Religiosidade e espiritualidade no transtorno bipolar do humor
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Religiosidade e espiritualidade no transtorno bipolar do humor


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Revisão da Literatura
Religiosidade e espiritualidade no transtorno bipolar do humor
Religiosity and spirituality in bipolar disorder
andRé StRoppa1, alexandeR moReiRa-almeida2 
1 Professor assistente da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
2 Professor adjunto da Faculdade de Medicina da UFJF.
Recebido: 23/1/2009 \u2013 Aceito: 18/2/2009
Resumo
Contexto: Nos últimos vinte anos, estudos sistematizados têm identificado uma relação positiva entre espirituali-
dade/religiosidade (R/E) e saúde, notadamente saúde mental. Entretanto, são escassas as informações sobre R/E 
e transtorno bipolar do humor (TBH). Este artigo objetiva revisar as evidências disponíveis sobre estas relações. 
Métodos: Foram cruzadas as palavras \u201cbipolar\u201d, \u201cmania\u201d e \u201cmanic\u201d com as palavras \u201creligio*\u201d e \u201cspiritu*\u201d nas bases 
de dados PubMed e PsychINFO em novembro de 2008. Foram encontrados 122 artigos publicados entre os anos 
de 1957 e 2008. Resultado: Os estudos apontam que pacientes bipolares tendem a apresentar maior envolvimento 
religioso/espiritual, maior frequência de relatos de conversão e experiências de salvação e uso mais frequente de 
coping religioso e espiritual (CRE) que pessoas com outros transtornos mentais. Indicam ainda, uma relação fre-
quente e significativa entre sintomas maníacos e experiências místicas. Os estudos mais relevantes encontrados na 
literatura foram agrupados nesta revisão em cinco tópicos: delírios místicos, religiosidade e espiritualidade, coping 
religioso-espiritual, recursos comunitários e comunidades tradicionais. Conclusão: O TBH e a R/E possuem intensa 
e complexa inter-relação. Estudos sobre práticas religiosas saudáveis, espiritualidade e recursos de coping merecem 
ser ampliados, bem como sua relação com o cumprimento do tratamento e as recorrências da doença, as intervenções 
psicoterápicas e a psicoeducação de base espiritual.
Stroppa A, Moreira-Almeida A / Rev Psiq Clín. 2009;36(5):190-6
Palavras-chave: Transtorno bipolar, espiritualidade, religiosidade.
Abstract
Background: Over the past twenty years, systematic studies have identified a positive relationship between spirituality/
religiosity (S/R) and health, especially mental health. Although there is only scant information about S/R and Bipo-
larDisorder. Methods: The words \u201cbipolar\u201d, \u201cmania\u201d and \u201cmanic\u201d were crossed with the words \u201creligio*\u201d and \u201cspiritu*\u201d 
in the databases PubMed and PsychINFO in November 2008. It was found 122 articles published between 1957 and 
2008. Results: The studies indicate that bipolar patients have a greater religious/spiritual concern and involvement, 
more reports of conversion, experiences of salvation and a more frequent use of spiritual/religious coping, than people 
with other mental disorders. It also indicates a frequent and significant relationship between manic symptoms and 
mystical experiences, and changes in the intensity of faith after the onset of the disorder. The most relevant studies in 
the literature were distributed by subjects: mystical delusions, religiosity and spirituality, spiritual-religious coping, com-
munity resources and traditional communities. Conclusion: The number of studies about healthy religious practices, 
spirituality, and coping among bipolar patients should be expanded, as soon as its relation to accession, compliance with 
treatment and recurrences of the disease. Greater attention should be given to investigate the relationships between 
religiosity, religious coping, psychotherapeutic interventions, and based-spiritual psychoeducation.
Stroppa A, Moreira-Almeida A / Rev Psiq Clín. 2009;36(5):190-6
Keywords: Bipolar disorder, spirituality, religiosity, religiosity and spirituality in bipolar disorder.
Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Religiosidade (Nupes) da Universidade Federal de Juiz de Fora, Campus Universitário de Martelos, Juiz de Fora, MG.
