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À semelhança da hipófise, a glândula suprarrenal consiste em dois órgãos que sofreram fusão durante o desenvolvimento embrionário. O córtex suprarrenal externo origina-se do mesoderma, enquanto a medula suprarrenal interna deriva de células da crista neural. ✓ O córtex suprarrenal sintetiza e secreta hormônios esteroides, que são essenciais para o equilíbrio do sal, o metabolismo intermediário, e, nas mulheres, para as ações androgênicas. ✓ A medula suprarrenal sintetiza e secreta a catecolamina epinefrina, que é importante, apesar de não ser essencial, na manutenção do tônus simpático. Tanto a deficiência quanto o excesso de hormônios adrenocorticais podem provocar doença nos seres humanos. Os estados de deficiência são tratados mediante reposição dos hormônios na forma de agentes terapêuticos, enquanto os inibidores das enzimas de biossíntese adrenocorticais podem ser empregados no tratamento do excesso de hormônio. O córtex suprarrenal sintetiza três classes de hormônios: mineralocorticoides, glicocorticoides e androgênios. A zona glomerulosa é responsável pela produção de mineralocorticoides e está sob o controle de angiotensina II, concentração sanguínea de potássio e, em menor grau, de hormônio adrenocorticotrófico (ACTH). As zonas fasciculada e reticular sintetizam glicocorticoides e androgênios, respectivamente. Ambas estão sob controle do ACTH, que, por sua vez, é regulado por hormônio de liberação corticotropina (CRH), vasopressina e cortisol. ç Os efeitos metabólicos do cortisol aumentam a disponibilidade de nutrientes, em decorrência da elevação dos níveis sanguíneos de glicose, aminoácidos e triglicerídeos. ✓ O cortisol aumenta a glicemia ao antagonizar a ação da insulina e promover a gliconeogênese em jejum. ✓ O cortisol aumenta o catabolismo das proteínas musculares, resultando em liberação de aminoácidos, que podem ser utilizados pelo fígado como fontes energéticas para a gliconeogênese. ✓ Ao potencializar a ação do hormônio de crescimento sobre os adipócitos, o cortisol aumenta a atividade da lipase sensível a hormônio e a liberação subsequente de ácidos graxos livres (lipólise). ✓ Os níveis de cortisol aumentam como componente da resposta ao estresse induzida por ampla variedade de eventos, como exercício vigoroso, estresse psicológico, traumatismo agudo, cirurgia, medo, infecção grave, hipoglicemia e dor. ✓ Com a elevação da glicemia, os efeitos fisiológicos dos glicocorticoides mantêm a homeostasia energética durante a resposta ao estresse, assegurando, assim, um suprimento contínuo de nutrientes aos órgãos críticos, como o cérebro. ✓ O cortisol também apresenta múltiplas ações anti-inflamatórias, pois regula negativamente a liberação de citocinas das células do sistema imune, inibindo o fator nuclear κB (FN-κB); essa ação pode constituir importante mecanismo para limitar a extensão das respostas imunes e regular a resposta inflamatória. ✓ Determinadas citocinas, incluindo IL-1, IL-2, IL-6 e TNF-α, podem estimular a liberação hipotalâmica de CRH, que estimula a liberação de ACTH e cortisol. Essa série de efeitos estimuladores e inibitórios cria uma alça de retroalimentação, em que as citocinas inflamatórias e o cortisol são regulados de modo coordenado para controlar as respostas imunes e inflamatórias. A regulação local da liberação de citocinas é de suma importância para o recrutamento e a ativação dos leucócitos, e a ruptura desse processo de sinalização inibe acentuadamente a função imune. ✓ Os glicocorticoides também bloqueiam a síntese de metabólitos do ácido araquidônico ao inibir a ação da fosfolipase A2. Os metabólitos do ácido araquidônico, como tromboxanos, prostaglandinas e leucotrienos, medeiam muitas das etapas iniciais da inflamação, incluindo permeabilidade vascular, agregação plaquetária e vasoconstrição. Por meio do bloqueio da produção desses metabólitos, os glicocorticoides exercem uma infrarregulação significativa da resposta inflamatória. ✓ A supressão da resposta inflamatória mediada pelos glicocorticoides também contém importantes implicações farmacológicas para diversas condições clínicas, como transplante de