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Insuficiência cardíaca A insuficiência cardíaca (IC) é uma alteração complexa progressiva na qual o coração é incapaz de bombear sangue suficiente para suprir as necessidades do organismo. Seus principais sintomas são dispneia, fadiga e retenção de líquido. A IC é decorrente de uma redução da capacidade do coração de encher-se de sangue e/ou de ejetá-lo de forma adequada. Com frequência a IC é acompanhada por aumento anormal do volume de sangue e de líquido intersticial. As causas subjacentes da IC incluem doença cardíaca aterosclerótica, infarto do miocárdio, doença cardíaca hipertensiva, doença valvar cardíaca, miocardiopatia dilatada e doença cardíaca congênita. Objetivos da intervenção farmacológica na insuficiência cardíaca: Os objetivos do tratamento são aliviar os sintomas, tornar lenta a progressão da doença e aumentar a sobrevida. De acordo com esses objetivos, sete classes de fármacos se mostram eficazes: 1) inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECAs) 2) bloqueadores do receptor de angiotensina (BRAs) 3) antagonistas da aldosterona 4) β-bloqueadores 5) diuréticos 6) vaso e venodilatadores diretos 7) fármacos inotrópicos Dependendo da gravidade da IC e de fatores individuais do paciente, uma ou mais classes de fármacos são utilizadas. A intervenção farmacológica oferece os seguintes benefícios à IC: - Redução da carga de trabalho do miocárdio; - Diminuição do volume de líquido extracelular; - Melhora da contratilidade cardíaca; e - Redução da velocidade de remodelamento cardíaco. O conhecimento da fisiologia da contração do músculo cardíaco é essencial para entender a resposta compensatória evocada pelo coração insuficiente, bem como para entender as ações dos fármacos usados no tratamento da IC. FISIOLOGIA DA CONTRAÇÃO MUSCULAR O miocárdio, como o músculo liso e o esquelético, responde à estimulação pela despolarização da membrana, a qual é seguida pelo encurtamento das proteínas contráteis e termina com relaxamento e retorno ao estado de repouso (repolarização). Os miócitos cardíacos são interconectados em grupos que respondem aos estímulos como unidade, contraindo juntos mesmo que uma única célula seja estimulada. A força de contração do músculo cardíaco relaciona-se diretamente com a concentração de cálcio livre (não ligado) no citosol. Assim, fármacos que aumentam os níveis de cálcio intracelular (ou que aumentam a sensibilidade da maquinaria contrátil ao cálcio) aumentam a força de contração (efeito inotrópico). OBS: Os fármacos inotrópicos aumentam a contratilidade do coração por alterar direta ou indiretamente o mecanismo que controla a concentração de cálcio intracelular. O coração insuficiente evoca três mecanismos compensatórios principais para aumentar o débito cardíaco. Embora inicialmente benéficas, essas alterações, ao final, resultam em comprometimento adicional da função cardíaca. 1. Aumento da atividade simpática: Os barorreceptores detectam a diminuição da pressão arterial e ativam o sistema nervoso simpático. Em uma tentativa de manter a perfusão dos tecidos, essa estimulação dos receptores β-adrenérgicos resulta em um aumento da frequência cardíaca e da força de contração do músculo cardíaco. Além disso, a vasoconstrição aumenta o retorno venoso e a pré-carga cardíaca. O aumento na pré-carga (estiramento no coração) aumenta o volume sistólico, que, por sua vez, aumenta o débito cardíaco. Essas respostas compensatórias aumentam o trabalho do coração, o que, em longo prazo, contribui para o declínio adicional na função cardíaca. 2. Ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona: A queda no débito cardíaco diminui o fluxo sanguíneo aos rins, promove a liberação de renina e resulta no aumento da formação de angiotensina II e da liberação de aldosterona. Isso resulta no aumento da resistência periférica (pós- carga) e retenção de sódio e água. O volume de sangue aumenta, e mais sangue retorna ao coração. Se o coração é incapaz de bombear esse volume extra, a pressão venosa aumenta e ocorre edema periférico e pulmonar. Outra vez, essa resposta compensatória aumenta o trabalho do coração e contribui para o declínio adicional da função cardíaca. 3. Hipertrofia miocárdica: O coração aumenta em tamanho, e as câmaras dilatam e se tornam mais globulares. Inicialmente, o estiramento do músculo cardíaco leva a uma contração mais forte do coração. Contudo, o alongamento excessivo das fibras resulta no enfraquecimento das contrações, e a geometria diminui a capacidade de ejetar o sangue. Esse tipo de insuficiência é denominado insuficiência sistólica, ou IC com fração de ejeção reduzida (ICFEr), e é resultado da incapacidade do ventrículo de bombear com eficiência. Menos comumente, os pacientes com IC podem apresentar disfunção diastólica – um termo aplicado quando a capacidade do ventrículo em relaxar e receber sangue é prejudicada por mudanças estruturais, como a hipertrofia. O engrossamento da parede ventricular e a subsequente redução no volume ventricular diminuem a capacidade do músculo cardíaco de relaxar. Nesse caso, o ventrículo não enche adequadamente, e a inadequação do débito cardíaco é denominada IC diastólica, ou IC com fração de ejeção preservada. A disfunção diastólica na sua forma pura se caracteriza por sinais e sintomas de IC na presença de um ventrículo esquerdo funcionando normalmente. Todavia, as disfunções sistólica e diastólica comumente coexistem na IC. Insuficiência cardíaca aguda (descompensada) Se os mecanismos de adaptação restabelecem adequadamente o débito cardíaco, a IC é considerada compensada. Se os mecanismos adaptativos não conseguem manter o débito cardíaco, ela fica descompensada, e o paciente desenvolve agravamento dos sinais e sintomas da IC. Os sinais e sintomas da IC, em geral, incluem dispneia de esforço, ortopneia, dispneia noturna paroxística, fadiga e edema periférico. Estratégias terapêuticas na insuficiência cardíaca A IC crônica é tratada geralmente com limitação de líquidos (menos de 1,5- 2 L/dia); ingestão de dieta com baixo sódio (menos de 2 g/dia); tratamento de comorbidades; e uso criterioso de diuréticos, inibidores do sistema renina- angiotensina-aldosterona e inibidores do sistema nervoso simpático. Fármacos inotrópicos são reservados contra sinais e sintomas de IC aguda na maioria dos pacientes hospitalizados. Fármacos que podem precipitar ou agravar a IC, como anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), álcool, bloqueadores dos canais de cálcio não di-hidropirimidinas e alguns antiarrítmicos, devem ser evitados, se possível.