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APOSTILA FUNDAMENTOS DAFUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃOEDUCAÇÃO https://www.unovacursos.com.br/admin/cursos/curso/133 FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO INTRODUÇÃO...................................................................................................02 CAPÍTULO 1 – Fundamentos Históricos da Educação..................................03 CAPÍTULO 2 – Fundamentos Psicológicos da Educação.............................07 CAPÍTULO 3 – Fundamentos Filosóficos da Educação ................................17 CAPÍTULO 4 – Fundamentos Sociológicos da Educação.............................20 CAPÍTULO 5 – A Sociologia da Educação......................................................23 CAPÍTULO 6 – A Escola como Instituição Social..........................................27 CAPÍTULO 7 – A Escola e o Controle Social..................................................30 CAPÍTULO 8 – A Escola e o Desvio Social.....................................................34 CAPÍTULO 9 – A Escola Nova..........................................................................38 CAPÍTULO 10 – A Profissão de Professor......................................................41 CONCLUSÕES..................................................................................................47 BIBLIOGRAFIA.................................................................................................48 2 INTRODUÇÃO Não há, portanto, educação e aprendizado sem a devida consideração pelo contexto social. No presente estudo, iremos entender todos esses conceitos de forma mais clara. Primeiro, iremos entender como a Filosofia, a Psicologia e a Sociologia ajudaram a estabelecer os fundamentos e paradigmas atuais da educação nacional. Em seguida, iremos discutir a função social da escola. As pesquisas teóricas da área de educação têm demonstrado, nas últimas décadas, que existem vários fatores envolvidos na aprendizagem humana, não só o mental. Para adquirir o conhecimento de forma mais efetiva, o indivíduo não pode estar passando por um desequilíbrio físico, mental ou emocional, pois, embora consiga depreender algum conteúdo, não terá aprendido com todo seu potencial. Sendo assim, a escola precisa promover o bem-estar de seus alunos para que estes aprendam melhor. Mas, e a formação social? Qual a responsabilidade da escola? Ora, se a escola representa a sociedade, exerce a função de preparar os futuros cidadãos, ela não pode se eximir da tarefa de prepará-los para o exercício da cidadania. Obviamente, isso não tira a responsabilidade dos pais de exercerem a mesma tarefa, pois no caso de formação integral, tanto a família como a escola são coautoras desse processo. 3 CAPÍTULO 1 – FUNDAMENTOS HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO A educação formal tal qual a conhecemos atualmente, inclusiva e integradora, não foi sempre oferecida dessa forma: a todos e de forma gratuita. Tanto no Brasil como no resto do Ocidente, a educação por muitos séculos foi direito somente para uma elite, branca e masculina. Durante muitos anos essa educação foi ligada à Igreja Católica e seus princípios doutrinadores. Neste capítulo, iremos descrever os fundamentos da educação moderna, com sua história, principais teorias e autores. • A História da Educação A educação do homem vai além da abordagem acadêmica, dentro de instituições de ensino. Educar é parte do processo de socialização e integração cultural, sendo algo presente na vida humana desde a antiguidade. O progresso e a evolução humana são frutos dos processos educativos, de transmissão de conhecimento através dos tempos entre os grupos sociais. No Ocidente, começamos a contar a história da educação pela Grécia Antiga, sendo que esta é uma civilização significativa para os fundamentos da educação até a atualidade. As cidades gregas de Esparta e Atenas, principais polos educacionais da antiguidade grega, serviram de modelo para toda a educação ocidental. O modelo espartano de educação era fundamentado na rigidez moral, na disciplina, no autoritarismo e no alto desempenho militar e físico. Já o modelo ateniense era democrático, fundado na reflexão, na argumentação e na oratória. Ambos os modelos, embora opostos, foram reproduzidos por séculos na Europa e todo o ocidente, sendo que filósofos como Sócrates e Platão (bases dos estudos gregos) nos influenciam até hoje. Na Idade Média, a educação fica estagnada em um ensino dominado pelo catolicismo e destinado somente aos ricos senhores feudais e sua família. Na verdade, somente homens tinham acesso ao ensino formal, ensino este que se baseava em uma educação profundamente ligada aos dogmas católicos, geralmente oferecida por padres e outros sacerdotes da igreja. Os meninos eram educados rigidamente, alguns iam para a universidade e outros ingressavam no seminário. Mulheres e servos não tinham acesso a esse tipo de educação. Mulheres ricas eram educadas por tutores para serem damas preparadas para serem senhoras dos castelos. Mulheres e homens pobres geralmente aprendiam ofícios braçais e ligados aos trabalhos domésticos e do feudo. Não havia também a escola como a temos atualmente, para todos e laica. Os poucos colégios eram católicos, destinados a formar religiosos, de preferência padres. As crianças se vestiam como adultos e não havia uma educação própria para essa etapa da vida. Apesar desse pensamento feudal em relação à infância, temos por essa época um importante escritor que é considerado o pai da didática moderna: João Amós Comênio. Comênio era um educador e bispo da igreja protestante, suas ideias sobre educação eram muito à frente do seu tempo. Ele afirmava que a criança precisava ter respeitados seus estágios de desenvolvimento, que eram seres diferentes dos adultos e que a educação deveria ser fundamentada no diálogo. 4 Comênio também defendia pedagogias ativas, baseadas na experimentação e um ambiente adaptado à educação infantil. A base da didática de Comênio era o contato com o mundo através de experiências sensoriais e cognitivas (AMADO, 2007). Com o enfraquecimento do Feudalismo, o ressurgimento do comércio e das cidades, uma nova classe social começa a dominar a Europa: a burguesia. As grandes navegações, o Renascimento cultural e o fortalecimento dos ideais burgueses transformam a educação em algo menos elitista, mas ainda destinada a homens ricos. As monarquias se fortalecem e com elas a nobreza, que também se torna uma classe influente na educação e na cultura. Isso perdura até o Iluminismo e a Revolução Francesa. O Iluminismo é um período em que surgem grandes filósofos, que pregam ideais de democracia, igualdade e fraternidade, pensamentos bases para a Revolução Francesa: revolta da burguesia que depôs a monarquia francesa e estabeleceu a república. Assim, a Europa vê o enfraquecimento da nobreza e o fortalecimento da burguesia, que vai querer educação formal para seus filhos. Assim, o ensino se amplia além dos nobres, incluindo não só grandes burgueses, mas pequenos comerciantes. A quantidade de escolas cresce e passa a atender um público maior. Mulheres passam a frequentar não só as escolas, mas as universidades. Algumas concepções de infância começam a se difundir, como as que afirmam ser a mesma um ser frágil, incapaz, inocente, o que gera uma atitude exageradamente paternalista por parte dos adultos. Assim, se forma a família burguesa. Nesse período, podemos destacar alguns autores importantes que ajudam a formar o conceito de infância que temos atualmente: Jean Jacques Rousseau, Johann Henrich Pestalozzi e Friedrich Froebel (AMADO, 2007). Friedrich Froebel foi o primeiro educador a salientar a importância do brincar e das atividades lúdicas infantis. Sua teoria educacional envolvia a educação familiar e atividades que estimulassem tanto a parte física e motora, como a imaginação infantil, usando o jogo simbólico e a literatura para trabalhar com crianças menores(AMADO, 2007). O filósofo francês Rousseau baseava seus conceitos em uma educação natural, na qual o homem se desenvolveria, em todo o seu potencial, em contato com natureza, que ajudaria a ativar toda a sua completude. Pestalozzi se inspirava em Rousseau ao acreditar que a bondade humana era inata e que o meio corrompia o homem, defendeu uma educação popular, que ajudaria a reduzir as desigualdades sociais. Religioso protestante, pregava a caridade e ajudou a criar creches para filhos de operários (AMADO, 2007). O crescimento do comércio, dos centros urbanos e da burguesia faz com que a produção de bens precise se ampliar, o que origina as indústrias. Assim, na Inglaterra do século XIX temos a Revolução Industrial. Com o crescimento da população urbana, cresce também o comércio e os serviços para atenderem essa população, assim as universidades começam a receber maior e mais diversa quantidade de alunos. Para formar para as universidades, os serviços e as indústrias, a escola formal também se amplia e se fortalece. Temos então o 5 ideal moderno de educação, voltado para formação acadêmica e o mercado de trabalho. O padrão de criança para a qual a escola funcionava era a criança burguesa, mas nem todas eram burguesas, nem todas possuíam uma bagagem familiar que era aproveitada pelo sistema educacional. E para resolver esse problema, surgiram os programas de cunho compensatório para suprir as deficiências de saúde, nutrição, educação e socioculturais. Essa educação compensatória começou no século XIX com Pestalozzi, Froebel, Montessori e McMillan. A pré- escola era encarada por esses pensadores como uma forma de superar a miséria e a pobreza das famílias. No século XX, temos grandes pensadores da educação, mas o perfil da escola popular se engessa: pré-escola assistencialista e compensatória, educação básica para todos, ensino médio e superior para uma minoria rica. Cenário esse que começa a mudar somente nas décadas de 1970, 80 e 90. • História da Educação Brasileira Os primeiros fundamentos da educação brasileira se devem aos jesuítas, que fundaram as primeiras escolas. Eram escolas voltadas mais para o catecismo do que para o ensino formal. A Igreja Católica domina a rede de ensino nos primeiros anos, já que a maioria das escolas eram católicas, voltadas para meninas ricas, para o assistencialismo ou para uma formação básica dos meninos ricos que mais tarde seguiriam para Portugal para completar seus estudos. Com a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, a sociedade abre portas para um novo paradigma, fundado em ideias capitalistas, urbanas e industriais. No Brasil, surgem as creches populares que serviam para atender não somente os filhos das mães que trabalhavam na indústria, mas também os filhos das empregadas domésticas. As creches populares atendiam somente o que se referia à alimentação, higiene e segurança física. Eram chamadas de Casa dos Expostos ou Roda. Podemos dizer que somente na década de 1930, principalmente com o governo de Getúlio Vargas, tivemos a organização de um sistema educacional público, gratuito e popular. Em 1930, esse presidente criou o MEC – Ministério da Educação, para criar, expandir e gerir escolas públicas e educação superior em todo o Brasil. O país vivia uma industrialização e urbanização tardia em relação à Europa, muitas mães tinham necessidade de um ambiente seguro para deixar seus filhos, enquanto trabalhavam (BELLO, 2001). Movimentos artísticos, filosóficos e políticos influenciaram a educação do século XX, o país recebia as teorias educacionais modernas, inspirando o movimento da Escola Nova. Esse movimento defendeu uma escola laica, gratuita e pública, para todas as crianças em idade escolar e fortaleceu a universidade pública. Apesar de teorias como a de Maria Montessori, Jean Piaget e Lev Vygotsky terem influenciado a construção de um novo conceito de infância no Brasil, a escola de educação infantil no país ainda era de caráter assistencialista, compensatório e de pouca aplicação prática de teorias educacionais. 6 Atualmente, o Brasil vive a implantação de novos paradigmas educacionais que se originaram na década de 1980, com a Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996, que com seus ideais democráticos, inclusivos e universais, promovem uma educação gratuita para todos. • Fundamentos Históricos da Educação: autores. Agora que conhecemos a história da educação formal, iremos descrever os principais autores que fundamentaram o ensino ocidental moderno e suas teorias. Paulo Freire: o patrono da educação brasileira, educador e filósofo Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997), se destacou como alfabetizador de adultos. O método Paulo Freire é usado ainda hoje no Brasil e no mundo como referência em alfabetização; Maria Montessori: italiana, a médica é famosa como norteadora na Educação Infantil. Defendia uma educação para o desenvolvimento da autonomia do aluno e o professor como mediador; Jean Piaget: biólogo suíço, desenvolveu a teoria de desenvolvimento da inteligência e a teoria de desenvolvimento moral. É considerado o principal autor do desenvolvimento infantil para muitos educadores; Lev Semionovitch Vygotsky: professor e pesquisador foi contemporâneo de Piaget, e nasceu e viveu na Rússia, quando morreu, de tuberculose, tinha 34 anos. É importante base para a educação moderna, principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento social e da linguagem; Celestin Freinet: crítico da escola tradicional e das escolas novas, foi criador do movimento da escola moderna francesa. Defendia uma escola popular; Antônio Gramsci: intelectual italiano, refletiu sobre hegemonia cultural, as relações de classe e os grupos intelectuais na produção da cultura de seu país. Chegou a ficar um longo período preso. Na cadeia continuou escrevendo e suas publicações se tornaram referências para educação e a sociologia; Henri Wallon: nasceu na França em 1879. Desenvolveu uma teoria de desenvolvimento baseada na afetividade, com identificações com a teoria piagetiana; John Dewey: inspirou o movimento da Escola Nova no Brasil, liderado por Anísio Teixeira, ao colocar a atividade prática e a democracia como importantes ingredientes da educação; Howard Gardner: desenvolveu a teoria das inteligências múltiplas, amplamente usada atualmente na escola. 