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Pesquisa em educação Maria da ConCeição Maggioni PoPPe 1ª edição Brasília/dF - 2018 Autores Maria da Conceição Maggioni Poppe Produção equipe Técnica de avaliação, revisão Linguística e editoração Sumário Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa ..................................................................................................... 4 Introdução ............................................................................................................................................................................. 6 Aula 1 O Debate sobre Pesquisa em Educação................................................................................................................ 9 Aula 2 Pesquisadores e Pesquisas em Educação ..........................................................................................................24 Aula 3 O Incentivo à Pesquisa nas Instituições de Ensino Superior ......................................................................38 Aula 4 Programas do Governo para Formação de Professores .................................................................................50 Aula 5 Professor reflexivo e professor-pesquisador: conceitos e perspectivas ..................................................65 Aula 6 Modalidades de Pesquisa e a Elaboração do Projeto de Pesquisa............................................................77 Referências ........................................................................................................................................................................92 4 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. a seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de estudos e Pesquisa. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. Cuidado importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado. Importante indicado para ressaltar trechos importantes do texto. Observe a Lei Conjunto de normas que dispõem sobre determinada matéria, ou seja, ela é origem, a fonte primária sobre um determinado assunto. 5 ORGAnIzAçãO DO CADERnO DE EStuDOS E PESquISA Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. as reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Saiba mais informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Posicionamento do autor importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado. 6 Introdução a pesquisa em educação tem ampliado cada vez mais seu debate nos cursos de formação de professores. nesse sentido, as discussões deste caderno traduzem uma crescente preocupação da formação em pesquisa na formação docente. o curso de Pedagogia segue esse caminho e tem sido uma arena de disputas políticas e curriculares, inserindo e excluindo disciplinas, conforme novas diretrizes e orientações curriculares se organizam diferentemente. o mais importante é perceber o ganho dessas discussões e a possibilidade de produzir conhecimento desde a formação inicial. a formação em pesquisa é um debate que não deve se restringir a uma única disciplina no currículo do curso de Pedagogia. Pensando nisso é que a Faculdade UnyLeya inseriu a disciplina de Pesquisa em educação e o convite deste desafio coube a mim. Bem, para seu conhecimento, sou formada em Psicologia e fiz mestrado e doutorado em educação, todos os cursos na Universidade Federal do rio de Janeiro. Fiz, também, uma pós-graduação em Terapia Familiar (UFrJ) e outra pós-graduação em gestão de ensino a distância (UFJF). Foi, no entanto, no mestrado e no doutorado que aprofundei as discussões sobre o curso de Pedagogia e desenvolvi minhas pesquisas com base nele. no mestrado, a dissertação teve como tema “Sentidos de prática em currículo de curso de Pedagogia” e no doutorado a tese foi “Processos de identificação docente em currículo de Pedagogia”. nesta disciplina você irá encontrar partes das duas pesquisas, a dissertação porque tem um levantamento das diretrizes curriculares de formação de professores dos anos 2000, e na tese porque discuto os processos de identificação docente a partir da discussão da formação em pesquisa na formação inicial em Pedagogia, produzindo novos sentidos de docência. aproveitar as discussões de minhas pesquisas, contudo, não foi a tônica deste caderno, pois, muitas outras discussões precisam ser debatidas nesta disciplina, bem como, é importante apresentar aspectos práticos da pesquisa para você que está em formação. o foco não foi a elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso, no entanto, esta habilidade necessita ser desenvolvida no curso em conjunto com a disciplina de Metodologia da Pesquisa e a própria orientação em TCC. Portanto, essas três disciplinas do currículo do curso de Pedagogia da Faculdade UnyLeya desenvolvem discussões e geram competências fundamentais na formação para pesquisa dos nossos estudantes. Minha sugestão é que leia atentamente este caderno e, também, todo material da disciplina para poder tirar suas dúvidas nos espaços compartilhados da plataforma. Boas leituras! 7 IntRODuçãO Objetivos » apresentar os debates no campo da pesquisa em educação, destacando o papel da pesquisa na formação de professores. » Compreender os principais programas de governo para a formação de professores, que incentivam e influenciam as pesquisas. » Conhecer os conceitos e aprofundar o debate sobre professor reflexivo e professor- pesquisador, que contribuíram na configuração das diretizes oficiais de formação de professores dos anos 2000. » identificar as principais modalidades e procedimentos de pesquisa para produção de um projeto de pesquisa. 9 Apresentação nesta aula, procuro situar o panorama atual dos debates sobre pesquisa em educação, com foco no curso de Pedagogia. Contudo, não se trata de fazer um percurso histórico do desenvolvimento das pesquisas e seus debates, mas sim, de mostrar como vêm se consolidando as pesquisas em educação no âmbito dessa formação. nos pontos abordados, busco contemplar a formação inicial do pedagogo, iniciando a discussão com base nos documentos oficiais e problematizando a valorização da profissão docente com destaque nas pesquisas atuais nesse campo de formação do pedagogo. Objetivos » apresentar as discussões que perpassam os fóruns da área da educação e os documentos oficiais sobre a relevância da pesquisa na formação do professor. » destacar a forma como os documentos oficiais e os debates estão problematizando a valorização da profissão docente no cenário atual. » Contextualizardemandas próprias do curso de Pedagogia a partir de dados de pesquisa e de debates da área. 1 AulA O DEbAtE SObRE PESquISA EM EDuCAçãO 10 AulA 1 • O DEbAtE SObRE PESquISA EM EDuCAçãO As Diretrizes Oficiais do Curso de Pedagogia iniciamos com esta breve análise sobre os documentos oficiais do curso de Pedagogia, uma vez que é fundamental situá-lo em relação ao que considero como parte estrutural e estruturante dos debates da pesquisa em educação. atualmente, os cursos de Licenciatura estão organizados pelas diretrizes Curriculares nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada, instituídas pela reSoLUção Cne/CP nº 2, de 1º de julho de 2015, pois antes desta, havia duas diretrizes oficiais separadamente: » reSoLUção Cne/CP nº 2, de 19 de fevereiro de 2002, que instituía a duração e a carga horária dos cursos de licenciatura, de graduação plena, de formação de professores da educação Básica em nível superior. » reSoLUção Cne/CP nº 1, de 15 de maio de 2006, que instituía diretrizes Curriculares nacionais para o Curso de graduação em Pedagogia, licenciatura. Trata-se, portanto, de uma diferença significativa que mantinha documentos distintos, enquanto que, nas atuais diretrizes de 2015, houve a unificação para formação inicial de professores em nível superior e formação continuada. Pode-se observar que essa produção de documentos que diferiam, tanto na forma como foram redigidos, quanto nos anos em que foram publicados, assim como para o público alvo ao qual se direcionavam, é significativa das diferentes concepções em disputa para os cursos de licenciatura e de Pedagogia, particularmente para este, que foi enfatizado em outro documento. ainda com relação a essa diferença, Pimenta afirma que “a pedagogia é um campo de conhecimento específico da práxis educativa que ocorre na sociedade. diferente dos demais que não têm a educação como objeto específico de análise, mas que a ela podem se voltar” (PiMenTa, 2002 e 2004). Penso que o curso de Pedagogia tem se firmado no entendimento de uma formação que compreende um conjunto de conhecimentos, das ciências de referência (Psicologia, Sociologia, antropologia entre outras), de diferentes saberes que formam um professor generalista por excelência. as diretrizes de 2006 tiveram amplo debate nos fóruns representativos da área de Pedagogia, no entanto, nem todas as propostas foram incorporadas às diretrizes pelos formuladores responsáveis no MeC. Saiba mais Saiba mais consultando os links abaixo: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CP022002.pdf http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/rcp01_06.pdf 11 O DEbAtE SObRE PESquISA EM EDuCAçãO • AulA 1 as diretrizes de 2006, contudo, “demarcam novo tempo e apontam para novos debates no campo da formação do profissional da educação no curso de pedagogia, na perspectiva de se aprofundar e consolidar sempre mais as discussões e reflexões em torno desse campo” (agUiar et al., 2006, p. 828). esses autores afirmam que os debates não terminaram em relação ao curso de Pedagogia, mesmo depois de aprovadas as diretrizes de 2006. as instituições formadoras trabalharam intensamente para implementar os novos currículos reformulados em decorrência dessas diretrizes e, ao mesmo tempo, muitos questionamentos dos formadores enfatizavam novos desafios na formação do pedagogo que impactavam a identidade do curso. desde essa época, a docência foi vista com prioridade para a formação do pedagogo com a defesa do exercício profissional. a concepção da centralidade docente é um processo em disputa no curso de Pedagogia e não devemos considerar somente uma situação ou um acontecimento como marco de mudança, como no caso da formulação das diretrizes. o mais relevante é perceber que os diferentes sentidos atribuídos à função do pedagogo estão em convívio e, por vezes, esse entendimento nos leva a posições até ambivalentes, das quais muitos pedagogos também se sentem assim quanto à sua função. nota-se uma difusão das novas oportunidades de atuação do pedagogo como, por exemplo, pedagogo empresarial ou pedagogo hospitalar entre outras. Para Pimenta é preciso “reinventar os saberes pedagógicos tendo por base a prática social da educação” (iBid, p. 47). as diretrizes de 2006 reforçam a docência como ação educativa e processo pedagógico, mas também, podemos entender que, se por um lado evidencia e valoriza o papel do professor, por outro lado passa a exercer mais controle com limitações na autonomia profissional do professor – que é um pedagogo. observa-se que, cada vez mais, os professores da educação básica, área privilegiada de atuação dos pedagogos, são assediados por pesquisadores da educação interessados em consultar suas práticas. É assim que muitas pesquisas produzem dados e apontam resultados como exitosos ou como fracassados sobre a atuação do professor da educação básica. Contudo, é importante lembrar que esse universo de pesquisa é parte da realidade do professor e o constitui permanentemente, muito embora as análises sobre essa atuação não considerem, por vezes, essa formação em processo na atuação docente e, desse modo, podem gerar desconfortos entre os professores sobre tantos dizeres e discursos das pesquisas sobre a sua prática. Por outro lado, são por meio das pesquisas que se elaboram novas propostas metodológicas de ensino, currículos são reformulados e processos didáticos são constituídos, contribuindo significativamente na melhoria da educação básica e na formação dos docentes que nela atuam. afinal, os pilares da universidade que compreendem ensino, pesquisa e extensão são indissociáveis dos fazeres docentes e geram oportunidades diretamente relacionadas ao vínculo universidade- 12 AulA 1 • O DEbAtE SObRE PESquISA EM EDuCAçãO escola tanto em pesquisa quanto em produção de saberes docentes por meio de uma dinâmica contínua de debates entre essas instituições. outro ponto em destaque desde as diretrizes de 2006 e reforçado nas diretrizes de 2015 é a prática de gestão nas atividades docentes, e que pode nos lembrar do modelo do pedagogo especialista que compreendia as extintas habilitações e, no entanto, atualizam-se para atender as novas demandas sociais e as políticas educacionais. outra vez é possível reconhecer o papel das pesquisas que não somente levantam polêmicas como também influenciam formuladores de políticas curriculares e documentos oficiais, provocando pressões por meio de críticas nos fóruns de debates. nesse sentido, vale perceber o importante momento de disputas na formulação das diretrizes e a influência das pesquisas e dos debates que estas promovem num cenário de instabilidade e de contradições nos cursos de formação de professores. as atuais diretrizes 2015 unificam a formação de professores com o seguinte título: “diretrizes Curriculares nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada”, conforme resolução Cne/CP nº 2, de 1º de julho de 2015. essas diretrizes expressam no art. 2º: as diretrizes Curriculares nacionais para a Formação inicial e Continuada em nível Superior de Profissionais do Magistério para a educação Básica aplicam-se à formação de professores para o exercício da docência na educação infantil, no ensino fundamental, no ensino médio e nas respectivas modalidades de educação (educação de Jovens e adultos, educação especial, educação Profissional e Tecnológica, educação do Campo, educação escolar indígena, educação a distância e educação escolar Quilombola), nas diferentes áreas do conhecimento e com integração entre elas, podendo abranger um campo específico e/ou interdisciplinar. (BraSiL, 2015) Saiba mais Saiba mais consultando o link: <http://pronacampo.mec.gov.br/images/pdf/res_cne_cp_02_03072015.pdf> a abrangência da atuação docente é a marca principal dessas diretrizes, bem como destaco a valorização da pesquisa e do estudo de diferentes áreas como processo continuado de formação. desta forma, destaco a seguir alguns artigos e parágrafos para que tenhamos a dimensão de 13 O DEbAtE SObRE PESquISA EM EDuCAçãO • AulA 1 como a pesquisa teve força nos debates e se tornou ponto de referência nesse documento de 2015, vejamos: CaPÍTULo i daS diSPoSiçÕeS geraiS art. 3º, § 5º São princípios da Formação de Profissionais do Magistério da educação Básica: V - a articulação entre a teoria e a prática no processo de formação docente, fundada no domínio dos conhecimentos científicos e didáticos, contemplando a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão; art. 4º a instituição de educação superior que ministra programas e cursos de formação inicial e continuada ao magistério, respeitada sua organização acadêmica, deverá contemplar, em sua dinâmica e estrutura, a articulação entre ensino, pesquisa e extensão para garantir efetivo padrão de qualidade acadêmica na formação oferecida, em consonância com o Plano de desenvolvimento institucional (Pdi), o Projeto Pedagógico institucional (PPi) e o Projeto Pedagógico de Curso (PPC). Parágrafo único. os centros de formação de estados e municípios, bem como as instituições educativas de educação básica que desenvolverem atividades de formação continuada dos profissionais do magistério, deverão contemplar, em sua dinâmica e estrutura, a articulação entre ensino e pesquisa, para garantir efetivo padrão de qualidade acadêmica na formação oferecida, em consonância com o plano institucional, o projeto político-pedagógico e o projeto pedagógico de formação continuada. CaPÍTULo ii ForMação doS ProFiSSionaiS do MagiSTÉrio Para edUCação BÁSiCa: BaSe CoMUM naCionaL art. 5º ii - à construção do conhecimento, valorizando a pesquisa e a extensão como princípios pedagógicos essenciais ao exercício e aprimoramento do profissional do magistério e ao aperfeiçoamento da prática educativa; iii - ao acesso às fontes nacionais e internacionais de pesquisa, ao material de apoio pedagógico de qualidade, ao tempo de estudo e produção acadêmico-profissional, viabilizando os programas de fomento à pesquisa sobre a educação básica; CaPÍTULo iii do(a) egreSSo(a) da ForMação iniCiaL e ConTinUada art. 7º ii - a pesquisa, a análise e a aplicação dos resultados de investigações de interesse da área educacional e específica; 14 AulA 1 • O DEbAtE SObRE PESquISA EM EDuCAçãO Vii - identificar questões e problemas socioculturais e educacionais, com postura investigativa, integrativa e propositiva em face de realidades complexas, a fim de contribuir para a superação de exclusões sociais, étnico-raciais, econômicas, culturais, religiosas, políticas, de gênero, sexuais e outras; Xi - realizar pesquisas que proporcionem conhecimento sobre os estudantes e sua realidade sociocultural, sobre processos de ensinar e de aprender, em diferentes meios ambiental-ecológicos, sobre propostas curriculares e sobre organização do trabalho educativo e práticas pedagógicas, entre outros; Xii - utilizar instrumentos de pesquisa adequados para a construção de conhecimentos pedagógicos e científicos, objetivando a reflexão sobre a própria prática e a discussão e disseminação desses conhecimentos; Xiii - estudar e compreender criticamente as diretrizes Curriculares nacionais, além de outras determinações legais, como componentes de formação fundamentais para o exercício do magistério. (BraSiL, 2015, grifos do autor) extraí alguns pontos de três dos oito capítulos que compõem as diretrizes 2015, nos quais a relevância da pesquisa na formação inicial docente está marcada em negrito de tal forma que é possível verificar a insistência da questão para os formuladores desse documento. Portanto, a vivência investigativa é fundamental na formação de professores, com ambiência em monitoria e pesquisa, por exemplo, principalmente no caso das instituições públicas. Porém, a ambiência colaborativa é fundante da valorização de investigação na formação docente e esta é uma prática tanto nas instituições públicas quanto privadas, inclusive, no ensino a distância, cuja prática colaborativa é uma expertise própria desta modalidade. Pensando que tempo e espaço para atividades coletivas é uma questão nas novas diretrizes e uma prática já comum no ensino a distância, fica o desafio de instituir e promover mais atividades coletivas com o intuito de valorizar a investigação e despertar o futuro professor para a pesquisa em educação. A Valorização dos Profissionais de Educação algumas questões sobre a formação do pedagogo foram abordadas acima, contudo, as transformações de um curso antigo, como é o caso deste, tem se traduzido em muitas polêmicas, cujos documentos oficiais as representam. Atenção na Faculdade UnyLeya, utilizamos a aCa – atividade de Contextualização e atualidades – que deve ser realizada em grupo, tendo como referência a pesquisa para sua produção. Trata-se de um procedimento de pesquisa com produção colaborativa, cuja formação inicial deve estimular o fomento à pesquisa. 15 O DEbAtE SObRE PESquISA EM EDuCAçãO • AulA 1 desde a reforma Universitária de 1968 que a estrutura curricular do curso de Pedagogia teve mudanças significativas, conforme resolução nº 252/69 CFe que introduziu as habilitações técnicas no curso de Pedagogia (SaViani, 2007) e que vigorou até a promulgação da LdB nº 9.394/96, na qual o art. 62 institui: a formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade normal. (LdB - Leis de diretrizes e Bases da educação nacional. Lei no. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. d.o.U. de 23 de dezembro de 1996) a resolução/CFe nº 2/69, que incorporou o Parecer/CFe 252/69 e fixou o mínimo de conteúdo e de duração a ser observado na organização do Curso de Pedagogia, reafirmou um modelo, cuja tradição é a diferença em relação a se formar pedagogo/especialista e a se formar professor dos anos iniciais. as diretrizes de 2015, entretanto, trazem em seu cerne a formação de professores tanto para o pedagogo quanto para as outras licenciaturas, sem distinção. Um ano antes, foi elaborado o Plano nacional de educação, Lei do Pne (nº 13.005/2014), que apresenta 20 Metas e inaugura uma nova fase para as políticas educacionais brasileiras. São Metas e várias estratégias para a educação básica e a educação superior que, entre outros temas, inclui a valorização dos profissionais de educação. nesse sentido, a profissionalização docente torna-se uma preocupação das políticas educacionais brasileiras, alinhando documentos e estabelecendo metas e estratégias. não se esquecendo de que fez parte desse processo, também, a necessidade de articular as diretrizes Curriculares nacionais para a Formação inicial e Continuada, em nível Superior, e as diretrizes Curriculares nacionais para a educação Básica. Saiba mais Saiba mais consultando o link: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htm > Saiba mais Saiba mais consultando o link abaixo de texto explicativo: http://www.simposioestadopoliticas.ufu.br/imagens/anais/pdf/eC13.pdf, cujo título é “direTriZeS CUrriCULareS naCionaiS Para o CUrSo de Pedagogia: análise histórica e política”, de autoria de Mônica Luiz de Lima ribeiro e Maria irene Miranda (UFU). 