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Meningites Surto x Epidemia x Endemia: SURTO: O Surto epidêmico é definido como uma epidemia de proporções reduzidas, atingindo pequena comunidade humana. Exemplo: surtos em creches, escolas, instituições fechadas. EPIDEMIA: A Epidemia é a ocorrência, numa coletividade ou região, de casos da mesma doença (ou surto epidêmico) em número que ultrapassa o quantitativo de casos normalmente esperados. O número de casos que caracteriza a presença de uma epidemia varia de acordo com o agente infeccioso, o tamanho e o tipo da população exposta, sua experiência prévia com a doença ou a ausência de casos anteriores e o tempo e o lugar da ocorrência. Ao descrever uma epidemia, deve ser especificado o período, a região geográfica e outras particularidades da população em que os casos ocorreram. ENDEMIA: É a ocorrência habitual de uma doença ou de um agente infeccioso, em determinada área geográfica; pode significar, também, a prevalência usual de determinada doença nessa área. As doenças transmissíveis são chamadas de endêmicas quando em uma área geográfica ou grupo populacional apresenta um padrão de ocorrência relativamente estável com elevada incidência ou prevalência. Doenças endêmicas como a malária estão entre os principais problemas de saúde em países tropicais de baixa renda. Se ocorrerem mudanças nas condições do hospedeiro, do agente ou do ambiente, uma doença endêmica poderá se tornar epidêmica. PANDEMIA: Epidemia de grandes proporções, atingindo grande número de pessoas em uma grande área geográfica (um ou mais continentes). Indicadores epidemiológicos: INCIDÊNCIA: A incidência de uma doença, em um determinado local e período, é o número de casos novos da doença que iniciaram no mesmo local e período. Traz a ideia de intensidade com que acontece uma doença numa população, mede a frequência ou probabilidade de ocorrência de casos novos de doença na população. Alta incidência significa alto risco coletivo de adoecer. PREVALÊNCIA: Prevalecer significa ser mais, preponderar, predominar. A prevalência indica qualidade do que prevalece, prevalência implica em acontecer e permanecer existindo num momento considerado. Portanto, a prevalência é o número total de casos de uma doença, existentes num determinado local e período. A quantidade de casos existentes de uma doença, em uma determinada população, em um certo momento, é a prevalência da doença. Teoricamente, o momento corresponde a um "ponto" no tempo (prevalência instantânea). Em circunstâncias operacionais, é possível m e n n i i g t e s estabelecer o momento tomando-se diferentes unidades de tempo (semana, mês, ano); a prevalência sugere "volume". Uma segunda medida da frequência de uma doença é dada pela incidência, que corresponde à quantidade de casos novos, ocorridos em uma determinada população durante um certo período; a incidência sugere "velocidade" ou "intensidade". O número absoluto de casos novos de uma doença, ocorridos durante um certo período, em uma população sob risco de adquirir a doença, é o coeficiente de incidência da doença na população, no período considerado. LETALIDADE: A letalidade mede a severidade de uma doença e é definida como a proporção de mortes dentre aqueles doentes por uma causa específica em um certo período de tempo. Taxa de letalidade relaciona o número de óbitos por determinada causa e o número de pessoas que foram acometidas por tal doença. Esta relação nos dá ideia da gravidade do agravo, pois indica o percentual de pessoas que morreram por tal doença e pode informar sobre a qualidade da assistência médica oferecida à população. MORTALIDADE: É o número de óbitos no período pelo número total de população no período. O número absoluto de óbitos ocorridos em uma determinada população, durante um certo período, ponderado pelo tamanho da população, no meio do período, é o coeficiente geral de mortalidade dessa população, no período considerado. Como a informação fornecida pelo coeficiente geral de mortalidade é limitada, a análise da mortalidade de uma