7 CAPÍTULO 2 – FUNDAMENTOS PSICOLÓGICOS DA EDUCAÇÃO Muitos acreditam que o aprendizado é avaliado por uma mudança significativa no comportamento, assim, a Psicologia tem e teve sempre um papel importante na escola e fora dela no que diz respeito ao aprendizado humano. A Psicologia da Educação é uma área vasta e repleta de teorias que ajudam pais e educadores no processo de ensino-aprendizagem. O psicólogo educacional irá investigar quais processos biológicos, cognitivos, mentais ou outros estão envolvidos no aprendizado de um e outro comportamento. Neste capítulo, iremos estudar as principais teorias da Psicologia que são usadas na educação escolar. Existem diversos conceitos sobre a aprendizagem. Basicamente, aprender é adquirir conhecimento, habilidades, valores, experiência em algo, mas esse processo pode ser definido de muitas formas, mesmo dentro da Psicologia. Para a Psicologia Comportamental, por exemplo, aprendizado é uma mudança significativa no comportamento do indivíduo. A forma como esse indivíduo aprende também é descrita sob diversas perspectivas. O Empirismo é uma concepção na qual o indivíduo aprende e se desenvolve de acordo com o meio em que vive e seus estímulos, ou seja, a aprendizagem se dá pela experiência. Essa concepção influenciou a Psicologia Comportamental e seus estudiosos, que acreditam que o aprendizado se dá pelas respostas do organismo vivo aos estímulos do meio. O conceito de aprendizagem para essa área da psicologia é, portanto, definido para todos osseres vivos. A educação empirista se baseia no meio, nos objetos e nas variáveis que esse meio apresenta. A imitação também é componente importante desse aprendizado, já que muitas ações são aprendidas assim (NUNES & SILVEIRA, 2015). A concepção Inatista, ao contrário, considera o fator genético e o hereditário como fundamentais para a aprendizagem. Isso significa que uma criança já nasce com um tipo de inteligência, herdada, e que a manterá por toda a vida. O meio no qual a criança vive, cresce e se desenvolve terá uma participação secundária em sua aprendizagem (NUNES & SILVEIRA, 2015). O Construtivismo é uma corrente teórica fundamentada nos estudos do biólogo suíço Jean Piaget. Essa corrente considera tanto a parte genética, hereditária, como a influência do meio sobre o aprendizado. Se formos pensar em uma aprendizagem universal, para todos os seres vivos, veremos que os processos mais fundamentais da inteligência são de natureza biológica, estão presentes em qualquer ser vivo. Existe uma relação íntima entre os fundamentos fisiológicos e anatômicos e a inteligência. Para Piaget, por exemplo, a inteligência é uma adaptação: herdamos um modo de funcionamento intelectual, que nos permite uma relação com o meio e gera estruturas cognitivas, ele é constante por toda a vida (FLAVELL, 1996). • A Teoria Psicanalítica de Sigmund Freud A teoria psicanalítica nasceu dos estudos e das observações do médico neurologista austríaco Sigmund Freud. Atualmente, é usada na psicologia clínica e em estudos teóricos, analisando o psiquismo e o comportamento humano, os processos que envolvem o Inconsciente, usando a psicoterapia da livre associação e formulando tratamentos para problemas psíquicos. A 1ª 8 Teoria do Aparelho Psíquico, ou Modelo Topológico da Mente, foi formulada no início dos estudos de Freud (sobre o assunto) para explicar os níveis de consciência do ser humano ao usar sua energia mental, ele descreveu três níveis: Consciente: o indivíduo está lúcido diante dos pensamentos e interações com o meio, sua percepção está vigorosa; Pré-Consciente: são “arquivos” da mente que não estão no presente da consciência, mas que podemos acessar voluntariamente e quando desejamos; Inconsciente: são os arquivos da mente aos quais não temos acesso voluntariamente, eles podem vir à tona, mas não depende de nossa vontade ou intenção. Este último, o Inconsciente, tem um papel protagonista na teoria freudiana. Boa parte de nossos problemas psíquicos tem relação com o inconsciente e seus “arquivos”. Algumas ações, nossas e de outros, que nos causam traumas, medo, repulsa ou insatisfação, também os impulsos suprimidos, tudo acaba armazenado no inconsciente. Como é muito doloroso “desarquivar” esses conteúdos, a nossa mente reprime. Mas essa repressão tem um preço. Muitos desses arquivos acabam lutando para vir para nosso consciente, e isso se dá através de sonhos, atos falhos, rompantes emotivos, sentimento de culpa, depressão. Por isso, o psicanalista, ao analisar seu paciente, vai tentar acessar o inconsciente deste para descobrir o que está causando os problemas psíquicos e emocionais. Mais tarde, em seus estudos, Freud desenvolveu a 2ª Teoria do Aparelho Psíquico, ou Modelo Estrutural da Personalidade. Esse modelo descrevia as seguintes estruturas: Id (em alemão, ele): é a fonte da energia psíquica e da vida (libido). Ele é formado por pulsões, instintos, impulsos biológicos e desejos inconscientes. Busca sempre o prazer; Ego: ele trabalha através do princípio de realidade, ou seja, analisa se os impulsos do Id são aplicáveis, viáveis. Após a formação do Superego, o Ego tentará equilibrar os impulsos do Id e as repressões do Superego; Superego: é a razão, a lógica, a reflexão. Ele vai frear os impulsos do Id. Se forma através das regras e repressões sociais. Já comentamos que a personalidade humana tem duas pulsões: a de vida, Eros, e a de morte, Thanatos. Esta última é um impulso autodestrutivo que temos e que nos coloca em situações de vulnerabilidade. Thanatos, segundo a Mitologia Grega, era o deus da morte. Já a pulsão de vida é representada pela libido, o desejo, a busca pelo prazer. Freud a chamou de Eros porque este era o deus do amor. 9 As pessoas têm essas pulsões atuando conjuntamente em suas ações, suas decisões, seus pensamentos e sentimentos, e o Ego tentará equilibrar essas pulsões (SILVA, 2010). Além dos estudos sobre a mente, a personalidade e o psiquismo humano, Freud também estudou o desenvolvimento da Sexualidade, classificando-o em fases e explicando as relações da pulsão de vida com nossos desejos. Para a teoria freudiana a sexualidade se desenvolve desde o nascimento. É importante não confundir o conceito de sexualidade (orgânica, biológica) com o de erotização (prática, sexualização, social). A criança tem sexualidade, mas jamais deve ter qualquer contato com erotismo e práticas sexuais. Criança não namora, não casa e muito menos pratica sexo. Essa sexualidade natural, inata e biológica é fruto da nossa pulsão de vida, Eros, que se manifesta através da busca da satisfação e do prazer. Segundo a teoria psicanalítica, após a fase fálica, por volta dos 5 anos de idade, a criança entra em um período de latência. Isso se dá porque se inicia a formação do Ego, e posteriormente do Superego. A criança começa a aprender regras sociais, a procurar aceitação dos pares e a buscar o amor dos pais. Com isso, ela vivencia duas experiências que são descritas como Complexo de Édipo e Complexo de Electra: Complexo de Édipo: o menino começa a ter uma certa fixação pela mãe, quer ter exclusividade sobre ela e seu amor. Se houver uma forte presença paterna nessa família, o filho irá desenvolver um ciúme do pai, iniciando uma competição pelo amor da mãe. Mas a criança, que está desenvolvendo o Superego, se sente culpada por isso; Complexo de Electra: seria a versão feminina do complexo de édipo, a qual Freud chamou de édipo feminino, mas o psicanalista Carl Jung nomeou de complexo de Electra. A menina teria fixação pelo pai, competiria com a mãe e se sentiria culpada. Após essa fase de latência, já adolescente, o indivíduo entra na Fase Genital, na qual manifesta interesse e desejo pelo corpo do outro. Assim, ele procura a atividade sexual, ou seja, a prática do sexo. Citamos acima o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, ele foi um importante estudioso e teórico da psicanálise, tendo aprofundado conceitos de personalidade, introspecção e formulando a Teoria do Inconsciente Coletivo. Nessa teoria, Jung analisa o inconsciente coletivo, presente na parte mais profunda da nossa mente, onde estão localizados arquétipos (modelos, paradigmas) que herdamos da espécie humana. • Afetividade e a Teoria de Henri Wallon Além da sexualidade, a Psicologia nos apresenta estudos importantes sobre o desenvolvimento da nossa afetividade e a relação desta com o aprendizado humano. Na educação, o maior expoente desse assunto é o filósofo, médico e psicólogo francês Henri Wallon. Seus estudos contribuem muito para a compreensão sobre a relação da afetividade com o desenvolvimento da criança 10 e do ser humano em geral. A teoria de Wallon ressalta que o aprendizado só é completo se estamos com a parte motora, a cognitiva e a emocional em equilíbrio (GALVÃO, 1995). Wallon considera tanto aspectos hereditários como a influência do meio no processo de aprendizado, desde muito cedo, a criança desenvolve as relações afetivas ao mesmo tempo em que constrói a estrutura cognitiva. Ele divide o desenvolvimento humano em 5 etapas (GALVÃO, 1995): impulsiva-emocional (primeiras relações com o meio, sensoriais), sensória-motora (imitação, linguagem) e projetiva, personalismo (individualismo), categorial (ampliação do conhecimento de mundo) e da predominância funcional (adolescência e a influência hormonal): • Impulsiva-emocional: surge no primeiro ano de vidada criança e é caracterizada pelas interações afetivas; • Sensória-motora e projetiva: vai até os 3 anos, é caracterizada pela exploração dos espaços e dos objetos. Também surge o jogo simbólico e a linguagem; • Personalismo: de 3 a 6 anos, é caracterizada pela formação da consciência e a personalidade, pela intensificação das relações afetivas e sociais, adesão aos pares e troca de ideias; • Categorial: a partir dos 6 anos, o mundo da criança se amplia e ela passa a ter muita curiosidade por objetos de conhecimento cada vez mais diversificados; • Predominância Funcional: as ações hormonais desenvolvem o corpo e o pensamento se torna mais complexo, a necessidade afetiva é preenchida com os pares e a sexualidade começa a ser foco de interesse, existem muitos questionamentos nessa fase o que origina muitos conflitos com a família e a escola (GALVÃO, 1995). • Teoria Sócio-Histórica de Vygotsky Dentro do desenvolvimento social, a teoria psicológica mais utilizada nos estudos educacionais é a desenvolvida pelos psicólogos russos fundadores da Psicologia Sócio-Histórica, ou Histórico-Social. Esses psicólogos são: Lev Semenovich Vygotsky, Alexei Nicolaievich Leontiev e Alexander Romanovich Luria. O grupo era chamado de “troika” (Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Psicologia_cultural-hist%C3%B3rica). Vygotsky e seus colegas estudavam as funções psicológicas superiores e o aprendizado humano, unindo a psicologia com análises culturais, históricas e relacionando com o materialismo dialético, ou seja, fortemente influenciados pelas teorias de Karl Marx e Friedrich Engels. Vale lembrar aqui do contexto em que o grupo de psicólogos russos desenvolveu sua teoria: a União Soviética pós- https://pt.wikipedia.org/wiki/Psicologia_cultural-hist%C3%B3rica 11 revolução russa de 1917, dominada pelo pensamento de Trotsky e Lênin, que buscavam implantar o socialismo-comunismo defendido por Marx e Engels (SANTA & BARONI, 2014). A cultura e o contexto histórico são produtos importantes na teoria de aprendizagem de Vygotsky, produtos estes responsáveis pela aquisição de conhecimento e reprodução do mesmo. O homem, segundo ele, se torna humano em contato com a humanidade. Para Vygotsky, a criança vai aprender todo o conhecimento social e histórico do meio em que vive através da linguagem e da interação social (VYGOTSKY, 2002). O aluno é um ser histórico, ele não chega à escola como uma folha de papel em branco, ao contrário, traz muita bagagem e conteúdo, construídos com sua família, sua comunidade e com a sociedade em que vive. O professor precisa analisar esse conteúdo antes de iniciar qualquer processo de ensino. Vygotsky afirma que o professor precisa considerar três níveis de aprendizado do aluno (VYGOTSKY, 2002): Zona de Desenvolvimento Real: caracterizada pelo conteúdo que o aluno já aprendeu; Zona de Desenvolvimento Potencial: é o conteúdo que o aluno tem potencial para aprender, conteúdo previsto; Zona de Desenvolvimento Proximal: é formada pelos conteúdos elaborados pelo professor para levar o aluno do que ele já sabe para o que ele pode aprender. O conteúdo escolar deve estar sempre relacionado ao contexto da escola e do aluno, caso contrário, não fará sentido. O contexto também servirá para troca de experiências, informações e dúvidas, pois para Vygotsky, não há aprendizado sem interação social. Nessa teoria de aprendizagem, então, a escola deve estar sempre atenta ao desenvolvimento da linguagem, do diálogo, da comunicação, para promover a troca de experiências, de vivências, sempre estimulando a socialização e a integração entre os alunos. A importância do nosso meio ganha maior destaque na Psicologia Histórica- Social, que já foi explicada aqui. Essa teoria tem como base os estudos do grupo de psicólogos russos liderados por Lev Vygotsky. A concepção de Vygotsky para o aprendizado escolar será baseada em uma interação constante e intensa com o meio social e cultural. Todas as concepções que descrevemos são importantes para a educação. O professor, em seu trabalho cotidiano, irá usar todas as concepções que forem necessárias e que servirem a determinados contextos. Vygotsky foi um psicólogo importante para a educação. Sua teoria de aprendizagem é ainda base para muitos paradigmas educacionais atuais, como a Nova Base Nacional Comum Curricular, os Parâmetros Curriculares Nacionais e o Referencial Nacional da Educação Infantil. Segundo essa teoria, a criança vai aprender todo o conhecimento social e histórico do meio em que vive através da linguagem e da interação social. A cultura e o contexto histórico são produtos 12 importantes na teoria de Vygotsky, produtos estes responsáveis pela aquisição de conhecimento e reprodução do mesmo. O homem, segundo ele, se torna humano em contato com a humanidade (VYGOTSKY, 2002). Nas aprendizagens mais básicas irá se servir da teoria inatista, ou mesmo a empirista. Já nas aprendizagens mais complexas, mais teóricas, pode usar o construtivismo. No aprendizado sobre convivência social, sobre linguagem e interação, irá buscar a teoria histórico-social. Assim, cada teoria tem algo importante a oferecer para a educação. No próximo capítulo, iremos descrever melhor as teorias de aprendizagem e como elas atuam no contexto escolar. • A Aprendizagem Significativa de David Ausubel Para o psicólogo americano David Ausubel, a aprendizagem deve fazer sentido para quem aprende. O conteúdo ensinado deve ter alguma relação com a realidade do aluno e também com o que este já aprendeu. O ensino deve enfocar a formação de novos conceitos, quando as crianças ainda estão na