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CIÊNCIA E TECNOLOGIA DOS ALIMENTOS PESQUISAS E AVANÇOS VOL 1 ORGANIZADORES: KATARYNE ARABE RIMA DE OLIVEIRA JACKSON ANDSON DE MEDEIROS CAROLINA MADAZIO NIRO KAROLINY BRITO SAMPAIO MAIARA DA COSTA LIMA CIÊNCIA E TECNOLOGIA DOS ALIMENTOS PESQUISAS E AVANÇOS VOL 1 ORGANIZADORES: KATARYNE ARABE RIMA DE OLIVEIRA JACKSON ANDSON DE MEDEIROS CAROLINA MADAZIO NIRO KAROLINY BRITO SAMPAIO MAIARA DA COSTA LIMA EDITOR CHEFE Jackson Andson de Medeiros CORPO EDITORIAL Carolina Madazio Niro Jackson Andson de Medeiros Jaelyson Max Pereira de Medeiros REVISÃO FINAL Jackson Andson de Medeiros Kataryne Arabe Rima de Oliveira Carolina Madazio Niro CAPA Jackson Andson de Medeiros Agron Food Academy agronfoodacademy.com Venda proibida Open access Revisado por pares Todas as opiniões e textos presentes neste livro são de inteira responsabilidade de seus autores e coautores. Agron Food Academy agronfoodacademy.com Apresentação Com o projeto do Ebook “Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços”, pretende-se divulgar os mais recentes estudos da área, visando ajudar estudantes, pesquisadores e profissionais a terem novas perspectivas sobre as temáticas trabalhadas. Nesse contexto, o Ebook trabalhou dentro dos eixos temáticos: Controle de qualidade e segurança de alimentos; Inovação e desenvolvimento de novos produtos; Métodos analíticos aplicados em alimentos; Microbiologia e toxicologia dos alimentos; Análise sensorial e Pesquisas com o consumidor. Avaliadores Kataryne Arabe Rima de Oliveira Jackson Andson de Medeiros Carolina Madazio Niro Karoliny Brito Sampaio Maiara da Costa Lima Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 1 SUMÁRIO CAPÍTULO 1 ....................................................................................................................... 6 APROVEITAMENTO DE LEITELHO NO DESENVOLVIMENTO DE BEBIDA LÁCTEA FERMENTADA Sarah Oliveira dos Santos; Ana Paula Stort Fernandes; Dayana Silva Batista Soares; Ellen Godinho Pinto; Wiaslan Figueiredo Martins CAPÍTULO 2 ..................................................................................................................... 16 EFEITO DOS METABÓLITOS PRESENTES EM FERMENTADO ACÉTICO NA SAÚDE HUMANA Mariana de Paula Gomes; Andriely Lucas Lima e Silva; Fernanda T. de Sousa; Iva Manoela Rocha Ataides; Jeisa Farias de Sousa Santana; Josemar Gonçalves de Oliveira Filho; Mariana Buranelo Egea CAPÍTULO 3 ..................................................................................................................... 24 AVALIAÇÃO FÍSICO – QUÍMICA E MICROBIOLÓGICA DO TAMBACU COM ESCAMA E DESCAMADO EM DIFERENTES PERÍODOS DE ESTOCAGEM SOB CONGELAMENTO Marcelo Henrique Melo Monteiro; Ellen Godinho Pinto; Bianca Ferreira Augustinho;Dayana Silva Batista Soares; Ana Paula Stort Fernandes; CAPÍTULO 4 ..................................................................................................................... 34 DESENVOLVIMENTO DE GELEIA DIET DE MORANGO E YACON Aline Soares de Oliveira; Eliane Vale da Silva; José Jurandir de Toledo Neto CAPÍTULO 5 ..................................................................................................................... 41 AVALIAÇÃO DO CONHECIMENTO E INTENÇÃO DE CONSUMO DE LEITE ASININO: DADOS INICIAIS NO BRASIL Catiele Silva de Oliveira; Laiza Soliely Costa Gonçalves; José Evangelista Santos Ribeiro; Amanda Marília da Silva Sant’Ana CAPÍTULO 6 ..................................................................................................................... 51 AVALIAÇÃO FÍSICO-QUÍMICA DO JATOBÁ-DO-CERRADO Bianca Ferreira Augustinho; Ellen Godinho Pinto; Túlio Henrique Batista da Silva; Luis Gustavo Ribeiro de Melo Silva; Rody Ricardo Moreira CAPÍTULO 7 ..................................................................................................................... 56 A CADEIA PRODUTIVA E AS MARGENS DE COMERCIALIZAÇÃO DA PESCADA AMARELA (Cynoscions acoupa) EM BELÉM-PA Matheus Yuri de Oliveira Rosa1; Flavio Henrique Souza Lobato CAPÍTULO 8 ..................................................................................................................... 65 ANÁLISE DA ATIVIDADE ANTIOXIANTE DE VINHOS TINTOS ELABORADOS POR DIFERENTES TECNOLOGIAS DE VINIFICAÇÃO: REVISÃO Marianna Pozzatti Martins de Siqueira Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 2 CAPÍTULO 9 ..................................................................................................................... 75 ANÁLISE LOCACIONAL DE INDÚSTRIA DE UVA PASSA EM EMBALAGENS INDIVIDUAIS Bárbara Keiko Querino Kuboyama; Bruna Lorena Figueiredo; Marcelino Serretti Leonel; João Vinícios Wirbitzki da Silveira; Tatiana Nunes Amaral CAPÍTULO 10 ................................................................................................................... 79 ANÁLISE MICROBIOLÓGICA DE CARNE MOÍDA BOVINA COMERCIALIZADA NO MUNÍCIPIO DE JAGUARIBE - CEARÁ Paula Dayane Diógenes Granja; Maria Michele da Costa; Mírian Rebouças Nunes; Rafael Souza Cruz; Marcos Venicius Nunes; Clarissa Maia de Aquino; Luana Maria de Lima Santos CAPÍTULO 11 ................................................................................................................... 87 ANTOCIANINAS: FONTES, APLICAÇÃO E MÉTODOS DE EXTRAÇÃO Glaciela Cristina Rodrigues Da Silva Scherer; Janine Martinazzo; Patrícia Fonseca Duarte; Suelen Paloma Piazza CAPÍTULO 12 ................................................................................................................... 97 ATIVIDADE ANTIOXIDANTE E POTENCIAL REDUTOR DE PESO DO SHAKE DE Psidium guajava L. (GOIABEIRA) Daiane Cristina de Assis Braga; Paula Magalhães Gomes; Rosana Gonçalves Rodrigues-das-Dôres; Leonardo Máximo Cardoso CAPÍTULO 13 ................................................................................................................. 106 LIOFILIZAÇÃO DE CAMU-CAMU: UMA ALTERNATIVA PARA O CONSUMO E MELHOR CONSERVAÇÃO Samantha Xena Nunes Quadros; Edvan Alves Chagas; Carlos Alberto Nogueira-de- Almeida; Lycia Silva Ribeiro, Ana Beatriz Pires de Souza CAPÍTULO 14 ................................................................................................................. 112 CARACTERÍSTICAS SENSORIAIS DAS PIRAZINAS NO AROMA DOS ALIMENTOS: UMA REVISÃO Igor Henrique de Lima Costa; Calionara Waleska Barbosa de Melo CAPÍTULO 15 ................................................................................................................. 120 COMPOSTOS BIOATIVOS DO CAMU-CAMU NO COMBATE À COMORBIDADES ASSOCIADAS À OBESIDADE Samantha Xena Nunes Quadros; Ana Beatriz Pires de Souza; Lycia Silva Ribeiro; Edvan Alves Chagas; Carlos Alberto Nogueira de Almeida CAPÍTULO 16 ................................................................................................................. 127 DETERMINAÇÃO DO GRAU DE ACIDEZ E TEOR DE PROTEÍNAS EM LEITE IN NATURA PROVENIENTE DE FAZENDAS DA REGIÃO DO ALTO PARANAÍBA-MG Sheila Santana De Mello; Eliane de Sousa Costa; Luiz Fernando Rocha Botelho; Taylan Andrade Silva; Ana Luiza Faria Mendes Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 3 CAPÍTULO 17 ................................................................................................................. 134 EFEITOS BENÉFICOS DA BIOMASSA DE BANANA VERDE EM INDIVÍDUOS PRÉ- DIABÉTICOS E DIABÉTICOS: UMA REVISÃO Jardel Alves da Costa; Lucineide de Brito Rocha; Fátima Rosane Barros; Diêgo de Oliveira Lima; Kelly Vanderlei Macedo; Rute Emanuela da Rocha; Dênaba Luyla Lago Damasceno CAPÍTULO 18 ................................................................................................................. 141 ESTUDO CINÉTICO E DESENVOLVIMENTO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS FERMENTADAS DE ABACAXI, ACEROLA, MAÇÃ E MELANCIA Edilaine Alves da Silva Santos;Diego Santos de Jesus; Luana Caliandra Freitas de Carvalho, Sueli José Pereira Corrêa, Thatiana Santana Santos, Danilo Santos Souza, Maycon Fagundes Teixeira Reis CAPÍTULO 19 ................................................................................................................. 153 ESTUDO DO PROCESSO DE DESIDRATAÇÃO OSMÓTICA EM FATIAS DE ABACATE Fabrícia Santos Andrade; Pablícia Oliveira Galdino; Myrian Stefany Gomes de Araújo CAPÍTULO 20 ................................................................................................................. 164 ÓLEO ESSENCIAL DE MANJERICÃO: CARACTERÍSTICAS E PROPRIEDADES Luanna Carneiro de Souza CAPÍTULO 21 ................................................................................................................. 173 MÉTODOS DE IDENTIFICAÇÃO DE CULTIVARES DE ARROZ (Oryza sativa L.): REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Josiane Aimon de Freitas; Kassandra Fontoura da Silva; João Pedro da Silva Cunha; Verônica Bueno Ribas; Graciela Salete Centenaro; Valcenir Júnior Mendes Furlan. CAPÍTULO 22 ................................................................................................................. 184 MÉTODOS DE QUANTIFICAÇÃO DE γ-ORIZANOL NO ÓLEO DE ARROZ Valcenir Júnior Mendes Furlan; João Pedro da Silva Cunha; Kassandra Fontoura da Silva; Verônica Bueno Ribas; Graciela Salete Centenaro CAPÍTULO 23 ................................................................................................................. 193 MUDANÇAS NOS HÁBITOS ALIMENTARES DA POPULAÇÃO DE BELÉM (PA) DURANTE A PANDEMIA DA COVID-19 Matheus Yuri de Oliveira Rosa; Flavio Henrique Souza Lobato CAPÍTULO 24 ................................................................................................................. 199 OTIMIZAÇÃO DA EXTRAÇÃO ENZIMÁTICA ASSISTIDA POR ULTRASSOM DE ÓLEO DE SEMENTE DE ROMÃ (Punica granatum L.) Jideane Menezes Santos; Juliete Pedreira Nogueira; Narendra Narain; Patrícia Beltrão Lessa Constant Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 4 CAPÍTULO 25 ................................................................................................................. 209 PARASITOS ZOONÓTICOS TRANSMITIDOS PELO CONSUMO INADEQUADO DE PEIXES: REVISÃO Clarissa Maia de Aquino; Gracienhe Gomes dos Santos; Maurício Laterça Martins; Vildes Maria Scussel CAPÍTULO 26 ................................................................................................................. 218 POTENCIAL ANTIBACTERIANO IN VITRO E TOXICOLÓGICO IN VIVO DAS FOLHAS DO JAMBO VERMELHO (Syzygium malaccensis, Myrtaceae) FRENTE A ZEBRAFISH (D. rerio) ADULTO Fernando Eugênio Teixeira Cunha; Maria Izabel Cerneiro Ferreira; Rafael Souza Cruz; Maria Jaina Gomes Ferreira; Clarissa Maia de Aquino; Francisco Ernani Alves Magalhães; Larissa Morais Ribeiro da Silva CAPÍTULO 27 ................................................................................................................. 230 PRODUÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS FERMENTADAS A BASE DE FRUTAS DO SEMIÁRIDO SERGIPANO Edilaine Alves da Silva Santos; Diego Santos de Jesus; Luana Caliandra Freitas de Carvalho, Rafaela Figueiredo Fontes, Raisa Soares Móes, Danilo Santos Souza, Maycon Fagundes Teixeira Reis CAPÍTULO 28 ................................................................................................................. 240 POTENCIAL BIOLÓGICO E NUTRICIONAL DA PRÓPOLIS VERMELHA PRODUZIDA NO NORDESTE BRASILEIRO: UMA REVISÃO Jardel Alves da Costa; Danielle Silva Araújo; Cleyna Maria Ferreira Leite Duarte; Danielle Gomes de Sousa; Maria Eduarda Lopes Rodrigues; Francisco Jarbson Ferreira de Sousa; Nayara Ferreira Ricardo CAPÍTULO 29 ................................................................................................................. 248 ANTOCIANINAS: ESTRUTURA QUÍMICA, ESTABILIDADE E EXTRAÇÃO Isabela de Morais Silva; Nathalia de Andrade Neves CAPÍTULO 30 ................................................................................................................. 259 PESQUISA DE HÁBITOS DE CONSUMO DE ALIMENTOS DE ORIGEM VEGETAL PELA POPULAÇÃO DA CIDADE DE FORTALEZA – CEARÁ Kellen Miranda Sá; Rafael Souza Cruz; Luana Maria Alves de Medeiros; Sâmela Leal Barros; Wallacy Ramon Pinheiro da Rocha; Clarissa Maia de Aquino; Larissa Morais Ribeiro da Silva CAPÍTULO 31 ................................................................................................................. 268 DESENVOLVIMENTO E AVALIÇÃO CINÉTICA DE BEBIDAS ALCOÓLICAS FERMENTADAS DE GOIABA, MANGA, MELÃO E TANGERINA Edilaine Alves da Silva Santos; Diego Santos de Jesus; Luana Caliandra Freitas de Carvalho, Rafaela Figueiredo Fontes, Raisa Soares Móes, Danilo Santos Souza, Maycon Fagundes Teixeira Reis Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 5 CAPÍTULO 32 ................................................................................................................. 277 CARACTERIZAÇÃO DOS ÁCIDOS GRAXOS EM PEIXES DE ÁGUA DOCE: UMA REVISÃO Diana Carla Fernandes Oliveira; Francielly Corrêa Albergaria; Pedro Massahiro de Matos Murata; Anderson Henrique Venâncio; Jeferson Gomes Clementino; Maria Emília de Sousa Gomes; Rilke Tadeu Fonseca de Freitas Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 6 10.53934/9786599539626.1 Capítulo 1 APROVEITAMENTO DE LEITELHO NO DESENVOLVIMENTO DE BEBIDA LÁCTEA FERMENTADA Sarah Oliveira dos Santos1; Ana Paula Stort Fernandes2; Dayana Silva Batista Soares3; Ellen Godinho Pinto4; Wiaslan Figueiredo Martins5 1Discente do Curso Superior de Tecnologia em Alimentos – IF Goiano – Campus Morrinhos; E-mail: sarah_oliveira_santos@hotmail.com 2Docente do Departamento de Alimentos – IF Goiano – Campus Morrinhos; E-mail: ana.stort@ifgoiano.edu.br 3Docente do Departamento de Alimentos – IF Goiano – Campus Morrinhos; E-mail: dayana.soares@ifgoiano.edu.br 4Docente do Departamento de Alimentos – IF Goiano – Campus Morrinhos; E-mail: ellen.godinho@ifgoiano.edu.br 5Docente do Departamento de Alimentos – IF Goiano – Campus Morrinhos; E-mail: wiaslan.martins@ifgoiano.edu.br Resumo: O desenvolvimento e o lançamento de novos produtos alimentícios têm aumentado significativamente, devido à globalização e às maiores exigências dos consumidores. Assim, objetivou-se elaborar bebida láctea fermentada acrescida de leitelho e avaliar suas características físico-químicas. Foram elaboradas quatro formulações de bebidas lácteas fermentadas, sendo elas: F0 = 50% de leite e 50% de soro de leite (controle); F1 = 50% leite, 40% de soro de leite e 10% de leitelho; F2 = 45% leite, 30% de soro de leite e 25% de leitelho; F3 = 40% leite, 25% soro de leite e 35% de leitelho. As amostras foram submetidas às análises físico-químicas (n = 3) de gordura, acidez, pH, densidade, extrato seco total e extrato seco desengordurado. Os resultados foram submetidos à análise de variância (ANOVA) e teste de Tukey (p ≤ 0,05). A formulação F0 diferiu-se das demais formulações, exceto para o parâmetro pH. As formulações F1, F2 e F3 apresentaram resultados de gordura, acidez, pH e extrato seco total próximos aos relatados na literatura. O aproveitamento do leitelho na elaboração de bebidas lácteas fermentadas é uma alternativa inovadora, o qual pode ser utilizado para o desenvolvimento de novos produtos e reduz a poluição ambiental de um descarte inadequado. Palavras–chave: leitelho; novos produtos; soro de leite INTRODUÇÃO As indústrias de laticínios encontram-se em ascensão nos últimos anos, principalmente as nacionais. Diante das constantes exigências impostas pelo mercado, torna- se essencial o desenvolvimento de novos produtos e oaperfeiçoamento dos já existentes (1). As indústrias têm realizado o reaproveitamento de resíduos industriais, a exemplo do soro de leite e do leitelho. O soro de leite é um coproduto da fabricação de queijos, enquanto o leitelho é o subproduto da fabricação da manteiga. Por muitos anos, ambos eram descartados na natureza e por apresentarem alta Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), provocam grandes alterações ambientais (2). A composição do leitelho é similar à do leite desnatado, com exceção da maior quantidade de proteínas e fosfolipídios derivados da membrana do glóbulo de gordura (3). Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 7 Entre as várias formas de utilização do soro de queijo na indústria de laticínios, está a formulação de novos produtos e a sua agregação a produtos já existentes, como a bebida láctea (4). As mais comercializadas são as bebidas lácteas fermentadas de características sensoriais semelhantes ao iogurte, e as bebidas lácteas não fermentadas (5). Assim, objetivou-se elaborar bebida láctea fermentada acrescida de leitelho e avaliar suas características físico-químicas. MATERIAL E MÉTODOS MATÉRIA-PRIMA E CARACTERIZAÇÃO FÍSICO-QUÍMICA Quatro formulações de bebidas lácteas fermentadas foram elaboradas e utilizados como ingredientes: leite pasteurizado integral com padronização de 3% de gordura, soro de leite obtido a partir da fabricação de queijo muçarela, leitelho obtido a partir da fabricação de manteiga de primeira qualidade e cultura láctica. O cultivo lácteo utilizado foi do tipo inoculação direta, da Sacco® Lyofast Y 450 B, constituído por cepas de Lactobacillus delbruecki subsp. bulgaricus e Streptococcus salivarius subsp. thermophilus. As embalagens utilizadas foram de polietileno tereftalato (PET) com capacidade de 1000 mL, devidamente higienizadas. As análises físico-químicas de gordura e acidez foram realizadas de acordo com a metodologia descrita pelo Instituto Adolfo Lutz (6). O pH foi medido de acordo com a metodologia descrita na Instrução Normativa nº 30/2018 (7). A densidade relativa a 15 °C foi realizada de acordo com a metodologia descrita pela Instrução Normativa nº 68/2006 (8). O extrato seco total foi calculado pelo método indireto e o extrato seco desengordurado foi calculado pela diferença entre o extrato seco total e a gordura. Todas as análises físico- químicas das matérias-primas e das bebidas lácteas fermentadas foram realizadas em triplicata, conforme descritas a seguir. O teor de gordura foi determinado por meio do método de extração, utilizando butirômetro de Gerber. O pH foi medido com pHmetro portátil (Gehaka, PG1400) previamente calibrado com soluções tampões 4,01 e 6,86. A acidez foi determinada em % de ácido lático. A determinação do extrato seco total (EST) foi calculada pelo método indireto, fórmula de Fleischmann, a qual está descrita na Equação 1. % extrato seco total = 1,2 × G + 2,665 (100 × D - 100) D (Equação 1) Em que: G: gordura (%); D: densidade a 15 °C. O extrato seco desengordurado foi calculado pela diferença entre o extrato seco total e a gordura, conforme descrito na Equação 2. % extrato seco desengordurado = EST – G (Equação 2) Em que: EST: extrato seco total; G: gordura (%). Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 8 ANÁLISE ESTATÍSTICA A análise estatística dos dados foi realizada por meio da Análise de Variância (ANOVA) e os resultados foram submetidos ao teste de Tukey, com 5% de significância, utilizando o Software Minitab versão 19.1. Na figura 1, estão representados o soro de leite e leitelho antes da realização das análises físico-químicas. Figura 1 – Soro de leite e leitelho Fonte: elaborada pelos autores (2021) FORMULAÇÃO E FABRICAÇÃO DAS BEBIDAS LÁCTEAS FERMENTADAS Para a elaboração das bebidas lácteas, foram utilizados os ingredientes base com suas respectivas porcentagens, de acordo com a Tabela 1. Tabela 1 – Porcentagem dos ingredientes base para elaboração das bebidas lácteas Ingredientes base Formulações (%) F0 F1 F2 F3 Leite 50 50 45 40 Soro 50 40 30 25 Leitelho 0 10 25 35 Fonte: elaborada pelos autores (2021) As porcentagens foram desenvolvidas para a elaboração total de 1 L para cada formulação de bebida láctea. A formulação F0 (controle) foi desenvolvida com a mesma quantidade de leite e soro, sem a adição de leitelho. Já as formulações F1, F2 e F3, foram desenvolvidas com adição de 10%, 25% e 35% de leitelho, respectivamente. As bebidas lácteas foram elaboradas de acordo com a metodologia descrita por Gajo et al. (9) com adaptações, conforme Figura 2. SORO DE LEITE LEITELHO Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 9 Figura 2 – Processo para obtenção das bebidas lácteas fermentadas Fonte: elaborada pelos autores (2021) Para o preparo das bebidas lácteas, pasteurizou-se o soro de leite em micro-ondas (Panasonic, modelo NN-ST254WRU) com potência 10 Watts (W) a 75 °C por cinco minutos, prosseguindo com arrefecimento. Em seguida, foram adicionados o leite pasteurizado integral, o soro de leite e o leitelho em béqueres de um litro de capacidade, conforme as porcentagens de cada formulação, e procedeu-se ao aquecimento a 43 °C, temperatura ótima para a adição do fermento lácteo (Sacco® Lyofast Y 450 B), de inoculação direta, com dosagem de 10 UC (unidades padrão) para 1000 L de leite. O cultivo lácteo foi dissolvido em 1,0 L de leite pasteurizado e ocorreu a adição de 1,0 mL do inóculo para cada formulação. Na Figura 3, estão representados os ingredientes base com adição da cultura láctica. Figura 3 – Ingredientes base com adição da cultura láctica Fonte: elaborada pelos autores (2021) Posteriormente, as formulações foram envasadas, manualmente, em garrafas PET e incubadas em estufa a 45 °C (Mylabor, modelo SSB) por cerca de 5 horas. Ao atingir o valor de pH 4,7, as bebidas foram resfriadas a 20 °C por meio de banho de gelo concomitante à quebra de gel e, então, foram acondicionadas sob refrigeração, sob temperatura inferior a 10 °C, até o momento da realização das análises físico-químicas. As bebidas lácteas, após a fermentação e durante as análises, estão ilustradas nas Figuras 4 e 5, respectivamente. F0 F1 F2 F3 Pasteurização do soro de leite a 75 ºC/5 minutos Arrefecimento Mistura do leite, soro de leite e leitelho Aquecimento a 43 ºC Adição do fermento lácteo Envase em garrafas Incubação a 45 ºC/5 horas Resfriamento a 20 ºC Armazenamento a 6 ºC Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 10 Figura 4 – Bebidas lácteas após período de fermentação Fonte: elaborada pelos autores (2021) Figura 5 – Bebidas lácteas fermentadas no momento das análises Fonte: elaborada pelos autores (2021) RESULTADOS E DISCUSSÃO As médias dos resultados das análises físico-químicas de leite pasteurizado, soro de leite e leitelho estão descritos na Tabela 2. Tabela 2 – Caracterização físico-química do leite pasteurizado, soro de leite e leitelho (média ± desvio padrão, n = 3) Análises Produto LP SL LT Gordura (%) 3,00 ± 0,06a 0,30 ± 0,04c 1,00 ± 0,06b Acidez (% ácido lático) 0,14 ± 0,00b 0,08 ± 0,00c 0,23 ± 0,00a pH 6,76 ± 0,01a 6,58 ± 0,01b 3,84 ± 0,03c Densidade (g/mL) 1,0311 ± 0,44a 1,0269 ± 0,69b 1,0192 ± 0,35c EST (%) 11,66 ± 0,10a 7,33 ± 0,17b 5,22 ± 0,10c ESD (%) 8,62 ± 0,11a 7,03 ± 0,17b 4,22 ± 0,10c Legenda: LP – leite pasteurizado; SL – soro de leite;LT – leitelho. Médias com diferentes letras minúsculas na mesma linha diferem entre si estatisticamente a 5% de significância no teste de Tukey. Fonte: elaborada pelos autores (2021) Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 11 Os resultados de gordura, acidez, pH, densidade, EST e ESD, tanto para o leite pasteurizado, quanto para o soro de leite e leitelho, apresentaram diferença a 5% de significância. Os resultados obtidos para o leite pasteurizado e soro de leite estão de acordo com os parâmetros preconizados nas Instruções Normativas nº 76/2018 (10) e nº 94/2020 (11), do MAPA, que estabelecem os Regulamentos Técnicos de Identidade e Qualidade de Leite Pasteurizado e de Soro de Leite, respectivamente. A legislação brasileira não prevê parâmetros físico-químicos para o leitelho, portanto, não se pode afirmar que os valores obtidos estão conformes ou desconformes. Juliano et al. (12) encontraram valores para a gordura e para o pH de 1,3% e 6,6, respectivamente. Esses valores são superiores aos encontrados neste trabalho. No entanto, Ferreira e Lunkes (13) encontraram valor de 0,5% de gordura, enquanto Teixeira et al. (14) encontraram o valor de pH de 5,16. É importante destacar que diversos fatores como a raça das vacas, a alimentação, a temperatura ambiente, o manejo, o intervalo entre as ordenhas, a produção de leite e a presença de infecção da glândula mamária podem interferir na composição do leite (15; 16; 17) e, consequentemente, na composição do leitelho. Rigueira (18) realizou um estudo de desenvolvimento de metodologia analítica para detecção de adulteração de leite em pó e leite fluido com adição de leitelho, obtido pela bateção de creme de leite padronizado, tanto com água, quanto com leite desnatado, onde encontrou resultados de EST para o leitelho obtido da padronização de creme de leite com água que variaram de 3,75% a 8,79% e do leitelho obtido da padronização de creme de leite com leite desnatado variando de 6,96% a 10,0%. Walus (19) encontrou valor de 0,15% de ácido lático para o leitelho na elaboração de sorvete com adição de leitelho e substituição parcial de gordura. Martins (20) comparou a composição do leitelho ao leite desnatado e encontrou valor de 8,6% de ESD e densidade relativa a 20 °C de 1,029 g/mL. As diferenças na composição físico-química do leitelho podem ocorrer em virtude da constituição do creme e as variáveis operacionais em que a manteiga é produzida (21; 22). As médias das análises físico-químicas das quatro formulações de bebidas lácteas fermentadas estão descritas na Tabela 3. Tabela 3 – Caracterização físico-química das bebidas lácteas fermentadas (média ± desvio padrão, n = 3) Análises Produto F0 F1 F2 F3 Gordura (%) 1,97 ± 0,06a 1,80 ± 0,10a 1,77 ± 0,06ab 1,70 ± 0,10b Acidez (% ácido lático) 0,84 ± 0,01b 0,81 ± 0,01c 0,82 ± 0,01c 0,86 ± 0,01a pH 4,66 ± 0,02a 4,64 ± 0,05a 4,57 ± 0,14a 4,70 ± 0,05a Densidade (g/mL) 1,0292 ± 0,10a 1,0275 ± 0,24b 1,0263 ± 0,15c 1,0234 ± 0,40d EST (%) 9,90 ± 0,05a 9,26 ± 0,16b 9,16 ± 0,10c 8,12 ± 0,22d ESD (%) 7,93 ± 0,02a 7,46 ± 0,07b 7,30 ± 0,16c 6,42 ± 0,12d Legenda: F0 – 50% de leite pasteurizado e 50% de soro de leite; F1 – 50% de leite pasteurizado, 40% de soro de leite e 10% de leitelho; F2 – 45% de leite pasteurizado, 30% de soro de leite e 25% de leitelho; F3 – 40% de leite pasteurizado, 25% de soro de leite e 35% de leitelho. Médias com letras iguais na mesma linha não diferem entre si estatisticamente a 5% de significância no teste de Tukey. Fonte: elaborada pelos autores (2021) A formulação F0 (controle) não diferiu das demais formulações em relação aos valores de pH, porém diferiu da formulação F3 nos parâmetros acidez e gordura. Nos demais parâmetros físico-químicos (densidade, EST e ESD) a formulação F0 apresentou valores superiores às demais formulações. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 12 Em relação à gordura, foram encontrados valores que variam entre 1,70% e 1,97%, os quais corroboram aos encontrados por Pfrimer (2), que desenvolveu uma bebida láctea fermentada acrescida de leitelho e saborizada com polpa de cagaita, com valores de gordura que variaram de 1,18% a 2,70%. Ainda, os valores encontrados neste trabalho são superiores ao encontrado por Dias (23) no desenvolvimento de bebida fermentada simbiótica, o qual encontrou valor de 0,5%. O menor teor de gordura encontrado é devido à composição da bebida láctea, que apresenta menor teor de leite, o qual possui maior teor de gordura. Santos et al. (5), ao diminuírem a concentração de leite em bebida láctea fermentada de 80% para 20%, também obtiveram redução da gordura de 1,25% para 0,45%. As formulações F0 e F3 diferiram, estatisticamente, das demais formulações no teor de acidez. Resultados semelhantes foram encontrados por Gerhardt et al. (24), que variaram entre 0,72% e 0,91% de ácido lático em amostras de bebidas lácteas fermentadas utilizando soro de ricota e colágeno hidrolisado, porém, diferiram dos relatados por Almeida et al. (25), que variaram entre 0,48% e 0,50% de ácido lático, em bebidas lácteas fermentadas e preparadas com soro de queijo minas frescal. Essa diferença pode ser explicada pela elevada acidez do leitelho utilizado na elaboração das bebidas lácteas fermentadas deste trabalho. O pH das formulações não diferiram entre si a 5% de significância, sendo que os valores variaram entre 4,57 e 4,70, próximos ao encontrado por Dias (23), com valor de 4,73 e de acordo com Pfrimer (2), que encontrou valores entre 4,0 e 4,5. Almeida et al. (25) encontraram valores médios de 4,63, 4,56 e 4,61 na elaboração de bebidas lácteas fermentadas com 30%, 40% e 50% de soro de leite, respectivamente. Silva et al. (26) encontraram valores diferentes ao avaliar bebidas lácteas fermentadas, que variaram entre 3,91 e 4,16, porém os autores mediram o pH na última semana do prazo de validade das bebidas, enquanto no presente trabalho, o pH foi medido após o processo de fermentação. As diferenças relatadas na literatura podem estar relacionadas ao baixo pH do leitelho, uma vez que esse parâmetro influencia a atividade metabólica das bactérias utilizadas na fermentação, podendo favorecer um grupo específico de microrganismos. As formulações diferiram significativamente a 5% em relação à densidade, com valores variando entre 1,0234 g/mL e 1,0292 g/mL. Os resultados encontrados por Oselame (27), ao avaliar bebida láctea não fermentada com adição de 11,25% e 22,50% de permeado de soro de leite, foram de 1,0722 g/mL e de 1,0699 g/mL, respectivamente. De acordo com o autor, essa diferença pode ser explicada pela adição do permeado de soro de leite, que aumenta a densidade das bebidas. Os valores de extrato seco total diferiram-se em todas as formulações. Almeida et al. (25) encontraram valores que variaram entre 7,86% e 8,89%, próximos ao encontrado na formulação F3, que foi de 8,12% e menores quando comparados as formulações F0, F1 e F2. Cunha et al. (28) encontraram valor de 18,08% na avaliação de bebida láctea fermentada com 70% de leite e 30% de soro. Esse valor foi próximo ao encontrado por Barana et al. (29), que variaram entre 18,50% e 19,00% em bebida láctea fermentada feita com soro ácido de queijo quark. As diferenças podem ser explicadas pelos baixos valores de extrato seco total do soro de leite e leitelho utilizados no desenvolvimento deste trabalho. Em relação ao extrato seco desengordurado, houve diferença significativa entre todas as formulações. De acordo com Brasil (30), o extrato seco desengordurado é a junção de todos os componentes do produto com exceção da gordura. CONCLUSÕES Com base nos resultados obtidos neste trabalho, conclui-se que a formulação F0 Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 13 (controle) diferiu estatisticamente (p ≤ 0,05) das demais formulações,exceto para o parâmetro pH. As formulações F1, F2 e F3 que possuem 10%, 25% e 35% de leitelho, respectivamente, apresentaram resultados de gordura, acidez, pH, e extrato seco total próximos aos relatados na literatura. REFERÊNCIAS 1. Abreu A. 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Tese (Doutorado em Ciência Animal) - Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2016. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 16 10.53934/9786599539626.2 Capítulo 2 EFEITO DOS METABÓLITOS PRESENTES EM FERMENTADO ACÉTICO NA SAÚDE HUMANA Mariana de Paula Gomes1; Andriely Lucas Lima e Silva2; Fernanda T. de Sousa2; Iva Manoela Rocha Ataides2; Jeisa Farias de Sousa Santana2; Josemar Gonçalves de Oliveira Filho3; Mariana Buranelo Egea2 1Departamento de Genética e Evolução, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos (SP) Brasil; E-mail: marianadepaulagomes@gmail.com 2Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Goiano, Campus Rio Verde, Rio Verde, Goiás, Brasil; E-mail: drica_llucas@hotmail.com, manuella2008rv@hotmail.com, fernanda_sousago@hotmail.com,jeisa_faria@hotmail.com, mariana.egea@ifgoiano.edu.br 3Universidade Estadual de Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Araraquara-São Paulo; E-mail: josemar.gooliver@gmail.com Resumo: A grande apreciação por parte dos consumidores tem impulsionado a produção de vinagre dos mais variados substratos, como frutas, vegetais, mel, substratos ricos em amido, melaço ou caldo de cana e aguardentes, entre outros. Diante disso, o presente capítulo objetivou reunir informações acerca dos benefícios que os vinagres balsâmicos e de arroz proporcionam a saúde humana, averiguando quais compostos bioativos estão presentes em fermentados acéticos e como estes podem atuar no organismo de acordo com os estudos já realizados. Estudos anteriores com vinagre derivado de arroz e balsâmico apresentaram propriedades anticancerígenas, promovendo a necroptose e apoptose de células cancerosas humanas, alto poder antioxidante devido a presença de compostos fenólicos, além de beneficiar a saúde humana através de atividades anti-hipertensivas, anti-inflamatórias e redução no índice glicêmico. Concluiu-se que os vinagres balsâmicos e de arroz desempenham papel importante na promoção da saúde, e informações acerca desses benefícios são importantes para os consumidores que estão em busca de estilo de vida e alimentos mais saudáveis. Palavras-chave: vinagre, ácido acético, fermentação, saúde, benefícios INTRODUÇÃO O vinagre é um produto resultante da fermentação acética do vinho, realizada por bactérias acéticas. Este produto tem sido parte da alimentação humana desde a antiguidade, como condimento e conservante de alimentos. A grande apreciação por parte dos consumidores tem impulsionado a produção de vinagre dos mais variados substratos, como frutas, vegetais, mel, substratos ricos em amido, melaço ou caldo de cana e aguardentes, entre outros (1). Na produção de um vinagre estão envolvidos, basicamente, dois processos fermentativos: a fermentação alcoólica e a fermentação acética (2). A fermentação alcoólica é um método de preservação de alimentos e bebidas. É um processo catalisado por enzimas em que ocorre a degradação anaeróbica da glicose, com a transformação de açúcares em etanol e CO2. É realizado, principalmente, por leveduras, com o objetivo de obter energia na forma de ATP (Adenosina trifosfato), a qual será utilizada Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 17 para a realização de suas atividades fisiológicas, crescimento e reprodução, sendo o etanol, então, um subproduto desse processo (3). A maioria dos processos de produção de fermentados alcoólicos utiliza cepas de Saccharomyces cerevisiae, visto que estas culturas produzem fermentações mais rápidas e confiáveis (4). Dessa forma, as leveduras são selecionadas para otimizar o processo e intensificar a qualidade da matéria-prima, tendo como consequência um produto de melhor aceitabilidade e qualidade. Além disso, S. cerevisiae é mais tolerante aos produtos da fermentação e mudanças de pH no decorrer do processo fermentativo, e é produtora superior de etanol (5). A fermentação acética pode ser entendida como a transformação do álcool em ácido acético pela ação de determinadas bactérias, conferindo o gosto característico de vinagre. São as bactérias do ácido acético (BAA) que, em condições aeróbicas, oxidam o etanol a ácido acético, dando origem ao vinagre (6,7). Alguns tipos de vinagres são classificados com base em suas matérias-primas e processo de fermentação (8,4). Como exemplo, o vinagre de arroz, é o produto envelhecido e filtrado obtido da fermentação acética de açúcares derivados do arroz. É amplamente utilizado em pratos asiáticos porque não altera significativamente a aparência do alimento (9). O vinagre balsâmico foi produzido pela primeira vez na Itália. Existem dois tipos de vinagre balsâmico, tradicional e comercial. Vinagres balsâmicos tradicionais são alimentos artesanais, semelhantes aos vinhos, com longas histórias e procedimentos desenvolvidos para a sua produção. As uvas (que são cultivadas especificamente na região norte da Itália, perto de Modena) são deixadas na videira o maior tempo possível para aumentar o teor de açúcar, já que as uvas amadurecidas contêm maiores concentrações de açúcar. O vinagre balsâmico tradicional pode envelhecer até 25 anos. O envelhecimento ocorre em uma sucessão de barris feitos de uma variedade de madeiras, como castanheiro, carvalho e cereja (10). O trabalho em questão pretende observar os benefícios que os vinagres balsâmicos e de arroz proporcionam a saúde humana, averiguando quais compostos bioativos estão presentes em fermentados acéticos e como estes podem atuar no organismo de acordo com os estudos já realizados. VINAGRES: BALSÂMICO E DE ARROZ Os vinagres balsâmicos são produtos exclusivos, produzidos a partir da fermentação alcoólica e da bioxidação acética de mosto de uva cozido e concentrado localmente, variando o período de envelhecimento e os procedimentos de produção (11). Esses produtos são ricos em compostos fenólicos, tais como: catequinas, ácidos fenólicos, flavonóis, taninos (12) e compostos sintetizados durante o cozimento de mostos, como resultado da caramelização ou da reação de Maillard, como melanoidinas (13) que lhes dão uma forte atividade antioxidante (14). Os fermentados acéticos de arroz são produzidos usando o grão e até mesmo o resíduo, que será submetido aos processos de fermentação (alcoólica e acética). Estudos realizados no Japão sobre o fermentado acético de arroz, popularmente conhecido como Kurosu, demostraram que este produto apresenta alta atividade antioxidante, relacionada ao seu conteúdo fenólico. Propriedades como efeito antitumoral e redução do risco de aterosclerose, têm sido associados à atividade antioxidante desse produto (15, 16). MÉTODOS DE PRODUÇÃO DE VINAGRE Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 18 No processo de oxidação de etanol a ácido acético pelo método tradicional (lento, Orléans ou fermentação em superfície), as BAA crescem abundantemente em contato com o oxigênio formando uma camada de células na superfície do mosto fermentado (contendo etanol) e promovem a acetificação (17). No processo rápido alemão (ou Boerhave), as BAA estão aderidas a um material sólido (carvão, madeira) dentro de um tanque (gerador de vinagre ou vinagreira) ao qual se adiciona o vinho a ser acetificado (17). Na produção industrial emprega-se a fermentação submersa, na qual culturas de BAA são inoculadas em fermentador em processo semicontínuo para a obtenção de vinagre mais rapidamente (18 7). Em inóculos com população de BAA próxima de 106 células/mL, o processo lento pode ocorrer em 30 dias (19). ATIVIDADE ANTIOXIDANTE Os compostos fenólicos são estruturas químicas