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Estratégias de Negociação Internacional Créditos Centro Universitário Senac São Paulo – Educação Superior a Distância Diretor Regional Luiz Francisco de Assis Salgado Superintendente Universitário e de Desenvolvimento Luiz Carlos Dourado Reitor Sidney Zaganin Latorre Diretor de Graduação Eduardo Mazzaferro Ehlers Diretor de Pós-Graduação e Extensão Daniel Garcia Correa Gerentes de Desenvolvimento Claudio Luiz de Souza Silva Luciana Bon Duarte Roland Anton Zottele Sandra Regina Mattos Abreu de Freitas Coordenadora de Desenvolvimento Tecnologias Aplicadas à Educação Regina Helena Ribeiro Coordenador de Operação Educação a Distância Alcir Vilela Junior Professor Autor José Manuel Meireles de Sousa Técnica de Desenvolvimento Regina de Freitas Jardim Ferraz Coordenadoras Pedagógicas Ariádiny Carolina Brasileiro Silva Izabella Saadi Cerutti Leal Reis Nivia Pereira Maseri de Moraes Otacília da Paz Pereira Equipe de Design Educacional Alexsandra Cristiane Santos da Silva Ana Claudia Neif Sanches Yasuraoka Angélica Lúcia Kanô Anny Frida Silva Paula Cristina Yurie Takahashi Diogo Maxwell Santos Felizardo Flaviana Neri Francisco Shoiti Tanaka Gizele Laranjeira de Oliveira Sepulvida Hágara Rosa da Cunha Araújo Janandrea Nelci do Espirito Santo Jackeline Duarte Kodaira João Francisco Correia de Souza Juliana Quitério Lopez Salvaia Jussara Cristina Cubbo Kamila Harumi Sakurai Simões Katya Martinez Almeida Lilian Brito Santos Luciana Marcheze Miguel Mariana Valeria Gulin Melcon Mônica Maria Penalber de Menezes Mônica Rodrigues dos Santos Nathália Barros de Souza Santos Rivia Lima Garcia Sueli Brianezi Carvalho Thiago Martins Navarro Wallace Roberto Bernardo Equipe de Qualidade Ana Paula Pigossi Papalia Josivaldo Petronilo da Silva Katia Aparecida Nascimento Passos Coordenador Multimídia e Audiovisual Ricardo Regis Untem Equipe de Design Audiovisual Adriana Mitsue Matsuda Caio Souza Santos Camila Lazaresko Madrid Carlos Eduardo Toshiaki Kokubo Christian Ratajczyk Puig Danilo Dos Santos Netto Hugo Naoto Takizawa Ferreira Inácio de Assis Bento Nehme Karina de Morais Vaz Bonna Marcela Burgarelli Corrente Marcio Rodrigo dos Reis Renan Ferreira Alves Renata Mendes Ribeiro Thalita de Cassia Mendasoli Gavetti Thamires Lopes de Castro Vandré Luiz dos Santos Victor Giriotas Marçon William Mordoch Equipe de Design Multimídia Alexandre Lemes da Silva Cristiane Marinho de Souza Emília Correa Abreu Fernando Eduardo Castro da Silva Mayra Aoki Aniya Michel Iuiti Navarro Moreno Renan Carlos Nunes De Souza Rodrigo Benites Gonçalves da Silva Wagner Ferri Estratégias de Negociação Internacional Aula 01 Panorama da Dinâmica Global de Negócios e o Papel dos Negociadores Internacionais Objetivos Específicos • Reconhecer a dimensão, o ritmo e o papel dos negócios globais na vida do país e das empresas; distinguir a diferença entre negócios locais e internacionais; identificar os desafios de internacionalização das empresas brasileiras. Temas Introdução 1 Globalização dos negócios internacionais 2 A internacionalização da economia brasileira 3 O papel das empresas no processo de inserção internacional do país 4 Reflexos da internacionalização dentro das organizações Considerações finais Referências José Manuel Meireles de Sousa Professor Autor Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 2 Introdução A negociação faz parte da condição humana, no entanto acontece somente quando não existe um acordo prévio entre as partes. Na compra de um automóvel, por exemplo, existem vários aspectos que são objeto de negociação: valor, acessórios, condições de pagamento e muitos mais. Já na compra de uma passagem em transporte público, o viajante não negocia o preço e aceita o valor predeterminado. Em supermercados, por sua vez, a compra de um pacote de açúcar não é negociada de forma explícita pelo cliente, porém ele pode preterir uma marca em função de outra – eventualmente, com o mesmo preço de venda –, o que também torna a negociação implícita no processo de decisão de compra. Em mercados internacionais, todos os produtos são objeto de negociações, pois mesmo aqueles que são comprados sem negociação (a maioria das commodities tem preços fixados pela Bolsa de Valores) necessitam percorrer distâncias longas, transpor barreiras (como as alfândegas) e utilizar instituições financeiras nas quais circularão os fluxos financeiros correspondentes aos pagamentos ou recebimentos. As negociações internacionais são parte integrante do processo de comércio internacional, que, por sua vez, depende de procedimentos específicos, regulamentados pelos diferentes países intervenientes nas importações ou nas exportações. Conhecer a situação real de cada país nos permite entender as dificuldades das empresas exportadoras ou importadoras em processos de negociação internacional. Nesta aula, analisaremos a situação econômica internacional e como as características da nova economia podem afetar as estratégias empresariais. Daremos particular ênfase à situação do Brasil e das empresas nacionais, apresentando posturas que deverão ser adotadas pelas empresas brasileiras em épocas de globalização de mercados e de aumento da concorrência estrangeira. Bons estudos! 1 Globalização dos negócios internacionais O mundo em que vivemos se caracteriza por ininterruptas mudanças ambientais e mercadológicas. A situação vivida hoje seguramente será diferente amanhã, em função de algum evento ocorrido em qualquer parte do globo. O desenvolvimento das novas tecnologias de informação e de comunicação diminuiu a distância entre países e empresas; essa é a realidade da globalização, que se reflete na sociedade e nas empresas brasileiras. Para garantir a sobrevivência, elas devem adaptar-se constantemente ao novo ambiente global. A globalização da economia aumenta a proximidade entre empresas e – em conjunto com o desenvolvimento das novas tecnologias de informação e de comunicação – torna o relacionamento no mundo dos negócios aparentemente mais fácil, pois permite que empresas de qualquer parte do globo negociem em qualquer país. No entanto, as diferenças culturais dificultam essa aproximação: idiomas, ideologias, sistemas políticos, tradições, costumes e Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 3 estruturas socioeconômicas específicas impactam nas negociações internacionais, levando empresas e executivos a adaptarem-se à nova realidade mercadológica para garantir o sucesso empresarial. A perfeita absorção de normas e valores culturais dos povos amplia o universo das negociações integrativas, expandindo as possibilidades de satisfação das várias partes envolvidas no processo, e levando, por consequência, ao ganha-ganha (MARTINELLI; VENTURA; MACHADO, 2007, p. 11). O aumento da liberalização das economias – consequência do processo de globalização – tem impulsionado os fluxos do comércio internacional. As transações internacionais de produtos e serviços têm aumentado a riqueza mundial a taxas muito superiores, conforme apresentado na tabela a seguir. Os produtos acabados são elaborados com insumos e componentes de várias origens e vendidos em qualquer país; as restrições ao comércio internacional têm diminuído e a participação nas cadeias globais de valor (CGV) tem aumentado a sua importância no desenvolvimento econômico, impulsionando as negociações entre empresas de diferentes países. Tabela 1 – Internacionalização das economias (1970 – 2014) Anos US $ Trilhões correntes Relações Produto Global Comércio Mundial (exportações + importações) (a) Mercadorias (b) Mercadorias + Serviços (c ) b/a c/a 1970 3,3 0,6 0,7 18% 21% 1980 11,2 2,6 3,0 23% 27% 1990 21,8 6,8 8,6 31% 39% 2001 32,4 12,9 16,2 40% 50% 2005 55,0 20,4 25,4 37% 46% 2008 60,5 32,5 39,6 54% 65% 2009 57,3 24,3 30,9 42% 54% 2010 62,2 29,8 37,2 48%60% 2011 69,7 36,2 44,5 52% 64% 2012 72,2 36,1 44,7 50% 62% 2013 74,3 37,0 47,1 50% 63% 2014 77,6 37,9 47,6 48% 62% Fonte: WTO (2015) e IMF (2015). A difusão global das cadeias de valor internacionaliza a produção de componentes e produtos acabados. As principais protagonistas dessa disseminação produtiva são as grandes corporações, que atuam em todo o planeta. No entanto, as pequenas e médias empresas passam a conquistar um espaço gradualmente representativo, graças ao constante desenvolvimento da tecnologia e da comunicação (STOECKICHT; MALLMAN, 2014, p. 24). Nesse cenário, é evidente a colaboração e a cooperação estreita entre os mercados, abrindo um espaço importante para o estudo e a divulgação das técnicas da negociação internacional. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 4 Saiba mais sobre negociações distributivas e integrativas e sobre a importância das cadeias globais de valor no comércio internacional através da leitura do material disponível na Midiateca. 2 A internacionalização da economia brasileira Negociações internacionais não envolvem somente a compra e venda de produtos ou de serviços, pois estão presentes em várias etapas. Para ser cumprido, o fechamento dos contratos de compra e venda precisa que as mercadorias percorram grandes distâncias – normalmente superiores às que percorrem nos mercados internos – e, por isso, é preciso negociar transportes e seguros internacionais. Como as mercadorias devem transpor as fronteiras, faz-se necessário proceder aos despachos aduaneiros, contratando pessoal especializado, além de receber ou pagar as mercadorias transacionadas, negociando com as instituições financeiras condições de pagamento e de câmbio. A complexidade das negociações aumenta com a complexidade dos produtos; enquanto é fácil caracterizar o produto em negócios de soja (commodity), negócios de hardware informático carecem de maior detalhamento e de outro tipo de abordagem em processos de negociação. Nesse contexto, concluímos que a complexidade das negociações internacionais aumenta com o valor agregado dos produtos. No passado recente, o Brasil registrou uma pequena participação nas cadeias globais de valor, e as exportações têm perdido participação no total exportado em favor de produtos com menor valor agregado, conforme é possível verificar nos gráficos a seguir. Gráficos 1 e 2 – Comércio exterior brasileiro (corrente de comércio e matriz exportadora) Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 5 Fonte: Brasil (2015a, p. 4-6). 2.1 Plano Nacional de Exportações Dado que a maioria de produtos de menor valor agregado – nomeadamente os agrícolas – é exportada por empresas comerciais exportadoras estrangeiras que atuam no Brasil, o país tem se tornado um fornecedor de riqueza. Assim, o setor externo da economia não tem contribuído, de forma objetiva, para o crescimento do país, o que tem levando muitas empresas brasileiras a se deixarem comprar (seus produtos) e não a negociar proativamente. A falta de agregação de valor aos produtos exportados tem contribuído para a reduzida participação do Brasil no comércio internacional. Uma maior presença das empresas brasileiras nas correntes de comércio global (soma de importações mais exportações) contribuirá para a maior participação do Brasil nas cadeias globais de valor, o que é um aspecto imprescindível ao desenvolvimento do país. Políticas de desenvolvimento baseadas nesse princípio obedecem a outros determinantes que não as vantagens comparativas e podem levar o comércio internacional a representar uma parcela expressiva dos fluxos globais de comércio. No Brasil, a preocupação com a participação do país nas cadeias globais de valor é constatada com a recente divulgação do Plano Nacional de Exportações (2015-2018), ao determinar que maior atenção será dada às empresas exportadoras que agregam maior valor aos produtos exportados. O Plano contempla e valoriza todos os setores econômicos e categorias produtivas, vislumbrando tanto o fortalecimento das exportações de produtos básicos como a revitalização das exportações de produtos industrializados. Em ambos os casos, busca encorajar a agregação de valor e de intensidade tecnológica nas exportações do País. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 6 Além disso, o Plano apoia e estimula a crescente dimensão e importância do setor de serviços no comércio exterior brasileiro. O Plano Nacional de Exportações também reconhece o papel relevante das importações à luz do cenário atual de fragmentação da produção mundial (o que se convencionou chamar de “cadeias de valor”) e da necessidade de acesso a insumos estratégicos essenciais para a competitividade da produção e da exportação dos bens e dos serviços brasileiros. (BRASIL, 2015a, p. 3). O comércio internacional é um processo de mão dupla e o aumento de participação do Brasil nas cadeias globais de valor também depende do aumento de importações, em especial as que estão mais relacionadas ao desenvolvimento, como é o caso de máquinas, equipamentos, fertilizantes etc. 2.2 Empresas e importações brasileiras Nos últimos anos e com exceção do ano atípico de 2009, o comportamento das importações tem acompanhado o aumento do número de empresas. Já o valor médio importado em 2005 foi de 3,25 milhões de dólares e, em 2014, de US$ 5,16 milhões. Nesse período, não só o número de empresas cresceu 96%, como o valor médio importado por empresa teve um crescimento 58,7%. Nos últimos 10 anos – e ao contrário das exportações –, a atividade importadora aumentou significativamente. As razões para esse aumento foram, entre outras, o aumento do poder de compra, que, favorecendo classes de menor renda, impulsionou as importações de produtos com menor preço e uma taxa de câmbio favorável, por vezes mantida com recurso à intervenção do Banco Central no mercado cambial. Gráfico 3 – Empresas e importações brasileiras Fonte: Brasil (2015b). Um aumento da renda das classes mais desfavorecidas atrai não somente as empresas nacionais, mas também as estrangeiras que vendem produtos baratos (por exemplo, as empresas chinesas), pois nesse segmento de mercado o preço é o principal fator de competitividade. Para sobreviverem, as empresas nacionais que persistirem em concorrer com empresas estrangeiras de baixo preço devem aumentar a sua eficiência e reduzir as margens de comercialização. Em uma situação limite, se a empresa nacional não puder competir com Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 7 os preços dos produtos importados, deverá negociar seus produtos em mercados externos que sejam mais sensíveis à qualidade ofertada, que, em regra, é superior à qualidade dos produtos importados de baixo preço. 3 O papel das empresas no processo de inserção internacional do país Os países buscam processos de integração, formando blocos econômicos e comerciais que facilitem as operações comerciais e aumentem a competitividade empresarial. As empresas são a força motriz do mundo: empregando, agregando valor, viabilizando inovações ou mesmo possibilitando a concretização de ambições pessoais ou profissionais. É pela dinâmica empresarial que as economias se internacionalizam e que os governos estabelecem regras, celebram acordos comerciais com outros países ou blocos econômicos e implantam programas de benefícios que objetivam dinamizar a internacionalização. Cabe às empresas aproveitar esses incentivos e promover o comércio exterior. As empresas internacionalizam-se pelo interesse por mercados externos e pela exposição de sua marca em nível global, tudo graças ao aparecimento de redes integradas e alianças estratégicas proporcionadas pela estupenda base tecnológica verificada atualmente (STOECKICHT; MALLMAN, 2014). A maneira de atuar das empresas em um contexto global vemsofrendo grandes alterações em função de vários aspectos que caracterizam o novo mercado internacional. Entre os diversos tipos de empresas internacionais, podemos perceber um modelo de transição nas atividades das empresas, o qual se caracterizaria por alguns aspectos básicos, tais como os indicados por Martinelli, Ventura e Machado (2007). Figura 1 – Aspectos básicos para atuação internacional Fonte: Adaptada de Martinelli, Ventura e Machado (2007, p. 20). