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Fundamentos da Educação

Material sobre Fundamentos da Educação: capítulos sobre fundamentos históricos, psicológicos, filosóficos e sociológicos; função social da escola, Escola Nova e profissão docente. Inclui introdução, conclusões e bibliografia, com ênfase no contexto social e no bem‑estar dos alunos.

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APOSTILA
FUNDAMENTOS DAFUNDAMENTOS DA
EDUCAÇÃOEDUCAÇÃO
https://www.unovacursos.com.br/admin/cursos/curso/133
FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO 
INTRODUÇÃO...................................................................................................02 
CAPÍTULO 1 – Fundamentos Históricos da Educação..................................03 
CAPÍTULO 2 – Fundamentos Psicológicos da Educação.............................07 
CAPÍTULO 3 – Fundamentos Filosóficos da Educação ................................17 
CAPÍTULO 4 – Fundamentos Sociológicos da Educação.............................20 
CAPÍTULO 5 – A Sociologia da Educação......................................................23 
CAPÍTULO 6 – A Escola como Instituição Social..........................................27 
CAPÍTULO 7 – A Escola e o Controle Social..................................................30 
CAPÍTULO 8 – A Escola e o Desvio Social.....................................................34 
CAPÍTULO 9 – A Escola Nova..........................................................................38 
CAPÍTULO 10 – A Profissão de Professor......................................................41 
CONCLUSÕES..................................................................................................47 
BIBLIOGRAFIA.................................................................................................48 
2 
 
INTRODUÇÃO 
Não há, portanto, educação e aprendizado sem a devida consideração pelo 
contexto social. No presente estudo, iremos entender todos esses conceitos de 
forma mais clara. Primeiro, iremos entender como a Filosofia, a Psicologia e a 
Sociologia ajudaram a estabelecer os fundamentos e paradigmas atuais da 
educação nacional. 
Em seguida, iremos discutir a função social da escola. As pesquisas teóricas da 
área de educação têm demonstrado, nas últimas décadas, que existem vários 
fatores envolvidos na aprendizagem humana, não só o mental. Para adquirir o 
conhecimento de forma mais efetiva, o indivíduo não pode estar passando por 
um desequilíbrio físico, mental ou emocional, pois, embora consiga depreender 
algum conteúdo, não terá aprendido com todo seu potencial. Sendo assim, a 
escola precisa promover o bem-estar de seus alunos para que estes aprendam 
melhor. 
Mas, e a formação social? Qual a responsabilidade da escola? Ora, se a escola 
representa a sociedade, exerce a função de preparar os futuros cidadãos, ela 
não pode se eximir da tarefa de prepará-los para o exercício da cidadania. 
Obviamente, isso não tira a responsabilidade dos pais de exercerem a mesma 
tarefa, pois no caso de formação integral, tanto a família como a escola são 
coautoras desse processo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
CAPÍTULO 1 – FUNDAMENTOS HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO 
A educação formal tal qual a conhecemos atualmente, inclusiva e integradora, 
não foi sempre oferecida dessa forma: a todos e de forma gratuita. Tanto no 
Brasil como no resto do Ocidente, a educação por muitos séculos foi direito 
somente para uma elite, branca e masculina. Durante muitos anos essa 
educação foi ligada à Igreja Católica e seus princípios doutrinadores. Neste 
capítulo, iremos descrever os fundamentos da educação moderna, com sua 
história, principais teorias e autores. 
• A História da Educação 
A educação do homem vai além da abordagem acadêmica, dentro de instituições 
de ensino. Educar é parte do processo de socialização e integração cultural, 
sendo algo presente na vida humana desde a antiguidade. O progresso e a 
evolução humana são frutos dos processos educativos, de transmissão de 
conhecimento através dos tempos entre os grupos sociais. 
No Ocidente, começamos a contar a história da educação pela Grécia Antiga, 
sendo que esta é uma civilização significativa para os fundamentos da educação 
até a atualidade. As cidades gregas de Esparta e Atenas, principais polos 
educacionais da antiguidade grega, serviram de modelo para toda a educação 
ocidental. 
O modelo espartano de educação era fundamentado na rigidez moral, na 
disciplina, no autoritarismo e no alto desempenho militar e físico. Já o modelo 
ateniense era democrático, fundado na reflexão, na argumentação e na oratória. 
Ambos os modelos, embora opostos, foram reproduzidos por séculos na Europa 
e todo o ocidente, sendo que filósofos como Sócrates e Platão (bases dos 
estudos gregos) nos influenciam até hoje. 
Na Idade Média, a educação fica estagnada em um ensino dominado pelo 
catolicismo e destinado somente aos ricos senhores feudais e sua família. Na 
verdade, somente homens tinham acesso ao ensino formal, ensino este que se 
baseava em uma educação profundamente ligada aos dogmas católicos, 
geralmente oferecida por padres e outros sacerdotes da igreja. Os meninos eram 
educados rigidamente, alguns iam para a universidade e outros ingressavam no 
seminário. Mulheres e servos não tinham acesso a esse tipo de educação. 
Mulheres ricas eram educadas por tutores para serem damas preparadas para 
serem senhoras dos castelos. Mulheres e homens pobres geralmente aprendiam 
ofícios braçais e ligados aos trabalhos domésticos e do feudo. 
Não havia também a escola como a temos atualmente, para todos e laica. Os 
poucos colégios eram católicos, destinados a formar religiosos, de preferência 
padres. As crianças se vestiam como adultos e não havia uma educação própria 
para essa etapa da vida. Apesar desse pensamento feudal em relação à infância, 
temos por essa época um importante escritor que é considerado o pai da didática 
moderna: João Amós Comênio. 
Comênio era um educador e bispo da igreja protestante, suas ideias sobre 
educação eram muito à frente do seu tempo. Ele afirmava que a criança 
precisava ter respeitados seus estágios de desenvolvimento, que eram seres 
diferentes dos adultos e que a educação deveria ser fundamentada no diálogo. 
4 
 
Comênio também defendia pedagogias ativas, baseadas na experimentação e 
um ambiente adaptado à educação infantil. A base da didática de Comênio era 
o contato com o mundo através de experiências sensoriais e cognitivas (AMADO, 
2007). 
Com o enfraquecimento do Feudalismo, o ressurgimento do comércio e das 
cidades, uma nova classe social começa a dominar a Europa: a burguesia. As 
grandes navegações, o Renascimento cultural e o fortalecimento dos ideais 
burgueses transformam a educação em algo menos elitista, mas ainda destinada 
a homens ricos. As monarquias se fortalecem e com elas a nobreza, que também 
se torna uma classe influente na educação e na cultura. 
Isso perdura até o Iluminismo e a Revolução Francesa. O Iluminismo é um 
período em que surgem grandes filósofos, que pregam ideais de democracia, 
igualdade e fraternidade, pensamentos bases para a Revolução Francesa: 
revolta da burguesia que depôs a monarquia francesa e estabeleceu a república. 
Assim, a Europa vê o enfraquecimento da nobreza e o fortalecimento da 
burguesia, que vai querer educação formal para seus filhos. Assim, o ensino se 
amplia além dos nobres, incluindo não só grandes burgueses, mas pequenos 
comerciantes. A quantidade de escolas cresce e passa a atender um público 
maior. Mulheres passam a frequentar não só as escolas, mas as universidades. 
Algumas concepções de infância começam a se difundir, como as que afirmam 
ser a mesma um ser frágil, incapaz, inocente, o que gera uma atitude 
exageradamente paternalista por parte dos adultos. Assim, se forma a família 
burguesa. Nesse período, podemos destacar alguns autores importantes que 
ajudam a formar o conceito de infância que temos atualmente: Jean Jacques 
Rousseau, Johann Henrich Pestalozzi e Friedrich Froebel (AMADO, 2007). 
Friedrich Froebel foi o primeiro educador a salientar a importância do brincar e 
das atividades lúdicas infantis. Sua teoria educacional envolvia a educação 
familiar e atividades que estimulassem tanto a parte física e motora, como a 
imaginação infantil, usando o jogo simbólico e a literatura para trabalhar com 
crianças menores(AMADO, 2007). 
O filósofo francês Rousseau baseava seus conceitos em uma educação natural, 
na qual o homem se desenvolveria, em todo o seu potencial, em contato com 
natureza, que ajudaria a ativar toda a sua completude. Pestalozzi se inspirava 
em Rousseau ao acreditar que a bondade humana era inata e que o meio 
corrompia o homem, defendeu uma educação popular, que ajudaria a reduzir as 
desigualdades sociais. Religioso protestante, pregava a caridade e ajudou a criar 
creches para filhos de operários (AMADO, 2007). 
O crescimento do comércio, dos centros urbanos e da burguesia faz com que a 
produção de bens precise se ampliar, o que origina as indústrias. Assim, na 
Inglaterra do século XIX temos a Revolução Industrial. Com o crescimento da 
população urbana, cresce também o comércio e os serviços para atenderem 
essa população, assim as universidades começam a receber maior e mais 
diversa quantidade de alunos. Para formar para as universidades, os serviços e 
as indústrias, a escola formal também se amplia e se fortalece. Temos então o 
5 
 
ideal moderno de educação, voltado para formação acadêmica e o mercado de 
trabalho. 
O padrão de criança para a qual a escola funcionava era a criança burguesa, 
mas nem todas eram burguesas, nem todas possuíam uma bagagem familiar 
que era aproveitada pelo sistema educacional. E para resolver esse problema, 
surgiram os programas de cunho compensatório para suprir as deficiências de 
saúde, nutrição, educação e socioculturais. Essa educação compensatória 
começou no século XIX com Pestalozzi, Froebel, Montessori e McMillan. A pré-
escola era encarada por esses pensadores como uma forma de superar a 
miséria e a pobreza das famílias. 
No século XX, temos grandes pensadores da educação, mas o perfil da escola 
popular se engessa: pré-escola assistencialista e compensatória, educação 
básica para todos, ensino médio e superior para uma minoria rica. Cenário esse 
que começa a mudar somente nas décadas de 1970, 80 e 90. 
• História da Educação Brasileira 
Os primeiros fundamentos da educação brasileira se devem aos jesuítas, que 
fundaram as primeiras escolas. Eram escolas voltadas mais para o catecismo do 
que para o ensino formal. A Igreja Católica domina a rede de ensino nos 
primeiros anos, já que a maioria das escolas eram católicas, voltadas para 
meninas ricas, para o assistencialismo ou para uma formação básica dos 
meninos ricos que mais tarde seguiriam para Portugal para completar seus 
estudos. 
Com a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, a sociedade abre 
portas para um novo paradigma, fundado em ideias capitalistas, urbanas e 
industriais. No Brasil, surgem as creches populares que serviam para atender 
não somente os filhos das mães que trabalhavam na indústria, mas também os 
filhos das empregadas domésticas. As creches populares atendiam somente o 
que se referia à alimentação, higiene e segurança física. Eram chamadas de 
Casa dos Expostos ou Roda. 
Podemos dizer que somente na década de 1930, principalmente com o governo 
de Getúlio Vargas, tivemos a organização de um sistema educacional público, 
gratuito e popular. Em 1930, esse presidente criou o MEC – Ministério da 
Educação, para criar, expandir e gerir escolas públicas e educação superior em 
todo o Brasil. O país vivia uma industrialização e urbanização tardia em relação 
à Europa, muitas mães tinham necessidade de um ambiente seguro para deixar 
seus filhos, enquanto trabalhavam (BELLO, 2001). 
Movimentos artísticos, filosóficos e políticos influenciaram a educação do século 
XX, o país recebia as teorias educacionais modernas, inspirando o movimento 
da Escola Nova. Esse movimento defendeu uma escola laica, gratuita e pública, 
para todas as crianças em idade escolar e fortaleceu a universidade pública. 
Apesar de teorias como a de Maria Montessori, Jean Piaget e Lev Vygotsky 
terem influenciado a construção de um novo conceito de infância no Brasil, a 
escola de educação infantil no país ainda era de caráter assistencialista, 
compensatório e de pouca aplicação prática de teorias educacionais. 
6 
 
Atualmente, o Brasil vive a implantação de novos paradigmas educacionais que 
se originaram na década de 1980, com a Constituição Federal de 1988 e a Lei 
de Diretrizes e Bases da Educação de 1996, que com seus ideais democráticos, 
inclusivos e universais, promovem uma educação gratuita para todos. 
• Fundamentos Históricos da Educação: autores. 
Agora que conhecemos a história da educação formal, iremos descrever os 
principais autores que fundamentaram o ensino ocidental moderno e suas 
teorias. 
 Paulo Freire: o patrono da educação brasileira, educador e filósofo Paulo 
Reglus Neves Freire (1921-1997), se destacou como alfabetizador de 
adultos. O método Paulo Freire é usado ainda hoje no Brasil e no mundo 
como referência em alfabetização; 
 
 Maria Montessori: italiana, a médica é famosa como norteadora na 
Educação Infantil. Defendia uma educação para o desenvolvimento da 
autonomia do aluno e o professor como mediador; 
 
 Jean Piaget: biólogo suíço, desenvolveu a teoria de desenvolvimento da 
inteligência e a teoria de desenvolvimento moral. É considerado o 
principal autor do desenvolvimento infantil para muitos educadores; 
 
 Lev Semionovitch Vygotsky: professor e pesquisador foi 
contemporâneo de Piaget, e nasceu e viveu na Rússia, quando morreu, 
de tuberculose, tinha 34 anos. É importante base para a educação 
moderna, principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento social e 
da linguagem; 
 
 Celestin Freinet: crítico da escola tradicional e das escolas novas, foi 
criador do movimento da escola moderna francesa. Defendia uma escola 
popular; 
 
 Antônio Gramsci: intelectual italiano, refletiu sobre hegemonia cultural, 
as relações de classe e os grupos intelectuais na produção da cultura de 
seu país. Chegou a ficar um longo período preso. Na cadeia continuou 
escrevendo e suas publicações se tornaram referências para educação e 
a sociologia; 
 
 Henri Wallon: nasceu na França em 1879. Desenvolveu uma teoria de 
desenvolvimento baseada na afetividade, com identificações com a teoria 
piagetiana; 
 
 John Dewey: inspirou o movimento da Escola Nova no Brasil, liderado 
por Anísio Teixeira, ao colocar a atividade prática e a democracia como 
importantes ingredientes da educação; 
 
 Howard Gardner: desenvolveu a teoria das inteligências múltiplas, 
amplamente usada atualmente na escola. 
 