16 AulA 1 • O DEbAtE SObRE PESquISA EM EDuCAçãO Saiba mais MeTa 17 Pne: 17 - Valorização do professor Valorizar os(as) profissionais do magistério das redes públicas da educação Básica, a fim de equiparar o rendimento médio dos(as) demais profissionais com escolaridade equivalente,até o final do 6º ano da vigência deste Pne. FonTe: http://www.observatoriodopne.org.br/metas-pne/17-valorizacao-professor, acesso 14/11/16. em relação ao último ponto comentado acima, vale reconhecer a necessidade de articular a formação do professor à educação básica, a universidade à escola, a teoria à prática. nessa articulação, um dos pontos centrais é a pesquisa que transita nesses diferentes contextos na busca de solução dos problemas com inovação das práticas, das didáticas e das metodologias. entre os pontos que foram apresentados nas diretrizes de 2015 como “considerando”, apontam-se: os princípios que norteiam a base comum nacional para a formação inicial e continuada, tais como: a) sólida formação teórica e interdisciplinar; b) unidade teoria-prática; c) trabalho coletivo e interdisciplinar; d) compromisso social e valorização do profissional da educação; e) gestão democrática; f ) avaliação e regulação dos cursos de formação. (BraSiL, 2015) novamente podemos destacar nesses pontos “unidade teoria-prática” e “trabalho coletivo e interdisciplinar”, dos quais a pesquisa articula e favorece ações dessa natureza. Por isso mesmo, as diretrizes confirmam sobre a relação com a pesquisa quando apontam a valorização do profissional de educação e, também, a valorização investigativa nessa formação, quando propõe a “articulação entre graduação e pós-graduação e entre pesquisa e extensão como princípio pedagógico essencial ao exercício e aprimoramento do profissional do magistério e da prática educativa” – mais um dos pontos “considerando”. a necessidade de melhorar a formação de professores, mediante maior qualificação e definição do perfil profissional, assume centralidade em todos os discursos no âmbito das políticas educacionais e, assim, maior organicidade entre os documentos como no caso o Pne 2014 e as diretrizes 2015. Saiba mais elaboração: Todos Pela educação Contexto dos 2,2 milhões de docentes que atuam na educação Básica do país, aproximadamente 24% não possuem formação de nível superior (Censo escolar de 2014). após 2006, prazo dado às redes públicas e privadas para cumprir a obrigatoriedade do 17 O DEbAtE SObRE PESquISA EM EDuCAçãO • AulA 1 diploma de nível superior para os docentes (LdB/1996), somente os já formados puderam participar de concursos, mas os indicadores só refletem o fato a partir de 2010. daquele ano até 2014, o número de diplomados cresceu quase 10 pontos percentuais (68,9%, em 2010, a 76,2%, em 2014). Vale ressaltar que os dados por região mostram grande disparidade entre o norte e o nordeste, onde há menos docentes com formação adequada, e as outras regiões do Brasil. e boa parte dos professores da educação infantil ainda não tem magistério nem curso superior (em 2014, eram 15,3%, segundo o ineP). Fonte: http://www.observatoriodopne.org.br/metas-pne/15-formacao-professores, acesso 14/11/16. os dados acima se referem ao contexto da MeTa 15 do Pne “Formação de Professores”, que assim expressa: garantir, em regime de colaboração entre a União, os estados, o distrito Federal e os Municípios, no prazo de 1 ano de vigência deste Pne, política nacional de formação dos profissionais da educação de que tratam os incisos i, ii e iii do caput do art. 61 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, assegurado que todos os professores e as professoras da educação básica possuam formação específica de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento em que atuam. (http://www.observatoriodopne.org.br/metas-pne/15-formacao-professores, acesso 14/11/16) a preparação para a pesquisa, como valorização da profissão docente e do pedagogo, aproxima de uma antiga polêmica que iniciou nos debates sobre professor reflexivo e professor-pesquisador nas concepções de Schön (2000) e Zeichner (1998), respectivamente, que abordaremos na última unidade deste caderno. no entanto, adianto que muitas vezes foi interpretado como provocação o fato de mudar a posição do professor para uma condição menos passiva, pois, contrariamente, com base nesses conceitos, temos a possibilidade de reconhecer que o professor pode produzir conhecimento e, ao mesmo tempo, contribuir na busca de soluções para problemas cotidianos da sala de aula e gerar aproximação entre a academia e a escola. a pesquisa na formação de professores, contudo, não pode acontecer com base em reducionismos ou equívocos que representem fragilidade epistêmica (BorToLini, 2009). Pois, é preciso garantir o rigor científico, no qual o curso de formação deve se pautar nesta preparação ainda que, na visão de Lüdke, há a preocupação de que: ... sabemos que a formação “teórica” do professor, com aulas de metodologia, não é suficiente. Mas sabemos também que as minipesquisas, cabíveis dentro dos limites dos cursos de formação, em geral não passam de arremedos artificiais, que não têm possibilidade de preencher de modo satisfatório quase nenhum dos requisitos da formação do pesquisador. (2012, p. 49). a preocupação de Lüdke é tão legítima quanto a importância de se manter oportunidade de pesquisa na formação do pedagogo, pois, a continuidade dos estudos e a possibilidade dos 18 AulA 1 • O DEbAtE SObRE PESquISA EM EDuCAçãO egressos retornarem para programas de pós-graduação lato sensu e stricto sensu é mais uma forma de valorização do profissional professor. Lüdke ainda complementa que “pessoalmente não tenho dúvida de que é necessário introduzir o futuro professor no universo da pesquisa, em sua formação inicial e também na formação continuada, garantindo assim a possibilidade de exercício do magistério de maneira muito mais crítica e autônoma” (iBid, P.51). Portanto, propiciar a atitude investigativa na formação é muito importante na medida em que quanto mais se pesquisa sobre educação mais ainda pode se constituir o exercício crítico e a atitude autônoma deste professor/pedagogo. neste sentido que andré defende, também, ensino e pesquisa na formação docente quando explicita que “os cursos de formação têm um importante papel: o de desenvolver, com os professores, essa atitude vigilante e indagativa, que os leve a tomar decisões sobre o que fazer e como fazer nas suas situações de ensino, marcadas pela urgência e pela incerteza”(2012, p. 59). Por outro lado, penso que não podemos deixar de nos preocupar com a qualidade da forma como se faz pesquisa, ou melhor, “sem comprometer o próprio estatuto da pesquisa” como conclui Lüdke (iBid, p. 52). os documentos oficiais, já comentados, passaram pela evolução destes e de outros debates e expressam a valorização de um contexto investigativo com ambiência em pesquisa na formação de professores. aspecto que também reforça a valorização dos profissionais de educação, na medida em que altera seu processo formativo e amplia sua forma de atuação. Mas, não posso deixar de comentar uma polêmica sobre a pesquisa quando aplicada nas escolas de educação básica, pois como escreve andré: os pesquisadores muitas vezes assumem uma atitude de juiz das práticas escolares dos professores, atribuem à pesquisa um papel prescritivo, fazem denúncias pouco fundamentadas, ditam a verdade, criando, com isso, indisposições e resistências perfeitamente compreensíveis. Muitos professores e demais profissionais das escolas, por sua vez, desenvolvem uma grande expectativa em relação à pesquisa, acreditando que ela pode dar respostas imediatas ou apontar soluções aos intrincados problemas da prática escolar cotidiana e, como isso não acontece, mostram-se céticos quanto a seu valor e sua utilidade. Passam, então, a fazer sérias críticas aos resultados das pesquisas, acusando-os ora de simplistas demais, ora de complexas demais, ora de muito vagos, ora de contraditórios. (2012, p. 63) Trata-se de embates entre professores da escola básica e professores-pesquisadores de nível superior, do qual estes podem estar mais distantes das salas de aula dedicando-se mais às pesquisas, enquanto os professoresdas escolas básicas estão mais envolvidos com o “calor” dos 19 O DEbAtE SObRE PESquISA EM EDuCAçãO • AulA 1 acontecimentos nas salas de aula. dessa forma, ocorrem desencontros nestas aproximações entre professores e pesquisadores sem que a escola tenha proveito das pesquisas nem os professores. estabelecer uma relação de apoio e confiança é fundamental neste contexto da relação universidade-escola. O Curso de Pedagogia no brasil Finalizando esta aula, considero importante o conhecimento de alguns pontos específicos do curso de Pedagogia para que possamos entender as demandas próprias deste no contexto da pesquisa em educação. Faço, assim, um breve resumo sobre o curso de Pedagogia, destacando momentos e cenários mais significativos. destaco, desse modo, inicialmente, três cenários básicos referentes ao curso de Pedagogia, que são: 1. 1939 – ano de criação do curso de Pedagogia pelo decreto-Lei nº 1.190, de 4 de abril de 1939, que acontece no momento em que se institui a formação do magistério em nível superior no Brasil. esta alteração legal tem repercussões, também, profissionais que afetarão as formas sociais de compreensão e valorização da formação docente. 2. 1969 – redefinição da estrutura curricular do curso de Pedagogia conforme resolução nº 252/69 CFe que introduziu as habilitações técnicas no curso de pedagogia (SaViani, 2007, p. 363). esta resolução reforçou o desenvolvimento que tornou tradicional a diferença em relação a formar pedagogo/especialista e formar professor dos anos iniciais. 3. 1996 – promulgação da Lei de diretrizes e Bases da educação nacional nº 9.394/96 que representou uma conquista ao situar a formação de professores da educação infantil e anos iniciais ao nível superior. a justificativa é a necessidade de oferecer uma formação mais bem fundamentada teoricamente e ampliar a visão crítica e reflexiva da docência como fator de melhoria da qualidade da formação profissional de professores. e, mais recentemente três documentos no cenário dos anos 2000 a serem considerados: 1. 2006 – diretrizes Curriculares nacionais para o Curso de graduação em Pedagogia, licenciatura. nestas deixam de existir as habilitações para os cursos, apenas são mantidas ênfases para o exercício da docência na educação infantil e nos anos iniciais do ensino Fundamental, nos cursos de ensino Médio de modalidade normal e em cursos de educação Profissional, na área de serviços e apoio escolar, bem como em outras áreas nas quais sejam previstos conhecimentos pedagógicos. 2. 2014 – Pne que estabelece diretrizes, metas e estratégias de concretização no campo da educação por meio de atuais 20 metas estratégicas a serem cumpridas num período de 10 anos. É uma lei ordinária, prevista no artigo 214 da Constituição Federal. 20 AulA 1 • O DEbAtE SObRE PESquISA EM EDuCAçãO 3. 2015 – diretrizes Curriculares nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada. nesta destacam-se, além da docência, as competências com gestão e pesquisa para a formação de professores. em consulta realizada no site do ineP, buscando conhecer levantamentos realizados sobre o curso de Pedagogia, localizei na SinoPSe da edUCação SUPerior o seguinte: Quadro 1 - Oferta de Vagas em Cursos de Pedagogia/INEP 2013 Nº de Instituições que oferecem o Curso de Pedagogia Vagas Oferecidas Ingresso Total Concluintes Privada 841 321.183 186.838 77.078 Pública 154 35.638 29.714 18.933 total 995 356.821 216.552 96.011 Fonte: Dados obtidos na SINOPSE EDUCAÇÃO SUPERIOR – 2013 – INEP (acesso em 05/06/2015). o quadro acima apresenta uma dimensão do quantitativo de ingressantes e concluintes do curso de Pedagogia e é possível constatar a grande oferta de vagas, do qual se destaca como um curso superior muito procurado e com grande contingente de ingressantes. entretanto, há uma redução significativa no número de concluintes, seja por reprovações e/ou evasões, cuja estatística do ineP não faz inferências. evidencia-se, dessa forma, o quanto é importante a pesquisa em educação voltada para o campo da formação inicial e que, quanto mais pesquisas e debates existirem sobre o curso de Pedagogia ainda assim não cessam as possibilidades investigativas, uma vez que se refere a um universo de longa história, muita abrangência e complexas necessidades. no reSUMo TÉCniCo do CenSo da edUCação BÁSiCa de 2013, que é o mais recente, a consulta dos dados no item 10, FUnçÕeS doCenTeS, aponta o seguinte: educação infantil – Percentual de docentes por grau de Formação em turma de etapa única – Brasil – 2013 Sem Formação Superior 40% Com Formação Superior 60% ensino Fundamental – anos iniciais - Percentual de docentes por grau de Formação em turma de etapa única – Brasil – 2013 Sem Formação Superior 27,5% Com Formação Superior 72,4% ensino Fundamental – anos Finais – Percentual de docentes por grau de Formação em turma de etapa única – Brasil – 2013 Sem Formação Superior 13,2% Com Formação Superior 86,8% ensino Médio – Percentual de docentes por grau de Formação em turma de etapa única – Brasil – 2013 Sem Formação Superior 7,3% Com Formação Superior 92,7% Fonte: adaptado MeC/inep/deed. www.inep.gov.br. acesso, 05/09/16. 21 O DEbAtE SObRE PESquISA EM EDuCAçãO • AulA 1 os dados acima confirmam a necessidade crescente, conforme progridem os níveis de ensino, de formação continuada dos professores atuantes na educação básica e assim por diante. na discussão deste item 10 existe a afirmação de que: o Plano nacional de educação (Pne), em seu diagnóstico, define que a qualidade do ensino só poderá existir se houver a valorização dos profissionais do magistério, a qual só será alcançada por meio de uma política global capaz de articular a formação inicial, as condições de trabalho, o salário, a carreira e a formação continuada. (p. 35). a título de curiosidade e informação destaco abaixo as novas deliberações da condição do Plano nacional de educação, conforme a emenda Constitucional nº 59 de 2009: PlANOS DE EDuCAÇÃO a emenda Constitucional nº 59/2009 mudou a condição do Plano nacional de educação (Pne), que passou de uma disposição transitória da Lei de diretrizes e Bases da educação nacional (Lei nº 9.394/1996) para uma exigência constitucional com periodicidade decenal, o que significa que planos plurianuais devem tomá-lo como referência. o plano também passou a ser considerado o articulador do Sistema nacional de educação, com previsão do percentual do Produto interno Bruto (PiB) para o seu financiamento. os planos estaduais, distrital e municipais devem ser construídos e aprovados em consonância com o Pne. Fonte: http://pne.mec.gov.br/2-uncategorised?start=12 , acesso 12/09/16. Voltando à Sinopse da educação Superior, mesmo documento do ineP comentado anteriormente, destaca-se o quadro que apresento a seguir: Quadro 2 – Número de Docentes Atuando na Educação Básica e Proporção por Grau de Formação – Brasil – 2007- 2013. Ano Número de docentes Proporção de docentes por grau de formação Ensino Fundamental Ensino Médio Educação SuperiorIncompleto Completo Total Normal/ Magistério Sem Normal/ Magistério 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 1.880.910 2.003.700 1.991.606 2.023.748 2.069.251 2.095.013 2.141.676 0,2 0,2 0,2 0,2 0,2 0,1 0,1 0,6 0,5 0,5 0,4 0,4 0,3 0,2 30,8 32,5 31,6 30,5 28,6 26,5 24,9 25,3 25,7 24,5 22,5 19,0 16,0 13,9 5,5 6,7 7,1 8,1 9,6 10,5 11,0 68,4 66,8 67,8 68,8 70,9 73,1 74,8 FONTE: MEC/Inep/Deed. (acesso em 05/06/2015). Nota: 1) O docente foi computado apenas uma vez, mesmo atuando em mais de uma etapa/modalidade. 2) Não inclui auxiliares da educação infantil. 3) Não inclui os professores de turmas de atividade complementar e de Atendimento Educacional Especializado (AEE). 22 AulA 1 • O DEbAtE SObRE PESquISA EM EDuCAçãO nota-se primeiramente umquantitativo igualmente grandioso, mas que demonstra a defasagem em relação à formação universitária mínima, que desde a LdB nº 9.394/96 regulamenta as exigências para os professores de todas as etapas de ensino, conforme os artigos 61 e 62 desta LdB. o que chama a atenção nesta tabela acima é que 17 anos depois ainda não tem a devida correspondência em relação à formação universitária. nota-se que este enorme contingente de não concluintes do curso de Pedagogia e de professores sem a formação mínima, conforme regulamento legal, expressa o quanto ainda estamos distantes de atender um padrão de qualidade do profissional docente da educação básica. Portanto, este é mais um dos argumentos para valorização do profissional de educação por meio de uma formação mais qualificada que prepare o futuro egresso para o enfrentamento dos principais problemas e debates no campo educacional, com sólido conhecimento dos processos investigativos necessários a sua atuação e que possam fortalecer a pesquisa em educação. Por fim, considero que a prática de ensino no curso de Pedagogia sempre é vista como estratégica na formação, ocupando um lugar privilegiado, contudo, a prática de pesquisa ainda não tem a mesma relevância e os formadores devem empenhar esforços neste sentido de valorizar a pesquisa. não estou de modo nenhum desconsiderando a prática de ensino que é parte estratégica da formação do professor. Mas, penso que criar uma tensão em relação à prática de ensino e despertar o debate no sentido da abertura de novas oportunidades nos cursos de formação de professores, com relação à formação em pesquisa, é uma proposta inovadora que representa uma aposta na função investigativa de um professor – aqui, no nosso caso – da educação básica, o pedagogo. a valorização da pesquisa em educação em cursos de formação de professores segue ao encontro da valorização desse profissional, assim como, na busca constante de aprimoramento da atuação docente entendendo que esta tem um papel de destaque na sociedade com a formação de jovens cidadãos. Resumo nesta aula: » Vimos a importância de conhecermos os debates que constituem a área da educação e contribuem na formulação de documentos e diretrizes dos cursos de formação de professores. » Verificamos a crescente valorização da profissão docente registrada em documentos e metas da educação que foram produzidos em 2014 e 2015, influenciando os temas e abordagens das pesquisas em educação. 23 O DEbAtE SObRE PESquISA EM EDuCAçãO • AulA 1 » Conhecemos a grandiosa tarefa da universitarização docente, uma vez que os dados de pesquisa apontam para a defasagem entre a formação atual dos professores da educação básica e as metas definidas pelo Plano nacional de educação – Lei do Pne nº 13.005/2014. » Contextualizamos o momento atual dos debates na área da formação do professor da educação básica por meio da abordagem dos temas mais polêmicos em educação que mobilizam as pesquisas em educação. 24 Apresentação nesta aula, situo a constituição do campo da Pesquisa em educação, reconhecendo este campo como complexo e multideterminado. no entanto, destaco o papel da Universidade, ou melhor, do ensino Superior na formação para pesquisa, em particular, nos cursos de formação de professores. Posteriormente, apresento uma discussão sobre os dilemas científicos das pesquisas em educação, utilizando a contribuição dos principais autores e pesquisadores do campo. Objetivos » apresentar breve percurso da constituição do campo da pesquisa em educação. » destacar os debates teóricos sobre formar para pesquisa na formação de professores. » discutir os dilemas científicos das pesquisas e os caminhos investigativos dos pesquisadores em educação. 2 AulA PESquISADORES E PESquISAS EM EDuCAçãO 25 PESquISADORES E PESquISAS EM EDuCAçãO • AulA 2 A Constituição do Campo de Pesquisa em Educação destaquei na aula anterior, entre outros pontos, o papel social da Universidade na produção de pesquisas, entretanto, devemos lembrar que as primeiras pesquisas no campo da pesquisa educacional ocorreram fora da Universidade. Foi no ineP (anteriormente, instituto nacional de estudos Pedagógicos) criado em 1937 que ocorreram as primeiras pesquisas sobre educação e, desde então, grandes avanços se sucederam em relação aos iniciais esforços desse instituto de pesquisa. na universidade, a implantação dos programas de pós-graduação stricto-sensu (mestrado e doutorado) teve fortes investimentos a partir dos anos de 1960, quando a pesquisa na área da educação começou a se expandir. nesse sentido, podemos afirmar que a pesquisa na área educacional é recente, contudo, mostra-se cada vez mais forte e consistente, com o avanço de diferentes programas de pós-graduação em todo país, a participação dos pesquisadores em congressos nacionais e internacionais, a divulgação das pesquisas pelo portal da CaPeS (Coordenação de aperfeiçoamento de Pessoal de nível Superior) e o aumento de publicações das pesquisas por meio de livros impressos e de formatos eletrônicos. as pesquisas em educação seguiram, inicialmente, as metodologias quantitativas privilegiadas pela pesquisa na área das ciências exatas para, somente depois, instituir também as metodologias qualitativas, respeitando as características da relação sujeito-sujeito, próprias das ciências humanas, no processo de fazer pesquisa em educação. Mais recentemente, ambas as metodologias, quantitativas e qualitativas, são valorizadas e utilizadas nas pesquisas, procurando sempre evitar preconceitos e respeitando o rigor científico por excelência. estamos, assim, tratando de investigação de cunho mais interpretativo cuja realidade não pode ser aprisionada a uma única visão. Para refletir VaLe LeMBrar que a realidade social está condicionada pelo momento histórico e o lugar. Portanto, situada conforme o tempo e o lugar, com resultados provisórios. e, PrinCiPaLMenTe, por quem interpreta esta realidade – o pesquisador. na pesquisa qualitativa, o pesquisador é o instrumento principal, pois é ele quem define o problema a ser investigado, faz a seleção dos instrumentos a serem utilizados, produz os dados para análise e apresenta os resultados para que outros pesquisadores prossigam com novas pesquisas. Atenção Metodologias se referem a: » referenciais teóricos; » Conjunto de técnicas; » Potencial criativo do pesquisador. 26 AulA 2 • PESquISADORES E PESquISAS EM EDuCAçãO a forma como se organizam os dados, a base teórica que fundamenta as discussões e as relações subjetivas que o pesquisador constrói é que dão sentido e interpretações singulares sobre fatos, pessoas e acontecimentos pesquisados. Trata-se de uma mudança paradigmática muito significativa, conforme estabelece Thomas Khun. Veiga-neto, quando se refere ao conceito de paradigma de Khun, escreve o seguinte: não somos livres para ver e compreender qualquer coisa, de qualquer maneira, senão a partir dos ‘esquemas’ dados por um paradigma. assim, o paradigma funciona como uma fonte dos métodos e das próprias perguntas possíveis – e respectivas respostas – numa dada comunidade científica. desse modo, Khun mostra o caráter radicalmente social não apenas da prática científica, como também do próprio conhecimento científico. (Veiga-neTo, 2007, p. 40). afinal fazemos pesquisa pensando em situações num determinado contexto histórico-social e com base nos recursos científicos de uma determinada época, pois “cada paradigma corresponde uma particular visão de mundo” (iBid, p. 41). Saiba mais Thomas Kuhn foi um daqueles pesquisadores da Filosofia da Ciência que defenderam o contexto de descoberta, o qual privilegia os aspectos psicológicos, sociológicos e históricos como relevantes para a fundamentação e a evolução da ciência. Para Kuhn, a ciência é um tipo de atividade altamente determinada que consiste em resolver problemas (como um quebra- cabeça) dentro de uma unidade metodológica chamada paradigma. este,apesar de sua suficiente abertura, delimita os problemas a serem resolvidos em determinado campo científico. É ele que estabelece o padrão de racionalidade aceito em uma comunidade científica sendo, portanto, o princípio fundante de uma ciência para a qual são treinados os cientistas. Fonte: http://brasilescola.uol.com.br/filosofia/a-filosofia-ciencia-thomas-kuhn.htm, acesso 05/09/16. Pesquisamos porque buscamos, em sentido mais amplo, um determinado conhecimento. Quando fazemos pesquisa, no entanto, importa perceber o quanto grande parte dos conhecimentos e leituras que já possuímos perpassam nossos textos, além das discussões de que participamos nos debates das disciplinas e quaisquer outros fóruns que contribuem em nossas reflexões. Considero, portanto, que a neutralidade do pesquisador é uma quimera cujas ciências humanas desmistificam quanto mais avançam as pesquisas. Por isso é tão importante explicar de onde se fala, quais metodologias foram adotadas e esclarecer o processo de construção em pesquisa. não importa se você é um pesquisador iniciante ou experiente, é preciso situar o leitor sobre os caminhos metodológicos e os aportes teóricos, ou seja, quais os modelos explicativos utilizados. não é porque a pesquisa está sendo feita por um pesquisador iniciante que pode negligenciar ou “falhar” no modelo explicativo, pois, dessa forma, perderá os critérios de rigor e a aceitação na comunidade científica. Lembremos, então: 27 PESquISADORES E PESquISAS EM EDuCAçãO • AulA 2 Importante: ETAPAS BÁSICAS DA PESQuISA: Definição do problema: Pesquisar e explorar as pesquisas sobre o tema. Planejamento da pesquisa: definir os objetivos da pesquisa, a metodologia e as técnicas para produção dos dados. Execução da pesquisa: Preparar e aplicar as técnicas previamente definidas. analisar os dados produzidos e concluir. Comunicação dos resultados: Produzir relatório e apresentar o resultado. as etapas do destaque acima são básicas para fazer pesquisa científica, claro que podemos desmembrar cada um dos itens sugeridos em outros tantos procedimentos. Porém, estes itens já tratam do que é considerado pesquisa no meio acadêmico e científico. Por conseguinte, desde a formação no curso de Pedagogia, devem ser respeitadas essas etapas e critérios ao se fazer pesquisa seja para produção do Trabalho de Conclusão de Curso seja para minipesquisas dentro das disciplinas curriculares ou quaisquer outras experiências dos estudantes. Para tal, no entanto, é necessário que o estudante tenha suporte teórico, técnico e supervisão de um professor experiente. o acompanhamento do passo a passo para fazer pesquisa é fundamental e deve ser incluído na matriz curricular, com espaço tempo de pesquisa. atualmente, muitos formadores somam experiências em pesquisa e devem estender essas experiências aos estudantes, mesmo que sua disciplina não seja diretamente associada ao campo da pesquisa em educação. o fato de transmitir seus conhecimentos sobre o fazer pesquisa, bem como dinamizar os debates mais polêmicos da educação, pode instigar a necessidade investigativa nos estudantes em relação às questões que ainda estariam pouco elucidadas ou deficientemente refletidas/conscientizadas. Portanto, despertar os estudantes em formação para o universo da pesquisa também é um importante papel dos formadores, tanto em relação à articulação teoria e prática dos conteúdos quanto para a aproximação entre universidade e escola. dessa forma, o formador auxilia o estudante a romper barreiras entre o conhecimento e a realidade, procurando estabelecer relações que possam contribuir nos fazeres da sala de aula, lócus de sua futura profissão. esse é um aprendizado na formação do pedagogo que poderá ser multiplicado, quando o egresso, na sua atuação docente na educação básica deverá estimular seus alunos por meio de debates com questionamentos da realidade, utilizando materiais que contribuam na reflexão e conscientização dos problemas. a pesquisa em educação tem essa função multiplicadora de práticas investigativas como um compromisso docente. Pedro demo discutiu uma proposta pioneira de didática e prática de pesquisa que foi estruturada no fim dos anos de 1990 para uma faculdade alternativa voltada aos profissionais da educação 28 AulA 2 • PESquISADORES E PESquISAS EM EDuCAçãO infantil e séries iniciais do ensino Fundamental de Belém, e abordou a questão destacando alguns pontos. Vejamos a seguir: Sintetizando São componentes fundamentais: a. necessita de orientação do professor, no sentido básico do termo: liberdade de expressão, iniciativa própria, mas construída com os necessários cuidados formais de uma proposta científica. b. Toda prática deve ter a sua elaboração teórica, para realizar em plenitude o confronto da teoria com a realidade histórica; jamais se trata de prática dispersa, intermitente, esporádica, sem rumo, sem método, sem compromisso com resultados; para tanto, é mister reconstruir teoricamente a prática, no que se garante também que a prática é fonte de conhecimento e não só aplicação decorrente. c. Toda prática deve ser construída em fases aproximativas e cumulativas, até completar-se, para permitir acompanhamento adequado por parte do orientador e por parte do próprio aluno; por vezes, frente a ideias que se imaginam alternativas, dispensa-se cuidado metódico e teórico, acreditando que do descuido surja criatividade; seria errôneo aprisionar a prática em esquemas rígidos e rituais, como seria errôneo definir bagunça irresponsável como estratégia de criação. d. Toda prática deve estar no contexto da formação acadêmica, unindo saber & mudar, desde a aplicação teórica até a fundação científica do sujeito social e profissional. e. deve existir espaço para prática coletiva, no sentido de se construírem projetos comuns em contexto de negociação e diálogo, ainda que a elaboração teórica deva ser individual, para se garantir que todos produzam pessoalmente. (deMo, 2000, pp. 101-102). É possível observar uma orientação do princípio investigativo, com rigor a ser seguido, e valorização da produção do conhecimento, ou seja, produção em pesquisa com construção própria do estudante. na apresentação da trajetória curricular desta proposta, a pesquisa é a forma de avaliação das disciplinas com orientação do professor formador. Podemos considerar uma condição ideal da pesquisa na formação, da qual não é fácil seguir o modelo, contudo, a pesquisa em educação no âmbito da formação do professor de educação básica já é uma realidade, embora em menor escala porque muitas vezes está restrita a produção do Trabalho de Conclusão de Curso. Mas, mesmo considerando somente a produção do TCC é uma experiência em pesquisa na formação docente que deve se desdobrar no despertar investigativo das questões educacionais que atravessam as disciplinas do currículo e as práticas do estágio. Pedro demo finaliza o texto com uma expectativa bem forte ao expressar o seguinte: espera-se um ‘profissional recriado’, muito diferente dos vigentes, capaz de construir um projeto próprio educativo e assistencial, ao mesmo tempo competente cientificamente e participativo politicamente. agentes lídimos de mudança, com base no saber e na cidadania. (iBid, p. 116). 