se receio de hipoglicemia Parar antidiabéticos orais ou insulinas pré-misturadas ou bifásicas Inic iar insul inoterapia em esquema basal-bólus: 1º : Calcular a dose diária total de insulina " Dose habitual de 0,3-0,5U/kg/dia " Doente com baixo peso, sem uso prévio de insulina, idoso, com insuficiência renal grave ou hemodiálise: 0,3U/kg/dia " Glicemia à admissão entre 140 e 200 mg/dL: 0,4U/kg/dia " Glicemia à admissão entre 201 e 400 mg/dL: 0,5U/kg/dia " Doente sob corticoterapia ou com insulinorresistência marcada: 0,6U/kg/dia 2º: Dividir a DDT em 2 partes iguais: 50% administrada como insulina basal (insulina de acção intermédia administrada 2 vezes por dia ou glargina, uma vez por dia, sempre à mesma hora); 50% dividida em 3 partes iguais, administradas antes do pequeno almoço, almoço e jantar (insulina de acção rápida ou análogo rápido) 3º: Adicionar dose extra de insulina rápida às administrações prandiais, para correcção de hiperglicemia – 1800:DDT=quantidade de glicemia que 1 unidade de análogo rápido de insulina faz descer; 1500:DDT=quantidade de glicemia que 1 unidade de insulina rápida faz descer 4ª: Considerar como alvos terapêuticos: " Glicemia antes das refeições <140 mg/dL; glicemia ocasional <180 mg/dL " Se risco de hipoglicemia, doença terminal ou doente com pequena esperança de vida, deve considerar-se um alvo terapêutico perto de 200 mg/dL " Se glicemia <100 mg/dL, deve ajustar-se o esquema de insulina, para evitar hipoglicemias 5º: Se o doente não estiver a comer ou estiver a ingerir poucos hidratos de carbono (<50% do habitual), não administrar a insulina prandial, mas pode fazer-se a correcção da hiperglicemia ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 29 | 155! ! Critérios de Diagnóstico da CAD e SHH CAD ligeira CAD moderada CAD grave SHH Glicose plasmática (mg/dl) > 250 >250 >250 >600 pH 7,25-7,3 7,0-7,24 < 7,0 > 7,3 Bicarbonato sérico (mEq/L) 15-18 10-15 < 10 >18 Corpos cetónicos (sangue ou urina) Positivos Positivos Positivos Negativos ou valores baixos Gap aniónico > 10 >12 >12 Variável Osmolalidade sérica (mOsm/Kg) Variável Variável Variável > 320 Estado mental Alerta Alerta/sonolento Estupuroso/coma Estupuroso/coma ! Cálculos na CAD e SHH " Gap aniónico: [Na (mEq/L)]- [Cl (mEq/L) + HCO3 (mEq/L)] " Osmolalidade sérica: [2xNa (mEq/L)] + [glicose (mg/dL)/18 ]+ [ureia (mg/dl)/2,8] " Correcção do sódio: $ Na (mEq/L) + 0,024 x [glicose (mg/dL)-100] Se glicemia > 400 mg/dl Doente com SHH ou CAD NaCl 0,9% 15-20ml/Kg ou 1-1,5L na 1ª hora Fluidoterapia ev Objectivo: ↓ glicemia 50-75 mg/dl na 1ª hora Insulinoterapia Insul ina ev: 50U IHR regular + 50cc SF Bólus inicial 0,1 U/Kg + perfusão 0,1 U/Kg/h OU Perfusão 0,14 U/Kg/h (Vigilância da glicemia 1-1h) Se CAD ligeira ou impossibil idade de perfusão ev: - Análogos rápidos SC Dose inicial 0,2U/kg, depois 0,1U/kg/h OU - Insulina regular SC ou IM 0,1U/Kg em intervalos de 1-2h Se glicemia reduzir 50-75mg/dL na 1ª h -> ↑ ritmo de perfusão para 0,2 U/Kg/h [Na+]corrigido >145 [Na+]corrigido <145 NaCl 0,45% a 200-500ml/h NaCl 0,9% a 200-500ml/h Glicemia < 250 (CAD) ou < 300 (SHH) → glicose 5% a 150-250 ml/h e ↓ ritmo de perfusão de insulina para 0,02-0,05 U/Kg/h após 1ª hora ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 30 | 155! [K+] < 3,3 Potássio 3,3 < [K+] < 5,3 [K+] > 5,3 Ø insulina até [K+] > 3,3 40 mEq KCl por cada L de SF ou 20-30 mEq KCl/h por CVC 20 a 30 mEq de KCl por cada L de soro Ø KCl Monitorizar [K+] em intervalos de 2-4h Bicarbonato pH<7,0 e/ou HCO3- <5 Se pH<7: Repetir a cada 2h até pH>7 pH ≥ 7,0 e/ou HCO3- > 5 Não administrar NaHCO3 100 mmol/L de NaHCO3 a 8,4% (2 ampolas) em 400 mL de SF com 20 mEq de KCl a perfundir em 2h (200 mL/h) até pH>7 Alternativa: 500 mmol de NaCO3 a 1,4% Repor nos casos de: • Insuficiência cardíaca ou respiratória • Disfunção musculo-esquelética • Anemia grave • Fosfato <1mg/dL (0,32 mmol/L) Fosfato Adicionar 20-30 mEq de fosfato monopotássico a cada litro de SF Monitorizar calcemia e sinais de tetania ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 31 | 155! Repor se Mg <1,8 mg/dL Magnésio Administrar 10 mL de sulfato de magnésio a 20% (2g) em 100 mL de SF a perfundir em 1h Resolução da CAD: Glicemia <200 mg/mL + 2 dos seguintes: • Bicarbonato sérico >15 mEq/L • pH>7,3 • Gap aniónico <12mEq/L Transição para insulina subcutânea Sobreposição de 1-2h da insulina em perfusão e da insulina sc Resolução do SHH: Normalização da osmolaridade sérica (<315 mOsm/kg) + recuperação do estado mental Se tratamento prévio com insulina e com bom controlo metabólico + doente a tolerar alimentação culinária: retomar o esquema de insulina de ambulatório Se o doente permanece em dieta zero: continuar a perfusão de insulina e fluidoterapia Doente sem insulinoterapia prévia: iniciar insulina sc a 0,5- 0,8U/kg/dia, distribuindo a dose total em esquema basal bólus ou calcular a DDT e fazer o mesmo com 70% desse valor ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 32 | 155! ! HIPERCALCÉMIA Marta Almeida Ferreira Definição Distúrbio electrolítico frequente, que afecta cerca de 0,5% dos doentes internados. Define-se como um nível de cálcio total* >2,6mmol/L (>10,5 mg/dL) ou um nível de cálcio ionizado >1,3mmol/L (>5,2 mg/dL), medido em duas ocasiões. Surge mais frequentemente no contexto de disfunção da paratiróide e malignidade, sendo potencialmente fatal quando grave – cálcio total >3,5mmol/L (>14mg/dL) ou cálcio ionizado >1,4mmol/L (>5,6mg/dL). * Medir sempre o nível de albumina, para calcular o nível de cálcio corrigido: [0,8x(albuminémia do doente)]+calcemia medida CAUSAS DE HIPERCALCÉMIA Dependente da PTH Independente da PTH (PTH < 20 pg/mL) Hiperparatiroidismo primário Adenomas da paratiróide (solitários ou múltiplos) Hiperplasia da paratiróide Carcinoma da paratiróide Malignidade Devida a mediadores humorais (ex: PTHrp) Mediada pela vitamina D Mieloma múltiplo Metástases ósseas múltiplas Hiperparatiroidismo terciárioInsuficiência renal Défice de vitamina D grave Malabsorção Induzidas por fármacos Suplementação com cálcio S. milk-alkali Intoxicação por vitamina D ou A Diuréticos tiazídicos Tratamento com lítio Hipercalcémia hipercalciúrica famil iar Endocrinopatias Tirotoxicose Doença de Addison Feocromocitoma VIPoma Imobil ização Doenças granulomatosas ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 33 | 155! Manifestações cl ínicas Dependem da forma de instalação da hipercalcémia (aguda vs crónica) " Diabetes insípida nefrogénica (poliúria e polidipsia) " Disfunção neurológica: sonolência, confusão, agitação, estupor, coma " Fadiga, depressão " Fraqueza muscular proximal " HTA (rara nas formas de instalação súbita) " Bradiarritimas e bloqueios cardíacos, que podem precipitar insuficiência cardíaca " Sintomas gastro-intestinais: obstipação, náuseas, vómitos, anorexia, dor abdominal " Litíase renal (cólica renal) " Pancreatite aguda (raro) É um diagnóstico a ter em conta nos doentes que se apresentam com deplecção do volume, alteração do estado de consciência/coma, descompensação cardíaca e dor abdominal Exames complementares de diagnóstico Investigação imediata: " Cálcio total e ionizado, fostato " Albumina e proteínas totais " Paratormona " Fosfatase alcalina " Vitamina D " Creatinina e ureia " TGO, TGP, bilirrubinas e gama-GT " Bicarbonato " Magnésio " ECG Investigação complementar para determinação da etiologia: " Amilase e lipase " Rx ósseos e Rx tórax " Calciúria de 24h (para diagnóstico diferencial entre hiperparatiroidismo primário e hipercalcémia hipercalciúrica familiar) " Ecografia cervical e cintigrafia com sestamibi (se suspeita de hiperparatiroidismo primário) " TAC ou cintigrafia óssea (se suspeita de metastização óssea) " TAC torácica (ou abdominal) ou outros exames de imagem caso se suspeite de tumor produtor de PTHrp ou de doença granulomatosa ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 34 | 155! Suspeita de hipercalcémia (história cl ínica + exame f ís ico) 1) Fluidoterapia: NaCl 0,9% 500-1000mL na 1ªh + 2 a 6L nas primeiras 24h => ajustar depois de acordo com o estado de hidratação do doente/volémia | Furosemida nos doentes com risco de hipervolémia: após as primeiras 24h, administrar 20 mg a cada 4h => induzir diurese forçada de 2,5L/24h (100-150mL/h) – monitorizar K+ e Mg2+ 2) Suspender agentes hipercalcemiantes 3) Restrição de cálcio na dieta nos doentes com hipercalcémia dependente da vitamina D DOENTES SINTOMÁTICOS ou CÁLCIO TOTAL >3,5 mmol/L (>14 mg/dL) ou CÁLCIO IONIZADO > 1,4mmol/L (>5,6mg/dL) (ABCD + PVC em doentes com dificuldade de avaliar volémia) Gasometria imediata e colheita de sangue para doseamentos complementares Bisfosfonato: - Ácido zo ledrónico 4 mg ev, em 15-30 min, em 100 mL de NaCl 0,9% - Pamidronato 1 mg/min, ev, em 250 mL de NaCl 0,9% - 30 mg em 2h, se Ca2+<12 mg/dL (3 mmol/L) ou se existe insuficiência renal - 60 mg em 4h, se Ca2+ entre 12 e 14 mg/dL (3-3,4 mmol/L) - 90 mg em 6h, se Ca2+>14 mg/dL (3,4 mmol/L) Tratamentos al ternativos: $ Calcitonina im ou sc, 100-200UI, 6/6h (teste inicial com 10-50 UI) ou 10UI/kg a perfundir em 6h em 500 mL de NaCl 0,9% (risco de taquifilaxia – pode associar-se corticóide) $ Corticóide: prednisolona 40 a 60 mg PO ou hidrocortisona 100-300 mg/dia, ev (nos casos de hipercalcémia relacionados com vitamina D) $ Cinacalcet – iniciar com 30 mg/dia, PO, titulando até ao máximo de 90 mg 6/6h (máx de 180 mg em doentes dialisados) – aprovado em casos de carcinoma das paratiróides, insuficiência renal crónica avançada e em casos de hiperparatiroidismo primário sem condições cirúrgicas $ Hemodiálise: considerar sessão com dialisado pobre em cálcio, em doentes já hemodialisados Tratamento et iológico (após estabilização do doente): $ Hiperparatiroidismo primário: cirurgia $ Tumor produtor de PTHrp: remoção do tumor $ Metástases ósseas: radioterapia $ Doenças granulomatosas: corticoterapia e imunossupressores $ Secundária a fármacos: suspender entre 3 a 6 meses e considerar alternativas ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 35 | 155! ! HIPOCALCÉMIA Marta Almeida Ferreira Definição Distúrbio electrolítico frequente, que afecta cerca de 26% dos doentes internados e 88% dos doentes admitidos em unidades de cuidados intensivos. Define-se como um nível de cálcio total* <2,1mmol/L (<8,5 mg/dL) ou um nível de cálcio ionizado <1mmol/L (<4 mg/dL). A hipocalcémia aguda é uma emergência e exige correcção imediata, pois está associada a uma elevada morbilidade e mortalidade. * Medir sempre o nível de albumina, para calcular o nível de cálcio corrigido: [0,8x(albuminémia do doente)]+calcemia medida] CAUSAS DE HIPOCALCÉMIA Diminuição da entrada de cálcio na circulação Saída aumentada de cálcio da circulação Disfunção da paratiróide Hipoparatiroidismo (auto-imune, pós-operatório, por doenças infiltrativas) Hipo ou hipermagnesémia (inclui fármacos como diuréticos, inibidores da bomba de protões) Doenças congénitas das paratiróides (ex: S. DiGeorge) Pseudo-hipoparatiroidismo Fármacos (ex: cinacalcet) Quelação do cálcio ionizado Pancreatite aguda Hiperfosfatémia (insuficiência renal, lise tumoral, rabdomiólise) Contacto com citrato ou EDTA (ex: nas transfusões) Défice de vitamina D Má absorção Falta de exposição solar Insuficiência renal Fármacos (fenitoína, rifampicina, teofilina, fenobarbital) Desvio do cálcio para o osso Síndrome do “hungry bone” Metástases osteoblásticas (carcinoma da mama ou próstata) Diminuição da reabsorção óssea Fármacos (ex: bisfosfonatos, denosumab) Mult i factorial Sépsis Fármacos (cisplatina, carboplatina, aminoglicosídeos, foscarnet) ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 36 | 155! Manifestações cl ínicas Hipocalcémia aguda: $ Parestesias periorais e nas extremidades $ Arritimas e outros sinais no ECG (prolongamento do intervalo QT, que é proporcional ao grau de hipocalcémia; diminuição da voltagem; ondas T negativas; torsades de pointes; fibrilhação ventricular) $ Tetania $ Sinais de Chvostek e Trousseau $ Mialgias $ Convulsões $ Confusão mental/Síndrome confusional agudo $ Insuficiência cardíaca aguda $ Irritabilidade Hipocalcémia crónica: $ Manifestações extrapiramidais $ Demência $ Distrofia das unhas e queda de cabelo $ Pele seca $ Cataratas $ Papiledema Sinais da causa subjacente: $ Presença de cicatriz cervical ou presença de cicatriz abdominal $ Sinais de abdómen agudo $ Pele bronzeada e sinais de insuficiência hepática $ Fraqueza muscular proximal $ Fácies sindrómico $ Evidência ou diagnóstico prévio de carcinoma da mama ou próstata $ Evidência ou diagnóstico prévio dedoenças infiltrativas (doença de Wilson ou hemocromatose) $ Evidência ou diagnóstico prévio de outras doenças auto-imunes (ex: doença de Addison) Exames complementares de diagnóstico Investigação imediata: $ Cálcio total e ionizado, fostato $ Albumina e proteínas totais $ Paratormona $ Fosfatase alcalina $ Vitamina D $ Creatinina e ureia $ TGO, TGP, bilirrubinas e gama-GT $ Bicarbonato $ Magnésio $ ECG ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 37 | 155! Investigação complementar para determinação da etiologia: $ Amilase e lipase (se suspeita de pancreatite) $ Grau de digestibilidade das fezes (se suspeita de má absorção) $ Magnésio urinário (se suspeita de perdas urinárias de magnésio) $ Rx ósseos (se suspeita de osteomalácia) $ TAC ou cintigrafia óssea (se suspeita de metastização óssea) $ Testes genéticos (se suspeita de causa genética) Suspeita de hipocalcémia (h is tór ia c lín ica + exame físico) Gluconato de cálcio EV – 1 ampola de 10mL (10%) em 100 mL de soro glicosado a 5% em 10 minutos (repetir até resolução dos sintomas) | 8 ampolas em 500 mL de soro glicosado a 5% em 8h DOENTES SINTOMÁTICOS ou CÁLCIO TOTAL < 2,0 mmol/L (<8 mg/dL) Gasometria imediata e colheita de sangue para doseamentos complementares Associar cálcio PO: 1000 a 2000 mg de cálcio elementar por dia, dividido em 3 ou 4 tomas Tratamento et iológico: $ Hipoparatiroidismo pós-operatório: alfacalcidol 0,25-0,5 μg/dia $ Défice de vitamina D: colecalciferol 6000 UI/dia ou 50 000 UI/semana durante 8 semanas, seguido de tratamento de manutenção com 1500 a 2000 UI/dia $ Hipomagnesémia: sulfato de magnésio 2g EV (10mL) em 15 minutos, seguido de 6 g (30 mL) em 1L SF em 24h $ IRC: cálcio e vitamina D activada $ Estados hipercatabólicos: corrigir primeiro a hiperfosfatémia e depois a hipocalcémia (excepto de arritmia ou tetania) ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 38 | 155! ! HIPONATREMIA Arlindo Guimas ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 39 | 155! Fluxograma de diagnóstico 1. Contexto clínico (paraproteinemia, dislipidemia) 2. Medição da osmolaridade, (se possível!) HIPEROSMOLALIDADE (>290mOsm/L) Excluir pseudohiponatrémia HIPONATRÉMIA (Na < 135 mmol/L) Ligeira: 130-135mmol/L Moderada: 125-130mmol/L Grave: <125mmol/L HIPOOSMOLALIDADE (<275mOsm/L) ISOOSMOLALIDADE (280-300mOsm/L) Considerar outra causa subjacente: Lípidos Para-proteínas Sin tomas graves: Vómitos Convulsões Encefalopatia Coma TRATAMENTO IMEDIATO! Na h iperglicemia corr igir a [Na+]: [Na+]mmol/L=[Na+soro]+2,4 x ![!"#$%&']!!""!"" Considerar osmola les efectivos: Manitol Glicina Contraste hiperosmolal Considerar osmola les NÃO efectivos: Urémia Lactatos Álcoois OSMOLALIDADE URINÁRIA Não causam hiponatrémia Se OsmU > 100mOsm/L Se OsmU ≤ 100mOsm/L ! Urina muito diluída !Excesso de aporte hídrico Diminuído Diarreia e vómitos Terceiro espaço Diuréticos Diminuído Vómitos Insuficiência adrenal 1ª Perda sal (renal, cerebral) Diuréticos ocultos Aumentado Insuficiência cardíaca Cirrose Sindroma Nefrótico Normal Hipotiroidismo Insuficiência adrenal 2ª Uso oculto de diuréticos Se ≤30mmol/L ! Volume circulante efetivo reduzido Se >30mmol/L ! Diuréticos, doença renal SÓ DI O U RI NÁ RI O Líquido extracelular Líquido extracelular ! ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 40 | 155! Critérios De Sindroma De Antidiurese Inapropriada (SADI) 1. Hiponatrémia hipoosmolar (<275mOsm/L) 2. Osmolalidade Urinária > 100mOsm/L 3. Sódio urinário > 30 mEq/L 4. Euvolémia 5. Sem insuficiência renal, tiroideia ou adrenal 6. Sem utilização recente de diuréticos Critérios Suplementares 1. Hipouricemia (< 4mg/dL) 2. Ureia <22mg/dL 3. Não correção da hiponatrémia após administração de SF 4. Fração de excreção sódio> 0,5% 5. Fração excreção da ureia> 55% 6. Fração excreção de ácido úrico> 12% 7. Correção da hiponatrémia após restrição hídrica Causas de SADI 1. Neoplasias a) Carcinomas: pulmão, orofaringe, estômago, duodeno, pâncreas, ureter, bexiga, próstata, endométrio b) Linfomas c) Sarcomas: Ewing d) Neuroblastomas olfativos 2. Doença pulmonar a) Infecção: pneumonia bacteriana/vírica, abcesso, tuberculose, aspergilose b) Asma c) Fibrose quística d) Falência respiratória 3. Doença do SNC a) Infecção: meningite, abcesso, malaria, SIDA b) Doença vascular: enfarte, hemorragia subaracnoideia, hematoma subdural, trombose venosa c) Neoplasia d) Outros: hidrocelo, esclerose múltipla, Guillan Barré, Shy Drager, Delirium tremens, porfiria intermitente aguda 4. Drogas a) Antidepressivos b) Anticomiciais: carbamazepina, valproato, lamotrigina c) Antipsicóticos: fenotiazinas, butirofenonas d) Antineoplásicos e) Análogos da vasopressina: oxitocina, terlipressina, desmopressina, oxitocina f) Outros: opióides, AINE’s, clofibrato, amiodarona, IBP 5. Outras a) Dor b) Náusea c) Stress ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 41 | 155! Tratamento A. Se sintomas severos (hiponatrémia aguda ou crónica) " Administrar 2 ampolas (40ml) de cloreto de sódio hipertónico (20%) em 100 ml de SF em 20 minutos, que é a carga de sódio aproximada a 150ml de uma solução a 3% " Avaliar a natremia ao fim de 20 min, após a perfusão " Pode repetir-se a perfusão de 2 ampola (20ml) de cloreto de sódio hipertónico (20%) em 100 ml de SF em 20 minutos, no total de 3 vezes " Reavaliar a natremia a cada 20 min na primeira hora " O objetivo é resolver os sintomas ou aumentar o valor da natremia em 4-6 mmol/L " Se não houver melhoria dos sintomas, deve manter-se um aporte de soro hipertónico até que os sintomas melhorem, se verifique uma subida máxima de 10 mmol/L ou se atinjam os 130mmol/L " Considerar outras causas para os sintomas, para além da hiponatrémia " Se houver melhoria dos sintomas recomenda-se um aumento da natremia em 10 mmol/L nas primeiras 24h e depois 8mmol/L nos dias seguintes, até um alvo de 130 mmol/L " O sódio deve ser monitorizado adequadamente a cada 4-6horas " É essencial diagnosticar e tratar a causa subjacente da hiponatrémia Sintomas Severos (convulsões, estupor, coma) $ Avaliar natremia após bólus $ Repetir o bólus no máximo até 3 administrações1 amp (20ml) NaCl a 20% em 100cc de SF em 20 min (83,4mmol)* *Se desvios marcados do peso médio necessário ajustar ao peso: 2ml/Kg da mesma solução, em bólus 1ª H O RA 1) Recordar que a melhoria sintomática não é imediata 2) Considerar outras potenciais causas para os achados clínicos 3) Aumentar a natremia 1mmol/h até resolução dos sintomas 4) Elevar o sódio até ao máximo de 10 mmol/L ou aumentar a natremia até aos 130 mmol/L 5) Diagnosticar e tratar a causa precipitante 6) Vigiar natremia a cada 4h A subida de 4-6mmol/L resolve é suficiente na maioria dos casos para resolver os sintomas severos Ajustar a correcção da natremia 10mmol/L nas primeiras 24h e depois 8mmol/L /dia Não resolução Resolução Resolução Não resolução 1) Ajustar aporte de sódio acordo com a equação de Adrogué-Madias (ver fluxograma abaixo) 2) Não esquecer que a correcção do potássio eleva o valor de sódio Para obter 1L de uma solução hipertónica NaCl a 3% adicionar 5,5 ampolas (110ml) de NaCl 20% em 890cc de NaCl 0,9% (2,97%; 509mmol/L Na) 1 ampola de 20 ml de NaCl 20%, tem 4g de NaCl e 68,4mmol de Na ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 42 | 155! B. Se hiponatremia com sintomas moderados (aguda ou crónica) C. Se Hiponatrémia aguda sem sintomas severos Para obter 1L de uma solução hipertónica NaCl ~ 3% adicionar 5,5 ampolas (110ml) de NaCl 20% em 890ccde NaCl 0,9% (2,97%; 509mmol/L Na) Hiponatremia com sintomas moderados Trata-se de uma situação potencialmente perigosa pelo risco de agravamento analítico e clínico se não tratada, contudo uma correcção rápida acarreta graves riscos! 1 amp (20ml) NaCl a 20% em 100cc de SF em 20 min (83,4mmol)* *Se desvios marcados do peso médio necessário ajustar ao peso: 2ml/Kg da mesma solução, em bólus 1) Avaliação diagnóstica 2) Tratamento específico 3) Suspender fármacos ou medidas que possam agravar a hiponatrémia 1) Ajustar aporte de sódio acordo com a equação de Adrogué-Madias 2) Tratar a natremia de forma a obter uma subida de 5 mmol/dia 3) O limite máximo de subida é de 10 mmol/L nas primeiras 24h; 8 mmol/L/dia nos dias seguintes até a natremia alcançar os 130mmol/L 4) Não esquecer que a correcção do potássio eleva o valor de sódio 5) Vigiar a natremia à 1h,6h e 12h no primeiro dia 6) Caso não haja melhoria dos sintomas, considerar outras causas para os mesmos 7) Caso se observe agravamento da hiponatrémia, tratar como se tivesse sintomas severos Bólus único Monitorizar ao fim de 4h Sem restrições no ritmo e alvo para a correção da natremia Se queda da natremia exceder os 10 mmol/L fazer bólus: 1 amp (20ml) NaCl a 20% em 100cc de SF em 20 min (83,4mmol) * 1) Avaliação diagnóstica 2) Tratamento específico Suspender fluidos, fármacos e medidas que contribuam para a hiponatrémia Confirmar Valor! Hiponatrémia aguda (instalação <48h) Sem sintomas severos ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 43 | 155! ÁGUA%TOTAL%Homem=%Pesox0,6%H%idoso%=%Pesox0,5%Mulher%%=%Pesox0,5%M%idosa%=%Peso%x0,45% D. Hiponatremia crónica, sem sintomas severos ou moderados Fórmula de Adrogué-Madias: variação!Na!soro mmol/L = (Na!infundido + K!infundido) − Na!soro1 + água!total Exemplo: Mulher de 70 anos com hiponatrémia crónica e Na 115mmol/L. Peso 65Kg. Se pretendermos subir a natremia 8 mmol em 24h e pretendemos utilizar uma solução de ~3% (1L de SF com 5,5 ampolas de NaCl a 20%), qual o volume que precisamos de utilizar? 8 = x − 1151 + (65 ∗ 0,45) → x = 8 ∗ 30,25 + 115 = 357mol!Na Ou seja são necessárias 357 mmol de Na para elevar a natremia em 8mmol/L. Como temos uma solução cuja concentração é de 509mmol/L, necessitamos de ~700cc desta solução a perfundir em 24h. Ou seja mandamos preparar 1 L de SF com 5,5 ampolas de NaCl a 20% que vai perfundir a 29ml/h. (700cc/24h) Para obter 1L de uma solução hipertónica NaCl ~ 3% adicionar 5,5 ampolas (110ml) de NaCl 20% em 890ccde NaCl 0,9% (2,97%; 509mmol/L Na) 1 ampola de 20 ml de NaCl 20%, tem 4g de NaCl e 68,4mmol de Na Se hiponatrémia grave ou moderada 1) Avaliação diagnóstica 2) Tratamento específico 3) Suspender fármacos ou medidas que possam agravar a hiponatrémia 1) Ajustar aporte de sódio acordo com a equação de Adrogué-Madias 2) Tratar a natremia de forma a que o limite máximo de subida seja0 de 10 mmol/L nas primeiras 24h; 8 mmol/L/dia nos dias seguintes até a natremia alcançar os 130mmol/L 3) Não esquecer que a correcção do potássio eleva o valor de sódio, na razão de 1mol K+ -> 1mmol Na+ 4) Vigiar a natremia de 6-6h 5) Caso não haja melhoria dos sintomas, considerar outras causas para os mesmos Hiponatrémia crónica sem s intomas severos ou moderados ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 44 | 155! E. Excesso de correção da hiponatremia e síndroma de dismiel inização osmótica As fórmulas utilizadas para a correção da hiponatremia podem falhar por diversos motivos: porte excessivo de solução hipersalina e a supressão do estímulo para a libertação de vasopressina, com consequente eliminação de urina diluída (pe, correção de hipovolémia, tiazidas, IRSS, CMZ). Os factores de risco para desmielinização osmótica do cérebro: hiponatrémia <120mmol/L, correção a uma taxa elevada, etilismo, desnutrição, doença hepática, hipocaliémia. Correção excessiva da hiponatremia Nos doentes com desmielinzação osmótica devem ser tratados com redução da natremia para um valor logo abaixo do alvo das 48 horas ou seja para um valor logo abaixo de [Na]in icia l + 18mmol/L A taxa desta redução deve ser de 1mmol/L/h O tratamento deve ser iniciado nas primeiras 24h dos sintomas 1) Repetir o bólus de glicose se necessário; suspender quando o alvo defenido de natremia for alcançado 2) Manter a desmopressina mesmo após a correção da natremia de soro de modo a evitar a eliminação e urina diluída Redução de 2 mmol/L [Na+] 1) Suspender soro hipertónico 2) Glucose a 5% na dose 6mL/Kg em 2 horas 3) Desmopressina 2µg ev/sc de 6-6h (até 4ug ev/sc de 6-6h).Cada amopla desmopressina tem 4µg (1ml) ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 45 | 155! ! ANEMIA Luísa Regadas Introdução A anemia define-se objectivamente por um valor de hemoglobina (Hb) <12.0g/dL na mulher (não grávida) e <13.0 g/dL no homem, embora com variações com a idade, raça e altitude. A anemia é um diagnóstico muito comum, particularmente na mulher jovem e no idoso. Na maioria dos casos não é uma doença em si mesma, mas antes a consequência de diferentes situações patológicas. A anemia ferripriva é a etiologia mais comum (cerca de 30%), seguida daanemia da doença crónica (cerca de 28%), com as restantes múltiplas etiologias representando <50% dos casos. Classif icação As anemias podem ser organizadas com base em diferentes critérios – os índices eritrocitários (anemias microcíticas, normocíticas e macrocíticas), a contagem de reticulócitos (anemias hipoproliferativas/arregenerativas e normoproliferativas/regenerativas) e a etiologia. A subdivisão baseada na contagem de reticulócitos é a mais significativa do ponto de vista fisiopatológico – anemias hipoproliferativas quando a medula óssea não consegue responder ao decréscimo do valor de Hb (com reticulocitopenia) e anemias normoproliferativas quando a medula óssea mostra sinais de estimulação da eritropoiese (com reticulocitose). A subdivisão baseada nos índices eritrocitários é possivelmente a mais útil em contexto do serviço de urgência. Adicionalmente, importa distinguir entre as situações agudas e as situações crónicas, sendo as primeiras aquelas que merecem destaque na urgência. As anemias microcít icas (VGM <70-80fL) são a anemia ferripriva e, nalguns casos, a anemia da doença crónica. As talassemias (e hemoglobinopatias talassémicas) e a anemia sideroblástica congénita também cursam com microcitose, com ou sem anemia, mas constituem situações congénitas. As anemias macrocít icas (VGM >100fL) podem derivar de défices isolados ou combinados de ácido fólico e vitamina B12 (anemia megaloblástica), toxicidade pelo álcool (e alguns fármacos), doença hepática crónica, e alguns casos de anemia hemolítica autoimune e doenças medulares primárias, com destaque para os síndromes mielodisplásicos e os síndromes de insuficiência medular. Valores de VGM >120fL indicam, com alta probabilidade, um défice vitamínico. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 46 | 155! Entre as anemias normocít icas (VGM 80-100fL) contam-se a anemia da doença crónica, a anemia secundária a hemorragia aguda, a doença hepática crónica e alguns casos de hemólise (adquirida ou congénita), doença medular primária e outras neoplasias hematológicas. As anemias hemolíticas congénitas tendem a ser diagnosticadas antes da idade adulta e a sua abordagem é da responsabilidade do Hematologista. A investigação da anemia normocítica é particularmente difícil quando esta é multifactorial, combinando causas de micro e macrocitose que resultam num VGM normal. Marcadores Analí t icos Em contexto de urgência, a integração dos dados clínicos e da informação básica do hemograma permite classificar correctamente a anemia na maioria dos casos. O esfregaço de sangue periférico é muito útil nas seguintes situações: suspeita de anemia megaloblástica, com pesquisa de neutrófilos hipersegmentados (núcleo com ≥5 lobos); suspeita de anemia microangiopática, com pesquisa de esquizócitos e formas fragmentadas; suspeita de doença medular primária, com pesquisa de células imaturas/precursoras e alterações morfológicas. A avaliação dos parâmetros do ferro (ferritina, saturação da transferrina e transferrina) é básica na avaliação da anemia ferripriva e deve ser solicitada antes de qualquer intervenção terapêutica. Neste contexto, importa não esquecer o significado da elevação do índice de distribuição dos eritrócitos (RDW). Os doseamentos de ácido fól ico e vitamina B12 exigem uma colheita em tubo protegido da luz e são importantes na avaliação da anemia megaloblástica. Os défices vitamínicos podem alterar toda a hematopoiese (hematopoiese megaloblástica), com a anemia podendo associar-se a trombocitopenia e/ou neutropenia de gravidade ligeira a moderada. A suspeita de hemólise implica a avaliação da contagem de reticulócitos, DHL e bil irrubina não conjugada. A elevação destes parâmetros pode corresponder a várias formas de hemólise: hemólise intramedular, como na anemia megaloblástica; hemólise predominantemente extravascular, como na anemia hemolítica autoimune; hemólise predominantemente intravascular, como na hemoglobinúria paroxística nocturna. A anemia da doença crónica é indiciada pelo contexto médico e elevação dos marcadores inflamatórios (VS, PCR, ferritina), mas a sua avaliação completa é complexa e não tem lugar em contexto de urgência. Uma referência particular à anemia associada à doença renal crónica, muito frequente no idoso. A anemia em contexto de doença medular primária, em que é comum a presença de outras citopenias e de alterações no esfregaço, implica avaliação por Hematologista. Investigação A decisão de prosseguir a investigação de uma anemia no serviço de urgência ou em ambulatório depende da ponderação sensata da gravidade e urgência de cada caso particular. A abordagem de uma anemia no serviço de urgência deve ser dirigida e sistemática. A investigação da anemia ferripriva implica uma anamnese rigorosa dirigida à identificação da causa da ferropenia, incluindo os hábitos alimentares, características dos cataménios (na mulher em idade jovem), queixas gastrointestinais (sugestivas de perdas hemáticas ou malabsorção) e antecedentes de cirurgia gástrica. A anemia ferripriva grave sem causa esclarecida implica a investigação de hemorragia gastrointestinal com estudo endoscópico do tubo digestivo (endoscopia digestiva alta primeiro, a progredir para colonoscopia se justificado). A hemólise (extra e/ou intravascular) pode ser causa de febrícula, icterícia e alteração da cor da urina (hemoglobinúria). As anemias hemolíticas podem ser congénitas ou adquiridas, as primeiras diagnosticadas geralmente antes da idade adulta e da responsabilidade do Hematologista e as últimas as que mais importam no ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 47 | 155! serviço de urgência. O estudo de uma anemia hemolítica adquirida implica desde logo a distinção entre hemólise de causa imune ou não imune - a prova de Coombs directa positiva identifica as formas imunes. As formas imunes são mais comuns e podem ser primárias (ou idiopáticas) ou secundárias a infecção, fármacos, doença autoimune sistémica ou doença linfoproliferativa. Nestes casos a hemólise extravascular predomina sobre a intravascular. As formas não imunes (extrínsecas) geralmente decorrem de microangiopatia (púrpura trombocitopénica trombótica/síndrome hemolítico urémico, válvulas cardíacas mecânicas, outras menos comuns), mas também em contexto de CID, malformações vasculares e cardíacas, hemoglobinúria paroxística nocturna, algumas infecções e alguns fármacos tóxicos para o endotélio. Nestes casos pode haver hemólise intra ou extravascular em combinações diferentes, dependendo da etiologia. Nas formas microangiopáticas, além de anemia surgem esquizócitos (e fragmentos eritrocitários) no sangue periférico e trombocitopenia ligeira a moderada. A investigação aprofundada das anemias hemolíticas adquiridas com significado clínico depende do apoio do Hematologista. A investigação da anemia megaloblástica em urgência depende de um exame clínico dirigido, do qual devem constar a avaliação da dieta e de manifestações neuropsiquiátricas, gastrointestinais, cardiopulmonares e outras que constituem o quadro mais típico. As situações de anemia da doença crónica raramente exigem estudo dirigido urgente. Tratamento O tratamento é determinado pela gravidade, presença de sintomas associados e etiologia da anemia. Apenas nas situações de anemia grave sintomática é necessário iniciar terapêutica em contexto de urgência. O fundamental no tratamento de todas as formasde anemia adquirida é a resolução ou controlo da(s) causa(s). A transfusão de concentrados eritrocitários desleucocitados (CED) é uma opção terapêutica a aplicar de forma criteriosa. Genericamente, a transfusão está indicada se anemia sintomática ou risco de descompensação cardíaca, estando estabelecido um limite orientador mas não rígido de concentração de Hb de 7-8 g/dL. O médico deve ter em consideração que cada unidade de CED representa um volume aproximado de 500mL, constituindo potencial risco para sobrecarga de volume. A base do tratamento da anemia ferripriva é a administração de ferro. O ferro endovenoso está indicado quando a anemia e a depleção de reservas são importantes ou a absorção possa estar comprometida. O ferro oral é proposto quando a anemia e a ferropenia são ligeiras. A suplementação com ferro é mais previsível e consistente com a administração endovenosa do que com a administração oral. A base do tratamento da anemia megaloblástica é a suplementação vitamínica – ácido fólico (formulação oral) e cobalamina (formulação oral ou intramuscular), administrados empiricamente na suspeita ou sempre que haja um défice confirmado. A suplementação vitamínica adequada garante uma resposta eficaz e a rápida recuperação do valor de hemoglobina. A transfusão de CED na anemia megaloblástica deve ser minimizada, dado que o quadro inclui frequentemente disfunção cardiovascular com risco de descompensação. A abordagem da anemia secundária a hemorragia é dirigida pela causa. O tratamento de outras formas de anemia, incluindo as anemias hemolíticas e as doenças medulares primárias, exige a colaboração do Hematologista. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 48 | 155! ALGORITMO Anemia Hemolítica Autoimune sim Anemia Pós-Hemorragia Abordagem na urgência ou em ambulatório Anemia Hb < 12.0g/dL (F) | Hb < 13.0g/dL (M) A. Microcí tica VGM < 70-80fL Anemia Ferripriva Anamnese dirigida (dieta? perdas menstruais? perdas digestivas?) A. Macrocí tica VGM > 100fL A. Normocí tica VGM 80-100fL Anamnese dirigida (dieta? álcool? alterações neurológicas?) Hemorragia aguda? Parâmetros do ferro (ferro, saturação da transferrina, transferrina) Esfregaço do Sangue Periférico Anemia da Doença Crónica EDA > Colonoscopia (se justificado, tratamento endoscópico) Doseamento de Ácido fólico e Vitamina B12 Coombs directa, Parâmetros de hemólise Anemia Megaloblástica Neutrófilos hipersegmentados Sem neutrófilos hipersegmentados Toxicidade do álcool Doença Hepática Crónica Doença Medular Primária Coombs dir. Neg, hemólise variável Coombs dir.Pos, hemólise presente Doenças crónicas? Hepatopatia crónica? não Coombs directa, Parâmetros de hemólise não sim Anemia da Doença Crónica Doença Hepática Crónica Esfregaço do Sangue Periférico Outras Neoplasias Hematológicas Doença Medular Primária Outras Formas de Hemólise Coombs dir. Neg, hemólise variável Sem esquizócitos Esquizócitos (e trombocitopenia) Anemia Hemolítica Microangiopática ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 49 | 155! ! TROMBOCITOPENIA & DISFUNÇÃO PLAQUETÁRIA Luísa Regadas Introdução A trombocitopenia é uma alteração quantitativa das plaquetas, genericamente classificada como ligeira (100- 150.000/μL), moderada (50-100.000/μL) ou grave (<50.000/μL). A disfunção plaquetária é uma alteração qualitativa das plaquetas. O risco hemorrágico só é significativo nas trombocitopenias graves, com risco de hemorragia espontânea se contagem de plaquetas <10-20.000/μL. Outros determinantes importantes são a função plaquetária e a presença de factores de hiperconsumo (ex. febre). A trombocitopenia e as disfunções plaquetárias (isoladas ou associadas a outras alterações hematológicas) são alterações comuns em contexto de urgência e, habitualmente, não são uma doença em si mesma mas estão integradas num quadro patológico. Podem ser importantes quer pelo risco hemorrágico que representam, quer por condicionarem a realização de cirurgias ou outros procedimentos invasivos. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 50 | 155! Classif icação Embora não exista uma classificação clássica destas entidades, simplificadamente as trombocitopenias e as disfunções plaquetárias podem ser classificadas com base no mecanismo desencadeante. Trombocitopenias: - por aumento da destruição periférica ou consumo – como na púrpura trombocitopénica imune (idiopática ou associada a doenças linfoproliferativas), nalgumas formas induzidas por drogas, na microangiopatia, na coagulação intravascular disseminada ou nas complicações hipertensivas da gravidez (pré- eclâmpsia/eclâmpsia, síndrome HELLP); - por diminuição da produção medular – como em diversas doenças medulares primárias e nalgumas formas de toxicidade medular (ex. induzida por drogas); - por sequestro esplénico – como em situações de esplenomegalia e/ou hiperesplenismo. Disfunções Plaquetárias: - por mecanismos intrínsecos – como nas várias disfunções plaquetárias congénitas; - por mecanismos extrínsecos – como na uremia, no tratamento com antiagregantes plaquetários ou antinflamatórios não esteróides (AINEs). Marcadores Clínicos e Analí t icos As plaquetas exercem funções primordiais na hemostase primária, num processo que conduz à formação do rolhão hemostático inicial sobre o qual se desenvolve a hemostase secundária (dependente da “cascata da coagulação”). Compreende-se portanto que as alterações quantitativas e qualitativas das plaquetas se traduzam numa clínica hemorrágica de predomínio mucocutâneo de gravidade variável – hemorragia minor com petéquias e púrpura (predomínio nas pernas), equimoses, gengivorragias e hemorragia ligeira na cavidade oral, epistáxis, hemorragia subconjuntival e, menos frequentemente, menorragia, hematúria e hemorragia digestiva frustre; hemorragia major com bolhas hemorrágicas na mucosa oral ou hemorragias retinianas, que podem preceder situações graves como a hemorragia intracraniana ou hemorragia interna. A apresentação com hemorragia nos músculos, articulações e órgãos internos faz suspeitar de alteração da hemostase secundária (e não plaquetária). Sempre que se justifique, a trombocitopenia identificada no hemograma deve ser confirmada em esfregaço de sangue periférico ou colheita em tubo com citrato, de forma a excluir pseudotrombocitopenia. Em contexto de urgência, a avaliação da disfunção plaquetária em doentes antiagregados ou com clínica suspeita depende do PFA-100 (platelet function analyzer), um teste que reproduz de forma automatizada os resultados do tempo de sangria (actualmente obsoleto). Este teste só tem valor se a contagem de plaquetas for normal. Genericamente, o efeito da aspirina associa-se a prolongamento isolado do tempo Colagénio/Epinefrina, enquanto as disfunções plaquetárias congénitas, a doença de von Willebrand e a uremia geralmentecausam prolongamento de ambos os tempo Colagénio/Epinefrina e Colagénio/ADP. Adicionalmente, outros elementos da história cl ínica, como o contexto de infecção, exposição a fármacos, autoimunidade ou a existência de hipertensão portal com esplenomegalia/hiperesplenismo, assim como a gravidade da trombocitopenia e o tempo de instalação são importantes para o diagnóstico diferencial. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 51 | 155! Investigação As alterações plaquetárias ligeiras a moderadas sem clínica associada devem ser investigadas em ambulatório. Na maioria dos casos, as trombocitopenias e as disfunções plaquetárias graves e com significado clínico têm uma etiologia clara ou fortemente suspeita e não requerem investigação específica no serviço de urgência. Tratamento O tratamento é determinado pela gravidade, pela clínica hemorrágica e pela etiologia da trombocitopenia ou disfunção plaquetária. Apenas nas situações de trombocitopenia grave sintomática é necessário iniciar tratamento em contexto de urgência. Princípios básicos no tratamento das Trombocitopenias no serviço de urgência: - Na trombocitopenia por défice de produção de plaquetas ou sequestro esplénico, a estratégia terapêutica implica a transfusão de concentrado plaquetário (CP). - Na trombocitopenia por aumento da destruição periférica, como é típico da púrpura trombocitopénica imune (PTI), a estratégia terapêutica mais utilizada é a modulação do sistema imunitário. O tratamento da PTI implica a colaboração do Hematologista. - A trombocitopenia em contexto de coagulopatia ou anemia microangiopática, assim como a trombocitopenia em quadro de doença medular primária ou associada a doença linfoproliferativa são situações específicas complexas e cuja abordagem no serviço de urgência devem envolver o Hematologista e Imunohemoterapeuta. Princípios básicos no tratamento das Disfunções Plaquetárias no serviço de urgência: - A reversão da antiagregação plaquetária requer a transfusão de CP. - A correcção da disfunção plaquetária por outros factores extrínsecos depende fundamentalmente da sua resolução (ex. hemodiálise na uremia), podendo a transfusão de CP ser útil em alguns casos. - O tratamento das disfunções plaquetárias relacionadas com factores intrínsecos implica a colaboração do Hematologista e Imunohemoterapeuta. - Em situações particulares pode existir vantagem na utilização de estratégias adjuvantes, incluindo estratégias pró-coagulantes tópicas/locais, agentes antifibrinolíticos (ácido aminocapróico, ácido tranexâmico) ou análogos da vasopressina (desmopressina, dDAVP). Trombocitopenia & Procedimentos invasivos A necessidade de realizar procedimentos cirúrgicos ou outros com algum grau de invasibilidade em doentes trombocitopénicos implica uma avaliação rigorosa e individual, considerando não apenas a contagem de plaquetas, mas também os múltiplos factores adicionais que podem potenciar o risco hemorrágico. Simplificadamente, a maioria dos procedimentos invasivos pode ser realizada com segurança com contagem de plaquetas ≥50.000/μL, incluindo todos os procedimentos cirúrgicos minor, paracentese, toracocentese, punção lombar, cirurgia abdominal e cirurgia ortopédica. O limite sobe para contagem de plaquetas ≥100.000/μL para os procedimentos neurocirúrgicos e sempre que o risco hemorrágico global seja considerado muito alto. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 52 | 155! Algoritmo Se causa não esclarecida, considerar... Trombocitopenia moderada a grave Plaq <100.000/ μL Agregados plaquetários Cl ínica hemorrágica (ausente? hemorragia minor? hemorragia major?) Esfregaço do SP Abordagem na urgência ou em ambulatório? Esquizócticos (e anemia) Sem agregados plaquetários PSEUDO TROMBOCITOPENIA ANEMIA HEMOLÍTICA MICROANGIOPÁTICA trombocitopenia verdadeira ESPLENOMEGALIA HIPERESPLENISMO COAGULOPATIA DE CONSUMO TROMBOCITOPENIA INDUZIDA POR DROGAS PÚRPURA TROMBOCITOPÉNICA IMUNE DOENÇA MEDULAR PRIMÁRIA Não sim Se causa não esclarecida, considerar... D is função Plaquetária Plaq <150.000/ μL | PFA-100 prolongado Cl ínica hemorrágica (ausente? hemorragia minor? hemorragia major?) Histór ia Farmacológica Antiagregantes plaquetários? AINEs? Abordagem na urgência ou em ambulatório? Sem agregados plaquetários DISF. PLAQUETÁRIA POR MECANISMOS EXTRÍNSECOS - fármacos DISF. PLAQUETÁRIA POR MECANISMOS EXTRÍNSECOS - uremia DISF. PLAQUETÁRIA CONGENITA Sim Não ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 53 | 155! ! INSUFIÊNCIA HEPÁTICA E COAGULOPATIA Graziela Carvalheiras Introdução A hemostasia está intimamente relacionada com a função hepática dado que a maioria dos fatores de coagulação são sintetizadas pelas células hepáticas e sistema retículo-endotelial do fígado representa um papel importante na eliminação de produtos de ativação. A gravidade das alterações da coagulação depende do grau de insuficiência hepática. O doente com insuficiência hepática consegue manter um equilíbrio entre a atividade anticoagulante e pró- coagulante, pelo que o risco hemorrágico pode não ser grave, mesmo em situações de insuficiência hepática grave. Uma das maiores dificuldades na avaliação destes doentes é que não existem métodos laboratoriais que reflitam com precisão o risco de hemorragia, podendo induzir o médico em erro, com uso de terapêuticas inapropriadas e sem benefício para o doente. O INR é um exemplo disso. Apesar de estar indubitavelmente associado ao prognóstico e gravidade da disfunção hepática, é um marcador insuficiente na avaliação do risco hemorrágico, e não deve ser usado de forma isolada para esta finalidade. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 54 | 155! A) Insuficiência hepática e r isco de hemorragia aumentado " Etiologia - Diminuição da produção de fatores da coagulação como aqueles dependentes da vitamina K (II, VII, IX e X), e outros como fator V, XI e XIII. - Trombocitopenia, inibição plaquetária pelo óxido nítrico e disfunção plaquetária. - Alterações no fibrinogénio. - Diminuição do inibidor trombínico ativo da fibrinólise (TAFI). " A sépsis está associada a trombocitopenia e disfunção plaquetária, bem como o aumento de heparinóides endógenos, pelo que na insuficiência hepática as infeções devem ser tratadas atempadamente, para minimizar o risco de hemorragia. " Causas de trombocitopenia no doente cirrótico: diminuição dos níveis de trombopoietina (TPO), retenção a nível do baço pelo hiperesplenismo, presença de anticorpos anti-plaquetários e supressão medular. " A formação de trombina está diretamente relacionada com o número de plaquetas: a trombocitopenia diminui a formação de trombina, e consequente conversão do fibrinogénioem fibrina, aumentando o risco de hemorragia. B) Insuficiência hepática e r isco trombótico aumentado " Etiologia: diminuição da produção de proteína C e S, diminuição dos níveis de antitrombina, diminuição do plasminogénio, aumento do fator VIII e do fator von Willebrand (vWF). " Complicações macrotrombóticas: trombose veia porta, trombose venosa profunda e embolia pulmonar. " Complicações microtrombóticas: microtrombos intrahepáticos responsáveis por isquemia e consequente atrofia hepática; microtrombos da vasculatura pulmonar responsável pela hipertensão portopulmonar; C) Avaliação analí t ica do estado de coagulação " Plaquetas " Tempo protrombina (TP) " Tempo tromboplastina parcial ativado (aPTT) " Tempo trombina " Níveis fibrinogénio " Fatores V, VII e VIII (ajudam na avaliação do défice de vitamina K: défice superior de FVII, do que de FV; Se FVIII diminuído pensar em coagulação intravascular disseminada –CID). D) Agentes terapêuticos a uti l izar em caso de hemorragia na insuficiência hepática " Vitamina K: repor na dose 1 a 25 mg/dia. A via endovenosa é preferível pelo edema mucosa intestinal e risco de menor absorção quando administrado por via oral. " Plasma fresco congelado (PFC): deve ser usado com precaução. Benefício incerto. A dose recomendada para reduzir tempo protrombina é 10 a 15 mL/kg, o que implica a perfusão de grande quantidade volume. " Crioprecipitado: concentrado de PFC. Contém fibronectina, fibrinogénio e vWF. Pouco volume. Dosear sempre fibrinogénio. Usar para valor alvo de fibrinogénio> 100 mg/dL. (Praticamente já não é utilizado) " Plaquetas: 6U pool plaquetas ou 1U plaquetas por aferese aumenta o valor de base + 30.000 plaquetas. " Fator VII recombinanate ativado (rFVIIa): Normaliza o INR entre 1 a 2 horas. Utiliza pouco volume e é relativamente seguro. Risco de induzir estado hipercoagulabilidade. Deve ser reservado como terapêutica de resgate em caso de hemorragia ativa e como profilaxia de hemorragia no caso de colocação de cateter para avaliação pressão intracraniana. " Anti-fibrinolíticos: acido aminocapróico e tranexâmico. Útil na hemorragia peritoneal e na extração dentária- eventos com hiperfibrinólise. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 55 | 155! " Concentrado de complexo protrombínico: contém fatores dependente vitamina K- FII, IX e X, FVII, proteína C e S. Pouco volume. O uso no doente cirrótico é pouco conhecido. " Desmopressina: aumenta os níveis de FVIII e FvW. Beneficio na extração dentária. " Outras medidas devem ser tidas em linha de consideração: manter hematócrito ≥25%, tratar a infeção e a uremia. E) Procedimentos invasivos no doente com insuficiência hepática A decisão de procedimentos invasivos no doente com insuficiência hepática não pode ser apenas tomada com base no INR e no valor de plaquetas, mas deverá ter em conta também a severidade do estado clínico, a urgência do procedimento, a acessibilidade do local se for necessário compressão mecânica, bem como a capacidade de detetar a hemorragia localmente. A tabela 1 descreve algumas orientações de atuação no tratamento e profilaxia de situações hemorrágicas e trombóticas na insuficiência hépatica. Situação clínica Atuação Comentários Hemorragia digestiva por varizes esofágicas - Terapêutica endoscópica urgente - Transfundir plaquetas para alvo ≥ 50.000 / mm3 - Manter fibrinogénio> 100 mg / dL, usando crioprecipitado - O ideal é a ressuscitação fluida. - Evitar transfusão excessiva pelo risco de hipervolémia e aumento pressões intravasculares com risco de hemorragia recorrente - Transfundir GV para Hb≥ 7.0 g/dL. - A utilização empírica de FFP deve ser evitada. Procedimentos invasivos - Transfundir plaquetas para alvo ≥ 50.000 – 60.000 / mm3 (ou> 100.000 / mm3 para procedimentos de alto risco). - Extração dentária: uso DDAVP é recomendada. - Se hemorragia de mucosas ou locais de sutura, considerar hiperfibrinólise e usar acido aminocaproico ou tranexamico. - INR <3 não deve ser usado como risco de hemorragia - Uso profilático de PFC deve ser evitado, mas se for necessário devera ser na dose 20 a 40 mg/kg. - rFVIIa deve ser evitado Trombose veia porta (TVP) - Tratar com HBPM. - Devem-se tratar as varizes esofágicas previamente a iniciar hipocoagulação. - Doentes com TVP crónica e transformação cavernosa têm menos benefício com a hipocoagulação. Trombose venosa profunda e tromboembolismo pulmonar - Considerar profilaxia com HBPM como em todos os outros doentes não cirróticos. - O tratamento do tromboembolismo venoso agudo devera ser semelhante ao da TVP, exceto se contraindicado. - Não assumir um INR elevado como dispensa para profilaxia com HBPM. - Varizes esofágicas que não estejam a sangrar não deve ser contraindicação para hipocoagular. Insuficiência hepática aguda - Apesar das alterações da coagulação frequentes, existe um “equilíbrio”. - Usar rFVIIa (40 μg/kg) em caso de monitorização da pressão intracraniana. - Não usar PFC ou plaquetas no doente com IHA e que não apresente hemorragia. - Não usar rFVIIa continuo, pelo risco trombótico e custos elevados. GV: glóbulos vermelhos; PFC: plasma fresco congelado ; DDAVP: desmopressina; rFVIIa: fator VII recombinante ativado; HBPM: heparina de baixo peso molecular; TVP: trombose veia porta; IHA: insuficiência hepática aguda. Northup PG and Caldwell SH. Clin Gastroenterol Hepatol 2013 Tabela 1 - Orientações de atuação em algumas situações clínicas associadas a alterações da coagulação no doente com insuficiência hepática ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 56 | 155! Algoritmo de atuação em caso de Hemorragia Ativa no doente com Insuficiência Hepática Em caso de Hemorragia ativa? Presença de défice vitamina K? Dar vitamina K 1. Hemoglobina Suspeita de hiperfibrinólise? Usar anti-fibrinolíticos 2. Plaquetas 3. Fibrinogénio Transfunde GR para Hb alvo: 8 g/dL Transfunde plaquetas para ≥100.000/μL Crioprecipitado para fibrinogénio> 120 mg/dL. Avaliar risco de hipervolémia? Cuidado com PFC! Hemorragia grave: rFVIIa D os ea r: ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 57 | 155! ! HIPOCOAGULAÇÃO ORAL Características e Gestão dos Anticoagulantes Orais no Serviço de Urgência! Luísa Regadas Introdução Os anticoagulantes orais (ACO) “clássicos”, dicumarínicos ou antagonistas da vitamina K (AVK) foram os primeiros e, até há alguns anos, os únicos disponíveis para administração oral. As suas principais vantagens são a eficácia, a tolerabilidade, a existência de antídoto eficaz e a experiência prolongada acumulada; entre as maiores desvantagens contam-se a sua janela terapêutica estreita, a interferência da dieta e fármacos e a necessidade de controlo terapêutico regular. Na tentativa de melhorar o perfil dos ACO, nos últimos anos surgiram os “novos” ACO, que incluem os inibidores directos do FXa e os inibidores directos da trombina. Com eficácia comprovada, não requerem controlo terapêuticoregular e a dieta não interfere na sua absorção, mas têm limitações decorrentes da interferência da função renal e da função hepática e das múltiplas interacções farmacológicas, além de não terem antídotos específicos. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 58 | 155! Classif icação & Característ icas Antagonistas da Vitamina K: Acenocumarol (SINTROM), Varfarina (VARFINE). Inibidores Directos da Trombina: Dabigatran (PRADAXA). Inibidores Directos do FXa: Rivaroxaban (XARELTO), Apixaban (ELIQUIS). Anticoagulante Oral Semivida (horas) Duração (horas) Excreção renal (%) Antídoto Dose/compr. (mg) Acenocumarol 8-11 48-96 60% vitamina K, complexo protrombínico (OCTAPLEX), PFC 4 Varfarina 35-45 96-120 90% vitamina K, complexo protrombínico (OCTAPLEX), PFC 5 Dabigatran 12-14 - 80-85% - 75, 110, 150 Rivaroxaban 5-9 - 60-70% - 2.5, 10, 15, 20 Apixaban 9-14 - 25-30% - 2.5, 5 O acenocumarol e a varfarina actuam por inibição da reductase responsável pela γcarboxilação dos factores da coagulação II, VII, IX e X (ditos dependentes da vitamina K) e das proteínas anticoagulantes C e S. Ambos são excretados maioritariamente por via renal. O dabigatran é um pró-fármaco convertido na forma activa após hidrólise no plasma e no fígado. Actua como um potente inibidor directo da trombina, reversível e competitivo. É excretado fundamentalmente por via renal. O rivaroxaban actua como um inibidor do FXa altamente selectivo. Cerca de 2/3 são metabolizados pelo citocromo CYP3A4. É excretado maioritariamente por via renal. O apixaban actua como um potente inibidor do FXa, reversível e altamente selectivo. Início e Dose do Anticoagulante Oral " Antagonistas da Vitamina K Início: Os AVK associam-se a um aumento do risco trombótico nos primeiros dias de tratamento resultante da diminuição rápida dos níveis das proteínas C e S (anticoagulantes “naturais”). Como tal, está indicado um período inicial de sobreposição com uma heparina em dose terapêutica até se atingir um INR terapêutico. Dose: Em indivíduos com idade <70 anos (sem doença hepática), a hipocoagulação oral deve ser iniciada com 1 compr./dia de acenocumarol ou varfarina. Em doentes mais velhos são aconselhadas doses iniciais inferiores, de ½ compr./dia de acenocumarol ou varfarina se idade 70-80 anos ou ¼ compr./dia se idade >80 anos. Outros factores que podem influenciar a dose inicial são a doença hepática e a ingestão alimentar irregular. Monitorização: Os níveis terapêuticos são definidos pelo tempo de protrombina (PT), expresso na razão normalizada internacional (RNI). A monitorização inicial deve ser feita 2-3 dias (se acenocumarol) ou 3-4 dias (se varfarina) após o início do tratamento e, posteriormente, de forma regular em intervalos de até 8 semanas. A janela terapêutica depende das indicações clínicas específicas para a hipocoagulação. Níveis supra ou infraterapêuticos exigem ajuste da dose do ACO, o que implica a colaboração do Hematologista ou Imunohemoterapeuta. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 59 | 155! " Dabigatran Indicações aprovadas (Europa): Prevenção primária do tromboembolismo venoso (TEV) em contexto das cirurgias ortopédicas de artroplastia total da anca ou joelho, prevenção da embolia sistémica (ES) em contexto de fibrilação auricular (FA) não valvular com factores de risco e tratamento e prevenção da recorrência da trombose venosa profunda (TVP) e do tromboembolismo pulmonar (TEP). Início: O dabigatran não necessita de um período inicial de sobreposição com uma heparina. Dose: A dose recomendada varia conforme a indicação terapêutica. - Profilaxia primária do TEV na cirurgia ortopédica, 220mg 1x/dia. - Prevenção da ES na FA não valvular, 150mg 2x/dia. - Prevenção e tratamento da TVP e do TEP, 150mg 2x/dia. A dose deve ser reduzida sempre que existam factores de interferência adicionais – insuficiência renal com ClCr 30- 50mL/min., administração simultânea de inibidores da glicoproteína-P (amiodarona, quinidina, verapamil, claritromicina) e doentes com idade ≥75 anos (experiência clínica mais reduzida e maior incidência de insuficiência renal). O dabigatran está contraindicado – na insuficiência renal grave com ClCr <30mL/min. e quando haja elevação das enzimas hepáticas ou insuficiência hepática clinicamente significativas. Monitorização: O dabigatran dispensa monitorização regular. A monitorização está recomendada quando há factores de risco adicionais concomitantes, para evitar uma exposição excessiva. Embora sejam testes não standardizados para este efeito, estão definidos valores limite do teste de doseamento do dabigatran (HEMOCLOT) e tempo de tromboplastina parcial activada (aPTT) associados a um aumento do risco hemorrágico no doente sob dabigatran. O HEMOCLOT representa uma estimativa da concentração plasmática de dabigatran e o aPTT uma estimativa da intensidade da hipocoagulação. O RNI não tem utilidade no doente sob dabigatran e não deve ser realizado (estão descritos valores de RNI falsamente elevados). RISCO HEMORRÁGICO COM DABIGATRAN Teste Nível de anticoagulação esperado (terapêutico) Nível de anticoagulação excessivo (aumento do risco hemorrágico) HEMOCLOT > normal, <200 (ng/mL) >200 (ng/mL) aPTT 1.5-2 x normal (segundos) 2-3 x normal (segundos) ou aproximadamente >80 (segundos) RNI NÃO NÃO " Rivaroxaban Indicações aprovadas (Europa): Prevenção primária do TEV em contexto das cirurgias ortopédicas de artroplastia total da anca ou joelho, prevenção da ES em contexto de FA não valvular com factores de risco, tratamento e prevenção da recorrência da TVP e do TEP e prevenção de eventos aterotrombóticos após síndrome coronário agudo (SCA) (em associação com antiagregação plaquetária). ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 60 | 155! Início: O rivaroxaban não necessita de um período de sobreposição com uma heparina. Dose: A dose recomendada varia conforme a indicação terapêutica. - Profilaxia primária do TEV na cirurgia ortopédica, 10mg 1x/dia. - Prevenção da embolia sistémica (ES) na FA não-valvular, 20mg 1x/dia. - Prevenção e tratamento da TVP e do TEP, 20mg 1x/dia. - Prevenção dos eventos aterotrombóticos após SCA, 2.5mg 2x/dia. A dose deve ser ajustada sempre que existam factores de interferência adicionais – insuficiência renal com ClCr 15- 30mL/min. e administração simultânea de inibidores do CYP3A4 (azóis, inibidores das proteases do HIV) ou indutores do CYP3A4 (fenitoína, carbamazepina, fenobarbital). O rivaroxaban está contraindicado na insuficiência renal muito grave com ClCr <15mL/min. e quando haja elevação das enzimas hepáticas ou insuficiência hepática clinicamente significativas. Monitorização: O rivaroxaban dispensa monitorização regular. A monitorização está recomendada quando há factores de risco adicionais concomitantes, para evitar uma exposição excessiva. A actividade anti-Xa representa uma estimativa da intensidade da hipocoagulação. O aPTT e o PT estão prolongados de forma dose-dependente no doente sob rivaroxaban, como é de esperar com base no seu mecanismo de acção, mas nenhum está recomendado para avaliar o seu efeito farmacodinâmico. " ApixabanIndicações aprovadas (Europa): Prevenção primária do TEV em contexto das cirurgias ortopédicas de artroplastia total da anca ou joelho, prevenção da embolia sistémica em contexto de FA não-valvular em doentes com factores de risco e tratamento e prevenção da recorrência da TVP e do TEP. Início: O apixaban não necessita de um período e sobreposição com uma heparina. Dose: A dose recomendada varia conforme a indicação terapêutica. - Profilaxia primária do TEV na cirurgia ortopédica, 2.5mg 2x/dia. - Prevenção da embolia sistémica (ES) na FA não-valvular concomitante com factores de risco, 5mg 2x/dia. - Tratamento e prevenção da recorrência da TVP e do TEP, 5mg 2x/dia. A dose deve ser ajustada sempre que existam factores de interferência adicionais – creatinina sérica >1.5 mg/dL, idade avançada ≥80 anos, peso ≤60 kg e administração simultânea de inibidores do CYP3A4 (azóis, inibidores das proteases do HIV) ou indutores do CYP3A4 (fenitoína, carbamazepina, fenobarbital). O apixaban está contraindicado na insuficiência renal muito grave com ClCr <15mL/min. e quando haja elevação das enzimas hepáticas ou insuficiência hepática clinicamente significativas. Monitorização: ver acima (monitorização do rivaroxaban). ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 61 | 155! Gestão da Hipocoagulação oral em diferentes situações de urgência Controlo não terapêutico, Hemorragia minor, Hemorragia major, Procedimento invasivo/Cirurgia urgente, Procedimento invasivo/Cirurgia emergente " Antagonistas da Vitamina K RNI não terapêutico, sem hemorragia: - RNI 4-8 – omitir dose, reiniciar em dose semanal inferior e reavaliar 4 a 5 dias depois. - RNI >8 – administrar VitK 2mg oral, omitir 1 toma, reiniciar em dose semanal inferior e reavaliar 2 a 3 dias depois. RNI não terapêutico, com hemorragia minor. - RNI 4-6 – ponderar administrar VitK 2mg oral, omitir 1 toma, reiniciar em dose semanal inferior e reavaliar 3 a 4 dias depois. - RNI >6 – administrar VitK 2mg oral, reavaliar cerca de 6 horas depois (se necessário, pedir apoio de Hematologia ou Imunohemoterapia). Hemorragia major, com RNI não terapêutico: - independentemente do valor de RNI, administrar VitK 10mg endovenosa (velocidade máxima de 1mg/min.) e, se justificado, administrar concentrado de complexo protrombínico 20-40 UI/kg (o plasma fresco congelado é muito menos eficaz), sob orientação de Hematologia ou Imunohemoterapia. Preparação para Procedimento invasivo/Cirurgia urgente: - administrar VitK 5-10mg EV e reavaliar com estudo da coagulação 4 a 6 horas depois. Se RNI <1.5, prosseguir para a intervenção; se RNI 1.5-2, ponderar o risco da intervenção; se RNI >2, administrar concentrado de complexo protrombínico (o plasma fresco congelado é muito menos eficaz); Preparação para Procedimento invasivo/Cirurgia emergente: - administrar concentrado de complexo protrombínico 20-40 UI/kg (o plasma fresco congelado é muito menos eficaz). " Dabigatran aPTT em nível associado a risco hemorrágico: - descontinuar o dabigatran pelo menos 12 horas, reavaliar o aPTT e decidir ajuste da dose ou alteração do ACO. - Hemorragia minor, Preparação para Cirurgia/Procedimento invasivo urgente. - na hemorragia minor, descontinuar o dabigatran pelo menos 24 horas, reavaliar o aPTT e decidir ajuste ou alteração da opção de hipocoagulação; - na preparação para intervenção urgente, suspender o dabigatran pelo menos 24 horas antes da intervenção invasiva, podendo ser necessária uma descontinuação mais precoce se houver insuficiência renal e/ou se o procedimento tiver alto risco hemorrágico. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 62 | 155! Hemorragia major, Preparação para Cirurgia/Procedimento invasivo emergente: - Não há um antídoto específico para o dabigatran, cabendo ao médico assistente decidir como deve actuar em cada caso particular. As medidas imediatas obrigatórias incluem a suspensão do fármaco, a manutenção de uma diurese adequada e hemostase cirúrgica adaptada ao risco. A utilização de concentrado de complexo protrombínico activado (FEIBA) ou FVIIa recombinante pode ser considerada em casos particulares, mas tanto a sua eficácia como o potencial risco de tromboembolismo rebound não estão estudados. A hemodiálise é outra alternativa a ponderar tendo em conta a reduzida ligação do dabigatran às proteínas plasmáticas, embora haja pouca experiência clínica nesta situação. " Rivaroxaban Hemorragia minor, Preparação para Cirurgia/Procedimento invasivo urgente: - na hemorragia minor, descontinuar o rivaroxaban pelo menos 12 horas, reavaliar a actividade anti-Xa e decidir ajuste ou alteração da opção de hipocoagulação; - na preparação para intervenção urgente, suspender o rivaroxaban pelo menos 18 horas antes da intervenção invasiva, podendo ser necessária uma descontinuação mais precoce se houver insuficiência renal grave e/ou se o procedimento tiver alto risco hemorrágico. Hemorragia major, Preparação para Cirurgia/Procedimento invasivo emergente: - Não há um antídoto específico para o rivaroxaban, cabendo ao médico assistente decidir como deve actuar em cada caso particular. As medidas imediatas obrigatórias incluem a suspensão do fármaco, medidas locais adequadas e hemostase cirúrgica adaptada ao risco. A utilização de OCTAPLEX, FEIBA ou FVIIa recombinante pode ser considerada em casos particulares, mas a evidência clínica da sua actividade é limitada. Dada a elevada ligação do rivaroxaban às proteínas plasmáticas, o fármaco não é dialisável. " Apixaban Hemorragia minor, Preparação para Cirurgia/Procedimento invasivo urgente: - na hemorragia minor, descontinuar o apixaban pelo menos 24 horas, reavaliar a actividade anti-Xa e decidir ajuste ou alteração da opção de hipocoagulação; - na preparação para intervenção urgente, suspender o apixaban pelo menos 48 horas antes da intervenção invasiva, podendo ser necessária uma descontinuação mais precoce se houver insuficiência renal grave e/ou se o procedimento tiver alto risco hemorrágico. Hemorragia major, Preparação para Cirurgia/Procedimento invasivo emergente: - Não há um antídoto específico para o apixaban, cabendo ao médico assistente decidir como deve actuar em cada caso particular. As medidas imediatas obrigatórias incluem a suspensão do fármaco, medidas locais adequadas e hemostase cirúrgica adaptada ao risco. A utilização de FVIIa recombinante pode ser considerada em casos particulares, mas a evidência clínica da sua actividade é limitada. A hemodiálise parece muito pouco eficaz. DESCONTINUAÇÃO DO DABIGATRAN ANTES DE PROCEDIMENTOS INVASIVOS ClCr (mL/min.) Semivida (horas) Procedimento com risco hemorrágico standard Procedimento com alto risco hemorrágico ≥80 ~ 13 24 horas antes 2 dias antes 50-80 ~ 15 1-2 dias antes 2-3 dias antes 30-50 ~ 18 2-3 dias antes (>48 horas) 4 dias antes ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 63 | 155! ! HEMORRAGIA DIGESTIVA ALTA Diana Valadares Definição Perda de sangue comprovada pelo tubo digestivo SintomatologiaOs doentes podem apresentar-se com hematemeses/melenas ou hematoquézias ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 64 | 155! Diagnóstico e Tratamento Classe I Classe II Classe III Classe IV Perda sanguínea (ml) Até 750 750 – 1500 1500 – 2000 > 2000 Perda sanguínea (%) Até 15% 15 – 30% 30 – 40% > 40% Frequência cardíaca < 100 > 100 > 120 > 140 Pressão arterial Normal Normal Baixa Baixa Pressão de pulso Normal ou aumentada Baixa Baixa Baixa Frequência respiratório/min 14 - 20 20 – 30 30 – 35 > 35 Débito urinário (ml/h) > 30 20 – 30 5 – 15 Insignificante Estado consciência Ansiedade ligeira Ansiedade moderada Muito ansioso, confuso Confuso, letárgico Reposição volémica (regra 3:1) Cristalóides Cristalóides * Cristalóides e sangue Cristalóides e sangue * Tabela 1 – Reposição volémica no choque Clínica compatível com hematemeses/melenas ou hematoquézias Colocação de 2 acessos venosos SNG GSA H + Bioq + EC + tipagem GR Sinais Vitais: TA, FC FR, SatO2 Exame físico completo (estigmas de doença hepática crónica) + TR + Tratamento In icia l • Fluidoterapia* • Transfusão de GR para Hb alvo: 7-8g/dl, se comorbilidades Hb-8-9g/dl* • Transfusão de plaq ou complexo protrombínico, se hemorragia activa com plaq<30000 • Octreótido 100ug ev (se hx conhecida de CH ou HTPortal) • IBP (Esomeprazol 80mg ev, se ausência de hx/estigmas de CH) • Eritromicina 250mg ev (30’ antes da EDA) ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 65 | 155! Instabilidade hemodinâmica HDA activa grave HDA hipertensiva Sala de Emergência ou BO em menos de 6h Emergente Estabilidade após reposição de volume Doente >=60 anos Co morbilidades Sem critérios de urgente ou emergente Urgente Não Urgente Sala de Emergência, Unidade Intermédia ou Centro de Endoscopia consoante os hospitais < 12h Centro de Endoscopia < 24h Alocação dos doentes com HDA para realização de EDA EDA comprova Hemorragia Digestiva A lta Hipertens iva Varizes Esofágicas Gastropatia de Hipertensão Portal GOV (varizes gástricas) Em todos os doentes deve ser realizado: Rx Torax após EDA terapêutica Abordagem da ascite para exclusão de PBE como causa precipitante Tx Médico: Octreotido bolus ev Perfusão 50ug/kg/min Ciprofloxacina 200mg 12/12h SF 63ml/h Poli G 42ml/h Esomeprazol 40mg 12/12h ev Tx endoscópico: (pe: laqueação elástica de VE ou esclerose) Moni tor ização: Clinica e sinais vitais H nas 1ªs 4h após procedimento Transfusão de GR para Hb alvo: 7-8g/dl, se comorbilidades Hb-8-9g/dl* Transfusão de plaq ou complexo protrombínico, se hemorragia activa com plaq<30000 Vit K 10mg ev, se hemorragia activa e INR>1,5 Critérios de Falência Terapêut ica (EDA de novo): 1. Hematemeses de novo após 2h de tx médico ou endoscópico 2. Queda de 3g de Hb nas 24h 3. Choque hipovolémico ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 66 | 155! Endoscopia Recidiva Hemorrágia % Cirurgia % Mortal idade % Ia, Ib Hemorragia activa 55 35 11 IIa Vaso Visível 43 34 11 IIb Coágulo aderente 22 10 7 IIc Pigmento hemossidérico 10 6 3 III Base limpa 5 0,5 2 EDA comprova Hemorragia Digestiva A lta Não Hipertens iva Úlcera Gástrica Úlcera Duodenal 1. Classificação de Forrester# (tx de re-sangramento) 2. Score de Rockall## (gravidade/risco) Em todos os doentes deve ser realizado: Rx Torax após EDA terapêutica Tx Médico: Esomeprazol 80mg ev bolus Perfusão 8mg/h durante 2-3 dias (se alto risco) Esomeprazol 40mg 12/12 ev (se baixo risco) SF 63ml/h Poli G 42ml/h Tx endoscópico: mediante classificação de Forrester# (pe: adrenalina; clip) Moni tor ização: Clinica e sinais vitais H nas 1ªs 4h após procedimento Transfusão de GR para Hb alvo: 7,5g/dl, se comorbilidades Hb-8,5g/dl Transfusão de plaq ou complexo protrombínico, se hemorragia activa com plaq<30000 Vit K 10mg ev, se hemorragia activa e INR>1,5 Critérios de Falência Terapêutica e aval iação por Cirurgia: 4. Choque na admissão 5. Forrest Ia em doente>60 anos 6. Transfusão>4U GR nas 1ªs 24h 7. Transfusão >8U GR nas 1ªs 48h 8. Recidiva hemorrágica com repercussão hemodinâmica #CLASSIFICAÇÃO FORREST ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 67 | 155! Variável Pontuação 0 1 2 3 Idade (anos) < 60 60 - 79 = 80 Hemodinâmica Frequência cardíaca > 100/minuto TA sistólica < 100mmHg Comorbil idades Doença cardíaca isquémica Insuficiência cardíaca congestiva Outra comorbilidade major Insuficiência renal Insuficiência hepática Neoplasia metastizada Diagnóstico Endoscópico Mallory-Weiss ou nenhuma lesão Úlcera péptica Esofagite erosiva Doença maligna do aparelho digestivo Estigmas de hemorragia recente Úlcera de base limpa ou com Pigmento hemossidérico Sangue no tubo digestivo, Coágulo, vaso visível ou hemorragia em jacto Score Rockall (pontos) Mortal idade (%) 3 3% 4 6% 5 12% 6 17% 7 27% 8 40% ##SCORE DE ROCKALL Score Clínico (antes da EDA) = idade + hemodinâmica + comorbilidades Score completo (após a EDA) = score clínico + diagnóstico endoscópico + estigmas de hemorragia Estra tif icação f inal do r isco: Baixo: ≤ 2 Intermédio: 3-4 Alto: ≥ 5 ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 68 | 155! ! ENCEFALOPATIA HEPÁTICA (EH) Diana Valadares Definição Alterações neuropsiquiátricas causada por insuficiência hepática e/ou shunts portossistémicos com ou sem cirrose. Sintomatologia e classif icação A EH pode manifestar-se desde alterações de consciência, comportamento, cognição/intelecto ou alterações neuromotoras. Esta pode ser classificada mediante: 1. A doença de base: EH Tipo A – por insuficiência hepática Aguda EH tipo B – por a Bypass/shunt portossistémico EH tipo C – por Cirrose hepática 2. A gravidade da doença: Desde o consenso de 1998, a escala mais aplicada é de West Haven (WH) como se descreve na tabela 1. Estado de Consciência Função Intelectual Comportamento Personalidade Alts neuromusculares 0 - - - - Grau I Alteração do ritmo de sono Insónia/hipersónia Dificuldades na subtracção e soma Défice de atenção Euforia ou ansiedade Irritabilidade Tremor Grau II Letargia ou apatia Desorientaçãono tempo Amnésia para eventos recentes Alterações de personalidade Comportamentos inadequados Flapping Discurso lentificado Hiperreflexia Ataxia Grau II Letargia ou apatia Desorientação no tempo Amnésia para eventos recentes Alterações de personalidade Comportamentos inadequados Flapping Discurso lentificado Hiperreflexia Ataxia Grau IV Coma - - Coma Pupilas dilatadas Opistotonus Tabela 1- Escala de WH ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 69 | 155! O novo consenso da ISHEN (sociedade internacional para encefalopatia hepática e metabolismo do nitrogénio) de 2014 acrescenta a Encefalopatia mínima à classificação anterior. Clinicamente não detectável apenas em testes psicométricos orientados para atenção, memória de trabalho, velocidade psicomotora, capacidade visual espacial. Este grupo propõe também uma nova divisão no tipo de EH. A EH evidente ou notória (“overt”) que se aplica ao grau II, III e IV de WE e EH disfarçada (“covert”) à EH mínima ou grau I WH. 3. Evolução temporal EH Episódica EH Recorrente: que se repete em intervalos de tempo < 6 meses EH Persistente 4. Factores precipitantes: Espontânea Precipitada por algum factor EH episódica EH recorrente + frequente Infecções Alts electrolíticas Hemorragia Digestiva Infecções Excesso diurético Sem causa identificada Alts electrolíticas Obstipação Obstipação Excesso diurético - frequente Sem causa identificada Hemorragia Digestiva Tabela 2 - Factores precipitantes dependentes do tipo EH. Diagnóstico É essencialmente clínico, baseado na sintomatologia semiológica (história clínica) e exame físico descrita na escala de WH. Marcadores bioquímicos/Exames Auxil iares a pedir A amónia venosa não tem qualquer papel diagnóstico ou prognóstico na EH. A amónia arterial serve apenas na investigação de alteração do estado de consciência em doente sem doença hepática conhecida e se positiva pode indiciar aliado a outros achados do exame físico e dados laboratoriais presença de possível doença hepática crónica. TC e RMN nestes doentes não é essencial mas quando realizada para excluir outras causas pode documentar: a) TAC: " Atrofia cortical, edema cerebral b) RMN " Hiperssinal nos gânglios da base em T1 (pelos depósitos de manganês) " Atrofia cerebral e cerebelosa " Edema cerebral A pesquisa de factores precipitantes incluirá a exclusão de infecção, hemorragia digestiva, obstipação, alterações electrolíticas, insuficiência renal, hipovolémia com exames auxiliares específicos para cada situação. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 70 | 155! Fluxograma de actuação diagnóstica e tratamento Sim Encefalopatia Hepática Hx clínica e Exame Objectivo compatível EHepática Diagnóstico Diferenciais Metabólicas - Hipoxia/hipercapnia - HipoNa/HiperNa - Hipoglicemia - CAD/SHH - Hiper/Hipotiroidismo - Hipercalcemia - Uremia Infecciosas - Sépsis - Meningite/meningoencefalite - Abcesso cerebral Tóxicas - Álcool - Drogas depressoras do SNC SNC - Enfarte cerebral hemorragia intracraniana - Estado pós ictal/convulsão - Delirium tremens - Neoplasia A, B ou C EH mínima, grau I, II, III ou IV -WH Episódica, Recorrente ou Permanente Espontânea ou Factores Precipitantes Não - Hemograma - F. renal e ionograma (Na,K, Cl, Ca e P), glicose, PCR, TGO, TGP, BT e Bd - GSA - Sumário de urina + Tóxicos na urina; etanol - Rx Torax - Ecografia abdominal, se evidência de ascite -> Paracentese de LP - (citoquímico, microbiológico) - Outros exames, direccionado pela clínica do doente (febre sem foco)!! Exames auxiliares Tratamento Episódio Agudo ABCDE " Se EH grau III/IV > EOT e suporte das disfunções " Se EH grau I/ II > vigilância do estado neurológico o Tx empírico: - Lactulose 25ml 12/12h e >> até as 1ªs 2 dejecções/dia e depois ajustável para 2/3 dejecções diárias. - Lactulose 30ml 2/2h ou 4/4h por SNG ou enema 300ml em 700cc de H20 4/4h o Tx do factor precipitante o Alimentação: - Energia: 35/40Kcal/Kg/dia - Proteínas:1,2-1,5g/Kg/dia Após o 2º episódio de EH. Prevenção da recorrência da EH: Lactulose qb + Rifaximina 550mg 12/12h ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 71 | 155! ! PERITONITE BACTERIANA ESPONTÂNEA Diana Valadares Definição Infecção do líquido ascítico em doente com cirrose hepática estabelecida Sintomatologia Os doentes podem apresentar-se com sinais/sintomas de peritonite (dor abdominal difusa com ou sem defesa, vómitos, diarreia, íleo), sinais de inflamação sistémica (febre, leucocitose, taquicardia e taquipneia), agravamento da função hepática basal, encefalopatia hepática, insuficiência renal, hemorragia digestiva e choque. Em alguns doentes, do foro ambulatório, a PBE pode ser assintomática. Marcadores bioquímicos Punção do liquido ascítico com colheita para citoquímico e microbiológico Exames Auxil iares a pedir Hemograma, Bioq com PCR ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 72 | 155! Fluxograma de actuação diagnóstica e tratamento Doente com CH e ascite Dor abdominal, vómitos ou diarreia SIRS EHepática Insuficiência Renal ou choque Hemorragia Digestiva PMN muito elevados Cultura do LP positiva múltiplos agentes Proteínas >1g/dl DHL > LSN Glicose < 50mg/dl Ausência de resposta ao tx como PBE Paracentese diagnóstica: Citoquímico + Microbiológico PMN <250/mm3 Cultura do LP positiva PMN >250/mm3 Cultura do LP positiva Peritonite Secundária TAC Cirurgia Bacterioascite PBE Tratamento 1ª l inha: Cefotaxime 2g 8/8h (5 ou 10 dias) 2ª l inha: Amox/clav 1,2g 8/8h (7 dias) ou Ciprofloxacina 200mg 12/12 ev (não aconselhado se dts estiverem a fazer profilaxia com quinolonas e em áreas com resistência elevada) Após 48h: Nova paracentese Redução ≥ 25% PMN LP do valor dx PBE em tx adequado Redução < 25% PMN LP do valor dx ou agravamento clínico Peritonite secundaria Agente resistente à antibioterapia TAC Cirurgia Profi laxia do Síndrome Hepatorenal Albumina: 1,5g/Kg no Diagnóstico Albumina: 1g/Kg em D3 Profilaxia Primária + LP proteínas baixas (15g/L) + Child C Norfloxacina 400mg/dia Secundária 1ªlinha: Norfloxacina 400mg/d 2ªlinha: Ciprofloxacina 750mg/semana ou Co-trimoxazol 960mg/dia ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos| ACIM | . . . . . . . . . . 73 | 155! ! DIARREIA AGUDA INFECCIOSA NO ADULTO Filipe Nery Definição Emissão de 3 ou mais dejecções anormalmente moles ou líquidas em 24 horas, ou de uma ou mais dejecções sanguinolentas, com um tempo de duração não superior a 14 dias. Necessário excluir outras causas que cursam com ou sem peritonite (apendicite; diverticulite; perfuração intestinal; infecções sistémicas como malária, sarampo, febre tifoide; doença inflamatória intestinal; enterocolite isquémica, isquemia venosa/ arterial mesentérica) Sintomatologia Como acima referido. Fundamental, na história clínica obter informação relativa a: idade do doente, início e duração da diarreia, características das fezes (líquidas, moles, sanguinolentas), frequência e volume das fezes, progressão da gravidade da diarreia, presença e gravidade dos vómitos (maior relação com intoxicação alimentar e infecções víricas), febre (gravidade e duração), dor abdominal, localização e características, tenesmo. Implicação nas actividades diárias, debilidade, sede, tonturas e síncope. Relação com a ingestão de comida, relação com conviventes doentes, condições de salubridade e origem da água consumida. Viagens recentes. Consumo de drogas e antibióticos. Estado de imunossupressão. Pesquisar sinais de desidratação. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 74 | 155! Marcadores bioquímicos/ EAD a pedir Não existe nenhum marcador específico. O estudo analítico deve ser dirigido à avaliação da etiologia (pesquisa de leucócitos e eritrócitos nas fezes; coprocultura com exame directo; pesquisa de toxina de Clostridium se suspeita clínica) e das consequências, nomeadamente os distúrbios hidro-electrolíticos (hipocalémia, acidose metabólica, lesão renal aguda). Sigmoidoscopia ou colonoscopia recomendadas na diarreia que não resolve apesar de terapêutica antimicrobiana empírica. Agentes etiológicos mais comuns e formas de apresentação Patogénio entérico Diarreia aquosa Diarreia sanguinolenta Vírus Rotavírus + - Adenovírus entérico (tipos 40, 41) + - Calicivírus + - Astrovírus + - Citomegalovírus + + Bactérias V.cholerae O1 + - Vibrio O139 + - Víbrios não O1 + - Vibrio parahemolyticus + + Aeromonas + - ETEC + - EPEC + - EaggEC + - EIEC + + EHEC (STEC) + + Shigella spp. + + Salmonella spp. + + Campylobacter spp. + + Yersinia enterocolitica + + Clostridium difficile + + Plesiomonas shigelloides + + Protozoários Giardia intestinalis + - Cryptosporidium parvum + - Microsporidia + - Isospora belli + - Cyclospora cayetanensis + - Entamoeba histolytica + + Balantidium coli + + Helmintas Strongyloides stercoralis - - Schistosoma spp. - + ETEC, E.coli enterotoxigénica; EPEC, E.coli enteropatogénica; EAggEC, E.coli enteroagregativa; EIEC, E.coli enteroinvasiva; EHEC, E.coli enterohemorrágica ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 75 | 155! Fluxograma de actuação diagnóstica e tratamento & Zonas endémicas para cólera, fazer microscopia escura. Se positivo, ATB dirigido # Loperamida (4-6mg/dia é o agente de escolha nos adultos): utilizar na diarreia do viajante ligeira a moderada (sem sinais de diarreia invasiva); a evitar na diarreia sanguinolenta ou inflamatória/ infecciosa suspeita (doentes febris); contra-indicada na dor abdominal! Diarreia Aguda (< 14 dias) História e Exame Físico Desidratação clínica Diarreia Aquosa Apresentação “Major” Diarreia Outras situações que se podem apresentar com diarre ia aguda - Ver acima em Definições Casos específ icos - Diarreia aguda no idoso (>65 anos) - Diarreia do viajante - Enterocolite associada a ATB - Colite hemorrágica (EHEC* ou STECº) - Surtos epidémicos - Diarreia institucional/ nosocomial - Outros ... * EHEC (E.coli enterohemorrágica); ºSTEC (E.coli produtora de Shiga toxina) Vómitos Intoxicação alimentar ou gastroenterite vírica Fluidoterapia; Tx de rehidratação oral quando possível Diarreia Sanguinolenta Coprocultura Se EHEC não provável ATB empírico 3-5 dias Trofozoitos E. histolítica Metronidazol + cisticida Ausência de Melhoria • Repetir coprocultura • Considerar sigmoidoscopia/ colonoscopia + biópsia • Hidratação oral com sais • Ponderar antidiarreicos por 48h# • Hidratação oral/ Fluidotx • Manter hidratação oral Sim Não Coprocultura& Sem melhoria Coprocultura Considerar ATB ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 76 | 155! ! PANCREATITE AGUDA Filipe Nery Definição Presença de pelo menos 2 de 3 dos seguintes critérios: clínicos (dor abdominal característica), laboratoriais (elevação da amílase ou lípase >3x o LSN) e/ou imagiológicos (TAC, RMN, ecografia). Sintomatologia Dor abdominal epigástrica ou no quadrante supero-lateral esquerdo. Geralmente descrita como constante, mas pode ser severa, irradiando para o dorso, tórax ou flancos, não sendo contudo, específica. A intensidade e localização da dor não se relacionam com a gravidade. Marcadores bioquímicos Lípase preferível à amílase como marcador (limitação da sensibilidade, especificidade, VPP e VPN da segunda face à primeira). Elevação da amílase em poucas horas após início dos sintomas, com regresso à normalidade em 3-5 dias. Em 1/5 dos doentes permanece em valores normais. Regressa mais rapidamente à normalidade do que a lípase. Lípase mais específica e permanece mais tempo elevada do que a amílase. Em doentes diabéticos, podem ser necessárias elevações superiores a 3-5x o LSN. Os critérios analíticos de definição de PA incluem elevação da amílase ou lípase superior a 3x o LSN. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 77 | 155! Fluxograma de actuação diagnóstica e tratamento Pancreati te Aguda (se pelo menos 2 critérios) Cl ínica (Dor abdominal sugestiva) Alocação Doentes com SIRS, idosos, com co-morbilidades, obesos, a carecer de fluidoterapia agressiva e com PA moderadamente severa deverão, pelo menos, ser admitidos em Unidade de Cuidados Intermédios. Doente com PA severa deverão ser admitidos em Unidade de Cuidados Intermédios ou Intensivos, dependendo das características e políticas locais. Et iologia ! Litíase ! Álcool ! Hipertrigliceridemia ! Fármacos/ drogas ! Agentes infecciosos ! Hipercalcémia ! Hiperparatiroidismo ! Neoplasia ! Outras Estudo analí tico (lípase/ amílase >3xLSN) Imagiologia (Ecografia de 1ª intenção) Gravidade Critérios de Atlanta 2013 ! PA Ligeira ∅ falência de órgão ∅ complicações locais ! PA moderadamentesevera Complicações locais E/OU Falência de órgão transitória (< 48h) ! PA severa Falência de órgão persistente > 48h Tratamento " Fluidoterapia agressiva (Lactato de Ringer preferencial 5-10mL/Kg/h) " Se colangite associada, CPRE em 24 horas " Sem indicação para antibioterapia profilática " Nutrição: - PA ligeira: iniciar dieta PO precocemente - PA severa: NE por SNG ou SNJ (iniciada preferencial/ nas 1ªs 48h) elementar ou polimérica Achados cl ínicos associados com curso potencialmente severo, à admissão 1. Característ icas dos doentes Idade > 55 anos; IMC > 30Kg/m2; Estado mental alterado; Co-morbilidades 2. SIRS (pelo menos dois dos seguintes critér ios) FC > 90/min; FR > 20 cpm (ou PaCO2 < 32mmHg); 36ºC < T > 38ºC; 4000/mm3 < Leuc > 12000/mm3 ou >10% de formas imaturas 3. Achados laboratoria is Ureia >20mg/dL; Elevação da ureia; Hematócrito > 44%; Elevação do Htc; Creatinina elevada 4. Achados imagiológicos Derrame pleural; infiltrados pulmonares; colecções extrapancreáticas múltiplas ou extensas ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 78 | 155! ! INFECÇÃO PELO VIH Graziela Carvalheiras A. A INFECÇÃO AGUDA PELO VIH Figura 1 - História natural da infeção pelo VIH, variação CD4+ e virémia no plasma. Figura 2 - História natural e estadiamento laboratorial da infeção pelo VIH. Cohen et al. JID 2010;202:270-277 Jolles et al. BMJ 1996;312:1243-1244 ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 79 | 155! Introdução A infeção aguda por VIH é a fase mais precoce da infeção pelo VIH, que surge logo após a transmissão, onde se verifica uma rápida replicação vírica, mas o organismo ainda não desenvolveu anticorpos para combater o VIH. Em termos epidemiológicos, a fase aguda da infeção pelo VIH adquire grande importância, dado que cerca de 50% das transmissões da infeção acontecem durante esta fase. Vários fatores contribuem para o risco aumentado de transmissão: carga vírica do VIH muito elevada (frequentemente> 100.000/mm3); probabilidade de manter comportamentos de risco durante este período, dado que o indivíduo desconhece estar infetado; e os sintomas inespecíficos, semelhantes a uma gripe ou mononucleose infeciosa, não são reconhecidos como associados à infeção aguda pelo VIH. A identificação da infeção VIH nesta fase aguda surge como uma oportunidade de reduzir a transmissão da doença, bem como permite acompanhar o doente muito cedo na sua doença, evitando a sua progressão e incidência de infeções oportunistas, e reduzindo a mortalidade relacionada. Definições 1. Infeção aguda pelo VIH: fase da doença pelo VIH imediatamente após a infeção, durante o qual ocorre uma replicação vírica intensa. Os anticorpos anti -VIH são indetetáveis, mas o RNA do VIH ou o antigénio p24 estão presentes. Geralmente surge 10 dias após a aquisição da infeção. Esta fase termina com a seroconversão, i.e., a identificação dos anticorpos anti- VIH, em geral ate 4 semanas depois. 2. Fase eclipse: período que decorre entre a aquisição da infeção e o início da fase aguda. Nesta fase não é possível identificar, por meios serológicos, a infeção pelo VIH. 3. Infeção recente pelo VIH: geralmente é considerada a fase até 6 meses após a infeção durante o qual os anticorpos anti -VIH são detetáveis. 4. Sinais e sintomas na infeção aguda pelo VIH: Síndrome retroviral agudo Alguns doentes podem ser assintomáticos, mas cerca de 40 a 90% dos doentes com infeção aguda pelo VIH apresentam alguns sintomas da síndrome retroviral agudo. No entanto, dado serem autolimitados e, se confundirem com outras infeções víricas, nomeadamente por influenza e a mononucleose infeciosa, o seu reconhecimento pode passar despercebido. Assim, o médico deverá ter uma elevada suspeita de diagnóstico. Os sinais e sintomas relacionados são: febre, fadiga, perda de apetite e perda de peso, hipersudorese noturna, mialgias e artralgias, cefaleia, adenopatias, faringite, rash cutâneo, diarreia, aftas orais, úlceras genitais, gengivite, e ainda alterações laboratoriais como leucopenia, trombocitopenia e transaminases elevadas. 5. Quando suspeitar de uma infeção aguda pelo VIH? Sempre que o doente apresente uma síndrome clínico compatível, sobretudo se há descrição a um comportamento de risco recente. Contudo, os doentes podem não referir os seus comportamentos de risco, ou então, pode não os identificar como tal. Assim, os sinais e sintomas compatíveis com a síndrome retroviral aguda devem colocar a suspeita de um diagnóstico de infeção aguda pelo VIH, mesmo na ausência de comportamentos de risco relatados. População de doentes a avaliar: • Sinais e sintomas da síndrome retroviral agudo • Os que se apresentam para fazer o teste VIH ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 80 | 155! • Os que descrevem uma exposição sexual ou parentérica (partilha de seringas, p.ex.) recente com um parceiro que se sabe estar infetado pelo VIH ou, de um parceiro com serologia desconhecida nas últimas 2 a 6 semanas; • Homens que descrevem ter práticas sexuais desprotegidas com outros homens; • Toxicodependentes com partilha de seringas; • Aqueles que se apresentam com uma infeção sexualmente transmissível recém diagnosticada; • Aqueles que se apresentam com meningite asséptica; • Todas as grávidas ou lactantes que não foram testadas. 6. Como proceder numa situação de suspeita de infeção aguda pelo VIH? " Teste screening VIH Os testes de 3ª geração apenas detetam anticorpos anti-VIH, pelo que será sempre um teste negativo ou indeterminado na fase de infeção aguda. Quando se utiliza apenas este teste serológico, um resultado negativo não exclui uma infeção pelo VIH. Os testes de 4ª geração detetam não só anticorpos anti-VIH, mas também uma proteína do core viral- o antigénio p24, o que permite um diagnóstico mais precoce. Um teste reativo obriga a realização do teste de 3ª geração, para avaliar a presença de anticorpos. " RNA VIH Se o teste screening foi negativo ou indeterminado. Um valor baixo, i.e. <10.000 cópias/mL pode representar um falso-positivo, dado que na infeção aguda a virémia é muito elevada, regra geral >100.000 cópias/mL. Naqueles casos, deverá ser colhida nova amostra para avaliar a virémia, sendo muito pouco provável um segundo valor falso- positivo. A análise do RNA- VIH é um teste caro e muito laborioso, que implica a utilização de várias amostras para serem testadas em conjunto, o que inviabiliza a realização no serviço de urgência. O resultado pode demorar vários dias, dependendo do dia em que se realiza a técnica. 7. Quando se faz o diagnóstico da infeção aguda pelo VIH? " Na suspeita clínica de um síndrome retroviral agudo, com contexto epidemiológico de risco, em que o teste screening de 4ª geração (Ag/ Ab HIV) é positivo, o teste screening de 3ª geração (Ab HIV) é negativo ou indeterminado, e o RNA VIH é positiva e muito elevada ( >100.000 cópias/mL). " Todos os doentes devem repetir testes serológicos nos próximos 3 a 6 meses para se documentar a seroconversão, i.e. confirmar a presença de anticorposanti -VIH. " Deve ser feito o despiste de outras doenças sexualmente transmissíveis como sífilis, gonorreia, Clamydia, HPV, VHB e VHC. " O aconselhamento é fulcral, para evitar o risco de transmissão da infeção pelo VIH, bem como a identificação e rastreio dos parceiros(as). 8. Tratamento na infeção aguda pelo VIH " A decisão de iniciar tratamento não é consensual. " O tratamento deve ser considerado em todos os doentes. Será uma decisão médico-doente. " Todas as mulheres grávidas devem iniciar terapêutica antirretroviral logo que possível por causa do alto risco de transmissão vertical. " Se o tratamento for considerado, o doente deverá ser recrutado para um ensaio clínico " O esquema de antirretrovirais é igual ao utilizado na infeção crónica. " Se o tratamento é iniciado, o objetivo deve ser a supressão virológica. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 81 | 155! Algoritmo de atuação na suspeita de Infeção Aguda pelo VIH Infeção Aguda pelo VIH Comportamento de risco + / - suspeita de síndrome retroviral agudo? Reativo Teste screening 4ª geração [Ag p24 / Ac] Teste screening 3ª geração Infeção VIH não aguda RNA - VIH ≥ 100.000 cópias/mL Infeção aguda pelo VIH Positivo Negativo ou indeterminado Não reativo, mas persiste a suspeita de infeção aguda (i.e. até 10 dias após a infeção- fase eclipse) ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 82 | 155! B. A INFECÇÃO CRÓNICA PELO VIH – desconhecida As maiorias dos doentes com infeção VIH desconhecida que vão ao serviço de urgência encontram-se na “fase cl ínica latente”, que habitualmente dura entre 8 a 10 anos, nos indivíduos não tratados. O doente diz-se assintomático se a contagem CD4> 500 células/mm3. Durante esta fase o doente pode apresentar ao exame físico, algumas manifestações suspeitas como adenopatias generalizadas, história de infeções respiratórias recorrentes (p.ex. sinusite, faringite e otite média), aftas orais recorrentes, infeção por Herpes zooster, paralisia de Bell e manifestações dermatológicas como rash papular pruriginoso, dermatite seborreica e infeções fúngicas. Durante a fase sintomática da infeção VIH existe um declínio nas células CD4+, com manifestações clínicas, mas sem ocorrerem as manifestações clássicas da fase da Síndrome da Imunodeficiência Humana Adquirida (SIDA). Durante a fase sintomática, as queixas do doente podem não ser reconhecidas como manifestações da infeção VIH, por também poderem surgir na população não infetada. Assim, os médicos no serviço de urgência devem considerar o diagnóstico de infeção pelo VIH em qualquer uma das seguintes condições, sobretudo naqueles doentes que apresentam comportamentos de risco: • Pneumonia grave • Tuberculose • Gengivite grave • Candidíase oral persistente • Diarreia crónica inexplicável por outra causa (>1 mês) • Febre persistente • Perda de peso marcada inexplicável por outra causa. • Alterações analíticas hematológicas como anemia, neutropenia e trombocitopenia, inexplicadas por outra causa. No doente com infeção VIH desconhecida que se apresenta no serviço de urgência com queixas relacionadas com uma doença definidora de SIDA, é importante o diagnóstico atempado da infeção pelo VIH, pois uma investigação e tratamento mal dirigidos aumenta a morbilidade e mortalidade relacionadas. Na fase de SIDA o sistema imunitário encontra-se gravemente comprometido, com contagem CD4+ <200 células/mm3. A tabela 1 mostra as doenças definidoras de SIDA mais comuns que se apresentam no serviço de urgência, bem como quais os sinais e sintomas comuns associadas. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 83 | 155! Sinais e sintomas Diagnóstico a considerar Considerações Manifestações pulmonares Dispneia, tosse pouco frequente e pouco produtiva ± febre Pneumocistose $ RX: infiltrados bilaterais, padrão micronodular $ Por vezes insuficiência respiratória grave e desproporcional ao restante quadro clinico. Tosse produtiva, febre persistente e dispneia Pneumonia bacteriana recorrente $ perguntar sobre infeções respiratórias previas Tosse produtiva, febre, perda de peso e hemoptises Tuberculose pulmonar $ Rx pulmonar a mostrar infiltrado apical direito, ou padrão miliar Manifestações neurológicas Cefaleia, febre, frequente a alteração estado consciência Meningite criptocócica Pesquisa do antigénio do criptococcus no LCR e sangue Cefaleia, febre, alteração estado consciência e possíveis défices neurológicos focais Toxoplasmose TAC cerebral com contraste: lesão com captação periférica de contraste em forma de anel Alterações da personalidade, cefaleia e fraqueza Encefalite pelo VIH TAC cerebral: atrofia cerebral Cefaleia, fraqueza, possíveis défices neurológicos focais Linfoma TAC cerebral: geralmente lesão única. Fraqueza progressiva, défice visual, disartria, alterações de personalidade Leucoencefalopatia multifocal progressiva TAC cerebral e RMN cerebral: lesões múltiplas, sem efeito massa, sobretudo região parieto-occipital da substância branca. LCR: JC virus. Manifestações gastrointestinais Candidíase oral e disfagia Candidíase esofágica Endoscopia é diagnóstica, mas a clínica assume o diagnóstico de presunção. Diarreia crónica, com perda de peso e desidratação Cryptosporidiose; Isosporiase Estados muito imunodeprimidos Manifestações dermatológicas Lesões cutâneas pigmentadas, violáceas, não pruriginosas Sarcoma de Kaposi Biópsia de pele Manifestações sistémicas Perda de peso >10%, diarreia crónica, fadiga e atrofia muscular Wasting syndrome Atrofia muscular generalizada Febre prolongada, anorexia, fadiga Septicemia por Salmonella Manifestações oftalmológicas Perda progressiva de visão indolor; visão turva; escotomas Retinite por citomegalovírus Fundoscopia Tabela 1 - Cenários clínicos comuns de doenças definidoras de SIDA ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 84 | 155! C. A INFECÇÃO CRÓNICA PELO VIH – já conhecida Na abordagem do doente com infeção VIH conhecida importa documentar algumas condições, que serão úteis na investigação etiológica, tais como: " Quando foi feito o diagnóstico da infeção VIH. " Se o doente tem seguimento médico regular e qual a assiduidade às mesmas. " Qual o resultado das últimas análises: RNA- VIH e contagem CD4+, e quando foram realizadas. " Se está a fazer terapêutica antirretroviral, bem como qual o motivo para a sua introdução. Em caso afirmativo importa saber qual o esquema atual e prévios, e quais as razões para alteração. A investigação posterior passa pela possibilidade de relação não só com a infeção VIH (dependendo do estadio clínico), das complicações associadas à terapêutica antirretroviral, mas também tendo em contaas restantes condições inerentes à população em geral. D. PROFILAXIA DA INFEÇÃO VIH APÓS-EXPOSIÇÃO PROFISSIONAL E NÃO-PROFISSIONAL A LIQUIDOS BIOLÓGICOS Introdução A infeção pelo VIH não é uma consequência instantânea da exposição, pelo que a profilaxia pode ser uma janela de oportunidade para prevenir a infeção após uma exposição. O Serviço de Urgência é uma porta de entrada à vítima exposta a uma fonte conhecida ou potencial, com infeção pelo VIH. Desta forma, os médicos que trabalham no SU devem saber como proceder, de forma rápida e correta. Definições A exposição profissional e não-profissional referem-se a todos os incidentes esporádicos e acidentais em que ocorreu contacto com sangue ou líquido biológico (sémen, secreções vaginais, urina, líquido pleural, etc) que possam conduzir a um risco de infeção pelo VIH. No primeiro caso a exposição ocorreu com profissionais de saúde, durante a prestação de cuidados. Todas as outras circunstâncias de exposição são consideradas exposição não- profissional. Abordagem 1. Medidas gerais Limpeza imediata da ferida exposta com água e sabão (desaconselhado agentes cáusticos). No caso de mucosas lavar apenas com água. Não há vantagem em fazer compressão da ferida ou aplicar outros desinfetantes. 2. Aferição do risco " Caracterização do tipo de exposição Dano percutâneo ou de membrana, mucosa integra ou não íntegra. Risco médio após exposição percutânea: 1 em 300 (0,3%). Risco médio após exposição mucosa: 9 em 10.000 (0,09%). o Solução de continuidade da pele provocada por objeto cortante/perfurante (agulhas com calibre, de sutura ou vidros partidos) que esteja contaminado com sangue, ou fluído com sangue visível, ou outro fluído potencialmente infetante, ou que estiveram em vaso sanguíneo do doente -fonte. o Mordedura de um doente com infeção VIH, com sangue visível na boca do doente e que causou sangramento no profissional de saúde. o Projeção de sangue, fluído com sangue visível ou outro material potencialmente infetante numa superfície mucosa (olhos, boca, nariz). ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 85 | 155! o Exposição de pele não-intacta (pele gretada, com dermatite, abrasão ou ferida aberta) a sangue, fluido com sangue visível ou outro material potencialmente infetante. o Contacto direto da vagina, ânus ou boca da vítima com sémen ou sangue do agressor, com ou sem dano físico, lesão tecidular ou presença de sangue no local da violação. " Tipo de fluido Sangue, fluido visivelmente com sangue ou outro tecido/ fluido potencialmente infecioso. o Fluidos infetantes: sangue, ou fluidos com sangue visível, ou outros fluidos potencialmente infetantes (sémen, secreções vaginais, LCR, sinovial, pleural, peritoneal, pericárdico e amniótico). o Fluidos não infetantes: saliva, lágrimas, suor, urina não hemática, fezes. Em exposições a estes fluidos não esta recomendada a PPE. " Determinar e avaliar a fonte de exposição o A fonte de exposição quando presente deverá ser colher sangue para avaliar estado VIH, VHC e VHB. o Se a fonte é identif icada e tem infeção pelo VIH conhecida O médico deverá obter informação relativa ao seu risco infecioso potencial. Para isso deverá avaliar: $ Se tem seguimento regular em consulta $ Se faz terapêutica antirretroviral, qual e se cumpre $ Se existem testes de resistência $ Valores de virémia recente o Se a fonte é negativa para o VIH O médico deverá avaliar a existência de comportamentos de risco com potencial infecioso para o VIH nas 6 semanas prévias, bem como a existência de sinais e sintomas de um possível síndrome retroviral agudo, e em caso afirmativo, deverá ser solicitada a carga viral do VIH. o Se a fonte é desconhecida: assume-se o risco potencial de infeção. Se fonte presente, deverá testar anti- VIH 1 e 2. 3. Avaliação da vít ima No serviço de urgência deverá ser pedido: " Teste rápido anti -VIH 1 e 2 " Anticorpo anti -HBs (pois se negativo, deverá também ser feita profilaxia para VHB) " Anticorpo anti -VHC (este geralmente é feito apenas em ambulatório, dado que não implica nenhuma atitude imediata). 4. Informação a dar a vít ima $ Potencial benefício da profilaxia e eficácia não totalmente provada. $ Duração da profilaxia: 4 semanas. $ Risco de toxicidade. $ Importância de adesão terapêutica. $ Necessidade de follow-up. $ Promoção educacional. $ Manifestações clínicas de primoinfeção pelo VIH: febre, rash cutâneo, adenopatias, mialgias. 5. Profi laxia pós- exposição (PPE) " Esquema terapêutico: tenofovir 300mg + emtricitabina 200mg (fornecido como co- formulação Truvada®, 1 comprimido dia) + raltegravir 400 mg (Isentress®, 1 comprimido 12/12h.) " A profilaxia deve ser iniciada o mais precoce possível, preferencialmente dentro das primeiras 2h após exposição, nunca devendo ultrapassar as 72h. Se a vitima surge após as 72 horas, não tem indicação para profilaxia. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 86 | 155! " O tratamento tem a duração de 4 semanas. " No caso de a fonte ser VIH conhecida, deve tentar-se obter informação sobre tratamento antiretrovírico em curso, assim como testes de resistência, que poderão influenciar a escolha dos fármacos para profilaxia. " Se a fonte for VIH conhecida com resistências aos antiretrovíricos, ou se a vítima está grávida ou tem comorbilidades como IRC ou insuficiência hepática, poderá ser necessário o ajuste do esquema, pelo que deve ser sempre contactado um especialista na área do VIH. " A primeira toma deve ser no SU, e devem ser asseguradas as tomas até ao dia de avaliação em consulta, que deverá ser idealmente até 72h após. " Todas as mulheres em idade fértil devem fazer o teste de gravidez. " Alertar para os possíveis efeitos laterais da terapêutica: náuseas e vómitos, diarreia, fadiga e mialgias, falta de apetite. 6. Profi laxia pós-violação sexual: adicionalmente à profilaxia pós- exposição ao VIH, a vítima deve ser sempre orientada para as seguintes especialidades: " Avaliação por Ginecologia: contracepção de emergência, profilaxia das DST (Ceftriaxone 125 mg, im, dose única + Azitromicina 1g, vo, dose única + Metronidazol 2g, vo, dose única) " Avaliação por Medicina Legal " Apoio psicológico 7. Se o estado emocional da vítima não a permite tomar uma decisão, deve ser dada a primeira toma do esquema recomendado e reavaliar dentro de 24h. Algoritmo de atuação após-exposição não ocupacional a f luídos Exposição a fluído potencialmente infectante pelo VIH PPE não indicada excepto se suspeita clínica de sindrome retroviral agudo (SRA) Iniciar PPE tenofovir 300mg + emtricitabina 200mg (Truvada®, 1 comprimido dia) + raltegravi r 400 mg (Isentress®, 1 comprimido 12/12h.) Enviar à Consulta Externa de especialidade para reavaliação dentro de 72h Sim PPE não indicada. Sem necessidade de seguimento Exposição com risco significativo de transmissão de infecção VIH PPE não indicada. Sem necessidade de seguimento Exposição ocorreu há menos de 72h Fonte com infecção VIH confirmada ou desconhecida PPE não indicada Efetuar seguimento e serologias (C. Saúde Ocupacional / Médico Assistente) Fonte com teste rápido VIH negativo e não há evidênciade SRA Sim Sim Sim Não Não Não Não Teste rápido VIH indeterminado e suspeita de SRA PPE não indicada Inic iar PPE ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 87 | 155! Algoritmo de atuação após-exposição ocupacional a f luídos Algoritmo de atuação após violação sexual Exposição, percutânea ou outra, com risco significativo de transmissão de infecção VIH Iniciar Prof ilaxia tenofovir 300mg + emtricitabina 200mg (Truvada®, 1 comprimido d ia) + raltegravi r 400 mg (Isentress®, 1 comprimido 12/12h.) Enviar à Consulta Externa de especialidade para reavaliação dentro de 72h Sim Profilaxia não indicada; sem necessidade de acompanhamento Exposição foi um evento isolado /acidental? A vitima apresenta-se até 72h após a exposição Fonte é VIH + ou desconhecida PPE não indicada Efetuar seguimento e serologias (Médico Assistente) Sim Sim Sim Não Não Não Não Profi laxia não indicada Contacto directo da vagina, ânus ou boca com sémen ou sangue do violador? Iniciar Prof ilaxia tenofovir 300mg + emtricitabina 200mg (Truvada®, 1 comprimido dia) + raltegravir 400mg (Isentress®, 1 comprimido 12/12h.) Enviar à Consulta Externa de especialidade para reavaliação dentro de 72h Sim PPE não recomendada. Seguimento não recomendado Agressor desconhecido ou é VIH positivo? Ocorrência da exposição ≤ 72h? PPE não indicada Efetuar seguimento e serologias (Médico Assistente) Sim Sim Não Não Não $ Avaliação por Ginecologia: contracepção de emergência, profilaxia das DST (Ceftriaxone 125 mg, im, dose única + Azitromicina 1g, vo, dose única + Metronidazol 2g, vo, dose única) $ Avaliação por Medicina Legal $ Apoio psicológico ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 88 | 155! ! SÉPSIS, SÉPSIS GRAVE E CHOQUE SÉPTICO Graziela Carvalheiras Introdução A sépsis é definida como uma resposta inflamatória sistémica a uma infeção. Na sépsis verifica-se a libertação de várias citoquinas e mediadores inflamatórios, como consequência da estimulação do sistema imune, da ativação leucocitária e da resposta das células endoteliais. Esta resposta inflamatória é responsável pela lesão endotelial, vasodilatação e aumento da permeabilidade capilar, que no seu conjunto desempenham um papel fundamental na progressão da sépsis, para sépsis grave e disfunção múltipla de órgãos. Mesmo com terapêutica adequada, a mortalidade por sépsis grave ou choque séptico é elevada, podendo ultrapassar os 50%. No atual estado da arte, o que pode evitar a mortalidade e morbilidade associada a sépsis, sépsis grave e choque séptico é: a rapidez no diagnóstico, a precocidade da intervenção terapêutica, o suporte eficaz e precoce das funções vitais e o controlo rápido e eficiente do foco infecioso. No Curso de Fundamentos Básicos em Medicina de Urgência a abordagem da Sépsis, sépsis grave ou choque séptico será uma adaptação da Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Severe Sepsis and Septic Shock: 2012, pelo facto de nos restringirmos apenas à abordagem inicial, que corresponde à abordagem do doente na apresentação no Serviço de Urgência. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 89 | 155! Definições • SIRS (Systemic Inflammatory Response Syndrome): síndrome clínico caracterizado por uma desregulação da resposta inflamatória. Este termo refere-se não só a um processo infeccioso, mas também a outros processos não-infeciosos, tais como: doença autoimune, pancreatite, vasculite, tromboembolismo, queimaduras ou cirurgias. Na prática, SIRS e sépsis “precoce” são difíceis de distinguir, pelo que na presença de SIRS é obrigatório o despiste de infecção. • Sépsis: síndrome clínica que resulta de uma resposta inflamatória desregulada a um processo infeccioso. Significa SIRS + infecção (suspeita ou documentada). Infecção (documentada ou suspeita) e alguns dos seguintes critérios: Variáveis gerais • Febre (>38.3ºc) • Hipotermia (<36ºc) • Frequência cardíaca >90 bpm ou >2 SD acima do valor normal para a idade • Taquipneia • Alteração estado mental • Edema significativo ou balanço hídrico positivo (>20mL/kg em 24h) • Hiperglicemia (glicemia >140 mg/dL na ausência diabetes) Variáveis inf lamatórias • Leucocitose (WBC >12.000/uL) • Leucopenia (WBC< 4000/uL) • WBC normal com formas imaturas >10% • Proteina C-reativa plasmática (PCR) superior a 2SD acima do valor normal • Procalcitonina plasmática superior a 2SD acima do valor normal Variáveis hemodinâmicas • Hipotensão arterial (PAS <90 mmHg, PAM<70 mmHg, ou PAS diminuída >40mmHg no adulto ou 2SD abaixo do valor normal para a idade) Variáveis de disfunção de órgão • Hipoxemia arterial (PaO2/FiO2<300) • Oligúria aguda (diurese <0.5 ml/kg/h pelo menos durante 2h apos ressuscitação fluida adquada • Creatinina aumentada > 0.5 mg/dL ou 44.2 μmol/L) • Alterações coagulação (INR > 1.5 ou aPTT >60sg) • Ileo paralitico (ausência de sons intestinais) • Trombocitopenia (<100.000/μL) • Hiperbilirrubinemia (>4 mg/dL ou 70 μmol/L) Variáveis de perfusão tecidular • Hiperlactacidemia (>1 mmol/L) • Aumento do tempo preenchimento capilar SD: desvio padrão; PAS: pressão arterial sistólica. Tabela 1- Critérios Diagnóstico de Sépsis ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 90 | 155! • Sépsis grave: Sépsis com disfunção de órgão, como consequência da hipoperfusão tecidular, devido a infecção. Disfunção de órgão induzida pela sépsis • Hipotensão induzida pela sépsis • Lactatos acima do valor normal • Diurese <0.5 ml/kg/h por mais de 2h, apesar de ressuscitação fluidos adequada • Lesão pulmonar aguda com PaO2/ FiO2 <250 na ausência de pneumonia como fonte de infecção • Lesão pulmonar aguda com PaO2/ FiO2 <200 na presença de pneumonia como fonte de infecção • Creatinina >2.0 mg/dL (176 μmol/L) • Bilirrubina >2mg/dL (34.2 μmol/L) • Plaquetas <100.000/ μL • Coagulopatia (INR>1.5) Tabela 2 - Sépsis Grave • Choque séptico: Hipotensão induzida pela sépsis que persiste apesar de ressuscitação fluida adequada (definida como perfusão de 30mL/kg). Resulta da diminuição da resistência vascular sistémica, muitas vezes associada ao aumento do output cardíaco. • Disfunção múlt ipla de órgão (DMO): progressiva disfunção de órgãos no doente agudo. Fase final do espectro grave da SIRS e sépsis. Factores r isco para sépsis/sépsis grave/choque séptico • Idade ≥65 anos • Imunossupressão: por doenças autoimunes, imunodeficiências primárias ou adquiridas – como a infeção pelo VIH/SIDA, neoplasias, insuficiência renal crónica, insuficiência hepática crónica, asplenismo e uso de drogas imunossupressoras.• Diabetes • Pneumonia adquirida na comunidade • Bacteriemia • Internamento hospitalar recente • Fatores genéticos (por aumento da susceptibilidade a alguns microorganismos) Fatores de mau prognóstico " Febre mantida " Leucopenia " Idade> 40 anos " Algumas comorbilidades: SIDA, insuficiência hepática, cirrose, neoplasia, alcoolismo e imunossupressão " Foco de infeção não urinário " Infeção nosocomial " Cobertura antibiótica inadequada ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 91 | 155! Como atuar na sépsis grave? Uma vez identificado um doente com sépsis é necessário avaliar se esta conduz a hipoperfusão tecidular, com disfunção de órgão, i.e., se estamos perante um caso de Sépsis grave. A. Actuação precoce (“Early goal-directed therapy”) " Avaliar respiração: suplementação de oxigénio e monitorização com oximetria de pulso. Avaliação da necessidade de intubação e ventilação mecânica invasiva. " Avaliar perfusão: hipotensão é o sinal mais comum, mas sinais de hipoperfusão podem surgir sem hipotensão, sobretudo na fase inicial da sépsis. o Hipotensão: TA sistólica <70mmHg, PAM< 70mmHg, diminuição na TAS >40 mmHg. o Sinais de hipoperfusão de órgão: pele fria, taquicardia> 90bpm, sonolência e confusão mental, oligúria ou anúria. o Lactatos aumentados (> 2mmol/L). Pode ser a manifestação de hipoperfusão, mesmo na ausência de hipotensão, dai ser uma avaliação inicial obrigatória. " Colocação de acesso venoso. Um acesso venoso periférico poderá ser suficiente para a ressuscitação inicial, mas a maioria dos doentes com sépsis grave e choque séptico irá necessitar de um cateter venoso central (CVC). Na maioria dos casos, a sua colocação não é possível em ambiente de urgência, contudo um CVC tem a vantagem de se poder administrar vasopressores e fluidoterapia de uma forma mais rápida. Serve ainda como meio de monitorização hemodinâmica: pressão venosa central (PVC) e saturação O2 venosa central (SvO2). " Fluidoterapia A administração precoce de fluidos parece ser mais importante do que o volume e tipo de fluido a utilizar, para reduzir a mortalidade associada a sépsis. o Volume: a quantidade volume necessária para a ressuscitação é desconhecida. Grandes quantidades de fluidos endovenosos estão indicadas na terapêutica inicial da sépsis grave e choque séptico, exceto se existe evidência clinica ou radiológica de insuficiência cardíaca. Devem ser administrados, de forma rápida, bólus de 500mL de fluidoterapia, repetidos até se restabelecer a pressão arterial e a perfusão tecidular, no entanto os fluidos podem não ser vantajosos, e até perigosos quando não existe resposta hemodinâmica. Fluid challenge como abordagem inicial: 30 ml/kg de fluídos, a administrar em bólus de 500 mL. o Tipo de f luido - Preferir cristalóides (Soluções isotónicas: Cloreto de sódio 0.9%, Lactato de Ringer, Ionosteril /solução polieletrolítica; Soluções hipertónicas: cloreto sódio 7,5%, cloreto sódio 10% e cloreto sódio 20%) em vez de colóides (gelatinas, dextrano ou amido). - Não usar hidroxietilamido. - Considerar associar albumina (colóide) quando o doente necessita fazer grandes quantidades de cristalóide para manter a pressão arterial. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 92 | 155! " Suporte hemodinâmico: se choque séptico (i.e., sem resposta a fluid challenge.) o Vasopressores - Objectivo: PAM mínimo 65 mmHg - Administrar de preferência por cateter venoso central - Noradrenalina como vasopressor de eleição - Epinefrina em caso de taquicardia ou arritmias - Vasopressina pode ser usada como adjuvante, para aumentar a PAM ou diminuir a dose de noradrenalina - Dopamina apenas em doentes selecionados: baixo risco taquidisrritmia e bradicardia. o Inotrópicos: Se com o uso de vasopressores persistem sinais de hipoperfusão tecidular, apesar de PVC adequada, mas com SvO2 <70%, deve-se associar dobutamina. " Suporte adicional o Transfusão derivados do sangue - Glóbulos vermelhos (GV): no caso de persistir SvO2 <70%, apesar de PVC adequada com suporte vasopressor, deve-se transfundir GV para um hematócrito-alvo> 30%. Nas situações de choque séptico resolvido, devemos transfundir GV se hemoglobina ≤7g/dL, exceto se existe choque hemorrágico ou isquemia do miocárdio. - Não utilizar eritropoietina. - Plasma fresco congelado (PFC) está reservado para situações de alteração da coagulação e hemorragia ativa ou procedimentos invasivos. - Plaquetas: transfundir se valores <10.000/μL mesmo na ausência de hemorragia; se < 20.000/μL e risco hemorrágico; > 50.000/μL e o doente vai ser submetido a uma cirurgia, ou procedimento invasivo, ou se apresenta hemorragia ativa. o Corticoterapia - Utilizar no choque refractário a fluidoterapia e vasopressores. - Não é necessária a prova de estimulação ACTH - Usar hidrocortisona 200 mg/dia, de preferência em perfusão contínua. - Desmame posterior da hidrocortisona, quando o doente já não necessita de suporte vasopressor. Objectivos Da Ressuscitação -“Early Goal-Directed Therapy” O objetivo da ressuscitação é a recuperação rápida da perfusão tecidular, por forma a prevenir ou limitar a disfunção múltipla de órgão, e deste modo, reduzir a mortalidade. A ressuscitação deverá ser feita nas primeiras 6h de abordagem do doente, e não deverá ser atrasada pela espera de admissão na Sala de Emergência ou numa Unidade de Cuidados Intermédios ou Intensivos. Da ressuscitação fazem parte a fluid challenge e o suporte hemodinâmico. Com a ressuscitação pretende-se alcançar os seguintes objetivos: a) Pressão venosa central (PVC) 8-12 mmHg b) Pressão arterial média (PAM) ≥ 65 mmHg c) Diurese ≥ 0.5 mL/kg/h d) Saturação venosa central (SvO2) (veia cava superior) de 70% ou saturação venosa mista (artéria pulmonar) de 65%. Em doentes apenas com hiperlactacidemia o objetivo é a normalização dos lactatos. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 93 | 155! GapCO2: recentemente tem surgido na literatura a importância da avaliação da diferença entre a pco2 arterial e a pCO2 venosa central. Para valores> 5 mmHg significa que existe hipoxia regional, muitas vezes condicionada por defeitos mitocondriais, os quais podem falsear o valor da SvO2. B. Abordagem Do Foco Infecioso " Identificação do foco infecioso o História clínica e exame físico exaustivos. o Os biomarcadores ( PCR e procalcitonina) são inespecíficos para o diagnóstico de infeção, dado estarem presentes em outros estados inflamatórios. o Estudo imagiológico o Abordagem multidisciplinar se necessário: medicina interna, cirurgia, ortopedia, neurologia, etc. o Colheita de produtos para microbiologia (rastreio séptico): colher de preferência antes do antibiótico, mas nunca deverá atrasar a administração deste em mais de 45min. Colher todos os produtos possíveis: urina, secreções brônquicas, pus ou exsudados, LCR, hemoculturas (2 sets, de preferência uma colhida por via percutânea e outra através de um acesso vascular, exceto se colocado há <48h), ou outros fluidos orgânicos. Como as hemoculturas ficam estéreis em poucas horas após antibioterapia, deverão ser colhidos previamente." Erradicação do foco infecioso o Antibioterapia - Deverá ser administrado na primeira hora após o reconhecimento de sépsis grave/ choque séptico, de preferência após rastreio séptico. O atraso na administração do antibiótico correlaciona-se com o aumento da taxa de mortalidade. - Antibioterapia empírica inicial de largo espectro, mediante agente causal preditivo (bactéria, fungo ou vírus), sempre com a noção de posterior estreitamento do espectro, mediante identificação do agente infecioso e teste suscetibilidade ao antibiótico. - Nunca usar antibiótico no SIRS sem infeção associada. o Controlo do foco de infeção - Identificação do local anatómico de infeção, e no caso de ser necessária intervenção invasiva, esta deverá ocorrer nas primeiras 12h após o diagnóstico. - Remoção de cateteres e devices infetados; drenagem de abcesso, empiema; desbridamento cirúrgico ou amputação de infeção partes moles. - Em caso de intervenção, a drenagem percutânea é preferível à abordagem cirúrgica. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 94 | 155! Algoritmo de actuação na Sépsis Grave e Choque Séptico Controlo do foco de infecção Séps is Grave e Choque Séptico SIRS + infeção= SÉPSIS? (tabela 1) " Iniciar noradrenalina por CVC " Associar dobutamina se PVC 8-12 mmHg, mas SvO2 <70% " Transfundir GV se PVC 8-12 mmHg, mas SvO2 <70% " Hidrocortisona 200 mg/dia/ ev se persiste choque. " Dosear lactatos " Colher hemoculturas antes de administrar antibiótico, bem como outros produtos (não atrasar ATB > 45min) " Administrar ATB de largo espetro (durante a primei ra hora) " Se hipotensão ou lactatos ≥4 mmol/L: Fluid challenge: 30 ml/kg cristalóide, em bólus rápido de 500mL. SÉPSIS GRAVE? (tabela 2) Nas próximas 3h Persiste PAM < 65mmHg CHOQUE SÉPTICO Nas primeiras 6h de abordagem: Objectivos alcançados? o PVC: 8-12 mmHg o PAM ≥ 65 mmHg o Diurese ≥ 0.5 mL/kg/h o SvO2 ≥ 70% o Lactatos normais o Gap CO2 < 5 mmHg ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 95 | 155! ! NEUTROPENIA FEBRIL Graziela Carvalheiras Introdução Apesar dos grandes avanços na prevenção e tratamento da neutropenia febril (NF), esta continua a ser uma das principais preocupações em relação às complicações da quimioterapia nas doenças oncológicas. A neutropenia febril (NF) é uma das principais causas de morbilidade, utilização de recursos de saúde e de perda de eficácia da quimioterapia, quer pela influência que tem no atraso da mesma, bem como na redução de dose. A mortalidade associada a NF tem vindo a diminuir, mas continua a ser significativa, sendo cerca de 5% nos tumores sólidos e cerca de 11% nas doenças hematológicas oncológicas. A NF deve ser encarada como uma emergência médica e o seu sucesso depende do reconhecimento imediato e, rápida instituição de tratamento. Definições " Neutropenia: contagem absoluta de neutrófi los <1500 cel./ μL. Contudo, o risco de infeção grave aumenta para valores <500 cél./μL, sobretudo se tem uma duração> 7 dias. " Neutropenia febri l : temperatura oral> 38,5ºc ou duas medições sucessivas> 38,0ºc com duração de 2h e, contagem absoluta de neutrófilos <500 cél./μL. " Nos doentes sob corticoterapia, a febre pode estar “mascarada”. Assim, nestes doentes a presença de síndrome de resposta inflamatória sistémica (SIRS)- taquicardia, polipneia e hipotensão deve levantar a suspeita clinica de NF. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 96 | 155! Avaliação do doente com neutropenia febri l A. Avaliação do r isco de complicações graves " Doentes de baixo-risco: doentes com neutropenia <500 cel/ μL com duração ≤7 dias, ausência de comorbilidades ou ausência de insuficiência hepática ou renal graves. " Doentes de alto-r isco: doentes com neutropenia <500 cel/ μL com duração> 7 dias, e presença de pelo menos uma das seguintes condições: - Comorbilidades com potencial de risco de complicações: instabilidade hemodinâmica, mucosite oral que interfere com a deglutição ou mucosite gastrointestinal que causa diarreia grave, sintomas gastrointestinais (dor abdominal, náuseas e vómitos, diarreia), alterações do estado neurológico na apresentação, infeção de cateter vascular (sobretudo cateter tunelizado), infiltrados pulmonares de novo ou hipoxemia, doença pulmonar crónica, infeção complexa na data do diagnóstico. - Uso de alemtuzumab nos últimos 2 meses. - Aparecimento da febre quando o doente neutropénico está hospitalizado. - Neoplasia em progressão. - Transaminases> 5x valor normal. - Insuficiência renal com clearance creatinina <30 mL/min. - MASCC risk (Multinational Association for Supportive Care in Cancer) <21. Característ icas Score Neutropenia febril sem sintomas ou sintomas ligeiros 5 Ausência de hipotensão (TA sistólica > 90 mmHg) 5 Ausência de doença pulmonar obstrutiva crónica 4 Doença oncológica hematológica ou tumor sólido sem infeção fúngica prévia 4 Ausência de desidratação que exige fluidoterapia ev 4 Neutropenia febril com sintomas moderados 3 Doentes em ambulatório 3 Idade <60 anos 2 Score ≥ 21 significa baixo risco de complicações. J Clin Onc (2000)18:3038-3051 Tabela 1 - MASCC risk score B. Avaliação diagnóstica do doente com neutropenia febri l " História cl inica completa e exaustiva, com revisão de todos os aparelhos e sistemas. Importa ainda saber: esquemas e datas de quimioterapia, uso de antibioterapia profilática previa, uso concomitante de corticoides, infeções previas e isolamento de agentes infeciosos com antibiograma, cirurgias recentes, presença de cateteres centrais, presença de causas não-infeciosas para a febre. " Exame físico completo, com ênfase para a pele, cavidade oral, orofaringe, pulmões, abdómen e região perianal. A ausência de pús é frequente. Sinais e sintomas de uma infeção podem apenas surgir pela primeira vez, aquando da recuperação da neutropenia. " Hemograma completo: determina a amplitude da neutropenia. Deverá ser uma avaliação diária. " Função renal, função hepática: Para definir as comorbilidades " Hemoculturas: 2 sets de locais diferentes; se presença de um cateter venoso central: uma periférica e outra colhida de um acesso venoso central. A febre pode ser a única manifestação de uma bacteriemia. A colheita de hemoculturas devera preceder sempre o início de antibioterapia empírica. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 97 | 155! " Exames culturais de locais suspeitos: urina, secreções brônquicas, líquido cefalorraquidiano, liquido ascítico, exsudado feridas partes moles, etc. " Marcadores fúngicos séricos: Para os doentes NF de alto risco de complicações, já internados. Por exemplo: pesquisa de Aspergillus galactomanano. " Exames de imagem. Não devem atrasar o início da antibioterapia empírica. A tomografiacomputorizada é mais útil no diagnóstico. O rx pulmonar pode não mostrar alterações durante o estado de neutropenia grave, podendo surgir os infiltrados após a recuperação da neutropenia. " Investigação adicional: broncofibroscopia, biópsia. Tratamento " Tratamento Empírico Vários estudos documentam uma mortalidade elevada (até 70%) quando se verifica um atraso no início de antibioterapia empírica. Todos os doentes oncológicos que se apresentam com NF devem iniciar antibioterapia empírica de largo espectro após colheita de hemoculturas, e antes de prosseguirem com a investigação etiológica. O tempo de inicio da antibioterapia empírica não deverá exceder os 30 minutos. " Tratamento Nos Doentes De Baixo Risco - Antibioterapia oral pode ser utilizada com segurança nos doentes de baixo risco de complicações, nomeadamente naqueles sem instabilidade hemodinâmica, sem falência de órgãos, ausência de leucemia aguda, ausência de pneumonia, ausência de cateter central e ausência de infeção grave das partes moles. - Esquema antibioterapia empírica: ciprofloxacina + amoxicilina e ácido clavulânico. - Podem iniciar antibioterapia e.v. e após 48h de apirexia pode passar a oral. " Tratamento Nos Doentes De Alto Risco - Exigem internamento hospitalar. - Cobertura empírica deve incluir MRSA e bacilos gram negativos multirresistentes. - Situações especiais: o Suspeita de infeção cateter venosa central (CVC) - Colher uma hemocultura periférica e outra do CVC. - Se doente estável, não é necessária a remoção, até confirmação da infeção. - Administrar vancomicina através do CVC. - Remoção do CVC se: infecção CVC confirmada, febre e bacteriemia persistentes apesar de antibioterapia adequada, infecção micobactérias atípicas, candidemia e infeção por S. aureus. o Pneumonia - Cobertura de agentes atípicos com Legionella e Mycoplasma. Associar azitromicina + amoxicilina/ acido clavulânico. - Cobertura de Pneumocystis jirovecci em caso de insuficiência respiratória grave (cotrimoxazol em alta dose) o Celuli te partes moles - Associar vancomicina o Infecção abdominal ou pélvica - Associar metronidazol ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 98 | 155! o Diarreia - Obriga a pesquisa da toxina Clostridium o Candidíase - Risco de candidémia em doentes com neutropenia prolongada, sobretudo doenças oncológicas hematológicas. As hemoculturas podem demorar vários dias a positivar. - Iniciar tratamento empírico para candidíase invasiva (candidemia) nos doentes que mantêm febre apesar de antibioterapia de largo espectro. o Infeção vír ica suspeita - Iniciar aciclovir empírico. - Ganciclovir reservado para situações de infecção invasiva por citomegalovírus. Algoritmo de actuação na neutropenia febri l no serviço de urgência 60 m in 30 m in assume-se Neutropenia Febr il Avaliação inicial Temperatura, PA e pulso, FR e GSA História clinica Exame físico Intervenção inicial - Fluidoterapia - Hemograma completo - Hemoculturas: CVC + periférica, ou então 2 periféricas separadas - Bioquímica: glucose, ureia e creatinina, Na+ e K+, enzimas hepáticas, PCR Febre + quimioterapia nas 2 semanas prévias Sépsis grave? Estratificação risco complicações Surviving Sepsis Campaign Doente com baixo Doente com alto risco Antib ioterapia empír ica Invest igação etiológica adicional Colheita de produtos para microbiologia Exames de imagem Outros Internar ATB ev (imipenem + vancomicina) Considerar tratamento ambulatório ATB oral (ciprofloxacina + amoxicilina e ác. clavulânico) ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 99 | 155! ! FEBRE NO VIAJANTE REGRESSADO Sandra Xará Definição Qualquer estado febril com ou sem outra sintomatologia associada, com início durante ou após uma viagem a outra área geográfica fora do nosso país. A febre pode ser uma manifestação de um processo minor e auto-limitado ou pode ter subjacente uma doença rapidamente progressiva e ameaçadora de vida. A avaliação deve focar três questões fundamentais: • Quais as infecções possíveis de contrair tendo em conta o destino e quando é que a exposição pode ter ocorrido? • Qual dessas infecções é mais provável tendo em conta os achados clínicos, medidas pré-viagem e potenciais exposições? • Qual ou quais dessas doenças é tratável ou transmissível ou ambas? Existem, assim, informações essenciais e ter em consideração na história clínica do viajante regressado: Geografia • Países visitados ou de passagem, zonas rurais ou urbanas • Datas da viagem e duração de estadia em cada local (incluindo aeroportos) • Meios de transporte • Tipo de acomodação Actividades e exposições • Relações sexuais ou contactos íntimos (tipo, número de parceiros, uso de protecção) • Contacto com animais ou produtos de origem animal • Presença de artrópodes • Contacto com agulhas ou exposição a sangue (agulhas partilhadas, injecções, acupunctura, tatuagens, piercings, procedimentos dentários, transfusões…) • Ingestão de água não tratada, alimentos crus, produtos não pasteurizados • Contacto com água e solo (actividades recreativas como montanhismo, nadar em lagos, caçar...) ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 100 | 155! Factores relacionados com o hospedeiro • Idade e género • Co-morbilidades e antecedentes cirúrgicos • Infecções passadas • Imunizações • Medicação crónica • Consulta pré-viagem • Uso de terapêutica profilática • Gravidez Sintomas e achados cl ínicos Uma vez que existem inúmeras entidades patológicas susceptíveis de contrair em viagem, cada uma com apresentação clínica variável, os sintomas podem ser os mais variados ou o doente se apresentar apenas com um quadro febril. Achados clínicos comuns e infecções associadas ACHADOS CLÍNICOS COMUNS INFECÇÕES A CONSIDERAR Febre + rash Dengue, chikungunya, ricketsiose, febre entérica, síndrome retroviral agudo, sarampo Febre + dor abdominal Febre entérica, abcesso hepático amebiano Febre + contagem leucocitária normal ou baixa Dengue, malária, ricketsiose, febre entérica, chikungunya Febre + hemorragia Febres hemorrágicas virais, meningococemia, leptospirose, rickettsiose Febre + eosinofilia Shistossomíase aguda, fascíola Febre + infiltrados pulmonares Legionelose, shistossomíase aguda, febre Q Febre + alteração do estado de consciência Malária cerebral, meningoencefalites víricas ou bacterianas, tripanossomíase africana Síndrome mononucleósido Epstein-Barr, citomegalovirus, toxoplasmose, síndrome retroviral agudo Febre persistente (> 2 semanas) Malária, febre entérica, EBV, CMV, toxoplasmose, síndrome retroviral agudo, shistossomíase aguda, brucelose, tuberculose, febre Q, leishmaniose visceral Febre com início> 6 semanas após viagem Malária a P. vivax, hepatite aguda (B, C ou E), tuberculose, abcesso amebiano O exame físico deve incluir a avaliação de existência de lesões cutâneas, linfadenopatias, alterações da retina ou conjuntiva, visceromegaliascomo hepatomegalia ou esplenomegalia, lesões genitais e achados neurológicos. Alguns sinais requerem intervenção urgente, tais como: • Manifestações hemorrágicas • Disfunção respiratória • Instabilidade hemodinâmica • Confusão, letargia, rigidez terminal da nuca, alterações neurológicas focais • Rash cutâneo • Diarreia e vómitos persistentes ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 101 | 155! Testes laboratoriais e exames auxil iares de diagnóstico A primeira avaliação de um doente que regressa dos trópicos com febre, deve incluir: • Hemograma completo • Bioquímica com enzimas hepáticas • Sedimento urinário • Hemoculturas • Esfregaço sanguíneo para malária • Radiografia do tórax Qualquer estudo adicional estará dependente da avaliação da exposição e outros factores. Se há suspeita de malária por Plasmodium falciparum, o teste deve ser feito com urgência e, caso seja negativo, deve ser repetido. Um primeiro teste negativo não deve adiar o início de terapêutica anti-palúdica. Doenças potencialmente adquiridas na África Subsaariana Intervalo entre exposição e instalação da febre Incubação curta (7 a 10 dias) Incubação intermédia (> 1 mês) Incubação longa (> 3 meses) Transmissão vectorial • Malária • Febre Amarela • Dengue • Chikungunya • Febre Rift Valley • Tifo • Miíase • Malária • Tripanossomíase Africana • Leishmaniose • Malária • Leishmaniose • Oncocercose • Tripanossomíase Africana • Filaríase Transmissão por ingestão de água e al imentos • Diarreia Viajante • Cólera • Febre Tifóide • Hepatite A • Hepatite E • Paragonimíase • Dracunculíase • Amebíase • Hidatidose • Paragonimíase • Dracunculíase • Amebíase Outras • Marburg • Febre de Lassa • Ébola • Febre Hemorrágica da Crimeia-Congo • Doença meningocócica • Praga • Raiva • Síndrome retroviral agudo • Tunguíase • Shistossomíase • Hepatite C • HIV • Brucelose • Febre Q • Poliomielite • HIV • Hepatite B • Hepatite C • Raiva • Tuberculose • Brucelose • Strongyloides ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 102 | 155! Doenças potencialmente adquir idas na Ásia Intervalo entre exposição e instalação da febre Incubação curta (7 a 10 dias) Incubação intermédia (>1 mês) Incubação longa (> 3 meses) Transmissão vectorial • Malária • Encefalite japonesa • Dengue • Chikungunya • Tifo • Malária • Malária • Filaríase Transmissão por ingestão de água e al imentos • Diarreia Viajante • Cólera • Febre Tifóide • Hepatite A • Hepatite E • Amebíase • Amebíase Outras • Raiva • Leptospirose • SARS • Influenza • Hantaviroses • Febre Hemorrágica da Crimeia-Congo • Síndrome retroviral agudo • Melioidíase • Shistossomíase • Hepatite C • HIV • Brucelose • Larva migrans cutânea • Melioidíase • Febre Q • Raiva • Tuberculose • HIV • Hepatite B • Hepatite C • Poliomielite • Brucelose • Strongyloides • Melioidíase Doenças potencialmente adquiridas na América Central e Sul Intervalo entre exposição e instalação da febre Incubação curta (7 a 10 dias) Incubação intermédia (> 1 mês) Incubação longa (> 3 meses) Transmissão vectorial • Malária • Febre Amarela • Dengue • Febre maculosa das montanhas rochosas • Malária • Leishmaniose • D. Chagas • Malária • Leishmaniose • D. Chagas • Filaríase Transmissão por ingestão de água e al imentos • Diarreia Viajante • Cólera • Febre Tifóide • Ciclosporidiose • Giardíase • Hepatite A • Coccidioidomicose • Ciclosporidiose • Giardíase • Amebiase • Amebiase Outras • Leptospirose • Histoplasmose • Sindrome retroviral agudo • Hantaviroses • Tunguíase • Shistossomíase • Coccidioidomicose • Histoplasmose • Miíase • Blastomicose • Brucelose • Larva migrans cutânea • Febre Q • HIV • Hepatite B • Hepatite C • Brucelose • Strongyloides • Bartonelose ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 103 | 155! Fluxograma de actuação em caso de suspeita de malária Febre em via jante regressado Doente regressado de zona endémica de malária por P. falciparum Orientação para reavaliação pela especialidade Colocar outras hipóteses diagnósticas: - Febre tifóide - Ricketsioses - Dengue - Brucelose - ITU’s - Inf. Respiratórias - Leptospirose! Doente regressado de zona não endémica da malária Doente regressado de zona endémica de malária não falciparum Colhe H + BQ + gota espessa Aguarda resultado para iniciar Tx Doente com critérios de gravidade: - Agitação - Prostração - Confusão - Convulsões - Icterícia - Sinais hemorragia - Hiperventilação Doente sem critérios de gravidade Continuar estudo com H + BQ + HC + Rx tórax + serologias de acordo com epidemiologia É uma emergência médica! INICIAR DE IMEDIATO TX EV COM QUININO + DOXI Orientar para Unidade de Cuidados Intensivos ou Intermédios Iniciar quinino e doxi EV; Internamento Colhe H + BQ + gota espessa e aguarda resultado Presença de: - Anemia - Hiperlactacidemia - Hipoglicemia - Hiperparasitemia Tx em ambulatório com: cloroquina + primaquina Iniciar Tx VO com Malarone, Eurartesim ou quinino + doxiciclina Não ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 104 | 155! ! INFECÇÕES DA PELE E TECIDOS MOLES Sandra Xará Definição As infecções da pele e tecidos sub-cutâneos classificam-se dependendo do tipo de lesão e dos agentes etiológicos mais comuns. Estes podem ser bactérias, fungos ou vírus. São caracterizadas por inflamação aguda, difusa, edematosa, supurativa e disseminada, que atinge a derme e o tecido subcutâneo e frequentemente estão associadas a sintomas sistémicos como mal-estar e febre. Infecções necrotizantes dos tecidos moles atingem profundamente o tecido subcutâneo resultando na destruição da fáscia e do tecido adiposo, podendo ser potencialmente fatais e obrigando frequentemente desbridamento cirúrgico. Erisipela - Caracteriza-se por envolvimento importante dos vasos linfáticos da derme. Habitualmente a área de inflamação destaca-se com algum relevo, indicando distinta demarcação entre o tecido envolvido e o normal. É causada por Streptococos β - hemolítico do grupo A, menos frequentemente do grupo C ou G e, mais raramente, por Staphylococcus aureus. A erisipela por Streptococos β - hemolítico do grupo A é a causa mais comum de infecção grave dos tecidos moles em indivíduos saudáveis. Celul i te - É um processo infeccioso que atinge a derme profunda e o tecido subcutâneoe nem sempre é clara a distinção entre tecido infectado e não infectado. S. aureus e Streptococos do grupo A são os agentes etiológicos mais comuns mas ocasionalmente outras bactérias podem ser implicadas, como o Haemophilus influenzae, bacilos Gram-negativos e, ainda, fungos, como Cryptococcus neoformans. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 105 | 155! Sintomatologia Embora as duas condições, erisipela e celulite, quando típicas, possam ser distinguíveis, há uma variabilidade do envolvimento tecidual, que torna a diferenciação nem sempre tão clara. Ambas as condições apresentam manifestações de sinais locais de inflamação (eritema, edema, calor e dor) e, na maioria das vezes, febre, sendo a linfangite e/ou a linfadenite também frequentes. A infecção cutânea, frequentemente, surge em decorrência de ruptura da integridade da epiderme. A porta de entrada pode ser distante, por exemplo das fissuras interdigitais dos pés associadas à celulite acima do tornozelo ou da erisipela da face em decorrência da colonização da nasofaringe por Streptococos do grupo A, particularmente em quadros de rinite e sinusite. Há casos em que a porta de entrada não é aparente, nem são evidentes os focos locais e/ou distantes de infecção. A celulite pode ocorrer por meio de porta de entrada em qualquer local mucocutâneo ou, menos frequentemente, por via hematogénica até aos tecidos moles. Marcadores bioquímicos Não existe nenhum marcador específico. Em geral, são observadas alterações hematológicas, como a leucocitose e elevação da velocidade de sedimentação. Os títulos de anti-estreptolisina O (ASO) poderão estar elevados após as infecções estreptocócicas, mas, em geral, reflectem infecção prévia. O estudo também deve ser dirigido à avaliação da etiologia, essencialmente quando se está perante um quadro mais grave, com atingimento sistémico. Assim, devem ser colhidas hemoculturas e, na existência de exsudado, este deverá ser colhido para estudo microbiológico. Pode ainda ser realizada cultura de um fragmento da borda da lesão primária. As culturas para fungos e micobactérias estão indicadas para os casos atípicos. Exames auxi l iares de diagnóstico A realização de ecografia da zona afectada pode ser útil para avaliação da extensão da inflamação e presença de colecções. O ecodoppler pode ser utilizado quando surge a dúvida de presença de trombose venosa. O exame radiográfico das áreas envolvidas pode ser útil para identificar a presença de gás nos tecidos moles e o comprometimento difuso desses tecidos. Entre os exames de imagem, a ressonância magnética é a mais sensível para o diagnóstico da celulite infecciosa aguda grave, diferenciando entre piomiosite, fasciíte necrotizante e celulite infecciosa com ou sem abscesso. Factores de risco para infecção por MRSA Hospitalização recente ou residência em lar Terapêutica antibiótica recente Infecção por VIH MSM Toxicodependência Diabetes Hemodiálise Tabela 1 ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 106 | 155! Fluxograma de actuação diagnóstica e tratamento Infecção de pele e tecidos moles Localizada não havendo manifestações sistêmicas Iniciar tratamento empírico com amox/clav VO Colher H + BQ + HC + aspirado (se abcesso). Realização de imagem (ver EAD) Celulite grave ou atingimento sistémico (febre, arrepios; taquicardia) Em caso de agravamento da lesão em 48-72h ou não resolução com beta-lactâmico em 5 dias, reavaliar. (afastar presença de coleção não drenada e considerar cobertura para MRSA) Após colheita de análises iniciar empiricamente ATB EV Encaminhar para procedimento invasivo, caso justifique. Se risco de infecção por MRSA (tabela 1), iniciar vancomicina ou linezulide. Se não existir risco de infecção por MRSA, iniciar: ceftriaxone ou amox/clav ou penicilina. Internamento. Reavaliação de ATB segundo TSA ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 107 | 155! ! CEFALEIAS AGUDAS Rui Felgueiras Primeiro passo na abordagem do doente com cefaleia: distinção entre cefaleias primarias/idiopáticas e secundarias. Cefaleias Primárias Cefaleia tipo tensão • Duração de 30 minutos a 7 dias • Bilaterais • Pressão (não pulsátil) • Leves a moderadas • Não agravadas pelo exercício • Duração de 4-72h • Unilateral • Pulsátil • Moderada a severa • Agravada pelo exercício • Náuseas ou vómitos • Foto e fonofobia • Unilateral orbital, supraorbital ou temporal • Severa ou muito severa • Duração entre 15-180 minutos • Com pelo menos um sintoma disautonómico ipsilateral à cefaleia Enxaqueca Cluster Outras cefaleias trigemino-autonómicas • Hemicrania paroxística • Hemicrania continua • SUNCT • SUNA Outras cefaleias primárias ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 108 | 155! Bandeiras vermelhas de alerta para cefaleias secundárias • Cefaleias de novo em doente com mais de 50 anos • Máxima intensidade em segundos ou minutos (thunderclap headache) • Cefaleia posterior com rigidez nucal • Alterações na visão • Alterações da consciência • Síncope • Imunossupressão/HIV • História de malignidade • Durante a gravidez ou no pós parto • História prévia de abordagem neurocirúrgica, nomeadamente shunt • Associada a crises convulsivas Exames auxil iares de diagnóstico a pedir em cada caso part icular Cefaleias Secundárias Trauma Vascular (cervical ou craniana) Patologia não vascular intracraniana Uso ou abstinência de substâncias Infeção Perturbações da homeostase Outras Exames Auxi l iares de Diagnóstico HSA / Trauma / Tumor TC simples Trombose de seios venosos Apoplexia da hipófise Encefalopatia hipertensiva (PRES) Meningite, HSA, hipertensão intracraniana benigna Glaucoma agudo Arterite temporal MRI / MRV Punção lombar Avaliação por oftalmologia VS Ti po s de e xa m es a p ed ir Se gu nd o a su sp eit a clí ni ca ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 109 | 155! Abordagem de tratamento em regime de serviço de urgência Cefaleia Primária Tratar causa secundária Cluster Secundária Dor ligeira a moderada Dor moderada a severa • Oxigénio 6-10L em mascara facial • Sumatriptano SC • Paracetamol PO • Ibuprofeno PO • Aspirina PO • Aspegic EV 1g ou Cetoroloac EV 30mg e metoclopramida SumatriptanoSC (mais eficaz no início da enxaqueca) Considerar corticoides Opióides? Considerar corticoides Opióides? ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 110 | 155! ! SINTOMAS E SINAIS NEUROLÓGICOS AGUDOS Rui Felgueiras Definição A Definição de sintoma neurológico focal: sintomatologia secundária a disfunção neurológica de um determinado local (focal) do sistema nervoso central, podendo ter uma etiologia isquémica (quando respeita território vascular e se presume essa etiologia) ou outra. Sintomas focais • Sintomas motores - Fraqueza ou descoordenação de um lado do corpo, em todo o hemi-corpo ou apenas em parte (hemiparésia, monoparésia ou apenas a mão) - Fraqueza simultânea bilateral* - Dificuldade na deglutição* - Desequilíbrio* " Alterações da fala/l inguagem - Dificuldade em entender ou expressar-se - Dificuldade na leitura (dislexia) ou na escrita - Dificuldade no calculo - Fala arrastada* " Sintomas sensit ivos - Alteração da sensibilidade de um lado do corpo (todo ou parte) " Sintomas visuais - Perda de visão monocular (em todo ou parte) - Perda de visão de metade ou um quarto do campo visual - Cegueira bilateral - Visão dupla* " Sintomas vestibulares - Sensação de movimento do ambiente ou do próprio* " Sintomas cognit ivos/comportamentais - Dificuldade em se vestir (apraxia do vestir) ou de outras tarefas - Esquecimento* " Sintomas assinalados com * - não determinam necessariamente uma etiologia vascular excepto se documentado por imagem lesão congruente com o défice ou se associa a outros défices neurológicos focais definitivos. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 111 | 155! Sintomas neurológicos não focais " Normalmente não causados por isquemia cerebral focal " Podem contudo ter outras causas graves e eventualmente neurológicas o Fraqueza generalizada - Miastenia gravis - Guillain-Barré - Botulismo - Mielopatias - Depressão o Tonturas/”cabeça leve” - Causas cardíacas (arritmias, estenose aórtica, enfarte agudo do miocárdio, síncope vasovagal, etc) o Hipotensão postural - secundaria a desidratação, iatrogénica a anti-hipertensores ou em contexto de neuropatias autonómicas o Sindromes confusionais/delirium - alterações tóxico-metabólicas Definição de AIT " Síndrome clínico caracterizado por perda aguda de função cerebral ou monocular, cujos sintomas duram menos de 24h e se julgam ser devidos a um inapropriado aporte de sangue cerebral ou ocular consequente de baixo fluxo, trombose ou embolismo associado a doença das artérias, coração ou do sangue. Principais característ icas de um AIT " Início agudo/abrupto " Sintomas de perda de função – défices neurológicos focais " Sintomas máximos desde o início (ou mais ou menos assim) " Sintomas resolvem em menos de 24h (ainda que a maioria dure minutos a poucas horas) " Imagem cerebral pode mostrar ou não lesão Diagnósticos diferenciais de AIT " Síncope " Aura de enxaqueca (com ou sem cefaleia) " Crises epilépticas parciais (focais) " Somatização/hiperventilação " Lesão estrutural intracraniana " Amnésia global transitória " Lesão desmielinizante " Drop attacks " Alterações metabólicas (hipo ou hiperglicemia, hiponatrémia) " Mononeuropatia / radiculopatia " Miastenia gravis " Catalepsia ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 112 | 155! Fluxogramas de atuação Sintomas Neurológicos Agudos Focais Outros diagnósticos diferenciais Não Focais Procurar causas não primariamente neurológicas AIT / AVC AVC ≤ 4,5h > 4,5h de evolução Estabilizar doente e estudá-lo de forma a evitar recorrência Via Verde AVC Excluir contra-indicações para trombólise Confirmar anamnese Exame Neurológico, objectivo e NIHSS TAC cerebral ; TAC perfusão ; Angio-TAC Análises • Excluir hemorragia • Avaliar área enfartada/penumbra • Documentar o vaso ocluído Excluir alterações hematológicas que contra- indiquem a trombólise Tratamento Administrar rt-PA 0,9mg/Kg (máximo 90 mg) 10% em bólus e restante em perfusão numa hora Ponderar trombectomia nos casos com contraindicação para trombólise e nos que não melhoraram com o rt-PA ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 113 | 155! Critérios de inclusão na via verde AVC • Tratamento de reperfusão no AVC isquémico agudo (EV e IA) o Diagnóstico clínico de AVC isquémico agudo moderado a grave na circulação cerebral anterior** ou posterior (oclusão da artéria basilar) - **para tratamento EV: NIH > 6 (NIHSS mais baixos poderão justificar trombólise se o défice for incapacitante); para tratamento IA: oclusão de artéria de grande/médio calibre documenta por angio-TC e NIH> =10 com afasia ou NIH>=12 o Circulação anterior: sintomas com início há < 4,5 horas para tratamento EV ou < de 8 horas para tratamento IA o Circulação posterior: sintomas com início há <12 horas (apenas tratamento IA)*** - *** Se o tratamento IA não estiver disponível de imediato, inicia-se trombólise EV dentro dos limites da janela terapêutica. o Sintomas presentes pelo menos durante 30 minutos e ainda presentes na altura do início do tratamento EV/IA o Esperança de vida > 90 dias o TC cerebral efetuada antes do início do tratamento excluiu hemorragia intracraniana Critérios de exclusão na via verde AVC • Critérios de exclusão absolutos (EV e IA) o Sinais neurológicos a melhorarem rapidamente (em 30 minutos) o Défice neurológico minor (ataxia isolada; alteração sensitiva isolada; disartria isolada; fraqueza muscular mínima) o Impossibilidade da realização de TC o Diátese hemorrágica adquirida ou hereditária o Uso de heparina nas 48h prévias com tempo de protrombina 2x superior ao normal o Uso de anticoagulantes orais com INR >3 o Contagem de plaquetas <30.000/μl o Glicose sérica <50mg/dl ou >400mg/dl o Hipertensão arterial sustentada - pressão arterial sistólica >185 mmHg ou pressão arterial diastólica >110mmHg • Critérios de exclusão relativos o Idade inferior a 18 anos o Convulsões no início do AVC o Gravidez o Desconhecimento exato da hora de início dos sintomas (incluindo “Waking up stroke”) ou mais de 8h de sintomas na circulação anterior • Contra-indicações absolutas para tratamento com fármaco trombolít ico o Uso corrente da anticoagulante com tempo de protombina >15 segundos ou INR>1,7 o Uso de heparina nas 48 horas prévias e um tempo parcial de tromboplastina prolongado o Contagem de plaquetas <100.000/μl o AVC ou TCE de média gravidade nos 3 meses prévios o Cirurgia major nos 14 dias prévios ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . .. 114 | 155! o Hemorragia intracraniana prévia (em qualquer altura) o Hemorragia gastrointestinal ou urinária nos 21 dias prévios o História de doença inflamatória intestinal, varizes esofágicas, úlcera gastrointestinal ou aneurisma da aorta o Enfarte do miocárdio recente (nos 3 meses prévios) o Presumível embolo séptico, endocardite infecciosa, pericardite presumível, presença de trombo ventricular ou aneurisma relacionados com enfarte agudo do miocárdio o Retinopatia hemorrágica o Punção arterial ou venosa complicada recente (até 7 dias), num local não compressível ou não diretamente acessível o Parto recente • Critérios de exclusão para tratamento IA o absolutos - Qualquer um dos critérios de exclusão absolutos para tratamento de reperfusão - História de alergia grave a contraste - Enfarte cerebral extenso em território das artérias cerebrais médias com tradução em TC sem contraste e confirmado com estudo da perfusão cerebral por TC o relativos - Idade superior a 80 anos - Tortuosidade do arco aórtico e/ou dos troncos supra-aórticos que previsivelmente inviabilize a cateterização da artéria cerebral ocluída - Estenose severa, oclusão, dissecção ou sinais de vasculite/displasia fibromuscular da artéria de acesso ao vaso cerebral ocluído Abordagem ao diagnóstico de síndrome vert iginoso Síndrome Vert iginoso Etiologia central Etiologia periférica Neuronite vestibular VPPB Meniére AIT/AVC Lesão inflamatória Lesão estrutural Migraine ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 115 | 155! Síndrome Vert iginoso Peri férico Duração da vertigem < 1 min Induzida pelo movimento Associado a náuseas Nistagmo induzido por manobras como Dix-Hallpike Episódios recorrentes Associado a tinitus, hipoacusia, náusea Audiograma anormal Neuronite vestibular VPPB Episódio único e prolongado de vertigem Dias a semanas Náuseas/desequilíbrio Head-trust positivo Meniére Síndrome Vert iginoso Central Doentes com FRV Início abrupto, espontâneo Outros sintomas associados de défices do tronco/cerebelo Nistagmo central(vertical) Início associado a triggers habituais de enxaqueca Duração de segundos a dias Associado a cefaleia foto e fonofobia Exame normal ou com alterações inespecíficas Etiologia inflamatória AIT / AVC Doentes jovens sem FRV Início subagudo Duração de dias a semanas Associado a outros sintomas neurológicos focais Migraine ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 116 | 155! ! COMA E ALTERAÇÕES DA CONSCIÊNCIA Arlindo Guimas Depressão do estado mental Estupor / coma Abordagem doente crítico: ABCDE OLHOS - Pupilas (forma, tamanho, simetria, reflexo pupilar) - Midríase unilateral, sem reflexo ! compressão III par - Miose bilateral ! lesão pôntica, opióides, colinérgicos - Midríase bilateral ! anticolinérgicos, morte tronco - Fundo de olho: papiledema, hemorragia - Movimentos extra-oculares - Olho com desvio lateral e para baixo ! parésia III par - Olho com desvio medial ! parésia VI par - Skew deviation ! lesão tronco cerebral - Olhar conjugado desviado para o lado não parético ! lesão cortical - Olhar conjugado desviado para o lado parético ! lesão pôntica - Olhar conjugado na convulsão ! olha para o lado oposto à lesão e que convulsiva - Roving eyes ! tronco crebral íntegro; Bobbing eyes! lesão ponte bilateral - Reflexos oculocefálicos (risco de lesão cervical)!se presente, não há lesão estrutural no III par, ponte e tegumento mas perda da inibição cortical; se assimétrico, há lesão do tronco cerebral - Testes calóricos ! se presentes há integridade do labirinto até ao III par - Reflexo corneano ! se perdido há lesão no tronco; excluir anestesia corneana História Clín ica - O máximo de informação deve ser obtida de terceiros! - Evolução da alteração da consciência - Sinais focais - Episódios convulsivos ou défice focal transitório - Sintomas recentes - História de trauma - Patologia prévia: neuropsiquiátrica, cardíaca, pulmonar, hepática, renal ou oncológica - Abuso de álcool ou drogas - Medicação em curso - Condição social EOT ! Glasgow<8 Glicose + tiamina Naloxona 0,4-2mg ev Flumazenil 0,2-1mg ev Colocar sonda gástrica Exame Neurológico ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 117 | 155! PADRÃO RESPIRATÓRIO - Cheyne-Stokes! Desconexão do centro respiratório e o cérebro - Respiração apneustica !Lesão pôntica baixa EXAME MOTOR - Postura: descorticação! lesão cortical, capsula interna ou tálamo; descerebração! lesão no tronco) - Mioclonias, fasciculações, tremor - Tónus muscular: assimetrias, rigidez - Reflexos miotáticos e Babinski SINAIS MENINGEOS ESCALA DE COMA DE GLASGOW OLHOS Não abre – 1 pt Abre à dor- 2pts Abre ao comando verbal- 3 pts Espontânea – 4pts RESPOSTA VERBAL Sem resposta- 1 pt Não perceptível- 2pts Palavras desconexas- 3 pts Confuso- 4pts Discurso coerente- 5 pts RESPOSTA MOTORA Não responde- 1 pt Resposta em descerebração- 2 pts Resposta em descorticação- 3 pts Resposta em retirada- 4pts Localiza- 5pts Cumpre ordens- 6 pts Exame Físico Geral TEMPERATURA - Febre! infecção, hipertermia maligna, anticolinérgicos - Hipotermia ! álcool, hipotiroidismo, falência adrenal TENSÃO ARTERIAL E FREQUÊNCIA CARDÍACA - Hipertensão ! encefalopatia hipertensiva, PRESS, eclâmpsia - Hipotensão ! choque de qualquer etiologia - Bradicardia ! hipertensão intracraneana, tóxicos/ fármacos, hipotiroidismo - Taquicardia ! febre, ICC, hipertiroidismo, SATURAÇÃO PERIFÉRICA - ↓Sat. O2 ! Hipóxia FREQUÊNCIA RESPIRATÓRIA - Bradipneia! opióides, barbitúricos - Polipneia ! acidose metabólica (Kussmaul) ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 118 | 155! PELE E MUCOSAS - Mordedura língua! convulsões - Lesões traumática! equimoses periorbitárias, sinal de Battle - Petéquias, equimoses ! PTT, meningococemia, ricketsiose, vasculites - Hemorragia sub-ungueal ! endocardite - Icterícia ! falência hepática - Coloração rosada ! intoxicação por CO - Palidez ! anemia, urémia, mixedema - Sudorese ! hipoglicemia, feocromocitoma, infecção - Trajecto de agulhas! toxicodependências - Odor ! cetoacidose, fetor hepaticus, odor urémico, organofosforados, cianeto Exames complementares Glicose Gasimetria (pH, pO2, pCO2, Na, Ca, MetHb,HbCO, lactatos) Hemograma, ponderar esfregaço/gota espessa Função renal e inograma (Na, K, Ca, Mg, Pi) Albumina, proteínas totais Provas hepáticas LDH, CK Estudo da coagulação Amónia Despiste de drogas na urina Paracetolémia Função tiroideia e adrenal Serologia VIH ECG TC cerebral/ RNM cerebral EEG! Permite avaliar estado de mal epilético (não convulsivo); coma hepático surge padrão característico (ondas trifásicas bilaterais, simétricas) Punção lombar ! risco de encravamento; despiste de infeção SNC, HSA Tratamento mediante Etiologia - Trauma (contusão extensa, disfunção axonal difusa, hematoma sub dural) - Vascular (enfarte, hemorragia,HSA, vasculite, trombose venosa, PTT) - HTA (encefalopatia hipertensiva, PRESS, eclâmpsia) - Tóxicos (álcool, barbitúricos, antidepressivos tricíclicos, organofosforados, etc) - Metabólica (hipóxia, choque, hipo/hipernatremia, hipocalcemia, hipo/hipertermia, hipoglicemia, cetoacidose, síndroma hiperosmolar, mixedema, hipertiroidismo, falência adrenal, uremia, falência hepática, hiperamonemia, EIM) - Epilepsia (estado de mal convulsivo e não convulsivo) - Infecção (meningite, encefalite, sépsis) - Nutr icional (défice de tiamina) - Outros ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 119 | 155! ! CRISE CONVULSIVA Arlindo Guimas Crise Convulsiva Diagnósticos Diferenciais o Sincope o Acidente isquémico transitório o Drop attacks o Amnésia global transitória o Enxaqueca o Patologias paroxísticas do movimento o Evento psicogénico História Clín ica Circunstâncias do evento, pré ictus, ictus, pós ictus, crises, febre, trauma, doença neurológica (epilepsia), co-morbilidades, fármacos, álcool, tóxicos, hist. familiar Crises o Crises parciais simples o Crises parciais complexas o Crises generalizadas Exame Fis ico e Neuro lógico Exame físico: febre Exame neurológico: sinais focais Exames Complementares Glicemia Capilar Gasimetr ia (pH, pO2, pCO2, Na, Ca, HbCO, MetaHb, lactatos, glicemia) Hemograma Função renal Ionograma (Na, Ca, Mg) Provas hepáticas Amónia CK, LDH PCR Doseamento de anti-comiciais Exame sumário urina t ipo II (corpos cetónicos, infeção) Tóxicos na urina Rx tórax (se suspeita de infeção respiratória) TAC cerebral TC cerebral contrastado (suspeita de lesão ocupante de espaço) RM cerebral Punção lombar(se suspeita de infecção do SNC) EEG (se suspeita de estado de mal, estado de mal não convulsivo, coma induzido no estado de mal) ECG (despistar disritmias passíveis de mimetizar ictus) ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 120 | 155! - Evento agudo do SNC (vascular, infeção, neoplasia, trauma, hipoxia) - Álcool e privação alcoólica - Intoxicações (xantinas, isoniazida, anfetaminas, cocaína, lítio, anticolinérgicos, antihistamínicos) - Fármacos (penicilinas, quinolonas, neurolepticos, fentanil, tramadol) - Desequilíbrios do sódio, hipomagnesémia, hipocalcémia - Hipoglicemia, síndroma hiperglicémico hiperosmolar - Uremia, desequilíbrio dialítico - Hipoxia - Hipertiroidismo - Porfiria intermitente aguda Et iologia Epilepsia primária Epilepsia secundária (vascular, trauma, neoplasia, doença degenerativa do SNC, malformação, erros inatos do metabolismo) Nestes doentes as etiologias mais comuns são o incumprimento terapêutico, patologia sistémica que interfere com a metabolização dos anti-comicias ou baixa o limiar convulsivo.! A introdução de terapêutica anti-comicial crónica deve ser ponderada no contexto global do doente e no potencial risco de recidiva! Abordagem Doente Crí tico: ABCDE Tratamento da crise convulsiva Diazepam 0,05-0,1 mg ev em bólus ou Midazolam 0,2 mg/Kg ev em bólus Fenitoína 20mg/Kg em perfusão em 20-30min (máx. 50mg/min). Agrava as mioclonias! ou Valproato de sódio 15-20mg/Kg em 20-30 min ou Levetiracetam 10-30mg/kg em bólus em 15 min Crises apesar do tratamento ESTADO DE MAL CONVULSIVO Crises mantidas Não recupera da consciência 1) Coma farmacológico - (midazolam, propofol, barbitúricos) 2) Monitorização EEG ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 121 | 155! ! LESÃO RENAL AGUDA Joana Ramalho Definição Deterioração rápida e súbita (horas a dias) da filtração glomerular, caracterizando-se por um aumento da creatinina plasmática e/ou diminuição do débito urinário. A creatinina começa a incrementar quando já há atingimento de 50% da taxa de filtração glomerular (TFG), pelo que a vigilância da diurese poderá ser um indicador mais precoce. Segundo a AKIN (Acute Kidney Injury Network) é diagnóstico de lesão renal aguda (LRA) um aumento absoluto da PCr ≥0,3 mg/dl, um aumento de 50% do basal ou um debito urinário <0,5 ml/kg/h por mais de 6 horas. Baseando-se na Classificação RIFLE, a AKIN propõe ainda uma classificação da LRA em estadios de acordo com o incremento da PCr e da diminuição do débito urinário (ver tabela 1). Estadio 1 Estadio 2 Estadio 3 Creatinina Plasmática aumento absoluto ≥0,3 mg/dl ou ≥1.5-2x o basal aumento ≥2-3x o basal aumento ≥3x o basal ou PCr ≥ 4.0 mg/dl com um aumento recente ≥0,5 mg/dl Diurese <0,5 ml/kg/h por mais de 6 horas <0,5 ml/kg/h por mais de 12 horas <0,3 ml/kg/h por 24 horas ou anuria por 12h Tabela 1. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 122 | 155! Etiologia Assim que o diagnóstico de LRA é efectuado, é necessário apurar a etiologia do quadro, sendo que a sintomatologia depende maioritariamente da causa. A LRA pode classificar-se em 3 grandes grupos: Pré-Renal Perda de volume intravascular Hemorragia, perdas gastrointestinais, perdas renais, perdas cutâneas, pancreatite Hipoperfusão renal por alterações hemodinâmicas Sépsis, anafilaxia, ICC, Doença hepática, síndrome de compartimento abdominal, drogas. Intr ínseca Glomerulonefrites Doenças sistémicas (infeciosas, autoimunes) Necrose tubular aguda Isquemia, citotoxicidade (drogas, contraste, pigmentos, cristais) Nefrite intersticial aguda Drogas, infecção, doenças sistémicas (neoplasias, autoimunes) Vascular Oclusão artéria/veia renal, Microangiopatia trombótica, doença ateroembólica, hipertensão maligna Pós-Renal Ureteral Litíase bilateral, fibrose retroperitoneal, neoplasia Vesical Bexiga neurogénica, medicação anticolinérgica, antidepressivos tricíclicos, neoplasia, coágulos Uretral patologia prostática, estenose uretral, fimose, neoplasia Investigação sumária " História cl inica Torna-se necessário uma boa história clinicapara realizar o diagnóstico e permitir chegar à etiologia de uma forma mais eficaz. Existem contudo alguns pontos que merecem especial destaque. o Anamnese: medicações/tóxicos habituais e de introdução recente; infecções; sintomas ou sinais de vasculite sistémica; patologias crónicas (doença hepática, cardíaca, neurológica e prostática, risco vascular, litíase renal); procedimentos recentes (cirurgias, transfusões, contraste ev); acidentes. o Exame físico: estado de volemia, sinais vitais, sinais ou sintomas de obstrução urinária, características da urina (volume e aspecto), exantemas. " Exames laboratoriais Análise de urina: electrólitos, creatinina, densidade, sedimento urinário Bioquímica sérica (electrólitos, ureia e creatinina, DHL, CK e mioglobina) Hemograma Ecografia reno-vesical Tratamento O tratamento da LRA passa sempre pelo tratamento da causa subjacente. No entanto é importante assegurar um tratamento de suporte eficaz até resolução da causa: - evitar nefrotóxicos (fármacos nefrotóxicos, contraste endovenoso, atenção às doses de fármacos ajustados à TFG) - optimizar a perfusão renal (melhoria do perfil hemodinâmico) - corrigir alterações hidroelectrolíticas e ácido-base subjacentes (sobrecarga de volume, hipercaliémia, acidemia) - Ter em mente as possíveis complicações após restabelecimento do fluxo urinário (cistite hemorrágica com descompressão vesical demasiado rápida e a diurese hipotónica) - avaliar as indicações para diálise urgente: acidemia e alterações electrolíticas graves sem resposta à terapêutica médica, intoxicações (salicilados, metformina, lítio, metanol, etilenoglicol), sobrecarga de volume sem resposta aos diuréticos, uremia. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 123 | 155! Lesão Renal Aguda Aumento da PCr ≥0,3 mg/dl ou >1,5x o basal e/ou debito urinário <0,5 ml/kg/h em 6 h Vómitos/diarreia, queimaduras, hemorragia, poliúria, hipersudorese. Sinais de hipovolemia: sede, desidratação, Hipotensão ortostática, oligúria. - Anamnese e Exame físico - Urina (electrólitos, densidade, sedimento urinário) - Hemograma/ Bioquímica sérica (electrólitos, ureia, creatinina, DHL, CK e mioglobina); FE Na - Ecografia reno-vesical Investigação sumária Ureia/Cr plasmática>20; FENa<1%, Na urinário baixo, Densidade urinária alta Perda de volume intravascular Pr é- Re na l H ipoperfusão renal por a lterações hemodinâmicas ICC/ doença hepática descompensadas, Sépsis, Anafilaxia , Hipercalcemia, Hipertensão intrabdominal. Drogas: AINEs, IECA/ARA, aminoglicosídeos, contraste ev, vasopressores Infecções, Sintomas e sinais de vasculite sistémica Eritrocitúria dismórfica, cilindros eritrocitários. Glomerulonefr ites In tr ín se ca Nefr ite intersticia l aguda Fármacos (antibióticos, AINEs, citotóxicos, IBP, alopurinol); Pielonefrite; Doenças linfoproliferativas; doenças auto- imunes. Proteinúria, Leucocitúria, eritrocitúria, eosinofilúria, cilindros leucocitários Progressão da lesão pré-renal; rabdomiólise; síndrome de lise tumoral; hemólise; Drogas: antibióticos, contraste ev, citotóxicos Cilindros granulares, pigmentados e tubulares Necrose tubular aguda Estados pró-trombóticos, Doença atero- embólica, Pós-cirurgia renal Ecografia com trombose/dissecção da artéria e/ou veia renal Vascular Globo vesical, anúria Litíase renal; Traumatismo vertebromedular; Patologia vesical: neoplasia, bexiga neurogénica; Patologia prostática ou peniana Sinais de obstrução ao fluxo urinário na ecografia; Hematúria (litíase, neoplasias) Ureteral , Vesical , Uretral Pó s- Re na l ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 124 | 155! Tratamento De suporte: - evitar nefrotóxicos - optimizar a perfusão renal (melhoria do perfil hemodinâmico ) - corrigir alterações hidroelectrolíticas e ácido-base subjacentes ) - avaliar as indicações para diálise urgente Da causa subjacente Indicações para diálise urgente: - acidemia e alterações electrolíticas graves sem resposta à terapêutica médica; - intoxicações (salicilados, metformina, lítio, metanol, etilenoglicol); - sobrecarga de volume sem resposta aos diuréticos, - uremia ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 125 | 155! ! DOENÇA RENAL CRÓNICA Maria João Rocha Definição Doença renal crónica define-se como anormalidade funcional ou estrutura renal presente por mais de três meses, com implicações para a saúde A classificação da DRC em estádios faz-se se acordo com a taxa de filtração glomerular. Estádios crescentes implicam perda progressiva de capacidade funcional residual até á necessidade de inicio de terapêutica de substituição da função renal. É uma doença com incidência e prevalência crescentes a nível mundial . A população de DRC em Portugal é, maioritariamente, idosa e com elevada carga de comorbilidade. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 126 | 155! Classificação da DRC Classe TFG (mL/min/1,73 m2) Grau de função G1 ≥ 90 Normal/Elevada G2 60-89 Ligeiramente diminuída G3a 45-59 Ligeira a moderadamente diminuída G3b 30-44 Moderada a severamente diminuída G4 15-29 Severamente diminuída G5 <15 Falência renal Tabela 1 - Adaptado de KDIGO guidelines Motivos de vinda ao SU Quando nos debruçamos sobre os motivos de vinda ao SU dos doente com DRC, importa entender as perturbações fisiológicas conferidas pela disfunção renal para compreendermos as complicações médicas agudas que daí podem advir. 1. A perda gradual da função acarreta redução da capacidade do rim cumprir as suas funções excretora, reguladora da homeostasia ácido base- hidroelectrolitica e endócrina, podendo gerar situações clínicas com necessidade de atenção médica urgente. Complicações frequentes da DRC Anemia Acidose metabólica Sobrecarga volémica: HTA, ICC, EAP Hipercalémia Hipermagensemia Hiponatremia Pericardite Hemorragia por disfunção plaquetar 2. A exposição a um ambiente urémico confere ao doente renal perfil de risco CV aumentado. Além de uma maior probabilidade de evento cardiovascular, estes doentes tem pior prognóstico vital após EAM, com maior risco de IC e morte súbita. Todos os doentes com DRC devem ser considerados de elevado risco para eventos CV. 3. O compromisso imunológico associado à uremia justifica uma incidência de complicações infeciosas major 3 a 4 vezes superior à população geral 4. A perda de reserva funcional renal acarreta um elevado risco de LRA. Todos os doentes com DRC devem serconsiderados de elevado risco para LRA 5. Uma vez esgotada a reserva funcional renal que permita ao doente permanecer assintomático, é iniciada terapêutica de substituição da função renal quer através de transplante renal ou de diálise. O inicio de uma técnica dialítica associa-se a risco particulares. A hemodiálise obedece a um esquema de três sessões semanais. A eliminação de solutos urémicos, potássio, magnésio, fósforo e excesso de água é feito com passagem do sangue do doente através de um filtro com solução de diálise, pobre nos elementos que se pretendem remover, em contracorrente. Os acessos vasculares para hemodiálise são a fístula arteriovenosa (FAV) o cateter venoso central (CVC) e a prótese arteriovenosa (PAV). ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 127 | 155! Complicações frequentes associadas à hemodiálise: - Hipotensão intradialítica/pós diálise - Arritmias intra e pós diálise. - Diátese Hemorrágica- associada a hipocoagulação em doentes ja com risco hemorrágico aumentadao. - Complicações infecciosas do acesso vascular de hemodiálise- as infecções associadas ao CVC são uma complicação frequente associada a este tipo de acesso. Devem fazer parte do diagnostico diferencial de febre em doente em hemodiálise. Infecções da FAV são infrequentes, cursam geralmente com sinais inflamatórios locais A Diál ise peritoneal faz uso do peritoneu como membrana onde é instilado um fluido dialisante através de um cateter implantado na cavidade peritoneal. Esta técnica é continua e realizada diariamente, pelo doente. O doente em diálise peritoneal com complicação associada á técnica (peritonite, hemoperitoneu, disfunção de cateter) deve ser avaliado por equipa médica e de enfermagem com experiência em DP. Tratamento " Prevenção da LRA A prevenção da LRA no doente DRC é fundamental em termos prognósticos globais e no atraso do inicio de terapêutica de substituição da função renal. Estes doentes quando admitidos no SU com patologia aguda devem ser considerados de elevado risco para LRA. 1. Recomenda- se a descontinuação temporária de todas os fármacos potencialmente nefrotóxicos em todos os doentes com TFG < 60 ml/min/1.73 m2 (G3a-G5) que tenham intercorrência aguda com risco acrescido de LRA. Estes fármacos incluem bloqueadores do sistema renina angiotensina aldoesterona, diuréticos, AINEs, metformina, lítio e digoxina. Na prescrição deve ser tida em conta a TFG do doente. Devem ser escolhidos agentes terapêuticos com menor nefrotoxicidade, quando possível e sem compromisso de eficácia terapêutica. 2. Os exames auxiliares de diagnóstico com necessidade de administração de radiocontraste devem ser pedidos de forma criteriosa e após ponderação de risco/beneficio. Está recomendada a instituição de um protocolo de profilaxia de nefropatia de contraste em todos os doentes com TFG < 60 ml/min/1.73 m2 . O protocolo inclui expansão volémica com soro fisiológico (1mL/Kg/h nas 12 horas que precedem e seguem o procedimento) e Acetilcisteína oral na dose de 1200 mg antes e depois do procedimento. Quando necessária maior rapidez na preparação do doente pode ser administrado soro Bicarbonato de Sódio isotónico (3mL/Kg/h na hora que precede o procedimento e 1mL/kg/h nas seis horas seguintes). O volume deve sempre ter em conta a capacidade de tolerância do doente à expansão volémica. " Avaliação da necessidade de hemodiál ise É importante na avaliação dos doentes em hemodiálise anotar a data da última diálise e qual o acesso vascular. As situações de sobrecarga volémica ou hipercalémia potencialmente fatais são mais comuns no intervalo maior das sessões semanais de hemodiálise. Na avaliação de doentes com DRC em hemodiálise bem como de doentes com DRC com função agravada, é fulcral conhecer as indicações para diálise urgente que poderão precipitar a transferência urgente para unidade com Nefrologia ou para ambiente de cuidados intensivos com disponibilidade de técnicas dialíticas. Indicações habituais para hemodiálise urgente Hipercalémia grave (K> 7 mmol/L ou com repercussão ECG) resistente a medidas conservadoras Acidose metabólica (pH< 7,2) resistente a medidas conservadoras Sobrecarga volémica em doente sem resposta diurética ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 128 | 155! ! DOENTE TRANSPLANTADO RENAL Maria João Rocha Definição O transplante renal (TR) é a forma preferida de tratamento da doença renal crónica estadio 5 conferindo aos portadores da doença aumento da sobrevivência e da qualidade de vida. O enxerto renal é colocado na fossa ilíaca esquerda ou direita e é geralmente palpável. A artéria renal é anastomosada á artéria ilíaca interna ou externa ipsilateral e a veia renal á veia ilíaca interna ou externa. O ureter é anastomosado á bexiga. Em geral apenas é implantado um enxerto renal. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 129 | 155! Motivo de vinda ao SU A correcta avaliação destes doentes no SU implica a recolha de dados além dos referentes ao episódio agudo. Estes dados permitem avaliar o perfil de risco actual do doente e são essenciais na comunicação com a equipa de cuidados pós-transplante. 1. Tempo pós-TR: define risco de complicações cirúrgicas e perfil de risco infeccioso 2. Imunossupressão actual: a identificação adequada da imunossupressão permite identificar toxicidades farmacológicas/interacções medicamentosas 3. Episódios prévios de rejeição: Define o risco imunológico do doente e permite saber se teve necessidade recente de aumento de imunossupressão 4. Episódios infecciosos prévios; isolamentos de agentes em exames culturais. Pesquisa de antigenemia de CMV mais recente. Figura 1 – Principais complicações médicas após TR que motivam vinda ao SU. Complicações não associadas à imunossupressão 1. Fruto do número crescente de candidatos e a escassez de órgãos, os doentes permanecem cada vez mais tempo em diálise antes do procedimento. A exposição prolongada a diálise e á uremia e a inclusão crescente de doentes idosos como candidatos, explica porque o doente transplantado renal é muitas vezes portador de múltiplas co-morbilidades, nomeadamente patologia cardiovascular. Os eventos cardiovasculares relacionados com doença vascular ateroesclerótica são responsáveis por 30 a 50% da mortalidade após o primeiro ano de transplante. Estes doentes devem ser sempre considerados de elevado risco vascular aquando da avaliação no SU, independentemente da idade e da presença de outros factores de risco vascular ditos clássicos (HTA, DM, obesidade, tabagismo) 2. A Lesão renal aguda é um evento frequente nos doentes com transplante renal e patologia aguda. A abordagem inicial desta síndrome deve seguir os mesmos passos preconizado para a população geral com exclusão de causas corrigíveis pré e pós-renais. O envolvimento precoce da Nefrologia, uma vez excluídas a causas reversíveis atrás enunciadas, é essencial. 3. Os doentes com transplante renal apresentam muitas vezes doença renal crónica (DRC). Assim, as complicaçõesassociadas a DRC, abordadas noutro capítulo, também podem justificar vinda ao SU. Relacionadas com a medicação Infecciosas Neoplásticas Não relacionadas com a medicação Efeitos adversos / Interacções medicamentosas Hipertensão Cardiovasculares DRC / LRA Complicações médicas ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 130 | 155! Complicações associados a imunossupressão A implantação de um aloenxerto implica o inicio de terapêutica imunossupressora para evitar a sua perda por rejeição. Estes fármacos têm perfis de toxicidade significativos e, alguns, intervalos terapêuticos estreitos com necessidade de monitorização frequente. 1. O risco infeccioso é certamente um dos mais relevantes sendo que as infecções graves são uma das principais causas de morbimortalidade destes doentes. A incidência reportada de infecções de qualquer tipo na primeiro ano após o TR é entre 25 a 80%. Os clínicos devem estar conscientes do compromisso da resposta inflamatória destes doente que podem ter quadros sépticos graves sem no entanto apresentarem todos sinais e sintomas sugestivos de infecções. O diagnóstico e instituição de antibioterapia não devem ser atrasados. O tipo de infecção e os agentes mais comuns tem uma variação temporal explicada por variações na intensidade de imunossupressão- maior nos primeiros meses pós transplante e com redução gradual ao longo do primeiro semestre/trimestre- e exposições ambientais. < 1 mês - Infecções oportunistas incomuns; - Infecções do doente pós-op: - Aspiração - Infecção da ferida operatória. - Infecção associada a cateteres vasculares - ITU - Infecções por agentes MR - MR - Internamento muitas vezes necessário 1-6 meses - Incidência de infecções oportunistas - Agentes: bactérias, micobactérias, fungos, vírus e parasitas. Variação geográfica de agentes - P. jiroveci - CMV - Internamento muitas vezes necessário > 6 meses - Pneumonia adquirida na comunidade - ITU - (Incidência menor de infecções oportunistas) - Tratamento em ambulatório possível na maioria dos casos Infecções nosocomiais Activação de infecções latentes Infecções oportunistas Infecções adquiridas na comunidade ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 131 | 155! 2. O conhecimento dos principais efeitos adversos dos imunossupressores é importante uma vez que pode explicar o motivo de procura de cuidados médicos urgentes. Fármacos Efeitos adversos mais comuns Ciclosporina LRA- Nefrotoxicidade aguda, reversível. Hipercalémia DRC Hiperuricemia/Gota Hipertensão, Dislipidemia DM Hepatotoxicidade Neurotoxicidade (tremores, parestesias, convulsões) Tacrolimus Semelhantes ao da ciclosporina mas com maior risco de neurotoxicidade. Mais diabetogénico. Micofenolato de Mofetil Efeitos GI: dor abdominal, anorexia, náuseas, vómitos, diarreia. Anemia, leucopenia, trombocitopenia. Prednisolona Osteoporose, fracturas, necrose óssea avascular Hemorragia digestiva DM, dislipidemia Sirolimus Trombocitopenia. Menos comum: anemia e leucopenia. Úlceras orais Pneumonite intersticial. Azatioprina Mielossupressão Hepatotoxicidade Pancreatite Hepatotoxicidade Tabela 1- Principais imunossupressores e seus efeitos adversos Tratamento ! O cuidado dos doente com transplante renal no SU bem como bem como a orientação do seu ambiente de cuidados- internamento ou ambulatório- deve ser sempre feito em conjunto com a equipa de médicos de transplante. Várias interacções medicamentosas sérias podem ocorrer no contexto da imunossupressão. Os efeitos adversos possíveis das interacções mais comuns estão explicitadas na tabela abaixo. Estas interacções devem ser consideradas antes da prescrição de novos fármacos aos doentes transplantados renais. Fármaco Imunossupressor Efeito adverso Diltiazem, Verapamil, Amiodarona Ciclosporina Tacrolimus Risco de nefrotoxicidade por aumento de níveis séricos Azitromicina, Claritromicina, Eritromicina Fluconazol, Itraconazol Fenitoína, Carbamazepina, Fenofarbital Risco de rejeição aguda por redução de níveis séricos Rifampicina, Isoniazida Alopurinol Azatioprina Mielossupressão por aumento de níveis de azatioprina Tabela 2 - Interacções medicamentosas mais comuns Os cuidados preconizados para a prevenção da LRA são aplicáveis a esta população de doentes que se considera de elevado risco para esta complicação. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 132 | 155! ! DIFICULDADE RESPIRATÓRIA AGUDA Pedro Vita Definição A Na abordagem inicial do doente com dificuldade respiratória aguda é importante reconhecer as situações de perigo iminente e as metodologias para a sua correcção, identificar os mecanismos de hipoxemia e avaliar a resposta ao tratamento, bem como interpretar os desvios do equílibrio ácido-base e correlacionar com os achados clínicos. Achados A gasimetria de sangue arterial permite identificar situações de perigo iminente para a vida, tais como acidemia grave (pH < 7,0), hipoxemia grave (PaO2 < 50 mmHg), hipocalémia (<2,5 mEq/L), hipercalémia (>7 mEq/L) ou hiponatrémia (<115 mmol/L). Interpretação estruturada da gasimetria A abordagem sistémica da gasimetria deve permitir identificar a causa da hipoxémia (diminuição da FiO2, hipoventilação, desequilíbrio V/Q, shunt e alterações da difusão alvéolo-capilar), bem como outros desiquilíbrios hidroelectrolíticos e mecanismos de compensação associados. Perguntas a formular: 1. Situação de perigo iminente ? 2. A PaCO2 está aumentada ? 3. O pO2(A-a) está aumentado ? 4. Há boa resposta à oxigenoterapia ? 5. Qual é o desvio primário ? 6. As compensações são as esperadas ? 7. Como está o Anion Gap ? ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 133 | 155! " " " " " " Situação Clínica Alteração previsível Vómitos Alcalose metabólica se elimina essencialmente suco gástrico (perda de H+) Acidose metabólica se perde essencialmente conteúdo intestinal (perda de bicarbonato se a obstrução é distal à 2ª porção do duodeno) Diuréticos Alcalose metabólica Taquipneia / Polipneia Alcalose respiratória Coma diabético Acidose metabólica PCR Associação de acidose respiratória e acidose metabólica Intoxicação medicamentosa Depende do tóxico mas na maioria dos casos provoca acidose metabólica, acidose respiratória se provocar depressão respiratória, alcalose respiratória por hiperventilação se a intoxicação for por salicilatos “Overdose” de opiáceos Acidose respiratória aguda Hemorragia grave Acidose metabólica se compromete a eficácia hemodinâmica Alcalose respiratória enquanto reagir à hipóxia com hiperventilação Bronquite crónica Acidose respiratóriacrónica Sim Dif iculdade Respiratór ia Aguda PaCO2 aumentada? Hipoventilação isolada Hipoventilação Não G(A-a) aumentada? G(A-a) aumentada? Diminuição FiO2 Não Sim Não Sim Boa resposta ao O2? Shunt Desequilíbrio V/Q Não Sim ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 134 | 155! ! EADPOC Exacerbação Aguda de Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica Ana Rego Definição A Evento agudo caracterizado por um agravamento dos sintomas respiratórios superior à variabilidade diária e suficiente para implicar alteração na terapêutica de base, secundário a: " Infecções: víricas (Rhinovirus, Influenza) e bacterianas (Haemophilus influenzae, Streptococcus pneumoniae, Moraxella catarrhalis, Enterobacteriaceae spp, Pseudomonas) " Poluentes/Factores ambientais: tabagismo, exposição profissional, poluição atmosférica " Incumprimento terapêutico Diagnóstico O diagnostico é clínico. Implica agravamento nos sintomas basais com incremento da dispneia, tosse e/ou volume ou purulência da produção brônquica. Avaliação Clínica Integrada na Urgência História Clínica | Antecedentes " Gravidade DPOC baseada na classificação prévia GOLD " Nº prévio de exacerbações / hospitalizações / necessidade de ventilação " Comorbilidades " Tratamento actual " Sintomas: Incremento de tosse; aumento volume ou purulência da expectoração; agudização de dispneia basal ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 135 | 155! " Duração dos sintomas Exame Objectivo | Sinais cl ínicos de gravidade " Uso músculos acessórios " Movimento paradoxal tórax " Cianose agravada ou de novo / satO2 <88% " Edemas periféricos de novo " Instabilidade Hemodinâmica " Alteração estado de consciência Exames Complementares de Diagnóstico " Gasimetria: Sempre, se suspeita de insuficiência respiratória aguda ou crónica agudizada. " Radiografia Tórax: Exclusão de diagnósticos alternativos (Pneumonia, Pneumotórax, Edema Agudo Pulmão) " Hemograma e Bioquímica: Detecção de parâmetros inflamatórios aumentados (leucocitose, PCR) ou policitemia. Avaliação de comorbilidades (DM descompensada; insuficiência renal, alterações electrolíticas, etc). " Microbiológico de Secrecções: Não indicado na avaliação inicial. Indicado se ausência de resposta a curso inicial de antibioterapia. " Exames adicionais: Podem ser necessários para despiste de diagnóstico diferencial (ECG, MNM, D- dímeros, ProBNP, AngioTAC). Estrat i f icação de Gravidade A integração dos antecedentes, da sintomatologia, e dos dados do exame objectivo permite estratificar níveis de gravidade: Estrati f icação Operacional Gravidade da Exacerbação Aguda de DPOC Exacerbação Nível I Ligeira Nível II Moderada Nível II I Grave Antecedentes # DPOC GOLD # Exacerbações frequente* # Comorbilidades graves** 1 | 2 Não Não 2 | 3 Sim Sim 4 Sim Sim Exame Objectivo # SDR # Estabilidade Hemodinâmica # Sintomas persistem após tx Não Sim Não ++ Sim ++ +++ Sim | Não +++ Gestão Ambulatório Observação SU ou Admissão Intermédios ou Intensivos Tabela 1 - Estratificação de Gravidade de Exacerbação de DPOC. Adaptado American Thoracic Society/European Respiratory Society Task Force. Standards for the Diagnosis and Management of Patients with COPD *Exacerbaçoes frequentes: > 2 ano **Comorbilidades: ICC, DCI, DM, DRC, DHC A gravidade da exacerbação pode ainda ser estratificada com base na clínica usando os Critérios de Anthonisen. Esta estratificação tem sobretudo importância na selecção dos pacientes candidatos a antibioterapia: Critérios de Anthonisen Aumento volume expectoração Aumento purulência expectoração Aumento dispneia Classif icação Anthonisen Tipo I – Grave 3 sintomas Tipo II – Moderada 2 sintomas Tipo III – Ligeira 1 sintoma ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 136 | 155! Tabela 2 - Estratificação clínica de gravidade segundo critérios de Anthonisen. Abordagem Terapêutica da Exacerbação Aguda de DPOC SABA – Short Acting Beta2 Agonists " Nivel I: o Salbutamol inalado 2 puffs MDI com câmara expansora OU nebulização com 2.5 mg em ar até de 4/4h. o Se necessidade de ultrapassar estas doses para alivio, deverá retornar ao Serviço de Urgência. " Nivel II: o Nebulização com 2.5 mg salbutamol em ar OU 4 puffs por MDI com câmara expansora cada 1/1h até 4/4h. " Nivel III: o Nebulização com 5 mg salbutamol em ar OU 8 puffs por MDI com câmara expansora de 20 em 20 min na primeira hora e depois cada 1/1h até 4/4. " O aparecimento de efeitos laterais como taquicardia e tremor pode levar a necessidade de redução da dose ou frequência de administração. " A administração intensiva de salbutamol pode induzir hiperlactacidemia e/ou acidose láctica. SAMA – Short Acting Muscarinic Antagonist " Nivel I: o Brometo de ipatrópio inalado 2 puffs MDI com câmara expansora OU nebulização com 250 mcg até 4/4h " Nivel II: o Nebulização 250 mcg de brometo de ipatrópio em ar OU 4 puffs por MDI com câmara expansora cada 1/1h até 4/4h. " Nivel III: o Nebulização com 500 mcg de brometo de ipatrópio em ar OU 8 puffs por MDI com câmara expansora de 20 em 20 min na primeira hora e depois cada 1/1h até 4/4. Exacerbação DPOC Estratificação Integrada Gravidade (Tabela 1) - Rever Técnica Inalatória - SABA + SAMA - Corticoide ECD Nível I Ligeira Ambulatório Nível II Moderada Observação Hospitalar Nível III Grave Admissão - Oxigenoterapia - SABA+SAMA - Corticoide - Oxigenoterapia - SABA+SAMA - Corticoide - Antibiótico Antibiótico se Anthonisen I ou II (Tabela 2) Critérios para VNI (Tabela 3) Critérios UCI / VM (Tabela 4 e 5) VNI / UIntermédia VM / UCI ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 137 | 155! " As nebulizações, sobretudo se frequentes, devem ser idealmente realizadas por peça bucal para diminuir risco de aumento da pressão intra-ocular e glaucoma. Cort icoide " Nivel I: Prednisolona oral 40 mg 5-10 dias " Nivel II e III: Prednisolona oral 40 mg ou equivalente ev 5-10 dias Oxigenoterapia " Insuficiência respiratória tipo 1: objectivos de satO2 94-98% " Insuficiência respiratória tipo 2: objectivos de satO2 88-92% Meti lxantinas " Nivel II e III: Consideradas 2ª linha em doentes que não respondem às medidas iniciais. Aminofilina 240mg em 100cc SF em 20 minutos. Antibioterapia Antibioterapia na Exacerbação DPOC está indicada em: " Doentes com 3 sintomas cardinais | Anthonisen tipo I " Doentes com 2 sintomas cardinais | Anthonisen tipo II, se purulência da expectoração for um deles " Doentes com indicação para ventilação (invasiva ou não invasiva) A presençade marcadores de inflamação nomeadamente PCR e Procalcitonina tem vindo a ter um papel cada vez mais relevante na selecção de candidatos a antibioterapia. Algoritmo de selecção de antibioterapia na Exacerbação de DPOC. Adaptado de Sethi S, Siddiqi A, Optimizing antibiotic selection in treating COPD exacerbations. International Journal of COPD 2008:3(1) 31–44 and Management of infection in exacerbations of COPD, Uptodate 2014 *Factores de mau prognóstico **Factores de risco para Pseudomonas Idade > 65 anos FEV1 < 50% > 3 exacerbações/ano D. Cardiaca Mais de 4 cursos de antibioterapia no último ano Hospitalização recente (>2 dias últimos 90 dias) Isolamento prévio de pseudomonas DPOC GOLD III - IV Se uso recente de antibiótico (< 3 meses), usar classe alternativa. Exacerbação Aguda de DPOC com cri tér ios para Antibioterapia Ambulatório Um ou mais factores de mau prognóstico* Factores Risco para Pseudomonas ** Hospital Não Sim Não Sim Macrólido ou Cefalosporina 2ª e 3ª geração ou Doxicilina ou TMP/SMX Amox/Clav ou Fluoroquinolona (moxi ou levofloxacina) Levofloxacina 750mg ou Ceftriaxone IV ou Cefotaxime Levofloxacina 750mg ou Pip/Taz 4.5g 6/6h ou Cefipime IV ou Ceftazidime IV ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 138 | 155! Se não se verifica resposta adequada às 72h, se há agravamento clínico ou factores de risco para Pseudomonas deverá ser colhido microbiológico de secreções brônquicas. Suporte Venti latório Venti lação Não Invasiva (VNI) " Indicada nas exacerbações agudas de DPOC que após oxigenoterapia e terapêutica médica optimizada desenvolvem acidemia (pH<7.35) ou mantem dispneia intensa refratária. " Deve ser realizada em ambiente controlado como Unidades com elevado nível