Educação Infantil, utilizando organizadores prévios, temas introdutórios para familiarizar a criança com o novo conceito. Esses organizadores irão captar o interesse da criança para o assunto que será abordado pelo professor. A aprendizagem, então, é construída conteúdo após conteúdo, sempre os relacionando entre si e com o que a criança já conhece, tudo deve fazer sentido. Para se alcançar esse sentido, o material didático deve ser significativo para o aluno, e este, deve manter o foco na aprendizagem, manter o interesse. A avaliação deve ser feita propondo atividades práticas e resolução de problemas (MOREIRA, 2011). Assim, a teoria da aprendizagem significativa dá ao aprendizado escolar uma razão de ser que não tem sido encontrada atualmente. As novas gerações de educandos obtêm informações que lhes interessam de modo rápido, nos dispositivos móveis e acabam não tendo motivação para aprender pelo método tradicional. É uma geração acostumada a conhecer uma grande quantidade de temas, mas de modo superficial. Essa teoria é atual e precisa ser adotada nas escolas, já que muitas ainda tentam promover o aprendizado com métodos ultrapassados, ensinando de uma forma que não sentido algum para seus alunos. Uma opção seria se utilizar desses temas que interessam aos alunos e usar o tempo na escola para aprofundá-los, conectando-os com os saberes acadêmicos, e assim, mantendo a atenção e interesse dos alunos no aprendizado escolar. É preciso levar em conta o conhecimento prévio, a cultura, a bagagem cognitiva que a criança traz para a escola. Ao ressaltar a importância da história do indivíduo e a do professor como mediador, Ausubel se aproxima da teoria de Vygotsky; ambos reforçam que o conteúdo ensinado na escola deve ter valor social e significado para o aluno (MOREIRA, 2011). • Teoria Comportamental ou Behaviorismo 13 O Behaviorismo, ou Psicologia Comportamental, é uma área que estuda o comportamento humano observável. Para o behaviorismo, o aprendizado é medido pelas mudanças comportamentais verificáveis e não está restrito à espécie humana. Descreveremos a seguir dois autores importantes para entendermos como essa área da Psicologia explica o aprendizado: Ivan Pavlov, que desenvolveu a Teoria do Condicionamento Respondente, e B.F. Skinner,que desenvolveu a Teoria do Condicionamento Operante, ambas teorias importantes para a Educação (MOREIRA, 2011). Antes de conhecermos os autores, porém, convém entender dois conceitos importantes: Comportamentos Reflexos ou Respondentes: são comportamentos inatos, ou seja, nascemos sabendo como fazer, por exemplo: piscar, salivar, deglutir, chorar, sorrir. Esses comportamentos são involuntários (a gente não controla), são comuns a todos na espécie e não variam de pessoa para pessoa (todos piscamos da mesma forma, por exemplo); Comportamentos Operantes ou Aprendidos: são os comportamentos que precisamos aprender, por exemplo: andar, falar, dançar, digitar. Eles são controláveis (decidimos quando começam e terminam), variam de pessoa para pessoa e nem todos aprendem. Na década de 1920, o fisiologista russo Ivan Pavlov estudava processos de digestão e utilizava cães em suas pesquisas. Seu estudo estava focado na quantidade de salivação dos cães para cada alimento. Biologicamente, a salivação (respondente) ocorre com estímulos ligados à alimentação e à digestão, como a mastigação e a deglutição. Porém, os cães de Pavlov, começaram a produzir saliva quando ouviam os passos dos alimentadores, ou quando viam a tigela com alimentos. Pavlov achou isso interessante e começou a apresentar estímulos sonoros (som) conjuntamente com a tigela de comida. Estava nascendo a teoria do Condicionamento Respondente (MOREIRA, 2011). O condicionamento fez com que um comportamento reflexo (salivar), geralmente desencadeado por um estímulo natural (alimento) fosse produzido, através da associação, por um estímulo condicionado, artificial (som). Assim, toda vez que o cão ouvia o som, salivava. Um exemplo que pode ser aplicado ao ambiente escolar é a música. Ela é um estímulo neutro, sem relação com sentimentos, mas se associarmos a ela uma situação triste ou alegre, sempre que a ouvirmos, ela nos trará essas emoções. Por exemplo, a fome (respondente) tem como estímulo natural o estômago vazio, mas se associarmos a fome que a criança sente antes do recreio a uma canção (estímulo artificial), sempre que cantarmos essa canção, a mesma irá despertar o apetite, a criança fará uma associação e estará condicionada. Foi o que Pavlov fez. Ele trocou o estímulo natural para a salivação, por um artificial, para isso, ele associou diversas vezes o estímulo natural (comida) ao estímulo artificial (som, campainha). Após algumas sessões, o cão passou a salivar somente com o estímulo artificial. Quando Pavlov percebeu que essa 14 associação originava um novo comportamento, o comportamento condicionado, desenvolveu a teoria do condicionamento dos reflexos, ou condicionamento respondente. Além dos comportamentos inatos, o ser humano também aprende certas ações, como cantar, falar, dançar, digitar, entre outros. Esses comportamentos são chamados de Operantes. O psicólogo americano B.F. Skinner desenvolveu uma pesquisa na qual comportamentos aprendidos, operantes, são reforçados negativamente ou positivamente (MOREIRA, 2011). No reforço positivo (positivo no sentido de aumentar a chance de ocorrer o operante), o comportamento tende a aumentar ou se intensificar com o estímulo apresentado. Por exemplo, quando elogiamos alguém que está dançando, essa pessoa tende a se motivar e continuar a dançar. No reforço negativo, por outro lado, o estímulo tende a diminuir ou extinguir o comportamento. Por exemplo, se uma criança, ao perguntar para o professor alguma questão é respondida com aspereza ou é ridicularizada, a tendência é essa criança não repetir ou diminuir suas perguntas. É o Condicionamento Operante, no qual reforçamos ou extinguimos comportamentos através de estímulos (MOREIRA, 2011). • A Teoria Construtivista de Jean Piaget O biólogo suíço Jean Piaget é um dos autores mais importantes nas pesquisas e práticas educacionais. Sua teoria de desenvolvimento cognitivo é a base da Educação Infantil e primeiros anos do Ensino Fundamental. Também se dedicou ao desenvolvimento moral e social das crianças. Para Piaget, como já explicamos anteriormente, a inteligência é uma adaptação. O ser humano nasce com estruturas mentais próprias da espécie, que em contato com o meio e seus objetos de aprendizagem desencadeiam os processos mentais de adaptação e organização (PIAGET, 1964). Essas estruturas, chamadas Invariantes Funcionais, são o princípio da inteligência, e não são engessadas. Elas estão em constante funcionamento e evolução, através dos processos de Organização e Adaptação. A adaptação é o intercâmbio entre o meio e o indivíduo que resulta em uma modificação do organismo e do objeto assimilado. Dentro da adaptação existem dois processos: a Assimilação e a Acomodação (FLAVELL, 1996). A assimilação é o processo pelo qual um objeto do meio é modificado pelo organismo. A acomodação é o processo pelo qual o organismo se adapta ao objeto. São dois lados de uma mesma moeda, contrários, mas indissolúveis. Por exemplo: a alimentação, enquanto mastigamos o alimento (assimilação), a nossa salivação inicia o processo de digestão, que irá absorver os nutrientes (acomodação), ou seja, não há como mastigar sem digerir, são indissociáveis. Além da adaptação existe a Organização, pela qual a estrutura mental ajusta o novo conhecimento ao já existente. Os processos mentais estão em ação o tempo todo. Cada informação nova a que temos acesso causa um desequilíbrio 15 em nossas estruturas mentais e elas desencadeiam os processos de adaptação e organização para se ajustar ao novo conhecimento. Por isso, quanto mais estímulos temos no nosso meio, mais as estruturas funcionam e, portanto, mais aprendemos. Então, percebe-se que segundo o Construtivismo, o ser humano constrói o conhecimento usando suas características genéticas universais, biológicas, ao mesmo tempo que interage com o meio e depende dele para estimular essa parte biológica e gerar uma adaptação. A primeira parte da pesquisa de Piaget é sobre o desenvolvimento humano. Como biólogo, ele se interessou pelos processos mentais e como estes se multiplicavam ao longo da infância. Chegou a observar e estudar os próprios filhos, que são citados em diversos textos dele. Esses estudos originaram a sua teoria do desenvolvimento, a Epistemologia Genética, na qual afirma que o conhecimento é adquirido através de uma interação do indivíduo com o meio. Também descreveu a teoria do desenvolvimento cognitivo da criança. Essa teoria classifica o desenvolvimento infantil em quatro estágios (PIAGET, 1964): Período Sensório-Motor (0-2 anos): fase de imitação, de exercício dos reflexos, a criança desenvolve a linguagem, é egocêntrica; Período Pré-Operacional (2-6 anos): a criança inicia o processo de socialização e exercita o jogo simbólico, o faz-de-conta; Período Operacional Concreto (7-12 anos): período das operações mentais concretas, aprende a lógica, conceitos de número, de tempo, de reversibilidade. Existe um material de apoio ao professor, chamado “Caixa de Piaget”, na qual encontramos provas operatórias desenvolvidas por ele para analisar em qual período a criança se encontra; Período Operacional Formal (a partir dos 12 anos): início do pensamento lógico-dedutivo, a criança começa a entender e criar pensamentos formais, abstratos, teorias mais complexas. Além da aprendizagem cognitiva, Piaget passou a se interessar pela interação social entre as crianças e como essas aprendem as regras para conviver com os outros. Inicialmente, observou os jogos infantis, como o de bolinhas de gude. Ele observou que as mais novas jogavam de acordo com as próprias regras e estavam mais preocupadas em apalpar os objetos, conforme crescem começam a entender as regras e a respeitar. Ele formulou estágios para o desenvolvimento moral (PIAGET, 1994): Anomia: a criança não entende o conceito de regras, geralmente até dois anos; Heteronomia: a criança obedecea regra por medo do castigo e/ou autoridade; 16 Autonomia: quando crescemos, com a maturação cognitiva, passamos a compreender o sentido das regras e a obedecê-las por consciência. Assim, Piaget e suas teorias, moral e cognitiva, são bases importantes para a atuação de professores em salas de aula. Essas teorias influenciaram nossa base curricular, nossa legislação educacional e estão presentes nos cursos de formação de professores, fundamentando suas práticas pedagógicas. • As Inteligências Múltiplas de Howard Gardner O psicólogo americano Howard Gardner desenvolveu uma teoria que está sendo bastante utilizada nos processos de ensino-aprendizagem das escolas atuais: a teoria das inteligências múltiplas. Durante muito tempo a escola não levava em conta as diferentes habilidades e competências de seus alunos. Não entendia ou não justificava o fato de muitos estudantes serem habilidosos em determinadas áreas e terem dificuldades de aprendizagem em outras. Com conhecimento em neurologia e psicologia, Gardner observou que a necessidade de resolver problemas influencia o desenvolvimento da inteligência e que o meio que produz essa necessidade estimula ou não determinadas áreas do conhecimento. Para Gardner, a princípio, existem 7 tipos de inteligência (ANTUNES, 1998): Lógico-Matemática: habilidade para operações matemáticas e lógicas; Linguística: habilidade com linguagens; Espacial: noções completas de espaço; Físico-Cinestésica: habilidade para resolver problemas concretos e produzir objetos; Interpessoal: habilidades em relações sociais; Intrapessoal: conhecimento pleno de si mesmo; Musical: habilidade com a música e instrumentos. Gardner considerou posteriormente a inteligência natural, habilidade de se relacionar com a natureza, e existencial, de cunho filosófico. Assim, a escola pode entender porque alunos com certas habilidades em determinadas áreas não conseguem atuar eficientemente em outras. 17 CAPÍTULO 3 – FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DA EDUCAÇÃO A educação e a Filosofia têm andado juntas há muitos séculos. A Filosofia da Educação é o campo que seleciona, analisa e direciona objetivos e métodos para as ações pedagógicas, baseados em autores e teorias filosóficas. Neste capítulo, descreveremos os temas principais desse campo de conhecimento. Quando a escola faz seu planejamento, a filosofia da educação pode influenciar na escolha dos assuntos que serão ensinados e na forma que esse ensinamento é feito dentro do currículo básico. Na maioria das instituições de ensino, ajuda também a inspirar e direcionar o planejamento educacional, programas, práticas e processos pedagógicos. Por ser importante para a educação como um todo, é uma das principais matérias dos cursos de licenciaturas no ensino superior, como a Pedagogia. Assim, uma base filosófica é fundamental para o direcionamento curricular de qualquer escola. O processo de ensino-aprendizagem na Educação Básica depende de cinco aspectos fundamentais: a escola, a gestão, os professores, o currículo e os alunos. Esses quatro aspectos se correlacionam fortemente e se integram ao processo educacional de uma instituição de ensino. Muitos acreditam que a educação é resultado de doutrinas filosóficas, e os educadores são, de fato, filósofos. Por isso, a Filosofia da Educação é importante na construção e desenvolvimento do processo educacional em alguns aspectos, tais como (fonte: https://www.significados.com.br/filosofia-da-educacao/) Ajuda a fundamentar, orientar e implantar o processo educacional de uma instituição de ensino; Identifica conflitos e contradições em teorias e práticas pedagógicas que possam atrapalhar o processo de construção do conhecimento dos alunos; Desenvolve a capacidade humana de produzir ideias, conceitos e discutir sobre as diferentes teorias pedagógicas, refletindo como elas afetam a vida individual e social dos alunos; Direciona a instituição de ensino a entender seu propósito na parte social e cultural da educação; Auxilia e dá apoio no objetivo significativo de qualquer instituição educacional, que é o de qualificar uma pessoa para a vida pública e ser um membro efetivo da sociedade. Os principais filósofos que influenciaram a educação ocidental atual foram os gregos. Eles desenvolveram visões filosóficas da educação que foram incorporadas em suas teorias mais amplas e gerais. Sócrates foi um dos gregos que mais incentivou uma educação baseada na razão, no raciocínio e na reflexão constante sobre a vida e os atos humanos. Esse pensamento deu origem à escola socrática. 