Prévia do material em texto
GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA Edição IV Autor Principal Guilherme Barroso Langoni de Freitas Autores colaboradores Alana Santa Rosa Santos Alice Freitas Ana Clara dos Santos Matos Ana Clara dos Santos Souza Ana Flávia Mendes Silva Anna Clara Lopes Costa Brenda Mirelly Jastrow Bruno Chiaretti Cossenzo Abdo Camila Guimarães Maciel de Castro Carolina Campos Rezende Libanio Carolina Loyola Prest Ferrugini Cleverson Gomes do Carmo Junior Daniela Borges Mielke Davi Fernando Gomes Pereira Deborah Ferreira Duget Arruda Djalma Gomes Neto Eduarda de Oliveira Teixeira Emerson Batista da Silva Santos Felipe Guimarães Martini Fernanda Chaib Fonseca Pereira Gabriel Junqueira Guimarães¹ Gabriela Neves de Souza Gabriela Silveira Anatólio Lima Gilberto Santos Cerqueira Giovanna Martins Oliveira Magalhães Giulia Messias Cadaval Pessoa Isabela Lamounier de Carvalho Isabella Souza Assunção Isadora Amabile Lopes Fabres Isadora Lima Teles Baeta Zebral Ítalo de Souza Porto Janine Martins Machado Jayme Murad Magalhães Júlia Abreu Dorneles Júlia Benevenuto Moreira Júlia Resende Ferreira Magri Kamila Jales Corteleti Lara Garcia Magalhães Laura Figueiró Euler Vaz de Melo Fernandes Laura Helena Boy Paiva Laura Moore Gaissler Laura Vasconcelos Rodrigues de Oliveira Tonello Letícia de Cássia Freire Franco Letícia Nogueira Falcão do Carmo Lucas Daniel Dos Anjos Guimaraes Maria Eduarda Piffer de Almeida Maria Eduarda Ribeiro de Figueiredo Maria Guimarães Petry Mariana Barino Melo Mariela Sthefany Silva Marina Henriques Amaral Natália Mourão de Pinho Tavares Nathalia Perondi Passarela Patrick Romanzini Pedreira Paula Salomão Libânio Pauline Christina Campos Martins Ferreira¹ Pedro Chamon Pacheco Rafael de Oliveira Marra Rodrigo Veloso Souto Rocha Sávio Laguardia Marra Filho Tainá Evangelista Diniz Morais Thaís Viana de Ávila Oliveira Victoria Cardoso Alves Vitória Figueiredo Garrido Cabanellas Nogueira 2023 2023 by Editora Pasteur Copyright © Editora Pasteur Editor Chefe: Dr Guilherme Barroso Langoni de Freitas Corpo Editorial: Dr. Alaercio Aparecido de Oliveira (Faculdade INSPIRAR, UNINTER, CEPROMEC e Força Aérea Brasileira) Dra. Aldenora Maria Ximenes Rodrigues MSc. Aline de Oliveira Brandão (Universidade Federal de Minas Gerais -MG) Dra. Ariadine Reder Custodio de Souza (Universidade Estadual do Centro-Oeste – PR) MSc. Bárbara Mendes Paz (Universidade Estadual do Centro-Oeste -PR) Dr. Daniel Brustolin Ludwig (Universidade Estadual do Centro-Oeste -PR) Dr. Durinézio José de Almeida (Universidade Estadual de Maringá -PR) Dr. Everton Dias D’Andréa (University of Arizona/USA) Dr. Fábio Solon Tajra (Universidade Federal do Piauí -PI) Francisco Tiago dos Santos Silva Júnior (Universidade Federal do Piauí -PI) Dra. Gabriela Dantas Carvalho Dr. Geison Eduardo Cambri MSc. Guilherme Augusto G. Martins (Universidade Estadual do Centro-Oeste -PR) Dr Guilherme Barroso Langoni de Freitas (Universidade Federal do Piauí -PI) Dra. Hanan Khaled Sleiman (Faculdade Guairacá -PR) MSc. Juliane Cristina de Almeida Paganini (Universidade Estadual do Centro-Oeste -PR) Dra. Kátia da Conceição Machado (Universidade Federal do Piauí -PI) Dr. Lucas Villas Boas Hoelz (FIOCRUZ -RJ) MSc. Lyslian Joelma Alves Moreira (Faculdade Inspirar -PR) Dra. Márcia Astrês Fernandes (Universidade Federal do Piauí -PI) Dr. Otávio Luiz Gusso Maioli (Instituto Federal do Espírito Santo -ES) Dr. Paulo Alex Bezerra Sales MSc. Raul Sousa Andreza MSc. Renan Monteiro do Nascimento Dra. Teresa Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Editora Pasteur, 2023) F866 FREITAS, Guilherme Barroso Langoni de GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA/ Freitas, G.B.L.-Irati: Pasteur, 2023. 1 livro digital; 169 p.; ed. IV; il. Modo de acesso: Internet ISBN 978-65-6029-005-1 https://doi.org/10.59290/978-65-6029-005-1 1. Medicina 2. Ciencias da Saúde 3. Mulher I. Título. CDD 610 CDU 612.6 https://doi.org/ Desde a puberdade, menarca, desenvolvimento das mamas, gravidez até a menopausa, doenças significativas afetam as mulheres. uma equipe multidisciplinar poderá assistir da melhor forma esta mulher e ser apoio fundamental no trabalho do médico ginecologista. A partir da maturidade, quando os órgãos reprodutivos amadurecem, as mulheres são aconselhadas a fazer um exame de saúde anual ou pelo menos a cada 3 anos com um ginecologista, porém muitas delas não terão esse acesso com facilidade pelos serviços públicos de saúde ou ainda se depararão com profissionais sem a formação adequada. A consciência das funções corporais básicas e a manutenção de um bom bem- estar físico e mental são aspectos vitais da gestão da saúde da mulher e no bom atendimento ginecológico e obstétrico. A detecção precoce de doenças e outros problemas de saúde pode ser importante para ajudar qualquer paciente a ter uma vida mais saudável, feliz e, em alguns casos, mais longa. Na verdade, a detecção precoce e bom manejo da paciente pode aumentar significativamente as chances de sobrevivência de certas doenças, incluindo muitas formas de câncer. É por isso que os especialistas recomendam a adesão a um cronograma regular de exames médicos e exames apropriados com base em seus dados demográficos e fatores de risco. O livro Ginecologia e Obstetrícia aborda capítulos sobre sexualidade, atendimento clínico, cuidados do aparelho genital feminino e intervenções cirúrgicas e medicamentosas para as principais complicações. O leitor encontrará capítulos pré-definidos, construídos por autores convidados e atualizados sobre os principais temas. A Editora Pasteur fica feliz em apresentar esse material de alta qualidade e importância. Guilherme Barroso L de Freitas Dr. Prof. Dpto. Bioquímica e Farmacologia, Universidade Federal do Piauí (UFPI) Diretor Científico do Grupo Pasteur Capítulo 1 CONSULTA GINECOLÓGICA ....................................................................................................... 1 Capítulo 2 SEXOLOGIA .................................................................................................................................. 10 Capítulo 3 GINECOLOGIA INFANTO-PUBERAL ........................................................................................ 18 Capítulo 4 GONORREIA .................................................................................................................................. 30 Capítulo 5 VAGINITE E VAGINOSE ............................................................................................................. 38 Capítulo 6 INFECÇÃO URINÁRIA NA GRAVIDEZ .................................................................................... 50 Capítulo 7 DOENÇA INFLAMATÓRIA PÉLVICA ....................................................................................... 61 Capítulo 8 GINECOLOGIA ENDÓCRINA ..................................................................................................... 68 Capítulo 9 MIOMAS ......................................................................................................................................... 75 Capítulo 10 ENDOMETRIOSE .......................................................................................................................... 85 Capítulo 11 INFERTILIDADE ........................................................................................................................... 93 Capítulo 12 HISTERECTOMIA ....................................................................................................................... 103 Capítulo 13 CLIMATÉRIO ...............................................................................................................................111 Capítulo 14 PLANEJAMENTO FAMILIAR ................................................................................................... 123 Capítulo 15 MASTOLOGIA ............................................................................................................................. 137 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417369 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417370 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417371 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417372 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417373 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417374 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417375 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417376 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417377 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417378 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417379 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417380 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417381 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417382 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417383 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417384 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417385 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417386 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417387 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417388 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417389 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417390 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417391 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417392 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417393 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417394 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417395 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417396 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417397 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417398 Capítulo 16 MASTITE GRANULOMATOSA IDIOPÁTICA ......................................................................... 145 Capítulo 17 ISTMOCELE ................................................................................................................................. 156 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417399 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417400 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417401 file:///C:/Users/mayum/Documents/EDITORA%20PASTEUR/GINECOLOGIA%20ED4/GINECOLOGIA%20E%20OBSTETRÍCIA%20Ed%20IV.docx%23_Toc138417402 1 | P á g i n a Palavras Chave: Saúde da Mulher, Ginecologia, Exame Ginecológico. Capítulo 1 ANA FLÁVIA MENDES SILVA¹ ANNA CLARA LOPES COSTA¹ BRUNO CHIARETTI COSSENZO ABDO1 CAROLINA CAMPOS REZENDE LIBANIO1 1. Discente – Medicina da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais. CONSULTA GINECOLÓGICA 2 | P á g i n a INTRODUÇÃO A consulta ginecológica é fundamental na vida de todas as mulheres, já que ela promove o cuidado à saúde individualizada da mulher e a prevenção de diversas condições que afetam sua qualidade de vida. Essas consultas envolvem anamnese detalhada e exame físico ginecoló- gico, que abrange inspeção e palpação de ma- mas e genitálias, podendo incluir, também, co- leta de exames como a colpocitologia. Além disso, durante o atendimento, o médico pode re- comendar medidas de planejamento familiar como o uso de contraceptivos e medidas de pre- venção de doenças sexualmente transmissíveis como a aplicação de vacinas e o uso de preser- vativos. Já que, muitas vezes, a ida ao ginecolo- gista representa o único contato das mulheres com o sistema de saúde, é um importante mo- mento para sanar dúvidas, fazer encaminhamen- tos necessários e solicitar os exames periódicos segundo as demandas individualizadas de cada paciente. É interessante ressaltar que essa é, in- clusive, uma oportunidade para a detecção pre- coce de câncer de colo de útero e de câncer de mama, o que favorece o prognóstico, aumenta a sobrevida e reduz os gastos em saúde pública. A consulta ginecológica A consulta ginecológica apresenta o roteiro semelhante a outras especialidades médicas, sendo composta pela anamnese, o exame físico, a solicitação de exames complementares, con- duta e terapêutica. Entretanto, diferentemente das outras especialidades, durante uma consulta ginecológica, a paciente irá comunicar assuntos extremamente pessoais como sexualidade, higi- ene, planejamento familiar, sintomas urogeni- tais, sintomas mamários e por isso, cabe ao mé- dico se atentar ao seu porte perante a paciente, sempre deixando-a confortável e segura para abrir suas queixas. (BEREK, 2014) Além disso, o exame físico também é um momento de bastante exposição da mulher e por isso é de extrema importância que o médico se atente a sua conduta para deixá-la o mais con- fortável possível. Isso pode ser facilitado, expli- cando para a paciente cada passo a ser realizado, pois gera uma maior confiança no profissional. Um atendimento completo, com anamnese e exame físico de qualidade é a base de todo acompanhamento ginecológico e por isso nunca deve ser feito com descuido. Uma conduta ade- quada e pedidos de exames complementares ne- cessários dependem exclusivamente de um bom atendimento clínico e cabe ao médico realizá-lo de forma adequada (PASSOS et al., 2017). Anamnese A anamnese é um dos principaispassos da consulta ginecológica pois é a partir dela que a maioria das hipóteses diagnósticas são traçadas. Dessa forma, é nesse momento que o médico deve se atentar para construir uma boa relação médico-paciente, de forma a criar um ambiente acolhedor e confortável para a paciente trazer suas queixas (PASSOS et al., 2017). Inicialmente são coletadas as informações de identificação como nome completo, idade, estado civil, profissão, naturalidade, procedên- cia, cor autodeclarada e religião. Esses dados permitem, muitas vezes, evidenciar patologias, devido a sua prevalência em determinado grupo de mulheres (FEBRASGO, 2018). A queixa principal deve ser registrada com a linguagem da paciente e seu detalhamento é explorado na história da moléstia atual, onde deve-se questionar data de início da queixa, du- ração, intensidade, fatores de melhora ou piora e sintomas associados. Nem sempre as pacientes vão ao consultório devido a queixas específicas, mas pode ocorrer de ser apenas consultas de ro- tina para exames periódicos ou necessidade de orientações para planejamento familiar. 3 | P á g i n a Em seguida começa a abordagem dos ante- cedentes ginecológicos e obstétricos. Esses itens são de extrema importância para uma consulta ginecológica. Inicia-se perguntando à paciente sobre sua primeira menstruação (menarca) e as características de seus ciclos menstruais como regularidade, duração, volume do fluxo, sinto- mas associados (cólicas), intervalo e se ocorrem atrasos. Em seguida, questionar sobre a data da última menstruação. Se a paciente já tiver pa- rado de menstruar, é importante perguntar a data da menopausa, sintomas do climatério e se faz uso de terapia hormonal. Se possível, resgatar informações da telarca e pubarca. A abordagem da vida sexual feminina mui- tas vezes não é fácil, mas para uma consulta gi- necológica completa é necessário. A construção de uma boa relação médico paciente permite uma comunicação mais aberta sobre esses te- mas, fazendo com que a paciente sinta liberdade para relatar aspectos íntimos e pessoais de sua vida. Então, registra-se a idade da primeira rela- ção sexual (sexarca); número de parceiros sexu- ais; se faz, ou já fez, uso de métodos contracep- tivos; se já teve alguma infecção sexualmente transmissível; se apresenta alguma queixa rela- cionada a disfunção sexual, como diminuição da libido e impossibilidade de relação. Sempre as- segurar que as consultas abordam temas sigilo- sos e que nenhuma abordagem deve ser feita com julgamentos e sim de maneira respeitosa. (FEBRASGO, 2018). Ao final desses questionamentos é impor- tante registrar quando foram feitos os últimos exames complementares como a mamografia, ultrassom de mama, exame preventivo e ultras- som transvaginal ou abdominal. Com esses da- dos o médico consegue apurar a necessidade de refazer esses exames como forma de preven- ção. Em seguida, perguntar sobre o número de gestações, quantidade de partos e as vias (nor- mal ou cesáreo), se já sofreu abortamentos es- pontâneos ou induzidos, se já teve traumas ge- nitais ou complicações durante as gestações. Abordar também sobre o período do puerpério e lactação (duração e limitações). Como em outras consultas, de outras espe- cialidades, na consulta ginecológica também é interrogado se a paciente apresenta comorbida- des, faz uso de medicamentos diários, se já teve internações prévias, se já realizou cirurgias, se apresenta alergias, se já foi submetida a transfu- sões de sangue e qual o status de vacinação. Es- ses tópicos devem ser registrados na história pa- tológica pregressa da paciente (PASSOS et al., 2017). Assim como o histórico de patologias da pa- ciente é relevante, o histórico de patologias da família também é importante, principalmente de doenças cardiovasculares, doenças endócrinas, obesidade, osteoporose, câncer de mama e de ovário. Além disso, o questionamento sobre as con- dições de vida e hábitos da paciente contribui para uma anamnese completa. Dessa forma, per- gunta-se sobre a estrutura da moradia, da famí- lia, escolaridade, alimentação, trabalho, exercí- cios físicos, etilismo, tabagismo e uso de outras drogas. Para finalizar o roteiro da anamnese é im- portante assegurar se a paciente não deseja com- pletar algo que ela tenha esquecido de abordar ou se ela apresenta alguma preocupação que possa ser solucionado ou averiguada durante a consulta ou exame físico (PASSOS et al., 2017). Exame físico Após a anamnese, inicia-se o exame físico geral. Sempre que possível, deve-se realizá-lo na presença de um profissional de enfermagem, mesmo que a médica seja do sexo feminino, 4 | P á g i n a para que a paciente fique mais confortável e a segurança dela e do profissional seja garantida (BEREK, 2014). Na primeira parte do exame deve ser feita a ectoscopia. É imprescindível analisar a pele e as mucosas, procurando por sinais de palidez, cia- nose, anemia e resistência insulínica, assim como a distribuição de pelos e gordura corporal. Além disso, devem ser aferidos os dados vitais da paciente, pressão arterial, frequência e aus- culta cardíaca, frequência respiratória, tempera- tura e oxigenação em ar ambiente. Medidas an- tropométricas como a altura, o peso e o índice de massa corporal podem ajudar na avaliação de obesidade, fator de risco para diversas comorbi- dades, incluindo câncer de endométrio. O exame da tireoide também pode ser realizado, mas atualmente não é obrigatório nas consultas ginecológicas. O exame físico específico da ginecologia é dividido em exame das mamas e exame pélvico. A primeira etapa do exame das mamas é a ins- peção estática, realizada com o profissional de frente para a paciente, que são orientadas a per- manecerem sentadas com os braços ao longo do corpo e sem qualquer vestimenta recobrindo os seios, conforme representado na Figura 1.1. Se- rão analisados o volume (pequeno, médio, grande), o formato (arredondado ou pendular), os mamilos e as auréolas, atentando-se para a coloração, a presença de assimetrias, de abaula- mentos e retrações, de lesões, de edema e de eri- tema (LASMAR, 2017). Figura 1.1 Imagem da inspeção estática da mama Fonte: Passos et al., 2017. O segundo passo é a inspeção dinâmica das mamas, em que serão analisados os mesmos as- pectos anteriores, mas enquanto a paciente se encontra sentada, com as mãos na cintura, con- forme a Figura 1.2, de forma a contrair o mús- culo peitoral e assim expor algum tipo de abau- lamento, retração e assimetria (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2023). Figura 1.2 Imagem da inspeção dinâmica da mama Fonte: Passos et al., 2017. Os linfonodos podem ser acometidos em caso de metástase linfonodal no câncer de mama e, por isso, sempre devem ser avaliados. A or- dem de avaliação é supraclavicular, cervical posterior e por último os axilares. 5 | P á g i n a Em seguida, pede-se para a paciente deitar, com os braços apoiados na cabeça para ser rea- lizada a palpação da mama, Figura 1.3. Nesse momento, devem ser realizados movimentos circulares, em todos os quadrantes da mama, com as duas mãos, de forma que o exame fique mais preciso. Nesse exame, é possível identifi- car adensamento e nódulos, caso houver. Ao fim da palpação, pode-se realizar a expressão do mamilo para avaliar presença de derrame papi- lar, caso a paciente apresente queixa de descarga mamilar (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2023). Figura 1.3 Imagem da palpação da mama Fonte: Passos et al., 2017. O exame pélvico e especular é uma parte importante do exame ginecológico. Para sua re- alização, é imprescindível que todos os materi- ais necessários estejam devidamente separados e que o local seja adequado. Inicialmente, deve- se solicitar a paciente que fique em posição gi- necológica, também chamada deposição de li- totomia, ou seja, em decúbito dorsal, com as ná- degas junto à borda da mesa ginecológica, com coxas e joelhos fletidos descansando a fossa po- plítea nos estribos. É de extrema importância que a paciente esteja coberta com avental de abertura posterior e um lençol para cobrir ab- dome e membros inferiores, deixando as demais partes despidas para que haja ampla visualiza- ção da genitália externa (CAMARGOS et al., 2008). O examinador, com as mãos devidamente enluvadas, iniciará então o exame de inspeção estática da vulva e da região perineal, avaliando o monte pubiano, pequenos e grandes lábios, clitóris, vestíbulo, meato uretral, corpo perineal e ânus. Para melhor visualização da região ves- tibular, é necessário que o examinador afaste os pequenos lábios através da apreensão destes com seu polegar e indicador. Nessa etapa do exame, diversas doenças podem ser evidencia- das, por isso, é fundamental atentar-se para a presença de condilomas acuminados ou sifilíti- cos, cancros, úlceras herpéticas, doenças epite- liais ou processos alérgicos (CAMARGOS et al., 2008). Em seguida, é realizado o exame da genitá- lia interna. A finalidade desse exame é a visua- lização do colo uterino e das paredes vaginais. O exame especular é contraindicado em casos como estenose vulvar, atresia vaginal, integri- dade do hímen (pacientes virgens) e vaginismo. Para iniciar então o exame, é necessário esco- lher o tamanho apropriado do espéculo vaginal. Os espéculos podem ser de plástico ou metal e possuir diferentes tamanhos (número 1, 2 e 3), além de possuir vários modelos, como o Collins ou Graves, Figura 1.4. Figura 1.4 Imagem do espéculo de Collins Fonte: Passos et al., 2017. 6 | P á g i n a Após a seleção do espéculo, o examinador deve então introduzi-lo com suas lâminas fecha- das. Para expor a vagina, a mão não dominante deve, com os dedos indicador e médio, afastar os grandes lábios. A mão dominante do exami- nador deve então apoiar o espéculo na fúrcula e no períneo, em uma angulação de aproximada- mente 75º, Figura 1.5. É importante a introdu- ção correta do espéculo para evitar traumatismo uretral. Após completar a introdução, as lâmi- nas, que ainda permanecem fechadas, devem ser afastadas para evidenciar as paredes vaginais e o colo uterino (LASMAR, 2017). Figura 1.5 Imagem do espéculo de Collins Fonte: Passos et al., 2017. Com boa visualização do colo, o examina- dor é capaz de avaliar diversos aspectos cervi- cais, como a coloração das paredes vaginais, pregueamento, presença ou ausência de secre- ções, como muco, leucorreia ou mesmo sangue. Na presença de secreções clinicamente suspei- tas de infecção, pode ser feita a coleta desse ma- terial para realização de exame microscópico a fresco, chamado teste amínico (KOH a 10%), para auxiliar na identificação de germes anaeró- bios. Em seguida, é realizada a coleta colpocito- lógica. Inicialmente deve-se utilizar a espátula de Ayre em movimento giratório (rotação de 360º) na região ectocervical e a escova, prefe- rencialmente do modelo Cytobrush, também em movimento giratório, na região endocervical. A coleta ectocervical precede a endocervical com a finalidade de evitar sangramentos provocados pela escova durante o exame da endocérvice, que possam, por consequência, acabar prejudi- cando a coleta do material da ectocérvice. Após cada coleta, o examinador deve dividir a lâmina imaginariamente em duas metades e espalhar todo o material separadamente em cada uma dessas partes. Imediatamente após a transferên- cia do material para a lâmina, deve-se imergir completamente em um frasco com álcool ou fi- xada com um spray apropriado, para evitar o ressecamento do esfregaço. Por fim, identifica- se atentamente a lâmina e o frasco (BOTELHO et al., 2018). Finalizada a coleta colpocitológica, é reco- mendada a realização da limpeza do colo ute- rino com ácido acético 2% ou 5% para remoção de secreções. Após feita a lavagem, realiza-se o teste de Schiller para identificar regiões da ecto- cérvice com depleção de glicogênio celular. Na presença do Lugol, essas áreas não se coram de- vido a intensa divisão celular na presença de al- terações celulares neoplásicas. Essas áreas são denominadas iodo-negativo, teste de Schiller positivo, em que também é possível identificar a presença de lesões precursoras de câncer cer- vical. Esse teste ainda é capaz de facilitar a iden- tificação e a confirmação das colpites (áreas de iodo-claras). Antes da retirada do iodo com bis- sulfito de sódio 5%, pode-se avaliar o colo do útero através do colposcópio, caso haja indica- ção. Dessa forma, avalia-se detalhada e minuci- osamente todas as áreas suspeitas. Um bom exame colposcópico apresenta diversas vanta- gens, como melhor seleção de áreas a serem bi- opsiadas e evitar falsos negativos (BOTELHO et al., 2018). Para finalizar o exame físico deve-se reali- zar o toque vaginal bimanual. Para sua realiza- ção é necessário calçar as luvas e lubrificar os dedos indicador e médio que serão introduzidos no canal vaginal. 7 | P á g i n a Simultaneamente à inserção dos dedos indi- cador e médio, o dedo anelar e o dedão são usa- dos para afastar os pequenos lábios. Interna- mente, toca-se na musculatura pélvica, na pa- rede da vagina, no colo uterino e no fundo do saco vaginal. Com a outra mão comprime-se a parede ab- dominal na região do hipogástrio, enquanto o colo uterino é elevado para cima com os dedos usados no toque. Com esse exame é avaliado o volume uterino, a posição, consistência e mobi- lidade, além de dor. Exames complementares Os exames complementares devem ser sem- pre precedidos por um bom exame clínico, com anamnese detalhada e exame físico minucioso (PORTO et al., 2019). Quando o exame clínico é realizado de ma- neira adequada, os exames complementares são prescritos de maneira individualizada, aten- dendo às demandas da paciente. Somente assim é possível cumprir com os preceitos de Preven- ção Quaternária, que consiste em evitar a reali- zação excessiva de exames, reduzindo a chance de iatrogenias. Além disso, tratando sobre a realidade do Brasil, é preciso fazer o manejo correto dos re- cursos escassos do SUS, sempre baseando a conduta médica em evidências científicas. Muitos são os exames complementares dis- poníveis na atenção à saúde da mulher. Neste capítulo, serão abordados os seguintes exames: colpocitologia, colposcopia e mamografia, bem como suas principais indicações segundo preco- nizado pelo Ministério da Saúde. A Colpocitologia é o exame de escolha para o rastreamento do câncer de colo do útero e deve ser realizado de maneira periódica (ONU, 2019). Ele é realizado durante o exame especu- lar, sendo utilizada uma Espátula de Ayre para a análise da ectocérvice e uma Escova Cervical (citobrush) para a endocérvice. Após a coleta, o material deve ser fixado em uma lâmina e enca- minhado para a análise citológica, em que o laudo será dado segundo as nomenclaturas cito- patológicas, Tabela 1.1. O exame citopatológico é utilizado como método de rastreio do câncer do colo do útero, porque esse tipo de neoplasia origina-se de uma lesão precursora que, na maior parte dos casos, é curável (INCA, 2011). Apesar da possibili- dade de regressão, as lesões NIC II e III têm maior chance de progressão para adenocarci- noma e, por isso, devem ser tratadas (INCA, 2011). Tabela 1.1 Nomenclaturas citopatológica e histopatoló- gica utilizadas para o diagnóstico das lesões cervicais es- camosas e suas equivalências. Richart 1967 INCA 2006 - - - Alteração benigna - Indeterminado NIC I LO-SIL NIC II E III HI-SIL Carcinoma invasor Carcinoma invasor Fonte: Adaptado de INCA, 2011. A colpocitologia deve ser iniciada em mu- lheres a partir de 25 anos quejá iniciaram a vida sexual. O intervalo entre os exames deve ser de três anos, após dois exames negativos com in- tervalo anual (INCA, 2011). O rastreio deve se- guir até os 64 anos, podendo ser interrompidos após essa idade se a paciente possuir pelo menos dois exames negativos consecutivos nos últimos cinco anos (INCA, 2011). 8 | P á g i n a Para que o exame seja válido, é preciso ava- liar se a amostra está satisfatória que permita uma conclusão diagnóstica. Para isso, o resul- tado da coleta deve indicar a presença de células representativas dos epitélios do colo do útero: Células escamosas Células glandulares Células metaplásicas Caso o resultado apresente alterações da normalidade, a paciente deve ser orientada a se- guir com a propedêutica segundo a lesão apre- sentada. A colpocitologia deve ser repetida em 3 anos em pacientes menores de 25 anos em caso de lesões do tipo ASC-US e LO-SIL. Já em pa- cientes com lesão ASC-US entre 25 e 29 anos, o exame citológico deve ser realizado nova- mente dentro de 12 meses. Pacientes acima de 30 anos com ASC-US ou acima de 25 anos com LO-SIL devem realizar outra citologia dentro de 6 meses. Todas as demais alterações - ASC-G, AOI, HI-SIL, carcinoma invasor e adenocarci- noma - devem ser imediatamente encaminhadas para a realização de colposcopia e, então, bióp- sia guiada. A Colposcopia é a análise do colo do útero a partir de um Colposcópio, instrumento dotado de lentes que possibilitam o aumento da estru- tura a ser visualizada (PORTO et al., 2019). Esse exame é indicado, como citado anteri- ormente, em alterações específicas da normali- dade no exame colpocitológico. Além disso, é indicado quando o colo do útero apresenta as- pecto suspeito, inspeção visual com ácido acé- tico positiva ou teste de Schiller positivo. Sua utilização justifica-se pelo fato de o exame colposcópico permitir a detecção de le- sões pré-cancerosas e malignas do colo do útero. Isso é possível devido ao aumento proporcio- nado pelo colposcópio que possibilita a realiza- ção de biópsia de maneira guiada e direcionada, fazendo com que a amostra enviada para o ana- tomopatológico seja mais certeira (PORTO et al., 2019). Após a realização do exame colpos- cópico, a paciente será direcionada ao nível de atenção à saúde adequado para, então, seguir com a terapêutica. A Mamografia é o exame de rastreio para o câncer de mama. É realizado um raio-X da mama em duas incidências mínimas: crânio- caudal e médio-lateral oblíqua. Existem outras incidências que podem ser realizadas de ma- neira individualizada. Segundo o INCA, esse exame deve ser rea- lizado bianualmente em mulheres entre 50 e 69 anos. No Brasil, o Ministério da Saúde não in- dica, como rotina esse exame em pacientes com menos de 50 anos e em pacientes maiores de 69 anos, sem fatores de risco associados. A propedêutica a ser seguida após a realiza- ção da mamografia varia de acordo com o BI- RADS, conforme demonstrado na Tabela 1.2. Tabela 1.2 Tabela de propedêutica segundo BI-RADS BI-RADS CONDUTA 1 Incidência adicional ou ultrassonografia 2 Seguimento conforme idade 3 Seguimento conforme idade 4A Biópsia 4B Biópsia 5 Altamente sugestivo de carcinoma 6 Carcinoma confirmado com biópsia Fonte: Adaptado de Hoffman et al, 2014. 9 | P á g i n a REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS BEREK, J. Tratado de Ginecologia. 15. ed. Rio de Ja- neiro: Guanabara Koogan, 2014. BOTELHO, N.M. et al. Manual de habilidades profissio- nais: atenção à saúde da mulher e gestante. 2. ed. Belém: EDUEPA, 2018. CAMARGOS, A.F. et al. Ginecologia Ambulatorial: ba- seada em evidências científicas. 2.ed. Belo Horizonte: Coopmed, 2008. FEBRASGO. Tratado de Ginecologia. 1. ed. Rio de Ja- neiro: Grupo GEN, 2018. p. 31-45. HOFFMAN, B. et al. Ginecologia de Williams. 2. ed. Porto Alegre: McGraw-Hill Artmed, 2014. INCA. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do cân- cer do colo do útero. Rio de Janeiro: INCA, 2011. LASMAR, R.B. Tratado de ginecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. 1 recurso online. ISBN 978852773240. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Exame clínico das mamas. Disponível em: < https://linhas de cui- dado.saude.gov.br/portal/câncer-de-mama/atenção-espe- cializada/planejamento-terapeutico/exame-clinico-ma- mas/>. Acesso em: 11 abr. 2023 ONU. Organização das Nações Unidas. Programmes and projects. Cancer. Screening and early detection of cancer. Nova York: United Nations, 2019. PASSOS, E. et al. Rotinas em Ginecologia. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, p. 45-50, 2017. PORTO, C.C. et al. Semiologia médica. 8. ed. Rio de Ja- neiro: Guanabara Koogan, 2019. 