7 
 
CAPÍTULO 2 – FUNDAMENTOS PSICOLÓGICOS DA EDUCAÇÃO 
Muitos acreditam que o aprendizado é avaliado por uma mudança significativa 
no comportamento, assim, a Psicologia tem e teve sempre um papel importante 
na escola e fora dela no que diz respeito ao aprendizado humano. A Psicologia 
da Educação é uma área vasta e repleta de teorias que ajudam pais e 
educadores no processo de ensino-aprendizagem. O psicólogo educacional irá 
investigar quais processos biológicos, cognitivos, mentais ou outros estão 
envolvidos no aprendizado de um e outro comportamento. Neste capítulo, iremos 
estudar as principais teorias da Psicologia que são usadas na educação escolar. 
Existem diversos conceitos sobre a aprendizagem. Basicamente, aprender é 
adquirir conhecimento, habilidades, valores, experiência em algo, mas esse 
processo pode ser definido de muitas formas, mesmo dentro da Psicologia. Para 
a Psicologia Comportamental, por exemplo, aprendizado é uma mudança 
significativa no comportamento do indivíduo. A forma como esse indivíduo 
aprende também é descrita sob diversas perspectivas. 
O Empirismo é uma concepção na qual o indivíduo aprende e se desenvolve de 
acordo com o meio em que vive e seus estímulos, ou seja, a aprendizagem se 
dá pela experiência. Essa concepção influenciou a Psicologia Comportamental 
e seus estudiosos, que acreditam que o aprendizado se dá pelas respostas do 
organismo vivo aos estímulos do meio. O conceito de aprendizagem para essa 
área da psicologia é, portanto, definido para todos osseres vivos. A educação 
empirista se baseia no meio, nos objetos e nas variáveis que esse meio 
apresenta. A imitação também é componente importante desse aprendizado, já 
que muitas ações são aprendidas assim (NUNES & SILVEIRA, 2015). 
A concepção Inatista, ao contrário, considera o fator genético e o hereditário 
como fundamentais para a aprendizagem. Isso significa que uma criança já 
nasce com um tipo de inteligência, herdada, e que a manterá por toda a vida. O 
meio no qual a criança vive, cresce e se desenvolve terá uma participação 
secundária em sua aprendizagem (NUNES & SILVEIRA, 2015). 
O Construtivismo é uma corrente teórica fundamentada nos estudos do biólogo 
suíço Jean Piaget. Essa corrente considera tanto a parte genética, hereditária, 
como a influência do meio sobre o aprendizado. Se formos pensar em uma 
aprendizagem universal, para todos os seres vivos, veremos que os processos 
mais fundamentais da inteligência são de natureza biológica, estão presentes 
em qualquer ser vivo. Existe uma relação íntima entre os fundamentos 
fisiológicos e anatômicos e a inteligência. Para Piaget, por exemplo, a 
inteligência é uma adaptação: herdamos um modo de funcionamento 
intelectual, que nos permite uma relação com o meio e gera estruturas 
cognitivas, ele é constante por toda a vida (FLAVELL, 1996). 
• A Teoria Psicanalítica de Sigmund Freud 
A teoria psicanalítica nasceu dos estudos e das observações do médico 
neurologista austríaco Sigmund Freud. Atualmente, é usada na psicologia 
clínica e em estudos teóricos, analisando o psiquismo e o comportamento 
humano, os processos que envolvem o Inconsciente, usando a psicoterapia da 
livre associação e formulando tratamentos para problemas psíquicos. A 1ª 
8 
 
Teoria do Aparelho Psíquico, ou Modelo Topológico da Mente, foi formulada 
no início dos estudos de Freud (sobre o assunto) para explicar os níveis de 
consciência do ser humano ao usar sua energia mental, ele descreveu três 
níveis: 
 Consciente: o indivíduo está lúcido diante dos pensamentos e interações 
com o meio, sua percepção está vigorosa; 
 
 Pré-Consciente: são “arquivos” da mente que não estão no presente da 
consciência, mas que podemos acessar voluntariamente e quando 
desejamos; 
 
 Inconsciente: são os arquivos da mente aos quais não temos acesso 
voluntariamente, eles podem vir à tona, mas não depende de nossa 
vontade ou intenção. 
Este último, o Inconsciente, tem um papel protagonista na teoria freudiana. Boa 
parte de nossos problemas psíquicos tem relação com o inconsciente e seus 
“arquivos”. Algumas ações, nossas e de outros, que nos causam traumas, medo, 
repulsa ou insatisfação, também os impulsos suprimidos, tudo acaba 
armazenado no inconsciente. Como é muito doloroso “desarquivar” esses 
conteúdos, a nossa mente reprime. Mas essa repressão tem um preço. Muitos 
desses arquivos acabam lutando para vir para nosso consciente, e isso se dá 
através de sonhos, atos falhos, rompantes emotivos, sentimento de culpa, 
depressão. Por isso, o psicanalista, ao analisar seu paciente, vai tentar acessar 
o inconsciente deste para descobrir o que está causando os problemas psíquicos 
e emocionais. 
Mais tarde, em seus estudos, Freud desenvolveu a 2ª Teoria do Aparelho 
Psíquico, ou Modelo Estrutural da Personalidade. Esse modelo descrevia as 
seguintes estruturas: 
 Id (em alemão, ele): é a fonte da energia psíquica e da vida (libido). Ele é 
formado por pulsões, instintos, impulsos biológicos e desejos 
inconscientes. Busca sempre o prazer; 
 
 Ego: ele trabalha através do princípio de realidade, ou seja, analisa se os 
impulsos do Id são aplicáveis, viáveis. Após a formação do Superego, o 
Ego tentará equilibrar os impulsos do Id e as repressões do Superego; 
 
 Superego: é a razão, a lógica, a reflexão. Ele vai frear os impulsos do Id. 
Se forma através das regras e repressões sociais. 
Já comentamos que a personalidade humana tem duas pulsões: a de vida, Eros, 
e a de morte, Thanatos. Esta última é um impulso autodestrutivo que temos e 
que nos coloca em situações de vulnerabilidade. Thanatos, segundo a Mitologia 
Grega, era o deus da morte. Já a pulsão de vida é representada pela libido, o 
desejo, a busca pelo prazer. Freud a chamou de Eros porque este era o deus do 
amor. 
9 
 
As pessoas têm essas pulsões atuando conjuntamente em suas ações, suas 
decisões, seus pensamentos e sentimentos, e o Ego tentará equilibrar essas 
pulsões (SILVA, 2010). Além dos estudos sobre a mente, a personalidade e o 
psiquismo humano, Freud também estudou o desenvolvimento da Sexualidade, 
classificando-o em fases e explicando as relações da pulsão de vida com nossos 
desejos. 
Para a teoria freudiana a sexualidade se desenvolve desde o nascimento. É 
importante não confundir o conceito de sexualidade (orgânica, biológica) com o 
de erotização (prática, sexualização, social). A criança tem sexualidade, mas 
jamais deve ter qualquer contato com erotismo e práticas sexuais. Criança não 
namora, não casa e muito menos pratica sexo. 
Essa sexualidade natural, inata e biológica é fruto da nossa pulsão de vida, Eros, 
que se manifesta através da busca da satisfação e do prazer. Segundo a teoria 
psicanalítica, após a fase fálica, por volta dos 5 anos de idade, a criança entra 
em um período de latência. Isso se dá porque se inicia a formação do Ego, e 
posteriormente do Superego. A criança começa a aprender regras sociais, a 
procurar aceitação dos pares e a buscar o amor dos pais. Com isso, ela vivencia 
duas experiências que são descritas como Complexo de Édipo e Complexo de 
Electra: 
 Complexo de Édipo: o menino começa a ter uma certa fixação pela mãe, 
quer ter exclusividade sobre ela e seu amor. Se houver uma forte 
presença paterna nessa família, o filho irá desenvolver um ciúme do pai, 
iniciando uma competição pelo amor da mãe. Mas a criança, que está 
desenvolvendo o Superego, se sente culpada por isso; 
 
 Complexo de Electra: seria a versão feminina do complexo de édipo, a 
qual Freud chamou de édipo feminino, mas o psicanalista Carl Jung 
nomeou de complexo de Electra. A menina teria fixação pelo pai, 
competiria com a mãe e se sentiria culpada. 
Após essa fase de latência, já adolescente, o indivíduo entra na Fase Genital, 
na qual manifesta interesse e desejo pelo corpo do outro. Assim, ele procura a 
atividade sexual, ou seja, a prática do sexo. Citamos acima o psiquiatra suíço 
Carl Gustav Jung, ele foi um importante estudioso e teórico da psicanálise, tendo 
aprofundado conceitos de personalidade, introspecção e formulando a Teoria do 
Inconsciente Coletivo. Nessa teoria, Jung analisa o inconsciente coletivo, 
presente na parte mais profunda da nossa mente, onde estão localizados 
arquétipos (modelos, paradigmas) que herdamos da espécie humana. 
• Afetividade e a Teoria de Henri Wallon 
Além da sexualidade, a Psicologia nos apresenta estudos importantes sobre o 
desenvolvimento da nossa afetividade e a relação desta com o aprendizado 
humano. Na educação, o maior expoente desse assunto é o filósofo, médico e 
psicólogo francês Henri Wallon. Seus estudos contribuem muito para a 
compreensão sobre a relação da afetividade com o desenvolvimento da criança 
10 
 
e do ser humano em geral. A teoria de Wallon ressalta que o aprendizado só é 
completo se estamos com a parte motora, a cognitiva e a emocional em equilíbrio 
(GALVÃO, 1995). 
Wallon considera tanto aspectos hereditários como a influência do meio no 
processo de aprendizado, desde muito cedo, a criança desenvolve as relações 
afetivas ao mesmo tempo em que constrói a estrutura cognitiva. Ele divide o 
desenvolvimento humano em 5 etapas (GALVÃO, 1995): impulsiva-emocional 
(primeiras relações com o meio, sensoriais), sensória-motora (imitação, 
linguagem) e projetiva, personalismo (individualismo), categorial (ampliação 
do conhecimento de mundo) e da predominância funcional (adolescência e a 
influência hormonal): 
• Impulsiva-emocional: surge no primeiro ano de vidada criança e é 
caracterizada pelas interações afetivas; 
 
• Sensória-motora e projetiva: vai até os 3 anos, é caracterizada pela 
exploração dos espaços e dos objetos. Também surge o jogo simbólico e 
a linguagem; 
 
• Personalismo: de 3 a 6 anos, é caracterizada pela formação da 
consciência e a personalidade, pela intensificação das relações afetivas 
e sociais, adesão aos pares e troca de ideias; 
 
• Categorial: a partir dos 6 anos, o mundo da criança se amplia e ela passa 
a ter muita curiosidade por objetos de conhecimento cada vez mais 
diversificados; 
 
• Predominância Funcional: as ações hormonais desenvolvem o corpo e 
o pensamento se torna mais complexo, a necessidade afetiva é 
preenchida com os pares e a sexualidade começa a ser foco de interesse, 
existem muitos questionamentos nessa fase o que origina muitos conflitos 
com a família e a escola (GALVÃO, 1995). 
 
• Teoria Sócio-Histórica de Vygotsky 
Dentro do desenvolvimento social, a teoria psicológica mais utilizada nos 
estudos educacionais é a desenvolvida pelos psicólogos russos fundadores da 
Psicologia Sócio-Histórica, ou Histórico-Social. Esses psicólogos são: Lev 
Semenovich Vygotsky, Alexei Nicolaievich Leontiev e Alexander Romanovich 
Luria. O grupo era chamado de “troika” (Wikipedia: 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Psicologia_cultural-hist%C3%B3rica). 
Vygotsky e seus colegas estudavam as funções psicológicas superiores e o 
aprendizado humano, unindo a psicologia com análises culturais, históricas e 
relacionando com o materialismo dialético, ou seja, fortemente influenciados 
pelas teorias de Karl Marx e Friedrich Engels. Vale lembrar aqui do contexto em 
que o grupo de psicólogos russos desenvolveu sua teoria: a União Soviética pós-
https://pt.wikipedia.org/wiki/Psicologia_cultural-hist%C3%B3rica
11 
 
revolução russa de 1917, dominada pelo pensamento de Trotsky e Lênin, que 
buscavam implantar o socialismo-comunismo defendido por Marx e Engels 
(SANTA & BARONI, 2014). 
A cultura e o contexto histórico são produtos importantes na teoria de 
aprendizagem de Vygotsky, produtos estes responsáveis pela aquisição de 
conhecimento e reprodução do mesmo. O homem, segundo ele, se torna 
humano em contato com a humanidade. Para Vygotsky, a criança vai aprender 
todo o conhecimento social e histórico do meio em que vive através da linguagem 
e da interação social (VYGOTSKY, 2002). 
O aluno é um ser histórico, ele não chega à escola como uma folha de papel em 
branco, ao contrário, traz muita bagagem e conteúdo, construídos com sua 
família, sua comunidade e com a sociedade em que vive. O professor precisa 
analisar esse conteúdo antes de iniciar qualquer processo de ensino. Vygotsky 
afirma que o professor precisa considerar três níveis de aprendizado do aluno 
(VYGOTSKY, 2002): 
 Zona de Desenvolvimento Real: caracterizada pelo conteúdo que o 
aluno já aprendeu; 
 
 Zona de Desenvolvimento Potencial: é o conteúdo que o aluno tem 
potencial para aprender, conteúdo previsto; 
 
 Zona de Desenvolvimento Proximal: é formada pelos conteúdos 
elaborados pelo professor para levar o aluno do que ele já sabe para o 
que ele pode aprender. 
O conteúdo escolar deve estar sempre relacionado ao contexto da escola e do 
aluno, caso contrário, não fará sentido. O contexto também servirá para troca de 
experiências, informações e dúvidas, pois para Vygotsky, não há aprendizado 
sem interação social. Nessa teoria de aprendizagem, então, a escola deve estar 
sempre atenta ao desenvolvimento da linguagem, do diálogo, da comunicação, 
para promover a troca de experiências, de vivências, sempre estimulando a 
socialização e a integração entre os alunos. 
A importância do nosso meio ganha maior destaque na Psicologia Histórica-
Social, que já foi explicada aqui. Essa teoria tem como base os estudos do grupo 
de psicólogos russos liderados por Lev Vygotsky. A concepção de Vygotsky para 
o aprendizado escolar será baseada em uma interação constante e intensa com 
o meio social e cultural. Todas as concepções que descrevemos são importantes 
para a educação. O professor, em seu trabalho cotidiano, irá usar todas as 
concepções que forem necessárias e que servirem a determinados contextos. 
Vygotsky foi um psicólogo importante para a educação. Sua teoria de 
aprendizagem é ainda base para muitos paradigmas educacionais atuais, como 
a Nova Base Nacional Comum Curricular, os Parâmetros Curriculares Nacionais 
e o Referencial Nacional da Educação Infantil. Segundo essa teoria, a criança 
vai aprender todo o conhecimento social e histórico do meio em que vive através 
da linguagem e da interação social. A cultura e o contexto histórico são produtos 
12 
 
importantes na teoria de Vygotsky, produtos estes responsáveis pela aquisição 
de conhecimento e reprodução do mesmo. O homem, segundo ele, se torna 
humano em contato com a humanidade (VYGOTSKY, 2002). 
Nas aprendizagens mais básicas irá se servir da teoria inatista, ou mesmo a 
empirista. Já nas aprendizagens mais complexas, mais teóricas, pode usar o 
construtivismo. No aprendizado sobre convivência social, sobre linguagem e 
interação, irá buscar a teoria histórico-social. Assim, cada teoria tem algo 
importante a oferecer para a educação. No próximo capítulo, iremos descrever 
melhor as teorias de aprendizagem e como elas atuam no contexto escolar. 
• A Aprendizagem Significativa de David Ausubel 
Para o psicólogo americano David Ausubel, a aprendizagem deve fazer sentido 
para quem aprende. O conteúdo ensinado deve ter alguma relação com a 
realidade do aluno e também com o que este já aprendeu. O ensino deve enfocar 
a formação de novos conceitos, quando as crianças ainda estão na Educação 
Infantil, utilizando organizadores prévios, temas introdutórios para familiarizar a 
criança com o novo conceito. 
Esses organizadores irão captar o interesse da criança para o assunto que será 
abordado pelo professor. A aprendizagem, então, é construída conteúdo após 
conteúdo, sempre os relacionando entre si e com o que a criança já conhece, 
tudo deve fazer sentido. Para se alcançar esse sentido, o material didático deve 
ser significativo para o aluno, e este, deve manter o foco na aprendizagem, 
manter o interesse. A avaliação deve ser feita propondo atividades práticas e 
resolução de problemas (MOREIRA, 2011). 
Assim, a teoria da aprendizagem significativa dá ao aprendizado escolar uma 
razão de ser que não tem sido encontrada atualmente. As novas gerações de 
educandos obtêm informações que lhes interessam de modo rápido, nos 
dispositivos móveis e acabam não tendo motivação para aprender pelo método 
tradicional. É uma geração acostumada a conhecer uma grande quantidade de 
temas, mas de modo superficial. 
Essa teoria é atual e precisa ser adotada nas escolas, já que muitas ainda tentam 
promover o aprendizado com métodos ultrapassados, ensinando de uma forma 
que não sentido algum para seus alunos. Uma opção seria se utilizar desses 
temas que interessam aos alunos e usar o tempo na escola para aprofundá-los, 
conectando-os com os saberes acadêmicos, e assim, mantendo a atenção e 
interesse dos alunos no aprendizado escolar. 
É preciso levar em conta o conhecimento prévio, a cultura, a bagagem cognitiva 
que a criança traz para a escola. Ao ressaltar a importância da história do 
indivíduo e a do professor como mediador, Ausubel se aproxima da teoria de 
Vygotsky; ambos reforçam que o conteúdo ensinado na escola deve ter valor 
social e significado para o aluno (MOREIRA, 2011). 
• Teoria Comportamental ou Behaviorismo 
13 
 