18 A ética socrática também é racionalista, a concepção de bem é a felicidade da alma e a de bom é o que é útil para esta felicidade. A virtude (areté) é o conhecimento e a ignorância é o vício. Platão foi aluno de Sócrates, também defendeu o racionalismo e deu grande contribuição à teoria política. Iguala o Estado à alma humana em seu livro A República: (os quatro componentes fundamentais da alma se equivalem aos da sociedade: razão= governantes, prudência= filósofos, fortaleza= guerreiros e apetite= artesãos). Fica evidente o desprezo pelo trabalho físico e logo a desigualdade das classes sociais. Aristóteles, outro filósofo grego contemporâneo desses dois também tem um pensamento alinhado com o de Platão. Para Aristóteles, porém, a educação fica restrita a uma minoria, uma elite, que detém o saber (razão) e não há uma barreira moral para a escravidão, tida como necessária. A filosofia educacional dos gregos influenciou imensamente o Império Romano após o enfraquecimento da Grécia Antiga como potência. Portanto, os romanos não mudaram muito o modo de lidar com a educação, restrita a homens livres e ricos. Após a queda de Roma, que tinha uma religião politeísta baseada na dos gregos, o Cristianismo alcançou grande hegemonia na educação e na filosofia, principalmente durante a Idade Média. Nessa época a filosofia aparece muito ligada às ideias cristãs, mesmo que esses temas tenham grandes diferenças. Essa diferença se dá mais pelo fato de a religião exigir mais à prática do que à reflexão e não que ela seja desprovida totalmente de razão, prova disso são os estudos da Teologia que alia os estuda a relação das verdades das religiosas com as verdades universais. Podemos citar dois importantes filósofos da moral cristã: Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. Nessa época, se destacam também: Erasmo de Roterdão; Thomas Hobbes; René Descartes. Após a Idade Média tivemos muitos filósofos importantes para a Educação, o primeiro deles foi o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau que argumentou que a educação deveria permitir o desenvolvimento natural e livre das crianças. Em seu livro Emílio, Rousseau descreve cada etapa de desenvolvimento da criança e a educação adequada para cada uma, porém, para meninos somente. • A Teoria de Immanuel Kant Outro filósofo importante foi Immanuel Kant, um dos mais influentes dos últimos séculos. Sua teoria serviu para orientar vários educadores e filósofos modernos, principalmente em relação ao desenvolvimento social humano. Em a Crítica da Razão Prática ele descreve o desenvolvimento da moral e da ética nos homens. Como complementação a este último ele escreveu a Fundamentação da Metafísica dos Costumes, em que expressa e justifica os objetos da Moral e da Ética, como fundamentais para a educação humana. Kant (1997) coloca liberdade e razão intrinsecamente ligadas quando fala de moralidade; todo ato moral deve ser incondicionado. Como princípios regentes da razão pura prática existem os subjetivos, ou seja, as máximas individuais que determinam a ação e os objetivos; em que o dever determina a vontade que determina a ação. Somente o dever pode ser usado para um ato 19 verdadeiramente moral. Um princípio, ligado ao prazer ou desprazer, que serve como máxima ao sujeito jamais servirácomo lei prática de moral (Kant, 1997). O homem deve, portanto, transformar suas máximas individuais em máximas universais e a vontade, cuja forma legisladora máxima serve de lei, é a vontade livre. O livre-arbítrio deve ser constrangido pelo respeito ao dever moral (Kant, 1997). Em A Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Kant (1997) diz que uma ação praticada por dever tem o seu valor moral, não no propósito que com ela se quer atingir, mas na máxima que a determina. Esta máxima de que Kant fala seria uma lei geral que deve determinar todo ato moral, máxima do dever guiada pelo princípio da boa vontade: o imperativo categórico, que se contrapõe ao imperativo hipotético que visa sempre um determinado fim (KANT, 1997). Esse imperativo é formal, que para Kant (1997) significa intencional, incondicional, em oposição ao imperativo hipotético, ele vale por si mesmo. A intenção seria a forma do ato, daí falar-se em formalismo kantiano. A humanidade dever sempre ser vista como fim, não como meio, portanto o dever é universal. A boa vontade que nos dá intenção de agir segundo uma máxima universal nos leva ao imperativo categórico: Age somente em concordância com aquela máxima através da qual tu possas ao mesmo tempo querer que ela venha a se tornar uma lei universal (KANT, 1997, p.94). Para Kant (1997), o cumprimento do dever não implica somente a boa vontade, mas autonomia. A boa vontade é fruto da razão, autonomia é a liberdade da vontade e essa autonomia só é alcançada com o controle dos impulsos e inclinações. Ora à idéia de liberdade está inseparavelmente ligado o conceito de autonomia, e a este princípio universal de moralidade, o qual na idéia está a base de todas as ações dos seres racionais como a lei natural está na base de todos os fenômenos (KANT, 1997, p.102). • A Filosofia da Educação no Brasil No Brasil, a história da Filosofia da Educação se iniciou no final do século XIX e início do século XX, com o intuito de inserir o tema nas áreas de formação de professores, que seriam os propulsores de uma nova era na educação nacional. Essa corrente surgiu no Brasil com o objetivo de preparar os educadores para que repensassem os caminhos já traçados para a educação nacional e explorassem outros novos. Assim, a educação brasileira passou a se pautar em dois principais aspectos: Modelo conservador e tradicional da educação; Modelo de educação moderno e liberal. Ainda hoje, temos escolas que seguem mais um ou outro modelo, e outras que usam os dois, já que tem um público diversificado e amplo. 20 CAPÍTULO 4 – FUNDAMENTOS SOCIOLÓGICOS DA EDUCAÇÃO Como representante da sociedade, a escola é um terreno fértil para os estudos da Sociologia. Auguste Comte (1798-1857) é tradicionalmente considerado o fundador da Sociologia. Comte foi o criador do Positivismo, no século XIX, que constituiu a base para o surgimento do cientificismo. O cientificismo acredita que a única forma que existe para se chegar ao conhecimento é por meio da ciência. Comte afirmava que qualquer tipo de estudo deveria ser abordado com o máximo de objetividade. Ele defendia o ponto de vista de serem válidas apenas as análises das sociedades que eram feitas com espírito científico, ou seja, com objetividade e sem metas preconcebidas. Os estudos das relações humanas deveriam constituir uma nova ciência, a que se deu o nome de Sociologia. Comte foi o primeiro a usar a palavra Sociologia, em 1839, descrevendo-a como a ciência suprema, estando acima de todas as filosofias e religiões. Existem muitas teorias dentro da Sociologia que podem ser estudadas e aplicadas na educação, mas antes, iremos descrever alguns conceitos sociológicos básicos, vejamos: Sociabilidade: capacidade de sobreviver em grupos; Socialização: interação emocional com outras pessoas; Individualidade: preservação da personalidade, sustentação de gostos pessoais; Individualismo: incapacidade de se relacionar com o grupo; Valores sociais: símbolos e ícones. Representações; Interação social: interagir é se comunicar, é criar vínculos, ter respeito às regras, respeito mútuo uns com os outros; Papéis sociais: todos nós representamos diversos papéis na sociedade, por exemplo, papel de marido, de esposa, de pai, de mãe, de filho(a), de estudante, de advogado, de professor, etc. Cabe à nós representar esses papéis com autonomia (sem ser coagidos a isso), com responsabilidade, decência e honestidade; Status sociais: diferente dos papéis sociais, o status social é dado pelos outros a nós, não escolhemos. Pode se elevar por respeito do grupo ao modo de ser do indivíduo, por fama, por representar um grupo (ícone), por cargo que ocupa, por sabedoria, por moralidade ou por condição econômica. Todos esses conceitos precisam ser conhecidos pela escola e pelos educadores para poderem entender as interações sociais que se desenvolvem no cotidiano escolar e seus fundamentos históricos e culturais. Além desses conceitos, também é preciso explicar os Processos Sociais, que definem essas interações dentro e fora da escola. 21 PROCESSOS SOCIAIS ASSOCIATIVOS DISSOCIATIVOS cooperação assimilação acomodação competição conflito Pessoas trabalham juntas para um mesmo fim Solução pacífica de um conflito social, acordo. Imposição cultural de um grupo sobre outro. Pessoas competem por um em busca de um mesmo fim. Adversários. Desentendimento a respeito de ideias e ações. Tensão. • Émile Durkheim e a Sociologia da Educação. Émile Durkheim, sociólogo francês do século XIX, considera toda moral como imposta pelo grupo ao indivíduo e pelo adulto à criança. Influenciou diversos autores, como Jean Piaget. Enquanto Piaget defende uma educação visando à autonomia da criança, Durkheim defende uma pedagogia mais hierárquica. Para ele existem dois tipos de sociedade: uma conformista, em prevalece o respeito unilateral e outra com divisão do trabalho social e solidariedade orgânica. Para Durkheim (2003), a função da moral é atenuar e regular a luta pela vida, ou seja, regular a seleção natural (Darwin). Os motivos que levam o homem ao ato moral são, em primeiro lugar, o eu e seu desenvolvimento natural, impulsionado pela luta pela sobrevivência e, em segundo lugar, o desejo e respeito pela simpatia (DURKHEIM, 2003). Interrogarmo-nos sobre quais os elementos da moralidade, não significa pretendermos elaborar uma lista completa de todas as virtudes, nem sequer das mais importantes; significa procurarmos as disposições fundamentais, os estados de espírito que constituem a raiz da vida moral (DURKHEIM, 2001). Para Durkheim (2001), toda regra pressupõe um dever, de cumpri-la, para manter uma determinada ordem, portanto, encerra uma regularidade. Para que se mantenha essa ordem, essa regularidade é necessária uma autoridade que observe o cumprimento dessas regras e que deve inspirar respeito nos cidadãos. Essa autoridade pode ser tanto o Estado, como é o caso das regras jurídicas, como a sociedade, como é o caso das regras morais, e representa algo que sobrepõe ao indivíduo. Nesse caso, é necessária a disciplina por parte do indivíduo, para que se efetue o cumprimento das regras e se mantenha a ordem social. A disciplina é, portanto, algo que nasce do respeito do indivíduo pela ordem social e que tem como função limitar e regular elementos, para que se estabeleça o equilíbrio social. A disciplina é, portanto, útil, não só no interesse da sociedade e como meio indispensável sem o qual não poderia haver cooperação regular, mas também no próprio interesse do indivíduo. É através da disciplina que aprendemos essa moderação do desejo sem o qual o homem não conseguiria ser feliz (DURKHEIM, 2001). Este primeiro elemento da moralidade, o espírito de disciplina, está diretamente relacionado com os outros dois, pois não há disciplina sem adesão aos grupos sociais e não há adesão consciente nemequilíbrio social, resultantes desse 22 espírito, sem autonomia da vontade do indivíduo. Vejamos os elementos da moralidade na teoria de Durkheim: Espírito de Disciplina – HETERONOMIA -> respeito pela regra por medo da autoridade/castigo; Adesão aos Grupos Sociais: respeito pelo grupo e o equilíbrio social; Autonomia da Vontade: respeito pela regra por ser consciente de sua importância. Para Durkheim, somente a sociedade pode ser levada em consideração quando se prescreve um ato ou uma regra moral. Para o indivíduo, a sociedade engloba diversos grupos sociais que sobrepõem sem se excluírem, como família, pátria e humanidade. Para que o homem seja moral é necessário que ele respeite e se insira na sociedade e esta é a primeira finalidade de uma educação moral. A criança tem na família e na escola as primeiras amostras de vida social e é importante que ela se adapte a elas para que aos poucos vá conhecendo e respeitando grupos maiores de indivíduos. Quando se trata de autonomia, Durkheim se aproxima de Kant (2006), no sentido de que, para ambos os autores, o dever moral produz no indivíduo autônomo um sentimento de respeito que o leva a praticar conscientemente o ato moral, essa iniciativa é encarada como liberdade da vontade do indivíduo, pois se houver qualquer tipo de coação, seja ela interna ou externa, há somente a heteronomia. Então nos deparamos com a questão do bem e do dever. Para Durkheim, ambos são originados do sagrado e entramos novamente na questão da pressão das gerações umas sobre as outras, mas Piaget contesta esta teoria afirmando que há sentimento de dever sem desejo e, portanto, mesmo que haja respeito unilateral, o medo e o amor envolvidos já se tornam elementos para a desejabilidade. Se para Durkheim o ato moral exige esforço, isso não quer dizer, necessariamente, imposição ou coação (PIAGET, 1994). 