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O ENSINO DA MÚSICA NA EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL_ Caminho para Construção de uma Educação Cidadã

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(Idem, p. 47). 
A linguagem se destaca como último elemento da pesquisa de Durkheim. Ela 
permite que o homem aprenda todo um sistema de idéias organizadas, classificadas, 
possibilitando, neste momento, fazê-lo herdeiro de todo o conhecimento acumulado 
ao longo dos séculos. Sem a linguagem, haveria ausência de idéias gerais, pois são 
as palavras responsáveis por eternizá-las e, ainda, oferecendo a possibilidade de 
ampliá-las. Assim, ela é vista como o mais proeminente de todos os aspectos da 
vida social. Este grau de importância pode ser medido na seguinte questão: “a que 
reduziria o homem, se retirasse dele tudo quanto a sociedade lhe empresta: 
retornaria à condição de animal” (PEREIRA, 1977, p. 47). 
O homem superou os animais não só por seus esforços pessoais; mas, pela 
cooperação coletiva que acaba reforçando o rendimento da atividade individual. 
 
 
Os resultados do trabalho de uma geração não ficaram perdidos para 
a geração que se lhe seguiu. Os frutos da experiência humana são 
quase que integralmente conservados, graças à tradição oral, graças 
aos livros, aos monumentos figurados, aos utensílios e instrumentos 
de toda espécie, que se transmitem de geração a geração (Idem, p. 
47-48). 
 
 
Assim como o solo natural recebe uma grossa camada de terra após um 
período de inundação, o solo da natureza humana acumula sabedoria e 
 23 
experiências, pois estas não se extinguem quando encerra uma geração, ao 
contrário, são repassadas para a próxima geração acrescidas de valores e de 
revisões. “Para que o legado de cada geração possa ser conservado e acrescido, 
será preciso que exista uma entidade moral duradoura, que ligue uma geração à 
outra: a sociedade” (Idem, p. 48). 
Neste sentido, não há oposição entre indivíduo e sociedade, visto que um 
depende do outro, assim, “desejando melhorar a sociedade, o indivíduo melhora a si 
próprio” (Idem, p. 48). 
 A ação exercida pela sociedade, através da educação como processo 
socializador vai trabalhar o indivíduo em seu aspecto individual e coletivo 
simultaneamente, com a finalidade de adestrá-lo a exercer sua individualidade na 
coletividade na qual está inserido. 
 
 
2.1.2 Vínculos culturais e reflexos sociais 
 
 
 
 
Segundo Gimeno Sacristán, “o conhecimento dos outros determina o tipo de 
reconhecimento que fazemos deles” (2002, p.113). É através da interação com o 
outro que o indivíduo, subjetivamente, traça seu perfil e, a partir desta construção, 
o outro passa a ser por ele reconhecido. Este processo se repete uns com os 
outros e, numa dimensão mais ampla, com as diferentes sociedades por 
intermédio da dos vínculos culturais que se firmam entre elas. 
 
A experiência de conhecer, no sentido de atribuir significados, é 
inerente ao encontro com os objetos e com as pessoas, assim como 
colori-los de sentimentos. O conhecimento tem nos contatos sociais 
com os semelhantes uma das fontes fundamentais da experiência, 
 24 
[...]. O conhecimento do outro é um de seus capítulos essenciais. 
Conhecer a outros (trata-se de indivíduos ou de grupos) e fazê-lo de 
uma determinada forma, construindo uma imagem sobre quem são, 
é um vínculo básico para nos relacionarmos com eles (SACRISTÁN, 
2002, p. 113). 
 
 
 As informações diretas, extraídas dos contatos pessoais, permite que sejam 
criados vínculos de conhecimento e de afeto, e estes, reciprocamente, se reforçam. 
Estes vínculos dão suporte às relações sociais, os seja, auxiliam no exercício da 
cidadania, através de ações solidárias originadas pela co-responsabilidade com o 
outro. Desta forma, são criados laços comunitários e, conseqüentemente, o 
estabelecimento de uma rede social que se forma pela proximidade desenvolvida 
pelo conjunto de indivíduos que partilham algo em comum. 
 Neste contexto, a educação é um instrumento valioso pois poderá, através do 
pensamento reflexivo, possibilitar a geração de significados que se transformarão 
em experiências indiretas, que resultam em representações que dão oportunidade 
para o conhecimento do outro. 
 A partir deste conhecimento, se estabelece dois tipos de relação: as relações 
positivas (afeto, afinidade e cumplicidade) e as relações negativas (racismo e 
preconceitos). Estas relações acontecem em função das referências obtidas e 
construídas pelas coordenadas de ordem cultural, que são transmitidas pelo 
condicionamento, seja ele de caráter pessoal ou coletivo. Neste sentido, Sacristán 
destaca: 
 
