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Curso de Teoria Geral do Processo Análise de conceitos fundamentais O ser humano possui uma vocação natural para viver em grupo, associado a outros seres da mesma espécie. Induvidosamente, é um animal político, que nasce com a tendência de viver em sociedade. Cada ser humano tem necessidade dos demais para sua própria conservação e aperfeiçoamento, pelo que a sociedade não é uma formação artificial, mas uma necessidade natural do homem. Quem contempla um agrupamento social verifica que ele revela aos olhos do observador os homens com as suas necessidades, os seus interesses, as suas pretensões e os seus conflitos. Estes conceitos não são criados ou moldados pela teoria geral do processo nem patrimônio exclusivo dela, mas que Carnelutti, no âmbito da teoria geral do direito, submeteu a uma rigorosa análise de síntese. O primeiro desses conceitos a merecer atenção é o conceito de necessidade, que não é de índole essencialmente jurídica. Esta expressão “necessidade”, difícil de ser definida, traduz-se numa situação de carência ou desequilíbrio biológico ou psíquico, e, etimologicamente, deriva de nec + esse, que significa não ser, não existir, traduzindo a falta de alguma coisa ou algo que não é. O homem experimenta necessidades as mais diversas, sob variados aspectos, e tende a proceder de forma que sejam satisfeitas; que desapareça a carência ou se restabeleça o equilíbrio perdido. A necessidade decorre do fato de que o homem depende de certos elementos, não só para sobreviver, como para se aperfeiçoar social, política e culturalmente, pelo que não seria errôneo dizer que o homem é um ser dependente. Se o homem é um ser dependente, podemos concluir que a necessidade é uma relação de dependência do homem para com algum elemento, relação essa que Carnelutti precisou como sendo uma “necessidade”. Doutrina Carnelutti que entre os entes existem relações de complementaridade e isto se deve a uma manifestação vital de que alguns são dotados, que os impulsiona a combinar-se com os entes complementares. A força vital consiste precisamente em que os que têm vida sintam estímulo para tal combinação. O estímulo age mediante uma sensação penosa, enquanto falta a combinação, e, mediante uma sensação agradável, quando a combinação se produz. Essa tendência para a combinação de um ente vivo (homem) com um ente complementar (bem) constitui uma necessidade. A necessidade se satisfaz com a combinação. Sendo a necessidade satisfeita mediante determinados elementos, emerge, em seguida, conceito de bem ou bem da vida. Para Carnelutti, bem é o elemento capaz de satisfazer a uma necessidade do homem; sendo esse vocábulo derivado de bonum quod beat, ou seja, porque faz bem. Nesse mesmo sentido, Ugo Rocco, para quem bem é tudo o que é apto para satisfazer, ou que satisfaz, a uma necessidade, permitindo a amplitude do conceito que ele compreenda tanto bens materiais, como a água, o alimento, o vestuário e o transporte, quanto imateriais, como a paz, a liberdade, a honra e o amor. Fixado o conceito de bem, chega-se ao conceito de utilidade, que nada mais é do que a aptidão de um bem para atender a uma necessidade. Ugo Rocco define a utilidade como a idoneidade de um bem para satisfazer a uma necessidade. De um lado, temos o homem com as suas necessidades e, de outro, os bens com a sua utilidade. A necessidade e a utilidade despertam o interesse do homem pelo gozo dos bens da vida, o que não significa que, sempre que haja utilidade num bem, ocorra um interesse relativamente a ele. É preciso que à utilidade se alie uma necessidade presente ou de previsão futura, exemplificando Carnelutti que o pão é um bem e tem sempre utilidade, mas não haverá interesse a não ser para quem tem fome ou possa prever que venha a tê-la. Emerge aí, então, o conceito de interesse, muito discutido em sede doutrinária. Para Ugo Rocco, o interesse é um juízo, formulado por um sujeito acerca de uma necessidade, sobre a utilidade ou sobre