O Behaviorismo, ou Psicologia Comportamental, é uma área que estuda o 
comportamento humano observável. Para o behaviorismo, o aprendizado é 
medido pelas mudanças comportamentais verificáveis e não está restrito à 
espécie humana. Descreveremos a seguir dois autores importantes para 
entendermos como essa área da Psicologia explica o aprendizado: Ivan Pavlov, 
que desenvolveu a Teoria do Condicionamento Respondente, e B.F. Skinner,que desenvolveu a Teoria do Condicionamento Operante, ambas teorias 
importantes para a Educação (MOREIRA, 2011). Antes de conhecermos os 
autores, porém, convém entender dois conceitos importantes: 
 Comportamentos Reflexos ou Respondentes: são comportamentos 
inatos, ou seja, nascemos sabendo como fazer, por exemplo: piscar, 
salivar, deglutir, chorar, sorrir. Esses comportamentos são involuntários 
(a gente não controla), são comuns a todos na espécie e não variam de 
pessoa para pessoa (todos piscamos da mesma forma, por exemplo); 
 
 Comportamentos Operantes ou Aprendidos: são os comportamentos 
que precisamos aprender, por exemplo: andar, falar, dançar, digitar. Eles 
são controláveis (decidimos quando começam e terminam), variam de 
pessoa para pessoa e nem todos aprendem. 
Na década de 1920, o fisiologista russo Ivan Pavlov estudava processos de 
digestão e utilizava cães em suas pesquisas. Seu estudo estava focado na 
quantidade de salivação dos cães para cada alimento. Biologicamente, a 
salivação (respondente) ocorre com estímulos ligados à alimentação e à 
digestão, como a mastigação e a deglutição. Porém, os cães de Pavlov, 
começaram a produzir saliva quando ouviam os passos dos alimentadores, ou 
quando viam a tigela com alimentos. Pavlov achou isso interessante e começou 
a apresentar estímulos sonoros (som) conjuntamente com a tigela de comida. 
Estava nascendo a teoria do Condicionamento Respondente (MOREIRA, 
2011). 
O condicionamento fez com que um comportamento reflexo (salivar), geralmente 
desencadeado por um estímulo natural (alimento) fosse produzido, através da 
associação, por um estímulo condicionado, artificial (som). Assim, toda vez que 
o cão ouvia o som, salivava. 
Um exemplo que pode ser aplicado ao ambiente escolar é a música. Ela é um 
estímulo neutro, sem relação com sentimentos, mas se associarmos a ela uma 
situação triste ou alegre, sempre que a ouvirmos, ela nos trará essas emoções. 
Por exemplo, a fome (respondente) tem como estímulo natural o estômago vazio, 
mas se associarmos a fome que a criança sente antes do recreio a uma canção 
(estímulo artificial), sempre que cantarmos essa canção, a mesma irá despertar 
o apetite, a criança fará uma associação e estará condicionada. 
Foi o que Pavlov fez. Ele trocou o estímulo natural para a salivação, por um 
artificial, para isso, ele associou diversas vezes o estímulo natural (comida) ao 
estímulo artificial (som, campainha). Após algumas sessões, o cão passou a 
salivar somente com o estímulo artificial. Quando Pavlov percebeu que essa 
14 
 
associação originava um novo comportamento, o comportamento condicionado, 
desenvolveu a teoria do condicionamento dos reflexos, ou condicionamento 
respondente. 
Além dos comportamentos inatos, o ser humano também aprende certas ações, 
como cantar, falar, dançar, digitar, entre outros. Esses comportamentos são 
chamados de Operantes. O psicólogo americano B.F. Skinner desenvolveu uma 
pesquisa na qual comportamentos aprendidos, operantes, são reforçados 
negativamente ou positivamente (MOREIRA, 2011). 
No reforço positivo (positivo no sentido de aumentar a chance de ocorrer o 
operante), o comportamento tende a aumentar ou se intensificar com o estímulo 
apresentado. Por exemplo, quando elogiamos alguém que está dançando, essa 
pessoa tende a se motivar e continuar a dançar. 
No reforço negativo, por outro lado, o estímulo tende a diminuir ou extinguir o 
comportamento. Por exemplo, se uma criança, ao perguntar para o professor 
alguma questão é respondida com aspereza ou é ridicularizada, a tendência é 
essa criança não repetir ou diminuir suas perguntas. É o Condicionamento 
Operante, no qual reforçamos ou extinguimos comportamentos através de 
estímulos (MOREIRA, 2011). 
• A Teoria Construtivista de Jean Piaget 
O biólogo suíço Jean Piaget é um dos autores mais importantes nas pesquisas 
e práticas educacionais. Sua teoria de desenvolvimento cognitivo é a base da 
Educação Infantil e primeiros anos do Ensino Fundamental. Também se dedicou 
ao desenvolvimento moral e social das crianças. Para Piaget, como já 
explicamos anteriormente, a inteligência é uma adaptação. O ser humano nasce 
com estruturas mentais próprias da espécie, que em contato com o meio e seus 
objetos de aprendizagem desencadeiam os processos mentais de adaptação e 
organização (PIAGET, 1964). 
Essas estruturas, chamadas Invariantes Funcionais, são o princípio da 
inteligência, e não são engessadas. Elas estão em constante funcionamento e 
evolução, através dos processos de Organização e Adaptação. A adaptação é o 
intercâmbio entre o meio e o indivíduo que resulta em uma modificação do 
organismo e do objeto assimilado. Dentro da adaptação existem dois processos: 
a Assimilação e a Acomodação (FLAVELL, 1996). 
A assimilação é o processo pelo qual um objeto do meio é modificado pelo 
organismo. A acomodação é o processo pelo qual o organismo se adapta ao 
objeto. São dois lados de uma mesma moeda, contrários, mas indissolúveis. Por 
exemplo: a alimentação, enquanto mastigamos o alimento (assimilação), a 
nossa salivação inicia o processo de digestão, que irá absorver os nutrientes 
(acomodação), ou seja, não há como mastigar sem digerir, são indissociáveis. 
Além da adaptação existe a Organização, pela qual a estrutura mental ajusta o 
novo conhecimento ao já existente. Os processos mentais estão em ação o 
tempo todo. Cada informação nova a que temos acesso causa um desequilíbrio 
15 
 
em nossas estruturas mentais e elas desencadeiam os processos de adaptação 
e organização para se ajustar ao novo conhecimento. 
Por isso, quanto mais estímulos temos no nosso meio, mais as estruturas 
funcionam e, portanto, mais aprendemos. Então, percebe-se que segundo o 
Construtivismo, o ser humano constrói o conhecimento usando suas 
características genéticas universais, biológicas, ao mesmo tempo que interage 
com o meio e depende dele para estimular essa parte biológica e gerar uma 
adaptação. 
A primeira parte da pesquisa de Piaget é sobre o desenvolvimento humano. 
Como biólogo, ele se interessou pelos processos mentais e como estes se 
multiplicavam ao longo da infância. Chegou a observar e estudar os próprios 
filhos, que são citados em diversos textos dele. Esses estudos originaram a sua 
teoria do desenvolvimento, a Epistemologia Genética, na qual afirma que o 
conhecimento é adquirido através de uma interação do indivíduo com o meio. 
Também descreveu a teoria do desenvolvimento cognitivo da criança. Essa 
teoria classifica o desenvolvimento infantil em quatro estágios (PIAGET, 1964): 
 Período Sensório-Motor (0-2 anos): fase de imitação, de exercício dos 
reflexos, a criança desenvolve a linguagem, é egocêntrica; 
 
 Período Pré-Operacional (2-6 anos): a criança inicia o processo de 
socialização e exercita o jogo simbólico, o faz-de-conta; 
 
 Período Operacional Concreto (7-12 anos): período das operações 
mentais concretas, aprende a lógica, conceitos de número, de tempo, de 
reversibilidade. Existe um material de apoio ao professor, chamado “Caixa 
de Piaget”, na qual encontramos provas operatórias desenvolvidas por ele 
para analisar em qual período a criança se encontra; 
 
 Período Operacional Formal (a partir dos 12 anos): início do 
pensamento lógico-dedutivo, a criança começa a entender e criar 
pensamentos formais, abstratos, teorias mais complexas. 
Além da aprendizagem cognitiva, Piaget passou a se interessar pela interação 
social entre as crianças e como essas aprendem as regras para conviver com 
os outros. Inicialmente, observou os jogos infantis, como o de bolinhas de gude. 
Ele observou que as mais novas jogavam de acordo com as próprias regras e 
estavam mais preocupadas em apalpar os objetos, conforme crescem começam 
a entender as regras e a respeitar. Ele formulou estágios para o desenvolvimento 
moral (PIAGET, 1994): 
 Anomia: a criança não entende o conceito de regras, geralmente até dois 
anos; 
 
 Heteronomia: a criança obedecea regra por medo do castigo e/ou 
autoridade; 
 
16 
 
 Autonomia: quando crescemos, com a maturação cognitiva, passamos a 
compreender o sentido das regras e a obedecê-las por consciência. 
Assim, Piaget e suas teorias, moral e cognitiva, são bases importantes para a 
atuação de professores em salas de aula. Essas teorias influenciaram nossa 
base curricular, nossa legislação educacional e estão presentes nos cursos de 
formação de professores, fundamentando suas práticas pedagógicas. 
• As Inteligências Múltiplas de Howard Gardner 
O psicólogo americano Howard Gardner desenvolveu uma teoria que está sendo 
bastante utilizada nos processos de ensino-aprendizagem das escolas atuais: a 
teoria das inteligências múltiplas. Durante muito tempo a escola não levava em 
conta as diferentes habilidades e competências de seus alunos. Não entendia 
ou não justificava o fato de muitos estudantes serem habilidosos em 
determinadas áreas e terem dificuldades de aprendizagem em outras. 
Com conhecimento em neurologia e psicologia, Gardner observou que a 
necessidade de resolver problemas influencia o desenvolvimento da inteligência 
e que o meio que produz essa necessidade estimula ou não determinadas áreas 
do conhecimento. Para Gardner, a princípio, existem 7 tipos de inteligência 
(ANTUNES, 1998): 
 Lógico-Matemática: habilidade para operações matemáticas e lógicas; 
 
 Linguística: habilidade com linguagens; 
 
 Espacial: noções completas de espaço; 
 
 Físico-Cinestésica: habilidade para resolver problemas concretos e 
produzir objetos; 
 
 Interpessoal: habilidades em relações sociais; 
 
 Intrapessoal: conhecimento pleno de si mesmo; 
 
 Musical: habilidade com a música e instrumentos. 
Gardner considerou posteriormente a inteligência natural, habilidade de se 
relacionar com a natureza, e existencial, de cunho filosófico. Assim, a escola 
pode entender porque alunos com certas habilidades em determinadas áreas 
não conseguem atuar eficientemente em outras. 
 
 
 
 
 
17 
 
CAPÍTULO 3 – FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DA EDUCAÇÃO 
 
A educação e a Filosofia têm andado juntas há muitos séculos. A Filosofia da 
Educação é o campo que seleciona, analisa e direciona objetivos e métodos para 
as ações pedagógicas, baseados em autores e teorias filosóficas. Neste 
capítulo, descreveremos os temas principais desse campo de conhecimento. 
Quando a escola faz seu planejamento, a filosofia da educação pode influenciar 
na escolha dos assuntos que serão ensinados e na forma que esse ensinamento 
é feito dentro do currículo básico. 
Na maioria das instituições de ensino, ajuda também a inspirar e direcionar o 
planejamento educacional, programas, práticas e processos pedagógicos. Por 
ser importante para a educação como um todo, é uma das principais matérias 
dos cursos de licenciaturas no ensino superior, como a Pedagogia. Assim, uma 
base filosófica é fundamental para o direcionamento curricular de qualquer 
escola. 
O processo de ensino-aprendizagem na Educação Básica depende de cinco 
aspectos fundamentais: a escola, a gestão, os professores, o currículo e os 
alunos. Esses quatro aspectos se correlacionam fortemente e se integram ao 
processo educacional de uma instituição de ensino. Muitos acreditam que a 
educação é resultado de doutrinas filosóficas, e os educadores são, de fato, 
filósofos. Por isso, a Filosofia da Educação é importante na construção e 
desenvolvimento do processo educacional em alguns aspectos, tais como (fonte: 
https://www.significados.com.br/filosofia-da-educacao/) 
 Ajuda a fundamentar, orientar e implantar o processo educacional de uma 
instituição de ensino; 
 
 Identifica conflitos e contradições em teorias e práticas pedagógicas que 
possam atrapalhar o processo de construção do conhecimento dos 
alunos; 
 
 Desenvolve a capacidade humana de produzir ideias, conceitos e discutir 
sobre as diferentes teorias pedagógicas, refletindo como elas afetam a 
vida individual e social dos alunos; 
 
 Direciona a instituição de ensino a entender seu propósito na parte social 
e cultural da educação; 
 
 Auxilia e dá apoio no objetivo significativo de qualquer instituição 
educacional, que é o de qualificar uma pessoa para a vida pública e ser 
um membro efetivo da sociedade. 
Os principais filósofos que influenciaram a educação ocidental atual foram os 
gregos. Eles desenvolveram visões filosóficas da educação que foram 
incorporadas em suas teorias mais amplas e gerais. Sócrates foi um dos gregos 
que mais incentivou uma educação baseada na razão, no raciocínio e na reflexão 
constante sobre a vida e os atos humanos. Esse pensamento deu origem à 
escola socrática. 
 