órgãos, artrite reumatoide e asma. Em decorrência dos múltiplos efeitos anteriormente descritos, os glicocorticoides constituem fármacos úteis no tratamento de diversas doenças inflamatórias e autoimunes, como asma, artrite reumatoide, doença de Crohn, poliarterite nodosa, arterite temporal e rejeição imune após transplante de órgãos. Entretanto, é importante assinalar que a terapia farmacológica com glicocorticoides não corrige a etiologia da doença subjacente, apenas limita os efeitos da inflamação. Por esse motivo, a interrupção da terapia crônica com glicocorticoides frequentemente resulta no reaparecimento dos sintomas inflamatórios, a menos que o distúrbio tenha sofrido remissão espontânea ou tenha sido tratado por outros meios. Logo, anti-inflamatórios esteroidais são fármacos que possuem a natureza química dos hormônios esteroidais, provocando efeitos semelhantes: − Metabolismo; − Regulação de eletrólitos; − Inflamação; − Supressores do Sist. Imunológico. Figura 1. O eixo imune-suprarrenal. O cortisol exerce efeitos imunossupressores profundos. O cortisol inibe a ação de vários mediadores da inflamação (eicosanoides, serotonina, fator de ativação das plaquetas [PAF], bradicinina). O cortisol também inibe a liberação de várias citocinas dos macrófagos, incluindo IL-1α, IL- 1β, IL-6 e TNF-α. Por sua vez, como essas citocinas promovem liberação hipotalâmica de CRH e, consequentemente, aumentam os níveis séricos de cortisol, foi aventada a hipótese de que o aumento do cortisol induzido pelo estresse limita a extensão da resposta inflamatória. ç Cerca de 90% do cortisol circulante estão ligados a proteínas plasmáticas, das quais as mais importantes são globulina de ligação dos corticosteroides (CBG, também denominada transcortina) e albumina. A CBG apresenta alta afinidade pelo cortisol, porém baixa capacidade global. Apenas as moléculas de cortisol que não estão ligadas às proteínas (a denominada fração livre) são biodisponíveis, isto é, estão disponíveis para sofrer difusão pelas membranas plasmáticas para o interior das células. O fígado e os rins constituem os principais locais de metabolismo periférico do cortisol. Por meio de redução e conjugação subsequente com ácido glicurônico, o fígado é responsável pela inativação do cortisol no plasma. A reação de conjugação torna o cortisol mais hidrossolúvel, possibilitando, assim, sua excreção renal. Após a ligação do cortisol a seu receptor citosólico, com formação de um complexo hormônio-receptor, o complexo sofre dimerização com outro complexo hormônio-receptor e é transportado para o núcleo. No caso do cortisol, o complexo hormônio-receptor dimerizado liga-se a elementos promotores de genes, designados como elementos de resposta aos glicocorticoides (GRE), que podem intensificar ou inibir a expressão de genes específicos. O cortisol apresenta efeitos profundos sobre a expressão do mRNA; estima-se que cerca de 10% de todos os genes humanos contenham GRE. Dada a grande quantidade de genes cuja expressão é afetada pela ativação de GRE, o cortisol exerce ações fisiológicas na maioria dos tecidos. De modo geral, essas ações podem ser divididas em efeitos metabólicos e efeitos anti- inflamatórios. • Ações anti-inflamatórias e imunossupressoras Inibem todos os estágios da inflamação: aguda à crônica − ↓COX-2; − ↓migração neutrofílica; − ↓ativação de neutrófilos e macrófagos: − ↓transcrição de genes de moléculas de adesão; − ↓IL-2 e de seu receptor: − ↓ da ativação de LT auxiliares e expansão clonal. − Deficiênciada resposta a lesões ou infecções; 1. Interrupção da terapia: − Exacerbação do processo patológico em tratamento; − Insuficiência suprarrenal aguda − Terapia prolongada: recuperação pode levar semanas, meses ou anos. Durante a terapia prolongada com doses farmacológicas de glicocorticoides, os níveis plasmáticos elevados desses fármacos suprimem a liberação de CRH e ACTH, resultando em atrofia do córtex suprarrenal. A interrupção abrupta da terapia com glicocorticoides pode precipitar a insuficiência suprarrenal aguda, uma vez que são necessários vários meses para a reativação do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal. Mesmo após a