o valor de um bem, enquanto meio para a satisfação dessa necessidade. Por conseguinte, o interesse é um ato da inteligência, que é dado pela tríplice representação de um bem, de uma necessidade e da aptidão do bem para satisfazer a essa necessidade. Para Carnelutti, porém, o interesse não é um juízo, mas uma posição do homem; ou mais precisamente a “posição favorável à satisfação de uma necessidade”, e, portanto, uma relação entre o homem que experimenta a necessidade e o bem apto a satisfazê-la. Se o interesse é uma posição do homem favorável à satisfação de uma necessidade, esta posição se verifica em relação a um bem; pelo que o homem e bem são os dois termos dessa relação que se chama interesse. O sujeito do interesse é o homem e objeto dele, o bem da vida. Que o interesse consista numa relação, verifica-se através da própria palavra, que é uma das mais expressivas, derivada de quod inter est (que está entre), pelo que aquele que está entre uma necessidade e um bem apto a satisfazê-la estará numa posição ou situação de “interesse”. Assim, se o homem tiver fome, tendo o alimento à sua disposição, estará numa posição ou situação de interesse; mas, se tiver fome, sem ter o alimento à sua disposição, não estará. Alguns, diz Carnelutti, fazem do interesse um juízo, algo que estaria dentro e não fora de nós, sem pensar que, se assim fosse, ou não haveria guerra ou esta seria uma raridade, pois seria bastante difícil que os homens se lançassem uns contra os outros por uma questão de dissídio de opinião. A relação entre o homem e o bem não é um juízo; sendo o juízo necessário para revelar a existência dessa relação. O interesse pode ser de duas espécies: interesse imediato e interesse mediato. Quando uma posição ou situação se presta diretamente à satisfação de uma necessidade, o interesse se diz imediato; como, por exemplo, a posição ou situação de quem possui o alimento, o qual se presta diretamente à satisfação da necessidade de alimentar-se. Se, no entanto, a posição ou situação do homem apenas indiretamente se presta à satisfação de uma necessidade, enquanto dela possa derivar outra situação (intermediária), que propicie essa satisfação, diz-se interesse mediato; como, por exemplo, a posição ou situação de quem possui o dinheiro para adquirir o alimento. Distingue-se, ainda, o interesse em interesse individual e interesse coletivo. O interesse se diz individual quando a posição ou situação favorável à satisfação de uma necessidade pode determinar-se em relação a um indivíduo, isoladamente; como, por exemplo, o uso de uma casa, porque cada um pode ter uma casa para si. O interesse se diz coletivo quando a situação favorável à satisfação de uma necessidade não se pode determinar senão em relação a vários indivíduos, considerados em conjunto; como, por exemplo, o uso de uma grande via de comunicação, porque esta não pode ser construída para a satisfação da necessidade de um só homem, mas apenas da necessidade de muitos homens. Doutrina Amaral Santos que, no interesse individual, a razão está entre o bem e o homem, conforme suas necessidades; e, no interesse coletivo, a razão ainda está entre o bem e o homem, mas apreciadas as suas necessidades em relação a necessidades idênticas do grupo social. A existência dos interesses coletivos explica a formação dos grupos sociais, e, porque a satisfação de muitas necessidades humanas não pode ser conseguida isoladamente, os homens se unem em grupos, fazendo surgir a família, a sociedade civil, a corporação, o sindicato, o Estado etc. Classifica-se, ainda, o interesse em interesse primário e interesse secundário, enquanto o juízo de utilidade considere o bem em si mesmo, como apto diretamente para satisfazer a necessidade, ou o estime, apenas indiretamente, como meio para a consecução de outro bem, que satisfaça à necessidade. Como os bens são limitados, ao contrário das necessidades humanas, que são ilimitadas, surgeentre os homens, relativamente a determinados bens, choques de forças que