que apresentam hidroxilas e anéis aromáticos na forma simples ou em polímeros, que lhes confere poder antioxidante, destacando-se dentre eles os flavonoides, ácidos fenólicos, taninos e tocoferóis, como antioxidantes fenólicos mais comuns de fonte natural (4). É possível considerar então que, além do conteúdo de polifenóis totais, outros fatores podem interferir na capacidade antioxidante de vinagres, como por exemplo, a própria constituição de polifenóis totais. Ressalta-se que o vinagre de arroz analisado não é oriundo de arroz integral (não polido), e sim de arroz polido, o que diminui o seu valor nutricional e principalmente o conteúdo de polifenóis totais (4). Na determinação do teor de polifenóis totais de extratos (à base de acetato de etila) de diferentes tipos de vinagres, observaram que o valor encontrado para o vinagre produzido a partir de arroz não polido (112 mg.100 mL–1 de extrato) foi quase duas vezes superior ao encontrado no vinagre de arroz polido (64 mg 100.mL–1de extrato) (20). O teor de polifenóis noproduto final depende da concentração e da atividade de polifenoloxidase e do teor dos seus substratos, os ácidos fenólicos, além do pH, da temperatura e da concentração de oxigênio dissolvido no suco (20). ATIVIDADE ANTI-HIPERTENSIVA A hipertensão arterial sistêmica (HAS) está vinculada há uma classe de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) com alta prevalência e ampla distribuição geográfica. Representa uma das principais causas de morbidade e mortalidade, com grave problema na saúde pública. Essa patologia é reconhecida por uma disfunção endotelial – camada unicelular presente no interior dos vasos sanguíneos – decorrente de inúmeras interações que se manifestaram com a evolução do estilo de vida dos seres humanos, caracterizando uma situação clínica multifatorial determinada por níveis de pressão arterial (PA) elevada (21 22). De acordo com a Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial referente à 2020, a hipertensão arterial é considerada controlada quando o indivíduo/paciente está sob terapêutica de anti-hipertensivos e o mesmo permanece com a PA controlada segundo as recomendações (≤ 140 e/ou 90 mmHg), assim sendo, o principal objetivo dos anti- hipertensivos é a redução da morbidade e da mortalidade cardiovascular além de reduzir a PA (23). Os polifenóis são encontrados em diferentes alimentos como frutas, vinho, sucos de uva, vinagres em diferentes concentrações e etc. Atualmente este composto é alvo de inúmeras pesquisas por exibir atividade antirradical livre e ação na inibição oxidativa, logo, Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 19 a alta concentração desses compostos nos vinagres Balsâmicos e no vinagre de arroz desempenham um papel importante na saúde humana (4). A ingestão regular de substâncias com essas propriedades regulam a permeabilidade dos capilares sanguíneos permitindo o fluxo contínuo de nutrientes essenciais, assim como oxigênio, além de atuar na prevenção da oxidação do LDL (lipoproteína de baixa densidade), através da redução de radicais livres e quelação de íons metálicos, e nas proteínas contráteis do sistema cardiovascular com ações hipotensoras (24 25 ) Em 2000, Nishidai (15) e colaboradores avaliaram o acetato de etila em diferentes extratos de vinagre no intuito de comparar suas atividades antioxidantes, e observaram que Kurôzu (tipo de vinagre de arroz) em peles de rato in vivo e in vitro obtiveram uma atividade substancial na peroxidação lipídica com maiores concentrações de: polifenóis totais, antioxidante lipofílicos, maior atividade de antioxidante além do efeito inibidor do estresse oxidativo. A disfunção endotelial é estabelecida quando há um estresse oxidativo caracterizado por desequilíbrio entre compostos oxidantes e antioxidantes, em favor da geração excessiva de radicais livres ou em dano da velocidade de remoção desses radicais. Em casos de danos o estresse é ocasionado pelo declínio da atividade e disponibilidade do óxido nítrico (ON). Esse mecanismo tem sido extensamente pesquisado no intuito de elucidar as possíveis interações dos compostos bioativos, com ênfase nos polifenóis, em doenças arteriais (21 22). O ON é produzido por células endoteliais que em condições basais, são essenciais no processo de relaxamento da musculatura lisa dos capilares através de mediadores químicos como, acetilcolina, adenosina difosfato, serotonina entre outros. Essas substâncias químicas possuem atividade sobre as células desse tecido que logo interagem com receptores do tipo muscarínico, levando a ativação da enzima óxido nítrico sintase endotelial (e-NOS) e em seguida a formação de ON. Uma vez produzidos, o ON atravessa o espaço entre o endotélio e o músculo liso vascular e estimula a enzima guanilato ciclase solúvel (sGC) que posteriormente sofre ação bioquímica formando monofosfato cíclico de guanosina (cGMP) intracelular, e reduz o influxo de Ca2+ através do sarcolema resultando no relaxamento endotelial (26 21 27 22 28). O endotélio vascular, quando danificado por fatores de risco, perde sua função fisiológica de proteção progressivamente e modifica suas funções regulatórias resultando na disfunção endotelial. Entre os fatores que causam dano ao endotélio há a presença de espécies reativas de oxigênio (ERO) e as espécies reativas de nitrogênio (ERN), essas espécies são encarregadas por danificar a função endotelial celular e por sua complicação na aterogênese. O estresse oxidativo pode reagir com moléculas de ON através de ânions superóxidos e lipoproteínas de baixa densidade oxidadas (LDLs-ox), e diminuir sua atividade. Esses radicais livres atuam sobre os receptores endoteliais e os desativam impossibilitando a ligação de moléculas químicas responsáveis por estimular e-NOS e consequentemente reduzindo a produção de ON prejudicando o sistema de relaxamento muscular mediado por essas moléculas (22 28). ATIVIDADE ANTITUMORAL E ANTI-INFLAMATÓRIA A promoção da saúde baseado em propriedades do vinagre tem sido historicamente relatados em vários estudos, além dos fins medicinais e efeitos terapêuticos, pode-se citar o vinagre como um agente antimicrobiano e na prevenção de doenças associadas ao câncer, hipertensão, colesterol, etc (29). Há evidências científicas acerca do uso medicinal de vinagre, destacando as funções do mesmo como agente anti-glicêmico como relatado por (30). Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 20 Os compostos polifenólicos dispõe de uma eminente atividade bioquímica englobando aquelas que podem influenciar positivamente nos processos fisiológicos que são desregulados durante o desenvolvimento do câncer, incluindo principalmente, atividades antioxidantes, ação sobre a expressão gênica alterada bem como sobre as proteínas que controlam a progressão do ciclo celular e o efeito de eliminação em carcinógenos ativados e mutagênicos (31). Os radicais livres pertencentes ao nosso organismo é crítico na manutenção de inúmeras funções fisiológicas, pois esses radicais podem ser processados no citoplasma, na mitocôndria ou membrana celular, uma vez que, seu interesse celular está relacionado com seu sitío de formação, seu alvo poderá ser moléculas de proteínas, lípidos, carboidratos e DNA (Ácido Desoxirribonucléico). A morte ou danos em tecidos e células provocados pelo processo de oxidação está intimamente interligado com a etiologia de inúmeras doenças como cardiopatias, arterosclerose, diabetes, doenças inflamatórias, doenças neurológicas entre outras, no entanto, os danos ocasionados em DNA desempenham um papel significativo em processos de mutagêneses e carcinogênese (32). Lesões em DNA mitocondrial apresentam uma maior relevância, pois a mesma é uma das principais fontes de RLO (Radicais Livres de Oxigênio) e seu DNA exibe altos níveis de radicais livres, logo, o DNA mitocondrial é o principal alvo de agentes químicos carcinogênicos, uma vez que, esses DNA são lesionados por radical hidroxila os mesmo sofrem alterações nas bases nitrogenadas e/ou quebra de moléculas (33). Estudos realizados com vinagre derivado de arroz, o Kurôsu, e outro vinagre preto japonês derivado de arroz integral, revelaram propriedades anticancerígenas promovendo a necroptose e apoptose de células cancerosas humanas. Segundo (34), o tratamento Kurusu inibiu a proliferação de células cancerígenas (cólon adenocarcinoma, carcinoma pulmonar, adenocarcinoma de mama, carcinoma da bexiga, e células de carcinoma da próstata) (35 36 37). Em relação à indução de apoptose de Kurôsu, não houve um consenso entre os estudos publicados possivelmente devido às diferenças nos métodos de fabricação do vinagre, o que influencia muito no mecanismo de ação dos compostos de Kurôsu (38). Além de todos compostos antioxidantes que já foram estudados acerca do uso de vinagre na alimentação, foi relatado que o ácido acéticooriundo do vinagre mostrou uma sensibilidade promissora, especificidade e precisão para o exame de câncer bucal (39). CONCLUSÃO A partir de informações reunidas neste artigo, conclui-se que os vinagres balsâmicos e de arroz apresentam atividades promotoras da saúde humana das quais já foram comprovadas por meio de estudos in vitro e in vivo, como atividade anti-hipertensiva, anti- inflamatória, antitumoral além de um alto poder antioxidante. Os hábitos alimentares do consumidor estão em constante mudança e nas atuais circunstâncias do mundo de hoje, estão em busca de alimentos funcionais e terapêuticos com intuito da melhora da saúde e melhor estilo de vida. Neste sentido, o artigo proporcionou informações sobre vinagres balsâmicos e de arroz e os efeitos positivos em relação à saúde. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 1. Fernandes ACF. Produção e caracterização de fermentado alcoólico e vinagre de físalis e pitaia como estratégia de aproveitamento tecnológico. Dissertação (Mestrado em Microbiologia Agrícola)-Universidade Federal de Lavras, Lavras, Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 21 2016, 108 p. Disponível em: http://repositorio.ufla.br/jspui/handle/1/10909. 2. Suman PA., Leonel M. Obtenção de vinagre a partir de mandioca e gengibre. Energia na Agricultura, 2013, v. 28, n. 1, p. 52-56. 3. Lima UA, Aquarone E, Borzani W, Schmidell W. Biotecnologia Industrial: Processos Fermentativos e Enzimáticos. São Paulo. 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E-mail: ellen.godinho@ifgoiano.edu.br 3Discente do Curso de Superior em Tecnologia de Alimentos - TAL – IF Goiano; E-mail: biafer2308@gmail.com. 4 Docente Depto de alimentos – TAL – IF Goiano. E-mail: dayana.soares@ifgoiano.edu.br 5Docente Depto de alimentos – TAL – IF Goiano. E-mail: ana.stort@ifgoiano.edu.br Resumo: O pescado desde a antiguidade é, uma importante fonte de alimentos e a aquicultura no Brasil vem crescendo a cada ano superando a taxa da pecuária. Mesmo com o crescimento gradual, o consumo nacional de pescado ainda é relativamente baixo, devido principalmente pela falta de qualidade destes. Esse trabalho teve como objetivo avaliar o efeito do tempo de estocagem no tambacu armazenado com escamas e sem escamas. Os peixes foram analisados fresco e nos tempos 40 e 80 dias sob congelamento, com e sem escama. Foram realizadas análises microbiológicas de presença de coliformes fecais, Salmonella sp. e Staphylococcus aureus, os resultados estavam dentro da legislação vigente durante todo o período de estocagem. Palavras-chave: análises microbiológicas; congelamento; tambacu INTRODUÇÃO O pescado desde a antiguidade é, uma importante fonte de alimentos. Ele se destaca nutricionalmente quanto à quantidade e qualidade das suas proteínas, à presença de vitaminas e minerais e, principalmente, por ser fonte de ácidos graxos essenciais ômega- 3, eicosapentaenoico e docosaexaenoico (1). A cada dia tem aumentado o interesse do público em relação à segurança alimentar e por alimentos mais nutritivos, passando a ser fundamental a determinação das condições de higiene e a determinação das características do alimento, bem como para demonstrar seu valor nutricional perante o consumidor (2). O crescimento da aquicultura no Brasil vem crescendo a cada ano, a taxa de crescimento é superior à da pecuária, um dos peixes mais cultivados na aquicultura tem sido o tambacu que apresenta características superiores às do pacu no que se refere ao crescimento e qualidade de carne, e características superiores ao tambaqui, no que refere à resistência (3). Mesmo com o crescimento gradual, o consumo nacional de pescado ainda é relativamente baixo, devido principalmente pela falta de qualidade destes, pois é o alimento de origem animal com maior probabilidade de deterioração, principalmente por apresentar pH próximo a neutralidade, elevada atividade de água nos tecidos, alto teor de nutrientes facilmente utilizáveis pelos micro-organismos, acentuado teor de fosfolipídios e rápida ação mailto:maecelo_h6@hotmail.com mailto:ellen.godinho@ifgoiano.edu.br Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 25 destrutiva das enzimas presentes nos tecidos e nas vísceras do peixe (4). Visando os quesitos de qualidade e valor nutricional, passa a ser importante o estudo por métodos mais eficientes de armazenamentos procurando a preservação das características nutritivas com menor perda possível e com garantia de qualidade. Este trabalho tem o objetivo de avaliar o efeito do tempo de estocagem para “tambacu” armazenado com escamas em relação ao mesmo armazenado sem escamas, através de análises microbiológicas e físico-químicas. MATERIAL E MÉTODOS A matéria-prima foi obtida de um pesqueiro localizado no município de Nova Olímpia – MT, onde foram capturados 25 peixes selecionados através de sua espécie e tamanho, com o tamanho mínimo de 40 cm e máximo de 45 cm. Os peixes foram colocados imediatamente em gelo até serem levados ao Laboratório de Tecnologia de Alimentos da Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT de Barra do Bugres, onde os peixes foram eviscerados e lavados em água corrente. Os peixes foram eviscerados e limpos, em seguida dos 20 peixes capturados, 10 foram conservados com escamas, 10 descamados para as amostras que seriam estocadas sob congelamento e 5 destinados para as amostras frescas. Os peixes foram separados em amostras frescas, e amostras estocadas sob congelamento com escama e sem escama. As amostras para o congelamento foram acondicionadas em sacos plásticos e estocadas separadamente por 40 e 80 dias, a temperatura de -18°C. As análises microbiológicas e físico-químicas foram realizadas em triplicatas, sendo que as primeiras foram realizadas nos peixes frescos acondicionados apenas em gelo durante o transporte até os laboratórios. Já as análises posteriores foram realizadas nos peixes estocados sob congelamento no intervalo de 40 e 80 dias, conforme descrito no fluxograma abaixo. Figura 1 - Fluxograma do processo de obtenção e análise dos peixes Fonte: Os autores Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 26 ANÁLISES FÍSICO-QUÍMICA As análises foram realizadas logo após a evisceração do peixe em tempo zero, e durante os períodos 40° e 80° dias de estocagem sob congelamento a -18°C. O acompanhamento da estabilidade do peixe foi realizado através da medida de umidade, acidez total titulável, pH e cinzas, sendo desempenhadas em triplicatas e realizadas no Laboratório de Química da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), Campus de Barra do Bugres, conforme a metodologia descrita do Instituto Adolfo Lutz (2008). As análises de lipídios e proteínas foram realizadas no Laboratório de Análise de Alimentos LTDA - LAPOA, localizada em Várzea Grande – MT. Umidade O método baseou-se na evaporação da água presente de uma amostra de 5 g, em estufa a 105°C por 24 horas, até peso constante, de acordo com o método 013/IV. Acidez total titulável A acidez total titulável foi determinada por meio de titulação com solução de hidróxido de sódio (NAOH) a 0,1N, estimada segundo o método 016/IV. pH O pH foi determinado em um pHmetro de bancada, e os resultados foram expressos em unidades de pH, de acordo com o método 017/IV. Cinzas As cinzas foram determinadas de acordo com o método 018/IV. Esse procedimento baseou-se na perda de peso do material. O material foi incinerado em forno mufla a 550°C, até peso constante, incinerando a matéria orgânica sem considerável degeneração dos constituintes do resíduo mineral ou perda por volatilização. Lipídios As análises foram realizadas no Laboratório de Análise de Alimentos LTDA – LAPOA/MT, segundo a Instrução Normativa I.N.25/2011 do MAPA (5). Proteínas As análises foram realizadas no Laboratório de Análise de Alimentos LTDA – LAPOA/MT, conforme a Instrução Normativa I.N.25/2011 do MAPA (5). ANÁLISE MICROBIOLÓGICA As avaliações da carga microbiana presente no peixe foram realizadas em cada etapa de estudo, acompanhadaspela avaliação físico-química, bem como realizadas no tempo zero, 40° e 80° dia de estocagem sob congelamento. As análises microbiológicas foram realizadas conforme os Padrões Microbiológicos Sanitários para Alimentos, recomendada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), de acordo com a Resolução – RDC n° 12, de 2 de janeiro de 2001 (6). Assim foram avaliadas a presença de coliformes fecais, Salmonella sp.e Staphylococcus aureus. As análises do Número mais Provável de Coliformes Totais e Fecais, foram realizadas no Laboratório de Microbiologia da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), Campus de Barra do Bugres, conforme a metodologia descrita por Siqueira Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 27 (1995). As análises para a determinação da presença ou ausência de Salmonella sp. e Staphylococcus aureus, foram realizadas no Laboratório de Análise de Alimentos LTDA – LAPOA/MT, localizada em Várzea Grande – MT, conforme a metodologia descrita. Staphylococcus aureus Baseou-se na inoculação das diluições desejadas das amostras sob teste em caldo telutito manitol glicina, com posterior confirmação em ágar Baird-Parker. Foram realizadas no Laboratório de Análise de Alimentos LTDA – LAPOA/MT, conforme a I.N. 62/2003 (7). Salmonella sp. Foram realizadas no Laboratório de Análise de Alimentos LTDA – LAPOA/MT, conforme a metodologia AOAC 996.08. Coliformes fecais A análise de coliformes fecais foi desenvolvida através da técnica do número mais provável (NMP) (8). ANÁLISE ESTATÍSTICA Para análise estatística, os dados foram submetidos à análise de variância (ANOVA) sendo, em seguida, comparadas as médias pelo teste de Tukey, com nível de significância previamente estabelecido em 5% (p<0,05). RESULTADOS E DISCUSSÃO A figura 2 abaixo apresenta os resultados das análises do Tambacu fresco e as tabelas 1 e 2 os resultados das análises sob armazenamento. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 28 Figura 2 – Composição do tambacu fresco Fonte: Os autores Tabela 1 – Análises físico-químicas (média ± desvio padrão) de umidade, acidez e pH do tambacu com escama e descamado em diferentes períodos de estocagem sob congelamento. Tempo de Estocagem Dias Umidade (%) Acidez (%) pH Peixe fresco 0 73,00±0,02a 3,70±0,003d 6,47±0,06a Com escama 40 75,00±0,4a 6,75±0,05ab 6,44±0,06a Com escama 80 74,80±0,8a 5,25±0,05c 6,41±0,06ab Sem escama 40 71,76±0,04a 7,30±0,0a 6,33±0,12ab Sem escama 80 70,00±0,015a 5,80±0,5bc 6,22±0,0b * As médias seguidas pela mesma letra não diferem estatisticamente entre si. Fonte: autores. Tabela 2 – Análises físico-químicas (média ± desvio padrão) de cinzas, umidade e proteínas do tambacu com escama e descamado em diferentes períodos de estocagem sob congelamento Tempo de Estocagem Dias Cinzas (%) Lipídios (%) Proteínas (%) Peixe fresco 0 1,17±0,31a 4,59±0,0a 19,51±0,2bc Com escama 40 1,14±0,02a 0,95±0,02b 22,47±0,06a Com escama 80 1,15±0,02a 1,92±0,04b 17,75±0,4c Sem escama 40 1,27±0,19a 1,53±0,01b 22,24±0,07ab Sem escama 80 1,15±0,05a 3,54±0,2a 20,13±0,05abc * As médias seguidas pela mesma letra não diferem estatisticamente entre si. Fonte: autores 73,00% 1,17% 4,59% 19,51% 1,73% Composição do peixe fresco Umidade Cinzas Lipídios Proteínas Outros Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 29 Segundo autores a umidade dos peixes pode variar de 60 a 85%, a proteína de 15 a 23%, o lipídio de 0,6 a 36%, a cinzas de 1 a 2% e o carboidrato de 0,3 a 1,0% (9). Portanto foi possível observar que os resultados encontrados de umidade, pH, cinzas, lipídios e proteínas estão dentro da composição média do pescado conforme especificado na Figura 2. Estudos da composição química de peixes de água doce frescos e estocados sob congelamento, obtiveram valores para pacu de 67,31% de umidade, 16,88% de proteína e 1,12% de cinzas, valores estes próximos, com exceção do lipídio que foi superior ao observado neste estudo (10). Demais estudos tiveram resultados de 77,13%, 1,09%, 19,36% e 2,60 %, para umidade, cinzas, proteínas e lipídios respectivamente, valores estes semelhantes ao presente estudo (11). Já ao estudar o valor nutricional do pescado do mar durante o congelamento, alcançaram resultados de 77,38% de umidade, 1,17% de cinzas, 19,75% de proteína e 1,22% de lipídios, resultados próximos aos valores encontrados neste trabalho (12). O congelamento não ocasionou uma alteração significativa no teor de umidade, porém o tambacu estocado com escama por 40 e 80 dias houve um pequeno aumento na umidade com o congelamento em relação à amostra fresca, já para o tambacu sem escama ocorreu uma leve queda na umidade em relação ao mesmo período. A diferença encontrada na umidade entre as duas amostras (com escama e sem escama), se deve a aplicação de forças externas, como corte, trituração, prensagem e congelamento (13). O peixe quando congelado e estocado, pode apresentar problemas de desidratação quando a superfície deste está exposta (13). Autores constataram que a umidade do pacu aumentou com o congelamento expressivamente tanto para o pacu com pele e sem pele (10). A perda de água nas amostras tem relação direta com o pH, onde quanto maior o valor de pH existente maior a tendência de retenção de água (13). O que foi atestado por este estudo onde, os valores de pH e umidade foram proporcionais, ou seja, quando maior o índice de pH nos peixes congelados maiores a umidade das amostras, independente da amostra com ou sem pele e do tempo de estocagem. Os valores encontrados para o pH no intervalo de 6,22 a 6,47 nos diferentes períodos de estocagem, mostram que os valores estão dentro do estabelecido pelo Regulamento de inspeção industrial e sanitária de produtos de origem animal (RIISPOA) aprovado pelo DECRETO nº 30.691, de 29/03/1952 em seu Artigo nº 443, que estabelece para a carne externa pH inferior a 6,8 e para interna pH inferior a 6,5 nos peixes (14). Com o tempo da estocagem sob congelamento percebeu-se que o índice de pH das amostras caiu, porém quando se compara o peixe com e sem escama, este teve diferença mais acentuada na queda do pH. Autores encontram um valor de pH entre o intervalo de 6,29 a 6,57 para os peixes pacu, palmito, cachara e barbado armazenados sob congelamento, são semelhantes ao presente trabalho (13). Ocorreram flutuações na acidez do peixe em função do tempo de estocagem sob congelamento. Constatou-se que no período de armazenamento (40 e 80 dias), independentemente nas amostras com ou sem escamas houve aumento significativo ao nível de 5% para acidez, em comparação ao peixe fresco. O armazenamento sob congelamento está associado ao ranço, podendo este, ser o motivo pelo aumento da acidez após o congelamento, uma vez que, a oxidação lipídica está na origem do desenvolvimento do ranço (15,16). Com relação ao teor de cinzas, os resultados obtidos mostraram-se próximos dos resultados encontrados por demais autores (13, 17). A retirada da escama elevou o teor de cinzas no tambacu no período de estocagem de 40 dias. A composição química da carne do pescado está relacionada com a espécie, condições fisiológicas, condições ambientais, alimentação e da parte do corpo analisada (18), portanto essa diferença no teor de cinzas pode estar relacionada com a parte do corpo analisada. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 30 O peixe fresco do presente estudo, pode ser considerado semi-gordo, por apresentar teor de gordura entre 2,5% à 10% segundo classificações (18). O maior teor de lipídios foi observado na amostra fresca, que não foi submetida à estocagem sob congelamento, resultado este também encontrado por demais autores para a tilápia em diferentesperíodos de estocagem sob congelamento (15). O teor mínimo de gordura (0,95% e 1,53%), respectivamente para o tambacu com escama e sem escama, foi registrado para as amostras armazenadas durante 40 dias. Para o peixe congelado com escama independentemente do período de estocagem e para o peixe sem escama no período de 40 dias, houve uma redução significativa ao nível de 5% em relação ao peixe fresco. Sendo que foi observado na amostra sem escama de 80 dias um aumento significativo do teor de gordura em relação ao mesmo no período de 40 dias. As diferenças no teor de lipídios durante o armazenamento congelado podem ser associadas a oxidação de gorduras (15). Com relação às proteínas o peixe analisado é considerado uma boa fonte de nutrientes, por apresentar valores entre 17,75% e 22,47%. A armazenagem sob congelamento por diferentes tempos provocou oscilações no teor de proteínas, sendo que para o período de 40 dias para o peixe com escama houve um aumento significativo ao nível de 5% desta propriedade em relação ao peixe fresco, entretanto não houve diferença significativa entre os tempos de estocagem sob congelamento em ambos os tratamentos. Os resultados encontrados por este estudo estão de acordo com os achados por outro estudo (12). Essa oscilação encontrada na proteína em diferentes períodos de estocagem sob congelamento também foi verificada para carpa comum, pacu, piauaçu e tilápia do Nilo (10). A tabela abaixo mostra os resultados obtidos através das análises microbiológicas. Tabela 3 - Análise microbiológica do tambacu com escama e descamado em diferentes períodos de estocagem sob congelamento Amostra Salmonella sp. Staphylococcus aureus Coliformes Fecais Peixe fresco (Tempo zero) Ausência em 25g < 102 UFC/g < 101 UFC/g Com escama 40 dias Ausência em 25g <10¹ UFC/g 10¹ UFC/g Sem escama 40 dias Ausência em 25g 4,0X10¹UFC/g 10¹ UFC/g Com escama 80 dias Ausência em 25g <1,0X10²UFC/g <1,0X10¹UFC/g Sem escama 80 dias Ausência em 25g <1,0X10²UFC/g <1,0X10¹UFC/g * Unidades formadoras de colônia Fonte: Os autores. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), por meio da RDC n° 12, de 2 de janeiro de 2001, determina para Staphylococcus aureus de, no máximo, 10³ UFC/g para o pescado in natura ou congelado (6). Sendo assim em todas as amostras avaliadas as contagens de Staphylococcus aureus UFC/g, não ultrapassaram o padrão de tolerância máxima permitida pela legislação, indicando que os procedimentos higiênico-sanitários foram aplicados corretamente durante a captura, transporte, manuseio e estocagem. Quando se compara as análises do peixe com e sem escama, nota-se uma diferença na carga microbiana, sendo que o peixe sem escama obteve uma contaminação maior. As escamas e a pele nos peixes possuem a finalidade de barreiras contra a penetração de organismos patogênicos, portanto a perda dessas escamas favorece contaminação (19). Demais estudos também não encontraram nenhuma colônia de Staphylococcus (20). Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 31 Na análise de Salmonella sp não foi constatada presença, mostrando que a manipulação do pescado durante o período de estocagem obedeceu aos princípios de higiene. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), por meio da RDC n° 12, de 2 de janeiro de 2001, que determina ausência de Salmonella em 25g para o pescado in natura ou congelado (6), considera as amostras dentro da legislação vigente. Os resultados das análises de Coliformes fecais estão dentro do estabelecido pela International Commission on Microbiologycal Specifications for Foods (ICMSF), que estabelece para o pescado “in natura” refrigerado a 4°C ou congelado a -18°C o padrão para avaliação de coliformes 45°C de no máximo 103 NMP/g (21). De acordo com os resultados das análises de coliformes fecais o NMP/g permaneceu constante indicando assim que o procedimento de estocagem e manuseio das amostras foi adequado, como mostrado na tabela abaixo. Tabela 4 - Análise do pH e coliformes fecais da água onde o peixe foi capturado Amostra pH Coliformes fecais Água do tanque 6,7 < 101 UFC/g Fonte: autores. O pH da água encontrou-se dentro da faixa aceitável segundo o Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA que através da Resolução n° 20, de 18 de junho de 1986 estabeleceu pH de 6 a 9 para água destinada à criação natural e intensiva (aquicultura) de espécies destinas para a alimentação humana (22). O resultado obtido para coliformes fecais estão dentro do estabelecido pela CONAMA que definiu através da Resolução n° 357, de 17 de março de 2005 a quantidade de coliformes fecais para águas destinadas à aquicultura de 1000 coliformes para cada 100 ml de água (23). CONCLUSÕES O resultado encontrado mostra que o peixe é uma boa fonte de proteína, gordura e minerais e que a qualidade do peixe fresco é melhor do que estocado sob congelamento. Com os resultados alcançados é possível concluir que as diferentes formas de estocagem do peixe (com escama e descamado) e o período de armazenamento das amostras, obtiveram valores satisfatórios. As análises microbiológicas realizadas sobre os peixes, fresco e congelado, apresentaram baixa concentração de Staphylococcus aureus, coliformes fecais e ausência de Salmonella spp, sendo que estes resultados se encontram dentro da legislação vigente, segundo a RDC nº12, de 02 de janeiro de 2001 da ANVISA. Todas as análises sob os aspectos físico-químicos estão de acordo com os padrões encontrados por outros autores com estudos similares a este, indicando que o tambacu independentemente de seu período de estocagem entre 0 a 80 dias está apto ao consumo. Porém, mais trabalhos são necessários para confirmar esse estudo, sendo que, em experimentos futuros mais variáveis devem ser analisadas, como um intervalo maior de tempo de estocagem, para que possa determinar o melhor método de armazenamento e seus efeitos sobre o valor nutricional do peixe. REFERÊNCIAS 1. Sartori AGO, Amancio RD. Pescado: importância nutricional e consumo no Brasil. Segur. Aliment. Nutr. 2012; 19 (2): 83 – 90. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 32 2. Marins BR, Tancredi RCP, Gemal AL. Segurança alimentar no contexto da vigilância sanitária: reflexões e práticas. Rio de Janeiro: EPSJV; 2014. 3. Matia F. 4° encontro de negócios da aquicultura da Amazônia políticas e programas para a aquicultura no Brasil; 25-29 outubro 2011; Brasília (DF). Anais: Manaus suframa; 2005. 4. Soares KMP, Gonçalves AA. Qualidade e segurança do pescado. Rev. Inst. Adolfo Lutz. 2012; 71 (1): 1-10. 5. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Brasil). 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Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 34 10.53934/9786599539626.4 Capítulo 4 DESENVOLVIMENTO DE GELEIA DIET DE MORANGO E YACON Aline Soares de Oliveira1; Eliane Vale da Silva2; José Jurandir de Toledo Neto3 1Estudante de Doutorado da Pós-Graduação em Biotecnologia- PPG-Biotec- UFSCar; E-mail: aline- oliveira19@hotmail.com 2Estudante de Doutorado da Pós-Graduação em Alimentos e Nutrição- UNESP; E-mail: valeelianevs@gmail.com 3Estudante de Mestrado da Pós-Graduação em Alimentos e Nutrição- UNESP; E-mail: jjtoledont@gmail.com Resumo: Os alimentos funcionais são considerados a nova tendência do mercado alimentício, devido a procura por produtos mais saudáveis. O objetivo deste trabalho foi desenvolver geleias de morango diet acrescida de yacon, a fim de atender diabéticos e como uma opção de alimento funcional, rico em fibra solúvel, além de avaliar as características físico-quimicas e microbiológicas do produto. As análises realizadas foram: pH; teor de sólidos solúveis (ºBrix); atividade de água (Aw); acidez titulável; umidade; cinzas; proteínas; lipídios totais; fibra; carboidratos totais e bolores e leveduras e cor expressa como valores de L*, a*, b*. As geleias foram elaboradas em três formulações F1 (100% morango), F2 (75% morango e 25% yacon), F3 (25% morango e 75% yacon) com uma proporção de polpa e adoçante de 1: 0,06 e de polpa e goma xantana de 1: 0,002. Os dados foram submetidos à análise de variância (Anova), e as médias foram comparadas pelo teste de tukey (p>0,05) usando o programa BioEstat. Observou-se diferenças significativas entre as formulações nas análises de atividade de água, acidez titulável, proteína, cinzas e cor. Palavras-chave: alimentos funcionais; geleias; morango; prebióticos; yacon INTRODUÇÃO As geleias são consideradas como um dos produtos de maior importância para a indústria de conservas de frutas brasileiras, sendo obtidas pela cocção de frutas inteiras ou em pedaços, polpa ou suco de frutas, adicionadas de açúcar e água, e concentrado até consistência gelatinosa (1,2). Na busca por uma alimentação saudável, os alimentos funcionais fornecem os nutrientes básicos para a dieta, apresentando benefícios para o funcionamento metabólico e fisiológico, à saúde física e mental e prevenindo de doenças crônicas degenerativas (3). O yacon (Smallanthus sonchifolia) é uma raiz tuberosa, oriunda da região Andina, podendo ser considerada como alimento nutracêutico em decorrência de seus componentes designados, como fibras alimentares solúveis e prebióticas, contendo estocados em suas raízes tuberosas os açúcares, tais como frutose, glicose, sacarose e, principalmente oligossacarídeos (com alto poder adoçante e baixo valor calórico) do tipo β (2→1) frutooligossacarídeos com terminal sacarose, denominados frutanos do tipo inulina (4). O morango é um pseudofruto perecível, devido à alta taxa de respiração, baixa resistência mecânica e suscetíveis a ataques de patógenos, tendo sua vida útil de aproximadamente 5 dias quando refrigerados, sendo a preparação de geleias uma alternativa economicamente viável de reduzir desperdícios de frutas que estão próximos ao fim de sua vida de prateleira (5,6). Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 35 No presente estudo, o trabalho teve como objetivo desenvolver geleias de morango diet acrescida de yacon, a fim de atender diabéticos e como uma opção de alimento funcional. MATERIAIS E MÉTODOS Inicialmente, o morango e o yacon foram higienizados em água corrente e mantidos em solução de água clorada à 2% por 15 minutos. Em seguida, o morango foi picado e procedeu a cocção em tacho aberto sob agitação. Para o retardamento da ação enzimática a yacon foi descascada, fatiada e imersas em solução a 1% de ácido cítrico por 2 minutos, seguido de trituração em liquidificador e imediata cocção por 30 minutos. A goma xantana (diluída 15 mL de água) e o xilitol foram acrescentados no momento da fervura, como descritos na figura 1. Figura 1 - Fluxograma de processamento para obtenção das geleias de yacon com morango diet. Fonte: Autoria própria. As geleias foram elaboradas em três formulações F1 (100% morango), F2 (75% morango e 25% yacon), F3 (25% morango e 75% yacon), todas com proporção de polpa e adoçante de 1: 0,06 e polpa e goma xantana de 1: 0,002. As formulações apresentam-se na Figura 2. Higienização com água Sanitização com Hipoclorito por 15 minutos Morango picado Yacon descascado Cocção Imerso em solução à 1% ácido cítrico por 2min. Fervura Triturado Adição xilitol + Goma xantana 20 à 30 minutos e armazenamentoAnálises físico-químicas Análises Microbiológicas Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 36 Figura 2 - Formulações das geleias preparadas Fonte: Autoria própria. ANÁLISES FÍSICO - QUÍMICAS E MICROBIOLÓGICAS Foram realizadas as análises de pH por potenciômetro digital; teor de sólidos solúveis(ºBrix); atividade de água (Aw); acidez titulável utilizando potenciômetro com pHmetro (7). Para a determinação e cor foi utilizado o aparelho Mini scan/colorimetro XE plus. Foram realizadas as análises centesimal em triplicata: Umidade (determinada em estufa a temperatura de 105 °C até o peso constante), Cinzas (mufla 550 °C), Proteínas (método Kjeldahl), Lipídios totais (Bligh-dyer), Fibra (método Neutral Detergent Fiber in Feeds - Filter Bag Technique for A200 and A200I), Carboidratos totais (por diferença). Para a quantificação de bolores e leveduras foi utilizado o método de plaqueamento em superfície Potato Dextrose Ágar (PDA) acidificado até pH 3,5, com incubação à 22°C por 6 dias. ANÁLISE ESTATÍSTICA Os resultados foram expressos como média ± desvio padrão com três repetições. Os resultados obtidos foram submetidos à Análise de variância (Anova), acompanhado do Teste de Tukey com p ≤ 0,05. Todas as análises foram realizadas utilizando-se o programa BioEstat 5.3. RESULTADOS E DISCUSSÃO As geleias apresentaram baixos teores de sólidos solúveis totais (SST), como apresentado na Tabela 1, com valores compreendidos entre 15 °Brix (F1 e F2) e 20°Brix (F3), uma vez que, por se tratar de um alimento dietético, não foi adicionado açúcar. Valores próximos de SST foram reportados por Oliveira et al. (8) em geleias diet de umbu-cajá (12,50 °Brix) e por Mota (9) em geleia diet de amora-preta (14,81 °Brix). Tabela 1 - Resultados das determinações físico-químicas realizadas com o produto final logo após o processamento. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 37 Amostras ATT Ph Sólidos Solúveis (°Brix) AW Bolores e Leveduras F1 1,68 ± 0,05 a 3,58 15° 0,998± 0,00 a Ausente F2 1,31 ± 0,00 b 3,77 15° 0,989 ± 0,00 ab Ausente F3 0,82 ± 0,03 c 4,13 20° 0,979 ± 0,00 b Ausente Na Tabela 1, foi observado uma variação de 0,82% (F3) a 1,68% (F1) com relação à acidez total titulável (ATT). Todas as amostras apresentaram-se ATT fora da faixa relatada por Jackix (10) para geleias de frutas (0,3 a 0,8%). Valores de ATT superior a faixa de 0,3 a 0,8% também foram reportados por Mota (9) em geleia diet de amora-preta. A formulação F1 foi a que apresentou um decréscimo do pH, observou-se um aumento significativo do pH das geleias à medida que se aumentou a proporção de yacon na formulação da geleia F2 e F3 (Tabela 1). Isto ocorreu devido à pouca quantidade de ácidos orgânicos presentes na polpa de yacon, valores de pH parecidos com a F3 foi reportado por Ventura (11) no desenvolvimento de um doce misto com goiaba, acerola e yacon na formulação com maior quantidade de yacon (pH 4,55). As três formulações desenvolvidas apresentaram atividade de água (AW) elevada, esses dados também foram reportados por Oliveira et al. (8) em geleia diet de umbu-cajá (~0,982) e por Prati et al. (12) em geleia diet mista de yacon, goiaba e acerola (~0,960) (Tabela 1). Nenhuma das três formulações de geleia apresentou contagem de bolores e leveduras, indicando eficiência das boas práticas de higiene adotadas durante os procedimentos realizados ao longo do processamento das geleias. Em relação ao parâmetro L* (luminosidade ou claridade) houve variações de 30,03 a 35,22; sendo a menor luminosidade (escura) para a geleia F1 e a maior luminosidade (clara) na geleia F3. Para o parâmetro a* (coloração vermelha (+) ao verde (-) as amostras F1 apresentaram dados estatisticamente iguais às amostras com F2, no entanto, a geleia F1 apresentou maior tendência à coloração vermelha. O parâmetro de cor b*(coloração amarelo (+) ao azul (-), apresentou diferenças significativas entre os tipos de geleias e as concentrações. Em geral os valores oscilaram entre 9,12 na geleia F3 a 16,19 na geleia F2. As amostras de geleia F1 e F2 apresentaram maiores valores para o parâmetro b* indicando uma tendência de coloração amarela (Tabela 2). Tabela 2 - Valores médios dos parâmetros (L*, a*, b*) Cor L* a* b* 30,03 ± 2,13 b 28,15 ± 1,73 a 14,69 ±1,58 a 30,22± 0,48 b 25,15± 0,52 a 16,19 ± 0,61 a 35,22 ± 0,39 a 16,63 ± 1,71 b 9,12 ± 1,33 b L*= Luminosidade, a*= (- verde / + vermelho), b*= (- azul / + amarelo). Médias seguidas da mesma letra, na coluna, não diferem estatisticamente em nível de 5% de probabilidade, pelo teste de Tukey. Em relação a umidade, todas as geleias apresentaram diferenças significativas entre as formulações (Tabela 3). Os teores de umidade apresentaram-se superiores a 73%, o que pode estar relacionado aos baixos teores de sólidos solúveis totais atingidos ao final da cocção (~15 °Brix), uma vez que não foi adicionado açúcar. Resultados semelhantes foram apresentados por Oliveira et al. (8) ao analisarem geleias diet de umbu-cajá. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 38 Tabela 3 - Composição química (%) das geleias em base seca realizadas com o produto final logo após o processamento (em triplicata). Composição química (Mg.100g -1 ) F1 F2 F3 Umidade 82,77± 0,06 a 82,28 ± 0,12 b 73,01 ± 0,06 c Sólidos Totais 17,23 ± 0,06 a 17,72 ± 0,12 b 26,99 ± 0,06 c Proteína 4,29 ± 0,18 ab 4,80 ± 0,426 a 3,88± 0,20 b Cinzas 0,63 ± 0,02 c 0,65 ± 0,00 bc 0,81 ± 0,09 a Fibra Detergente Neutro 8,18 8,49 4,51 Fibra Detergente Ácido 5,33 5,67 2,18 Lipídio 1,11± 0,32 a 1,02± 0,15 a 0,85± 0,21 a Carboidrato 11,20 11,25 21,45 Os valores representam a média (± desvio padrão). Médias acompanhadas pela mesma letra, na mesma linha, não apresentam diferença significativa (p>0,05) pelo teste de Tukey. *Analise Base úmida. Os baixos conteúdos de sólidos totais (17,72 a 26,99%) verificados nas geleias já eram esperados, uma vez que esse parâmetro é inversamente proporcional ao teor de água, comprovando com os estudos de Oliveira et al. (8) que ao analisarem geleias diet de umbu- cajá, foram reportados teores de sólidos totais inferiores a 10,96% em decorrência do elevado conteúdo de água (Tabela 3). No que se refere ao teor de proteínas apresentadas na Tabela 2, a quantidade de proteína na F2 é maior que a quantidade de proteína de F3, isso ocorre devido a concentração dos nutrientes quando em base seca de morango ser maior que em base seca de yacon, como relatado nos trabalhos de Nieto (13) e Vilhena et al. (14). Ainda na Tabela 2, a formulação F3 apresentou diferenças significativas quando comparada com F1 e F2 em relação a cinzas, fato esse devido a uma quantidade maior de resíduo mineral no yacon, como demonstra o trabalho de Bertolo (15) que encontrou 3,74 % de resíduo mineral no yacon, ao comparar com o de Françoso et al. (16) que encontrou quantidades menores de resíduo mineral em morangos, 0,44%. Em relação as concentrações de fibra FDN e FDA as formulações com maiores concentrações de morango, respectivamente, F1 e F2 apresentaram maiores teores de fibra quando comparadas com a F3 que contém maiores quantidades de yacon, isso pode ter ocorrido devido ao método enzimático-gravimétrico, que são capazes de determinar apenas a fração solúvel da fibra com grau de polimerização (GP) maior ou igual a 12, visto que a inulina e os fruto-oligossacarídeos encontrados com maior presença na yacon possuem grau de polimerização entre 2 e 9 (17).Tais fibras são solúveis em etanol a 78% e possuem baixo peso molecular, sendo então perdidas durante a etapa de filtração do precipitado, acarretando, desta forma, uma subestimação no conteúdo de fibras para aqueles alimentos que contêm esses compostos (18). Para o percentual de lipídios, não foi encontrado diferença significativa entre as três formulações (Tabela 3). De acordo com a Tabela 3, carboidratos totais apresentaram-se com maior teor na formulação F3, acredita-se que isso se deve a maior quantidade de yacon, que quando em base seca, apresenta valor de 95,44%reportado por Marangoni (19). CONCLUSÃO Pelos resultados encontrados, fica evidente que a concentração de morango e yacon nas formulações testadas influência nas características físicas e químicas das geleias. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 39 De acordo com a legislação (Resolução Normativa nº15/78) (20), as três formulações não obtiveram resultados ideais ao ser relacionado com pH, acidez titulável e o Brix° por se tratar de um alimento dietético, sendo um indicativo para a melhoria da formulação. Em relação a inulina e fruto-oligossacarídeos que são encontrados presentes na yacon, não foi possível detectar a sua presença nas geleias desenvolvidas, devido ao método que foi utilizado, que determinou FDN e FDA, necessitando assim, de um método que seja capaz de determinar o teor de fibras (oligofrutanos) nessas geleias. REFERÊNCIAS 1. Torrezan R. Manual para a produção de geléias de frutas em escala industrial. Rio de Janeiro: EMBRAPA- CTAA. 1998. 2. Santos PRG, Cardoso LM, Bedetti SF, Hamaceck FR, Moreira AVB, Martino HSD, et al. Geleia de cagaita (Eugenia dysenterica DC.): Desenvolvimento, caracterização microbiológica, sensorial, química e estudo da estabilidade. Rev Inst Adolfo Lutz. 2012;71(2):281-90. 3. De Angelis RC. Importância de alimentos vegetais na proteção da saúde: fisiologia da nutrição protetora e preventiva de enfermidades degenerativas. São Paulo, Atheneu, 2001. 4. Guigoz Y, Rochat F, Perriusseau-Carrier G, Rochat J, Schiffrin EJ. 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Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 41 10.53934/9786599539626.5 Capítulo 5 AVALIAÇÃO DO CONHECIMENTO E INTENÇÃO DE CONSUMO DE LEITE ASININO: DADOS INICIAIS NO BRASIL Catiele Silva de Oliveira1; Laiza Soliely Costa Gonçalves2; José Evangelista Santos Ribeiro3; Amanda Marília da Silva Sant’Ana4 1Estudante do Curso de Bacharelado em Agroindústria- CCHSA – UFPB; E-mail: catielee.silvaa@gmail.com 2Mestranda do Programa de Pós-graduação em Tecnologia Agroalimentar - CCHSA - UFPB; E-mail: laizasolielyc@gmail.com 3Técnico de Laboratório – CCHSA – UFPB; E-mail: vange_ribeiro@hotmail.com 4 Docente do Departamento de Gestão e Tecnologia Agroindustrial – DGTA – UFPB; E-mail: amanda.santana@academico.ufpb.br Resumo: Esta pesquisa objetivou avaliar o conhecimento e intenção de consumo do leite asinino e explorar atitudes e percepções que influenciam nessa escolha. Foi realizada uma pesquisa de opinião e a coleta de dados foi composta por questões de múltipla escolha e incluiu três partes: dados socioeconômicos; dados sobre o consumo de leite e derivados, com destaque para o leite asinino; e um teste sensorial avaliando os atributos aparência e cor de uma imagem de leite asinino. Com base nas respostas do questionário, foram obtidos o perfil socioeconômico de conhecimento e a intenção de consumo de leite asinino de 338 pessoas, de 17 estados do Brasil. A maioria pertencia ao gênero feminino (68,93%), com idade entre 18-25 anos e 26-33 anos. A maior parte (56,2%) dos entrevistados consumiam leite e/ou derivados diariamente e 70,1% já ouviram falar de leite asinino, porém nunca consumiu. O leite asinino foi considerado um aliado para o fortalecimento da imunidade por 13, 66% dos participantes e quando questionados se teriam interesse em consumi-lo, 41,6% responderam “Sim” e 44,4% responderam “Talvez”. Na avaliação sensorial dos leites por meio de imagens foi possível observar que a maioria das notas ficou entre 8 e 9, indicando que os participantes “gostaram muito” e “muitíssimo” do produto. Estes resultados demonstram que apesar do pouco consumo, existe o interesse em aumentar o conhecimento e o consumo sobre este produto. Nosso estudo fornece as primeiras evidências úteis para fornecer uma descrição inicial dos possíveis consumidores do leite de jumenta, podendo auxiliar no encontro de soluções potenciais para aumentar o consumo, produção e venda desse alimento. Palavras–chave: aceitabilidade; comportamento do consumidor; leite de jumenta; saúde INTRODUÇÃO O leite é um alimento que contém nutrientes que executam funções no corpo humano e que são importantes para a saúde e nutrição (1), sendo um dos alimentos mais completos para a manutenção da vida de um recém-nascido (2). Os leites de cabra, búfala e vaca são os principais representantes da produção mundial (3). No entanto, o aumento de número de pessoas com intolerâncias e alergias associadas ao consumo de leite de vaca (4), tem levado à crescente busca poralternativas que sejam ao mesmo tempo nutritivas, saborosas e com propriedades funcionais que auxiliem na manutenção da saúde e prevenção de doenças. mailto:catielee.silvaa@gmail.com mailto:laizasolielyc@gmail.com mailto:vange_ribeiro@hotmail.com Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 42 O leite asinino, é obtido de asnos (Equus asinus), animais da família Equidae, onde também pertencem às espécies equina (Equus caballus) e a zebra (Equus zebra) (5). Na Roma antiga, o leite asinino era bastante consumido, principalmente por idosos enfermos e crianças, pois era considerado um alimento com função terapêutica e com potencial medicinal (4,6). O interesse dos consumidores pelo leite asinino está aumentando, e este produto está ganhando importância e aceitação internacional (7). Este fato se deve, principalmente, pela composição nutricional do leite. Salimei e Fantuz (6), após realizarem estudos sobre a composição do leite asinino e de éguas, observaram bastante semelhança com o leite humano. De acordo com Bhardwaj et al. (8), laticínios produtores de leite asinino estão surgindo em países ocidentais para produzir uma fonte alternativa de leite para recém- nascidos. De fato, o leite asinino tem composição semelhante ao leite humano (4,9), podendo ser utilizado em fórmulas infantis, especialmente para crianças que sofrem de alergia à proteína do leite de vaca (APLV) (10). O leite asinino parece ter características hipoalergênicas, além de boa palatabilidade (10) e, quando comparado ao leite materno, possui semelhança quanto ao teor de proteína, minerais e lactose (11). A lactose é responsável pelo sabor adocicado (12), melhorando sua palatabilidade, além de estimular a absorção de cálcio no intestino (13). O alto conteúdo de lisozima, reduz a incidência de infecções gastrointestinais no trato digestivo dos consumidores deste leite, uma vez que esta enzima age como antimicrobiano natural (14,15). Na Europa Oriental e na Ásia Central os equinos estão sendo ordenhados para a elaboração de produtos lácteos fermentados que trazem benefício para a saúde humana (16). No entanto, apesar dos diversos efeitos benéficos à saúde associados ao consumo de leite asinino, sua produção, ingestão e conhecimento sobre a qualidade nutritiva e benefícios à saúde humana, ainda é recente no Brasil. De acordo com Santos et al. (17), ainda existem poucas pesquisas realizadas no país sobre a qualidade do leite equídeo. Um estudo realizado na Itália, objetivou identificar as atitudes e percepções dos consumidores em relação ao leite asinino (18). No entanto, trabalhos abordando a visão e expectativas do consumidor frente ao consumo de leite de asinino e seus derivados no Brasil não foram encontrados. A decisão de compra pelo consumidor é influenciada por motivações relacionadas aos atributos, forma de produção e ambiente que os alimentos são produzidos (18). É fundamental identificar o perfil dos consumidores de produtos lácteos, pois esse perfil é de interesse dos produtores e formuladores de políticas públicas, pois a indústria leiteira baseia- se no comportamento e escolhas dos consumidores (19). Essas informações são de fundamental importância para o desenvolvimento de estratégias de incentivo ao consumo, bem como para o direcionamento de interesses de produtores e pesquisadores, de modo a alinhar a realidade do consumo com o interesse de produção e investigação sobre essa temática. Sendo assim, a presente pesquisa pretende preencher a lacuna existente, de modo a gerar dados iniciais sobre o comportamento do consumidor, objetivando avaliar o conhecimento e intenção do consumo de leite asinino, para ter uma compreensão inicial das preferências dos consumidores afim de explorar atitudes e percepções que influenciam essa escolha. MATERIAL E MÉTODOS Foi realizada uma pesquisa de opinião, de natureza descritiva com abordagem quantitativa, sobre o conhecimento e intenção de consumo de leite asinino. A coleta dos dados foi realizada por meio de questionário eletrônico estruturado, elaborado na plataforma Google Forms. O instrumento de coleta de dados foi composto por questões de múltipla Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 43 escolha e de resposta livre, e incluiu três partes: Dados socioeconômicos (faixa etária, gênero, Estado que reside, local da moradia, grau de escolaridade e renda média mensal); Dados sobre o consumo e conhecimento de leite e derivados, com destaque para o leite asinino; e um teste sensorial avaliando os atributos aparência e cor de uma imagem de leite asinino. A pesquisa não foi submetida ao comitê de ética, pois segundo a Resolução nº 510, de 07 de abril de 2016, em seu parágrafo único, não serão registradas nem avaliadas pelo sistema CEP/CONEP pesquisa de opinião pública com participantes não identificados. Os dados obtidos da aplicação do questionário foram tabulados em Microsoft Excel© organizados em categorias como forma de obter valores percentuais para cada variável e analisados por meio de estatística descritiva de distribuição de frequência. O aplicativo Infogram.com foi utilizado para elaboração dos gráficos de nuvem de palavras. RESULTADOS E DISCUSSÃO Com base nas respostas do questionário, foram obtidos o perfil socioeconômico, de conhecimento e a intenção de consumo de leite asinino. O questionário foi respondido por 338 pessoas, de 17 estados do Brasil (Tabela 1). Tabela 1 - Estado dos participantes da pesquisa Estado Número Valor % Alagoas (AL) 1 0,30 Amapá (AP) 6 1,78 Bahia (BA) 3 0,89 Ceará (CE) 7 2,07 Distrito Federal (DF) 2 0,59 Maranhão (MA) 1 0,30 Mato Grosso (MT) 1 0,30 Minas Gerais (MG) 2 0,59 Pará (PA) 1 0,30 Paraíba (PB) 222 65,68 Pernambuco (PE) 52 15,38 Piauí (PI) 4 1,18 Rio de Janeiro (RJ) 3 0,89 Rio Grande do Norte (RN) 28 8,28 São Paulo (SP) 3 0,89 Sergipe (SE) 1 0,30 Tocantins (TO) 1 0,30 TOTAL 338 100% Foi constatada a maior participação, com base na autodeclaração, do gênero feminino (68,93%) contra 30,77% de participação do gênero masculino. A opção “prefiro não responder”, foi marcada apenas por um(a) participante. Ao avaliar a faixa etária (Figura 1), a maior parte das pessoas tinham entre 18 e 25 anos (43,49%) e 26-33 anos (28,11%). No estudo de Lanfranchi et al., (18) foi observado que o perfil dos consumidores de leite “não bovino” também era predominantemente feminino (59, 8,9%). Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 44 Figura 1 – Faixa etária dos participantes da pesquisa Com relação aos dados demográficos, a maioria dos entrevistados residiam na zona urbana (78,11%). Sobre o grau de escolaridade, 34,6% dos participantes possuíam ensino superior completo (graduação), 24,3% ensino médio completo e 16,9% tinham doutorado (Tabela 2). Observou-se que em relação à renda dos entrevistados que a maioria (44,4%) tinham a renda até 1(um) salário-mínimo; 25,7% tinham renda entre 1 e 3 salários mínimos e apenas 5,9% dos entrevistados recebiam de 5 a 8 salários mínimos. Apesar de existir uma relação entre nível escolaridade e renda, a Educação não pode ser vista como variável isolada, devendo ser combinada com outras variáveis socioeconômicas que contribuam para o aperfeiçoamento da qualidade educacional e dos retornos à educação (20). Além disso, Pereira et al. (21), evidenciam uma desvalorização da mão de obra apesar do aumento no número de pessoas com Ensino Superior, e afirmam que a remuneração deveria aumentar juntamente com o aumento na qualificação do trabalhador. Tabela 2 – Dados Socioeconômicos dos participantes da pesquisa Dados Socioeconômicos % Local de moradia Zona Rural 21,89 Zona Urbana 78,11 Grau de Escolaridade Ens. Fundamental completo 3,60 Ens. Fundamental incompleto 0,60 Ens. médio completo 24,3 Ens. superior (graduação)34,6 Especialização 10,1 Mestrado 10,1 Doutorado 16,9 Renda média mensal Até 1(um) salário mínimo 44,4 De 1 a 3 salários mínimos 25,7 De 3 a 5 salários mínimos 12,1 De 5 a 8 salários mínimos 5,90 4,4 43,5 28,1 13,3 4,7 5,9 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 Menor que 18 anos 18 a 25 26 a 33 34 a 41 42 a 50 Acima de 50 % Idade Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 45 Acima de 8 salários mínimos 11,8 Sobre o consumo de leite e derivados lácteos e o conhecimento sobre leite asinino, foram feitas algumas perguntas (Tabela 3), para compreender o conhecimento sobre estes produtos. A maior parte (56,2%) dos entrevistados disse que consome diariamente leite e/ou derivados; 24,6% costumam consumir semanalmente; 11,5% consomem eventualmente; 7,4% responderam que consome raramente e apenas 0,3% dos entrevistados não consomem leite e/ou derivados lácteos. Quanto à disposição de fazer uma mudança em seu cardápio visando torná-lo mais nutritivo e saudável, a maioria (69,8%) dos participantes demonstrou disposição à essa mudança, e 29% responderam “talvez”. Barros (22) afirma que as pessoas estão cada vez mais preocupadas em adquirir bons hábitos alimentares. Tabela 3 – Hábitos alimentares dos consumidores e conhecimento sobre leite asinino Frequência de consumo de leite e/ou derivados lácteos % Consome diariamente 56,2 Consome eventualmente 11,5 Consome raramente 7,40 Consome semanalmente 24,6 Eu não consumo leite e/ou derivados 0,30 Você estaria disposto a fazer uma mudança em seu cardápio para torná-lo mais nutritivo e saudável? % Não 1,20 Sim 69,8 Talvez 29,0 Você já ouviu falar ou já consumiu leite de asinino (leite de jumenta)? % Não 25,1 Sim, já ouvi falar e já consumi 4,70 Sim, já ouvi falar, mas não consumi 70,1 Você acredita ser seguro consumir leite de asinino (leite de jumenta)? % Não 15,4 Sim 84,6 Se você nunca consumiu leite asinino, você estaria disposto a consumi-lo? Eu consumo atualmente 0,6 Não 13,9 Sim 41,1 Talvez 44,4 Fonte: própria autora (2021) Quando questionados se já tinham ouvido falar ou já consumiu leite de asinino, 25,1% nunca tinha ouvido falar, 70,1% ouviram falar, mas nunca consumiu e apenas 4,7% já havia consumido. Esses resultados demonstram que o leite asinino ainda é pouco consumido no Brasil. A falta de conhecimento sobre o leite asinino pode afetar a percepção sobre o seu consumo, bem como a disposição de comprar o leite de jumenta (23). No entanto, 84,6% responderam que acreditavam ser seguro consumir leite de asinino, e quando questionados se teriam interesse em consumi-lo, 41,6% responderam “Sim” e 44,4% responderam “Talvez”, e estes resultados demonstram o interesse em aumentar o conhecimento sobre o leite asinino. No estudo de Keitshweditse (23), foi demonstrado que o conhecimento prévio sobre o leite asinino tem um efeito positivo e influencia significativamente a percepção das famílias sobre o consumo. Buscando aprofundar o conhecimento sobre o motivo para o consumo do leite, foi possível observar que a maioria (42,04%) dos participantes respondeu que consumiria pela curiosidade, por ser saudável e nutritivo (20,93%), pelo sabor (12,28%) e por ser um Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 46 alimento exótico (9,51%) (Figura 2). Lanfranchi et al. (18) observaram que os entrevistados tendem a consumir leite asinino por ser mais nutritivo (34,8%) e por sua alta digestibilidade (26,1%). As pessoas que têm conhecimento sobre os benefícios nutricionais do leite de jumenta são as mais abertos ao consumir este leite (23). Outros motivos para o consumo do leite asinino que também foram elencados pelos participantes de forma menos frequente (Figura 2). Figura 2 – Nuvem de palavras com as respostas dos participantes acerca dos motivos para consumir leite asinino. Fonte: Autoras. Elaborado no aplicativo Infogram.com A maioria dos participantes (40,88%) respondeu que não tinha conhecimento sobre os benefícios à saúde ou sobre as características nutricionais do leite asinino (Figura 3). No entanto, 16,03% responderam que o leite é benéfico para crianças alérgicas a proteínas do leite de vaca (APLV). É importante nesta situação que seja encontrada uma alternativa adequada para substituir o leite bovino, e que tenham bons valores nutricionais, sabor agradável e propriedades hipoalergênicas (24). A estrutura primária da αs1-caseína do leite asinino é diferente da encontrada no leite bovino, o que pode explicar suas propriedades hipoalergênicas e melhor tolerância por crianças com APLV (25). O leite asinino foi considerado um aliado para o fortalecimento da imunidade por 13, 66% dos participantes, 10,22% conhecem que este leite tem uma composição nutricional similar ao leite humano, 10,22% consideram que o leite asinino é benéfico pelo baixo teor de gordura e 7,61% responderam que o leite tem um alto teor de vitaminas. Outros benefícios também foram elencados, em menor frequência, pelos participantes: Benefícios para os dentes (0,40%); Consumo por pessoas com deficiências nutricionais (0,20%); tratamento para pneumonia, tosse e gastrite (0,40%); Saboroso (0,20%) e maior qualidade de ácidos graxos quando comparado ao leite de vaca (0,20%). A contribuição do consumo do leite asinino para a imunidade, principalmente de recém- nascidos, se deve à ação antimicrobiana de suas enzimas lisozima e lactoferrina, presente em grande quantidade nesse leite, quando comparado ao leite bovino (26). O leite de jumenta, como alimento natural, pode permitir que os bebês construam um sistema imunológico normal e completo (27). Este leite tem sido recomendado para o consumo por crianças devido à composição nutricional ser muito similar à do leite humano, diferindo apenas no conteúdo de gordura total (4). As principais frações proteicas identificadas no leite asinino têm mais semelhança com as do leite humano do que com as de leites de animais ruminantes (28). Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 47 Figura 3 – Nuvem de palavras com as respostas dos participantes sobre o conhecimento dos benefícios à saúde ou das características nutricionais relacionadas ao consumo de leite de asinino Fonte: Autoras. Elaborado no aplicativo Infogram.com Os participantes demonstraram interesse em consumir e comprar o leite asinino na forma de derivado lácteo asinino (24,54%) e em mistura com outros leites (11,80%), como também como ingrediente em receitas (16,98%), como leite em pó (19,89%) e in natura (21,88%). O leite asinino vem sendo estudado nas formas in natura, liofilizado (29), fermentado (30)(15)(29) e na produção de queijos (31). Na avaliação sensorial dos leites por meio de imagens e utilizando o teste de aceitação por escala hedônica de nove pontos, foi possível observar que a maioria das notas ficou entre os escores 8 e 9, indicando que os participantes “gostaram muito” e “muitíssimo” do produto (Tabela 4) e que o leite teve uma boa aceitação para os atributos de aparência e cor. A aparência e cor, são características fundamentais na qualidade e aceitação do produto, pois a primeira impressão que se tem de um alimento é geralmente visual (32). Tabela 4 – Resultados da avaliação sensorial realizada por meio de imagens para os atributos aparência e cor do leite asinino Escala hedônica de aceitação Atributos avaliados Aparência % Cor % 1 – Desgostei muitíssimo 0,6 0,3 2 – Desgostei muito 0,3 0,6 3 – Desgostei moderadamente 0,9 1,8 4 – Desgostei ligeiramente 1,2 0,9 5 – Nem gostei/nem desgostei 12,7 10,4 6 – Gostei ligeiramente 6,2 4,7 7 – Gostei moderadamente 13,0 10,7 8 – Gostei muito 35,5 36,7 9 – Gostei muitíssimo 29,6 34,0 Além de conhecimentos específicos sobre os nutrientes do leite asinino e seu potencial hipoalergênico, o sabor e a aparênciado leite asinino têm sido considerados atraentes para as crianças, o que é de particular importância para os consumidores jovens, e esse consumo pode ser ampliado para pacientes alérgicos em geral e para idosos, por meio de uma produção economicamente viável para alcançar um produto de alta qualidade (6). Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 48 CONCLUSÕES Os dados obtidos no presente estudo demonstram que o leite asinino é ainda pouco conhecido. Dessa forma, precisa-se ampliar os estudos e a divulgação sobre esse produto, de modo que essas informações possam alcançar o máximo de pessoas possíveis. A ampliação do interesse e consumo desse leite pode auxiliar na diversificação do mercado de laticínios, além de fornecer aos consumidores os benefícios provenientes das propriedades funcionais que o consumo do leite asinino pode proporcionar. A pesquisa realizada por meio da análise das preferências dos consumidores foi útil para conhecer o processo de seleção dos consumidores sobre a compra de leite e explorar as atitudes e percepções que influenciam essa escolha. Nosso estudo fornece as primeiras evidências relacionada aos dados dos consumidores com finalidade de propor uma estratégia para a aceitação e consumo de leite asinino. Os resultados deste estudo são úteis para fornecer uma descrição inicial mais abrangente dos possíveis consumidores do leite de jumenta, podendo auxiliar no encontro de soluções potenciais para aumentar o consumo, produção e venda desse alimento. AGRADECIMENTOS Agradecemos ao Edital 03/2020 de Produtividade em Pesquisa pela Propesq 2020 – UFPB pelo financiamento. Ao programa de Iniciação Científica PIBIC-UFPB pela bolsa de estudos e pelo incentivo à pesquisa estudantil. REFERÊNCIAS 1. Aspri M, Economou N, Papademas P. Donkey milk: An overview on functionality, technology, and future prospects. Food Reviews International. 2017; 33: 316-333. 2. Malarcarne M, Martuzzi F, Summer A, Mariani P. Protein and fat composition of mare’s Milk: some nutritional remarks with reference to human and cow’s Milk. International Dairy Journal. 2002; 12(11): 869-877. 3. Medhammar E, Wijesinha-Bettoni, R, Stadlmayr B, Nilsson E, Charrondiere UR, Burlingame B, et al. 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Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 51 10.53934/9786599539626.6 Capítulo 6 AVALIAÇÃO FÍSICO-QUÍMICA DO JATOBÁ-DO-CERRADO Bianca Ferreira Augustinho1; Ellen Godinho Pinto2; Túlio Henrique Batista da Silva3; Luis Gustavo Ribeiro de Melo Silva4; Rody Ricardo Moreira5 1Estudante do Curso de Superior em Tecnologia de Alimentos - TAL – IF Goiano; E-mail: biafer2308@gmail.com 2Docente Depto de alimentos – TAL – IF Goiano. E-mail: ellen.godinho@ifgoiano.edu.br 3Discente do Mestrado em Tecnologia de Alimentos - DTA - UNICAMP; E-mail: thenriquekb@gmail.com 4Discente do Curso Superior em Engenharia de alimentos - EA - UFG; E-mail: luisgustavormsilva@gmail.com 5Técnico em Alimentos – TEC ALI – IF Goiano; E-mail: rodyricardo101@gmail.com Resumo: O Brasil apresenta uma das maiores diversidades de espécies frutíferas do mundo, sendo que algumas ainda não são conhecidas, e outras pouco exploradas devido sua regionalização. O jatobá-do-cerrado (Hymenaea stigonocarpa), é um legume seco, de coloração que varia entre o marrom-claro ao marrom-escuro e apresenta baixa quantidade de lipídios, alto teor de fibras solúveis e insolúveis e alguns minerais importantes como cálcio e magnésio. O presente trabalho tem por objetivo analisar os características fisico- químicas do Jatobá. Com o legume adquirido, foram realizadas análises em triplicata de pH, acidez titulável, solidos solúveis totais, vitamina C e umidade, seguindo as normas do Intituto Adolfo Lutz. Os resultados obtidos foram 6,25; 1,40 (g/100 mL); 4,89 (°Brix); 511,57 (mg/100g); 10,23%, respectivamente. Nos resultados obtidos observou-se uma discrepância no teor de de vitamina C , ao comparar com outros autores que se incontraram abaixo. Vale ressaltar que as propriedades físico-químicas podem variar de acordo com fatores edafoclimáticos e estádio de maturação dos frutos. Palavras–chave: cerrado; Hymenaea stigonocarpa; vitamina C; regional INTRODUÇÃO O Brasil apresenta uma das maiores diversidades de espécies frutíferas do mundo, sendo que algumas ainda não são conhecidas, e outras pouco exploradas (1). As frutas estão cada vez mais sendo indispensáveis para o consumo, devido à sua composição nutricional, que traz vários benefícios para a saúde (2). Os frutos nativos do cerrado apresentam-se de formas variadas, e são conhecidos pelo sabor e aroma característicos e constituem boas fontes de nutrientes, além disso o consumo de frutos do cerrado é relacionado positivamente com a redução da incidência de doenças crônicas degenerativas (3). O cerrado é constituído de uma grande fonte natural de recursos biológicos, fauna e flora, ocupando assim cerca de 22% de todo o país, dos quais 90% se encontram distribuídos nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás e Bahia, o cerrado apresenta um clima quente, semiúmido e sazonal, aonde muitas espécies se destacam devido o seu grande potencial econômico, devido as suas características, formas, cores, aromas e sabores diversos. Trata-se de um dos principais ecossistemas tropicias da Terra, sendo um dos centros prioritários (“hot spots”) para a preservação da biodiversidade do planeta. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 52 Mesmo o cerrado apresentando grandes variedades, as frutas são pouco conhecidas fora da região ao qual são coletadas (4,5). O jatobá-do-cerrado (Hymenaea stigonocarpa), é pertencente à família Leguminosae, e é um fruto encontrado naturalmente nas regiões do Cerrado e Cerradão. O fruto é um legume seco, de coloração que varia entre o marrom-claro ao marrom-escuro (6). Diferente das outras leguminosas, como a soja e o feijão,o jatobá-do-cerrado apresenta baixa quantidade de lipídios e proteínas. Algumas informações disponíveis indicam que o jatobá-do-cerrado possui um alto teor de fibras solúveis e insolúveis e alguns minerais importantes como cálcio e magnésio (7). Os estudos bromatológicos dos componentes químicos, tecnológicos , funcionais e de propriedades antioxidantes tornam-se essencial para uma avaliação segura de matérias- primas de origem vegetal utilizadas como alimentos ou como insumos (8). O objetivo desse trabalho foi avaliar as características físico-químicas do Jatobá-do- cerrado a fim de transmitir aos leitores um maior conhecimento sobre esse fruto regional, sua saudabilidade e seus nutrientes. MATERIAL E MÉTODOS Os frutos do Jatobá foram adquiridos em mercado local na cidade de Morrinhos – GO sendo em seguida transportados para o laboratório de Análise de Alimentos do Instituto Federal Goiano – Campus Morrinhos. Posteriormente foram lavados em água corrente e higienizados com auxílio de solução de hipoclorito de sódio a 100 µL.L-1 por 15 minutos, descascados e despolpados com auxílio de um ralador manual. A polpa adquirida foi reservada em vasilhame para seguidamente ser submetida as análises físicas e químicas. Uma parcela da polpa adquirida está exposta na figura 1. Figura 1 – Polpa de Jatobá Fonte: Os autores As amostras foram submetidas as análises físico-químicas de pH utilizando o pHmetro calibrado com soluções tampões, de acidez titulável com solução de hidróxido de sódio 0,1 M e indicador fenolftaleína, sólidos solúveis totais (°Brix) utilizando refratômetro. A análise de vitamina C com iodato de potássio e a umidade foram realizadas segundo metodologias (9). Todas as análises foram realizadas em triplicatas. Os dados obtidos foram tabelados e seguidamente analisados. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 53 RESULTADOS E DISCUSSÃO Constata-se na Tabela 1, os resultados da composição físico-química do jatobá. Verifica-se que o valor de pH está próximo ao encontrado por outros autores (10) que foi de 5,92. Tabela 1 – Composição físico-química da polpa do jatobá Análises Resultados pH 6,25 ±0,02 Acidez Titulável (g∕100g) 1,40 ±0,83 Sólidos Soluvéis Totais (ºBrix) 4,89 ±0,05 Umidade (%) 10,23 ±1,01 Vitamina C ( mg∕100g) 511,57 ±3,12 Fonte: Os autores. Na polpa de jatobá foi encontrado 1,40 g/100g de acidez, sendo que estudos encontraram para acidez um valor superior, de 2,74 para polpa de jatobá e também pode-se observar está discrepância no parâmetro de sólidos solúveis, onde estes mesmos autores encontraram valores de 10° Brix, isso pode ser devido os constituintes presente na polpa de jatobá, de acordo os fatores endofoclimaticos e estádio de maturação dos frutos (10). Estudos mostraram que o fruto de jatobá contém teores de umidade de 10,89%, ficando próximo ao encontrado neste estudo corroborando com outros trabalhos no qual o resultado foi de 10,9% (11,12). O baixo teor de água desfavorece o crescimento dos microrganismos deteriorantes e também age também controlando fatores como as reaçõesenzimáticas e não enzimáticas e a oxidação lipídica (13). Destaca-se a vitamina C que apresentou um elevado teor de vitamina C, em comparação a Recomendação Diária de 45 mg (14). Autores encontraram teores de vitamina C de 330 mg∕100g de jatobá no cerrado do Piauí, valores estes também superiores ao recomendado (15). AGRADECIMENTOS Os autores agradecem: Ao Instituto Federal Goiano – Campus Morrinhos pela parceria e disponibilização de seus laboratórios para a realização das análises. CONCLUSÕES Através dos resultados analisados, foi verificado uma semelhança em alguns parâmetros avaliados por outros autores, entretanto pode-se destacar a vitamina C que apresentou um elevado teor. Vale ressaltar que as propriedades físicas e químicas podem variar de acordo com o estádio de maturação dos frutos, o clima, o solo, dentre outros fatores. O estudo com o Jatobá-do-cerrado ainda é pequeno, mas de suma importância para a inserção do mesmo na alimentação, visto que este possui propriedades favoráveis ao corpo humano, agregando uma maior saudabilidade. REFERÊNCIAS 1. Godim PJS, Silva SM, Pereira WE, Dantas AL, Chaves RJN, Santos LF. 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Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 55 Regulamento técnico sobre a ingestão diária recomendada (IDR) de proteína, vitaminas e minerais. Ministério da Saúde. Diário Oficial União. 23 nov 2005. 15. Rocha MS, Figueiredo RW, Araújo MAM, Reis RS, Araújo M. Caracterização físico-química e atividade antioxidante (in vitro) de frutos do cerrado piauiense. Rev. Bras. Frutic. 2013, 35 (4): 933-941. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 56 10.53934/9786599539626.7 Capítulo 7 A CADEIA PRODUTIVA E AS MARGENS DE COMERCIALIZAÇÃO DA PESCADA AMARELA (Cynoscions acoupa) EM BELÉM-PA Matheus Yuri de Oliveira Rosa1; Flavio Henrique Souza Lobato2 1Mestrando em Ciência e Tecnologia de Alimentos – PPGCTA – UFPA; E-mail: matheusyurid@gmail.com 2Mestre em Planejamento do Desenvolvimento pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido – PPGDSTU – UFPA; E-mail: flaviohslobato@gmail.com Resumo: Os maiores produtores de pescado do Estado do Pará estão concentrados na microrregião do Salgado Paraense, localizada próximo ao litoral, sendo caracterizada com expressiva biodiversidade de fauna marinha, com a presença de peixes de água doce e de água salgada. Entre as espécies reproduzidas em cativeiro e capturadas nas pescarias nessa região, a Pescada Amarela (Cynoscion acoupa) destaca-se por sua abundância, valoração econômica, sensorial e de qualidade histórico-cultural atribuída pelos consumidores do estado. Diante do apresentado, esta pesquisa teve como objetivo descrever a cadeia de produção da pescada amarela, destacando o caminho que esse produto percorre dos locais de produção até a mesa do consumidor em Belém-PA. Ademais, buscou-se calcular as margens de comercialização e suas variações percentuais entre os agentes que compõem a cadeia produtiva: pescador (produtor); atravessador (atacadista); feirante e/ou empresário de supermercado (varejista) e população de Belém (consumidor). Para tal fim, a metodologia utilizada foi estabelecida a partir de pesquisas bibliográficas, documentais e de campo. A coleta de dados foi realizada com a aplicação de dezoito questionários, entre os dias 02 e 16 de abril de 2019, junto a pescadores, atravessadores, vendedores de pescados do Mercado de Peixe do Ver-o-Peso, funcionários de um supermercado localizado em Belém-PA e a consumidores presentes na feira. Os resultados mostraram que o Salgado Paraense é a região de onde sai parte da produção de pescada amarela comercializada no Ver-o-Peso. No mais, o preço do produto vendido na feira é menor em R$ 4,50 kg (18%) do preço médio encontrado nos supermercados. Palavras-chave: Cadeia de produção; Variações comerciais; Cynoscion acoupa; Salgado Paraense. INTRODUÇÃO A pesca e a aquicultura fornecem anualmente cerca de 154 milhões de toneladas de pescado, sendo 115 milhões destinados ao consumo humano, ocasionando uma disponibilidade de aproximadamente 17 kg/hab./ano, o que revela a importância do pescado para a economia e a segurança alimentar mundial (1). Sendo assim, o processo de aquicultura juntamente com as pescas artesanal e industrial possuem grande contribuição no processo de desenvolvimento econômico e no combate à fome e à pobreza em todo o mundo (1). A produção de pescados no Brasil, especificamente, cumpre uma forte função socioeconômica, pois está introduzida na dieta alimentar de milhões de brasileiros e possui Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 57 relevantes reflexos na estrutura econômica do país, visto que viabiliza a geração de renda e de postos de trabalho diretos e indiretos (2). Ademais, a produção de pescado, sobretudo de aquicultura, em âmbito nacional,se concentra nas regiões Nordeste e Sul, sendo o Estado de Santa Catarina o maior produtor brasileiro (3). No que se refere à região Norte do país, segundo a Associação Brasileira de Apicultura (4), o Estado do Pará configura-se como o terceiro maior produtor de pescados da Amazônia, com 20.000 de toneladas/ano. Nessa região, a pesca é uma atividade tradicional que fornece alimentos essenciais para a subsistência das populações ribeirinhas, rurais e citadinas. No Pará, grande parte dos empreendimentos aquícolas é de pequena escala que se desenvolve informalmente. A produção é comercializada por vias pouco monitoradas pelas autoridades e órgãos estaduais, ambientais e de fiscalização. Nesse sentido, poucas iniciativas acatam às normas ambientais (5). Do mesmo modo, a piscicultura é a atividade aquícola que mais se destaca no estado, uma vez que a criação de peixes possui uma quantidade significante de produtores, abarcando desde o pequeno produtor (de subsistência) até os de fins comerciais (6). Conforme Mourão et al. (7), os cinco maiores municípios produtores de pescado do estado são Vigia de Nazaré, Curuçá, São Caetano de Odivelas, Bragança e Augusto Corrêa. Como estão localizados na região do Salgado Paraense, há uma expressiva biodiversidade de fauna marinha, que conta com a presença de peixes de água doce e de água salgada. Entre as espécies reproduzidas em cativeiro e capturadas nas pescarias nessa região, a pescada amarela (Cynoscion acoupa) destaca-se por sua abundância, valoração econômica e aspectos de gosto e de qualidade, que foram histórica e culturalmente atribuídos pelos consumidores do estado. A pescada amarela pertence à família das espécies Sciaenidae, que habitam nas águas tropicais e subtropicais da costa atlântica da América do Sul. No Brasil, a pescada amarela – a maior espécie do gênero no país – encontra-se em todo litoral, onde penetra nos rios de água doce (7). Semelhantemente às outras espécies de pescados, possui certo destaque no que diz respeito à qualidade nutricional perante os demais alimentos de origem animal, tendo em vista que possui acentuadas quantidades de vitaminas lipossolúveis (A e D), minerais como: cálcio, fósforo, ferro, cobre e ácidos graxos poliinsaturados (8). Dentre esses ácidos graxos, a literatura destaca com frequência o ômega 3, pois ele proporciona benefícios à saúde, especialmente para o desenvolvimento e o bom funcionamento do sistema nervoso central (9, 10). Destarte, o objetivo deste estudo foi descrever a cadeia produtiva da pescada amarela, destacando todo o caminho que ela faz dos locais de produção até a mesa do consumidor final, bem como calcular as margens de comercialização entre o produtor, o atacadista e o varejista. No mais, como normalmente o varejo é realizado por feiras e supermercados a preços diferentes, foi realizada uma análise comparativa entre as margens de varejo (MV) dos feirantes e de um supermercado, a fim de identificar diferenças na margem de comercialização total da cadeia produtiva desses dois agentes. MATERIAL E MÉTODOS Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 58 A metodologia foi estabelecida por meio de uma abordagem quantitativa, de caráter descritivo. Para a produção desta pesquisa, foram empregadas pesquisas bibliográficas, documentais e de campo. Esta última ocorreu nos dias 02 e 16 de abril de 2019, com a aplicação de questionários junto a diferentes agentes, a saber: pescadores, atravessadores, vendedores de pescados do Mercado do Ver-o-Peso, funcionários de um supermercado localizado em Belém-PA e consumidores presentes na feira. Os dados coletados, tanto primários quanto secundários, permitiram identificar os principais locais de origem da pescada amarela, a cadeia produtiva e os agentes nela envolvidos, bem como a variação de preços (margem de comercialização) entre o produtor e o consumidor final. A ferramenta para identificação do comportamento de preços do pescado foi elaborada a partir de sete perguntas com base nos requisitos da margem de comercialização, a citar: o preço pago aos produtores (PP), o preço no atacado (PA) e o preço no varejo (PV). Convém clarificar que a margem de comercialização reflete a remuneração de todas as operações realizadas por meio do canal de comercialização do produtor até o consumidor final (11). O cálculo foi realizado por meio das fórmulas de Margem de Comercialização (MC), proposta por Mendes (11), como mostra a Tabela 1 abaixo. Tabela 1 – Margem bruta de comercialização Margem Valor Relativo Margem do Atacadista (MA) Margem do Varejista (MV) Margem de Comercialização (MC) Margem do Produtor Fonte: Elaborado pelos autores (2019), adaptado de Mendes (2007). RESULTADOS E DISCUSSÃO A CADEIA PRODUTIVA DA PESCADA AMARELA (CYNOSCION ACOUPA) NO ESTADO DO PARÁ A microrregião do Salgado Paraense localiza-se na região costeira e abrange uma área total de 5.812,70 km², sendo composta por onze municípios, de acordo com a Secretaria de Planejamento, Orçamentos e Finanças do Pará (SEPOF) (12). Entre os municípios, Vigia de Nazaré, Curuçá, São Caetano de Odivelas, Bragança e Augusto Corrêa (Mapa 1) despontam como os cinco maiores produtores de pescada amarela no Estado do Pará (7). Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 59 Mapa 1 – Localização dos municípios produtores de pescada amarela Fonte: Mourão et al. (7). Acerca do funcionamento da cadeia produtiva da pescada amarela, convém assinalar que as embarcações motorizadas são preponderantemente utilizadas na captura da espécie em todos os municípios. Ecologicamente, a pesca dessa espécie ocorre durante o ano inteiro, contudo, o período de maior captura compreende o transcorrer dos meses de maio a dezembro. Os locais das pescarias das embarcações maiores situam-se na plataforma continental, entre a costa do Amapá e o Oiapoque, em uma profundidade de aproximadamente 20m. Por outro lado, as pescarias que utilizam barcos menores ocorrem em pesqueiros às proximidades de Augusto Corrêa, Curuçá e São Caetano de Odivelas. As pescarias, dependendo da distância dos locais de pesca, podem durar de algumas horas a até semanas (7). Com base na pesquisa de campo, realizada junto a feirantes e em um supermercado de Belém, evidenciou-se que após a captura dos peixes, o transporte para a comercialização, em Belém, ocorre por via fluvial ou por via terrestre, em barcos ou em caminhões com urnas de resfriamento, que partem dos municípios produtores em direção a cidades próximas e à capital. Com a chegada, a comercialização em Belém, normalmente, acontece na Pedra do Peixe do Complexo do Ver-o-Peso, onde pescadores, atravessadores, feirantes, empresários e mesmo consumidores finais estabelecem negociações. A Figura 1 demonstra de modo ilustrativo e simplista, a cadeia produtiva da pescada amarela entre os locais de produção (interior) e consumo final (Belém). No entanto, é importante esclarecer que a imagem mostra a forma habitual em que a pescada amarela é comercializada, podendo, desse modo, haver casos e relações diferentes das aqui representadas. Logo, em uma pesquisa mais minuciosa, outros agentes certamente poderão ser identificados. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 60 Figura 1. Cadeia produtiva da pescada amarela em Belém-PA. Fonte: Elaborado pelos autores a partir da pesquisa de campo (2019). Cabe salientar que a funcionalidade dessa cadeia de comercialização depende de diversos agentes que estão nela envolvidos. Assim, não se deve apenas levar em consideração as participações dos feirantes e dos consumidores, pois existem outros atores que são muito imprescindíveis para a sinergia da cadeia apresentada. No mais, tais agentes se beneficiam dessa cadeia para garantir a sobrevivência, conforme esclarece o Quadro 1, oqual elenca os atores e suas respectivas funções. Quadro 1 – Agentes e suas respectivas funções na cadeia produtiva da pescada amarela. Agentes Função Pescador É um dos principais atores da cadeia, pois é o que realiza a captura dos peixes durante a pescaria. Além de comercializar junto ao atravessador, é comum que ele próprio venda diretamente ao consumidor final. Atravessador Pode ser o próprio pescador ou alguém que compra o pescado do pescador, realiza o beneficiamento e o transporte até Belém-PA. Feirante É quem, normalmente, vende o pescado ao consumidor final. Empresário É o responsável pela compra dos peixes diretamente dos atravessadores na Pedra do peixe, no Complexo do Ver-o-Peso, em Belém-PA. Empregados do supermercado Responsáveis pelo repasse do produto comercializado nos supermercados para o agente final da cadeia produtiva. Consumidor Final Aquele que usufrui do produto, configurando-se como o último agente da cadeia. Fonte: Elaborado pelos autores a partir da pesquisa de campo (2019). Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 61 MARGEM DE COMERCIALIZAÇÃO DA PESCADA AMARELA (CYNOSCION ACOUPA) NA CADEIA PRODUTIVA E SUAS DIFERENÇAS NA FEIRA E NO SUPERMERCADO Os dados obtidos nas pesquisas na feira do Ver-o-Peso, conforme dispõe a Tabela 2, indicam que normalmente o produtor (pescador) vende para o atacadista (atravessador) o quilograma (kg) da pescada amarela, em média, a R$ 10,50 kg. O atacadista, por sua vez, normalmente, revende ao varejista (feirante) por R$ 18,00 kg. Este último comercializa junto ao consumidor final por um preço médio de R$ 25,00 kg. Nessa situação, notou-se que o pescado, entre o preço de venda do produtor e o preço pago pelo consumidor final, tem um aumento de R$ 14,50 kg, o que corresponde um percentual de 138,10% de elevação no custo final do produto. Tabela 2 – Variação do preço da pescada amarela em kg na cadeia produtiva da feira do Ver-o-Peso, Belém-PA. Peixe/Agente Pescador Produtor (PP) Atravessador Atacadista (PA) Feirante Varejista (PV) Pescada Amarela R$ 10,50 kg R$ 18,00 kg R$ 25,00 kg Fonte: Elaborado pelos autores a partir da pesquisa de campo (2019). Após a obtenção desses dados, tornou-se possível calcular a margem de comercialização (11) a partir da venda do varejista feirante, alcançando-se os seguintes resultados: a margem do atacado era de 15%; a margem do varejo era de 28%; a margem de comercialização total era de 58%; e; a participação do produtor era de 42%. Destarte, pôde- se observar que em cima do preço repassado pelo produtor há uma margem (um ganho percentual) de 58%, sendo 30% do atacadista e 28% do varejista, como mostra a Tabela 3. Tabela 3 – Cálculo da margem de comercialização da cadeia produtiva envolvendo o feirante Pescada Amarela MA (%) MV (%) MC (%) PP (%) 30% 28% 58% 42% Fonte: Elaborado pelos autores a partir da pesquisa de campo (2019). Por outro lado, no caso da cadeia produtiva envolvendo o supermercado, observou- se que o produtor (pescador) vende para o atacadista (atravessador) o quilograma (kg) da pescada amarela, em média, a R$ 10,50 kg. No entanto, o atacadista (atravessador) revende ao varejista de supermercado a um preço bem menor que ao varejista da feira, R$ 15,00, pois o supermercado compra do atacadista um volume muito maior de pescados, barateando assim o preço do kg do produto. No varejista de supermercado, consoante a pesquisa em um supermercado muito conhecido de Belém, o preço médio da pescada amarela custava R$ 29,50 kg ao consumidor final. Diante disso, evidenciou-se que esse peixe, entre o preço de venda do produtor e o preço pago pelo consumidor final, tem um aumento de R$ 19,00 kg, o que corresponde a um percentual de 180,95% de elevação no custo final do produto (Tabela 4). Tabela 4 – Variação do preço da pescada amarela em kg na cadeia produtiva dos supermercados de Belém-PA. Peixe/Agente Pescador Atravessador Supermercado Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 62 Produtor (PP) Atacadista (PA) Varejista (PV) Pescada Amarela R$ 10,50 kg R$ 15,00 kg R$ 29,50 kg Fonte: Elaborado pelos autores a partir da pesquisa de campo (2019). De posse destes dados foi possível calcular a margem de comercialização, a qual se caracteriza como a diferença percentual entre os preços dos principais agentes de comercialização presentes na cadeia de produção. Onde, a margem de comercialização ou margem total é a diferença entre o preço pago pelos consumidores e o preço recebido pelo produtor (11), como precedentemente mencionado. Sendo assim, com base nos dados obtidos pela pesquisa de campo e após realizar os cálculos da margem de comercialização (11), obteve-se os seguintes resultados: a margem do atacado era de 15%; a margem do varejo era de 49%; a margem de comercialização ou margem total era de 64% e; a participação do produtor era de 36%. Dessa maneira, observou-se que em cima do preço repassado pelo produtor há uma margem (um ganho percentual) de 64%, sendo 15% de atacado e 49% de varejo, como mostra a Tabela 5 abaixo. Tabela 5 – Cálculo da margem de comercialização da cadeia produtiva envolvendo o supermercado. Pescada Amarela MA (%) MV (%) MC (%) PP (%) 15% 49% 64% 36% Fonte: Elaborado pelos autores a partir da pesquisa de campo (2019). Portanto, evidenciou-se que o varejista de supermercado, além de conseguir comprar o pescado do atacadista R$ 3,00 kg mais barato que o varejista de feira consegue agregar valor ao produto – pois oferece frequentemente melhores condições higiênico-sanitárias, segurança, conforto, praticidade de compra (parcelamento de compra) –, e assim comercializar a pescada amarela a um preço bem maior que na feira: em média R$ 4,50 kg mais caro – o que corresponde a uma diferença percentual 18% maior no produto pago no supermercado. Nessa direção, no que tange à margem de comercialização desses dois varejistas, enquanto o feirante tem uma MV de 28%, o empresário do supermercado tem uma MV de 49%, o que dá uma diferença MVs de 21%. No tocante a esses resultados, Passos et al. (13), em estudo semelhante, mostraram que o valor de repasse da pescada amarela do produtor (pescador) para o atacadista (atravessador) era em média R$ 12,00 kg. Ainda assim o atacadista vendia aos varejistas (feirantes e supermercados) a R$ 13,67 kg desse pescado. Na penúltima etapa da comercialização, o quilograma do peixe era vendido pelo preço de R$ 20,00 kg, pelo feirante, e de 21,90 kg, pelo supermercado. Assim, constatou-se que o pescado, entre o preço pago ao produtor e o preço pago pelo consumidor final ao varejista feirante, tem um aumento de R$ 8,00 kg. Contudo, entre o preço pago ao produtor e o preço pago pelo receptor final ao varejista do supermercado houve um aumento de R$ 9,90 kg. Tendo como base estes valores, pôde-se observar a margem de comercialização relativa entre os dois varejistas, os feirantes tinham uma MV de 31%, enquanto o supermercado tinha uma MV de 37%, mostrando que havia diferença entre as MVs de 6%. Assim, em uma comparação entre os dois estudos, notou-se que entre 2018 e 2019 houve, além do aumento no preço do pescado, uma variação na margem de comercialização. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 63 CONCLUSÕES Neste trabalho, constatou-se que a cadeia produtiva da pescada amarela é, comumente, formada pelos seguintes agentes: pescador, atravessador, feirante, empresário/proprietário do supermercado (e seus trabalhadores) e consumidor final. Os municípios que mais produzem a pescada amarela estão localizados na região do Salgado Paraense, os quais, dada a localização próxima da capital, contribuem com a produção, a comercialização e o abastecimento de pontos de venda em Belém. Assim, esse pescado pode ser encontradocom facilidade em vários pontos da cidade, em grande quantidade e a preços variados. No que diz respeito ao preço do produto, com o cálculo da margem de comercialização, concluiu-se que o preço da pescada amarela vendida na feira do preço médio encontrado nos supermercados. Quanto às margens de comercialização dos varejistas entendeu-se que há uma disparidade entre a margem do varejista da feira e a margem do varejista do supermercado, ou seja, os donos de supermercado ganham muito mais que os feirantes sobre o preço repassado pelo atravessador (atacadista). REFERÊNCIAS 1. Food and Agriculture Organization of the United Nation. The state of world Fisheries and aquaculture. Roma; 2016. 2. Lopes MLB, Costa PA, Santos JSB, Cunha SJT, Santos MAS, Santana AC. Mercado e Dinâmica Espacial da Cadeia Produtiva da Pesca e Aquicultura na Amazônia. Belém; 2010. 3. Oliveira LM, Rocha LF, Guerreiro SLM, Santos MAS. 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Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 65 10.53934/9786599539626.8 Capítulo 8 ANÁLISE DA ATIVIDADE ANTIOXIANTE DE VINHOS TINTOS ELABORADOS POR DIFERENTES TECNOLOGIAS DE VINIFICAÇÃO: REVISÃO Marianna Pozzatti Martins de Siqueira1 1Docente do curso de Tecnologia em Gastronomia – IF FARROUPILHA; E-mail: mariannapms@hotmail.com. Resumo: O vinho tinto vem sendo muito apreciado pelo seu apelo sensorial e benefícios à saúde conferidos pelos agentes antioxidantes presentes. A concentração de agentes antioxidantes depende principalmente da variedade de uva, mas sofre influência das técnicas de produção da videira e das tecnologias de vinificação empregadas durante a elaboração do vinho. Foram encontrados 19 estudos ligados diretamente ao assunto desta revisão. Observou-se a avaliação de diferentes variedades de uva, que é de extrema importância para os estudiosos e enólogos a fim de verificar a performance das diferentes variedades de uva e também, a observação do impacto do terroir através da avaliação das mesmas variedades oriundas de diferentes locais. Também, observou-se a abordagem de diferentes tecnologias de vinificação e o emprego de diversos métodos de análise da atividade antioxidante. Estes estudos são de grande valia, uma vez que nos proporcionam o conhecimento da performance de diferentes processos de vinificação aplicados de diferentes formas e em diferentes variedades de uva, auxiliando no desenvolvimento do setor vitivinícola, trazendo novas opções para a indústria, além de conhecimento para o desenvolvimento acadêmico. O objetivo desta revisão consistiu na elaboração de uma análise bibliométrica sobre os trabalhos que estudaram a aplicação de diferentes tecnologias de vinificação com foco na verificação do impacto na atividade antioxidante de vinhos tintos. A metodologia empregada neste estudo consistiu em uma análise bibliométrica. O estudo tem característica teórica, possui objetivos descritivos e exploratórios e os procedimentos metodológicos enquadram- se como levantamento bibliográfico. Palavras-chave: atividade antioxidante; técnicas de vinificação; tecnologias de vinificação; vinho tinto INTRODUÇÃO O consumo de vinho vem aumentando ao longo do tempo, tanto pelo seu apelo sensorial, como pelos benefícios à saúde atrelados ao seu consumo moderado. Estes benefícios são devidos ao seu poder antioxidante, que pode auxiliar na prevenção de doenças degenerativas, redução do risco de doenças cardiovasculares, entre outras (1). Os constituintes que propiciam esta ação são conhecidos como compostos fenólicos e abrangem diversas classes, como as antocianinas, ácidos fenólicos, flavonoides, etc. (2,3,4). A presença dos compostos fenólicos é dependente de diversos fatores, um dos principais, trata-se da variedade de uva. É sabido que uvas tintas apresentam um maior aporte Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 66 de determinados compostos fenólicos do que as uvas brancas (5). Mas a variedade de uva não constitui o único fator. O stress a que a videira foi submetida durante o cultivo, ataque de fungos, quantidade de água disponível, irradiação UV, amplitude térmica também são fatores cruciais para determinar a quantidade de compostos fenólicos e consequente atividade antioxidante que as uvas apresentarão (6,7). Embora, estudos evidenciem que estes são os fatores preponderantes na determinação do perfil de compostos que as uvas e, consequentemente, os vinhos apresentarão, há estudos que indicam a possibilidade de alteração de diversas características dos vinhos por meio das técnicas de vinificação (8,9). Existem diversas tecnologias e técnicas de vinificação que podem ser empregadas a fim de melhorar a qualidade de um vinho, aliado ao fato de que os compostos fenólicos podem ser estudados por diversas técnicas. É interessante conhecer a performance das tecnologias de vinificação com relação a atividade antioxidante, uma vez que além da importância para a saúde, os compostos fenólicos extraídos afetam as características organolépticas da bebida (5). Com base no exposto acima, o objetivo desta revisão consiste em observar e catalogar os estudos já realizados com vistas à avaliação do desempenho de diferentes tecnologias/técnicas de vinificação aplicadas na elaboração de vinhos tintos levando em consideração o impacto da tecnologia aplicada na atividade antioxidante dos vinhos. A metodologia empregada neste estudo consistiu em uma análise bibliométrica. O estudo tem característica teórica, possui objetivos descritivos e exploratórios e os procedimentos metodológicos enquadram-se como levantamento bibliográfico, uma vez que são baseados na observação de pesquisas referentes ao assunto abordado (10). As etapas envolvidas no estudo foram uma análise preliminar sobre o assunto, a partir da qual observou-se as principais palavras-chave que descrevem o assunto, as quais foram: “atividadeantioxidante”, “vinho tinto”, “tecnologias de vinificação”, “técnicas de vinificação”, “antioxidant activity”, “red wine”, “winemaking technologies” e “winemaking techniques”. Após, prosseguiu-se a pesquisa, utilizando as referidas palavras-chave nas principais bases de dados, a saber, Scopus, Science Direct e Web of Science. Foram considerados os artigos mais relevantes e não foram aplicados filtros, tais como o ano de publicação, a fim de verificar a evolução das pesquisas ao longo do tempo. Após, foram selecionados os artigos, os quais compuseram o banco de dados do assunto, e, com base na leitura dos resumos dos artigos selecionados, formulou-se a compilação final dos artigos mais relevantes referentes ao assunto (Quadro 1). ANÁLISE BIBLIOMÉTRICA DE ESTUDOS RELACIONADOS AO ASSUNTO DA REVISÃO Utilizando a metodologia anteriormente descrita, foi realizada a pesquisa colocando as palavras-chave, tanto em português como em inglês, entre aspas, nos citados mecanismos de busca. Com base na análise bibliométrica foram selecionados os artigos de maior relevância relacionados ao assunto, os quais são apresentados no Quadro I. Quadro 1 - Artigos relacionados ao assunto da análise bibliométrica TÍTULO/REFERÊNCIA/A NO TECNOLOGIAS UTILIZADAS MÉTODO DE ANÁLISE VARIED ADE DE UVA Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 67 Influence of enological practices on the antioxidant activity of wines/(11)/2006 Diferentes tempos de maceração, clarificação com albumina, gelatina e filtração por membrana ORAC, ABTS, DPPH Cabernet Sauvignon , Tempranil lo, Syrah Phenolic content and antioxidant activity of Primitivo wine: Comparison among winemaking technologies/(12)/2009 Vinificação tradicional, delestage, saignée, chapéu submerso, adição de taninos de sementes de uva, adição de taninos elágicos de sementes e películas, aquecimento do mosto, crio-maceração e maceração prolongada DPPH, ensaio de branqueamen to de B- caroteno e ABTS Pimitivo Pulsed electric field-assisted vinification of Aglianico and Piedirosso grapes/(13)/2010 Campo elétrico pulsado DMDP (f N,Ndimethyl -p- phenylenedia mine) Aglianico, Piedirosso Influence of Saccharomyces cerevisiae wine strains on total antioxidant capacity/(14)/2011 Diferentes leveduras Ensaio PCL (fotoquimiol uminescência ) Nero d’Avola Effect of different winemaking technologies on antioxidant potential of red wines/(15)/2011 Diferentes dias de maceração DPPH (2,2- diphenyl-1- picrylhydraz yl radical) Cabernet Sauvignon , Prokupac Antioxidant activity and phenolic compounds in organic red wine using different winemaking techniques/(16)/2011 Vinificação clássica, vinificação após maceração prolongada e vinificação com adição de enzimas enológicas DPPH Monastrel l Influence of winemaking techniques on the resveratrol content, total phenolic content and antioxidant potential of red wines/(17)/2012 Termovinificação, separação do mosto do bagaço DPPH Merlot, Cabernet Sauvignon , Pinot Noir, Prokupac Stilbene levels and antioxidant activity of Vranec and Merlot wines from Macedonia: Effect of variety and enological practices/(18)/2012 Diferentes tempos de maceração, enzimas e níveis de dióxido de enxofre ABTS Vranec, Merlot The influence of skin maceration time on the phenolic composition and antioxidant activity of red wine Teran (Vitis vinifera L.)/(19)/2012 Diferentes tempos de maceração DPPH, ABTS e FRAP (ferric reducing antioxidant power) Teran Pulsed electric field-assisted cold maceration of Cabernet franc and Cabernet Sauvignon grapes/(20)/2013 Campo elétrico pulsado e maceração a frio DPPH Cabernet Franc, Carbernet Sauvignon Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 68 Pre-drying and submerged cap winemaking: Effects on polyphenolic compounds and sensory descriptors. Part I: BRS Rúbea and BRS Cora/(21)/2015a Vinificação clássica, secagem das uvas e vinificação com chapéu submerso DPPH BRS Rúbea, BRS Cora Pre-drying and submerged cap winemaking: Effects on polyphenolic compounds and sensory descriptors. Part II: BRS Carmem and Bordô (Vitis labrusca L.)/(22)/2015b Vinificação clássica, secagem das uvas e vinificação com chapéu submerso DPPH Bordô e BRS Carmem Characterization of the phenolics and free-radical scavenging of Romanian red wine/(23)/2016 Maceração clássica, escoamento do mosto, bombeamento sobre o mosto, adição de taninos, delestage, adição de enzimas ABTS Feteasca Neagra, Negru Aromat Effect of maceration duration on physicochemical characteristics, organic acid, phenolic compounds and antioxidant activity of red wine from Vitis vinífera L. Karaoglan/(24)/2016 Diferentes tempos de maceração ABTS e DPPH Karaoglan Phenols, volatiles and sensory properties of Primitivo wines from the "Gioia Del Colle" PDO Area/(25)/2016 Tempo de maceração, temperatura, remontagens, leveduras, ativador de leveduras e quantidade de metabissulfito de potássio ABTS Primitivo Impact of ultrasounds on the extraction of polyphenols during winemaking of red grapes cultivars from southern Italy/(26)/2017 Aplicação de ultrassom ABTS Primitivo, Nero di Troia e Aglianico The effects of fash release conditions on the phenolic compounds and antioxidant activity of Pinot noir red wine/(27)/2017 Flash release e maceração clássica ABTS e FRAP Pinot Noir Total phenols, stilbene and antioxidative activity in Babić and Plavac mali wines; Eficiency of pectolytic enzymes/(28)/2019 Enzimas pectinolíticas AA e DPPH Babic e Plavac mali Influence of the carbonic maceration winemaking method on the physicochemical, colour, aromatic and microbiological features of tempranillo red wines/(29)/2020 Maceração carbônica e vinificação clássica DPPH Tempranil lo Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 69 DISCUSSÃO SOBRE OS ARTIGOS ENCONTRADOS POR MEIO DA ANÁLISE BIBLIOMÉTRICA Com base na pesquisa, foram encontrados 19 artigos intimamente relacionados com a proposta desta revisão. Os artigos foram publicados entre os anos de 2006 e 2020. A revista onde mais foram encontrados estudos sobre o assunto foi na revista Food Chemistry, que apresenta um fator de impacto de 7,514 no ano de 2021. Este fato evidencia a importância do assunto. Com relação às variedades de uva, os estudos abordaram 24 variedades de uva tintas. Algumas variedades são bastante difundidas em diversos países, como a Cabernet Sauvignon, Merlot e Pinot Noir. Outras, são variedades autóctones e pouco conhecidas ao redor do mundo, como Primitivo, Nero di Troia e Aglianico, entre outras. Conhecer o potencial de uvas pouco estudadas ou difundidas em outras culturas é de extrema importância para o desenvolvimento do setor vitivinícola. Uvas já difundidas são igualmente importantes de serem observadas, uma vez que, o vinho sofre influência de diversas variáveis, desde o cultivo da videira, terroir, até as tecnologias aplicadas. Por isso, conhecer o impacto dessas variáveis também é de grande valia para os produtores e estudiosos do vinho. Verificando o país de publicação dos artigos, também se percebe o interesse pelo assunto em diversas partes do mundo (Figura 1). Itália e Espanha são os países que mais publicaram sobre a temática, seguido do Brasil, Croácia e Sérvia. Também, é importante salientar que os dois países que mais publicaram sobre o assunto, tratam-se de países que mais apresentam uvas autóctones, confirmando o que foi comentado sobre o interesse em verificar a performance de diferentes variedades de uva pouco estudadas ou pouco conhecidasem outros países (30). Ademais, observa-se que nos dois estudos brasileiros, foi avaliada a capacidade antioxidante de uvas americanas desenvolvidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa): BRS Rúbea, BRS Cora e BRS Carmem. Figura 1 - País de publicação de estudos sobre a atividade antioxidante de vinhos tintos elaborados por diferentes tecnologias de vinificação Com relação aos resultados da análise antioxidante, foi possível verificar resultados bastante interessantes. Para a uva Primitivo, a adição de taninos aumentou a atividade antioxidante total. Também, verificou-se que vinhos com um ano de garrafa, apresentaram maior a atividade antioxidante (12). 5 1 1 23 2 2 1 1 1 Número de estudos por país Itália Romênia Alemanha Sérvia Espanha Brasil Croácia Líbano Turquia Polônia Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 70 Para vinhos elaborados com as variedades Feteasca Neagra and Negru Aromat, foi observado que a maceração clássica é a melhor escolha para produzir vinhos de excelente qualidade (23). Para Kostadinovic et al. (18) a variedade de uva e tempo de maceração foram as variáveis que mais influenciaram na concentração de estilbenos e atividade antioxidante. Vinhos Merlot apresentaram maiores concentrações de trans-piceid. No entanto, vinhos elaborados com a variedade Vranec apresentaram uma maior atividade antioxidante, por apresentar maiores concentrações de outros polifenóis. Este resultado aponta que antocianinas e outros polifenóis contribuem mais para a atividade antioxidante do que estilbenos. Também, verificaram que a concentração de SO2 não influenciou na composição fenólica ou atividade antioxidante. Outro estudo apontou a influência da termovinificação para o aumento da concentração de compostos fenólicos e da atividade antioxidante para as variedades Merlot, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir e Prokupac (17). Outro trabalho apontou a importância da maceração e fermentação prolongadas para a variedade Cabernet Sauvignon e Prokupac, o contato prolongado do mosto com as partes sólidas contribuiu para o aporte da atividade antioxidante e compostos bioativos (15). Villaño et al. (11) verificou que a o grau de pressão trata-se do tratamento que mais impacta no aumento da atividade antioxidante dos vinhos. Já os efeitos dos diferentes métodos de clarificação foram menores. Gambacorta et al. (26) observaram o efeito da aplicação de ultrassom em vinhos provenientes das variedades Aglianico, Primitivo e Nero di Troia. Concluíram que o impacto do tratamento depende da variedade de uva. Neste caso, se adaptou melhor às variedades Primitivo e Aglianico. Observando o desempenho da maceração carbônica e maceração clássica, observou- se que a maceração clássica providenciou maior concentração de derivados coumaroil das antocianinas, vitisina A e B e atividade antioxidante (29). A performance do campo elétrico pulsado foi testado nas uvas Aglianico e Piedirosso. Foram verificadas diferenças no impacto do tratamento entre as variedades e que o tratamento com campo elétrico pulsado aumenta a taxa de extração de compostos fenólicos e antocianinas e da atividade antioxidante (13,20). De Castilhos et al. (21, 22) estudaram castas americanas elaboradas por diferentes processos de vinificação, como chapéu submerso e secagem das uvas. Verificaram que a aplicação de calor pareceu não influenciar na atividade antioxidante, embora tenha causado a degradação de diversos compostos. Provavelmente, porque os compostos de degradação (produtos da reação de Maillard) também apresentam atividade antioxidante. Kovačević et al. (2019) observaram o efeito do uso de diferentes enzimas pectinolíticas comerciais e observou desempenhos diferentes com relação aos compostos fenólicos e atividade antioxidante em vinhos oriundos das variedades Babić and Plavac mali. Kocabey et al. (24) e Plavša et al. (19) estudaram diferentes tempos de maceração e verificaram uma relação linear entre o tempo de maceração e o aumento da atividade antioxidante. Foi encontrado um único estudo que não evidenciou diferenças significativas entre os diferentes processos de vinificação (maceração prolongada, adição de enzimas enológicas e vinificação tradicional) em vinhos Monastrell (16). Flash release aumentou a extração de compostos fenólicos e atividade antioxidante (27). Com relação aos métodos de análise da atividade antioxidante, são reportados na literatura diversas metodologias. A maioria se baseia na fluorescência e quimioluminescência por meio da análise de inibição - geração de um radical livre seguido Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 71 de reação que pode ser visualizada e quantificada (31,32). Nesta revisão bibliográfica, a maioria dos estudos utilizou o método ABTS, DPPH ou ORAC. O método DPPH (2,2-diphenyl-1-picrylhydrazyl) é um dos mais conhecidos para a análise da atividade antioxidante. O método é simples, rápido, eficiente e apresenta baixo custo. Consiste em um radical livre estável de coloração roxa e absorção na faixa de 515- 520 nm. Na presença de um agente antioxidante, o radical aceita um elétron ou um átomo de hidrogênio que converterá o DPPH em uma molécula mais estável. O radical em seu estado reduzido passa da coloração roxa para a cor amarela, podendo determinar a atividade antioxidante por meio da análise espectrofotométrica. Os resultados costumam ser expressos como Concentração Eficiente (CE50), definida como a quantidade de amostra necessária para diminuir a concentração inicial de DPPH em 50% (33). O método ORAC avalia a capacidade sequestradora de um agente antioxidante frente a um radical peroxila induzido pelo AAPH a 37 °C (ORAC – do inglês Oxygen radical absorbance capacity). Normalmente, são utilizados comprimentos de onda de excitação e emissão de 485 nm e 528 nm, respectivamente, e os resultados costumam ser expressos em μmol de Trolox por L ou Kg de amostra (34). O método ABTS baseia-se na captura do radical 2,2´-azinobis(3-etilbenzotiazolina- 6-ácido sulfônico) que pode ser gerado por meio de uma reação eletroquímica, química ou enzimática, apresentando absorvância a 734 nm (35). Tendo em mente que não há um método único de análise, e que, estudos evidenciam que os métodos podem apresentar resultados não lineares entre concentração de agente antioxidante e o radical (36,37), torna-se importante realizar o estudo de validação de métodos para cada amostra, uma vez que podem ocorrer comportamentos diferentes (33). CONCLUSÕES Observou-se que os estudos intimamente ligados ao assunto abordaram diferentes variedades de uva provenientes de diversos locais, além de diversas tecnologias de vinificação. Também, evidenciou-se o emprego de diversos métodos de análise da atividade antioxidante. Os resultados expõem que o vinho sofre influência de diversas variáveis, desde o seu cultivo até o engarrafamento e isso justifica a importância da realização de análises que elucidem e indiquem tecnologias apropriadas para auxiliar a indústria e estudiosos sobre o assunto a providenciar o desenvolvimento do setor. REFERÊNCIAS 1. Apostolidou C, Adamopoulos K, Lymperaki E, Iliadis S, Papapreponis P, Kourtidou- Papadeli C. Cardiovascular risk and benefits from antioxidant dietary intervention with red wine in asymptomatic hypercholesterolemics. Clin. Nut. ESPEN.2015;10:e224-e233. 2. Avellone G, Di Garbo V, Campisi D, De Simone R, Raneli G, Scaglione R, Licata G. Effects of moderate Sicilian red wine consumption on inflammatory biomarkers of atherosclerosis. Eur. J. Clin. Nutr.2006;60:41-47. 3. Pazos M, Alonso A, Fernández-Bolaños J, Torres JL, Medina I. 