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Um modelo familiar 3
O homem sobrevive em grupos; isto é inerente à condição humana. A necessi·
dade mais básica de uma criança é de uma figura materna, para a limentá·la, protegê·
la e ensiná-la. Além d isso. o homem tem sobrevivido, em todas as sociedades, per-
tencendo a agregações sociais. Em diferentes culturas. estas agregações variam em
seu nível de organização e diferenciação. As sociedades primitivas contam com gran-
des agrupamentos, co m uma distribuição estável de funções. À med ida que associe-
dades ficam mais complexas e são adquiridas novas habil idades. diferenciam-se es·
truturas societárias. A moderna civilização industrial urbana impõe ao homem duas
ex igências conflitantes : a capacidade de desenvolver habi lidades altamente especia-
lizadas e a capacidade de adaptação rápida a uma situação sócio-econômica constan-
temente em mudança. A família sempre tem passado por mudanças que correspon-
dem às mudanças da sociedade. Tem assumido ou renunciado a funções de proteção 1!
e socialização de seus membros em resposta às necessidades da cultura. Neste sen·
tido, as funções da fam 11 ia atendem a dois diferentes objetivos. Um é interno - a I
proteção psicossocia l de seus membros; o outro é externo - a acomodação a uma )
cultura e a transmissão dessa cultura.
A sociedade industrial urbana tem-se introduzido vigorosamente na famllia,
assumindo muitas funções que, antes, eram consideradas deveres familiares. Os
idosos agora vivem à parte. em lares de pessoas idosas ou em núcleos habitacionais
em desenvolvimento para os cidadãos veteranos. O apoio econômico é fornecido
pela sociedade através da previdência ou do bem-estar social. Os jovens são educados
pe las escolas. pela comunicação de massa e pelos companheiros. O valor do que costu·
mava ser o trabalho da mulher tem sido drasticamente reduzido pela moderna tec·
nologia, que modificou as tarefas necessárias à sobrevivência da unidade familiar,
com o trabalho duro que uma máquina pode fazer melhor. As condições, que admi-
tem ou requerem que ambos os esposos trabalhem fora da fam ll ia, criam situações
em que a rede extrafam iliar pode intensificar e exacerbar o conflito entre os esposos.
Em face de todas est;is mudanças, o homem moderno a inda se mantém fiel a
um conjunto de valores. que pertence a uma sociedade diferente, uma sociedade em
que as fronte iras entre a fam I lia e o extrafami liar eram nitidamente delineadas. A ade-
são a um modelo obsoleto leva à classificação de muitas situações, que são clara-
mente transic ionais, como patológicas ou patogênicas. 14. pedra de toque para a vi-
da familiar ainda é o legendário "e assim eles casaram e viveram felizes para sem-
pre". Não é surpresa que qualquer famllia não a lcance este ideal.
O mundo ocidental está num estado de transição e a fam íl ia. que sempre de-
ve se acomodar à sociedade, está mudando com ele. -~~s em !azão _d~_d ificu!.Qa~~
transiciona is, a principal tarefa psicossocial da famllia - apoiar seus..membros - se
tornou mais importante do que nunca. Somente a famllia.~e~-;-r unidade da so-
ciedade, pode mudar e, apesar d isso. manter suficiente continuidade para criar fi-
lhos, que não serão "estrangeiros numa terra estranha", que estarão firmemente en·
ra izados. o suficiente para crescerem e se adaptarem.
A matriz da identidade
Em todas as culturas, ._a famll ia dá a seus membros o cunho da individualida-
de. A experiência humana de identidade tem dois elementos: um sentido de per-
_!encimento e um sentido de ser separado. O laboratório em que estes ingrecfientes-
são m isturados e adm inistrados é a famllia, a matriz da identidade.
No processo inicial de socia lização, as famll ias modelam e programam o com-
portamento e o sentido de identidade da criança. O sentido de pertencimento apa-
rece com uma acomodação de parte da criança aos grupos familiares e com sua pres·
suposição de padrões transacionais, na estrutura famil iar, que são consistentes du-
rante todos os diferentes acontecimentos ela vida. Tommy Wagner é um Wagner e,
elo princípio ao fim de sua vida, será o filho de Emily e Mark. Este será um fator
import ante em sua existência. O fato de Mark ser o pai ele Tom é um fator impor·
tante na vida de Mark, como o é o fato de que ele é o marido de Emily. O sentido
de pertencimento de cada membro é influenciado por seu sentido de pertencer a
uma famllia específica.
O sentido de paração e de individuação ocorre através da participação em dife·
rentes subsistemas 1am iliares em diferentes contextos familiares, tanto quanto através
da participação em grupos extrafam iliares. Como a criança e a famíl ia crescem juntas,
a acomodação da fam i lia às necessidades da criança delimita áreas de autonomia, que
esta experiencia como separação. É destacado um território psicológico e transacio-
nal para aquela criança em particular. Ser Tommy é diverso de ser um Wagner. ·
Mas cada sentido de identidade individual é influenciado por seu sentido de
pertencimento a diferentes grupos. Parte da identidade de Mark Wagner é o fato de
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Minuchin, S. (1990). Famílias: funcionamento e tratamento. Porto Alegre:
Artes Médicas.
que ele é o pai de Tom e o marido de Emily, tanto quanto o de ser filho de seus
pais. Os componentes do sentido de identidade de um indivíduo mudam e perma-
necem constantes. Como Roger Barker o coloca:" A pessoa psicológica, que escreve
ensaios, que marca pontos e atravessa as ruas permanece como uma entidade identi-
ficável entre partes interiores instáveis e contextos exteriores, com ambos os quais
está vinculada e, no entanto, de ambos os quais está profundamente separada." 1
A pessoa psicológica, que é uma entidade separada, está vinculada com contextos
exteriores.
J Muito embora a família seja a matriz do desenvolvimento psicossocial de seus
')membros, também deve se acomodar a uma sociedade e assegurar alguma continui-
dade para a sua cultura. Esta função societária é fonte de ataques sobre a família, na
moderna América.* A sociedade americana está mudando e muitos grupos, dentro
dessa sociedade, querem acelerar a mudança. Estes grupos, muito corretamente, per-
cebem a família como um elemento de conservacionismo e como uma fonte de es-
tase. Os ataques à família são típicos de períodos revolucionários. Cristo disse a
seus discípulos para deixarem seus pais e famílias e segui-lo. A Revolução Francesa,
a russa e a chinesa, todas elas solaparam a estrutura familiar tradicional naqueles
países, numa tentativa de acelerar o progresso na direção de uma nova ordem so-
cial. O kibutz de Israel é outro exemplo do mesmo processo social.