Endereço para correspondência: André Stroppa. Av. Barão do Rio Branco, 2985/1301, Centro \u2013 36010-012 \u2013 Juiz de Fora, MG. E-mail: andré.stroppa@ufjf.edu.br 
206 Stroppa A, Moreira-Almeida A / Rev Psiq Clín. 2009;36(5):190-6
Introdução
A religiosidade e a espiritualidade (R/E) são aspectos 
importantes na vida da maioria das pessoas e na cultura 
da maioria dos povos. Desde a antiguidade, espirituali-
dade e saúde estiveram intimamente relacionadas. No 
ocidente, religiosos se ocuparam dos cuidados a pessoas 
enfermas da idade média até bem recentemente. No 
final do século XIX, a ciência se distanciou da religião, 
diante da necessidade de se firmar como conhecimento 
autônomo1,2. 
Nos últimos vinte anos, estudos sistematizados e bem 
conduzidos passaram a identificar uma relação positiva 
entre R/E e saúde. Estudos sugerem que R/E possam 
ter efeito protetor sobre a saúde e parecem influenciar 
a saúde física e mental de várias maneiras: (a) por meio 
de regras de convivência e do desestímulo a compor-
tamentos prejudiciais à saúde, como abuso de álcool e 
drogas, comportamento violento ou sexual de risco; (b) 
por meio do uso de crenças religiosas como forma de 
lidar com situações adversas, como uma doença; (c) por 
meio da criação de uma rede de suporte social1-3.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima para 
a próxima década um aumento considerável da participa-
ção dos transtornos mentais entre as principais causas 
de anos de vida perdidos por morte ou incapacidade. O 
transtorno bipolar do humor (TBH) estará entre as dez 
principais causas4. 
Objetivo
Revisar a literatura científica a respeito da relação entre 
TBH e religiosidade/espiritualidade.
Método
As palavras \u201cbipolar\u201d, \u201cmania\u201d e \u201cmanic\u201d foram cruza-
das com as palavras \u201creligio*\u201d e \u201cspiritu*\u201d nas bases 
PubMed e PsychINFO, no mês de novembro de 2008. 
Também foram consultados os textos e referências 
citadas em Handbook of Religion and Health (Koenig, 
2001) e Handbook of Religion and Mental Health (Koenig, 
1998). Para a presente revisão foram selecionados pri-
mariamente os artigos que apresentavam um desenho 
metodológico adequado e que investigavam diretamente 
R/E e TBH.
Resultados
Foram encontrados 122 artigos publicados entre os anos 
de 1957 e 2008, visto que os estudos realizados até a 
década de 1970, em sua maioria, vêem na espiritualidade 
uma evidência de adoecimento mental. Predominam 
os relatos de casos voltados para delírios de conteúdo 
místico, crenças e conversões religiosas, e os estudos 
realizados a partir da década de 1980 são mais abrangen-
tes, envolvem outros aspectos da relação R/E e TB. 
Os estudos mais relevantes foram distribuídos por 
temas, são eles: delírios místicos, R/E, coping religioso e 
espiritual (CRE), recursos comunitários e intervenções 
religiosas e comunidades tradicionais.
Delírios místicos
Autores clássicos da primeira metade do século XX 
apontavam esquizofrenia e epilepsia como os transtor-
nos mentais mais frequentemente relacionados com 
sentimentos e sintomas religiosos. Emil Kraepelin, em 
1929, chamou a atenção para a significativa ocorrência 
de sintomas religiosos entre pacientes bipolares5.
Em estudo transversal de 1966, Sedman e Hopkin-
son6 estudaram 12 pacientes, sendo sete esquizofrênicos 
e três bipolares: avaliaram a ocorrência de vivências de 
influência, alucinações, experiências de conversão e 
mudanças de humor, acompanhados por vivências místi-
cas e religiosas. Durante o estudo, mudanças de humor 
ocorreram nos três pacientes bipolares em vigência de 
mania e se fizeram acompanhar por experiências místi-
cas e religiosas. Quatro dos pacientes esquizofrênicos 
apresentaram períodos de elevação e depressão do 
humor, visto que em três deles tais fases de mudança 
de humor foram acompanhadas também por vivências 
místicas e religiosas. 
Cothran e Harvey7, em estudo transversal de 1986, 
compararam 23 pacientes esquizofrênicos e 18 bipolares, 
porém não identificaram diferenças nas características 
dos delírios. A incidência de delírios de conteúdo místico 
nesse estudo foi igual em ambos os transtornos. 
Brewerton8,