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Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 75 10.53934/9786599539626.9 Capítulo 9 ANÁLISE LOCACIONAL DE INDÚSTRIA DE UVA PASSA EM EMBALAGENS INDIVIDUAIS Bárbara Keiko Querino Kuboyama1; Bruna Lorena Figueiredo2; Marcelino Serretti Leonel3; João Vinícios Wirbitzki da Silveira4; Tatiana Nunes Amaral5 1Graduada no Curso de Engenharia de Alimentos – ICT – UFVJM; E-mail: barbarakuboyama@hotmail.com 2Pós-graduanda em Ciência e Tecnologia de Alimentos – ICT – UFVJM; E-mail: brunalf.eng@gmail.com 3Docente do Instituto de Ciência e Tecnologia – ICT – UFVJM; E-mail: mserretti@ict.ufvjm.edu.br 4Docente do Instituto de Ciência e Tecnologia – ICT – UFVJM; E-mail: joao.silveira@ict.ufvjm.edu.br5Docente do Instituto de Ciência e Tecnologia – ICT – UFVJM; E-mail: tatiana.amaral@ict.ufvjm.edu.br Resumo: O Brasil é um dos países de destaque na produção de frutas, dentre elas a uva. Mesmo com este potencial, ainda é importador de uva passa e explora pouco o processo de secagem da uva para agregar valor e reduzir os prejuízos pelo desperdício do manejo da fruta in natura. Para analisar a oportunidade de implantação de uma indústria de uva passa em embalagens individuais para atender ao público da região metropolitana de Belo Horizonte (MG) e de Diamantina (MG) foi realizado estudo locacional da unidade processadora. Foram estudados critérios clássicos e contemporâneos de análise locacional para as cidades: Diamantina (MG), Bento Gonçalves (RS) e Petrolina (PE). De acordo com o levantamento, Petrolina foi a cidade com maior adequação à implantação da unidade, seguida de Bento Gonçalves e Diamantina. Os fatores determinantes na pontuação foram: incentivo fiscal, proximidade física da produção de uvas, média salarial e custo de serviços básicos. Nesse contexto, pode-se destacar que o estudo locacional de uma agroindústria é multifatorial e decisivo no sucesso do empreendimento. Palavras–chave: agroindústria; fruta; localização; produção; secagem INTRODUÇÃO O segmento de fruticultura é um dos setores de maior destaque no agronegócio brasileiro, levando o país a ocupar o terceiro lugar da produção mundial de frutas (1). Dentro deste cenário, a uva está entre as cinco frutas mais produzidas no país, com uma produção de lavoura permanente de 1.439.535 toneladas no ano de 2015 (2). Com uma produção elevada, o desperdício de frutas no Brasil também é alto. Estima-se que cerca de 40% de toda colheita é perdida devido a problemas de manejo destes alimentos perecíveis. Um dos processos aplicados a frutas para aumento de vida e prateleira é a secagem, sendo um método de conservação pelo princípio de redução da atividade de água da matriz alimentar. Além disso, a secagem traz maior versatilidade para o consumo e aplicação na indústria alimentícia, como barras de cereal, bolos e panificados em geral e promove redução no peso do produto, reduzindo o custo de transporte e armazenamento (3). Em 2012 o Brasil importou aproximadamente 24.613 toneladas de uva passa. Considerando que praticamente toda uva passa consumida no Brasil é importada e o aumento do interesse dos consumidores por alimentos saudáveis e porções individuais, nota-se que a produção de uva passa no Brasil é um mercado promissor (4). Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 76 Para implantar uma indústria devem-se considerar fatores que trarão vantagens competitivas para o negócio como características geográficas, volume de produção, distância da matéria prima e preço de mão-de-obra, entre outros. A decisão do local de implantação é crucial para diminuição de custos e para manter a sustentabilidade do negócio, e a Análise Locacional é uma metodologia que dá suporte para essa tomada de decisão (5). De acordo com o exposto o presente trabalho teve como objetivo realizar Análise Locacional de uma indústria processadora de uva passa para venda em embalagens individuais para público da região metropolitana de Belo Horizonte (MG) e de Diamantina (MG). MATERIAL E MÉTODOS Para a definição dos possíveis locais de implantação da indústria de uva passa foi realizada uma pesquisa sobre a produção de uva em três cidades: Petrolina (PE), Bento Gonçalves (RS) e Diamantina (MG) no ano de 2017. A indicação da cidade mais adequada à atividade foi realizada por Análise Locacional, considerando que o produto final seria distribuído na região metropolitana de Belo Horizonte (MG) e Diamantina (MG), a fim de se ter um produto alternativo aos importados encontrados no mercado. Os critérios selecionados para realizar a análise locacional da indústria de uva passa foram baseados nas Teorias Clássica e Contemporânea de Localização (5). Os critérios Clássicos considerados foram: distância até o principal centro consumidor, custo da mão- de-obra, proximidade e suprimento de insumos materiais, custo de água e energia. Os critérios Contemporâneos foram: qualidade de vida, número de universidades (conexão ciência-indústria), atuação de parceiros como setor público, incentivo fiscal. Foram atribuídas notas que variaram de 01 (mínimo) a 05 (máximo) para cada critério, de acordo com as vantagens e desvantagens encontradas em cada um dos municípios analisados. Além de notas, também foram atribuídos pesos aos critérios de avaliação de acordo com o seu grau de importância na análise locacional. Critérios que receberam peso 5 foram definidos como de extrema importância, critérios com peso 3 foram de importância intermediária e critérios com peso 1 foram de pouca importância. Os resultados foram analisados de acordo com a soma das notas atribuídas a cada cidade analisada. RESULTADOS E DISCUSSÃO Foram coletados dados Clássicos e Contemporâneos para a análise locacional de uma indústria processadora de uva passa em embalagens individuais e os mesmos estão apresentados respectivamente nas Tabelas 1 e 2. De acordo com os resultados colocados na Tabela 3 pode-se verificar que a cidade histórica Diamantina (MG), alvo de venda do produto, não apresentou os melhores critérios para a instalação da indústria. Mesmo com a proximidade com o consumidor, a distância da matéria-prima caracteristicamente perecível traz prejuízos, os custos básicos são altos, além do baixo incentivo fiscal para a agroindústria na região. Com nota intermediária, Bento Gonçalves (RS) atinge 129 pontos, tendo como pontos fortes a proximidade da matéria- prima, o incentivo fiscal regional e o número de universidades. A média salarial foi o critério que mais impactou negativamente na análise. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 77 A cidade de Petrolina (PE) obteve a maior pontuação (149) e por isso apresenta-se como a cidade de maior viabilidade para implantação do empreendimento analisado no presente trabalho. Petrolina tem o perfil industrial bastante evidenciado, pois a região do Vale do São Francisco representa grande produção de frutas, inclusive de uva. Entre 2007 e 2012 a cidade foi o palco para instalação de 18 novas indústrias, e especialmente no ramo da agroindústria, as empresas têm até 95% de redução no ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços) proveniente do estado de Pernambuco (6), levando Petrolina a ser a melhor opção para a implantação da indústria. Além disso, os custos com serviços básicos e a média salarial são atrativos. Tabela 1 – Coleta de dados: critérios Clássicos Critérios/Cidades Bento Gonçalves Diamantina Petrolina Distância média até o principal centro consumidor (km) 1.608 - 1.683 Média Salarial (R$) 1.120,98 937,00 1.160,33 Distância da matéria prima (km) - 125 - Água (R$.m-³) 4,01 13,94 1,59 Esgoto (R$.m-³) 2,01 6,98 0,79 Luz (kWh) 0,48 0,72 0,61 Embalagem + frete (500 un) (R$) 286,55 265,35 351,15 Lecitina (10 kg) + frete (R$) 374,67 330,42 368,83 Uva (kg) (R$) 8,00 - 7,00 Fonte: Autores (2017) Tabela 2 – Coleta de dados: critérios Contemporâneos Critérios/Cidades Bento Gonçalves Diamantina Petrolina Número de universidades 6 3 6 Incentivo fiscal Sim Não Sim IDH (Índice de desenvolvimento humano) 0,778 0,716 0,697 Fonte: Autores (2017) Tabela 3 – Pontuações e pesos atribuídos às cidades de acordo com os critérios mais relevantes Critérios Bento Gonçalves Diamantina Petrolina Nota Peso Nota x Peso Nota Peso Nota x Peso Nota Peso Nota x Peso Distância média até o principal centro consumidor 3 3 9 5 3 15 2 3 6 Distância da matéria- prima 5 5 25 1 5 5 5 5 25 Custo de serviços básicos (água, esgoto, energia) 3 4 12 1 4 4 5 4 20 Ciência e Tecnologiade Alimentos: Pesquisas e Avanços 78 Embalagem 3 4 12 4 4 16 2 4 8 Lecitina 3 3 9 4 3 12 3 3 9 Uva 4 5 20 1 5 5 5 5 25 Número de universidades 5 3 15 2 3 6 5 3 15 Média salarial 3 4 12 5 4 20 4 4 16 Incentivo fiscal 3 5 15 1 5 5 5 5 25 Nota final 129 88 149 Fonte: Autores (2017) CONCLUSÕES A cidade de Petrolina (PE) apresentou critérios de destaque positivos para a instalação de uma unidade processadora de uva passa em embalagens individuais para atendimento da região metropolitana de Belo Horizonte (MG) e de Diamantina. A perecibilidade da uva traz a necessidade da unidade processadora estar próxima das plantações, além de que os custos operacionais e os incentivos fiscais foram fundamentais para a escolha. Nesse contexto, pode-se destacar que o estudo locacional de uma agroindústria é multifatorial e decisivo no sucesso do empreendimento. AGRADECIMENTOS Os autores agradecem ao Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES). REFERÊNCIAS 1. Machado AV, Souza JA, Novaes RS. Estudo cinético da secagem da uva Isabel para produção de uva passa. Rev. Verde de Agroec. e Desen. Sust. 2015; 10: 47-51. 2. SEBRAE. Agronegócio: Fruticultura [Internet]. 2015. [acesso em 2020 Set 20]. 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Disponível em: http://www.carlosbritto.com/petrolina-recebe-19-industrias-em-cinco-anos- segundo-addiper/ http://www.carlosbritto.com/petrolina-recebe-19-industrias-em-cinco-anos-segundo-addiper/ http://www.carlosbritto.com/petrolina-recebe-19-industrias-em-cinco-anos-segundo-addiper/ Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 79 10.53934/9786599539626.10 Capítulo 10 ANÁLISE MICROBIOLÓGICA DE CARNE MOÍDA BOVINA COMERCIALIZADA NO MUNÍCIPIO DE JAGUARIBE - CEARÁ Paula Dayane Diógenes Granja1; Maria Michele da Costa2; Mírian Rebouças Nunes3; Rafael Souza Cruz4; Marcos Venicius Nunes5; Clarissa Maia de Aquino6; Luana Maria de Lima Santos7 1Graduanda em Ciências Biológicas – IFCE, Campus Jaguaribe; E-mail: dayanegranja14@gmail.com 2Graduanda em Ciências Biológicas – IFCE, Campus Jaguaribe; E-mail: michelecostaejma@gmail.com 3Graduada em Ciências Biológicas – IFCE, Campus Jaguaribe; E-mail: miriannunes2@hotmail.com 4Mestrando em Ciência e Tecnologia de Alimentos – UFC, Campus Pici; E-mail: rafaelsouzacruz123@gmail.com 5Mestrando em Biotecnociência – CCNH – UFABC, Campus Santo André; E-mail: marcosvnbio@gmail.com 6Doutoranda em Ciência dos Alimentos – CCA – UFSC; E-mail: clarissa_jbe@hotmail.com 7Mestra em Tecnologia de Alimentos – IFCE, Campus Limoeiro do Norte; E-mail: luanajbe@gmail.com Resumo: A carne bovina é um alimento de amplo consumo em todo o território brasileiro, sendo comercializada em diferentes cortes, principalmente na forma de carne moída. Possui alto valor nutritivo, entretanto, apresenta elevada deterioração em virtude a proliferação de microrganismos. Tendo em vista a importância deste alimento para a população, objetivou- se neste trabalho a realização da análise microbiológica em carnes moída bovina comercializadas em frigoríficos do município de Jaguaribe, Ceará. Foram adquiridas 200g de amostras em 6 frigoríficos no comércio local e encaminhadas para o Laboratório de Química do IFCE – Campus Jaguaribe, onde realizaram-se as análises microbiológicas para detecção de Coliformes Totais, Coliformes Termotolerantes e Eschirichia coli. Os dados obtidos foram analisados utilizando-se o programa Statistic 7® para os testes de ANOVA e teste de Tukey em nível de 5% de significância. Os resultados evidenciaram que as amostras 1, 2 e 3 apresentaram resultado negativo para e Eschirichia coli. As amostras 4 e 5 apresentaram-se positivas e acima do nível permitido, enquanto a amostra a 6 apresentou- se dentro do nível de tolerância permitido, conforme a Resolução RDC nº 12 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Ressalta-se que as amostras apresentam um nível de contaminação significativo, podendo ser um risco para a saúde dos consumidores. Recomenda-se a adoção de medidas de higiene adequadas e de boas práticas de manipulação de alimentos para evitar a contaminação da carne moída, garantindo a qualidade do produto comercializado. Palavras–chave: produtos cárneos; qualidade microbiológica; segurança alimentar; INTRODUÇÃO A carne bovina é um alimento de amplo consumo em todo o território brasileiro, estando presente na dieta da grande maioria da população brasileira (9), sendo considerado como um dos alimentos mais importantes para o setor econômico do país, uma vez que o Brasil ocupa a 6ª colocação no ranking mundial de exportação dos produtos cárneos de origem bovina (8, 12). mailto:dayanegranja14@gmail.com mailto:michelecostaejma@gmail.com mailto:miriannunes2@hotmail.com mailto:rafaelsouzacruz123@gmail.com mailto:marcosvnbio@gmail.com mailto:Norte;%20luanajbe@gmail.com Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 80 Considerada uma das principais fontes de proteína animal (2), a carne bovina apresenta-se como sendo uma fonte rica em disponibilidade de ácidos graxos, gorduras e vitamina A e do complexo B, zinco e ferro (9), além de se apresentar como um alimento altamente versátil, encontrando-se em diferentes cortes, principalmente na forma de carne moída (13), podendo ser utilizada de maneira prática e variada, destacando-se, assim, como uma importante forma de comercialização (17). Apesar de ser um alimento altamente nutritivo, a carne moída apresenta rápida deterioração, por possuir grande quantidade de nutrientes, elevada atividade de água, maior área de contato exposta e pH favorável para a proliferação de microrganismos (12), além de fatores associados que facilitam sua contaminação, como a maior superfície de contato ou durante a manipulação em diversas preparações na indústria de alimentos e na residência do consumidor, bem como apresentar-se como ótima carreadora de microrganismos deteriorantes e patogênicos, observando-se que a presença de patógenos não está associada à deterioração tornando-se imperceptível ao consumidor (9), dificultando-se a percepção de que a carne está inadequada para consumo (21). Microrganismos indicadores são utilizados na avaliação da qualidade microbiológica dos alimentos, no que tange a vida de prateleira e a segurança alimentar indicando a presença de patógenos alimentares, sendo estes pertencentes a grupos ou espécies de microrganismos que, quando presentes em um alimento, podem fornecer informações sobre a ocorrência de contaminação fecal, sobre a presença de patógenos ou sobre a deterioração do alimento. Tais microrganismos podem indicar as condições higiênico-sanitárias inadequadas durante o processamento, produção ou armazenamento dos alimentos (12). Neste sentido, a RDC nº 12 de 2001, estabelece parâmetros de qualidade microbiológica de carnes, destacando e determinando alguns limites máximos de tolerância/presença de bactérias, porém para coliformes em carne in natura ou depois do cozimento não hápadrões (4). Assim, essas bactérias são utilizadas como indicadoras das condições higiênico-sanitárias nos alimentos, sendo que a sua presença em carnes indica baixas condições higiênico-sanitárias como, por exemplo, a baixas condições que antecedem o abate animal, além da exposição à locais de armazenamento inadequados (21), bem como o uso de equipamentos mal higienizados, a ausência de limpeza da bancada e a má higiene dos manipuladores (16), sendo estes fatores que podem expor a carne moída a contaminação, colocando assim em risco a saúde dos consumidores (3). Os Coliformes Totais compreende as bactérias da família das Enterobacteriaceae, bactérias bacilares gram negativas, não formadoras de esporos e capazes de fermentar a lactose, com produção de gás quando incubados a 35-37 °C – por 48 h. Deste grupo de microrganismos indicadores apenas as bactérias do gênero Escherichia têm como habitat primário o trato intestinal do homem e dos animais. Já as bactérias pertencentes aos outros gêneros Citobacter, Enterobacter e Klebsiella além de serem encontradas nas fezes também são encontradas em outros ambientes como, vegetais e solo. Estas bactérias persistem por um tempo superior, fora do trato intestinal, do que bactérias patogênicas como, Salmonella e Shigella (12). Tendo em vista a importância deste alimento, objetivou-se com este estudo realizar a análise microbiológica apenas em carnes moída do tipo bovina comercializadas em frigoríficos do município de Jaguaribe, Ceará. MATERIAL E MÉTODOS OBTENÇÃO DAS AMOSTRAS Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 81 Foi realizada a análise microbiológica da carne moída do tipo bovina comercializada em seis frigoríficos no município de Jaguaribe, Ceará, região localizada no Médio Jaguaribe, no sudoeste do Estado do Ceará, a 310 Km da capital (11). Em cada estabelecimento adquiriu-se 200g de carne moída totalizando 6 porções. As amostras foram acondicionadas em embalagens plásticas esterilizadas, codificadas de 1 a 6 para indicar o frigorífico fornecedor, transportadas em caixa térmica contendo gelo em temperatura controlada em aproximadamente 8 ºC, e transportadas ao Laboratório de Química do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) – Campus Jaguaribe, onde foram armazenadas em geladeira a temperatura de 8±2 °C até o momento das análises. TESTE PRESUNTIVO – COLIFORMES TOTAIS Foram pesadas individualmente 25g de carne de cada amostra em balança analítica, depois homogeneizadas em 225 mL de solução salina a 0,85% e realizada a diluição seriada em 10-¹, 10-² e 10-³ em tubos de ensaios, conforme ilustrado na figura 1, a seguir. Adicionou-se as amostras de cada diluição em tubos diferentes contendo caldo lactosado (CL) e incubou-se a 35 °C por 48 horas. Passado este período, observou-se os tubos e destes, os que apresentaram fermentação no tubo de Durham, indicando confirmação positiva para a presença de Coliformes Totais, foram transferidos uma alçada para tubos que continha verde brilhante (BVB) e incubou-se por 48 horas a 35 °C. Figura 1: Esquema da técnica do Número Mais Provável (NMP). Fonte: Adaptado (BATISTA, 2013). Os tubos que apresentavam presença de gás dentro dos tubos de Durhan e/ou efervescência foram considerados positivos. Após essa confirmação, procedeu-se com o Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 82 teste para verificação de E. coli, adicionou-se uma alçada em caldo EC, em seguida, levada a estufa a 37ºC. COLIFORMES TERMOTOLERANTES – Escherichia coli A partir de tubos positivos para E. coli, alíquotas foram semeadas com alça de platina, em forma de estrias, em placas contendo Ágar Eosina Azul de Metileno (EMB). Essas placas foram incubadas em temperatura de 45ºC. Após o período de incubação, as placas com presença de colônias, com centro preto e brilho verde metálico, foram consideradas confirmativas para presença de Escherichia coli (19). A determinação de E. coli foi realizada utilizando-se a técnica do Número Mais Provável (NMP), a partir do número de tubos positivos, empregando a tabela de Hoskins (18). ANÁLISE DOS DADOS Os dados obtidos a partir das amostras com distribuição normal foram analisados e estabelecidos índices de confiabilidade, utilizando-se o programa Statistic 7® para os testes de ANOVA e teste de Tukey em nível de 5% de significância. RESULTADOS E DISCUSSÃO Os resultados obtidos evidenciam que as amostras 1, 2 e 3 apresentaram-se negativos para a presença de E. coli, enquanto as amostras 4, 5 e 6 positivos para este microrganismo, como observado pelos resultados dos intervalos inferior e superior, conforme a descrito na tabela 1 a seguir: Tabela 1 – Resultados dos parâmetros microbiológicos de Coliformes Totais, Coliformes Termotolerantes e Escherichia coli nas amostras de carnes moída bovina comercializadas no município de Jaguaribe – CE Amostras Coliformes Totais Coliformes Termotolerantes Escherichia coli Intervalo de confiança 95% Inferior Superior 1 + + <3,0 - 9,5a±0,02 2 + + <3,0 - 9,5a±0,11 3 + + <3,0 - 9,5a±0,05 4 + + 15 3,7a±0,32 42b±2,13 5 + + 15 4,5a±0,16 42b±1,91 6 + + 1,8 0,35b±0,06 5,1c±0,09 Sinal (+) indica resultado positivo e (-)indica resultado negativo. Letras a, b minúsculas sobrescritas distintas na mesma linha indicam diferença significativa a 5% (p>0,05). Fonte: Dados da pesquisa (2018). Considerando-se os padrões microbiológicos para carne moída estabelecidos na Resolução RDC nº 12 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (7), as amostras 1, 2 ,3 e 6 estão em conformidade para o consumo humano, uma vez que não detectaram a presença de E. coli ou apresentou número tolerável. Entretanto, as amostras 4 e 5 apresentaram-se em desacordo com a referida legislação, em virtude o número de E. coli estarem acima do permitido. Em seus estudos os autores Nogueira, Mansur e Souza (2019) (14), analisaram a carne bovina moída comercializada em Campos dos Goytacazes/RJ, e todas as amostras tiveram resultado positivo para a presença de E. coli. Autores como Silva, et al. (2020) (19), Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 83 ao se analisarem amostras obtidas em açougues da cidade de Itapetinga-BA, e Souza et al. (2020) (20), avaliaram amostras de açougues da cidade de Macapá-Amapá, também obtiveram em seus resultados a presença de E. coli, resultados semelhantes aos observados nesta pesquisa. Esses resultados refletem a qualidade do alimento, a higiene do ambiente e o cuidado com que os manipuladores manusearam os alimentos. Os resultados positivos podem ser prejudiciais a qualidades dos produtos, podendo afetar diretamente a saúde do consumidor (15). A presença desses microrganismos pode indicar a necessidade de melhorias na higienização de equipamentos, utensílios e dos manipuladores de alimentos destes estabelecimentos (10). CONCLUSÕES Diante do observado nos resultados, é possível afirmar que 4 das amostras apresentaram-se de acordo com a legislação vigente, enquanto 2 estão impróprias para o consumo, devido os elevados números para a presença de coliformes. De acordo com as análises microbiológicas das carnes bovinas, ou seja, as amostras 4 e 5, concluindo-se que as carnes devem passar por um controle mais rigoroso, destacando que as amostras apresentaram contaminação por E. coli, indicando portanto, condições de higiênicos sanitárias insuficientes. Ressalta-se a importância em se adquirir matéria-prima de boa qualidade, com garantia de cuidados durante o abate. Os manipuladores devem ser devidamente capacitados para exercerem as funções nos frigoríficos, pois os mesmos podem contribuir para a manipulação segura das carnes. Salienta-se a importância de medidas de higiênicos sanitárias adequadas, limpeza adequada dos utensílios, assimcomo também o controle da temperatura, e a adoção de boas práticas de manipulação de alimentos para evitar a contaminação da carne moída, garantindo assim a qualidade do produto comercializado. Cabe destacar também a Vigilância Sanitária do Município intensificar a fiscalização, principalmente como a função de melhorar a educação sanitária. REFERÊNCIAS 1. ABIEC – Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de carnes. Estatísticas: Balanço da Pecuária. 2012. Disponível em: http://abiec.com.br/texto.asp?id=8. Acesso em: 30/08/2021. 2. ALMEIDA, B. S.; MONTEIRO, W. A.; BEZERRA, F. Y. P. Perfil microbiológico da carne moída comercializada no município de Juazeiro do Norte, Ceará. Revista Interfaces: Saúde, humanas e tecnologia, v. 3, n. 1, 2015. Disponível em: https://interfaces.leaosampaio.edu.br/index.php/revista-interfaces/article/view/249. Acesso em: 22/08/2021. 3. ANTUNES, A. R.; OLIVEIRA, G. L.; SALEMA, R. B.; SOUZA, L. de T.; Pesquisa de coliformes em carne bovina comercializada no município do vale do Jequitinhonha – MG. Higiene Alimentar, v. 30, n. 256/257, p. 82-86, 2016. Disponível em: https://docs.bvsalud.org/biblioref/2016/08/1533/separata-82- 86.pdf. 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Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 87 10.53934/9786599539626.11 Capítulo 11 ANTOCIANINAS: FONTES, APLICAÇÃO E MÉTODOS DE EXTRAÇÃO Glaciela Cristina Rodrigues Da Silva Scherer1; Janine Martinazzo2; Patrícia Fonseca Duarte3; Suelen Paloma Piazza4 1Doutora em Engenharia de Alimentos – Uri Erechim; E-mail: glaciela.cristina@yahoo.com.br, 2Doutora em Engenharia de Alimentos – Uri Erechim; E-mail: janinemartinazzo@yahoo.com.br, 3Doutoranda em Engenharia de Alimentos – Uri Erechim. E-mail: paty_fonsecaduarte@hotmail.com 4Mestre em Engenharia de Alimentos – Uri Erechim; E-mail: su.ppiazza@gmail.com RESUMO: Este estudo apresenta os diferentes métodos, desenvolvidos recentemente, quanto a quantificação, extração, manutenção, aplicação e fontes de antocianinas. Um dos métodos mais eficiente de extração de antocianinas a partir de fontes alimentares é a extração líquida pressurizada. As fontes, são bastante variadas e pode-se extrair antocianinas de diferentes resíduos agroindústrias, como é o caso dos bagaços de uva, da casca da jabuticaba e de juçara. A vida útil das antocianinas é afetada diretamente pela temperatura de armazenamento, sendo este um dos mais importantes fatores de degradação das antocianinas que está diretamente relacionada com o tipo de antocianina, a origem das amostras e a temperatura de armazenamento, devendo cada antocianina ser estudada de acordo com a sua origem para evitar a sua perda. Os resultados encontrados mostram a possibilidade de utilizar resíduos de frutas como fonte de compostos de antocianina para aplicações industriais, sendo estes possíveis substitutos dos corantes artificiais. Palavras-chave: corantes; extração; resíduos INTRODUÇÃO O uso de corantes na indústria de alimentos e bebidas é uma prática bastante comum, pois a cor e a aparência dos alimentos são fatores relevantes no momento da aquisição e aceitação pelo consumidor, apresentando aparência mais saudável, atrativa e segura (1). Podem ser utilizados corantes naturais e artificiais. Os corantes artificiais são uma classe de aditivos sem valor nutritivo, introduzidos nos alimentos e bebidas com o único objetivo de conferir cor, tornando-os mais atrativos. Fornecem ampla gama de cores, proporcionando praticamente todas as tonalidades do espectro visível de cor (2). Porém, é interessante para a indústria de alimentos a substituição de corantes artificiais por naturais, pois estes podem ser considerados alimentos funcionais por causa de suas propriedades antioxidantes além de ter grande aceitação pelo consumidor estimulado por seus potenciais benefícios para a saúde e preocupação com a segurança de alimentos artificiais (3). Atualmente tem-se grande demanda de pesquisas para desenvolver corantes alimentícios a partir de fontes naturais, objetivando diminuir, gradativamente o uso de corantes químicos, bem como estimular o uso de resíduos da indústria de frutas. Como é o exemplo da indústria de vinhos, que apresenta o bagaço que é rico nesses compostos bioativos e possui propriedades funcionais, sendo capaz de atuar no metabolismo humano, prevenindo doenças cardiovasculares e inflamatórias e certos tipos de câncer (4). Outros Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 88 rejeitos de frutas podem ser aproveitados, com o intuito de extrair os compostos bioativos (antocianinas), como é o caso da juçara (5) e jabuticaba (6). Os compostos bioativos são encontrados na natureza em vegetais e frutas. Os polifenóis destacam-se entre estes compostos, como metabólitos secundários encontrados em cereais, frutas, vinho e chás. Eles são classificados em diferentes grupos, incluindo flavonóides, como antocianinas (7). As antocianinas são responsáveis pela cor dos frutos vermelhos, sendo frequentemente utilizadas como pigmentos naturais, e são antioxidantes que atuam na prevenção de diversas doenças (8), como por exemplo, efeitos antidiabéticos, anti-inflamatórios e anticâncer (9). Quimicamente, as antocianinas consistem em dois anéis benzílicos aromáticos ligados a um núcleo de flavilio no centro. A intensidade da cor da antocianina é atribuída à estrutura ressonante do íon flavilio (3). Sendo assim, devido a importância do conhecimento sobre antocianinas, foi delineado como principal objetivo deste estudo, a busca por diferentes formas de extração, manutenção e aplicação de corantes antocianinas. CORANTES ARTIFICIAIS E NATURAIS A cor dos produtos alimentícios apresenta grande influência no sabor, na aceitabilidade e na preferência, assim os corantes desempenham um papel de vital importância na escolha e aceitação de alimentos. Alguns corantes naturais apresentam solubilidade em óleos e esta característica favorece suas tonalidades suaves, que influenciam na aceitação, pois conferem aos produtos características de natural. Os tipos de corantes naturais mais utilizados pelas indústrias alimentícias são os extratos de urucum, carmim de cochonilha, curcumina, antocianinas e as betalaínas (2). O termo antocianinas é derivado das palavras gregas para flor e azul, que designa os pigmentos azuis das flores, pertencentes à classe dos flavonoides, são glicosídios hidrossolúveis, metabolitos secundários de tecidos vegetais e caracterizam uma ampla gama de cores ciano presentes na natureza, variando de vermelho a azul, incluindo roxo, laranja e castanho (10). Derivadas das antocianidinas, os pigmentos sob a forma de antocianinas, ao contrário dos outros flavonoides naturais, absorvem com grande intensidade na região visível do espectro, apresentando uma infinidade de cores, de acordo com o meio de ocorrência (11). A cor das antocianinas resultou em pesquisas significativas nos últimos anos sobre a aplicação e seus derivados nos alimentos, indústrias cosmética e farmacêutica (12). As antocianinas apresentam grande diversidade estrutural e isto contribui favoravelmente para a existência natural de cerca de 300 antocianinas, com formas diferentes de substituições glicosídicas na estrutura básica do íon fenil-2-benzopirílio ou flavílio, representadas na Figura 1, as principais antocianinas (13). Durante a extração das antocianinas do meio natural, estas apresentam-se na forma de sais de flavílio, habitualmente glicosiladas, ou seja, ligadas a moléculas de açúcares e os mais comuns a b-D-glucose, a b-D-galactose e a a-D-ramnose (14). Quando não estão unidas aos açúcares são denominadas antocianidinas e suas estruturas mais comuns são apresentadas na Figura 2. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 89 Figura 1 - Estrutura das antocianinas. Fonte: HARBORNE; WILLIAMS (2000). Figura 2 - Estruturas das antocianidinas comumente encontradas em tecidos vegetais. Fonte: RAMOS et al. (2000). As antocianinas são uma classe de compostos fenólicos que estão atraindo muito interesse por causa das evidências científicas que sugerem efeitos potencialmente benéficos à saúde associados ao seu consumo (15). Ha indícios de que os efeitos estejam relacionados com sua alta capacidade antioxidante e inibição do dano ao DNA nas células (16). FONTES As antocianinas são encontradas em alimentos tradicionais, como frutas, legumes e grãos. Diversos grãos podem apresentar pigmentos com antocianinas, como trigo roxo ou azul, milho roxo ou azul e arroz vermelho ou preto, contêm níveis comparáveis de antocianinas a frutas e vegetais e podem ser utilizados no desenvolvimento de produtos que contém ingredientes funcionais (17). Nas frutas, a principal fonte de antocianinas é a casca da uva, embora bagas vermelhas como amoras, framboesas, cerejas e rabanetes também sejam usadas (18;19). Frutas comoa jabuticaba, também são fonte de antocianinas que podem ser extraídas das cascas que foram utilizadas para produção de sucos, além de ser considerado um ingrediente funcional potencial e uma fonte de compostos bioativos (5). De acordo com Garcia-Mendoza et al. (2017) (5), uma potencial fonte de compostos bioativos naturais para tornar a dieta humana mais saudável e funcional é a Juçara (Euterpe edulis Mart.), que é uma palmeira tropical pertencente à família das Arecaceae é amplamente disseminada na Mata Atlântica brasileira. A palmeira juçara produz frutos esféricos ricos em compostos fenólicos, principalmente antocianinas (20). Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 90 Outro fruto que vem se destacando entre os alimentos, por conter em sua composição quantidades expressivas de um grupo dos flavonoides (antocianinas) é o açaí (Euterpe oleracea Mart.) (21). O consumo do açaí contribui no controle ou na prevenção de algumas doenças, como é o caso de diabetes, dislipidemia e doença cardiovascular (22). Algumas plantas produzem derivados antocianinas acilados, o que altera certas propriedades; glicosídeos de antocianinas em cenouras negras (Daucus carota subsp. sativus var. atrorubens Alef.) são acilados com ácidos hidroxicinâmico e hidroxibenzóico (23), aumentando a gama de produtos alimentícios em que esses corantes podem ser utilizados; o repolho vermelho (Brassica oleracea L. var. capitata f. rubra), também apresenta extratos que contêm antocianina com alto grau de acilação (24). Estas antocianinas com acilados têm maior estabilidade como resultado dos efeitos intramoleculares de copigmentação, que proporcionam maior estabilidade ao calor em valores de pH mais altos, em comparação com antocianinas não aciladas (23). FORMAS DE OBTENÇÃO DE ANTOCIANINAS As antocianinas podem ser extraídas das plantas por diferentes métodos, como líquida pressurizada, fluido supercrítico, hidroalcoólica. A extração de antocianinas de bagaço de uva vermelha, um subproduto da produção de vinho foi estudada por Mohdmaidin, Oruna-concha e Jauregi (2019) (25), e foram obtidas por extração hidroalcoólica (com e sem ácido sórbico) e separação de aphrons gás coloidal (CGA) uma separação baseada em surfactante (TWEEN20). O tipo de surfactante (isto é, catiônico, aniônico e não-iônico) determina a carga externa da CGA, onde as moléculas com carga oposta se atraem para a CGA, resultando em sua separação efetiva na fase CGA, apresentando o CGA como um método de separação bastante eficiente. Garcia-Mendoza et al. (2017) (5), descrevem outra técnica de extração de antocianinas, baseou-se na extração líquida pressurizada (PLE) e extração de fluido supercrítico com solvente (SFE), para obter alta atividade antioxidante a partir do resíduo Juçara (Euterpe edulis Mart.). A PLE apresenta o uso de solventes líquidos em temperaturas elevadas, utilizando pressões que podem variar de 4 a 20 MPa, o que permite manter o solvente no estado líquido mesmo quando operando em temperaturas acima de seu ponto de ebulição (26). Porém, a pressão pode afetar a difusão do solvente nos poros da matriz da matéria-prima, proporcionando maior área de contato do composto alvo com o solvente. Como geralmente os processos de PLE são realizados em altas temperaturas, isto também aumenta a taxa de transferência de massa dos compostos da matéria-prima para o solvente (27). O aumento da temperatura aumenta a solubilidade dos compostos alvo e sua difusividade, além de romper as ligações da matriz do soluto, além de reduzir a viscosidade e a tensão superficial do solvente (28). E os autores concluíram que a PLE e a SFE apresentou grande eficiência na obtenção de compostos fenólicos e antocianinas com alta atividade antioxidante a partir de resíduos da juçara, estimulando seu uso em diferentes aplicações (5). Ongkowijoy, Luna-Vitala e Mejia (2018) (29), em seu estudo estudaram diferentes métodos de extração de antocianinas e identificaram a extração líquida pressurizada, como um dos métodos mais promissores. Um sistema de duas fases utilizando etanol e sulfato de amônio também leva a um maior rendimento de extração, menor tempo e menos uso de etanol. Além disso, os adsorventes e solventes afetam a absortividade dos extratos vegetais. CARACTERIZAÇÃO DE ANTOCIANINAS Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 91 Diferentes formas de caracterização de antocianinas podem ser empregadas. Segundo Abdel-aal, Hucl e Rabalski (2018) (30), em seu estudo utilizaram espectrometria de massa para caracterizar antocianinas de trigo roxo e encontrou um perfil complexo de antocianina com 5 pigmentos que compõem 93-96% do teor total de antocianina. Os pigmentos foram cianidina-3-glucosídeo, cianidina-3-(6 malonilglucósido), cianidina-3 rutinosídeo, peonidina-3-glicosídeo e peonidina-3- (6 malonilglucosídeo). Mohdmaidin, Oruna-concha e Jauregi (2019) (25), realizaram estudo de identificação de antocianinas contidas no bagaço de uva vermelha e através análise por HPLC mostrou que todas as amostras tinham antocianinas e as identificadas foram: delfinidina, cianidina, petunidina, peonidina e malvidina com diferentes acilações de glicosila ligadas. Drosou et al., (2015) (31), através do mesmo método realizaram análises de vinhos tintos e no seu bagaço feito a partir de uvas V. vinífera e as principais antocianinas detectadas foram de 3- o-monoglucosídeos da antocianidinas incluindo pelargonidina-3-o-glucosídeo, cianidina-3- oglicosídeo, delfinidina-3-o-glucósido, peonidina-3-o-glucósido, petunidina3-o-glucosídeo e malvidina-3-o-glicosídeo (31). As antocianinas do açaí foram determinadas por análise cromatográfica e o açaí apresentou a presença de uma quantidade expressiva dos polifenóis, em que duas antocianinas, cianidina 3-glucosídeo e cianidina 3-rutinosídeo, apresentaram-se em maior número (32). No estudo realizado por Cardoso et al. (2015) (33), foi possível identificar seis diferentes antocianinas em amostra do fruto liofilizada, dentre as quais estão: cianidina 3- glucosídeos; cianidina 3-rutinosídeo; cianidina-3-sambubiosídeo; peonidina-3-rutinosídeo; pelargonidina-3- glucosídeos, e delfinidina-3-glucosídeos (33). Quando comparada com frutos como mirtilos e amoras, o açaí apresenta maior poder antioxidante, do que outros frutos ricos em antocianina (34). ESTABILIDADE A estabilidade das antocianinas é diretamente afetada pelo processamento dos alimentos, que geralmente envolve um tratamento térmico, com grande influência sobre o teor de antocianinas no produto final (25). Já a degradação está relacionada com o tipo de antocianina, a origem das amostras e a temperatura de armazenamento (35). Em estudo realizado por Kandansamy e Somasundaram (2012) (36), que utilizou a técnica de encapsulamento como alternativa para melhorar a estabilidade desses compostos, que são protegidos por agentes transportadores. Essa proteção reduz as interações com fatores ambientais, como temperatura, luz, umidade e oxigênio. Para realização do encapsulamento diversas substâncias podem ser utilizadas como carreadores para microencapsular as antocianinas obtidas, como a maltodextrina (37) e a goma arábica (38) devido à sua boa solubilidade em água, baixa viscosidade em altas concentrações e capacidade de formar soluções estáveis. A liofilização é uma técnica de secagem baseada na desidratação das substâncias congeladas através de sublimação. Essa tecnologia mostrou-se mais eficiente no encapsulamento de compostos fenólicos, uma vez que utiliza baixa temperatura. Como resultado, proporciona a manutenção da estrutura química e reduz alterações indesejáveis, como desnaturação de proteína, perda de compostos voláteis, formação de camadas impermeáveis e migração de sólidos solúveis para a superfície durante a secagem e dificuldade de reidratação, entre outros (39).Esta técnica tem sido utilizada para o encapsulamento de antocianinas extraídas da amoreira (38) e açafrão Pétala (40) e encapsulamento de compostos fenólicos extraídos do bagaço de carambola (41). Souza, Gurak e Marczak (2017) (42), realizaram aplicação da liofilização para encapsular as antocianinas extraídas do bagaço de jabuticaba, utilizando isolados de Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 92 maltodextrina, pectina e proteína de soja. A caracterização dos pós mostrou que todas as formulações apresentaram baixos valores de umidade, atividade de água e higroscopicidade, bem como baixa solubilidade em água. E também, observou-se que os pós proporcionam uma estabilidade térmica de até 130ºC. Em relação à cor, os pós desenvolvidos com as três combinações, apresentaram uma estabilidade de 170 dias. A estabilidade do extrato bruto etanólico do bagaço de uva vermelha foi comparada com a da outra amostra processada após a aplicação da separação de aphrons gás coloidal (CGA). O principal efeito foi encontrado na estabilidade das antocianinas extraídas por CGA que apresentou-se maior quando comparadas com extrato bruto. Amostras de CGA aumentaram com um aumento na concentração de surfactante, assim, estes resultados mostram que o surfactante tem um efeito de estabilização nas antocianinas e no ácido sórbico parece ter um efeito semelhante (25). APLICAÇÃO Em estudo realizado por Gurak et al. (2014) (6), apresentaram uma análise comparativa dos aspectos físico-químicos, propriedades tecnológicas e morfológicas de três pós obtidos de jabuticaba fruta inteira, casca e bagaço, obtidos durante a extração de suco. A análises da composição apresentou quantidade elevada de fibra dietética total e fibra dietética insolúvel, grande quantidade de compostos fenólicos, especialmente a antocianina monomérica. Com base nesses resultados, pode-se afirmar que o bagaço da jabuticaba utilizado na produção de suco é um co-produto emergente e pode ser considerado um ingrediente funcional potencial e uma fonte de compostos bioativos que podem agir como um corante natural em pó e aumentar o conteúdo de fibras em muitos alimentos processados. A liofilização para encapsular as antocianinas extraídas do bagaço de jabuticaba, foi utilizada em diferentes isolados de maltodextrina, pectina e proteína de soja nas propriedades físicas e químicas de pós de antocianinas obtidas a partir de bagaço de jabuticaba. Assim pode-se concluir que é possível obter um corante natural com propriedades antioxidantes a partir de biomassa gerada na produção de suco de jabuticaba. E ainda, o processo de encapsulação é capaz de estabilizar e prolongar a vida útil das antocianinas (42). CONCLUSÃO A partir do que foi exposto neste estudo de revisão, pode-se perceber a necessidade e importância de mais pesquisas voltadas para a obtenção de corantes naturais a partir de subprodutos, que estes apresentem características adequadas de aplicação, para substituir os corantes artificiais sintéticos, pois os consumidores estão buscando alimentos mais naturais e com componentes que propiciem e favoreçam a saúde. Pesquisas são necessárias quanto as diferentes formas de extrair as antocianinas, de manter as propriedades, bem como aplicá- las em diferentes alimentos. A utilização de subprodutos é uma forma de agregar valor aos resíduos e prevenir o seu descarte inapropriado. Diferentes técnicas podem ser desenvolvidas para manter a estabilidade das antocianinas como a secagem, a liofilização e o encapsulamento. A pesquisa nos permitiu formar algumas noções iniciais acerca do uso do pigmento (antocianina) de algumas frutas como corante natural, tanto em expectativas de coloração quanto a possível composição antioxidante. REFERÊNCIAS 1. Martins, N.; Roriz, C. L.; Morales, P.; Barros, L.; Ferreira, I. C. F. R. Food colorants: Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 93 Challenges, opportunities and current desires of agroindustries to ensure consumer expectations and regulatory practices. Trends in Food Science and Technology, v. 52, p. 1-15, 2016. 