29 PESquISADORES E PESquISAS EM EDuCAçãO • AulA 2 Um texto que foi produzido 15 anos antes das atuais diretrizes, nas quais há uma defesa do fortalecimento do papel investigativo do professor a ser conduzido na formação. não sabemos se Pedro demo preconizou essa defesa da inserção da pesquisa na formação docente, mas certamente problematizou sua necessidade e despertou para a capacidade de alterar a maneira de preparar os professores com base na pesquisa como princípio educativo. Vemos, então, que muito antes da instituição e valorização do processo investigativo no campo da formação de professores pelas diretrizes de 2015, teóricos e pesquisadores já defendiam essa necessidade como fundamental. numaoutra linha de pensamento que situa o debate, Menga Lüdke, em 2001, pesquisadora do campo da formação de professores, organizou um livro com as produções de pesquisadores, cujo título da obra é “o professor e a pesquisa” fruto de um estudo sobre as relações entre o professor da educação básica e a pesquisa. inúmeras questões motivaram esses estudos da pesquisadora, das quais recortei algumas para citar com base na introdução da obra (p. 9): » Podem-se articular pesquisa e prática no trabalho e na formação de professores? » É viável a integração da pesquisa no dia a dia do professor das escolas da rede básica? » Que tipo de pesquisa seria essa e como se prepararia para ela o professor? » É possível e recomendável ao professor investigar sua própria prática? Trata-se de questionamentos que continuam impulsionando debates e podemos, aqui também, trabalhar com a motivação/reflexão dessas questões da relação entre pesquisa e docência. entender, assim, que a pesquisa em educação é mobilizada pelos embates do campo educacional e pelas demandas que constantemente se originam da prática educativa. Contudo, a aproximação entre a academia e a escola é sempre um ponto crítico comentado nos debates, conforme expressa Lüdke: ... no Brasil, a reflexão sobre os professores pesquisadores e sobre a pesquisa colaborativa [entre universidade e escola] aparece com um movimento de autocrítica da academia acerca de seu distanciamento das práticas escolares e dos desafios enfrentados... (iBid, p. 27). É o caso de perguntarmos: Como avançar na pesquisa em educação mesmo com estes distanciamentos? É um desafio a ser enfrentado a todo o momento, pois os estudos não devem se distanciar dos acontecimentos escolares que expressam possíveis avanços e retrocessos das práticas docentes, bem como os resultados de propostas implementadas. Todo esse movimento de valorização do professor e da pesquisa em educação, embora não seja um único movimento, mas que aqui estou propondo articular, foi uma progressiva construção 30 AulA 2 • PESquISADORES E PESquISAS EM EDuCAçãO engendrada pela reação antes hegemônica de racionalidade técnica para a formação do professor. Muitos debates reagiram à concepção da racionalidade técnica, na qual se questionava a separação entre teoria e prática na formação de professores cujo entendimento principal seria de que o trabalho de produção intelectual estaria diferenciado da execução da própria atividade docente. desde as diretrizes oficiais para formação de professores dos anos 2000 (dCn/02 e dCP/06, comentadas na aula anterior), que essa formação é ainda mais problematizada, uma vez que esses documentos inauguram uma nova racionalidade para a formação docente conforme alguns estudos apontam (andrade; Ferreira et al, 2004; diaS, 2009; PoPPe, 2011). nessa nova racionalidade, a centralidade prática é destacada como aspecto relevante a ser implementado nos currículos de formação inicial, visando superar os impasses na relação teoria/ prática e, deste modo, instrumentalizar os professores em formação, para o enfrentamento dos problemas cotidianos da escola, em relação aos saberes e fazeres da docência. Podemos perceber, desde então, que não houve uma garantia, mas foi uma tentativa de superação do distanciamento entre teoria e prática, assim como a busca da aproximação entre cursos de formação em instituições superiores e as escolas da educação básica. É muito importante notarmos que as tentativas implementadas a partir das diretrizes, de acordo com os novos currículos nas unidades formadoras, são fruto tanto dos debates quanto das pesquisas em educação que influenciam esses debates e apontam perspectivas de mudança consideradas relevantes ao novo profissional de educação. Portanto, é um processo contínuo de pesquisa e de reflexão, produzindo novos debates e novos documentos para serem implementados na formação de professores e, por conseguinte, alterando a forma como estes irão atuar na educação básica. de certo modo, o parágrafo anterior atende à discussão da primeira pergunta extraída do estudo de Lüdke, apontado acima, articulando pesquisa e prática no trabalho e na formação docente. a outra questão é até que ponto as instituições formadoras irão atender essa demanda e promover essa articulação, uma vez que depende de uma iniciativa própria institucional, pois não existe um amparo legal de obrigatoriedade. de qualquer forma, quanto mais pesquisas acontecem, vinculadas aos programas de pós-graduação de todo país, e quanto mais programas governamentais relacionados à pesquisa na formação inicial docente estiverem à disposição dos estudantes, melhor será a condição de instrumentalização para pesquisa, particularmente, no campo educacional que é nosso interesse. nesse sentido, os estudantes terão meios de contribuir para reflexão e solução dos problemas advindos da prática em sua formação. as pesquisas em educação buscam principalmente resolver problemas educacionais e promover sua prática, embora estas sejam carregadas de dúvidas, questionamentos e críticas, pois, não é somente experimentar a prática e tratá-la como uma realidade imutável. ao contrário, o papel da pesquisa em educação é sempre gerar certo incômodo quanto a certezas e afirmações conclusivas apressadas. Chamar atenção para lacunas, silenciamentos, é uma função bastante importante 31 PESquISADORES E PESquISAS EM EDuCAçãO • AulA 2 do pesquisador e dos instrumentos investigativos, bem como das formas interpretativas nos resultados das pesquisas. Pois, aqueles pontos que num dado momento se mostram apagados podem vir a ser expressos de outra forma por novas pesquisas e, deste modo, produzirem outros sentidos na compreensão de fatos, sujeitos e fenômenos pesquisados. Beillerot (2012, p. 74) destaca três características que considera procedimentos básicos para fazer pesquisa, que são: 1. uma produção de conhecimentos novos: na qual infere que nem sempre os estudantes produzem conhecimentos novos - estrito senso de pesquisa - quando convidados a resolver problemas na formação, mas são resultados novos para estes; 2. uma produção rigorosa de encaminhamentos: que aponta para o rigor científico com a possibilidade de procedimentos controlados e criteriosos, dos quais a pesquisa de estudantes flexibiliza e adapta sem necessariamente saber explicitar esta forma; 3. uma comunicação de resultados: para as pesquisas, é fundamental a comunicação dos resultados, não sendo considerada uma pesquisa por si mesma sem o diálogo com os pares. esse autor, aprofundando sobre finalidades das pesquisas, ainda, aponta a possibilidade de uma transformação das ações e práticas a partir dos conhecimentos produzidos na pesquisa. Mas, considero ainda mais relevante sua seguinte questão: em que a formação pela pesquisa seria necessária para formar profissionais mais competentes? Penso que essa é uma questão chave para nós nessa disciplina, contudo, nada simples de responder. o que talvez possamos afirmar, por enquanto, é que despertar o interesse investigativo é uma contribuição na formação e, no mínimo, pode ser uma forma de enfrentar situações mais conservadoras tão comuns em muitos espaços escolares. Certamente a formação inicial não irá esgotar a formação para a pesquisa, mas é um bom começo para mudanças na qualidade do profissional de educação que precisa avançar. Beillerot afirma que: ... é por um trabalho de formação que os jovens professores podem tornar-se mais conscientes de sua subjetividade em ação, e encontrar as vias de uma melhor objetividade, adaptada às situações com as quais eles se defrontam, até elaborarem um ponto de vista suficientemente distanciado para constituírem objetos de pesquisa. (iBid, p. 90). Possivelmente, o conjunto das perguntas de Lüdke, anteriormente destacado, pode ser respondido pelo que expressa Magda Soares, influente pesquisadora da alfabetização e letramento, neste trecho a seguir: ... professor não é,certamente, apenas aquele que ensina em determinada ‘área específica’, professor é também aquele que atua na instituição social, política 32 AulA 2 • PESquISADORES E PESquISAS EM EDuCAçãO e cultural, que é a escola, participando (consciente ou inconscientemente, de maneira competente ou não) das lutas políticas que se travam nela e por ela, e das experiências sociais e culturais que se desenvolvem no contexto escolar – lutas e experiências que ensinam tanto quanto (ou mais do quê) as ‘áreas específicas’ em que ensinam. (2012, p. 92). Pensar sobre essas lutas e experiências requer uma habilidade reflexiva própria do ato investigativo que estamos discutindo para ser valorizado na formação, como é o caso dos debates da pesquisa em educação. outro aspecto abordado por Magda Soares é a crítica da separação entre produção e socialização do conhecimento que, respectivamente, a pesquisa trataria do conhecimento produzido e o ensino se incumbiria da socialização desse conhecimento. a autora pensa, e concordo, que não se deve separar processo (produção) do produto (socialização), pois estaríamos dissociando ‘método’, seja ele de pesquisa, de ensino ou de aprendizagem, do ‘conteúdo’. Fonte: http://image.slidesharecdn.com/reading59-140906043604-phpapp01/95/reading59-24-638.jpg?cb=1409979038, Angela Mia De la Veja - Lifted by Literature Girl; 24, acesso 10/09/16. a imagem acima é uma escultura da artista plástica angela Mia de La Vega, na qual podemos observar a curiosidade de uma jovem para a leitura e, assim, refletirmos: Como poderá um professor despertar/estimular seu aluno para um conteúdo sendo que ele próprio desconhece o processo desse conhecimento em forma de conteúdo? apropriar-se do processo tanto quanto do produto é uma tarefa a ser encorajada e disponibilizada na formação de professores, de modo a articular conhecimentos teóricos e práticos como 33 PESquISADORES E PESquISAS EM EDuCAçãO • AulA 2 vivência formativa. Magda Soares resume essa ideia da articulação pesquisa e formação muito bem, vejamos: [...] defendemos a articulação entre pesquisa e formação, valorizando, nessa articulação, as pesquisas realizadas em diferentes abordagens, mas destacando como primordial as pesquisas feitas pelos próprios professores, o que implica incluir nos programas de formação (inicial e continuada) objetivos e condições para formar professores que produzam conhecimentos acerca do trabalho docente. (iBid, p. 118). a pesquisa em educação é essa produção sobre o trabalho docente, as práticas e metodologias de ensino e tantas outras questões que os debates não cessam de instigar entre professores e pesquisadores. essa potencialidade da pesquisa em educação mobiliza formadores, mas também, deve mobilizar formandos, comprometendo todos estes com o processo educacional e com todas as questões deste. os pesquisadores devem estar atentos para o cenário dos temas em discussão, dos quais muitos se afirmam e outros se mostram ainda ausentes no campo educacional, e podem significar as lacunas a serem pensadas e problematizadas. reforço que a valorização da pesquisa em curso de Pedagogia, embora ainda seja um aspecto polêmico na formação de professores (LÜdKe, 2001; andrÉ, 2012), aos poucos adquire status e prestígio da pesquisa, principalmente, quando a instituição formadora estabelece como requisito curricular a defesa pública da monografia. essa obrigatoriedade no currículo, da defesa pública do TCC, juntamente com uma ambiência em pesquisa no conjunto das disciplinas do curso, torna- se uma experiência singular para discentes, docentes e orientadores. Pois, a formação desses futuros professores está efetivamente marcada por um percurso em pesquisa que não é somente a formalidade de fazer um Trabalho de Conclusão de Curso como requisito curricular, mas sim, a perspectiva de colocar em discussão pensamentos, relações teórico-práticas e conceitos que as pesquisas desenvolvem e se articulam com os caminhos investigativos da pesquisa em educação. Dilemas Científicos das Pesquisas em Educação Se até os dias atuais os critérios de rigor científico são exaustivamente discutidos nos meios acadêmico e científico, a pesquisa em educação não fica isenta desse dilema. entre os debates epistemológicos, Beillerot considera as seguintes constatações e evidências de que: » não se pode ser científico sozinho; » um trabalho não é científico porque o seu autor o proclama, mas porque os outros assim o admitem; 34 AulA 2 • PESquISADORES E PESquISAS EM EDuCAçãO » ‘professorar’ a cientificidade é uma postura militante, talvez necessária, mas que deve ser diferenciada de uma posição epistemológica; » a propósito das disciplinas sociais e humanas, não há qualquer acordo, nem entre os pesquisadores das ciências da natureza com relação a essas disciplinas, nem entre os próprios pesquisadores dessas disciplinas. (2012, p. 81). o autor afirma a necessidade de prudência para se considerar uma produção em pesquisa como científica, evitando permanecer no debate sobre a noção de cientificidade, ou seja, o relevante é a produção propriamente dita. na medida em que algumas pesquisas são excluídas do critério de cientificidade é possível que estas deixem de ser necessárias e sejam invalidadas, sendo um risco de perda da produção. Seguindo a análise de Beillerot quanto à finalidade das pesquisas, o autor destaca dois grandes grupos são eles: » aquelas que visam à produção de conhecimento do ângulo específico da análise dos processos de fatos e fenômenos estudados; » aquelas que visam a permitir diretamente, pelos conhecimentos novos produzidos, uma transformação das ações e práticas. (iBid, p. 84). a pesquisa em educação no âmbito da formação de professores tem maior vinculação com a segunda no que se refere à pesquisa aplicada, da qual professores da educação básica por vezes também se vinculam e/ou contribuem. afinal, as demandas que se originam das práticas de sala de aula exigem sempre novos saberes e práticas pedagógicas. nessas pesquisas práticas, Beillerot chama atenção para pelo menos três modelos: o primeiro é o método comparativo, semelhante aos modelos experimentais a fim de avaliar as práticas mais eficazes; um segundo modelo, utilizando diferentes técnicas a fim de elucidar um objeto prático como objeto de pesquisa; e o terceiro modelo de pesquisa-ação, com diversas maneiras de produzir conhecimentos desde que relacionando a produção de conhecimentos com a ação educativa. Mesmo com os dilemas apontados, o autor defende a necessidade de formação para pesquisa na formação de professores, pois, “a pesquisa seria suscetível de formar os jovens docentes no espírito crítico, na dúvida metódica, no comportamento racional, assim como no cuidado de responder com elegância às situações encontradas” (iBid, p. 88). É uma iniciação à pesquisa, ou melhor, aos caminhos investigativos tão necessários a um futuro formador de crianças e jovens cidadãos. É preciso ter clareza dos limites da investigação na formação para pesquisa em curso de formação de professores, mas igualmente, é preciso buscar ampliar esses limites e ascender à condição da pesquisa em educação. 35 PESquISADORES E PESquISAS EM EDuCAçãO • AulA 2 Fisher escreve sobre os pequenos ‘dramas’ na elaboração de propostas de pesquisa em educação, dos quais destaco a discussão sobre os aspectos humanos em que a autora problematiza a construção de um objeto de investigação e considera que “é, sobretudo, expô-lo em suas condições mais amplas de emergência, situando-o em relação a outros conjuntos ou objetos similares” (2007, p. 64). Se o pesquisador, iniciante ou não, isola seu objeto de investigação da relação que este tem com aspectos sociais, políticos e culturais, por exemplo, já pode perder toda possível potência deste objeto para sua pesquisa, naturalizando e descontextualizando os fenômenos a serem investigados. Fisher afirma, ainda, que é preciso: suspender o consoladorestado das certezas para, no lugar delas, construir e pensar fatos, coisas, dados, situações inquietantes de nosso tempo, a partir de alguns conceitos que nos propiciem exatamente complexificar esse real que nos é dado provisoriamente para acessar. (iBid, p. 61). os aspectos que destaco acima, levantados por Fisher, tratam de dois dilemas fundamentais da pesquisa em educação para serem instigados ao pesquisador, a saber: 1. a capacidade de relacionar o objeto de investigação com um contexto mais amplo, a ser considerado nos caminhos da pesquisa. 2. a capacidade de o pesquisador ser inquietante quanto às certezas sobre o que pensa, observa e analisa. esses dois destaques devem ser trabalhados na formação do professor, posto que são possibilidades de aprendizagem sobre uma prática ativa, reflexiva e potencialmente produtora de novas práticas. na medida em que o professor não naturaliza suas experiências nem tampouco aceita passivamente análises prontas do outro com simplificações e esquematizações, seja este outro um técnico da escola, um gestor, um documento oficial. o professor poder ter o princípio da dúvida e buscar sua própria análise dos fatos e fenômenos; é um aprendizado a ser constituído na formação, sem perder de vista as teorias. a questão é permitir, e formar com esta base, um ‘estranhamento’ em relação ao que é observado como cotidiano e familiar. Faço um convite à observação de duas obras de arte a seguir, vejamos: o quadro abaixo é do pintor surrealista espanhol Salvador dalí, de 1936, intitulado Premonição da guerra civil, cujas figuras estão representadas grotescamente e causam forte impacto ao observador acostumado com uma estética humana diferente desse contexto. o objetivo do pintor foi justamente mostrar seu desacordo com a guerra, considerada desnecessária e terrível aos seus olhos, ou seja, conforme a sua forma de observação e compreensão dessa realidade. 36 AulA 2 • PESquISADORES E PESquISAS EM EDuCAçãO Fonte: <http://www.auladearte.com.br/estetica/images/dali.jpg>,. Acesso 16/09/16. este outro quadro a seguir é do pintor espanhol Pablo Picasso na sua fase cubista, de 1937, intitulado A mulher chorando e retrata sua amada dora Maar, na mesma época do quadro anterior de Dalí em que ocorria a guerra civil espanhola. Época em que Picasso pintou o seu mais famoso quadro Guernica, retratando o massacre de mulheres e crianças na guerra Civil espanhola. Um período histórico da espanha que gerou muitas formas de manifestações artísticas, procurando extravasar todo o horror da guerra civil. Contudo, a série de quadros de Picasso “Mulheres Chorando” tem uma expressão peculiar do artista. Fonte: <http://www.pablopicasso.org/images/paintings/the-weeping-woman.jpg>. Acesso 16/09/16. em ambos os quadros, os pintores têm uma estética distorcida das figuras e tratam de uma reação ao contexto de horror da guerra civil espanhola. a visão de cada um sobre a guerra é representada diferentemente sobre o mesmo fenômeno. isso pode nos levar a considerar que os fenômenos podem ser os mesmos para um conjunto de pessoas, contudo, cada um pode ter sua própria observação e análise. a pesquisa é regida por esse mesmo princípio, no qual cada pesquisador produz os dados e a análise dos mesmos, conforme seus conhecimentos teóricos, métodos e técnicas utilizados na pesquisa. assim, encerramos esta segunda aula, acentuando a ideia de que pesquisa em educação deve fazer parte do currículo na formação de professores, desde que respeitando os princípios científicos e as características de produção do conhecimento nas ciências humanas. 37 PESquISADORES E PESquISAS EM EDuCAçãO • AulA 2 Resumo nesta aula: » vimos a importância de conhecermos os debates que constituem o campo da Pesquisa em educação, com toda complexidade das questões próprias das ciências humanas; » destacamos o papel da formação para pesquisa na formação de professores, com particular ênfase no curso de Pedagogia que forma o professor da educação Básica; » conhecemos alguns dos dilemas científicos das pesquisas em educação, mas que não somente a ela dizem respeito; » debatemos sobre a atitude investigativa como princípio do pesquisador em formação, com destaque para a contextualização dos fenômenos objeto de pesquisa. 38 Apresentação nesta aula, abordo a pesquisa inserida no currículo do curso de Pedagogia, buscando destacar seu valor e a forma como os estudantes se apropriam das ferramentas investigativas. na sequência, apresento os programas governamentais de incentivo à melhoria da formação de professores que se aplicam às Universidades públicas e/ou privadas. Trata-se de um importante instrumento que significa investimento na qualidade da formação de professores, embora não se restrinja à pesquisa. Contudo, representa um aspecto fundamental para a formação de professores, cujas instituições de ensino superior podem implementar e valorizar a fim de criar uma ambiência em pesquisa desde a formação inicial. Objetivos » discutir a forma como a pesquisa pode fazer parte do currículo do curso de Pedagogia, com a inserção de disciplinas que promovam o debate sobre ciência, metodologia e pesquisa. » Conhecer os programas governamentais para melhoria da formação inicial de professores. » debater a importância da ambiência em pesquisa na formação inicial de professores, na qual a relação entre universidade e escola tem seu destaque. 