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ESTADO LAICO volume 1

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há muito tempo no distrito escolar de convidar membros do clero 
para esse propósito. O diretor aconselhou o rabino no sentido de que suas 
preces deveriam ser não-sectárias. A invocação do rabino teve o seguinte teor:
Deus dos Livres, Esperança dos Bravos: pelo legado da Améri-
ca, onde a diversidade é celebrada e os direitos das minorias são 
47 Precedente citado na Ação Civil Pública no 0019890-16.2012.4.03.6100, cf. abaixo.
48 Ou pai-nosso.
49 Capital do estado de Rhode Island.
39Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
protegidos, nós Te agradecemos. Possam esses jovens homens 
e mulheres crescer de modo a enriquecê-la. Pela liberdade da 
América, nós Te agradecemos. Possam esses novos graduados 
crescer e guardá-la. Pelo processo político da América, no qual 
todos os seus cidadãos podem participar, pelo seu sistema judi-
ciário, onde todos podem buscar justiça, nós Te agradecemos. 
Possam aqueles que honramos nesta manhã sempre recorrer 
a ele com confiança. Pelo destino da América, nós Te agrade-
cemos. Possam os graduados da Escola Intermediária Nathan 
Bishop viver de modo que possam ajudar a compartilhá-lo. 
Possam nossas aspirações para nosso país e para essas jovens 
pessoas, que são nossa esperança para o futuro, ser ricamente 
realizadas. Amém. (SULLIVAN; GUNTHER, 2010).
E a benção do rabino teve o seguinte teor:
Ó Deus, nós somos gratos a Ti por nos ter dado a capacidade de 
aprender que celebramos nessa formatura feliz. Famílias ale-
gres dão graças por ver suas crianças alcançar um importante 
marco. Envie Tuas bênçãos sobre os professores e administra-
dores que ajudaram a prepará-los. Os graduados agora preci-
sam de força e orientação para o futuro, ajude-os a entender 
que nós não estamos completos com o conhecimento acadê-
mico apenas. Nós devemos cada um lutar para cumprir aquilo 
que Tu requeres de todos nós: agir justamente, amar a pie-
dade, andar humildemente. Nós damos graças a Ti, Senhor, 
por nos manter vivos, sustentar-nos e permitir-nos alcançar 
esta ocasião alegre, especial. Amém. (SULLIVAN; GUNTHER, 
2010).
Deborah Weisman, uma estudante da escola, levantou um 
questionamento em face da Cláusula do Estabelecimento à prática da prece 
na cerimônia de graduação da escolar intermediária50.
A justiça federal de primeira instância aplicou o teste de Lemon, 
concluindo que a segunda ponta do teste havia sido violada na espécie 
(isto é, não era o caso que a prática impugnada tivesse um efeito primário 
que nem promovia nem inibia a religião). O juízo federal entendeu que a 
prática de incluir invocações e bênçãos em formaturas de escolas públicas 
criava uma identificação do poder governamental com práticas religiosas, 
endossando a religião, e assim violando a Cláusula do Estabelecimento (505 
U.S. 577, 585).
50 Tipicamente entre a idade de 10 a 14 anos.
40 Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
A SCOTUS manteve o entendimento de que a prática impugnada era 
inconstitucional. Argumentou que “o grau de envolvimento da escola aqui 
tornou claro que as preces na graduação ostentavam a marca do estado e, 
assim, colocavam crianças em idade escolar que objetassem em uma posição 
insustentável” (505 U.S. 577, 590).
Mais recentemente, em Santa Fe Independent School Dist. v. Doe, 530 
U.S. 290 (2000), a SCOTUS invalidou como abstratamente inconstitucional 
outra versão de prece escolar. No caso, em substituição a um programa 
anterior segundo o qual um estudante “capelão” faria “preces nos jogos de 
futebol”, a escola secundária pública adotou um programa segundo o qual 
o corpo discente tinha o poder de votar a cada ano sobre ter ou não um 
estudante como orador antes dos jogos de futebol de várzea, o qual então 
“faria uma breve invocação e/ou mensagem para solenizar o evento”; além 
disso, os estudantes tinham o poder de votar sobre quem o orador estudante 
seria (SULLIVAN; GUNTHER, 2010).