recuperação da secreção de ACTH, podem ser necessários vários outros meses para que o córtex suprarrenal comece a secretar o cortisol em níveis fisiológicos. Além disso, a doença inflamatória subjacente para a qual foi instituída a terapia pode sofrer agravamento durante esse período, dada a desinibição do sistema imune. Por conseguinte, é inquestionável o fato de que o tratamento crônico com glicocorticoides deve ser, sempre que possível, reduzido lentamente, com doses gradualmente decrescentes. Essa redução gradativa possibilita a recuperação gradual da função normal de hipotálamo, adenohipófise e córtex suprarrenal, evitando, assim, o desenvolvimento de insuficiência suprarrenal e – espera-se – evitando também a exacerbação do distúrbio inflamatório subjacente. 2. Uso contínuo de doses suprafisiológicas: − Consequências que resultam em supressão do eixo HHSR; − Anormalidades hidroeletrolíticas (↓[K+] plasma, edema, ↑PA); − Hiperglicemia, resistência à insulina e diabetes mellitus; − Aumento da susceptibilidade à infecção (supressão imune); − Osteoporose (↓ densidade óssea); pela inibição da absorção de cálcio mediada pela vitamina D e pela inibição dos osteoclastos. − Hiperparatireoidismo secundário e aumento da reabsorção óssea; − Miopatia (fraqueza dos músculos proximais dos membros) pela atrofia seletiva das fibras musculares de contração rápida; − Distúrbios do comportamento; − Catarata: aumentam a pressão intraocular. − Parada ou retardo do crescimento, principalmente em crianças. − Redistribuição da gordura, com perda periférica das reservas de tecido adipose e obesidade central. Ocorre deposição excessiva de gordura na nuca (giba de búfalo) e na face (fácies de lua cheia). Terapia de reposição em pacientes com: 1. Insuficiência adrenal (doença de Addison): destruição do córtex adrenal. 2. Hiperplasia Adrenal. Tratamento anti-inflamatório e imunossupressor: 1. Asma; 2. Via tópica: eczema, conjuntivite, alergia, rinite; 3. Hipersensibilidade grave (Reação alérgica); 4. Doenças autoimunes (Ex.: Artrite reumatoide); 5. Transplante. 6. Maturação pulmonar Insuficiência Suprarrenal Primária A doença de Addison fornece um exemplo de insuficiência suprarrenal primária, em que ocorre destruição seletiva do córtex suprarrenal, mais comumente em decorrência da reação autoimune mediada pelas células T, porém alternativamente por causa da ocorrência de infecção, infiltração, câncer ou hemorragia. A destruição do córtex resulta em diminuição na síntese de todas as classes de hormônios adrenocorticais. Em resposta, há um estímulo hipotalâmico para o aumento de precursores peptídicos do ACTH. Dadas as semelhanças entre as sequências peptídicas de ACTH e MSH, o ACTH em altas concentrações também pode ligar-se aos receptores de MSH e ativá-los. Essa ação torna- se aparente no hiposuprarrenalismo primário, em que os níveis elevados de ACTH resultam em aumento da pigmentação da pele. Os pacientes com insuficiência suprarrenal frequentemente apresentam fadiga, falta de apetite, perda de peso, tontura em posição ortostática e náuseas. A hiperpotassemia é comum na insuficiência suprarrenal primária, dada a ausência de aldosterona. A queda de aldosterona causa o aumento fisiológico da renina e a perda de sódio e de água pelo organismo (hipotensão postural e desidratação). Insuficiência Suprarrenal Secundária Em comparação, a insuficiência suprarrenal secundária é causada por distúrbios hipotalâmicos ou hipofisários ou pela administração prolongada de glicocorticoides exógenos. Na insuficiência suprarrenal secundária, a diminuição dos níveis de ACTH provoca redução na síntese de hormônios sexuais e cortisol, porém não altera a síntese de aldosterona. Quando a insuficiência suprarrenal resulta de terapia prolongada com altas doses de glicocorticoides exógenos, deve-se reduzir a dose de glicocorticoides lentamente e de modo gradativo para possibilitar a recuperação da atividade integral do eixo hipotálamo-hipófise- suprarrenal (HHA). Algumas observações sobre os fármacos: ✓ Hidrocortisona é o medicamento preferível para o tratamento de uma insuficiência adrenal, pois é análoga ao cortisol. Injetável. ✓ Fludrocortisona pode