população requer a construção de indicadores específicos, que forneçam informação a respeito de quem morre, e sobre as causas dos óbitos. A principal desvantagem da taxa de mortalidade geral é o fato de não levar em conta que o risco de morrer varia conforme o sexo, idade, raça, classe social, entre outros fatores. Não se deve utilizar esse coeficiente para comparar diferentes períodos de tempo ou diferentes áreas geográficas. É a variável característica das comunidades de seres vivos; refere-se ao conjunto dos indivíduos que morreram num dado intervalo do tempo. Representa o risco ou probabilidade que qualquer pessoa na população apresenta de poder vir a morrer ou de morrer em decorrência de uma determinada doença. Diversas vezes temos que medir a ocorrência de doenças numa população através da contagem de óbito e para estudá- las corretamente; estabelecemos uma relação com a população que está envolvida. É calculada pelas taxas ou coeficientes de mortalidade. Representam o “peso” que os óbitos apresentam numa certa população. MORBIDADE: As taxas de mortalidade são particularmente úteis na investigação de doenças com alta letalidade. Entretanto, muitas doenças apresentam baixa letalidade, como, por exemplo, a maioria das doenças mentais, doenças musculoesqueléticas, artrite reumatoide, varicela e caxumba. Nessa situação, dados de morbidade são muito mais úteis do que as taxas de mortalidade. Os dados sobre morbidade são frequentemente úteis no entendimento de certas tendências na mortalidade. Mudanças nas taxas de mortalidade podem ser decorrentes de modificações no padrão de morbidade ou de letalidade de determinada doença. Assim como a mortalidade, a morbidade está sempre referida a uma população e a um período de tempo determinados. Por outro lado, enquanto o óbito marca uma mudança radical e irreversível, o adoecimento é transitório, e admite uma gama de gradações (a doença leve, equivalente a uma perturbação pequena, tem um significado bastante distinto da doença grave, que pode levar à morte). Deste modo, embora seja possível construir indicadores genéricos de morbidade (traduzindo "doença" por internação, consulta médica, consumo de medicamentos, interrupção das atividades cotidianas por motivo de saúde, etc.), os indicadores de morbidade frequentemente se referem a uma doença específica, ou a um grupo de doenças específico. Fontes de dados de morbidade incluem: admissões e altas hospitalares; consultas ambulatoriais e de atenção primária; serviços de especialistas (como tratamentos para acidentes); registros de doenças (como câncer e malformações congênitas). FATORES DE RISCO: Um fator de risco refere-se a aspectos de hábitos pessoais ou de exposição ambiental, que está associado ao aumento da probabilidade de ocorrência de alguma doença. Uma vez que os fatores de risco podem ser modificados, medidas que os atenuem podem diminuir a ocorrência de doenças. O impacto dessas intervenções pode ser determinado através de medidas repetidas utilizando-se os mesmos métodos e definições. PATOGENICIDADE E VIRULENCIA: Alguns indicadores (tradicionalmente utilizados em doenças infecciosas) dizem respeito a características do agente etiológico. A patogenicidade é a capacidade do agente de provocar a doença no hospedeiro infectado, e édada pela proporção de doentes em relação ao total de infectados. A virulência é a capacidade do agente de provocar casos graves (proporção de casos graves em relação ao total de doentes); a virulênciado agente tem influência sobre a letalidade da doença. ESTILO DE VIDA DOS INDIVÍDUOS: Relacionado com os fatores comportamentais e de estilos de vida das pessoas. Para uma ação eficaz neste nível são necessárias políticas públicas que estimulem a mudança de comportamento por meio de programas educativos, comunicação social, acesso facilitado a uma alimentação saudável, criação de espaços públicos para a prática de esportes e exercícios físicos, bem como proibição à propaganda do tabaco e do álcool em todas as suas formas. REDES SOCIAIS E COMUNITÁRIAS: As relações de solidariedade