10 | P á g i n a Palavras Chave: Disfunção sexual; Dispareunia; Sexologia Capítulo 2 DEBORAH FERREIRA DUGUET ARRUDA¹ FERNANDA CHAIB FONSECA PEREIRA¹ RAFAEL DE OLIVEIRA MARRA¹ SÁVIO LAGUARDIA MARRA FILHO¹ 1. Discente - Medicina - Faculdade da Saúde e Ecologia Humana (FASEH). SEXOLOGIA 11 | P á g i n a INTRODUÇÃO No século passado, a sexologia era abordada com os recursos terapêuticos herdados da psica- nálise. À medida que a medicina ginecológica foi evoluindo, abriu-se o leque de novas teorias e seus respectivos manejos, além do aperfeiçoa- mento na condução das comorbidades sexuais até então descobertas. Acometimentos sexuais são corriqueiros e fazem parte do cotidiano da mulher em múlti- plas faixas etárias, e manifestam-se de formas variadas como queda ou até mesmo supressão da libido, desconcerto ou falha em se chegar ao orgasmo e desconforto físico durante o ato se- xual. Tal quadro costuma vir acompanhado de relatos que provocam grande sofrimento mental na mulher, atrapalhando seu convívio com a sua parceria sexual e também na sua qualidade de vida de uma forma generalizada. Quando o mé- dico recebe essas queixas de sua paciente, pode- se assim dizer que está diante de um quadro de disfunção sexual feminina. Com o aumento das informações disponí- veis para o público de uma forma geral, tem-se nos dias atuais surgido um aumento na demanda de pacientes que buscam soluções e terapias para os seus acometimentos sexuais. A disfunção sexual feminina surge a partir de uma descompensação nos estágios da res- posta sexual conectando-se com relevantes sis- temas endócrinos, anatômicos, neural, vascular, psíquico, além também do fator social, acarre- tando quase sempre em deficiências na quali- dade de vida feminina. A maioria dos distúrbios sexuais dá-se de- vido à falta de conhecimento, lendas, e crenças sobre a parte fisiológica e anatômica dos órgãos sexuais. O profissional que acolhe e trata pacientes com queixas de distúrbios na vida sexual neces- sita estar preparado plenamente para lidar com tal situação, então recomenda-se que esse indi- víduo tenha o devido conhecimento sobre o tema e seus recursos propedêuticos, como tam- bém possíveis tratamentos, além de também compreender e aceitar a sexualidade de cada in- divíduo; esse preparo tem por finalidade reduzir possíveis influências maléficas e iatrogênicas no enfermo. Tipos de disfunção sexual As formas de disfunções sexuais, segundo Ribeiro et al. (2013), são catalogadas em: Distúrbio do desejo Sexual Hipoativo (Desejo Sexual Inibido): Ocorre quando há di- minuição ou ausência total de fantasias e de de- sejo de ter atividade sexual. Aversão Sexual (Evitação Sexual. Fobia Sexual): Evitação ativa de ter sexo com parcei- ros, com sentimentos de repulsa, ansiedade e medo. Transtorno de Excitação (Frigidez): É a incapacidade persistente ou recorrente de adqui- rir ou manter a lubrificação vaginal e turgescên- cia até o fim do ato sexual. A mulher tem pouca ou nenhuma sensação de excitação. Antiga- mente, esse problemaera denominado de Frigi- dez. Anorgasmia (Inibição do Orgasmo): Quando a mulher se sente incapaz de atingir or- gasmo. Pode haver um atraso ou ausência recor- rente ou persistente do orgasmo, mesmo após estímulo sexual adequado. Dispareunia: É a dor genital associada ao ato sexual. Para ser denominada dispareunia não deve ser causada por fatores orgânicos, como in- fecções ou nódulos, por exemplo. Vaginismo: É a contração involuntária dos músculos próximos à vagina que impedem a pe- netração pelo pênis, dedo, ou espéculo gineco- lógico ou mesmo um tampão. A mulher não 12 | P á g i n a consegue controlar o movimento de contração, apesar de até desejar o ato sexual. Disfunção Sexual Devido a uma Condição Médica: Caracteriza-se quando há um pro- blema orgânico que gera problemas sexuais, como, por exemplo, a diminuição de desejo de- vido a Diabetes Mellitus. Disfunção Sexual Induzida por Substân- cias: Caracteriza-se quando há um problema se- xual pelo uso de algumas substâncias. Por exemplo, diminuição do desejo sexual por uso de altas doses de sedativos hipnóticos, como o diazepam. Tratamento O profissional deve começar orientando so- bre as questões anatômicas e fisiológicas da atu- ação sexual. Durante o exame físico, o médico pode fazer o uso de espelho com o intuito de que a paciente possa acompanhar o exame e poder ser orientada sobre achados anatômicos normais e/ou alterados, tal prática tem como finalidade esclarecer de uma maneira melhor a explicação anatomofisiológica da ação sexual. Após a etapa do exame físico, é necessário explicar sobre o que é “normal” e esclarecer possíveis dúvidas que a mulher possa vir a ter relacionados com o ato sexual (FEBRASGO, 2019). O manejo dos sintomas sexuais deve ser abrangido de forma global visando a estabiliza- ção dos sinais somáticos, psíquicos, local, além de abranger também a parceria sexual. Outro fa- tor que não deve ser negligenciado envolve con- dutas direcionadas unicamente para as queixas da atual paciente, criando-se assim um manejo único para cada caso (BARRETO et al., 2018). Um modelo que tem mostrado muita efici- ência e praticidade no manejo da disfunção se- xual feminina, tendo ganhado muita atenção na prática médica, é o modelo conhecido como PILSET (PLISSIT). Tal protocolo proporciona ao profissional da saúde executar uma aproxi- mação amplificada capaz de abranger sintomas originados do sistema psíquico, biológico, e também de queixas que envolvam pouco ou ne- nhum conhecimento referente a questões anatô- micas e sexuais (LARA et al., 2008). Sendo assim, o modelo de PILSET é utili- zado como um mnemônico sendo apresentado da seguinte forma, segundo Lara et al. (2008): permissão (P): o especialista “permite” ao paci- ente praticar o ato sexual levando-se em conta a fisiologia da relação sexual. Abrangendo espe- cialmente a elucidação, além de transpor as ob- jeções que possam existir em relação ao ato se- xual. Podendo ser exemplificado da seguinte forma: a “aprovação” do terapeuta para que a mulher com disfunção sexual faça uso de fanta- sias sexuais e consuma conteúdo erótico para a estimulação sexual; informação limitada (IL): orientar questões fisiológicas resultantes du- rante a prática sexual e também explicar a res- peito da constituição anatômica do órgão genital feminino, explicando onde localizam-se os pon- tos com maior sensibilização e satisfação da re- gião vulvar e vaginal que compreendem o clíto- ris, pequenos lábios e intróito vaginal, pois tais regiões possuem uma maior quantidade de pon- tos vásculo-nervosos; sugestão específica (SE): orientar e propor alterações no comportamento sexual, tendo como modelo parâmetros basea- dos na função orgânica que constitui o ato se- xual e consequentemente chegando a um resul- tado esperado, nortear alterações de conduta (atitude assertiva), podendo ser exemplificado da seguinte maneira: a mulher vive uma vida conflituosa com seu companheiro, mesmo assim preserva a relação, pois tem os seus motivos particulares para a causa. A aparência desfavo- rável da convivência resulta em uma situação onde os malefícios superam os benefícios e com isso desfavorece a relação afetiva-emocional do 13 | P á g i n a casal. A medida que a mulher com disfunção se- xual pontua e eleva as questões benéficas que a intimidade com o parceiro gera como produto, a possibilidade de se promover um progresso fa- vorável a sua vivência sexual é extremamente alta; terapia sexual (T) a terapia sexual é indi- cada para todos os casos de extrema complexi- dade como por exemplo anedonia, confrontos que como consequência acarretem em ataques verbais e físicos, abuso sexual, alterações no comportamento sexual, manejos que não se ob- teve uma resolução positiva após explicações (LARA et al., 2008). Entende-se que as condutas habituais são tá- ticas que devemos utilizar primariamente no manejo da disfunção sexual feminina, evidenci- ando-se a instrução anatomofisiológica do ór- gão genital, elucidando o produto que se obtém durante o ato sexual, a atribuição sexual da mu- lher, a orientação sexual tanto para a mulher quanto para a sua parceria sexual, alterações de cunho mutável pelo auxílio médico, modifica- ção do estilo de vida, etc. Essas condutas englo- bam o modelo PILSET. (BARRETO et al., 2018; SILVA et al., 2013). De forma comple- mentar e generalizada o médico deve abordar questões relacionadas a saúde geral e bem como o manejo de comorbidades infecciosas do trato genital que venham a acarretar em quadros de dispareunia, além de intervir cirurgicamente em quadros de incontinência urinária, prolapsos de órgãos pélvicos, ou outras queixas que tenham sofrido alguma alteração anatômica e possam interferir na atividade sexual da mulher (LARA et al., 2008). Acrescenta-se também a necessi- dade avaliar e substituir quando necessário dro- gas que possam prejudicar a resposta sexual, também deve-se orientar sobre a prática e os be- nefícios que os exercícios físicos para o fortale- cimento dos músculos da região pélvica vão promover a vida sexual da mulher. (SOUZA et al., 2020). Terapia hormonal A terapia hormonal em mulheres que estão na fase pós menopausa tem se mostrado bas- tante eficaz, já em mulheres que estão na fase do menacme, a terapia hormonal necessita de mais estudos que possam documentar e comprovar a sua real indicação e efetividade (STUDD, 2007). Mulheres que chegam no estágio da menopausa tem como consequência natural uma redução considerável nos níveis de estrogênio em seu or- ganismo, a redução androgênica a medida em que se envelhece somada ao abrupto declínio hormonal acarretam em um quadro de distúrbio do desejo sexual hipoativo. O surgimento da re- dução do desejo/excitação sexual feminino ao longo do climatério sugere estar associado com quadros de hipoestrogenismo / hipogonadismo (FEBRASGO, 2019). Em quadros onde a mu- lher relata uma redução da libido que venha cor- relacionada ao surgimento de sintomas da me- nopausa sendo eles vasomotores e atrofia uroge- nital, a terapia hormonal mostra-se bastante efi- caz e de fácil aceitação pela paciente. (PAR- DINI, 2007). Sendo assim, segundo Febrasgo (2019), o médico pode lançar mão dos seguintes medicamentos para o manejo do quadro: • Tibolona (esteroide sintético advindo da noretisterona) utilizando-se a dosagem de 2,5 mg ao dia. Essa droga é indicada para mulheres que apresentam o quadro de distúrbio do desejo sexual hipoativo, e encontram-se pós menopau- sadas dentro da janela de oportunidade. Mulhe- res que fazem uso desta medicação, relatam o aumento do desejo sexual, excitação, e também satisfação durante o ato propriamente dito e re- dução dos sintomas urogenitais. O seu uso não é recomendado para mulheres com câncer de mama, câncer de endométrio,tromboembo- lismo agudo, hepatopatia aguda e/ou grave, car- diopatia grave e sangramento uterino sem causa diagnosticada. 14 | P á g i n a • Undecanoato de testosterona: 40 mg por dia, durante 15 dias, realizando-se a sua suspen- ção durante os próximos 15 dias após a última dose. Essa droga é indicada para pacientes que apresentem déficit androgenal relacionado com queixas de disfunção sexual do desejo, ou pre- viamente diagnosticada com distúrbio do desejo sexual hipoativo, e não necessite da aferição re- gularmente dos níveis de testosterona total e li- vre. A reposição de testosterona em mulheres pré e pós menopausa tem seu uso contraindi- cado relativamente em mulheres que apresen- tem alopecia androgênica, acne, hirsutismo, dis- lipidemia e disfunção hepática, já as contraindi- cações absolutas são para quadros de hirsutismo grave, acne grave e risco grande de câncer de mama, câncer de endométrio, episódios trom- boembólicos e doença cardiovascular. Terapia não hormonal O uso de drogas de ação no sistema nervoso central para o manejo da disfunção sexual femi- nina tem apresentado grande efetividade. Estu- dos relatam que alguns neurotransmissores atuam na sensibilização e não sensibilização de regiões do cérebro que influenciam na resposta sexual feminina. (PARDINI, 2007). Segundo a Febrasgo (2019), as medicações que podem ser utilizadas estão descritas a seguir: • Flibanserina 100 mg ao dia. Trata-se de uma droga que atua como agonista do receptor 2A (5HT-2A), exerce de forma parcial agonista também sobre os receptores de dopamina (D4). Esse medicamento atua liberando grandes quan- tidades de noradrenalina e dopamina e redu- zindo os níveis de serotonina no cortéx cerebral tendo como consequência o restabelecimento do controle pelo cortéx pré-frontal sobre as áreas de recompensa e motivação do cérebro, possibi- litando o início do desejo sexual. Esse medica- mento está indicado para mulheres na pré-me- nopausa que apresentem o quadro de distúrbio do desejo sexual hipoativo, admitindo-se que o balanceamento dos neurotransmissores cere- brais aprimore o desempenho da resposta se- xual. A flibanserina pode apresentar como efei- tos colaterais quadros de hipotensão, síncope, sonolência, náuseas, fadiga, insônia e xerosto- mia. Seu uso também não está indicado como terapia para outros tipos de disfunção sexual que não seja a de desejo. Além disso, recomenda-se abolir o seu uso quando a paciente não apresen- tar melhora após 2 meses de terapia. • Bupropiona 150 mg por dia. Esse medi- camento inativa a recaptação de dopamina e no- repinefrina, além de bloquear os receptores de serotonina 5HT-2, além de promover um certo efeito prossexual. Seu uso está indicado para o tratamento da disfunção sexual feminina resul- tante do uso de antidepressivos. Pode ser usada também no manejo de mulheres com o quadro de distúrbio do desejo sexual hipoativo. Está contra indicada para pacientes com epilepsia, bulimia e anorexia. Na maioria das vezes, o tratamento que tem se mostrado mais eficaz para mulheres com de- sejo sexual hipoativo é aquele desenvolvido a partir de componentes da terapia sexual, terapia cognitivo-comportamental, e abordagens que englobem a mulher como um todo (LARA et al., 2008). Terapia sexual A terapia sexual foi desenvolvida com o in- tuito de se abordar e auxiliar tanto a mulher quanto a sua parceria sexual com o intuito de compreender, antever e resolver situações rela- cionadas com a monotonia da vida conjugal, de- sajuste na comunicação do casal, bem como a ausência de intimidade entre os parceiros (LARA et al., 2008). 15 | P á g i n a Sua abordagem se dá através de técnicas que promovam a inclusão sensorial bem como o aconselhamento global da vida do casal. (STUDD, 2007). A peça chave que a terapia sexual se baseia se dá através da terapia de foco sensorial ou sen- sitivo, que se desenvolve através de exercícios de toque sensual realizados de forma progres- siva. Essa forma de terapia tem como objetivo reduzir a aversão aos toques sensuais ou da prá- tica sexual ligada a quadros de muita ansiedade, permitindo-se assim a possibilidade de se rees- tabelecer o diálogo e a intimidade entre os par- ceiros. Recomenda-se que os primeiros toques não se comecem por áreas genitais, mas sim to- cando-se regiões “comuns” como face, mãos e dorso, e à medida que os parceiros vão ga- nhando novamente intimidade entre eles, a indi- cação de toques em áreas genitais pode ser ini- ciada e só após essa etapa espera-se que tenha o reestabelecimento das relações sexuais (FE- BRASGO, 2019). Terapia cognitivo-comportamental: A terapia cognitivo-comportamental tem como objetivos principais elucidar e modificar questões relacionadas tanto ao cognitivo quanto questões que envolvam a distorção de crenças, responsáveis por fomentar o declínio do desejo e da função sexual feminina. Uma peça signifi- cativa que compõe a terapia cognitivo-compor- tamental é a questão do conhecimento, pois cos- tuma ser de grande auxílio tanto para a mulher quanto o casal estabelecendo formas de se com- preender pontos relacionados ao estímulo eró- tico físico e mental (FEBRASGO, 2019). Sua aplicabilidade se dá através de técnicas voltadas para a questão de aprendizagem como a prática de atenção plena, reconhecimento cor- poral, além da autoestimulação genital não mas- turbatória (STUDD, 2007; FEBRASGO, 2019). Tratamento do distúrbio da excitação se- xual: As excitações mental/subjetiva ou geni- tal/objetiva ou fisiológica podem estar ou não relacionadas. A excitação sexual subjetiva cons- titui a compreensão feminina perante a sua rea- tividade genital ou não. Já, quando nos referi- mos a excitação genital, estamos diante de um quadro fomentado por uma questão fisiológica, que envolve vasocongestão e lubrificação da va- gina. Podem estar ou não associados entre si, ou se manifestarem de forma singular (SILVA et al., 2013; RIBEIRO et al., 2013). Compreender qual o mecanismo excitatório encontra-se blo- queado e também quais os fatores desencadea- ram esse bloqueio disfuncional da excitabili- dade sexual, é de suma importância para se es- tabelecer a terapia mais eficaz. Basicamente o manejo do quadro é realizado através da excita- ção psicomental da atenção plena na terapia cognitivo-comportamental, tornando-se peça chave para se alcançar resultados efetivos. Em situações onde o único componente é a excita- ção genital, opta pelo manejo do quadro fa- zendo-se o uso de medicamentos e/ou dispositi- vos vaginais (FEBRASGO, 2019). Tratamento da desordem do orgasmo: O passo inicial para se obter êxito no trata- mento da desordem do orgasmo consiste em elucidar e orientar a paciente (se possível, o ca- sal) referentes ao orgasmo, dedicando-se as perspectivas do que seria, bem como o desen- volvimento do quadro e a sua periodicidade, deve-se também se situar o quão compromete a vivência da mulher quanto do parceiro devido ao quadro. É necessário também distinguir or- gasmo clitorinano de orgasmo vaginal. (STUDD, 2007; SILVA et al., 2013). A con- versa deve ser direcionada para episódios de or- gasmo promovido durante o coito que não ne- cessitou de estímulo do clitóris, e episódios de 16 | P á g i n a orgasmo surgido durante estimulação do clitó- ris. É necessário ao longo da consulta orientar a paciente que o orgasmo pode não estar presente em todas as relações sexuais consideradas satis- fatórias (FEBRASGO, 2019). Outro ponto importante diz respeito a avali- ação minuciosa se a anorgasmia está relacio- nada ao uso de determinadas substâncias que di- ficultem o seu acontecimento como por exem- plo anorgasmia induzida pelo uso de antidepres- sivos ou pelo abuso de drogas, também deve ser perguntado se a mulher possui alguma comorbi- dade de causavascular, neuropática e reumato- lógica (LARA et al., 2008). A partir do mo- mento que se tiver excluído as causas orgânicas e a paciente encontra-se esclarecida quanto a sua situação, a terapia mais indicada é a técnica da masturbação dirigida, tal técnica tem como finalidade orientar a mulher a explorar o seu corpo tornando-a mais familiarizada e confortá- vel com o seu órgão genital e outras partes ana- tômicas do seu corpo (FEBRASGO, 2019). Tratamento da dor sexual: O manejo da dispareunia leve a moderada quando associada ao quadro de atrofia vulvova- ginal, pode-se lançar mão do uso de constituin- tes não hormonais como lubrificantes a base de água, cremes hidratantes (LARA, et al., 2008). A estrogenização local é proposta para quadros mais graves em mulheres que se encontram na pós menopausa e possuem atrofia vulvovaginal, outra alternativa de tratamento é a laserterapia (PARDINI, 2007). Tratamento do vaginismo: A terapia consiste na aplicação de técnicas de dessensibilização sistemática, combinando- se com a fisioterapia do assoalho pélvico, tendo como meta não permitir que a musculatura pél- vica apresente espasmos (SOUZA et al., 2020). O tratamento da disfunção sexual deve ser direcionado a queixa principal da paciente, sendo o foco primordial a instrução sexual, re- lacionando-se ou não a drogas, e a psicoterapia sexual. Por fim, é extremamente importante en- fatizar que a cada caso deve ser individualizado e abordado a parte social, mental e física da mu- lher com disfunção sexual (FEBRASGO, 2019). 17 | P á g i n a REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARRETO, A.P.P. et al. O impacto da disfunção sexual na qualidade de vida feminina: um estudo observacional. Revista Pesquisa em Fisioterapia, v. 8, n. 4, p. 511–517, 2018. FEBRASGO - Tratado de ginecologia. Editores Cesar Eduardo Fernandes, Marcos Felipe Silva de Sá; coorde- nação Agnaldo Lopes da Silva Filho. [et al.]. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Elsevier, 2019 LARA, L.A.S. et al. Abordagem das disfunções sexuais femininas. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrí- cia, v. 30, p. 312- 321, 2008. PARDINI, D. Terapia hormonal da menopausa. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, v. 51, n. 6, p. 938–942, ago. 2007. RIBEIRO, B. et al. Disfunção sexual feminina em idade reprodutiva: prevalência e factores associados. Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, v. 29, n. 1, p. 16-24, 2013. SILVA, B.M. e; et al. Incidência de disfunção sexual em pacientes com obesidade e sobrepeso. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, v. 40, n. 3, p. 196–202, 2013. SOUZA, L.C. de; et al. Fisioterapia na disfunção sexual da mulher: revisão sistemática. Revista Ciência e Saúde On-line, v. 5, n. 2, 2020. STUDD J.A comparison of 19th century and current at- titudes to female sexuality. Gynecological endocrinology the official journal of the International Society of Gyne- cological Endocrinology, v. 23, n. 12, p. 673-681, 2007. 18 | P á g i n a Palavras Chave: Contracepção; Adolescência; Gravidez na adolescência. Capítulo 3 JÚLIA RESENDE FERREIRA MAGRI¹ LUCAS DANIEL DOS ANJOS GUIMARÃES¹ VICTORIA CARDOSO ALVES¹ 1. Discente - Medicina na Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais. GINECOLOGIA INFANTO- PUBERAL 19 | P á g i n a INTRODUÇÃO Segundo Rosaneli et al., 2020, a adolescên- cia é marcada por diversas modificações, sejam elas de natureza emocional, psicológica, física e social. Entretanto, é também nessa fase, carac- terística pela descoberta do próprio corpo e pra- zer, que a gravidez indesejada pode se fazer pre- sente. Ainda segundo os mesmos autores, com- preende-se que a gestação na adolescência, de forma indesejada, perpetua ciclos intergeracio- nais de pobreza, isso porque, as meninas, em sua maioria, fazem parte de níveis socioeconômicos mais baixos e são afetadas de forma despropor- cional pela gravidez precoce. Ademais, corroborando com tais estudos, é possível entender que a educação funciona como fator de prevenção da gravidez, de forma efetiva, quando as meninas começam a estudar desde os primeiros anos de vida, de forma que o espaço de estudo e aprendizado e amigável e acessível, e o Estado age como fomentador de oportunidades, as jovens são protegidas contra exclusão, violência, expulsão do ambiente esco- lar, e o ensino é voltado ao conhecimento do próprio corpo, ao manejo da saúde reprodutiva, ao empoderamento nas relações pessoais e aos direitos como cidadã (UNESCO, 2017). Ainda dentro do espectro de prejuízos na sa- úde pública, o parto prematuro, as anemias, a pré-eclâmpsia e a desproporção feto pélvica po- dem se configurar como complicações possíveis no cenário de gestação precoce, na adolescência (PAIVA et al., 2020). Em relação a gravidez precoce, entende-se que a condição de pobreza potencializa a exposição aos riscos, provavel- mente porque pertencer a um nível socioeconô- mico menos favorável pode levar a um menor nível de informações sobre sexualidade, cuida- dos de saúde e importância de contracepção (SANTOS et al., 2021). Além disso, o contexto social e político atual, a precariedade da vida, as inequidades de gênero e a negação dos Direitos Sexuais Repro- dutivos, culminam na exclusão dos saberes dos adolescentes, sendo estes reduzidos ao saber bi- omédico, o que lhes exclui da completude dos direitos sexuais e reprodutivos, bem como o di- reito de decidir sobre seus próprios corpos (SILVA et al., 2020). Em relação ao uso de métodos contracepti- vos, o panorama de uso pelos jovens é bastante abrangente e os cenários são diversificados. Nesse sentido, segundo Costa et al., 2016 e Spindola et al., 2012, adolescentes que viven- ciam relacionamentos mais estáveis priorizam a prevenção de gestação em detrimento da pre- venção de infecções sexualmente transmissíveis (IST), assim as IST são temáticas apontadas com frequência, e corroboram com fatores que podem aumentar a probabilidade de gravidez (NEIVA-SILVA et al., 2018). Além disso, pelo fato de a sexualidade ainda ser um tabu, os assuntos não são discutidos com facilidade assim, essa condição prejudica uma orientação sexual adequada com os jovens e in- viabiliza um discurso objetivo e assertivo quanto ao uso de métodos contraceptivos (COSTA et al., 2016). Ainda de acordo com o autor, a carência de orientação contraceptiva fornecida aos estudan- tes e algo concreto e é importante que o papel dos profissionais de saúde como fomentadores da comunicação seja incentivado e destacado, de forma que haja a promoção do conhecimento entre os estudantes e a motivação para o uso correto dos métodos pelos adolescentes que decidiram iniciar suas práticas sexuais. Seguindo ainda a linha de raciocínio do es- tudo acima, os adolescentes considerados mais vulneráveis a gravidez na adolescência são pro- venientes de famílias com baixa renda, pouca 20 | P á g i n a escolaridade e estão na fase inicial da adoles- cência. Costa et al., 2016 reafirma que os ado- lescentes têm iniciado suas atividades sexuais sem orientação contraceptiva e com pouco co- nhecimento relacionado ao uso dos métodos. Assim, encontram-se expostos a gravidez não planejada, em concordância com o fato de que a maioria tem iniciado as práticas sem nunca ter usado quaisquer métodos. Outro ponto impor- tante levantado por Piantavinha & Machado, 2022, é que é preciso considerar a dificuldade dos jovens em conhecer os métodos como uma questão multifatorial, a qual depende de motiva- ções de cunho religioso, valores pessoais e ques- tões familiares dos adolescentes. Dados epidemiológicos É indispensável para o assunto em questão, estarmos cientes da importância e da relevância que a gravidez na adolescênciapossui dentro de uma sociedade na qual os gastos em saúde per- passam por esse âmbito, além de tantos outros motivos que serão descritos no decorrer do texto. Em setembro de 2015, líderes mundiais e re- presentantes da sociedade civil reuniram-se na sede da ONU, em Nova York e definiram os de- safios do Brasil para atingir as metas pactuadas na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sus- tentável, com ações voltadas a adolescentes e jo- vens, espera-se dessa forma a garantia do acesso universal aos serviços de saúde sexual e repro- dutiva, incluindo planejamento familiar, infor- mação e educação (VIEIRA et al., 2021), dessa forma em alguns estudos as estatísticas demons- traram uma queda no número de gestantes com menos de 20 anos de idade, no entanto, os nú- meros ainda são muito preocupantes (DA SILVA, 2018), pois dentro do que foi encon- trado nos estudos de acordo com o que é defi- nido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) a adolescência corresponde ao período de vida entre 10 e 19 anos (VERLI, 2020, PAIVA et al., 2020). Por ano em todo mundo de 16 a 18 milhões de adolescentes ficam grávidas e a grande maioria em países subdesenvolvidos e em desenvolvimento (CHEROBINI et al., 2022; PAIVA et al., 2020; DA SILVA, 2018). Um outro retrato que conseguimos levantar é que na América Latina o índice é de 65,5 nasci- mentos para cada mil já no Brasil a taxa chega a 68,4 nascimentos para cada mil adolescentes mulheres, assim é importante salientar que por ano 434 mil crianças nascem no Brasil mulheres adolescentes na faixa etária de 15 a 19 anos va- lendo destacar que o referido país possui a maior taxa de mães adolescentes da América Latina (MOURA et al., 2021) e por fim nesse cenário, há destaque para a região Norte do país, que possui a maior média entre todas as regiões do país, com a média de 21,3 % dos partos, um va- lor que está mais de 7 % acima da já revelada média nacional (BEZERRA & MATOS, 2022). Ainda assim podemos ressaltar que adoles- centes com menos de 14 anos tem a probabili- dade de 5 a 7 vezes maior de morrer durante a gravidez do que mulheres com mais idade que são mães (ALMEIDA et al., 2021), e além disso a gravidez na adolescência é a segunda maior causa de mortalidade materna nas faixas etárias de 15 aos 19 anos (CHEROBINI et al., 2022). Com isso, a maternidade na adolescência é con- siderada um grande risco devido às complica- ções biológicas e sociais, ainda assim dentro das complicações biológicas temos a grande inci- dência de Doenças Sexualmente Transmissíveis (IST´s) associado diretamente ao início precoce da atividade sexual que segundo estudo brasilei- ros de todos adolescentes, 27,5% deles já possu- íam experiência sexual precoce (VIEIRA et al., 2021). Portanto, a realização do presente estudo re- lacionado à temática, é essencial para a constru- ção coletiva do conhecimento, pois o estudo 21 | P á g i n a possibilita à sociedade acadêmica e científica ampliar os horizontes e dessa forma estratégias e mudanças concretas, contínuas e palpáveis para possíveis resoluções a longo prazo do ce- nário em questão (LEITE et al., 2021). Determinantes sociais Precisamos entender também que a gravidez na adolescência não é um fenômeno homogê- neo, e que dessa forma depende do contexto so- cial em que o adolescente está inserido, por- tanto, surgiu após consenso da comissão homô- nima da Organização Mundial de Saúde (OMS) os determinantes sociais da saúde sendo eles as condições sociais em que as pessoas vivem e trabalham e que são relevantes para que os ór- gãos públicos consigam prever os fatores exter- nos que influenciam de maneira negativa na qualidade de vida das pessoas ajudando assim na criação de medidas globais para redução da desigualdade (MOURA et al., 2021). Diante do exposto, a pergunta norteadora é: quais os determinantes sociais da saúde relacio- nados à gravidez na adolescência? De acordo com um dos estudos analisados, os resultados encontrados mostraram alguns determinantes sociais da saúde e sua associação com a gravi- dez na adolescência, destacando-se a renda, condições de moradia, escolaridade e acesso aos serviços de saúde. Inicialmente foi observado em um dos estudos que as condições de margi- nalização e pobreza têm uma associação consi- derável com a gravidez e taxa de fertilidade en- tre adolescentes, em outros estudos conclusões semelhantes foram levantadas, em João Pessoa- PB por exemplo foi constatado que a maioria das adolescentes entrevistadas que possuíam fi- lhos tinham renda familiar menor que um salá- rio mínimo, e além disso os resultados eviden- ciaram que, para 54% das participantes da pes- quisa, a principal fonte de renda provinha do cônjuge/companheiro, sendo que 31,7% viviam da renda familiar em estudos parecidos também 65% das entrevistadas eram totalmente depen- dentes financeiramente de terceiros, sendo que em 50,4% dos casos, o companheiro era o res- ponsável pelo sustento, e uma a cada quatro jo- vens tinha dependência financeira dos pais, além disso no Brasil estudos levantaram que 72% das jovens não trabalhavam (MOURA et al., 2021). No que diz respeito às condições de mora- dia, a prevalência da maternidade adolescente foi maior em áreas rurais do que em áreas urba- nas, além disso outro estudo apontou que eram mais predispostos a começar ter filhos adoles- centes de residência rural, casados, com pai ou mãe sem escolaridade e a falta de pais para co- municação em relação a questões de saúde se- xual e reprodutiva, ainda quanto à condição de moradia, o referido estudo demonstra que 68% das entrevistadas referiram morar em residência própria da família de origem e 32% falaram que moravam em residência alugada. Dentro do contexto de acesso aos serviços de saúde, os resultados evidenciaram que, quanto às consultas de pré-natais, as mães ado- lescentes tiveram menos consultas que as mães com idade entre 20 e 35 anos (MOURA et al., 2021), além disso em outro foco da análise as pacientes que tiveram desde a infância um acompanhamento longitudinal e integral pre- visto pela atenção primária, tiveram melhores contextos a longo prazo na adolescência e na vida adulta, apontando assim a relevância e ne- cessidade de um acesso universal e com equi- dade para todas elas, portanto, a atenção básica (AB) tem um papel fundamental no processo de educação em saúde e na preconização de novas formas de ações coletivas e a renovação de prá- ticas promovendo o bem-estar (ALMEIDA et al., 2021). E por fim em relação à escolaridade, de acordo com estudo inglês, a evasão escolar não 22 | P á g i n a está associada com a gravidez na adolescência entre meninas adolescentes inglesas, entretanto outros estudos destacaram que as adolescentes que não estudam têm chances 2,76 vezes maio- res de maternidade adolescente do que suas con- trapartes que têm nível de ensino maior que se- cundário os mesmos autores afirmam ainda que a prevalência de maternidade adolescente foi cerca de quatro vezes maior entre as adolescen- tes com nenhuma educação em comparação com aqueles com maior do que o ensino secun- dário durante o período de 2004-2014, outros estudos ainda documentaram 48% das adoles- centes grávidas pesquisadas tinham menos de 8 anos de estudo, ou seja, não haviam concluído o ensino fundamental, e 64% não estudavam. Em outro sentido da análise, o estudo brasileiro ava- liou os fatores preditores da evasão escolar entre adolescentes com experiência de gravidez e os resultados demonstram que 94,4% das jovens afirmaram ter interrompido os estudos em al- gum momento da vida durante ou após uma gra- videz, sendo que 54,4% abandonaram os estu- dos definitivamente. Além disso, os autores res- saltam que, destas jovens, as que trabalhavam e tiveram gravidez recorrente foram maisfavorá- veis a abandonar os estudos dessa forma o baixo nível de escolaridade foi associado com maiores chances de maternidade adolescente entre as jo- vens que aquelas que têm ensino superior, por- tanto o estudo da associação da gravidez na ado- lescência com a educação como determinante social da saúde é importante, pois a maioria dos trabalhados estudados mostraram que o nível de escolaridade baixo foi associado com maiores chances de maternidade adolescente entre as jo- vens. Impactos da gravidez na adolescência A gravidez na adolescência vem associada com diversos problemas atuais e futuros para essa adolescente, para sua família e pessoas de contato próximo. A gestação nesse período da vida tem maiores chances de risco, e é uma das maiores causas de morte materna, podendo tam- bém haver implicações na saúde do bebê, como a ocorrência de baixo peso do recém-nascido. Dessa forma é importante ressaltar que a adoles- cência é um período extremamente perigoso para uma gravidez, uma vez que tais perigos apresentam-se presentes tanto para o bebê quanto para a parturiente, tanto em questões psi- cológicas, emocionais e fisiológicas. Segundo o Fundo de População das Nações Unidas (UN- FPA) a saúde da jovem pode passar por compli- cações durante a gestação e dificuldades no parto. O UNFPA relata também os desdobra- mentos após o parto, com o destaque de que a parte fisiológica da jovem também pode ser afe- tada (BEZERRA & MATOS, 2022). Além desses impactos para a saúde da mãe e do bebê, é relevante citarmos também os pro- blemas mais imediatos para o contexto de vida dessa jovem. Na questão social, fica evidente que uma gestação precoce poderá dificultar a continuidade dos estudos, acometendo direta- mente a parte educacional de escolarização, for- mação profissional e o acesso futuro ao mercado de trabalho, o que aumentará ainda mais a de- pendência financeira dos pais ou parceiros. Essa situação costuma levar a desdobramentos em que a pubescente eleva seu risco de desemprego, visto que sua pequena escolaridade dificulta a entrada no competitivo mercado de trabalho. Uma vez que, pode-se observar que uma gesta- ção precoce não costuma ser planejada, o que pode levar a mudanças bruscas na rotina dos jo- vens e das famílias. Como já dito anteriormente a o contexto da gravidez na adolescência acaba influenciando no âmbito familiar, pois a possível situação de desemprego ou emprego de baixa remuneração pela jovem, acarretará gastos para sua família. Além disso, outro fator de importante destaque 23 | P á g i n a é que a maioria das gestações precoces ocorre fora do contexto de uma relação formal, ou seja, a pubescente e o pai da criança não são nem na- morados. Frente a essa situação, é comum que ao invés de encontrar apoio, a jovem se depare com repressão familiar, o que pode somar no seu comprometimento psicológico e contribuir para uma possível fuga de casa, o que piora ainda mais o contexto da gravidez na adolescên- cia e o aumento dos riscos para o feto e a mãe (BEZERRA & MATOS, 2022). Retomando um pouco mais a fundo aos pro- blemas de saúde materna e do bebê, é impres- cindível expor que o bebê pode apresentar alte- ração no crescimento e no desenvolvimento, caso sejam fruto de um parto prematuro em de- corrência do corpo da pubescente ainda não es- tar completamente formado, de modo que é co- mum que tais recém-nascidos apresentem baixo peso (Organização Mundial da Saúde, 2020). Já para as adolescentes grávidas tem riscos aumen- tados para infecções puerperais, anemia e pré- eclâmpsia. Por fim, em relação aos impactos da gravi- dez na adolescência é significativo ressaltar o fato da gravidez precoce encontra-se associada à recorrentes casos de disseminação de IST’s. Além disso, também relacionado gestação inde- sejada, encontra-se a questão do aborto. Sobre o assunto, afirmam que “[...] o aborto inseguro é um dos maiores problemas de negligência à sa- úde da mulher, gerando inúmeras consequências sexuais e reprodutivas” (BEZERRA & MA- TOS, 2022). Importância do conhecimento dos adolescentes ao iniciar a vida sexual O baixo conhecimento das práticas contra- ceptivas está associado ao planejamento de gra- videz, aumentando em 4,5% as chances de uma gravidez não planejada (DE ARAÚJO & NERY, 2018). A maioria dos adolescentes pos- suem conhecimento insuficiente ou até mesmo ausente sobre métodos contraceptivos, o que contribui para o uso incorreto dos mesmos. Dessa forma, de acordo com o artigo (PIANTA- VINHA & MACHADO, 2022) a maior preva- lência é do uso do preservativo masculino e do anticoncepcional oral, mas estes em maioria são utilizados sem orientação de profissionais da sa- úde como fonte de informação para o uso cor- reto dos métodos. Sendo assim, mediante a esse contexto re- tratado para Villela & Doreto (2006), é impor- tante ainda ressaltar que os maiores índices de gravidez na adolescência se encontram nas po- pulações mais pobres e com baixa escolaridade, ficando evidente, uma maior dificuldade de acesso a informações e contraceptivos (DA SILVA, 2018). Como já dito anteriormente, as meninas adolescentes são as mais atingidas com a falta de informações e orientações seguras so- bre educação sexual, uma vez que a gravidez na adolescência é um problema de saúde pública tanto para a saúde materna como para a saúde infantil (CHEROBINI et al., 2022). O artigo de Cherobini et al. (2022), por meio de pesquisas evidenciou que a educação em sa- úde na escola é uma das mais importantes estra- tégias educativas para prevenção de gravidez na adolescência, uma vez que é nas escolas que os adolescentes iniciam a vivência da sexualidade, expressão suas dúvidas e questionamentos, além de estarem dispostos a receberem orientações sobre a questão da sexualidade, pois é nessa fase que está presente a descoberta do próprio corpo e do prazer sexual. Essa prática é orientada pe- los órgãos mundiais de saúde (Nações Unidas, UNESCO e OMS). Considerando os problemas já ditos, um