As leis russas relativas à família, durante e depois da revolução, ilustram este
processo. Nos anos vinte, as leis reguladoras de casamento, divórcio e aborto tende-
ram para a dissolução da família. Mas, nos anos trinta, quando a Rússia estava avan-
çando para a cristalização de suas normas societárias recentemente estabelecidas,
as leis foram modificadas, para apoiar a continuidade da família. 2 Similarmente, os
kibutzim israelenses agora estão tendendo para aumentar as funções da família nu-
clear, dentro do kibutz. Em muitos deles, as crianças pequenas agora ficam no quar-
to de seus pais e as crianças em geral vivem com seus pais por período de tempo
mais longo, antes de ingressar no lar das crianças.
Qualquer estudo da família deve inci':Jir a sua complementaridade com a so-
ciedade. A família nuclear, que, pelo menos em teoria, é o padrão da classe média
americana, é um desenvolvimento histórico recente. Mesmo hoje em dia, é grande-
mente confinada às sociedades urbanas industrializadas. Os conceitos das funções
familiares também se modificam à medida que a sociedade muda. Até quatrocen-
tos anos atrás, a família não era considerada como uma unidade de criação da crian-
ça e, até muito mais tarde, ·as crianças não eram reconhecidas como indivíduos comdireitos próprios. 3
* A referência é feita aos Estados Unidos da América (N. da trad.).
1
Roger G. Barker, Ecotogical Psychology: Concepts and Methods for Studying the Environment
of Humen Behavior (Stanford: Stanford University Press, 1968), p. 6.
2
Nicho las S. Timasheff, "The Attempt to Abolish the Family in Russia," in Norman W. Bell
and Ezra F. Vogel, eds. A Modem lntroduction to the Family (Giencoe: Free Press, 1960).
~P·~S:63. . .
Ph1lllp Anes, Centunes of Childhood (New York: Vantage Press, 1962).
Atualmente, a família americana, do mesmo modo que a sociedade america-
na, está num período de transição. E, como a sociedade o transmite, a família está
sob ataque. Por exemplo, um programa de educação pública de televisão, de doze
horas, An American Family, _.seguiu a família Loud através das rotinas de sua vida e
de suas (:elações com empregos, escolas, parentes afins e amigos. Algumas pessoas
aclamaram esta apresentação como uma penetração na comunicação de massa, com
significativo valor antropológico. Outras criticaram a obtusidade da apresentação
da vida familiar. Um grupo crítico significativo foi a própria família Loud. Em
shows independentes de televisão, eles tentaram comunicar a uma audiência de mi-
lhões que não gostaram de si mesmos, tal como haviam sido retratados. Eles salien-
taram que havia muito mais a respeito deles do que foi mostrado. O que a audiên-
cia americana viu, de fato, foi o ponto de vista do produtor. Influenciado por mo-
dos atuais de encarar a família, ele tinha selecionado e posto em relevo excertos
que exemplificassem estes pontos de vista. Distorções similares fqram feitas pelos
cameramen e pelo pessoal que compôs as tomadas, selecionou os close ups e tomou
como alvo o que eles consideraram ser os aspectos pertinentes da família. Os ameri-
canos viram uma família a!llericana, apresentada de acordo com os aspectos cul-
turais da família, que são comumente suscetíveis à moda.
Os ataques à família são provenientes de muitas fontes. Estão se incorporan-
do líderes intelectuais do movimento contracultura! e grupos de jovens, que esti-
veram fazendo experiências com formas comunais de organização familiar e de edu-
. cação infantil. No campo de saúde mental, R. D. Laing e seus seguidores têm sido
influentes na descrição da família como a programadora malevolente da psicose e,
ainda pior, dos adultos "normais", que povoam o nosso mundo.4 O novo movimen-
to feminista também tem atacado a família, descrevendo-a como uma fortificação
do chauvinismo masculino. Vêem a família nuclear como uma organização que não
pode ajupar; apenas produz meninas, criadas para serem esposas na casa de bonecas,
e meninos, que serão praticamente capturados em padrões obsoletos.
A famí lia mudará à medida que a sociedade muda. Provavelmente, de modo
complementar, a sociedade desenvolverá estruturas extrafamiliares para ·se adaptar
às novas correntes de pensamento e às novas realidades sociais e econômicas. Os
anos setenta parecem ser um período intermediário de luta, durante o qual as mu-
danças estão criando uma necessidade de estruturas que ainda não apareceram. O
grande número de famílias, nas quais ambos os pais trabalham fora de casa, por
exemplo, criou uma necessidade de serviços de cuidados diários, em grande escala,
os quais ainda não-estão disponíveis.
A geração hiato é outro exemplo de necessidades não satisfeitas. A família es-
tá abrindo mão da socialização das crianças cada vez mais cedo. A escola, a comu-
nicação de massa e o grupo de iguais estão assumindo a orientação e a educação das
crianças mais velhas. Mas a sociedade não desenvolveu fontes extrafami li ares ade-
quadas de socialização e apoio.
4 R. D. Laing and Aaron Esterson, Sanity, Madness, and the Family (London: Tavistock, 1964).
A sociedade masai tinha uma cu I tu r a de grupo adolescente que era grande-
mente independente, mas eram determinadas certas tarefas específicas para o grupo
desempenhar, sob a supervisão /aissez·faire dos guerreiros da tribo. Os jovens po-
diam, desta maneira, levar a cabo os processos apropriados à idade de separação da
famíl ia e se tornarem independentes, sem se tornarem alienados da sociedade em
geral. Os grupos jovens dos kibutzim israelenses desempenham uma fun ção sim ilar.
A sociedade ocidental não tem funções nitidamente diferenciadas para os adoles-
centes. Quando a família libera seus filhos, os libera para sistemas de apoio inade-
quados. Não é surpreendente que as crises adolescentes de identidade tenham re-
sultado em um certo número de fenômenos sociais antinomianos. 5
A mudança sempre se desloca da sociedade para a família, nunca da unidade
menor para a maior. A família mudará, mas também permanecerá, porque é a me-
lhor unidade humana para sociedades rapidamente mutáveis. Quanto mais flexibili ·
dade e adaptabilidade requer de seus membros, mais significativa se tornará a fam í-
lia, como a matriz do desenvolvimento psicossocia l.
Corno a família, num sentido genérico, muda e se adapta às circunstâncias his-
tóricas, também a famllia individual se adapta constantemente. A famí lia é um sis-
' tema aberto em transformação; isto é, constantemente recebe e envia inputs para e
do extrafamiliar, e se adapta às diferentes exigências dos estádios de desenvolvimen·
J to que enfrenta.