e confiança entre pessoas e grupos são importantes para a promoção e proteção da saúde individual e coletiva. Para atuar neste nível são incluídas as políticas que buscam estabelecer redes de apoio e fortalecer a participação das pessoas e das comunidades. CONDIÇÕES DE VIDA E TRABALHO: Esse nível se relaciona com as condições materiais e psicossociais nas quais as pessoas vivem e trabalham. As políticas que atuam nesse nível normalmente são de responsabilidade de vários setores, como oferecer a população água limpa e tratada, saneamento básico, habitação, alimentos saudáveis e nutritivos, emprego, ambientes de trabalho saudáveis, serviços de saúde e educação de qualidade etc. CONDIÇÕES SOCIECONÔMICAS, CULTURAIS E AMBIENTAIS: Este nível é conhecido como à atuação ao nível dos macrodeterminantes, através de políticas macroeconômicas e de mercado de trabalho, de proteção ambiental e de promoção de uma cultura de paz e solidariedade que possam promover um desenvolvimento sustentável, diminuindo as desigualdades sociais e econômicas, as violências, a degradação ambiental e seus efeitos sobre a sociedade. Vigilância epidemiológica x vigilância sanitária: VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA: Entende-se por vigilância epidemiológica um conjunto de ações que proporcionam o conhecimento, a detecção ou prevenção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes de saúde individual ou coletiva, com a finalidade de recomendar e adotar as medidas de prevenção e controle das doenças ou agravos. A vigilância em saúde é a coleta, análise e interpretação sistemática de dados em saúde para o planejamento, implementação e avaliação das atividades em saúde pública. Os dados obtidos pela vigilância devem ser disseminados, permitindo a implementação de ações efetivas para a prevenção da doença. Os mecanismos de vigilância incluem a notificação compulsória de algumas doenças, registros de doenças específicas (base populacional ou hospitalar), pesquisas populacionais repetidas ou contínuos e a agregação de dados que mostram padrões de consumo e atividade econômica. VIGILÂNCIA SANITÁRIA : Entende-se por vigilância sanitária um conjunto de ações capazes de eliminar, diminuir ou prevenir riscos à saúde e de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção e circulação de bens e da prestação de serviços de interesse da saúde, abrangendo: I – o controle de bens de consumo que direta ou indiretamente, se relacionem com a saúde, compreendidas todas as etapas e processos, da produção ao consumo; e II – o controle da prestação de serviços que se relacionam direta ou indiretamente com a saúde. No Brasil, a ANVISA é responsável por criar normas e regulamentos e dar suporte para todas as atividades da área no País. A ANVISA também é quem executa as atividades de controle sanitário e fiscalização em portos, aeroportos e fronteiras. A vigilância sanitária pode atuar em: Agentes etiológicos meningites: BACTERIANA: Os principais agentes bacterianos são: Neisseria meningitidis (meningococo), Streptococcus pneumoniae (pneumococo), Haemophilus influenzae. Podemos citar ainda outros agentes bacterianos, como: Mycobacterium tuberculosis, Streptococcus sp. – especialmente os do grupo B, Streptococcus agalactie, Listeria monocytogenes, Staphylococcus aureus, Pseudomonas aeruginosa, Klebsiella pneumoniae, Enterobacter sp. Dentre os fatores associados à meningite bacteriana podemos citar: 1. Faixa etária, porta de entrada ou foco séptico inicial; 2. Tipo e local da infecção no sistema nervoso central (SNC); 3. Imunidade prévia; situação epidemiológica local. VIRAL: As meningites virais têm distribuição universal e, em geral, evolução benigna, baixa letalidade e menor risco de sequelas. São frequentemente associadas à ocorrência de surtos, podendo ocorrer casos isolados. A incidência se eleva nos meses do outono e da primavera. FÚNGICA: Os principais fungos causadores de meningite são do gênero Cryptococcus, sendo as espécies mais importantes a C. neoformans e a C. gattii. Outros fungos menos frequentes