fator que contribui negativamente é o fato do relacionamento sexual e os modos de viver a sexualidade estarem sendo explorados cada vez mais cedo. Sendo que tal fato vem 24 | P á g i n a sendo desacompanhado de uma orientação efe- tiva que possa nortear os adolescentes sobre a prevenção de gravidez indesejada e de ISTs (CHEROBINI et al., 2022). Dessa forma, podemos concluir que o co- nhecimento não é o único fator responsável, mas contribui significativamente para o desfecho da gravidez não planejada. Porém, outros fatores, como idade, sexarca, renda, estado civil e esco- laridade estão também associados à gravidez na adolescência e ao não planejamento da gestação (DE ARAÚJO & NERY, 2018). Contraceptivos e infecções sexualmente transmissíveis O conhecimento dos adolescentes acerca dos métodos contraceptivos e das infecções se- xualmente transmissíveis é um tópico muito im- portante de ser abordado. Começando então fa- lando dos métodos contraceptivos temos que em resumo o conhecimento sobre eles na faixa etá- ria estudada é muito precário (DOS SANTOS, 2021) na maioria o conhecimento era insufici- ente ou até mesmo ausente (PIANTAVINHA, 2022). Uma vez que, as principais fontes de in- formações desses adolescentes são a família, a escola e os amigos, levantando assim um ques- tionamento sobre a atuação dos profissionais de saúde, que parece ser restrita, no que tange à as- suntos de contracepção e saúde sexual de forma geral (DOS SANTOS, 2021). Dessa forma, fica evidente também que a maioria dos adolescentes ainda não tiveram acesso a informações e serviços adequados ao atendimento de suas necessidades de saúde se- xual e reprodutiva que os orientassem a tomar decisões de maneira livre e responsável (PIAN- TAVINHA & MACHADO, 2022).Essa baixa participação dos profissionais de saúde como fonte de informação, reflete na qualidade das in- formações e na edição sexual fornecida para as adolescentes. Um outro fator que se relaciona muito com o nível de conhecimento dos adolescentes sobre os métodos contraceptivos é a questão social, um estudo realizado identificou que estudantes das escolas privadas conhecem um maior nú- mero de métodos anticoncepcionais do que os das escolas públicas. Além disso, outro ponto que contribui negativamente para a educação se- xual dos adolescentes é a ausência ou a pouca abordagem de temas referentes ao corpo e à se- xualidade na escola e em casa. Em casa, muitos pais não se dispõem ou encontram dificuldades em assumir o papel de protagonista na constru- ção do conhecimento dos seus filhos em relação à sexualidade. Já nas escolas, muitas vezes, por falta de preparação dos professores, deixa-se de discutir a dimensão subjetiva da sexualidade. Com isso, a abordagem sobre o tema acaba se tornando meramente biológica e distante das ne- cessidades vividas pelos jovens alunos. Medi- ante essas questões, é importante ressaltar que a ausência de uso da mesma linguagem e aborda- gem sobre a educação sexual na escola, na famí- lia e na rede de saúde se apresenta como outra barreira na qualidade educacional dos adoles- centes (PIANTAVINHA & MACHADO, 2022). Em pesquisas realizadas os métodos contra- ceptivos mais referidos e conhecidos pelos ado- lescentes foram o preservativo masculino e o anticoncepcional oral. Sendo interessante desta- car que o preservativo masculino é um método de fácil uso, acessível e de baixo custo, sendo mais frequentemente usado nas primeiras rela- ções sexuais (PIANTAVINHA & MACHADO, 2022). No que diz a respeito à escolha dos mé- todos contraceptivos é importante avaliar vários fatores, como a história pessoal, vulnerabilidade a infecções de transmissão sexual, condições clínicas, custo e acesso, comunicação com o parceiro, intenções reprodutivas e questões cul- turais e mitos sobre a contracepção. Dessa 25 | P á g i n a forma é essencial que as mulheres sejam infor- madas sobre todas as opções contraceptivas dis- poníveis, sendo imprescindível que haja uma orientação de profissionais da saúde como já mencionado (DA SILVA, 2018). Por fim, vamos abordar um pouco mais a fundo sobre as IST’s. Dessa forma, identificou que as adolescentes que vivem relacionamentos mais estáveis, independente da condição econô- mica e escolar, priorizam a prevenção de gesta- ção, ao invés das IST e HIV/aids. Nesse sentido, as IST e DST são temáticas apontadas com fre- quência, com destaque para as vulnerabilidades associadas à sua contração, sobretudo os fatores de risco, tais como o desconhecimento dos mé- todos contraceptivos e, consequentemente, uso incorreto dos mesmos (DOS SANTOS, 2021). Ademais, identificou ainda que o desconhe- cimento e uso incorreto dos métodos contracep- tivos, o fato de não estudar ou ter parado de es- tudar, não residir com a família, ter tido mais de 10 parceiros sexuais no último ano, ter parceiro fixo no último ano e ter feito sexo em troca de dinheiro ou favores, são fatores relacionados à gravidez na adolescência e contração de IST e DST (DOS SANTOS, 2021). Além de todos es- ses pontos já citados, ainda acreditasse que a ex- periência sexual precoce está associada com as IST, mais parceiros sexuais, uso inconsistente de contraceptivos, gravidez indesejada e sexo com parceiros de risco (VIEIRA et al., 2021). Em um estudo as participantes do sexo fe- minino apresentavam ter um maior conheci- mento a respeito dos métodos contraceptivos e prevenção de IST, embora relatassem menor adesão ao uso de preservativos e maior utiliza- ção de contraceptivos orais e contracepção de emergência (VIEIRA et al., 2021). Dessa forma, acredita-se que o conhecimento apropriado a respeito das mudanças durante a puberdade, se- xualidade, vias de transmissão/prevenção de IST, são fundamentais para a manutenção da sa- úde e bem-estar, assim como na prevenção de gestações não planejadas e IST (VIEIRA et al., 2021). Projetos de intervenção para evitar a gravidez na adolescência De acordo com o já descrito em nossa aná- lise, em 2015 nos objetivos da ONU dentro do desenvolvimento sustentável tivemos em Nova York uma discussão acerca da necessidade de se ater às necessidades e direitos dos adolescentes, sendo uma das lutas a gravidez na adolescência, entretanto no Brasil já vem sendo realizado es- tratégias públicas desde a Constituição Federal de 1988 e a regulamentação do Sistema Único de Saúde (SUS), e foi feito nesse mesmo con- texto a criação da Lei Orgânica da Saúde que estabelece os fatores determinantes e condicio- nantes da saúde, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambi- ente, o trabalho, a renda, a educação, a atividade física, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais, a partir disso vamos trazer alguns estudos que identificaram em seu escopo alguns desses dados de forma mais aprofundada que nos esclareça e embase formas que já vem sendo realizadas e que podem ser usadas conco- mitantemente as últimas para nos proporcionar mais ferramentas e habilidades para diminuir ou até evitar a gravidez na adolescência (MOURA et al., 2021). Em sua maioria os artigos abordaram prin- cipalmente o papel da educação como um es- paço privilegiado para ações de promoção de sa- úde e educação sexual em razão do seu caráter formativo, o que pode servir de estímulo à mu- dança de comportamentos e hábitos dos adoles- centes sendo assim de suma importância que as escolas reconheçam e aceitem a sexualidade como parte do processo de desenvolvimento da criança (CHEROBINI et al., 2022), ainda nesse 26 | P á g i n a raciocínio o mesmo estudo apresentou que mesmo com pequenos resultados, a abordagem da educação por pares à educação em saúde se- xual é altamente valorizada entre os alunos é vista como positiva pelos educadores, além disso não só as instituições de educação mas os centros de saúde contribuírem para a prevenção da gravidez na adolescência fornecendo acesso a informações, serviços de saúde reprodutiva, incluindo hormonais e de ação prolongada, con- tracepção reversível, aconselhamento contra- ceptivo e sexualidade e educação, sendo nesses últimos identificado um significativo impacto dos programas de educação em saúde no uso de contraceptivos e na redução das taxas de gravi- dez na adolescência (CHEROBINI et al., 2022). Em outra narrativa realizada no ano de 2018 pela Faculdade Federal de Minas Gerais no es- tado do Acre, foi implementado um projeto de intervenção na população da cidade de Acrelân- dia – AC, na qual possui altos índices de gravi- dez na adolescência. Após ter levantado esse prevalente problema foi dado início aos projetos de intervenção, um dos primeiros se aproxima do relatado anteriormente no estudo de (CHE- ROBINI et al., 2022), uma intervenção educa- tiva para adolescentes e pais para influenciar e garantir futuros conhecimentos e fortalecer pro- gramas abrangentes, enfatizando a prevenção para adiar a primeira relação sexual e, se ela co- meçar, poder acessar e usar os métodos de con- tracepção, isso pode ser realizado através de um bom acolhimento pela atenção básica de saúde, garantir que esse público alvo receba informa- ções de qualidade frequentes sobre esse pro- blema, acesso mais facilitado em relação a pre- servativos e testes de gravidez e também desen- volver estratégias para envolver os adolescentes e jovens do sexo masculino, estimulando a cor- responsabilidade nas questões relacionadas à prevenção da gravidez, das doenças sexual- mente transmissíveis e na criação dos filhos. Como já deixamos claro, a educação é de granderelevância, mas os métodos contraceptivos e co- nhecimento sobre eles também, tanto para redu- zir os índices de gravidez na adolescência quanto para redução da incidência de IST´s den- tro dessa população (CASANOVA, 2018). Além do embasamento na educação a abor- dagem familiar foi indispensável para ajudar os adolescentes nesse momento de amadureci- mento, pois a quebra do tabu entre pais e filhos no momento de discutir e compartilhar experi- ências sobre assunto foram de grande valia para ajudar o adolescente a evitar a gravidez nesta faixa etária, dentre as ações estão influenciar no estilo de vida dos pais que não conseguem falar de sexo com os filhos, ensinar aos pais como li- dar com a gravidez indesejada, ensinar a impor- tância de uma boa comunicação com os filhos e até mesmo realizar encontros de pais e filhos para facilitar a interação entre todos e assim ini- ciar as relações de empatia e entendimento. Um outro ponto que também perpassa pelo apoio familiar e também de responsabilidade do poder público é o que está previsto pela Lei Or- gânica de Saúde e também pelo Estatuto da Cri- ança e do Adolescente (ECA), um equilíbrio en- tre fatores determinantes e condicionantes como na saúde, na alimentação, na moradia, ao sanea- mento básico, no meio ambiente, no trabalho, na renda, na atividade física, no transporte, no lazer e no acesso aos bens e serviços essenciais e por fim e ainda se pautando na responsabilidade dos serviços básicos de saúde um esforço multidis- ciplinar que irá contemplar todos os anseios e habilidades que irão mudar pouco a pouco a re- alidade da gravidez na adolescência, entretanto desenvolvemos mais a frente especificamente o papel da atenção primária e da multidisciplina- ridade no manejo do problema em questão (CA- SANOVA, 2018). Portanto entende que é mais fácil planejar ações preventivas adequadas ao grupo que se 27 | P á g i n a deseja atingir na comunidade, buscando estraté- gias que devem ser colocadas em prática para a redução da gravidez na adolescência, do que atuar quando o problema já está instalado. No entanto, não depende apenas dessas ações para se reduzir a gravidez na adolescência, há um problema cultural e econômico que não está so- mente sobre a governabilidade dos profissionais de saúde. A prevenção em saúde indica uma ação antecipada, baseada no conhecimento das causas de uma condição de saúde, o que pode contribuir na redução da gravidez na adolescên- cia. Prevenir é considerar uma série de fatores para favorecer que o indivíduo tenha condições de fazer escolhas saudáveis e apesar de ter sido em um grupo amostral pequeno as intervenções feitas em Acrelândia-AC, outros estudos repor- taram estratégias e resultados muito parecidos nos dando boas expectativas em relação ao fu- turo sobre o assunto. Multidisciplinaridade no manejo e acompanhamento das adolescentes na atenção primária. O manejo e acompanhamento da gravidez na adolescência é de responsabilidade primor- dial dos profissionais de saúde, pois a atuação em diferentes formas na atenção básica, promo- vendo a saúde de forma integral e contínua é de total importância para essa classe de pacientes, dessa forma explicaremos qual é o papel de cada componente da atenção primária na prevenção de gravidez na adolescência. Inicialmente precisamos entender o papel direto da atenção básica no processo de educa- ção em saúde e na preconização de novas for- mas de ações coletivas e a renovação de práticas promovendo o bem-estar, dessa forma para se alcançar o entendimento dos conhecimentos e informações conhecimentos sobre a fisiologia do ciclo menstrual e contracepção que as mulhe- res possuem passados pelos profissionais de sa- úde deve ser feita uma alfabetização funcional conhecida como letramento em saúde sendo as- sim a habilidade de um indivíduo em obter, ler, compreender e utilizar informações sobre Sa- úde, uma outra abordagem é a responsabilidade para que os profissionais busquem ações para atender as necessidades desses pacientes, inse- rida no contexto social, seja por meio da visita domiciliar, do atendimento individual, das ativi- dades em grupos específicos para adolescentes, jovens e familiares, também se torna como es- tratégia das Unidades Básicas de Saúde facilita- ção do acesso aos preservativos gratuitos até também por ser principal método com mais por- centagem de eficácia existente atualmente, faz- se notável também a capacitação permanente dos profissionais para a realização da educação em saúde com os adolescentes, trazendo a im- portância das práticas sexuais seguras, bem como a humanização e atenção de qualidade a essa faixa etária, visto que são suscetíveis a do- enças e agravos a saúde (ALMEIDA et al., 2021). Ainda nesse raciocínio, cabe às equipes de atenção primária a organização multidisciplinar diferenciada com reuniões semanais e discussão de casos que tragam ideias e projetos de preven- ção de novos casos de gravidez na adolescência em cada contexto específico, deve ser feito tam- bém por cada profissional da saúde uma aborda- gem individual e focada para cada caso e paci- ente. Como dito anteriormente, o papel do mé- dico é rastreamento da gravidez, do estadia- mento de risco que esse evento tem ou pode ter para paciente bem como também transmissão de conhecimento acerca de métodos contraceptivos e sobre processo fisiológico e sexual que leva a gravidez, além disso o psicólogo tem papel de grande relevância e de difícil manejo pois além de tentar entender os anseios do adolescente precisa entender todo contexto em que vive e 28 | P á g i n a suas relações familiares e sociais para a partir daí fazer um trabalho de prevenção e também de redução dos impactos da gravidez na adolescên- cia (ALMEIDA et al., 2021). Um outro profis- sional de fundamental contribuição para o acompanhamento e prevenção da gravidez na adolescência é o enfermeiro que deve auxiliar a escola no desenvolvimento de práticas educati- vas sobre educação sexual, Sendo assim, urge a necessidade de discutir projetos de lei que incor- porem o profissional da enfermagem nas escolas a fim de fortalecer as estratégias de educação em saúde nessas instituições, também cria se a ne- cessidade de incluir nas universidades de enfer- magem e nos currículos, a saúde escolar e como emprego no setor de educação, e não como é re- alizada atualmente, em que a saúde escolar é uma extensão do setor da saúde para o setor edu- cacional, favorecendo, assim, a transversalidade na educação em busca por melhores resultados (CHEROBINI et al., 2022). Portanto fica evidente que os centros de atenção básica precisam cada vez mais de estra- tégias mais atrativas e resolutivas para evitar a gravidez na adolescência e as complicações a ela relacionadas, também seria relevante melho- rar o processo de trabalho da equipe com a fina- lidade de diminuir a gravidez na adolescência, incentivar a prática de uma sexualidade segura, deve também a equipe garantir o funcionamento do binômio prevenção e informação para dimi- nuir este evento na adolescência e nunca se es- quecer da corresponsabilidade de todos os pro- fissionais da saúde frente a esse grande desafio na saúde pública brasileira (CASANOVA, 2018). 29 | P á g i n a REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, A.M.S. et al. Prevenção da gravidez na ado- lescência na atenção primária a saúde: uma revisão inte- grativa. Revista de Casos e Consultoria, [S. l.], v. 12, n. 1, p. e26720, 2021. BEZERRA, T.M. & MATOS, C.C. Impactos da gravidez na adolescência no Brasil. Investigação, Sociedade e De- senvolvimento, [S. l.], v. 11, n. 5, p. e39111528381, 2022. CASANOVA, Y.B. Projeto de intervenção para diminuir o alto índice de gravidez na adolescência na comunidade de Acrelândia, Acre. UniversidadeFederal de Minas Ge- rais. Faculdade de Medicina. Núcleo de Educação em Sa- úde Coletiva. Rio Branco, 2018. CHEROBINI, M.D.B. et al. Educação em saúde para a prevenção da gravidez na adolescência: revisão integra- tiva. Revista Recien - Revista Científica de Enfermagem, [S. l.], v. 12, n. 40, p. 9–23, 2022. COSTA, G.P.O. et al. Conhecimentos, atitudes e práticas sobre contracepção para adolescentes. Journal of Rese- arch Fundamental Care Online, v.8, n. 1, p. 3597- 3608, 2016. DA SILVA, J.Q. et al. Métodos contraceptivos e gravidez na adolescência: Um relato de adolescentes no município de Bom Jesus do Itabapoana-RJ. Múltiplos Acessos, v. 3, n. 1, 25 jun. 2018. DE ARAÚJO, A.K.L. & NERY, I.S. conhecimento sobre contracepção e fatores associados ao planejamento de gravidez na adolescência. Cogitare Enfermagem, [S.l.], v. 23, n. 2, maio 2018. DOS SANTOS, C. et al. Contracepção e adolescência(s): revisão integrativa. Estudos Interdisciplinares em Psico- logia, [S. l.], v. 12, n. 3, p. 137–163, 2021. LEITE, A.C. et al. Knowledge and use of contraception in adolescence: contributions of nursing care. Research, Society and Development, [S. l.], v. 10, n. 11, p. e437101119575, 2021. MOURA, F. et al. Determinantes sociais da saúde relaci- onados à gravidez na adolescência. Revista de Saúde Pú- blica do Paraná, v. 4, n. 1, p. 133-150, 30 abr. 2021. NEIVA-SILVA, L. et al. Experiência de gravidez e aborto em crianças, adolescentes e jovens em situação de rua. Ciência & Saúde Coletiva, v. 23, n.4, p. 1055-1066, 2018. PAIVA, A.M. et al. Fatores que propiciam a gravidez na adolescência em uma unidade de referência especializada materno infantil na região Norte do Brasil: um estudo pi- loto. Revista Eletrônica Acervo Saúde, n. 49, p. e3342, 2020. PIANTAVINHA, B.B. & MACHADO, M.S. Conheci- mento sobre métodos contraceptivos de adolescentes atendidas em Ambulatório de Ginecologia. Femina, v. 50, n. 3, p. 171-7; 2022. ROSANELI, C.F. et al. Proteção à vida e à saúde da gra- videz na adolescência sob o olhar da Bioética. Physis: Re- vista de Saúde Coletiva, v. 30, 2020. SILVA, S.M.D.T. et al. Diagnóstico do conhecimento dos adolescentes sobre sexualidade. Acta Paulista de Enfer- magem, v. 33, 2020. SPINDOLA, T. et al. As gestantes adolescentes e o em- prego dos métodos contraceptivos. Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental, v. 4, n. 1, p. 2636- 2646, 2012. UNESCO. Early and unintended pregnancy & the educa- tion sector: Evidence review and recommendations. Paris, p. 68, 2017. VERLI, M.V.A. Gravidez na adolescência no contexto social. Revista Panorâmica online, [S. l.], v. 31, n. 1, 2020. VIEIRA, K.J. et al. Início da atividade sexual e sexo pro- tegido em adolescentes. Escola Anna Nery, v. 25, n. 3, p. e20200066, 2021. 30 | P á g i n a Palavras Chave: Gonorreia; Neisseria Gonorhoeae; Tratamento. Capítulo 4 CAMILA GUIMARÃES MACIEL DE CASTRO¹ DAVI FERNANDO GOMES PEREIRA¹ MARIELA STHEFANY SILVA¹ VITÓRIA FIGUEIREDO GARRIDO CABANELLAS NOGUEIRA¹ 1. Discente - Medicina, Universidade de Itaúna (UIT), Itaúna-MG. GONORREIA 31 | P á g i n a INTRODUÇÃO A gonorreia é uma infecção sexualmente transmissível (IST), sendo, dentre as de origem bacteriana, a segunda mais observada em escala mundial. Nesse sentido, constitui-se como um problema de saúde pública a ser enfrentado. Embora tenha-se observado uma redução do nú- mero de casos, essa IST ainda apresenta, princi- palmente no que tange aos países em desenvol- vimento, um grau de morbidade significante. Tal fato se deve a um conjunto de fatores sociais e comportamentais, mas também à resistência antimicrobiana manifestada pelo patógeno cau- sador, Neisseria gonorrhoeae (NG) (HE- MSELL, 2014). Vale ressaltar que a gonorreia é uma doença que tem sido motivo de grande preocupação pela Organização Mundial de Saúde (OMS), de- vido ao fato de ser transmitida por meio da rela- ção sexual desprotegida, além de ser de fácil propagação, principalmente entre as populações socioeconomicamente vulneráveis e as com maior promiscuidade sexual. Estima-se que em 2016, segundo a OMS, cerca de 87 milhões de indivíduos adquiriram essa infecção global- mente, com taxas de incidências em 20 por 1000 mulheres e 26 por 1000 homens (CHEMAI- TELLY, 2021). Além disso, a infecção retal, re- gião comum de acometimento, é responsável por cerca de 70 milhões de casos em todo o mundo. Calcula-se que a incidência de NG varia de 0,6% a 35,8% em mulheres, 0,0% a 5,7% em homens que fazem sexo com mulheres e de 0,2% a 24% em homens que fazem sexo com outros homens (HSH) (LO et al., 2021). Ade- mais, vale salientar que foi observada uma asso- ciação entre as infecções por gonorreia e por clamídia, que varia de 40 a 46% (NGUYEN et al., 2022). A NG, ou gonococo, se constitui como um patógeno gram negativo, não flagelado, en- capsulado, anaeróbio facultativo e que não forma esporos (Figura 4.1). As infecções cau- sadas por essa bactéria, podem afetar e provo- car sintomatologia em indivíduos de ambos os sexos. Os homens tendem a procurar os servi- ços de saúde de forma mais rápida, logo, evita-se uma extensão do quadro. No entanto, nas mulheres, a variabilidade clínica pode fa- zer com que as mesmas procurem o atendi- mento já em fases mais tardias, apresentando, muitas vezes, complicações, a exemplo da do- ença inflamatória pélvica (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2021). Figura 4.1 Diplococos gram-negativos intracelulares sugestivos de Neisseria gonorrhoeae Fonte: Ministério da Saúde, 1997. No que tange às repercussões que essa do- ença pode gerar para a mulher acometida, pode-se destacar: DIP, infertilidade, além de consequências na gestação como gravidez ec- tópica e prematuridade (GONÇALVES, 2021). No caso dos homens, repercussões como orquiepididimite e proctite, com tendên- cia à formação de abscessos e fístulas, podem surgir, predominantemente, nos HSH (ROSS, 2019). 32 | P á g i n a Infecção pela Neisseria gonorrhoeae A gonorreia pertence ao grupo de ISTs que cursam com Síndrome de Corrimento Genital (uretral ou vaginal). Diante disso, as mulheres que sofrem com o quadro devem ser instruídas quanto às características da condição, pois o di- agnóstico de uma IST acarreta em implicações que não estão presentes nos corrimentos de eti- ologia não-IST. Ademais, é fundamental deter- minar se existe uma infecção verdadeira ou se é apenas um corrimento vaginal fisiológico (GONÇALVES, 2021). Todavia, por ser assintomática em grande parte do grupo feminino e ter seu tratamento re- alizado, muitas vezes, de forma inapropriada, torna-se essencial um rastreio mais fidedigno entre aqueles com fatores de risco para a infec- ção e em gestantes, sendo que, por ora, deve-se tratar o parceiro. Tal fato tem como objetivo principal evitar que a NG torne-se uma bactéria super-resistente (CHEMAITELLY, 2021). Fisiopatologia É importante evidenciar que a NG invade as células epiteliais colunares e transicionais, pas- sando para o meio intracelular. Por isso, o epi- télio vaginal não está envolvido (HEMSELL, 2014; GONÇALVES, 2021). A ligação com essa camada epitelial da mucosa, mediada em parte pelos pili e pela proteína Opa, é prosse- guida, em 24 - 48 horas, pela penetração do or- ganismo entre e através das células epiteliais para, assim, alcançar o tecido submucoso. Nesse processo, existe uma resposta intensa de poli- morfonucleares, levando à descamação do epi- télio, desenvolvimento de microabscessos sub- mucosos e formação de exsudato. Posterior- mente, sobretudo em infecções não tratadas, os macrófagos e linfócitos irão substituir gradual- mente os polimorfonucleares. Ressalta-se, ainda, que tal infiltraçãomononuclear e linfocítica anormal persistirá nos tecidos por várias semanas após a negativação das cultu- ras e a não identificação da NG na histologia (PENNA et al., 2000). Ou seja, após o contato sexual com o hos- pedeiro e a quebra das barreiras naturais da mucosa, a infecção progride para a doença em um período relativamente curto (2 a 5 dias). Em geral, ocorrerá um processo autolimitado e sem maiores consequências, porém, em al- guns casos, existirão complicações no apare- lho urogenital ou à distância, causando altera- ções sindrômicas (PENNA et al., 2000). Sintomatologia Os sinais e sintomas da gonorreia variam de acordo com o local da infecção, sendo eles: mucosas do trato urogenital, faringe, reto e conjuntiva ocular (PENNA et al., 2000; CEN- TERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2021). A sintomatologia referente à infecção pela NG no trato reprodutor inferior feminino pode se manifestar como vaginite ou cervicite. Em mulheres que apresentam a cervicite, deve-se ficar atento à secreção vaginal, que se caracte- riza por ser profusa, sem odor, não irritante e de cor branca-amarelada (Figura 4.2). Entre- tanto, também é possível a ascensão de tais bactérias em direção ao endométrio ou às tu- bas uterinas, levando a infecção do trato re- produtivo superior. Além disso, pode-se in- fectar as glândulas de Bartholin e Skene, cau- sando bartolinite e esquenite, respectiva- mente, bem como a uretra, levando à uretrite (Figura 4.3) (HEMSELL, 2014). Desse modo, uma anamnese detalhada é fundamen- tal diante de um corrimento genital. Destaca- se, ainda, a relevância da caracterização do corrimento, quanto a cor, consistência e odor, bem como a presença de outros sintomas, 33 | P á g i n a como prurido e irritação genital. Ademais, deve- se colher um breve relato das práticas sexuais e da higiene genital da mulher, bem como o uso de medicamentos tópicos ou potenciais irritan- tes locais (GONÇALVES, 2021). Figura 4.2 Cervicite Legenda: cervicite purulenta visualizada por meio do exame especular. Evidencia-se secreção branco-amare- lada exteriorizando-se pelo colo cervical. Fonte: Goldfarb, 1998. Figura 4.3 Uretrite Legenda: Glande inflamada e secreção uretral purulenta em um paciente com gonorreia. Fonte: Penna; Hajjar; Braz, 2000. Vale lembrar que, muitas mulheres que pos- suem NG no colo do útero são assintomáticas, o que demonstra a necessidade de rastrear regu- larmente aquelas em grupos de alto risco. São fatores de risco para gonorreia: mulheres sexu- almente ativas com idade igual ou inferior a 25 anos, com múltiplos parceiros, com outras ISTs prévias ou mesmo associadas, profissionais do sexo, com infecção prévia por gonococo e em uso irregular do preservativo. Dessa forma, o rastreamento anual para essas mulheres torna- se recomendado (HEMSELL, 2014). No que se refere aos HSH, é benéfico que a triagem seja feita a cada 3-6 meses naqueles que estão sob alto risco de adquirir HIV, que não pos- suem parceiro fixo e que fazem abuso de dro- gas (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2021). A infecção faríngea, por sua vez, é comum em pessoas que praticam sexo oral. Os sinais e sintomas desse acometimento incluem dor, faringite, hiperemia, edema das tonsilas pala- tinas, presença de material purulento, odino- fagia, febre e aumento dos gânglios linfáticos do pescoço (CHARLOTTE et al., 2019; CEN- TERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2021). Já a infecção retal pode apresentar sintomas como dor, sangra- mento, secreção retal mucopurulenta, tenesmo e diarreia (LO et al., 2021). Entretanto, na maioria das vezes, tais quadros são assintomá- ticos, o que pode resultar em um diagnóstico tardio e no aumento do risco de complicações (CHARLOTTE et al., 2019; CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2021). Não é incomum que a infecção por NG possa se manifestar como uma conjuntivite, caracterizada por hiperemia conjuntival, edema, secreção purulenta e desconforto ocu- lar (PENNA et al., 2000). É relevante que o diagnóstico diferencial seja realizado com ou- tras causas de conjuntivite, como alergias, in- fecções virais ou bacterianas não gonocócicas (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1997). Em casos suspeitos, a cultura deve ser realizada a partir de amostras oculares para confirmar o diag- nóstico (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1997). Destaca-se, ainda, que a infecção conjuntival gonocócica (Figura 4.4) pode ocorrer de forma isolada ou concomitante com outras 34 | P á g i n a manifestações clínicas de infecção por NG, como a uretrite (GONÇALVES, 2021). Figura 4.4 Conjuntivite gonocócica Legenda: Descarga profusa na conjuntivite gonocócica bacteriana. Fonte: Kanski & Menon, 2003. Diagnóstico Nesse contexto, é de suma importância fazer o diagnóstico precoce da doença, a fim de dimi- nuir o número de infectados. Por conseguinte, atualmente, recomenda-se o emprego dos testes não culturais (NAAT) que detectam a bactéria através da presença do seu DNA, por meio de uma análise da Reação de Cadeia da Polimerase (PCR). Esses testes são realizados a partir de co- letas específicas de amostras de vagina, ectocér- vice e urina. Cabe enfatizar que, para mulheres submetidas a histerectomia, sem a preservação do colo uterino, a coleta é realizada com a pri- meira urina da manhã. No entanto, para infec- ções gonocócicas na faringe ou no reto, os testes NAAT não estão habilitados pela Food and Drug Administration (FDA) para identificação diagnóstica da doença. Portanto, nessas situa- ções, deve-se realizar culturas das regiões ana- tômicas desejadas (HEMSELL, 2014). Novos ensaios clínicos têm sido realizados na literatura médica a fim de se obter o diagnós- tico da doença gonocócica mais rapidamente, promover o tratamento adequado e minimizar as repercussões negativas proporcionadas pela NG à população, principalmente, para as pessoas que possuem maiores riscos de se infectar com a bactéria. Logo, um estudo realizado por CHARLOTTE et al., 2019 demonstrou eficá- cia dos testes rápidos para a identificação do germe em leitos de departamentos de emer- gência em pessoas que possuíam sinais clíni- cos da infecção gonocócica. Esses testes apre- sentam sensibilidade e especificidade seme- lhantes aos NAAT. Contudo, os testes rápidos têm sido uma proposta diagnóstica promissora em relação ao NAAT, pois ao fazer o diagnós- tico instantâneo da doença permite o trata- mento precocemente (CHARLLOTE et al., 2019). Ademais, pesquisas científicas realizadas por Valala et al., 2021 trouxeram conclusões importantes a respeito dos testes NAAT, se- gundo eles, as amostras poderiam ser coleta- das pelo próprio paciente, sendo que elas apre- sentaram qualidades semelhantes às colhidas por médicos ou outros profissionais de saúde. Logo, a autocoleta de amostras para o diag- nóstico da gonorreia tem sido alvo de relevân- cia na literatura e apresenta benefícios, como não sobrecarregar o sistema de saúde, promo- ver tratamento rápido e eficaz, além de evitar a super-resistência da NG. Todavia, ainda continua sendo os testes NAAT o protocolo padrão de diretrizes internacionais, como o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), para a comprovação da doença (VA- LALA et al., 2021). Tratamento Sabe-se que a emergência de cepas da NG resistentes aos antimicrobianos é uma adver- sidade em escala mundial, tendo em vista sua ameaça à saúde pública. Diante disso, o ma- nejo dessa entidade clínica tem sido cada vez mais explorado, a fim de se obter maior su- cesso no tratamento e, consequentemente, re- duzir as taxas de complicações e de trans- 35 | P á g i n a missão. No ano de 2007, com o aparecimento de cepas da NG resistentes às fluoroquinolonas nos Estados Unidos, o CDC retirou sua indicação acerca do uso deste antimicrobiano,de modo que a terapêutica contra a gonorreia naquele país limitou-se às cefalosporinas. Posterior- mente, em 2010, diante da preocupação com a resistência antimicrobiana, foi instituída pelo CDC, uma terapia dupla para gonorreia, com ce- falosporina associada a azitromicina ou doxici- clina, para todos os pacientes, mesmo entre aqueles em que fora afastado o diagnóstico de clamídia após o teste. Todavia, essa medida foi suspensa alguns anos após, tendo em vista as preocupações em relação aos prejuízos poten- ciais à microbiota (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2021). Atualmente, o regime terapêutico recomen- dado pelas diretrizes do CDC como primeira es- colha para infecções gonocócicas não complica- das do colo uterino, uretra, reto ou faringe, é ceftriaxona 500 mg intramuscular em dose única, para pessoas com peso <150 kg, ou 1 g se ≥150 kg. Ademais, com o objetivo de mitigar a transmissão da gonorreia, os pacientes devem se abster de atividade sexual por 7 dias após a an- tibioticoterapia e a resolução dos sintomas, se presentes, bem como até que todos os parceiros sejam tratados. É válido lembrar, ainda, que to- dos diagnosticados com essa infecção devem in- vestigar outras ISTs, incluindo clamídia, sífilis e HIV. Vale salientar que não é raro encontrar simultaneamente indivíduos infectados por go- norreia e clamídia, logo, se esta não puder ser excluída, deve ser tratada com doxiciclina 100 mg por via oral, 2 vezes ao dia durante 7 dias, de acordo com o CDC (CENTERS FOR DI- SEASE CONTROL AND PREVENTION, 2021). Como regimes alternativos preconizados pelo CDC, em caso de alergia às cefalosporinas, tem-se a gentamicina 240 mg intramuscular, em uma dose única, associado à azitromicina 2 g por via oral, em dose única. Se a ceftriaxona estiver indisponível ou sua administração for inviável, pode-se ainda empregar cefixima 800 mg por via oral, em dose única (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2021). Após a finalização do tratamento, os paci- entes devem efetuar um teste de cura, exclu- indo-se aqueles que obtiveram gonorreia uro- genital ou retal não complicada. Portanto, os indivíduos com gonorreia faríngea devem re- tornar após 7 a 14 dias de uso do antimicrobi- ano indicado, para realizar nova testagem, seja pela cultura ou pelo NAAT. Se o NAAT for o método escolhido e vier positivo, indica-se re- alizar uma cultura para confirmação, antes de reiniciar a terapia. Além disso, todas as cultu- ras positivas devem ser submetidas ao antibi- ograma (CENTERS FOR DISEASE CON- TROL AND PREVENTION, 2021). Apesar de todos os esforços, é grande a prevalência de uma nova infecção pela NG em indivíduos previamente tratados, o que sugere uma reinfecção resultante do não tratamento ou da terapia inadequada do parceiro, bem como de uma relação desprotegida com um novo parceiro. Logo, os infectados por essa IST devem ser testados para a mesma nova- mente, 3 meses após a terapêutica (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVEN- TION, 2021). Logo, a gonorreia possui índices signifi- cantes dentro do cenário epidemiológico das ISTs no Brasil. Ademais, sabe-se que são mui- tos os impactos que a infecção gonocócica pode gerar na população, como agravos à morbidade e à qualidade de vida dos indiví- duos acometidos, bem como os elevados cus- tos em saúde pública, constituindo-se como um problema de cunho social relevante a ser 36 | P á g i n a considerado. Portanto, evidencia-se a necessi- dade de ações mais efetivas para redução do nú- mero de casos da NG no país. Nesse panorama, tornam-se ferramentas fundamentais: a identifi- cação das pessoas que estão sob alto risco, o di- recionamento delas para a triagem, o diagnós- tico pelos métodos recomendados e a instituição do tratamento correto. Vale destacar, por fim, a importância da cautela no que diz respeito à terapêutica desta entidade clínica, bem como a necessidade de novos estudos comparativos acerca dos antibióticos indicados, tendo em vista a ascensão da resistência aos antimicro- bianos. 