3 AulA O InCEntIvO à PESquISA nAS InStItuIçõES DE EnSInO SuPERIOR 39 O InCEntIvO à PESquISA nAS InStItuIçõES DE EnSInO SuPERIOR • AulA 3 O currículo do curso de Pedagogia e a formação para pesquisa ao tratarmos do incentivo à pesquisa no ensino superior, devemos fazer um parêntese com relação à grade de disciplinas do curso de Pedagogia cuja obrigatoriedade é ter pelo menos uma que se refira à Metodologia da Pesquisa, ofertando os principais instrumentos para fazer pesquisa. essas ferramentas servirão de alicerce para produção do Trabalho de Conclusão de Curso, mas não somente para isso, pois pode também despertar o desejo investigativo que podemos considerar de grande valor para a atividade docente. o ementário da disciplina de Metodologia da Pesquisa deve contemplar o conhecimento sobre a ciência e as formas de fazer pesquisa, assim como preparar os estudantes para a produção da monografia. afinal estamos diante de um estudante ainda inexperiente do ponto de vista de fazer pesquisa e a formação inicial precisa despertar para esse compromisso profissional que poderá torná-lo diferente na qualidade da atuação docente. a pesquisa para produção do Trabalho de Conclusão de Curso é uma investigação que cumpre este papel de focar a relação de interesse dos estudantes para determinados temas da pesquisa em educação. Vale, portanto, lembrar o papel dos professores/orientadores e suas respectivas práticas e discursos, os quais atravessam a formação e as pesquisas dos estudantes. Um documento que poderia ser mais bem aproveitado nessas discussões é o Projeto Pedagógico do Curso, que contempla um conjunto de dados de considerável valor para as pesquisas, das quais estudantes pouco se apropriam e/ou investigam. aproveito, assim, para fazer um convite a fim de que consulte este documento que pode servir de análise em trabalhos acadêmicos. Portanto, considerar documentos já existentes, assim como o ementário de disciplinas, como material de pesquisa pode ser uma forma singular de fazer pesquisa acadêmica contemplando formatos já existentes para que sejam analisados e reinterpretados. na educação básica, outros documentos também podem ser usados para levantamento de dados como, por exemplo, diários de classe, caderno dos alunos, Projeto Político-Pedagógico, livro didático, livro paradidático, e tantos outros materiais que circulam no dia a dia das escolas. Penso que inúmeras possibilidades existem para se fazer pesquisa em educação e as escolhas dos dados a serem produzidos é um importante passo dopesquisador. dito isso, vamos debater sobre a pesquisa no currículo do curso de Pedagogia. a formação para a pesquisa é um dos aspectos mais recentes das diretrizes curriculares e, talvez, por isso, mais inovadores na formação do pedagogo. a prática de pesquisa vem ganhando espaço e prestígio na formação inicial quanto mais esta formação se insere no contexto do ensino 40 AulA 3 • O InCEntIvO à PESquISA nAS InStItuIçõES DE EnSInO SuPERIOR superior, cujos pilares são ensino, pesquisa e extensão conforme expresso no artigo 52 da LdBn 9.394/96 que copio abaixo: as universidades são instituições pluridisciplinares de formação dos quadros profissionais de nível superior, de pesquisa, de extensão e de domínio e cultivo do saber humano. nesse sentido, são forças inovadoras e transformadoras na formação do pedagogo que, por esse motivo, despertaram o interesse de pesquisadores, conforme abordei na aula 2. dessa forma, problematizar esse universo da pesquisa na formação inicial é importante, pois, desestabiliza algumas tradições, há longo tempo estabelecidas no curso de Pedagogia que não incluía tal perspectiva. a disciplina de Metodologia da Pesquisa, com foco na pesquisa, segue um programa comum às licenciaturas, cujo objetivo principal é contribuir com os meios necessários para a produção do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) dos estudantes em fase final da formação. desse modo, a prática de pesquisa pode contribuir com as ferramentas necessárias à pesquisa, no entanto, ainda não se pode afirmar que uma formação em pesquisa mais geral esteja sendo efetivada entre os formandos, mesmo que a abrangência da ementa desta disciplina registre possibilidades mais ampliadas de metodologia científica e conhecimento de pesquisa. Fica, assim, uma questão sobre até que ponto esta disciplina instrumentaliza para produção do TCC somente ou, além disso, constrói uma preparação do fazer pesquisa para os futuros docentes. É significativo que exista uma diferença entre os estudantes que já participaram de programa de incentivo à pesquisa na graduação1 e os estudantes que somente se preparam para a produção do TCC, que, como sabemos, é um dos requisitos para a formação. nestes casos, a motivação para a pesquisa é distinta porque, para aqueles estudantes que já participam de pesquisas por seu próprio interesse, começa a se constituir um conjunto de conhecimentos específicos com relação à identidade de docente pesquisador, que é diferente daquele estudante que faz a pesquisa como parte de um dos requisitos para formação do pedagogo. a forma como cada um destes estudantes se insere nas orientações difere em termos de organização, definição e instrumentalização, de tal modo que o percurso de pesquisa ao longo da formação pode vir a ser significativamente distinto. a universidade, atendendo a um dos seus pilares que é a pesquisa, e inserida no conjunto das políticas de incentivo a esta, tem se expandido cada vez mais como um importante polo de pesquisa e de formação de pesquisadores. É por meio de muitas dessas pesquisas que novas políticas educacionais são formuladas e depois implementadas. em outro aspecto, se por um lado é muito discutida a difícil relação entre teoria e prática nos currículos de formação de professores e, nesse sentido, a relação universidade/escola é o foco das preocupações; por outro lado, não 1 aqui podemos citar o caso do estudante transferido de uma unidade de ensino que já vivenciou, por exemplo, pesquisa em outra graduação iniciada. 41 O InCEntIvO à PESquISA nAS InStItuIçõES DE EnSInO SuPERIOR • AulA 3 podemos deixar de considerar a relação universidade/escola/sociedade, que implica aspectos políticos e culturais das políticas curriculares. Moreira e Silva apontam que “o currículo não é um elemento transcendente e atemporal – ele tem uma história, vinculada a formas específicas e contingentes de organização da sociedade e da educação” (2009, p. 8). de certo modo, a pesquisa amplia o cenário das preocupações, mas não as desfaz no que se refere à inquietante relação entre a universidade e a escola. essa relação, entretanto, esteve muito mais na pauta de discussões das práticas de ensino, cuja proximidade entre universidade e escola é bem mais intensa e gera questionamentos de ambas as partes. entre os diversos embates envolvendo essas instituições, um dos enunciados mais frequentes é de que a teoria estaria nas universidades e a prática nas escolas, o que dissociaria a necessária integração, inter-relação, reciprocidade e interdependência das instituições nos estudos. a dissociação da relação universidade/escola, no entanto, também tem sido problematizada e vista como oportunidade para chamar a atenção para a necessidade de melhorar a formação docente e articular as pesquisas aos saberes dos professores, com proveito, também, para a formação docente. Por isso, muitas vezes, fortes embates se constituem quanto ao curso de Pedagogia pelo fato deste poder ser mais teórico ou mais prático, bem como debates sobre a preparação dos estudantes para pesquisa. embora, no curso de Pedagogia, sua maior força e tradição se concentrem nas práticas de ensino, ou seja, a preparação didático-pedagógica dos futuros profissionais da educação, conforme o modelo de um protagonismo docente. nesse sentido, há uma possibilidade de que essa tradição passe a conviver com propostas inovadoras, que podem desestabilizar uma identidade do pedagogo fixada na docência da educação básica, ainda marcada por viés tecnicista, sem uma formação em pesquisa, no qual o egresso assuma a vida profissional distanciada da universidade e da pesquisa. na disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso, estreita-se o vínculo entre professor/orientador e aluno, exigindo mais tempo individualizado de orientação, tanto na elaboração de um Projeto quanto da Monografia. no caso da Faculdade UnyLeya, a disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) se torna ativa nos seis últimos meses de curso. nota-se que é um processo com um número crescente de alunos inseridos em contexto de pesquisa na formação do pedagogo, constituindo, quantitativa e qualitativamente, um grupo 42 AulA 3 • O InCEntIvO à PESquISA nAS InStItuIçõES DE EnSInO SuPERIOR diferenciado de egressos, muito embora a instrumentalização em pesquisa tenha apropriações distintas entre os alunos. Fernandes e dias escrevem que: [...] a necessidade de melhorar a formação dos professores, no sentido de garantir maior qualificação profissional, assume centralidade em todos os discursos que mobilizamos e é reveladora de novas exigências que se colocam ao exercício de ser professor nessa transição do milênio. (2010, p. 241). Se, por um lado, entendemos que esse é um discurso central, por outro, podemos afirmar que, entre as novas exigências para formação docente, temos a pesquisa na formação inicial como alternativa, reforçando o protagonismo deste docente. a disciplina de Metodologia da Pesquisa é de fato uma proposta teórica que busca inserir discussões dos métodos, das técnicas e do papel da pesquisa nas ciências, enquanto a disciplina de Pesquisa em educação propõe a especificidade da pesquisa na educação para professores. Um currículo para criação, recriação, contestação e transgressão, com valorização da pesquisa e que facilite o processo de produção acadêmica dos estudantes e a preparação para pesquisa na formação inicial é uma inovação e uma transformação, que afeta diretamente a maneira como está sedo formado este pedagogo. Programas e Pesquisas no Curso de Pedagogia aqui procuro destacar novas experiências possibilitadas por programas do governo federal que são oportunidades para os formandos se inserirem na pesquisa, tais como: 1) os programas de incentivo à docência, que são PiBid e ProdoCÊnCia; 2) a pesquisa para produção do TCC de final de curso. Cada uma dessas oportunidades expressa aspectos diferentes e significativos de situações de formação, sendo quea participação no PiBid e ProdoCÊnCia o formando escolhe fazer parte dos programas ou pesquisa, de acordo com seu interesse, ao passo que na produção do TCC é um requisito curricular para a formação do curso de Pedagogia. Considero importante a abordagem e análise dessas duas situações, em razão das possibilidades com as experiências diferentes de reflexão e ação docentes. a abrangência dos programas e as oportunidades de pesquisa na formação de pedagogos dinamizam e produzem diferentes compreensões de docência para os formados. 43 O InCEntIvO à PESquISA nAS InStItuIçõES DE EnSInO SuPERIOR • AulA 3 Os programas PIbID e PRODOCÊnCIA os dados sobre PiBid (Programa institucional de Bolsa de iniciação à docência) e ProdoCÊnCia (Programa de Consolidação das Licenciaturas) foram consultados no portal da CaPeS (www.capes. gov.br). os dois projetos visam à formação do professor da educação básica, numa perspectiva de valorização da carreira docente. Segundo o portal da CaPeS: “o Pibid é uma iniciativa para o aperfeiçoamento e a valorização da formação de professores para a educação básica”. explicita, ainda, que: os projetos devem promover a inserção dos estudantes no contexto das escolas públicas desde o início da sua formação acadêmica para que desenvolvam atividades didático-pedagógicas sob orientação de um docente da licenciatura e de um professor da escola. (disponível em: http://www.capes.gov.br/educacao-basica/capespibid, acessado 30/09/16). o PiBid é um apoio importante e uma oportunidade para aprofundar a formação inicial no curso de Pedagogia, que tem como base as diretrizes curriculares nacionais, cujo eixo principal é o exercício da docência. a implementação do programa PiBid e a participação nele cria uma possibilidade de experiência de pesquisa na formação para a docência, por meio de aproximações, como, por exemplo, entre universidade e escola, prática e teoria. a possibilidade de acesso dos estudantes ao incentivo do PiBid pode facilitar a aproximação com a realidade da escola pública e viabilizar a experiência de pesquisa na formação sem ser somente por meio da elaboração do TCC. essa aproximação deve ser feita com a orientação de um professor da universidade e a supervisão de um professor de escola durante a formação. Trata-se, desse modo, de uma proposta de formação para a docência, por meio da supervisão de um professor experiente e com o estudo de conhecimentos próprios do exercício profissional. Contudo, o bolsista/estudante estará envolvido com as discussões e reflexões, mas não com a docência propriamente dita. Sua função está no lugar de observação e acompanhamento de práticas docentes e de atividades de gestão nas escolas, sendo que, na universidade formadora, estará envolvido com o estudo e a reflexão das ações pedagógicas, registrando-as e compartilhando-as. andré e colaboradores, em recente artigo publicado, juntamente com os resultados de grupo de pesquisas da PUC/SP sobre a formação dos licenciandos do PiBid em três estados brasileiros 44 AulA 3 • O InCEntIvO à PESquISA nAS InStItuIçõES DE EnSInO SuPERIOR (SP, rJ e Mg), discutem dois aspectos: a transição de aluno a professor e a constituição de sua identidade profissional. nas análises das pesquisas sobre as falas dos participantes discentes, destaca-se o seguinte: a análise das falas, produzidas nesses três grupos, nos indicaram três eixos: a) influência na escolha da docência; b) reflexão sobre a prática do outro – pertença negada com base nas atribuições que são reconhecidas à docência; e c) a passagem de aluna à professora – (re)construção da docência para si. (andrÉ et al, 2014, p. 311) essa análise sobre a influência do PiBid na formação docente, expressa na pesquisa de andré, aponta para a relação escola e universidade, favorecendo reciprocamente essas experiências para os formandos, tanto o resgate de suas histórias como alunos (na escola), quanto discentes (na universidade), como participantes de pesquisa e protagonistas de sua formação (iBid, p. 314). em relação ao protagonismo de sua formação, aprofunda o debate sobre constituição identitária, lastreado na experiência da atividade profissional proporcionada no contato dos discentes com as escolas e destaca: Tanto a ação como a identidade docente constituem-se nas diversas situações do cotidiano e nas negociações que esse docente tem que fazer com seus alunos, com a equipe gestora da escola onde leciona e com seus pares que, em tese, deveriam ser parceiros na elaboração, construção e ressignificação de conhecimentos que possibilitem o desenvolvimento dos seus alunos e que permitam, ao docente, tornar-se mais consciente dos instrumentos e mecanismos que ele mobiliza para fazer o outro – bem como ele mesmo – aprender. (iBid, p. 317). Trata-se de uma perspectiva que relaciona a teoria e a prática nos espaços formativos, seja da universidade, seja da escola, mas ainda numa modelagem e idealização do papel docente. Chama atenção o fato de que, no portal da CaPeS, a palavra ‘pesquisa’ não está explícita na apresentação nem tampouco nas explicações do programa PiBid, ainda que os objetivos descritos estejam diretamente relacionados aos processos de uma pesquisa. Contudo, integram aspectos da atividade dos docentes com aspectos de um fazer pesquisa na docência, no qual a formação docente se diferencia em relação à atuação nas escolas e em sala de aula. isso ocorre na medida em que aproxima a parceria entre universidade e escola, qualifica a formação do pedagogo como docente e gera melhoria da qualidade de ensino nas escolas parceiras. desse modo, o aluno que participa desse programa pode ter um diferencial formativo. dois volumes de relatório muito importante foram disponibilizados no site da CaPeS e intitulam- se “relatório de gestão deB – 2009 - 2014” (deB - diretoria de Formação de Professores da educação Básica). o trabalho dessa diretoria está articulado à Meta 15 do Plano nacional de educação, a qual expressa o seguinte: 45 O InCEntIvO à PESquISA nAS InStItuIçõES DE EnSInO SuPERIOR • AulA 3 garantir, em regime de colaboração entre a União, os estados, o distrito Federal e os Municípios, no prazo de 1 ano de vigência deste Pne, política nacional de formação dos profissionais da educação de que tratam os incisos i, ii e iii do caput do art. 61 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, assegurado que todos os professores e as professoras da educação básica possuam formação específica de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento em que atuam. (http://www.observatoriodopne.org.br/metas-pne/15-formacao-professores, acesso 09/10/16) no relatório referido acima, destacam-se o objetivo do PiBid e os resultados do programa da seguinte forma: o Programa institucional de Bolsa de iniciação à docência – Pibid destina-se a alunos de cursos de licenciatura: futuros professores. o Pibid alcança todas as etapas e modalidades da educação básica. a iniciação à docência ocorre em escolas da rede pública e é feita com orientação de professores das ieS (coordenadores) e da própria escola (supervisores). o Pibid incentiva a opção pela carreira docente, integrando teoria e prática, aproximando universidades e escolas públicas e contribuindo para elevar a qualidade da formação. relatórios e depoimentos dos participantes indicam, também, reconhecimento de um novo status para as licenciaturas na comunidade acadêmica e elevação da autoestima dos futuros professores e dos docentes envolvidos no programa. FONTE: DEB – Relatório de gestão - vol. 1. Disponível em www.capes.gov.br, acesso 09/10/16. esse programa, embora não diretamente relacionado à pesquisa, pois o foco é a docência, promove a aproximação do estudante com as práticas docentes de sala de aula e, desse modo, questionamentos são gerados por essa prática, dinamizando certa problematização sobre o espaço escolar, as formas de atuação docente e as metodologias de ensino, as quais estimulamtemas próprios de pesquisa que passam a despertar seus estudos investigativos. o PiBid tem, ainda, um subprojeto intitulado “Pibid diversidade” que tem como objetivo o aperfeiçoamento da formação inicial de professores para o exercício da docência nas escolas indígenas e do campo. o Pibid diversidade está direcionado aos estudantes matriculados em cursos de licenciatura nas áreas intercultural indígena e educação do Campo, para que desenvolvam atividades didático-pedagógicas em escolas de educação básica indígenas e do campo (incluídas as escolas quilombolas, extrativistas e ribeirinhas). (Portal CaPeS, acesso em 01/10/16). o Pibid diversidade traz, assim, outras perspectivas de atuação docente que demandam forte empenho das políticas educacionais e carecem de pesquisa em educação específica para essa área. o ProdoCÊnCia é o Programa de Consolidação das Licenciaturas patrocinado pela CaPeS, específico para as instituições públicas. 46 AulA 3 • O InCEntIvO à PESquISA nAS InStItuIçõES DE EnSInO SuPERIOR nas informações do portal da CaPeS, sobre o ProdoCÊnCia, tem-se a afirmação da pesquisa como princípio formativo dos licenciandos, para desenvolvimento de propostas: o Programa de Consolidação das Licenciaturas é uma ação da Capes cuja finalidade é o fomento à inovação e à elevação da qualidade dos cursos de formação para o magistério da educação Básica, na perspectiva de valorização da carreira docente. (Portal CaPeS, acesso em 01/10/16). Como características do programa, o edital de 2013 destaca o seguinte: o edital de seleção 19/2013 foi lançado em 08 de abril e apresenta como objetivos específicos o apoio ao estudo e ao desenvolvimento de novas formas de organização curricular para a formação de professores nas iPeS, o apoio à criação de estratégias para o aperfeiçoamento de professores das licenciaturas e o apoio à criação de metodologias inovadoras para os cursos de licenciatura. (Portal CaPeS, acesso em 01/10/16) Propor o apoio à criação de metodologias inovadoras, com a característica de fomento à inovação é próprio das práticas de pesquisa, pois, por meio da pesquisa são investigadas situações de êxito e fracasso com possíveis proposições ou incremento de novas metodologias. Portanto, o portal, ainda que não explicitamente expresse sobre pesquisa em relação ao programa Prodocência, esta é fortemente definida nos princípios investigativos. outro aspecto que foi destacado pelo volume 2 do relatório de gestão deB/CaPeS é que: Uma vertente essencial do Prodocência é promover a formação dos formadores. a renovação das licenciaturas é um tema que está na pauta de todos os países e o Prodocência busca, também, possibilitar que os formadores dos futuros professores possam se autoavaliar e aprimorar suas práticas e estratégias didáticas, aperfeiçoando a docência universitária no tocante à formação do magistério da educação básica. (Portal CaPeS, acesso 09/10/16) o foco nos formadores está alinhado com o tocante à pesquisa, pois se refere também à renovação de suas práticas, didáticas e metodologias em relação à atuação docente universitária. 47 O InCEntIvO à PESquISA nAS InStItuIçõES DE EnSInO SuPERIOR • AulA 3 estes dois programas - PiBid e ProdoCÊnCia - podem se organizar de modo diverso, com objetivos e estruturas distintas, mas apresentam propósitos formativos complementares. esses e outros programas serão aprofundados na próxima aula. A pesquisa para produção do tCC no currículo do curso de Pedagogia da aVM Faculdade integrada, a disciplina de TCC se insere no último período do curso, com duração de seis meses, momento em que os estudantes já concluíram a maior parte das disciplinas. É relevante essa observação, pois o conhecimento dos formandos sobre diferentes conteúdos está consolidado e a possibilidade de escolher o tema de sua pesquisa será mais estruturada porque sua fundamentação teórica terá mais consistência. além disso, é importante destacar a defesa pública dos Trabalhos de Conclusão de Curso como parte do requisito curricular que tem contribuído muito significativamente na qualidade das pesquisas e dos trabalhos apresentados. a ambiência em pesquisa é promovida e fortalecida quanto mais as pesquisas circulam nos espaços acadêmicos e, além disso, os estudantes podem se sentir valorizados por sua produção de conhecimento quando compartilham suas pesquisas em apresentações públicas. Beillerot destaca as condições de pesquisas e reconhece os procedimentos de: uma produção de conhecimentos novos; uma produção rigorosa de encaminhamento; e uma comunicação de resultados (2012, p. 74). a comunicação de resultados é uma das etapas que, por vezes, escapa aos pesquisadores e às unidades de ensino. isso ocorre, principalmente, porque não é somente a comunicação por meio da publicação que, sem dúvida, é relevante, mas é também a possibilidade para abertura de novos diálogos que podem despertar interesse para novos pesquisadores sobre os temas e as formas de pesquisar. Beillerot afirma que “um trabalho não é científico porque o seu autor o proclama, mas porque os outros assim o admitem” (iBid, p. 81). Portanto, a divulgação e o diálogo entre os pares legitimam o conhecimento produzido e transformam ações e práticas no espaço de formação docente. É notório o empenho dos estudantes nas pesquisas de finalização de curso, nas quais demonstram uma pluralidade de interesses e apontam para as possibilidades promotoras de melhores práticas para atuação do pedagogo. Percebe-se que muitos destes interesses foram despertados nas disciplinas do curso, seja por um professor que tenha gerado admiração, seja pela afinidade com certo conteúdo disciplinar, ou, pelo contrário, no caso de disciplinas que representaram dificuldades e se tornaram um desafio para o estudante conhecer e pesquisar sobre o tema. no entanto, cabe destacar que os temas ampliam e diversificam conhecimentos, favorecendo a formação de professores e promovendo melhor qualidade deste profissional docente. 