são: Candida albicans, Candida tropicalis, Histoplasma capsulatum, Paracoccidioides brasiliensis, Aspergillus fumigatus. A meningite criptocócica tem caráter predominantemente oportunista, acometendo principalmente indivíduos com estado imunológico comprometido (aids ou outras condições de imunossupressão). No entanto,a espécie C. gattii pode acometer imunocompetentes, residentes em áreas tropicais e subtropicais, com caráter epidêmico. Em geral, cursa com comprometimento neurológico importante, apresentando evolução grave. Associa- -se a elevado risco de complicações, como hipertensão intracraniana e de sequelas, como paralisia permanente de nervos cranianos, déficit cognitivo e hidrocefalia. Quadro clínico: O quadro clínico da meningite caracteriza-se por febre de início súbito, associada à cefaleia, prostração, náuseas, vômitos, hiporexia, rigidez de nuca, mialgia, agitação, fotofobia e sinais meníngeos. Em neonatos e lactentes, o quadro é caracterizado por irritabilidade, baixa aceitação da dieta, hipertonia/hipotonia, febre, convulsões, choque séptico, convulsão, abaulamento de fontanela, grito meníngeo (criança grita ao ser manipulada, principalmente, quando se flete as pernas para trocar a fralda). A presença de rigidez da nuca quase nuca está presente, sendo necessário analisar o quadro geral, abaulamento da fontanela e dados epidemiológicos para a suspeição de meningococo. A irritação meníngea se associa com os sinais abaixo: • Sinal de Kernig: flexão passiva da coxa sobre a bacia, em ângulo reto, com dor e resistência à extensão do joelho. • Sinal de Brudzinski: flexão involuntária da perna ao se tentar fletir a cabeça do paciente. MENINGITE VIRAL: Tendo seu principal representante o enterovírus, associadas ao quadro de meningite, são comuns manifestações gastrointestinais (vômitos, hiporexia, diarreia e dor abdominal), respiratórias (tosse, faringite) e ainda erupção cutânea. No exame físico observa-se um bom estado geral associado aos sinais de irritação meníngea. Em geral, cursa com bom prognóstico e a recuperação do paciente é completa. Tende a ser autolimitada, a duração do quadro é geralmente inferior a uma semana. MENINGITE CRIPTOCÓCICA: Deve ser sempre considerada em pacientes com AIDS que apresentam cefaleia, febre, demência progressiva e confusão mental. MENINGITE BACTERIANA: O período de encubação é de 2-10 dias e a apresentação clínica pode apresentar-se na forma de 3 síndromes, que não necessariamente estão todas presentes. • Síndrome toxêmica: queda importante do estado geral, febre alta, delirium, e quadro confusional. Sinal de Faget (dissociação pulso- - temperatura) pode estar presente. • Síndrome da Hipertensão Intracraniana (HIC): cefaleia, náuseas e vômitos. • Síndrome da irritação meníngea: rigidez nucal, sinal de Kernig, sinal de Brudzinsk e desconforto lombar. Somente 50% dos pacientes apresentam essa tríade. Outros achados são convulsões e sinais neurológicosfocais. A presença de lesões cutâneas é bem características da N. meningitidis. A infecção por meningococo pode levar a meningite e meningococcemia, sendo denominada como doença meningocócica, que é um problema de saúde pública devido ao risco de surtos. 15- 20% possuem evolução rápida e muitas vezes fulminante devido a septicemia meningocócica, apresentando prostração intensa, palidez, sinais de toxemia, exantema e/ou petéquias, sufusões hemorrágicas, hipotensão, rebaixamento do sensório, associados ou não a quadro de meningite, com risco de evolução para choque, CIVD e óbito. compondo a Síndrome de Waterhouse-Friderichsen. MENINGITE TUBERCULOSA: Se não tratada, classicamente possui curso da doença dividido em 3 estágios: • Estágio I: tem duração de 1 a 2 semanas, sintomas inespecíficos (febre, mialgias, sonolência, apatia, irritabilidade, cefaleia, anorexia, vômitos, dor abdominal e mudanças súbitas do humor), e pode estar lúcido. • Estágio II: surgimento de evidências de dano cerebral com aparecimento de paresias, plegias, estrabismo, ptose palpebral, irritação meníngea e HIC. Podem surgir manifestações