23 CAPÍTULO 5 – A SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO A palavra sociologia vem da fusão de dois termos: societas, em latim que significa sociedade, e logos, termo grego que significa estudo, portanto, ciência que estuda a sociedade. A Sociologia faz estudo científico da sociedade, o estudo das formas de convivência humana, ela estuda as relações sociais e as formas de associação e dissociação humanas. É uma ciência que considera as interações que ocorrem na vida em sociedade: envolve o estudo dos grupos e dos fatos sociais, das divisões em classes e camadas, da mobilidade social e da interação entre as pessoas e grupos que a constituem. Em síntese, a Sociologia é uma ciência que estuda a sociedade por meio da observação do comportamento humano. • Os Fatos Sociais Os fatos sociais são ações dos grupos humanos através do tempo, do espaço geográfico e da história, basicamente são caracterizados por: Generalidade: o fato social é comum a todos, ou a pelo menos à maioria, de um grupo de pessoas. Exemplos: a forma de habitação, de comunicação, de sentidos e moral; Exterioridade: o fato social existe, independentemente da vontade do indivíduo. Por exemplo: as leis, as regras sociais e os costumes que são impostos de maneira coercitiva; Coercitividade: os indivíduos se sentem pressionados a adotar o comportamento estabelecido pelo grupo. As pessoas são obrigadas a viver conforme as regras da sociedade, que são formadas aquém de sua vontade ou escolha. Os fatos sociais, de acordo com Durkheim (2001), podem ser estudados de forma objetiva, como “coisas”. Da mesma maneira como a Biologia estuda a natureza, a Sociologia estuda os fatos sociais. Para a teoria sociológica de Durkheim, os fatos sociais têm existência própria, ou seja, independem das crenças e ações de indivíduos. • A Teoria de Karl Marx Karl Marx nasceu em 1818, na cidade de Tréveris, então território da Prússia. Marx estudou no Liceu Friedrich Wilhelm, tendo uma formação, desde cedo, condizente com a sua classe social, de classe alta. Ele desenvolveu uma obra extensa, que engloba importantes conceitos filosóficos, econômicos e históricos, além de abrir caminho para uma ampliação do método sociológico. Porém, ficou mais conhecido por sua teoria de análise e de crítica social, que reconheceria uma injusta divisão de classes sociais e a exploração de uma elite privilegiada e detentora dos meios de produção sobre uma classe trabalhadora dominada. O conjunto destes conceitos, Marx denominou como Materialismo Histórico Dialético, um método de análise social e histórica baseado na luta de classes. Essa teoria se fortaleceria com a parceria com Friederich Engels no texto: Manifesto Comunista. Os autores afirmam que a história se baseia em 24 uma eterna luta de classes. Nessa luta, sempre há a classe dominante e a dominada. Dentro da teoria geral marxista, alguns conceitos sobressaem-se por sua ampla importância dentro do próprio sistema marxista. São eles: Infraestrutura: a infraestrutura envolve a divisão do trabalho, a produção e suas relações, a compra, o comércio etc., a economia de uma forma geral; Superestrutura: é um conjunto de instituições e normas que mantém a ideologia social e a lógica de exploração funcionando. São elementos da superestrutura o Estado, as leis, a religião e a cultura; Mais-Valia: é a diferença entre o preço de matéria-prima e produção de uma mercadoria do preço do trabalho e o custo dos meios de produção da mesma mercadoria; Alienação: há uma separação evidente entre o trabalhador e o fruto de seu trabalho. A mais-valia, que nos processos de produção manufaturados beneficiava os artesãos, no processo de produção capitalista, beneficia o dono dos meios de produção e tira dos trabalhadores a capacidade de se reconhecer no seu próprio trabalho; Burguesia: é a classe detentora dos meios de produção; Proletariado: é a classe operária. Após a constatação do processo de dominação, Marx apresentou uma possível solução que seria a Revolução do Proletariado. Essa revolução derrubaria o Estado e implantaria uma ditadura do proletariado, que teria como objetivo estatizar os bens de produção, acabar com a propriedade privada e diminuir a diferença de classes sociais. Essa fase é chamada Socialismo. Com a conclusão da revolução e a igualdade de classes estabelecida, teríamos então, o comunismo. • A Teoria de Max Weber Entre os principais autores da Sociologia, Max Weber (1864-1920) é considerado um dos mais influentes. Seus trabalhos abrangem as áreas do pensamento político, do Direito, da História e da Economia. Essa diversidade acabou útil para os estudos sociais, já que o mundo social está em contato direto com todos esses ramos aos quais Weber dedicou seus trabalhos. Tendo sido precedido por outros dois grandes pensadores da área da Sociologia, Karl Marx e Émile Durkheim (ambos já descritos aqui), Weber também tentou compreender as mudanças sociais que se originavam nos grandes centros urbanos formados pela Revolução Industrial. Talvez o conceito mais importante da teoria de Max Weber seja o de Ação Social. Para este autor, a ação social estava mais próxima do indivíduo que situações econômicas ou institucionais. 25 Para Weber, as ideias, as crenças e os valores eram os principais propulsores das mudanças sociais. Ele acreditava que os indivíduos eram livres para agir e modificar a sua realidade, o que de certa forma, não apresenta a coação social descrita por Durkheim ou Marx. A ação social seria, portanto, qualquer ação que possuísse um sentido e uma finalidade determinados por seu autor. Em outras palavras, uma ação social constitui-se como ação a partir da intenção de seu autor em relação à resposta que deseja de seu interlocutor (RODRIGUES, 2020). As relações e as ações humanas dentro de um contexto são significativas por causa dos seus agentes. Para que se compreenda o processo de comunicação e de interação social, é necessário compreender a intenção doindivíduo ou grupos de indivíduos envolvidos nas mesmas. O autor da ação, ao realizá-la, pretende que seu interlocutor compreenda sua intenção e participe dela. Weber descreveu quatro tipos de ações sociais (RODRIGUES, 2020): Ação racional com relação a fins: refere-se às ações tomadas com um fim específico em mente; Ação racional com relação a valores: refere-se a ações que são tomadas segundo os valores morais do sujeito que a pratica; Ação afetiva: configura-se quando um sujeito age com base em seus sentimentos sem levar em consideração o fim que deseja atingir; Ação tradicional: está relacionada com o agir baseado no costume e no hábito. As contribuições de Marx para a História, para a Filosofia e a formulação de um novo modo de análise social, voltada para a crítica do capitalismo, foram fundamentais para a disseminação da Sociologia e para sustentar um método sociológico. Karl Marx, Max Weber, Durkheim compõe a tríade dos pensadores clássicos da Sociologia, sobre as sociedades capitalistas industriais. • A Escola de Frankfurt A Escola de Frankfurt foi o nome dado a um grupo de intelectuais composto de sociólogos e filósofos alemães. Este grupo era filiado ao Instituto de Pesquisa Social, cujos projetos eram vinculados à Universidade de Frankfurt. A Teoria Crítica foi o elo conceitual que uniu os intelectuais deste grupo, criando uma nova interpretação do marxismo, da sociologia e da política no início do século XX. Segundo o professor Francisco Porfírio, em artigo para a Brasil Escola (Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/a-escola-frankfurt.htm), os principais autores desta escola são: Walter Benjamin: apesar de não ter vínculo direto com o Instituto de Pesquisa Social e de morrer antes da sua reformulação como Escola de Frankfurt nos anos de 1950, Benjamin colaborou com textos para a Revista do Instituto de Pesquisa Social vinculada à Universidade de Frankfurt. Dedicou-se à crítica literária e da arte em geral; https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/a-escola-frankfurt.htm 26 Erich Fromm: também influenciado pelo marxismo e pela psicanálise freudiana, une elementos psicanalíticos para estabelecer o papel do ser humano na sociedade como fator de mudança social. Ele analisou fatores da formação da pessoa, como a família e as relações sociais, numa vertente crítica do marxismo; Jürgen Habermas: é o mais influente dos pensadores da segunda geração da Escola de Frankfurt (estudou nela após a reformulação do instituto na década de 1950). Ele ainda está vivo e dedica-se a entender a ética e a política em meio às extensas possibilidades do discurso na atualidade. Para Habermas, as pessoas devem buscar o consenso democrático com base em um discurso que contemple a todos os cidadãos; Theodor Adorno: pensador alemão que se dedicou a entender a problemática moral e social do século XX frente ao capitalismo. Por ser judeu e comunista, foi perseguido pelo nazismo e refugiou-se nos Estados Unidos; Max Horkheimer: foi um dos diretores do Instituto de Pesquisa Social. O filósofo e sociólogo foi responsável, junto a Adorno, por elaborar o conceito de Indústria Cultural, no livro Dialética do esclarecimento. Também foi perseguido pelo nazismo e refugiou-se nos Estados Unidos; Herbert Marcuse: um dos mais polêmicos pensadores da Escola de Frankfurt, dedicou-se a entender a relação entre sexualidade e capitalismo, além de estudar as problemáticas envolvendo raça e exclusão social. Seus estudos englobavam o marxismo e a psicanálise freudiana. Foi perseguido pelos nazistas pela origem judaica e pela vertente socialista. Marcuse refugiou-se nos Estados Unidos, onde lecionou na Universidade da Califórnia até 1969. 27 CAPÍTULO 6 – A ESCOLA COMO INSTITUIÇÃO SOCIAL O comportamento social do indivíduo é regulado pelas normas sociais, que são construídas no relacionamento com as pessoas de seu convívio, desde a primeira infância. Desde muito cedo, a criança começa a perceber que faz parte de um grupo social, a família, e que este grupo pertence a algo maior, a sociedade. Essa sociedade é formada, entre outras coisas, por instituições sociais. Instituição social é um tipo de organização que promove integração social, através de regras e hábitos, com o objetivo de organizar a nossa sociedade. Essa definição de instituição é um dos objetos de estudo da Sociologia e é fundamental para o funcionamento das relações humanas. Segundo Durkheim, as instituições sociais possuem um papel pedagógico e nos ensinam como ser parte da sociedade em que nascemos. Além de Durkheim, Max Weber também se dedicou aos estudos sobre as instituições sociais. De acordo com Weber, elas foram criadas para integrar o indivíduo à sociedade e são o motivo para existir a coesão social, assim como agregar os grupos sociais entre si. O objetivo das normas de cada tipo de instituição é se complementarem, de modo que nenhuma atue de maneira isolada. Existem algumas características que definem um grupo como uma instituição social, confira abaixo: É uma criação humana, com objetivo utilitarista ou cultural; Tem caráter permanente; Tem reconhecimento social; Tem autonomia para atender necessidades e interesses de seu público-alvo. A escola é uma instituição social que tem a tarefa de tornar o conhecimento acessível a todos os cidadãos. Precisamos lembrar aqui que a Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996 garantem o ensino básico a todas as pessoas, independentemente de estarem em idade escolar ou não. Sendo assim, a escola deve estar preparada para ensinar, para educar de forma integral todos que procurarem seus serviços. • A Escola como Instituição Social Ao iniciar sua vida escolar, a criança vivencia experiências de sociabilidade e aprende a lidar com as primeiras questões sociais, já que a escola reflete e representa a sociedade na qual está inserida. Como parte representativa dessa sociedade, portanto, a escola tem uma função social importante: a de formar os futuros cidadãos. Ao mesmo tempo que a diversidade de público se apresenta como uma vitória da educação, também toma a forma de um desafio. Ensinar a todos, com suas diferenças socioeconômicas, culturais e intelectuais, é ao mesmo tempo uma ação de responsabilidade social e uma ferramenta de progresso. Por outro lado, 28 a escola ainda se adapta a esse processo. Não é fácil ensinar um mesmo conteúdo em uma sala de aula onde os ritmos de aprendizagem e as formas de absorção de conhecimento são variáveis. Isso tem levantado uma discussão entre a sociedade e os educadores: a escola teria a função de promover esse desenvolvimento integral, que abrange a parte emocional, psíquica, física, cognitiva? Ou sua função seria mais tradicional, de apenas ensinar os conteúdos acadêmicos e pedagógicos? A resposta é sim ela tem a responsabilidade de formar integralmente, porque os documentos legais assim o exigem. Nossa Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a LDB, a BNCC, todos estes documentos responsabilizam a escola pela formação psicossocial. O fato é que mesmo que a escola se exima de formar o aluno em outros aspectos que não sejam os acadêmicos, ainda assim, ela terá que considerar esses aspectos. Isso porque não se concebe atualmente um processo de ensino- aprendizagem que não leve em conta aspectos cognitivos e emocionais, no mínimo. Essa questão nos leva à formação de valores e princípios sociais e éticos. Quando se trata de moralidade, estamos falando de costumes, de comportamentos individuais e que variam de pessoa para pessoa, de família para família, entre as religiões e outros grupos culturais. Então, a moralidade é mais responsabilidade da família do que da escola. Porém, quando pensamos na ética, que é uma formação de princípios universais de conduta, que interferemnas relações sociais e no equilíbrio da sociedade, então temos uma responsabilidade maior da escola. Pensando nessa responsabilidade, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN, 1998), inseriram em seus volumes os Temas Transversais. Esses temas, têm como objetivo trabalhar temas do cotidiano do aluno dentro das disciplinas formais. A Ética é um desses temas e deve ser discutida entre os conteúdos das disciplinas, em todas as séries de todas as etapas da Educação Básica. Por exemplo, se o professor leciona língua portuguesa, ao trabalhar com textos, deve selecionar alguns que levantem discussões éticas e/ou que descrevam princípios éticos universais. Além da Ética, os Temas Transversais também incluem o tema Pluralidade Cultural. Esse tema é muito importante para se construir uma boa convivência na escola e na sociedade. Como comentamos aqui, a escola atualmente recebe uma grande quantidade de alunos, que vêm de diferentes contextos sociais e culturais. Um ensino significativo deve considerar essa bagagem que o aluno traz para escola, aproveitando suas vivências sociais e sua cultura. A escola precisa conhecer a realidade do aluno e trazer essa realidade para suas disciplinas, assim, o tema sobre pluralidade cultural informa o professor sobre diferentes contextos e o ajuda a trabalhar com esses contextos em suas aulas. Assim, percebemos que existem propostas curriculares para que a escola trabalhe seu contexto social e desenvolva nos alunos a responsabilidade por 29 esse contexto. Ao frequentar a escola, o aluno leva seu saber histórico-social e o coloca em contato com outros saberes, ampliando seu conhecimento e suas ferramentas de inserção social. Isso foi descrito de forma eficaz pelo psicólogo russo Lev Vygotsky. Segundo Vygotsky, a criança vai absorver todo o conhecimento social e histórico do meio em que vive, através da linguagem e da interação social. A cultura e o contexto histórico são produtos importantes na teoria de Vygotsky, produtos estes responsáveis pela aquisição de conhecimento e reprodução do mesmo. O homem, segundo ele, se torna humano em contato com a humanidade (VYGOTSKY, 2002). O aluno é um ser histórico, ele não chega à escola como uma folha de papel em branco, ao contrário, traz muita bagagem e conteúdo, construídos com sua família, sua comunidade e com a sociedade em que vive. O professor precisa analisar esse conteúdo antes de iniciar qualquer processo de ensino (VYGOTSKY, 2002). O conteúdo escolar deve estar sempre relacionado ao contexto da escola e do aluno, caso contrário, não fará sentido. O contexto também servirá para troca de experiências, informações e dúvidas, pois para Vygotsky, não há aprendizado sem interação social. Nessa teoria de aprendizagem, então, a escola deve estar sempre atenta ao desenvolvimento da linguagem, do diálogo, da comunicação, para promover a troca de experiências, de vivências, sempre estimulando a socialização e a integração entre os alunos. Vygotsky pensava em uma educação que considerasse o aspecto histórico da escola e que fornecesse ao aluno as possibilidades de intervir em seu contexto social. Nesse sentido, a educação libertadora de Paulo Freire também precisa ser citada. Focando o combate ao analfabetismo, Freire desenvolveu um método educacional que proporcionaria ao aluno instrumentos para transformar sua realidade. O próprio analfabetismo, para Paulo Freire, era uma herança da opressão e da exploração das pessoas mais pobres. 