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 8 Nesse sentido, destacam-se a formação de redes de empresas sob a forma de franquias, joint ventures ou outras formas, além da necessidade de criação de uma cultura de internacionalidade. Sem relacionamento, sem cultura adaptada aos novos mercados e nem desenvolvimento de executivos, dificilmente as empresas poderão aproveitar os benefícios da internacionalização. As vantagens da internacionalização empresarial estão expressas no projeto “Ranking FDC das transnacionais brasileiras 2012” (FDC, 2012, p. 14). As principais são: • aumento do valor da marca pela presença internacional; • capacidade ampliada de atendimento a clientes globais; • diferenciação perante concorrentes domésticos ou menos internacionalizados; • melhoria da imagem da empresa no mercado doméstico. De acordo com o mesmo projeto, o principal benefício do processo de internacionalização para o Brasil – segundo a opinião de 87,3% das empresas participantes – é a melhoria da imagem do Brasil no exterior e a consolidação da marca Brasil. A questão que se coloca é: se as grandes empresas transnacionais se beneficiam com a internacionalização, por que tal benefício não é usufruído pelas empresas de pequena dimensão? O tecido empresarial brasileiro, em 2014, era constituído majoritariamente por empresas de pequena dimensão, pois 99% são micro e pequenas empresas (MPEs) – que contribuíram com cerca de 27% no PIB, mas responderam somente por 0,87% das exportações brasileiras. Já no ano seguinte, as grandes empresas contribuíram com 95% do total exportado (SEBRAE- SP, 2015). Essa distorção estrutural tem criado dificuldades, fazendo com que muitas empresas de pequena dimensão não participem proativamente dos mercados internacionais, deleguem exportações a terceiros (empresas comerciais exportadoras) e, consequentemente, não usufruam dos benefícios da internacionalização. As pequenas empresas podem ser competitivas, inclusive a nível internacional, se inseridas em redes flexíveis. São exemplos dessa afirmação os consórcios da região italiana da Emilia Romagna (CASAROTTO FILHO et al., 1998, p. 1), ou o setor têxtil-confecção de Santa Catarina, com forte presença de micro e pequenas empresas e com crescente participação no mercado internacional. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 9 O Plano Nacional de Exportações (2015-2018) procura corrigir a deficiente contribuição das micro e pequenas empresas ao identificar, como diretriz horizontal prioritária, o fortalecimento do papel desempenhado por micro, pequenas e médias empresas, reconhecidas como atores essenciais do comércio exterior e vetores imprescindíveis para a ampliação e a diversificação das exportações brasileiras (BRASIL, 2015a, p. 3). Saiba mais sobre os benefícios da internacionalização para as empresas e para o Brasil consultando o material disponível na Midiateca. 4 Reflexos da internacionalização dentro das organizações O desenvolvimento empresarial pela internacionalização só é possível se forem cultivados pelo empresário e seus colaboradores os seguintes aspectos: Quadro 1 – Desenvolvimento da internacionalização Cultura de internacionalidade Não existe internacionalização sem cultura de internacionalidade, isto é, a criação de uma cultura na empresa que respeite as diferenças de valores é vital ao desenvolvimento dos negócios internacionais. Todas as culturas são diferentes e evoluem através dos intercâmbios entre pessoas e países (MARTINELLI; VENTURA; MACHADO, 2007 p. 24), e as empresas, para se relacionarem, precisam respeitar as diferenças culturais existentes. Sem cultura de internacionalidade, dificilmente uma empresa conseguirá ter sucesso em operações no mercado exterior. Uma empresa tem cultura internacional quando entende e se adapta facilmente às diferenças culturais de qualquer mercado, independentemente da sua localização geográfica (FIGUEIRA; MELO, 2015, p. 115). Criação de espaço na mente do consumidor Para que um consumidor repita conscientemente a compra de determinado produto, é necessário que o identifique para poder diferenciá-lo. A criação de espaço na mente do consumidor é resultado do posicionamento do produto ou da empresa. Em mercados internacionais, os produtos podem ter um apelo global em virtude do seu país de origem (KEEGAN, 2006, p. 168). Exemplos: carne argentina, café colombiano, ternos italianos ou perfumes franceses. Controle dos produtos até a chegada aos consumidores Somente por meio do controle de seus produtos até o mercado as empresas podem conhecer os seus consumidores, agregando valor e possibilitando o seu desenvolvimento. Empresas que vendem seus produtos a intermediários, sem conhecer os verdadeiros consumidores, dificilmente acompanharão tendências de consumo. Empresas com cultura de internacionalidade aceitam diferenças, relacionam-se mais facilmente e, por consequência, adaptam-se mais rapidamente às mudanças, diminuem os conflitos e aumentam a produtividade. Ao fortalecerem as imagens de produtos e da empresa na mente de consumidores estrangeiros, fortalecem a sua marca no mercado interno; ao conhecerem quem consome seus produtos no estrangeiro, mais facilmente detectam tendências que podem ser interiorizadas como vantagens competitivas. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 10 Empresas de sucesso, em processos de internacionalização, têm as seguintes características: • Quando exportam, vendem negociando os produtos; não se deixam comprar. • Quando exportam, vão mais longe nas cadeias produtivas, agregando valor aos produtos exportados. • Quando exportam, controlam os seus produtos até os mercados consumidores; conhecem quem consome seus produtos. • Quando importam, contratam as compras de produtos, negociando com exportadores; entendem e acompanham diretamente todo o processo de aquisição, negociando com operadores logísticos, agentes aduaneiros, instituições financeiras e seguradoras. • Entendem os riscos das operações de comércio internacional e sabem como minimizá-los. • Consideram-se empresas internacionais e não empresas exportadoras ou importadoras. Essa dinâmica empresarial requer executivos com profundo conhecimento da dinâmica da globalização e seus impactos na condução dos negócios internacionais. De forma mais específica, o negociador internacional precisa da curiosidade para identificar oportunidades no mercado global, da coragem para caçar o novo em terras estranhas, deve conservar a simplicidade à sua volta, estar ciente da importância do papel que os fatores culturais desempenham nas negociações internacionais e entender que a adaptação às diferentes culturas é o que permeia o processo da negociação (STOECKICHT; MALLMAN, 2014). Considerações finais O comércio internacional vai além das operações de exportação e de importação, pois requer técnicas específicas nas negociações internacionais, estudo das estratégias mais apropriadas à entrada em novos mercados, conhecimento dos riscos envolvidos nas transações e formas de minimizá-los e conhecimento das formas de pagamento mais usuais em operações. O processo de compra ou de venda de mercadorias no exterior começa com as negociações entre as partes – exportador e importador. Para o exportador, termina quando compradores estrangeiros tomam posse das mercadorias; já para os importadores, quando asmercadorias chegam às suas instalações. Quando um exportador negocia um preço de venda, o importador está avaliando o custo desse produto no destino final. Conhecer as funções executadas pelos atores intervenientes nos processos de comércio exterior, sejam públicos ou privados, é fundamental. Porém, não menos importante é conhecer a situação do comércio exterior do país, identificando suas forças e fraquezas, para que medidas corretivas possam ser tomadas sempre que necessário, visando a fortalecer o poder dos negociadores e ter maior segurança nas operações. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 11 Nesta aula, analisamos o papel das empresas na internacionalização da economia e os impactos das estratégias de internacionalização no gerenciamento das empresas. Também foram ressaltadas as condições mínimas para que empresas em processos de internacionalização possam garantir o sucesso: cultura internacional, posicionamento correto da empresa e do produto, controle das operações (exportações ou importações) e o papel fundamental desempenhado pelos negociadores internacionais na busca por oportunidades e na concretização das operações de comércio internacional. Referências BRASIL. Ministério de Desenvolvimento e Comércio Exterior (MDIC). Plano Nacional de Exportações (2015-2018). 2015a. Disponível em: <http://www.mdic.gov.br//arquivos/ dwnl_1435240866.pdf>. Acesso em: 10 set. 2015. _____. Ministério de Desenvolvimento e Comércio Exterior (MDIC). Outras estatísticas de Comércio Exterior. 2015b. Disponível em: <http://www.mdic.gov.br//sitio/interna/interna. php?area=5&menu=608>. Acesso em: 10 set. 2015. CASAROTTO FILHO, Nelson et al. Redes de pequenas empresas: as vantagens competitivas na cadeia de valor. 1998. Disponível em: <http://www.abepro.org.br/biblioteca/ENEGEP1998_ ART199.pdf>. Acesso em: 29 set. 2015. FIGUEIRA, Ariane Roder; MELLO, Renato Cotta (Org.). Negócios Internacionais: perspectivas brasileiras. Rio de Janeiro: Elservier, 2015. FUNDAÇÃO DOM CABRAL (FDC). Ranking FDC das transnacionais brasileiras 2012: os benefícios da internacionalização. Disponível em: <http://acervo.ci.fdc.org.br/AcervoDigital/ Relat%C3%B3rios%20de%20Pesquisa/Relat%C3%B3rio%20de%20Pesquisa%202012/ Ranking%20das%20Transnacionais%202012.pdf>. Acesso em: 29 set. 2015. INTERNATIONAL MONETARY FUND (IMF). IMF Data Mapper. Disponível em: <http://www.imf. org/external/datamapper/index.php>. Acesso em: 29 set. 2015. KEEGAN, Warren J. Marketing Global. 7. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2006. MARTINELLI, Dante Pinheiro; VENTURA, Carla A. A.; MACHADO, Juliano R. Negociação internacional. São Paulo: Atlas, 2007. NONNENBERG, Marcelo José Braga. Participação em cadeias globais de valor e desenvolvimento econômico. Boletim de Economia e Política Internacional (BEPI), Rio de Janeiro, n. 17, maio/ ago. 2014. Disponível em: <http://www10.iadb.org/intal/intalcdi/PE/2014/14828.pdf>. Acesso em: 10 set. 2015. SEBRAE-SP. Pequenos negócios em números. 2015. Disponível em: <http://www.sebraesp.com. br/index.php/234-uncategorised/institucional/pesquisas-sobre-micro-e-pequenas-empresas- paulistas/micro-e-pequenas-empresas-em-numeros> Acesso em: 10 set. 2015. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 12 SOUZA JUNIOR, Jair Fábio; CARIO, Silvio Antonio Ferraz; FERNANDES, Ricardo Lopes. Avaliação da participação das micro e pequenas empresas (MPEs) do segmento de confecções de Santa Catarina no mercado externo: caracterização, vantagens e dificuldades de inserção. A Economia em Revista, Maringá-PR, v. 19, n. 2, dez. 2011. Disponível em: <http://periodicos.uem.br/ojs/ index.php/EconRev/article/download/12739/9516>. Acesso em: 10 set. 2015. STOECKICHT, Ingrid Paola; MALLMAN Dorval Olivio. Negociação internacional. São Paulo: FGV, 2014. WORLD TRADE ORGANIZATION (WTO). Statistics database. Disponível em: <http://stat.wto. org/Home/WSDBHome.aspx>. Acesso em: 10 set. 2015. Estratégias de Negociação Internacional Aula 02 O Papel dos Negociadores Objetivos Específicos • Compreender a importância da ação das pessoas na condução dos negócios internacionais; reconhecer que há diferentes estilos de negociadores e que essa diversidade está ligada a fatores pessoais e culturais; diferenciar o comportamento dos brasileiros em comparação a outras culturas; determinar as habilidades, os conhecimentos e as atitudes que compõem o perfil de um negociador de classe mundial. Temas Introdução 1 Princípios gerais das negociações 2 Estilos de negociadores 3 O executivo brasileiro 4 Competências do negociador internacional Considerações finais Referências José Manuel Meireles de Sousa Professor Autor Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 2 Introdução As negociações são realizadas entre pessoas representando empresas. Conhecer o papel e os estilos dos negociadores é etapa fundamental para o entendimento do processo de negociação internacional. Nesta aula, analisaremos os princípios gerais das negociações, com especial ênfase para a noção de valor criada pela negociação. Além disso, a diferença entre negociações distributivas e integrativas será estudada como subsídio para o entendimento do processo de negociação internacional. Na sequência, identificaremos os principais estilos dos negociadores e caracterizaremos os traços de perfil de cada estilo. Finalmente, serão descritas as competências que devem ser desenvolvidas pelo negociador internacional. Bons estudos! 1 Princípios gerais das negociações Negociar é um processo de comunicação interpessoal que precisa de estudo e observação continuada por parte dos negociadores. Em processos de negociação, as partes têm como objetivo chegar a um consenso. A globalização tem levado as empresas a interagirem, negociando em mercados internacionais, fato que se reflete na necessidade de as empresas desenvolverem uma cultura corporativa com perspectiva intercultural. O processo de negociação internacional é complexo, pois envolve pessoas, comportamentos e técnicas; é fundamentalmente um procedimento de comunicação interpessoal, que engloba observação e estudo continuado (SOUSA, 2014, p. 51). A característica diferencial do processo de negociação internacional refere-se à sua exclusividade, ou seja, cada negociação é diferente de qualquer outra, mesmo que feita entre as mesmas pessoas e relacionada aos mesmos produtos. Também pelas suas características de temporalidade e de maior distanciamento físico entre negociadores, as negociações internacionais devem contribuir para agregar valor de forma sustentável a todos os intervenientes, ou seja, todos devem ganhar com a negociação, pois, se um perder, nenhum ganhará. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 3 Figura 1 – A agregação de valor de forma sustentável Embora as negociações internacionais ocorram no âmbito das organizações, quem efetivamente está negociando são pessoas. Uma tipificação das modalidades de negociação entre distributivas e integrativas permite alinhar os diferentes estilos de negociadores e auxilia na escolha de estratégias mais eficientes em negociações internacionais. • Distributivas – quando a ideia é extrair o máximo da outra parte, uma vez que o tamanho do “bolo” é fixo. Nesse tipo de transação, uma parte evita passar informações para a outra parte, para que esta não possa se aproveitar disso. • Integrativas – quando há cooperação ou junção de forças das partes para a obtenção de um negócio que seja bom para ambas. O “bolo”, nesse caso, expande-se. Esse tipo de negociação envolve uma parcela maior de confiança mútua e a construção de uma relação duradoura. Muitos negociadores insistem na utilização de métodos agressivos como forma de obter vantagem, acreditando que só ganharão se outros perderem. No entanto, essa prática pode levar a situaçõesde manipulação e, consequentemente, à perda de credibilidade. Em negociações internacionais, existe consenso sobre a superioridade da abordagem integrativa; o problema que se coloca é: como utilizar esse tipo de negociação e, ao mesmo tempo, apropriar-se do valor criado (STOECKICHT; MALLMAN, 2014, p. 45). Acesse a Midiateca desta aula e saiba mais sobre criação de valor em negociações. 