de encefalite, com tremores periféricos, distúrbios da fala, trejeitos e movimentos atetóides. • Estágio III ou período terminal: déficit neurológico focal, opistótono, rigidez de nuca, alterações do ritmo cardíaco e da respiração e rebaixamento do nível de consciência, incluindo o coma. Solicitação de exames: A meningite bacteriana é uma emergência médica que exige diagnóstico imediato e instituição rápida de terapia antimicrobiana. Atraso no tratamento é o fator mais importante na determinação da morbidade e da mortalidade de pacientes com meningite bacteriana. O diagnóstico de meningite bacteriana não é difícil em um paciente febril com sintomas e sinais meníngeos desenvolvendo-se no contexto de uma doença predisponente. O diagnóstico pode ser menos evidente num paciente idoso, obnubilado, com pneumonia ou então num paciente confuso, com alcoolismo, em iminência de delirium tremens. Quando se suspeita do diagnóstico de meningite bacteriana, devem ser realizadas hemoculturas em paralelo ao exame e cultura do LCR, devendo ser prontamente instituída terapia antimicrobiana. Se houver suspeita de lesão com efeito de massa (abscesso cerebral, empiema subdural) a partir de informações da história, dos dados clínicos ou dos achados do exame físico (papiledema, sinais cerebrais focais), devem ser realizados primeiramente exames de imagem, antes do LCR, incluindo TC com ou sem realce por contraste, ou ressonância magnética (RM), por causa do risco de herniação cerebral ao se fazer a punção lombar. Os antibióticos podem e devem ser iniciados imediatamente, mesmo antes de realizar a punção lombar, pois são necessárias aproximadamente duas horas para que os antibióticos afetem as culturas de LCR. Punção lombar diagnóstica não deve ser adiada para realizar a TC ou a RM, exceto em pacientes com alterações neurológicas focais sugestivas de coleções ou outras lesões intracranianas com efeito de massa. Nesses pacientes, é fundamental iniciar a terapia antimicrobiana para meningite de origem desconhecida ou abscesso cerebral antes de realizar TC ou RM. Pacientes com meningite adquirida na comunidade raramente apresentam anormalidades significativas detectadas na TC, na ausência de alterações neurológicas focais. EXAME DO LÍQUIDO CEFALORRAQUIDIANO: A pressão inicial do LCR em geral está moderadamente elevada (de 200 a 300 mm H2O em adultos). Elevações importantes (≥450 mm H2O) ocorrem em pacientes com edema cerebral agudo complicando a meningite, mesmo na ausência de lesão com efeito de massa. As variáveis analisadas pelo exame de LCR costumam estar francamente alteradas em pacientes com meningite e tais achados podem ajudar a sugerir a causa, mesmo antes que os resultados da cultura estejam disponíveis. Em pacientes com fraturas do crânio, LCR escoado por rinorreia pode se distinguir de secreções nasais pela presença de glicose no LCR e não na secreção nasal. Quando há suspeita de meningite bacteriana, devem-se obter imediatamente hemoculturas, e o tratamento antimicrobiano empírico e a terapia adjuvante com dexametasona devem ser iniciados sem demora. O diagnóstico de meningite bacteriana é estabelecido pelo exame do LCS. A necessidade de avaliação neurorradiológica (TC ou RM) antes da PL requer discernimento clínico. Em paciente imunocompetente sem história conhecida de traumatismo craniano recente, com nível de consciência normal e sem evidências de papiledema ou déficits neurológicos focais, é considerado seguro realizar a PL sem exame de neuroimagem prévio. Se a PL for adiada com a finalidade de se obter um exame de neuroimagem, deverá ser iniciada a antibioticoterapia empírica após a coleta para hemoculturas. A antibioticoterapia instituída algumas horas antes da PL não modifica significativamente a contagem de leucócitos ou a concentração liquórica de glicose e tampouco impede a visualização de microrganismos pela coloração de Gram ou detecção de ácidos nucleicos bacterianos pela reação em cadeia da polimerase (PCR). Quase todos os pacientes com meningite bacteriana são submetidos a exames neurorradiológicos