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Resumo: GONÇALVES, Williams e MIYAMOTO, Shiguenoli. Os militares na política externa brasileira.

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a se colocar como “potência ouvida no concerto dos fortes e respeitadas naquele dos fracos” (p. 225). Fato que causou desconfiança nos demais países da região, principalmente com a ideia de ocupação efetiva do território nacional (atuação na bacia Amazônica e na bacia do Prata). 
Porém, o grande ponto de tensão nas relações com a região foi a eleição de Salvador Allende em 1970 no Chile vista como uma grande ameaça a estabilidade na região. O Brasil ficou em estado de alerta com outros vizinhos que estavam instáveis como Uruguai e Bolívia.
O poder absoluto dos militares desde Costa Silva, passou transmitir a ideia de que o país queria fortemente assumir o poder hegemônico regional. O foco no bilateralismo e o milagre econômico também não ajudaram. 
Houve a denúncia da Operação Trinta Horas que o Brasil objetivava ocupar o Uruguai para que não caísse na oposição armada e realmente houve concentração de tropas na fronteira sul. Além disso, o governo militar foi acusado de participar no golpe da Bolívia de 1971, mudança que beneficiou o Brasil, e de participar no golpe chileno de 1973. 
Em contrapartida, o país se aproximou do Paraguai e em 1973 assinou o Tratado de Itaipu que viria a construir a usina hidrelétrica. 
Tal fato não foi visto com bom olhos pela Argentina e iniciou uma serie de atritos que só se resolveu 6 anos depois quando Brasil cedeu as demandas argentinas no projeto hidrelétrico. 
Âmbito extra-continental: 
A política externa passou a ser bastante agressiva devido aos seus objetivos econômicos.
Negociação de abertura de novos mercados para os produtos nacionais e maior aproximação de países produtores de tecnologia e matérias-primas necessárias para a indústria nacional. 
Abertura de embaixadas nos países do Oriente Médio, uma vez que o petróleo era essencial para a economia. Cooperação técnico-científica com Israel. 
Ademais, se aproximou dos países do continente africano buscando incrementar os canais de comércio para a penetração dos produtos brasileiros. Em termos estratégicos, o raciocínio de que o Atlântico Sul era crucial para a segurança do país. Nesse sentido, o Brasil manteve um bom relacionamento com Portugal, apesar de desgastado, e com a África do Sul, estigmatizada pela comunidade internacional devido ao apartheid. O pensamento de que os movimentos de libertação nacional e anti-apartheid faziam parte da expansão soviética continuou. 
Em 1970, o Brasil ampliou o limite do mar territorial para 200 milhas seguindo o raciocínio de proteger a área do Atlântico Sul e aumentar suas independência nacional. Alegou que queria proteger as reservas de petróleo e os interesses pesqueiros mas sofreu forte oposição dos EUA por acreditar ser uma política de poder e sofreu retaliações no comércio internacional. Ficava cada vez mais claro que o nacionalismo dos militares estava focado na independência e colocava a relação com EUA em bases mais realistas e competitivas. 
Citações: 
“... a ideia de que o Brasil, apoiado pelos Estados Unidos, talvez se aventurasse a praticar intervenções armadas com fins preventivos.” (p. 226)
“O ativismo dos militares brasileiros nesta e nas mobilizações anteriores teria sido movido pela estratégia de impedir a formalização de uma frente de Estados socialistas hostis ao Brasil.” (p.227) (referência aos golpes militares nos governos da região) 
5. Governo Geisel: o pragmatismo responsável (1974 – 1979) 
Geisel assumiu o governo em um contexto bem diferente do antecessor. O Brasil que estava otimista com o acelerado crescimento econômico, agora estava ameaçado pela crise no sistema internacional e pelo acirramento das contradições internas. Era o fim do “milagre”. Com esse cenário, Geisel deu início a uma liberalização controlada (lento retorno à democracia) em âmbito interno. 
O panorama externo a estabilidade e diálogo entre EUA e URSS começou a se desgastar o que refletiu em maiores tensões no aspecto Norte-Sul.