1.1 Negociações distributivas Em negociações distributivas, o principal objetivo é a apropriação de valor. Segundo Stoeckicht e Mallman (2014, p. 46), nesse tipo de negociação, devem ser seguidos os seguintes passos: Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 4 • Definição de objetivos – o negociador não deve limitar nem restringir possíveis alternativas. • Busca de alternativas para atingir objetivos – definição de possíveis estratégias para atingir os objetivos. • Definição da melhor alternativa à negociação de um acordo (MAANA) – caso a negociação não se concretize, a empresa deverá aceitar uma solução não negociada. • Melhorar sua alternativa em caso de não acordo (MACNA) – quanto melhor for a alternativa à não efetivação do acordo, mais força o negociador terá no processo de negociação. • Determinar as condições ideais que pretende alcançar, ou seja, delimitar a zona de acordo possível (ZAP) – faixa dentro da qual se pode chegar a um consenso que satisfaça a ambas as partes. O conjunto de acordos capazes de agradar aos dois lados. • Determinar o preço de reserva, que é o menor ponto favorável em que o acordo será aceito. É semelhante ao MAANA quando o que está em jogo é somente “dinheiro”, mas pode ser inferior se está em jogo, por exemplo, a entrada em determinado mercado. Figura 2 – Negociações distributivas 1.2 Negociações integrativas Em negociações integrativas, todas as partes ganham; a criação de valor abrange todos os interessados no processo. De acordo com Stoeckicht e Mallman (2014, p. 47), os princípios fundamentais da negociação integrativa são: Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 5 • Separar as pessoas dos problemas – as negociações não devem ser um campo de batalha em que um sai derrotado; o sucesso no processo de negociação internacional é obtido quando todos saem vitoriosos. Para isso, a negociação comercial não deve ser tratada como uma questão pessoal, mas como uma solução de problemas organizacionais. • Concentrar-se nos interesses e não nas posições – as posições são as afirmações feitas no decorrer do processo, enquanto que os interesses são os objetivos do negociador. Quando negociadores se prendem a posições intermediárias, podem deixar escapar o principal objetivo da negociação. • Desenvolver ações de ganhos múltiplos – as negociações integrativas visam a criar valor para todos os intervenientes. Para isso, as pequenas conquistas conseguidas no decorrer do processo devem ser assimiladas por todos e exploradas para se encontrar novas oportunidades de geração de valor no decorrer da negociação. Figura 3 – Negociações integrativas 2 Estilos de negociadores 2.1 Metodologia TKI As negociações são condicionadas pela divergência de atitudes entre negociadores. Uma análise do estilo de negociadores auxilia na compreensão dos processos de negociação e pode ser realizada aplicando a metodologia TKI (Instrumento de modo conflito Thomas- Kilmann), que avalia o comportamento do indivíduo em situações de não compatibilidade de opinião, relacionando duas dimensões básicas. • Assertividade – medida pelo grau em que o indivíduo tenta satisfazer às suas próprias preocupações. • Cooperação – medida pelo grau em que o indivíduo tenta satisfazer às preocupações da outra pessoa. Com base nessas dimensões, Kenneth Thomas e Ralph Kilmann definem cinco métodos de lidar com o conflito (apud SAMPLE, 2008, p. 2): Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 6 Gráfico 1 – Estilos de negociadores Fonte: Adaptado de Sample (2008, p. 2). • Competitivo – tem opiniões assertivas, mas não gosta de colaborar. Prefere negociações distributivas; defende veementemente suas posições e sente-se vitorioso quando os outros perdem a negociação. • Colaborativo – é assertivo e cooperativo; emite muitas opiniões e admite discutir opiniões diferentes da sua. Prioriza satisfazer às necessidades dos outros negociadores, buscando soluções do tipo ganha-ganha. É criativo nas soluções que propõe, sabe ouvir e procura criar um ambiente de confiança. • Comprometido – não é excessivamente assertivo nem cooperativo; procura soluções que estejam alinhadas aos seus objetivos, mas contenta-se com meias-vitórias, abrindo mão de algumas condições para obter algo em troca. Quando o cenário fica complicado, não luta por ideias radicais, contemporiza assumindo posturas intermediárias entre ganhar e perder. • Esquivo – não coopera nem é assertivo, evitando assuntos polêmicos e, por vezes, a própria negociação. Não gosta de controvérsias, prefere negociações fáceis, adiando negociações difíceis até o limite. • Acomodado – é cooperativo, mas não é assertivo; tem por objetivo encontrar uma solução conveniente, mutuamente aceitável. Concentra-se nos interesses da outra parte; evita situações conflitantes, procura manter diálogos harmoniosos e preserva a relação no desfecho da negociação. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 7 2.2 Metodologia Sebrae Em outra metodologia, o Sebrae tipifica os estilos do negociador em quatro categorias: Persuasivo, Afirmativo, de Ligação e de Atração. Para cada categoria, é possível deduzir comportamentos típicos e extremos (SEBRAE, 2001). Quadro 1 – Estilos de negociação segundo o Sebrae Estilos Conceitos Comportamentos típicos Comportamentos extremos Persuasão Levar os outros a aceitar a sua ideia - Fazer propostas e sugestões - Argumentar, raciocinar e justificar Dispersão: - Propostas apresentadas e não defendidas - Argumentos sucessíveis em levar às propostas tangíveis Afirmação Impor e julgar o outro - Fazer conhecer exigências e normas - Expor seu ponto de vista e seus desejos - Avaliar os outros e a si mesmo - Punir, recompensar e conceder Tirania: - Excesso de pressão sem manifestação clara de expectativas - Uso indiscriminado do poder de posição Ligação Compreender o quadro de referência do outro - Encorajar a participação do outro - Procurar pontos de acordo - Escutar com empatia Indecisão: - Apoiar ou escutar o outro com um fim em si mesmo - Reformulações constantes de propostas Atração Abrir-se ao outro, procurando envolvê-lo - Influenciar o outro pelo seu próprio comportamento - Seduzir, motivar o outro, elevar o moral - Partilhar informações - Reconhecer os próprios erros Falsidade: - Reconhecer falhas e dúvidas inexistentes - Uso excessivo do poder pessoal Fonte: Sebrae (2001). Não existem estilos bons ou ruins. Em certas situações, o negociador deve assumir uma postura diferente de outras assumidas, pois o uso em excesso de qualquer uma pode ser prejudicial (STOECKICHT; MALLMAN, 2014 p. 51). Para saber mais sobre uso de posturas em negociação e estilos de negociação, faça a leitura das páginas 52 a 57 do livro de Ingrid P. Stoeckicht e Dorval O. Mallman, intitulado Negociação Internacional. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 8 3 O executivo brasileiro Qualquer empresa deverá ter, como objetivo, estar presente no mercado global. A diferenciação entre mercado interno e mercado externo pode se tornar uma armadilha no crescimento empresarial, pois, da mesma forma que qualquer empresa de qualquer país pode investir no Brasil e se tornar uma empresa brasileira, qualquer empresa brasileira pode investir em qualquer país do mundo. Essa realidade distorce a distinção entre executivos com base na sua nacionalidade.Por outro lado, como a cultura prevalecente impacta no comportamento, nas crenças, nas normas e nos valores dos executivos, condicionando as suas ações, é normal que empresários de organizações brasileiras tendam a atuar no contexto da cultura empresarial vivenciada no país. Quando analisamos o contexto cultural dos países em que ocorrem negócios, podemos constatar a existência de diferenças superficiais, visíveis e de fácil adaptação, como é o caso do modo de vestir, da etiqueta, alimentação, dos horários de trabalho, entre outras. Contudo, algumas diferenças não são perceptíveis, mas impactam fortemente no dia a dia do executivo. Entre elas, será importante analisar o significado da hierarquia e a relação com o processo decisório, o grau de importância das reuniões de trabalho ou o nível de formalidade nas relações de trabalho. Para entender a imagem do executivo brasileiro no atual contexto cultural, algumas reflexões devem ser feitas: • No Brasil, as pessoas são mais valorizadas pelo que são do que pelo que fazem; a titulação é importante e fortalece a imagem. • Os executivos brasileiros mostram ter confiança em si, são carismáticos, de boa falácia, são eloquentes e espirituosos. • O executivo brasileiro tem forte noção de hierarquia, é concentrador de poder e as diferenças são bem aceitas no meio empresarial. • As relações pessoais são priorizadas e, para os executivos brasileiros, as pessoas têm prioridade em relação às instituições e aos regulamentos. Segundo Kottak (1995 apud RIBEIRO, 2008, p. 80), os brasileiros – por terem uma vida menos baseada em resultados, tempo, medidas e comparações – podem ter uma vida mais relaxada e menos estressante se comparada ao estilo norte-americano. Assim, o estilo menos competitivo e agressivo dos brasileiros pode contribuir para um estilo de negociação mais cooperativo e com maior troca de informações, aumentando as chances de conduzirem negociações integrativas. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 9 4 Competências do negociador internacional O negociador internacional, atuando muitas vezes de forma solitária, deve ser essencialmente um empreendedor, conhecedor dos órgãos e das empresas que compõem a estrutura do comércio exterior brasileiro, bem como da regulamentação e dos procedimentos operacionais que condicionam as operações de importação e de exportação (SOUSA, 2014, p. 6). Também deve entender as regras internas dos países onde negocia, as regulamentações internacionais e os acordos multilaterais e bilaterais entre o Brasil e a região onde a empresa que representa atuará. Como empreendedor, o negociador deve desenvolver capacidades que possibilitem entender e se adaptar mais facilmente às diferentes culturas das empresas com que negocia. Quadro 2 – Capacidades do empreendedor internacional Um empreendedor internacional deve... Compreender As diferenças sociais, culturais, legais, tecnológicas, de comportamento de compra e estilos de venda existentes entre os diferentes mercados internacionais. Analisar As características de cada mercado, nomeadamente os canais de distribuição, o nível de preços praticados para produtos semelhantes aos que pretende comercializar, a logística interna e as estruturas portuária e aeroportuária. Identificar Os pontos fortes e as fraquezas da sua empresa em relação aos concorrentes já atuantes no mercado internacional. Gerenciar Processos de negociação, o tempo que permanecerá em cada mercado exterior, as visitas aos clientes e as emoções pelas vendas e pelos fracassos. Operacionalizar Uma agenda preestabelecida, adaptando-se às alterações inesperadas do ambiente em geral e dos mercados em particular. Controlar Os resultados da sua negociação, devendo sempre estar presente que uma negociação é o começo de um processo de importação ou de exportação, e que outras negociações complementarão o fechamento de um contrato. Fonte: Sousa (2014, p. 7). Martinelli, Ventura e Machado (2003, p. 100) caracterizam o excelente negociador internacional como o que compreende seus próprios objetivos e respeita os da outra parte, buscando informações sobre diferenças e compatibilidade para construir acordos integrativos. Além disso, procura construir confiança através do questionamento direto, compreende as influências derivadas do poder, reconhece esforços diretos e indiretos e trabalha com eles de forma efetiva durante todo o processo. Para Thompson (apud STOECKICHT; MALLMAN, 2014, p. 41), os componentes fundamentais para um negociador de sucesso na esfera internacional são: • visão aberta e ampla para ajustar-se a novos ambientes; • empatia; • sociabilidade; Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 10 • aceitação crítica de estereótipos; • abertura para diferentes pontos de vista; • interesse na cultura anfitriã; • orientação por tarefas; • flexibilidade cultural; • orientação cultural; • vontade de se comunicar; • paciência; • sensibilidade intercultural; • tolerância para com as pessoas; • senso de humor; • habilidade colaborativa na resolução de problemas; • habilidade de planejamento; • habilidade de pensar com clareza sob pressão; • inteligência prática geral; • destreza verbal; • conhecimento técnico, tático, estratégico e multicultural; • visão sistêmica; • integridade; • habilidade de perceber e fazer uso do poder. A ética é um elemento fundamental das negociações. Na atual conjuntura, como a globalização induz executivos de diversas nacionalidades a contatarem-se com maior frequência, as questões relacionadas à ética passaram a enfrentar momentos de confronto, possibilitando a formação de uma cultura global que, aos poucos, determina o comportamento esperado dos negociadores internacionais (MARTINELLI; VENTURA; MACHADO, 2003 p. 200). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 11 Considerações finais As negociações internacionais são processos de comunicação interpessoal que devem ser realizados com respeito às diferenças entre negociadores. Como o principal objetivo de uma negociação é criar valor para as partes envolvidas, o conhecimento dos estilos dos negociadores é um dos fatores que devem ser considerados em uma análise do processo de negociação. Nesta aula, estudamos ainda as principais competências que devem ser desenvolvidas por negociadores internacionais. Até a próxima e bons estudos! Referências MARTINELLI, Dante. Pinheiro; VENTURA, Carla. A.; MACHADO, Juliano. R. Negociação internacional. São Paulo: Atlas, 2007. RIBEIRO, Vinicius Farias. Negociação internacional a percepção do negociador brasileiro – um estudo de caso. 2008. 166 f. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Pós-graduação e Pesquisa em Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro. 2008. SAMPLE, Jane. Thomas-Kilmann conflict mode instrument: profile and interpretive report. 2008. Disponível em: <http://www.kilmanndiagnostics.com/sites/default/files/TKI_Sample_ Report.pdf>. Acesso em: 1 out. 2015. SEBRAE. Estilos de negociação. 