48 AulA 3 • O InCEntIvO à PESquISA nAS InStItuIçõES DE EnSInO SuPERIOR outro ponto, também, é o fato de existir a concentração de determinados temas com base, em geral, nas principais ênfases do curso como é o caso do predomínio das questões próprias da docência da educação básica, para as quais o estudante se sente estimulado, devido às incertezas e às dúvidas tão comuns da futura atividade profissional docente. Mas, também, muitos alunos já têm experiência de sala de aula e necessitam do curso superior para atender atuais exigências legais. essas práticas docentes acumuladas ao longo de anos favorecem diversos questionamentos próprios de um processo investigativo e contribuem para o interesse na pesquisa, embora se sintam despreparados e expressem isso nos espaços de orientação sob a supervisão de um professor. Portanto, o ponto de partida dos estudantes para escolha do tema de pesquisa é marcado por múltiplas questões que fazem parte do seu percurso formativo, com experiências exitosas ou não, professores que admiram ou não, disciplinas que lhes agradam ou não, enfim, um conjunto de situações que organiza a singularidade do formando. além disso, na medida em que enfrentam os desafios da pesquisa e aprendem metodologias, melhorando a produção textual e o conhecimento de temas de sua escolha e interesse, o mais comum é manifestarem o desejo de continuar os estudos e as pesquisas na formação continuada. a pesquisadora Marisa Vorraber Costa descreve com precisão a significação que se organiza no processo de pesquisa: o olhar do fotógrafo ou do cineasta através da câmera, o olhar do cientista através do microscópio, a observação do naturalista, o experimento do psicólogo, a descrição do geólogo, a escuta do historiador, o debate do pesquisador participante, o traço, a palavra, a forma ou o som produzidos pelo artista, para citar alguns exemplos, são sempre guiados por um desejo de conhecer que resulta na captura do objeto atravésda significação. os objetos não existem, para nós, sem que antes tenham passado pela significação. a significação é um processo social de conhecimento. (2007, p. 102) o pesquisador organiza significados, ou seja, produz novos sentidos ao descrever objetos, narrar pessoas e processos que são reais, porém, explicados de um modo singular por ele – pesquisador -, conforme organiza e relaciona dados, conceitos e teorias. nessa organização é que produz significado e conhecimento sobre o social, que pode ser a escola, os alunos, os pais, metodologias de ensino, e tantos outros temas em questão na educação. Fisher escreve que “construir um objeto de investigação é, sobretudo, expô-lo em suas condições mais amplas de emergência, situando-o em relação a outros conjuntos ou objetos similares” (2007, p. 64). e, mais adiante, complementa “a preocupação, portanto, será não tomar os objetos ‘em 49 O InCEntIvO à PESquISA nAS InStItuIçõES DE EnSInO SuPERIOR • AulA 3 si’ como objetos naturais e dados, deslocados do espaço social, político e cultural mais amplo, como se fossem entidades com voo próprio” (iBid, iBideM). Portanto, ambas as autoras, Costa e Fisher, tratam da mesma questão sobre a pesquisa, no meu ponto de vista, pois a significação que o pesquisador constrói não pode estar alheia a um contexto mais amplo. entretanto, o pesquisador não pode também estar subsumido à realidade dos fatos e fenômenos. dessa forma, a observação e a análise do pesquisador sobre os dados produzidos não podem fixar pessoas, situações e relações, pois estas são descontínuas em determinados aspectos, mas, paradoxalmente, em outros aspectos geram permanências “no modo de ser e existir” (iBideM). Por isso mesmo, as pesquisas não terminam e há sempre algo novo a ser investigado sobre o que parece ser o mesmo fenômeno, a mesma situação ou a mesma relação. o mais importante é o professor manter sua curiosidade sobre as suas experiências, como fonte de questionamento e cada vez mais produzir conhecimento a partir da realidade em que vive, seja na formação inicial, seja na formação continuada. a sua experiência é uma fonte que não extingue formas de provocação para transformações, que podem ser produzidas pelas pesquisas. o TCC, na formação inicial, é o início de uma produção que deve ter desdobramentos na profissão docente, tanto na prática de sala de aula quanto na experiência formativa. Pois, experimentar fazer pesquisa na formação é uma habilidade que se desenvolve e pode acompanhar a carreira docente por longos anos. a cada novo relatório produzido, o professor já aprendeu que tem um posicionamento articulado com teorias e conceitos, e tem autoria e significação. assim como no TCC, sua produção escrita foi organizada da mesma forma. Resumo » discutimos sobre o papel da pesquisa no currículo do curso de Pedagogia, trazendo conhecimento aos formandos sobre as formas de pesquisar e contribuindo na atividade reflexiva que deve ser construída na formação inicial docente. » Conhecemos os programas PiBid e ProdoCÊnCia que buscam a qualificação da formação inicial de professores, com viés de pesquisa na ação docente. » debatemos sobre a relevante relação entre universidade-escola e teoria-prática para articular conhecimento e experiência na formação docente por meio de atividades investigativas que possam contribuir. 50 Apresentação nesta aula, apresento os principais programas do governo federal que se direcionam à formação de professores, inicial e continuada. esses programas buscam a valorização da profissão docente e incentivam práticas inovadoras que se organizam por meio de pesquisas na relação entre universidade e escola, assim como, na relação entre teoria e prática. destaco, ainda, a dificuldade existente pelo fato de nem sempre ser possível a continuidade dos programas, uma vez que são proposições que mudam conforme a política governamental muda. a característica de ser um programa é uma marca de políticas educacionais descontínuas, que tanto podem ter obtido sucesso como não, mas serão igualmente interrompidas ao longo das mudanças nas políticas governamentais. Objetivos » apresentar seis dos principais programas vinculados à formação de professores que buscam sua melhoria e qualificação. » discutir os aspectos relacionados à pesquisa em cada um dos programas apresentados, bem como identificar o impacto das pesquisas na formação de professores. 4 AulA PROGRAMAS DO GOvERnO PARA FORMAçãO DE PROFESSORES 51 PROGRAMAS DO GOvERnO PARA FORMAçãO DE PROFESSORES • AulA 4 Primeiras palavras sobre a questão Quando abordamos os programas de governo, devemos ter em mente que estes podem ser descontinuados devido às mudanças político-partidárias, embora alguns programas consigam permanecer durante mais tempo. no caso dos programas de que vou tratar, estão disponibilizados no site da CaPeS, ainda que os recentes cortes orçamentários já impactem em reduções diretas no financiamento desses programas. apresentarei o conjunto dos programas, porém dando mais destaque para aqueles cujo foco está na perspectiva da dinamização da pesquisa na formação de professores da educação Básica. os programas da CaPeS para formação de professores estão vinculados à diretoria de Formação de Professores da educação Básica cuja sigla é deB e se orienta em duas linhas de ação, conforme o site explicita: a. na indução à formação inicial de professores para a educação Básica, organizando e apoiando a oferta de cursos de licenciatura presenciais especiais, por meio do Plano nacional de Formação de Professores da educação Básica – Parfor; b. no fomento a projetos de estudos, pesquisas e inovação, desenvolvendo um conjunto articulado de programas voltados para a valorização do magistério. (www.capes.gov.br, acesso 10/10/16) no segundo item, portanto, está nosso foco de interesse quanto à pesquisa voltada para valorização da atuação dos professores. Prosseguindo na leitura do site é possível destacar as vertentes dos programas de acordo com a defesa de uma matriz educacional para valorização da docência em relação aos seguintes tópicos: » formação de qualidade; » integração entre pós-graduação, formação de professores e escola básica; » produção de conhecimento. novamente chamo a atenção para o último, no qual se destaca a “produção do conhecimento”, pois, entendo que se trata do viés investigativo que produz conhecimento e saberes no aperfeiçoamento da atividade docente. Tudo isso significando grandes transformações na formação de professores. o site da CaPeS destaca 6 programas, conforme símbolos abaixo, os quais vou aprofundar um a um, a seguir. 52 AulA 4 • PROGRAMAS DO GOvERnO PARA FORMAçãO DE PROFESSORES PROGRAMAS PIbID – Programa Institucional de bolsa de Iniciação à Docência este programa é uma iniciativa para aperfeiçoamento e a valorização da formação de professores da educação básica, para o qual as instituições de educação Superior (ieS, públicas e privadas) estabelecem parceria com escolas de educação básica da rede pública de ensino, desde que cumpram os requisitos dos editais. entre os objetivos do programa, destaco dois que foram disponibilizados no portal CaPeS que informam o seguinte: » inserir os licenciandos no cotidiano de escolas da rede pública de educação, proporcionando-lhes oportunidades de criação e participação em experiências metodológicas, tecnológicas e práticas docentes de caráter inovador e interdisciplinar que busquem a superação de problemas identificados no processo de ensino-aprendizagem; » contribuir para a articulação entre teoria e prática necessárias à formação dos docentes, elevando a qualidade das ações acadêmicas nos cursos de licenciatura. observe que as relações universidade-escola e teoria-prática estão no centro das preocupações deste programa e está, também, atravessado pela perspectiva da inovação metodológica de ensino. entendo, assim, que a pesquisa está referidano texto desses objetivos, embora não seja diretamente articulada no programa. São possibilidades de pensar o cotidiano da sala de aula, as demandas didático-pedagógicas, para as quais a pesquisa pode contribuir com investigações na busca pela solução dos problemas enfrentados nos espaços de ensino. na aula anterior, informei sobre um subprograma intitulado “Pibid diversidade”, que atua de modo semelhante e com base nos objetivos, referindo-se mais especificamente ao “desenvolvimento de um processo formativo que leve em consideração as diferenças culturais, a interculturalidade do país e suas implicações para o trabalho pedagógico”. 53 PROGRAMAS DO GOvERnO PARA FORMAçãO DE PROFESSORES • AulA 4 FONTE: Parfor: municípios com turmas implantadas – 2009 a 2014. (Relatório de Gestão DEB – 2009 – 2014, vol 1. In: <www.capes.gov.br>. Acesso 10/10/16). a partir da imagem acima, do mapa do Brasil com os municípios participantes assinalados, nota- se a abrangência que este programa atingiu. Segundo o edital de 2013, o número de projetos no âmbito do Pibid e Pibid diversidade teve o seguinte resultado: RESuMO PIBID PIBID DIVERSIDADE TOTAl Projetos Institucionais 284 29 313 Subprojetos 2.916 81 2.997 bolsas 87.060 3.194 90.254 Escolas 5.398 657 6.055 Fonte: DEB/CAPES. Disponível www.capes.gov.br, acesso 10/10/16. São muitos projetos com o envolvimento de muitas escolas, o que podemos considerar como grandioso e extremamente relevante do ponto de vista da formação de professores toda a mobilização que este programa criou em torno da melhoria profissional docente. de acordo com o desenho metodológico do programa que foi destacado no relatório de gestão vol. 2 (www.capes.gov.br, acesso 10/10/16), são os seguintes pontos considerados estratégico/ interacionista do programa PiBid: » saberes prévios sobre a docência e representações sociais; » contexto e vivência – conhecimentos teórico-práticos; » saberes da pesquisa e experiência acadêmica da formação de professores. 54 AulA 4 • PROGRAMAS DO GOvERnO PARA FORMAçãO DE PROFESSORES Todos esses pontos convergindo para o seguinte: “colabora para a construção de uma nova cultura educacional” (p. 65). Considerar a possibilidade de construir uma nova cultura educacional, tendo por princípio a relação teoria e prática na formação de professores; é sem dúvida uma inovação, com investimento na qualificação docente. no entanto, em 14 de junho de 2016, foi divulgada a Portaria nº 84, no diário oficial, revogando a Portaria anterior de nº 46, de abril de 2016, e cancelando o edital para o próximo ciclo do programa. É a prova de que o programa se caracteriza pela descontinuidade e não fixação de uma política educacional seja da natureza que for. aspectos que interferem sobremaneira na formação de professores e no fazer pesquisa em educação, consequentemente, na cultura educacional. PRODOCÊNCIA – Programa de Consolidação das Licenciaturas este programa teve início em 2006 e está voltado somente para as instituições públicas de ensino superior, nos âmbitos Federal, estadual e Municipal, que possuam cursos de licenciaturas autorizados, na forma da lei, e em funcionamento. o programa vem sendo descontinuado lentamente, porém, sofre pressões das instituições participantes que defendem sua manutenção. nos resultados dos projetos divulgados no site, referente ao último edital, de 2010, destaca-se o seguinte: » maior integração entre as licenciaturas e entre as disciplinas (ações envolvendo desde a articulação e o diálogo entre as licenciaturas até a apresentação de propostas de trabalho intersetoriais e interdisciplinares); » inserção, inovação nos conteúdos curriculares por meio do desenvolvimento de projetos em disciplinas, principalmente nos estágios e práticas; » formação dos licenciandos com maior articulação entre teoria e prática e entre educação superior e escolas de educação básica (desenvolvimento de redes e de mecanismos de articulação com as escolas públicas); » desenvolvimento de metodologias inovadoras para a educação superior, elaboração de práticas formativas diferenciadas com foco no enfrentamento de problemas da educação básica, produção de atividades de ensino e de materiais didáticos, pesquisa como princípio formativo dos licenciandos. (grifo nosso) (www.capes.gov.br, acesso 10/10/16) 55 PROGRAMAS DO GOvERnO PARA FORMAçãO DE PROFESSORES • AulA 4 esse é um programa que marca a trajetória de pesquisa na formação de professores, contudo, somente está disponível para as universidades públicas. a proposição se refere, inclusive, à produção de atividades de ensino e materiais didáticos para enfrentamento dos problemas da educação básica. Trata-se de um programa de grande abrangência e investimento que chegou a realizar, em 2011, um seminário nacional do programa para compartilhar experiências desenvolvidas e os resultados entre os coordenadores de projetos e a CaPeS. o último edital, de 2013, destacou novamente o objetivo de “criação de metodologias inovadoras e materiais didático-pedagógicos para formação e atuação de professores”, reforçando o papel da investigação na formação docente para solução dos problemas da educação básica. Mas, podemos destacar princípios pedagógicos que estão na base do ProdoCÊnCia, vejamos o que expressa o relatório de gestão da Capes 2009-2014: os princípios pedagógicos do Prodocência têm por base a inovação curricular nos cursos de licenciatura, a formação de formadores e o incentivo a uma formação de docentes pautada em uma práxis que valoriza o trabalho coletivo, a construção de novas estratégias didático-pedagógicas e a autonomia no contexto das licenciaturas. (pp. 13-14). Vejamos alguns números para que tenhamos uma ideia melhor da abrangência desse programa e o impacto nas licenciaturas, tanto para formadores quanto para formandos. afinal representa mudanças no desempenho acadêmico, com novos projetos, criação de produtos educacionais, atividades de intervenção, pesquisas e produções teóricas. EDITAIS PROJETOS APROVADOS lICENCIATuRAS ENVOlVIDAS 2008 47 365 2010 73 455 2013 66 319 TOTAl 186 Fonte: DEB – Relatório de gestão - vol. 2. Disponível em: <www.capes.gov.br>. Acesso 12/10/16. os resultados obtidos com o programa Prodocência significam melhoria e valorização da formação de professores, instituída com base na pesquisa em novas práticas e metodologias que aproximam a universidade e a escola. os representes da Capes utilizaram análise de relatórios e de documentos, ouviram relatos de casos, fizeram visitas às ieS e participaram de eventos promovidos pelos projetos apoiados no Prodocência; dessa forma, destacaram os principais impactos do programa de acordo com seus eixos norteadores: inovação na gestão das licenciaturas; inovações curriculares e metodológicas de ensino; produções decorrentes do programa, como livros, por exemplo. 56 AulA 4 • PROGRAMAS DO GOvERnO PARA FORMAçãO DE PROFESSORES em relação a esse último item, cabe destacar uma breve sinopse que o relatório de gestão (2009- 2014) apresentou, mostrando a expressiva produção decorrente do programa Prodocência, referente ao edital de 2010. Vejamos: Produções bibliográficas e de pesquisa Quantidade teses 1 Dissertações 4 Trabalho de conclusão de curso 50 Livros publicados 103 Capítulos de livros 90 Artigos publicados 241 Resumos publicados 112 Revistas criadas 5 Trabalhos em eventos nacionais e internacionais 697 Fonte: DEB – Relatório de gestão - vol. 2. Disponível em: <www.capes.gov.br>. Acesso 12/10/16. Todas essas produções são decorrentes de pesquisa em educação, articuladas com a formação de professores e favorecidas pela relação entre universidade e escola. o mérito de um programa dessa magnitude é indiscutível tanto para a formação quanto para a pesquisa em educação. Observatório Da Educação este programa foi instituído pelo decreto Presidencial nº 5.803, de 8 de junho de 2006, e é específico para instituiçõesque tenham programa de pós-graduação, seja pública ou privada. Surgindo, assim, em paralelo com as diretrizes Curriculares nacionais do Curso de Pedagogia de 2006 que favorecia a investigação, sobretudo, para promover análise de pesquisas e aplicação de resultados no sentido de práticas educativas transformadoras. o observatório da educação tem como objetivo fomentar estudos e pesquisas em educação, que utilizem a infraestrutura disponível das instituições de educação Superior – ieS e as bases de dados existentes no ineP (instituto nacional de estudos e Pesquisas educacionais anísio Teixeira). É um programa que busca proporcionar a articulação entre pós-graduação, licenciaturas e escolas de educação básica e estimular a produção acadêmica e a formação de recursos pós-graduados, em nível de mestrado e doutorado. Portanto, tem uma abrangência significativa e relaciona diferentes níveis de docentes, sendo seu foco específico a pesquisa, orientada por um pesquisador experiente, responsável pelo projeto e pela integração dos docentes e formandos. 57 PROGRAMAS DO GOvERnO PARA FORMAçãO DE PROFESSORES • AulA 4 o observatório da educação tem como princípios pedagógicos a articulação e o trabalho coletivo de pesquisadores, pós-graduandos, graduandos e, sempre que for o caso, de professores da educação básica. nesse sentido, a escola deixa de ser vista como mero espaço de investigação e seus agentes apenas como sujeitos passivos e assumem o papel de propositores de saberes, participantes ativos na busca de propostas transformadoras que aliem a prática docente aos conhecimentos acumulados no campo educacional. (relatório de gestão deB – 2009 – 2014, vol 2. in: www.capes.gov.br, acesso 10/10/16) esse programa é o mais focado na pesquisa em educação, integrando trabalho coletivo entre educação básica, graduação e pós-graduação para produção do conhecimento sobre situações educacionais, por meio de pesquisa colaborativa. Para ter uma ideia dos números desse programa, obseve o texto a seguir: Resultados do Observatório da Educação: números e impactos nos editais 2006 e 2008, foram aprovados 28 projetos em cada; em 2009, no observatório da educação escolar indígena, foram aprovados 17 projetos e em 2010, o edital selecionou 80 projetos. o último edital foi lançado em 2012. os projetos contemplados tiveram início de sua vigência no primeiro semestre de 2013 e incluíram mais 90 propostas novas, das quais 70 projetos locais e 20 em rede. Portanto, o total é de 243 projetos apoiados nos cinco editais. em 2014, estavam vigentes 151 projetos, sendo 111 núcleos Locais (compostos por, pelo menos, um programa de pós- graduação stricto sensu) e 34 núcleos em rede (compostos por pelo menos três programas de pós-graduação stricto sensu de instituições diferentes). Uma vez que a maioria dos projetos é estruturada em 4 anos, grande parte dos 151 projetos vigentes em 2014 terá continuidade em 2015. Todavia, 61 projetos serão finalizados, permanecendo apenas os 90 aprovados no edital de 2012. Fonte: Relatório de Gestão DEB – 2009 – 2014, vol 2. In: <www.capes.gov.br>. Acesso 10/10/16. É um programa que dinamizou o processo de pesquisa, tanto na formação inicial quanto na formação continuada, produziu novas práticas na educação básica, representando uma inovação na forma de fazer pesquisa e de trabalhar com diferentes sujeitos em pesquisa. Organização do Observatório da Educação. Núcleo Local IES núcleo em rede IES 2IES 3 IES 1 FONTE: Relatório de Gestão DEB – 2009 – 2014, vol 2. In: <www.capes.gov.br>. Acesso 10/10/16. 58 AulA 4 • PROGRAMAS DO GOvERnO PARA FORMAçãO DE PROFESSORES os projetos do observatório da educação devem estar vinculados a programas de pós-graduação stricto sensu que sejam reconhecidos pela Capes e desenvolvam linhas de pesquisas voltadas à educação. Podendo ter uma única instituição de ensino envolvida (núcleo Local) ou até três instituições (núcleo em rede), conforme informado na aula anterior. articula formação, prática e pesquisa em diferentes níveis e modalidades de ensino, com projetos de estudos e pesquisas, procurando divulgar os resultados e integrando a universidade à educação básica, com transformação. PARFOR - Plano Nacional de Formação de Professores da Educação básica Trata-se de um programa que foi instituído emergencialmente em 2009 para a formação de professores em serviço, posteriormente, implantado em regime de colaboração entre a Capes, os estados, municípios, o distrito Federal e as instituições de educação Superior – ieS. o objetivo desse programa é a oferta de educação superior gratuita para professores que já atuam na rede pública da educação básica, a fim de adequar estes docentes á formação exigida, conforme a Lei de diretrizes e Bases da educação nacional – LdB e, consequentemente, melhorar a qualidade da educação básica no País. Sendo assim, o Programa tem três frentes que ofertam turmas especiais em cursos de: I. Licenciatura – para docentes ou tradutores intérpretes de Libras em exercício na rede pública da educação básica que não tenham formação superior ou que mesmo tendo essa formação se disponham a realizar curso de licenciatura na etapa/disciplina em que atua em sala de aula; II. Segunda licenciatura – para professores licenciados que estejam em exercício há pelo menos três anos na rede pública de educação básica e que atuem em área distinta da sua formação inicial, ou para profissionais licenciados que atuam como tradutor intérprete de Libras na rede pública de educação Básica; e III. Formação pedagógica – para docentes ou tradutores intérpretes de Libras graduados não licenciados que se encontram no exercício da docência na rede pública da educação básica. (www.capes.gov.br, acesso 10/10/16) este programa, Parfor, constitui-se nas duas modalidades: presencial que foi implementado pela diretoria de Formação dos Professores da educação Básica – deB; a distância foi implementado pela diretoria de educação a distância – ded. 59 PROGRAMAS DO GOvERnO PARA FORMAçãO DE PROFESSORES • AulA 4 Trata-se, portanto, de um programa, voltado quase exclusivamente para a formação docente, no qual a pesquisa pode estar presente na medida em que a aproximação entre universidade e escola – teoria e prática está conduzindo debates com referência às demandas institucionais e profissionais. Mas, não é um programa voltado à pesquisa. Contudo, é relevante tratar deste programa aqui, tendo em vista a dinamização que a qualidade do ensino pode gerar, particularmente, por significar uma evolução da formação em serviço e o conhecimento de Libras para atender as demandas no processo de inclusão escolar. além disso, entre os princípios do programa, está definido que seja despertado o interesse dos formadores para realizar estudos e pesquisas sobre a formação docente; quanto mais experiências são trocadas no processo formativo, mais forte o indício de que a pesquisa em educação tem um terreno fértil de estudos na relação com a educação básica. Fato que pode ser constatado com a publicação de livros, participação em eventos científicos, projetos para implantação de brinquedotecas, entre outras iniciativas e resultados. É um programa de grande amplitude e com resultados significativos haja vista o envolvimento de mais de 3 mil municípios, com a frequência de mais de 50 mil professores matriculados no ano de 2015, o que demarca uma progressiva adesão ao programa. esse conjunto deflagrou mudanças no campo técnico e, principalmente, informacional com disponibilidade da plataforma Freire, integrada a outros sistemas como e-MeC, a base de dados do educacenso e o Sistema de gestão de Bolsas/SgB. Fonte: Parfor: municípios com turmas implantadas – 2009 a 2014. (Relatório de Gestão DEB – 2009 – 2014, vol 1. In: <www.capes.gov.br>. Acesso 10/10/16). 