durante a evolução da doença. A RM é preferível à TC devido à sua superioridade na demonstração de áreas de edema e isquemia cerebrais. Nos pacientes com meningite bacteriana, frequentemente observa-se captação difusa de contraste pelas meninges após a administração de gadolínio. A captação meníngea não é diagnóstica de meningite, pois ocorre em qualquer doença do SNC associada a aumento da permeabilidade da barreira hematencefálica. A meningoencefalite viral, e particularmente a encefalite pelo herpes- vírus simples (HSV), pode simular a apresentação clínica de meningite bacteriana. A encefalite herpética apresenta-se com cefaleia, febre, alteração da consciência, déficits neurológicos focais (p. ex., disfasia, hemiparesia) e crises convulsivas focais ou generalizadas. Os achados liquóricos, dos exames neurorradiológicos e do eletrencefalograma (EEG) distinguem entre encefalite por HSV e meningite bacteriana. O perfil típico do LCS nas infecções virais do SNC é o de pleocitose linfocitária com concentração de glicose normal, diferente da pleocitose por PMN e hipoglicorraquia típicas da meningite bacteriana. Não se observam anormalidades na RM da meningite bacteriana não complicada (afora a captação meníngea de contraste). Em contrapartida, na encefalite por HSV, nas imagens de RM ponderadas em T2, com recuperação de inversão com atenuação do líquido (FLAIR) e ponderadas em difusão, são observadas lesões de sinal hiperintenso nos lobos orbitofrontais, anteriores e temporomediais na maioria dos pacientes dentro de 48 horas após o início dos sintomas. Alguns pacientes com encefalite por HSV exibem no EEG um padrão periódico típico. Vias de contágio: A transmissão ocorre através do contato com secreções respiratórias do portador do agente patogênico (inalação de gotículas de secreção de vias aéreas), havendo necessidade de contato íntimo (moradores da mesma casa, pessoas que compartilham dormitório ou alojamento, comunicante de creche ou escola, namorado). As meningites virais (especificamente causadas por enterovírus) geralmente são transmitidas por via fecal-oral. Apresenta um período de incubação de, em geral, 2 a 10 dias com média de 3 a 4 dias. Para os enterovírus, situa-se entre 7 e 14 dias. Para os casos de meningite tuberculosa, a incubação ocorre nos 6 primeiros meses da infecção. No caso das meningites bacterianas, o agente etiológico pode atravessar a barreira hematoencefálica por: • Acesso direto: fraturas de crânio, defeito congênito de fechamento do tubo neural (espinha bífida, meningocele, meningomielocele, meningoencefalocele)e iatrogênica (punção liquórica inadequada). • Contiguidade: otites médias, mastoidites ou sinusites. • Via hematogênica: ultrapassa a barreira hematoencefálica por ligação com receptores endoteliais, lesão endotelial ou em áreas mais susceptíveis, como o plexo coroide. • Derivações liquórica. A lise bacteriana e liberação da suas endotoxinas (Gram-negativas), ácido teicoico e peptidioglicano (Gram-positivas) da parede celular, induzem a produção de citocinas inflamatórias que aumentam a permeabilidade da barreira hematoencefálica, causando edema vasogênico e hidrocefalia através deste mecanismo. Por este mesmo mecanismo, há formação de edema intersticial junto com a hidrocefalia. Além disso, a migração de leucócitos resulta em degranulação e liberação de metabólitos tóxicos que geram edema citotóxico, crises epilépticas e até mesmo acidente vascular. A consequência desses eventos é o aumento da pressão intracraniana e até mesmo coma. Já a transmissão pode ocorrer até 24 horas após o início da antibioticoterapia adequada, no caso de etiologias bacterianas. No caso das meningites virais, os vírus atingem o SNC por via hematogênica (enterovírus) ou neuronal (HSV). No caso dos enterovírus, ao passarem pelo estômago, são capazes de resistir ao pH ácido e prosseguem para o trato gastrointestinal inferior. Outros vírus se replicam na nasofaringe e se disseminam em linfonodos locais. Após os enterovírus se ligarem a receptores dos enterócitos, eles se replicam