30 CAPÍTULO 7 – A ESCOLA E O CONTROLE SOCIAL O conceito de infância vem sofrendo grandes alterações ao longo da história, principalmente nas últimas décadas. Quando pensamos na criança, nos dias de hoje, entendemos que é um indivíduo diferente do adulto, não só em idade, mas em maturidade física, emocional e cognitiva. Porém, nem sempre foi assim, o modo como enxergamos e tratamos a criança depende do contexto histórico e cultural. A cultura ocidental atual pensa em criança como algo frágil, que precisa de cuidado e proteção. A educação é focada na parte cognitiva e intelectual, mas também muito preocupada com o fator psicológico. Ainda assim, existem algumas diferenças dentro de uma mesma sociedade e comunidade, pois aí temos que levar em consideração valores familiares, renda, nível cultural e educacional dos pais, religiosidade e outros detalhes que irão influenciar na criação, nos cuidados e na educação das crianças. Com o intuito de regular a relação com as crianças e com os adolescentes, o Estado cria leis que prescrevem a educação, a proteção, o ambiente, enfim, os cuidados que devemos ter em relação aos menores. Assim, a escola passa a ser um mecanismo de controle social. • Criança, Justiça e Responsabilidade Em O Juízo Moral na Criança, Piaget (1994), desenvolveu estudos sobre o desenvolvimento moral; observando as crianças jogando bolinhas de gude, percebeu que os menores, entre um e três anos, jogam por si, ignoram regras e se preocupam mais em apalpar os objetos que em jogar. Piaget iniciou seus estudos investigando as regras de jogos de crianças, como o de bolinha de gude, e notou que existem rituais e símbolos individuais em crianças pequenas, como ainda há um forte egocentrismo, esse período é chamado de anomia moral (PIAGET, 1994). As crianças um pouco maiores, de quatro a sete anos, já jogam, mas de acordo com suas próprias regras, porém tem respeito pelo que os mais velhos explicam sobre o jogo e as maiores se preocupam em jogar corretamente e reformular regras para o agrado de todos. Essas crianças se encontram, cognitivamente, no que Piaget chamou de período pré-operacional, caracterizado pela imitação, e na fase moral da heteronomia, em que as regras são impostas pelos mais velhos e devem ser respeitadas incondicionalmente (PIAGET, 1994). Piaget se serviu de várias histórias-estímulo para abordar alguns temas morais como a mentira, o roubo e os desajeitamentos. Ele entrevistou as crianças levando em conta três tipos de leis que direcionam o comportamento: a lei física (orgânica, impulsos), regra moral e ritual individual (hábitos), diferir estes comportamentos é fundamental para se avaliar o estágio em que se encontra a criança e seu juízo moral, ou seja, a consciência que ela tem da regra moral. Além disso, é preciso diferir três tipos de regras relacionadas à moral: A regra motora: hábito. A regra coercitiva: unilateral, fruto da pressão sobre o indivíduo. A regra racional: fruto do respeito mútuo (PIAGET, 1994). 31 Nas crianças menores existe um respeito unilateral, mais pelo grupo, que pela tradição da regra. Esta tradição se caracteriza por um misticismo em torno de um grupo de regras que não só vemos em crianças pequenas como em sociedades antigas, geriontocráticas, nas quais não existe autonomia moral, mas um respeito unilateral pelas regras do grupo que foram passadas de geração a geração (PIAGET, 1994). Existe também a responsabilidade objetiva que se dá, principalmente, entre as crianças pequenas, até 7 anos; elas costumam julgar os atos pelas consequências, isto, devido à coação que sofrem por parte do adulto, que as castiga quando fazem alguma arte e também pelo egocentrismo infantil. Por exemplo: uma criança aprende que roubar é errado e pronto; ao ouvir histórias sobre roubos julga que o ladrão deve ser severamente castigado, independente se sua intenção foi boa ao roubar. O mesmo se dá com os desajeitamentos, ou seja, incidentes (muitas vezes involuntários) que crianças menores algumas vezes cometem; alguns adultos se estressam e as castigam e então elas assimilam que cometer gafes é errado e motivo para punição (PIAGET, 1994). Uma outra questão abordada é a da responsabilidade comunicável e a coletiva. A primeira existe quando um grupo é punido pela falta de um de seus indivíduos. Piaget não conseguiu encontrar vestígios de responsabilidade coletiva em suas pesquisas com crianças,por exemplo, afirma que existe solidariedade em grupos de crianças maiores de não delatar o culpado, mas entre as pequenas isto não existe, as crianças maiores preferem aceitar a punição do grupo à delação. A noção de responsabilidade vem evoluindo com o passar do tempo, a das sociedades antigas era objetiva e comunicável, a nossa é subjetiva e individual. Pensando em sociedade descobrimos que o crime está diretamente ligado à responsabilidade, pois o que procuramos hoje, dentro do campo de Direito Penal é descobrir o crime e punir o criminoso. A partir daqui começamos a cogitar a espiritualização do sentimento de responsabilidade; a primitiva é objetiva, pois se dá em uma relação material entre crime e criminoso, mas, se para nós a responsabilidade nasce da consciência do criminoso e de uma relação psicológica entre este e o fato, temos uma relação espiritual; a vida social, à medida que se individualiza, torna-se mais interior, subjetiva (PIAGET, 1994). Embora pareça o ideal, não o é; quanto mais subjetivo se torna o conceito de responsabilidade, mais indefinido e vulnerável ele é. Em uma sociedade em que um indivíduo está socializado e a responsabilidade é cada vez mais subjetiva, conseguimos observar ainda resquícios de um respeito unilateral, pois se há sanção em uma sociedade e também uma relação mística entre crime e criminoso, há falta de autonomia e se há falta de autonomia há respeito unilateral e este respeito nada mais que é que fruto de pressão sobre o indivíduo por outra geração mais velha (PIAGET, 1994). Quanto à justiça entre as crianças, podemos dizer que, excluindo as crianças pequenas, só encontramos sanções não expiatórias; Durkheim diz que estas só são aplicadas no caso de ofensas aos sentimentos (PIAGET, 1994). Para Piaget, existem dois tipos de sanções: as expiatórias e as por reciprocidade. As 32 primeiras são arbitrárias, as segundas podem apresentar uma variedade, pois punem de acordo com ato errado cometido, vejamos: Exclusão momentânea ou definitiva do próprio grupo; Consequência direta e material dos atos: não ter pão quando não quis ir comprá-lo, etc. Este tipo de sanção é defendido por Rosseau e Spencer, segundo eles a punição é sentir as consequências naturais de seus atos; Privar o culpado de uma coisa da qual ele abusa; Pena de Talião, ou seja, fazer à criança o que ela fez; Sanção restitutiva: devolver o objeto quebrado ou pagar; Repreensão moral: conversar com o culpado e explicar porque ele errou (PIAGET, 1994). Piaget notou que as crianças menores são mais severas e preferem aplicar sanções expiatórias quando são interrogadas sobre a punição de culpados. Ele também investigou a questão da justiça retributiva, que ocorre quando punimos um inocente ou recompensamos um culpado (PIAGET, 1994). O autor diz que existem algumas manifestações instintivas da criança como a vingança e a compaixão, quando esses sentimentos intervêm no julgamento da criança, a tendência é que ela apele para a justiça retributiva, no adulto isto também pode ocorrer. Preferimos, no entanto, não falar em compaixão ou vingança como sentimentos inatos, mas em instinto de defesa e de simpatias por parte do ser humano (PIAGET, 1994). Piaget observou que a justiça distributiva, oposto da retributiva, vai aparecendo entre as crianças com o passar dos anos. Os conflitos surgem, principalmente, na questão igualdade-autoridade, a criança quer não só igualdade entre as crianças, mas entre ela e o adulto também. A noção de justiça se desenvolve à custa da submissão da criança ao adulto, às regras e também da solidariedade entre elas. A coação do adulto inibe a formação da autonomia, no sentido de podar o raciocínio individual, as atitudes de cooperação e a reflexão sobre as regras. A criança só vai refletir sobre a regra moral e o respeito mútuo quando deixar de se centrar em si mesma e começar a enxergar o outro como igual (PIAGET, 1994). • Controle Social Mecanismos de controle social, para a Sociologia, são formas de regular o comportamento dos grupos sociais. Esse controle pode ser positivo ou negativo. Estes mecanismos são formas de monitorar as normas estabelecidas e caso o grupo não as siga ele recebe sanções. Ao mesmo tempo, esses mecanismos servem como forma de intervenção diante das possíveis mudanças que aconteçam no meio social. Existem duas formas distintas de controle social: as formas de controle interno e as formas de controle externo. As formas de controle interno são relativas à forma como as pessoas e os grupos interiorizam as regras, através 33 da socialização, ajudando a construir sua identidade social. As formas de controle externo são os mecanismos exercidos pela sociedade sobre o sujeito, como a parte jurídica. Existem dois tipos de controle, o formal e o informal. O controle formal se dá com as leis e normas das instituições, já o controle informal são as regras sociais: morais, religiosas, convencionais, etc. Em relação ao controle exercido pela escola, é um controle que se dá tanto na forma interna quanto externa, podendo ser do tipo formal ou informal. Como representa a sociedade, a escola contém todos os tipos e formas de mecanismos de controle. • Controle Social e Educação O controle do indivíduo pela escola pode ser exercido de forma interna e externa, informal ou formalmente. Esse tipo de controle social é construído através de um processo de socialização efetivo. Essa socialização se inicia com a heteronomia, na qual o sujeito respeita as regras por medo do castigo ou autoridade. Em seguida, conforme deseja a aceitação dos grupos sociais, esse indivíduo se torna vigia de seus próprios atos. O filósofo e teórico social Michel Foucault descreveu perfeitamente os mecanismos de controle e punição em seu livro Vigiar e Punir, no qual percorre ações de sanção desde a Idade Média até os sistemas de punição atuais. Segundo Foucault, a construção do sujeito dócil, útil e submisso à ordem social acontece por meio de processos disciplinadores, nos quais o corpo e a mente do sujeito são moldados de acordo com o que a sociedade exige. Para entender esse processo, Foucault observou as instituições disciplinadoras mais evidentes da sociedade: escola e prisões. O sujeito que essas duas instituições formam, quando o processo é bem-sucedido, seria dócil e funcional dentro do seu contexto social. Enquanto dentro da instituição, o sujeito se adapta às regras de forma heteronômica, cumprindo as regras por medo. Geralmente, essas instituições utilizam o panóptico de Bentham (imagem: https://universodafilosofia.com/2017/12/o-panoptico-de-foucault-em-vigiar-e- punir/ ), modelo arquitetônico no qual o indivíduo não sabe quando está sendo vigiado, e assim, tem que se comportar o tempo todo. Interessante notar que tanto prisões como escolas utilizam a mesma forma de vigiar, exercendo assim, controle interno e externo. https://universodafilosofia.com/2017/12/o-panoptico-de-foucault-em-vigiar-e-punir/ https://universodafilosofia.com/2017/12/o-panoptico-de-foucault-em-vigiar-e-punir/ 34 CAPÍTULO 8 – A ESCOLA E O DESVIO SOCIAL A escola, como já dissemos, representa a sociedade na qual está inserida. Sendo assim, é normal que problemas de comportamentos e desvios sociais comuns na sociedade apareçam na escola. Segundo a Sociologia, desvio social significa quebrar regras e acordos do grupo social no qual a pessoa está inserida. Neste capítulo, iremos descrever estes grupos sociais, os tipos de desvio e por fim, a responsabilidade da escola em relação a eles. • Os Grupos Sociais Grupo social é uma reunião de duas ou mais pessoas, interagindo umas com as outras, e por isso capazes de ação conjunta, visando atingir um objetivo comum. As principais características desse grupo são: Pluralidade de indivíduos: há sempre mais de um indivíduo no grupo, coletivismo; Interação social: os indivíduos comunicam-se uns comos outros; Organização: todo o grupo, para funcionar bem precisa de uma ordem interna; Objetividade e exterioridade: quando uma pessoa entra no grupo ele já existe, quando sai ele permanece existindo; Objetivo comum: união do grupo para atingir os objetivos dos mesmos; Consciência grupal ou sentimento de “nós”: compartilham modos de agir, pensamentos, ideias, etc. Exemplo: Nós ganhamos. Continuidade: é necessário ter uma certa duração. Não pode aparecer e desaparecer com facilidade. Os principais grupos sociais são a família, a comunidade, a escola (e outros grupos relacionados à educação), a igreja (e outros grupos religiosos), grupos de lazer, profissionais e políticos. Estes grupos, de acordo com a frequência e intensidade das interações entre os indivíduos se classificam em: Grupos primários: predominam os contatos primários, mais pessoais, diretos, como a família, os vizinhos, etc.; Grupos secundários: são mais complexos, como as igrejas e o estado, em que predominam os contatos secundários, neste caso, realizam-se de forma pessoal e direta – mas sem intimidade – ou de maneira indireta como cartas, telegramas, telefonemas, etc.; Grupos intermediários: são aqueles que se alternam e se complementam as duas formas de contatos sociais (primários e secundários). Exemplo: escola. 