2001. Disponível em: <http://vix.sebraees.com.br/arquivos/ estilos_negociacao.htm>. Acesso em: 1 out. 2015. SOUSA, José Meireles. Empreender em mercados internacionais. São Paulo: Saraiva, 2014. STOECKICHT, Ingrid Paola; MALLMAN Dorval Olivio. Negociação internacional. São Paulo: FGV, 2014. Estratégias de Negociação Internacional Aula 03 A Influência da Cultura nas Negociações Internacionais Objetivos Específicos • Reconhecer os principais traços culturais que podem influenciar no comportamento de um negociador; identificar que a cultura se apresenta em diferentes níveis e quais aspectos têm mais chances de afetar o comportamento nos negócios; identificar os traços mais marcantes culturais por regiões do mundo; apontar elementos do Brazilian Business Mindset com maior relevância na realidade internacional e ser capaz deminimizar os potenciais danos que essa diversidade pode causar. Temas Introdução 1 A importância da cultura nas negociações 2 Padrões culturais ao redor do mundo 3 Cultura e negócios 4 Inteligência cultural 5 Aspectos culturais tipicamente brasileiros e seu impacto nos negócios globais Considerações finais Referências José Manuel Meireles de Sousa Professor Autor Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 2 Introdução O que é cultura? Como a cultura interfere nas negociações? Qual a vantagem de assimilar diferentes culturas? São essas as questões que procuramos responder nesta aula. São inúmeras as definições para cultura; algumas conceituam cultura como “Os métodos que a sociedade utiliza para resolver os seus problemas [...]”; outras como “Uma programação coletiva de mentalidades [...]” ou simplesmente, “A maneira como as coisas são feitas aqui” (PALÁCIOS; SOUSA, 2004, p. 35). No ambiente corporativo, a cultura está relacionada aos comportamentos, às crenças, às normas e aos valores que os sócios das empresas têm em comum. As empresas que trabalham em países com culturas diferentes da sua devem entender e adaptar-se às diferenças de comportamento dos consumidores, às tradições e hábitos do trabalho, aos processos empresariais utilizados ou mesmo aos diferentes modos de relacionamento interpessoal, pois só assim conseguirão prosperar nesses mercados. O entendimento das diferentes culturas nacionais permite identificar, mais facilmente, as dimensões da cultura vivida pelas empresas de determinado país. Além disso, possibilita sistematizar a análise das dimensões da cultura corporativa que enquadra as empresas domésticas, aumentando a fluidez dos processos de negociação. Bons estudos! 1 A importância da cultura nas negociações O cientista social Geert Hofstede afirma que a cultura consiste em programas mentais compartilhados que condicionam a resposta dos indivíduos ao seu ambiente (apud THOMAS; INKSON, 2006, p. 39). Hofstede (2015) desenvolveu a teoria das dimensões culturais, que explica como os valores culturais nacionais afetam o comportamento humano com base em seis “dimensões culturais”. Gráfico 1 – Dimensões culturais de Brasil, Estados Unidos e Rússia Fonte: The Hofstede Centre (2015). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 3 As dimensões culturais são assim definidas (AFS, 2015): • PDI – Distância do poder (alto versus baixo) Explica como os membros menos poderosos da sociedade aceitam a distribuição desigual do poder. No Brasil e na Rússia, é alto o índice de PDI; já as culturas dos países nórdicos têm um IDV baixo. • IDV – Individualismo versus Coletivismo ▫ Individualismo – as pessoas somente se preocupam consigo e com a sua família mais próxima; as culturas americana e inglesa são particularmente individualistas. ▫ Coletivismo – as pessoas pertencem a grupos que mantêm fortes laços de lealdade entre si; as famílias incluem toda a extensão familiar; as culturas indiana e paquistanesa têm elevados índices de coletivismo. • UAI – Aversão à Incerteza (alto versus baixo) Representa o quanto as pessoas tendem a evitar riscos e a lidar com situações inesperadas; um forte UAI é possível encontrar na Rússia, mas o Brasil também apresenta valor elevado; no baixo UAI, as pessoas são mais tolerantes com o que não podem controlar, por exemplo, na Jamaica ou nos Estados Unidos. • MAS – Masculinidade versus Feminilidade (alta versus baixa) ▫ Masculinidade – os valores dominantes da sociedade são a realização e o sucesso, como no Japão ou em países latinos. ▫ Feminilidade – os valores dominantes na sociedade são a preocupação com os outros e a qualidade de vida; é o caso das culturas nórdicas (Suécia, Dinamarca, entre outras). • LTO – Orientação em Longo Prazo (orientação de longo prazo versus orientação de curto prazo) Explica até que ponto a visão de futuro das pessoas tem maior preponderância que uma visão normativa de curto prazo. Países asiáticos, como a China e o Japão, tendem a ter uma orientação de futuro; já os Estados Unidos e países latinos têm, principalmente, orientações de curto prazo. • IVR – Complacência versus Repressão Analisa a importância da felicidade e do controle da vida. Alto índice de complacência permite que as pessoas satisfaçam livremente suas necessidades e seus desejos; já um elevado índice de repressão indica que as pessoas suprimem seus impulsos por meio de normas sociais restritivas. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 4 Aprofunde o conhecimento sobre Geert Hofstede e a teoria das dimensões culturais acessando a Midiateca A importância dos trabalhos de Hofstede no âmbito empresarial é muito significativa, pois as culturas nacionais impactam influenciando nas empresas a cultura empresarial. Mintzberg et al. afirmam que: [...] a força da cultura na gestão empresarial é clara, pois a cultura organizacional passa a ser a mente da organização, as crenças comuns que se refletem nas tradições e nos hábitos, bem como em manifestações mais tangíveis – histórias, símbolos, ou mesmo edifícios e produtos; em certo sentido, a cultura representa a força vital da organização, a alma de seu corpo físico [...] (MINTZBERG et al., 2000, p.195). Para os autores, a força de uma cultura pode ser proporcional ao grau até o qual ela ilude a consciência. 2 Padrões culturais ao redor do mundo É grande a diversidade de culturas ao redor do mundo. Mesmo dentro dos países, a diversidade cultural pode ser percebida – como no Brasil, em que a cultura nortista é muito diferente da cultura do sul/sudeste brasileiro. Mas, mesmo em países de menores dimensões, como é o caso da Bélgica (279 vezes menor que o Brasil), dois idiomas são falados – o flamengo e o francês –, e são verificadas diferenças culturais marcantes entre os flamengos do norte belga e os valões do sul do país. Ao analisar diferentes comportamentos entre empresas – e mesmo entre países –, Mole (1995, p. 186) sugere, como vetores caracterizadores do comportamento empresarial, a comunicação, a organização e a liderança. Ainda segundo o autor, é possível desmembrar cada vetor em vários elementos e, dessa forma, explicar comportamentos e culturas prevalecentes nas empresas. 2.1 Caracterizadores do comportamento empresarial Comunicação Trata da linguagem verbal, da não verbal e, ainda, de certos comportamentos que transparecem expectativas e crenças, como a paralinguística e a linguagem corporal. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 5 Os outros vetores, organização e liderança, estão diretamente relacionados aos valores empresariais. Para saber mais sobre paralinguística e linguagem corporal, acesse a Midiateca. Organização Refere-se ao conjunto de valores e à forma como são apreendidos pelos indivíduos, respondendo às questões: • Como o trabalho está organizado? • Como se planejam e se efetuam as previsões? • Como a informação é coletada e disseminada? • Como os resultados são medidos? Liderança Refere-se a aspectos de poder e autoridade, respondendo a questões: • Quem é detentor do poder? • Como é que o poder foi obtido? • Como é exercido? • Em que é baseada a autoridade? • Quem toma decisões? • O que faz alguém ser um bom executivo? É grande o espectro de variáveis e de crenças presentes em cada dimensão citada; mas, uma vez combinadas, influenciam os comportamentos de cada empresa e contribuem para a estruturação e a solidificação de sua cultura. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 6 2.2 Padrões culturais – oriente e ocidente Embora as culturas variem ao redor do mundo, é possível deduzir que o padrão cultural prevalecente no ocidente é caracterizado por estilos mais literais (literacia), apoiados em normas e regras preestabelecidase com comunicação mais formal. Já nos países orientais, prevalece a oralidade, ou seja, o que foi estabelecido no diálogo é fundamental à conclusão do processo de negociação. Assim, a comunicação é mais informal, possibilitando conversas sobre temas pessoais, não diretamente relacionados ao negócio (MOLE, 1995, p. 188-193). Figura 1 – Padrões culturais 3 Cultura e negócios Quais os aspectos da cultura que mais afetam as negociações? “Negociação é um processo de comunicação bilateral, com o objetivo de chegar a uma ideia conjunta” (FISHER; URY; PATTON, 1991, p. 50). Ou seja, a negociação diz respeito à comunicação (STOECKICHT; MALLMAN, 2014, p. 44), que é um processo complexo que envolve pessoas, comportamentos e técnicas, podendo ser realizada de forma verbal ou não verbal e que influencia e é influenciada pela cultura dos negociadores. Em negociações interculturais, as situações são mais complicadas devido a diferentes culturas, ambientes, estilos de comunicação, sistemas políticos, ideologias, tradições e costumes. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 7 3.1 Aspectos culturais que afetam as negociações Linguagem verbal e não verbal A mais óbvia diferença entre culturas é a comunicação verbal (MOLE, 1995, p. 189). A comunicação verbal difere em cada cultura pelo idioma, pelo sotaque, pela fonética ou mesmo pelo diferente significado das palavras. Por exemplo, a companhia ESSO - ExxonMobil Corporation teve problemas no Japão porque, foneticamente, a palavra ESSO soa como “automóvel afogado”. Outro exemplo é a expressão camisola, que, em português de Portugal, significa uma malha exterior; já no Brasil, é uma roupa feminina para dormir. Já a comunicação não verbal é qualquer comportamento que tenha potencial de comunicação, mas que não seja linguístico. Os aspectos culturais relacionados à comunicação não verbal são também importantes diferenciais a levar-se em conta em processos de negociação intercultural. Entre eles, estão os elementos citados a seguir. Expressão facial O negociador estudará o rosto do seu interlocutor para determinar o nível de interesse. O negociador bem-sucedido precisa ser hábil na leitura de rostos. Há pelo menos dez emoções que podemos comunicar por meio da nossa expressão facial: alegria, tristeza, surpresa, raiva, medo, desprezo, nojo, interesse, determinação e confusão. No entanto, na maioria das culturas, as pessoas aprendem a disfarçar suas emoções, adotando uma expressão que não representa aquilo que estão sentindo (THOMAS; IKSON, 2006, p. 151), ou seja, as pessoas tendem a ser conscientes das suas expressões faciais. O negociador deve incorporar regras de expressão quando necessário. Por exemplo, se um cliente menciona que um dos principais concorrentes faliu, o vendedor deve mostrar preocupação, e não alegria. O negociador deve aprender a monitorar as expressões faciais do cliente. Sempre que o seu interlocutor exiba uma expressão facial negativa, deve o negociador aperceber-se e lidar com essa objeção. (SOUSA, 2014, p. 51). Nas culturas coletivistas, a expressão aberta dos sentimentos individuais é geralmente reprimida, pois pode ameaçar a harmonia do grupo; essa é uma das razões que levam os ocidentais a caracterizarem os chineses e japoneses como pessoas inescrutáveis (THOMAS; IKSON, p. 151). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 8 Paralinguística É a categoria da comunicação não verbal que não é visual, ou seja, trata da linguagem. Tem a ver com a forma como qualquer coisa é dita, por exemplo: considerações que fazemos da personalidade com base na maneira de falar, considerações sobre a avaliação de sexo, status etc. São elementos orais da paralinguística: tom de voz, ritmo, timbre, inflexão, fluidez verbal, entre outros. O negociador deve estar atento aos sinais paralinguísticos do seu interlocutor e também à maneira como usa a sua voz. O negociador deve utilizar a sua voz para comunicar segurança e status elevado, visto que esses traços aumentam a credibilidade. Movimentos corporais (cinética) A cinética ou linguagem corporal refere-se ao movimento corporal, isto é, a maneira como se utiliza os braços e as mãos, inclina-se a cabeça etc. A comunicação corporal permite transmitir receptividade (por exemplo, descruzar as pernas, desabotoar o casaco). Por um lado, transmite afirmação pela tranquilidade dos gestos, pelo contato dos olhos, enfatizando as palavras-chave com gestos e evitando manifestações de nervosismo. Por outro lado, transmite apreciação pelos gestos afirmativos com a cabeça e pelo sorriso. A observação dos movimentos corporais permite, ao negociador experiente, identificar o momento de descontração do seu interlocutor e, por isso, o timing ideal de fechamento da negociação. Os participantes de uma negociação quebram a tensão típica do processo quando atingem seus objetivos; essa quebra de tensão pode ser identificada por movimentos de descontração. Espaço íntimo e contato físico O espaço mantido pelos negociadores varia de acordo com a cultura dos países. Em negociações entre sul-americanos e executivos do Oriente Médio, a proximidade é maior do que entre americanos ou europeus. Já na China e no Japão, é normal que a distância entre negociadores seja de no mínimo 1,20 m. Contato visual Fazer contato visual com outros (ou evitá-lo) é uma forma importante de comunicação. Enquanto o rosto comunica a emoção, os olhos comunicam a intensidade da emoção pela dilatação das pupilas. Outra função dos olhos é regular a conversação. Olha-se para pedir feedback. Olha-se para o orador para indicar que estamos ouvindo. A terceira função dos olhos é determinada pela demora do olhar; um olhar mais detido poderá indicar que a pessoa tem um status elevado (SOUSA, 2014, p. 52). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 9 Nos países ocidentais, o contato visual moderado durante uma conversa é uma forma de transmitir amabilidade ou interesse; ao passo que, quando excessivo, pode ser considerado descortês. Árabes, latinos, indianos e paquistaneses possuem convenções de um contato visual mais longo, enquanto que africanos e asiáticos interpretam o contato visual como uma expressão de raiva ou insubordinação (THOMAS; IKSON, 2006, p. 152). Manter contato visual e outras formas de comunicação não verbal, observar atentamente, refletir sobre o comportamento dos outros e ser capaz de modificar a própria conduta são componentes-chave apara a inteligência cultural. 4 Inteligência cultural O negociador internacional está exposto a diferentes ambientes culturais; para manter a eficiência nos processos de negociações, tem necessidade de adaptar-se continuamente, não somente pela assimilação dos aspectos técnicos, particulares de cada país, mas, sobretudo, pela adaptação à cultura de cada região. Inteligência cultural significa ser hábil e flexível para assimilar uma cultura, aprender mais sobre ela de forma a tornar a sua conduta mais apropriada e hábil quando interagindo com outros dessa cultura. Esse processo envolve três componentes, que são o conhecimento, a atenção constante e as habilidades comportamentais (THOMAS; INKSON, 2006, p. 95). Além disso, esse processo pode ser aperfeiçoado pelo aprendizado em experiências sociais, prestando atenção às diferenças essenciais entre você mesmo e pessoas de outras culturas e outros históricos. A interação com outras culturas facilita o desenvolvimento da inteligência cultural e, consequentemente, o processo de negociação, pois facilita a adaptação do negociador ao ambiente em que está inserido. Entre as estratégias que ajudam a elevar a inteligência cultural, são citadas a seguir as indicadas por Thomas e Inkson (2006, p. 98): • trabalhar para uma companhia multinacional; • estudar fora do país; • mudar-se para outro país e procurar assiduamente um emprego; •turismo internacional; • especialização internacional; • encontrar um mentor internacional de negócios; • lecionar inglês no exterior; Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 10 • serviço público externo; • trabalhos multiculturais em equipe, incluindo equipes “virtuais”, com membros em países diferentes; • serviço externo em missões humanitárias; • serviço militar internacional. Além das estratégias referidas, o treinamento pode facilitar o processo de desenvolvimento de inteligência cultural. 