Por fim, em Good News Club v. Milford Central School, 533 
U.S. 98 (2001), a SCOTUS entendeu ser permissível, sob a Cláusula do 
Estabelecimento, o uso das instalações escolares para adoração e preces 
quando conduzida por um clube cristão evangélico privado, como parte 
de um programa extracurricular após as aulas, para estudantes da escola 
elementar, e que estava aberto para outros grupos como os escoteiros e o 
Grupo 4-H51. Nesse caso, a SCOTUS decidiu que era uma discriminação de 
ponto de vista inconstitucional, sob a Cláusula da Liberdade de Fala, excluir 
tal discurso religioso de um “fórum público limitado” que havia sido aberto 
de modo não-seletivo a um amplo escopo de grupos. A SCOTUS também 
rejeitou, por maioria, a tese da escola de que tal exclusão era compelida pela 
Cláusula do Estabelecimento (SULLIVAN; GUNTHER, 2010).
2.3 Religião no Currículo de Escolas Públicas
O primeiro precedente que cabe analisar é Stone v Graham, 449 U.S. 
39 (1980), no qual, aplicando o teste de Lemon, a SCOTUS determinou ser 
inconstitucional uma lei do estado de Kentucky exigindo a colocação de 
uma cópia dos Dez Mandamentos, comprada com contribuições privadas, 
em salas de aulas de escolas públicas. O juízo estadual de primeira instância 
manteve a lei, enfatizando que o “propósito declarado” da lei era “secular e 
51 4-H é um programa de desenvolvimento de jovens do Departamento de Agricultura dos Estados 
Unidos da América (USDA). Cf.: http://www.csrees.usda.gov/nea/family/res/pdfs/What_Club_RE-
VISED_7_11.pdf.
41Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
não religioso” (449 U.S. 39, 40). A SCOTUS reformou tal decisão de modo 
sumário, em decisão per curiam, concluindo que a lei não possuía “propósito 
legislativo secular”, ainda que ela exigisse que cada exemplar dos Dez 
Mandamentos possuísse uma observação em letras pequenas dizendo: “A 
aplicação secular dos Dez Mandamentos é claramente vista em sua adoção 
como o código legal fundamental da Civilização Ocidental e do Common 
Law dos Estados Unidos” (449 U.S. 39, 41). A maioria da SCOTUS entendeu 
o propósito predominante da exibição como sendo “simplesmente religioso” 
(449 U.S. 39, 41), já que os Dez Mandamentos são “inegavelmente um texto 
sagrado nas fés judaica e cristã” (449 U.S. 39, 41). Ainda que alguns dos 
Mandamentos digam respeito a assuntos seculares, “a primeira parte dos 
Mandamentos é referente aos deveres religiosos dos crentes” (449 U.S. 39, 42).
Em Elk Grove Unified School Dist. v. Newdow, 542 U.S. 1 (2004), 
o tribunal de apelação havia decidido que a Cláusula do Estabelecimento 
era violada quando professores em uma sala de aula pública conduziam 
estudantes em uma recitação do Pledge of Allegiance52, tal como modificada 
pelo Congresso em 1954, no auge do fervor político anticomunista, de modo 
a incluir as palavras “uma nação sob Deus”. A SCOTUS reformou a decisão, 
mas sob o fundamento de que o peticionário – um pai ateu que não queria 
que sua filha tivesse de submeter-se à recitação do juramento conforme 
escrito por sua escola elementar pública – não possuía legitimidade ativa 
para o processo, com base nas regras da corte estadual que conferiam 
custódia à mãe da garota (SULLIVAN; GUNTHER, 2010).
Em Epperson v. Arkansas, 393 U.S. 97 (1968), colocou-se uma questão 
muito interessante. A SCOTUS invalidou a versão do estado de Arkansas da 
lei “antievolução” do estado de Tennesse, que havia ganhado notoriedade 
nacional no julgamento Scopes sobre a “lei do macaco” em 1927. A SCOTUS 
entendeu que a lei estava em conflito com o mandamento de “neutralidade” 
da Cláusula do Estabelecimento. A lei do estado de Arkansas proibia que 
professores em escolas estaduais ensinassem a “teoria ou doutrina de que 
a humanidade ascendeu ou descendeu de uma ordem inferior de animais” 
(393 U.S. 97, 98-9). A corte estadual não havia expressado nenhuma 
opinião sobre “se a lei proíbe qualquer