18 
 
A ética socrática também é racionalista, a concepção de bem é a felicidade da 
alma e a de bom é o que é útil para esta felicidade. A virtude (areté) é o 
conhecimento e a ignorância é o vício. Platão foi aluno de Sócrates, também 
defendeu o racionalismo e deu grande contribuição à teoria política. Iguala o 
Estado à alma humana em seu livro A República: (os quatro componentes 
fundamentais da alma se equivalem aos da sociedade: razão= governantes, 
prudência= filósofos, fortaleza= guerreiros e apetite= artesãos). Fica evidente o 
desprezo pelo trabalho físico e logo a desigualdade das classes sociais. 
Aristóteles, outro filósofo grego contemporâneo desses dois também tem um 
pensamento alinhado com o de Platão. Para Aristóteles, porém, a educação fica 
restrita a uma minoria, uma elite, que detém o saber (razão) e não há uma 
barreira moral para a escravidão, tida como necessária. A filosofia educacional 
dos gregos influenciou imensamente o Império Romano após o enfraquecimento 
da Grécia Antiga como potência. Portanto, os romanos não mudaram muito o 
modo de lidar com a educação, restrita a homens livres e ricos. 
Após a queda de Roma, que tinha uma religião politeísta baseada na dos gregos, 
o Cristianismo alcançou grande hegemonia na educação e na filosofia, 
principalmente durante a Idade Média. Nessa época a filosofia aparece muito 
ligada às ideias cristãs, mesmo que esses temas tenham grandes diferenças. 
Essa diferença se dá mais pelo fato de a religião exigir mais à prática do que à 
reflexão e não que ela seja desprovida totalmente de razão, prova disso são os 
estudos da Teologia que alia os estuda a relação das verdades das religiosas 
com as verdades universais. Podemos citar dois importantes filósofos da moral 
cristã: Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. Nessa época, se destacam 
também: 
 Erasmo de Roterdão; 
 Thomas Hobbes; 
 René Descartes. 
Após a Idade Média tivemos muitos filósofos importantes para a Educação, o 
primeiro deles foi o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau que argumentou 
que a educação deveria permitir o desenvolvimento natural e livre das crianças. 
Em seu livro Emílio, Rousseau descreve cada etapa de desenvolvimento da 
criança e a educação adequada para cada uma, porém, para meninos somente. 
• A Teoria de Immanuel Kant 
Outro filósofo importante foi Immanuel Kant, um dos mais influentes dos últimos 
séculos. Sua teoria serviu para orientar vários educadores e filósofos modernos, 
principalmente em relação ao desenvolvimento social humano. Em a Crítica da 
Razão Prática ele descreve o desenvolvimento da moral e da ética nos homens. 
Como complementação a este último ele escreveu a Fundamentação da 
Metafísica dos Costumes, em que expressa e justifica os objetos da Moral e da 
Ética, como fundamentais para a educação humana. 
Kant (1997) coloca liberdade e razão intrinsecamente ligadas quando fala de 
moralidade; todo ato moral deve ser incondicionado. Como princípios regentes 
da razão pura prática existem os subjetivos, ou seja, as máximas individuais que 
determinam a ação e os objetivos; em que o dever determina a vontade que 
determina a ação. Somente o dever pode ser usado para um ato 
19 
 
verdadeiramente moral. Um princípio, ligado ao prazer ou desprazer, que serve 
como máxima ao sujeito jamais servirácomo lei prática de moral (Kant, 1997). 
O homem deve, portanto, transformar suas máximas individuais em máximas 
universais e a vontade, cuja forma legisladora máxima serve de lei, é a vontade 
livre. O livre-arbítrio deve ser constrangido pelo respeito ao dever moral (Kant, 
1997). 
Em A Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Kant (1997) diz que uma 
ação praticada por dever tem o seu valor moral, não no propósito que com ela 
se quer atingir, mas na máxima que a determina. Esta máxima de que Kant fala 
seria uma lei geral que deve determinar todo ato moral, máxima do dever guiada 
pelo princípio da boa vontade: o imperativo categórico, que se contrapõe ao 
imperativo hipotético que visa sempre um determinado fim (KANT, 1997). 
Esse imperativo é formal, que para Kant (1997) significa intencional, 
incondicional, em oposição ao imperativo hipotético, ele vale por si mesmo. A 
intenção seria a forma do ato, daí falar-se em formalismo kantiano. A 
humanidade dever sempre ser vista como fim, não como meio, portanto o dever 
é universal. A boa vontade que nos dá intenção de agir segundo uma máxima 
universal nos leva ao imperativo categórico: 
Age somente em concordância com aquela máxima através da 
qual tu possas ao mesmo tempo querer que ela venha a se 
tornar uma lei universal (KANT, 1997, p.94). 
Para Kant (1997), o cumprimento do dever não implica somente a boa vontade, 
mas autonomia. A boa vontade é fruto da razão, autonomia é a liberdade da 
vontade e essa autonomia só é alcançada com o controle dos impulsos e 
inclinações. 
Ora à idéia de liberdade está inseparavelmente ligado o conceito 
de autonomia, e a este princípio universal de moralidade, o qual 
na idéia está a base de todas as ações dos seres racionais como 
a lei natural está na base de todos os fenômenos (KANT, 1997, 
p.102). 
• A Filosofia da Educação no Brasil 
No Brasil, a história da Filosofia da Educação se iniciou no final do século XIX e 
início do século XX, com o intuito de inserir o tema nas áreas de formação de 
professores, que seriam os propulsores de uma nova era na educação nacional. 
Essa corrente surgiu no Brasil com o objetivo de preparar os educadores para 
que repensassem os caminhos já traçados para a educação nacional e 
explorassem outros novos. Assim, a educação brasileira passou a se pautar em 
dois principais aspectos: 
 Modelo conservador e tradicional da educação; 
 Modelo de educação moderno e liberal. 
Ainda hoje, temos escolas que seguem mais um ou outro modelo, e outras que 
usam os dois, já que tem um público diversificado e amplo. 
 
 
20 
 
CAPÍTULO 4 – FUNDAMENTOS SOCIOLÓGICOS DA EDUCAÇÃO 
 
Como representante da sociedade, a escola é um terreno fértil para os estudos 
da Sociologia. Auguste Comte (1798-1857) é tradicionalmente considerado o 
fundador da Sociologia. Comte foi o criador do Positivismo, no século XIX, que 
constituiu a base para o surgimento do cientificismo. O cientificismo acredita que 
a única forma que existe para se chegar ao conhecimento é por meio da ciência. 
Comte afirmava que qualquer tipo de estudo deveria ser abordado com o máximo 
de objetividade. Ele defendia o ponto de vista de serem válidas apenas as 
análises das sociedades que eram feitas com espírito científico, ou seja, com 
objetividade e sem metas preconcebidas. Os estudos das relações humanas 
deveriam constituir uma nova ciência, a que se deu o nome de Sociologia. Comte 
foi o primeiro a usar a palavra Sociologia, em 1839, descrevendo-a como a 
ciência suprema, estando acima de todas as filosofias e religiões. 
Existem muitas teorias dentro da Sociologia que podem ser estudadas e 
aplicadas na educação, mas antes, iremos descrever alguns conceitos 
sociológicos básicos, vejamos: 
 
 Sociabilidade: capacidade de sobreviver em grupos; 
 
 Socialização: interação emocional com outras pessoas; 
 
 Individualidade: preservação da personalidade, sustentação de gostos 
pessoais; 
 
 Individualismo: incapacidade de se relacionar com o grupo; 
 
 Valores sociais: símbolos e ícones. Representações; 
 
 Interação social: interagir é se comunicar, é criar vínculos, ter respeito 
às regras, respeito mútuo uns com os outros; 
 
 Papéis sociais: todos nós representamos diversos papéis na sociedade, 
por exemplo, papel de marido, de esposa, de pai, de mãe, de filho(a), de 
estudante, de advogado, de professor, etc. Cabe à nós representar esses 
papéis com autonomia (sem ser coagidos a isso), com responsabilidade, 
decência e honestidade; 
 
 Status sociais: diferente dos papéis sociais, o status social é dado pelos 
outros a nós, não escolhemos. Pode se elevar por respeito do grupo ao 
modo de ser do indivíduo, por fama, por representar um grupo (ícone), por 
cargo que ocupa, por sabedoria, por moralidade ou por condição 
econômica. 
Todos esses conceitos precisam ser conhecidos pela escola e pelos educadores 
para poderem entender as interações sociais que se desenvolvem no cotidiano 
escolar e seus fundamentos históricos e culturais. Além desses conceitos, 
também é preciso explicar os Processos Sociais, que definem essas interações 
dentro e fora da escola. 
21 
 
 
PROCESSOS SOCIAIS 
ASSOCIATIVOS DISSOCIATIVOS 
cooperação assimilação acomodação competição conflito 
Pessoas 
trabalham juntas 
para um mesmo 
fim 
Solução 
pacífica de um 
conflito social, 
acordo. 
Imposição 
cultural de um 
grupo sobre 
outro. 
Pessoas 
competem por 
um em busca de 
um mesmo fim. 
Adversários. 
Desentendimento 
a respeito de ideias 
e ações. Tensão. 
 
• Émile Durkheim e a Sociologia da Educação. 
 
Émile Durkheim, sociólogo francês do século XIX, considera toda moral como 
imposta pelo grupo ao indivíduo e pelo adulto à criança. Influenciou diversos 
autores, como Jean Piaget. Enquanto Piaget defende uma educação visando à 
autonomia da criança, Durkheim defende uma pedagogia mais hierárquica. Para 
ele existem dois tipos de sociedade: uma conformista, em prevalece o respeito 
unilateral e outra com divisão do trabalho social e solidariedade orgânica. 
 
Para Durkheim (2003), a função da moral é atenuar e regular a luta pela vida, ou 
seja, regular a seleção natural (Darwin). Os motivos que levam o homem ao ato 
moral são, em primeiro lugar, o eu e seu desenvolvimento natural, impulsionado 
pela luta pela sobrevivência e, em segundo lugar, o desejo e respeito pela 
simpatia (DURKHEIM, 2003). Interrogarmo-nos sobre quais os elementos da 
moralidade, não significa pretendermos elaborar uma lista completa de todas as 
virtudes, nem sequer das mais importantes; significa procurarmos as disposições 
fundamentais, os estados de espírito que constituem a raiz da vida moral 
(DURKHEIM, 2001). 
 
Para Durkheim (2001), toda regra pressupõe um dever, de cumpri-la, para 
manter uma determinada ordem, portanto, encerra uma regularidade. Para que 
se mantenha essa ordem, essa regularidade é necessária uma autoridade que 
observe o cumprimento dessas regras e que deve inspirar respeito nos cidadãos. 
Essa autoridade pode ser tanto o Estado, como é o caso das regras jurídicas, 
como a sociedade, como é o caso das regras morais, e representa algo que 
sobrepõe ao indivíduo. 
 
Nesse caso, é necessária a disciplina por parte do indivíduo, para que se efetue 
o cumprimento das regras e se mantenha a ordem social. A disciplina é, portanto, 
algo que nasce do respeito do indivíduo pela ordem social e que tem como 
função limitar e regular elementos, para que se estabeleça o equilíbrio social. A 
disciplina é, portanto, útil, não só no interesse da sociedade e como meio 
indispensável sem o qual não poderia haver cooperação regular, mas também 
no próprio interesse do indivíduo. É através da disciplina que aprendemos essa 
moderação do desejo sem o qual o homem não conseguiria ser feliz 
(DURKHEIM, 2001). 
 
Este primeiro elemento da moralidade, o espírito de disciplina, está diretamente 
relacionado com os outros dois, pois não há disciplina sem adesão aos grupos 
sociais e não há adesão consciente nemequilíbrio social, resultantes desse 
22 
 
espírito, sem autonomia da vontade do indivíduo. Vejamos os elementos da 
moralidade na teoria de Durkheim: 
 
 Espírito de Disciplina – HETERONOMIA -> respeito pela regra por medo 
da autoridade/castigo; 
 
 Adesão aos Grupos Sociais: respeito pelo grupo e o equilíbrio social; 
 
 Autonomia da Vontade: respeito pela regra por ser consciente de sua 
importância. 
 
Para Durkheim, somente a sociedade pode ser levada em consideração quando 
se prescreve um ato ou uma regra moral. Para o indivíduo, a sociedade engloba 
diversos grupos sociais que sobrepõem sem se excluírem, como família, pátria 
e humanidade. Para que o homem seja moral é necessário que ele respeite e se 
insira na sociedade e esta é a primeira finalidade de uma educação moral. A 
criança tem na família e na escola as primeiras amostras de vida social e é 
importante que ela se adapte a elas para que aos poucos vá conhecendo e 
respeitando grupos maiores de indivíduos. 
 
Quando se trata de autonomia, Durkheim se aproxima de Kant (2006), no sentido 
de que, para ambos os autores, o dever moral produz no indivíduo autônomo um 
sentimento de respeito que o leva a praticar conscientemente o ato moral, essa 
iniciativa é encarada como liberdade da vontade do indivíduo, pois se houver 
qualquer tipo de coação, seja ela interna ou externa, há somente a heteronomia. 
 
Então nos deparamos com a questão do bem e do dever. Para Durkheim, ambos 
são originados do sagrado e entramos novamente na questão da pressão das 
gerações umas sobre as outras, mas Piaget contesta esta teoria afirmando que 
há sentimento de dever sem desejo e, portanto, mesmo que haja respeito 
unilateral, o medo e o amor envolvidos já se tornam elementos para a 
desejabilidade. Se para Durkheim o ato moral exige esforço, isso não quer dizer, 
necessariamente, imposição ou coação (PIAGET, 1994). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
23 
 
CAPÍTULO 5 – A SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO 
A palavra sociologia vem da fusão de dois termos: societas, em latim que 
significa sociedade, e logos, termo grego que significa estudo, portanto, ciência 
que estuda a sociedade. A Sociologia faz estudo científico da sociedade, o 
estudo das formas de convivência humana, ela estuda as relações sociais e as 
formas de associação e dissociação humanas. 
É uma ciência que considera as interações que ocorrem na vida em sociedade: 
envolve o estudo dos grupos e dos fatos sociais, das divisões em classes e 
camadas, da mobilidade social e da interação entre as pessoas e grupos que a 
constituem. Em síntese, a Sociologia é uma ciência que estuda a sociedade por 
meio da observação do comportamento humano. 
• Os Fatos Sociais 
Os fatos sociais são ações dos grupos humanos através do tempo, do espaço 
geográfico e da história, basicamente são caracterizados por: 
 Generalidade: o fato social é comum a todos, ou a pelo menos à maioria, 
de um grupo de pessoas. Exemplos: a forma de habitação, de 
comunicação, de sentidos e moral; 
 
 Exterioridade: o fato social existe, independentemente da vontade do 
indivíduo. Por exemplo: as leis, as regras sociais e os costumes que são 
impostos de maneira coercitiva; 
 
 Coercitividade: os indivíduos se sentem pressionados a adotar o 
comportamento estabelecido pelo grupo. As pessoas são obrigadas a 
viver conforme as regras da sociedade, que são formadas aquém de sua 
vontade ou escolha. 
Os fatos sociais, de acordo com Durkheim (2001), podem ser estudados de 
forma objetiva, como “coisas”. Da mesma maneira como a Biologia estuda a 
natureza, a Sociologia estuda os fatos sociais. Para a teoria sociológica de 
Durkheim, os fatos sociais têm existência própria, ou seja, independem das 
crenças e ações de indivíduos. 
• A Teoria de Karl Marx 
Karl Marx nasceu em 1818, na cidade de Tréveris, então território da Prússia. 
Marx estudou no Liceu Friedrich Wilhelm, tendo uma formação, desde cedo, 
condizente com a sua classe social, de classe alta. Ele desenvolveu uma obra 
extensa, que engloba importantes conceitos filosóficos, econômicos e históricos, 
além de abrir caminho para uma ampliação do método sociológico. Porém, ficou 
mais conhecido por sua teoria de análise e de crítica social, que reconheceria 
uma injusta divisão de classes sociais e a exploração de uma elite privilegiada e 
detentora dos meios de produção sobre uma classe trabalhadora dominada. 
 