Suas tarefas não são fáceis. Os Wagner. com todas as dificuldades que descre-
vem, na formação da familia e no nascimento de seu filho, representam os est resses
que qualquer família normal encontra. Mas, de alguma maneira, a visão idealizada
prevalente da família normal é de que não seja estressante. A despeito dos estudos
sociológicos e antropológicos da família, o mito de normalidade plácida perdura,
apoiado por horas de personagens bidimensionais de televisão. O quadro de pessoas
vivendo em harmonia, enfrentando inputs sociais, sem ficarem perturbadas, sempre
cooperando uma com a outra, se desmorona sempre que se considera qualquer fa-
mília com seus problemas comuns. Portanto, é alarmante que este padrão seja algu·
mas vezes mantido incontestado por terapeutas, que medem o funcionamento das
famílias de clientes em comparação com a imagem idealizada. Freud salientou que
a terapia transforma padrões neuróticos em at ribulações normais da vida. Seu co-
mentário é igualmente verdadeiro para a terapia fami liar.
Desde que uma família normal não pode ser distinguida de uma família anor·
mal pela ausência de problemas, um terapeuta deve ter um esquema conceitual do
funcionamento famil iar, para ajudá-lo a analisar uma família. Um esquema baseado
na compreensão da familia como um sistema, operando dentro de contextos sociais
específicos, tem três componentes. Primeiro, a estrutura da família é a de um siste-
ma sócio-cultural aberto em transformação. Segundo, a famt'lia passa por um desen-
volvimento, atravessando certo número de estádios, que requerem reestruturação.
5
Salvador Minuchin, "Adolescence: Socicty's Rcsponsc and Responsibility," Adolcscence, 16
(1969), 455-476.
Terceiro. a família se adapta a circunstâncias modificadas. de maneira a manter a
continuic!zde e a intensificar o crescimento psicossocial de cada membro. A entre-
vista com os Wagner foi destinada a revelar o segundo componente des te esquema,
seus estádios de desenvolvimento, com o comentário apresentando os aspectos mais
genéricos do desenvolvimen to famil iar. A estrutura famil iar e a adaptação familiar
requerem discussão ulterior.
Estrutura fam iliar
A estrutura familiar é o conjunto invisível de exigências funcionais que or-
ganiza as maneiras pelas quais os membros da família interagem. Uma família é um
sistema que opera através de padrões transaciona is. Transações repetidas estabele-
cem padrões de corno, quando e com quem se relacionar e estes padrões reforçam o
sistema. Quando uma mãe d iz a seu fi lho para tomar o seu suco e e le obedece, esta
interação define quem ela é em re lação a ele e quem ele é em relação a ela,naquele
contexto e naquele momento. Operações repetidas, nestes termos, constituem um
padrão transacional.
Em sua entrevista, os Wagner descreveram muitos desses padrões. Emily geral-
mente planeja as atividades de sábado da família, mas somente um acontecimento
de grande importância a faria interferir na excursão de pesca dominical de seu ma-
rido. Em sua familia de origem, Emily foi envolvida em uma coalizão com sua mãe
contra seu pai: a mãe encorajava a filha a desobedecer ao pai, que complementava
isto, agredindo a filha, quando estava zangado com a mãe.
Os padrões transacionais regulam o comportamento dos membros da família.
São mantidos por dois sistemas de repressão. O primeiro é genérico, envolvendo as
regras universais que governam a organização familiar. Por exemplo, deve existir
uma hierarquia de poder, em que os pais e os filhos têm diferentes níveis de autori-
dade. Também deve haver uma complementaridade de fun ções, com o marido e a
mulher aceitando a interdependência e operando como urna equipe.
O segundo sistema de repressão é idiossincrâsico, envolvendo as expectativas
mútuas de membros específicos da familia. A origem destas expectativas está mer-
gulhada em anos de negociações explicitas e implícitas entre os membros da famí-
lia, freqüentemente em torno de pequenos eventos cotidianos. Freqüentemente, a
natureza dos contratos originais foi esquecida e eles podem jamais ter sido a lguma
vez expl icites. Mas os padrões permanecem - como se fosse um piloto automático
-como uma questão de acomodação mútua e de eficácia funcional.
Desta maneira, o sistema mantém a si mesmo. Oferece resistência à mudança,
além de certo alcance, e mantém padrões preferidos, desde que possíveis. Padrões
alternativos estão disponíveis dentro do sistema. Mas qualquer desvio, que ultrapas-
se o limiar de tolerância do sistema, faz surgirem mecanismos que restabelecem o
âmbito costumeiro. Quando surgem situações de desequilíbrio do sistema. é comum
que os membros da família achem que os outros membros não estão cumprindo as
suas obrigações. Então, aparecem reinvindicações de lealdade familiar e manobras
que induzem culpa.6
Mas a estrutura familiar deve ser capaz de se adaptar, quando as circuns·
tâncias mudam. A existência continuada de família, como um sistema, depen-
de de uma extensão suficiente de padrões, da acessibilidade de padrões transa-
cionais alternativos e da flexibilidade para mobilizá-los, quando necessário. Des·
de que a fam ília deve responder às mudanças internas e externas, deve ser ca-
paz de transformar-se de maneiras que atendam às novas circunstâncias, sem per-
der a continuidade, que proporciona um esquema de referência para seus mem-
bros.
O sistema familiar diferencia e leva a cabo suas funções através de subsiste-
mas. Os indivíduos são subsistemas dentro de uma família. Díades, tais como es-
poso-esposa e mãe-filho, podem ser subsistemas. Os subsistemas podem ser forma-
dos por geração, sexo, interesse ou por função.
Cada indivíduo pertence a diferentes subsistemas, nos quais tem diferen·
tes níveis de poder e onde aprende habilidades diferenciadas. Um homem pode
ser um filho, um sobrinho, um irmão mais velho, um irmão mais moço, um marido,
um pai e assim por diante. Em diferentes subsistemas, ele ingressa em diferentes
relações complementares. As pessoas se acomodam caleidoscopicamente, para
atingir a mutualidade, que torna possível a relação humana. A criança tem de agir
como um filho, enquanto o seu pai age como um pai; e quando a criança o faz,
pode ter de ceder ao t ipo de poder que aprecia, quando em interação com seu irmão
mais moço. A organização de subsistemas de uma família fornece treinamento va-
lioso no processo de manutenção do "eu sou" diferenciado, ao mesmo tempo que
dê exercício de habilidades interpessoais em diferentes n íveis.