Os EUA perderam poder devido ao fracasso no Vietnã. Como resultado das guerras árabes-israelenes, o Terceiro Mundo passou a articular seus interesses comuns e a manipular os preços das matérias-primas importantes para as potências do Primeiro Mundo que provocou o primeiro choque do petróleo em 1973.
O choque atingiu em cheio o Brasil e forçou o governo militar a revisar sua estratégia de política internacional. De acordo com o texto, produzíamos somente 28% do petróleo utilizado e agregado a falta de acesso aos centros decisórios do sistema financeiro internacional, os juros da dívida externa aumentaram. 
Os estrategistas perceberam que o Brasil ainda estava longe de ser uma país do Primeiro mundo e que persistir no bilateralismo levaria a um futuro isolamento internacional. 
Dessa forma, o pragmatismo responsável de Geisel se baseava nos seguintes pontos:
1- Focar no multilateralismo e na aproximação com o Terceiro Mundo 
2- Reavaliar as alianças e demandar uma nova ordem econômica internacional mais justa na distribuição de riqueza 
3- Desvincular o interesse nacional do aspecto ideológico
A mudança de política externa era inevitável, porém alguns setores dos militares e dos civis que sustentavam o regime não a aceitaram por supostamente ser comunista. Todavia, eles também não eram capazes de apresentar uma alternativa razoável devido a rigidez ideológica.
Restabeleceu as relações diplomáticas com a República Popular da China, devido a uma aproximação com a diplomacia realista de Kissinger e ao discurso simbólico que a China fez em defesa do Terceiro Mundo na ONU. 
Reconheceu Guiné-Bissau e Angola como Estados independentes em 1974 e 1975, respectivamente. O que foi visto de forma positiva pelo Terceiro Mundo, principalmente com relação à Angola que formou um Estado socialista inspirado no marxismo e leninismo. Os países africanos passaram a ter uma visão nova sobre o Brasil, de que estaria “na linha de frente e na luta contra o apartheid” (p. 232). 
Além disso, o Brasil viu o estabelecimento das relações com Angola como uma oportunidade de ser o porta-voz dos interesses desses países sobre desenvolvimento e autonomia frente a Portugal que estava perdendo seu império. 
As relações do Brasil com o continente africano se solidificaram no aspecto ideológico e comercial. 
A decisão brasileira relação a Angola é de profunda importância, uma vez que esta se chocou com os EUA. Os norte-americanos apoiaram a solução pró-ocidental (FNLA) que perdeu e o Brasil apoiou a solução pró-soviética-cubana (MPLA). O Brasil precisava estar presente na região devido a possibilidade de um conflito entre a África do Sul (que ia até Namíbia) e Angola (capitalista x socialista). 
A choque entre o pragmatismo responsável e a política internacional dos EUA ficou cada vez mais forte. O Brasil estava em busca de independência e de satisfazer seus diversos interesse econômicos, usou sua liberdade para escolher aliados no continente africano e também no Oriente Médio, o que aumentou as exportações de manufaturados e equilibrou a balança de pagamentos. Por esse viés, passou a apoiar a criação do Estado da Palestina na ONU.
O país estava atrapalhando os interesses das empresas estadunidenses com as estatais e exportando armas para locais do interesse norte-americano, contudo, as relações entre ambos realmente azedou quando Geisel assinou o acordo de cooperação nuclear com a Alemanha em 1975. 
A assinatura desse acordo feria o ponto mais importante para a política externa dos EUA para região latina que era a perpetuação do seu poder hegemônico. O Brasil demonstrou que sua vontade de acessar a tecnologia nuclear não seria impedida pelo constrangimento das superpotências. Para o Estado, não conseguir autonomia tecnológica significava ficar condenado a um eterno subdesenvolvimento. 
A retaliação norte-americana só será realmente sentida em 1976 com a eleição de Jimmy Carter. A “política de direitos humanos” estadunidense atingia em cheio o governo Geisel ao fazer oposição aos regimes autoritários e pressionar pelo retorno ao estado de direito. Por essa