37 | P á g i n a REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVEN- TION. Gonococcal infections among adolescents and adult. 2021. Disponível em: <https://www.cdc.gov/ std/treatment-guidelines/gonorrhea-adults.htm#print>. Acesso em: 15 de abr. de 2023. CHARLOTTE, A.G. et. al. Use of a Rapid Diagnostic for Chlamydia trachomatis and Neisseria gonorrhoeae for Women in the Emergency Department Can Improve Cli- nical Management: Report of a Randomized Clinical Trial. Ann Emerg Med, v. 74, n. 1, p. 36- 44, 2019. CHEMAITELLY, H. et.al. Global epidemiology of Neis- seria gonorrhoeae in infertile populations: systematic re- view, meta-analysis and metaregression. Sexually Trans- mitted Infections, v. 97, p. 157- 169, 2021. GOLDFARB, A.F. Atlas of clinical gynecology: Pedia- tric and adolescent gynecology. Editado por M Stenche- ver (editor da série). Philadelphia: Current Medicine. ISBN-10: 0838503187. 1998. GONÇALVES, A.K. Infecções sexualmente transmis-sí- veis. In: LIAO, A. et al. Ginecologia e obstetrícia Fe- brasgo para o médico residente - coordenação Almir An- tonio Urbanetz. - 2. ed., rev. e ampl. - Barueri [SP]: Ma- nole, 2021. p. 184-213. HEMSELL, D.L. Infecção Ginecológica. In: HOFF- MAN, B.L. et al. Ginecologia de Williams [recurso ele- trônico]; tradução: Ademar Valadares Fonseca [et al.]; [coordenação técnica: Suzana Arenhart Pessini; revisão técnica: Ana Paula Moura Moreira et al.]. – 2. ed. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre: AMGH, p. 64-109, 2014. KANSKI, J. & MENON, J. Clinical Ophtalmology: a sys- tematic approach. 5th ed. Edinburgh: Butterworth Heine- mann; 2003. p. 62-77. LO, F.W.Y. et al. Eficácia do tratamento para Neisseria gonorrhoeae retal: uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados. Journal of Anti-micro- bial Chemotherapy, v. 76, n. 12, pág. 3111-3124, 2021. MINISTÉRIO DA SAÚDE (Brasil). Cultura, isolamento e identificação da Neisseria gonorrhoeae. - Brasília: Mi- nistério da Saúde, Programa Nacional de Doenças Sexu- almente Transmissíveis e AIDS. 1997, 72p.: il. (Série TE- LELAB). Disponível em: https://bvsms.saude. gov.br/bvs/publicacoes/cd0706.pdf. Acesso em: 02 mai. 2023. NGUYEN, P.T.T. et al. Randomized controlled trial of the relative efficacy of high-dose intravenous ceftriaxone and oral cefixime combined with doxycycline for the tre- atment of Chlamydia trachomatis and Neisseria gonor- rhoeae co-infection. BMC Infectious Diseases, v. 22, n. 1, p. 1-9, 2022. PENNA, G.O. et al. Gonorréia. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 33, n. 5, p. 451–464, set. 2000. ROSS, J.D.C. et al. Gentamicina comparada com ceftria- xona para o tratamento da gonorréia (G-ToG): um estudo randomizado de não inferioridade. The Lancet, v. 393, n. 10190, pág. 2511-2520, 2019. VALALA, G. et. al. Adolescents may accurately self- collect pharyngeal and rectal clinical specimens for the detection of Chlamydia trachomatis and Neisseria gonor- rhoeae infection. Plos one, v. 16, n. 9, 2021. 38 | P á g i n a Palavras Chave: Vaginite; Vaginose; Infecções Vaginais; Diagnóstico; Tratamento. Capítulo 5 GABRIELA SILVEIRA ANATÓLIO LIMA¹ LAURA VASCONCELOS RODRIGUES DE OLIVEIRA TONELLO¹ LAURA MOORE GAISSLER¹ LAURA FIGUEIRÓ EULER VAZ DE MELO FERNANDES¹ 1. Discente - Medicina da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais - FCMMG. VAGINITE E VAGINOSE 39 | P á g i n a INTRODUÇÃO A vaginite refere-se à inflamação da va- gina, que pode ser causada por diversos agen- tes, como bactérias, fungos, vírus e protozoá- rios. A vaginose, por sua vez, é uma condição específica caracterizada pelo desequilíbrio da microbiota vaginal,com um aumento de bac- térias anaeróbias em relação às bactérias lac- tobacilos, que normalmente predominam na vagina saudável, mas sem presença de infla- mação importante. Essas condições podem re- sultar em sintomas como corrimento vaginal anormal, prurido, ardor, dor durante a relação sexual e odor desagradável, afetando signifi- cativamente a qualidade de vida das mulheres (LINHARES et al., 2019). A epidemiologia das vaginites e vaginoses é ampla e varia de acordo com o agente cau- sador e a população estudada. Estima-se que a vaginite causada por Candida spp., um tipo de fungo, seja a forma mais comum de vaginose, afetando cerca de 75% das mulheres em al- gum momento de suas vidas (TORTORA, 2005). As vulvovaginites e vaginoses repre- sentam as queixas mais frequentes nos consul- tórios de ginecologia, sendo responsáveis por aproximadamente 40% dos motivos de con- sulta (LINHARES et al., 2019). No Brasil, estudos epidemiológicos têm relatado uma alta prevalência de vaginose bacteriana em mulheres em idade reprodutiva. Um estudo realizado em uma cidade do sul do Brasil identificou uma prevalência de vagi- nose bacteriana em 63,82% da amostra. (GALLO et al., 2016). Outro estudo realizado em uma maternidade no sudeste do Brasil en- controu uma prevalência de vaginose bacteri- ana de 20,7% em mulheres grávidas (GONDO et al., 2010). As vaginites e vaginoses têm uma relevân- cia clínica significativa. Além dos sintomas incômodos que podem afetar a qualidade de vida das mulheres, essas condições também estão asso- ciadas a complicações obstétricas, aumentando o risco de parto prematuro, ruptura prematura de membranas, endometrite pós-parto e infecções ne- onatais. Além disso, as infecções genitais podem aumentar o risco de aquisição e transmissão de in- fecções sexualmente transmissíveis (ISTs), como o HIV (NUGENT et al., 1991). A compreensão da epidemiologia das vagini- tes e vaginoses, incluindo os agentes causadores, a prevalência e as complicações associadas, é fun- damental para o desenvolvimento de estratégias de prevenção, diagnóstico e manejo adequado dessas condições. A identificação dos fatores de risco, a compreensão da apresentação clínica e a avaliação da relevância clínica das vaginites e va- ginoses podem fornecer informações valiosas para o desenvolvimento de abordagens eficazes no cuidado Conceito e definição de vaginite e vaginose A vaginite é definida como qualquer condição com sintomas de corrimento vaginal anormal, odor, irritação, coceira ou queimação. As causas mais comuns de vaginite são vaginose bacteriana, candidíase vulvovaginal e tricomoníase. Causas não infecciosas, incluindo vaginite atrófica, irri- tante, alérgica e inflamatória, são menos comuns. O diagnóstico é feito usando uma combinação de sintomas, achados do exame físico e testes labora- toriais ou baseados em consultório (PALADINE & DESAI, 2018). Vaginose é conceituada como o desequilíbrio da flora vaginal caracterizado pela substituição maciça de germes anaeróbios, em substituição aos Lactobacilos da flora microbiana saudável, ou uma proliferação anormal dos já existentes. Esta condição é extremamente variável entre as mulhe- res, contudo normalmente se dá por origem poli- 40 | P á g i n a microbiana no qual há um sinergismo entre Gardnerella vaginalis e outras bactérias ana- eróbias, particularmente espécies as espécies microbianas mais frequentemente identifica- das são Atopobium, Prevotella, Megasphaera, Leptotrichia, Sneatia, Bifidobacterium, Dia- lister, Clostridium e Mycoplasmas. A Vagi- nose tem sido referida como a mais frequente afecção do trato genital inferior feminino, es- tando relacionada à ampla variedade de dis- túrbios do trato reprodutivo, devido às bacté- rias produtoras de peróxido de hidrogênio, que levam ao aparecimento de um corrimento vaginal de pequena intensidade e com mau odor (GIRALDO et al., 2007). Epidemiologia das vaginites e vaginoses A vaginose é atualmente a principal causa de secreção vaginal infecciosa em mulheres em idade fértil, contudo, embora menos co- mum, ela pode ser encontrada em crianças e mulheres na fase pós-menopausa, mas sua prevalência parece ser semelhante em gestan- tes e não-gestantes. Geralmente esta condição afeta mulheres em idade reprodutiva, o que sugere que os hormônios sexuais podem estar envolvidos em sua patogênese. O aumento do número de parceiros sexuais e a utilização do dispositivo intrauterino (DIU) foram associa- dos a um aumento na incidência. Embora não seja considerada uma infecção sexualmente transmissível, a vaginose bacteriana parece estar intimamente relacionada à atividade se- xual. O uso de contraceptivos hormonais pode ter um efeito protetor em seu desenvolvi- mento, pois promove uma microbiota predo- minantemente lactobacilar (ESCHENBACH et al., 1988). O perfil epidemiológico das vaginites é complexo e varia de acordo com a doença em questão. A vaginose bacteriana é mais comum em mulheres em idade fértil, além de que mulhe- res que já tiveram infecções prévias possuem maior probabilidade de recorrência, o uso de du- chas vaginais e o tabagismo também foram asso- ciados a um aumento do risco. A candidíase afeta uma proporção significativa de mulheres em al- gum momento da vida, com uma prevalência entre 20% e 30%. Fatores de risco incluem o uso de an- tibióticos, diabetes, gravidez, uso de contracepti- vos hormonais e imunossupressão. A tricomoní- ase é menos comum, afetando cerca de 3% a 5% das mulheres em idade reprodutiva. É mais co- mum em mulheres sexualmente ativas e está asso- ciada a um maior número de parceiros sexuais. Em geral, as vaginites podem ser mais comuns em mulheres com imunidade comprometida, inclu- indo aquelas com HIV ou outras doenças crônicas. É importante notar que a prevenção e o tratamento eficazes das vaginites dependem de uma compre- ensão precisa do perfil epidemiológico da doença em questão (SOBEL, 1990). Etiologia e fisiopatologia das vaginites e vaginoses Vaginose Bacteriana: A vaginose bacteriana é um desequilíbrio na flora vaginal que é caracte- rizado pela substituição fisiológicas do ambiente vaginal, por bactérias anaeróbias. Esse desequilí- brio pode mudar a resposta imunológica local, o que faz com que o ambiente vaginal fique imuno- deprimido e mais suscetível a outros agentes in- fecciosos, como o vírus do papiloma humano (HPV) e o HIV. Essa condição está relacionada a diversos distúrbios do trato reprodutivo, como maior incidência em mulheres inférteis, aumento do risco de aborto após fertilização in vitro, infec- ções pelo HPV e neoplasias intraepiteliais cervi- cais, infecções pós-cirurgias ginecológicas, au- mento da taxa de infecção pelo HIV, maior possi- bilidade de aquisição de agentes sexualmente transmissíveis, maior risco de infertilidade tubá- ria, prematuridade, aborto espontâneo, baixo peso 41 | P á g i n a ao nascer e endometrite pós-parto (NASIOU- DIS et al., 2016). Candidíase vaginal: Candida albicans pode fazer parte da flora normal em baixas concentrações, porém sua proliferação anor- mal leva a uma invasão das camadas do epité- lio vaginal causando um estado inflamatório local que evolui com o aparecimento de corri- mento, prurido, disúria, dispareunia. São pro- duzidas enzimas proteolíticas que favorecem a aderência e o dano às células epiteliais, fa- vorecendo a invasão. Possuem, ainda, a capa- cidade de formação de biofilmes, o que faci- lita a candidíase vaginal de recorrência (PA- LADINE & DESAI, 2018). Tricomoníase: Tem como agente etioló- gico o parasita flagelado Trichomonas vagi- nalis, sexualmente transmissível, que penetra na vagina, aderindo fortemente às células epi- teliais se ligando à membrana das células e pa- rasitando a mesma. Assim, causando uma res- posta inflamatóriao que facilita a aquisição de outras infecções, inclusive a do HIV. A trico- moníase tem sido associada a complicações durante o ciclo gravídico puerperal (FICHO- ROVA et al., 2015). Vaginose citolítica: Consequência da ex- cessiva proliferação de Lactobacillus, pela re- dução do pH vaginal e pela citólise. Os fatores que determinam a proliferação excessiva de Lactobacillus não são conhecidos (assim como não são totalmente conhecidos os fato- res determinantes do pH vaginal), discute-se se o pH mais ácido facilitaria o desenvolvi- mento dos Lactobacillus ou se ocorreria o in- verso. De qualquer maneira, o excesso lacto- bacilar aumenta o processo citolítico, cujos produtos são responsáveis pela sintomatolo- gia (CIBLEY & CIBLEY, 1991). Vaginite inflamatória descamativa: Forma menos frequente de vaginite purulenta crônica de intensa inflamação. A etiologia é desconhecida, e em alguns casos, têm sido identi- ficados Streptococcus do grupo B e Escherichia coli. Existe a hipótese de que fatores imunológi- cos e deficiência de estrogênios contribuam para sua patogênese (REICHMAN & SOBEL, 2014). Vaginite aeróbica: Estado de alteração do ambiente vaginal caracterizado por bactérias aeró- bicas entéricas (sendo as mais frequentes Entero- coccus faecalis, Escherichia coli, Staphylococcus aureus, Staphylococcus epidermidis, Streptococ- cus do grupo B), redução ou ausência de Lactoba- cillus e processo inflamatório. O desenvolvimento de bactérias aeróbicas pode se dar secundário a al- terações imunológicas em resposta à população bacteriana presente, ocorre aumento na produção de citocinas (DONDERS et al., 2017). Apresentação clínica e diagnóstico das vaginites e vaginoses Vaginose bacteriana: Cursa com corrimento de intensidade variável, acompanhado de odor va- ginal fétido (“odor de peixe” ou amoniacal), que piora com o intercurso sexual desprotegido e du- rante a menstruação. O odor ocorre devido à vola- tilização de aminas aromáticas (putrescina, cada- verina, dimetilamina) resultantes do metabolismo das bactérias anaeróbias em contato com a alcali- nidade do sêmen ou do sangue menstrual. Ao exame especular, observa-se o conteúdo vaginal de aspecto homogêneo, em quantidade variável, com coloração esbranquiçada, branco-acinzen- tada ou amarelada. Os critérios para diagnóstico da vaginose bacteriana (VB) são os de Amsel e os de Nugent (SOBEL, 2000). Os critérios de Amsel requerem três dos quatro itens a seguir; corri- mento vaginal branco-acinzentado homogêneo aderente às paredes vaginais; medida do pH vagi- nal maior do que 4,5; teste das aminas (whiff test) positivo; presença de “clue cells”. O escore de Nu- gent baseia-se em elementos avaliados na bacteri- oscopia do conteúdo vaginal (Gram). O resultado 42 | P á g i n a da avaliação é traduzido em escores, assim considerados: escore de 0 a 3 como padrão normal; escore de 4 a 6 como flora vaginal in- termediária; escore de 7 a 10 como VB (NU- GENT et al., 1991). Candidíase vaginal: A principal sinto- matologia refere-se ao prurido e corrimento mais intensos no período pré-menstrual, além de disúria e dispareunia. Ao exame ginecoló- gico, observam-se hiperemia vulvar, edema, fissuras e escoriações; ao exame especular, verificam-se hiperemia da mucosa vaginal e presença de conteúdo vaginal esbranquiçado ou amarelado de aspecto fluido, espesso ou flocular, podendo estar aderido às paredes va- ginais, o pH vaginal também encontra se di- minuído. A presença de fungos é confirmada por meio de exame a fresco do conteúdo vagi- nal com hidróxido de potássio (KOH) a 10% ou soro fisiológico, bacterioscopia com colo- ração pelo método de Gram ou cultura em meios específicos. O exame a fresco possui sensibilidade em torno de 50% a 60% (LED- GER & WITKIN, 2007). A positividade do exame a fresco dispensa a continuidade da in- vestigação. Entretanto, se tal exame for nega- tivo e houver sintomas, está indicada a conti- nuação do processo diagnóstico, com a bacte- rioscopia pelo Gram e cultura, particular- mente nos casos recorrentes (SOBEL et al., 1995). Tricomoníase: caracterizada por sinto- mas de um corrimento abundante, geralmente amarelado ou amarelo-esverdeado, acompa- nhado de sensações de queimação, dor geni- tal, dor ao urinar e durante a relação sexual. No exame ginecológico, há a presença de ver- melhidão dos órgãos genitais externos e o cor- rimento é visto saindo da abertura vulvar. Ao examinar a vagina, nota-se um aumento na quantidade de conteúdo vaginal com uma cor amarela ou amarelo-esverdeada, podendo também apresentar pequenas bolhas (MILLER et al., 2005). A parede vaginal e a parte externa do colo do útero estão vermelhas e, ocasionalmente, é possível observar pequenas hemorragias, dando à cerviz um aspecto de "morango" (colpite macu- laris) sinal patognomonico. O pH vaginal geral- mente é superior a 4,5 e o teste de aminas (teste de Whiff) pode ser positivo devido à presença de bac- térias anaeróbias associadas à vaginose bacteri- ana. O diagnóstico geralmente é feito pela bacte- rioscopia a fresco, onde se pode observar o para- sita se movendo de forma pendular (sensibilidade entre 51% e 65%). A cultura (usando meio de Di- amond) é recomendada quando há sintomas e os exames anteriores foram negativos (LEDGER & WITKIN, 2007). Vaginose citolítica: caracterizada por um cor- rimento branco e prurido que pode variar em in- tensidade e piorar no período pré-menstrual. É co- mum associar sintomas de ardor, queimação, disú- ria e dispareunia. Durante o exame, é possível ob- servar um aumento geralmente flocular, fluido ou grumoso do conteúdo vaginal, aderente ou não às paredes vaginais. O pH vaginal é igual ou menor que 4. A bacterioscopia do conteúdo vaginal (Gram) revela aumento excessivo de Lactobaci- llus, raros leucócitos ou ausência deles, núcleos desnudos e restos celulares devido à lise das célu- las epiteliais. Elementos fúngicos, como hifas e esporos, não são encontrados (YANG et al., 2017). Vaginite descamativa inflamatória: os sin- tomas frequentemente relatados são de secreção vaginal em grande quantidade ou moderada, acompanhada de desconforto intenso, ardência e dispareunia. Durante o exame ginecológico, há presença de inflamação na mucosa genital com vermelhidão, podendo apresentar manchas ver- melhas ou até mesmo hematomas; a cérvice tam- bém pode estar envolvida. Em alguns casos, é ne- cessário retirar o conteúdo vaginal para melhor vi- sualização da inflamação na mucosa. É importante 43 | P á g i n a descartar a possibilidade de tricomoníase. Pela análise microscópica, há aumento dos polimorfonucleares e células parabasais, au- sência de Lactobacillus e presença de outras bactérias. O pH vaginal encontra-se acima de 4,5 (SOBEL et al., 2011). Vaginite aeróbica: os sintomas incluem secreção vaginal, que pode ter um aspecto pu- rulento e cheiro desagradável; em casos de in- flamação acentuada, pode haver queixa de disúria e dispareunia. No exame ginecológico, é possível observar inflamação do vestíbulo e hiperemia da mucosa vaginal, além do au- mento do conteúdo vaginal em diferentes graus. O quadro clínico grave da vaginite por bactérias aeróbicas é semelhante ao da vagi- nite inflamatória descamativa, e para alguns especialistas, ambos os casos representam a mesma condição (LEDGER & WITKIN, 2007). A flora microbiana e a presença de leu- cócitos no conteúdo vaginal são avaliadas por meio da microscopia com contraste de fase em aumento de 400 vezes, e a vaginite aeróbica é classificada em quatro graus, chamados de "graus lactobacilares", de acordo com a quan- tidade de cada elemento. No entanto, a utiliza- ção dessa classificação apresenta limitações na prática, devido à falta de treinamento e equipamento adequado (CIBLEY & CI- BLEY, 1991). Complicaçõesobstétricas associadas às vaginites e vaginoses Durante a gestação, ocorrem mudanças significativas no corpo feminino que visam garantir o crescimento fetal adequado, inclu- indo alterações hormonais, metabólicas e imunológicas. Algumas dessas mudanças também afetam o ambiente genital e aumen- tam a probabilidade de ocorrência de vulvo- vaginites. As infecções do trato reprodutivo representam um grande problema de saúde global, sendo uma das principais causas de morbi- mortalidade materna e perinatal, juntamente com as ISTs (LAGHI et al., 2021). Durante a gravidez, as consequências dessas infecções podem ser gra- ves e incluem nascimento prematuro, aborto es- pontâneo, doença inflamatória pélvica, baixo peso ao nascer, infertilidade, ruptura prematura de membranas, infecções crônicas e até mesmo a morte (WHO, 2005). As infecções vulvovaginais mais comuns em mulheres grávidas são as mesmas que afetam pre- dominantemente mulheres em idade fértil, inclu- indo a vaginose bacteriana, caracterizada pela pre- sença da bactéria Gardnerella vaginalis como principal agente causador, a candidíase vulvova- ginal, cujo fungo predominante é a Candida Albi- cans que tem sua colonização aumentada em até duas vezes quando comparada a mulheres não grá- vidas devido ao depósito de glicogênio na vagina pelo estrógeno, e a tricomoníase, que apresenta o terceiro maior número de casos (SOBEL, 2007). A vaginose bacteriana é um fator de risco para o desenvolvimento de complicações obstétricas e ginecológicas, incluindo parto prematuro e traba- lho de parto prematuro, ruptura prematura de membranas, baixo peso ao nascer, aumento do risco de aborto espontâneo, infecções pós-parto e infecções na cicatriz de cesariana (KAMGA et al., 2019). Com isso, recomendações clínicas para tri- agem e tratamento da vaginose bacteriana em ges- tantes foram estabelecidas pela Sociedade de Obs- tetrícia e Ginecologia do Canadá em 2017 (YU- DIN et al., 2008). De acordo com essas diretrizes, se for indicado tratamento para prevenir resulta- dos adversos na gravidez, pode-se prescrever Me- tronidazol 500 mg por via oral duas vezes ao dia durante 7 dias, ou Clindamicina 300 mg por via oral duas vezes ao dia por 7 dias. As recomenda- ções são baseadas em evidências justas para a ação clínica preventiva (nível de evidência B) (CAMPOS et al., 2012). 44 | P á g i n a Além disso, foi observado um aumento na incidência de vulvovaginites em mulheres grávidas na segunda metade da gravidez, ou seja, no terceiro trimestre, o que pode ser atri- buído a fatores como: dificuldade de higieni- zação durante esse período, diminuição da imunidade e aumento do pH vaginal (GOS- MANN et al., 2017). Fatores de risco para o desenvolvimento de vaginites e vaginoses O uso de antibióticos é um fator de risco comum para o desenvolvimento de vulvova- ginites, pois esses medicamentos podem alte- rar o equilíbrio da flora vaginal normal, per- mitindo que as bactérias nocivas cresçam em excesso. Da mesma forma, as mudanças hor- monais que ocorrem durante a gravidez po- dem aumentar a suscetibilidade a infecções vaginais. Além disso, pessoas com diabetes mal controlado podem ter um risco maior de desenvolver infecções por fungos devido a al- terações nos níveis de glicose no sangue (LE- DGER & WITKIN, 2007). O estresse também pode enfraquecer o sistema imunológico, au- mentando o risco de infecções. O uso de pro- dutos de higiene inadequados, como sabone- tes perfumados e duchas vaginais, pode irritar a vagina e alterar o pH, o que pode levar a in- fecções. As roupas íntimas apertadas e os te- cidos sintéticos também podem impedir a cir- culação de ar, criando um ambiente úmido e quente que favorece o crescimento de bacté- rias e fungos. Já a atividade sexual pode alte- rar o equilíbrio da flora vaginal e aumentar o risco de infecções, enquanto o uso de contra- ceptivos como diafragmas e preservativos com espermicida pode aumentar o risco de ir- ritação vaginal. Por fim, pessoas com sistema imunológico enfraquecido, como aquelas com HIV, estão em maior risco de infecções por fungos e bactérias, incluindo vulvovaginites (ARAUJO et al., 2021). Estratégias de tratamento e manejo adequado das vaginites e vaginoses A VB tem como objetivo de tratamento elimi- nar os sintomas e restabelecer o equilíbrio da flora vaginal fisiológica, principalmente por meio da redução dos anaeróbios. Existem diversas opções de medicamentos que podem ser utilizados, como o metronidazol de 500 mg por via oral (VO) duas vezes ao dia durante sete dias, o gel de metroni- dazol de 0,75% - 5g (um aplicador) intravaginal ao deitar durante cinco dias ou o creme de clinda- micina de 2% - 5g (um aplicador) intravaginal ao deitar durante sete dias. Como alternativa, tam- bém podem ser utilizados o tinidazol de 2g por VO duas vezes ao dia durante dois dias, o tini- dazol de 1g VO uma vez ao dia durante cinco dias ou a clindamicina de 300 mg por VO a cada 12 horas durante sete dias. É importante lembrar que esses medicamentos podem apresentar efeitos co- laterais como náuseas, vômitos, cefaleia, tonturas, boca seca e gosto metálico. É recomendado evitar a ingestão de álcool durante 24 horas após o trata- mento com nitroimidazólicos, e a abstinência de atividade sexual ou o uso de preservativos durante o tratamento, já que o creme de clindamicina tem base oleosa e pode enfraquecer condons e diafrag- mas. Quando ocorrem recidivas, pode ser neces- sário utilizar outro regime terapêutico ou repetir o mesmo tratamento assim que o episódio recor- rente se instale. Para múltiplas recorrências, pode ser utilizado o metronidazol de 500 mg por VO duas vezes ao dia, durante 7 a 14 dias, ou o gel de metronidazol intravaginal duas vezes por semana, durante quatro a seis meses. No entanto, mesmo após o término da terapia, novos episódios recor- rentes podem ocorrer (WORKOWSKI & BER- MAN, 2007). 45 | P á g i n a Candidíase não complicada (que ocorre de forma esporádica, com intensidade leve ou moderada, e afeta mulheres não comprometi- das) pode ser tratada com antifúngicos via va- ginal ou sistêmica, ambas com eficácias seme- lhantes. Entre os antifúngicos imidazólicos, pode-se usar por via local: fenticonazol (creme a 0,02 g/g, um aplicador ao deitar, du- rante sete dias, ou óvulo com 600 mg em dose única), clotrimazol (creme a 10 mg/g por sete dias, ou comprimido vaginal de 500 mg em dose única), miconazol (creme a 20 mg/g por 14 dias), econazol (creme a 10 mg/g por 14 dias), butaconazol (20 mg/g em dose única), terconazol (8 mg/g por cinco dias), tioconazol (20 mg/g por sete dias, ou óvulo de 300 mg em dose única); e entre os antifúngicos poliê- nicos, nistatina (creme vaginal a 25.000 UI/g por 14 dias) (DENISON et al., 2020). Para uso sistêmico, pode-se usar fluconazol (compri- mido de 150 mg em dose única), cetoconazol (comprimidos de 200 mg, dois comprimidos – 400 mg – durante cinco dias) e itraconazol (cápsulas de 100 mg, uma cápsula pela manhã e outra à noite, por apenas um dia). Entre os efeitos colaterais, estão náuseas, dores abdo- minais e cefaleia, sendo rara a elevação das enzimas hepáticas (SOBEL, 2003). A candidíase complicada (recorrente ou grave, por espécies não albinas ou em mulhe- res com diabetes, ou enfermidades que com- prometam o sistema imunológico, ou enfra- quecidas ou em tratamento com imunossu- pressores) requer a confirmação da presença do fungo antes do início do tratamento, pois outras condições podem apresentar sintomas semelhantes (vaginose citolítica, alergias ou dermatopatias). Os episódios isolados geral- mente respondem aos tratamentos menciona- dos anteriormente; no entanto, alguns especi- alistas sugerem terapia tópica por 7 a 14 dias ou oral (fluconazol 150 mg, três doses com in- tervalosde três dias) (SOBEL et al., 2006). De- pois que os episódios agudos forem resolvidos, pode-se adotar esquemas de supressão com um comprimido de fluconazol (150 mg) uma vez por semana, durante seis meses. Outra opção é o tra- tamento intermitente por via local. Depois que o tratamento supressivo for concluído, cerca de 50% das mulheres ficam livres dos episódios re- correntes. Para casos graves, com eritema ex- tenso, edema, escoriações e fissuras, recomenda- se terapia prolongada, com medicamentos por via local por 7 a 14 dias, ou fluconazol (150 mg) em duas doses com intervalo de 72 horas. Não exis- tem terapias comprovadamente eficazes para es- pécies diferentes de Candida albicans. Alguns au- tores recomendam terapia prolongada (7 a 14 dias) com medicamentos diferentes do fluconazol; ou- tros sugerem o uso de óvulos vaginais manipula- dos contendo 600 mg de ácido bórico (SOBEL, 2003). Para a tricomoníase as terapias prescritas são metronidazol 2 g por via oral em dose única ou tinidazol 2 g por via oral em dose única. Como alternativa, o metronidazol 500mg pode ser admi- nistrado a cada 12 horas durante sete dias. Estudos controlados randomizados que comparam 2 g de metronidazol ou tinidazol sugerem que este úl- timo é equivalente ou até superior ao metronidazol na eliminação do parasita e no alívio dos sintomas. Uma nova avaliação é recomendada três meses após o tratamento. Deve-se alertar sobre a absti- nência de álcool por 24 horas após o uso de me- tronidazol e 72 horas após o uso de tinidazol. É importante encaminhar os parceiros sexuais para o tratamento da doença sexualmente transmissí- vel. Recomenda-se a detecção de outras infecções transmitidas sexualmente (SOBEL et al., 2006). Não há um tratamento específico para a vagi- nose citolítica, uma vez que sua causa ainda é des- conhecida. Recomenda-se o uso de medidas que possam temporariamente alcalinizar o ambiente 46 | P á g i n a vaginal, como duchas vaginais com bicarbo- nato de sódio, especialmente durante o perí- odo pré-menstrual (CIBLEY; CIBLEY, 1991). Na vaginite inflamatória descamativa o propósito do tratamento é diminuir a conta- gem bacteriana e o processo inflamatório. Até o momento, não há estudos controlados ran- domizados disponíveis. Contudo três terapêu- ticas podem ser usadas, sendo elas, clindami- cina em creme vaginal 2% - 5 g, por 21 dias; ou 2) hidrocortisona intravaginal 10%, por duas a quatro semanas; combinação de creme de clindamicina e hidrocortisona. Os trata- mentos apresentam boa resposta, embora 30% dos casos tenham apresentado recorrência. O uso periódico de estrogênios por via vaginal pode reduzir a recorrência (REICHMAN & SOBEL, 2014). Não existe padronização para o trata- mento da vaginite aeróbica. Diferentes auto- res têm variado o uso de antibióticos por via local ou sistêmica. Sugere-se que a aborda- gem clínica seja baseada principalmente nos achados microscópicos. Se houver predomi- nância de inflamação, pode-se utilizar hidro- cortisona 10% por via vaginal; caso haja pre- domínio de atrofia, pode-se usar estrogênios via vaginal. Se houver um número excessivo de bactérias, recomenda-se o uso de clindami- cina 2% por via local (DONDERS et al., 2017). Importância da microbiota vaginal na saúde da mulher e sua relação com as vulvovaginites O microbiota vaginal é um ecossistema minucioso e mutável que passa por variações constantes ao longo do ciclo menstrual femi- nino e durante toda a vida da mulher. A parede vaginal é composta por um tecido epitelial não queratinizado e estratificado coberto por secreção cervicovaginal, que obtém oxigênio, glicose e ou- tros nutrientes dos tecidos submucosos subjacen- tes por meio de difusão, devido à limitação do su- primento sanguíneo. Isso resulta em um ambiente relativamente anaeróbio que abriga uma comuni- dade microbiana complexa que vive em uma rela- ção simbiótica com o organismo hospedeiro (MA- YNARD et al., 2012). O microbiota pessoal adquirido durante o parto sofre alterações ao longo da vida, indicando a especificidade do microbioma. Na vagina, a clara cooperação entre os micróbios e o hospe- deiro proporciona a primeira linha de defesa con- tra a migração de patógenos oportunistas. Esse equilíbrio saudável é conhecido como eubiose. A produção de várias substâncias antimicrobianas pelos lactobacilos tem sido registrada como a principal razão por trás de sua predominância na microbiota vaginal humana saudável. Essas subs- tâncias antimicrobianas incluem ácido lático, bac- teriocinas de ação limitada e peróxido de hidrogê- nio de amplo espectro (H2O2) (PEKMEZOVIC et al., 2019). Elas são sugeridas para desempenhar vários papéis importantes na defesa do hospe- deiro. No entanto, a superação de patógenos opor- tunistas perturba esse equilíbrio simbiótico conhe- cido como disbiose, o que leva ainda mais à infla- mação. Há uma relação mútua entre a fisiologia reprodutiva da mulher e a microbiota vaginal (VMB), ou seja, não apenas as mudanças fisioló- gicas que começam desde o nascimento e conti- nuam até a pós-menopausa podem afetar a VMB, mas, por sua vez, a VMB também pode afetar a fisiologia reprodutiva, contudo, o VMB de uma mulher saudável em idade reprodutiva é definido como microflora dominada por Lactobacillus, produzindo ampla quantidade de ácido láctico com pH < 4,5 (STOYANCHEVA et al., 2014). A colonização inicial de micróbios tem ori- gem na vagina materna, se o parto for natural, ou nas mãos da pessoa que primeiro segura o bebê 47 | P á g i n a após a cesárea. Embora haja pouca informa- ção disponível, é sugerido que esses micró- bios se diferenciam em diferentes comunida- des e se estabeleçam na pele, intestino e va- gina dentro de algumas semanas. Há evidên- cias de que os bebês possuem quantidade re- sidual de estrogênio circulante da mãe, que pode ser consumida por algumas espécies de Lactobacillus para o metabolismo (CU- LHANE et al., 2002). A região vaginal infantil possui pH neutro e apresenta um epitélio escamoso estratificado fino coberto por uma fina camada mucosa. Até os 10 anos de idade, os ovários não pro- duzem hormônios (período de silêncio estro- gênico), resultando em baixos níveis de glico- gênio, o que leva a um baixo crescimento de lactobacilos e, consequentemente, um meio vaginal alcalino. No entanto, a partir dos 13 anos de idade, a maturação adrenal e gonadal ocorre, levando a alterações puberais na vulva e na vagina. Durante a puberdade, o desenvol- vimento folicular resulta na produção de es- trogênio. O aumento nos níveis de estrogênio promove o espessamento do epitélio vaginal, bem como da camada mucosa e a produção de glicogê- nio intracelular, o que leva à seleção de lactobaci- los (ALVAREZ-OLMOS et al., 2004). Após a menopausa, ocorrem alterações no am- biente vaginal, tais como diminuição dos níveis de estrogênio e glicogênio, afinamento do epitélio vaginal, mudança da VMB de lactobacilos para uma maior diversidade microbiana, aumento do pH, redução das secreções vaginais, ressecamento e dor durante a relação sexual. Dessa forma, a composição da VMB de meninas pré-púberes é semelhante à de mulheres na pós-menopausa, o que sugere que a fisiologia reprodutiva desempe- nha um papel crucial na determinação da VMB fe- minina (HICKEY et al., 2015). No entanto, o uso de creme de estrogênio restaura o ambiente vagi- nal em mulheres na pós-menopausa, tornando-o semelhante ao de mulheres em idade reprodutiva (NILSSON et al., 1995). 