60 AulA 4 • PROGRAMAS DO GOvERnO PARA FORMAçãO DE PROFESSORES a partir da imagem acima, do mapa do Brasil com os municípios participantesassinalados, é possível dimensionar a extensão deste programa e a quantidade de dados que podem ser manuseados pelos formadores e pesquisadores, em distintas realidades e condições de ensino. Trata-se, ao mesmo tempo, de uma singular e múltipla riqueza de conhecimentos sobre a realidade do ensino no país e o ambiente de trabalho docente de norte a sul e de leste a oeste. então, como não considerar este um programa que tangencia a pesquisa com dados, relações, debates e reflexões superdimensionadas sobre a educação brasileira? os dados informados no relatório de gestão deB mostram que o curso de Pedagogia tem uma prevalência sobre as demais licenciaturas, mesmo nas áreas que representam grande carência de professores com formação específica. o que representou uma oportunidade de acesso à educação superior para muitos professores da educação básica que atuam em cidades distantes e de difícil acesso. Programa novos talentos o Programa novos Talentos está direcionado às instituições públicas de ensino superior (iPeS) e tem como objetivo apoiar propostas para realização de atividades extracurriculares para professores e alunos da educação básica, a fim de disseminar o conhecimento científico e melhorar o ensino de ciências nas escolas públicas do Brasil. as atividades de cursos e oficinas ou propostas equivalentes (aproximadamente com 40 horas cada) devem ocorrer no período de férias das escolas públicas ou que não incompatibilize com a frequência escolar do estudante, utilizando espaços alternativos como centros de pesquisa, universidades, museus, entre outros. essas atividades devem ser destinadas: a alunos de escola pública de educação básica; ou a professores de escola pública de educação básica. as propostas são submetidas à Capes pelas iPeS, sempre procurando aproximar os cursos de graduação e pós-graduação das escolas públicas, a fim de contribuir e aprimorar a formação de professores e o desempenho dos alunos da educação básica. dessa forma, é um programa que também tem a preocupação com o conhecimento científico a ser desenvolvido como habilidade, tanto para os professores quanto para os estudantes, sob a coordenação de um professor universitário experiente para propor pesquisa. Trata-se de uma estratégia muito importante para: » despertar vocações em estudantes de baixa renda para carreiras tecnológicas e científicas, propiciando sua preparação para o acesso aos cursos das ieS públicas; 61 PROGRAMAS DO GOvERnO PARA FORMAçãO DE PROFESSORES • AulA 4 » capacitar professores da rede pública com vistas ao seu desenvolvimento profissional, contribuindo para a elevação do padrão de qualidade da educação básica; » incentivar a produção de metodologias, estratégias e de materiais didáticos inovadores, visando à melhoria das condições de aprendizagem da língua materna e das ciências, em articulação com a realidade local, regional e global; » viabilizar maior interação entre o meio acadêmico - notadamente estudantes de graduação, pós-graduação, grupos e centros de estudos e pesquisas - e as escolas públicas de educação básica. (www.capes.gov.br, acesso 10/10/16). É uma inovação com o propósito de ser trabalhada entre professores universitários e professores da educação básica, em conjunto com os estudantes em formação docente, e os estudantes da educação básica, cujo foco é o conhecimento científico e a pesquisa. Portanto, são diferentes níveis de ensino em colaboração, buscando a melhoria da educação e das condições de aprendizagem para o contexto brasileiro. É muito importante apresentar os dados desses programas e, no caso dos novos Talentos 2012, foi projetada a seguinte previsão de pessoas a serem envolvidas nos projetos: » alunos de graduação – 6.629 » alunos de pós-graduação – 1.172 » alunos da educação básica - 104.603 » Professores da educação básica - 23.381 nota-se que o número de participantes da educação básica, tanto professores quanto estudantes, é muito maior e representa uma possibilidade de melhoria do ensino com oportunidade de novos conhecimentos e o despertar de agentes educacionais para novas práticas. Mas, também, representa oportunidade de estudos e novas pesquisas nas universidades, particularmente, na formação de professores e nos cursos de Pedagogia. em novembro de 2014, foi realizado o i encontro de Coordenadores do Programa novos Talentos, com apresentação dos resultados dos projetos em andamento que concretizaram a fundamental aproximação entre graduação, pós-graduação e escola pública da educação básica. Foi detectado o desafio e a necessidade de expandir o programa para o interior do Brasil, uma vez que este promove extensão e educação continuada de nível muito elevado. a pesquisa em educação tem um terreno bastante fértil nesse programa que integra os diferentes níveis de ensino com foco no estudo científico e na inovação tecnológica. 62 AulA 4 • PROGRAMAS DO GOvERnO PARA FORMAçãO DE PROFESSORES Programa de Apoio a Laboratórios Interdisciplinares de Formação de Educadores - Life É um programa voltado para as instituições Públicas de ensino Superior (iPeS), articulado com todos os outros programas de formação inicial e continuada. as iPeS devem ter a oferta de, pelo menos, dois cursos de licenciatura em diferentes áreas no campus do laboratório interdisciplinar e participar de um dos seguintes programas de educação básica da Capes: ParFor, PiBid, ProdoCenCia, oBedUC, noVoS TaLenToS, ProJeToS eSPeCiaiS, Licenciaturas e Mestrados Profissionais em rede apoiados pela Universidade aberta do Brasil – UaB. o propósito do programa Life é disponibilizar recursos para as licenciaturas, por meio dos quais será oferecida aos professores uma formação com tecnologia, inovação didático-pedagógica e a possibilidade do domínio de equipamentos atualizados. Compreende-se que, com este programa, as licenciaturas terão investimento na formação digital e interdisciplinar. a seleção de propostas que atendam esses princípios é feita por meio de edital, cujo objetivo é a criação de laboratórios interdisciplinares de formação de professores de diferentes cursos para incentivar novas metodologias que atendam o seguinte: » inovação das práticas pedagógicas; » formação de caráter interdisciplinar a estudantes de licenciatura; » elaboração de materiais didáticos de caráter interdisciplinar; » uso de tecnologias da informação e comunicação (TiC’s); » articulação entre os programas da Capes relacionados à educação básica. (www.capes.gov.br, acesso 10/10/16). Mas, assim como os outros programas, que deveriam ter uma regularidade e continuidade de investimento governamental, este não teve edital em 2014 por conta dos cortes orçamentários. dessa forma, ocorre, não somente a redução dos investimentos que prejudica, mas também, a frustração de todos os envolvidos nos projetos que deixam de ter a continuidade e limitam o desenvolvimento de expectativas com inovações e práticas. Portanto, os princípios do programa Life traduzem-se pela inovação tecnológica e pela perspectiva interdisciplinar, tão necessárias para atender as complexas demandas atuais da formação de professores. É mais um programa que tem como foco a pesquisa na formação de professores, buscando melhoria na qualidade da formação e inserindo o professor no contexto digital. Portanto, propicia o desenvolvimento de pesquisas sobre a atividade docente que é a chave da pesquisa em educação. 63 PROGRAMAS DO GOvERnO PARA FORMAçãO DE PROFESSORES • AulA 4 Para a dimensão de implantação de Lifes, vejamos os números: REGIÃO life - 2012 life – 2013 TOTAl n 26 8 34 nE 50 22 72 CO 21 6 27 S 37 15 52 SE 49 17 66 TOTAl 138 68 251 Fonte: <www.capes.gov.br>. Acesso 10/10/16 em 2014, foi realizado o i encontro nacional do Life, em Brasília, para discutir os resultados do Programa, compartilhar projetos e socializar experiências entre os coordenadores. durante o encontro, estavam expostos produtos e materiais didáticos criados noslaboratórios, que foram previamente selecionados. o programa é de grande relevância para a melhoria da qualidade da formação de professores, contudo, a permanência de funcionamento desses laboratórios não está garantida tendo em vista que a sustentabilidade dos projetos depende da concessão de fomento governamental. Caso as iPes constituam autonomamente a gestão e manutenção dos laboratórios, é possível um grande benefício para a pesquisa em educação e para a formação de professores. Bem, apresentei esses programas que considero fundamentais para o incremento da pesquisa em educação, envolvendo estudantes, professores e pesquisadores, articulando universidade e escola básica, relacionando teoria e prática. a formação para a pesquisa está no cerne da formação de professores, atualmente, e sua tendência é ser cada vez mais importante. É o começo de um longo caminho e não se trata de considerar que os professores, quando formados, serão experts em fazer pesquisa, mas terão a iniciação científica necessária para se aprofundarem na formação continuada, conforme seus próprios interesses. É muito importante perceber que as oportunidades, geradas pelas experiências na formação inicial com pesquisa, têm transformado a pesquisa em educação e ampliado o interesse de muitos professores, que sequer teriam conhecimento do que é fazer pesquisa sem estas oportunidades. o progresso das pesquisas em educação depende desse conhecimento ampliado dos professores, com leituras mais sistemáticas e experiências investigativas. afinal “o contato com as pesquisas é suscetível de desenvolver as capacidades de análise e investigação, de evitar confundir a evidência com o fato demonstrado” (BeiLLeroT, 2012, p. 88). o professor recém-formado, que, muitas vezes, desespera-se na ação docente, sobre o que fazer nas experiências de sala de aula, com o comportamento dos alunos ou com as dúvidas de conteúdo, pode reagir a tudo isso com pesquisa, tentando investigar soluções para seus problemas. não se 64 AulA 4 • PROGRAMAS DO GOvERnO PARA FORMAçãO DE PROFESSORES trata de uma pesquisa stricto sensu, mas é uma forma de buscar autonomamente soluções, sem que seja preciso desistir da carreira docente. o que já considero um ganho na atividade docente por meio da formação em pesquisa. Beillerot escreve que “a pesquisa seria suscetível de formar os jovens no espírito crítico, na dúvida metódica, no comportamento racional, assim como no cuidado de responder com elegância às situações encontradas” (iBideM, p. 88). a pesquisa em educação tem a função de mostrar caminhos e alternativas em situações que podem parecer sem solução nos cenários sombrios que muitos professores enfrentam. a busca por solução é permanente na atividade docente por ser uma tarefa que muda tanto quanto as demandas se transformam. nesse sentido concordo com o que expressa Beillerot: É por um trabalho de formação que os jovens professores podem tornar-se mais conscientes de sua subjetividade em ação, e encontrar as vias de uma melhor objetividade, adaptada às situações com as quais eles se defrontam, até elaborarem um ponto de vista suficientemente distanciado para constituírem objetos de pesquisa. (iBideM, p. 90) Resumo » Conhecemos os principais programas de melhoria e qualificação da formação de professores que incentivam a pesquisa e a relação entre universidade e escola básica. » aprofundamos a forma como esses programas geram impactos na formação de professores e na pesquisa em educação, constituindo novos conhecimentos e oportunidades na ação docente. » debatemos sobre a relação teoria e prática, favorecida pela pesquisa em educação e pelas experiências no percurso da formação inicial e continuada. 65 Apresentação nesta aula, o debate central é sobre os conceitos de professor reflexivo e professor-pesquisador. Procuro, assim, problematizar esses conceitos, contextualizando o cenário em que estes se estabelecem no campo da formação de professores e destacando suas matrizes teóricas. discuto, também, a importância do método de pesquisa-ação que dinamizou pesquisas no campo da formação de professores, mas também divide opiniões sobre o uso dessa metodologia em pesquisa científica. Objetivos » apresentar os conceitos de professor reflexivo e professor-pesquisador, a partir das matrizes teóricas que os fundamentam. » destacar a pesquisa-ação como método principal na concepção do professor-pesquisador, apresentando seus pressupostos teóricos. » Problematizar os conceitos de professor reflexivo e professor-pesquisador à luz das concepções teóricas do campo da pesquisa em educação. 5 AulA PROFESSOR REFLExIVO E PROFESSOR-PESQUISADOR: COnCEItOS E PERSPECtIvAS 66 AulA 5 • PROFESSOR REFLExIVO E PROFESSOR-PESQUISADOR: CONCEITOS E PERSPECTIVAS Apresentando os conceitos e suas matrizes teóricas o conceito de professor-pesquisador é muito importante no conjunto dos debates da pesquisa em educação e envolve, também, os aspectos práticos da atividade docente. no trabalho docente, identifico duas abordagens relacionadas às questões da pesquisa sobre um novo olhar da relação teoria e prática que são: » uma referente à ideia do professor-pesquisador da sua prática, com forte influência da possibilidade de uma pesquisa-ação para defesa de um modelo formativo-investigativo; » outra abordagem, que trata a formação do professor como uma prática reflexiva e aponta para a necessidade de reflexão-na-ação. no primeiro grupo de abordagem, o alicerce teórico é constituído pelas contribuições de Lawrence Stenhouse e John elliott. o primeiro deles está relacionado com o “modelo de processo”, que se colocava contra a “racionalidade técnica” – discutida em aulas anteriores - e se contrapunha ao modelo de objetivos que se baseia na definição e no alcance de objetivos pré-definidos. o modelo de processo: é o enfoque nos princípios e nos valores a serem desenvolvidos e não nos resultados pré-fixados a serem atingidos pelos professores; este que seria próprio do modelo de objetivos da racionalidade técnica. (Pereira, 1998, p. 159). o segundo grupo de abordagem, em relação ao trabalho docente, trata a formação do professor como uma prática reflexiva e aponta para a necessidade de reflexão-na-ação. nesse grupo, destacam-se os fundamentos teóricos de donald Schön e Kenneth Zeichner (embora este guarde diferenças, pois também tem influência de Stenhouse) sobre a reflexão-na-ação e o desenvolvimento profissional, dessa forma, mais relacionados a um fazer profissional. Schön (1995) está associado a aspectos individuais, apoiado em dewey e outros psicólogos, com a ideia das competências e refinando o conceito da prática, em que o professor mobiliza os conhecimentos para a prática. Para esse autor, os professores têm conhecimentos tácitos, que trazem de sua experiência como alunos, que não devem ser confundidos com teorização. Saiba mais Donald Schön (Boston, 1930 — Boston, 1997) foi um pedagogo estadunidense que estudou sobre a reflexão na educação. Foi professor no instituto de Tecnologia de Massachusetts (MiT) de 1968 até sua morte. donald Schön licenciou-se em Filosofia em 1951, pela Universidade de Yale, em seguida fez Mestrado (1952) e doutorado, em Filosofia, pela Universidade de Harvard. Schön centrou seu trabalho como pesquisador e consultor nos temas sobre aprendizagem organizacional e na eficácia profissional. Foi membro da academia americana de artes e Ciências e da Comissão sobre Sistemas Sociotécnicos do Conselho nacional de Pesquisa. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/donald_Sch%C3%B6n, acesso 02/11/16. 67 PROFESSOR REFLExIVO E PROFESSOR-PESQUISADOR: CONCEITOS E PERSPECTIVAS • AulA 5 diferentemente, Zeichner (1998) compreende a reflexão como um ato dialógico e não individual. a ideia de reflexão surge como um contraponto às reformas educacionais, baseadas na perspectiva da ‘racionalidade técnica’, pois entende que essa não dá conta da complexidade e singularidadedos desafios em educação. nessa perspectiva, o professor produz conhecimento ao fazer a reflexão. Para Tardif (2000), é o saber da experiência que articula os saberes plurais e seleciona o conteúdo a ser ensinado. o saber da experiência é um saber produzido a partir da reflexão na ação e decorre do que se pensa na hora de agir. no conjunto dos teóricos acima comentados, a maior preocupação é com a experiência docente e a possibilidade de reflexão na ação constituir a formação do professor, com um equipamento teórico-técnico que lhe garanta as melhores condições para atuar no cotidiano das escolas, a fim de superar alguns impasses da experiência profissional. Portanto, o pensamento de professor- pesquisador se relaciona com essa perspectiva, na medida em que o professor deveria, por meio da pesquisa, investigar as possibilidades de superar os problemas cotidianos da sala de aula. Sendo assim, a relação com a realidade desde o contexto formativo, seja nos estágios, seja em processos de pesquisa, torna possível construir conhecimentos necessários à atividade educacional. Schön (2000) problematiza a situação quando debate sobre o imperativo de se formar o professor como profissional reflexivo para as atuais demandas da prática. a ideia de Schön, do professor reflexivo, foi amplamente disseminada nos espaços de formação e serviu de base conceitual para alguns currículos de formação de professores. a experiência da formação docente nos estágios, por exemplo, é um espaço em que emergem problemas a serem solucionados, no qual o improviso é muitas vezes a forma de solucionar esses problemas. Schön expressa sobre a situação da atuação de professores nas escolas e identifica que eles exercitam nas “zonas indeterminadas da prática – a incerteza, a singularidade e os conflitos de valores”, uma vez que dessa forma “escapam aos cânones da racionalidade técnica” (iBid, p. 17) e a improvisação se torna, então, uma possibilidade como um talento próprio, além do uso que cada profissional faz das técnicas e da ciência aplicada. Segundo Schön (2000, p. 18), essas zonas indeterminadas da prática tomam parte no fazer profissional atual em meio à sociedade que demanda soluções cada vez mais complexas aos profissionais. É nesse cenário que se expande o uso do conceito de professor reflexivo e foi quase que banalizado nas discussões no âmbito educacional, contudo, sem o devido aprofundamento da questão. Para refletir então, pergunto: o que seria um professor reflexivo? de que maneira a formação apontaria para essa necessidade? de que forma o currículo atenderia a essa concepção? esses são alguns questionamentos que podem fomentar e amadurecer a necessária complexidade de como deve ser tratada a relação teoria e prática no universo da formação de formadores, que tem estreita relação com a pesquisa. 68 AulA 5 • PROFESSOR REFLExIVO E PROFESSOR-PESQUISADOR: CONCEITOS E PERSPECTIVAS Muitas dessas discussões teóricas na formação de professores é um reflexo das políticas educacionais, voltadas para um processo acelerado de melhoria dessa formação de maneira bastante pragmática, para que um projeto de sociedade com valorização da educação se torne viável. Contudo, esse novo projeto social, implementado por meio de política educacional legítima e amplamente disseminada (PCns, resoluções do Cne e outros), precisa também atender demandas específicas de alguns campos do conhecimento. Para Schön existe uma hierarquia que se explicita da seguinte forma: o currículo privilegia, primeiramente, as ciências de referência (Sociologia, antropologia, Psicologia e outras), depois as ciências aplicadas e, por último, a experiência da prática para solução de problemas. nessa hierarquização pode-se confirmar a desvalorização da prática e o privilégio das ciências de referência nos currículos. avançando um pouco mais na compreensão da abordagem de Schön sobre o professor reflexivo, é possível notar que o autor não descarta o conhecimento prévio do professor, pelo contrário, considera que é a partir do repertório de conhecimentos por ele acumulado que é possível formar uma solução criativo-singular para cada novo desafio. dessa forma, Schön compreende que se pode conhecer-na-ação que assim descreve: “Podemos refletir sobre a ação, pensando retrospectivamente sobre o que fizemos, de modo a descobrir como nosso ato de conhecer-na-ação pode ter contribuído para um resultado inesperado” (2000, p. 32). Mas, também, considera possível uma reflexão-na-ação no momento mesmo da ação de tal maneira que essa reflexão interfira na situação em andamento e, assim, a própria reflexão dá nova forma ao que está sendo feito. embora a diferença entre as duas formas (conhecer-na- ação e reflexão-na-ação) pareça sutil, Schön as distingue para afirmar que a reflexão-na-ação é o que colabora na aquisição do que chama de “talento artístico”, quando é possível refletir sobre o resultado da reflexão das respostas imediatas do cotidiano profissional. no caso do professor, o cotidiano das escolas exige essa habilidade reflexiva para atender frequentes demandas dos alunos, dos pais e dos gestores, o que pode ser uma fonte de tema para pesquisa, inclusive. afinal, é a partir dessas demandas que o professor reflete e busca soluções para atendê-las. nesse processo, ocorre uma investigação sobre os múltiplos fatores que interferem na realidade, os quais têm relação direta com o processo de ensino aprendizagem que pertence à esfera de atuação do professor. dessa maneira, Schön chama atenção para a reflexão-na-ação, pois nesse conceito, [...] em sua base está uma visão construcionista da realidade com a qual ele lida – uma visão que nos leva a vê-lo construindo situações de sua prática, não apenas no exercício do talento artístico profissional, mas também, em todos os outros modos de competência profissional. (2000, p. 39) 69 PROFESSOR REFLExIVO E PROFESSOR-PESQUISADOR: CONCEITOS E PERSPECTIVAS • AulA 5 É nesse ponto que identifico a divergência entre o pensamento de Schön sobre reflexão-na-ação e o pensamento de Zeichner, pois este considera que a reflexão somente pode ser pensada com base em dois pressupostos: como um ato dialógico e como uma das dimensões do trabalho pedagógico (1998, p. 244). Para Zeichner, não se trata de pensar uma reflexão como processo individual em que não se considere as condições de produção do trabalho pedagógico propriamente dito. então, escreve Zeichner: “a busca do professor reflexivo é a busca do equilíbrio entre a reflexão e a rotina entre o ato e o pensamento” (1998, p. 248). a defesa de Zeichner é da pesquisa-ação, que se fundamenta nas ideias de Stenhouse e segue o caminho da valorização da ação docente na pesquisa científica de modo a fazer uma teorização da prática em que estejam presentes os acadêmicos-pesquisadores e os professores-pesquisadores em colaboração, embora Zeichner (1998) considere que a pesquisa-ação tenha muitas possibilidades, com base em múltiplos propósitos e vertentes. dessa maneira, o autor entende que a reflexão não será de forma individualizada e sem que favoreça a dicotomia entre academia e prática docente, valorizando a primeira e desvalorizando a segunda. Magda Soares escreve o seguinte: [...] a investigação-ação é, também, uma forma de compreender o ensino como um processo permanente de construção coletiva. Para que os professores transformem o ensino, é necessário que reflitam, participem do debate e da construção política da educação como prática social. a investigação-ação pode constituir-se em um meio pelo qual os professores podem reconstruir seu conhecimento profissional, produzindo discursos públicos articulados à prática, aos seus problemas e às suas necessidades. (2012, p. 113) a concepção da pesquisa como princípio formativo está presente nesses fundamentos anteriormente apresentados, porém com entendimentos diferentes da forma como se reflete sobre a prática docente e se produz conhecimento.além disso, Magda Soares chama atenção sobre o seguinte: o problema dessa perspectiva é que as instituições e os professores universitários, no seu coletivo, resistem à aceitação das pesquisas não acadêmicas como conhecimento cientificamente válido, uma vez que não consideram o professor como produtor de saberes e suas práticas como contexto de produção. (2012, p. 116) essa polêmica e separação entre pesquisa acadêmica e a pesquisa de professores da educação básica vem sendo enfrentada, quanto mais a formação para pesquisa se torna uma prática na formação docente. não é uma garantia, mas é a possibilidade de, desde a formação inicial, 70 AulA 5 • PROFESSOR REFLExIVO E PROFESSOR-PESQUISADOR: CONCEITOS E PERSPECTIVAS instrumentalizar o professor para a pesquisa acadêmica e ele poder levar esse aprendizado para sua prática docente. É desta forma que Soares se posiciona: [...] a formação que defendemos neste trabalho é aquela que cria condições para que os professores investiguem, indaguem, questionem e produzam explicações sobre o ensino como prática social... (iBid, p. 117) a reflexão-na-ação, tal como Schön defende, é uma habilidade do professor para solucionar problemas de sua prática que geram respostas intuitivas, devido à urgência das situações vividas na sala de aula, mas o professor não se considera capaz de organizar um discurso acerca dessas experiências. Contudo, o professor pode ser estimulado a refletir, registrar e trocar para seu melhor desenvolvimento profissional. São situações do cotidiano escolar dos professores, que nem sempre têm consciência da habilidade de explorar todas as respostas produzidas como uma competência adquirida. o relato das observações de muitos alunos na prática do estágio remete, por vezes, ao com que estes se deparam na realidade e lhes chama a atenção sobre a frequência com que os docentes se utilizam da “improvisação” em suas práticas profissionais. os alunos, então, buscam durante a formação, conhecimentos e técnicas para que possam compreender os saberes e competências mobilizados, e, dessa forma, possam reduzir os improvisos e a sensação de desconforto nessas situações. Contudo, práticas de improviso estão sempre presentes e não somente na atividade docente. a prática profissional está em meio a muitas e aceleradas mudanças, e a experiência, ao longo de anos, pode dar oportunidade de mais segurança profissional quanto às soluções encontradas nos momentos de improviso. Saiba mais neste livro, Schön (2003) defende a interação entre teoria e prática na formação profissional, por meio de um ensino reflexivo, a reflexão-na-ação. Provocação Consulte e leia o texto a seguir: Criatividade não é improvisação: crítica a uma concepção equivocada de docência universitária. Carina Tonieto ‐ Altair Alberto Fávero X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. Resumo: A formação dos professores para o exercício da docência universitária constitui uma discussão relevante, urgente e necessária no atual contexto de expansão da educação superior. Os profissionais que se dedicam à docência universitária e o cenário cotidiano onde