Fronteiras. As fronteiras de um subsistema são as regras que definem quem
participa e como. Por exemplo, a fronteira de um subsistema parenta! é defini·
da, quando uma mãe (M) diz ao seu filho mais velho: "Você não é o pai de seu
irmão. Se ele está andando de bicicleta na rua, diga-me e eu o farei parar." (F ig. 2).
M (subsistema executivo)
Fig. 2
filhos (subsistema fraternal )
Se o subsistema parenta! inclui um filho parenta! (CP), a fronteira se define com
a mãe dizendo às crianças:" Até eu voltar da loja, Annie é quem manda" ( Fig. 3).
M e FP (subsistema executivo l
Fig. 3
outros filhos (subsistema fraternal)
6 1van Boszormenyi-Nagy and Geraldine Spark, lnvisible Loyalties (New York: Harper & Row,
Hl7~1 .
Chave para as Figs. 2-48
-11-
>
fronteira nítida
fronteira difusa
fronteira rígida
associação
superenvolvimento
conflito
coal izão
desvio
A função das fronteiras é de proteger a diferenciação do sistema. Cada subsis-
tema familiar tem funções específicas e faz exigências específicas a seus membros; e
o desenvolvimento de habilidades interpessoais, conseguidas nestes subsistemas, está
baseado na liberdade do subsistema de interferências de outros subsistemas. Por
exemplo, a capacidade de acomodação complementar dos esposos requer liberdade
da interferência de parentes afins e de filhos e, algumas vezes, do extrafamiliar. O
desenvolvimento de habilidades para negociação com iguais, aprendidas entre ir-
mãos, requer a não-interferência dos pais.
• Para o funcionamento apropriado da família, as fronteiras dos subsistemas
pevem ser nítidas. Devem ser definidas suficientemente bem para perm itir que os
membros do subsistema levem a cabo as suas funções, sem interferência indevida,
mas devem admitir contato entre os membros do subsistema e outros. A composi-
ção de subsistemas, organizada em torno das funções familiares, nãÓ é especialmen·
te tão significativa quanto a nitidez das fronteiras do subsistema. Um sistema paren·
tal, que inclui uma avó o u uma criança parental, pode funcionar muito bem, desde
que as linhas de responsabilidade e autoridade sejam nitidamente delineadas.
A nitidez das fronteiras dentro de uma fa mília é um parâmetro útil para a
avaliação do funcionamento familiar. Algumas famílias giram em torno de si mes-
mas, para desenvolver seu próprio microcosmo, com um conseqüente aumento de
comunicação e preocupação entre os membros familiares. Como conseqüência, a
distância diminui e as fronteiras são anuviadas. A diferenciação do sistema familiar
fica difusa. Tal sistema pode se tornar sobrecarregado e carecer de recursos necessá-
rios para se adaptar e mudar, sob circunstâncias estressantes. Outras famílias desen·
volvem fronteiras excessivamente rígidas. A comunicação através dos subsistemas
se torna difícil e as funções protetoras da família ficam prejudicadas. Estes dois ex-
tremos de funcionamento das fronteiras são chamados de emaranhamento e desli-
gamento. Todas as famílias são concebidas como incidindo em algum lugar ao lon-
go de um continuum, cujos pólos são os dois extremos de fronteiras difusas e ex-
cessivamente rígidas (Fig. 4). A maioria das famllias cai dentro dos amplos limites
normais:
Fig. 4
I ---- - - ---- -- - --------- -- - - -- --- -- ... .... .
DESLIGADA
(fronteiras inadequa·
quadamente rigidas)
FRONTEIRAS NiTIDAS
{limites normais)
EMARANHADA
(fronteiras
difusas)
Em termos humanos. emaranhamento e desl igamento se referem a um estilo
transacional ou à preferência por um tipo de interação, e não, a uma diferença qua·
litativa entre funcional e disfuncional. A maioria das famílias tem subsistemas ema·
ranhados e desligados. O subsistema mãe·filhos pode tender para o emaranhamento,
enquanto as crianças são pequenas, e o pai pode assumir uma posição desligada em
relação aos filhos. A mãe e as crianças mais r:noças podem estar tão emaranhadas,
de modo a tornar o pai periférico, enquanto o pai assume uma posição mais ligada
com as crianças mais velhas. Um subsistema pais·fi lhos pode tender para o desliga·
ment o, à medida que as crianças crescem e finalmentecomeçam a se separar da fa·
mília.
As operações nos extremos, todavia, indicam áreas de possível patologia. Um
subsistema altamente emaranhado de mãe e fi lhos, por exemplo, pode excluir o pai,
que se torna extremamente desligado. O enfraquecimento resu ltante da independên·
c ia dos fil hos poderia constituir um fator importante no desenvolvimento de sinto·
mas.
Os membros de subsistemas, ou famílias emaranhadas, podem ser prejudica·
dos no sentido que o senti mento incrementado de pertencimento requer uma máxi·
ma renúncia de autonomia. A fa lta de diferenciação do subsistema desencoraja a
exploração autônoma e o domínio dos problemas. Particularmente nas crianças, as
habil idades cognitivo-afetivas são desse modo inibidas. Os membros de subsistemas
ou famíl ias desligadas podem funcionar autonomamente, mas têm um sentido dis·
torcido de independência e carecem de sentimentos de lea ldade e de pertencimento,
bem como de capacidade de interdependência e para solicitação de apoio, quando
necessário.
Em outras palavras, um sistema voltado para o limite extremo de desl igamen·
to do continuum tolera uma larga ampli tude de variações individuais em seus mem·
bros. Porém, os estresses num membro da famí lia não ultrapassam suas fronteiras
inadequadamente ríg idas. Somente um nível elevado de estresse individual pode re·
percutir bastante fortemente para ativar os sistemas de apoio da fam íl ia. No limite
extremo de emaranhamento do continuum, o oposto é verdade. O comportamento
de um membro afeta imediatamente os outros, e o estresse num membro individual
repercute fortemente através das fronteiras e ressoa rapidamente nos outros subsis·
temas.
Ambos os tipos de relação causam problemas fam iliares, quando são evocados
mecanismos adaptativos. A fam ília emaranhada responde a qualquer variação do ha·
bitual, com excessiva rapidez e intensidade. A famíl ia desligada tende a não respon·
der, quando uma resposta é necessária. Os pais, numa famí lia emaranhada, podem
se tornar tremendamente perturbados, porque um filho não come a sua sobremesa.