2. DOSSIÊ CORANTES. 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(GOIABEIRA) Daiane Cristina de Assis Braga1; Paula Magalhães Gomes2; Rosana Gonçalves Rodrigues-das-Dôres3; Leonardo Máximo Cardoso4 1Discente de doutorado Ciências Biológicas – DECBI – UFOP; E-mail: daiane.braga@ufop.aluno.edu.br 2 Pesquisador de fisiologia e biofísica – ICB – USP; E-mail: paula_magomes@hotmail.com 3Pesquisador do Centro de Saúde – CS – UFOP; E-mail: rosanagrd@gmail.com 4Docente/pesquisador do Depto de Ciências Biológicas – DECBI – UFOP; E-mail: leonardo.cardoso@ufop.edu.br Resumo: A obesidade é um problema de saúde pública cuja prevalência tem aumentado no mundo. As etiologias mais comuns estão relacionadas aos hábitos de vida, que consequentemente, podem levar a desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Com o aumento da incidência,fica claro que terapêuticas como alimentação saudável, medicamentos e atividade física não têm sido eficazes para todos os indivíduos, sendo necessárias novas estratégias terapêuticas para o tratamento da obesidade. Uma dessas estratégias é utilização de Psidium guajava L. (goiabeira) de diferentes formas. Dados da literatura mostram que P. guajava possui capacidade termogênica e de inibir enzimas digestivas (lipases e amilases). O objetivo desse trabalho foi verificar a atividade antioxidante e eficácia na redução de ganho de peso do shake obtido da P. guajava. Formulação de shake foi elaborada de acordo com BR102019001482-2. A atividade antioxidante foi realizada utilizando DPPH (2,2-difenil-1-picrilhidrazila). Na avaliação do efeito sobre ganho de peso corporal do shake, foram utilizados ratos Wistar com 16 semanas de idade sob dieta padrão. Os animais foram divididos em dois grupos tratados com shake e não tratados, sendo realizada a administração oral do shake por 4 semanas a partir da 12ª semana pós desmame. A atividade antioxidante, expressa em porcentagem de DPPH consumido, foi 20% no tempo 0 e 89% no tempo 30 minutos. Quanto à atividade biológica, os animais tratados com shake tiveram estagnação do ganho de peso corporal após o início do tratamento. Assim, sugere-se que o shake obtido de P. guajava pode ser uma alternativa terapêutica utilizada na redução e/ou manutenção de peso corporal. Palavras-chave: compostos bioativos; extrato etanólico; formulação; Psidium guajava INTRODUÇÃO Psidium guajava L., conhecida como goiabeira, é um arbusto da família Myrtaceae. Estudos etnobotânicos e etnofarmacológicos têm relatado vários efeitos biológicos com extratos das folhas, como propriedades antioxidantes (1), atividade antimicrobiana (2), propriedades antidiarreicas (3), redução da pressão arterial (4) e diminuição dos níveis glicêmicos (5). Atualmente, a obesidade e o sobrepeso são problemas de saúde pública em todo o mundo, exigindo várias abordagens para serem controlados (6). Esses problemas atingiram níveis alarmantes, afetando cerca de 13% e 39% da população, maior que 18 anos em 2020, respectivamente (7). O desenvolvimento e a caracterização de suplementos à base de Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 98 matéria-prima de extratos de folhas podem representar uma abordagem importante ao melhor aproveitamento de partes da planta, ao invés de apenas frutos in natura, para melhorar a saúde e a qualidade de vida. As estratégias mais comuns para tratar a obesidade envolvem modificação do estilo de vida, procedimentos cirúrgicos e terapias medicamentosas (8). Dentre essas estratégias, as terapias medicamentosas com extratos vegetais e fitofármacos têm ganhado atenção especial ao longo dos anos (9). Alguns compostos bioativos presentes em plantas, como a quercetina e a rutina, podem exercer atividade antiobesidade, agindo no metabolismo da gordura (10) e no balanço energético (11). Estudos demonstraram que extratos aquosos de folhas de P. guajava contêm muitos compostos, dentre eles ácido gálico, ácido cafeíco, rutina, quercetina e kaempferol (12). Alguns desses compostos estão associados à perda de peso corporal. A exemplo, quercetina interfere de forma significativa na redução do peso corporal, atuando nos mecanismos que desencadeiam a obesidade e alteram a composição corporal em animais experimentais (13). Além disso, evidências de estudos in vitro sugerem que o extrato aquoso das folhas de P. guajava também possui propriedades inibidoras de enzimas digestivas como lipase e α- glicosidase (14). Devido a essas propriedades, os autores sugeriram que esse extrato tem potencial como adjuvante no tratamento da obesidade e outras dislipidemias, embora isso não tenha sido testado em estudos in vivo. Apesar de seus potenciais benefícios à saúde, a ingestão de extratos secos das folhas de P. guajava não é uma experiência agradável devido ao seu sabor adstringente (taninos) e pode impactar negativamente na adesão e continuidade ao tratamento. Portanto, neste estudo, buscou-se desenvolver e caracterizar uma formulação à base de extrato de folha de P. guajava, denominado shake para melhorar as propriedades sensoriais e, além disso, avaliar os efeitos sobre o ganho de peso corporal de ratos adultos alimentados com dieta padrão recebendo a administração oral do shake em diferentes concentrações de extrato seco (ES). MATERIAL E MÉTODOS COLETA DE FOLHAS E IDENTIFICAÇÃO DE PLANTAS (Psidium guajava L.) ramos contendo folhas foram colhidos de árvores cultivadas próximo ao distrito de São Bartolomeu, Ouro Preto, Brasil (coordenadas GPS: 20º 17 '15 "S e 43º 30' 29" W), no horário de 7:00h às 9:00h (hora local), em janeiro, durante a estação chuvosa local. SisGen AEB4F09 (Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e dos Conhecimentos Tradicionais Associados). A área escolhida é um remanescente de Mata Atlântica em que as goiabeiras crescem espontaneamente sem domesticação. Exsicatas de material propagativo e de folhas foram preparadas e depositadas no Herbário José Badini da Universidade Federal de Ouro Preto (OUPR27242) para identificação e documentação das espécies. PREPARAÇÃO DE EXTRATO ETANÓLICO DE FOLHAS DE GOIABA O material colhido foi armazenado temporariamente em sacos plásticos de polipropileno, protegidos da luz solar durante a permanência no campo e durante o transporte. No laboratório, os galhos foram lavados em água corrente da torneira, colocados entre papel absorvente e expostos à temperatura ambiente para retirada do excesso de água. Após alguns minutos, as folhas foram separadas dos galhos e inspecionadas visualmente quanto à integridade. Apenas folhas inteiras e verdes sem qualquer sinal de herbivoria ou doença foram usadas para a preparação do extrato. As folhas selecionadas foram pesadas em Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 99 balança semianalítica e transferidas para recipiente de vidro sifonado de aproximadamente 35 litros. O extrato etanólico de folhas inteiras foi obtido pelo processo de maceração. O recipiente de vidro foi envolvido em folha de alumínio para proteção contra a luz ambiente. As folhas foram maceradas por 10 dias, a fração etanólica foi drenada, filtrada e um novo lote de etanol 98 GL foi adicionado às folhas remanescentes para a remaceração. Esse processo foi repetido sucessivamente para extração total dos compostos bioativos. O extrato etanólico foi evaporado sob baixa pressão (80 mbar) em aproximadamente 40°C. O extrato remanescente foi posteriormente seco em banho-maria a 40°C por aproximadamente 10 dias, obteve-se assim o extrato seco (ES). FORMULAÇÃO DE EXTRATO DE FOLHAS DE GOIABA A formulação usada nesse estudo foi uma suspensão aquosa ES na forma de uma bebida viscosa, denominada shake. Os shakes de goiaba continham duas doses diferentes de ES (SH1: 100 mg kg-1 e SH2: 200 mg kg-1) e coadjuvantes para suspensão foram preparados de acordo com os procedimentos descritos na patente depositada BR10201900148. DETERMINAÇÃO DA ATIVIDADE ANTIOXIDANTE A determinação da atividade antioxidante foi adaptada de Gaber et al. (15) usando o método DPPH (2,2-difenil-1-picrilhidrazil). Amostra de 5 mg de ES foram dissolvidos / em metanol (1:1) e alíquotas foram diluídas em solução de reagente DPPH 4 mM. As leituras foram realizadas imediatamente (tempo 0) e após 30 minutos em 520 nm, usando Metanol e DPPH como branco e controle negativo e Butilhidroxianisol (BHA) como padrão, de referência para o potencial antioxidante. As análises foram feitas com repetições para todos os tratamentos (shake, BHA e controle). A atividade antioxidante foi calculada através da equação: 𝐴𝐴𝑇 (%) = 100 𝑥 (𝐴𝑏𝑠 𝐷𝑃𝑃𝐻 − 𝐴𝑏𝑠 𝑑𝑜𝑠 𝑡𝑟𝑎𝑡𝑎𝑚𝑒𝑛𝑡𝑜𝑠) 𝐴𝑏𝑠 𝐷𝑃𝑃𝐻 Onde, AAT = atividade antioxidante;Abs DPPH = absorbância DPPH; Abs dos tratamentos = absorbância DPPH dos tratamentos (amostras e controle BHA). ESTUDO DE EFEITO BIOLÓGICO IN VIVO Animais Nos estudos in vivo, foram utilizados ratos Wistar machos adultos (n = 29). Os ratos foram alojados sob temperatura controlada (22-24 °C), umidade (40-60%), ciclo claro: escuro (12h: 12h), e com livre acesso a água da torneira e ração comercial normal (Nuvilab CR1 Quimtia®). Todos os procedimentos experimentais foram conduzidos pelo Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA) e aprovados pela Comissão Institucional de Ética no Uso de Animais (CEUA-UFOP # 2017-60). Grupos experimentais Ratos desmamados (21 dias de idade) foram colocados em dieta alimentar regular por 12 semanas e divididos aleatoriamente em 3 tratamentos (SH1, SH2 e veículo). Na 12ª semana, iniciou-se a administração oral via gavagem. O tratamento consistiu de 1,0 mL de SH1, SH2 ou água destilada no período da manhã e separados por um período de 24 horas, Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 100 durante o período de 4 semanas. Os ratos foram pesados uma vez por semana para que o volume da gavagem pudesse ser corrigido individualmente de acordo com o peso corporal, adequando a massa de ES ao peso adquirido na dosagem do princípio ativo no shake (isto é, o ES) em 100 mg kg-1 ou 200 mg kg-1. Avaliação do peso corporal Antes do início do tratamento, os ratos foram pesados ao desmame e na 4ª, 8ª e 12ª semanas. Para avaliar os efeitos do tratamento com shake no peso corporal, os ratos foram pesados semanalmente da 12ª semana à 16ª semana. Avaliação da ingestão de ração A ingestão alimentar e a ingestão de água foram medidas na 12ª semana (antes do início do tratamento) e na 16ª semana (no final do tratamento) e corrigidas pelo peso corporal para comparações. Mudanças no peso corporal (início e término do tratamento) foram avaliadas entre os grupos. ANÁLISES ESTATÍSTICAS Os dados foram expressos em média e erro padrão da média (EPM). As comparações entre os grupos foram realizadas por análise de variância (ANOVA) de uma ou duas vias para medidas repetidas quando aplicável. O pós-teste de Tukey foi utilizado para comparações múltiplas entre pares de médias após a ANOVA detectar diferença nas variâncias entre os grupos. O pós-teste de Dunnett foi utilizado para comparações múltiplas entre pares de médias após a ANOVA detectar diferença nas variâncias entre os grupos no decorrer do tempo. As análises estatísticas foram feitas utilizando o software GraphPad Prism 8.0 para Windows (GraphPad Software, San Diego Califórnia, EUA). As diferenças entre pares de médias foram consideradas significativas quando p <0,05. RESULTADOS E DISCUSSÃO A atividade antioxidante nos shakes em tempos 0 e 30 minutos foram expressos em porcentagem do DPPH consumido. No tempo 0 minutos, o potencial antioxidante foi 37,075 ± 2,228% e 16,162 ± 1,472% do padrão de referência (BHA) para o ES e shake, respectivamente. No tempo de 30 minutos, o potencial antioxidante foi de 65,354 ± 1,379% (ES) e 89,293 ± 0,434% para o shake do padrão de referência (BHA). Os resultados corroboram com estudo realizado por Vijayakumar et al. (16) que avaliaram o potencial antioxidante de extrato etanólico de folhas de goiabeira e obtiveram resultados semelhantes aos encontrados no presente estudo (16). Os resultados sugerem fortemente que o shake de goiaba possui propriedades antioxidantes significativas e a liberação desse potencial antioxidante pode ocorrer lentamente ao longo do tempo, uma vez que a atividade antioxidante era menor em 0 minutos do que em 30 minutos. Quanto ao efeito biológico para avaliar o tratamento com SH1 e SH2 no peso corporal, os ratos foram pesados semanalmente e os resultados são mostrados na Figura 1 (painéis A e B). A mudança no peso corporal (Figura 1, painel A) do início ao final do tratamento mostra claramente um aumento de peso corporal médio para ratos veículo (45 ± 3 g; n = 9) e uma diminuição na média de peso para SH1 (-26 ± 7 g; p <0,05; n = 9) e SH2 (-15 ± 12 g; p <0,05; n = 9). Na 2ª semana de tratamento, os ratos tratados com SH1 tinham menor peso corporal quando comparados ao grupo veículo (373 ± 15 g para SH1 e 425 ± 19 Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 101 g; n = 9; p <0,05). Na 3ª semana de tratamento, o peso corporal dos ratos tratados com SH1 não foi diferente do grupo veículo. Por outro lado, os pesos corporais dos ratos tratados com SH2 foram menores do que nos ratos veículo (ou no tratamento veículo animal) na terceira semana (393 ± 8 g para SH2 e 437 ± 19 g para veículo) e quarta semana de tratamento (393 ± 11 g para SH2 e 443 ± 17 g para veículo; p <0,05). Curva de peso corporal completa dos animais desde o desmame até 16 semanas foi traçada (painel A) e indica que o crescimento em todos os grupos não era diferente antes do início do tratamento. A mudança na taxa de crescimento após o início do tratamento poderia ser facilmente explicada pela redução na ingestão de alimentos, o que poderia indicar que a shake teria efeito inibidor do apetite em ratos. No entanto, os resultados dispostos na Figura 1, indicaram que a ingestão alimentar corrigida pelo peso corporal é a mesma em todos os grupos. Esses achados implicam que o tratamento com shake levou a redução / estagnação do ganho de peso corporal por fatores não relacionados ao efeito inibidor do apetite e que outros mecanismos que afetam o ganho de peso corporal podem ser desencadeados por agentes bioativos no shake. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 102 Figura 1 - Medidas de peso corporal desde o desmame até o final do período de tratamento (16 semanas) para ratos que receberam um veículo, shake contendo 100 mg.kg-1 de extrato de folha de goiabeira (SH1) e ratos tratados com shake contendo 200 mg.kg-1 de extrato de folha de goiabeira (SH2) por gavagem orogástrica (Painel A). A área de tonalidade laranja indica o período de tratamento, da 12ª à 16ª semana. Painel B - mudança no peso corporal dos ratos pertencentes aos três grupos de tratamento entre o início (12ª semana) e o final do tratamento (16ª semana). * Diferença entre os grupos SH1, SH2 e veículo; ANOVA de duas vias seguida do pós-teste de Tukey. Painel C - ingestão alimentar corrigida para o peso corporal de ratos pertencentes aos três conjuntos de tratamentos no início do tratamento e no final do tratamento; ANOVA de duas vias seguida do pós-teste de Tukey; p <0,05. Corroborando com os dados, Mathur et al. (17) mostraram em seu estudo que ratos submetidos à alta ingestão de solução de frutose (15% p/v) tiveram estagnação de peso corporal quando receberam por via oral extrato de folhas de Psidium guajava L em doses de 50 a 500 mg.kg-1 (17). Autores supõe que o possível efeito redutor de peso esteja relacionado a presença de componentes presentes no extrato de folha de goiabeira. O principal composto bioativo presente no extrato de P. guajava é a quercetina. Seo et al. (18,19) realizaram trabalho pela qual avaliaram o efeito inibitório da quercetina no acúmulo de lipídios e obesidade em camundongos. Como resultado, a quercetina reduziu o ganho de peso corporal em camundongos alimentados com uma dieta rica em gordura (18, 19). Curiosamente, os efeitos dos flavonóis como a quercetina no peso corporal não puderam ser explicados por efeitos individuais significativos na ingestão de energia, gasto de energia ou atividade ou por alterações no metabolismo lipídico (20). Nesse presente estudo, a interrupção do ganho de peso corporal durante o período de tratamento pode ser devido à quercetina, uma vez que é uns principais compostos encontrados no extrato da folha de P. guajava (21). Também é importante ressaltar aqui que os animais usados neste estudo são ratos alimentadoscom ração normal em um modelo de não obesidade. Portanto, os mecanismos pelos quais a shake afeta o peso corporal podem não estar totalmente relacionados ao metabolismo lipídico e podem envolver gasto de energia. Estudo realizado por Ekpo et al. (22), avaliou variações no peso corporal de ratos que receberam diferentes concentrações de folhas de P.guajava de solo em áreas poluídas com petróleo e não poluídas com petróleo . Para isto, foram utilizados ratos Wistar que receberam ração com adição de três concentrações de folhas de P.guajava (5%, 25% e 50%). Os autores observaram que os animais que receberam folhas de locais contaminados com petróleo tiveram maior redução de peso corporal que ratos que receberam folhas de locais não poluídos, podendo sugerir que a redução do peso corporal destes animais pode ser atribuída ao conteúdo de folhas advindas de locais contaminados (22). Por outro lado, Diaz-de-Cerio et al. (5) investigaram o efeito da administração oral do extrato de folhas de P. guajava (5m.kg-1) em camundongos alimentados com dieta com sobrecarga de gordura. Como resultado, os autores verificaram que administração do extrato de folhas de Psidium guajava não levou a impacto ao longo do tempo sobre o peso corporal de camundongos, tanto em dieta com alta concentração de gordura, quanto em dieta padrão (5). CONCLUSÕES A utilização, por via oral, do shake de Psidium guajava durante 4 semanas foi capaz de atenuar o ganho de peso corporal dos ratos tratados, o que pode sugerir uma possível Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 103 aplicação dessa formulação como adjuvante em terapias para emagrecimento. No entanto, o entendimento completo dos mecanismos subjacentes ao efeito do shake de goiabeira sobre o peso corporal ainda precisa ser investigado em estudos futuros. AGRADECIMENTOS O estudo contou com o apoio da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG, Rede Toxifar), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). REFERÊNCIAS 1. Tran TTT, Ton NMN, Nguyen TT, Le VVM, Sajeev D, Schilling MW, et al. Application of natural antioxidant extract from guava leaves (Psidium guajava L.) in fresh pork sausage. Meat Sci. 2020;165:108106. 2. Wang L, Wu Y, Xie J, Wu S, Wu Z. Characterization, antioxidant and antimicrobial activities of green synthesized silver nanoparticles from Psidium guajava L. leaf aqueous extracts. Mater Sci Eng C Mater Biol Appl. 2018;86:1- 8. 3. Ojewole JA, Awe EO, Chiwororo WD. Antidiarrhoeal activity of Psidium guajava Linn. (Myrtaceae) leaf aqueous extract in rodents. J Smooth Muscle Res. 2008;44(6):195-207. 4. Ojewole JA. 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Ekpo; G, Eze; A, Benjamin; A, Michael; O, Sunday; OI, Princewil. D. Variation in Body Weight, Lipid Profile and Selected Reproduction Hormones in Rats Given Psidium guajava Leaves from Crude Oil Polluted and NonCrude Oil Polluted Areas. Asian Journal of Biology. 2019;8:1-7. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 106 10.53934/9786599539626.13 Capítulo 13 LIOFILIZAÇÃO DE CAMU-CAMU: UMA ALTERNATIVA PARA O CONSUMO E MELHOR CONSERVAÇÃO Samantha Xena Nunes Quadros1; Edvan Alves Chagas2; Carlos Alberto Nogueira-de- Almeida3; Lycia Silva Ribeiro4, Ana Beatriz Pires de Souza5 1 Docente do curso de medicina - CCS-UFRR; E-mail: samanthapediatria@gmail.com 2 Docente UFRR, /Pesquisador da Embrapa – RR; E-mail: edvan.chagas@embrapa.com 3 Professor Adjunto Departamento de Medicina – UFSCAR; E-mail: dr.nogueira@ufscar.br 4 Estudante do Curso de Medicina – CCS-UFRR; E-mail: lyciasr@gmail.com 5 Estudante do Curso de Medicina – CCS-UFRR; E-mail:anabeatrizpires@outlook.com Resumo: A secagem de frutos por liofilização é um processo tecnológico importante na busca de soluções para viabilização de consumo, conservação e distribuição de alguns alimentos, especialmente alguns frutos amazônicos cujas propriedades medicinais, sabor e cor ficam preservados nesse processo em relação a outros tipos de secagem. O camu-camu é um produto promissor ao mercado e à agroindústria pelo grande potencial nutricional, no entanto, devido à elevada acidez desse fruto, ocorre rápida oxidação e tempo de viabilidade para consumo do fruto in natura limitado. Além disso, a aceitação da ingesta do fruto fresco também é restrita pelo sabor cítrico muito acentuado. O objetivo deste trabalho é discutir as principais vantagens da liofilização do camu-camu, com base na literatura, descrevendo também as principais etapas desse processo. Palavras-chave: camu-camu; liofilização; processamento INTRODUÇÃO A biodiversidade da flora brasileira tem enorme potencialidade para o desenvolvimento de novos produtos (1). Dentre os frutos nativos da Amazônia com potencial promissor, devido a seu conteúdo nutracêutico, evidencia-se o camu-camu, também conhecido como caçari (2). Observa-se interesse da população cada vez maior por produtos naturais, por esse motivo, diversos autores apontam a utilização racional dos alimentos típicos da Amazônia, que podem ser uma alternativa para a melhora do quadro nutricional das pessoas, além de importante estratégia para auxiliar no controle e no tratamento de algumas doenças (3). Na atualidade, têm sido utilizados novos métodos que permitem processar produtos naturais e manter suas propriedades organolépticas por um período prologado através de técnicas de desidratação e conservação, gerando a possibilidade de consumo de frutos em qualquer época ano, mesmo fora de seu período de safra(4). Um procedimento empregado para isso é a liofilização. Nesse processo, ocorre sublimação, ou seja, a água contida no produto, passa do estado sólido (fruto ou polpa congelada, por exemplo) para o estado gasoso sem passar pelo estado líquido (4,5). Para tanto, é importante a compreensão desse processo tecnológico, explicando suas etapas e discutindo as conveniências e peculiaridades em comparação a outros métodos de secagem, principalmente em relação a produtos como o camu-camu, com grande potencial mailto:samanthapediatria@gmail.com mailto:edvan.chagas@embrapa.com mailto:lyciasr@gmail.com Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 107 nutracêutico, porém com limitações na conservação do fruto in natura, devido fatores próprios como acidez. É reconhecido que alguns fatores relacionados ao próprio alimento (fatores intrínsecos) podem afetar o prazo de validade do produto alimentício como excesso de umidade e baixo pH (6). DIFICULDADES DE CONSERVAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO DO CAMU- CAMU O fruto nativo da região amazônica: camu-camu (Myrciaria dúbia H. B. K. (McVaugh), por apresentar alto teor de acidez, raramente é consumido in natura (7). Apesar das várias vantagens nutricionais, minerais e demais propriedades nutracêuticas, o sabor ácido do camu-camu limita seu consumo, por isso, para minimizar o gosto proeminente, torna-se uma alternativa o processamento desse fruto (7,8). O camu-camu é consumido principalmente na forma de suco e néctar, porém alguns trabalhos têm sido realizados buscando incorporar o camu-camu a preparações alimentares em produtos como doces e iogurtes, por exemplo, com o objetivo principal de aumentar o valor nutricional dessas preparações (8). Figura 1 – Camu-camu (caçari) Para a comercialização do camu-camu, o processamento do fruto torna-se necessário devido seu baixo tempo de vida útil in natura. Além disso, já se observou que danos ocorridos durante o manuseio e/ou transporte do fruto provocam perda de peso por desidratação e modificação do aspecto original causando desinteresse para o consumo (9,10). LIOFILIZAÇÃO Desde a antiguidade a secagem de frutas é uma opção para aumentar a conservação e viabilizar alternativas de consumo de produtos naturais. O objetivo da secagem é a redução em volume e peso, além de dar maior estabilidade física, química e microbiológica através da diminuição da água do alimento, o que promove maior facilidade no transporte e conservação (11,12). A liofilização é uma alternativa viável aplicável à indústria de alimentos, pois apesar de ser processo caro, apresenta conservação físico-química superior à de outros processos, gerando produtos de maior valor agregado aos frutos (11,13). Além do uso medicinal, o processo de liofilização viabiliza alternativas de consumo de frutos nutracêuticos como o camu-camu. Devido a fácil e rápida reconstituição do pó em água, a polpa na forma de pó pode ser utilizada como matéria-prima para a produção de diversos produtos, podendo ser comercializada em larga escala, aumentando seu consumo (10). Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 108 O processo de liofilização é considerado um dos melhores métodos de desidratação de alimentos devido à preservação da palatabilidade do produto liofilizado, bem como, à manutenção das suas propriedades nutricionais, pois não submete o alimento a altas temperaturas como em outros processos de secagem, que acabam provocando degradação do produto e perda de grande parte de seus compostos bioativos (12,14). Através desse método, boa parte do cheiro, sabor e cor originais dos produtos biológicos, como frutos e hortaliças são preservados (15,16). Outra vantagem da liofilização, é que a remoção dos cristais de gelo por sublimação, que faz com que as polpas de frutos fiquem secas e porosas (Figuras 2 e 3), por isso, a liofilização de polpas, como as de camu- camu, podem ser geralmente transformáveis em pó com simples manipulação manual (Figuras 4 e 5) e, com facilidade de reidratação posteriormente (15,16). Figura 3 – Polpa congelada Figura 4 - Aspecto da polpa liofilizada- textura porosa Figura 4- Compressão leve Figura 5 – Aspecto do pó do camu-camu polpa, com bastão de vidro liofilizado- observa-se preservação da cor ETAPAS DA LIOFILIZAÇÃO Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 109 Inicialmente, nesse método, é recomendado que o alimento a ser liofilizado seja submetido a pré-congelamento em utra-freezer a temperatura menor que -30° por um período mínimo de 12 horas(17). O congelamento em período satisfatório é muito importante, para garantir que toda a água da polpa esteja bem congelada, caso contrário cada molécula de água irá apenas evaporar e não sublimar como é objetivo do processo (18). Posteriormente, no liofilizador, deve ser submetido à baixa pressão (vácuo), até o final do processo. Devido o procedimento ocorrer através de sistema a vácuo as perdas de nutrientes são as mínimas (17,18).No caso de uma liofilização de polpa de fruta, o processo final fica mais homogêneo, devido a sua estrutura. Na figura abaixo, exemplo de um aparelho convencional para liofilização (modelo L101 da marca Liotop). Nesse exemplo, a amostras são colocadas em vidros pressurizados. Figura 6 – Exemplo de Liofilizador acoplado a bomba de vácuo Após o término da liofilização, O acondicionamento do produto liofilizado deve ser feito em embalagens metalizadas. Segundo Juliano et al, (9), a polpa de camu-camu liofilizada embalada em bolsa de polietileno revestida com camada de alumínio apresenta boa conservação do alimentodurante 150 dias de armazenamento. CONCLUSÕES O processo de liofilização é tido como um dos mais adequados para conservar alimentos. A liofilização preserva características originais do fruto como cor, sabor e aroma. As principais etapas desse processo foram descritas e discutidas nesse capítulo, expondo algumas vantagens do processo, como por exemplo, a facilidade de reconstituição do produto liofilizado em água com conservação de boa parte de suas propriedades originais, elucidando características do processo, que explicam a consequente geração de uma estrutura porosa, sem umidade, facilitando a transformação de polpas como as de camu- camu em pó apenas com leve manuseio instrumental. REFERÊNCIAS 1. Freire, CT. Prefácio in: Turch,L.M.; Morais ,J. M. Políticas de apoio à inovação tecnológica no brasil avanços recentes, limitações e propostas de ações. Ipea, Brasília, 485 p,2017. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 110 2. Grigio ML, Moura EA de, Chagas EA, Durigan MFB, Chagas PC, Carvalho GF de, Zanchetta JJ. Bioactive compounds in and antioxidant activity of camu-camu fruits harvested at different maturation stages during postharvest storage. Acta Sci. 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Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 112 10.53934/9786599539626.14 Capítulo 14 CARACTERÍSTICAS SENSORIAIS DAS PIRAZINAS NO AROMA DOS ALIMENTOS: UMA REVISÃO Igor Henrique de Lima Costa1; Calionara Waleska Barbosa de Melo2 1Mestrando em Ciência e Tecnologia de Alimentos da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel/FAEM – UFPel; E-mail: igorhenr.98@gmail.com, 2Doutoranda em Ciência de Alimentos do Instituto de Química/IQ – UFRJ. E-mail: calionara@ufrj.br Resumo: As pirazinas pertencem a uma classe de compostos voláteis que constituem o aroma de diversos alimentos e bebidas, contribuindo com notas de odor diversas, como pungência, doce, avelã, floral, torrado, caramelo, nozes, semelhantes ao café, cacau e amêndoas. Elas podem ser produzidas naturalmente nos alimentos, formadas a partir do tratamento térmico ou por meio de microrganismos, aumentando sua concentração em matrizes alimentícias de acordo com o grau de torrefação. Portanto, essa revisão tem como objetivo discutir dados já reportados na literatura sobre as características sensoriais desses compostos que compõem o aroma dos alimentos submetidos ao processo de torra ou cocção, assim como também a descrição dos principais métodos de análise dessas substâncias. Palavras-chaves: aroma; compostos voláteis; cromatografia gasosa; torra INTRODUÇÃO As pirazinas são uma classe de compostos voláteis com dois átomos de nitrogênio no anel monocíclico e carregam substituintes em um ou mais dos quatro átomos de carbono do anel (1). E foram os primeiros compostos a serem reconhecidos como um dos mais importantes constituintes do aroma de alguns alimentos crus ou tratados termicamente, como o cacau, café, carne e cupuaçu. Essas substâncias possuem odores intensos e valores de limite de odor muito baixos (2). Três tipos de derivados de pirazina já foram relatados, incluindo as pirazinas naturais, derivadas de metoxilato, encontradas principalmente nas plantas, a exemplo da 2-metoxi-3- isobutilpirazina, concedendo notas verdes à uva Cabernet Sauvignon. As alquilpirazinas, produzidas através do processamento térmico dos alimentos e as pirazinas formadas a partir dos microrganismos, como exemplo da 2,3,5,6-tetrametilpirazina, encontradas na cerveja (3,4). Wagner et al. (5) em seus estudos, pontuaram que setenta pirazinas já foram identificadas na natureza. De acordo com Lee et al. (2) as pirazinas foram identificadas como compostos majoritários na fração volátil do aroma do cacau. No café, correspondem a mais de vinte substâncias, contudo esses compostos são geralmente encontrados nos grãos de café torrado, apenas a 2-metoxi-3-(2-metil-propil)-pirazina foi encontrada em grãos de café verde. Nesse sentido, essas e outras substâncias odoríferassão formadas principalmente durante o processo de torra a partir de precursores não voláteis, como polissacarídeos, lipídios, proteínas e aminoácidos livres.(2) Queiroz6 identificou através da técnica de cromatografia gasosa (CG) acoplada a espectrometria de massas (EM) que as amêndoas de cupuaçu possuem um alto teor de Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 113 alquilpirazinas bem maior que as amêndoas de cacau, especialmente da 2,3,5,6- tetrametilpirazina, sendo identificada também nas amêndoas cruas, que não foram submetidas ao processo de torrefação. Dentre as pirazinas formadas durante o processo de torra dos alimentos, a 2,3,5,6-tetrametilpirazina e a 2,3,5-trimetilpirazina são reportadas como as mais importantes. A concentração das pirazinas nos alimentos aumenta gradualmente de acordo com o grau de torrefação ou cozimento, contudo algumas dessas substâncias podem sofrer redução em condições de torra muito elevada, em função de sua volatilidade.(6) Muitas dessas pirazinas além de serem produzidas nos alimentos durante o seu processamento, podem ser sintetizadas por via química ou biológica e são amplamente utilizadas como aditivos, na formulação dos alimentos industrializados como aromatizantes, principalmente como componente ativo nos sabores de cacau e chocolate, produtos assados, condimentos, produtos cárneos, sopas e em sabores de café, pão e nozes torradas.(1,7) Diante da grande contribuição das pirazinas no aroma dos alimentos, é de extrema importância conhecer as propriedades odoríferas dessas substâncias e como ocorre o seu desenvolvimento durante o processo de torrefação. Neste sentido, essa revisão compreende uma discussão acerca dos dados já reportados na literatura sobre as características sensoriais das pirazinas que compõem o aroma dos alimentos submetidos ao processo de torra ou cocção, assim como também a descrição dos principais métodos de análise dessas substâncias. FORMAÇÃO DAS PIRAZINAS Os derivados da pirazina podem ser produzidos por meio das reações de escurecimento não-enzimático, como a caramelização de açúcares por meio da ciclização, e da reação de Maillard durante a pirólise de certas substâncias amínicas, sob condições específicas entre grupos carbonila de açúcares redutores e aminoácidos livres, peptídeos ou proteínas.(3,8) Os produtos de degradação formados a partir da reação de Maillard são diversos, com propriedades sensoriais ativas, como exemplo das pirazinas que são contribuintes importantes das características sensoriais da carne, cevada torrada, cacau, café, amendoim, pipoca, batata frita, pão crocante de centeio e entre outros alimentos, de forma que contribuem com cacterísticas agradáveis de nozes e notas de odor torrado.(8) Segundo Koehler et al.(9) a maioria das pirazinas são formadas em temperaturas entre 120 e 150 °C, contudo também já foi observada a formação de pirazinas a 70 °C. Queiroz et al.(6) identificaram que a formação das metilpirazinas por meio de seus precursores está diretamente relacionada com as condições de torrefação como tempo e temperatura. Como é o caso da tetrametilpirazina e a 2,5-dimetilpirazina que são consideradas como marcadores do grau de torração.6 Koehler et al.