Percebemos e conhecemos alguém como um indivíduo, mas o 
compreendemos, por exemplo, como alguém que pertence a 
categorias de seres humanos às quais atribuímos , a priori, certas 
peculiaridades (mulher, criança, muçulmano, europeu, etc.) e a partir 
das qualidades que acreditamos possuir ou a partir das categorias às 
quais acreditamos pertencer (2002, p. 114-115). 
 25 
 Há uma hierarquia natural que ocorre entre os vínculos afetivos. Esta seleção 
obedece a seguinte escala de prioridade: os amados, os indiferentes e os rejeitados. 
 Esta seqüência, acrescida do conhecimento que se faz de cada categoria, 
são descritas da seguinte forma: 
a) aqueles que são ligados a nós por conhecimentos ajustados à realidade, mais ou 
menos amplos e profundos; 
b) aqueles que caem no terreno neutro de nossa ignorância, aqueles que não 
conhecemos; 
c) o grupo dos que conhecemos negativamente, sobre os quais temos um 
conhecimento deformado. 
 
 Os indivíduos que fazem parte do primeiro grupo – os amados – possuem 
presença (atenção) garantida, os do segundo grupo – os indiferentes – não possuem 
nenhum significado pois são desconhecidos, o do terceiro grupo – os rejeitados – 
possuem presença importante, visto que, são colocados em destaque pelo 
conhecimento deformado que se tem sobre ele. 
 Acreditava-se que a escola possuía papel limitado para dar conta da solução 
desta questão – a socialização entre os diferentes grupos ou categorias. Hoje, 
vislumbra-se a possibilidade do estabelecimento de uma linha de ação pedagógica-
educacional, que, efetivamente, contribua para a interação destas categorias, 
diminuindo a distância existente entre elas. Nesta ação, o exercício da cidadania 
ficará em evidência, pois, minimizará a esfera negativa de um dos grupos 
promovendo, assim, a formação de um novo grupo. 
 
Só nos resta a esperança de que outra verdadeira educação corrija e 
evite esses “desvios”, estimulando a capacidade para a crítica, a 
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reflexão e a autonomia dos indivíduos, combatendo as crenças na 
supremacia de alguns grupos sobre os outros e destruindo as 
concepções nas quais se apoiam. Todavia, tudo isso não bastará se 
não se superar a fria relação que o conhecimento dá, intrometendo-
se nos laços afetivos (ADORNO apud SACRISTÁN, 2002, p. 116-
117). 
 
 
 A escola, através de uma reestruturação curricular, poderá vir a ser o veículo 
condutor responsável em promover o conhecimento de nós mesmos, do outro, e 
ainda, fazer conhecido os que não o são. Assim ela estará desempenhando bem o 
seu papel, vivenciando e disseminando a cidadania através de um exercício prático 
que deve ir muito além dos muros escolares. 
 
 
2.2 CULTURA E EDUCAÇÃO 
 
 
 O conceito de cultura advém das concepções oriundas da tríade dos 
primeiros filósofos gregos: Sócrates, Platão e Aristóteles. Assim, da antigüidade aos 
nossos dias, a cultura vem desempenhando papel decisivo na formação do homem 
em seus aspectos: sociais, políticos, econômicos, religiosos e históricos. Logo, 
devido à diversidade, cada cultura carrega seus próprios valores. 
Cultura, assim, existe pela capacidade humana de transformar a natureza em 
função de suas muitas necessidades. E é por este poder de transformar coisas em 
objetos significativos que o homem difere do animal pois, este último, vive 
mergulhado na natureza e dela apenas usufrui por razões instintivas. 
A palavra cultura terá seu conceito modificado de acordo com o contexto. 
Pode-se dizer,