Os pais, numa família des ligada, podem se sentir despreocupados a respeito da aver·
são de um filho à escola. Um terapeuta muitas vezes funcio na como um criador de
fro nteira, tornando nítidas as fronteiras e abrindo as inadequadamente rígidas. A
sua avaliação dos subsistemas fami liares e do funcionamento das fronteiras propor·
ciona um rápido quadro diagnóstico da fam ília, que o r ienta suas intervenções tera·
pêuticas.
O subsistema conjugal. O subsistema conjugal é formado quando dois adultos
de sexo oposto se unem, com o propósito expresso de formar uma família. Têm ta·
retas ou funções específicas. vitais para o funcionamento da fam ília. As habi lidades
principais para a implementação de suas tarefas são complementaridade e acomoda·
ção mútua. Isto é, o casal deve desenvolver padrões, em que cada esposo apóia o
func ionamento do outro em m uitas áreas. Devem desenvolver padrões de comple·
mentaridade, que permitem a cada esposo "entregar", sem a sensação de que "re·
nunc iou". Ambos. marido e mulher, devem conceder parte de sua separação, para
ganhar em pertencimento. A aceitação da interdependência mútua, numa re lação
simétrica, pode ser prejudicada pela insistência dos esposos em seus direitos inde-
pendentes.
O subsistema conjugal pode se tornar um refúgio para os estresses externos e
a matriz para o contato com outros sistemas sociais. Pode favorecer a aprendiza·
gem, a criat ividade e o crescimento. No processo de acomodação mútua, os espo·
sos podem atual izar aspectos c riativos de seus parceiros, que estavam latentes, e
apoiar as melhores características um do outro. Mas os casais também podem esti·
mular aspectos negativos um do outro. Os esposos podem insistir em aperfeiçoar ou
salvar seus parceiros e, por este processo, desqualificá-los. Ao invés de aceitá-los co·
mo são, impõem novos padrões a serem a t ingidos. Podem estabe lecer padrões tran·
saciona is dependentes-proteto res, nos quais, o membro dependente permanece de·
pendente, de maneira a proteger os sent imentos do parceiro de ser o protetor.
Esses padrões negativos podem existir em casais comuns, sem subentender
uma patologia extensiva ou uma mot ivação malevolente em cada membro. Se um
terapeuta deve desafiar um padrão, que se tornou disfuncional, dever ia lembrar de
desafiar o processo, sem atacar a mot ivação dos participantes. Um terapeuta orien·
tado para sistemas dever ia oferecer interpretações que sublinhem a mutualidade,
como: "Você protege sua esposa de uma maneira que a in ibe, e você traz à tona
uma proteção desnecessária por parte de seu esposo, com grande habilidade." Uma
interpretação atrás da out ra deste tipo enfatiza a complementaridade do sistema,
reúne o posit ivo e o negativo em cada esposo e elim ina as implicações de julgamen·
to da motivação.
O subsistema conjugal deve conseguir uma f ronte ira que o proteja da inter·
ferência das exigências e necessidades ele outros sistemas. Isto é particularmente ver-
dadeiro quando uma família tem f ilhos. Os adultos devem ter um território psicos·
social próprio - um abrigo no qual possam dar apoio emocional um ao outro. Se a
fronteira em torno dos esposos é inadequadamente rígida, o sistema pode ser estres·
sado por seu isolamento. Mas se os esposos mantêm fronteiras frouxas, outros sub·
grupos, inclusive filhos e parentes afins, podem se intrometer no funcionamento do
subsistema deles.
Em termos humanos simples, marido e mulher precisam um do outro como
um refúgio das ex igências múltiplas da vida. Em terapia, esta necessidade preceitua
que o terapeuta proteja as fronteiras em torno do subsistema conjugal. Se os filhos,
numa sessão familiar, interferem na transação do subsistema conjugal, sua interfe-
rência deveria ser bloqueada. Esposo e esposa podem ter sessões que excluam os ou·
tros. Se, nestas sessões, eles continuam a discutir paternidade, ao invés de transa·
ções de marido-mulher, o terapeuta faria bem em assinalar que eles estão cruzando
uma fronteira.
- -· 1 O subsistema parenta/. Um novo nível de formação familiar é atingido com o
nascimento do primeiro filho. O subsistema conjugal, numa família intacta, agora
deve se diferenciar, para desempenhar as tarefas de socialização de uma criança,
sem perder o apoio mútuo, que deveria caracterizar o subsistema conjugal. Deve
ser delineada uma fronteira, que permita o acesso da criança a ambos os pais, embo·
ra excluindo-a das funções conjugais. Alguns casais, que procedem bem como um
grupo de dois, jamais são capazes de fazer uma transição satisfatória para as intera·
ções de um grupo de três. Em algumas famflias, o filho pode ser atraído para den·
tro dos problemas do subsistema conjugal, como aconteceu com Emily Wagner.
À medida que a criança cresce, suas exigências de desenvolvimento, tanto de
autonomia como de orientação, impõem demandas ao subsistema parenta!, que de·
ve ser modificado para atendê-las. O filho entra em contato com iguais extrafamilia·
res, com a escola e com outras forças socializadoras fora da família. O subsistema pa·
rental deve se adaptar aos novos fatores, que incidem sobre as tarefas de socializa·
ção. Se a criança é severamente estressada por seu ambiente extrafami liar, isto pode
afetar não somente seu relacionamento com os pais, mas até as transações internas
do subsistema conjugal.
A autoridade indiscutida que uma vez caracterizava o modelo patriarcal do
subsistema parenta! se desvaneceu, para ser substituída por um conceito de autori·
dade flexível, racional. Espera-se que os pais compreendam as necessidades de de·
senvolvimento dos filhos e expliquem as regras que impõem. A paternidade é um
processo extremamente difícil. Ninguém o desempenha a seu inteiro contento e
ninguém o atravessa incólume. Provavelmente, isto foi sempre mais ou menos im·
possível. Na sociedade de hojeem dia, complexa, de desenvolvimento rápido, em
que as gerações-hiato ocorrem cada vez a menores intervalos, as dificuldades paren·
tais aumentaram.
O processo parenta! difere dependendo da idade dos filhos. Quando as crian·
ças são muito pequenas, predominam as funções de nutrição. O controle e a orien·
tação assumem mais importância mais tarde. À medida que a criança amadurece,
especialmente durante a adolescência, as exigências feitas pelos pais começam a
colidir com as exigências dos filhos quanto à autonomia apropriada à idade. A pa·
ternidade se torna um processo difícil de acomodação mútua. Os pais impõem re·
gras, que não podem explicar no momento ou que explicam inadequadamente, o u
consideram as razões para as regr~s como evidentes por si mesmas, quando não são
auto-evidentes para os filhos. À medida que têm mais idade, podem não aceitar as
regras. Os filhos comunicam suas necessidades com graus variáveis de nitidez e fa·
zem novas exigências aos pais, tais como de mais tempo ou de mais comprometi·
mento emocional.