O conjunto destes conceitos, Marx denominou como Materialismo Histórico 
Dialético, um método de análise social e histórica baseado na luta de classes. 
Essa teoria se fortaleceria com a parceria com Friederich Engels no 
texto: Manifesto Comunista. Os autores afirmam que a história se baseia em 
24 
 
uma eterna luta de classes. Nessa luta, sempre há a classe dominante e a 
dominada. Dentro da teoria geral marxista, alguns conceitos sobressaem-se por 
sua ampla importância dentro do próprio sistema marxista. São eles: 
 
 Infraestrutura: a infraestrutura envolve a divisão do trabalho, a produção 
e suas relações, a compra, o comércio etc., a economia de uma forma 
geral; 
 
 Superestrutura: é um conjunto de instituições e normas que mantém 
a ideologia social e a lógica de exploração funcionando. São elementos 
da superestrutura o Estado, as leis, a religião e a cultura; 
 
 Mais-Valia: é a diferença entre o preço de matéria-prima e produção de 
uma mercadoria do preço do trabalho e o custo dos meios de produção 
da mesma mercadoria; 
 
 Alienação: há uma separação evidente entre o trabalhador e o fruto de 
seu trabalho. A mais-valia, que nos processos de produção 
manufaturados beneficiava os artesãos, no processo de produção 
capitalista, beneficia o dono dos meios de produção e tira dos 
trabalhadores a capacidade de se reconhecer no seu próprio trabalho; 
 
 Burguesia: é a classe detentora dos meios de produção; 
 
 Proletariado: é a classe operária. 
 
Após a constatação do processo de dominação, Marx apresentou uma possível 
solução que seria a Revolução do Proletariado. Essa revolução derrubaria o 
Estado e implantaria uma ditadura do proletariado, que teria como objetivo 
estatizar os bens de produção, acabar com a propriedade privada e diminuir a 
diferença de classes sociais. Essa fase é chamada Socialismo. Com a conclusão 
da revolução e a igualdade de classes estabelecida, teríamos então, 
o comunismo. 
 
• A Teoria de Max Weber 
 
Entre os principais autores da Sociologia, Max Weber (1864-1920) é 
considerado um dos mais influentes. Seus trabalhos abrangem as áreas do 
pensamento político, do Direito, da História e da Economia. Essa diversidade 
acabou útil para os estudos sociais, já que o mundo social está em contato direto 
com todos esses ramos aos quais Weber dedicou seus trabalhos. 
Tendo sido precedido por outros dois grandes pensadores da área da 
Sociologia, Karl Marx e Émile Durkheim (ambos já descritos aqui), Weber 
também tentou compreender as mudanças sociais que se originavam nos 
grandes centros urbanos formados pela Revolução Industrial. Talvez o conceito 
mais importante da teoria de Max Weber seja o de Ação Social. Para este autor, 
a ação social estava mais próxima do indivíduo que situações econômicas ou 
institucionais. 
25 
 
Para Weber, as ideias, as crenças e os valores eram os principais propulsores 
das mudanças sociais. Ele acreditava que os indivíduos eram 
livres para agir e modificar a sua realidade, o que de certa forma, não apresenta 
a coação social descrita por Durkheim ou Marx. 
A ação social seria, portanto, qualquer ação que possuísse um 
sentido e uma finalidade determinados por seu autor. Em outras 
palavras, uma ação social constitui-se como ação a partir da 
intenção de seu autor em relação à resposta que deseja de seu 
interlocutor (RODRIGUES, 2020). 
As relações e as ações humanas dentro de um contexto são significativas por 
causa dos seus agentes. Para que se compreenda o processo de comunicação 
e de interação social, é necessário compreender a intenção doindivíduo ou 
grupos de indivíduos envolvidos nas mesmas. O autor da ação, ao realizá-la, 
pretende que seu interlocutor compreenda sua intenção e participe dela. Weber 
descreveu quatro tipos de ações sociais (RODRIGUES, 2020): 
 Ação racional com relação a fins: refere-se às ações tomadas com um 
fim específico em mente; 
 
 Ação racional com relação a valores: refere-se a ações que são 
tomadas segundo os valores morais do sujeito que a pratica; 
 
 Ação afetiva: configura-se quando um sujeito age com base em seus 
sentimentos sem levar em consideração o fim que deseja atingir; 
 
 Ação tradicional: está relacionada com o agir baseado no costume e no 
hábito. 
As contribuições de Marx para a História, para a Filosofia e a formulação de um 
novo modo de análise social, voltada para a crítica do capitalismo, foram 
fundamentais para a disseminação da Sociologia e para sustentar um método 
sociológico. Karl Marx, Max Weber, Durkheim compõe a tríade dos pensadores 
clássicos da Sociologia, sobre as sociedades capitalistas industriais. 
• A Escola de Frankfurt 
 
A Escola de Frankfurt foi o nome dado a um grupo de intelectuais composto de 
sociólogos e filósofos alemães. Este grupo era filiado ao Instituto de Pesquisa 
Social, cujos projetos eram vinculados à Universidade de Frankfurt. A Teoria 
Crítica foi o elo conceitual que uniu os intelectuais deste grupo, criando uma 
nova interpretação do marxismo, da sociologia e da política no início do século 
XX. Segundo o professor Francisco Porfírio, em artigo para a Brasil Escola 
(Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/a-escola-frankfurt.htm), os 
principais autores desta escola são: 
 
 Walter Benjamin: apesar de não ter vínculo direto com o Instituto de Pesquisa 
Social e de morrer antes da sua reformulação como Escola de Frankfurt nos 
anos de 1950, Benjamin colaborou com textos para a Revista do Instituto de 
Pesquisa Social vinculada à Universidade de Frankfurt. Dedicou-se à crítica 
literária e da arte em geral; 
https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/a-escola-frankfurt.htm
26 
 
 
 Erich Fromm: também influenciado pelo marxismo e pela psicanálise freudiana, 
une elementos psicanalíticos para estabelecer o papel do ser humano na 
sociedade como fator de mudança social. Ele analisou fatores da formação da 
pessoa, como a família e as relações sociais, numa vertente crítica do marxismo; 
 
 Jürgen Habermas: é o mais influente dos pensadores da segunda geração da 
Escola de Frankfurt (estudou nela após a reformulação do instituto na década de 
1950). Ele ainda está vivo e dedica-se a entender a ética e a política em meio às 
extensas possibilidades do discurso na atualidade. Para Habermas, as pessoas 
devem buscar o consenso democrático com base em um discurso que 
contemple a todos os cidadãos; 
 
 Theodor Adorno: pensador alemão que se dedicou a entender a 
problemática moral e social do século XX frente ao capitalismo. Por ser judeu e 
comunista, foi perseguido pelo nazismo e refugiou-se nos Estados Unidos; 
 
 Max Horkheimer: foi um dos diretores do Instituto de Pesquisa Social. O filósofo 
e sociólogo foi responsável, junto a Adorno, por elaborar o conceito de Indústria 
Cultural, no livro Dialética do esclarecimento. Também foi perseguido pelo 
nazismo e refugiou-se nos Estados Unidos; 
 
 Herbert Marcuse: um dos mais polêmicos pensadores da Escola de Frankfurt, 
dedicou-se a entender a relação entre sexualidade e capitalismo, além de 
estudar as problemáticas envolvendo raça e exclusão social. Seus estudos 
englobavam o marxismo e a psicanálise freudiana. Foi perseguido pelos 
nazistas pela origem judaica e pela vertente socialista. Marcuse refugiou-se nos 
Estados Unidos, onde lecionou na Universidade da Califórnia até 1969. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
27 
 
CAPÍTULO 6 – A ESCOLA COMO INSTITUIÇÃO SOCIAL 
O comportamento social do indivíduo é regulado pelas normas sociais, que são 
construídas no relacionamento com as pessoas de seu convívio, desde a 
primeira infância. Desde muito cedo, a criança começa a perceber que faz parte 
de um grupo social, a família, e que este grupo pertence a algo maior, a 
sociedade. Essa sociedade é formada, entre outras coisas, por instituições 
sociais. 
Instituição social é um tipo de organização que promove integração social, 
através de regras e hábitos, com o objetivo de organizar a nossa sociedade. 
Essa definição de instituição é um dos objetos de estudo da Sociologia e é 
fundamental para o funcionamento das relações humanas. Segundo Durkheim, 
as instituições sociais possuem um papel pedagógico e nos ensinam como ser 
parte da sociedade em que nascemos. 
Além de Durkheim, Max Weber também se dedicou aos estudos sobre as 
instituições sociais. De acordo com Weber, elas foram criadas para integrar o 
indivíduo à sociedade e são o motivo para existir a coesão social, assim como 
agregar os grupos sociais entre si. O objetivo das normas de cada tipo de 
instituição é se complementarem, de modo que nenhuma atue de maneira 
isolada. Existem algumas características que definem um grupo como uma 
instituição social, confira abaixo: 
 É uma criação humana, com objetivo utilitarista ou cultural; 
 Tem caráter permanente; 
 Tem reconhecimento social; 
 Tem autonomia para atender necessidades e interesses de seu 
público-alvo. 
A escola é uma instituição social que tem a tarefa de tornar o conhecimento 
acessível a todos os cidadãos. Precisamos lembrar aqui que a Constituição 
Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996 garantem o 
ensino básico a todas as pessoas, independentemente de estarem em idade 
escolar ou não. Sendo assim, a escola deve estar preparada para ensinar, para 
educar de forma integral todos que procurarem seus serviços. 
• A Escola como Instituição Social 
Ao iniciar sua vida escolar, a criança vivencia experiências de sociabilidade e 
aprende a lidar com as primeiras questões sociais, já que a escola reflete e 
representa a sociedade na qual está inserida. Como parte representativa dessa 
sociedade, portanto, a escola tem uma função social importante: a de formar os 
futuros cidadãos. 
Ao mesmo tempo que a diversidade de público se apresenta como uma vitória 
da educação, também toma a forma de um desafio. Ensinar a todos, com suas 
diferenças socioeconômicas, culturais e intelectuais, é ao mesmo tempo uma 
ação de responsabilidade social e uma ferramenta de progresso. Por outro lado, 
28 
 
a escola ainda se adapta a esse processo. Não é fácil ensinar um mesmo 
conteúdo em uma sala de aula onde os ritmos de aprendizagem e as formas de 
absorção de conhecimento são variáveis. 
Isso tem levantado uma discussão entre a sociedade e os educadores: a escola 
teria a função de promover esse desenvolvimento integral, que abrange a parte 
emocional, psíquica, física, cognitiva? Ou sua função seria mais tradicional, de 
apenas ensinar os conteúdos acadêmicos e pedagógicos? A resposta é sim ela 
tem a responsabilidade de formar integralmente, porque os documentos legais 
assim o exigem. Nossa Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do 
Adolescente, a LDB, a BNCC, todos estes documentos responsabilizam a escola 
pela formação psicossocial. 
O fato é que mesmo que a escola se exima de formar o aluno em outros aspectos 
que não sejam os acadêmicos, ainda assim, ela terá que considerar esses 
aspectos. Isso porque não se concebe atualmente um processo de ensino-
aprendizagem que não leve em conta aspectos cognitivos e emocionais, no 
mínimo. 
Essa questão nos leva à formação de valores e princípios sociais e éticos. 
Quando se trata de moralidade, estamos falando de costumes, de 
comportamentos individuais e que variam de pessoa para pessoa, de família 
para família, entre as religiões e outros grupos culturais. Então, a moralidade é 
mais responsabilidade da família do que da escola. Porém, quando pensamos 
na ética, que é uma formação de princípios universais de conduta, que interferemnas relações sociais e no equilíbrio da sociedade, então temos uma 
responsabilidade maior da escola. 
Pensando nessa responsabilidade, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN, 
1998), inseriram em seus volumes os Temas Transversais. Esses temas, têm 
como objetivo trabalhar temas do cotidiano do aluno dentro das disciplinas 
formais. A Ética é um desses temas e deve ser discutida entre os conteúdos das 
disciplinas, em todas as séries de todas as etapas da Educação Básica. Por 
exemplo, se o professor leciona língua portuguesa, ao trabalhar com textos, deve 
selecionar alguns que levantem discussões éticas e/ou que descrevam 
princípios éticos universais. 
Além da Ética, os Temas Transversais também incluem o tema Pluralidade 
Cultural. Esse tema é muito importante para se construir uma boa convivência 
na escola e na sociedade. Como comentamos aqui, a escola atualmente recebe 
uma grande quantidade de alunos, que vêm de diferentes contextos sociais e 
culturais. Um ensino significativo deve considerar essa bagagem que o aluno 
traz para escola, aproveitando suas vivências sociais e sua cultura. 
A escola precisa conhecer a realidade do aluno e trazer essa realidade para suas 
disciplinas, assim, o tema sobre pluralidade cultural informa o professor sobre 
diferentes contextos e o ajuda a trabalhar com esses contextos em suas aulas. 
Assim, percebemos que existem propostas curriculares para que a escola 
trabalhe seu contexto social e desenvolva nos alunos a responsabilidade por 
29 
 
esse contexto. Ao frequentar a escola, o aluno leva seu saber histórico-social e 
o coloca em contato com outros saberes, ampliando seu conhecimento e suas 
ferramentas de inserção social. Isso foi descrito de forma eficaz pelo psicólogo 
russo Lev Vygotsky. 
Segundo Vygotsky, a criança vai absorver todo o conhecimento social e histórico 
do meio em que vive, através da linguagem e da interação social. A cultura e o 
contexto histórico são produtos importantes na teoria de Vygotsky, produtos 
estes responsáveis pela aquisição de conhecimento e reprodução do mesmo. O 
homem, segundo ele, se torna humano em contato com a humanidade 
(VYGOTSKY, 2002). 
O aluno é um ser histórico, ele não chega à escola como uma folha de papel em 
branco, ao contrário, traz muita bagagem e conteúdo, construídos com sua 
família, sua comunidade e com a sociedade em que vive. O professor precisa 
analisar esse conteúdo antes de iniciar qualquer processo de ensino 
(VYGOTSKY, 2002). 
O conteúdo escolar deve estar sempre relacionado ao contexto da escola e do 
aluno, caso contrário, não fará sentido. O contexto também servirá para troca de 
experiências, informações e dúvidas, pois para Vygotsky, não há aprendizado 
sem interação social. Nessa teoria de aprendizagem, então, a escola deve estar 
sempre atenta ao desenvolvimento da linguagem, do diálogo, da comunicação, 
para promover a troca de experiências, de vivências, sempre estimulando a 
socialização e a integração entre os alunos. 
Vygotsky pensava em uma educação que considerasse o aspecto histórico da 
escola e que fornecesse ao aluno as possibilidades de intervir em seu contexto 
social. Nesse sentido, a educação libertadora de Paulo Freire também precisa 
ser citada. Focando o combate ao analfabetismo, Freire desenvolveu um método 
educacional que proporcionaria ao aluno instrumentos para transformar sua 
realidade. O próprio analfabetismo, para Paulo Freire, era uma herança da 
opressão e da exploração das pessoas mais pobres. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
30 
 