48 | P á g i n a REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVAREZ-OLMOS, M.I. et al. Vaginal Lactobacilli in Adolescents. Sexually Transmitted Diseases, v. 31, n. 7, p. 393–400, 2004. ARAUJO, M.A.L. et al. Protocolo Brasileiro para Infec- ções Sexualmente Transmissíveis 2020: abordagem às pessoas com vidasexual ativa. Epidemiologia e Serviços de Saúde, v. 30, n. spe1, 2021. CAMPOS, A.A.S. et al. Estudo comparativo entre o teste do pH e do KOH versus escore de Nugent para diagnós- tico da vaginose bacteriana em gestantes. Revista Brasi- leira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 34, n. 5, p. 209–214, maio 2012a. CAMPOS, A.A.S. et al. Estudo comparativo entre o teste do pH e do KOH versus escore de Nugent para diagnós- tico da vaginose bacteriana em gestantes. Revista Brasi- leira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 34, n. 5, p. 209–214, maio 2012b. CIBLEY, L.J. & CIBLEY, L.J. Cytolytic vaginosis. Ame- rican Journal of Obstetrics and Gynecology, v. 165, n. 4, p. 1245–1249, out. 1991. CULHANE, J.F. et al. Exposure to chronic stress and eth- nic differences in rates of bacterial vaginosis among pre- gnant women. American Journal of Obstetrics and Gyne- cology, v. 187, n. 5, p. 1272–1276, nov. 2002. DENISON, H.J. et al. Oral versus intra-vaginal imidazole and triazole anti-fungal treatment of uncomplicated vul- vovaginal candidiasis (thrush). Cochrane Database of Systematic Reviews, 24 ago. 2020. DONDERS, G.G.G. et al. Aerobic vaginitis: no longer a stranger. Research in Microbiology, v. 168, n. 9-10, p. 845–858, nov. 2017. ESCHENBACH, D.A. et al. Diagnosis and clinical mani- festations of bacterial vaginosis. American Journal of Obstetrics and Gynecology, v. 158, n. 4, p. 819–828, abr. 1988. FICHOROVA, R.N. et al. The Contribution of Cervico- vaginal Infections to the Immunomodulatory Effects of Hormonal Contraception. mBio, v. 6, n. 5, 1 set. 2015. GALLO, G. et al. Prevalência de Vaginose Bacteriana em Mulheres Sexualmente Ativas Atendidas em Unidade Bá- sica de Saúde de Pelotas, RS. Ensaios Cienc., Cienc. Biol. Agrar. Saúde, v, v. 20, n. 3, p. 172–174, 2016. GIRALDO, P.C. et al. O freqüente desafio do entendi- mento e do manuseio da vaginose bacteriana. Brazilian Journal of Sexually Transmitted Diseases, v. 19, n. 2, p. 84–91, 2007. GONDO, D.C.A.F. et al. Abnormal Vaginal Flora in Low-Risk Pregnant Women Cared for by a Public Health Service: prevalence and Association with Symptoms and Findings from Gynecological Exams. Revista Latino- Americana de Enfermagem, v. 18, p. 919–927, 2010. GOSMANN, C. et al. Lactobacillus-Deficient Cervicova- ginal Bacterial Communities Are Associated with In- creased HIV Acquisition in Young South African Wo- men. Immunity, v. 46, n. 1, p. 29–37, 2017a. GOSMANN, C. et al. Lactobacillus-Deficient Cervicova- ginal Bacterial Communities Are Associated with In- creased HIV Acquisition in Young South African Wo- men. Immunity, v. 46, n. 1, p. 29–37, 2017b. HICKEY, R.J. et al. Vaginal Microbiota of Adolescent Girls Prior to the Onset of Menarche Resemble Those of Reproductive-Age Women. mBio, v. 6, n. 2, 2015. KAMGA, Y.M. et al. Prevalence of bacterial vaginosis and associated risk factors in pregnant women receiving antenatal care at the Kumba Health District (KHD), Ca- meroon. BMC Pregnancy and Childbirth, v. 19, 10 2019. LAGHI, L. et al. Vaginal metabolic profiles during preg- nancy: Changes between first and second trimester. PLOS ONE, v. 16, n. 4, p. e0249925, 2021. LEDGER, W.J. & WITKIN, S.S. Vulvovaginal Infec- tions. [S.l: s.n.], 2007. LINHARES, I. et al. Vaginites e vaginoses. | 235 FE- MINA, v. 47, n. 4, p. 235–275, 2019. MAYNARD, C.L. et al. Reciprocal interactions of the in- testinal microbiota and immune system. Nature, v. 489, n. 7415, p. 231–241, 2012. MILLER, W.C. et al. The Prevalence of Trichomoniasis in Young Adults in the United States. Sexually Transmit- ted Diseases, v. 32, n. 10, p. 593–598, out. 2005. NASIOUDIS, D. et al. Bacterial vaginosis: a critical analysis of current knowledge. BJOG: An International Journal of Obstetrics & Gynaecology, v. 124, n. 1, p. 61– 69, 2016. NILSSON, K. et al. The vaginal epithelium in the pos- tmenopause — cytology, histology and pH as methods of assessment. Maturitas, v. 21, n. 1, p. 51–56, 1995. NUGENT, R.P. et al. Reliability of diagnosing bacterial vaginosis is improved by a standardized method of gram stain interpretation. Journal of Clinical Microbiology, v. 29, n. 2, p. 297–301, 1991. 49 | P á g i n a PALADINE, H.L. & DESAI, U.A. Vaginitis: Diagnosis and Treatment. American Family Physician, v. 97, n. 5, p. 321–329, 2018. PEKMEZOVIC, M. et al. Host–Pathogen Interactions du- ring Female Genital Tract Infections. Trends in Microbi- ology, v. 27, n. 12, p. 982–996, 2019. REICHMAN, O. & SOBEL, J. Desquamative inflamma- tory vaginitis. Best Practice & Research Clinical Obste- trics & Gynaecology, v. 28, n. 7, p. 1042–1050, 2014. SOBEL, J.D. Bacterial Vaginosis. Annual Review of Me- dicine, v. 51, n. 1, p. 349–356, 2000. SOBEL, J.D. Management of Patients with Recurrent Vulvovaginal Candidiasis. Drugs, v. 63, n. 11, p. 1059– 1066, 2003. SOBEL, J.D. et al. Prognosis and treatment of desquama- tive inflammatory vaginitis. Obstetrics and Gynecology, v. 117, n. 4, p. 850–855, 2011. SOBEL, J.D. et al. Single oral dose fluconazole compared with conventional clotrimazole topical therapy of Can- dida vaginitis. American Journal of Obstetrics and Gyne- cology, v. 172, n. 4, p. 1263–1268, 1995. SOBEL, J.D. et al. Suppressive antibacterial therapy with 0.75% metronidazole vaginal gel to prevent recurrent bac- terial vaginosis. American Journal of Obstetrics and Gynecology, v. 194, n. 5, p. 1283–1289, 2006. SOBEL, J.D. Vaginal Infections in Adult Women. Medi- cal Clinics of North America, v. 74, n. 6, p. 1573–1602, 1 nov. 1990. SOBEL, J.D. Vulvovaginal candidosis. Lancet (London, England), v. 369, n. 9577, p. 1961–71, 2007. STOYANCHEVA, G. et al. Bacteriocin production and gene sequencing analysis from vaginal Lactobacillus stra- ins. Archives of microbiology, v. 196, n. 9, p. 645–53, 2014. TORTORA, G.J. et al. Microbiologia. 10.ed Porto Ale- gre: Artmed, 2012. 934 p. WORKOWSKI, K.A. & BERMAN, S.M. Centers for Di- sease Control and Prevention Sexually Transmitted Di- seases Treatment Guidelines. Clinical Infectious Disea- ses, v. 44, n. Supplement 3, p. S73–S76, 2007. YANG, S. et al. Clinical Significance and Characteristic Clinical Differences of Cytolytic Vaginosis in Recurrent Vulvovaginitis. Gynecologic and Obstetric Investigation, v. 82, n. 2, p. 137–143, jan. 2017. YUDIN, M.H. et al. Screening and Management of Bac- terial Vaginosis in Pregnancy. Journal of Obstetrics and Gynaecology Canada, v. 30, n. 8, p. 702–708, 2008. 50 | P á g i n a Palavras Chave: Infecção; Urinária; Gestação. Capítulo 6 LARA GARCIA MAGALHÃES¹ LAURA HELENA BOY PAIVA1 LETÍCIA DE CÁSSIA FREIRE FRANCO1 JAYME MURAD MAGALHÃES2 1. Discente – Medicina Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais. 2. Médico - Universidade Federal de Minas Gerais. INFECÇÃO URINÁRIA NA GRAVIDEZ 51 | Página INTRODUÇÃO No Brasil e no mundo a infecção do trato urinário (ITU) é uma condição médica extrema- mente frequente caracterizada pela colonização e proliferação de agentes infecciosos no sistema urinário, incluindo rins, ureteres, bexiga e ure- tra. A ocorrência de ITU é maior em mulheres em função do menor tamanho da uretra e proxi- midade anatômica com ânus. No contexto da gestação, a prevalência desta infecção também é alta, atingindo cerca de 17-20% das gestantes (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2013). A ITU na gravidez pode se manifestar como bacteriúria assintomática, infecção de trato urinário inferior (cistites) ou, ainda, trato superior (pielonefrite). A bacteriúria ocorre em 2-10% das gestações, a cistite acomete 2% das grávidas. A pielonefrite aguda, forma mais grave da ITU, se desenvolve em 25-35% das cistites (MINISTÉRIO DA SA- ÚDE, 2013) e apresenta uma taxa de recorrênciaao longo da gestação de 6-8% (GARCIA et al., 2016). Verificou-se também que essa infecção é mais prevalente em mães adolescentes, a partir dos 14 anos e decresce junto a idade da gestante (JOHNSON & ROCHELEAU, 2021) Obser- vou-se também uma prevalência de 28% de ITU durante a gestação em mulheres que tiveram esta nos últimos 3 meses precedentes à gravidez (JOHNSON & ROCHELEAU, 2021). Tendo em vista a relevância epidemiológica desse qua- dro, é primordial a compreensão e discussão dos seus principais aspectos. Patogenia Durante a gestação ocorrem diversas mu- danças correlacionadas anatômicas, hormonais e imunes que, associadas aos fatores da mulher que já predispõe à infecção, resultam em uma propensão ainda maior para colonização do trato urinário (SCHNARR & SMAILL, 2008). Inicialmente, destaca-se a dilatação dos rins e do ureter, descrita como hidroureteronefrose. Esse processo sofre influência mecânica conse- quente da obstrução pelo útero gravídico, asso- ciado ao aumento da pressão intra abdominal (GLASER & SCHAEFFER, 2013; HSIA & SHORTLIFFE, 1995). Além disso, a literatura científica também relata a ação da progesterona, hormônio presente em altas concentrações na gravidez, a qual implica na hipotonicidade, re- laxamento, redução do peristaltismo e edema dessas estruturas (HABAK & GRIGGS 2022; GLASER & SCHAEFFER, 2013). Ademais, estudos também sugeriram que as prostaglandi- nas causam também dilatação ureteral a partir da inibição da contração do ureter. Outra mudança anatômica relevante é o des- locamento anterior da bexiga juntamente com sua hipertrofia e relaxamento do músculo liso, levando ao aumento da capacidade de armaze- namento e estase urinária (GLASER & SCHAEFFER, 2013; HSIA & SHORTLIFFE, 1995). Verifica-se que a hidronefrose e o hi- droureter são observados de forma branda a par- tir da sétima semana de gravidez e sua evolução associada a complicações são mais observadas no segundo trimestre (GLASER & SCHAEF- FER, 2013; HSIA & SHORTLIFFE, 1995). Adicionalmente, ocorre também o aumento da taxa de filtração glomerular em 30-50%, associ- ado à mudanças na composição da urina, como variações do Ph e da osmolaridade, glicosúria e aminoacidúria, fatores que podem facilitar o crescimento bacteriano (GLASER & SCHAEF- FER, 2013; SCHNARR & SMAILL, 2008). A gestação é um estado de imunocompro- metimento, o que aumenta o risco para infec- ções como a descrita. Exemplifica-se essa con- dição a partir da redução da N-metil histamina urinária, principalmente no terceiro trimestre, o que sugere menor degradação dos mastócitos nessa fase (BAHAA et al., 2020). 52 | Página O trato urinário é em condições fisiológicas estéril e sua colonização geralmente ocorre por via ascendente a partir da flora vaginal/perineal ou de fezes remanescentes (GLASER & SCHAEFFER, 2013). Os agentes bacterianos responsáveis pela infecção urinária durante a gravidez são os mesmos para mulheres não grá- vidas, sendo Escherichia coli a bactéria mais co- mum, responsável por 70-80% dos casos (SCHNARR & SMAILL, 2008). Estudos reali- zados no Brasil divergem quanto ao segundo e terceiro organismos epidemiologicamente mais relevantes, variando entre Enterococcus faeca- lis e Staphylococcus saprophyticus (GARCIA et al, 2016). A E.coli é o principal microrganismo por fa- zer parte da microbiota perineal (CUNDELL, 2018), logo possui vantagem anatômica, e por possuir diversos fatores de virulência que favo- recem a colonização. Esses determinantes viru- lentos são toxinas, adenosinas, fímbrias ou pilis, aspectos que permitem a aderência ao epitélio, multiplicação, invasão tecidual e impedem a la- vagem pela urina (SCHNARR & SMAILL, 2008). Associado a isso, verifica-se que o hipe- restrogenismo na gestação contribui para que certas cepas de E.coli, que possuem adenosinas tipo 1, se aderem ao urotélio (DUARTE et al., 2008). Quanto à virulência do E. faecalis des- taca-se a capacidade de formação de biofilme e utilização de fibrinogênio em seu metabolismo energético. (FLORES-MIRELES et al., 2015). Já o Staphylococcus saprophyticus utiliza da urease presente para fazer uma colonização efi- ciente da bexiga e dos rins, além de possuir slime extracelular e ácidos lipoteicóico os quais contribuem para aderência (KLINE et al., 2010). Sinais e sintomas As infecções do trato urinário são classifica- das como baixas ou cistites quando acometem o trato urinário inferior, composto por uma curta porção dos ureteres, pela uretra e pela bexiga. Já as altas, também denominadas de pielonefrite, são relacionadas ao trato superior, constituído pela maior parte dos ureteres e pelos rins (MI- NISTÉRIO DA SAÚDE, 2013). Elas podem se apresentar por meio de variadas manifestações clínicas, posto que a sintomatologia difere em função da região acometida. A bacteriúria assintomática (BA) ocorre em 2% a 15% dos casos de ITU na gestação (KA- LINDERI et al., 2018), representando um im- portante fator de risco para o desenvolvimento de infecções sintomáticas agudas durante esse período. Essa condição é caracterizada pela pre- sença de bactérias em pelo menos 105 unidades formadoras de colônias por mL de cultura de urina, na ausência de sinais ou sintomas de ITU (LENZ, 2018). A prevalência de casos sintomáticos de ITU durante a gravidez é menos comum, mas eles ainda podem ser fator de complicação de 1 a 2% das gestações (KALINDERI et al., 2018). Entre as apresentações sintomáticas, tem-se as cisti- tes, definidas como a presença de uma bacteriú- ria significante, associada à invasão da mucosa da bexiga. Os principais sintomas são descon- forto, tenesmo vesical, dor em queimação du- rante ou após o ato de urinar (disúria) de início agudo, aumento da frequência do desejo de uri- nar (polaciúria), dor e rigidez suprapúbica. Nesse caso, a febre é pouco frequente. Também pode haver a ocorrência de cistites hemorrágicas que, além dessas manifestações, cursam com hematúria. 53 | Página Uma vez que os patógenos atingem as vias urinárias altas, a infecção passa a apresentar sin- tomatologia importante, caracterizando a pielo- nefrite. A ocorrência é mais comum nos se- gundo e terceiro trimestres da gestação. A clí- nica usual é indicada por lombalgia, desconforto costovertebral, dor em flanco, calafrios e febre. Os sintomas urinários semelhantes aos das in- fecções baixas podem ou não estar presentes. Em casos mais avançados, é possível o apareci- mento de sintomas indicativos de sepse, como taquicardia e hipotensão. Algumas manifesta- ções inespecíficas como mal-estar, anorexia, náuseas e vômitos também podem estar presen- tes, o que amplia os diagnósticos diferenciais durante essa fase (FEBRASGO, 2018). Ade- mais, 20 a 40% dos casos de BA não tratados podem progredir para quadros agudos, como a pielonefrite, e serem responsáveis por compli- cações na gestação, a exemplo do parto prema- turo (HABAK & GRIGGS, 2022). Diagnóstico Clínico O diagnóstico clínico de ITU na gravidez é inicialmente dificultado pela caracterização dos sintomas. Uma vez que há, naturalmente, mu- danças fisiológicas advindas desse período, a presença de manifestações como a polaciúria pode não ser específica da patologia, já que a sintomática pode ser decorrente tanto da própria gestação, quanto de uma possível ITU. Desse modo, destaca-se a relevância da realização de uma boa anamnese e exame físico pelo profissi- onal, a fim de identificar fatores de risco, histó- ria pregressa que possa contribuir para o quadro e a associação com outros sintomas supracita- dos. Em caso de suspeita de infecção, deve-se iniciar a propedêutica indicada. Bacteriúria Assintomática Destaca-se a relevância da realização de tri- agem pré-natal para bacteriúria assintomática, visto que durante a gestaçãohá o aumento do risco de desenvolvimento dessa condição, a fim de promover o tratamento precoce e de evitar complicações materno-fetais. O padrão ouro para a testagem é a urocultura com antibio- grama, que deve ser realizada a partir de duas amostras urinárias coletadas em tempos distin- tos. A análise de uma única amostra pode forne- cer resultado falso-positivo em até 40%. Nos ca- sos de BA, a presença de mais de 105 colô- nias/mL de urina sugere infecção. Valores entre 104 e 105 correspondem à infecção em 50% dos casos (DUARTE et al., 2008). A desvantagem da urocultura está ligada ao custo, tempo gasto para se obter o número de colônias bacterianas e o antibiograma e à necessidade de profissio- nais capacitados e de laboratórios bem estrutu- rados para a realização. Tendo em vista o risco de contaminação da amostra, é fundamental a tomada de cuidados pela paciente e pelo laboratório na coleta e no manejo do conteúdo, a exemplo da realização de assepsia perineal, colher a urina do jato médio, transporte imediato e refrigeração a 4o C, sem ultrapassar 24 horas. Atualmente, novos testes de menor custo e de maior velocidade têm sido desenvolvidos. Entre eles, cita-se o Teste de Nitrito, que analisa a presença da conversão bacteriana de nitrato em nitrito. Apresenta sensibilidade de 50% e es- pecificidade de 97%. O Teste da Esterase de Leucócitos também pode ser utilizado, apesar de possuir sensibilidade e especificidade de ape- nas 25%. A limitação desses métodos está rela- cionada a problemas de acurácia e à alta ocor- rência de resultados falso-positivos advindos de contaminação, o que impossibilita seu uso iso- lado para screening, sendo-o possível apenas 54 | Página em associação a outras técnicas (FIOCRUZ, 2020). O Gram de Gota consiste em um teste rápido de uroanálise microscópica de uma gota de urina, objetivando a visualização dos patógenos. Entende-se que o estudo Gram apresenta sensi- bilidade e especificidades satisfatórias, o que o caracteriza como o melhor teste rápido disponí- vel para screening de ITU. Contudo, ainda não substitui a urocultura para uma análise precisa (DUARTE et al., 2008). Casos Sintomáticos Há uma vasta gama de exames laboratoriais que podem ser realizados para o diagnóstico de ITU, com diferentes especificidades e sensibili- dades. Dessa forma, salienta-se a frequente ne- cessidade de associação de dois ou mais méto- dos para melhor resultado. É comum a escolha do exame de Urina tipo 1, também denominado de EAS (Elementos Anormais do Sedimento), como primeiro método de análise de possíveis alterações no sistema urinário em casos sinto- máticos. Por meio dele, é possível verificar as- pectos físicos da urina, como pH e cor, e a pre- sença de corpos estranhos (sedimentos), a exemplo de proteínas, nitritos, leucócitos e ce- tonas. Dentre as possíveis alterações detectadas no exame, tem-se a leucocitúria, hematúria, pro- teinúria e cilindros no sedimento urinário. Elas correspondem a sinais de inflamação, os quais nem sempre são indicativos de ITU. Assim, o EAS não é o exame ideal para o diagnóstico iso- lado de infecção. No entanto, é usado para sus- tentar a indicação de início da terapêutica em pacientes sintomáticas até que o resultado da cultura seja conhecido. Isso posto, destaca-se a relevância da reali- zação da urocultura para a confirmação do re- sultado, como supracitado. Mediante à presença de sintomas, são consideradas positivas para ITU uroculturas com até 102 colônias/mL. Nos casos em que a pielonefrite é concomitante com obstrução de via urinária ou, mais raramente, em que a infecção não se estende ao sistema co- letor, a urina coletada pode não apresentar leu- cocitúria ou outras alterações na uroanálise. Como exame complementar, a ecografia de rins e vias urinárias é importante frente a uma infecção, por possibilitar a identificação de cál- culo urinário e de dilatação dos túbulos renais. Em casos de ITU de repetição, de falha de res- posta ao tratamento após 72 horas e/ou de pre- sença de bactérias incomuns é imprescindível a realização desses exames. Para quadros clínicos mais graves, hemo- grama com contagens globais e diferenciais de leucócitos, uréia e creatinina são exames rele- vantes para identificar a agressividade da infec- ção, por meio da presença de alterações hema- tológicas e na função renal (DUARTE et al., 2008). Durante a pesquisa de um provável caso de pielonefrite, é avaliado o Sinal de Giordano, por meio da manobra de punhopercussão da loja re- nal, no nível da 11o e da 12o costela, pelo profis- sional. Se houver o processo infeccioso, a paci- ente irá se queixar de dor e o sinal será positivo (FEBRASGO, 2018). Diagnósticos Diferenciais Mediante sintomas inespecíficos de ITU, principalmente a dor em flanco, a identificação de diagnósticos diferenciais é imperativa. De- vem ser pesquisados quadros de nefrolitíase e ureterolitíase obstrutivas, além da ocorrência de abscessos, o que pode ser feito com auxílio da ecografia de vias urinárias. Uretrites, vaginites, infecções sexualmente transmissíveis caracteri- zam diagnósticos diferenciais de cistites. Sinais de febre e dor abdominal podem indicar corio- amnionite, com ou sem trabalho de parto prema- turo. Ademais, pneumonites virais, pneumonias e apendicite também podem ser pesquisadas a 55 | Página partir de um quadro de dor (FEBRASGO, 2018). Tratamento O Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos (ISMP Brasil) publicou um bo- letim em 2019 sobre o “Uso Seguro de Medica- mento na Gestação", utilizando como base as classificações propostas pelo Food and Drug Administration (FDA). A primeira classificação surgiu em 1979, organizando os medicamentos em cinco categorias (A, B, C, D e X) de acordo com a Tabela 6.1. Contudo, foi visto que a clas- sificação não considerava a individualidade das gestantes, o tempo de gestação, os graus de risco fetal, além das alternativas terapêuticas disponí- veis. Assim, a FDA atualizou essa classificação substituindo o sistema ABCDX pela Regra de Rotulagem de Gravidez e Lactação (PLLR), a qual exige que as bulas contenham informações detalhadas sobre a segurança do medicamento, abrangência de todas as fases da gestação, efei- tos adversos fetais, entre outros (Tabela 6.2) (ISMP, 2019). Tabela 6.1 Classificação do risco do uso de medicamentos durante a gestação de acordo com a categorização por letras Categoria Características da segurança do medicamento A Em estudos controlados em mulheres grávidas, o fármaco não demonstrou risco para o feto no primeiro trimestre de gravidez. Não há evidências de risco nos trimestres posteriores, sendo remota a possibilidade de dano fetal. B Os estudos em animais não demonstraram risco fetal, mas também não há estudos controlados em mulheres grávidas; ou então, os estudos em animais revelaram riscos, mas que não foram confirmados em estudos controlados em mulheres grávidas. C Não foram realizados estudos em animais e nem em mulheres grávidas; ou então, os estudos em animais revelaram risco, mas não existem estudos disponíveis realizados em mulheres grávidas. D O fármaco demonstrou evidências positivas de risco fetal humano, no entanto, os benefícios potenciais para a mulher podem, eventualmente, justificar o risco, como, por exemplo, em casos de doenças graves ou que ameacem a vida, e para os quais não existem outros fármacos mais seguros. X Em estudos em animais e mulheres grávidas, o fármaco provocou anomalias fetais, havendo clara evidência de que o risco para o feto é maior do que qualquer benefício possível para a paciente. Fonte: Retirada do boletim ISMP - USO SEGURO DE MEDICAMENTOS NA GESTAÇÃO, 2019. 56 | Página Tabela 6.2 Comparação entre o antigo sistema de categorização do FDA por letrase o atual Características da categorização por letras Características da nova categorização do FDA Classificação por letras (A, B, C, D, X), ordenando os medicamentos em relação ao risco potencial. • Informações descritivas mais detalhadas sobre o perfil de segurança do medicamento durante a gestação que requerem análise mais crítica dos profissionais de saúde. Considerações focadas nos riscos de teratogenicidade dos fármacos no primeiro trimestre da gestação. • Abrange todo o período da gestação, trabalho de parto, parto e também orientações para mulheres e homens com potencial reprodutivo. • Considera efeitos de teratogenicidade e também efeitos adversos fetais, descrevendo detalhadamente o dano potencial na bula, sua frequência e gravidade. • Descreve os riscos fetais de não tratar a doença. Informações frequentemente baseadas nos estudos realizados em animais; poucos dados do uso em humanos. • Indústrias deverão atualizar a informação das bulas com informações de estudos em humanos e dados internos sobre o uso do medicamento durante a gestação (ex.: registro de exposição durante a gestação*). • Será detalhado se o perfil de segurança foi determinado com base em estudo com animais, humanos ou ambos. *Registro de exposição durante a gestação: do inglês pregnancy exposure registry, trata-se de um estudo observacional desenvolvido para coletar informações sobre gestantes que tomam medicamentos ou vacinas. Pode ser realizado por centros de pesquisa ou pela indústria farmacêutica voluntariamente ou mediante solicitação da Food And Drug Admi- nistration (FDA). Fonte: Retirada do boletim ISMP - USO SEGURO DE MEDICAMENTOS NA GESTAÇÃO, 2019. Como já mencionado, o método padrão ouro para diagnóstico da ITU é a urocultura, no en- tanto, a antibioticoterapia deve ser iniciada pre- cocemente a partir da análise clínica. Ressalta- se que independente da apresentação clínica da infecção, esta deverá ser tratada, já que pode ocorrer progressão da doença (KALINDERI et al., 2018). Além disso, o tratamento com anti- bióticos pode reduzir a incidência de parto pre- maturo e baixo peso ao nascer (SMAILL & VAZQUEZ, 2019). A escolha do antibiótico deve ser direcio- nada para a cobertura dos microorganismos mais prevalentes e, após a identificação do agente pela urocultura e da sensibilidade pelo antibiograma, a terapêutica poderá ser modifi- cada (HABAK & GRIGGS, 2022). Quanto ao uso de antibióticos na gravidez, as quinolonas e tetraciclinas não são recomen- dados devido aos efeitos tóxicos para o feto. Ademais, sulfonamidas e nitrofurantoína não são recomendadas no primeiro e terceiro trimes- tres. No primeiro trimestre, devem ser evitadas pelo risco de deficiências congênitas e, no ter- ceiro trimestre, a nitrofurantoína deve ser evi- tada pois há risco do recém-nascido desenvolver anemia hemolítica. Já as sulfonamidas ou a as- sociação entre sulfametoxazol-trimetoprima de- vem ser evitadas devido ao risco potencial de kernicterus no bebê após o parto. No entanto, como as consequências da ITU não tratada na gravidez são significativas, tais medicamentos poderão ser utilizados se não houver outras al- ternativas disponíveis, já que o benefício supera o risco (HABAK & GRIGGS, 2022; MINIS- TÉRIO DA SAÚDE, 2013). 57 | Página Nos últimos anos, a ampicilina tem sido o antibiótico de escolha para ITU na gravidez, no entanto, a resistência da E. coli a este tratamento tem aumentado significativamente, surgindo, assim, novas escolhas terapêuticas. Associando este fato com as recomendações descritas acima, o tratamento da ITU na gravidez possui uma redução significativa nas possibilidades te- rapêuticas quando comparados às drogas poten- cialmente utilizáveis (DUARTE et al., 2008). Para o tratamento da bacteriúria assintomá- tica e cistite, os antibióticos preconizados são as penicilinas, cefalosporinas e nitrofurantoína (mais detalhes na Tabela 6.3). Há conflito de evidências em relação ao tempo de tratamento, mas, um curso de 7 a 10 dias é recomendado para evitar o risco de recorrência. Em casos de pielonefrite, o manejo é intra hospitalar com an- tibioticoterapia endovenosa e reposição de flui- dos para manter a produção de urina adequada. Inicialmente, o tratamento consiste em tratar a infecção em curso de acordo com o antibio- grama durante 14 dias e, após o tratamento, é necessário manter o uso contínuo de nitrofuran- toína (100 mg/dia) até a 37ª ou a 38ª semana de gravidez (DUARTE et al., 2008; SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA E SOCI- EDADE BRASILEIRA DE UROLOGIA, 2004). Tabela 6.3 Antibióticos para o tratamento de ITU na gravidez Antibiótico Posologia Cefalexina Um comprimido de 500 mg em intervalos de 6 horas. Cefadroxil Um comprimido de 500 mg em intervalos de 8 ou 12 horas. Amoxicilina Um comprimido de 500 mg em intervalos de 8 horas. Nitrofurantoína Um comprimido de 100 mg em intervalos de 6 horas. Ampicilina Um comprimido de 500 mg em intervalos de 6 horas. Fosfomicina Trometamol Administrada, em jejum, na dose única de 3 g da apresentação em pó, diluída em água. Fonte: Adaptado do Ministério da Saúde - Atenção ao Pré-Natal de Baixo Risco, 2013. Um estudo multicêntrico sobre o perfil de resistência antimicrobiana envolvendo o Brasil e países europeus verificou-se maior sensibili- dade à fosfomicina trometamol (96,4%), se- guida pela nitrofurantoína (87%), cefuroxima (82,4%) e amoxicilina-clavulanato (82,1%). Es- pecificamente em relação às mulheres no Brasil, verificou-se sensibilidade bacteriana de 86,5% para nitrofurantoína, 75,7% para cefuroxima e 78,7% para amoxicilina-clavulanato (NABER et al., 2008). Para a escolha do tratamento, além das bac- térias mais prevalentes e da sensibilidade ao an- tibiótico, outros fatores devem ser considerados, como a disponibilidade do medicamento no Sis- tema Único de Saúde, a condição da paciente para adquirir a medicação, a tolerabilidade ao medicamento, a facilidade do esquema posoló- gico e, como já mencionado, a toxicidade ma- terna e fetal (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2013; ISMP, 2019). 58 | Página Após o término do tratamento, deve-se rea- lizar urocultura para controle de cura, confir- mando a erradicação da bacteriúria. Esta deverá ser repetida mensalmente nos três primeiros me- ses após a infecção e, caso todas sejam negati- vas, de dois em dois meses até o término da gra- videz (DUARTE et al., 2008). A prevenção de recorrência das infecções urinárias na gravidez, quimioprofilaxia, é indi- cada em casos de história prévia de ITUs recor- rentes antes da gestação; um episódio de pielo- nefrite durante a gravidez; duas ou mais ITUs baixas na gestação; uma ITU baixa, complicada por hematúria franca e/ou febre; uma ITU baixa associada a fatores de risco importantes para re- corrência. Nessas condições, o manejo da paci- ente consiste no tratamento padrão da infecção ativa, seguindo-se com o uso de nitrofurantoína (50-100 mg/dia) ou amoxicilina (250 mg/dia) ou cefalexina (250-500 mg/dia) por via oral e à noite durante todo o ciclo gravídico-puerperal, até pelo menos 6 semanas pós-parto (FE- BRASGO, 2018). Evolução e complicações Quanto à evolução da infecção urinária na gravidez, o principal ponto discutido na litera- tura é a ocorrência de pielonefrite após bacteri- úria assintomática. Discussões apontam que a frequência de pielonefrite foi maior em nulípa- ras (HILL et al., 2005). Existem diversas evi- dências epidemiológicas que associam o trata- mento dessa condição à prevenção da pielone- frite aguda (SCHNARR & SMAILL, 2008). As principais consequências descritas são: sepse, choque séptico, lesão renal aguda, abscesso re- nal e insuficiência renal aguda transitória (GRETTE et al., 2019). Define-se por sepse uma resposta irregular e disfuncional à infecção, originadada resposta inflamatória sistêmica, enquanto o choque sép- tico, além de todos esses aspectos, inclui hipo- tensão e desequilíbrio hemodinâmico (NAPO- LITANO, 2018). Lesão renal aguda, que em 3.9% dos casos evolui para insuficiência renal com necessidade de diálise, e abscesso renal são característicos da destruição do parênquima re- nal, seja pela bactéria, seja pela resposta infla- matória (TABER-HIGHT & SHAH, 2020). As repercussões sistêmicas maternas são as- sociadas, ou não, à sepse, sendo as mais comuns insuficiência respiratória, anemia, diabetes mel- litus e ruptura prematura das membranas e parto pré-termo (GRETTE et al., 2019; SCHNEE- BERGER et al., 2014). Casos mais raros repor- taram trombocitopenia, pneumonia e coagulo- patias (GRETTE et al., 2019). Ademais, estudos também concluíram que a infecção urinária du- rante a gestação pode aumentar o risco de endo- metriose e mastite pós parto (WERTER & SCHNEEBERGER et al., 2021). No que tange a complicações para o feto, sa- lienta-se que o parto pré termo e/ou baixo peso são as principais evoluções a serem observadas, principalmente em associação à pielonefrite ma- terna (GRETTE et al., 2019). O parto pré termo está relacionado na maioria dos casos à pré- eclâmpsia, condição em que ocorre uma disfun- ção do endotélio placentário materno, manifes- tando-se com proteinúria e hipertensão. A asso- ciação da ocorrência da pré-eclâmpsia com a in- fecção do trato urinário, em suas diferentes ma- nifestações, ainda não é completamente eluci- dada. Acredita-se que o estado inflamatório re- sultante da infecção pode evoluir com lesão en- dotelial, atresia e hipóxia placentária e por con- sequência, pré-eclâmpsia (YAN et al., 2018). Tal condição apresenta diversos impactos sistê- micos maternos mesmo após a gestação, como insuficiência renal e patologias neurológicas e cardiovasculares, como encefalopatia e hiper- tensão arterial, respectivamente. Observa-se que a pré-eclâmpsia está correlacionada à restrição 59 | Página do crescimento fetal intra-uterino em grande parte devido à hipóxia e a disfunção nutricional. Essa restrição é responsável pelas consequên- cias a longo prazo dessa condição, em destaque estão quadros de disfunção cardiovascular, cog- nitivas e de desenvolvimento neurológico (DI- MITRIADIS et al., 2023). Junto ao descrito, a infecção, independente- mente da presença de pré-eclâmpsia, pode cau- sar restrição ao crescimento fetal intra uterino e parto pré termo (MAZOR-DARY & LEVY, 2009). A inflamação exacerbada no contexto in- feccioso é possivelmente a causa do parto pré termo. Destacam-se como consequências desse quadro, insuficiência pulmonar crônica, danos neurológicos e comportamentais, doenças cardi- ovasculares, renais e metabólicas (HUMBERG et al., 2020). 60 | P á g i n a REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAHAA, A.R. et al. Maternal Immunological Adaptation During Normal Pregnancy. Frontiers in Immunology, v. 11, 2020. CUNDELL, A.M. Microbial Ecology of the Human Skin. Microbial Ecology, v. 76, n. 1, p. 113–120, 2018. DIMITRIADIS, E. et al. Pre-eclampsia. Nature Reviews Disease Primers, v. 9, n. 1, 2023. DUARTE, G. et al. Infecção urinária na gravidez. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 30, n. 2, 2008. FEBRASGO - Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Infecções do trato urinário du- rante a gravidez, 2018. Disponível em: <https://so- girgs.org.br/area-do-associado/infeccoes-do-trato-urina- rio-durante-a-gravidez.pdf>. Acesso em: 26 mar. 2023. FIOCRUZ - Fundação Oswaldo Cruz. Principais Ques- tões sobre Infecção Urinária na Gestação, 2020. Disponí- vel em: <https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/aten- cao-mulher/principais-questoes-sobre-infeccao-urinaria- na-gestacao/>. Acesso em: 29 mar 2023. FLORES-MIRELES, A L; et al. Urinary tract infections: epidemiology, mechanisms of infection and treatment op- tions. Nature Reviews Microbiology, v. 13, n. 5, p. 269– 284, 2015. GLASER, A. & SCHAEFFER, A.J. Urinary Tract Infec- tion and Bacteriuria in Pregnancy. Urologic Clinics of North America, v. 42, n. 4, p. 547–560, 2015. GRETTE, K.V. et al. Acute pyelonephritis during preg- nancy: a systematic review of the etiology, timing, and reported adverse perinatal risks during pregnancy. Journal of Obstetrics and Gynaecology, v. 40, n. 6, p. 739–748, 2020. HABAK, P. J. & GRIGGS, J. Urinary Tract Infection In Pregnancy. HILL et al. Acute Pyelonephritis in Pregnancy. Obstetrics & Gynecology, v. 105, n. 1, p. 18–23, 2005. HSIA, T. & SHORTLIFFE, L.D. The Effect of Pregnancy on Rat Urinary Tract Dynamics. The Journal of Urology, v. 154, n. 2, p. 684–689, 1995. HUMBERG, A. et al. Preterm birth and sustained inflam- mation: consequences for the neonate. Seminars in Immu- nopathology, v. 42, n. 4, p. 451–468, 2020. ISMP - Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medi- camentos. Uso Seguro de Medicamentos na Gestação, 2019. Disponível em: <https://www.ismp-brasil.org/ site/wp-content/uploads/2020/02/boletim_ismp_dezem- bro.pdf>. Acesso em: 26 mar. 2023. OHNSON, C.Y. et al. Characteristics of Women with Urinary Tract Infection in Pregnancy. Journal of Womens Health, v. 30, n. 11, p. 1556–1564, 2021. KALINDERI, K. et al. Urinary tract infection during pre- gnancy: current concepts on a common multifaceted pro- blem. Journal of Obstetrics and Gynaecology, v. 38, n. 4, p. 448–453, 6 fev. 2018. LENZ, L.L. Bacteriúria Assintomática. Arquivos Catari- nenses de Medicina, v. 35, n. 4, 2006. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Sa- úde. Departamento de Atenção Básica. - Atenção ao pré- natal de baixo risco [recurso eletrônico] – 1. ed. rev. – Brasília: Editora do Ministério da Saúde, v 32, p 318, 2013. NABER, K.G. et al. Surveillance Study in Europe and Brazil on Clinical Aspects and Antimicrobial Resistance Epidemiology in Females with Cystitis (ARESC): Impli- cations for Empiric Therapy. European Urology, v. 54, n. 5, p. 1164–1178, 2008. SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA E SOCIEDADE BRASILEIRA DE UROLOGIA. Infec- ções do Trato Urinário não Complicadas: Tratamento, 2004. Disponível em: <https://amb.org.br/files/_Biblio- tecaAntiga/infeccoes-do-trato-urinario-nao-complicadas- tratamento.pdf>. Acesso em: 26 mar. 2023. SCHNARR, J. & SMAILL, F. Asymptomatic bacteriuria and symptomatic urinary tract infections in pregnancy. European Journal of Clinical Investigation, v. 38, p. 50– 57, 2008. SCHNEEBERGER, C. et al. Asymptomatic bacteriuria and urinary tract infections in special patient groups. Cur- rent Opinion in Infectious SMAILL, F.M. & VAZQUEZ, J.C. Antibiotics for asymptomatic bacteriuria in pregnancy. The Cochrane library, v. 2019, n. 11, 2019. WERTER, D.E. et al. The Risk of Preterm Birth in Low Risk Pregnant Women with Urinary Tract Infections. American Journal of Perinatology, 2021. YAN, L; et al. The association between urinary tract in- fection during pregnancy and preeclampsia. Medicine, v. 97, n. 36, p. e12192–e12192, 2018. 