caracterizam um conflito de interesses, sendo esses conflitos inevitáveis no meio social. Ocorre um conflito entre dois interesses, quando a posição ou situação favorável à satisfação de uma necessidade exclui ou limita a posição ou situação favorável à satisfação de outra necessidade. As necessidades do homem aumentam com maior rapidez do que aumentam os bens, e a limitação dos bens, em relação às necessidades, explica que, com frequência, o homem se encontre frente ao dilema, ante duas necessidades, sobre qual deva satisfazer e qual deva sacrificar. Delineia-se, então, um conflito entre dois interesses de um mesmo homem, a que se denomina conflito subjetivo de interesses. Essa modalidade de conflito ocorre quando alguém tem necessidade de alimentar-se e vestir-se, mas possui dinheiro para satisfazer apenas a uma delas; e, como se trata de dois interesses de uma mesma pessoa, o conflito se resolve com sacrifício do interesse menor em favor do interesse maior. Este conflito pode ser relevante para o grupo, na medida em que um desses interesses esteja, mais do que o outro, coligado a um interesse coletivo, mas não haverá aí um conflito entre dois interesses de uma mesma pessoa, mas entre um interesse individual e um interesse coletivo. Como o conflito subjetivo de interesses não se extravasa da pessoa do próprio sujeito nele envolvido, resolve-se quando este faz uma opção; pelo que, uma vez feita a escolha, cessa o conflito, que deixa de existir. Pode ocorrer, também, ante a limitação dos bens e as ilimitadas necessidades dos homens, a hipótese de um conflito entre interesses de duas pessoas, ao qual Carnelutti chamou de conflito intersubjetivo de interesses; conflito este que tem particular importância para o Estado, pelo perigo que representa de uma solução violenta, quando ambos os interessados recorrem à força, para fazer com que o seu interesse prevaleça sobre o interesse do outro. Quando o conflito se manifesta entre interesses de diversos homens, diz Carnelutti, adquire uma gravidade bem distinta do que quando se refere a interesses de um mesmo homem. Se dois homens têm fome e o alimento só basta para satisfazer à necessidade de um, o conflito se resolve sem dificuldade, quando se trata de pai e filho, porque a vida do filho é também um interesse do pai; mas, se esses dois homens são estranhos, e a satisfação da necessidade de um não interessa à do outro, ninguém sabe como possa terminar o conflito. Os conflitos podem ocorrer entre interesses individuais, como, por exemplo, se Tício e Caio têm necessidade de alimentar-se, mas não existe alimento senão para um deles; entre interesse individual e interesse coletivo, como o interesse de Tício à segurança pessoal e o interesse coletivo à defesa do território, que reclama a sua exposição aos perigos da guerra; entre dois interesses coletivos, como o conflito entre o interesse à instrução pública e o interesse à defesa pública, quando os meios à disposição do Estado forem suficientes para a satisfação de apenas um deles. Aponta Dias Marques duas causas dos conflitos de interesses: a primeira, de ordem quantitativa, resultante da insuficiência de determinados bens para a satisfação de todas as necessidades que os solicitam (raridade); a segunda, de ordem qualitativa, dada a impossibilidade em que se encontram certos bens, de dar satisfação a necessidades em sentido contrário. É o caso do indivíduo que deve pagar a outrem certa quantia; pagamento que representa um sacrifício para o devedor, embora seja um benefício para o credor. O conflito intersubjetivo de interesses ou, simplesmente, conflito de interesses, tende a diluir-se no meio social, mas, se isso não acontece, levando os contendores a disputar, efetivamente, determinado bem da vida, para a satisfação de suas necessidades, delineia-se aí uma pretensão. Para Carnelutti, o conflito pode dar lugar à atitude de um dos sujeitos, concretizada na “exigência de subordinação do interesse de outrem ao interesse próprio”; exigência esta