de monitorização e staff experiente. " Pode ser uma opção inicial em doentes pH <7.25 mas apenas em Unidades com elevado nível de monitorização, capacidade de intubação imediata e disponibilidade de ventilação mecânica. Indicações para Venti lação Mecânica Não Invasiva - Acidose respiratória (pH<7.35 >7.26 e/ou pCO2>45 mmHg) - Dispneia intensa com sinais de fadiga respiratória (uso músculos acessórios, movimento paradoxal abdómen ou retração músculos intercostais) Critérios de Exclusão - Trauma ou queimadura facial - Vómitos incoercíveis - Incapacidade de proteger via aérea - Secreções brônquicas copiosas - Obstrução fixa ou cirurgia recente VAS - Pneumotórax não drenado - Cirurgia gastrointestinal superior recente ou obstrução gastro intestinal - Recusa do tratamento - Paragem cardiorrespiratória ou instabilidade hemodinâmica grave Tabela 3 – Indicações e critérios de exclusão para VNI na exacerbação de DPOC. Venti lação Mecânica Invasiva " Com o incremento da experiência no uso de VNI na exacerbação da DPOC, muitas das indicações formais para VM têm sido tratadas de forma eficaz com VNI. " Doentes com critérios de exclusão ou falência de trial de VNI devem ser admitidos em Unidades de Cuidados Intensivos e submetidos a Ventilação Mecânica Invasiva. Indicações para Admissão em UCI - Dispneia intensa que não responde à terapêutica optimizada - Alteração estado de consciência: letargia, coma, agitação - Instabilidade hemodinâmica com necessidade de vasopressores - Hipoxemia persistente ou agravada (paO2 <40 mmhg) e/ou acidose respiratória agravada (pH<7.25), apesar de oxigenoterapia suplementar e VNI - Indicação para VM Tabela 4 – Critérios para admissão em Unidade de Cuidados Intensivos. Adaptada de Global Strategy for the Diagnosis, Management and Prevention of COPD 2014 ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 139 | 155! Indicações para Venti lação Mecânica Invasiva - Falha ou impossibilidade de tolerar VNI - Hipoxemia grave em doentes que não toleram VNI - Diminuição estado consciência, coma ou agitação psicomotora não controlada com sedação - Risco de aspiração ou aspiração maciça - Incapacidade para mobilizar secreções brônquicas - Paragem cardiorrespiratória - Instabilidade hemodinâmica sem resposta a volume ou drogas vasoactivas - Instabilidade elétrica: bradicardia sintomática ou arritmia ventricular grave Tabela 5 – Critérios para Ventilação Mecânica Invasiva. Adaptada de Global Strategy for the Diagnosis, Management and Prevention of COPD 2014 Glossário DCI: Doença Cardíaca Isquémica DHC: Doença Hepática Crónica DM: Diabetes Mellitus DPOC: Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica DRC: Doença Renal Crónica EADPOC: Exacerbação Aguda de Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica ECD: Exames Complementares de Diagnóstico FEV1: Forced Expiratory Volume in one second GOLD: Global Initiative for Chronic Obstrutive Lung Disease ICC: Insuficiência Cardíaca Congestiva MDI: Metered dose inhaler MNM: Marcadores de Necrose Miocárdica PCR: Proteína C Reactiva SABA: Short Acting Beta2 Agonists SAMA: Short Acting Muscarinic Antagonist UCI: Unidade de Cuidados Intensivos VAS: Vias Aéreas Superiores VM: Ventilação Mecânica VNI: Ventilação Não Invasiva ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 140 | 155! PNEUMOTÓRAX Ana Rego Definição O Pneumotórax corresponde à presença de ar ou gás na cavidade pleural, secundário a uma comunicação com atmosfera através da parede torácica; ou a uma comunicação com as estruturas broncoalveolares através da pleura visceral. Classif icação Organigrama Classif icação Pneumotórax Pneumotórax Espontâneo DPOC Asma DIP PPJ TP CaPulmão Catamenial Primário (PSP) Não Espontâneo Secundário (PSS) Traumático latrogénico Artificial BTT BTB CVC SC Toracocentese VM Acupunctura Diagnóstico Terapêutico Aberto / Fechado Actividades Risco ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 141 | 155! Tabela 1 – Classificação Pneumotórax por mecanismo Cl inica | Exame Objectivo " Sintomas: Toracalgia aguda, dispneia. Sinais: Redução ipsilateral da expansibilidade torácica e sons pulmonares, hiperressonância. " Homem jovem, alto, magro e fumador sugere PSP. Idade mais avançada e presença de sinais e sintomas de patologia pulmonar prévia sugere PSS. " A clínica é mais exuberante nos casos de PSS. " Sintomatologia exuberante e instabilidade hemodinâmica sugere presença de pneumotórax hipertensivo. " Pneumotórax direito recurrente, em mulheres em idade fértil, que surge cerca de 48h após ínicio menstruação, sugere pneumotórax catamenial. " A clínica é a mais determinante na abordagem terapêutica e permite estratificar níveis de gravidade: Estrati f icação de Gravidade Estável Instável Hipertensivo Consegue completar frases FR < 24 cpm FC 60-120 bpm SatO2 > 90% (21%) Se falha qualquer dos critérios de estabilidade Clinica exuberante CianoseDesvio traqueia Instabilidade HD Pulso paradoxal Exames Auxil iares de Diagnóstico Radiografia de tórax " Permite diagnóstico e estimar tamanho de pneumotórax. " Diagnóstico: Visualização de área hipertransparente entre o pulmão e parede torácica desprovida de retículo broncovascular. " O tamanho do pneumotórax é menos determinante na abordagem terapêutica que os sinais clínicos de instabilidade. Pneumotórax Espontâneo Ocorre na ausência de um evento precipitante Primário (PSP) • Sem patologia pulmonar prévia (conhecida). • Mas, cerca de 90% dos doentes com PSP têm blebs e bolhas nos ápices. Secundário (PSS) • Com patologia pulmonar prévia conhecida. • Catamenial: secundário à presença de focos endometriose torácica na pleura visceral e migração transdiafragmática, e não doença respiratória subjacente, daí nem sempre ser classificado como PSS. Pneumotórax Não Espontâneo Ocorre como consequência de um evento precipitante Traumático • Pós trauma acidental torácico aberto ou fechado. • Relacionado com pressão em actividades ocupacionais/lazer de risco: piloto, mergulhador. Iatrogénico • Acidental pós procedimentos médicos. Art i f icial/Induzido • Diagnóstico: Induzido para toracoscopia diagnóstica. • Terapêutico: Colapsoterapia pulmonar para tratamento de Tuberculose. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 142 | 155! Figura 2 – Estimativa de Tamanho de Pneumotórax (Adaptado de BTS Pleural Diseases Guidelines 2010) Ecografia Torácica: " Permite diagnóstico rápido mas é operador dependente. " Eficácia em doentes em decúbito no contexto de emergência (FAST) e UCI. TAC tórax: " Não indicado como rotina, apenas se dúvidas (ex: diferenciar entre bolha gigante e pneumotórax; diagnóstico de pneumotórax em trauma e doentes ventilados; dúvidas no posicionamento do dreno). " Importante na avaliação de causa secundária. Complicações | Situações Part iculares Pneumotórax Hipertensivo ou de Tensão " Emergência médica, pode complicar qualquer tipo de Pneumotórax. " Ocorre devido a um mecanismo valvular uniderecional permitindo que o ar entre na inspiração e impedindo a sua saída na expiração. A pressão intrapleural aumenta excedendo a pressão atmosférica deslocando contralateralmente as estruturas do mediastino, conduzindo a instabilidade hemodinâmica. " Alto índice de suspeição, pois o diagnóstico é clínico. A descompressão imediata é mandatória e não deve ser protelada para confirmação radiológica. Pneumotorax Bilateral Síncrono " Raro, mas de grande gravidade, podendo ser fatal. " A origem mais comum é a traumática acidental e o barotrauma nos doentes ventilados. Pode ocorrer na forma espontânea. Hemopneumotórax " Surge em 2% casos de PSP e pode cursar com choque hemorrágico. " A origem do sangue geralmente provém da circulação parietal por ruptura de uma brida vascularizada, ou secundariamente a ruptura de uma bolha vascularizada. ACCP Guidel ines: Distância cúpula-apex (a) Grande > 3 cm; Pequeno < 3 cm BTS Guidelines: Distância intra-pleural a nível do hilo (b) Grande >2 cm; Pequeno <2cm Índice de Light: % Pneumotórax: 100 x (1- Pulmão^3(c) / Hemitórax^3 (d)) 1 cm: Pneumotórax 27%; 2cm: Pneumotórax 49% ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 143 | 155! Piopneumotórax " Surge quando há ruptura para a cavidade pleural de pneumonia necrotizante, abcesso pulmonar, esófago, caverna tuberculosa provocando a sua infecção. Recidiva " Recidiva homolateral do PSP após o 1º episódio: 30%; no 2º episódio: 45-64%; no 3º episódio: 60-80%. Risco de recidiva contralateral: 10 a 15%. " No PSS algumas séries apontem para um ligeiro aumento do risco. Abordagem Terapêutica do Pneumotórax Espontâneo As opções terapêuticas correlacionam-se com o mecanismo (primário vs secundário); a gravidade (estável vs instável); o tamanho (grande vs pequeno); e o risco de recidiva: Pneumotórax Espontâneo Pr imár io Estável e/ou < 2cm Observação 6-24 horas Oxigenoterapia Alta se estabilidade Follow up breve Aspiração simples < 2500ml Instável ou > 2cm Sucesso Insucesso / Recidiva Observação 24 horas Oxigenoterapia Alta se estável Follow up breve Dreno torácico em drenagem subaquática Admissão Hospitalar Pneumotórax Espontâneo Secundár io Estável < 1cm Admissão Observação Oxigenoterapia Aspiração simples < 2500ml Estável e/ou 1-2cm Sucesso Insucesso Referenciar para Cirurgia Torácica Instável ou > 2cm Dreno Torácico em drenagem sub-aquática Amissão Admissão Observação Oxigenoterapia Fistula Persiste > 5 dias Dreno Torácico em drenagem sub- aquática Admissão ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 144 | 155! Drenagem imediata " Pneumotórax hipertensivo requer drenagem emergente através de descompressão com abocath 14G, 2º EIC linha médio-clavicular, com posterior colocação de dreno torácico. " Pneumotórax com sinais de instabilidade e/ou dispneia intensa independentemente do tipo ou tamanho, deve ser orientado para reexpansão pulmonar activa urgente (aspiração ou dreno). Oxigenoterapia " O ritmo de reabsorção do ar é 1.25% do volume pneumotórax por dia. A oxigenoterapia aumenta em 4-6 x este ritmo, pelo que todos os doentes devem receber oxigénio de alta concentração. " No PSS esta deve ser guiada de acordo com existência de risco de hipercapnia. Observação | Atitude Conservadora " Vigilância clínica por 24 horas é mandatória se paciente vive longe de cuidados médicos imediatos ou nível sócio-cultural não permite entendimento de gravidade. Aspiração simples agulha " Pode ser realizada com a maioria dos Kits de toracocentese. " Aspiração de volume >2500ml aumenta o risco de edema de re-expansão. " Se insucesso não repetir procedimento e progredir para drenagem. " A escolha entre aspiração simples ou colocação de cateter pequeno calibre <14F (Pigtail, Pleuracan) deve ter em conta experiencia do operador e recursos locais. Drenagem torácica " A maioria das situações pode ser gerida com drenos de pequeno calibre (Joly, Pigtail, Pleuracan). Drenos médio e grande calibre podem ser necessários em doentes com PSS com previsão de fistulas de grande fluxo e doentes ventilados. " Devem ser usados sistemas de drenagem subaquática; usar aspiração/sucção activa de baixa pressão (- 10 a -20cmH2O) se persistência de fistula >48horas. " Remoção do dreno quando pulmão expandido e ausência de fistula (dreno não borbulhante) > 12 horas. Referenciação para Cirurgia Torácica Referenciação precoce para Cirurgia Torácica em caso de: $ Fistula ar persistente (5-7 dias) com ou sem expansão pulmonar. $ Hemopneumotorax $ Pneumotórax espontâneo primário recidivante 2º episódio (ipsi ou contralateral) $ Pneumotórax bilateral síncrono $ Pneumotórax espontâneo secundário 1º episódio $ Por natureza profissional/social: mergulhadores, tripulantes avião, locais isolados. Prevenção deRecidiva A pleurodese química através do dreno só deve ser realizada se ausência de condições, recusa ou indisponibilidade local para procedimento cirúrgico (VATS ou Toracotomia). A pleurodese por toracoscopia médica é uma alternativa superior à pleurodese através do dreno devido à capacidade de classificação endoscópica das lesões, possibilidade de intervenção terapêutica e menor índice de recidiva. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 145 | 155! Fol low-up Reavaliação clínica e radiológica às 48h se atitude conservadora. Importante: Cessação tabágica; evitar actividades alto risco (mergulho); voos comerciais, apenas 4 a 6 semanas após resolução do pneumotórax. Glossário ACCP: American College of Chest Physicians BTB: Biópsia Transbrônquica BTS: British Thoracic Society BTT: Biópsia Transtorácica CaPulmão: Cancro Pulmão CVC SC: Cateterização Venosa Central Subclávia DPOC: Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica DIP: Doença Intersticial Pulmão EIC: Espaço Intercostal FAST: Focused Assessment with Sonography in Trauma PPJ: Pneumonia Pneumocystis Jiroveci PSP: Pnemotórax eSpontâneo Primário PSS: Pneumotórax eSpontâneo Secundário TP: Tuberculose Pulmonar UCI: Unidade Cuidados Intensivos VATS: Video Assisted Thoracoscopic Surgery VM: Ventilação Mecânica ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 146 | 155! ! PNEUMONIA E DERRAME PLEURAL PARAPNEUMÓNICO Pedro Vita PNEUMONIA Critérios para Pneumonia da Comunidade Grave Critérios major " Ventilação mecânica invasiva " Choque séptico com suporte vasopressor Critérios minor " FR > 30 ciclos/min ou necessidade de ventilação mecânica não-invasiva " PaO2/FiO2 <= 250 ou necessidade de ventilação mecânica não-invasiva " Infiltrados pulmonares multilobares " Confusão/desorientação " Ureia > 65 mg/dl " Leucopenia < 4000 células/mm3 " Trombocitopenia < 100.000 /mm3 " Hipotermia central < 36ºC " Hipotensão com necessidade de reposição agressiva de fluidos " Hipoglicemia em doentes não diabéticos " Intoxicação alcoólica aguda ou síndrome de abstinência alcoólica " Hiponatrémia < 135mEq/L " Acidose metabólica sem causa identificada " Lactacidemia > 4.0 mmol/L " Historial de cirrose hepática " Historial de asplenia (anatómica ou funcional) Admissão em cuidados intensivos - 1 critério major ou 3 critérios minor Adaptado das recomendações da Infectious Diseases Society of America/American Thoracic Society Consensus Guidelines on the Management of Community-Acquired Pneumonia in Adults (2007). ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 147 | 155! PORT/PSI – Pneumonia Severity Indez para a Pneumonia Adquirida na Comunidade " Factor de risco Pontuação Demografia Sexo masculino Idade (em anos): ____ Sexo feminino Idade (em anos) – 10: ____ Residente em instituição (Lar) +10 " Comorbil idades Neoplasia +30 Doença hepática +20 Insuficiência cardíaca +10 Sequelas de acidente vascular cerebral +10 Insuficiência renal +10 " Achados ao exame objectivo Alteração do estado mental +20 Frequencia respiratória > 30/min +20 Pressão arterial sistólica < 90mmHg +20 Temperatura corporal < 35ºC ou >= 40ºC +15 Pulso > 125/min +10 " Achados nos exames auxil iares pH arterial < 7,35 +30 Ureia > 65mg/dL +20 Sódio < 130 mmol/L +20 Glucose >= 250 mg/dL +10 Hematócrito < 30% (Hb < 10 g/dL) +10 PaO2 < 60mmHg +10 Derrame pleural +10 Total: ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 148 | 155! Pontuação total PORT/PSI Classe de risco Mortal idade % (PAC) Mortal idade % (Residente em Lar) Recomendação < 51 pontos I 0,2% 0 Gestão em ambulatório 51 a 70 II 0,5% 0 71 a 90 III 2,6% 4,8% Internamento curto / OBS 91 a 130 IV 9,3% 12,0% Internamento > 130 pontos V 24,9% 32,9% Score PORT/PSI - Arnold FW, Ramirez JA, McDonald LC, Xia EL. Hospitalization for community-acquired pneumonia: the pneumonia severity index vs clinical judgment. Chest 2003; 124:121–4. CURB-65 – Score de gravidade para a Pneumonia Aquirida na Comunidade Confusão de novo 1 ponto Ureia > 20mg /dL 1 ponto Frequência respiratória >= 30 min 1 ponto Pressão arterial (TAS < 90 ou TAD < 60 mmHg) 1 ponto Idade >= 65 anos 1 ponto 0 a 1 pontos – gravidade ligeira (risco de mortalidade < 3%), tratamento em ambulatório geralmente adequado. " Tratamento preferencial: - Amoxicilina 500mg 8/8h PO " Tratamento alternativo: - Doxicilina 200mg dose inicial, 100mg/dia PO 2 pontos – gravidade moderada (risco de mortalidade de 9%), tratamento hospitalar (curto) ou em ambulatório com supervisão. " Tratamento preferencial: - Amoxicilina 500mg – 1g 8/8h PO + Azitromicina 500mg/dia PO ou Amoxicilina 500mg EV + Azitromicina 500mg/dia EV " Tratamento alternativo: - Doxicilina 200mg dose inicial, 100mg/dia PO ou EV ou Levofloxacina 500mg/dia PO ou EV 3 a 5 pontos – gravidade elevada (risco de mortalidade de 15 a 40%), internamento recomendado, ponderar intermédios/intensivos de >= 4 pontos. " Tratamento preferencial: - Amoxicilina/Clavulanato 2,2g 8/8h EV + Azitromicina 500mg/dia EV (se suspeita de Legionella – adicionar Levofloxacina). " Tratamento alternativo: - [Amoxicilina/Clavulanato 2,2g 8/8h EV + Levofloxacina 500mg/dia] ou [Cefotaxime 1g 8/8h ou Ceftriaxone 2g/dia + Azitromicina 500mg/EV] (se suspeita de Legionella – adicionar Levofloxacina) Adaptado das recomendações da British Thoracic Society - Guidelines for the Management of Community Acquired Pneumonia in adults – Update 2009 ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 149 | 155! Indicações para pedido de exames complementares na Pneumonia da Comunidade Grave Indicação Hemo- culturas Microbiologia de secreções Antigénio urinário Legionella Antigénio urinário Pneumococo Outros Admissão em cuidados intensivos ou intermédios X X X X LBA Não resposta à antibioterapia prévia em ambulatório X X X Bacilo de Koch, fungos Presença de infiltrados cavitados X X Leucopenia X X Alcoolismo crónico activo X X X X Doença hepática crónica grave X X DPOC grave ou doença pulmonar estrutural X Asplenia (anatómica ou funcional) X X Viagem recente (últimos 2 meses) De acordo com o local de origem Antigénio urinário da Legionella positivo X - Antigénio urinário do Pneumococo positivo X X - Derrame pleural X X X X Liq.Pleural Adaptado das recomendações da Infectious Diseases Society of America/American Thoracic Society Consensus Guidelines on the Management of Community-Acquired Pneumonia in Adults (2007).! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 150 | 155! Factores modif icadores para agentes específ icos na Pneumonia da Comunidade Condição Agentes mais frequentes Alcoolismo Streptococcus pneumoniae, anaeróbios da cavidade oral, Klebsiella pneumoniae, Acinetobacter species, Mycobacterium tuberculosis DPOC ou tabagismo Haemophilus influenzae, Pseudomonas aeruginosa, Legionella sp., Streptococcus pneumoniae, Moraxella cararrhalis, Chlamydophila pneumoniae Aspiração Gram negativos entéricos, anaeróbios da cavidade oral Abcesso pulmonar CA-MRSA, anaeróbios da cavidade oral, pneumonia fúngica endémica, Mycobacterium tuberculosis, micobacterioses atípicas Exposição a excrementos de pássaros ou morcegos Histoplasma capsulatum Exposição a pássaros Chlamydophila psittaci (se galinhas: gripe aviária) Exposição a coelhos Francisella tularensis Exposição a animais de quinta ou gatas parturientes Coxiella burnetti (Febre Q) Infecção HIV inicial S. pneumoniae, H. influenzae, M. tuberculosis Infecção HIV tardia / SIDA Os anteriores mais o Pneumocystis jirovecii, Cryptococcus, Histoplasma, Aspergillus, micobactérias atípicas, P. aeruginosa, H. influenzae Estadia em hotel ou navio cruzeiro nas últimas 2 semanas Legionella sp. Viagem ao sudoeste dos Estados Unidos Coccidioides sp., Hantavirus Viagem ao Sudeste Asiático Burkholderia pseudomallei, gripe aviária, SARS Surto de gripe na comunidade Vírus Influenza, S. pneumoniae, Staphylococcus aureus, H. influenzae Tosse com mais de 2 semanas de evolução com tosse convulsa ou emetizante Bordetella pertussis Patologia pulmonar estrutural Pseudomonas aeruginosa, Burkholderia cepacia, S. aureus Uso de drogas EV S. aureus, anaeróbios, M. tuberculosis, S. pneumoniae Obstrução endobronquica Anaeróbios, S. pneumoniae, H. influenzae, S. aureus Em contexto de bioterrorismo Bacillus anthracis (anthrax), Yersinia pestis (peste bubónica), Francisella tularensis (tularemia) Adaptado das recomendações da Infectious Diseases Society of America/American Thoracic Society Consensus Guidelines on the Management of Community-Acquired Pneumonia in Adults (2007). ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 151 | 155! Terapêutica dir igida a agentes específ icos Streptococcus pneumoniae Não resistente à Pen.G MIC < 2 mcg/mL Penicillina G, amoxicilina Macrolidos, ceflosporinas, clindamicina, doxiciclina, quinolonas respiratórias Streptococcus pneumoniae Resistente à Pen.G MIC >= 2 mcg/mL [isolado raro] Cefotaxime, cefriaxone, quinolonas respiratórias Penicilina G ou amoxicilina em alta dose se MIC < 4. Vancomicina, linezolide Haemophilus influenzae Não produtor de beta-lactamases. Amoxicilina Quinolona respiratória, doxicilina, azitromicina, claritromicina Haemophilus influenzae Produtor de beta-lactamases Cefalosporina de 2ª ou 3ª geração, Amoxicilina/clavulanato Quinolona respiratória, doxicilina, azitromicina, claritromicina Mycoplasma pneumoniae / Chlamydia pneumoniae Claritromicina, azitromicina, doxicilina. Quinolona respiratória Legionella sp. Quinolona respiratória, azitromicina Doxicilina Chlamydia psittaci Doxicilina, minociclina Claritromicina, azitromicina Coxiella burnetii Doxicilina, minociclina Claritromicina, azitromicina Francisella tularensis Doxicilina Genatmicina, estreptomicina Yersinia pestis Estreptomicina, gentamicina Doxiciclina, quinolona Bacillus anthracis (inalação) Ciprofloxacina, levofloxacina, doxiciclina (adicionar alternativo) Beta-lactâmico. Se susceptível: rifampicina, clindamicina, cloranfenicol Enterobacteriaceae Cefalosporina de 3ª geração Carbapenem se ESBL Amoxicilina/clavulanato, piperacilina/tazobactam, quinolonas Pseudomonas aeruginosa Piperacilina/tazobactam + [ciprofloxacina ou levofloxacina ou aminoglicosídeo] Aminoglicosídeo + [ciprofloxacina ou levofloxacina 750mg/dia] Burkholderia pseudomallei Carbapenem, cefatazidime Quinolona, Cotrimoxazol Acinetobacter sp. Colistina +/- Carbapenem De acordo com o TSA MSSA Flucloxacilina Cefazolina, clindamicina, doxicilina, minociclina MRSA (pneumonia) Linezolide Cotrimoxazol Bordetella pertussis Macrolido Cotrimoxazol Pneumonia de aspiração / Anaeróbios Amoxicilina/clavulanato, clindamicina Carbapenem Vírus Influenza Oseltamivir or zanamivir Tratamento sintomático Mycobacterium tuberculosis Isoniazida + rifampicina + pirazinamida + etambutol Análise caso-a-caso Coccidioides spp Para infecções não complicadas em doentes imunocompetentes, o tratamento não é necessário. Nos outros casos o tratamento recomendado é itraconazol ou fluconazol. Anfotericina B Histoplasmose Itraconazol Anfotericina B Blastomicose Itraconazol Anfotericina B Baseado nas recomendações da IDSA/ATS (2007), combinadas com os dados microbiológicos locais do Centro Hospitalar do Porto (Hospital Geral de Santo António). ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 152 | 155! DERRAME PLEURAL PARAPNEUMÓNICO Definição Derrame pleural parapneumónico é um derrame pleural secundário a uma pneumonia (bacteriana ou vírica) ou a um abcesso pulmonar. Surge como complicação em 20 a 40% dos doentes internados com pneumonia. É considerado complicado se for necessário um procedimento terapêutico invasivo para assegurar a sua resolução ou for confirmada por cultura a presença de bactérias. O empiema é por definição pús na cavidade pleural. A existência prévia de derrame pleural é condição sine qua non para a formação do empiema. A taxa de mortalidade dos doentes com derrame parapneumónico é superior à dos doentes com pneumonia sem derrame associado. Sintomatologia Os sintomas associados a um derrame pleural parapneumónico podem ser agudos ou crónicos e sobrepõem-se com os da pneumonia subjacente. As infecções por anaeróbios cursam frequentemente com derrame pleural crónico associado a emagrecimento e anemia inflamatória. Marcadores bioquímicos O derrame pleural parapenumónico é um exsudado neutrofílico. Se o exsudado tiver predomínio de mononucleares deverão ser equacionados diagnósticos alternativos. Durante a evolução de um derrame parapneumónico, os níveis de pH e glucose descem progressivamente e a DHL sobe. Na presença de pH < 7,20 (a fresco na máquina de gasimetria) ou glucose < 60 mg/dL ou DHL > 3x limite superior do plasma, é elevada a probabilidade de se tratar de um derrame complicado. No fluxograma seguinte encontra-se descrito a abordagem do derrame pleural parapneumónico e na tabela 1 a decisão da abordagem do mesmo em função do risco estimado de desfecho desfavorável. ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 153 | 155! Estrati f icação do derrame pleural parapneumónico para decisão da abordagem em função do risco estimado de desfecho desfavorável Perfil Anatómico Bacteriologia do líquido pleuralBioquímica do líquido pleural Categoria Risco de desfecho desfavorável Indicação para drenagem A0 Minimo, livre, < 1 cm E Bx Gram e culturas desconhecidas E Cx pH desconhecido 1 Muito baixo Não A1 Pequeno a moderado, livre (> 1cm e < 1/2 do hemitórax E B0 Gram amicrobiano e culturas estéreis E C0 pH >= 7,20 2 Baixo Não A2 Grande, livre (> 1/2 do hemitórax) ou loculado com espessamento pleural OU B1 Marcação no Gram ou culturas positivas OU C1 PH < 7.20 3 Moderado Sim B2 pús 4 Alto Sim Estratificação do derrame pleural parapneumónico para decisão da abordagem de acordo com as recomendações da American College of Physicians (2000). Derrame pleural parapneumónico História | Exame físico | Rx tórax Antibioterapia sistémica Toracocentese diagnóstica sob controlo ecográfico Derrame categoria 3 ou 4 ? Quadro infeccioso e derrame pleural ? sim TC torácico Se insucesso Não Se médio / grande volume: aspiração / drenagem simples por agulha sim Inserir dreno torácico Considerar fibrinólise intra-pleural [alteplase + dornase-alfa] Avaliação da drenagem e posicionamento do dreno por TC às 24h Evolução favorável? Dias 5 - 7 Sim Controlo de imagem se necessário Remover dreno TC torácico Consultadoria com Cirurgia Torácica Antibioterapia prolongada Rever em Consulta Externa ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 154 | 155! ! Coordenação Diana Valadares Catarina Gomes Autores | ordem alfabética | ! Ana Rego (Assistente Hospitalar Pneumologia, Hospital Stº António - CHP) Alexandre Pinto (Assistente Hospitalar Medicina Interna, Hospital Stº António - CHP) Arlindo Guimas (Assistente Hospitalar Medicina Interna, Hospital Stº António - CHP) Catarina Gomes (Assistente Hospitalar de Cardiologia, Hospital Stº António - CHP) Diana Valadares (Assistente Hospitalar Medicina Interna, Hospital Stº António - CHP) Graziela Carvalheiras (Assistente Hospitalar Medicina Interna, Hospital Stº António - CHP) Joana Ramalho (Assistente Hospitalar Medicina Interna, Hospital Stº António - CHP) Luísa Regadas (Assistente Hospitalar Hematologia, Hospital Stº António - CHP) Filipe Nery (Assistente Hospitalar Medicina Interna, Hospital Stº António - CHP) Maria João Rocha (Assistente Hospitalar Nefrologia, Hospital Braga) Marta Almeida (Assistente Hospitalar Endocrinologia, Centro Hospitalar de Leiria) Pedro Vita (Assistente Hospitalar Medicina Interna, Hospital Stº António - CHP) Rui Felgueiras (Assistente Hospitalar Neurologia, Hospital Stº António - CHP) Sandra Xará (Assistente Hospitalar Infecciologia, Hospital Joaquim Urbano - CHP) ! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!manual de bolso | fundamentos em medicina de urgência . . . . . . . . . . . . ! ! associação de cuidados intermédios médicos | ACIM | . . . . . . . . . . 155 | 155! | www.acimed.net