em uma célula suscetível, progridem para a placa de Payer (onde ocorre replicação mais intensa) e então uma viremia atinge coração, SNC, fígado, sistema reticuloendotelial. Acredita-se que o enterovírus atinja o SNC através de junções íntimas endoteliais e posteriormente alcance o plexo coroide e o líquor. A infecção causada pelo HSV (vírus herpes simples) atinge o SNC pela via neuronal, através do nervo trigêmeo e olfatório; ou ainda nos casos de meningite asséptica, o vírus se dissemina após uma lesão genital primária, ascendendo pelas raízes sacrais até a meninge. O vírus pode ainda ficar latente nas raízes nervosas do trigêmeo e olfatório, reativando anos depois, causando encefalite ou quadros de meningite asséptica. quimioprofilaxia: A quimioprofilaxia é a melhor medida para prevenção de casos secundários e de surtos. Está indicada somente para os contatos próximos de casos de meningite por H. influenzae e doença meningocócica. Considera-se como contato próximo moradores do mesmo domicílio, indivíduos que compartilham o mesmo dormitório (em alojamentos, quartéis, entre outros), parceiro, comunicantes de creches e escolas, pessoas diretamente expostas às secreções do paciente, indivíduo que conviveu com o doente por quatro ou mais horas diárias, por pelo menos cinco dos sete dias que antecederam a admissão hospitalar do caso. A droga de escolha é a Rifampicina. Deve ser iniciada, idealmente, até 48 horas da exposição, podendo ser usada até 10 dias no caso de doença meningocócica ou até 30 dias no caso do Haemophilus influenza. Todos os contatos devem ser monitorados durante 10 dias. Para os menores de um ano contactantes não vacinadas, deve ser utilizada a vacina tetravalente nas meningites por H. influenzae. Indicações de quimioprofilaxia: • Todos os contatos próximos de um caso de doença meningocócica, independente do estado vacinal • Contato próximo com casos de doença invasiva por Haemophilus influenzae. • Profilaxia para o profissional de saúde: indicada somente para casos com exposição às secreções respiratórias e vômitos do doente, durante procedimentos invasivos como intubação orotraqueal, ou quando permaneceram no mesmo ambiente que o doente por um período superior a quatro horas, sem utilização de equipamentos de proteção individual (EPI). A vacinação é considerada a principal medida preventiva, sendo as vacinas específicas para determinados agentes etiológicos e utilizadas na rotina para imunização de crianças menores de 2 anos. Estão disponíveis no Calendário Nacional de Vacinação da Criança do Programa Nacional de Imunizações (PNI/MS): • Vacina conjugada Pentavalente: protege contra meningite e outras infecções causadas pelo H. influenzae tipo b, além de difteria, tétano, coqueluche e hepatite B. • Vacina BCG: protege contra as formas graves de tuberculose (miliar e meníngea). • Vacina pneumocócica conjugada 10-valente: protege contra doenças invasivas e outras infecções causadas pelo pneumococo (proteção contra dez sorogrupos). • Vacina meningocócica conjugada C: protege contra doença invasiva causada por meningococo do sorogrupo C. • Vacina pneumocócica polissacarídica 23-valente (VPP23): indicada para imunodeprimidos, portadores de doenças crônicas e população indígena acima de 2 anos de idade. • Surto e vacinação de bloqueio • Surto: ocorrência de três ou mais casos pelo mesmo sorogrupo confirmados laboratorial- mente (cultura ou PCR) em até 3 meses, na mesma área geográfica, que não sejam comunicantes entre si. • Vacinação de bloqueio: indicada para população exposta, quando há a confirmação de um surto de doença meningocócica causada pelo sorogrupo C. • Vacina meningocócica conjugada C: interrompe a cadeia de transmissão do meningococo na comunidade. Esquemas: Referências bibliográficas: • Medicina Interna de Harrison - [Dennis L.] Kasper... [et al.] 19ª edição - Porto Alegre - AMGH, 2017. • Goldman - Cecil Medicina, editado por Lee Goldman, Andrew I. Schafer [et al.] 25ª edição - Rio de Janeiro - Elsevier, 2018. • Resumos da Med • SanarFlix: SUPER MATERIAL MENINGITE