35 • Desvios Sociais Os desvios sociais ocorrem quando um ou mais indivíduos pertencentes aos grupos que citamos quebram as normas sociais preestabelecidas por todos. As normas sociais são regras de conduta de uma sociedade, que controlam e orientam o comportamento das pessoas. Indicam o que é permitido e proibido. Quando um indivíduo quebra essas regras ele está sujeito à sanção social. Sanção social é uma recompensa ou uma punição que o grupo determina para os indivíduos de acordo com o seu comportamento social. É aprovativa quando o grupo emite aceitação, aplausos, honras, promoções. É reprovativa quando o grupo pune quem quebrou regras de alguma forma, por exemplo: insulto, zombaria, prisão, pena de morte, entre outras. Existem três tipos de regras sociais: a convencional (são as convenções sociais, como cumprimentar, pedir licença, agradecer, etc.), a moral (dizem respeito ao que é tido como ato bom ou mau dentro da sociedade) e a jurídica (normas do direito, como leis, estatutos, etc.). Quanto o desvio dessas normas, o indivíduo pode cometer um (LENHHARD, 1985): Desvio primário: são pequenos delitos que não são condenados de forma veemente pela sociedade, como transgredir o código de trânsito, não pagar o condomínio. Geralmente está relacionado às convenções sociais. A pessoa pode ser repreendida pela sociedade, mas ela ainda a aceita como membro; Desvio secundário: comportamento que é caracterizado publicamente como conduta anormal, geralmente é a quebra de uma regra jurídica grave. Exemplo: matar, estuprar, sequestrar; Desvio individual: se dá quando uma pessoa, agindo sozinha, pratica ato que foge dos padrões estabelecidos pelo seu grupo social; Desvio grupal: é cometido por um grupo social. Muito se questiona sobre a responsabilidade do indivíduo sobre seus atos, e consequentemente sobre seus desvios sociais. A responsabilidade exige consciência do ato e essa consciência significa ausência de ignorância. Esse conhecimento a respeito de uma situação nos dá liberdade para agir, é o livre arbítrio. Por outro lado, essa liberdade só é propiciada quando não existe coação, ou seja, quando nada, nem ninguém nos obriga a agir de uma determinada forma. Quando não há ignorância nem coação, há liberdade, logo, há responsabilidade sobre a ação. Existem três concepções importantes a respeito da responsabilidade do ato humano, vejamos: - Determinismo: o homem não pode ser responsável por seus atos porque tudo no universo tem uma causa natural tudo é pré-determinado, tudo segue uma ordem que está fora da interferência do homem; - Libertarismo: Para os libertaristas o homem é responsável por todos os seus atos porque possui o livre-arbítrio; 36 - Empirismo: o meio influencia a maior parte de nossos atos. Assim, o homem pode ou não ser levado ao desvio social por fatores que independem dele. A seguir, iremos descrever o papel da escola no desvio social. • A Escola e o Desvio Social Muitos questionam sobre a responsabilidade da escola sobre os desvios sociais. De acordo com Sociologia, alguns fatores facilitam o desvio, tais como: falha no processo de socialização, a existência de sanções fracas, a não compreensão total de normas por partes dos atores sociais, a execução injusta ou corrupta da lei, entre outros. Nesse momento, precisamos retomar a teoria de desenvolvimento moral de Piaget. O mais importante nessa teoria é que entendamos que punir não é suficiente para precaver os desvios sociais. O que de fato deve ser feito pela escola é desenvolver a consciência moral que leve à autonomia, ou seja, seguir as regras com intenção e consciência. Nesse ponto, Piaget se aproxima da teoria kantiana. Vejamos como se desenvolve a teoria piagetiana. Com seus estudos, Piaget (1994), desenvolveu uma teoria importante sobre a formação do conceito de regra nas crianças. Ele obteve do ponto de vista da prática das regras, quatro estágios sucessivos, e do ponto de vista da consciência três estágios. Identificou cada estágio, com características próprias e atreladas ao desenvolvimento cognitivo do indivíduo. Primeiro estágio da prática de regras (até 2 anos): motor e individual; Segundo estágio da prática de regras (2-5 anos): regra egocêntrica; Terceiro estágio da prática de regras (7-8 anos): regras do grupo, obediência, competitividade; Quarto estágio da prática de regras (11-12 anos): compreende a razão das regras (PIAGET, 1994). Piaget (1994) dividiu em três estágios para explicar o desenvolvimento da consciência das regras, e salientou a maturidade do juízo moral como atrelada ao processo cognitivo. Primeiro estágio da consciência de regra: a regra, nesta fase, para a criança tem atribuição a criação divina e são encaradas como exemplos, interessantes, e não como realidade. As crianças não as praticam por não possuírem respeito intelectual por elas; Segundo estágio da consciência da regra: marcado pelo egocentrismo e primeira metade do estágio da cooperação, a regra é sagrada e sua origem adulta é de essência eterna. Considerada obrigatória, sujeita à intervenção do ambiente que a sanciona e a estabelece. Toda modificação, nesta fase, será considerada uma transgressão; 37 Terceiro estágio da consciência da regra: compreende o quarto estágio da prática das regras. Segundo Piaget (1994) a origem da regra é devido à convenção social. Ela é considerada lei e deve ser mantida e respeitada por consentimento mútuo. Qualquer mudança só poderá ocorrer por consenso geral. Nesta fase a criança tem consciência do seu caráter arbitrário. Piaget se serviu de várias histórias-estímulo para abordar alguns temas morais como a mentira, o roubo e os desajeitamentos. Ele entrevistou as crianças levando em conta três tipos de leis que direcionam o comportamento: a lei física (orgânica, impulsos), regra moral e ritual individual (hábitos), diferir estes comportamentos é fundamental para se avaliar o estágio em que se encontra a criança e seu juízo moral, ou seja, a consciência que ela tem da regra moral. Assim, temos uma teoria importante a ser considerada na escola na hora de prevenir o desvio das regras sociais. Se desenvolvermos a autonomia moral do indivíduo, ele obedecerá às normas com consciência e não coação. 38 CAPÍTULO 9 – A ESCOLA NOVA O Movimento pela Escola Nova se iniciou no século passado no Brasil e ainda hoje influencia nossa educação. Os principais conceitos desse movimento surgem na Europa no finaldo século XIX. É chamado de Escolanovismo ou Escolanovista, e basicamente questiona os moldes tradicionais utilizados na educação até então. Foi baseado em ideias de Jean-Jacques Rousseau, Heinrich Pestalozzi, John Dewey e Freidrich Fröebel. O movimento pela Escola Nova foi motivado pela rapidez das transformações sociais, políticas e econômicas da época, assim como suas consequências. Essas mudanças foram resultado principalmente das alterações causadas pela Revolução Industrial. No Brasil, esse movimento se inicia em 1882, com Rui Barbosa, influenciado pelo filósofo americano John Dewey. Para este, a educação era uma necessidade social, já que aperfeiçoa as pessoas e assim promove progresso. As ideias de Dewey eram críticas à educação tradicional e ultrapassada, afirmando que a escola deveria contribuir para a evolução e o progresso social e humano. Para John Dewey a escola tem como eixo norteador a vida e as experiências, com suas trocas e interações sociais. O ensino e a aprendizagem devem propiciar uma reconstrução permanente da experiência e da aprendizagem dentro de sua vida. Para ele, a educação teria a função de democratizar e de igualar as oportunidades. De acordo com o ideário da escola nova, quando falamos de direitos iguais perante a lei, falamos de igualdade de oportunidades. Os novos educadores acreditavam que os métodos tradicionais de ensino deveriam ser substituídos por métodos mais atuais, de acordo com a realidade social e que preparassem os alunos para serem cidadãos integrais. A Escola Nova iniciou movimento pela inclusão e educação democrática que teve grande impacto nos paradigmas atuais. Em 1932, é publicado o Manifesto dos Pioneiros da Educação, assinado por Fernando de Azevedo, Lourenço Filho e Cecília Meireles, entre outros educadores. Este documento pregava a universalização do ensino, escola pública, laica e gratuita para todos. Com essa publicação, o movimento se fortaleceu e ganhou tanta notoriedade que influenciou uma nova geração de educadores-pensadores no país, entre eles Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e Paulo Freire. Considerado o principal idealizador das grandes mudanças que marcaram a educação brasileira no século 20, Anísio Teixeira foi o pioneiro na implantação de escolas públicas de todos os níveis, refletindo os objetivos do movimento Escola Nova de oferecer educação gratuita para todos. A escola pensada por Anísio tinha a responsabilidade de educar e não só instruir, de formar cidadãos autônomos e livres. Aprender não seria só memorizar, mas envolveria reflexão, contextualização, aplicabilidade e questionamento. Os paradigmas educacionais da Escola Nova influenciaram a nossa educação atual. Com a abertura política do Brasil na década de 1980, muitas ideias foram retomadas e ajudaram a conceber as novas diretrizes curriculares publicadas nas décadas seguintes. No Brasil, a concepção de Educação atual é a de uma escola para todos. 39 A nossa principal lei educacional, a Lei de Diretrizes e da Educação (BRASIL, 1996), afirma que todas as crianças em idade escolar devem frequentar a Educação Básica e esta deve ser oferecida pelo Poder Público de forma gratuita. Essa lei também afirma que todos têm direito à educação, ou seja, pessoas com deficiência, com baixa renda, com idade que ultrapassa a faixa da idade escolar, todos devem ser acolhidos e ter acesso ao ensino público e gratuito. Sendo assim, nossa legislação educacional atualmente é considerada Inclusiva. Esse paradigma orienta que a escola deve promover a igualdade de oportunidades, o respeito às diferenças e a valorização da diversidade, seja ela étnica, social, intelectual, física, sensorial ou de gênero. Saímos assim de um paradigma de educação centrado no tradicionalismo e na homogeneidade para um inclusivo. Essa transformação se deve, em grande parte, aos ideais do Movimento pela Escola Nova. A LDB de 1996 reestruturou o ensino, da forma física até a curricular, e esse processo ainda está inacabado. A educação para todos não integrou somente deficientes, mas crianças marginalizadas socialmente, crianças com problemas graves de origem familiar ou cognitiva, crianças com distúrbios, transtornos de aprendizagem. É um público vasto e diversificado e a escola ainda se adapta a isso. Na pedagogia da Escola Nova são consideradas as seguintes características: Centralização do processo de aprendizagem nas necessidades dos alunos; Atenção à individualidade de cada estudante; Respeito à diversidade; Integração da aprendizagem escolar com o contexto social; Incentivo à reflexão, à observação e ao pensamento crítico-científico; Valorização das experiências e vivências pessoais dos alunos no processo de aprendizagem; Preparação dos alunos para viver em um mundo dinâmico e em constante transformação; Integração de todos os aspectos humanos: intelectual, cognitivo, biológico, emocional e físico; Educação democrática, gratuita e laica. O ensino na escola atual deve focar, para um desenvolvimento pleno de seus alunos, o trabalho com habilidades e competências de cada um, ajudando no desenvolvimento das mesmas e com isso, preparando esses alunos para uma vida social de qualidade. 40 Uma das mais recentes transformações de modo a adequar nossa escola a esse tipo de ensino foi a criação e a implantação da nova Base Nacional Comum Curricular – BNCC. Uma Base Nacional Comum Curricular tem como objetivo nivelar a qualidade do ensino em todo o país, ou seja, reduzir as desigualdades em relação aos conteúdos que são ensinados através de um material elaborado em conjunto, sem perda de saberes e práticas locais. Criar uma base comum também proporciona o desenvolvimento e reforço das mesmas competências e habilidades entre nossos estudantes. A BNCC é um documento que prescreve o conjunto de aprendizagens essenciais de todos os estudantes do país. É dividido em três etapas: Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Cada parte traz orientações sobre os temas, objetos de conhecimento, competências e habilidades que devem ser trabalhados em cada etapa, e como a escola deve formular seu currículo para este fim. A nova BNCC tem sido construída há 7 anos e sua implantação já era prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB, de 1996. O objetivo é nivelar a qualidade do ensino, já que o Brasil é um país vasto e diversificado e, portanto, nem sempre a educação chega da mesma forma a todos, isso quando chega. Cabe salientar aqui que a BNCC não é um currículo comum a todos, mas orientações que devem ser seguidas pelos sistemas municipais e estaduais para elaboração de seus próprios currículos, tomando o cuidado de incluir nos mesmos os conhecimentos acadêmicos, sociais e culturais de suas localidades. A BNCC seria assim um documento norteador e não algo rígido e engessado. 41 CAPÍTULO 10 – A PROFISSÃO DE PROFESSOR Com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB, de 1996, a escola brasileira passa a receber todas as crianças em idade escolar. Precisamos lembrar que até a década de 1980, a escola não era inclusiva. Alunos com grandes dificuldades de aprendizagem e deficientes eram segregados à Educação Especial, que era oferecida fora do ensino regular. Também alunos sem condições econômicas abandonavam a escola para trabalhar ou ficar pelas ruas. Com a nova LDB, inspirada nos ideais inclusivos que permearam a década de 1990, principalmente os discutidos na Declaração de Salamanca, em 1994, as crianças passam a ser matriculadas no ensino regular: todas as crianças de 7 a 17 anos. Atualmente a idade é 4 a 17. Assim, a escola precisou se adaptar a uma grande quantidade de alunos e a uma grande diversidade dos mesmos. Junto com a escola, o professor se viu na necessidade de atualização e ampliação de sua formação, além de qualificação para ensinar alunos tãodiferentes entre si. Conjuntamente, o mundo passava por uma revolução global: o advento da era da informação, da era digital. As tecnologias começaram a avançar de forma rápida e a se expandir para os mais diversos tipos de dispositivos: computadores, notebooks, tablets, celulares, smartphones, etc. A escola se viu sobrecarregada e desgastada, assim como professor. Atualmente, ainda lutamos para formar professores os mais preparados possível para a sala de aula, que apesar de ainda se dispor de forma tradicional, recebe alunos nativos digitais, que não suportam mais os métodos de ensino, as regras e o funcionamento da mesma. Nessa perspectiva, teorias de aprendizagem e práticas ativas começam a influenciar a educação nacional. A nova Base Nacional Comum Curricular – BNCC, nos trouxe uma nova forma de ensinar conteúdos e lidar com o cotidiano escolar diversificado. Com essa base, esperamos que a escola comece a cativar seu público e tornar o trabalho docente mais tranquilo e motivador. Em tempos em que a profissão de professor luta para ser reconhecida e valorizada, trazemos uma apostila de estudos sobre a prática docente e a formação em licenciatura. Cada vez mais os cursos de formação de professores tentam se adequar a uma nova realidade escolar: uma escola antiga, tradicional, que recebe uma geração totalmente nativa digital. Em uma época, como já comentamos, em que o professor luta por reconhecimento e valorização, é importante comentarmos o que faz um profissional de ensino, como ele se qualifica para exercer uma profissão tão importante. Neste capítulo iremos estudar a definição de docência, a formação e a qualificação do professor, as áreas de atuação, a legislação trabalhista e os planos de carreira dessa profissão. 