É essencial compreender a complexidade da educação infantil, a fim de julgar
seus participantes imparcialmente. Os pais não podem proteger e guiar, sem, ao mes·
mo tempo, controlar e reprimir. Os filhos não podem crescer e se tornarem indivi·
dualizados, sem rejeitar e atacar. O processo de socialização é inerentemente confli·
tante. Qualquer input terapêutico que desafia um processo disfuncional entre pais
e filhos, ao mesmo tempo, deve apoiar seus participantes.
A paternidade requer a capacidade de nutrir, guiar e controlar. As propor·
ções destes elementos dependem das necessidades de desenvolvimento das crianças
e da capacidade dos pais. Mas a paternidade sempre requer o uso da autoridade. Os
pais não podem desempenhar suas funções executivas, a menos que tenham o po·
der para fazê·lo.
Filhos e pais e, algumas vezes, os terapeutas, freqüentemente descrevem a fa·
m ília ideal como uma democracia. Mas eles erroneamente pressupõem que uma so·
ciedade democrática seja sem liderança ou que uma família seja uma sociedade de
iguais. O funcionamento eficiente requer que pais e filhos aceitem o fato de que o
uso diferenciado de autoridade é um ingrediente necessário para o subsistema pa·
rental. Este se torna um laboratório de treinamento social para as crianças, que ne·
cessitam saber como negociar em situações de poder desigual.
Um apoio ao subsistema parenta!, pelo terapeuta, pode colidir com um obje·
tivo terapêutico de fortalecer a autonomia de um filho. Em tais situações, o tera·
peuta deveria lembrar que somente um subsistema parenta! fraco estabelece con·
trole restritivo, e que o controle excessivo ocorre principalmente quando o contro·
le é ineficiente. O apoio à responsabilidade e obrigação dos pais de determinar re·
gras familiares assegura o direito e a obrigação do filho de crescer e de desenvolver
autonomia. A tarefa do terapeuta é a de ajudar os subsistemas a negociarem e a se
acomodarem entre si.
- ._.7 O subs~stema fraternal. O ~ubsistema fraternal é o primeiro laboratório social,
no qual as cnanças podem expenmentar com relações com iguais. Dentro deste con·
texto, as crianças apóiam, isolam, escolhem um bode-expiatório e aprendem umas
com as outras. No mundo de irmãos, as crianças aprendem como negociar, coope-
rar e competir. Aprendem como fazer amigos e aliados, como ter prestígio, embora
se rendendo e como conseguir o reconhecimento de suas habi~idades. Podem assu·
mir diferentes posições, trapaceando um com o outro, e aquelas posições, assumi·
das cedo no subgrupo fraternal, podem ser significativas no curso subseqüente de
suas vidas. Nas grandes famílias, o subsistema fraternal tem uma divisão adicional,
para as crianças menores, que ainda estão transacíonando em áreas de segurança, nu·
trícão e orientação dentro da família. que são diferenciadas das crianças mais velhas.
qu~ estão fazendo contato e contratos com o mundo extrafamiliar.
Quando as crianças estabelecem contato com o mundo de iguais extrafami ·
liares, tentam operar ao longo das linhas do mundo dos irmãos. Quando aprendem
novas maneiras de se relacionarem, trazem de volta o novo conhecimento experien·
cial para o mundo fraternal. Se a família da criança tem modos muito idiossincrásí·
cos, as barreiras entre aquela e o mundo extrafamilíar ,podem se tornar inadequada·
mente rígidas. A criança pode, então, ter difículades em ingressar em outros siste·
mas sociais.
A significação do subsistema fraternal é observada muito c laramente na sua
ausência. F i lhos únicos desenvolvem um padrão precoce de acomodação ao mundo
adulto, que pode ser manifestada em desenvolvimento precoce. Ao mesmo tempo,
podem apresentar dificuldade no desenvolvimento da auto nomia e na capacidade
de compart ilhar, cooperar e compet ir com os outros.
Um terapeuta deveria conhecer as necessidades de desenvolvimento infantis e
ser capaz de apoiar o dire ito da criança à autonom ia, sem minimizar os direitos dos
pais. As barre iras do subsistem a fra ternal deveriam proteger as crianças da ínterfe·
rêncía adu lta, de maneira que pudessem exercitar seu direito à privacidade, terem
suas próprias á reas de interesse e fossem livres para tatear à medida que exploram.
Criancas em diferentes estádios de desenvolvimento. têm d iferentes necessidades,
habilidades cognitivas específicas e sistemas ídiossincrásicos de valores. Às vezes, o
terapeuta deve agir como um tradutor, interpretando o mundo dos filhos para os
país e vice-versa. Pode também ter de ajudar o subsistema a negociar fronteiras ní·
tidas. mas viáveis de serem cruzadas. Se a criança é colhida numa teia de exagerada
lealdade familiar, por exemplo. o terapeuta agirá como uma ponte entre a criança e
o mundo extrafamílíar.
Família e adaptação
A família é sujeita à pressão interna, que provém de mudanças evolutivas nos
seus próprios membros e subsistemas, e à pressão exterior. proveniente das exígên·
cías para se acomodar às instituições socia is significativas. que têm um impacto so·
bre os membros fam iliares. Responder a estas exigências, tanto de dentro como de
fora. requer um transformação constante da pos1ção dos membros da famíl ia, em
relação um com o outro, de maneira que possam crescer, enquanto o sistema fami ·
I i ar mantém continuidade.
Os estresses de acomodação a novas situações são inerentes a este processo de
mudança e continuidade. Os cl inícos que trabalham com família. em sua concen·
t ração sobre a dinâmica fam iliar, podem minimizar este proéesso, da mesma manei·
ra que os terapeutas dinâmicos podem minimizar o contexto do individuo. O peri·
go deste lapso é a sua ênfase na patologia. Os processos transacionais de adaptação
às novas situações. que levam consigo a falta de diferenciação e a ansiedade que ca·
racterizam todos os processos novos, podem ser c lassificados erroneamente como
patológicos. O foco na família como um sistema social em t ransformação, todavia,
acentua R natureza transicionàl de certos processos familiares. Exige uma explora·
ção da situação mutante da família e de seus membros e de seus estresses de aco·
modação. Com esta orientação, muito mais famílias, que entram em terapia, seriam
consideradas e tratadas como famílias comuns, em situações de transição, sofrendo
as aflições de acomodação e novas circunstâncias. O rótulo de patologia deveria ser
reservado para famílias que, em face de est resse, aumentam a rigidez de seus pa·
drões transacionais e de suas barreiras, e evitam ou resistem a qualquer exploração
de alternat ivas. Nas fam ílias comuns, o terapeuta conta com a motivação dos recur·
sos da família, como um caminho para a transformação. Nas famílias patológicas, o
terapeuta precisa se tornar um ator no drama fami liar, entrando em coalizões tran·
saciona is, a fi m de desregular o sistema e desenvolver um nível diferente de homeos·
ta se.