(9) observaram que os átomos de nitrogênio na estrutura das pirazinas são derivados de aminoácidos e os átomos de carbono de açúcares. Kim et al.(10) identificaram altas concentrações de pirazinas, em um tipo de soja fermentada consumida no Japão, essas substâncias foram produzidas no decorrer da etapa de fermentação. Durante a formação biológica, as pirazinas também são formadas a partir da reação entre aminoácidos e açúcares. Dentre os microrganismos utilizados para produção das pirazinas para serem aplicadas como aromatizantes, destacam-se o Bacillus natto, Lactococcus lactis, Acetobacter aceti, Aspergillus oryzae e Saccharomyces cerevisiae.(3) CARACTERÍSTICAS SENSORIAIS DAS PIRAZINAS https://www.sciencedirect.com/topics/chemistry/cyclization-reaction https://www.sciencedirect.com/topics/chemistry/maillard-reaction https://www.sciencedirect.com/topics/biochemistry-genetics-and-molecular-biology/pyrolysis https://www.sciencedirect.com/topics/biochemistry-genetics-and-molecular-biology/acetobacter https://www.sciencedirect.com/topics/biochemistry-genetics-and-molecular-biology/aspergillus-oryzae https://www.sciencedirect.com/topics/biochemistry-genetics-and-molecular-biology/saccharomyces-cerevisiae Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 114 As pirazinas contribuem com notas de aroma e sabor desejáveis em diversos alimentos. Visto isso, a Tabela 1 exibe a descrição das características sensoriais das pirazinas já identificadas em diferentes matrizes alimentícias. Tabela 1 – Descrição das características sensoriais dos derivados das pirazinas que compõem o aroma dos alimentos crus e submetidos ao processo de torra/cocção. Pirazinas Descrição do odor Método de análise Matriz alimentícia Ref. Pirazina Pungente, doce, avelã e floral HE-MEFS-CG-EM Café robusta, cacau, chocolate e xarope de bordo (3,11 ) 2-Metilpirazina Nozes, tipo cacau, torrado, chocolate doce HE-MEFS-CG-EM Café robusta, arábica e xarope de bordo (3) 2,3-Dimetilpirazina Nozes, como café, caramelo, como cacau HE-MEFS-CG-EM E CG/O-EM Café robusta, arábica, queijo parmesão e xarope de bordo (3,11 ,12) 2,5-Dimetilpirazina Nozes, torrado, terroso, semelhante ao cacau HE-MEFS-CG-EM Café, cacau, queijo parmesão e xarope de bordo (3,12 ,13) 2,6-Dimetilpirazina Nozes, torrado, cacau, semelhante ao café HE-MEFS-CG-EM Café e cacau (13) 2,3-Dietilpirazina Nozes, amadeiradas, torrado, semelhante ao cacau MEFS-CG-EM Café robusta e arábica (11) 2,3-Dietil-5-metilpirazina Torrado, noz, cacau CG-EM Café arábica e batata frita (5) 2-Etilpirazina Nozes HE-MEFS-CG-EM Cacau e chocolate (13) 2-Etil-6-metilpirazina Tostado, avelã HE-MEFS-CG-EM Café arábica, xarope de bordo (3,11 ) 2-Etil-5-metilpirazina Grão de café torrado com ervas CGxCG-DIC e CG-O Café, cacau, chocolate, chá e xarope de bordo (3,11 ,14) 2-Etil-3,5-dimetilpirazina Amêndoas queimadas, nozes torradas e café GC-O (AEDA) Café, cevada e amendoim torrados e batata frita (5,15 ) Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 115 2-Etil-3,6-dimetilpirazina Torrado CG-EM Biscoitos, bolos (15) 3-Etil-2,5-dimetilpirazina Torrado, terroso CG/O-EM (AEDA) Batata frita (5) 2-Etenil-3-etil-5-metilpirazina Terroso CG-EM Café torrado (16) 2-Acetilpirazina Pipoca, torrado, chocolate e nozes CG/O-EM (AEDA) Batata frita (5,11 ,17) 2,3,5-Trimetilpirazina Chocolate, avelã, batata assada, nozes, torrado, terroso e amendoim CG/O-EM (AEDA) Café, cacau, chocolate, carne assada e batata frita. (5,11 ,17) 2,3,5,6-Tetrametilpirazina Chocolate doce e cozido HE-MEFS-CG-EM Chocolate, cacau, café e queijo parmesão (3,12 ) 2,3,5-Trimetil-6-etilpirazina Chocolate doce e cozido CG/O-EM (AEDA) Cacau torrado, bolo, bacon frito, queijo parmesão e batata assada (12,1 8) 2-Metoxi-3-(2-metilpropil)- pirazina Tostado CG/O-EM (AEDA) Grão de café verde e batata frita (7) 2-Metoxi-3-isobutilpirazina Mofado, de nozes, semelhante a cumarina CG/O-EM (AEDA) Café arábica (7) *CG/O - Cromatografia Gasosa Olfatométrica; EM – Espectrometria de Massas; AEDA - Análise de Diluição do Extrato de Aroma; DIC: Detector por Ionização de Chamas; MEFS – Microextração em Fase Sólida; CG – Cromatografia Gasosa; HD – Headspace Estático. Os derivados das pirazinas contribuem com aromas e sabores distintos nos alimentos. Como exemplo da 2,5-dimetilpirazina que apresenta notas de odor de batata e possuium limiar de odor de 1 ppm em água. Enquanto a 2-acetilpirazina tem sido relacionada com o Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 116 odor de pipoca e também apresenta baixas concentrações nos alimentos, em torno de 5 ppm.(1) A 2,3,5,6-Tetrametilpirazina é amplamente encontrada em alimentos como batata frita, pães, carnes cozidas, chá, cacau, chocolate, cerveja, bebidas destiladas, derivados de soja, produtos lácteos e óleo de gálbano. E contribui principalmente com notas de odor de chocolate, mofo, assado e doce.(12) A 2-Metoxi-3-isobutilpirazina apesar de ser descrita com aroma de nozes, apresenta fortes aspectos verdes dos pimentões, ervilhas e gálbano. Está presente tanto no aroma do café como da cherovia (Pastinaca sativa), do feijão verde e do espinafre além da pimenta, tornando-se extremamente versátil.(7) Diferentes técnicas analíticas têm sido usadas para isolar e estudar as pirazinas afim de compreender os impactos odoríferos dessas substâncias nos alimentos e bebidas. PRINCIPAIS MÉTODOS DE ANÁLISE Dentre os principais métodos de análise das pirazinas em alimentos e bebidas, destacam-se a MEFS, Headspace Dinâmico (HD), Extração em Fase Sólida (EFS) e HE- MEFS como métodos de extração e a CG aliada a EM como técnica de separação e identificação dessas substâncias.(19–22) Essas técnicas são muito efetivas na separação identificação das pirazinas em matrizes complexas, contudo as pirazinas estão presentes nos alimentos com baixo limiar de detecção, tornando-se desafiador esse processo de análise.(23) Além disso, uma etapa que pode ser considerada crítica antes da análise dos compostos voláteis é a de extração. Se a técnica utilizada para extração não for adequada pode afetar diretamente a caracterização do perfil de compostos voláteis que compõem o aroma.(24) Com base nos diferentes métodos de extração reportados na literatura, a técnica de MEFS se destaca como a mais utilizada.(22) A MEFS consiste em expor uma fibra retrátil revestida com sorvente, composto por um ou mais polímeros (polidimetilsilozano, poliacrilato e divinilbenzeno), ao headspace da amostra até que o equilíbrio entre o analito particionado no revestimento da fibra e o analito da amostra seja estabelecido.(25) A MEFS não utiliza solventes, é de baixo custo, é de fácil manuseio e é relativamente rápida.(26) Outro método de extração muito utilizado para análise de compostos voláteis em alimentos é o HD, permitindo que os compostos voláteis sejam continuamente arrastados por um gás inerte e transferidos para uma armadilha ou trap.(21) Há uma variedade de adsorventes que podem ser utilizados no HD, isso aumenta seu espetro de detecção de voláteis em diversas matrizes alimentares. Em relação a EFS, a técnica é utilizada para extração e/ou pré-concentração de amostras complexas. Ela permite a detecção de analitos de concentrações muito baixas por métodos cromatográficos.(27) Os principais objetivos da EFS são a remoção de interferentes da matriz, a concentração e o isolamento dos analitos.(28) Outro método de extração também muito aplicado na identificação dos compostos voláteis e dos derivados pirazínicos é HE-MEFS, visto que é uma técnica automatizada, rápida, simples, seletiva, compatível com baixos limites de detecção e sensível o suficiente para realizar extração de voláteis de uma matriz complexa sem a necessidade de preparação de amostra.(19) Essas técnicas acima supracitadas, aliadas a CG-EM, CG-DIC ou CG-O, fornecem informações relevantes acerca da identificação das pirazinas e demais compostos voláteis que constituem o aroma dos alimentos e bebidas.(29) A CG-EM tem sido utilizada com frequência para identificar e quantificar derivados pirazínicos no aroma do café, amêndoas de cacau e cupuaçu, principalmente após o processo de torra e entre outros alimentos.(30– 32) Visto isso, essas ferramentas analíticas discutidas anteriormente são muito importantes nesse campo de estudo. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 117 CONCLUSÃO As pirazinas são compostos voláteis muito importantes para o aroma de alimentos, em especial para aqueles submetidos ao processamento térmico ou a torrefação. As notas de aroma podem variar a depender da matriz alimentícia e das condições fornecidas para formação desses compostos, contudo, na maioria das vezes elas são descritas com notas de odor de nozes, torrado, tostado, amendoado e notas de chocolate ou cacau torrado. Conforme visto nesse compilado da literatura, as alquilpirazinas são as mais recorrentes, principalmente no aroma do cacau, chocolate, café, amêndoas de cupuaçu e cevada. Enquanto os derivados metoxilados são identificados sobretudo nos alimentos que não foram submetidos ao processo de torrefação. Dentre os derivados pirazínicos a 2,3,5,6- tetrametilpirazina e a 2,3,5-trimetilpirazina são reportadas como as mais importantes e mais presentes no aroma dos alimentos submetidos ao processo de torra. Os métodos de análises são ferramentas importantíssimas para verificar e quantificar essas substâncias, e dentre esses métodos de extração e análise, a técnica de MEFS aliada a CG-EM são os mais utilizados. Estas técnicas de análise são aplicadas principalmente, com o intuito de desvendar os mecanismos envolvidos na formação das pirazinas e as características sensoriais que esses derivados pirazínicos contribuem para os alimentos e bebidas. REFERÊNCIAS 1. Müller, R. & Rappert, S. Pyrazines: occurrence, formation and biodegradation. Appl. Microbiol. Biotechnol. 85, 1315–1320 (2010). 2. Lee, K. & Shibamoto, T. Analysis of volatile components isolated from Hawaiian green coffee beans (Coffea arabica L.). Flavour Fragr. J. 17, 349–351 (2002). 3. Sabik, H., Fortin, J. & Martin, N. Identification of pyrazine derivatives in a typical maple syrup using headspace solid-phase microextraction with gas chromatography–mass spectrometry. Food Chem. 133, 1006–1010 (2012). 4. Gallois, A. 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Effect of cocoa roasting time on volatile composition of dark chocolates from different origins determined by HS- SPME/GC-MS. CyTA-Journal Food 19, 81–95 (2021). Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 120 10.53934/9786599539626.15 Capítulo 15 COMPOSTOS BIOATIVOS DO CAMU-CAMU NO COMBATE À COMORBIDADES ASSOCIADAS À OBESIDADE Samantha Xena Nunes Quadros1; Ana Beatriz Pires de Souza2; Lycia Silva Ribeiro3; Edvan Alves Chagas4; Carlos Alberto Nogueira de Almeida5 1 Docente do curso de medicina- CCS-UFRR; E-mail: samanthapediatria@gmail.com 2 Estudante do curso de Medicina – UFRR; E-mail: anabeatrizpires@outlook.com 3 Estudante do curso de Medicina – UFRR; E-mail: lyciasr@gmail.com; 4 Docente UFRR, /Pesquisador da Embrapa –RR; E-mail: edvan.chagas@embrapa.br 5 Professor Adjunto do Departamento de Medicina – UFSCAR; E-mail: dr.nogueira@ufscar.br Resumo: A obesidade é definida como uma doença crônica relacionada a diversas comorbidades como diabetes mellitus 2, hipertensão arterial e dislipidemias e todas elas, por sua vez, estão relacionadas a maior risco de desenvolvimento de doença cardiovascular e consequente maior mortalidade. Diversos trabalhos com análises químicas e bioquímicas, bem como também estudos com interações in vitro e in vivo, têm apontado algumas propriedades benéficas do fruto regional amazônico camu-camu (Myrciaria dubia) em relação a obesidade e comorbidades associadas. Várias substâncias encontradas em quantidades significativas no fruto, tais como ácido elágico, miricetina, quercetina, catequinas entre outras, estão envolvidas nesses benefícios. O objetivo desta revisão é apontar os compostos bioativos do fruto camu-camu, mostrando os mecanismos de ação que explicariam as ações de redução de obesidade, controle da hiperglicemia, melhora de perfil lipídico e pressão arterial, com base na literatura atual, discutindo a relação desses compostos com o processo de emagrecimento e/ou melhora dos índices dessas comorbidades geralmente associadas ao excesso de peso, enfatizando com isso, seu papel como alimento gerador de impacto positivo em saúde. Palavras-chave: Myrciaria dúbia; compostos bioativos; excesso de peso; comorbidades INTRODUÇÃO A obesidade é uma doença crônica não transmissível multifatorial, definida pelo excesso de gordura corporal que causa prejuízos à saúde e à qualidade de vida, por causas que podem ser resumidas muito genericamente em hábitos de vida, pré-disposições genéticas e fatores psicológicos (1). O camu-camu (Myrciaria dubia), fruto abundante no território amazônico, é considerado um alimento funcional pelo alto valor nutricional, potencialmente auxiliador da melhora em saúde e atenuador da ocorrência de moléstias nos indivíduos que o consomem. Há evidências de que a Myrciaria dubia apresente efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios, antimicrobianos, antiglicêmicos e anti-hipertensivos, e de que seja a fruta com a maior concentração de ácido ascórbico disponível para consumo no mundo (2,3). As concentrações de vitamina C no camu-camu ultrapassam 1400 mg/100 g de polpa e 2050 mg/ 100g de casca, 20 vezes maiores que as da acerola e cerca de 100 vezes maiores que as do limão (4). O ácido ascórbico tem conhecida função antioxidante, atuando na neutralização de radicais mailto:lyciasr@gmail.com mailto:edvan.chagas@embrapa.br mailto:dr.nogueira@ufscar.br https://www.zotero.org/google-docs/?uH60q0 https://www.zotero.org/google-docs/?RfVayU https://www.zotero.org/google-docs/?fIOJ0k Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 121 livres que podem provocar alterações neoplásicas, enfermidades cardiovasculares e diabetes. O ácido ascórbico também favorece a formação de colágeno, essencial no aparelho osteo locomotor, em tecidos conjuntivos e em vasos sanguíneos (5,6). O efeito da ingestão do camu-camu sobre a lipidemia e sobre o estresse oxidativo não estárestrito ao ácido ascórbico. Através de modelos humanos (7) e animais (8), as repercussões do consumo de vitamina C e da polpa do fruto da Myrciaria dubia foram comparados e, em ambos estudos, foi mostrado que o grupo que ingeriu apenas o ácido ascórbico isolado não atingiu os marcadores de saúde alcançados pelo grupo que suplementou o camu-camu, embora, em ambos, o conteúdo de vitamina C tomada isolada e no suco de camu-camu tenha sido a mesma, reforçando a relevância das interações entre diferentes micronutrientes que ocorrem nos alimentos naturais. Em outra linha de ação, verificou-se que o uso do extrato de camu-camu por oito semanas, iniciado concomitante à dieta desbalanceada, preveniu completamente a perda de variedade da flora intestinal e de crescimento de cepas patogênicas, duas características marcantes da disbiose induzida pela obesidade (8). Especificamente em relação ao combate da gordura visceral e comorbidades associadas como diabetes, hipertensão arterial e dislipidemias, Nascimento et al. (4) mostraram que o consumo do camu-camu foi capaz de reduzir a massa corporal e a deposição de gordura em diversos locais do corpo, além de promover diminuição das proteínas inflamatórias circulantes. Em modelos animais, ficou demonstrado que a suplementação de camu-camu amenizou a resistência insulínica e preveniu hiperglicemia (8). Com diversos mecanismos de ação envolvidos através de seus bioativos, o efeito protetor do camu-camu abrange obesidade, deposição de gordura visceral e redução de estado inflamatório crônico, através da homeostase do metabolismo glicêmico e da sensibilidade à insulina (8). Além das substâncias antioxidantes e anti-inflamatórias, as fibras do fruto contribuem para eliminação da bile e colesterol fecal por bloquear a reabsorção do ciclo êntero-hepático e induzir a produção de mais sais biliares, com isso, estas fibras ajudam a reduzir os níveis de glicose e de insulina pós prandial, pois desaceleram o esvaziamento gástrico, evitando a instalação da resistência insulínica (9). Para mais, não foram encontrados vestígios de que o extrato desequilibrasse a homeostase do conteúdo ou do processo digestivo (8). Recentemente foi comparado o efeito emagrecedor do extrato da casca do camu- camu em ratos com cirurgia bariátrica e grupo controle e ficou evidenciado que suplementação com camu-camu, por um período de quatro semanas de intervenção, foi capaz de exercer efeito sobre a resposta inflamatória induzida pelo acúmulo de adiposidade, causando diminuição estatisticamente importante do índice de massa corporal (IMC) em relação ao grupo controle (8). É proposto que essa perda de peso é resultado de aumento do gasto calórico basal e da termogênese induzida pelo fruto da Myrciaria dubia não dependente da instituição ou aumento de atividade física, o que resulta em menos energia final disponível para armazenamento em forma de adipócito (4). O consumo diário de camu-camu também preveniu ganho de peso em estudos in vivo em ratos alimentados com dieta hipercalórica. Além de prevenir depósito de adiposidade em todos os sítios corporais, inclusive gordura visceral, subcutânea e gordura marrom interescapular (8). Dessa forma, existe potencial prevenção de complicações como esteatose hepática e algumas dislipidemias pelo consumo de extrato de camu-camu, devido à redução de acumulação de triglicerídeos no fígado e na circulação intravascular. Em outro estudo in vivo com animais (camundongos) que foram submetidos a dieta rica em lipídios e carboidratos e receberam suplementação de polpa de camu-camu por 12 semanas, verificou- se que ao final, o grupo consumidor de camu-camu apresentou concentrações diminuídas de TNF-α (fator de necrose tumoral). No corpo, os maiores secretores dessa citocina são os tecidos adiposo visceral e subcutâneo, uma molécula com relação íntima com a perpetuação https://www.zotero.org/google-docs/?NUzM10 https://www.zotero.org/google-docs/?Jzwbsu https://www.zotero.org/google-docs/?w0DvIZ https://www.zotero.org/google-docs/?uTHGre https://www.zotero.org/google-docs/?MWvgYr https://www.zotero.org/google-docs/?ZTwjH4 https://www.zotero.org/google-docs/?3QwDJJ https://www.zotero.org/google-docs/?RskZMq https://www.zotero.org/google-docs/?WdJLnU https://www.zotero.org/google-docs/?tYYgDv https://www.zotero.org/google-docs/?qKNvdN https://www.zotero.org/google-docs/?ZSUI1K Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 122 do estado de obesidade. Nesse sentido, o efeito anti-inflamatório do camu-camu potencialmente contribui para a melhora dessas doenças inflamatórias crônicas de origem metabólica (4). Os efeitos antiobesidade, portanto, podem ser atribuídos a diversos compostos bioativos do fruto. O camu-camu é fonte de compostos fenólicos e outros importantes antioxidantes naturais como betacaroteno e ácido ascórbico (especialmente na casca do fruto maduro/sobremaduro) (10), e de minerais, como sódio , potássio, cálcio, magnésio, zinco, manganês e cobre, assim com aminoácidos, tais como serina, valina e leucina, e outras moléculas de alto valor biológico, a citar ácido linoleico e oleico, licopeno e luteína (5). Conforme exposto, portanto, M. dubia poderia ter papel numa estratégia para o manejo da obesidade e suas complicações, justificada pela ação desse fruto no metabolismo glicídico e na resistência insulínica, no metabolismo lipídico, especialmente nos triglicerídeos, nos níveis de HDL-c e na obesidade visceral. Os principais bioativos presentes no camu-camu que têm influência no controle das variáveis indicadoras de saúde serão apresentados na sequência. COMPOSTOS BIOATIVOS DO CAMU-CAMU ÁCIDO ASCÓRBICO (VITAMINA C) A vitamina C é um micronutriente hidrossolúvel e seu teor no camu-camu pode chegar até 6000mg a cada 100g da fruta (2). Dessa forma, o ácido ascórbico contribui para as ações antioxidantes, anti-inflamatórias e efeito antiaterosclerótico. O resultado anti-inflamatório se deve principalmente à queda dos níveis de interleucina- 6 (IL-6) e IL-8, as quais têm as funções de estimular a produção de proteínas da fase aguda da inflamação, ativando e convocando neutrófilos para os locais de inflamação, respectivamente. Ao diminuir a resposta inflamatória, temos a queda da lesão endotelial, que por conseguinte, ocasionará o efeito antiaterosclerótico. É importante enfatizar que essa lesão (multifatorial e crônica) é o processo inicial para a formação de placas ateromatosas e fibrosas. Além disso, já foi comprovada a ação antioxidante da Vitamina C com relação à excreção de espécies reativas de oxigênio (ROS) e componentes reativos de nitrogênio após o consumo do camu-camu.(2). COMPOSTOS FENÓLICOS Catequina (flavanol) As catequinas possuem concentração de 138,5 a 2988 mg/100g na polpa fresca de camu-camu, o que corresponde a 67 a 95% dos flavonóis totais presentes nos extratos hidrofílicos (11). Elas reduzem a expressão gênica da proteína JNK (c-Jun N-terminal cinase), e da MCP-1(monocyte chemoattractant protein-1), que estão relacionadas à adiposidade e atuam em várias vias metabólicas relacionadas a processos inflamatórios. Esse composto também está relacionado a diminuição da IL-6, que é uma citocina responsável pelo surgimento de comorbidades na obesidade, como a resistência insulínica, a partir da produção de proteínas no fígado, as quais geram um processo inflamatório (11). Concomitantemente, as catequinas também reduzem a expressão da COX-2, que é integrante da cascata do ácido araquidônico envolvido na inflamação. Elas também limitam os transportadores de glicose SGLT-1 e GLUT 2, diminuindo a absorção da glicose no intestino delgado e inibem as enzimas α-amilase e α-glucosidase, que digerem amido (12). https://www.zotero.org/google-docs/?9Vrofa https://www.zotero.org/google-docs/?36OfIz https://www.zotero.org/google-docs/?PEl9iMhttps://www.zotero.org/google-docs/?HckLCf https://www.zotero.org/google-docs/?pCydFm Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 123 Quercetina (flavonol) A quercetina possui concentração de 42mg/100g do camu-camu seco (13). Estima- se que os humanos ingerem quantidades inferiores a 100mg/dia na dieta ocidental, em alimentos como maçã com casca, limão e cebola. Esse composto mostrou-se capaz de reduzir a ação da NF-κB (Nuclear Factor-Kappa B), que é um fator de transcrição que tem a função de coordenar as respostas inflamatórias, ou seja, a quercetina reduz a inflamação crônica, que é a grande responsável pela evolução das doenças metabólicas, incluindo obesidade e diabetes mellitus tipo 2. Ademais, ela também reduz a expressão gênica da proteína JNK, da MCP-1, da IL-6 e COX 2; todos envolvidos com processos inflamatórios. É também capaz de limitar a SGLT-1 e GLUT-2, e de inibir as enzimas que sofrem ação da catequina, reduzindo a absorção de glicose (11). Além disso, ela apresenta uma propriedade citoprotetora ao remover radicais livres de circulação. A quercetina atua juntamente com o ácido ascórbico (o qual reduz a oxidação da mesma), possibilitando o aumento da duração da sua ação antioxidante (inibição da oxidação da lipoproteína de baixa densidade – LDL). Dessa forma, apresenta-se como um fator de proteção aos danos cardiovasculares (10). É conhecida também pela sua propriedade antifúngica de inibição de germinação de esporos, além da inibição precoce de multiplicação viral, que ajuda a controlar infecções oportunistas nos pacientes inflamados crônicos que fazem ingestão regular (14). A bioefetividade desse flavonol se dá por diferentes vias metabólicas, a saber, pela influência no metabolismo tireoidiano, especialmente na deiodinação da tiroxina (6), pelo aumento da excreção de sais biliares e de colesterol nas fezes, possivelmente por interação com a enzima lipase pancreática, pelo aumento da atividade mitocondrial hepática e aumento dos níveis de HDL-c, pela redução da adesão de placas aterogênicas no epitélio vascular, pela adsorção de espécies reativas de oxigênio lesivas em leito endotelial - mecanismo análogo e sinérgico ao do ácido ascórbico (10). Miricetina (flavonol) Os teores de flavonóides variaram, e entre apresenta-se 4,8 a 5,0 mg/100 g para miricetina, 0,98mg/100g de polpa e 5,28mg/100g de resíduo(5). O mecanismo de ação da miricetina se assemelha ao das catequinas e da quercetina, ao reduzir o fator de transcrição NF-kappa B, a proteína JNK, a COX 2, a interleucina, a MMP-9 e a AP-1. Logo, ela possui ação antioxidante, anti-inflamatória, e antiglicêmica, ao inibir os transportadores de glicose SGLT-1 e GLUT-2. Dessa forma, diminui a absorção de glicose no intestino delgado. Ademais, atenua a hiperlipidemia e a peroxidação lipídica (15). Rutina (Quercetina-3-rutinosídeo) (flavonol) O camu-camu possui cerca de 4 mg de rutina a cada 100g do fruto seco (16). Estudos ratificaram a função deste composto na prevenção da aterosclerose, através da sua capacidade de induzir o aumento da lipoproteína de alta densidade (HDL). A elevação da HDL está relacionada a um menor risco cardiovascular, pois essa lipoproteína é responsável por retirar o colesterol do meio intracelular e fazer seu transporte no organismo, facilitando a excreção biliar (16). A rutina detém a ação antioxidante, a partir da elevação da enzima superóxido dismutase (SOD), a qual inibe a lipoperoxidação (que é o meio pelo qual os radicais livres iniciam os danos celulares). Além disso, essa enzima acelera a destruição do radical superóxido e neutraliza o radical hidroxil (15,16). https://www.zotero.org/google-docs/?fq9unU https://www.zotero.org/google-docs/?sbImaH https://www.zotero.org/google-docs/?sI90QT https://www.zotero.org/google-docs/?YAfnT6 https://www.zotero.org/google-docs/?h2fTrl https://www.zotero.org/google-docs/?tcIKL8 https://www.zotero.org/google-docs/?no40lE Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 124 Antocianidinas (cianidinas) Estão presentes na ordem de aproximadamente 42,2 mg em 100g de polpa fresca (13), em grande parte representada pela protoantocianidina. Por serem antioxidantes naturais, carreiam os radicais livres e ajudam na modulação de processos inflamatórios, além de diminuírem a digestão e absorção do amido no trato gastrointestinal (15). Flavononas Representadas pela narigenina (6,9 mg/100g de polpa fresca) e pelo eriodictiol (0,6mg/100g de polpa de camu camu fresca) (14). Sua bioatividade está baseada nos processos já descritos de inibição dos transportadores GLUT-2 e redução da absorção intestinal de glicose, essa é uma via comum dos compostos fenólicos de maneira geral (13). Ácido elágico, elangitaninos e taninos O camu-camu apresenta aproximadamente 48 mg de ácido elágico a cada 100g de polpa fresca, contudo, somente 1,6 mg é do composto livre (15). O ácido elágico, por ser um flavonoide, possui funções anti-inflamatórias iguais as das catequinas, quercetina e miricetina, por reduzir a NF-kappa B, a AP-1, a proteína JNK, a COX-2, a MMP-9 e a IL-6, além diminuir a absorção de glicose no intestino delgado, através da inibição da SGLT-1 e GLUT-2. Desse modo, o composto possui ações anti-obesidade e anti-hiperglicemia. Ademais, o ácido apresenta ação antioxidante, através da captação de radicais livres, como a hidroxila, o dióxido de nitrogênio e peroxinitrila. Esse composto também possui ação antiglicêmica, pois inibe a enzima alfa-amilase, que é responsável pela conversão do amido em açúcares. O efeito protetor cardíaco se deve a sua capacidade de inibir a enzima conversora de angiotensina I (17). CAROTENOS Há evidências de que a ingestão dos carotenóides tenha potencial de inibição de células tumorais, inclusive estímulo a apoptose, sendo proposto que haja interação na comunicação em nível celular (18). Contudo, apesar dos inúmeros benefícios e da abundância na flora amazônica, o consumo desta fruta no norte brasileiro não é de praxe. Dentre as hipóteses que corroboram para tal, há a suspeita de que esta baixa ingesta seja resultado do sabor forte e ácido da fruta isolada, o que a torna pouco palatável. Além disso, o camu-camu é demasiadamente perecível, o que torna seu armazenamento e transporte mais difíceis (3). CONCLUSÕES O camu-camu é um fruto amazônico, rico em ácido ascórbico, e compostos fenólicos e beta carotenos. Esses compostos são responsáveis pelas ações anti-inflamatórias (através da inibição da NF-kappa B, da AP-1, da JNK, da COX-2, da MMP-9, e da IL-6), antioxidantes (pela captação de radicais livres), anti-glicêmicas (pela inibição da SGLT-1 e GLUT-2, além do bloqueio da enzima alfa-amilase pelo ácido elágico), anti-hipertensivas (aumento do HDL) do fruto. Possui um elevado potencial para ser usado no manejo das comorbidades associadas à obesidade, concomitante à atividade física e dieta equilibrada. Contudo, atualmente, apesar da sua abundância no extremo norte brasileiro e as vantagens https://www.zotero.org/google-docs/?xe6lMX https://www.zotero.org/google-docs/?5sETei https://www.zotero.org/google-docs/?wwocNR https://www.zotero.org/google-docs/?iXF4d4 Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 125 da sua inserção na dieta, existe uma resistência da população ao seu consumo, devido ao forte sabor cítrico. REFERÊNCIAS 1. ABESO. 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Carla Emidio Cunha E. Evaluation and characterization of the bioactive compounds of camu-camu (Myrciaria dubia (H.B.K) Mc Vaugh) [Internet] [Doutora em Ciência de Alimentos]. [Campinas]: Universidade Estadual de Campinas; 2018 [citado 28 de julho de 2021]. 13. Rufino M do SM, Alves RE, de Brito ES, Pérez-Jiménez J, Saura-Calixto F, Mancini- Filho J. Bioactive compounds and antioxidant capacities of 18 non-traditional tropical fruits from Brazil. Food Chem. 15 de agosto de 2010;121(4):996–1002. 14. Kowalski L, Silva AD da, Pagno AR, Piana M. Atividade Antimicrobiana de Flavonoides: uma Revisão de Literatura. Rev Interdiscip Em Ciênc Saúde E Biológicas. 29 de agosto de 2020;4(1):51–65. 15. de Azevêdo JCS, Fujita A, de Oliveira EL, Genovese MI, Correia RTP. Dried camu- camu (Myrciaria dubia H.B.K. McVaugh) industrial residue: A bioactive-rich Amazonian powder with functional attributes. Food Res Int. 1o de agosto de 2014;62:934–40. 16. 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Após a identificação e separação por município de origem e por modo de armazenamento (tanque ou latão), as amostras foram analisadas utilizando três repetições de cada para o cálculo da média individual. Os resultados obtidos foram comparados com os valores de referência mencionados no Regulamento da inspeção sanitária e industrial para leite e seus derivados (Resolução Nº 065/2005). Quantoà acidez por ºDornic foi observado que 40,35% das amostras apresentaram níveis superiores ao recomendado, enquanto que pelo método Alizarol 7,98% das amostras se encontravam com excesso de acidez. Na análise de proteínas apenas uma amostra do total apresentou um valor abaixo do recomendado pela legislação. Diante dos resultados, foi certificada a importância das análises de qualidade por parte dos laticínios que recebem o leite das fazendas para posterior comercialização, bem como a necessidade da conscientização dos produtores rurais que ainda possuem resistência quanto às boas práticas de manejo higiênico e nutricional na lida com o rebanho, e a influência das mesmas na qualidade do produto final. Palavras–chave: análises de qualidade; inspeção sanitária; laticínios; acidez; proteína. INTRODUÇÃO O leite é definido Segundo a Instrução Normativa nº 62, de 29 de dezembro de 2011 (1), sem outra especificação, o produto oriundo da ordenha completa, interrupta, em condições de higiene, de vacas sadias, bem alimentadas e descansadas. É considerado como matéria prima essencial na economia do país, em especial na região do Alto Paranaíba- MG, onde ganha destaque por seus números significativos na produção. Além disso, ele é um alimento indispensável na mesa dos brasileiros, e por isso seu manuseio desde a ordenha até chegar à mão do consumidor deve ser rigorosamente fiscalizado, por meio de suas propriedades físico-químicas e também pela concentração de seus nutrientes. mailto:sheilasm@unipam.edu.br mailto:elianesousa@unipam.edu.br mailto:Luizrfb@unipam.edu.br Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 128 Parâmetros importantes devem ser avaliados para o controle de qualidade desse produto, um deles é a determinação da acidez do leite. Para isso, a indústria leiteira usa como o controle de matéria prima, por exemplo, a acidez titulável que é expressa em graus Dornic (oD) ou em porcentagem (%) de ácido láctico (2). Brito (2009) (2) definiu o leite caracterizado como normal como àquele que não contêm ácidos, mas mesmo assim ele não deixa de apresentar uma pequena acidez detectável no teste de determinação. Há várias substâncias responsáveis pela acidez algumas delas são: os fosfatos e minerais, a caseína e albumina (proteínas) e gás carbônico dissolvido. A acidez também pode ser provocada por bactérias. Segundo a RESOLUÇÃO Nº 065/2005 (art 4°) um leite de boa qualidade deve apresentar acidez entre 14 a 18 ° D. Venturini et al. (2007) (3) afirma que a variação dos resultados da acidez nas diferentes regiões e modos de armazenamento ocorre devido aos diferentes rebanhos, a quantidade de produção do leite, ao estágio de lactação das vacas, ao momento da ordenha, nutrição, sanidade, estresse calórico e diluição do leite. Além da porcentagem de ácido lático, que é proveniente da lactose transformada a partir do desenvolvimento bacteriano. Também é relevante lembrar-se da importância da temperatura em que esse leite será mantido. De acordo com Brito et al. (2009) (2), a multiplicação das bactérias é reduzida na medida em que o leite é submetido a uma temperatura de 2 a 4°C. A proteína encontrada no leite também deve ser quantificada. Baseando em dados do Regulamento da inspeção sanitária e industrial para leite e seus derivados, resolução Nº 065/2005- Art. 4 (4), para ser considerado normal o leite deve possuir concentração mínima de 2,9% de proteína bruta (PB). Segundo Ribas et al. (2004) (5), o alto coeficiente de variação do valor da PB das propriedades de origem pode ser decorrente a diversos fatores, como por exemplo, o clima, relevo, genética dos rebanhos, forrageiras utilizadas na alimentação, manejo geral, instalações e profissionalização dos produtores rurais. As proteínas do leite possuem diversos benefícios fisiológicos para o ser humano, e animais que o consomem. Dentre eles o mais importante se relaciona com o seu poder imunomodulador, porém, têm se estudado também diversas vantagens quanto à sua participação na atividade antimicrobiana e antiviral, anticâncer, antiúlcera, na proteção ao sistema cardiovascular, no benefício à atividade esportiva, dentre outros (6). Visto que o conhecimento a respeito da composição dos nutrientes presentes no leite, assim como sua quantificação é de extrema importância tanto para o médico veterinário quanto para o produtor sendo um meio para monitoração dos efeitos do manejo adotado para com o rebanho, conclui-se que se faz necessária à inspeção diária para garantir a qualidade do produto. Portanto, objetivou-se com esta pesquisa a determinação de PB por meio do método de Kjedahl e da acidez tanto por °D quanto por Alizarol em amostras de leite in natura (congelado) provenientes de fazendas da região do Alto Paranaíba- MG e comparação destes resultados com os valores de referência mencionados no Regulamento da inspeção sanitária e industrial para leite e seus derivados (Resolução Nº 065/2005) (4). MATERIAL E MÉTODOS A presente pesquisa foi aprovada no comitê de ética no dia 06/03/2018, sob protocolo de número 10/18, incluída na área de conhecimento 5.07.01.06-1- Avaliação e controle da qualidade de Alimentos. Para este estudo foram coletadas 57 amostras de leite in natura em fazendas da região do Alto Paranaíba-MG. De cada propriedade foi coletada uma amostra de 500 ml de leite para a análise, sendo que, após a coleta cada amostra foi colocada em caixa térmica com gelo e levada imediatamente para o freezer onde foi mantida congelada até a data da Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 129 análise. As amostras foram identificadas com data e hora de coleta, nome da fazenda e município de origem e pelo modo de armazenamento do leite a propriedade de origem (tanque de leite ou latão). A PB foi quantificada segundo o método de Kjedahl, analisando o teor de nitrogênio de forma que a % de PB foi calculada utilizando o fator de conversão a 6,38. A acidez por sua vez, foi determinada em ºD, titulando as amostras de leite com solução fenolftaleína a 1%, e também foi avaliada qualitativamente pelo teste de alizarol, ambas baseadas no método indicado pelo instituto Adolfo Lutz (7). A quantificação da PB e da acidez foi feita com três repetições para cada amostra, obtendo-se o resultado individual pela média dessas repetições. RESULTADOS E DISCUSSÃO A média estimada, o desvio-padrão e o coeficiente de variação encontrados neste estudo para a porcentagem de PB foram 4,39; 0,72 e 16,40%, respectivamente. Os resultados comparados por município de origem quanto à média do teor de PB (%) estão apresentados na tabela 1. Tabela 2 - Média de PB encontrada por município. Município Número de amostras avaliadas Média PB (%) Arraial dos Afonsos 3 4,00 Carmo Do Paranaíba 6 4,03 Claro de Minas 1 4,13 João Pinheiro 1 4,50 Lagamar 1 4,04 Lagoa Formosa 3 6,39 Monjolinho 8 5,19 Patos de Minas 10 4,21 Ponto chic 2 3,90 Posses 1 3,53 Presidente Olegário 4 4,62 Rio Paranaíba 2 3,77 São Gonçalo do Abaeté 1 4,74 Varjão 2 5,03 Vazante 12 3,88 Fonte: Arquivo pessoal, 2019. Em consideração ao regulamento da inspeção sanitária e industrial para leite e seus derivados, resolução Nº 065/2005- Art. 4 (4) constatou-se que todos os municípios avaliados apresentaram resultado favorável, com uma média de PB acima do limite mínimo recomendado. Nos resultados individuais uma amostra apresentou apenas 2,42% de PB sendo considerada inferior ao limite mínimo (2,9%). Essa amostra foi coletada em uma fazenda no Carmo do Paranaíba, onde o leite estava armazenado no tanque de expansão. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 130 Quanto ao modo de armazenamento em latão e/ou tanque (Tabela 2) foi observada uma média maior em 0,12% do latão em relação ao tanque. A média de PB das 18 amostras coletadas em latãofoi 4,63% enquanto que a média das amostras coletadas em tanque foi de 4,51%. É importante salientar que de acordo com o Regulamento da inspeção sanitária e industrial para leite e seus derivados (Resolução Nº 065/2005, seção III e Art. 22) (4), a prática de transporte do leite resfriado em latão é expressamente proibida apesar de seu uso ainda ser notado em algumas propriedades. A média estimada, o desvio padrão e o coeficiente de variação da PB encontradas por modo de armazenamento foram respectivamente 4,56; 0,08 e 1,75%. Tabela 3- Média proteína bruta (%) encontrada por modo de armazenamento. Modo de Armazenamento Número de amostras avaliadas Média proteína bruta (%) Latão 18 4,63 Tanque 39 4,51 Fonte: Arquivo pessoal, 2019. Ainda de acordo com o Regulamento da inspeção sanitária e industrial para leite e seus derivados, resolução Nº 065/2005 (4), o leite deve apresentar acidez variando de 14 a 18°D. Além disso, é proibido beneficiar o leite que apresente acidez inferior a 14ºD ou superior a 18ºD. Os resultados encontrados na análise de acidez em °D em cada região estão apresentados na tabela 3. Tabela 4- Média ácido lático (%) em °D encontrada por município avaliado. Município Número de amostras avaliadas Média acidez (%) Arraial dos Afonsos 3 16,7 Carmo Do Paranaíba 6 17,16 Claro de Minas 1 15,6 João Pinheiro 1 17,1 Lagamar 1 19,5 Lagoa Formosa 3 17,85 Monjolinho 8 17,6 Patos de Minas 10 17,79 Ponto chic 2 23,7 Posses 1 15,6 Presidente Olegário 4 18,9 Rio Paranaíba 2 23,4 São Gonçalo do Abaeté 1 17,4 Varjão 2 15,6 Vazante 12 17,3 Fonte: Arquivo pessoal, 2019. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 131 De acordo com os resultados individuais das 57 amostras avaliadas, 23 (40,35%) apresentaram níveis de acidez superior, enquanto que 5 (8,77%) amostras apresentaram níveis inferiores ao recomendado. Na análise por média dos resultados de cada município, apenas 4 (7,02%) amostras apresentaram um valor acima do recomendado e nenhum município apresentou média inferior a 14°D. Quanto ao modo de armazenamento por tanque ou latão, os resultados obtidos se encontram na tabela 4. Tabela 5 - Média de acidez (%) do leite em °D encontrada por modo de armazenamento. Fonte: Arquivo pessoal, 2019. A acidez também foi avaliada pelo método alizarol. Após a homogeneização da solução alizarol no leite, as amostras foram classificadas nas cores: vermelho tijolo (que coincidiu com as amostras que não coagularam) sendo estas consideradas como normais, com acidez entre 17 a 18°D e vermelho castanho (que coincidiu com as amostras que coagularam) sendo estas consideradas ácidas, variando de 18 a 21°D. Os resultados por região e por modo de armazenamento estão representados nas figuras 1 e 2 respectivamente, diferenciando as amostras em “Leite normal” e “Leite Ácido”. Figura 1- Acidez por alizarol encontrada nos municípios avaliados Fonte: Arquivo pessoal, 2019. Quanto à acidez por °D foi observado que 40,35% das amostras apresentaram níveis superiores ao recomendado, enquanto que pelo método Alizarol 7,98% das amostras se encontravam com excesso de acidez. 0 2 4 6 8 10 12 14 Número de amostras total Leite normal Leite ácido Modo de armazenamento N° de amostras Média (%) Latão 18 16,60 Tanque 39 18,03 Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 132 Figura 2- Acidez por alizarol encontrada no tanque e latão Fonte: Arquivo pessoal, 2019. A partir dos resultados da pesquisa, também foi possível observar que as amostras coletadas nas fazendas nos meses de novembro e dezembro não sofreram alterações na qualidade do leite em relação às amostras coletadas em janeiro próximo a data de análise, em função do tempo em que foram mantidas congeladas. CONCLUSÕES No caso da PB, o alto valor do coeficiente de variação pode ser justificado devido ao tempo diverso em que cada produtor manteve o leite armazenado no tanque ou latão e a temperatura em que ele foi mantido. Sendo a acidez do leite uma medida de qualidade higiênica, foi certificada a importância das análises por parte dos laticínios que recebem o leite das fazendas para posterior comercialização. Comparando os resultados parecidos obtidos na análise por ºD e Alizarol, observou-se que os resultados obtidos estavam em conformidade entre os dois. Logo, considerou-se o Alizarol como uma boa alternativa na recepção dos laticínios, por ser rápido, prático e de baixo custo. A proteína também é um importante indicativo de qualidade e deve ser avaliada para que o leite esteja nos padrões aceitáveis de qualidade para consumo humano. Também foi observada a falta de pesquisas testando a acidez e a proteína encontradas em tanque em comparação com o latão, dificultando assim a discussão dos resultados obtidos. Porém, notou-se que a acidez encontrada nas amostras provenientes de fazendas que armazenavam o leite em latões foi elevada em relação àquelas armazenadas em tanques resfriados, justificado a proibição do uso de latões para o seu armazenamento pela perda da qualidade do produto final. Partindo desse ponto de vista, pela alta taxa de acidez encontrada em grade parte das amostras, foi possível concluir que parte dos produtores rurais analisados ainda possui certa resistência quanto às boas práticas agropecuárias, manejo e nutrição dos 0 5 10 15 20 25 30 35 Leite normal Leite ácido Latão Tanque Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 133 rebanhos, fazendo-se necessária a conscientização dos mesmos quanto aos riscos que o leite fora do padrão de qualidade pode trazer para a saúde do consumidor. REFERÊNCIAS 1. BRASIL. Instrução Normativa nº 62, de 29 de dezembro de 2011. Altera o caput, excluir o parágrafo único e inserir os §§ 1º ao 3º, todos do art. 1º, da Instrução Normativa MAPA nº 51, de 18 de setembro de 2002. Norma Federal, 30 dez 2011. 2. BRITO, josé. Qualidade higiênica do leite. 1998, Embrapa-Cnpgl-ADT, Juiz de Fora, 62, 20p. 3. VENTURINI, Katiani Silva; SARCINELLI, Miryelle Freire; SILVA Luís César da. Características do Leite. 2007, Universidade Federal do Espírito Santo – UFES. 4. BRASIL. Regulamento da inspeção sanitária e industrial para leite e seus derivados, resolução Nº 065/2005. 5. RIBAS, Newton Pohl; HARTMANN, Welington; MONARDES, Humberto Gonzallo; ANDRADE, Uriel Vinicius Cotarelli de. Sólidos totais do leite em amostras de tanque nos estados do Paraná, Santa Catarina e São Paulo, R. Bras. Zootec. vol.33 no.6 supl.3 Viçosa Dec. 2004. 6. SGARBIERI, Valdemiro Carlos. Propriedades fisiológicas-funcionais das proteínas do soro de leite. Rev. Nutr., Campinas, 17(4):397-409, out./dez., 2004 7. INSTITUTO ADOLFO LUTZ. Normas Analíticas do Instituto Adolfo Lutz. v. 1: Métodos químicos e físicos para análise de alimentos, 3. ed. São Paulo: IMESP, 1985. p. 43-44 Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 134 10.53934/9786599539626.17 Capítulo 17 EFEITOS BENÉFICOS DA BIOMASSA DE BANANA VERDE EM INDIVÍDUOS PRÉ-DIABÉTICOS E DIABÉTICOS: UMA REVISÃO Jardel Alves da Costa1; Lucineide de Brito Rocha2; Fátima Rosane Barros3; Diêgo de Oliveira Lima4; Kelly Vanderlei Macedo5; Rute Emanuela da Rocha6; Dênaba Luyla Lago Damasceno 7 1Estudante do Curso de Nutrição da Universidade Federal do Piauí - UFPI; E-mail: jardelalves@ufpi.edu.br 2Nutricionista graduada pela Universidade Federal do Piauí - UFPI; E-mail: lucineidedebrito@gmail.com 3Estudante do Curso de Nutrição da Universidade Federal do Piauí - UFPI; E-mail: rosa_barros18@ufpi.edu.br 4Nutricionista graduado pela Universidade Federal do Piauí - UFPI; E-mail: di.oliveiralima@hotmail.com 5Acadêmica do curso de Nutriçãodo Centro Universitário Santo Agostinho (UNIFSA) 6Estudante do Curso de Nutrição da Universidade Federal do Piauí - UFPI; E-mail: r.emanuelarochanutri@ufpi.edu.br 7Nutricionista Formada pela Faculdade Estácio Teresina; E-mail: denaba- luyla@hotmail.com Resumo: O diabetes mellitus é um grupo heterogêneo de anormalidades metabólicas, associadas a complicações microvasculares relacionadas à hiperglicemia, e outras doenças metabólicas, implicando em maior risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares (DCV). Com o aumento do número de casos de doenças neste perfil a demanda por dietas saudáveis tem aumentado enfaticamente, com a finalidade de melhorar o metabolismo da glicose e outras disfunções relacionadas. O amido resistente (AR) presente na biomassa da banana verde contribui para a queda dos índices glicêmicos dos alimentos, proporcionando uma menor resposta glicêmica. A partir deste contexto o presente estudo objetivou realizar revisão integrativa da literatura, acerca de estudos que avaliaram os efeitos benéficos da biomassa de banana verde em indivíduos com distúrbio metabólico glicêmico caracterizado como pré-diabetes e diabetes. De acordo com os estudos selecionados, a biomassa de banana verde, fonte de AR2 e antioxidantes naturais, melhoram claramente o controle metabólico e a composição corporal em indivíduos com diabetes e pré-diabetes. Palavras–chave: diabetes mellitus; banana verde; resposta glicêmica INTRODUÇÃO O diabetes mellitus é um grupo heterogêneo de anormalidades metabólicas, associadas a complicações microvasculares relacionadas à hiperglicemia, e outras doenças metabólicas, implicando em maior risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares (DCV). O controle dos fatores de risco, incluindo o controle glicêmico intensivo, reduz as complicações macro e microvasculares (1). mailto:jardelalves@ufpi.edu.br mailto:lucineidedebrito@gmail.com mailto:rosa_barros18@ufpi.edu.br mailto:di.oliveiralima@hotmail.com mailto:r.emanuelarochanutri@ufpi.edu.br mailto:denaba-luyla@hotmail.com mailto:denaba-luyla@hotmail.com Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 135 Com o aumento do número de obesos e diabéticos, e seu impacto nas doenças cardiovasculares, existe uma intensa demanda por dietas saudáveis e suplementos alimentares capazes de melhorar o metabolismo da glicose e outras disfunções relacionadas (2). Por ser uma estratégia nutricional promissora na prevenção de doenças metabólicas, a fibra alimentar, principalmente os amidos resistentes (AR), tem sido amplamente estudados. Existem cinco tipos de AR: AR I, que é um amido fisicamente inacessível rodeado por uma matriz de proteína e material da parede celular; AR 2 refere-se ao amido granular com teor de polimorfo B ou C, sendo altamente resistente à hidrólise enzimática; AR 3 consiste em polímeros de amido retrogradados (principalmente amilose) produzidos quando o amido atinge temperaturas próximas de refrigeração (4-5ºC) após a gelatinização; AR 4 é um amido quimicamente modificado formado por reticulação ou por adição de derivados químicos; e AR 5 é o resultado de uma interação amido-lipídio, na qual as cadeias de ramificação longa da amilose e da amilopectina formam complexos helicoidais simples com ácidos graxos e álcoois (3, 4). Estudos clínicos evidenciaram que o amido resistente possui propriedades benéficas para a saúde humana, tendo em vista que o amido pode atuar na prevenção de doenças. Assim como as fibras, o amido resistente favorece a queda do índice glicêmico dos alimentos ingeridos, gerando uma menor resposta glicêmica e, consequentemente, uma menor resposta insulínica, auxiliando dessa forma no tratamento do diabetes, especialmente do diabetes tipo 2. Este tipo de amido não é absorvido no intestino delgado, porém quando fermentado no interior do intestino grosso pela microbiota bacteriana, pode induzir a produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) como propionato, acetato e butirato (5). Segundo Jiménez-Domíngueza et al. (6), a biomassa de banana verde possui o AR pertencente à classe AR2, sendo bem conhecida como um alimento com baixo índice glicêmico, alimento não manufaturado, atraente e barato contendo diferentes tipos de fibras, vitaminas, minerais e compostos bioativos com alto teor de AR. A biomassa da banana verde é considerada um alimento funcional. Apresenta em seu conteúdo as vitaminas A, C, do complexo B (B1, B2 e B3) e sais minerais. O AR presente na biomassa da banana verde é um carboidrato complexo, que ao ser fermentado pela microbiota bacteriana no interior do intestino grosso produzAGCC , contribuindo para a integridade do cólon intestinal (7). As diferenças nas respostas glicêmicas e insulinêmicas ao amido da dieta estão diretamente relacionadas à sua respectiva taxa de digestão. Desse modo, alimentos lentamente digeridos ou com baixo índice glicêmico, como no caso do amido resistente, têm sido associados ao melhor controle do diabetes, e, em longo prazo, podem até mesmo diminuir o risco de desenvolver doenças crônicas. Diante do exposto, este estudo objetivou realizar revisão integrativa da literatura acerca de estudos que avaliaram os efeitos benéficos da biomassa de banana verde em indivíduos com distúrbio metabólico glicêmico caracterizado como pré-diabetes e diabetes. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 136 METODOLOGIA Neste estudo realizou-se revisão integrativa da literatura com busca de artigos nas bases de dados (Quadro 1) Science Direct (Biblioteca Virtual da Elsevier), Pubmed/Medline (Medical Literature Analysis and Retrievel System Online), e Lilcas (Literatura Latino- Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), através dos descritores “Biomassa, Banana verde, Diabetes”, em inglês e português de acordo com a plataforma DECS/MESH, utilizando o termo ‘’AND’’ como operador booleano. Quadro 1 - Busca e seleção dos estudos. Descritores Biomassa; Banana verde; Diabetes Aplicação dos descritores nas bases de dados Pubmed/Medline: 93 trabalhos Science Direct: 309 trabalhos Lilcas:0 trabalhos Leitura de títulos e resumos Pubmed/Medline: 2 trabalhos Science Direct: 1 trabalhos Lilacs 0: trabalhos Fonte: Pesquisa direta, 2021. Aplicou-se os critérios de inclusão: artigos originais completos publicados entre os anos de 2015 a 2021 com a presença dos referidos descritores; trabalhos realizados com biomassa de banana verde aplicada a indivíduos pré e/ou diabéticos. Critérios de exclusão: artigos que não corroboravam o objetivo da pesquisa e trabalhos que não estavam no formato de artigo. Após a leitura dos títulos e resumos, 3 artigos científicos foram incluídos nesta revisão. Para melhor compreensão do processo de busca e seleção foi construído o esquema descrito na figura 1. Id en ti fi ca çã o Duplicados removidos: 2 Aplicação do filtro para estudos publicados nos últimos 5 anos: 339 Selecionados por meio da leitura de títulos e resumos: 50 S el eç ão Excluídos após a leitura de títulos e resumos por não estarem de acordo o scopo de pesquisa buscado: 287 E le g ib il id ad e Avaliados na íntegra quanto à elegibilidade/avaliação crítica: 13 In cl u sã o Incluídos na síntese qualitativa: 3 Estudos identificados: 402 Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 137 Figura 1 - Fluxograma do processo de busca e seleção de estudos Fonte: Adaptado de Neely, Adams e Crowe (8). RESULTADOS A busca e seleção dos estudos de acordo com os critérios estabelecidos resultou na escolha de 3 artigos científicos que estão descritos na Tabela 1, e foram utilizados como base para a discussão e formulação desta revisão. Tabela 1 - Descrição das principais características dos estudos selecionados. Autor/Ano Metodologia ResultadosCosta et al. (9). Indivíduos (n=113) de ambos os sexos com pré-diabetes ou diabetes foram randomizados para receber suplementação de biomassa de banana verde ou dieta isolada por 24 semanas. A composição corporal, as análises bioquímicas e a ingestão alimentar foram avaliadas no início e no final do estudo. No grupo experimental o consumo de biomassa de banana verde foi associado à redução da HbA1c (Hemoglobina glicada), glicose em jejum, pressão arterial diastólica, peso corporal, índice de massa corporal (IMC), circunferências da cintura e quadril, percentual de massa gorda e aumento do percentual de massa magra. No grupo controle, foram observadas reduções nas circunferências da cintura e quadril, HbA1c e lipoproteína de alta densidade – colesterol (HDL-C). LOTFOLLAHI et al. (2). Indivíduos (n= 39) de ambos os sexos com diabetes foram randomizados para receber suplementação de biomassa de banana verde ou dieta isolada por 6 meses. A composição corporal, as análises bioquímicas e a ingestão alimentar foram avaliadas no início e no final do estudo. O consumo de biomassa de banana verde resultou na redução do colesterol total, HbA1c e glicose plasmática. Foi observado também redução na HbA1c no grupo dieta isolada (controle). Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 138 IZAR et al. (10). Indivíduos (n = 113) foram randomizados para receber suplementação de biomassa de Banana verde, ou dieta isolada durante seis meses. A composição corporal, as análises bioquímicas e a ingestão alimentar foram avaliadas no início e no final do estudo. O consumo de biomassa de banana verde diminui a pressão arterial diastólica, peso corporal e IMC no grupo experimental. Ambos os grupos diminuíram as circunferências da cintura e do quadril. Houve também aumento no percentual (%) de massa magra com diminuição no % de massa gorda no grupo teste. Houve uma redução na glicose de jejum e HbA1c no grupo experimental, enquanto no grupo controle, houve diminuições em HbA1c e HDL-C. Entre os indivíduos pré-diabéticos, houve uma tendência a uma maior redução da glicose no sangue do grupo teste, e HbA1c do grupo controle. Fonte: Pesquisa direta, 2021. Outros estudos também relataram os efeitos do AR no metabolismo da glicose, parâmetros antropométricos e níveis de colesterol sérico em modelos animais, humanos saudáveis ou diabéticos (11; 9; 12; 13). O estudo realizado por Costa et al. (9) mostrou que em indivíduos com pré-diabetes e diabetes o consumo de AR da biomassa de banana verde adicionado a uma dieta por 6 meses foi seguido por redução no peso corporal, IMC (Índice de massa corporal), circunferências da cintura e quadril, pressão arterial diastólica, diminuição da glicose e os níveis de HbA1c diminuem a massa gorda e aumentam as percentagens de massa magra. Em estudo similar ao de Costa et al. (9), realizado por Peterson et al. (14) com mulheres com pré-diabetes, o AR2 diminuiu significativamente HbA1c, TNF-α (Fator de necrose tumoral), TGS (triglicerídios) e aumentou o colesterol HDL quando comparado ao placebo, sugerindo que o AR2 é eficaz como terapia adjuvante no diabetes. Além disso, AR2 pode melhorar o estado glicêmico, endotoxemia e marcadores de estresse oxidativo em pacientes com diabetes tipo 2 (15). Recentemente, os resultados de um ensaio clínico randomizado (14) avaliando o efeito da suplementação de AR por 12 semanas em indivíduos com pré-diabetes foram publicados. Comparado com os controles, AR2 não melhorou significativamente o nível glicêmico e outros fatores de risco de DCV no pré-diabetes. Esses autores mostraram uma redução da HbA1c, sem efeito sobre a secreção de insulina, a sensibilidade à insulina e a área sob as curvas de glicose ou insulina em relação ao basal. A gordura ectópica, gasto de energia e outros fatores de risco cardiovascular não foram afetados. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 139 O estudo realizado por Lotfollahi et al. (2) demonstrou que o consumo de biomassa de banana verde resulta em maior sensação de saciedade promovida pelo retardo do esvaziamento gástrico, levando a melhora da resistência à insulina, conforme redução da HbA1c e glicemia de jejum, redução do colesterol LDL (Lipoproteínas de baixa densidade), peso corporal, IMC, massa gorda e aumento da massa magra. O estudo realizado por Izar et al. (10) semelhantemente aos aqui já relatados concluiu que a biomassa de banana verde modicou favoravelmente o metabolismo da glicose e composição corporal em indivíduo pré-diabéticos e diabéticos, sendo uma boa estratégia alimentar, podendo melhorar o controle metabólico, principalmente no pré-diabetes. CONCLUSÕES Em resumo, a biomassa de banana verde, fonte de AR2 e antioxidantes naturais, melhora claramente o controle metabólico e a composição corporal em indivíduos com diabetes e pré-diabetes. Os benefícios relatados com o consumo da biomassa de banana verde indicam que a ingestão de amidos bioativos é uma boa estratégia alimentar para melhorar o controle metabólico e a composição corporal em indivíduos com distúrbios glicêmicos. Mais estudos devem ser realizados afim de consolidar os achados científicos aqui relatados, assim como encorajar o uso de substratos alimentares como alternativas viáveis para a prevenção e tratamento de doenças. REFERÊNCIAS 1. AMERICAN DIABETES ASSOCIATION et al. 4. Lifestyle management. Diabetes care, v. 40, n. Supplement 1, p. S33-S43, 2017. 2. LOTFOLLAHI, Zahra et al. Green-banana biomass consumption by diabetic patients improves plasma low-density lipoprotein particle functionality. Scientific reports, v. 10, n. 1, p. 1-11, 2020. 3. KACZMARCZYK, Melissa M.; MILLER, Michael J.; FREUND, Gregory G. The health benefits of dietary fiber: beyond the usual suspects of type 2 diabetes mellitus, cardiovascular disease and colon cancer. Metabolism, v. 61, n. 8, p. 1058-1066, 2012. 4. BIRT, Diane F. et al. Resistant starch: promise for improving human health. Advances in nutrition, v. 4, n. 6, p. 587-601, 2013. 5. GOMES, Vânia Thais Silva et al. Benefícios da biomassa de banana verde á saúde humana. Revista Univap, v. 22, n. 40, p. 655, 2017. 6. JIMÉNEZ-DOMÍNGUEZ, Guadalupe et al. Effects of acute ingestion of native banana starch on glycemic response evaluated by continuous glucose monitoring in obese and lean subjects. International journal of environmental research and public health, v. 12, n. 7, p. 7491-7505, 2015. 7. OI, Ricardo Kenji et al. Secagem da biomassa de banana verde em spray dryer. 2011. 8. NEELY, Andy; ADAMS, Chris; CROWE, Paul. The performance prism in practice. Measuring business excellence, 2001. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 140 9. COSTA, Edna S. et al. Beneficial effects of green banana biomass consumption in patients with pre-diabetes and type 2 diabetes: a randomised controlled trial. British Journal of Nutrition, v. 121, n. 12, p. 1365-1375, 2019. 10. IZAR, M. C. D. et al. Beneficial effects of green banana biomass consumption in patients with pre-diabetes and diabetes: A randomized controlled trial. Atherosclerosis, v. 275, p. e196, 2018. 11. DODEVSKA, Margarita S. et al. Effects of total fibre or resistant starch-rich diets within lifestyle intervention in obese prediabetic adults. European journal of nutrition, v. 55, n. 1, p. 127-137, 2016. 12. YUAN, H. C. et al. Meta-analysis indicates that resistant starch lowers serum total cholesterol and low-density cholesterol. Nutrition research, v. 54, p. 1-11, 2018. 13. BLE-CASTILLO, Jorge L. et al. Acute consumption of resistant starch reduces food intake but has no effect on appetite ratings in healthy subjects. Nutrients, v. 9, n. 7, p. 696, 2017. 14. PETERSON, Courtney M.et al. Effect of 12 wk of resistant starch supplementation on cardiometabolic risk factors in adults with prediabetes: a randomized controlled trial. The American journal of clinical nutrition, v. 108, n. 3, p. 492-501, 2018. 15. KARIMI, P. et al. The therapeutic potential of resistant starch in modulation of insulin resistance, endotoxemia, oxidative stress and antioxidant biomarkers in women with type 2 diabetes: a randomized controlled clinical trial. Annals of Nutrition and Metabolism, v. 68, n. 2, p. 85-93, 2016. Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 141 10.53934/9786599539626.18 Capítulo 18 ESTUDO CINÉTICO E DESENVOLVIMENTO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS FERMENTADAS DE ABACAXI, ACEROLA, MAÇÃ E MELANCIA Edilaine Alves da Silva Santos1; Diego Santos de Jesus2; Luana Caliandra Freitas de Carvalho3, Sueli José Pereira Corrêa 4, Thatiana Santana Santos 5, Danilo Santos Souza6, Maycon Fagundes Teixeira Reis7 1Estudante do Programa de Pós-Graduação em Ciência de Alimentos – FEA-UNICAMP; E-mail: edilaineassantos@gmail.com 2Estudante do curso de Agroindústria – NEAGROS- UFS; E-mail: diegojesusagris@outlook.com 3Estudante de Doutorado em Ciências e Engenharia dos Materiais - P2CEM – UFS; E-mail: calicarvalho@hotmail.com 4Técnica/pesquisadora da Universidade Federal de Sergipe – UFS – Campus do Sertão; E-mail: sueli.correa@academico.ufs.br 5Técnica/pesquisadora da Universidade Federal de Sergipe – UFS – Campus do Sertão; E-mail: thaty.ufs@gmail.com 6Docente/pesquisador do Núcleo de Agroindústria – NEAGROS – UFS; E-mail: danilosantos_souza@yahoo.com.br 7Docente/pesquisador do Núcleo de Agroindústria – NEAGROS – UFS; E-mail: mayconftreis@hotmail.com Resumo: Bebidas alcoólicas fermentadas, são alternativas para apresentação comercial de algumas frutas, tais como, abacaxi, acerola, maçã e melancia, frutas que que tem grande potencial para processamento, vistas suas características sensoriais, nutricionais e tecnológicas. Nesse sentido o presente estudo tem por objetivo desenvolver, caracterizar e avaliar a cinética de bebidas alcoólicas fermentadas a base de abacaxi, acerola, maçã e melancia. Para o desenvolvimento das bebidas, as frutas foram adquiridas na feira livre do município de Nossa Senhora da Gloria – SE, estas foram selecionadas, higienizadas, despolpadas, e utilizadas para preparo dos mostos utilizados como base para os processos fermentativos. Foram realizadas as análises de Sólidos Solúveis Totais (SST), pH, Acidez Titulável Total (ATT), diariamente e ao final do processo para caracterizar as bebidas. Foi possível acompanhar o processo de fermentação e criar curvas referente a cinética. Ao final dos processos fermentativos foi possível obter bebidas alcoólicas fermentadas de abacaxi, acerola, maçã e melancia com os seguintes valores de SST(°Brix) 7 ± 0,0; 9,37 ± 0,1; 7,9 ± 0,0 e 7,07 ± 0,0; para pH 3,5 ± 0,10; 4,35± 0,0; 3,3 ± 0,1 e 3,8 ± 0,0; ATT(meq/L) 60,81 ± 0,2; 145,2 ± 0,1; 80,51 ± 0,4 e 59,17 ± 0,0 e teor alcoólico (°GL) de 7,74 ± 0,0; 6,6± 0,1; 7,87 ± 0,0 e 7,87 ± 0,0. Foi possível obter fermentados alcoólicos dentro dos padrões estabelecidos e comparáveis a outro fermentado descritos na literatura, reforçando que a elaboração desse tipo de produto é uma alternativa viável para aproveitamento de frutas. Palavras-chave: alcoólicos; cinética; fermentados; frutas INTRODUÇÃO O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de frutas e hortaliças, entretanto há muitas frutas que não tem uso comercial, e apresentam baixa produção. Estima-se que, entre a colheita e o consumo, ocorram até 40 % de perdas das frutas e hortaliças produzidas, o mailto:diegojesusagris@outlook.com mailto:calicarvalho@hotmail.com mailto:sueli.correa@academico.ufs.br mailto:thaty.ufs@gmail.com mailto:danilosantos_souza@yahoo.com.br mailto:mayconftreis@hotmail.com Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 142 que, notadamente, gera prejuízos (1). O processamento dessas é uma alternativa para evitar as perdas pós-colheitas e estender a vida desses vegetais (2). Nesse contexto a elaboração de bebidas alcoólicas fermentadas a partir de furtas, apresenta-se como uma alternativa para conservação e agregação de valor as mesmas. Fermentado de fruta é uma bebida que pode ter como matéria-prima qualquer fruta que apresente açúcares fermentescíveis para que em seu processo biológico ocorra, a conversão desses açúcares em energia, etanol e gás carbônico (3). Frutas como abacaxi, acerola, maçã e melancia podem ser processadas na forma de bebidas alcoólicas, pois apresenta açúcares fermentescíveis (4). O abacaxi (Anonas comosus L. Merril) é um fruto perecível e delicado, que apresenta altos níveis de perda pós-colheita (5). Este fruto pode ser consumido in natura ou industrializado, como sucos, geléias, licor, vinho, vinagre (6). Por sua vez a acerola (Malpighia emarginata D.C), fruto da aceroleira, carnosa, variando na forma, tamanho e peso, sendo que a polpa representa de 70 a 80% do fruto (7). Esse fruto apresenta um bom desempenho no desenvolvimento de atividades agroindustriais, como produção de polpas, geleias, sucos e outras bebidas. Essa fruta destaca-se por ser rica em vitamina C e em compostos fenólicos (8). A maçã (Malus domestica Borkh) é uma fruta que apresenta em sua composição água (82,9%), é rica em vitaminas, em particular a vitamina C, possui sais minerais, como o potássio, além de fibras, açúcares fermentáveis, pectina e outros compostos fitoquímicos (9). E a melancia (Citrullus lanatus (Thunb.) Matsum & Nsksi) é uma fruta de baga indeiscente. A principal parte comestível da fruta é a polpa, que tem consistência macia, sua colocaração avermelhada se dá por conta da presença de licopeno ou amarelada em decorrência de carotenos e xantofilas (10). O teor de açúcar presente na fruta se dá em diferentes partes e pode conter glicose, frutose, sacarose e maltose (4). Perdas pós-colheita é um grande problema enfrentado pela fruticultura, por isso alternativas atraentes de processamento de frutas se fazem necessárias para minimizar tais danos e impulsionar o setor. Dessa maneira o presente trabalho tem por objetivo o desenvolvimento, caracterização físico-química e avalição cinética de bebidas alcoólicas fermentadas a base de abacaxi, acerola, maçã e melancia. MATERIAL E MÉTODOS OBTENÇÃO DA MATÉRIA-PRIMA As frutas (abacaxi, acerola, maçã e melancia) foram adquiridas na feira livre do Município de Nossa Senhora da Glória-SE., em seguida foram conduzidas até o Laboratório de Bromatologia, da Universidade Federal de Sergipe, Campus do Sertão, ondem passaram por etapas de seleção, lavagem, sanitização e enxague. Após essas etapas as polpas foram extraídas, filtradas e conduzidas para o preparo do mosto. PROCESSO FERMENTATIVO As polpas de frutas passaram por um tratamento térmico (80°C/10 minuto), afim de reduzir parte da carga microbiológica presente nas polpas. Em seguida realizou-se a correção do teor de Sólidos Solúveis Totais (SST) e pH, como solução de sacarose e carbonato de cálcio, respectivamente. Com o mosto em temperatura ambiente, adicionou-se leveduras na proporção de 4g/. O processo fermentativo foi conduzido em recipientes de polipropileno. Do dia inicial até o dia final realizou-se análises diárias de pH, Acidez Titulável Total (ATT) e Sólidos Solúveis Totais (SST) para avaliação da cinética de fermentação. CARACTERIZAÇÃO FÍSICO-QUÍMICA Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 143 Para a caracterização físico-química dos fermentados a base de frutas, foram realizadas as análises de Sólidos Solúveis Totais (SST), pH, Acidez Titulável Total (ATT) (11). As mesmas foram realizadas em duplicata e três repetições cada. AVALIAÇÃO CINÉTICA Para avalição da cinéticado processo fermentativo, realizou-se diariamente analises descritas no item anterior, afim observar o metabolismo das leveduras (produção de etanol em função do consumo de açúcares fermentescíveis). ANÁLISE ESTATÍSTICA O planejamento experimental utilizado foi o DIC (Delineamento Inteiramente Casualizado). Para analisar estatisticamente os dados realizou-se uma análise das médias das triplicatas das amostras, calculou-se o desvio padrão e determinou-se regressão linear utilizando o software Sigma Plot. RESULTADOS E DISCUSSÕES ESTUDO CINÉTICO DA BEBIDA ALCOÓLICA FERMENTADA DE ABACAXI Ao se realizar o processo fermentativo para produção da bebida foi possível obter curvas, mostrando os comportamentos dos parâmetros Sólidos solúveis totais (Brix), pH e acidez total (AT) durante a fermentação. A Figura 1 demonstra o comportamento da acidez total, pH e sólidos solúveis totais nos seis de fermentação da bebida de abacaxi. Tempo (Dias) 0 1 2 3 4 5 6 A ci d ez T o ta l (m eq /L ) 0 20 40 60 80 100 Bebida Fermentada de Abacaxi Tempo (Dias) 0 1 2 3 4 5 6 p H 0 1 2 3 4 5 Bebida Fermentada de Abacaxi Tempo (Dias) 0 1 2 3 4 5 6 S ól id os S ol úv ei s T ot ai s (° B ri x ) 0 5 10 15 20 25 Bebida Fermentada de Abacaxi . Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 144 Figura 1 - Evolução dos parâmetros físico químicos, acidez total, pH e Sólidos Solúveis Totais (°Brix) durante a fermentação da Bebida Fermentada de Abacaxi Fonte: Dados da pesquisa Verificou-se inicialmente a acidez total foi de 53,06 meq/L, como pode-se observar esse parâmetro sofreu variações, chegando à 60, 81meq/L no final do processo. Nas análises de acidez da bebida fermentada de abacaxi (12) , a acidez se apresentou ao final do processo em 87,09 mel/L se aproximando do valor encontrado nesta pesquisa, ainda correlaciona esses valores aos das bebidas fermentadas a partir de frutos tropicais (13), e com o estudo do fermentado da acerola (14). O fator pH está intimamente ligado à acidez, sendo assim também teve variação que foi de 3,9 a 3,5, semelhantes aos encontrados na produção do fermentado de abacaxi (15) que foi entre 3,55 e 3,77. O teor de Sólidos Solúveis Totais é o fator mais importante a ser observado durante o processo fermentativo, pois ele demonstra o metabolismo da levedura, que ao consumir os açucares disponíveis no mosto produzem etanol e dióxido de carbono (16). Inicialmente o mosto de abacaxi apresentava 22,13°Brix e finalizou com 7°Brix, demonstrando o consumo de açucares no período de seis dias. A fase tumultuosa se deu entre os dias 0 e 1 com o consumo de mais da metade dos açucares fermentescíveis, seguida pelas fases de declínio e estacionaria. Conforme pesquisa realizada com o fermentado de abacaxi (17), constatou-se um decréscimo no teor de sólidos solúveis a partir do quinto dia de 18 para 7 ºBrix e a fermentação foi finalizada quando o mosto apresentou 6,1 º Brix. Esses valores podem ser comparados com a produção de vinhos de frutas tropicais (13), que no processo fermentativo de vinho de seringuela ao final do processo obteve-se valor de 5 ºBrix. ESTUDO CINÉTICO DA BEBIDA ALCOÓLICA FERMENTADA DE ACEROLA A figura 2, mostra o comportamento de alguns parâmetros durante a fermentação do mosto de acerola, iniciando com acidez de 54 meq/L e finalizando com 146 meq/L. Acidez e pH são fatores que estão diretamente ligados, sendo o primeiro totalmente influenciado pelo segundo (18). Tempo (Dias) 0 2 4 6 8 A c id e z T o ta l (m e q /L ) 0 20 40 60 80 100 120 140 160 Bebida Fermantada de Acerola Tempo (Dias) 0 2 4 6 8 p H 0 4 5 Bebida Fermentada de Acerola Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 145 Tempo (Dias) 0 1 2 3 4 5 6 7 8 S ó lid o s S o lu v e is T o ta is ( °B ri x ) 0 5 10 15 20 25 Bebida Fermentada de Acerola Figura 2 - Evolução dos parâmetros físico químicos, acidez total, pH e Sólidos Solúveis Totais (°Brix) durante a fermentação da Bebida Fermentada do Fruto de Acerola Fonte: dados da pesquisa O pH apresentou redução ao longo do processo, oscilando entre valores de 4,44 e 4,23, finalizando com 4,35. Esse fator tem direta influência sobre o processo fermentativo. Comportamento semelhante de pH foi por observado no estudo do fermentado de pêssego (19), onde obteve valor de pH inicial de 4,54 e finalizando-se em 3,86, enquanto que com o fermentado de Mandacaru (20) apresentou valor de pH de 3,89 e encontrou pH de 3,62 com o fermentado de Pupunha (21). O pH de bebidas alcoólicas fermentadas situa-se normalmente, entre 2,0 e 4,0 e valores acima de 4,0 tornam as bebidas sujeitas a alterações microbiológicas (15). Conforme se observa na Figura 2, ocorre variação de açucares com o tempo de fermentação. Existem duas fases distintas, as primeiras 72 horas a corresponde a fase tumultuosa, com rápido consumo do açúcar do mosto, ou seja, alta atividade das leveduras. Na segunda fase, observa-se menor atividade dos microrganismos (22). O decréscimo de SST é acompanhado pela diminuição da intensidade de borbulhamento do dióxido de carbono. Observa-se, que no final da fermentação, os SST permaneceram em aproximadamente 9, de forma constante. Este fato deve-se, provavelmente, à presença de açúcares não fermentescíveis no mosto de acerola (22). Os resultados obtidos no estudo do fermentado alcoólico misto de água de coco e tamarindo (18), foram abaixo dos valores encontrados nesta pesquisa, onde identificou valor de sólidos solúveis totais de 5 e 6 ºBrix para as formulações 1 e 2, respectivamente. Já no estudo cinético da bebida fermentada do Cereus jamacaru P. DC. (23) verificaram teores de SST em 12 ºBrix. Enquanto que, na elaboração de fermentado alcoólico de araçá-boi (Eugenia stipitata) (24), obteve um teor final de SST de 6 ºBrix. ESTUDO CINÉTICO DA BEBIDA ALCOÓLICA FERMENTADA DE MAÇÃ O processo fermentativo da bebida de maçã é expressado na figura abaixo, durou 240 horas, nesse período ocorreram variações relevantes nos seus parâmetros, devido o metabolismo das leveduras (Figura 3). Ao se observar a ATT e o pH pode-se perceber que houve um aumento da acidez, devido ao desenvolvimento de ácidos voláteis durante o processo fermentativo, a acidez saiu de 19,1 para 80,51 e o pH partiu de uma faixa próxima da ótima para o desenvolvimento da levedura. O aumento da acidez durante a fermentação influência na estabilidade das bebidas Ciência e Tecnologia de Alimentos: Pesquisas e Avanços 146 fermentadas (25), e com o aumento da produção de ácidos voláteis o pH diminuiu tornando o meio um pouco mais ácido, onde o decréscimo foi de 3.9 para 3,3. Na pesquisa com o desenvolvimento do fermentado alcoólico do murici (Byrsonima crassifolia (L.) Kunth) (26), encontrou valores de pH onde o mesmo passou de 3,62 a 3,23 durante o período de fermentação, e foi comparado com os valores semelhantes ao do fermentado do umbu (27), onde o pH foi de 3,1, enquanto que no estudo com o fermentado da acerola (28) obteve pH de 3,9. Isso se justifica, pois na maioria dos processos fermentativos o pH do meio afeta o desenvolvimento das leveduras, como a formação do etanol, que quando não controlado, ocorre em elevada velocidade (29). A curva do teor de sólidos solúveis totais demonstrou comportamento semelhante aos das outras bebidas, porém sua fase tumultuosa não foi tão rápida quanto a da bebida de abacaxi, sendo justificado pela especificidade de condições que cada fruta apresenta para o processo fermentativo. Inicialmente o mosto de maçã apresentava 23°Brix e finalizou com 7,9°Brix. A fase tumultuosa se deu nas primeiras 72 horas com a diminuição de 10°Brix, depois o consumo passou a ser mais lento até atingir a fase estacionaria. Tempo (Dias) 0 2 4 6 8 10 A ci de z T ot al (