CAPÍTULO 7 – A ESCOLA E O CONTROLE SOCIAL 
O conceito de infância vem sofrendo grandes alterações ao longo da história, 
principalmente nas últimas décadas. Quando pensamos na criança, nos dias de 
hoje, entendemos que é um indivíduo diferente do adulto, não só em idade, mas 
em maturidade física, emocional e cognitiva. Porém, nem sempre foi assim, o 
modo como enxergamos e tratamos a criança depende do contexto histórico e 
cultural. A cultura ocidental atual pensa em criança como algo frágil, que precisa 
de cuidado e proteção. A educação é focada na parte cognitiva e intelectual, mas 
também muito preocupada com o fator psicológico. 
Ainda assim, existem algumas diferenças dentro de uma mesma sociedade e 
comunidade, pois aí temos que levar em consideração valores familiares, renda, 
nível cultural e educacional dos pais, religiosidade e outros detalhes que irão 
influenciar na criação, nos cuidados e na educação das crianças. Com o intuito 
de regular a relação com as crianças e com os adolescentes, o Estado cria leis 
que prescrevem a educação, a proteção, o ambiente, enfim, os cuidados que 
devemos ter em relação aos menores. Assim, a escola passa a ser um 
mecanismo de controle social. 
• Criança, Justiça e Responsabilidade 
Em O Juízo Moral na Criança, Piaget (1994), desenvolveu estudos sobre o 
desenvolvimento moral; observando as crianças jogando bolinhas de gude, 
percebeu que os menores, entre um e três anos, jogam por si, ignoram regras e 
se preocupam mais em apalpar os objetos que em jogar. Piaget iniciou seus 
estudos investigando as regras de jogos de crianças, como o de bolinha de gude, 
e notou que existem rituais e símbolos individuais em crianças pequenas, como 
ainda há um forte egocentrismo, esse período é chamado de anomia moral 
(PIAGET, 1994). 
As crianças um pouco maiores, de quatro a sete anos, já jogam, mas de acordo 
com suas próprias regras, porém tem respeito pelo que os mais velhos explicam 
sobre o jogo e as maiores se preocupam em jogar corretamente e reformular 
regras para o agrado de todos. Essas crianças se encontram, cognitivamente, 
no que Piaget chamou de período pré-operacional, caracterizado pela imitação, 
e na fase moral da heteronomia, em que as regras são impostas pelos mais 
velhos e devem ser respeitadas incondicionalmente (PIAGET, 1994). 
Piaget se serviu de várias histórias-estímulo para abordar alguns temas morais 
como a mentira, o roubo e os desajeitamentos. Ele entrevistou as crianças 
levando em conta três tipos de leis que direcionam o comportamento: a lei física 
(orgânica, impulsos), regra moral e ritual individual (hábitos), diferir estes 
comportamentos é fundamental para se avaliar o estágio em que se encontra a 
criança e seu juízo moral, ou seja, a consciência que ela tem da regra moral. 
Além disso, é preciso diferir três tipos de regras relacionadas à moral: 
 A regra motora: hábito. 
 A regra coercitiva: unilateral, fruto da pressão sobre o indivíduo. 
 A regra racional: fruto do respeito mútuo (PIAGET, 1994). 
31 
 
Nas crianças menores existe um respeito unilateral, mais pelo grupo, que pela 
tradição da regra. Esta tradição se caracteriza por um misticismo em torno de 
um grupo de regras que não só vemos em crianças pequenas como em 
sociedades antigas, geriontocráticas, nas quais não existe autonomia moral, mas 
um respeito unilateral pelas regras do grupo que foram passadas de geração a 
geração (PIAGET, 1994). 
Existe também a responsabilidade objetiva que se dá, principalmente, entre as 
crianças pequenas, até 7 anos; elas costumam julgar os atos pelas 
consequências, isto, devido à coação que sofrem por parte do adulto, que as 
castiga quando fazem alguma arte e também pelo egocentrismo infantil. Por 
exemplo: uma criança aprende que roubar é errado e pronto; ao ouvir histórias 
sobre roubos julga que o ladrão deve ser severamente castigado, independente 
se sua intenção foi boa ao roubar. O mesmo se dá com os desajeitamentos, ou 
seja, incidentes (muitas vezes involuntários) que crianças menores algumas 
vezes cometem; alguns adultos se estressam e as castigam e então elas 
assimilam que cometer gafes é errado e motivo para punição (PIAGET, 1994). 
Uma outra questão abordada é a da responsabilidade comunicável e a coletiva. 
A primeira existe quando um grupo é punido pela falta de um de seus indivíduos. 
Piaget não conseguiu encontrar vestígios de responsabilidade coletiva em suas 
pesquisas com crianças,por exemplo, afirma que existe solidariedade em 
grupos de crianças maiores de não delatar o culpado, mas entre as pequenas 
isto não existe, as crianças maiores preferem aceitar a punição do grupo à 
delação. 
A noção de responsabilidade vem evoluindo com o passar do tempo, a das 
sociedades antigas era objetiva e comunicável, a nossa é subjetiva e individual. 
Pensando em sociedade descobrimos que o crime está diretamente ligado à 
responsabilidade, pois o que procuramos hoje, dentro do campo de Direito Penal 
é descobrir o crime e punir o criminoso. 
A partir daqui começamos a cogitar a espiritualização do sentimento de 
responsabilidade; a primitiva é objetiva, pois se dá em uma relação material entre 
crime e criminoso, mas, se para nós a responsabilidade nasce da consciência 
do criminoso e de uma relação psicológica entre este e o fato, temos uma relação 
espiritual; a vida social, à medida que se individualiza, torna-se mais interior, 
subjetiva (PIAGET, 1994). 
Embora pareça o ideal, não o é; quanto mais subjetivo se torna o conceito de 
responsabilidade, mais indefinido e vulnerável ele é. Em uma sociedade em que 
um indivíduo está socializado e a responsabilidade é cada vez mais subjetiva, 
conseguimos observar ainda resquícios de um respeito unilateral, pois se há 
sanção em uma sociedade e também uma relação mística entre crime e 
criminoso, há falta de autonomia e se há falta de autonomia há respeito unilateral 
e este respeito nada mais que é que fruto de pressão sobre o indivíduo por outra 
geração mais velha (PIAGET, 1994). 
Quanto à justiça entre as crianças, podemos dizer que, excluindo as crianças 
pequenas, só encontramos sanções não expiatórias; Durkheim diz que estas só 
são aplicadas no caso de ofensas aos sentimentos (PIAGET, 1994). Para Piaget, 
existem dois tipos de sanções: as expiatórias e as por reciprocidade. As 
32 
 
primeiras são arbitrárias, as segundas podem apresentar uma variedade, pois 
punem de acordo com ato errado cometido, vejamos: 
 Exclusão momentânea ou definitiva do próprio grupo; 
 
 Consequência direta e material dos atos: não ter pão quando não quis ir 
comprá-lo, etc. Este tipo de sanção é defendido por Rosseau e Spencer, 
segundo eles a punição é sentir as consequências naturais de seus atos; 
 
 Privar o culpado de uma coisa da qual ele abusa; 
 
 Pena de Talião, ou seja, fazer à criança o que ela fez; 
 
 Sanção restitutiva: devolver o objeto quebrado ou pagar; 
 
 Repreensão moral: conversar com o culpado e explicar porque ele errou 
(PIAGET, 1994). 
Piaget notou que as crianças menores são mais severas e preferem aplicar 
sanções expiatórias quando são interrogadas sobre a punição de culpados. Ele 
também investigou a questão da justiça retributiva, que ocorre quando punimos 
um inocente ou recompensamos um culpado (PIAGET, 1994). 
O autor diz que existem algumas manifestações instintivas da criança como a 
vingança e a compaixão, quando esses sentimentos intervêm no julgamento da 
criança, a tendência é que ela apele para a justiça retributiva, no adulto isto 
também pode ocorrer. Preferimos, no entanto, não falar em compaixão ou 
vingança como sentimentos inatos, mas em instinto de defesa e de simpatias por 
parte do ser humano (PIAGET, 1994). 
Piaget observou que a justiça distributiva, oposto da retributiva, vai aparecendo 
entre as crianças com o passar dos anos. Os conflitos surgem, principalmente, 
na questão igualdade-autoridade, a criança quer não só igualdade entre as 
crianças, mas entre ela e o adulto também. A noção de justiça se desenvolve à 
custa da submissão da criança ao adulto, às regras e também da solidariedade 
entre elas. A coação do adulto inibe a formação da autonomia, no sentido de 
podar o raciocínio individual, as atitudes de cooperação e a reflexão sobre as 
regras. A criança só vai refletir sobre a regra moral e o respeito mútuo quando 
deixar de se centrar em si mesma e começar a enxergar o outro como igual 
(PIAGET, 1994). 
• Controle Social 
Mecanismos de controle social, para a Sociologia, são formas de regular o 
comportamento dos grupos sociais. Esse controle pode ser positivo ou negativo. 
Estes mecanismos são formas de monitorar as normas estabelecidas e caso o 
grupo não as siga ele recebe sanções. Ao mesmo tempo, esses mecanismos 
servem como forma de intervenção diante das possíveis mudanças que 
aconteçam no meio social. 
Existem duas formas distintas de controle social: as formas de controle 
interno e as formas de controle externo. As formas de controle interno são 
relativas à forma como as pessoas e os grupos interiorizam as regras, através 
33 
 
da socialização, ajudando a construir sua identidade social. As formas de 
controle externo são os mecanismos exercidos pela sociedade sobre o sujeito, 
como a parte jurídica. Existem dois tipos de controle, o formal e o informal. O 
controle formal se dá com as leis e normas das instituições, já o controle informal 
são as regras sociais: morais, religiosas, convencionais, etc. 
Em relação ao controle exercido pela escola, é um controle que se dá tanto na 
forma interna quanto externa, podendo ser do tipo formal ou informal. Como 
representa a sociedade, a escola contém todos os tipos e formas de mecanismos 
de controle. 
• Controle Social e Educação 
O controle do indivíduo pela escola pode ser exercido de forma interna e externa, 
informal ou formalmente. Esse tipo de controle social é construído através de 
um processo de socialização efetivo. Essa socialização se inicia com a 
heteronomia, na qual o sujeito respeita as regras por medo do castigo ou 
autoridade. Em seguida, conforme deseja a aceitação dos grupos sociais, esse 
indivíduo se torna vigia de seus próprios atos. 
O filósofo e teórico social Michel Foucault descreveu perfeitamente os 
mecanismos de controle e punição em seu livro Vigiar e Punir, no qual percorre 
ações de sanção desde a Idade Média até os sistemas de punição atuais. 
Segundo Foucault, a construção do sujeito dócil, útil e submisso à ordem social 
acontece por meio de processos disciplinadores, nos quais o corpo e a mente do 
sujeito são moldados de acordo com o que a sociedade exige. 
Para entender esse processo, Foucault observou as instituições disciplinadoras 
mais evidentes da sociedade: escola e prisões. O sujeito que essas duas 
instituições formam, quando o processo é bem-sucedido, seria dócil e funcional 
dentro do seu contexto social. Enquanto dentro da instituição, o sujeito se adapta 
às regras de forma heteronômica, cumprindo as regras por medo. Geralmente, 
essas instituições utilizam o panóptico de Bentham (imagem: 
https://universodafilosofia.com/2017/12/o-panoptico-de-foucault-em-vigiar-e-
punir/ ), modelo arquitetônico no qual o indivíduo não sabe quando está sendo 
vigiado, e assim, tem que se comportar o tempo todo. Interessante notar que 
tanto prisões como escolas utilizam a mesma forma de vigiar, exercendo assim, 
controle interno e externo. 
 
https://universodafilosofia.com/2017/12/o-panoptico-de-foucault-em-vigiar-e-punir/
https://universodafilosofia.com/2017/12/o-panoptico-de-foucault-em-vigiar-e-punir/
34 
 
CAPÍTULO 8 – A ESCOLA E O DESVIO SOCIAL 
A escola, como já dissemos, representa a sociedade na qual está inserida. 
Sendo assim, é normal que problemas de comportamentos e desvios sociais 
comuns na sociedade apareçam na escola. Segundo a Sociologia, desvio social 
significa quebrar regras e acordos do grupo social no qual a pessoa está inserida. 
Neste capítulo, iremos descrever estes grupos sociais, os tipos de desvio e por 
fim, a responsabilidade da escola em relação a eles. 
• Os Grupos Sociais 
Grupo social é uma reunião de duas ou mais pessoas, interagindo umas com as 
outras, e por isso capazes de ação conjunta, visando atingir um objetivo comum. 
As principais características desse grupo são: 
 Pluralidade de indivíduos: há sempre mais de um indivíduo no grupo, 
coletivismo; 
 
 Interação social: os indivíduos comunicam-se uns comos outros; 
 
 Organização: todo o grupo, para funcionar bem precisa de uma ordem 
interna; 
 
 Objetividade e exterioridade: quando uma pessoa entra no grupo ele já 
existe, quando sai ele permanece existindo; 
 
 Objetivo comum: união do grupo para atingir os objetivos dos mesmos; 
 
 Consciência grupal ou sentimento de “nós”: compartilham modos de 
agir, pensamentos, ideias, etc. Exemplo: Nós ganhamos. 
 
 Continuidade: é necessário ter uma certa duração. Não pode aparecer e 
desaparecer com facilidade. 
Os principais grupos sociais são a família, a comunidade, a escola (e outros 
grupos relacionados à educação), a igreja (e outros grupos religiosos), grupos 
de lazer, profissionais e políticos. Estes grupos, de acordo com a frequência e 
intensidade das interações entre os indivíduos se classificam em: 
 Grupos primários: predominam os contatos primários, mais pessoais, 
diretos, como a família, os vizinhos, etc.; 
 
 Grupos secundários: são mais complexos, como as igrejas e o estado, 
em que predominam os contatos secundários, neste caso, realizam-se de 
forma pessoal e direta – mas sem intimidade – ou de maneira indireta 
como cartas, telegramas, telefonemas, etc.; 
 
 Grupos intermediários: são aqueles que se alternam e se 
complementam as duas formas de contatos sociais (primários e 
secundários). Exemplo: escola. 
 