O est resse num sistema familiar pode provir ele quatro fontes.Pode haver o
contato estressante de um membro ou ele toda a família com forças extrafam ílíares.
Os pontos de transição, na evo lução familiar, também podem ser uma fonte de ten·
são, da mesma forma que o são os problemas ídiossíncrásícos.
Contato estressante de um membro com forças extrafamiliares. Uma das prín·
c i pais funções da fam il ia é a de apoiar os seus membros. Quando um membro sofre
estresse, os outros membros da família sentem a necessidade de se acomodar às c ir·
cunstâncias modificadas dele. Esta acomodação pode ficar contida dentro de um
subsistema ou pode penetrar toda a família.
Por exemplo, um marido, que está sob estresse no trabalho, critica a sua mu·
lher, quando ambos chegam em casa. Esta transação pode ficar limitada ao sistema
conjugal. A esposa pode se afastar do marido, mas apoiá-lo alguns minutos mais tar·
de. O u e la pode contra-atacar. Resulta uma briga, mas esta termina por um termo e
apoio mútuo. Estes são padrões transacíonaís funcionais. O estresse sobre o esposo
foi minorado pelas transações com sua esposa.
Todavia, a briga pode entrar numa escalada, sem término, até que um doses·
posos abandona o campo. Agora, cada esposo sofre com a sensação de não-resol u·
ção. Nesta situação, o contato estressante de um membro familiar com forças ex·
ternas originou um estresse não·resolvípo no subsistema conjugal intrafamíliar.
A mesma fonte de estresse sobre um membro individual pode operar através
das fronteiras de subsistemas. Por exemplo, um pai (P) e uma mãe (M ), que sofrem
estresse no trabal ho, podem ir para casa e criticar um ao outro, mas, então, desviar
seu conflito, atacando um fi lho. Isto reduz o perigo ao subsistema conjugal, mas
estressa a criança (C) (Fig. 5) . Ou o marido pode criticar a esposa, que procura, en·
Fig. 5
M I I p
~ c
tao, uma coalizão com o filho contra o pai {Fig. 6). A fronteira em torno do subsis·
tema conjugal assim se torna difusa. Um subsistema através de gerações, inadequa·
da mente rígido, de mãe e fi lho versus pai, aparece e a barreira em torno desta coa·
lizão de mãe e filho exclui o pai. Um padrão transacional transgeracional disfuncio·
na I* se desenvolveu.
p
Fig. 6 M F
Também é possível toda a família ficar estressada pelo contato extrafamiliar
de um membro. Por exemplo, se o marido perde o seu emprego, a família pode ter
de reassociar·se, a fim de assegurar a sua sobrevivência. A esposa pode ter de assu·
mir mais responsabilidade pelo sustento financeiro da família, desse modo, mudan-
do a natureza do subsistema executivo. Esta mudança pode forçar modificações no
subsistema parenta!. O pai pode assumir funções de nutrição, que eram previamente
da mãe {Fig. 7). Ou uma avó (A) pode ser introduzida para assumir as funções pa·
Fig. 7
p
M
filhos
se torna
M
p
filhos
rentais, enquanto ambos os pais estão procurando emprego (F ig. 8). Se a família
responde à perda de emprego do pai com rigidez. podem surgir padrões transacio·
Fig. 8
A
p
M
filhos
se torna
M
p
A
filhos
nais disfuncionais. Por exemplo, a al1ó é trazida para cuidar das crianças, mas os pais
recusam ceder a autoridade, que a capacitaria a cumprir sua responsabilidade.
Os Wagner informaram sobre alguns dos estresses de contato com o extrafa·
miliar. As dificuldades de Mark, como um estudante, arrimo da família, interferi·
ram em sua capacidade de se relacionar com sua esposa. Tornou·se crítico ou re·
traído e Emily introduziu Tommy em altercações infindáveis quanto ao seu apoio.
*A expressão é usada para significar "através de gerações". O grifo não consta no original
(N. da trad.l .
Quando uma família entra em terapia por causa do contato estressante de um
membro com o extrafamiliar, os objetivds e as intervenções do terapeuta da família
são orientados por sua avaliação da situação e da flexibilidade da estrutura familiar.
Se a família realizou mudanças adaptativas para apoiar o membro em estresse, mas
o problema continua, o principal input do terapeuta pode se dirigir para a interação
daquele membro com o agente estressante. Se a família não foi capaz de realizar
mudanças adaptativas, seu principal input pode ser dirigido para ela.
Por exemplo, se uma criança está tendo dificuldades na escola, o problema
pode estar basicamente relacionado com esta. Se a avaliação do terapeuta indica que
a família está apoiando adequadamente o filho, suas intervenções importantes serão
dirigidas para a criança no contexto escolar. Pode agir como o advogado para ames·
ma, arranjando uma transferência ou uma tutoria. Mas se os problemas da criança
na escola parecem ser uma expressão de problemas familiares, as principais interven·
ções do terapeuta se dirigirão para a família. Ambos os tipos de intervenção podem
ser freqüentemente necessários.
Contato estressante de toda a familia com forças extrafamiliares. Um sistema
familiar pode ser sobrecarregado pelos efeitos de uma depressão econômica. Ou o
estresse pode ser gerado por uma modificação de situação, causada por uma trans·
ferência ou uma substituição de cidade. Os mecanismos de competição da família
são particularmente ameaçados pela pobreza e pela discriminação. Por exemplo,
uma família pobre pode estar em contato com tantas agências societárias que seus
mecanismos de competição se tornam sobrecarregados. Ou uma família portorri·
quenha pode ter problemas em se adaptar à cultura do continente.