61 | P á g i n a Palavras Chave: Doença Inflamatória Pélvica; Saúde da Mulher; Infecções Sexualmente Transmissíveis. Capítulo 7 FELIPE GUIMARÃES MARTINI¹ NATHALIA PERONDI PASSARELA2 1. Médico pós-graduado em Nutrologia Esportiva no Instituto BWS. 2. Graduanda em Medicina na Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL - Tubarão). DOENÇA INFLAMATÓRIA PÉLVICA 62 | P á g i n a INTRODUÇÃO A Doença Inflamatória Pélvica (DIP) é uma síndrome clínica caracterizada pela existência de um processo inflamatório dos órgãos genitais internos femininos. É relacionada à um quadro infeccioso polimicrobiano do trato genital supe- rior, ocasionado pela ascensão de microrganis- mos do trato genital inferior (POPA etal., 2019). Essa infecção pode afetar o endométrio, tubas uterinas, anexos uterinos e/ou estruturas contíguas. Sua progressão é definida pela viru- lência dos germes e a resposta imune. Os pató- genos podem ser sexualmente transmissíveis - clamídia, gonococo, micoplasmas, tricomonas e vírus -, ou endógenos por bactérias aeróbias e anaeróbias provenientes da flora vaginal (ME- NEZES et al., 2021). Numerosos são os fatores de riscos para DIP e a grande parte deles corresponde a situações de vulnerabilidade social, visto que, a principal etiologia dessa síndrome é de causa sexual- mente transmissível (CURRY et al., 2019). Al- gumas circunstâncias podem facilitar o seu apa- recimento, tais como: idade (15 aos 25 anos), uso de pílulas combinadas, período menstrual (pela diminuição do efeito bacteriostático do muco cervical), menstruação retrógrada (pela ascensão bacteriana), alguns fatores ginecológi- cos e obstétricos e história pessoal pregressa de DIP e vaginoses (TURPIN et al., 2021). Extensa parte dos casos decorre de maneira insidiosa e são assintomáticos ou oligossinto- máticos, sendo identificados, sobretudo, pelas sequelas que provocam. Os sinais e sintomas são inespecíficos e heterogêneos, contudo, há algumas especificidades a depender da etiologia e da estrutura acometida (SPAIN & RHEIN- BOLDT, 2016). São sugestivos: dor pélvica, corrimento vaginal, disúria e dispareunia, náu- sea e vômitos, febre e calafrios, metrorragia, as- tenia, dor à mobilização uterina e palpação dos anexos, tensão abdominal nos quadrantes infe- riores do abdome, distensão abdominal e ausên- cia ou diminuição dos ruídos hidroaéreos (CUBA, 2019). Quando se trata de mulheres que têm ativi- dade sexual e apresentam desconforto na parte inferior do abdômen ou na pelve, é importante levar em conta a possibilidade de DIP como um diagnóstico. Além de conduzir uma entrevista detalhada e realizar um exame físico, é essencial realizar questões suplementares para avaliar a extensão do envolvimento sistêmico e estabele- cer o diagnóstico apropriado (MITCHELL et al., 2021). Baseado em uma lista de critérios maiores, menores e elaborados, o diagnóstico clínico de DIP é sugerido. Realiza-se o diagnóstico a partir da presença de três critérios maiores mais um critério menor ou apenas um critério elaborado isoladamente. Os exames complementares de imagem e laboratorial devem ser realizados para diagnóstico etiológico e avaliação da gravidade. A laparoscopia é considerada padrão-ouro, po- rém, está reservada para situações específicas (KREISEL et al., 2021). É crucial iniciar o tratamento e realizar a tri- agem de comunidade por clamídia em mulheres em idade fértil, a fim de evitar danos graves aos órgãos reprodutivos (ZHENG et al., 2019). De- vido à variedade de agentes causadores dessa condição, a monoterapia não é recomendada. O tratamento da Doença Inflamatória Pélvica (DIP) é baseado em evidências empíricas, utili- zando uma combinação de antibióticos que abrangem a Neisseria gonorrhoeae, a Chlamy- dia trachomatis e diversos patógenos anaeró- bios gram-negativos, mesmo que esses agentes não tenham sido confirmados em exames labo- ratoriais (ASHM, 2022). A Doença Inflamatória Pélvica não diagnos- ticada ou tratada de maneira inapropriada, pode 63 | P á g i n a ocasionar desfechos negativos na saúde repro- dutiva feminina a longo prazo. Dessa forma, o reconhecimento precoce dos sinais e sintomas, diagnóstico acurado e tratamento adequado são necessários para melhorar a detecção e o manejo da DIP. Etiopatogenia A DIP é uma síndrome clínica caracterizada pela existência de processo inflamatório que afeta estruturas do trato genital superior tais como: útero, tubas uterinas, ovários e estruturas anexas, provocando endometrite, salpingite, ooforite, abscesso tubo ovárico e peritonite (POPA et al., 2019). Segundo Cuba (2017), a DIP é ocasionada pela ascensão de um agente infeccioso vaginal ou cervical, de forma espon- tânea ou provocada por procedimentos de inser- ção de dispositivos intrauterinos (DIU), cureta- gem e biopsia de endométrio. Além disso, pode levar a sequelas reprodutivas graves, como in- fertilidade, gravidez ectópica e dor pélvica crô- nica (ZHENG et al., 2019). Sua progressão é de- finida pela virulência dos germes e a resposta imune. Os patógenos podem ser sexualmente transmissíveis - clamídia, gonococo, micoplas- mas, tricomonas e vírus -, ou endógenos por bactérias aeróbias e anaeróbias provenientes da flora vaginal (MENEZES et al., 2021). Numerosos são os fatores de riscos para a DIP e a grande parte deles corresponde a situa- ções de vulnerabilidade social, visto que, a prin- cipal etiologia dessa síndrome é de causa sexu- almente transmissível. Quanto mais cedo for o início da atividade sexual, maior seu risco (CURRY et al., 2019). Aproximadamente 15% dos casos de DIP não são transmitidos sexualmente, estando cor- relacionados a germes entéricos, patógenos res- piratórios ou outros que colonizam o trato geni- tal inferior (CDC, 2021). Cerca de 85% dos casos de DIP são ocasio- nados por patógenos sexualmente transmitidos ou associados à vaginose bacteriana. As princi- pais etiologias de DIP, Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae, têm demonstrando di- minuição em sua incidência, demonstrando, em alguns estudos, cerca de apenas 1/3 dos casos (SWEENEY et al., 2022). Contudo, esses agen- tes patogênicos ainda são facilmente encontra- dos associados à DIP, sendo ainda uma das mais importantes complicações das infecções sexual- mente transmissíveis (ISTs), representando um preocupante problema de saúde pública (ME- NEZES et al., 2021). Entretanto, não somente a atividade sexual predispõe à DIP, mas também a imaturidade do epitélio cervical e a utilização de contraceptivo oral (CURRY et al., 2019). Segundo Turpin et al. (2021), algumas circunstâncias podem faci- litar o seu aparecimento, tais como: - Idade (15 aos 25 anos): a mulher jovem com infecções do trato genital inferior possui maior probabilidade de desenvolver DIP devido ao tempo de possível exposição e reinfecção. Alguns autores, ainda relacionam uma causa hormonal, principalmente em adolescentes, visto que apresentam ciclos anovulatórios cons- tantes. - Nível socioeconômico baixo: a popula- ção com baixo nível socioeconômico estão mais associadas à comportamentos promíscuos, me- nor acesso a cuidados médicos, hábitos de higi- ene escassos e maior incidência de ISTs. - Vida sexual ativa: a assiduidade da rela- ção sexual influi pela maior facilidade na ascen- são microbiana e maior chance de entrar em contato com agentes patógenos da DIP. - Múltiplos parceiros: é um fator de risco relevante, visto que a mulher pode vir a ter con- tato com portadores de ISTs e relações sexuais desprotegidas. 64 | P á g i n a - Uso de pílulas combinadas: pode favore- cer a infecção por N. gonorrhoeae e C. Tracho- matis, pela possibilidade de causar ectopia. - Período menstrual: o muco cervical du- rante o ciclo menstrual apresenta menor efeito bacteriostático, e com a oscilação hormonal du- rante o fluxo, a ascensão dos microorganismos é facilitada. - Menstruação retrógrada: pela ascensão bacteriana. - Fatores ginecológicos e obstétricos: mu- lheres que realizaram a inserção de DIU há me- nos de 20 dias, histeroscopia, curetagem, partos recentes, abortos e realização de duchas vagi- nais. - História pessoal pregressa de DIP, vagi- nites e vaginoses. Quadro clínico e diagnóstico Extensa parte dos casos decorre de maneira insidiosa e são assintomáticos ou oligossinto- máticos, sendo identificados, sobretudo, pelas sequelas que provocam (SPAIN & RHEIN- BOLDT, 2016). Quando oligossintomáticos, há a possibilidade de serem detectados mais rá- pido, contudo, não é o que acontecena maioria dos casos, visto que as pacientes são assistidas no âmbito dos cuidados primários de saúde, tendo dificuldades de realizar exames comple- mentares que consigam caracterizar completa- mente a doença (TAO et al., 2018). Os sinais e sintomas são inespecíficos e he- terogêneos, contudo, há algumas especificida- des a depender da etiologia e da estrutura aco- metida (SPAIN & RHEINBOLDT, 2016). Se- gundo Cuba (2019), são sugestivos: - Dor pélvica: aguda ou insidiosa, em grande parte é bilateral, com início durante ou logo após a menstruação. - Corrimento vaginal: purulento, com ou sem odor fétido. - Disúria e dispareunia: principalmente em casos insidiosos e crônicos. - Náusea e vômitos: na existência de aco- metimento peritoneal. - Febre e calafrios: apesar de inespecífico pode ajudar no diagnóstico diferencial de gravi- dez ectópica. - Metrorragia: maior acometimento em mulheres jovens e com envolvimento endome- trial. - Astenia. - Dor à mobilização uterina e palpação dos anexos. - Tensão abdominal nos quadrantes infe- riores do abdome, distensão abdominal e ausên- cia ou diminuição dos ruídos hidroaéreos. Quando sintomático, o diagnóstico diferen- cial de DIP deverá ser realizado frente às mani- festações uroginecológicas, gastrointestinais e esqueléticas. Diante disso, algumas hipóteses podem ser investigadas, tais como: gravidez ec- tópica, apendicite aguda, infecção do trato uri- nário, litíase ureteral, torção de tumor cístico de ovário, torção de mioma uterino, rotura de cisto ovariano, endometriose (endometrioma roto), diverticulite. Dessa forma, através da elucida- ção das hipóteses diagnósticas, pode-se estabe- lecer a terapêutica precoce e evitar sequelas nas pacientes (LAREAU & BEIGI, 2008). Em mulheres sexualmente ativas com dor abdominal baixa ou dor pélvica, deve-se consi- derar o diagnóstico de DIP. Além da anamnese minuciosa e exame físico completo - exame ab- dominal, exame especular vaginal, exame bima- nual com mobilização do colo e palpação dos anexos -, é fundamental realizar investigação adicional, a fim de avaliar acometimento sistê- mico e estabelecer o diagnóstico (MITCHELL et al., 2021). Baseado em uma lista de critérios maiores, menores e elaborados, o diagnóstico 65 | P á g i n a clínico de DIP de acordo com os protocolos es- tabelecidos pelo Ministério da Saúde é realizado a partir da presença de três critérios maiores as- sociado a um critério menor ou um critério ela- borado, evidenciados na Tabela 7.1. Tabela 7.1 Critérios diagnósticos de DIP Critérios maiores Dor no hipogástrio Dor à palpação de anexos Dor à mobilização de colo uterino Critérios menores T.axilar>37,5°C ou T.retal>38,3°C Conteúdo vaginal ou secreção endocervical anormal Massa pélvica + de 5 leucócitos/campo de imersão em material de endocérvice Leucocitose em sangue periférico PCR ou VHS elevadas Comprovação laboratorial de infecção cervical por gonococo, clamídia ou micoplasmas Critérios elaborados Evidência histopatológica de endometrite Presença de abscesso tubo-ovariano ou de fundo de saco de Douglas em estudo de imagem Laparoscopia com evidência de DIP Fonte: Adaptado de Ministério da Saúde, 2020. Os exames complementares de imagem e la- boratorial devem ser realizados para diagnóstico etiológico e avaliação da gravidade. Dentre os exames laboratoriais, pode-se incluir o hemo- grama completo, VHS, PCR, exame bacterios- cópico para vaginose bacteriana, cultura de ma- terial de endocérvice com antibiograma, detec- ção de clamídia e gonococo por biologia mole- cular, pesquisa de N. gonorrhoeae e C. tracho- matis no material de endocérvice, da uretra, exame qualitativo de urina e urocultura (para afastar infecção do trato urinário, hemocultura, B-HCG (para afastar gravidez ectópica) (KREI- SEL et al., 2021). Em relação aos exames de imagem, sugere- se solicitar ultrassonografia transvaginal e pél- vico. Um importante achado ultrassonográfico na DIP é a presença de uma fina camada líquida preenchendo a trompa, com ou sem a presença de líquido livre na pelve. A laparoscopia é con- siderada padrão-ouro, porém, está reservada para situações específicas (KREISEL et al., 2021). Tratamento O tratamento imediato e a triagem de infec- ções por clamídia em mulheres em idade repro- dutiva são primordiais para prevenir danos gra- ves aos órgãos reprodutivos, como infertilidade, gravidez ectópica e dor pélvica crônica (ZHENG et al., 2019). Devido à diversidade de agentes etiológicos relacionados à essa condi- ção, a monoterapia não é recomendada. O trata- mento da DIP é empírico, com associação de an- tibióticos visando cobrir Neisseria gonor- rhoeae, Chlamydia trachomatis e mais uma gama de patógenos gram negativos anaeróbios, ainda que esses agentes não tenham sido confir- mados nos exames laboratoriais (ASHM, 2022). Em pacientes que apresentam quadro clí- nico leve, na ausência de sinais de pelviperito- nite nos exames abdominal e ginecológico, o tratamento é realizado ambulatorialmente (ASHM, 2022). Já as que apresentam abscesso tubo-ovariano, gravidez, ausência de resposta clínica após 72h do início do tratamento com an- tibioticoterapia oral, intolerância a antibióticos orais ou dificuldade para seguimento ambulato- rial, estado geral grave e dificuldade na exclusão 66 | P á g i n a de emergência cirúrgica, é necessário a realiza- ção do tratamento hospitalar (CDC, 2021). A Tabela 7.2 abaixo demonstra os esquemas terapêuticos utilizados para o tratamento da DIP. Tabela 7.2 Tratamento da DIP. Tratamento Primeira opção Segunda opção Terceira opção Ambulatorial Ceftriaxona 500 mg, IM, dose única MAIS Doxiciclina 100 mg, 1 comprimido, VO, 2x/dia, por 14 dias MAIS Metronidazol 250 mg, 2 comprimi- dos, VO, 2x/dia, por 14 dias Cefotaxima 500 mg, IM, dose única MAIS Doxiciclina 10 0mg, 1 comprimido, VO, 2x/ dia, por 14 dias MAIS Metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, VO, 2x/dia, por 14 dias Hospitalar Ceftriaxona 1 g, IV, 1x/dia, por 14 dias MAIS Doxiciclina 100mg, 1 comprimido, VO, 2x/dia, por 14 dias MAIS Me- tronidazol 400 mg, IV, de 12/12 h Clindamicina 900 mg, IV, 3x/ dia, por 14 dias MAIS Gentamicina (IV ou IM): 3-5 mg/kg, 1x/dia, por 14 dias Ampicilina/ sulbactam 3 g, IV, 6/6h, por 14 dias MAIS Doxiciclina* 100 mg, 1 comprimido, VO, 2x/dia, por 14 dias O uso parenteral deverá ser suspenso 24 horas após a cessação dos sintomas e a continuação terapêutica antimi- crobiana por via oral deve se estender até 14 dias. Orientar quanto ao não uso de bebidas alcoólicas durante e após 24h do uso de metronidazol para evitar efeito dissulfiram (antabuse) símile. * A doxiciclina é contraindicada durante a gravidez Fonte: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para atenção integral às pessoas com infecções sexualmente trans- missíveis 2019. A partir deste estudo entende-se que a DPI é umas das infecções mais comuns encontradas em mulheres não grávidas em idade reprodu- tiva, é a complicação mais significativa das ISTs em mulheres sexualmente ativas e em idade re- produtiva, sendo um grande problema de saúde pública, representando alto custo para a socie- dade. É uma doença de quadro clínico variado, muitas vezes assintomático, dificultando seu di- agnóstico precoce. Por ocasionar sequelas gra- ves, tanto agudas quanto crônicas, principal- mente no âmbito reprodutivo das mulheres, deve-se sempre suspeitar do diagnóstico de DIP em pacientes jovens sexualmente ativas com dor pélvica, especialmente nas pacientes com risco para ISTs. Além disso, o tratamento empí- rico com o uso de antibióticos deve ser iniciado o mais precocemente possível. A DIP não diagnosticada ou tratada de ma- neira inapropriada, pode ocasionar desfechos negativosna saúde reprodutiva feminina a longo prazo. Dessa forma, o reconhecimento precoce dos sinais e sintomas, diagnóstico acu- rado e tratamento adequado são necessários para melhorar a detecção e o manejo da DIP. 67 | P á g i n a REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASHM - Australian Society for HIV Medicine. Pelvic in- flammatory diseases (PID) - STI Guidelines Australia. Disponível em: <https://sti.guidelines.org.au/syndromes/ pelvic-inflammatory-diseases-pid/>. Acesso em: 15 fev. 2023. CDC - Centers for Disease Control and Prevention. Pelvic Inflammatory Disease (PID) - CDC Detailed Fact Sheet, 2021. Disponível em: <https://www.cdc.gov/ std/pid/ stdfact-pid-detailed.htm>. Acesso em: 15 fev. 2023. CDC - Centers for Disease Control and Prevention. Sexu- ally Transmitted Infections Treatment Guidelines,2021. Disponível em: <https://www.cdc.gov/ std/treatment-gui- delines/pid.htm>. Acesso em: 15 fev. 2023. CUBA, Y.C.S. Melhoria na prevenção das doenças infla- matórias pélvicas na ubs pé da serra no município luís correia. 2017. 24 p. Trabalho de Conclusão de Curso (Es- pecialização em Atenção Básica) - Universidade Federal do Maranhão/UNASUS, São Luís, 2017. CURRY, A. et al. Pelvic inflammatory disease: Diagno- sis, management, and prevention. American family physi- cian, v. 100, n. 6, 2019. KREISEL, K.M. et al. The Burden of and Trends in Pel- vic Inflammatory Disease in the United States, 2006– 2016. The Journal of Infectious Diseases, v. 224, n. Su- pplement_2, p. S103, 2021. LAREAU, S.M. & BEIGI, R. H. Pelvic inflammatory di- sease and tubo-ovarian abscess. Infectious disease clinics of North America, v. 22, n. 4, p. 693, 2008. MENEZES, M.L.B. et al. Protocolo Brasileiro para Infec- ções Sexualmente Transmissíveis 2020: doença inflama- tória pélvica. Epidemiologia e Serviços de Saúde, v. 30, n. spe1, 2021. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Protocolo Clínico e Diretri- zes Terapêuticas para atenção integral às pessoas com in- fecções sexualmente transmissíveis 2019. MITCHELL, C.M. et al. Etiology and Diagnosis of Pelvic Inflammatory Disease: Looking Beyond Gonorrhea and Chlamydia. The Journal of Infectious Diseases, v. 224, n. Supplement_2, p. S29, 2021. POPA E, et al. Pelvic inflammatory disease. Medic.ro, v. 132, n. 6, p. 40-45, 2019. SPAIN, J. & RHEINBOLDT, M. MDCT of pelvic in- flammatory disease: a review of the pathophysiology, ga- mut of imaging findings, and treatment. Emergency Ra- diology, v. 24, n. 1, p. 87, 2016. SWEENEY, S. et al. Factors associated with pelvic in- flammatory disease: A case series analysis of family plan- ning clinic data. Women’s Health, v. 18, p. 174550572211122, 2022. TAO, X. et al. Relationships between female infertility and female genital infections and pelvic inflammatory di- sease: a population-based nested controlled study. Cli- nics, v. 73, 2018. TURPIN, R. et al. Bacterial Vaginosis and Behavioral Factors Associated with Incident Pelvic Inflammatory Di- sease in the Longitudinal Study of Vaginal Flora. The Journal of Infectious Diseases, v. 224, n. 12 Suppl 2, p. S137, 2021. ZHENG, X. et al. Discovery of Blood Transcriptional En- dotypes in Women with Pelvic Inflammatory Disease. Journal of Immunology, v. 200, n. 8, abr. 2019. 68 | P á g i n a Palavras Chave: Endocrinologia; Mulheres; Saúde da Mulher. Capítulo 8 PAULINE CHRISTINA CAMPOS MARTINS FERREIRA¹ GABRIEL JUNQUEIRA GUIMARÃES¹ PEDRO CHAMON PACHECO¹ 1. Discente - Medicina na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) GINECOLOGIA ENDÓCRINA 69 | P á g i n a INTRODUÇÃO A Ginecologia endócrina é a área que com- preende os aspectos fisiológicos, sobretudo hor- monais e reprodutivos, do funcionamento do corpo da mulher desde o intra-útero até a senili- dade. Ademais, também abrange a investigação e o tratamento de disfunções atreladas de forma direta ou indireta ao funcionamento ovariano, como hirsutismo, desenvolvimento puberal pre- coce ou tardio, alterações do ciclo menstrual, menopausa, obesidade e osteoporose. Para en- tender essa área, é fundamental compreender melhor alguns temas como desenvolvimento puberal, ciclo menstrual e climatério, os quais são abordados a fundo no capítulo. Puberdade A puberdade pode ser definida como fase do desenvolvimento, entre a infância e a vida adulta, marcada por mudanças corporais e psi- cológicas, na qual ocorre a maturação sexual, surgem os caracteres sexuais secundários, esti- rão de crescimento e mudanças na composição corporal. Na menina, a puberdade fisiológica é esperada que ocorra entre os 8 e 13 anos. O acompanhamento do desenvolvimento puberal é feito segundo os critérios da classifi- cação de Tanner (Figura 8.1). São avaliados cinco estágios, considerando, quanto ao sexo fe- minino, o desenvolvimento das mamas e a dis- tribuição e a quantidade de pelos pubianos. O estágio 2 de Tanner marca o início da puber- dade. Esta é completada ao atingir o estágio 5. É importante destacar que a transição entre cada estágio de Tanner não pode ser inferior a 6 me- ses, nem superior a 2 anos (SPSP, 2021). 70 | P á g i n a Figura 8.1 Critérios de classificação puberal de Tanner para o sexo feminimo FONTE: Ministério da Saúde, 2013. Nas meninas, o sinal de puberdade é o sur- gimento do broto mamário, mudança que ocorre devido ao aumento dos níveis dos hormônios se- xuais. Na puberdade fisiológica, o hipotálamo é ativado e estimula a hipófise a produzir os hor- mônios folículo estimulante (FSH) e luteini- zante (LH). O FSH e o LH atuam nos ovários, produzindo estrogênio e progesterona. A puber- dade precoce e o atraso puberal podem ser sinais de alerta para possíveis doenças associadas, logo, o acompanhamento médico diante de qua- dros como esses é essencial. Puberdade precoce Puberdade precoce no sexo feminino é o iní- cio do desenvolvimento de caracteres sexuais secundários, telarca e pubarca, antes dos oito anos. Nas meninas, o primeiro sinal de início da puberdade é tipicamente a telarca. O aumento da secreção de hormônios responsável pelo desen- volvimento dos caracteres sexuais também leva a maturação óssea, propiciando a fusão epifisá- ria precoce e, consequentemente, uma altura fi- nal menor no adulto (FUQUA, 2013). Existem dois tipos e puberdade precoce, a central e a periférica. 71 | P á g i n a Puberdade precoce central (PPC), advém da maturação precoce do eixo hipotálamo-hipó- fise-ovário, gerando o surgimento do broto ma- mário e da pubarca. A ativação precoce do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal ocorre por diver- sos fatores. Pode ser patológica ou idiopática. É patológica em 10-20% dos casos, nas quais a puberdade precoce central idiopática é muito mais comum, compreendendo aproximada- mente 80-90% dos casos. (CHOI et al., 2013) A puberdade precoce periférica (PPP) independe do eixo hipotálamo-hipófise-ovário e é desenca- deada pela secreção excessiva de hormônios se- xuais (estrógenos ou andrógenos) produzidos pelos ovários ou pela suprarrenal, por produção ectópica de gonadotropina de um tumor de cé- lulas germinativas ou por exposição exógena a esteróides sexuais (SPSP, 2021). Ciclo menstrual A menstruação pode ser definida como fluxo de sangue resultante da descamação das paredes do endométrio quando não ocorre nida- ção, e por convenção o primeiro dia do sangra- mento é considerado o primeiro dia do ciclo menstrual (HMEC, 2021). A duração habitual de um ciclo menstrual é em média 28 dias, sendo, destes, de 4,5 a 8 dias o período mens- trual. A perda sanguínea estimada varia de 5 a 80 mL (FRASER et al., 2011). Sob a perspectiva da função ovariana, como pode ser visto na Figura 8.2, o ciclo menstrual pode ser definido dividido em duas fases: folicular (pré-ovulatória) e lútea(pós- ovulatória). Estas, sob perspectiva do endométrio, são chamadas, respectivamente, de proliferativa e secretora. Figura 8.2 Ciclo ovariano e ciclo endometrial Fonte: A influência do ciclo menstrual na rotina da mulher militar, 2021 (ERNESTO, 2021). 72 | P á g i n a Fase folicular O hipotálamo secreta GnRH com alta fre- quência e baixa amplitude e estimula a hipófise a liberar FSH, o qual recruta os folículos ovari- anos, que estão na fase lútea tardia, antes da menstruação, e atua sobre as células da granu- losa, promovendo a conversão de androgênios em estrogênio. Os níveis circulantes de LH se elevam gradualmente. Os folículos recrutados logo intensificam a produção de estradiol. Em seguida, os folículos selecionados para ovulação amadurecem e acumulam células gra- nulares secretoras de hormônios. Os níveis de FSH caem. Ademais, os folículos em desenvol- vimento a inibina, hormônio responsável por inibir a secreção de FSH. Os níveis de estradiol, aumentam significativamente, atingindo o pico, assim ocorre a ovulação. Os níveis de progeste- rona também começam a se elevar. Logo, ocorre um pico de LH, pois os altos níveis de estradiol desencadeiam um feedback positivo. Além disso, o pico de LH também é estimulado pelo GnRH e pela progesterona. Fase lútea Essa fase, em geral, possui uma duração fixa de aproximadamente 14 dias. Nela, após a libe- ração do óvulo pelo folículo dominante, a partir das células deste, forma-se o corpo lúteo. O corpo lúteo secreta progesterona em quantidades aumentadas, a qual estimula o de- senvolvimento do endométrio secretor, necessá- rio para a implantação embrionária. Diante dos altos níveis circulantes de estradiol, progesterona e inibina durante maior parte da fase lútea, os níveis de LH e FSH decrescem. Se a fecundação não ocorre, os níveis de estradiol e progesterona baixam no fim dessa fase. Assim, o corpo lúteo se degenera, formando o corpo albicans. Caso ocorra a fecundação, o corpo lúteo não se degenera, permanece funcional no início da gestação, continuando a produzir progesterona (CLAPAUCH, 2022). A menstruação será desencadeada pela queda da progesterona e do estrogênio, resulta da contração das artérias espirais, o que pro- move isquemia local, somada à destruição teci- dual acelerada por enzimas proteolíticas, e ao vasoespasmo arteriolar e às contrações miome- triais devido à produção de prostaglandinas (HMEC,2021). O conhecimento da fisiologia do ciclo menstrual é essencial para a compreensão dos distúrbios ginecológicos relacionados às ir- regularidades deste. Climatério O climatério pode ser definido como transi- ção entre o estágio reprodutivo da mulher e o não reprodutivo, ou seja, a falência ovariana (UTIAN,1994). Essa síndrome é um conjunto de sinais e sintomas, oriunda da ação de fatores socioculturais, psicológicos e endócrinos diante da senescência da mulher. Em geral, varia dos 40 aos 65 anos, período no qual ocorre a meno- pausa: a interrupção permanente da menstrua- ção, confirmada após 12 meses consecutivos de amenorreia (FEBRASGO, 2010). O diagnóstico é clínico quando ocorre em mulheres na faixa etária esperada para hipofunção ovariana. Mu- lheres nessa transição apresentam novas neces- sidades em relação à prevenção de doenças e à promoção da saúde. É recomendado pela Fede- ração Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia o rastreamento para neoplasias malignas gineco- lógicas, câncer colorretal, fatores de risco para doença cardiovascular, osteoporose, depressão e infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) (FEBRASGO, 2022). Quadro clínico Os sintomas mais frequentes são os vasomo- tores, também conhecidos como fogachos. São sensações súbitas de calor, as quais duram por 73 | P á g i n a volta de 3 a 4 minutos, na região central do corpo (VODA, 1981). Paralelamente pode ocor- rer aumento da frequência cardíaca, vasodilata- ção periférica, elevação da temperatura cutânea e sudorese (KAUNITZ & MASON, 2015). Ao fim da quarta década de vida, em virtude da queda da produção ovariana de inibina B, pode ocorrer elevação das concentrações séricas de FSH e de estradiol, desencadeando um encur- tamento da fase folicular, o qual é, em geral, um dos primeiros sinais da redução da reserva ova- riana. Os níveis de progesterona na fase lútea também reduzem devido à diminuição da quali- dade do corpo lúteo. Com o passar dos anos, a depleção folicular é mantida e a anovulação se torna cada vez mais recorrente. Em virtude disso, ocorrem episódios mais longos de ame- norreia, padrão o qual pode durar de um a três anos antes do último episódio de sangramento menstrual, que ocorre em média aos 47 anos (CASPER, 2020). Diagnóstico O diagnóstico, quando os sintomas acome- tem mulheres da faixa etária esperada, é clínico. Em caso de dúvidas, a dosagem de FSH na fase folicular inicial é capaz de confirmar o diagnós- tico. Valores superiores a 25 mUI/mL podem ser o indício do início da transição menopausal, entretanto, nota-se grande variabilidade diária das concentrações de FSH durante essa fase. Portanto, quando necessário, é indicado a reali- zação de duas dosagens com intervalo de quatro a seis semanas (MS, 2016). Para mulheres, com menos de 45 anos, com quadro clínico de san- gramento uterino anormal e ciclos menstruais pouco frequentes e de padrão irregular, mesmo que o quadro seja sugestivo de hipoestroge- nismo, é recomendada investigação dos sinto- mas e exclusão de outras causas de irregulari- dade menstrual (CASPER, 2020). Terapêutica hormonal (TH) Os sintomas vasomotores associados ao hi- poestrogenismo; a perda de massa óssea e o con- sequente aumento do risco de fraturas por fragi- lidade; e síndrome geniturinária da menopausa podem ser tratados por meio da terapêutica hor- monal. A indicação pode ser feita baseada na história clínica e no exame físico completo. Eles dão capazes de descartar a grande maioria das contraindicações ao uso de TH. Dados suspeitos necessitam ser investigados com exames com- plementares. É importante destacar que a pre- sença de lesão precursora do câncer de mama é contraindicação ao uso de TH. Em virtude disso, a fim de iniciar o uso de TH, deve-se solicitar mamografia de rastreamento à paciente caso esta tenha realizado o exame há mais de um ano (POMPEI et al., 2018). 74 | P á g i n a REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CASPER, R.F. Clinical manifestations and diagnosis of menopause [Internet]. 2020 [cited 2020 Jun 21]. Availa- ble from: https://www. uptodate.com/contents/clinical- manifestations-and-diagnosisof-menopause. Acesso em: 16 mai 2023. CHOI, K.H. et al. Boys with precocious or early puberty: incidence of pathological brain magnetic resonance ima- ging findings and factors related to newly developed brain lesions. Annals of Pediatric Endocrinology & Metabo- lism, v. 18, p. 183-90, 2013 CLAPAUCH, R. Endocrinologia feminina e andrologia - 3ªed. Editora : Thieme Revinter, 2022. ERNESTO, A.C.C. A influência do ciclo menstrual na ro- tina da mulher militar / Ana Cláudia Cordeiro Ernesto. – 2021. 25 f. Orientadora: 1º Ten Alessandra Vieira. Traba- lho de Conclusão de Curso (especialização) – Escola de Saúde do Exército, Programa de Pós-Graduação em Apli- cações Complementares às Ciências Militares, 2021. Re- ferências: f. 23-25. FEBRASGO - Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Feminina, v. 50, n. 5, 2022. FEBRASGO - Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Manual de Orientação em Cli- matério. 2010. FUQUA, J.S. Treatment and outcomes of precocious pu- berty: an update. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 98, p. 2198-207, 2013. FRASER, I.S. et al. The FIGO recommendations on ter- minologies and definitions for normal and abnormalute- rine bleeding. Seminars in Reproductive Medicine, v. 29, n. 5, p. 383-390, 2011. HMEC - HOSPITAL MUNICIPAL E MATERNIDADE ESCOLA VILA NOVA CACHOEIRINHA. Diretrizes clínicas da Ginecologia. 6ªed. São Paulo (SP), 2021. KAUNITZ, A.M. & MANSON, J.E. Management of me- nopausal symptoms. Obstetrics & Gynecology, v. 126, n. 4, p. 859-76, 2015. MS - MINISTÉRIO DA SAÚDE. Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Protocolos da atenção básica: saúde das mulheres. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2016. MS - MINISTÉRIO DA SAÚDE. Orientações para o atendimento à saúde da adolescente. Brasília (DF); 2013. POMPEI, L.M. et al. Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal da Menopausa – Associação Brasileira de Cli- matério (Sobrac). São Paulo: Leitura Médica; 2018. SPSP - SOCIEDADE DE PEDIATRIA DE SÃO PAULO. Pediatra Atualize-se | Ano 6 • nº 4. São Paulo, Jul/Ago 2021. ISSN 2448-4466. UTIAN, W.H. Ovarian function, therapy-oriented defini- tion of menopause and climacteric. Experimental Geron- tology, v. 29, n. 3-4, p. 245-51, 1994. VODA, A.M. Climacteric hot flash. Maturitas, v. 3, n. 1, p. 73-90, 1981 . https://www.thieme-connect.com/products/ejournals/abstract/10.1055/s-0031-1287662 75 | P á g i n a Palavras Chave: Leiomioma; Histerectomia; Tumores Benignos. Capítulo 9 EDUARDA DE OLIVEIRA TEIXEIRA¹ ISABELA LAMOUNIER DE CARVALHO1 ISADORA LIMA TELES BAETA ZEBRAL1 JÚLIA ABREU DORNELES1 1. Discente – Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais. MIOMAS 76 | P á g i n a INTRODUÇÃO O leiomioma ou fibroma uterino, também popularmente conhecido como mioma uterino, consiste no tumor benigno do útero de maior frequência. Essa condição ginecológica deriva- se da hiperproliferação das células musculares (miócitos) presentes no miométrio, camada muscular do útero, que se entrelaçam a tecido conjuntivo. Apesar de ser uma condição be- nigna, relacionada a baixa mortalidade e rara- mente ameaçadora à vida, pode gerar morbi- dade, comprometendo a qualidade de vida da mulher ao gerar uma série de desconfortos e incômodos (BOZZINI, 2002). Essas formações são extremamente comuns, a prevalência de miomatose uterina em pa- cientes em idade reprodutiva é de cerca de 30% (BOZZINI, 2004) sendo mais recorrente nas mulheres de raça negra. Todavia, acredita-se que esse valor é subestimado, já que a maioria dos miomas uterinos são assintomáticos. Cerca de 80% das mulheres negras e 70% das um- lheres brancas são diagnosticadas com a condi- ção, em diversos graus e formas durante a vida (SOUZA, 2022). Apesar de muitas vezes se apresentar de forma assintomática, o fibroma uterino é sintomático em 20% à 50% das um- lheres (BOZZINI, 2002) e constitui uma das quatro principais causas de sangramento uterino anormal de causa anatômica. Os miomas podem ser classificados em corporais ou cervicais. Os corporais corres- pondem a grande maioria, cerca de 98% dos casos, e são subdivididos em subserosos, intra- murais e submucosos de acordo com sua loca- lização (CARRIJO, 2022). A descrição desses subtipos será mais amplamente abordada quando descrita a sintomatologia em tópicos posteriores. A abordagem do leiomioma deve envolver o número de tumorações, volume e localização. Essas características estão diretamente rela- cionadas à sintomatologia da paciente e servem de guia para escolha da melhor terapêutica. Assim, a principal subclassificação da mio- matose uterina utilizada na prática clínica ocorre com o critério topográfico feito pela Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO) em associação com o grupo Mor- phological Uterus Sonographic Assessment (MUSA), como demonstrado na Figura 9.1. Figura 9.1 Classificação proposta pela FIGO para desig- nação de miomas, de acordo com sua profundidade no miométrio Fonte: OLIVEIRA, H. C. et al, 2019. Atualmente, o mioma é uma das principais indicações de cirurgias ginecológicas, corres- pondendo a dois terços das indicações de histe- rectomia em mulheres entre 35 e 50 anos. Além disso, representa cerca de 3 à 5% das causas de infertilidade ao atingir principalmente mulheres em idade reprodutiva (AVELINO, 2015) As- sim, torna-se importante conhecer sua sinto- matologia e os métodos e terapêuticos mais in- dicados para, dessa forma, melhor orientar as mulheres e propiciar a elas um menor impacto possível em sua saúde e qualidade de vida. 77 | P á g i n a Patogênese Embora a patogênese do leiomioma uterino não esteja totalmente esclarecida e ainda seja um tema de debate na ginecologia, uma das teorias mais aceitas na literatura postula que a condição deve-se a mutações somáticas no miométrio que resultam na perda da regulação do crescimento de um grupo de células mio- metriais (FLAKE, 2003). Assim, será cons- tituído o nódulo de mioma. É válido que os miomas são tumores hormônio-dependentes, porém ainda é incerto se a ação dos esteróides sexuais está associada somente ao crescimento tumoral ou se também estaria relacionada a iniciação neoplásica (OLI- VEIRA et al., 2014). No que tange ao crescimento tumoral, é sabido que no local de desenvolvimento e cres- cimento dos miomas é demonstrado um número aumentado de receptores de estrogénios e pro- gesterona em relação ao miométrio normal (FLAKE, 2003). O estradiol é responsável pelo estímulo da produção dos componentes da ma- triz celular, enquanto a progesterona aumenta a atividade mitótica e inibe a apoptose. Tal fator explica a sensibilidade da neoplasia à flutuações dos níveis hormonais. Assim, níveis aumen- tados de hormônios promovem o crescimento da neoplasia, enquanto a diminuição dos seus ní- veis circulantes culmina na sua regressão (OLI- VEIRA et al., 2007). Já em relação a iniciação neoplásica, sabe- se que níveis aumentados de estrogênio e pro- gesterona resultam em um aumento das taxas de mitoses das células miometriais. Assim, esses hormônios poderiam contribuir para a ocor- rência das mutações somáticas supracitadas (SOZEN, 2006). Os fatores de crescimento e seus receptores também têm um papel na patogênese do fibroma uterino. Os fatores de crescimento "transfor- ming growth factor beta” (TGF-β), “basic fibroblast growth factor” (bFGF), “epidermal growth factor” (EGF), “platelet derived growth factor” (PDGF), “vascular endothelial growth factor” (VEGF) e “insulin- like growth factor 1” (IGF-1) são produzidos em excesso pelas pró- prias células do mioma em relação a um mio- métrio e endométrio normais (FARIA, 2008). Por último, a presença de múltiplos leio- miomas no útero de uma mesma mulher sugere que podem haver anormalidades genéticas que também estejam envolvidas na formação e crescimento tumoral (BARBIERI & ANDER- SEN, 1992). Assim, entende-se que a ação dos hor- mônios sexuais, mediada pela ligação aos seus receptores, leva a ativação de proto oncogenes de fatores de crescimento e de seus receptores. Ademais, alterações estruturais e funcionais de antioncogenes e de genes reguladores do cres- cimento celular também são descritas. Assim, tem-se a formação e desenvolvimento do leio- mioma uterino. Fatores de risco Dentre os fatores de risco para o desenvol- vimento de miomas destaca-se a idade, sendo o fator de risco mais relevante. Os leiomiomas são mais frequentemente encontrados em mulheres entre 30 e 40 anos de vida, sendo relativamente raros em mulheres jovens e na pós-menopausa (BOZZINI, 2002). Além disso, os miomas tend- em a aumentar na gravidez. A população tam- bém é um preditor de risco, sendo mais comum na etnia negra. Dados epidemiológicos indicam um aumento da incidência de até 9 vezes em mulheres negras em relação às mulheres brancas (BOZZINI, 2002) Além disso, nuliparidade, obesidade,menarca antes dos 11 anos também são fatores de risco (BOZZINI, 2004). A histó- ria familiar de miomatose uterina também é um 78 | P á g i n a importante fator de risco para ocorrência dessa condição (BENDA, 2001). Os fatores citados reforçam a relação causal dos miomas com os hormônios ovarianos pro- posta na patogênese da doença. Os momentos de maiores concentrações hormonais são os mais propícios ao surgimento de leiomiomas, em- quanto os ambientes de menor exposição hor- monal estão relacionados à regressão das lesões. Dentre os fatores de proteção destacam-se paridade e uso de anticoncepcional oral com- binado, que parece reduzir a incidência de mio- ma em 17% a cada 5 anos. Por fim, o tabagismo também é indicado como um fator de proteção, mas esse mecanismo ainda não é totalmente elucidado (CARRIJO, 2022). Alterações degenerativas Microscopicamente, as fibras musculares dos miomas estão distribuídas em um padrão es- piralado, circundadas por tecido conjuntivo, com vascularização tipicamente periférica. As- sim, podem sofrer alterações degenerativas que ocorrem quando o seu crescimento torna des- proporcional a oferta e a demanda de oxigênio, sendo os tipos de degeneração mais comuns a hialina, gordurosa, cística, mixomatosa, sarco- matosa e vermelha (BOZZINI, 2004). A degeneração hialina é a mais frequente, geralmente ocorre em miomas subserosos, e consiste na substituição do tecido conjuntivo por tecido hialino, o que lhe confere um aspecto piloso e uma consistência macia. A degeneração gordurosa é mais rara e está associada à degene- ração hialina avançada. A degeneração cística ocorre por liquefação de material hialino, dando origem a cistos de conteúdo claro. Na degeneração mixomatosa há um au- mento da matriz fibrilar amorfa com redução do número de fibras musculares individuais, com- ferindo-lhe uma textura gelatinosa. A degene- ração sarcomatosa é rara, costuma produzir ne- crose dentro do mioma com áreas de hemorragia e grande celularidade com intensa atividade mitótica e atipias nucleares. A degeneração vermelha ocorre devido à congestão ou infarto do mioma, o que lhe confere um aspecto ne- crótico com hemorragias difusas, edema e arté- rias entumecidas e, geralmente está associado a gravidez. Alterações morfológicas nos miomas, como calcificações (principalmente após a menopau- sa, no interior ou na periferia), edema, atrofia relacionada ao hipoestrogenismo, necrose ou infecção podem ser observadas (DÍAZ et al., 2022). Manifestações clínicas Os miomas podem localizar-se em qualquer camada uterina sendo normalmente classifica- dos segundo a sua posição anatômica em submucosos, intramurais e subserosos (CARRI- JO & SILVA, 2023). Os miomas submucosos são os menos fre- quentes, no entanto, são os mais sintomáticos e os passíveis de desenvolverem degeneração sar- comatosa. Podem ser sésseis ou pediculados, crescem em direção à cavidade uterina, empur- rando o endométrio, aumentando sua superfície, assim pode provocar sangramentos. Os miomas intramurais são os mais comuns, sendo 50 a 55% dos miomas e localizam-se na espessura do miométrio, produzindo irregula- ridade de contorno e aumento do tamanho ute- rino. Os miomas subserosos estão localizados na porção mais externa da parede uterina, chamada de serosa. Podem ser pediculados e, algumas vezes crescem inserindo-se entre o ligamento largo (miomas intraligamentares) e, mais rara- mente, aderem a órgãos vizinhos desenvolvendo uma vascularização independente (miomas pa- rasitários). Geralmente assintomáticos, apenas se atingirem um tamanho considerável, podem 79 | P á g i n a causar sintomas compressivos (DÍAZ et al., 2022). Estima-se que 20 a 50% das mulheres com um ou mais miomas apresentam sintomas que possam estar diretamente relacionados ao tu- mor. Aproximadamente 62% das mulheres sintomáticas têm miomas múltiplos e os sintomas relacionam-se com a localização, nú- mero, tamanho ou alterações degenerativas as- sociadas (FARIA et al., 2008). As manifestações clínicas mais comuns são aumento do fluxo menstrual, dor pélvica, infer- tilidade, aumento do volume abdominal e com- pressão do trato intestinal, urinário e venoso. A hemorragia menstrual presente em 30 a 60% dos casos apresenta-se como menorragia (aumento do volume menstrual) ou hiperme- norreia (aumento da duração do fluxo mens- trual). Nos miomas intramurais o sangramento foi relacionado com o aumento do tamanho da cavidade uterina e da área do endométrio e com as alterações vasculares do endométrio, já os miomas submucosos, devido sua localização são mais propensos a causar menorragia. Como possível complicação do sangramento exces- sivo durante a menstruação, tem-se a anemia por deficiência de ferro. A dor pélvica ocorre em 30 a 50% dos casos e está diretamente relacionada ao número, loca- lização e dimensão do mioma e pode ser uma dor em cólica, pressão ou sensação de peso no hipogástrio com irradiação para a região lombar e membros inferiores. Além disso, miomas grandes ou torção de miomas pediculados po- dem provocar dor aguda, sendo necessário o diagnóstico diferencial para excluir outras situa- ções (BOZZINI, 2004). O fator mais importante na infertilidade as- sociada ao leiomioma é a localização, sendo a variedade submucosa a principal responsável. A causa isolada de infertilidade em pacientes com mioma está associada a 0,1% a 4,3% dos casos (CARRIJO & SILVA, 2023). Ademais, como consequência do efeito de massa, podem aparecer sintomas urinários (po- laciúria ou retenção urinária), retais (obstipação, tenesmo, pressão retal e oclusão intestinal) ou venosos (hemorróidas, aumento da estase veno- sa ou edema dos membros inferiores) em conse- quência da compressão das veias pélvicas (BOZZINI, 2004). Diagnóstico O diagnóstico do leiomioma uterino é ba- seado primordialmente na sintomatologia apre- sentada pela paciente, a qual deve ser associada ao exame físico geral e ginecológico e aos acha- dos nos exames de imagem (LOPES, 2007). As principais afecções ginecológicas que devem ser levadas em consideração como diag- nóstico diferencial são o leiomioma, adeno- mioma, pólipo endometrial, tumor anexial, endometriose, câncer de endométrio e gravidez (OLIVEIRA et al., 2019). Ultrassonografia (US) Consiste no exame de imagem mais util- izado na avaliação inicial do leiomioma uterino. Através da US é possível avaliar a morfologia e dimensões do útero e endométrio, caracterizar nódulos, padrão de vascularização tecidual pelo estudo Doppler colorido e análise espectral das artérias uterinas (OLIVEIRA et al., 2019). A técnica pode ser realizada por via abdo- minal ou transvaginal, sendo que a primeira tem maior acurácia para miomas subserosos, sobre- tudo quando volumosos, e a segunda maior acu- rácia para os intramurais e submucosos (CAR- DOSO, 2004). Na avaliação ultrassonográfica o mioma classicamente será observado como nódulo hipoecogênico com contornos bem ou mal de- finidos, podendo apresentar calcificações ou 80 | P á g i n a tênues reforços acústicos. Os leiomiomas apre- sentam vascularização predominantemente pe- riférica, por serem compostos por musculatura lisa, o que os diferencia dos adenomiomas (UM- RASE et al., 1999). Histeroscopia Consiste na inserção de uma pequena câ- mera pelo canal cervical da paciente com o ob- jetivo de visualizar diretamente a cavidade ute- rina, de forma que possibilita avaliação de mio- mas submucosos. Possui elevada acurácia quan- do realizada na primeira fase do ciclo menstrual. Por ser incapaz de avaliar o componente intramural do mioma, seus achados devem somar-se aos outros exames, sobretudo a ultras- sonografia, para que a conduta adequada possa ser estabelecida (OLIVEIRA et al., 2019). Ressonância nuclearmagnética Embora seja o método com melhor reso- lução, tem sua utilização limitada, sobretudo, em razão do alto custo para sua execução. A ressonância nuclear magnética (RNM) tem grande importância na avaliação em úteros volumosos (maiores que 250 cm3) e naqueles com mais de 4 miomas, devido a dificuldade de avaliação ultrassonográfica nessas situações (DUEHOLM et al., 2002). Ademais, é indicada para diferenciação de tumores pélvicos e para avaliação da paciente pré-miomectomia ou embolização das artérias uterinas (HOFFMAN et al., 2014). Através da RNM é possível distinguir o mioma de outras afecções ginecológicas, como adenomiose e endometriose, além de topogra- far, dimensionar e mesmo sugerir informações histológicas com acurácia de até 69% (ZAWIN et al., 1990). Tratamento Existem diferentes condutas terapêuticas para os miomas uterinos. Estas devem ser individualizadas de acordo com: sintomas, ida- de, desejo de futuro reprodutivo e de preser- vação uterina, tratamentos prévios e comor- bidades, além do número, tamanho e localização dos miomas. Observação A observação pode ser uma opção em um- lheres perimenopausa, pela redução do sangra- mento e do volume do mioma que ocorre com a menopausa (PARKER, 2007). Ademais, paci- entes assintomáticas não necessitam de inter- venção e podem ser acompanhadas clinica- mente e ultrassonograficamente. Tratamento Clínico A finalidade do tratamento clínico é o controle do sangramento e da dor pélvica. Pode ser utilizado de forma inicial ou a longo prazo. A terapêutica pode ser hormonal ou não hormonal, sendo esta representada pelos anti- inflamatórios não esteroidais (AINEs) e pelos antifibrinolíticos, ambos úteis no controle do sangramento menstrual (CORLETA et al., 2007). O principal antifibrinolítico é o Ácido Tranexâmico, cuja ação envolve a indução de fibrinólise na superfície endometrial, com com- sequente redução do fluxo menstrual. O trata- mento hormonal é feito de diferentes formas, incluindo progestagênios isolados e anticon- cepcionais combinados (OLIVEIRA et al., 2019). O DIU liberador de Levonorgestrel (LNG- IUS) pode ser implantado em mulheres com 81 | P á g i n a tamanho uterino de 12 semanas e sem defor- midade da cavidade uterina (OLIVEIRA et al., 2019). Sua ação sobre o endométrio reduz subs- tancialmente o sangramento menstrual, entre- tanto, há risco de mal posicionamento ou des- locamento. Os análogos agonistas do hormônio libe- rador de gonadotrofina (GnRH-a) reduzem a concentração dos esteroides circulantes, o que induz amenorreia e reduz temporariamente o volume dos miomas, de modo que, com a suspensão da medicação, eles voltam aos pa- drões volumétricos prévios (OLIVEIRA et al, 2019). Seus benefícios são limitados pelos efei- tos adversos e pelos riscos a longo prazo. Em decorrência do hipoestrogenismo, as pacientes podem cursar com alterações humorais, sinto- mas vasomotores, ressecamento vaginal e redu- ção da densidade mineral óssea. O GnRH-a pode ser associado a baixas doses de estrogênio e de progestágenos, a fim de reduzir os efeitos adversos e permitir o uso a longo prazo do medicamento, principalmente em decorrência da perda óssea induzida por ele (PARKER, 2007). O Raloxifeno, modulador seletivo do receptor de estrogênio, também pode ser associado ao GnRH-a. Seu uso combinado evidenciou diminuição significativa de volume uterino, mas sem alterações de densidade mine- ral óssea ou dos marcadores metabólicos ósseos (PARKER, 2007). Os moduladores seletivos dos receptores de progesterona (SPRMs) podem ser utilizados em decorrência do efeito da progesterona no cres- cimento dos miomas. O Acetato de Ulipristal age nos receptores miometriais e endometriais, além de inibir a ovulação, de modo a reduzir o tamanho do mioma e controlar o sangramento, sem gerar efeitos significativos nos níveis de estradiol. Contudo, está sob investigação por hepatotoxicidade grave (OLIVEIRA et al., 2019). Quanto ao futuro terapêutico, espera-se a inclusão de compostos que bloqueiam a ação de fatores de crescimento que regulam a prolife- ração celular ou a produção de colágeno, além de novos inibidores da aromatase, enzima alta- mente expressa nos miomas que converte o andrógeno circulante em estrogênio (PARKER, 2007). Tratamento Cirúrgico O tratamento cirúrgico conservador é feito por meio da miomectomia e o definitivo via histerectomia. Pode ser indicado em mulheres com sangramento intenso, anemia, dismenor- reia, obstrução ureteral ou alterações de fre- quência urinária que comprometam a qualidade de vida. Histerectomia A histerectomia tem eficácia estabelecida e resultados favoráveis à qualidade de vida. É re- comendada a mulheres com grandes miomas sintomáticos sem desejo futuro de gestação, além de pacientes que não responderam a outras terapias. Preconiza-se a histerectomia associada a salpingectomia bilateral a fim de reduzir o risco de câncer de ovário, mesmo com a manutenção das gônadas. A ooforectomia é indicada em pacientes com doença ovariana ou diante de situações claras de risco (OLIVEIRA et al., 2019). De acordo com a idade da paciente, hábitos sexuais e histórico de rastreamento de lesões cervicais, pode-se optar pela histerec- tomia total ou subtotal, sendo essa mais indicada diante de dificuldade intraoperatória pela pre- sença de aderências. As vias indicadas são a vaginal ou a abdo- minal (laparotômica, laparoscópica ou robó- tica). Sempre que possível, deve-se indicar a via menos invasiva. Se a vaginal é possível para uma paciente, ela deve ser escolhida, mesmo em 82 | P á g i n a relação à laparoscopia, pois seus desfechos são semelhantes e envolve menor tempo cirúrgico, com consequente redução de custos (PARKER, 2007). Em comparação com a cirurgia abdo- minal, a via laparoscópica reduz o risco de com- plicações, com diminuição da perda sanguínea, dos níveis de hemoglobina, da dor e do tempo de internação pós-operatórios (CORLETA et al., 2007). As complicações, principalmente o sangra- mento excessivo, aumentam na mesma pro- porção em que o volume uterino. Porém, tal perda pode ser reduzida pelo pré-tratamento com GnRH-a (OLIVEIRA et al., 2019). Miomectomia A miomectomia é a exérese dos miomas, de modo a preservar o útero, a função menstrual e, muitas vezes, a possibilidade de gestação futura. É um procedimento de maior tempo cirúrgico do que a histerectomia e é considerado mais complexo, pelo maior risco de complicações (PARKER, 2007). Em termos de morbidade, não foi detectada diferença clínica minimamente importante entre a histerectomia e a miomectomia, dessa forma, essa pode ser considerada uma alternativa segura, apesar de possuir uma taxa de recor- rência estimada de 15-30% em um período de 10 anos (CORLETA et al., 2007). A via laparoscópica tem limitação rela- cionada ao volume e número dos miomas, sendo mais indicada para tumores com diâmetro de 7 a 10 centímetros, únicos ou associados a até 4 a 6 nódulos menores (OLIVEIRA et al., 2019). Apresenta menor morbidade, reduz a perda a sanguínea, a dor operatória e o tempo de inter- nação, com maior taxa de gravidez pós cirúrgica em relação a outras vias. Entretanto, o tempo cirúrgico é maior do que na laparotomia e o índice de complicações é semelhante. A laparotomia possui como principal indi- cação a presença de nódulos muito grandes ou numerosos. Em oposição, existe maior risco de sangramento excessivo e de sutura inadequada (OLIVEIRA et al., 2019). A via histeroscópica é a mais importante para tratamento de nódulos submucosos, princi- palmente devido à melhora da infertilidade que ocorre com sua ressecção (PARKER, 2007). Há redução dos sintomas em mais de 90% das um- lheres, com baixo risco de sangramento e de recidiva.Contudo, nem sempre é possível a realização da miomectomia completa, sobre- tudo nos casos de sangramento em excesso, de sobrecarga hídrica e de proximidade dos nódu- los à serosa (risco de perfuração). Diante de miomectomia incompleta, a paciente pode ser submetida a nova histeroscopia em dois a três meses (OLIVEIRA et al., 2019). Embolização das Artérias Uterinas (EAU) A embolização das artérias uterinas (EAU) é uma opção de tratamento conservador de leio- miomas sintomáticos e consiste em uma técnica radiointervencionista endovascular, na qual a irrigação sanguínea para o mioma é ocluída, de modo a induzir necrose e reduzir seu volume (OLIVEIRA et al., 2019). Os desfechos são positivos, com melhora dos sangramentos, da dismenorreia e da frequência urinária. Todavia, o grau de reintervenção por recorrência é impor- tante (PARKER, 2007). É indicada diante da falha de tratamentos prévios e de recidivas. As principais contrain- dicações envolvem processos patológicos no trato genital, imunossupressão, queda de função renal e alergia ao contraste. Em pacientes com desejo reprodutivo e impossibilidade de mio- mectomia, a EAU pode ser recomendada, mas deve-se ter em consideração que, apesar de raras, suas complicações podem necessitar de 83 | P á g i n a histerectomia como terapêutica (PARKER, 2007). Assim, pacientes que não admitem a histerectomia não devem ser submetidas a tal intervenção. A falha do tratamento é mais importante quando associada a adenomiose, mas pode ocor- rer também em miomas submucosos ou subse- rosos pelo risco de expulsão ou desprendimento uterino (OLIVEIRA et al., 2019;). Alguns estudos apontam risco de ame- norreia e de falência ovariana prematura, dessa forma, é desaconselhada a mulheres com desejo reprodutivo, podendo comprometer também a irrigação do endométrio e o desenvolvimento da gestação (CORLETA et al., 2007). Miólise por ultrassom focalizado de alta intensidade (HIFU) guiado por ressonância magnética O método usa a energia focalizada do ultrassom para criar calor em um ponto espe- cífico, com consequente desnaturação proteica e morte celular. Apresenta baixa morbidade e rápida recuperação, porém não é recomendado para mulheres com desejo fértil pela presença de estudos patológicos que demonstraram necrose em uma área três vezes maior do que a área alvo (PARKER, 2007). Considerações para o Tratamento dos Miomas Uterinos Em pacientes assintomáticas que não dese- jam gestar, a conduta conservadora com acom- panhamento é indicada. Já as mulheres assim- tomáticas que desejam gestar recebem indica- ção de miomectomia histeroscópica quando o mioma é submucoso ou intramural e se houver deformidade de cavidade. Pacientes sintomáticas sem desejo de ferti- lidade e sem alteração de cavidade podem ser tratadas com LNG-IUS, progestagênios isola- dos, anticoncepcionais combinados, EAU, mio- mectomia ou histerectomia. Mulheres sinto- máticas sem desejo reprodutivo e com defor- midade de cavidade devem ser avaliadas quanto à necessidade de miomectomia ou de histerec- tomia. No caso de mulheres sintomáticas com desejo fértil, a miomectomia ainda é consi- derada padrão-ouro diante de distorção uterina. A EAU também pode ser uma alternativa para casos complexos, de difícil execução e com comprometimento anatômico. 84 | P á g i n a REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARBIERI, R.L. & ANDERSEN, J.A. Uterine Leio- myomas: The Somatic Mutation Theory. Seminars in Reproductive Endocrinology, v. 10, n.4, p. 301-309, 1992. CARDOSO, A.B. et al. Frequência e fatores associados ao leiomioma uterino. Revista pesquisa e extensão em saúde, v. 4, n. 1, p.140-145, dez. 2008. CARRIJO N. G. & SILVA L.N. Análise dos aspectos inerentes ao Leiomioma Uterino no período de 2017 a 2022. Revista Artigos. Com, v. 36, p. 11435, 2023. CORLETA, H.V.E. et al. Tratamento atual dos miomas. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 29, n. 6, p. 324-328, jun. 2007. DUEHOLM, M. et al. Accuracy of magnetic resonance imaging and transvaginal ultrasonography in the diag- nosis, mapping, and measurement of uterine myomas. Am J Obstet Gynecol, v. 186, n. 3, p. 409-415, mar. 2002. FARIA, J. et al. Miomas uterinos - revisão da literatura. Acta Obstet Ginecol Port, v. 2, n. 3, p. 131–142, 2008. FLAKE, G. et al. Etiology and Pathology of Uterine Leiomyomas: A Review. Environmental Health Perspec- tives, v. 111, n. 8, p. 1037-1059, 2003. MURASE, E. et al. Uterine leiomyomas: histopathologic features, MR imaging findings, differential diagnosis, and treatment. Radiographics, v. 19, n. 5, p. 1179-1197, 1999. PARKER, W.H. Uterine myomas: management. Fertility and Sterility, v. 88, n. 2, p. 255–271, ago. 2007. SOUZA, R.B. et al. Leiomioma uterino- aspectos epide- miológicos, fisiopatológicos e manejo terapêutico. v.8, n.7, 2022. SOZEN, I. & ARICI, A. Cellular biology of myomas: Interaction of sex steroids with cytokins and growth fac- tors. Obstet Gynecol Clin N Am, v. 33, p. 41-58, 2006. ZAWIN, M. et al. High-field MRI and US evaluation of the pelvis in women with leiomyomas. Magnetic Reso- nance Imaging, v. 8, n.4, p.371-376, 1990. BOZZINI, N. editor. Leiomioma uterino: manual de ori- entação. Editora Ponto, 2004. BOZZINI, N. editor. Miomatose uterina. Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia. AMB CFM, 2002. DÍAZ, A.N. et al. Obstetricia y Ginecología. Elsevier Health Sciences, p. 299, 2022. HOFFMAN, B. et al. Ginecologia de Williams. Porto Alegre: AMGH, 2014. LOPES, A.C. Diagnóstico e tratamento. Barueri: Manole, 2007. OLIVEIRA, H.C. et al. Tratado de ginecologia da FE- BRASGO. Rio De Janeiro: Revinter, 2019. 85 | P á g i n a Palavras Chave: Endometriose; Dor pélvica; Tratamento Capítulo 10 MARIA EDUARDA RIBEIRO DE FIGUEIREDO¹ MARINA HENRIQUES AMARAL¹ PAULA SALOMÃO LIBÂNIO¹ RODRIGO VELOSO SOUTO ROCHA¹ 1. Acadêmico de Medicina da Faculdade Ciências Medicas de Minas Gerais ENDOMETRIOSE 86 | P á g i n a INTRODUÇÃO A endometriose é uma doença definida pela presença de glândulas e estroma do tecido endo- metrial funcionante, camada interna de revesti- mento do útero, em locais fora da cavidade ute- rina. Essa patologia é uma condição caracteri- zada por inflamação crônica local das regiões onde o tecido endometrial se implanta, sendo os sítios anatômicos para ocorrência desse fenô- meno a cavidade abdominal, os ovários, bolsa retrouterina, saco de Douglas, ligamentos uteri- nos e as tubas uterinas (REA, et al., 2020). Tal afecção pode cursar com uma grande di- versidade de manifestações clínicas, sendo pos- sível encontrar desde pacientes oligossintomáti- cas ou assintomáticas, até quadros de infertili- dade, dismenorreia, dispareunia, sangramentos irregulares e dores abdominais do tipo cólica. (NAVARRO et al., 2006). No quesito dor, a en- dometriose é a principal causa de dor pélvica crônica (DPC) e, muitas vezes, não há melhora dessa dor com os tratamentos existentes (SA- CHEDIN & TODD, 2020) A sua etiopatogenia ainda não está bem de- finida, porém, algumas teorias foram formula- das para explicá-la, sendo uma das mais rele- vantes a teoria da implantação, na qual ocorreria um refluxo de tecido endometrial através das trompas de falópio durante a menstruação, com subsequente implantação desse tecido em outros sítios anatômicos (SAMPSON, 1927). No en- tanto, ressalta-se que, embora cerca de 70 a 90% das mulheres apresentem menstruação retró- grada, apenas uma pequena parcela dessas irá desenvolver um quadro de endometriose (BRI- COU et al., 2008). Tal realidade sugere a existência de outros fatores que poderiam determinar uma maior sus- cetibilidade ao desenvolvimentoda doença, po- dendo esses serem imunológicos, genéticos, hormonais ou ambientais (BRICOU et al., 2008). A hereditariedade e o histórico familiar de endometriose são de grande relevância para o desenvolvimento da condição e aumenta o seu risco consideravelmente. Além disso, um ensaio clínico envolvendo 473 mulheres de idade entre 18 a 44 anos com diagnóstico de endometriose confirmado por meio de laparoscopia mostrou que a cafeína, o álcool, o fumo e a atividade fí- sica alteram a síntese de esteroides sexuais, o que pode promover um risco aumentado para doenças ginecológicas dependentes de hormô- nios, como a endometriose. (HEMMERT et al., 2018) Outra teoria também aceita é a teoria de dis- seminação linfática e hematogênica, invocada para explicar os implantes extrapélvicos e linfo- nodais, na qual os fragmentos de tecido endo- metrial seriam drenados no interior da cavidade uterina por meio dos vasos linfáticos e vênulas pélvicas e implantados em outros órgãos e teci- dos. O sítio anatômico de mais comum implan- tação endometrial à distância é o pulmão (AL, 2010). Um dos principais fatores de risco para a en- dometriose é a dismenorreia, uma vez que ela é causada por contração uterina mais vigorosa, que pode também predispor ao refluxo mens- trual. Além dela, é notada também a nulipari- dade, menarca precoce e ciclos menores que 27 dias, os quais se explicam por serem causadores de uma maior quantidade de ciclos durante a vida reprodutiva da mulher, gerando assim maior possibilidade de refluxo. Por último, é no- tada uma relação entre fluxos menstruais com volume aumentado, dieta rica em gorduras e his- tória familiar com a maior ocorrência de endo- metriose. Os sintomas clínicos da endometriose po- dem ser confundíveis com outros quadros que acometem o andar inferior do abdômen, como a doença inflamatória pélvica ou infecções uriná- 87 | P á g i n a rias. Sendo assim, para confirmação do diagnós- tico é necessário a visualização direta dos im- plantes endometriais, seja por meio de laparoto- mia, cistoscopia ou sigmoidoscopia. A biópsia é desnecessária, mas também confirmaria o qua- dro (LIU, 2022). Sua sintomatologia é caracterizada por dis- menorreia, dispareunia, dor pélvica (causada por aderências entre órgãos), sangramento irre- gular e dor a evacuação (caso o implante esteja localizado no reto) e uma de suas principais complicações é a infertilidade. À visualização direta, são observadas lesões de tamanho variável de acordo com o ciclo menstrual, mas normalmente, as lesões iniciais são claras ou hemorrágicas. Essa variação quanto ao tamanho das lesões ocorre porque, as- sim como o tecido endometrial, os implantes passam pelas fases do ciclo menstrual, possuem período de sangramento e podem chegar a se manifestar mais dolorosamente durante a "re- gra". À medida que o sangue nas lesões se oxida, elas adquirem o aspecto de manchas mar- rons azuladas, semelhante à queimaduras por pólvora (LIU, 2022). Em relação aos exames de imagem, eles não detectam de forma confiável a doença. Entre- tanto, podem demonstrar a extensão da endome- triose e, portanto, podem ser usados após o di- agnóstico como forma de monitorização da res- posta ao tratamento. Uma ultrassonografia mostrando um cisto ovariano consistente com um endometrioma é altamente sugestiva do di- agnóstico. A presença e o tamanho dos endome- triomas ovarianos são parte do sistema de esta- diamento da endometriose e a diminuição no ta- manho do endometrioma pode evidenciar uma resposta ao tratamento. Somado a isso, o diagnóstico de endometri- ose pode também ser estabelecido por meio da detecção por polimorfismo gênico nos genes responsáveis pela fase de desintoxicação dos re- ceptores de estrogênio e outros componentes imunomoduladores (TOCZEK et al., 2021). Epidemiologicamente, a endometriose é uma patologia de grande relevância clínica, pois está presente em cerca de 6 a 10% das mulheres em idade reprodutiva e em 25 a 38% das adoles- centes com dor pélvica crônica. (NODLER et al., 2020). Ela pode ser considerada um fator responsável por grande impacto socioeconô- mico e na qualidade de vida das mulheres por- tadoras do quadro, uma vez que acomete pes- soas profissionalmente ativas e a dor impossibi- lita essas jovens de realizarem atividades do dia a dia. Além disso, existe um impacto psicoló- gico significativo nas portadoras de endometri- ose, devido às preocupações sobre a possível in- fertilidade que acompanha esse quadro (SAUN- DERS & HORNE, 2021). As hipóteses que podem justificar a inferti- lidade causada pela endometriose são o ambi- ente inflamatório, devido ao implante, que é hostil para o espermatozoide, ovócito e para o desenvolvimento adequado do embrião, a modi- ficação do endométrio que dificulta a sua im- plantação, além da fibrose, que é responsável por promover uma obstrução na luz das tubas uterinas. Sendo assim, é de suma importância buscar formas de tratamento, com o intuito de aliviar os sintomas e prevenir as sequelas desse quadro para as pacientes. Há muita controvérsia na literatura em rela- ção aos tratamentos para a endometriose, po- rém, os mais difundidos atualmente são a cirur- gia, a terapia de supressão ovariana ou a associ- ação de ambas (NÁCUL et al., 2010). Com o intuito de elucidar alguns tratamentos possíveis nos quadros de endometriose, tendo como moti- vação a prevalência da doença e seu tratamento insatisfatório para uma expressiva parcela das pacientes com o quadro, a seguir serão apresen- tadas novas propostas terapêuticas, em busca de 88 | P á g i n a melhorar o tratamento e a qualidade de vida des- sas pacientes. Dentre os novos tratamentos analisados, in- clui-se o uso de vitamina C, vitamina E, vita- mina D, Ômega 3, além do uso de Relugolix e Linzagolix. Uso de Linzagolix, antagonista do hormônio liberador de gonadotrofina Sendo a endometriose uma condição infla- matória, ela cursa com uma ampla diversidade de sintomas, sendo as mais comuns dismenor- reias, dor pélvica não coincidente com o período menstrual, dispareunia e disquezia, e os mais ra- ros constipações intestinais e disúria (DONNEZ et al., 2020). Historicamente, os anticoncepcio- nais orais sempre foram a primeira linha de tra- tamento, uma vez que inibem a ovulação, redu- zem o fluxo menstrual e diminuem a prolifera- ção celular em implantes endometriais. Na in- tenção de gerenciar os níveis de estrogênio para minimizar os sintomas e sequelas causados pela abstinência de estrogênio, e, ainda assim mantê- los baixos o suficiente para que haja significa- tiva redução da dor relacionada à endometriose, os antagonistas orais do hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH) (Cetrorelix, Iturelix, Ga- nirelix, Elagolix, Linzagolix) se mostraram uma potencial alternativa para um controle dose de- pendente dos níveis de estradiol (KEAM, 2022). O Elagolix, antagonista GnRH, já utilizado pre- viamente, possui uma meia vida curta, de apro- ximadamente 4-6 horas. Dessa maneira, esse es- tudo investigou a eficácia do uso de Linzagolix, outro antagonista GnRH, com uma meia vida maior que a do Elagolix, de 15-18 horas, no tra- tamento de dores associadas à endometriose (DONNEZ, et al, 2020). Para o estudo em questão, foram seleciona- das pacientes com idade entre 18 e 45 anos, que se encontravam na pré-menopausa e haviam tido diagnóstico de endometriose confirmado por meio da visualização direta dos implantes endometriais e quadros moderados a intensos de dor associada. Havia seis grupos de tratamento: placebo, dose fixa de 50 mg, 75 mg, 100 mg e 200 mg e dose progressiva, iniciada em 75 mg. A randomização foi feita de acordo com uma lista sorteada por um software aleatoriamente, e as pacientes tiveram que se comprometer a res- ponder um relato diáriotoda noite durante as 24 semanas de tratamento. Foi pedido que as paci- entes reportassem dor pélvica, sangramento ute- rino, dispareunia, disquezia (semanalmente), uso de analgésico e dificuldade de efetuar tare- fas diárias. O estrógeno sérico das pacientes foi medido em cada visita. Como resultados, foram observadas quedas significativas na intensidade da dor pélvica e disquezia das pacientes utilizando as doses de 75 mg, 100 mg e 200 mg. Nas pacientes com doses fixas de 200 mg, houve uma menor queixa de dispareunia, uso de analgésicos diminuído e redução da dificuldade de exercer tarefas diárias a partir da décima segunda semana. Além disso, foi notada também um aumento da dose depen- dente dos índices de amenorreia desde a quarta semana. Com base nos resultados do questioná- rio respondido diariamente, o tratamento com Linzagolix resultou em melhorias aparentes e significativas na qualidade de vida social e pro- fissional das pacientes (DONNEZ et al., 2020). Somado a isso, foi observado a redução dos níveis séricos de estradiol, que ficaram entre 11 pg/mL e 16 pg/mL nas pacientes que fizeram uso de 200 mg. Pacientes que utilizaram outras doses apresentaram um nível maior de estradiol, variando entre 20 pg/mL e 60 pg/mL. Já no grupo que utilizou placebo, foi observado um aumento no nível do estrógeno, chegando até 102 pg/mL, relacionado aos ciclos irregulares. (DONNEZ et al., 2020). Com o tratamento, foi evidenciado, como efeito colateral desse medicamento, a redução 89 | P á g i n a da Densidade Mineral Óssea (DMO) na coluna vertebral, no quadril e no colo do fêmur, devido à redução dos níveis de estrógeno, hormônio responsável pelo remodelamento e reparação óssea (DONNEZ et al., 2020). Além disso, outros efeitos adversos do tra- tamento foram ondas de calor, dores de cabeça, dores abdominais e náuseas, mais prevalentes em doses maiores do fármaco. Em um número reduzido de pacientes, foram observadas gesta- ções com recém-nascidos saudáveis e sem ano- malias, e gestações ectópicas tratadas com sal- pingectomias. Ambos resultados não estão rela- cionados ao tratamento com Linzagolix (DON- NEZ et al., 2020). Dois indivíduos em uso de 100mg tiveram um aumento nos níveis de alanina aminotrans- ferase (ALT) sem aumento concomitante da bi- lirrubina total. Não foi observado aumento ex- pressivo de gama glutamiltransferase (GGT), LDL, HDL e Triglicérides ao fim do tratamento (DONNEZ et al., 2020). Entre as semanas 12 e 24 do tratamento, houve uma redução da espessura do endométrio, mais perceptível em doses entre 100 a 200 mg. Foi feita biópsia endometrial caso a espessura total apresentasse uma redução maior que 5mm, sendo observado um caso isolado de hiperplasia sem atipia celulares em um indivíduo em trata- mento com 200 mg (DONNEZ et al., 2020). Suplementação com vitamina D ou ômega 3 A endometriose é uma condição pró-infla- matória caracterizada por concentrações eleva- das de citocinas e fatores de crescimento, além de diminuição da apoptose celular e aumento da angiogênese, todos os quais podem estar associ- ados a maior dor. Sendo assim, foi avaliado nesse estudo o uso de vitamina D com o objetivo de diminuir a proliferação do fator inflamatório e aumentar a apoptose celular e o uso dos ácidos graxos ω-3 para diminuir os fatores de cresci- mento e limitar a sobrevivência celular, o que possivelmente reduziria a progressão da endo- metriose (NODLER et al., 2020). Foram recrutadas mulheres não grávidas com idades entre 12 e 25 anos com diagnóstico cirúrgico de endometriose da Clínica de Gine- cologia Pediátrica do Hospital Infantil de Bos- ton (BCH) entre outubro de 2014 e novembro de 2015. Os participantes elegíveis deveriam ter uma pontuação na escala visual analógica (VAS) ≥ 3 em 10 para sua pior dor no mês ante- rior à inscrição no estudo. Os participantes com concentração basal de 25-hidroxivitamina