35 
 
• Desvios Sociais 
Os desvios sociais ocorrem quando um ou mais indivíduos pertencentes aos 
grupos que citamos quebram as normas sociais preestabelecidas por todos. As 
normas sociais são regras de conduta de uma sociedade, que controlam e 
orientam o comportamento das pessoas. Indicam o que é permitido e proibido. 
Quando um indivíduo quebra essas regras ele está sujeito à sanção social. 
Sanção social é uma recompensa ou uma punição que o grupo determina para 
os indivíduos de acordo com o seu comportamento social. É aprovativa quando 
o grupo emite aceitação, aplausos, honras, promoções. É reprovativa quando o 
grupo pune quem quebrou regras de alguma forma, por exemplo: insulto, 
zombaria, prisão, pena de morte, entre outras. 
Existem três tipos de regras sociais: a convencional (são as convenções sociais, 
como cumprimentar, pedir licença, agradecer, etc.), a moral (dizem respeito ao 
que é tido como ato bom ou mau dentro da sociedade) e a jurídica (normas do 
direito, como leis, estatutos, etc.). Quanto o desvio dessas normas, o indivíduo 
pode cometer um (LENHHARD, 1985): 
 Desvio primário: são pequenos delitos que não são condenados de 
forma veemente pela sociedade, como transgredir o código de trânsito, 
não pagar o condomínio. Geralmente está relacionado às convenções 
sociais. A pessoa pode ser repreendida pela sociedade, mas ela ainda a 
aceita como membro; 
 
 Desvio secundário: comportamento que é caracterizado publicamente 
como conduta anormal, geralmente é a quebra de uma regra jurídica 
grave. Exemplo: matar, estuprar, sequestrar; 
 
 Desvio individual: se dá quando uma pessoa, agindo sozinha, pratica 
ato que foge dos padrões estabelecidos pelo seu grupo social; 
 
 Desvio grupal: é cometido por um grupo social. 
Muito se questiona sobre a responsabilidade do indivíduo sobre seus atos, e 
consequentemente sobre seus desvios sociais. A responsabilidade exige 
consciência do ato e essa consciência significa ausência de ignorância. Esse 
conhecimento a respeito de uma situação nos dá liberdade para agir, é o livre 
arbítrio. 
Por outro lado, essa liberdade só é propiciada quando não existe coação, ou 
seja, quando nada, nem ninguém nos obriga a agir de uma determinada forma. 
Quando não há ignorância nem coação, há liberdade, logo, há responsabilidade 
sobre a ação. Existem três concepções importantes a respeito da 
responsabilidade do ato humano, vejamos: 
- Determinismo: o homem não pode ser responsável por seus atos porque tudo 
no universo tem uma causa natural tudo é pré-determinado, tudo segue uma 
ordem que está fora da interferência do homem; 
- Libertarismo: Para os libertaristas o homem é responsável por todos os seus 
atos porque possui o livre-arbítrio; 
36 
 
- Empirismo: o meio influencia a maior parte de nossos atos. 
Assim, o homem pode ou não ser levado ao desvio social por fatores que 
independem dele. A seguir, iremos descrever o papel da escola no desvio social. 
• A Escola e o Desvio Social 
Muitos questionam sobre a responsabilidade da escola sobre os desvios sociais. 
De acordo com Sociologia, alguns fatores facilitam o desvio, tais como: falha no 
processo de socialização, a existência de sanções fracas, a não compreensão 
total de normas por partes dos atores sociais, a execução injusta ou corrupta da 
lei, entre outros. Nesse momento, precisamos retomar a teoria de 
desenvolvimento moral de Piaget. 
O mais importante nessa teoria é que entendamos que punir não é suficiente 
para precaver os desvios sociais. O que de fato deve ser feito pela escola é 
desenvolver a consciência moral que leve à autonomia, ou seja, seguir as regras 
com intenção e consciência. Nesse ponto, Piaget se aproxima da teoria kantiana. 
Vejamos como se desenvolve a teoria piagetiana. 
Com seus estudos, Piaget (1994), desenvolveu uma teoria importante sobre a 
formação do conceito de regra nas crianças. Ele obteve do ponto de vista da 
prática das regras, quatro estágios sucessivos, e do ponto de vista da 
consciência três estágios. Identificou cada estágio, com características 
próprias e atreladas ao desenvolvimento cognitivo do indivíduo. 
 Primeiro estágio da prática de regras (até 2 anos): motor e individual; 
 
 Segundo estágio da prática de regras (2-5 anos): regra egocêntrica; 
 
 Terceiro estágio da prática de regras (7-8 anos): regras do grupo, 
obediência, competitividade; 
 
 Quarto estágio da prática de regras (11-12 anos): compreende a razão 
das regras (PIAGET, 1994). 
Piaget (1994) dividiu em três estágios para explicar o desenvolvimento da 
consciência das regras, e salientou a maturidade do juízo moral como atrelada 
ao processo cognitivo. 
 Primeiro estágio da consciência de regra: a regra, nesta fase, para a 
criança tem atribuição a criação divina e são encaradas como exemplos, 
interessantes, e não como realidade. As crianças não as praticam por não 
possuírem respeito intelectual por elas; 
 
 Segundo estágio da consciência da regra: marcado pelo egocentrismo 
e primeira metade do estágio da cooperação, a regra é sagrada e sua 
origem adulta é de essência eterna. Considerada obrigatória, sujeita à 
intervenção do ambiente que a sanciona e a estabelece. Toda 
modificação, nesta fase, será considerada uma transgressão; 
 
37 
 
 Terceiro estágio da consciência da regra: compreende o quarto estágio 
da prática das regras. Segundo Piaget (1994) a origem da regra é devido 
à convenção social. Ela é considerada lei e deve ser mantida e respeitada 
por consentimento mútuo. Qualquer mudança só poderá ocorrer por 
consenso geral. Nesta fase a criança tem consciência do seu caráter 
arbitrário. 
Piaget se serviu de várias histórias-estímulo para abordar alguns temas morais 
como a mentira, o roubo e os desajeitamentos. Ele entrevistou as crianças 
levando em conta três tipos de leis que direcionam o comportamento: a lei física 
(orgânica, impulsos), regra moral e ritual individual (hábitos), diferir estes 
comportamentos é fundamental para se avaliar o estágio em que se encontra a 
criança e seu juízo moral, ou seja, a consciência que ela tem da regra moral. 
Assim, temos uma teoria importante a ser considerada na escola na hora de 
prevenir o desvio das regras sociais. Se desenvolvermos a autonomia moral do 
indivíduo, ele obedecerá às normas com consciência e não coação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
38 
 
CAPÍTULO 9 – A ESCOLA NOVA 
O Movimento pela Escola Nova se iniciou no século passado no Brasil e ainda 
hoje influencia nossa educação. Os principais conceitos desse movimento 
surgem na Europa no finaldo século XIX. É chamado de Escolanovismo ou 
Escolanovista, e basicamente questiona os moldes tradicionais utilizados na 
educação até então. Foi baseado em ideias de Jean-Jacques Rousseau, 
Heinrich Pestalozzi, John Dewey e Freidrich Fröebel. O movimento pela Escola 
Nova foi motivado pela rapidez das transformações sociais, políticas e 
econômicas da época, assim como suas consequências. Essas mudanças foram 
resultado principalmente das alterações causadas pela Revolução Industrial. 
No Brasil, esse movimento se inicia em 1882, com Rui Barbosa, influenciado 
pelo filósofo americano John Dewey. Para este, a educação era uma 
necessidade social, já que aperfeiçoa as pessoas e assim promove progresso. 
As ideias de Dewey eram críticas à educação tradicional e ultrapassada, 
afirmando que a escola deveria contribuir para a evolução e o progresso social 
e humano. 
Para John Dewey a escola tem como eixo norteador a vida e as experiências, 
com suas trocas e interações sociais. O ensino e a aprendizagem devem 
propiciar uma reconstrução permanente da experiência e da aprendizagem 
dentro de sua vida. Para ele, a educação teria a função de democratizar e de 
igualar as oportunidades. De acordo com o ideário da escola nova, quando 
falamos de direitos iguais perante a lei, falamos de igualdade de oportunidades. 
Os novos educadores acreditavam que os métodos tradicionais de ensino 
deveriam ser substituídos por métodos mais atuais, de acordo com a realidade 
social e que preparassem os alunos para serem cidadãos integrais. A Escola 
Nova iniciou movimento pela inclusão e educação democrática que teve grande 
impacto nos paradigmas atuais. 
Em 1932, é publicado o Manifesto dos Pioneiros da Educação, assinado por 
Fernando de Azevedo, Lourenço Filho e Cecília Meireles, entre outros 
educadores. Este documento pregava a universalização do ensino, escola 
pública, laica e gratuita para todos. Com essa publicação, o movimento se 
fortaleceu e ganhou tanta notoriedade que influenciou uma nova geração de 
educadores-pensadores no país, entre eles Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e 
Paulo Freire. 
Considerado o principal idealizador das grandes mudanças que marcaram a 
educação brasileira no século 20, Anísio Teixeira foi o pioneiro na implantação 
de escolas públicas de todos os níveis, refletindo os objetivos do movimento 
Escola Nova de oferecer educação gratuita para todos. A escola pensada por 
Anísio tinha a responsabilidade de educar e não só instruir, de formar cidadãos 
autônomos e livres. Aprender não seria só memorizar, mas envolveria reflexão, 
contextualização, aplicabilidade e questionamento. 
Os paradigmas educacionais da Escola Nova influenciaram a nossa educação 
atual. Com a abertura política do Brasil na década de 1980, muitas ideias foram 
retomadas e ajudaram a conceber as novas diretrizes curriculares publicadas 
nas décadas seguintes. No Brasil, a concepção de Educação atual é a de uma 
escola para todos. 
39 
 
A nossa principal lei educacional, a Lei de Diretrizes e da Educação (BRASIL, 
1996), afirma que todas as crianças em idade escolar devem frequentar a 
Educação Básica e esta deve ser oferecida pelo Poder Público de forma gratuita. 
Essa lei também afirma que todos têm direito à educação, ou seja, pessoas com 
deficiência, com baixa renda, com idade que ultrapassa a faixa da idade escolar, 
todos devem ser acolhidos e ter acesso ao ensino público e gratuito. 
Sendo assim, nossa legislação educacional atualmente é considerada Inclusiva. 
Esse paradigma orienta que a escola deve promover a igualdade de 
oportunidades, o respeito às diferenças e a valorização da diversidade, seja ela 
étnica, social, intelectual, física, sensorial ou de gênero. Saímos assim de um 
paradigma de educação centrado no tradicionalismo e na homogeneidade para 
um inclusivo. Essa transformação se deve, em grande parte, aos ideais do 
Movimento pela Escola Nova. 
A LDB de 1996 reestruturou o ensino, da forma física até a curricular, e esse 
processo ainda está inacabado. A educação para todos não integrou somente 
deficientes, mas crianças marginalizadas socialmente, crianças com problemas 
graves de origem familiar ou cognitiva, crianças com distúrbios, transtornos de 
aprendizagem. É um público vasto e diversificado e a escola ainda se adapta a 
isso. Na pedagogia da Escola Nova são consideradas as seguintes 
características: 
 Centralização do processo de aprendizagem nas necessidades dos 
alunos; 
 
 Atenção à individualidade de cada estudante; 
 
 Respeito à diversidade; 
 
 Integração da aprendizagem escolar com o contexto social; 
 
 Incentivo à reflexão, à observação e ao pensamento crítico-científico; 
 
 Valorização das experiências e vivências pessoais dos alunos no 
processo de aprendizagem; 
 
 Preparação dos alunos para viver em um mundo dinâmico e em constante 
transformação; 
 
 Integração de todos os aspectos humanos: intelectual, cognitivo, 
biológico, emocional e físico; 
 
 Educação democrática, gratuita e laica. 
O ensino na escola atual deve focar, para um desenvolvimento pleno de seus 
alunos, o trabalho com habilidades e competências de cada um, ajudando no 
desenvolvimento das mesmas e com isso, preparando esses alunos para uma 
vida social de qualidade. 
40 
 
Uma das mais recentes transformações de modo a adequar nossa escola a esse 
tipo de ensino foi a criação e a implantação da nova Base Nacional Comum 
Curricular – BNCC. Uma Base Nacional Comum Curricular tem como objetivo 
nivelar a qualidade do ensino em todo o país, ou seja, reduzir as desigualdades 
em relação aos conteúdos que são ensinados através de um material elaborado 
em conjunto, sem perda de saberes e práticas locais. Criar uma base comum 
também proporciona o desenvolvimento e reforço das mesmas competências e 
habilidades entre nossos estudantes. 
A BNCC é um documento que prescreve o conjunto de aprendizagens essenciais 
de todos os estudantes do país. É dividido em três etapas: Educação Infantil, 
Ensino Fundamental e Ensino Médio. Cada parte traz orientações sobre os 
temas, objetos de conhecimento, competências e habilidades que devem ser 
trabalhados em cada etapa, e como a escola deve formular seu currículo para 
este fim. 
A nova BNCC tem sido construída há 7 anos e sua implantação já era prevista 
na Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB, de 1996. O objetivo é nivelar 
a qualidade do ensino, já que o Brasil é um país vasto e diversificado e, portanto, 
nem sempre a educação chega da mesma forma a todos, isso quando chega. 
Cabe salientar aqui que a BNCC não é um currículo comum a todos, mas 
orientações que devem ser seguidas pelos sistemas municipais e estaduais para 
elaboração de seus próprios currículos, tomando o cuidado de incluir nos 
mesmos os conhecimentos acadêmicos, sociais e culturais de suas localidades. 
A BNCC seria assim um documento norteador e não algo rígido e engessado. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
41 
 
CAPÍTULO 10 – A PROFISSÃO DE PROFESSOR 
Com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB, de 1996, 
a escola brasileira passa a receber todas as crianças em idade escolar. 
Precisamos lembrar que até a década de 1980, a escola não era inclusiva. 
Alunos com grandes dificuldades de aprendizagem e deficientes eram 
segregados à Educação Especial, que era oferecida fora do ensino regular. 
Também alunos sem condições econômicas abandonavam a escola para 
trabalhar ou ficar pelas ruas. 
Com a nova LDB, inspirada nos ideais inclusivos que permearam a década de 
1990, principalmente os discutidos na Declaração de Salamanca, em 1994, as 
crianças passam a ser matriculadas no ensino regular: todas as crianças de 7 a 
17 anos. Atualmente a idade é 4 a 17. Assim, a escola precisou se adaptar a 
uma grande quantidade de alunos e a uma grande diversidade dos mesmos. 
Junto com a escola, o professor se viu na necessidade de atualização e 
ampliação de sua formação, além de qualificação para ensinar alunos tãodiferentes entre si. 
Conjuntamente, o mundo passava por uma revolução global: o advento da era 
da informação, da era digital. As tecnologias começaram a avançar de forma 
rápida e a se expandir para os mais diversos tipos de dispositivos: 
computadores, notebooks, tablets, celulares, smartphones, etc. A escola se viu 
sobrecarregada e desgastada, assim como professor. 
Atualmente, ainda lutamos para formar professores os mais preparados possível 
para a sala de aula, que apesar de ainda se dispor de forma tradicional, recebe 
alunos nativos digitais, que não suportam mais os métodos de ensino, as regras 
e o funcionamento da mesma. 
Nessa perspectiva, teorias de aprendizagem e práticas ativas começam a 
influenciar a educação nacional. A nova Base Nacional Comum Curricular – 
BNCC, nos trouxe uma nova forma de ensinar conteúdos e lidar com o cotidiano 
escolar diversificado. Com essa base, esperamos que a escola comece a cativar 
seu público e tornar o trabalho docente mais tranquilo e motivador. 
Em tempos em que a profissão de professor luta para ser reconhecida e 
valorizada, trazemos uma apostila de estudos sobre a prática docente e a 
formação em licenciatura. Cada vez mais os cursos de formação de professores 
tentam se adequar a uma nova realidade escolar: uma escola antiga, tradicional, 
que recebe uma geração totalmente nativa digital. 
Em uma época, como já comentamos, em que o professor luta por 
reconhecimento e valorização, é importante comentarmos o que faz um 
profissional de ensino, como ele se qualifica para exercer uma profissão tão 
importante. Neste capítulo iremos estudar a definição de docência, a formação 
e a qualificação do professor, as áreas de atuação, a legislação trabalhista e os 
planos de carreira dessa profissão. 
 