5 Aspectos culturais tipicamente brasileiros e seu impacto nos negócios globais Analisando a atuação dos negociadores brasileiros em uma perspectiva de um negociador estrangeiro, podemos concluir que: • É grande a capacidade de negociação dos negociadores brasileiros que se comportam naturalmente e espontaneamente nas reuniões. • A comunicação dos brasileiros é calorosa, informal, complexa e muito pessoal, compreendendo elementos de comunicação verbal e não verbal, e normalmente grande utilização de linguagem corporal. • Em negociações com brasileiros, é comum misturar temas do negócio com outros, da vida privada. Não obstante, o caráter afável do povo brasileiro é reconhecido no ranking publicado pela CNN internacional (R7, 2011). Os negociadores brasileiros são desconfiados nas primeiras interações, por isso, refeições e encontros informais são úteis para estabelecer uma relação de confiança. • Os brasileiros têm uma forte noção de hierarquia, que compreende a concentração dos poderes e a aceitação das desigualdades nas empresas, muito embora o tratamento entre as pessoas nos diversos níveis hierárquicos seja informal. • O negociador estrangeiro sabe que a complexidade do mercado brasileiro requer tempo e paciência, por isso, é imperativo que a parte brasileira não exagere na demora das respostas, que devem ser assertivas (SOUSA, 2014, p. 92). Por isso, a contratação de um agente local que acompanhe os processos de negociação é aconselhada às empresas estrangeiras, pois pressiona o executivo brasileiro no processo de tomada de decisão. • O interlocutor estrangeiro sabe que os brasileiros se empolgam nas primeiras apresentações, o que não quer dizer que irão fechar rapidamente o negócio (SOUSA, 2014, p. 93). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 11 O negociador estrangeiro tende a identificar o seu interlocutor brasileiro como alegre e facilmente adaptável a situações imprevistas. A facilidade de adaptação do negociador brasileiro aos diversos ambientes de negociação não deve ser confundida com fraqueza negociadora, pois o brasileiro é exigente em suas demandas, insistente nos seus propósitos e persegue com afinco os objetivos traçados. Considerações finais A negociação internacional é um processo de comunicação biunívoco, que deve levar os interlocutores ao entendimento. Nesse processo, vários são os obstáculos, sobretudo porque indivíduos de culturas diferentes não compartilham as mesmas origens, os mesmos códigos ou as mesmas convenções (THOMAS; INKSON, 2006, p. 156). A adaptação dos negociadores é um desafio constante, que requer o desenvolvimento da inteligência cultural. A criatividade e o “jeitinho brasileiro” devem ser utilizados sem abusos, pois a insistência no uso pode desacreditar o negociador, que deve ter sempre presente que o seu interlocutor pode ter estudado muito bem o país e o mercado. Até a próxima e bons estudos! Referências AFS Intercultural Programs. Dimensões culturais de Hofstede. 2015. Disponível em: <http:// www.afs.org.br/uploads/files/24_4_-_Dimensoes_Culturais_de_Hofstede..._para_amigos_do_ AFS.pdf>. Acesso em: 7 out. 2015. BRASILEIROS são o povo mais “descolado” do mundo, diz CNN. R7 NOTÍCIAS, Internacional, 21 jan. 2011. Disponível em: <http://noticias.r7.com/internacional/noticias/brasileiros-sao- escolhidos-o-povo-mais-descolado-pela-cnn-20110121.html>. Acesso em: 7 out. 2015. FISHER, Roger; URY, William; PATTON, Bruce. Getting to yes: negotiating agreement without giving in. 2. ed. Nova York: Penguin, 1991. HOFSTEDE, Geert. Teoria das dimensões culturais. 2015. Disponível em: <http://www.afs.org. br/uploads/files/24_4_-_Dimensoes_Culturais_de_Hofstede..._para_amigos_do_AFS.pdf>. Acesso em: 7 out. 2015. MINTZBERG, Henry et al. Safári de estratégia: um roteiro pela selva do planejamento estratégico. Porto Alegre: Bookman, 2000. MOLE, John. Mind your manners. London: Nicholas Brealey, 1995. PALÁCIOS, Tomás Manuel Bañegil; SOUSA, José Manuel Meireles. Estratégias de marketing internacional. São Paulo: Atlas, 2004. http://www.afs.org.br/uploads/files/24_4_-_Dimensoes_Culturais_de_Hofstede..._para_amigos_do_AFS.pdf http://www.afs.org.br/uploads/files/24_4_-_Dimensoes_Culturais_de_Hofstede..._para_amigos_do_AFS.pdf http://www.afs.org.br/uploads/files/24_4_-_Dimensoes_Culturais_de_Hofstede..._para_amigos_do_AFS.pdf Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 12 SOUSA, José Manuel Meireles de. Gestão da negociação internacional. São Paulo: Abracomex, 2014. Disponível em: <http://issuu.com/abracomex/docs/apostila_impress__o_ neg_int>. Acesso em: 7 out. 2015. STOECKICHT, Ingrid Paola; MALLMAN Dorval Olivio. Negociação Internacional. São Paulo: FGV, 2014. THE HOFSTEDE CENTRE. What about Brazil? 2015. Disponível em: <http://geert-hofstede.com/ brazil.html>. Acesso em: 7 out. 2015. THOMAS, David C.; INKSON, Kerr. Inteligência cultural: Instrumentos para negócios globais. Rio de Janeiro: Record, 2006. Estratégias de Negociação Internacional Aula 04 Processo de Comunicação Objetivos Específicos • Relacionar a importância da dinâmica da negociação com os padrões de comunicação típicos de cada cultura ou de indivíduos; identificar as diferentes maneiras pelas quais a comunicação se manifesta no ambiente dos negócios. Temas Introdução 1 As formas de comunicação usadas nas negociações 2 A influência da cultura na comunicação 3 Comunicação como motor da negociação Considerações finais Referências José Manuel Meireles de Sousa Professor Autor Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 2 Introdução Sem comunicação não há negociação. As negociações podem ser realizadas presencialmente ou à distância, de forma síncrona ou assíncrona. Em qualquer caso, em processos de comunicação são transmitidas informações de forma bidirecional. Quando a comunicação é interpessoal, as formas não verbais (comunicação não feita pela fala ou pela escrita) ganham relevância, pois condicionam fortemente o processo de negociação. A cultura de cada negociador também influencia a comunicação; por isso, as diferenças culturais devem ser respeitadas para garantir fluidez. Nesta aula, estudaremos os aspectos culturais que influenciam a comunicação nas negociações internacionais. Serão abordados os principais aspectos das formas de comunicação verbal e não verbal, além das particularidades da cultura dos dez países com maior intercâmbio comercial com o Brasil. Bons estudos! 1 As formas de comunicação usadas nas negociações Negociação é um processo de comunicação bilateral, com o objetivo de se chegar a uma decisão conjunta (FISHER; URY, 1985, p. 30 apud RIBEIRO, 2008, p. 18). Neste processo, é necessário que a comunicação seja clara para evitar mal-entendidos. Na comunicação, o remetente utiliza canais para transmitir a mensagem ao receptor, que a interpreta. A negociação internacional envolve aspectos verbais e não verbais, sendo estes últimos de maior duração, pois a comunicação oral é usada durante menos de 20% do tempo de uma negociação (SOUSA, 2014, p. 51). O canal pode ser através de palavras – faladas ou escritas – ou sem palavras, usando gestos e expressões faciais. Também podem ser usados canais como as conversas mantidas pessoalmente, reuniões, ligações telefônicas, outros documentos escritosou e-mails (THOMAS; INKSON, 2006, p. 137). A transmissão e a recepção da mensagem podem sofrer com o que se chama de ruído, isto é, qualquer perturbação que impeça uma interpretação correta por parte do receptor. Assim, o canal pode ser influenciado por ruídos estranhos ao processo, mas que o influenciam. A comunicação bem-sucedida ocorre quando a mensagem é percebida e compreendida com exatidão. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 3 Figura 1 – Processo de comunicação entre culturas Fonte: Adaptada de Thomas e Inkson (2006 p. 137). 1.1 Convenções culturais A comunicação funciona basicamente através de códigos – sistemas de sinais em que cada um deles representa uma determinada ideia ou conceito – e utiliza convenções – normas já acordadas em relação a “como”, “quando” e “em quais contextos” os códigos são utilizados. O campo cultural cria os códigos usados no processo de codificação e decodificação, assim como as convenções culturais que afetam o processo de comunicação. As diferenças culturais são uma ameaça à comunicação, pois diminuem a disponibilidade de códigos e convenções compartilhados por remetente e receptor (THOMAS; INKSON, 2006, p. 137). As convenções da comunicação englobam formas de utilização da língua dentro de determinada cultura. As formas de utilização controlam o fluxo da comunicação e a informação é transmitida principalmente pelo conteúdo. Pelo princípio da coerência, o conteúdo do que um diz deve ser a sequência lógica do que o outro diz. Por outro lado, as formas não verbais de um interlocutor devem ser interpretadas e levadas em consideração em processos de negociação interpessoais. Nas culturas ocidentais, é maior o peso da comunicação verbal e as mensagens transmitidas no processo de negociação são explícitas, diretas e claras. Já em culturas asiáticas e no Oriente Médio, a comunicação tende a ser implícita, indireta e ambígua. Neste caso, o ambiente, o relacionamento anterior entre os participantes e o comportamento dos envolvidos (ou seja, o contexto em que decorre a negociação) são aspectos relevantes (THOMAS; INKSON, 2006, p. 144). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 4 Figura 2 – Diferenças entre o Oriente e o Ocidente 2 A influência da cultura na comunicação A cultura é um conceito dinâmico que se modifica com o tempo, embora lentamente. Cada mercado valoriza de forma diferente aspectos como o envolvimento pessoal no trabalho, tempo, saúde ou risco. Também existem diferenças no que diz respeito a instrumentos, técnicas, conhecimentos, métodos e processos que a cultura utiliza para produzir, distribuir e consumir (PALÁCIOS; SOUSA, 2004, p. 39). Todas as culturas são diferentes e evoluem através de intercâmbios entre pessoas e países, impactando nos canais de comunicação (SARVAD, 2002, p. 164 apud MARTINELLI; VENTURA; MACHADO, 2007, p. 24). Entre os vários aspectos que podem ser observados ao estudar diferentes culturas, analisaremos as principais características de alguns dos países com maior influência no intercâmbio comercial com o Brasil. Serão analisados os ambientes de negócio na Alemanha, nos Países Baixos (Holanda), nos Estados Unidos, na Rússia, na Argentina, no Chile, na Nigéria, na Arábia Saudita, na China e no Japão. 2.1 Ambiente de negócios na Europa Ocidental A Europa Ocidental é constituída preponderantemente pela União Europeia (UE), que foi criada em 1950 a partir da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço pela Alemanha, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e os Países Baixos. Com o passar do tempo, o número de países interessados em fazer parte da UE foi aumentando. Com a adesão da Croácia – em 1 de julho de 2013 –, a UE passou a ter 28 Estados-membros. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 5 Alguns traços culturais da Europa Ocidental (ACUFF, 2004, p. 114) podem ser percebidos por meio da pontualidade do europeu, do seu individualismo – em que predomina a consciência de status e de classe – da valorização da iniciativa individual e da realização pessoal. A trajetória para o sucesso empresarial é uma mistura de educação e contatos sociais. Nas empresas, a hierarquia é importante e a lealdade e o esforço são premiados. Os europeus ocidentais não toleram ambiguidade nem explosões emocionais e são reservados no que tange à linguagem corporal, pois gestos largos e rápidos não são apropriados no ambiente de trabalho. Figura 3 – Negociação com empresas holandesas versus alemãs Fonte: Adaptada de Martinelli, Ventura e Machado (2007, p. 149; 160). 2.2 Ambiente de negócios na Federação Russa Com o crescimento da União Europeia, a Comunidade dos Estados Independentes (CEI) passou a reunir várias repúblicas da antiga União Soviética, região fortemente influenciada pela Federação Russa. O ambiente de negócios nessa região geralmente segue algumas convenções: os encontros de negócios com eventuais parceiros russos devem ser marcados com antecedência e deve-se prever uma extensão do tempo de permanência para encontros informais. Os negociadores russos são altamente preparados e conhecedores dos produtos que estão negociando; dessa forma, é imprescindível a presença de técnicos ou o conhecimento das características dos produtos por parte dos negociadores. Cartões de visita – que devem ser escritos em russo e inglês – e de presentes serão bem aceitos pelos seus interlocutores (SOUSA, 2014, p. 78). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 6 Para mais informações sobe a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), consulte a Midiateca. 2.3 Ambiente de negócios na América do Norte A economia da América do Norte é caracterizada pela forte competitividade, por negociadores altamente capacitados e atualizados com as mais recentes técnicas de administração. O cargo mais importante nas empresas americanas é o de diretor chefe executivo (CEO – Chief Executive Officer). Os negócios são rápidos e a ênfase recai na transmissão dos aspectos substantivos da negociação da maneira mais eficaz possível. O individualismo é muito valorizado e a posição social é conquistada pela competitividade individual. O negociador normalmente atua sozinho ou em equipe com poucos elementos. Em regra, a gestão participativa limita-se a questões operacionais, e não a processos de negociação. As relações de negócios são informais, sendo comum o uso do primeiro nome. A comunicação verbal é aberta, objetiva e franca; o aperto de mão inicial é firme e rápido, a distância entre negociadores é de cerca de um metro e há pouco contato físico (ACUFF, 2004, p. 240). Figura 4 – Negociação com empresas americanas versus russas Fonte: Adaptada de Martinelli, Ventura e Machado (2007, p. 158; 166). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 7 2.4 Ambiente de negócios na América Latina A América Latina compreende Estados em todo o continente americano e o idioma predominante é o espanhol. Na América Latina, as pessoas são mais apreciadas pelo que são do que pelo que fazem; a masculinidade – falar bem, ser eloquente, espirituoso – é característica no negociador latino-americano. Relações pessoais constituem um fator chave no processo de negociação e as pessoas têm prioridade em relação às instituições. Os negociadores latino-americanos podem mudar a tonalidade no decorrer das conversações, gesticulam bastante e transparecem suas emoções. É preciso estar preparado para ser interrompido, o que é sinal que o interlocutor pretende mudar o seu ponto de vista. A distância física entre negociadores é pequena; não existe uma regra específica para o contato visual. É necessário verificar previamente o idioma que o negociador latino-americano utilizará, e o atraso de 10 a 15 minutos para começo de uma reunião é normal (ACUFF, 2004, p. 197-200). Figura 5 – Negociaçãocom empresas chilenas versus argentinas Fonte: Adaptada de Martinelli, Ventura e Machado (2007, p. 151; 155). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 8 2.5 Ambiente de negócios no Oriente Médio O Oriente Médio é uma região com muita diversidade cultural e religiosa, composta, entre outros, pelos seguintes países: Arábia Saudita, Israel, Egito, Irã, Iraque e Líbano. Os árabes – maior grupo étnico do Oriente Médio – são maioria no Egito, Jordânia, Síria, Líbano, Iraque, nos países da península Arábica e nos territórios sob a Autoridade Palestina. Também é de se destacar a influência de Israel e do Irã que, não sendo países árabes, exercem influência preponderante no comércio regional. A negociação é parte do quotidiano da população árabe. A religião tem papel importante no ambiente de negócios; em grande parte da região, não há separação entre Igreja e Estado. O islamismo é a religião preponderante entre árabes e iranianos. Na cultura islâmica, baseada nos ensinamentos de Maomé, as pessoas rezam cinco vezes por dia e respeitam o Ramadã, que pressupõe o jejum diurno durante 29 dias por ano. A noção do tempo não é tão rigorosa como nos países ocidentais. As culturas são orientadas à coletividade e o sucesso define-se mais em termos de integração no grupo do que em termos individuais (ACUFF, 2004, p. 252-254). 2.6 Ambiente de negócios na África O ambiente de negócios na África está sofrendo mudanças significativas. Embora continuem grandes as diferenças sociais na maioria dos países africanos, a explosão demográfica, a aparente estabilidade e o desenvolvimento econômico são características do novo entorno, especialmente em países da África ao Sul do Saara. Horários e agendas – embora respeitados por alguns poucos países como a África do Sul – têm graus de adesão diferentes em vários países. Existe uma forte orientação coletivista, que tem raízes nas filiações tribais. Assim, posição social, língua e relações de negócios são marcadas pelas raízes tribais e, em consequência, o processo decisório pode ser condicionado à aprovação pelos integrantes de determinado grupo. Formalidade e respeito são fundamentais. Comunicação verbal tende a ser animada e amistosa. É grande a proximidade física entre pessoas, embora abraços e toques ocorram menos frequentemente que em outras culturas (ACUFF, 2004, p. 336-337). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 9 Figura 6 – Negociação com empresas nigerianas versus sauditas Fonte: Adaptada de Martinelli, Ventura e Machado (2007, p. 150; 163). 2.7 Ambiente de negócios na Ásia Os países asiáticos fazem parte da estratégia de expansão internacional de qualquer empresa. O crescimento das economias aliado à enorme dimensão dos mercados são fatores decisivos que despertam o interesse de empresas e investidores. As culturas asiáticas são, em regra, orientadas pela coletividade – por exemplo, para ter sucesso em uma negociação, é importante ajudar o interlocutor a manter a sua honorabilidade e, ao mesmo tempo, reconhecer a importância do consenso coletivo (ACUFF, 2004, p. 280-281). As negociações tendem a ser lentas e os asiáticos normalmente não negociam sozinhos, podendo variar o tamanho das equipes de negociação. No entanto, as decisões são tomadas em bloco, pelo grupo. Em reuniões de negócios, é essencial trocar cartões de visita; se não o fizer, o seu interlocutor poderá pensar que você não tem capacidade para prosseguir com as negociações. Os cartões de visita devem ter em uma das faces o idioma inglês e, na outra, estarem escritos no idioma do país visitado. É importante mostrar títulos (por exemplo, se for um PhD) no seu cartão de visita. Os cartões de visita deverão ser entregues com as duas mãos, acompanhados de um sorriso e de contato visual, seguidos da leitura atenta do Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 10 cartão recebido. Durante a negociação, é preciso ter cuidado com as informações passadas, sobretudo se envolverem aspectos de propriedade intelectual. Presentes são bem-vindos; não é importante o presente em si, mas é importante o que ele significa; sugere-se peças de artesanato ou algo que esteja ligado à tradição do país (SOUSA, 2014, p. 90). Figura 7 – Negociação com empresas chinesas versus japonesas Fonte: Adaptada de Martinelli, Ventura e Machado (2007, p. 162; 165). Para saber mais sobre as culturas de diferentes países, visite a Midiateca e consulte os guias práticos de acesso a mercados. 3 Comunicação como motor da negociação A dinâmica das negociações depende dos fluxos de comunicação utilizados no processo. Uma negociação pode ter duas ou mais pessoas envolvidas e, quando for este o caso, o papel de cada membro deve ser de confiança, credibilidade e ter clara a estratégia de comunicação que será utilizada. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 11 A comunicação dá-se pela fala ou pelo corpo; negociadores devem estar sempre atentos às sinalizações da outra parte. A linguagem corporal pode revelar muito sobre a intenção de cada interlocutor. Assim, analisar as posturas permite avaliar o estado de espírito do interlocutor (LANGDON, 2009). • Uma postura é positiva quando é extremamente aberta em relação à outra pessoa e o contato visual demonstra confiança e cordialidade. • Uma postura é neutra quando o negociador fica com os braços rentes ao corpo, mas mantém contato visual com seu interlocutor. • Uma postura é negativa quando o contato visual é evasivo. Puxar a orelha ou ficar se mexendo indica que o negociador está desconfortável e pode não estar falando verdade. Posturas positivas favorecem a interlocução, pois são geradoras de confiança e facilitam o relacionamento. Negociadores proativos adotam posturas abertas mais facilmente, são mais empáticos e conseguem entender a comunicação corporal com mais facilidade. Negociadores neutros podem acompanhar com mais detalhes o andamento do processo de negociação e, se trabalharem em equipe com outros de postura positiva, conduzirão negociações mais eficazes. Considerações finais A comunicação é parte integrante do processo de negociação. Como a comunicação é influenciada pela cultura dos negociadores, é essencial conhecer os traços culturais que mais impactam em processos de negociação. Nesta aula, analisamos a influência da cultura no processo de comunicação e identificamos os aspectos culturais que mais impactam em processos de negociação em alguns países selecionados. Até a próxima e bons estudos! Referências ACUFF, Frank L. Como negociar qualquer coisa, com qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo. 2. ed. São Paulo: Senac, 2004. LANGDON, Ken. Você sabe conduzir uma negociação? Técnicas eficazes para assegurar os resultados que você deseja. São Paulo: Senac, 2009. MARTINELLI, Dante Pinheiro; VENTURA, Carla A.; MACHADO, Juliano R. Negociação internacional. São Paulo: Atlas, 2007. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 12 PALÁCIOS, Tomás Manuel Bañegil; SOUSA, José Manuel Meireles. Estratégias de marketing internacional. São Paulo: Atlas, 2004. RIBEIRO, Vinicius Farias. Negociação internacional a percepção do negociador brasileiro: um estudo de caso. 2008. 166 f. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Pós-graduação e Pesquisa em Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro. 2008. SOUSA, José Meireles. Empreender em mercados internacionais. São Paulo: Saraiva, 2014. THOMAS, David C.; INKSON, Kerr. Inteligência cultural: instrumentos para negócios globais. Rio de Janeiro: Record, 2006. Estratégias de Negociação Internacional Aula 05 Etapas do Processo de Negociação Objetivos Específicos • Reconhecer que a negociação internacional não segue o mesmo padrão das disputas locais; distinguir a importânciade cada etapa sugerida no programa; ser capaz de criar uma estratégia de negociação. Temas Introdução 1 Negociação como processo contínuo 2 Planejamento 3 Execução 4 Pós-negociação Considerações finais Referências José Manuel Meireles de Sousa Professor Autor Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 2 Introdução A negociação é um processo de observação e interação continuada entre interlocutores ou grupos de interlocutores. Enquanto um interlocutor transmite informação, a outra parte a recebe e a interpreta. O desempenho da negociação depende fundamentalmente da forma como o conteúdo é transmitido, de eventuais ruídos que afetam os fluxos informativos e, sobretudo, do planejamento do processo. Nesta aula, estudaremos as etapas de um processo de negociação desde o planejamento, passando pela interação interpessoal e terminando na avaliação do processo. Serão enfatizados os principais pontos de cada etapa do processo e que podem interferir no resultado final. Bons estudos! 1 Negociação como processo contínuo Negociações são processos complexos, de comunicação bilateral, envolvendo pessoas, comportamentos e técnicas com o objetivo de se chegar a uma ideia conjunta. Negociações são fundamentalmente processos de comunicação interpessoal que envolvem observação e estudo continuado. Embora as negociações devam ser cuidadosamente planejadas, no decorrer do processo de comunicação vários fatores podem ajustar comportamentos, táticas planejadas ou mesmo objetivos, tornando as negociações processos de fluxos contínuos de comunicação com conteúdos ajustados permanentemente pelos intervenientes. Martinelli, Ventura e Machado (2007, p. 40) afirmam que a comunicação no processo de negociação envolve três etapas: formular ideias (planejamento), colocar o que se pretende à outra parte (execução) e assegurar-se de que isso foi bem entendido (pós-negociação). Figura 1 – Etapas da comunicação no processo de negociação Segundo os autores, para que essas três etapas possam ser bem desempenhadas, é importante seguir as seguintes recomendações (MARTINELLI; VENTURA; MACHADO, 2007): Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 3 • pensar bem sobre a mensagem antes de transmiti-la; • formular a ideia em frases curtas, claras e objetivas; • ideias complexas devem ser divididas em partes e apresentadas em etapas; • explicar todos os detalhes, mesmo aqueles que pareçam óbvios; • prender a atenção da outra parte, exprimindo-se de forma clara e bem articulada para que a mensagem possa ser bem captada; • dar espaço a comentários, perguntas e réplicas da outra parte, captando sua atenção no contexto da comunicação; • não ter receio de repetir o que talvez não tenha ficado claro. 1.1 As etapas do processo de negociação Negociações internacionais são processos que envolvem aspectos de relacionamento interpessoal e outros de características técnicas. Em negociações assim é fundamental não somente entender o processo e a dinâmica de relacionamento dos negociadores, mas também analisar as etapas que compõem uma negociação (SOUSA, 2014, p. 53). Criada pelo Programa de Negociações Complexas da Fundação Getúlio Vargas, a técnica da matriz de negociações complexas (STOECKICHT et al., 2014, p. 75) integra os cinco elementos do método de Harvard e o método de ganhos mútuos, uma teoria evolucionista com mais cinco elementos e uma dimensão cognitiva. A abordagem do processo de negociação é realizada em quatro etapas – preparação; criação de valor; distribuição de valor e implementação e avaliação – permitindo maximizar as chances de atender aos interesses de todas as partes e manter um bom relacionamento entre negociadores. Para aprofundar a técnica de negociações complexas, faça a leitura das páginas 75 a 86 do livro Negociação Internacional, de Stoeckicht et al. (São Paulo: Editora FGV, 2014). O entendimento das etapas que compõem o processo de negociação possibilita identificar os pontos críticos das negociações e formas de fortalecê-los. Em outra perspectiva, Wanderley (1998 apud RIBEIRO, 2008, p. 38) sugere para o processo de negociação internacional as seguintes etapas: Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 4 • planejamento; • abertura; • exploração; • apresentação; • clarificação; • ação final; • controle / avaliação. 2 Planejamento Qualquer empreitada importante beneficia-se de uma boa preparação. Com o planejamento da negociação, é possível estudar possíveis cenários, fortalecer pontos críticos do processo, estabelecer planos de mitigação de eventuais riscos e prever planos de contingência. O estabelecimento de cenários pressupõe uma análise do país, do setor de atividade e dos consumidores do mercado-alvo. São análises morosas, pois devem ser exaustivamente analisados todos os aspectos que possam intervir nas negociações e na respectiva operacionalização. Figura 2 – Elementos de análise em processos de planejamento de negociações Após a análise dos elementos indicados anteriormente, um planejamento de negociações internacionais deve considerar os seguintes pontos (SOUSA, 2014, p. 58): • Preparação prévia das concessões que podem ser oferecidas: Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 5 ▫ as concessões devem ser planejadas pensando na rentabilidade da empresa. • Realização do planejamento por escrito, ressaltando que um negócio só é bom quando ambas as partes saem ganhando: ▫ traçar antecipadamente um perfil do outro negociador; ▫ planejar estratégias que aumentem a sua credibilidade e possibilitem aumentar o seu poder de persuasão. O planejamento das negociações deve também produzir um plano com as tarefas da preparação da visita e que podem decompor-se nas seguintes etapas: • definição de objetivos para a visita de vendas; • recolha de informações sobre o cliente, suas necessidades e processo de compra; • planejamento do formato da apresentação; • planejamento do conteúdo da apresentação; • planejamento do uso de dispositivos audiovisuais, folhetos ou demonstrações do produto. 2.1 Poder de persuasão Poder de persuasão á a capacidade que os negociadores têm de influenciar seus interlocutores, persuadindo-os a mudar sua atitude para, dessa forma, conseguirem alcançar mais facilmente seus objetivos. Para planejar a forma como o poder será utilizado no decorrer da negociação, são utilizadas as diferentes formas ou bases de poder, isto é, como o poder pode ser exercido (SOUSA, 2014, p. 54-55). Poder de referência Esta base do poder sobressai quando a empresa tem como clientes ou fornecedores empresas de notória imagem no mercado, isto é, quando a empresa ou o negociador se relaciona com pessoas ou empresas conhecidas no setor ou mesmo quando o negociador apresenta credenciais que demonstrem capacidade financeira de negociação (por exemplo, uma carta de conforto bancária). Na prática, empresas que oferecem marcas de prestígio ou empresas compradoras de grande dimensão ou notoriedade têm forte poder de referência. Poder de conhecimento Reflete o conhecimento que o negociador tem sobre os produtos ou serviços que negocia – refere-se a atributos e benefícios dos produtos e também ao conhecimento sobre Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 6 fornecedores concorrentes, consumidores e, de uma forma geral, do mercado em que está atuando. Na prática, empresas vendedoras com poder de conhecimento têm capacidade de oferecer produtos que melhor satisfazem aos consumidores de seus clientes, e empresas compradoras com poder de conhecimento oferecem suporte diferenciado aos seus clientes. Poder legítimo Reflete a força que o negociador tem ao impor metas de negociação aos seus interlocutores. Na prática, empresas vendedoras com poder legítimo impõemmetas de vendas a seus clientes e empresas compradoras oferecem assistência técnica diferenciada ou garantias únicas para os produtos comprados. Poder de recompensa É a possibilidade que o negociador tem de apelar ao fechamento da negociação pela oferta de uma concessão (desconto, flexibilidade de pagamento, entregas diferenciadas etc.). Na prática, empresas vendedoras oferecem descontos de quantidade ou produtos com preço baixo, e empresas compradoras oferecem a capacidade de vender grandes quantidades de determinado produto. Poder coercivo Capacidade que um negociador tem de impor uma venda ou uma compra aproveitando- se da fraqueza do outro negociador. Na prática, empresas vendedoras ameaçam não vender determinados produtos se não comprarem outros (esta situação não é legal, pois caracteriza uma venda casada). As empresas compradoras podem rejeitar ofertas se forem as únicas com capacidade de comercializar o tipo de produto em análise. 