Aqui, novamente, as intervenções do terapeuta serão orientadas por sua ava-
liação da família. Se ele analisa a organização familiar e determina que é basicamen·
te viável, mas está sobrecarregada, pode agi r como pau-para-toda-obra. • Pode ensi·
nar a família a como manipular as instituições para seu proveito próprio. Ou pode
trabalhar para coordenar os esforços das agências vis-à-vis à família. Com uma fa·
mil ia portorriquenha, sobrecarregada por uma modificação de situação, o terapeuta
da família faria bem, localizando os recursos portorriquenhos na comunidade- a
igreja, as escolas com grande admissão de portorriquenhos, pais portorriquenhos
ativos na associação de pais e professores ou as agências sociais e civis dedicadas a
assistir este grupo étnico. Suas funções como terapeuta da família serão comple·
mentadas por suas ações como um consertador social de casamentos.*
Estresse em pontos de transição na familia. Existem muitas fases na própria
evolução natural da famt'lia que exigem a negociação de novas regras familiares. No·
vos subsistemas devem aparecer e novas linhas de diferenciação devem ser delinea·
das. Neste processo, surgem inevitavelmente conflitos. De forma ideal, os conflitos
serão resolvidos por negociações de transição e a família se adaptará com sucesso.
* usou-se uma tradução aproximada, já que o termoombudsman é intraduzível, literariamente,
para o ponugues (N. da trad.).
*o grifo não consta do original (N. da trad.) .
Estes confl itos oferecem uma oportunidade para o crescimento de todos os mem·
bros da família. Todavia, se tais confl itos não são resolvidos, os problemas transi·
cionais podem dar origem a problemas adicionais.
Os problemas de transição podem ocorrer em certo número de situações. Po·
dem ser produzidos por mudanças evolutivas em membros da família e por mudan·
ças na composição familiar. Um dos precipitantes mais comuns é a emergência de
um filho na adolescência. Nessa época, a participação de le no mundo extrafamil iar
e seu status nesse mundo aumentam. A relação entre o filho e os pais é perturbada.
O adolescente deve se afastar um pouco do subsistema fraternal e lhe ser dado um
aumento de autonomia e responsabilidade, apropriado à sua idade. As transações
do subsistema parenta! com ele devem mudar de pais·criança para pais·jovem adul·
to. O resultado será uma adaptação bem sucedida (Fig. 9).
MP MP
se torna --- - ----- -
Fig. 9 crianças irmão adolescente
Todavia, a mãe pode resistir a qualquer mudança em sua relação com o ado·lescente, porque requereria uma mudança em sua relação com seu marido. Pode
atacar o adolescente e solapar sua autonomia, ao invés de mudar sua própria atitu·
de. Se o pai, então, entra no confl ito, ao lado do fi lho, é formada uma coalizão
transgeracional inadequada (Fig. 10) . A situação pode se generalizar, até que toda a
M
Fig. 10
P adolescente
família se envolve no conflito. Se não há mudança familiar, aparecerá uma confi ·
guração disfuncional, que será repetida cada vez que ocorre um conflito.
Quando uma fam íl ia absorve um novo membro, esse novo membro deve se
adaptar às regras do sistema e o sistema antigo deve ser modificado para inclu í- lo.
Existe uma tendência para manter os velhos padrões, que estabelece um estresse
sobre o novo membro e pode levá·lo a incrementar suas exigências. Os tipos de au·
mentos de membros, que podem produzir estresse durante o período de adaptação,
são: o nascimento de uma criança, o casamento de um membro da família ampla, a
fusão de duas famílias através do casamento de pais ou a inclusão de um parente,
um amigo ou de uma criança adotada.
Os estresses também são produzidos pela adaptação a uma diminuição dos
membros numa família, causada por circunstâncias tais como a morte de um mem·
bro da família, separação ou divórcio, encarceiramento, institucionalização ou atas·
tamento do filho por causa da escola. Por exemplo, quando um casal se separa, de·
vem se desenvolver novos subsistemas e linhas de diferenciação . A unidade dos dois
pais e filhos agora deve se t?rnar uma unidade de um dos pais e os filhos, com ex·
clusão do outro.
As famílias freqüentemente entram em terapia, porque as negociações que le·
vam a uma transição bem sucedida foram bloqueadas. Uma fam ília, que tem proble·
mas em torno de uma transição recente é mais fácil de ser ajudada do que uma ta·
mil ia que bloqueou as negociações adaptativas durante um longo período.
Estresses em torno de problemas ídíossíncrásícos. Um terapeuta de fam ília de·
ve levar em conta todas as circunstâncias e estar consciente da possibi lidade de pa·
drões transacionais disfuncionais, que aparecem em torno de áreas idiossincrásicas
de estresse fami liar. Por exemplo, uma família com um fi lho retardado pode ter si·
do capaz de se adaptar aos problemas colocados, quando a criança era pequena.
Mas a realidade do retardamento, que os pais eram capazes de evitar, enquanto a
criança era pequena, deve ser enfrentada à medida que cresce e a disparidade de de·
senvolvimento entre ela e seus iguais se torna mais evidente.
O mesmo incremento de estresse pode ocorrer quando uma criança com uma
incapacidade física, tal como um lábio leporino, fica mais velha. A família pode ter
sido capaz de se adaptar às necessidades da criança enquanto era pequena, mas à
medida que ela cresce e experiencia dificuldades na interação com um grupo extra·
famil iar de iguais, que não a aceita, este estresse pode sobrecarregar o sistema familiar.
Problemas idiossincrásicos transitórios também podem sobrecarregar os meca·
nismos de competição. Se um membro da fam ília se torna seriamente doente, ai·
gumas de suas funções e poderes devem ser distribuídos para outros membros.
Quando o membro doente se recupera, se torna necessária uma readaptação para
incluí· lo em sua ant iga posição ou ajudá· lo a assumir uma nova posição no sistema.
Em resumo, o esquema conceitual de uma família normal tem três facetas.
Primeira, uma família se transforma através do tempo, se adaptando e se reestrutu·
rando, de maneira a continuar funcionando. Uma família, que tem estado funcio·
nando eficazmente, pode, não obstante, responder a estresses de desenvolvimento,
aderindo inadequadamente a esquemas estruturais prévios.
Segunda, a família tem uma estrutura, que pode ser observada somente em
movimento. São preferidos certos padrões, que são suficientes em resposta às exi·
gências costumeiras. Mas a força de um sistema depende de sua capacidade de mo·
bilizar padrões transacionais alternativos, quando condições internas ou externas da
família exigem a sua reestruturação. As fronteiras dos subsistemas devem ser firmes,
ainda que suficientemente flexíveis para permitir a redisposição, quando as circuns·
tãncias mudam.
Finalmente, uma família se adapta ao estresse de uma maneira que mantenha
a continuidade familiar, embora tornando possível a reestruturação. Se uma famí·
lia responde ao estresse com rigidez, ocorrem padrões disfuncionais. Estes podem
eventualmente levar a família à terapia.