42 
 
• O que é ser professor? 
O ofício de professor é exercido desde muito antes de surgirem as escolas 
formais. Desde que se tornou importante fazer coisas se tornou importante 
também ensinar a fazer. Não há como datar o início da docência, pois o ser 
humano sempre ensinou seus descendentes o que aprendeu com seus 
antecessores. Se formos pensar na história ocidental, na Grécia Antiga temos 
as primeiras representações de um ensino mais formal. 
Foram os gregos que começaram a valorizar a razão para explicar os fenômenos 
físicos e metafísicos e a dar início a um processo de ensino-aprendizagem que 
inspiraria a civilização ocidental até o presente. Porém, não foram os filósofos os 
primeiros pedagogos, mas assim eram chamados os escravos das pessoas mais 
abastadas, que levavam os filhos de seus senhores para observar os filósofos 
nas ágoras (espaço aberto em que os filósofos palestravam e debatiam ideias). 
Portanto, os pedagogos ainda não estavam envolvidos com o ensino, apenas 
conduziam crianças até o mesmo, daí a palavra ser usada até a atualidade. Com 
o surgimento da democracia na Grécia, os filósofos sofistas passam a ensinar 
quem pudesse pagá-los e formaram as primeiras turmas de alunos (PILETTI & 
PILETTI, 1995). 
Na Idade Média a profissão de professor começa a tomar forma. Com o 
Cristianismo dominando a produção do saber na Europa (eram as instituições 
religiosas que guardavam livros e construíam escolas) o ensino passa a ser feito 
por religiosos da Igreja Católica, se tornando eles os primeiros docentes formais 
em escolas regulares. Também era comum na época o uso de tutores pelas 
famílias ricas para educarem seus filhos. O tutor ensinava praticamente todas as 
disciplinas aos seus alunos, alguns até incluíam artes, música e etiqueta 
(PILETTI & PILETTI, 1995). 
Com o enfraquecimento do Feudalismo, o crescimento da burguesia e a 
formação dos centros urbanos a realidade educacional foi se modificando. 
Surgem então os Mestres Livres: homens leigos que compravam da Igreja 
Católica a permissão para exercer a docência. As escolas passam a oferecer o 
Studium Generale, um esboço de ensino superior, originando assim a 
Universidade. Com o passar dos anos as Universidades se expandem na Europa 
formando médicos, artistas, juristas e teólogos (PILETTI & PILETTI, 1995). 
Um fato importante impulsionou essa expansão do Ensino Superior, foi o 
Renascimento Italiano. Na Itália, os mecenas, comerciantes ricos, patrocinavam 
artistas humanistas o que contribuiu para originar um movimento cultural 
significativo focado na valorização das artes, do homem e dos estudos 
científicos. 
Esse movimento, chamado Renascimento, colocou o homem no centro do 
Universo (antropocentrismo), tirando o foco do catolicismo. O Renascimento 
contemplou uma grande quantidade de escritores (Dante Alighieri, Maquiavel, 
Shakespeare, Camões), de artistas (Leonardo Da Vinci, Rafael Sanzio, 
Michelangelo) e cientistas, como Nicolau Copérnico (refutou o geocentrismo e 
43 
 
afirmou que a Terra gira em torno do Sol) e Galileu Galilei (PILETTI & PILETTI, 
1995). 
As ideias renascentistas exasperaram a Igreja Católica que perseguiu e queimou 
livros e artistas na fogueira da Inquisição. Outro fato que enfraqueceu a Igreja 
Católica foi o surgimento do Protestantismo, movimento iniciado por Martinho 
Lutero que pregava a livre interpretação das escrituras sagradas e a não 
necessidade de se estar na igreja para realizar cultos (PILETTI & PILETTI, 1995). 
Com todas essas transformações, a teoria científica e as universidades se 
fortalecem. A escola tradicional, centrada na figura do professor se concretiza e 
o modelo de ensino expositivo, no qual o professor transmite seus saberes aos 
alunos oralmente e com apoio da lousa e livros, permanece por muito tempo. 
No século XVIII, os métodos científicos e as teorias racionais ganham força com 
o movimento do Iluminismo. Desde o Renascimento, a Europa fervia com o 
crescimento da burguesia que queria liberdade e poder. Na Inglaterra, França e 
Holanda, filósofos e cientistas debatiam incansavelmente os ideais de 
valorização da razão, da natureza e do método científico, e criticavam a nobreza 
e o clero. Esse movimento inspirou a Revolução Francesa, que em 1789 depôs 
a monarquia (PILETTI & PILETTI, 1995). 
Nesse contexto, a profissão de professor, principalmente nas universidades, 
passa a se destacar como o detentor e defensor da razão e da ciência. Com a 
Revolução Industrial, desencadeada no século XIX, são fundadas as primeiras 
escolas leigas de ensino básico que tinham como objetivo ensinar ofícios, para 
que os jovens pudessem trabalhar na indústria, assim, a carreira de professor 
começava a expandir seus papéis (PILETTI & PILETTI, 1995). 
O século XIX e XX nos trazem novas teorias de aprendizagem, que (veremos 
com mais detalhes em capítulo próximo dessa apostila) questionam o método 
tradicional de ensino e passam a valorizar o papel do aluno no processo de 
aprendizagem. Novos papéis são atribuídos ao professor, não basta mais 
ensinar o ser, mas deve-se ensinar também o fazer. 
Atualmente, o professor desempenha uma infinidade de papéis. A escola 
moderna se fragmentou em várias etapas de ensino e com isso o papel do 
professor também se diversificou. Houve uma estratificação do ensino 
originando o professor de ensino infantil, o de ensino fundamental 1, o de 
fundamental 2 e médio, formado em disciplinas específicas e o de nível superior. 
• Formação e Qualificação do Professor 
Atualmente, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, traz em seu título 
VI, artigo 62, a seguinte afirmação sobre a formação necessária para se lecionar 
nas salas de aulas brasileiras: 
Art. 62. A formação de docentes para atuar na educação básica 
far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de 
graduação plena, em universidades e institutos superiores de 
educação, admitida, como formação mínima para o exercício do 
44 
 
magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do 
ensino fundamental, a oferecida em nível médio na modalidade 
Normal (LDB, 1996). 
Atualmente, considera-se o notório saber, adquirido através título de doutorado, 
que dispensa o diplomatradicional para lecionar disciplinas específicas, segundo 
o artigo 66, da LDB (1996). 
Sendo assim, o professor vai atuar na formação e desenvolvimento de crianças, 
de 0 a 10 anos se cursar a Pedagogia ou Curso Normal. Para trabalhar no Ensino 
Fundamental 2 e Ensino Médio, terá que se formar em cursos superiores de 
licenciatura na disciplina que escolherem, como Língua Portuguesa (Letras), 
Matemática, História, etc. 
O formado em Pedagogia, licenciatura plena, também pode exercer cargos de 
gestão, além de se responsabilizar pela Educação Especial, Ensino de Jovens e 
Adultos e pela elaboração de cursos em empresas, hospitais, asilos, etc. 
Para lecionar no Ensino Superior, o professor precisa ter uma especialização, 
seja ela do tipo lato sensu (especialização comum) ou strictu sensu (mestrado e 
doutorado), sendo que esta deve ter aderência à disciplina que irá lecionar. 
Os afazeres de um professor, porém, vão além dos especificados em sua 
graduação. Com a escola recebendo todos os alunos em idade escolar e com a 
proposta de inclusão, o professor acaba tendo que exercer papéis que excedem 
essa formação. Claro, que não é correto cobrar do professor certas tarefas, mas 
se pensarmos que estamos lidando com crianças, adolescentes, ou seja, seres 
humanos, que tem emoções, valores, individualidades, não podemos pensar em 
um ensino frio, distante, automatizado. 
Ensinar é mais que depositar conhecimentos em outro ser humano, como dizia 
Paulo Freire, para que o processo de ensino-aprendizagem funcione, é preciso 
que haja uma relação de confiança entre o mestre e o aluno, e essa confiança 
precisa de dedicação e empatia para se desenvolver, de ambas as partes. 
• Legislação Trabalhista 
A Reforma Trabalhista de 2017 trouxe algumas mudanças na situação de 
professores de todo o país. Por exemplo, com a reforma, o professor pode se 
dedicar a mais de uma instituição de ensino através do contrato intermitente, 
recebendo pelas aulas dadas. O FGTS, férias, 13º salário e previdência 
continuam garantidos por lei, mas são proporcionais. 
Antes da reforma o banco de horas de um professor era estabelecido pela 
Convenção Coletiva da categoria, mas agora, as escolas não são mais obrigadas 
a pagar horas-extras, sendo que o tempo trabalhado deve ser discutido e 
acordado entre a escola e o professor (FERREIRA, 2019). 
Sobre as demissões, o contrato de trabalho pode ser encerrado em comum 
acordo entre as partes sem que haja multas rescisórias, também pode-se pagar 
apenas metade da multa de 40% do FGTS e metade do próprio se houver 
45 
 
acordo, em caso de demissão sem justa-causa. O funcionário pode abrir mão do 
seguro-desemprego se optar por sacar 80% do saldo do FGTS. A homologação 
da rescisão não precisa mais ser feita no sindicato (FERREIRA, 2019). 
Embora tenha por base a legislação trabalhista vigente, muitos aspectos da 
profissão docente, como valor de horas/aula e dissídios, são regidos pela 
Convenção Coletiva de Educação, que é publicada anualmente e discutida pelos 
sindicatos da categoria. De acordo com essa Convenção (CONVENÇÃO 
2019/2020), consta no artigo 20, sobre a Jornada de Trabalho: 
A remuneração dos docentes será fixada pelo número de aulas 
semanais, que não poderá ser superior a 40 (quarenta). O 
pagamento far-se-á mensalmente, considerando-se cada mês 
constituído de 4,5 (quatro e meia) semanas, acrescentando-lhe 
1/6 (um sexto) de seu valor como remuneração do repouso, 
conforme interpretação do art. 320 da CLT em combinação com 
a Lei 605/49. 
Após três aulas consecutivas, o professor deverá fazer um intervalo de no 
mínimo 15 minutos. Caso precise exercer alguma função pedagógica para a 
escola nesse período o professor deverá ser remunerado com meia hora/aula. 
A Convenção Coletiva da classe também estabelece limites para o número de 
alunos na sala durante a aula, por exemplo, no primeiro ano do Ensino 
Fundamental, o limite atual é de 26 alunos por sala. É preciso ficar atento a isso, 
porque muitas escolas não cumprem essa convenção. Existem muitas salas de 
primeiro ano com mais de 35 alunos, o que prejudica o ensino em uma fase de 
suma importância, a da alfabetização. 
Para saber os direitos gerais da classe é preciso estar atualizado, primeiro sobre 
as leis trabalhistas do país, estado e município em que se leciona; em segundo, 
todos os anos acompanhar a discussão, a aprovação e a homologação da 
Convenção Coletiva da classe. 
• Plano de Carreira do Professor 
Os estudos, a experiência, o tempo de trabalho de um professor deve ser 
valorizado, não só socialmente, mas financeiramente e academicamente, por 
isso, o plano de carreira de um docente deve ser regulamentado e incentivado 
em todos os níveis e etapas da educação nacional. Segundo o Ministério da 
Educação: 
O plano de carreira do magistério deve contemplar itens como a 
formação inicial e continuada, o processo de escolha de 
diretores das escolas, o número máximo de alunos por sala de 
aula, o sistema de avaliação, a progressão funcional (MEC, 
2020). 
Sendo assim, quanto mais qualificado e experiente o professor, maior seu 
salário, sua prioridade na escolha de aulas, nas seleções oficiais e na progressão 
de cargos. Segundo a LDB (1996), os sistemas de ensino devem assegurar o 
plano de carreira do professor, incentivando a continuidade dos estudos, 
46 
 
respeitando o piso salarial, a progressão funcional baseada em desempenho e 
qualificação e a saúde do professor em toda sua globalidade. 
Finalizando, a carreira do professor tem muitas vantagens, legislação específica 
desde sua formação até o plano de carreira, mas ainda há carência de respeito 
às leis e ao trabalho em sala de aula e fora dela. Enquanto a sociedade não 
valorizar o professor, o aluno também não o fará. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
47 
 
CONCLUSÕES 
Nos nossos estudos, pudemos entender os fundamentos educacionais e a 
influência da Psicologia, da Filosofia e da Sociologia na formação desses 
fundamentos. A Sociologia foi uma das ciências mais importantes nas 
transformações educacionais brasileiras nas últimas décadas. Ela nos trouxe 
uma nova concepção de escola, principalmente apoiada nos conceitos de 
Durkheim. A Filosofia também nos direciona para um ensino mais 
contextualizado e racional, enquanto a Psicologia nos faz olha para o homem 
como um ser integral. 
Assim, os fundamentos atuais nos afastam da concepção tradicionalista de 
educação, rígida e conteudista. Uma educação humanizada, seria o contraponto 
desse ensino, contextualizando conteúdos, inserindo temas significativos e 
discutindo a realidade social da escola e do seu alunado. O aluno precisa ter 
participação no processo de aprendizagem, precisa ter ação. Esse processo não 
pode fugir da sua realidade e de suas necessidades. 
A escola precisa estimular e desenvolver o pensamento crítico, o 
questionamento, a curiosidade científica, para que o aluno aprenda a aprender 
e se torne autônomo. Sendo assim, a escola possui uma função social de 
fundamental importância e precisa ser ativa e efetiva nessa função. Para isso, a 
escola precisa desenvolver as habilidades físicas, psíquicas, emocionais e 
cognitivas de seus alunos, através da exploração de todas as possibilidades de 
seu contexto social, econômico e cultural. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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