3 Execução 3.1 Abertura Nesta etapa, deve ser criado um clima de confiança, reduzindo a tensão entre os interlocutores. Os negociadores começam a confirmar ou não a imagem que tinham em mente (fruto da sua pesquisa de planejamento), a avaliar o comportamento do seu interlocutor e a deixar claro os benefícios esperados do trabalho conjunto. Em muitos casos, é nesta fase que ocorre o primeiro contato entre os negociadores. Por isso é necessário que cada negociador potencialize o seu poder de referência, citando relacionamentos pessoais ou empresariais existentes, apresentando o impacto dos produtos da empresa em mercados de prestígio ou apresentando referencias bancárias, por exemplo, carta de conforto bancário. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 7 Carta de conforto bancário (ou BCL Bank Comfort Letter) é um documento abstrato em que um banco garante a solvabilidade do cliente até determinado limite (SOUSA, 2007, p. 113). 3.2 Exploração Nesta fase, os negociadores – além de terem a oportunidade de confirmar as premissas elaboradas durante a fase de preparação (RIBEIRO, 2008, p. 41) – procuram adaptar-se mutuamente, pois embora pareça vantajoso para um negociador sentir-se superior ao outro, não é claro que essa postura contribua para uma negociação proveitosa e durável (SOUSA, 2014, p. 55). Assim, estabelece-se uma reciprocidade psicológica, na qual as pessoas tendem a tratar os outros da mesma forma com que são tratadas. Os negociadores devem ser objetivos de forma a colherem o máximo de informações da outra parte, incluindo qual a MAANA (melhor alternativa à negociação de um acordo). Wanderley (1998 apud RIBEIRO, 2008, p. 42) sugere que nesta fase devem ser feitas perguntas com vários propósitos: 1. fatos desconhecidos que não tenham sido revelados na fase de preparação; 2. fatos conhecidos para entender o padrão de respostas da outra parte; 3. pressupostos para confirmar ou não pressuposições feitas na fase de planejamento. 3.3 Apresentação Colocar claramente os objetivos e as expectativas iniciais de ambas as partes. Nesta etapa, cabe usar as habilidades de comunicação e de persuasão atuando como um vendedor (RIBEIRO, 2008, p. 43). O objeto do negócio (produto ou serviço) deve ser cuidadosamente apresentado, realçando seus atributos e benefícios. É importante que negociadores realcem o seu poder de conhecimento (sobre o produto, a concorrência e o mercado), aumentando a sua credibilidade e facilitando o processo de persuasão. 3.4 Clarificação Nesta etapa, são esclarecidos os pontos que não tenham ficado claros na etapa anterior. Os negociadores devem assumir posturas de ouvintes atentos, considerando as objeções levantadas pela outra parte como oportunidades para detalhar mais o objetivo do negócio. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 8 Em qualquer negociação existem dúvidas e objeções que devem ser esclarecidas. Um método de lidar com objeções é o modelo multiatributos de Fishbein. Este método parte do princípio de que o produto ou serviço que está sendo negociado pode ser “fatiado” em atributos, pois são eles que estão sendo negociados na realidade. Alguns atributos são mais bem aceitos pelas partes, outros são valorizados somente por uma das partes. Enquanto estes últimos devem ser evitados – pois causarão polêmica na sua discussão –, os outros devem ser enaltecidos, permitindo o aprofundamento da negociação. Saiba mais sobre o modelo multiatributos de Fishbein consultando a Midiateca. 4 Pós-negociação 4.1 Ação final – fechamento da negociação Nesta etapa, é obtido o acordo. São oferecidas opções (concessões), apelando para o outro negociador o fechamento da negociação, e sobressai o poder de recompensa, que deve ser exercido pelos negociadores ao oferecerem à outra parte concessões como contrapartida ao fechamento da negociação. O fechamento da negociação precisa ser cumprido em certo tempo e que é determinado quando um dos negociadores relaxa – o que pode ser observado pela forma de olhar, pelo descruzar das pernas ou outros sinais de relaxamento. A continuação do processo além deste ponto não favorece as partes, pois pelo menos para um negociador já não há mais nada para mediar (SOUSA, 2014, p. 56). Continuar além deste ponto dará mais força ao negociador que relaxou, pois leva a pensar que o outro pode ir além nas concessões. 4.2 Obstáculos à negociação São diversos os obstáculos enfrentados pelos negociadores internacionais, o que dificulta a fluidez do processo. Muitos derivam da dificuldade de adaptação dos negociadores ao ambiente; outros, da sua postura no processo de comunicação ou mesmo da necessidade de afirmação pessoal, ao procurarem demonstrar terem domínio sobre o processo. Algumas das barreiras mais comuns enfrentadas pelos negociadores são: • prender-se a detalhes e esquecer o todo – por exemplo, quando o negociador, para justificar prazos de entrega, perde muito tempo detalhando como decorrem os procedimentos aduaneiros no seu país (fato que interessa somente a ele, pois a outra Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 9 parte está interessada em saber se os prazos serão cumpridos); • confiar demais na sua habilidade e queimar etapas no processo – quando o negociador, para cumprir um prazo de entrega, afirma que “dará um jeito” na produção e que o seu interlocutor pode confiar na sua palavra; • improvisar, abusar do jogo de cintura e não planejar; • não cumprir prazos, perdendo a credibilidade; • assumir posturas defensiva; • não saber ouvir; • utilizar de termos técnicos em demasia; • querer impor o que deu certo no seu mercado; • não ter domínio de idiomas estrangeiros. 4.3 Controle/Avaliação O sucesso de uma negociação pode ser medido de diversas formas: • Na forma de substância, uma negociação bem-sucedida resulta em um acordo mutuamente benéfico, a um custo menor que uma alternativa fora do contexto da negociação; • Na forma de processo, uma negociação de sucesso é aquela em que o acordo é justo e eficaz em termos de tempo e dinheiro para todos os que têm interesse no resultado; • Na forma de relacionamento, uma negociação de sucesso é aquela na qual as partes mantêm relações civilizadas, respeito mútuo e reconhecimento. (STOECKICHT et al., 2014, p. 122). A avaliação de uma negociação pressupõe refletir sobre o que se passou, para que os mesmos erros não sejam cometidos futuramente. Classificar uma negociação como bem- sucedida significa encontrar um resultado satisfatório, o que imediatamente inclui identificar em seu processo aspectos que podem afetar positivamente o relacionamento entre os negociadores. A negociação é o começo da ação (LANGDON, 2009, p. 114). Os compromissos assumidos no processo devem ser cumpridos, o que normalmente envolve trabalho em equipe. A assimilação da cultura de internacionalização pela empresa é fator crítico ao sucessodo acordo negociado e ao cumprimento dos compromissos assumidos. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 10 Uma empresa tem cultura internacional quando entende e se adapta facilmente às diferenças culturais de qualquer mercado, independentemente de sua localização geográfica (FIGUEIRA; COTTA DE MELLO, 2015, p. 115-116). Sempre que ocorrerem circunstâncias diferentes que possam afetar o cumprimento dos compromissos firmados, o outro lado deve ser informado, pois possibilitará o reajuste do plano de execução do contrato. O sucesso da nova negociação depende do desempenho na negociação atual, por isso deve trabalhar-se duro para evitar quaisquer surpresas desagradáveis (LANGDON, 2009, p. 115). Considerações finais Nesta aula, estudamos a estrutura de um processo de negociação e os aspectos mais importantes que devem ser observados em cada etapa do processo. Foi dada ênfase ao planejamento, que deve ser cuidadosamente produzido, reunindo o maior número possível de informações sobre o país, o mercado-alvo que a empresa pretende explorar e o comportamento dos consumidores que serão atendidos. Também identificamos a forma como as bases do poder podem influenciar o processo de negociação e as metodologias utilizadas para lidar com objeções que por ventura ocorram. Finalmente, foi analisada a importância do controle e avaliação do processo como forma a aumentar a eficiência do processo em futuras negociações. Até a próxima e bons estudos! Referências FIGUEIRA, Ariane; COTTA DE MELLO, Renato (Org.). Negócios internacionais: perspectivas brasileiras. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015. LANGDON, Ken. Você sabe conduzir uma negociação? Técnicas eficazes para assegurar os resultados que você deseja. São Paulo: Senac, 2009. MARTINELLI, Dante Pinheiro; VENTURA, Carla A.; MACHADO, Juliano R. Negociação internacional. São Paulo: Atlas, 2007. RIBEIRO, Vinicius Farias. Negociação internacional a percepção do negociador brasileiro: um estudo de caso. 2008. 166 f. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Pós-graduação e Pesquisa em Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro. 2008. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 11 SOUSA, José Meireles. Como evitar fraudes em comércio exterior. São Paulo: IOB, 2007. _____. Empreender em mercados internacionais. São Paulo: Saraiva, 2014. STOECKICHT, Ingrid Paola et al. Negociação internacional. São Paulo: FGV, 2014. Estratégias de Negociação Internacional Aula 06 Áreas de Conflito e Disputas mais Comuns Objetivos Específicos • Correlacionar as áreas de conflito com a realidade das disputas internacionais; sintetizar os aspectos operacionais e comerciais dentro do conflito de interesses entre as partes; propor soluções para minimizar conflitos gerados. Temas Introdução 1 Variáveis condicionantes dos processos de negociações internacionais 2 Obstáculos e desafios nas negociações internacionais Considerações finais Referências José Manuel Meireles de Sousa Professor Autor Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 2 Introdução Nesta aula, estudaremos as variáveis que condicionam os processos de negociações comerciais, além de analisar a forma como elas impactam na negociação e as possíveis soluções que minimizam situações conflitantes. Analisaremos também o trade-off entre o custo, o tempo e a qualidade – variáveis fundamentais da negociação. Identificaremos os principais obstáculos e desafios das negociações internacionais e proporemos soluções que tornem situações conflitantes em oportunidades de negócio. Bons estudos! 1 Variáveis condicionantes dos processos de negociações internacionais As negociações internacionais são concretizadas por operações de grande complexidade, sendo necessário aos negociadores o domínio de técnicas de gestão dos trade-offs das variáveis que impactam no processo de negociação. Quando empresas negociam produtos ou serviços, as variáveis que devem ser consideradas têm as seguintes características: • são sistêmicas, pois impactam em toda a empresa, principalmente no que diz respeito à cultura de internacionalidade; • são interfuncionais, pois conduzem a processos de inter-relacionamento das funções empresariais (comercial, produção, financeira etc.); • são processuais, pois inserem novos processos na organização, como é o caso de processos administrativos de despacho aduaneiro ou de câmbio. Trade-off é uma expressão que define uma situação em que há conflito de escolha. Expressa uma relação funcional entre os componentes de um sistema que pode estimular ou inibir o desempenho conjunto. Em processos de negociação, as seguintes variáveis devem ser especialmente analisadas: • Custo: definido como valor para o adquirente e preço de venda para o fornecedor; • Tempo: definido como a capacidade de a empresa atender aos prazos de entrega acordados; Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 3 • Qualidade: definida como as características ou atributos acordados no contrato de compra e venda. Figura 1 – Principais variáveis em processos de negociação internacional Uma análise do trade-off destas variáveis pode ter várias implicações no sucesso da negociação e, consequentemente, na concretização do acordado no processo de negociação. • Uma concessão no prazo de entrega (entrega em menor prazo que o previsto) pode alterar o custo – pois o transporte deve ser o mais rápido e não o mais barato – e na qualidade, pois a pressa pode levar à quebra de qualidade nos produtos. • Uma concessão no custo pode levar à escolha de um transporte mais barato e menos seguro ou ainda a uma quebra na qualidade dos produtos. • Uma variação nas características dos produtos pode levar a um aumento do custo ou a uma diminuição no ritmo da produção. As variáveis consideradas – custo, tempo e qualidade – impactam nas características desejáveis, que são: • Capacidade de resposta: entrega das quantidades solicitadas no prazo determinado e em condições de uso apropriadas; • Flexibilidade: capacidade rápida de adaptação das operações a alterações ambientais e a imprevistos operacionais, de forma a cumprir com as condições negociadas; • Fragilidade: capacidade de as operações suportarem cortes em custos sem diminuírem o nível de serviço acordado nas negociações. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 4 1.1 Condicionantes à fixação de preços em negociações internacionais O preço de transação acordado na negociação corresponde ao valor recebido pelo vendedor, mas geralmente é diferente do valor pago pelo comprador na aquisição do produto. Neste sentido, é pertinente afirmar que a negociação do preço de transação deve levar em conta o custo da aquisição, pois na hora de se fixar um preço internacional para venda de um produto em determinado mercado exterior são diversas as variáveis que o condicionam (SOUSA, 2014, p. 97): • comportamento da taxa de câmbio no país importador; • custos adicionais como os referentes à exportação: transportes, seguros ou os tributos na importação no país de destino; • margens para o importador, para o atacadista e para o varejista (dependendo do canal de distribuição selecionado); • o risco que cada empresa pretende assumir. Alguns destes aspectos podem ser quantificados, minimizados ou mesmo anulados, como é o caso da cobertura dos riscos cambiais ou financeiros. Os riscos cambiais podem ser reduzidos por operações de câmbio futuro ou por proteção com mecanismos derivativos negociados em bolsas de futuros. Já os riscos financeiros podem ser mitigados por seguros de crédito ou outras operações avalizadas por instituições financeiras. No entanto, é necessário entender que sempre que se minimizam os riscos aumenta-se o custo da operação. Além dos aspectos citados,outros dependem de opções estratégicas e podem também influenciar o custo das operações, como é o caso das modalidades de exportação (canal de distribuição) ou de opções por Inconterms. Saiba mais sobre Incoterms consultando a Midiateca. Outro aspecto, não menos importante, que deve ser levado em conta no processo de negociação está relacionado ao trade-off das variáveis: quantidade versus custos de transporte versus capital de giro. Se para fechar um acordo a um valor mais baixo o negociador (exportador) conseguir contratar a venda de maior quantidade e, dessa forma, projetar um custo de frete menor por aumento da quantidade transportada, não deve ser omitido que o capital investido no negócio é maior e, como tal, deve ser considerado um aumento do custo financeiro da operação. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 5 2 Obstáculos e desafios nas negociações internacionais Salacuse (2003 apud STOECKICHT et al., 2014, p. 103) descreve alguns obstáculos com os quais o negociador global pode se deparar na condução de uma negociação internacional e que podem impactar a sustentabilidade de um acordo. Os sete pontos de atenção são apresentados na figura e nos tópicos a seguir. Figura 2 – Obstáculos e desafios nas negociações internacionais 2.1 Ambiente de negociação As negociações internacionais sofrem a interferência de quatro elementos: local, horário, ambiente e pessoas (STOECKICHT et al., 2014, p. 104). Para os autores, estes elementos têm um impacto direto na condução do processo negocial e influenciam o comportamento do negociador. Embora cada cultura apresente diferentes características, alguns aspectos são comuns e devem ser levados em conta quando se negocia com empresas de outros países, sobretudo quando a negociação ocorre em ambiente diferente do usual. Assim, negociadores devem estar atentos aos seguintes aspectos (SOUSA, 2014, p. 58): Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 6 • Escolha cuidadosa do local (país) para a negociação: ▫ o custo de uma viagem internacional é igual nos dois sentidos! ▫ poderá ser interessante convidar o seu interlocutor, pois ganhará poder (joga em sua casa). • Escolha cuidadosa do local (ambiente) para a negociação: ▫ um europeu poderá fechar uma negociação após um almoço; ▫ o americano considera almoçar tempo perdido; ▫ um escritório suntuoso poderá amedrontar o interlocutor; ▫ um escritório humilde poderá inibir o interlocutor. • Verificação do horário para a negociação: ▫ uma negociação pode requerer informações em horário de trabalho e o fuso horário poderá ser um limitador; ▫ sexta-feira não é considerado dia de trabalho em certos países. 2.2 Aspectos culturais É fundamental que os negociadores não se deixem levar pelos estereótipos, pois por vezes as pessoas têm percepções de povos e culturas que estão longe da realidade (RIBEIRO, 2008, p. 59). Os negociadores devem buscar estudar as culturas e os hábitos do país de origem a fim de conduzir as negociações da melhor maneira possível. Sousa (2014, p. 57) salienta que, para aumentar a fluidez das negociações multiculturais, devem ser observados os seguintes aspectos, entre outros: • Fale devagar: embora o inglês seja o idioma mais usado em negociações internacionais, os interlocutores deverão falar devagar e assegurarem-se de que a sua pronúncia é clara. • Separe as questões: tente não questionar em duplicado, por exemplo: “Quer continuar ou parar por aqui?”. Deixe o seu interlocutor responder a uma questão de cada vez. • Evite questões negativas: em idioma inglês, “é” é afirmativo, e “não é” é negativo. No Brasil, “pois não” significa “sim”. • Alterne perguntas com pausas: a comunicação multicultural é melhorada com “turnos”, questionando e esperando para ouvir a resposta. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 7 • Escreva as suas dúvidas: sempre que estiver inseguro ou se alguma questão não ficou esclarecida, escreva e verifique posteriormente. Por exemplo, “1 billion” é 1.000.000.000.000 nos Estados Unidos e 1.000.000.000 na Europa. • Apoie o seu interlocutor: na comunicação, é essencial que os interlocutores estejam confortáveis. Instigue confiança naqueles que não dominam bem o idioma inglês: isso aumentará a sua confiabilidade. • Verifique o sentido das palavras: na comunicação intercultural, nunca considere que o seu interlocutor entendeu tudo. Seja um ouvinte ativo. Sintetize o que ouviu e verifique tudo. • Evite gírias: mesmo o mais educado estrangeiro não conhecerá todas as gírias. O perigo é que as palavras podem ser mal interpretadas. • Cuidado com as piadinhas: em certas culturas, os negócios são considerados de forma muito séria. Em muitas culturas não é indicado que sejam contadas piadinhas. Cuidado com o humor, o sarcasmo inglês tem um efeito negativo em certas culturas. • Mantenha a sua postura: em certas culturas, é importante manter a postura (etiqueta) durante a comunicação. Deve-se sempre ter consciência desse aspecto antes de negociar. 2.3 Crenças e ideologias Em negociações, a racionalidade deve prevalecer relativamente à emotividade. Questões técnicas devem ser bem esclarecidas, já questões pessoais devem ser facilmente ultrapassadas. Enquanto os latinos acham os americanos muito insensíveis e pouco emotivos, os asiáticos acreditam que os americanos são demasiado emotivos e deixam as emoções atrapalharem as negociações (RIBEIRO, 2008, p. 60). As ideologias determinam o que está certo e errado, direcionam pessoas para determinados objetivos e inspiram mudanças sociais, podendo transformar-se em barreiras à negociação. Por isso, o negociador deve contemplar as diferentes ideologias, mas evitar discuti-las à mesa da negociação (SALACUSE, 2003 apud STOECKICHT et al., 2014, p. 110). Assim, recomenda-se que o negociador internacional identifique e conheça bem os impactos que diferentes crenças e ideologias podem ter sobre o processo de negociação. 2.4 Modelos de governança Para viabilizar a implementação de um acordo, a negociação deve ser considerada um processo sistêmico e sistemático (STOECKICHT et al., 2014, p. 112), cujos resultados devem Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 8 estar alinhados aos interesses e estratégias organizacionais em seus níveis operacionais, administrativo e estratégico. Nestas condições, o negociador precisa identificar quais as partes interessadas às quais ele deve se reportar. Em termos objetivos e no decorrer de uma negociação internacional, o negociador precisa tomar decisões que podem alterar o fluxo produtivo, impactar no resultado final da empresa ou mesmo garantir o desenvolvimento sustentável, embora com quebra pontual da receita. Com base no conhecimento dos modelos de governança e estruturas hierárquicas das organizações envolvidas no processo, o negociador deve estabelecer a estratégia de aproximação com cada parte ainda na preparação da negociação, além de identificar quem são os decisores, influenciadores, opositores, apoiadores existentes nas várias dimensões do cenário negocial (STOECKICHT et al., 2014, p. 113). 2.5 Sistema legal e papel do governo As negociações internacionais normalmente se materializam na forma de contratos internacionais. A compreensão do processo de celebração dos contratos internacionais é fator crítico ao sucesso de uma negociação. Assim, é necessário entender a legislação de cada país no que se refere à forma como impacta no comércio exterior e o papel exercido pelos governos no controle das operações, como é o caso de agências reguladoras que interferem no comércio exterior. Martinelli, Ventura e Machado (2004, p. 202) afirmam que o contrato pode ser definido como a “[...] manifestação de vontade, tácita ou expressa, em que se revela a intenção de duas ou mais partes, capazes de contrairdireitos e obrigações, tendo objeto lícito e forma contemplada ou não defesa em lei”. A pluralidade de sistemas jurídicos a que o contrato internacional está sujeito levou a Comissão das Nações Unidas para a Legislação Internacional (United Nations Commission on International Law – Unictral) a imprimir esforços para uniformizar algumas práticas. O conhecimento da forma de atuação das agências reguladoras (como é o caso das limitações impostas pela Anvisa, por exemplo) é fundamental para se obter sucesso na operação comercial. 2.6 Diversidade dos sistemas financeiro e monetário A estrutura financeira que apoia o comércio exterior compreende órgãos normativos, entidades supervisoras e órgãos operacionais que atuam diretamente no sistema financeiro: bancos (centrais ou comerciais), empresas seguradoras de transporte de mercadorias e de crédito e bolsas de valores de mercadorias (SOUSA, 2010, p. 4). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 9 Os órgãos normativos estabelecem as diretrizes e normas de atuação aos operadores financeiros que são supervisionados pelas entidades supervisionadoras. No Brasil, a estrutura do sistema financeiro pode ser analisada conforme o quadro a seguir: Quadro 1 – Estrutura do sistema financeiro brasileiro Órgãos normativos Entidades supervisoras Operadores Conselho Monetário Nacional (CMN) Banco Central do Brasil (BCB) Instituições financeiras captadoras de depósitos à vista Bancos de câmbio e demais instituições financeiras Outros intermediários financeiros e administradores de recursos de terceiros Comissão de Valores Mobiliários (CVM) Bolsas de mercadorias e futuros Bolsas de valores Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP) Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) IRB – Brasil Resseguros Sociedades seguradoras Sociedades de capitalização Entidades abertas de previdência complementar Conselho de Gestão da Previdência Complementar (CGPC) Secretaria de Previdência Complementar (SPC) Entidades fechadas de previdência complementar (fundos de pensão) Fonte: Adaptado de Brasil (2015). No que diz respeito ao funcionamento do mercado de câmbio e à circulação de capitais internacionais, é necessário estar atento à Resolução do Banco Central do Brasil nº 3.568, de 28/05/2008 e suas alterações. As transações internacionais ocorrem em sistemas financeiros e monetários diferentes, através dos quais o uso de diferentes moedas pode trazer desafios à sustentabilidade de uma negociação internacional (STOECKICHT et al., 2014, p. 117). O risco cambial refletido pela instabilidade e percebido pelas empresas será maior quanto maiores forem os prazos entre as negociações e a concretização dos pagamentos. Também o risco financeiro está dependente de obstruções no sistema financeiro que dificultem os fluxos normais de pagamentos entre países. Nas negociações, os riscos financeiros e cambiais podem ser mitigados de várias formas: • passando para a outra parte o risco financeiro (exigindo, por exemplo, pagamento antecipado) ou o risco cambial (cotando produtos e serviços em moeda local); • terceirizando o risco financeiro (pela contratação de um seguro de crédito ou por transações em Forfaiting) e o risco cambial (contratando câmbio forward ou protegendo-se no mercado de derivativos); Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 10 • assumindo totalmente o risco financeiro e o risco cambial, ganhando em contratos com valor superior e especulando no câmbio. No planejamento e na preparação da negociação, as partes deverão avaliar a possibilidade de converter e transferir recursos financeiros entre os países envolvidos na transação, além de determinar de que maneiras poderão efetuar pagamentos e cumprir suas obrigações financeiras (STOECKICHT et al., 2014, p. 118). 2.7 Mudanças abruptas no cenário mundial Um negociador internacional deve estar apto e bem informado a respeito de uma série de pontos fundamentais para sua atividade, quais sejam (MARTINELLI; ALMEIDA apud MARTINELLI; VENTURA; MACHADO, 2004, p. 201): • habilidades internacionais de negociação que são críticas para seu sucesso; • grande amplitude e variedade de acordos e negócios realizados em nível internacional; • frequência e constância cada vez maiores de investimentos feitos pelas empresas em nível mundial; • emergência de uma economia cada vez mais globalizada, com a queda contínua de barreiras entre os países. São diversos os fatores que aumentam o risco de insustentabilidade em acordos comerciais, como é o caso de: instabilidade econômica, social e política gerada por guerras, desastres naturais, flutuações cambiais, mudanças em políticas nacionais e internacionais e substituição das lideranças nas esferas governamentais (STOECKICHT et al., 2014, p. 118). Nesse contexto, a informação atualizada torna-se o principal elemento crítico ao sucesso das negociações internacionais. A capacidade de captar em tempo real informações e de filtrá-las, de forma a utilizá-las na tomada das decisões, em processos de negociação é uma competência fundamental do negociador internacional. Analisamos os principais obstáculos que se colocam ao negociador internacional e as formas de ultrapassá-los; outras barreiras internas à organização, que já foram analisadas, também devem ser consideradas entre elas, e eventualmente a mais importante, a necessidade da interiorização a toda a organização da cultura de internacionalidade. Isso porque, como analisamos na primeira parte deste curso, sem uma cultura na empresa que respeite as diferenças de valores e de normas torna-se difícil o desenvolvimento dos negócios internacionais. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Estratégias de Negociação Internacional 11 Saiba mais sobre sistema financeiro nacional consultando a Midiateca. Considerações finais Nesta aula, estudamos os principais obstáculos que se colocam aos negociadores internacionais no processo de negociação internacional. Conforme analisamos, as dificuldades do negociador podem ter origem em fatos ambientais ou em aspectos internos à organização, provocando situações conflitantes, que devem ser gerenciadas e resolvidas pela empresa, de forma sistêmica. Também ficou claro que uma cultura de internacionalidade assimilada pela empresa ajuda na busca de soluções para estas situações conflitantes. Até a próxima e bons estudos! Referências BRASIL. Banco Central do Brasil. Resolução nº 3.568, de 29 de maio de 2008. Dispõe sobre o mercado de câmbio e dá outras providências. 2008. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br/pre/ normativos/busca/downloadNormativo.asp?arquivo=/Lists/Normativos/Attachments/47908/ Res_3568_v9_P.pdf>. Acesso em: 29 out. 2015. _____. Composição e evolução do SFN. 2015. Disponível em: <http://www.bcb.gov. br/?SFNCOMP>. Acesso em: 29 out. 2015. MARTINELLI, Dante Pinheiro; VENTURA, Carla A.; MACHADO, Juliano R. Negociação internacional. São Paulo: Atlas, 2004. RIBEIRO, Vinicius Farias. Negociação internacional a percepção do negociador brasileiro: um estudo de caso. 2008. 166 f. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Pós-graduação e Pesquisa em Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro. 2008. SOUSA, José Meireles. Gestão Financeira do Comércio Exterior. São Paulo: Saraiva, 2010. _____. Empreender em mercados internacionais. São Paulo: Saraiva, 2014. STOECKICHT, Ingrid Paola; MALLMAN Dorval Olivio; MEN, João C.; DUZERT, Yann. Negociação internacional. São Paulo: FGV, 2014.