eles atuam, evidenciam que a formação pedagógica é necessária e ajudaria na qualificação da 71 PROFESSOR REFLExIVO E PROFESSOR-PESQUISADOR: CONCEITOS E PERSPECTIVAS • AulA 5 intervenção docente e na mediação para a construção da aprendizagem. Propomo-nos no presente texto a investigar sobre a relação entre improvisação e criatividade, buscando fazer uma crítica à concepção equivocada de docência universitária amparada no conceito de improvisação, vista como prática pedagógica espontânea, sem preparo, inventada de repente, arranjada às pressas. Amparados no caráter positivo e criativo da improvisação teatral, mostraremos que a prática da improvisação é resultado de um longo e exaustivo processo de formação. Nessa direção, defenderemos que improvisação como algo inovador, criativo e versátil nada tem em comum com a maneira como está sendo concebida a improvisação docente e nem com o desenvolvimento da criatividade, funcionando como limitador, ao invés de potencializador da inovação no ensino superior. Palavras-chave: improvisação docente; criatividade; políticas educacionais; educação superior. Fonte: http://xanpedsul.faed.udesc.br/arq_pdf/409-0.pdf, acesso 02/11/16. Trata-se, portanto, de destacar a fertilidade das experiências e das pesquisas em educação em relação à formação de professores, por ser este um campo complexo e multideterminado na educação. Mais ainda, percebendo que o diálogo entre teoria e prática, próprio de muitas pesquisas, abre possibilidades para que os docentes compreendam os saberes por eles elaborados, mesmo que enfrentando fragilidades em sua formação. no senso comum, é recorrente a frase: “eu aprendo é na prática”, de forma a diferenciar o espaço da teoria do espaço da prática e, também, de revelar a dificuldade de integração entre teoria e prática, que é próprio e fértil nas pesquisas. na formação de professores, o espaço da prática pode causar certo desconforto na medida em que o aluno deve buscar conhecimento, o qual a formação inicial nem sempre oferece, ficando evidente que o conhecimento universitário não é absoluto nem está pronto. no entanto, isso não é exclusivo da formação docente, pois em profissões como medicina e advocacia, por exemplo, os espaços de prática se apresentam como essenciais ao processo de formação. na concepção de Tardif, os saberes profissionais dos professores são “personalizados e situados” porque são “construídos e utilizados em função de uma situação de trabalho particular, e é em relação a essa situação particular que eles ganham sentido”. (2000, p. 16). É, portanto, nessa relação entre teoria e prática, universidade e escola que grande parte dos temas surge com perspectiva investigativa, conforme comentado em aula anterior. a defesa da necessária associação entre ensino e pesquisa na formação inicial, desde Zeichner, é uma oportunidade de poder para os professores e uma possibilidade de autonomia profissional sobre o que fazer e como fazer em sala de aula. Para Zeichner (geraLdi, MeSSiaS e gUerra, 1998, pp. 244-245), “a reflexão é um ato dialógico”, no sentido de que supera a proposição individual considerada na reflexão-na-ação por Schön. o ato dialógico é considerado como “uma das dimensões do trabalho pedagógico” que se faz para reflexão e investigação de suas práticas. Contudo, essas práticas se utilizam de uma análise 72 AulA 5 • PROFESSOR REFLExIVO E PROFESSOR-PESQUISADOR: CONCEITOS E PERSPECTIVAS histórica que constrói novas leituras do cotidiano tão importante e valiosa quanto as pesquisas que são produzidas na academia. Para geraldi, Messias e guerra, a pesquisa-ação que Zeichner propõe desde a formação inicial produz novos significados em suas ações que ele chama de “teorias práticas do professor”, sendo então, uma reflexão “na” e “sobre” a ação e permitindo um patamar diferenciado na relação entre teoria e prática (1998, p. 256). A pesquisa-ação como método em discussão a pesquisa-ação tem seu valor metodológico e Zeichner é uma referência teórica fundamental para pensar a prática colaborativa em pesquisa e a relevância de o professor adquirir um instrumental para a pesquisa em sua formação inicial, além de possibilitar incursões no campo da pesquisa propriamente dito. a pesquisa-ação tem sua origem nos anos de 1940 com Kurt Lewin, que buscava formas de analisar e intervir nas mudanças atitudinais das relações humanas fruto de suas investigações. assim, inovou Lewin nos princípios da pesquisa, considerando: “o caráter participativo, o impulso democrático e a contribuição à mudança social” (Pereira, 1998, p. 162). Trata-se de uma prática reflexiva em situação de compartilhamento de um determinado grupo social que investiga e busca mudanças nas suas relações. Segundo Pereira, na pesquisa-ação com base na ideia do prático de John elliott, existe um processocontínuo de reflexão e ação, tal como uma espiral que inclui: » aclarar e diagnosticar uma situação prática ou um problema prático que se quer melhorar ou resolver; » formular estratégias de ação; » desenvolver essas estratégias e avaliar sua eficiência; » proceder os mesmos passos para a nova situação prática. (p. 162) no entanto, posteriormente, os modelos de pesquisa-ação apresentam diferentes tendências, embora preservando o fato central da preocupação de melhorar a prática numa perspectiva de conhecer e agir sobre determinado fenômeno ou situação. Sugestão de estudo UMa anÁLiSe CrÍTiCa SoBre a “reFLeXão” CoMo ConCeiTo eSTrUTUranTe na ForMação doCenTe. KenneTH M. ZeiCHner educ. Soc., Campinas, vol. 29, n. 103, p. 535-554, maio/ ago. 2008. disponível em http://www.scielo.br/pdf/es/ v29n103/12.pdf, acesso 02/11/16. 73 PROFESSOR REFLExIVO E PROFESSOR-PESQUISADOR: CONCEITOS E PERSPECTIVAS • AulA 5 a concepção da pesquisa-ação no campo educacional não difere, pois o “professor procura trabalhar o conhecimento já existente, convertendo-o em hipóteses-ação, e procura estabelecer uma relação entre a teoria, a ação e o contexto particular” (iBideM, p. 163). o que está em questão não é somente a interpretação sobre a situação ou problema, mas a mudança que deve ocorrer para melhorá-los e que necessita da atitude colaborativa do professor. Portanto, a prática reflexiva do professor, a colaboração do professor-pesquisador é que trazem mudanças no contexto educacional e nas práticas educativas. dessa forma, a concepção é de que não se pode separar o ensino da pesquisa. Pereira destaca que “elliott procura mostrar que o paradigma da pesquisa-ação permite superar as lacunas existentes entre a pesquisa educativa e a prática docente, ou seja, resolve o problema da relação entre teoria e prática” (p. 170). É uma afirmação controversa, pois se os critérios metodológicos no desenvolvimento da pesquisa-ação forem frágeis a dicotomia entre teoria e prática não necessariamente será superada. Pode, ao contrário, ampliar a distância entre estas criando a ilusão de superação dos problemas, quando a situação apenas pode ter deslocado o foco e o fenômeno continuar existindo. Problematizando as concepções em discussão discutimos aqui tanto o conceito de professor-reflexivo de Schön quanto de professor-pesquisador de Zeichner, e isso foi possível na medida em que estudiosos passaram a considerar a ‘formação de professores’ como um campo específico de pesquisa, a partir dos anos 2000. a ‘formação de professores’ se tornou um objeto de pesquisa propriamente dito na década de 1990, quando esses debates foram motivados, principalmente, pela Lei de diretrizes e Bases da educação nacional - LdB nº 9394/1996. Um pouco antes, mas, culminando na década de 1990, na qual, particularmente, a discussão sobre pesquisa na formação docente se torna cada vez mais valorizada, as vertentes desse pensamento se aglutinam de diferentes formas sobre o significado da pesquisa na formação do professor, “acompanhando os avanços que a pesquisa do tipo etnográfico e a investigação-ação tiveram nesse mesmo período” (andrÉ, 2012, p. 56). andré distingue essas múltiplas direções e registra os principais autores e suas propostas, em nível nacional e internacional, atendo-se à forma de inserção da pesquisa na formação e prática docentes. Trata-se de um momento em que a crítica à ‘racionalidade técnica’ na formação docente teve a reação com o movimento do professor reflexivo e do professor-pesquisador, que Lüdke apresenta Observe a lei observe a Lei acessando: https://www. planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htm . 74 AulA 5 • PROFESSOR REFLExIVO E PROFESSOR-PESQUISADOR: CONCEITOS E PERSPECTIVAS como sendo “as práticas profissionais [que] se produzem num contexto de divisão social do trabalho entre concepção e execução, ou seja, entre teoria e prática” (2001, p. 28). em função disso, são desenvolvidas pesquisas (andrÉ, 1983, 2010, 2012, 2014; BrZeZinKi, 2014; LÜdKe, 1986, 2001, 2005, 2012; gaTTi, 2010, 2014; geraLdi, FiorenTini e Pereira, 1998; ZeiCHner, 1998) sobre ‘formação de professores’ que mostram como são utilizadas diferentes metodologias pelos pesquisadores, tais como: estudos de caso; história oral; história de vida; pesquisa-ação e outras. nessas pesquisas, conforme escrito acima, há um desdobramento em relação a outras investigações, como por exemplo, sobre o ‘desenvolvimento profissional’, o qual autores consideram desde a formação escolar, como um aprendizado para tonar-se professor, até a prática docente, como um espaço de formação. além dessas, incluem a participação política como formativa na docência. Saiba mais António Manuel Seixas Sampaio da Nóvoa (Valença, 12 de dezembro de 1954) é um professor universitário português, doutor em Ciências da educação (Universidade de genebra) e História Moderna e Contemporânea (Paris-Sorbonne). atualmente, é professor catedrático do instituto de educação da Universidade de Lisboa e reitor honorário da mesma universidade. É autor de mais de 150 publicações, entre livros, capítulos e artigos, editadas em 12 países. as suas investigações e interesses incidem sobre história e psicologia da educação, educação comparada, e formação de professores. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/ant%C3%B3nio_Sampaio_da_n%C3%B3voa, acesso 02/11/16. Finalizando esta aula, destaco outro artigo de nóvoa (2015), no qual problematiza para que serve a pesquisa em educação, cujos pontos a seguir considero relevantes ao nosso debate. Primeiramente, nóvoa destaca uma questão central: É como enriquecer, aprofundar e diversificar a nossa compreensão dos temas educacionais. não há um campo único e, certamente, não podemos esperar que se obtenha um consenso na forma de se organizar e de orientar a pesquisa científica em educação. (p. 270) É justamente um aspecto a ser considerado na pesquisa em educação, sua diversidade temática, dada a multiplicidade de situações de aprendizagens e contextos profissionais educacionais. diferente de muitas outras profissões que mantêm limites dentro de alguns eixos temáticos, a Atenção Chama atenção, nesse contexto, o que escreve nóvoa sobre os docentes se tornarem, ao mesmo tempo, “objetos e sujeitos da formação” (2008, p. 228) e, por meio de reflexão, constituírem o desenvolvimento profissional. o que, também, podemos pensar que na pesquisa os professores são igualmente objetos e sujeitos nas investigações. 75 PROFESSOR REFLExIVO E PROFESSOR-PESQUISADOR: CONCEITOS E PERSPECTIVAS • AulA 5 profissão docente tem esta característica da diversidade de temas de pesquisa em educação, que, se por um lado pode representar dispersão, por outro lado, pode significar diferentes oportunidades de correntes de pensamento para compreensão das situações educacionais. outro ponto destacado por nóvoa é o seguinte: “não podemos fechar no interior de uma ‘disciplina’ única. Precisamos trabalhar nas fronteiras de vários conhecimentos, juntar perspectivas diferentes na compreensão dos fenômenos educativos” (p. 270). essa é outra característica na sequência da situação comentada acima, pois a pesquisa em educação trata de uma ciência que tem a confluência de muitas áreas do conhecimento, as quais estão fortemente amalgamadas. Contudo, como propõe nóvoa de se trabalhar na fronteira dos conhecimentos, penso que os pesquisadores produzem novos conhecimentos que sequer teriam uma dimensão prévia. estamos tratando de uma dimensão criativa e inovadora extremamente relevante da pesquisa em educação para além da discussão de professor reflexivo ou professor-pesquisador. Por fim, nóvoa escreve que: [...] importa consolidar os laços entre a educação e a ciência, entre a formação e a pesquisa, enriquecendo a vida universitária num duplo sentido: por um lado, construindo uma educação de base, que dê a cada um os instrumentos de conhecimento e de autoconhecimento, de desenvolvimento de umavida plena também na relação com o trabalho; por outro lado, realizando um esforço para levar a pesquisa até um público mais alargado, de modo a ligar a reflexão científica aos debates públicos sobre educação. (p. 271) o sentido dado por nóvoa para essa consciência que a pesquisa científica produz é fundamental na formação de professores e reitero se, por meio da reflexão e da pesquisa, o professor desenvolve a consciência dos problemas educacionais e busca solução é porque devemos tornar essa condição mais importante na formação docente. Pimenta e Lima apontavam, desde 2005, que a atividade docente é uma prática social, conforme declaram, a seguir: “a profissão docente é uma prática social, ou seja, como tantas outras, é uma forma de se intervir na realidade social, no caso, por meio da educação que ocorre, não só, mas essencialmente nas instituições de ensino” (2005, p.11). intervenção que acontece tanto na atividade docente quanto nas situações de pesquisa, pois ambas as experiências enfrentam a dicotomia teoria-prática, relacionando os conhecimentos da formação com a realidade vivida. Portanto, a consciência comentada por nóvoa e a prática social comentada por Pimenta e Lima elevam a perspectiva do professor seja ele professor reflexivo e professor-pesquisador ou não. 76 AulA 5 • PROFESSOR REFLExIVO E PROFESSOR-PESQUISADOR: CONCEITOS E PERSPECTIVAS Resumo nesta aula: » vimos a importância de conhecermos os conceitos de professor reflexivo e professor- pesquisador no campo da formação de professores, que constituiu tantos debates e contribuiu para se refletir cada vez mais sobre a relação teoria e prática na perspectiva da formação docente e da pesquisa em educação; » conhecemos a pesquisa-ação, bem como o debate da pesquisa científica sobre essa metodologia e seus pressupostos teóricos; » problematizamos os conceitos estudados de professor reflexivo e professor-pesquisador no campo da pesquisa em educação, procurando entender as implicações do uso desses conceitos na formação e na prática docente. 77 Apresentação nesta aula final, apresentarei, primeiramente, as discussões da pesquisa em educação sobre a diferenciação entre pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa, pois entendo que nestas modalidades pode haver complementaridade e não oposição. Posteriormente, apresentarei alguns procedimentos de pesquisa com o objetivo de contribuir no processo de investigação de cada aluno em formação docente, uma vez que a formação em pesquisa amplia as perspectivas desta formação. desse modo, finalizo destacando a forma como se produz um Projeto de Pesquisa, principalmente, com o foco em itens mais polêmicos para essa elaboração quanto mais significam dificuldades para os alunos que pesquisam. Objetivos » apresentar a diferenciação básica de abordagem entre pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa, no debate de pesquisa em educação. » destacar os principais procedimentos da pesquisa em educação, com aspectos teóricos e encaminhamentos práticos mais relevantes. » Contribuir para a elaboração de um Projeto de Pesquisa, destacando os tópicos mais importantes para essa produção. 6 AulA MODALIDADES DE PESQUISA E A ELABORAÇÃO DO PROjEtO DE PESquISA 78 AulA 6 • MODALIDADES DE PESQUISA E A ELABORAÇÃO DO PROjETO DE PESQUISA Diferenciando a Pesquisa qualitativa da Pesquisa quantitativa na aula anterior, já conhecemos um dos métodos de pesquisa em educação que é a pesquisa-ação, porém, aqui trataremos de outras modalidades de pesquisa. Começamos com uma abordagem sobre a diferença entre pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa, uma vez que esse debate é frequentemente travado na pesquisa em educação. a pesquisa qualitativa tem sido a principal escolha metodológica dos pesquisadores em educação, não somente porque algumas vezes o levantamento quantitativo dos dados coletados para análise não é suficiente para os temas em discussão, como também, e principalmente, porque o universo das pesquisas envolve pessoas, situações relacionais e subjetivas da área da educação e dos processos de aprendizagem com muitas especificidades. a pesquisa qualitativa, portanto, procura contemplar os aspectos mais relevantes dos sujeitos e suas relações nos fenômenos estudados. Para muitos autores a pesquisa qualitativa é entendida como um ato subjetivo de construção do objeto de estudo. não podemos dizer, contudo, que, na pesquisa quantitativa, não sejam contemplados aspectos relacionais mais complexos, uma vez que a busca de relações entre variáveis está presente. Um aspecto bem característico da pesquisa qualitativa é a variedade de métodos e técnicas utilizadas, diferenciando-se da pesquisa quantitativa que é mais padronizada nos critérios a seguir. afinal, a pesquisa quantitativa precisa garantir a repetibilidade dos processos de fenômenos estudados de modo a não interferir - ou melhor, controlar as variáveis - nos resultados analisados. entretanto, o controle é fundamental para todo tipo de pesquisa científica, mas o que muda é a forma de organizar os dados e interpretá-los, incluindo uma metodologia mais aberta às interferências da realidade que desvia de uma neutralidade na ciência e de um método estritamente padronizado. o objeto de estudo da pesquisa em educação é muito abrangente, por isso mesmo suas características de grande flexibilidade e adaptação tornam tão difícil fazer uso de uma única padronização. Vejamos o que afirma gatti: [...] o campo de estudos em educação abrange um grande conjunto de subáreas com características distintivas e objetos de estudo diferentes (por exemplo, história da educação, gestão escolar, políticas educacionais, sociologia da educação, currículo, ensino, etc.) (2003, in: http://www.lite.fe.unicamp.br/revista/gatti1.pdf. acesso em 02/11/16) a imagem abaixo extraída da internet ilustra essa ideia da abrangência de áreas que pode contemplar a pesquisa em educação: 79 MODALIDADES DE PESQUISA E A ELABORAÇÃO DO PROjETO DE PESQUISA • AulA 6 Fonte: http://3.bp.blogspot.com/_yxCKege695A/SOgjn3j1lfI/AAAAAAAAAC8/CoO4UiLfMog/s400/ areasdaeduca%C3%A7%C3%A3o.jpg, acesso em 14/11/16. atualmente, o que se expressa na coleta e nos resultados em pesquisa é considerado como produção de dados, pois paradoxalmente ‘o dado não está dado’; cada pesquisador relaciona os dados de sua pesquisa associados aos aspectos teóricos que atendem melhor a sua perspectiva de análise. Portanto, não existem dados prontos como objetos, dos quais o pesquisador se aproprie e os compreenda. a forma como cada pesquisador reúne fragmentos de autores e os associa aos dados selecionados é um tratamento diferenciado com resultados também diferenciados em pesquisa, que necessitam de instrumentos e procedimentos específicos. devemos lembrar o que Minayo (1993) expressa sobre a pesquisa se tratar de um fenômeno de aproximações sucessivas da realidade, fazendo uma combinação particular (do pesquisador) entre teoria e dados. Portanto, estamos fazendo referência às escolhas das abordagens teóricas associadas a um conjunto de técnicas com a singularidade do pesquisador. a generalização dos resultados nem sempre pode ser garantida no processo da pesquisa qualitativa, pois os estudos se preocupam com um nível de realidade mais específico e aprofundado, geralmente, valoriza mais o processo do que o resultado. Por isso, a generalização não é possível como nas pesquisas quantitativas, as quais abrangem um universo maior procurando generalizações das situações analisadas. Sintetizando Vimos que: a pesquisa quantitativa tem resultados que podem ser quantificados e está centrada na objetividade; a realidade será compreendida por meio da coleta de dados que serão trabalhados com instrumentos padronizados. Busca, também, a neutralidade e descreve as causas dos fenômenos e as relações entre variáveis. Contudo, muitas pesquisas em educação utilizam em conjunto a pesquisa quantitativa e qualitativa com o objetivode ampliar as discussões que porventura não seria possível alcançar separadamente. 80 AulA 6 • MODALIDADES DE PESQUISA E A ELABORAÇÃO DO PROjETO DE PESQUISA Procedimentos de Pesquisa a partir de agora, tratarei de alguns procedimentos de pesquisa, dos quais destacam-se: pesquisa bibliográfica, pesquisa documental, pesquisa de campo e pesquisa-ação. Pesquisa Bibliográfica a pesquisa bibliográfica deve fazer parte de todas as pesquisas, pois para dar início a uma investigação, é preciso, primeiramente, fazer uma revisão bibliográfica dos autores consagrados da área que é uma característica para fonte de dados preliminares. É muito importante conhecer o que está sendo discutido e como ocorre este debate, entre os autores, sobre o tema objeto de pesquisa. dessa forma, é possível levantar a diversidade de abordagens e a maneira como cada autor discute o tema. e, o pesquisador pode, assim, fazer escolhas para sua própria abordagem com uma base de dados bem fundamentada. Atenção É fundamental que tudo que for lido seja devidamente resumido e fichado - conforme orientado na disciplina de Metodologia da Pesquisa – para que nenhum conteúdo ou explicação se perca no processo de pesquisa. Principalmente, porque, no processo final de escrita da pesquisa, a lembrança sobre quem escreveu tal assunto pode ficar prejudicada. Portanto, registrar todas as consultas feitas é imprescindível a fim de evitar esquecimentos e desesperos de última hora. É no início, na fase exploratória da pesquisa, que o tema é delimitado e a busca do referencial teórico depende tanto da pesquisa bibliográfica para a produção do projeto de pesquisa. Sugestão de estudo algumas fontes de consulta para o levantamento bibliográfico: » Biblioteca digital de revistas científicas – www.scielo.br » Bibliotecas de Teses/dissertações e TCC: › PUC-rio http://www.dbd.puc-rio.br/ › PUC/SP http://aleph50018.pucsp.br/F › UFrgS http://www.lume.ufrgs.br/ › UFrJ http://www.sibi.ufrj.br/ › UniCaMP http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/ » Site de pesquisa - http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaobraForm.jsp » Site observatório da educação - http://www.observatoriodaeducacao.org.br/ Compreender que é a partir da pesquisa bibliográfica que o pesquisador passa a conhecer as teorias, que representam um conjunto de definições que contribuem na organização lógica da 81 MODALIDADES DE PESQUISA E A ELABORAÇÃO DO PROjETO DE PESQUISA • AulA 6 realidade. além disso, o pesquisador poderá selecionar conceitos que irão estruturar as construções teóricas associadas aos dados que poderá coletar e selecionar no campo. É, de fato, conhecendo as teorias, selecionando as obras e os autores, que o pesquisador construirá seu estudo, por meio da formulação de hipóteses e objetivos, e produzirá um trabalho escrito. afinal, a pesquisa bibliográfica é abrangente e a investigação do pesquisador seleciona, a partir de livros, monografias, dissertações, teses, boletins, revistas acadêmicas e diversos outros meios de comunicação, sobretudo, nos dias atuais com os meios tecnológicos e a facilidade da internet, os aspectos que lhe interessam abordar. Contudo, é preciso estar atento porque nem tudo que está disponível na internet merece crédito, sendo necessário utilizar sites de universidades, conselhos de classe, revistas científicas, enfim, aqueles sites cujas informações são de credibilidade e confiabilidade. aqui, importa-nos fazer um parêntese sobre a fonte ou base de dados, pois essas se enquadram em duas possibilidades: » Fontes primárias: são livros e artigos com textos completos ou outros tipos de documentos na íntegra, os quais apresentam suas próprias referências bibliográficas que também servirão como fonte de novas consultas primárias. » Fontes secundárias: chamada base de dados, que remetem às fontes primárias. Por exemplo, o portal da Capes (www.periodicos.capes.gov.br) que concentra grande quantidade de trabalhos, dissertações e teses, ou, por exemplo, o portal das universidades (http://acervo.ufpr.br), mas somente quando for pesquisar nos artigos e textos completos é que estará utilizando uma fonte primária. Para fazer uma busca, é preciso usar palavras-chave que tenham relação direta com o que pretende pesquisar, usando terminologia e expressões adequadas e específicas da área de estudo. Todo esse cuidado converge para a qualidade da pesquisa e para o reconhecimento da comunidade científica em relação aos resultados apresentados pelo pesquisador. Silva e Valdemarin assim se expressam sobre a pesquisa bibliográfica: “na prática de pesquisa estão presentes também as apropriações, pelo pesquisador, de bibliografia de ampla circulação mobilizada para a compreensão de um determinado tema, que por sua vez, impõe significados e direcionamentos” (2010, p.49). É uma proposição, por meio da qual as autoras comentam os significados produzidos pelos pesquisadores, bem como, os direcionamentos que são definidos com base na revisão de literatura. dessa forma, entendo ser fundamental a pesquisa bibliográfica no contexto de qualquer pesquisa. no entanto, existem pesquisas que se constituem exclusivamente da modalidade de pesquisa bibliográfica, sem nenhum outro método de pesquisa. Trata-se, portanto, de uma pesquisa bibliográfica stricto sensu, pela qual o pesquisador se aprofunda no conhecimento de determinado 82 AulA 6 • MODALIDADES DE PESQUISA E A ELABORAÇÃO DO PROjETO DE PESQUISA tema e se utiliza de uma revisão de literatura com debates e questionamentos, contribuindo para o progresso da ciência. Mas, é preciso ter foco na pesquisa para decidir os caminhos a serem percorridos na pesquisa bibliográfica, afinal existem muitas escolhas a serem feitas, e o que norteia e define a pesquisa bibliográfica é a maneira como o pesquisador formula seu ProBLeMa de pesquisa. Portanto, ter em mente uma pergunta chave para o tema a ser abordado em seu trabalho é que poderá indicar o caminho da pesquisa bibliográfica. afinal, quando o pesquisador formula um problema para o seu interesse de pesquisa não se trata de algo que pode ser facilmente respondido, pelo contrário, o problema traz um questionamento sobre o tema de pesquisa que justamente serve para conduzir a pesquisa em busca de uma resposta frente ao desconhecido. exatamente porque o pesquisador não tem informação ou conhecimento sobre a questão de seu tema é que o leva a pesquisar. Portanto, o pesquisador formula a pergunta por que não tem resposta frente a um fenômeno que observa ou experimenta. Trabalharei sobre o problema em pesquisa mais à frente, contudo, é muito importante perceber que o problema trata sempre de uma questão ainda não resolvida que merece ser objeto de debate e pesquisa. Pesquisa Documental na pesquisa documental, podemos seguir princípios que são semelhantes à pesquisa bibliográfica, uma vez que para muitas pesquisas é fundamental o conhecimento de documentos. Contudo, existe uma diferença que corresponde ao tipo de fonte que ainda não foi analisado ou que pode receber novas interpretações. Lembro, assim, que, na pesquisa documental, estamos trabalhando diretamente com as fontes, logo se trata de fontes primárias, conforme explicitei anteriormente. Considera-se pesquisa documental quando se analisam documentos, tais como: pareceres, Leis, diários de classe, provas de alunos, cadernos de exercício, arquivos de escola, discursos, diários pessoais, filmes, fotografias, enfim, informações que se originam de diferentes documentos. reforçando, esses materiais serão examinados, analisados para que sejam interpretados de uma nova forma ou complementarmente. importante, também, observar que os materiais na pesquisa documental podem ser: » materiais impressos dos mais diversos tipos e natureza, conforme escrito acima; » materiais que informam por meio de estatística; » materiais iconográficos, que são por meio do uso de imagens, registros sonoros ou audiovisuais. 