que se chama “pretensão”. A pretensão é um modo de ser do direito, que tende a fazer-se valer frente a quem não o respeita, ou, em geral, o discute. Registra Carnelutti que, desde que se dedicou ao estudo do processo, percebeu a necessidade de separar a “pretensão” do “direito”, porque, de outro modo, não se poderia admitir uma pretensão infundada, mas, em princípio, confundiu a pretensão com a afirmação do direito, já que não havia percebido que pode ocorrer não só a pretensão infundada, como, também, a pretensão desarrazoada; por isso, passou a definir a pretensão como “exigência de subordinação do interesse alheio ao interesse próprio”, com o que não só a pretensão é separada do direito, como também da razão; sendo esta precisamente aquilo que vincula a pretensão ao direito. A pretensão é, assim, um ato e não um poder; algo que alguém faz e não que alguém tenha, uma manifestação e não uma superioridade da vontade. Esse ato não só não é o direito como sequer o supõe, podendo a pretensão ser deduzida tanto por quem tem como por quem não tem o direito, e, portanto, ser fundada ou infundada. Tampouco, o direito reclama necessariamente a pretensão, pois tanto pode haver pretensão sem direito como haver direito sem pretensão; pelo que, ao lado da pretensão infundada, tem-se, como fenômeno inverso, o direito inerte. Analisando o conceito de pretensão, adverte Carnelutti que essa palavra, no seu valor semântico, sugere a ideia de uma tensão prévia, prae tendo, como a situação de quem quer ir adiante apesar dos obstáculos. Quando a pessoa cujo interesse deveria ser subordinado não concorda com essa subordinação, ela opõe uma resistência à pretensão; resistência esta entendida como a “não adaptação à subordinação do interesse próprio ao interesse alheio”, ou, sinteticamente, a “oposição a uma pretensão”. A resistência pode consistir em que, sem lesar o interesse de outrem, o adversário conteste a pretensão ou, sem contestar a pretensão, lese o interesse; podendo ocorrer, também, que a resistência se estenda a uma e outra, em que contesta a pretensão e lesa o interesse. Tanto a contestação como a lesão da pretensão, do mesmo modo que a pretensão, são dois atos jurídicos, embora de espécie diversa, sendo a contestação uma declaração de vontade e a lesão da pretensão, uma operação jurídica ou um ato jurídico de evento físico; pelo que se distinguem, em razão da qualidade da resistência, a lide de pretensão contestada e a lide de pretensão insatisfeita. Pode acontecer que, diante da pretensão de um dos sujeitos, o titular do interesse oposto decida pela subordinação, caso em que basta a pretensão para determinar a resolução pacífica do conflito; mas, quando à pretensão do titular de um dos interesses em conflito, o outro oferece resistência, o conflito assume as feições de uma verdadeira lide ou litígio. A lide nada mais é do que um modo de ser do conflito de interesses, pelo que Carnelutti definiu-a como “conflito de interesses, qualificado pela pretensão de um dos interessados e pela resistência do outro”, ou, sinteticamente, “conflito de interesses, qualificado por uma pretensão resistida ou insatisfeita”. A lide tem um elemento material, que é o conflito de interesses, e um elemento formal, que são a um só tempo a pretensão e a resistência (ou oposição). O conflito de interesses é uma lide, enquanto uma das pessoas formula contra a outra uma pretensão, e esta outra oferece resistência. O conceito de lide é controvertido, entendendo alguns que não se trata de um conceito essencialmente processual, porque todo processo pressupõe uma lide, mas nem toda lide desemboca, necessariamente, num processo; pelo que o conceito seria mais sociológico do que jurídico. A lide tem que ser solucionada, para que não seja comprometida a paz social e a própria estruturado Estado, pois o conflito de interesses é o germe de desagregação da sociedade. Fonte: Teoria geral do processo / J. E. Carreira Alvim. – 21. ed. rev. e atual. – Rio de Janeiro: Forense, 2018.