42 • O que é ser professor? O ofício de professor é exercido desde muito antes de surgirem as escolas formais. Desde que se tornou importante fazer coisas se tornou importante também ensinar a fazer. Não há como datar o início da docência, pois o ser humano sempre ensinou seus descendentes o que aprendeu com seus antecessores. Se formos pensar na história ocidental, na Grécia Antiga temos as primeiras representações de um ensino mais formal. Foram os gregos que começaram a valorizar a razão para explicar os fenômenos físicos e metafísicos e a dar início a um processo de ensino-aprendizagem que inspiraria a civilização ocidental até o presente. Porém, não foram os filósofos os primeiros pedagogos, mas assim eram chamados os escravos das pessoas mais abastadas, que levavam os filhos de seus senhores para observar os filósofos nas ágoras (espaço aberto em que os filósofos palestravam e debatiam ideias). Portanto, os pedagogos ainda não estavam envolvidos com o ensino, apenas conduziam crianças até o mesmo, daí a palavra ser usada até a atualidade. Com o surgimento da democracia na Grécia, os filósofos sofistas passam a ensinar quem pudesse pagá-los e formaram as primeiras turmas de alunos (PILETTI & PILETTI, 1995). Na Idade Média a profissão de professor começa a tomar forma. Com o Cristianismo dominando a produção do saber na Europa (eram as instituições religiosas que guardavam livros e construíam escolas) o ensino passa a ser feito por religiosos da Igreja Católica, se tornando eles os primeiros docentes formais em escolas regulares. Também era comum na época o uso de tutores pelas famílias ricas para educarem seus filhos. O tutor ensinava praticamente todas as disciplinas aos seus alunos, alguns até incluíam artes, música e etiqueta (PILETTI & PILETTI, 1995). Com o enfraquecimento do Feudalismo, o crescimento da burguesia e a formação dos centros urbanos a realidade educacional foi se modificando. Surgem então os Mestres Livres: homens leigos que compravam da Igreja Católica a permissão para exercer a docência. As escolas passam a oferecer o Studium Generale, um esboço de ensino superior, originando assim a Universidade. Com o passar dos anos as Universidades se expandem na Europa formando médicos, artistas, juristas e teólogos (PILETTI & PILETTI, 1995). Um fato importante impulsionou essa expansão do Ensino Superior, foi o Renascimento Italiano. Na Itália, os mecenas, comerciantes ricos, patrocinavam artistas humanistas o que contribuiu para originar um movimento cultural significativo focado na valorização das artes, do homem e dos estudos científicos. Esse movimento, chamado Renascimento, colocou o homem no centro do Universo (antropocentrismo), tirando o foco do catolicismo. O Renascimento contemplou uma grande quantidade de escritores (Dante Alighieri, Maquiavel, Shakespeare, Camões), de artistas (Leonardo Da Vinci, Rafael Sanzio, Michelangelo) e cientistas, como Nicolau Copérnico (refutou o geocentrismo e 43 afirmou que a Terra gira em torno do Sol) e Galileu Galilei (PILETTI & PILETTI, 1995). As ideias renascentistas exasperaram a Igreja Católica que perseguiu e queimou livros e artistas na fogueira da Inquisição. Outro fato que enfraqueceu a Igreja Católica foi o surgimento do Protestantismo, movimento iniciado por Martinho Lutero que pregava a livre interpretação das escrituras sagradas e a não necessidade de se estar na igreja para realizar cultos (PILETTI & PILETTI, 1995). Com todas essas transformações, a teoria científica e as universidades se fortalecem. A escola tradicional, centrada na figura do professor se concretiza e o modelo de ensino expositivo, no qual o professor transmite seus saberes aos alunos oralmente e com apoio da lousa e livros, permanece por muito tempo. No século XVIII, os métodos científicos e as teorias racionais ganham força com o movimento do Iluminismo. Desde o Renascimento, a Europa fervia com o crescimento da burguesia que queria liberdade e poder. Na Inglaterra, França e Holanda, filósofos e cientistas debatiam incansavelmente os ideais de valorização da razão, da natureza e do método científico, e criticavam a nobreza e o clero. Esse movimento inspirou a Revolução Francesa, que em 1789 depôs a monarquia (PILETTI & PILETTI, 1995). Nesse contexto, a profissão de professor, principalmente nas universidades, passa a se destacar como o detentor e defensor da razão e da ciência. Com a Revolução Industrial, desencadeada no século XIX, são fundadas as primeiras escolas leigas de ensino básico que tinham como objetivo ensinar ofícios, para que os jovens pudessem trabalhar na indústria, assim, a carreira de professor começava a expandir seus papéis (PILETTI & PILETTI, 1995). O século XIX e XX nos trazem novas teorias de aprendizagem, que (veremos com mais detalhes em capítulo próximo dessa apostila) questionam o método tradicional de ensino e passam a valorizar o papel do aluno no processo de aprendizagem. Novos papéis são atribuídos ao professor, não basta mais ensinar o ser, mas deve-se ensinar também o fazer. Atualmente, o professor desempenha uma infinidade de papéis. A escola moderna se fragmentou em várias etapas de ensino e com isso o papel do professor também se diversificou. Houve uma estratificação do ensino originando o professor de ensino infantil, o de ensino fundamental 1, o de fundamental 2 e médio, formado em disciplinas específicas e o de nível superior. • Formação e Qualificação do Professor Atualmente, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, traz em seu título VI, artigo 62, a seguinte afirmação sobre a formação necessária para se lecionar nas salas de aulas brasileiras: Art. 62. A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do 44 magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio na modalidade Normal (LDB, 1996). Atualmente, considera-se o notório saber, adquirido através título de doutorado, que dispensa o diplomatradicional para lecionar disciplinas específicas, segundo o artigo 66, da LDB (1996). Sendo assim, o professor vai atuar na formação e desenvolvimento de crianças, de 0 a 10 anos se cursar a Pedagogia ou Curso Normal. Para trabalhar no Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio, terá que se formar em cursos superiores de licenciatura na disciplina que escolherem, como Língua Portuguesa (Letras), Matemática, História, etc. O formado em Pedagogia, licenciatura plena, também pode exercer cargos de gestão, além de se responsabilizar pela Educação Especial, Ensino de Jovens e Adultos e pela elaboração de cursos em empresas, hospitais, asilos, etc. Para lecionar no Ensino Superior, o professor precisa ter uma especialização, seja ela do tipo lato sensu (especialização comum) ou strictu sensu (mestrado e doutorado), sendo que esta deve ter aderência à disciplina que irá lecionar. Os afazeres de um professor, porém, vão além dos especificados em sua graduação. Com a escola recebendo todos os alunos em idade escolar e com a proposta de inclusão, o professor acaba tendo que exercer papéis que excedem essa formação. Claro, que não é correto cobrar do professor certas tarefas, mas se pensarmos que estamos lidando com crianças, adolescentes, ou seja, seres humanos, que tem emoções, valores, individualidades, não podemos pensar em um ensino frio, distante, automatizado. Ensinar é mais que depositar conhecimentos em outro ser humano, como dizia Paulo Freire, para que o processo de ensino-aprendizagem funcione, é preciso que haja uma relação de confiança entre o mestre e o aluno, e essa confiança precisa de dedicação e empatia para se desenvolver, de ambas as partes. • Legislação Trabalhista A Reforma Trabalhista de 2017 trouxe algumas mudanças na situação de professores de todo o país. Por exemplo, com a reforma, o professor pode se dedicar a mais de uma instituição de ensino através do contrato intermitente, recebendo pelas aulas dadas. O FGTS, férias, 13º salário e previdência continuam garantidos por lei, mas são proporcionais. Antes da reforma o banco de horas de um professor era estabelecido pela Convenção Coletiva da categoria, mas agora, as escolas não são mais obrigadas a pagar horas-extras, sendo que o tempo trabalhado deve ser discutido e acordado entre a escola e o professor (FERREIRA, 2019). Sobre as demissões, o contrato de trabalho pode ser encerrado em comum acordo entre as partes sem que haja multas rescisórias, também pode-se pagar apenas metade da multa de 40% do FGTS e metade do próprio se houver 45 acordo, em caso de demissão sem justa-causa. O funcionário pode abrir mão do seguro-desemprego se optar por sacar 80% do saldo do FGTS. A homologação da rescisão não precisa mais ser feita no sindicato (FERREIRA, 2019). Embora tenha por base a legislação trabalhista vigente, muitos aspectos da profissão docente, como valor de horas/aula e dissídios, são regidos pela Convenção Coletiva de Educação, que é publicada anualmente e discutida pelos sindicatos da categoria. De acordo com essa Convenção (CONVENÇÃO 2019/2020), consta no artigo 20, sobre a Jornada de Trabalho: A remuneração dos docentes será fixada pelo número de aulas semanais, que não poderá ser superior a 40 (quarenta). O pagamento far-se-á mensalmente, considerando-se cada mês constituído de 4,5 (quatro e meia) semanas, acrescentando-lhe 1/6 (um sexto) de seu valor como remuneração do repouso, conforme interpretação do art. 320 da CLT em combinação com a Lei 605/49. Após três aulas consecutivas, o professor deverá fazer um intervalo de no mínimo 15 minutos. Caso precise exercer alguma função pedagógica para a escola nesse período o professor deverá ser remunerado com meia hora/aula. A Convenção Coletiva da classe também estabelece limites para o número de alunos na sala durante a aula, por exemplo, no primeiro ano do Ensino Fundamental, o limite atual é de 26 alunos por sala. É preciso ficar atento a isso, porque muitas escolas não cumprem essa convenção. Existem muitas salas de primeiro ano com mais de 35 alunos, o que prejudica o ensino em uma fase de suma importância, a da alfabetização. Para saber os direitos gerais da classe é preciso estar atualizado, primeiro sobre as leis trabalhistas do país, estado e município em que se leciona; em segundo, todos os anos acompanhar a discussão, a aprovação e a homologação da Convenção Coletiva da classe. • Plano de Carreira do Professor Os estudos, a experiência, o tempo de trabalho de um professor deve ser valorizado, não só socialmente, mas financeiramente e academicamente, por isso, o plano de carreira de um docente deve ser regulamentado e incentivado em todos os níveis e etapas da educação nacional. Segundo o Ministério da Educação: O plano de carreira do magistério deve contemplar itens como a formação inicial e continuada, o processo de escolha de diretores das escolas, o número máximo de alunos por sala de aula, o sistema de avaliação, a progressão funcional (MEC, 2020). Sendo assim, quanto mais qualificado e experiente o professor, maior seu salário, sua prioridade na escolha de aulas, nas seleções oficiais e na progressão de cargos. Segundo a LDB (1996), os sistemas de ensino devem assegurar o plano de carreira do professor, incentivando a continuidade dos estudos, 46 respeitando o piso salarial, a progressão funcional baseada em desempenho e qualificação e a saúde do professor em toda sua globalidade. Finalizando, a carreira do professor tem muitas vantagens, legislação específica desde sua formação até o plano de carreira, mas ainda há carência de respeito às leis e ao trabalho em sala de aula e fora dela. Enquanto a sociedade não valorizar o professor, o aluno também não o fará. 47 CONCLUSÕES Nos nossos estudos, pudemos entender os fundamentos educacionais e a influência da Psicologia, da Filosofia e da Sociologia na formação desses fundamentos. A Sociologia foi uma das ciências mais importantes nas transformações educacionais brasileiras nas últimas décadas. Ela nos trouxe uma nova concepção de escola, principalmente apoiada nos conceitos de Durkheim. A Filosofia também nos direciona para um ensino mais contextualizado e racional, enquanto a Psicologia nos faz olha para o homem como um ser integral. Assim, os fundamentos atuais nos afastam da concepção tradicionalista de educação, rígida e conteudista. Uma educação humanizada, seria o contraponto desse ensino, contextualizando conteúdos, inserindo temas significativos e discutindo a realidade social da escola e do seu alunado. O aluno precisa ter participação no processo de aprendizagem, precisa ter ação. Esse processo não pode fugir da sua realidade e de suas necessidades. A escola precisa estimular e desenvolver o pensamento crítico, o questionamento, a curiosidade científica, para que o aluno aprenda a aprender e se torne autônomo. Sendo assim, a escola possui uma função social de fundamental importância e precisa ser ativa e efetiva nessa função. Para isso, a escola precisa desenvolver as habilidades físicas, psíquicas, emocionais e cognitivas de seus alunos, através da exploração de todas as possibilidades de seu contexto social, econômico e cultural. 48 BIBLIOGRAFIA ALVES, L. A. M. História da Educação. Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2012. Disponível em: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/10021.pdf AMADO, C. História da Pedagogia e da Educação – Guião para acompanhamento das aulas. Évora: Universidade de Évora, 2007. ANTUNES, C. As Inteligências Múltiplas e seus Estímulos. Campinas: Ed. Papirus, 1998. BELLO, J. L. P. 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