83MODALIDADES DE PESQUISA E A ELABORAÇÃO DO PROjETO DE PESQUISA • AulA 6 Portanto, vale ressaltar que a pesquisa documental tanto serve para uma pesquisa quantitativa, quanto para uma pesquisa qualitativa, dependendo da forma como serão analisados os dados coletados, ou seja, o enfoque que o pesquisador dará a sua investigação. Segundo neves (1996, p.3), “esse tipo de pesquisa permite o estudo de pessoas a que temos acesso físico (distantes ou mortas). além disso, os documentos são uma fonte não reativa e extremamente propícia para o estudo de longos períodos de tempo.” a pesquisa documental passa por muitas discussões em relação às considerações de ser um levantamento, uma metodologia, uma técnica, um procedimento, no entanto é valiosa tendo em vista as observações dos autores a seguir: de qualquer forma, apesar destas diferenças e qualquer que seja o contorno conceitual adotado, a pesquisa de caráter documental apresenta potencial de assumir cada vez maior relevância, sobretudo se considerarmos o quanto rapidamente vêm crescendo a produção de dados, a diversificação dos suportes de registro, a velocidade da circulação de dados, e as próprias possibilidades de acesso aos múltiplos formatos de documentos na assim chamada era da informação. não apenas os textos, mas também fotos, vídeos, bancos de dados e vários outros tipos de documentos de origem pública ou privada estão cada vez mais disponíveis e amplamente acessíveis aos pesquisadores, apresentando-se quase sempre como “matéria prima” a ser lapidada sob múltiplos enfoques e infinitas possibilidades. (BeLTrão e nogUeira, 2011, p. 2) desse modo, afirmo que a pesquisa documental recorre a fontes que são muito diversificadas e, por vezes, mais dispersas e, ainda, sem uma análise prévia. Contudo, é inegável que os documentos representam uma fonte de dados inesgotável para as pesquisas, conforme utilizei as diretrizes oficiais, a LdB, que são documentos que podem ter diversas formas de interpretação e durante diferentes períodos. atualmente, muitos pesquisadores têm usado imagens, análise de filmes e outros recursos de documentos como fonte de dados para suas pesquisas e têm contribuído para entender e produzir novos sentidos da pesquisa em educação. Pesquisa de Campo a pesquisa de campo é toda aquela realizada com base em uma investigação in loco por parte do pesquisador. É preciso ir a campo para observar fatos e fenômenos ou intervir numa realidade, a fim de coletar dados e, posteriormente, analisar e interpretar para compreensão do problema estruturado na pesquisa. entretanto, na interpretação, é necessário relacionar esses dados com os fundamentos teóricos da pesquisa bibliográfica e/ou documental previamente realizada. 84 AulA 6 • MODALIDADES DE PESQUISA E A ELABORAÇÃO DO PROjETO DE PESQUISA nesse sentido, é bom lembrar que a pesquisa de campo também utiliza a pesquisa bibliográfica e/ou documental, porém, amplia seu procedimento buscando a coleta de dados junto a pessoas, como é o caso da pesquisa-ação. a pesquisa de campo tanto pode usar pesquisa quantitativa quanto qualitativa ou as duas. no caso de usar a pesquisa quantitativa poderá utilizar questionários para obter uma maior quantidade de dados sobre cada um dos participantes. inclusive, utilizar questionários que são preenchidos por meio de link enviado aos participantes da pesquisa, ou seja, material on line. destacam-se, assim, alguns procedimentos da pesquisa de campo que veremos a seguir. Estudo de Caso É um tipo de estudo que procura obter o aprofundamento de uma realidade ou situação específica. É realizado, principalmente, por meio da observação direta dessa realidade ou situação em estudo, ou por meio de entrevistas para ter mais detalhamento das pessoas envolvidas no processo estudado, e assim, poder analisar e interpretar tal situação ou realidade. Sobre a observação cabe destacar que é uma técnica utilizada com frequência na pesquisa de campo, cujo pesquisador observa a realidade em estudo. entendendo que esta não se realiza apenas vendo ou ouvindo a situação do campo, mas, principalmente, verificando fatos e utilizando ferramentas que serão relevantes ao estudo. Portanto, os sentidos do pesquisador são valiosos na observação para obter dados, dos quais aqueles que estão sendo observados não têm consciência suficiente, nem de seu próprio comportamento e relações. Sobre a entrevista, trata-se de um encontro entre o pesquisador e o pesquisado, a fim de obter informações a respeito de determinado assunto, cuja natureza é profissional. existe também o grupo focal, no qual o pesquisador reúne um número maior de pessoas com o mesmo propósito, obter informação. a entrevista e o grupo focal devem ser gravados, se possível com vídeo e áudio; posteriormente, o material deve ser transcrito para ser utilizado na análise e interpretação dos dados. destacam-se alguns tipos de entrevista: » entrevista estruturada: com perguntas fechadas, formuladas previamente pelo pesquisado. » entrevista semiestruturada: quando o pesquisador formula perguntas fechadas e abertas, ampliando o espaço de resposta do entrevistado. » entrevista não estruturada ou aberta: por meio de narrativas, história de vida e história oral. Atenção Procure ler sobre esses modelos de entrevista, caso se interesse em utilizá- los na sua pesquisa. 85 MODALIDADES DE PESQUISA E A ELABORAÇÃO DO PROjETO DE PESQUISA • AulA 6 na pesquisa em educação, é muito comum estudar a situação de uma escola ou de um curso específico, selecionando um grupo reduzido de pessoas para obtenção das informações. Contudo, alves-Mazzotti (2006) expressa a possibilidade de o estudo de caso ser caracterizado como múltiplo, quando um número maior de estudos é realizado concomitantemente com pessoas e instituições diferentes, ainda que no mesmo projeto, cujo objetivo pode ser obter uma comparação das realidades e situações sobre o tema em questão. de qualquer forma, o estudo de caso, seja único ou múltiplo, não deixa de cumprir sua característica de ser em estudo profundo e detalhado que amplia o conhecimento de uma situação ou realidade. alves-Mazzotti cita alguns autores que discutem o estudo de caso e aqui reproduzo suas observações baseadas em Stake (2000), que diferencia tipos de estudo de caso de acordo com suas finalidades em: intrínseco, instrumental e coletivo. Vejamos o que sintetiza alves-Mazzotti sobre cada um desses tipos definidos por Stake: no estudo de caso intrínseco busca-se melhor compreensão de um caso apenas pelo interesse despertado por aquele caso particular. no estudo de caso instrumental, ao contrário, o interesse no caso deve-se à crença de que ele poderá facilitar a compreensão de algo mais amplo, uma vez que pode servir para fornecer insights sobre um assunto ou para contestar uma generalização amplamente aceita, apresentando um caso que nela não se encaixa. no estudo de caso coletivo o pesquisador estuda conjuntamente alguns casos para investigar um dado fenômeno, podendo ser visto como um estudo instrumental estendido a vários casos. os casos individuais que se incluem no conjunto estudado podem ou não ser selecionados por manifestar alguma característica comum. eles são escolhidos porque se acredita que seu estudo permitirá melhor compreensão, ou mesmo melhor teorização, sobre um conjunto ainda maior de casos. (2006, pp. 641-641) Pesquisa-Ação apresentei na aula anterior os debates sobre pesquisa-ação no campo da pesquisa em educação. no entanto, agora, tratarei da pesquisa-ação como procedimento metodológico. a pesquisa-ação é um tipo de pesquisa empírica que está associada a uma ação e, também, busca a solução de um problema. Contudo, sua principal característica é o fato de o pesquisador e os participantes da pesquisa estarem conjuntamente envolvidos na participação e cooperação da pesquisa. 86 AulA 6 • MODALIDADES DE PESQUISA E A ELABORAÇÃO DO PROjETO DE PESQUISA É importante frisar,portanto, que a pesquisa-ação busca a transformação de uma realidade, a qual foi observada e sofreu intervenção do pesquisador e dos participantes da pesquisa. Trata-se, assim, de uma situação real, cuja pesquisa intervirá num processo de mudança social. É característico desse tipo de pesquisa a não neutralidade do pesquisador, uma vez que este é elemento de intervenção no processo de transformação social esperado. exatamente por essa característica é que muitos autores consideram controversa a pesquisa-ação, embora suas críticas não detivessem a força desse procedimento de pesquisa que tem encontrado muitos adeptos. a pesquisa-ação é uma forma de pesquisa participante, na medida em que o pesquisador se envolve com os participantes que são pesquisados. na antropologia foi muito utilizada para estudos de outros povos e etnias, a fim de que o pesquisador experimentasse o estilo de vida daquela realidade estudada. na educação, têm sido bastante comum professores que fazem uso de pesquisa-ação em suas próprias turmas ou escolas, mesmo estando diretamente vinculados aos participantes de seus estudos. Atenção ainda poderia tratar de muitos outros procedimentos de pesquisa, mas considero que tanta diversificação acaba produzindo dispersão do sentido da pesquisa em educação. além disso, a disciplina de Metodologia da Pesquisa pode ser complementar a este estudo aqui proposto, ampliando possibilidades de conhecimento sobre pesquisa e modos de fazer pesquisa. então, por que não voltar a ler o material de Metodologia da Pesquisa? Projeto de Pesquisa Chegamos, então, ao último tópico desta aula que também é a última do caderno de estudos. Mas, como diz a frase em inglês “last but not least”, ou seja, está por último, mas não é menos importante para nosso estudo. aprender sobre a produção de um projeto de pesquisa não é importante somente para a elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), mas, também, para outros projetos que podem ser produzidos na atividade docente e que gerem recursos para o pesquisador, os participantes do projeto e as escolas envolvidas. destaco aqui alguns tópicos que compõem o projeto de pesquisa e os considero não somente relevantes como aqueles que representam mais dificuldade na produção. São eles: TeMa; ProBLeMa; HiPÓTeSe e oBJeTiVoS. Vejamos: 87 MODALIDADES DE PESQUISA E A ELABORAÇÃO DO PROjETO DE PESQUISA • AulA 6 tema a escolha do tema não é uma tarefa simples, pois requer do pesquisador a dedicada reflexão dos seus interesses, o conhecimento da disponibilidade de obter dados para consulta de seu estudo, o cuidado de evitar a repetição de temas muito explorados e com pouca novidade, a coerência do tema com o propósito a que se destina (seja para conclusão de um curso, seja para concorrer um prêmio, seja para disputar uma bolsa de estudos ou outros). É possível perceber que, desde a escolha do tema, torna-se necessário explorar com leituras e levantamento bibliográfico sobre a (s) questão (ões), a(s) qual (is) o pesquisador interroga. Vamos, então, considerar cada um dos fatores comentados no parágrafo inicial para obtermos mais facilidade nesse percurso. » reflexão dos seus interesses o interesse por determinado tema é um bom ponto de partida na escolha temática de um trabalho. nada pior do que estudar sem interesse ou pesquisar sem motivação. Buscar inspiração a partir de experiências ou de indagações que já são feitas pelo pesquisador é o melhor caminho. Portanto, aproveite suas experiências pessoais e profissionais para pensar nos problemas que estão relacionados e geram questionamentos. » Conhecimento da disponibilidade de obter dados para consulta Se o pesquisador definiu um tema, mas percebe que tem muita dificuldade de material para estudar, deve pensar no plano B. afinal, de que adianta ter um tema interessante se não existe fonte de consulta ou esta é limitada ou somente disponível em outros idiomas que o pesquisador não domina?! essa é uma situação que pode se tornar motivo de resistência na pesquisa, então, o melhor é pensar em outro tema. » evitar repetição de temas eis uma situação mais comum do que possamos imaginar, pois existem os temas “da moda”, por exemplo, em educação foi recorrente o estudo da dificuldade de aprendizagem devido ao Transtorno de déficit de atenção e Hiperatividade de alunos. Contudo, muitos outros exemplos podem ser listados. o importante é perceber que mesmo em um tema recorrente, pode ser feito um recorte inovador, por exemplo, mantendo o TdaH de alunos, o pesquisador prefere articular sobre as implicações do trabalho docente em turmas multisseriadas, cujos alunos apresentem TdaH. 88 AulA 6 • MODALIDADES DE PESQUISA E A ELABORAÇÃO DO PROjETO DE PESQUISA nesse caso, o recorte delineia uma especificidade que é uma inovação do tema. Porém, se não for possível um recorte do tema recorrente pense na mudança do tema. » Coerência do tema com o propósito a coerência é relevante, pois, para alunos do curso de Pedagogia, optar por pesquisar, por exemplo, o ensino superior da língua inglesa não somente terá dificuldade como também está fora do seu alcance de atuação, conforme as ênfases do curso. investigar questões que são pertinentes ao curso de Pedagogia, desde aspectos da sala de aula até a gestão escolar é um espectro de larga amplitude. Vejamos, assim, que com toda essa abrangência não será difícil manter a coerência. Podemos, então, estabelecer alguns critérios facilitadores para a escolha do tema, por exemplo, baseando-se em: atuação profissional; experiência pessoal; frequência a eventos e seminários. Podemos, também, destacar aspectos que venham a dificultar, por exemplo, ter por base o seguinte: ineditismo; aplicação; delimitação do estudo. então: » ineditismo Quanto menos o assunto tenha sido tratado por outros pesquisadores mais certo de que será uma questão inédita a ser discutida e pesquisada, contudo, irá proporcionar mais importância ao assunto. entretanto, essa situação de ineditismo pode dificultar quando se trata de pesquisador iniciante. » aplicação não necessariamente a pesquisa terá resultados para aplicação prática, pois pode ser restrita a uma análise situacional que traz reflexões sobre a prática, mas não propõe mudanças diretas. alguns pesquisadores e centros de pesquisa necessitam de uma aplicação dos resultados, embora não seja uma exigência das pesquisas. Ter uma contribuição relevante do ponto de vista da análise e interpretação da realidade é fundamental, mas a aplicação nem sempre é possível. » delimitação do estudo delimitar a abrangência e a dimensão do estudo é muito importante. Quanto mais abrangente for o propósito de estudo mais dificuldades existirão para atingir a plenitude dos problemas em questão. 89 MODALIDADES DE PESQUISA E A ELABORAÇÃO DO PROjETO DE PESQUISA • AulA 6 Portanto, estabelecer um recorte do tema que seja de interesse do pesquisador é um grande desafio que deve ser atingido para ter a especificidade do que será tratado na pesquisa. Por fim, é muito importante que a escolha do tema seja devidamente explicada pelo pesquisador de acordo com os seguintes pontos de vista: interesse/motivação pelo tema; relevância do tema; contribuições que a pesquisa irá proporcionar. Problema o problema, como o próprio termo identifica, é a problematização do tema, de modo claro e preciso, formulado por uma pergunta. a pergunta não deve ser abrangente demais, tampouco concisa a ponto de já apontar para uma resposta ao leitor. Se o pesquisador tem uma questão sobre o tema do seu interesse, é esta pergunta que deve formular. a amplitude da pergunta quando não bem delimitada faz com que o trabalho perca o foco e dificulte toda a pesquisa. Quando a pergunta é muito restrita também dificulta, pois, não desencadeia uma perspectiva questionadora que é fundamental no processo de pesquisa, caso contrário, para quê fazer pesquisa?. em algumas pesquisas são formuladasuma ou mais perguntas, porém, apenas uma pergunta bem formulada é o suficiente para a inicialização da pesquisa. esta servirá de “bússola”, uma orientação a seguir na pesquisa e ponto de partida que norteia a exploração inicial do tema. Tudo que for realizado na pesquisa será com base nessa problematização, tal como: as escolhas teóricas, os instrumentos de coleta de dados de campo, a preparação das entrevistas e questionários quando for o caso, a análise e interpretação dos dados. dessa forma, a todo momento, durante a pesquisa, o pesquisador terá que voltar à pergunta inicial para considerar a pertinência do que está sendo feito no estudo. assim, também, evita- se a manutenção de ideias previamente concebidas que induzem ao erro da pesquisa, com o pesquisador se afastando do questionamento sobre possíveis evidências. outra preocupação importante é quanto ao tempo disponível do pesquisador para tal problema a ser investigado, pois, a medida entre tempo para pesquisa e extensão do problema a ser investigado requer um ajuste para que não inviabilize a pesquisa. no item anterior mencionei o fato do ineditismo do tema poder se tornar uma dificuldade, entretanto, a originalidade do tema não deve ser prejudicada. o que quero dizer é que trabalhar um tema do conhecimento público, no entanto, com uma problematização que gere uma abordagem original, permitirá ao pesquisador maior interesse dos leitores pelo seu trabalho. 90 AulA 6 • MODALIDADES DE PESQUISA E A ELABORAÇÃO DO PROjETO DE PESQUISA em última instância, o problema tem por finalidade buscar uma solução original para determinado tema. Para tal, é importante identificar a origem do problema, inclusive, contrapondo a proposição de outros autores o que torna original seu trabalho. Hipótese a hipótese pode-se considerar como uma possível resposta da pergunta formulada no problema, cujo resultado da pesquisa confirmará ou refutará, de acordo com as análises e interpretações feitas pelo pesquisador. Portanto, a hipótese é uma solução provisória da proposição interrogativa do problema. Logo, a hipótese é o que o pesquisador irá procurar demonstrar, diferenciando-se do que já foi demonstrado por outros pesquisadores. na hipótese devem ser expressas afirmações provisórias a respeito de determinado fenômeno em estudo, cujo problema interrogou e o pesquisador desconhece. deve ser muito bem estruturada, demonstrando leituras prévias do pesquisador e certa inquietação sobre o tema a ser abordado pela pesquisa. o pesquisador, contudo, não deve emitir sua opinião pessoal na hipótese, pois é preciso construir argumentos combinados com teorias previamente consultadas, cujo conhecimento apresente lacunas. no caso, o estudo representa uma tentativa de solucionar esta lacuna de conhecimento, buscando alternativas e procedimentos. a hipótese deve garantir que sejam verificadas as condições propostas, com consistência teórica suficiente e clara especificidade, que serão investigadas pela pesquisa. esses são critérios básicos que devem conter a afirmação expressa na hipótese. a pesquisa pode ser exploratória, mas, mesmo assim, a hipótese deverá ser formulada, para que a pesquisa alcance a confirmação ou não desta em seus resultados. a hipótese é, portanto, a formulação de uma suposição, que seja plausível sem contradições e demonstre criatividade e originalidade. Objetivos os objetivos definem o que o pesquisador pretende com a pesquisa, quais as metas a serem alcançadas que resultarão no trabalho escrito. os objetivos devem ser descritos como: o geral e os específicos. o objetivo geral descreve a pretensão do pesquisador com a investigação de maneira mais ampla. 91 MODALIDADES DE PESQUISA E A ELABORAÇÃO DO PROjETO DE PESQUISA • AulA 6 os objetivos específicos são descritos como um desmembramento do objetivo geral, com as especificidades necessárias para alcançá-lo. devem ser construídos numa lista cujos itens devem constituir proposições de forma descritiva, usando verbos que representem ação – exemplo: descrever; comparar; identificar; caracterizar etc. Cuidado Muito cuidado para não confundir uma ação que poderá ser desenvolvida na realidade investigada com uma ação da própria pesquisa que resultará em trabalho escrito. escrevo isto devido a minha experiência com muitas turmas de orientação de TCC, cujos projetos de pesquisa analisados repetiam esse equívoco. Um exemplo que pode ilustrar a situação: “conscientizar os professores sobre a necessidade de formação continuada”. o que significa? a ação de conscientização pode ser desenvolvida em um trabalho prático e o trabalho escrito apresentar os resultados dessa ação, então, o objetivo deveria ser formulado da seguinte forma: “apresentar o resultado de um trabalho de conscientização dos professores, das escolas públicas de educação infantil, sobre a necessidade de formação continuada para melhoria da prática docente”. Sintetizando observe que a ação prática pode ter sido desenvolvida na pesquisa de campo, no entanto, o objetivo é do trabalho que será escrito e, portanto, deve apresentar os resultados do trabalho de campo. Resumo nesta aula: » apresentamos as abordagens e a diferenciação da pesquisa qualitativa e da pesquisa quantitativa, destacando a relevância deste debate na pesquisa em educação que trabalha no campo das ciências humanas; » conhecemos os procedimentos mais importantes da pesquisa em educação, com as considerações teóricas, e destacamos a necessidade irrefutável da pesquisa bibliográfica; » destacamos alguns tópicos para a elaboração de um Projeto de Pesquisa, apresentando contribuições práticas que reduzem possíveis equívocos para esta produção. 92 Referências agUiar, M. a. da S.; BrZeZinSKi, i.; FreiTaS, H. C. L.; SiLVa, M. S. P. da.; Pino, i. r. diretrizes curriculares do curso de pedagogia no Brasil: disputas de projetos no campo da formação do profissional da educação. in: Educ. Soc., Campinas, vol. 27, n. 96 - especial, p. 819-842, out. 2006. aLVeS-MaZZoTTi, a. J. Usos e abusos dos estudos de caso. 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