causar muitas reações adversas, como distúrbios cardiovasculares, portanto deve ser usado em casos específicos de níveis baixos de aldosterona (insuficiência adrenal primária). Não usado como efeito anti- inflamatório. ✓ Prednisona pode ser administrada à mãe durante a gravidez, sem efeitos adversos para o feto. O fígado materno ativa a prednisona em prednisolona, porém a 11β-HSD 2 placentária converte novamente a prednisolona em prednisona inativa. Como o fígado não funciona durante a vida fetal, o feto, por sua vez, não é capaz de ativar a prednisona. Por conseguinte, o uso da prednisona durante a gravidez não resulta em fornecimento de glicocorticoide ativo ao feto. Prednisona é o pró-fármaco da prednisolona, então em crianças e em idosos não é recomendável o uso, pela dificuldade de metabolização. ✓ 6alfa-metilprednisolona é usado só injetável. ✓ Betametasona e dexametasona são os corticoides mais recomendáveis para um efeito anti-inflamatório mais intenso. ✓ Dexametasona pode ser administrado em grávidas para promover o desenvolvimento pulmonar do feto. A dose de dexametasona deve ser cuidadosamente titulada para não causar efeitos deletérios no bebê. 1. Uma paciente do sexo feminino, 50 anos, branca, procura o serviço de emergência devido a emagrecimento de 10 kg em um ano, cansaço, fraqueza muscular proximal e desânimo há dois anos, com piora progressiva. Ela relatou escurecimento difuso da pele e episódios de diarreia há três dias, associado a dor abdominal. Ao realizar exame físico, constata-se hipotensão postural, mucosas desidratadas e escurecimento de pele em áreas fotoexpostas (Mãos, face). Os exames laboratoriais evidenciam sódio de 130 mEq/L (135-150), potássio de 8,2 mEq/L (3,5-5,0), creatinina de 1,71mg/dL (até 1,2), cortisol de 2,9 g/dL (4,3-22), hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) de 2.166 pg/mL (10-52), renina maior do que 50 ng/mL/h (0,51- 2,64), aldosterona menor do que 2,2 ng/dL (4- 31). Diante do exposto, essa paciente apresenta quadro de insuficiência adrenal? Se sim, quais medicamentos podem ser úteis? R = Insuficiência adrenal primária: hidrocortisona + fludrocortisona (uso emergencial) ou prednisona/prednisolona + fludrocortisona (uso ambulatorial). 2. Adolescente, 16 anos, há 3 semanas apresenta sibilos e/ou dispneia duas vezes por semana, em média. Entre os episódios, o mesmo está assintomático, com função pulmonar normal e sem despertar noturno. Considerando um quadro leve de asma, qual conduta deve ser realizada? R = Doses diárias de corticoide, principalmente inalatórios (via de administração local), como beclometasona e budesonida, em bombinhas com broncodilatadores (agonistas β-2 adrenérgicos). Em crises, recomenda-se broncodilatadores de ação curta. Em pacientes com estágio 5 de asma, recomenda-se o uso de corticoidesorais diários (ambulatoriais) ou injetáveis (em ambiente hospitalar). 3. Há alguns meses João vem realizando tratamento asmático, devido crises sucessivas, porém nenhum tratamento (recontado pelos protocolos) vem demonstrando efeito significativo. Assim, sua médica decide prescrever prednisona oral. Depois de algumas semanas João apresenta controle mais efetivo da asma. Porém 2 anos depois, sua médica decide retirar o corticoide oral e voltar a fazer o uso do inalatório, porém 3 dias depois João apresenta infecção respiratória e hipotensão, e é levado ao Pronto atendimento de urgência. Esses feitos podem estão relacionados ao uso do corticoide? R = Insuficiência adrenal secundário por retirada abrupta de corticoide. É recomendável hidrocortisona (hospital), prednisona oral (ambulatorial) com desmame prolongado em associação com o corticoide inalatório. 4. Gestante, com mais de 23 semanas gestacionais com risco de parto prematuro. Como prevenir a síndrome da angústia respiratória no prematuro, caso o parto prematuro aconteça? R = < 7 dias para o nascimento, recomenda-se dexametasona (12/12h em 48h) ou betametasona (2 doses em 24h). > 7 dias, de forma profilática, recomenda-se o uso de corticoide de depósito, (sais de betametasona, fosfato disódico e acetato de betametasona – liberado lentamente, mantém os níveis constantes em até 15 dias).