D [25(OH)D] ≥ 100 ng/mL foram excluídos. Os participantes foram obrigados a descon- tinuar todas as vitaminas e suplementos nutrici- onais de uso prévio desde o momento da inscri- ção até a avaliação final 6 meses após o início do estudo. A participação começou ≥6 semanas após a cirurgia para endometriose. Os partici- pantes foram aleatoriamente designados para re- ceber 1.000 mg de óleo de peixe diariamente, 2.000 UI de vitamina D diariamente, ou um comprimido de placebo tomado por via oral di- ariamente por 6 meses. A medida de resultado primário foi a pior dor no último mês medida usando o VAS vali- dado, que quantifica a dor em uma escala de 0 a 10, com 0 representando nenhuma dor e 10 re- presentando dor intensa. Além disso, uma alte- ração “clinicamente significativa” nos escores de dor VAS foi definida como ≥1,6 com base em estudos anteriores. Os resultados secundá- rios incluíram a qualidade de vida, medida pelo questionário validado Short Form 12, que tem componentes físicos e mentais que são pontua- dos em uma escala de 0 a 100, com 0 indicando a pior qualidade de vida. O pensamento catas- trófico, uma medida validada de sensibilidade à https://www.sciencedirect.com/topics/medicine-and-dentistry/programmed-cell-death https://www.sciencedirect.com/topics/medicine-and-dentistry/neovascularization https://www.sciencedirect.com/topics/medicine-and-dentistry/neovascularization https://www.sciencedirect.com/topics/medicine-and-dentistry/pediatric-gynecology https://www.sciencedirect.com/topics/medicine-and-dentistry/pediatric-gynecology https://www.sciencedirect.com/topics/nursing-and-health-professions/nutrition-supplement https://www.sciencedirect.com/topics/nursing-and-health-professions/nutrition-supplement https://www.sciencedirect.com/topics/nursing-and-health-professions/placebo https://www.sciencedirect.com/topics/nursing-and-health-professions/short-form-12 https://www.sciencedirect.com/topics/medicine-and-dentistry/nociception 90 | P á g i n a dor, realizada em uma escala de 0 a 52, com pontuações mais altas indicando uma maior quantidade de catastrofização, como “acho que a dor nunca vai melhorar”. Os participantes tam- bém relataram o número médio de comprimidos não narcóticos para dor tomados por semana. Todas as medidas foram avaliadas na linha de base, e houve visitas de estudo aos 3 meses e 6 meses (NODLER et al., 2020). Todos os 3 braços do estudo demonstraram melhorias na gravidade da dor , com os escores VAS médios de “pior dor no último mês” me- lhorando desde o início até 6 meses no placebo vitamina D e óleo de peixe. No entanto, uma mudança estatisticamente significativa foi ob- servada apenas no braço da vitamina D. Além disso, não houve diferenças estatisticamente significativas na mudança nos escores de dor VAS ao comparar vitamina D ou óleo de peixe com placebo. Nenhum padrão consistente de mudanças na qualidade de vida física ou mental foi observado dentro dos grupos e não houve di- ferenças consideráveis nas mudanças relatadas nessas medidas de qualidade de vida ao compa- rar vitamina D ou óleo de peixe com placebo du- rante a intervenção de 6 meses (NODLER et al., 2020). Os participantes em todos os 3 braços do es- tudo demonstraram melhora na pontuação do pensamento catastrófico, com uma melhora na pontuação média estatisticamente significativa desde o início até 6 meses apenas no braço da vitamina D. Não foram observadas diferenças relevantes entre os grupos ou mudanças ao longo do tempo no número médio de comprimi- dos não narcóticos para dor tomados por semana (NODLER et al., 2020). Foi concluído que a suplementação com vi- tamina D em adolescentes com endometriose confirmada cirurgicamente levou a melhorias estatisticamente significativas na dor pélvica e pensamento catastrófico; no entanto, eles não diferiram em magnitude do efeito observado en- tre aqueles que receberamplacebo. Suplementação combinada de vitamina C e vitamina E A endometriose tem como possível causa o estresse oxidativo, desequilíbrio entre as espé- cies reativas de oxigênio (ROS) e os antioxidan- tes biológicos, levando aos sintomas da doença. Assim, foi avaliado o papel da suplementação com vitaminas antioxidantes (C e E) nos índices de estresse oxidativo e na gravidade da dor em mulheres com essa condição. O estudo, desenvolvido por Leila Amni, Ra- zieh Chekini e colaboradores, envolveu 60 mu- lheres em idade reprodutiva (15 a 45 anos) com dor pélvica e endometriose comprovada por la- paroscopia. As participantes foram divididas em dois grupos com o mesmo número de mulheres, A e B, pelo método de randomização simples. O grupo A recebeu uma combinação de vitamina C (1000 mg/dia) e vitamina E (800 UI/dia), en- quanto o grupo B recebeu pílulas de placebo di- ariamente durante um período de 8 semanas. Após a conclusão do estudo e com os resul- tados analisados, foi observado que a adminis- tração da combinação de vitamina C e vitamina E reduziu estatisticamente os níveis de Malon- dialdeído (MDA) e ROS em comparação com a ingestão de placebo, mas não alterou os níveis da capacidade antioxidante total (TAC). Além disso, ao comparar o grupo A com o B, obser- vou-se uma maior redução significativa de dis- menorreia, dispareunia e de dor pélvica crônica no grupo A, que recebeu as vitaminas antioxi- dantes, do que no grupo B (AMINI et al., 2021). Assim, o estudo confirmou que a vitamina C e a vitamina E podem ter efeitos interativos para reduzir o dano celular induzido por ROS, podendo ser usadas para neutralizar esse dano oxidativo na endometriose. Além disso, como https://www.sciencedirect.com/topics/medicine-and-dentistry/nociception https://www.sciencedirect.com/topics/nursing-and-health-professions/pain-severity https://www.sciencedirect.com/topics/nursing-and-health-professions/quality-of-life-measure 91 | P á g i n a foi observada uma redução significativa da dor após 8 semanas de tratamento com vitamina C e vitamina E em comparação com placebo, foi su- gerido que a diminuição da inflamação pode su- primir moléculas geradoras de dor (AMINI et al., 2021). Desse modo, após a análise dos estudos apresentados no decorrer deste capítulo, é im- portante ressaltar que a endometriose, sendo uma condição inflamatória de caráter crônico e progressivo, não apresenta uma cura, tendo como principal abordagem terapêutica a redu- ção dos níveis estrogênicos, com o intuito de re- duzir a proliferação do tecido endometrial. Dentro desta abordagem, a primeira linha de tratamento envolve o uso de contraceptivos orais ou tratamento apenas com progesterona, visto que o uso constante deste hormônio leva à atrofia dos implantes e, da mesma forma que os anticoncepcionais, elimina o processo inflama- tório causado pela doença. No caso de dores re- fratárias à esta primeira linha de tratamento, são utilizados os antagonistas de GnRH, que estão limitados para uso por até 6 meses devido aos prejuízos à densidade óssea. E, por fim, o uso de vitaminas C, D e E, além da suplementação de ômega 3 mostram-se eficazes na redução dos sintomas provocados pelo quadro. Portanto, a fim de reduzir a proliferação de tecido endometrial nos quadros de endometriose e os sintomas da doença, e assim promover a melhoria da qualidade de vida de muitas mulhe- res, gerando conscientização sobre a patologia, tornam-se necessários mais estudos que bus- quem soluções medicamentosas e propostas te- rapêuticas para estes casos, além da ampla di- vulgação dos resultados promissores a serem encontrados (RASP et al., 2022). 92 | P á g i n a REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMINI, L. et al. The Effect of Combined Vitamin C and Vitamin E Supplementation on Oxidative Stress Markers in Women with Endometriosis: a randomized, triple-blind placebo-controlled clinical trial. Pain Research And Ma- nagement, v. 2021, p. 1-6, 2021. DONNEZ, J. et al. Treatment of endometriosis-associated pain with linzagolix, an oral gonadotropin-releasing hor- mone–antagonist: a randomized clinical trial. Fertility And Sterility, v. 114, n. 1, p. 44-55, 2020. NÁCUL, A.P. & SPRITZER, P.M. Aspectos atuais do di- agnóstico e tratamento da endometriose. Revista Brasi- leira de Ginecologia e Obstetricia: Scielo, 2010. NAVARRO, P.A. et al. Tratamento da Endometriose: Treatment of endometriosis. Revista Brasileira de Gine- cologia e Obstetricia: Scielo, 2006. NODLER, J.L. et al. Supplementation with vitamin D or ω-3 fatty acids in adolescent girls and young women with endometriosis (SAGE): a double-blind, randomized, pla- cebo-controlled trial. The American Journal Of Clinical Nutrition, v. 112, n. 1, p. 229-236, 2020. SAMPSON, J.A. Metastatic or Embolic Endometriosis, due to the Menstrual Dissemination of Endometrial Tis- sue into the Venous Circulation. American Journal of Pathology, v. 3, n. 2, p. 93-110.43, 1927 BRICOU, A. et al. Peritoneal fluid flow influences anato- mical distribution of endometriotic lesions: why sampson seems to be right. European Journal Of Obstetrics & Gynecology And Reproductive Biology, [S.L.], v. 138, n. 2, p. 127-134, 2008. AL, E. Robbins and Cotran pathologic basis of disease. Philadelphia: Saunders/Elsevier, 2010. LIU, J.H. . Endometriose. Manual MSD, 2022. Disponí- vel em: https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissio- nal/ginecologiaobstetr%C3%ADcia/endometriose/endo- metriose#:~:text=Deve%2Dse%20confirmar%20o%20 diagn%C3%B3stico,os%20resultados%20confirmam%2 0o%20diagn%C3%B3stico. Acesso em: 08 maio 2023. KEAM, S.J. Linzagolix: First Approval. Drugs, 23 ago. 2022. SAUNDERS, P.T.K. & HORNE, A.W. Endometriosis: Etiology, pathobiology, and therapeutic prospects. Cell, v. 184, n. 11, p. 2807–2824, 2021. SACHEDIN, A. & TODD, N. Dysmenorrhea, Endome- triosis and Chronic Pelvic Pain in Adolescents. Journal Of Clinical Research In Pediatric Endocrinology, [S.L.], v. 12, n. 1, p. 7-17, 2020. HEMMERT, R. et al. Modifiable life style factors and risk for incident endometriosis. Paediatric And Perinatal Epidemiology, [S.L.], v. 33, n. 1, p. 19-25, 2018. TOCZEK, J. et al. Agnieszka. Endometriosis: new pers- pective for the diagnosis of certain cytokines in women and adolescent girls, as well as the progression of disease outgrowth. International Journal Of Environmental Rese- arch And Public Health, [S.L.], v. 18, n. 9, p. 4726, 2021. REA, T. et al. Assunta. Living with endometriosis: a phe- nomenological study. International Journal Of Qualitative Studies On Health And Well-Being, [S.L.], v. 15, n. 1, p. 1822621, 2020. RASP, E. et al. Surgically confirmed endometriosis in adolescents in Finland—A register‐based cross‐sectional cohort study. Acta Obstetricia Et Gynecologica Scandina- vica, [S.L.], v. 101, n. 10, p. 1065-1073, 2022. 93 | P á g i n a Palavras Chave: Doença infertilidade; Infertilidade Feminina; Infertilidade Masculina. Capítulo 11 ANA CLARA DOS SANTOS MATOS¹ PATRICK ROMANZINI PEDREIRA¹ TAINÁ EVANGELISTA DINIZ MORAIS¹ NATÁLIA MOURÃO DE PINHO TAVARES2 1. Discente – Faculdade de Medicina da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) - Campus Diamantina 2. Docente - Faculdade de Medicina da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) - Campus Diamantina. INFERTILIDADE 94 | Página INTRODUÇÃO A infertilidade é conceituada pela Organiza- ção Mundial da Saúde (OMS) como um pro- blema de saúde pública de grande relevância, com importantes impactos individuais, familia- res e sociais (BOIVIN et al., 2007; WHO, 1991). Nos últimos anos, devido ao envelheci- mento populacional e a uma maior inserção da mulher no mercado de trabalho,observa-se uma tendência crescente em postergar a maternidade (LAMAITA et al., 2018), e com isso aumentou- se consideravelmente a procura por tratamentos com o objetivo de ampliar a fecundabilidade dos cônjuges. A definição mais aceita de infertilidade é a falha no estabelecimento de gestação após 12 meses de relações sexuais regulares sem o uso de métodos contraceptivos (ZEGERS-HOCHS- CHILD et al., 2017). A infertilidade também pode ser caracterizada como conjugal, feminina e masculina, além da possível distinção entre primária, quando não há histórico de gravidez prévia, e secundária, quando há gestação ante- rior clinicamente comprovada (WHO, 2000). O emprego do termo subfertilidade é controverso na literatura, enquanto alguns autores sugerem que ele deva ser utilizado como sinônimo de in- fertilidade (VANDER BORGHT & WYNS, 2018), outros preconizam que seja reservado para os casos cujo quadro seja reversível (LA- MAITA et al., 2018), ou ainda, como uma forma genérica de descrever qualquer redução da fertilidade (GNOTH et al, 2005). Outros conceitos relevantes são os de fecun- didade e fecundabilidade . Fecundidade é defi- nida como a capacidade de alcançar gestação a termo em um ciclo menstrual (PREFEITURA DE BELO HORIZONTE, 2022; ZEGERS-HO- CHSCHILD et al., 2017). Já a fecundabilidade é caracterizada como a probabilidade de atingir uma gestação em um único ciclo menstrual, em mulher que não está em uso de métodos contra- ceptivos e que pratica relações sexuais regulares (ZEGERS-HOCHSCHILD et al., 2017). Os aspectos epidemiológicos da infertili- dade carecem de estudos robustos que possibili- tem determinar com precisão sua incidência e prevalência, especialmente em relação à reali- dade brasileira, para a qual os dados são ainda mais escassos. A estimativa de que a infertili- dade esteja presente em cerca de 15% a 20% dos casais é a mais frequente na literatura nacional (PREFEITURA DE BELO HORIZONTE, 2022; LAMAITA et al., 2018). No panorama in- ternacional, esse número se encontra na faixa de 8% a 12% dos casais em idade reprodutiva, sendo a infertilidade secundária a forma mais comum (VANDER BORGHT & WYNS, 2018). Etiologia As taxas de fertilidade são afetadas por vá- rios fatores: idade, condições agudas ou crôni- cas, toxinas ambientais, exposições ocupacio- nais, questões gerais de estilo de vida, doenças infecciosas, condições genéticas e distúrbios re- produtivos específicos (CUNNINGHAM, 2017). As causas de infertilidade podem ser dividi- das em femininas e masculinas. No entanto, en- fatiza-se que a abordagem deve sempre levar em conta o casal (FEBRASGO 2021). Estima-se que 35% das causas estejam ligadas ao fator fe- minino, 30% ao fator masculino, 20% relacio- nadas a ambos os parceiros e 15% dos casos per- manecem sem diagnóstico etiológico, apesar de instituída toda a propedêutica (FEBRASGO, 2021). Em uma revisão integrativa sobre as causas de infertilidade na população brasileira, publi- cada recentemente, a endometriose foi consta- tada como a causa feminina mais prevalente, en- quanto a azoospermia foi a mais identificada em 95 | Página homens. As demais etiologias de maior frequên- cia descritas foram o fator tubário, a síndrome dos ovários policísticos, disfunções endócri- nas/ovulatórias e a idade avançada, para a infer- tilidade feminina. Já para a infertilidade mascu- lina foram incluídas: as alterações seminais (azoospermia, oligospermia, astenozoospermia, teratozoospermia), a varicocele, infertilidade após vasectomia e condições anatômicas (MA- RANHÃO et al., 2021). Fatores femininos que afetam a fertilidade Entre os fatores femininos, pode-se listar tu- bário (35%), ovulatório (35%), incluindo dimi- nuição da reserva ovariana, endometriose (20%), uterino (1%) e múltiplas causas ocor- rendo em aproximadamente 9% das pacientes (FEBRASGO, 2021). Uma causa comum de infertilidade por fator feminino é a disfunção ovulatória. As mulheres afetadas por oligoovulação ou anovulação têm dificuldade em engravidar porque um oócito não está disponível todos os meses para fertili- zação. A causa mais frequente de anovulação é a síndrome dos ovários policísticos (SOP) (CUN- NINGHAM, 2017). A SOP é uma desordem ca- racterizada por hiperandrogenismo, disfunção ovulatória e ovários policísticos (ACOG, 2018). A disfunção ovulatória também pode ocorrer como resultado de qualquer distúrbio no eixo hi- potálamo-hipofisário (CUNNINGHAM, 2017). Um exemplo importante de distúrbio nesse eixo é a insuficiência ovariana prematura, condição caracterizada por hipogonadismo hipergonado- trófico em mulheres com menos de 40 anos de idade (ZEGERS-HOCHSCHILD et al., 2017). Certos medicamentos também estão associados à disfunção ovulatória, incluindo antidepressi- vos, antipsicóticos, corticosteroides e agentes quimioterápicos (CUNNINGHAM, 2017). Anormalidades tubárias são observadas em 30-40% das pacientes com subfertilidade femi- nina (EXALTO & EMANUEL, 2019). A obs- trução das trompas de Falópio e as aderências pélvicas impedirão o transporte necessário do oócito e do esperma para a fertilização e implan- tação. A doença inflamatória pélvica (DIP) é a principal causa de obstrução tubária. A gonor- reia e a clamídia são causas evitáveis e tratáveis de DIP (CUNNINGHAM, 2017) A endometriose, uma síndrome que afeta principalmente os tecidos pélvicos, incluindo os ovários, as tubas uterinas e o peritônio de mu- lheres em idade reprodutiva, é outra causa im- portante de infertilidade. A condição provém de uma inflamação crônica dependente do estrogê- nio que se inicia quando o tecido endometrial viaja de forma retrógrada para a cavidade abdo- minal inferior (BULUN et al., 2019). Outras condições que podem afetar a anato- mia tubária/pélvica são síndrome de Asherman, gravidez ectópica anterior, doença inflamatória intestinal, tuberculose pélvica e apendicite. Pa- cientes com leiomioma uterino ou anomalias uterinas podem ter dificuldade com a implanta- ção normal (CUNNINGHAM, 2017). Fatores masculinos que afetam a fertilidade A infertilidade masculina pode ser causada por uma ampla gama de condições. A disfunção testicular é a causa mais frequente de esperma- togênese perturbada. A disfunção testicular pode ser subdividida em insuficiência testicular congênita, adquirida ou idiopática. A insuficiência congênita pode se manifestar como anorquia, disgenesia testicular e criptor- quidia (VANDER BORGHT & WYNS, 2018). A insuficiência testicular adquirida pode re- sultar de trauma, torção testicular, orquite, fato- res exógenos (por exemplo, medicamentos), fa- 96 | Página tores endógenos (por exemplo, doenças sistêmi- cas, varicocele) ou cirurgia que pode danificar a anatomia vascular testicular (VANDER BORGHT & WYNS, 2018). Outras causas de infertilidade masculina in- cluem a deficiência pós-testicular, devido a dis- função ejaculatória ou obstrução à entrega de espermatozoides. A obstrução pode estar locali- zada no epidídimo, ducto deferente ou ducto ejaculatório e pode ser adquirida ou congênita (VANDER BORGHT & WYNS, 2018). Os médicos também devem investigar as condições que afetam a entrega bem-sucedida de esperma, como problemas de disfunção se- xual, doença/trauma na medula espinhal, do- ença autonômica, ejaculação retrógrada, hipos- pádia ou anormalidades anatômicas congênitas (CUNNINGHAM, 2017). Devemos lembrar que em 30-40% dos casos de infertilidade masculina, nenhuma causa é identificada (infertilidade masculina idiopática) (KATZ et al., 2017). Fatores de ambos os sexos que afetam a fertilidade A idade é um dos fatores mais significativos associados à infertilidade. A fecundidade de- monstrou diminuir à medida que as mulheres envelhecem. Não só o número de ovócitos dimi- nui ao longo dos anos reprodutivos,como os ovócitos restantes são de qualidade inferior, o que leva a um aumento da incidência de anoma- lias cromossômicas e abortos espontâneos (CU- NNINGHAM, 2017). A idade também afeta a capacidade de repro- dução do homem: o aumento da idade está asso- ciado a uma diminuição na qualidade, quanti- dade, motilidade e morfologia do esperma (CU- NNINGHAM, 2017). Uma causa importante de infertilidade é a hi- perprolactinemia. A prolactina inibe a secreção de gonadotrofina levando à anovulação em mu- lheres. Nos homens, a hiperprolactinemia causa baixos níveis séricos de testosterona, infertili- dade e disfunção sexual (VANDER BORGHT & WYNS, 2018). Os agentes infecciosos têm diferentes modos de comprometimento da fertilidade. Nos ho- mens, podem causar danos nos órgãos, danos nas células através de mediadores da inflama- ção, criar uma obstrução ou ligar-se aos esper- matozóides. Nas mulheres, podem causar do- ença inflamatória pélvica e obstrução tubária. O agente infeccioso mais comum que causa infer- tilidade é a Chlamydia trachomatis (VANDER BORGHT & WYNS, 2018). Uma série de doenças crônicas como diabe- tes instável, doença celíaca não controlada, in- suficiência de vitamina D, condições autoimu- nes ativas e hipotireoidismo subclínico também aparecem estar associado a uma chance redu- zida de concepção (VANDER BORGHT & WYNS, 2018). A obesidade é um importante fator que in- terfere na fertilidade. As mulheres que estão acima do peso são menos propensas a ovular e conceber espontaneamente, mesmo após cuida- dos com a infertilidade. Após a concepção, elas também têm um risco aumentado de aborto es- pontâneo e estão predispostas a um resultado adverso da gravidez (VANDER BORGHT & WYNS, 2018). O tabagismo tem um efeito bem conhecido sobre a fertilidade em homens e mulheres. Para uma mulher fumante, cada estágio da função re- produtiva (foliculogênese, esteroidogênese, transporte embrionário, receptividade endome- trial, etc) são prejudicados, pois a fumaça con- tém metais pesados, hidrocarbonetos policícli- cos, nitrosaminas e aminas aromáticas. Nos ho- mens, fumar afeta negativamente a produção, motilidade e morfologia dos espermatozóides e está associado a um risco aumentado de danos 97 | Página no DNA (VANDER BORGHT & WYNS, 2018). Diagnóstico A coleta da história de ambos os parceiros é de extrema importância para o seguimento da investigação da infertilidade. Aspectos como idade, tempo e frequência de relações sexuais desprotegidas, uso de medicamentos, álcool e drogas devem ser levados em consideração para o diagnóstico (THURSTON et al., 2019). Avaliação feminina Em relação à investigação feminina, é im- portante levantar, ainda na anamnese, a história ginecológica da paciente, abordando questões sobre o ciclo menstrual, métodos contraceptivos já utilizados, comorbidades (obesidade, hirsu- tismo, diabetes, patologias autoimunes, outras) e cirurgias anteriores, principalmente pélvica (SZAMATOWICZ 2020; PREFEITURA DE BELO HORIZONTE, 2022). No exame físico, o exame pélvico deve ser realizado em todas as pacientes, com inspeção da genitália interna e externa, à procura de alterações inflamatórias, vulvovaginites, sinais de virilização, hímen ín- tegro ou presença de sinais de DIP (LAMAITA et al., 2018). Existem alguns exames complementares re- comendados que consideram as principais cau- sas e fatores da infertilidade conjugal. Fator tubário A histerossalpingografia é um exame utili- zado para avaliar a permeabilidade tubária e é considerado um teste sensível, confiável e não invasivo (PREFEITURA DE BELO HORI- ZONTE, 2022). Consiste na injeção de contraste radiopaco através do cérvix, permitindo a visu- alização de oclusão tubária distal e proximal, adesões peritubárias e salpingite ístmica nodosa (ACOG, 2019). Deve ser realizada na fase foli- cular do ciclo menstrual (6° a 11° dia do ciclo) (LAMAITA et al., 2018) Outro exame capaz de verificar alterações tubárias é a videolaparoscopia, indicada quando a histerossalpingografia acusa alguma alteração importante, história de cirurgia pélvica anterior, infertilidade sem causa aparente, suspeita clí- nica de endometriose e avaliação para reversão de salpingotripsia. Os achados da videolaparos- copia são classificados como normal, oclusão unilateral tubária ou oclusão tubária bilateral, proximal ou distal, e aderências (LAMAITA et al., 2018). Fator ovulatório A reserva ovariana representa o número de oócitos disponíveis para uma potencial ovula- ção. Os resultados dos testes devem levar em consideração a idade da paciente (ACOG 2019). A dosagem do hormônio folículo estimu- lante (FSH) deve ser realizada nos dias 2 a 5 do ciclo. Valores maiores que 10 UI/L sugerem uma menor resposta ao estímulo ovariano (ACOG, 2019). A relação entre o FSH e o hor- mônio luteinizante (LH) também é importante para o diagnóstico etiológico da disfunção, le- vando-se em consideração que: • FSH e LH baixos, associados a baixos valores de estradiol (menor que 40 pg/mL), po- dem indicar hipogonadismo hipogonadotrófico; • Relação aumentada, maior que 2 (LH aumentado e FSH baixo), pode-se suspeitar de SOP; • FSH e LH persistentemente elevados, associados à diminuição do estradiol sérico, po- dem indicar hipogonadismo hipergonadotrófico em mulheres abaixo dos 40 anos, indicando, possivelmente, falência prematura ovariana (LAMAITA et al., 2018). 98 | Página Outro marcador de reserva ovariana é o hor- mônio anti-mülleriano, produzido pelas células da granulosa do folículo antral (ACOG, 2019). Valores inferiores ou iguais a 1,0 ng/mL de HAM são altamente preditivos de baixa reserva ovariana e, consequentemente, de menor res- posta à estimulação ovariana (PREFEITURA DE BELO HORIZONTE. 2022). Pode ser co- lhido durante qualquer fase do ciclo, já que seu nível permanece praticamente constante (ACOG, 2019). A contagem de folículos antrais, feita por ul- trassonografia, se correlaciona bem com a dosa- gem de HAM, devendo ser realizada na fase fo- licular do ciclo e leva em consideração a quan- tidade de folículos entre 2-10 mm (THURSTON et al., 2019). A baixa contagem de folículos an- trais é definida quando existem menos de 5 a 7 unidades e está associada a baixa resposta ova- riana (ACOG, 2019). Fator cervical Dentro desse fator, estão compreendidas as más formações, lesões neoplásicas ou benignas, infecções e alterações anatômicas (LAMAITA et al., 2018). O teste pós coito tem como finali- dade analisar a receptividade do muco cervical e a habilidade em permitir a sobrevivência e a migração dos espermatozoides em seu conteúdo (PREFEITURA DE BELO HORIZONTE, 2022).] Fator uterino Prejudicam a fertilidade tanto ao interferir no transporte do óvulo por obstrução do óstio tubário quanto prejudicando os processos de im- plantação (PREFEITURA DE BELO HORI- ZONTE, 2022). A histerossonografia com infusão de solução salina pode ser utilizada para visualização de pólipos, adesões intrauterinas ou malformações anatômicas (CUNNINGHAM, 2017). A histeroscopia não é utilizada como mé- todo inicial de avaliação, porém permite a con- firmação de alterações encontradas em outros exames (LAMAITA et al., 2018). A videolaparoscopia e a ressonância magné- tica também não são exames realizados rotinei- ramente, devido ao alto custo e por serem mais invasivos. Entretanto, contribuem para a confir- mação de más-formações uterinas e a localiza- ção de miomas uterinos (LAMAITA et al., 2018). Avaliação masculina A infertilidade masculina pode ser causada por anormalidades anatômicas ou genéticas, do- enças sistêmicas ou neurológicas, infecções, traumas, anticorpos contra o esperma e outras (KATZ et al., 2017). A avaliação masculina começa com a coleta da história do paciente, focando-sena história sexual e reprodutiva, cirurgias prévias, estilo de vida, história familiar, idade, infecções sexual- mente transmissíveis e comorbidades prévias (KATZ et al., 2017). O espermograma é o principal exame utili- zado para averiguar infertilidade masculina. Consiste na avaliação de pH, concentração es- permática, volume, total de espermatozoides no ejaculado, motilidade progressiva, vitalidade, leucócitos e morfologia ou formas anormais (CUNNINGHAM, 2017). Os parâmetros de re- ferência segundo a Organização Mundial da Sa- úde são: (PREFEITURA DE BELO HORI- ZONTE, 2022) • Volume: 1,5 mL; • pH: 7,2; • Concentração espermática (número de espermatozoides/mL): > 15 milhões; • Total espermatozoides no ejaculado: > 40 milhões; • Motilidade progressiva (A + B): 32%; • Vitalidade: 58%; 99 | Página • Leucócitos: < 1 milhão/mL; • Morfologia ou formas normais: > 4% (critério estrito de Kruger). Qualquer anormalidade encontrada no es- permograma deve ser avaliada em um segundo exame. Se o resultado continuar insatisfatório, o paciente deve ser encaminhado para um urolo- gista ou profissional especializado em reprodu- ção masculina para nova investigação (CUN- NINGHAM, 2017). Tratamento O manejo terapêutico da infertilidade é dire- cionado pelo fator etiológico definido na inves- tigação propedêutica. A abordagem inicial com- preende a orientação do casal quanto ao seguin- tes fatores: tabagismo e consumo de álcool, am- bos associados à alterações na função reprodu- tiva masculina e feminina (CASTRO et al., 2021; WESSELINK et al., 2019); uso de drogas ilícitas, relacionado na literatura à impactos ne- gativos na fertilidade, principalmente masculina (FRONCZAK et al., 2012); e Índice de Massa Corporal (IMC), sendo associado à maior pro- babilidade de concepção a presença de IMC me- nor que 30 kg/m² no casal, e de IMC maior que 19 kg/m² na mulher (THURSTON et al., 2019). Outro ponto essencial a ser abordado é a prática de relações sexuais regulares, preferencialmente um ou dois dias antes e após a ovulação. O acompanhamento da infertilidade sem causa aparente deve ser iniciado com aborda- gem conservadora e medidas de maior comple- xidade podem ser progressivamente instituídas. As mudanças de estilo de vida previamente mencionadas (cessação do tabagismo, redução do consumo de álcool, adequação do peso cor- poral) estão indicadas em todos os casos. A con- duta inicial de manejo expectante pode ser ado- tada em mulheres com idade inferior a 32 anos, porém deve ser evitada acima dos 37 anos, uma vez que a depleção folicular e consequente re- dução da fertilidade se tornam uma preocupação importante (HORNSTEIN & GIBBONS, 2020). A combinação de inseminação intraute- rina (IIU) com indução da ovulação pelo citrato de clomifeno (CC) apresenta boa eficácia, além de possuir como vantagens a administração de medicação por via oral e menor necessidade de monitoramento (FARQUHAR et al., 2018). A substituição do CC por gonadotrofina é relatada na literatura como método de maior efetividade, apresentando, porém, maior risco de gestação múltipla, além de custo mais elevado (DIA- MOND et al., 2015). A fertilização in-vitro (FIV) é o procedimento com melhor taxa de su- cesso, contudo devem ser analisados o risco de gestação múltipla e o custo, ambos considera- velmente maiores que os métodos anteriormente citados, sendo essa terapêutica recomendada para casos em que as demais medidas não foram eficazes e em mulheres com idade mais avan- çada (GOLDMAN et al., 2014). A melhor conduta nos casos de infertilidade por fator cervical é a utilização de IIU com uso concomitante de indutores da ovulação, seguida pela FIV em caso de falha terapêutica (KU- OHUNG & HORNSTEIN, 2018). A resolução cirúrgica também deve ser considerada na pre- sença de sinéquias, pólipos, miomas e estenoses iatrogênicas ou adquiridas (FEBRASGO, 1997). Em relação ao tratamento do parceiro, em casos de hipogonadismo hipogonadotrófico, se- cundário à hiperprolactinemia, o primeiro passo é normalizar a prolactina. Se essa tentativa não corrigir o nível de testosterona anaem seis me- ses, o tratamento com gonadotrofina é indicado. O uso de FSH e/ou hCG pode ser feito em hipo- fisectomizados, portadores de hipogonadismo e em pacientes com oligo/oligoastenozoospermia ou azoospermia com níveis de FSH e LH baixos (FEBRASGO, 1997). 100 | Página Já quando o defeito é hipotalâmico, o ma- nejo pode ser realizado com o uso de GnRH (KATZ et al., 2017). A varicocele, capaz de in- duzir alterações na morfologia espermática e etiologia importante em casos de infertilidade masculina (FEBRASGO, 1997) pode ser corri- gida cirurgicamente (KATZ et al., 2017). Mulheres portadoras de endometriose po- dem apresentar obstrução anatômica das tubas e, para tratamento, é recomendada a remoção ci- rúrgica dos endometriomas. Casos de endome- triose com lesões mínimas e leves não possuem consenso na literatura quanto ao manejo. Em si- tuações de malformações anatômicas, como a presença de septo ou útero didelfo, o tratamento pode ser expectante, endoscópico ou laparotô- mico, dependendo da indicação médica (FE- BRASGO, 1997). Em pacientes com doença tubária, a cirurgia de reconstrução pode ser realizada se a obstru- ção for leve. Em casos mais graves, a FIV in vi- tro pode ser indicada (THURSTON et al., 2019). Em pacientes com problemas ovulatórios, dois medicamentos orais são usados para indu- ção da ovulação: o citrato de clomifeno e o le- trozol (CARSON & KALLEN, 2021). O citrato de clomifeno é um modificador se- letivo do receptor de estrogênio que bloqueia o efeito de feedback negativo do estradiol circu- lante e causa um aumento do hormônio libera- dor de gonadotrofina (GnRH) hipotalâmico, a frequência de pulso e produção hipofisária de FSH e hormônio luteinizante (LH), promovendo o crescimento folicular ovariano (CARSON & KALLEN, 2021). O letrozol bloqueia a aromatase, reduzindo as concentrações séricas de estradiol e estimu- lando as gonadotrofinas hipofisárias (CARSON & KALLEN, 2021). Tanto o citrato de clomifeno quanto os inibi- dores de aromatase têm uma taxa de gravidez múltipla de mais ou menos 10%, a maioria das quais são gestações gemelares (CARSON & KALLEN, 2021). É imprescindível a monitorização ultrasso- nográfica nos ciclos induzidos com citrato de clomifeno, pois só assim se poderá avaliar a res- posta folicular, o aspecto e a espessura endome- trial a fim de buscar os melhores resultados e, tão importante quanto, diminuir o risco de ges- tação múltipla (FEBRASGO, 2021). Aproximadamente 75% das gestações após indução ocorrem nos primeiros três ciclos de tratamento. Por esse motivo, espera-se atingir a gestação em três a seis ciclos que a ovulação ocorra, não sendo recomendado insistir nessa te- rapia após esse período (FEBRASGO, 2021). Esses agentes orais são menos úteis em mu- lheres com hipogonadismo hipogonadotrófico, que podem apresentar resposta limitada ou ine- xistente às gonadotrofinas hipofisárias endóge- nas. Nesses pacientes, o uso de administração pulsátil de GnRH restaura a estimulação fisioló- gica de FSH e LH endógenos com o objetivo de induzir a maturação folicular e a ovulação. A frequência dos pulsos é ajustada para imitar a variação fisiológica na variabilidade do pulso de GnRH (CARSON & KALLEN, 2021). O tratamento com GnRH pulsátil resulta em taxas de gravidez de 93% a 100% após até 6 me- ses e é bem tolerado sem casos relatados de sín- drome de hiperestimulação ovariana grave. Como alternativa, as gonadotrofinas exógenas podem ser usadas para estimular diretamente os folículos ovarianos (CARSON & KALLEN, 2021). 101 | Página REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACOG - AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICI- ANS AND GYNECOLOGISTS et al.Polycystic ovary syndrome. Practice bulletin no. 108. Obstet Gynecol, v. 114, p. 936-949, 2009. BOIVIN, J. et al. International estimates of infertility pre- valence and treatment-seeking: potential need and de- mand for infertility medical care. Human Reproduction, [s. l.], v. 22, ed. 6, p. 1506-1512, 21 mar. 2007. BULUN, S.E. et al. Endometriosis. Endocrine reviews, [s. l.], v. 4, ed. 40, p. 1048-1079, 1 ago. 2019. CARSON, S.A & KALLEN, A.N. Diagnosis and mana- gement of infertility: a review. Jama, v. 326, n. 1, p. 65- 76, 2021. CASTRO, A.L. et al. Infertilidade e hábitos de vida. Pro- moção e Proteção da Saúde da Mulher - ATM, [s. l.], 2021. CUNNINGHAM, J. Infertility: A primer for primary care providers. JAAPA, vol 30, p. 19-25, 2017. DIAMOND, M.P. et al. Letrozole, Gonadotropin, or Clomiphene for Unexplained Infertility. The New En- gland Journal of Medicine, [s. l.], 2015. EXALTO, N. & EMANUEL, M.H. Clinical aspects of HyFoSy as tubal patency test in subfertility workup. Bio- Med Research International, v. 2019, 2019. FARQUHAR, C.M. et al. Intrauterine insemination with ovarian stimulation versus expectant management for unexplained infertility (TUI): a pragmatic, open-label, randomised, controlled, two-centre trial. Lancet, [s. l.], 2018. FEBRASGO - FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS SO- CIEDADES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA. Comissão Nacional Especializada de Reprodução Hu- mana. Infertilidade conjugal: Manual de orientação. LO- PES, J. R. C.; DONADIO, N. (ed.). [S. l.: s. n.], 1997. FEBRASGO - FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS AS- SOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA. Indução de ovulação. São Paulo: FEBRASGO; 2021 (Protocolo FEBRASGO-Ginecologia, n. 83/Comissão Nacional Especializada em Reprodução Humana). FRONCZAK, C. M. et al. The Insults of Illicit Drug Use on Male Fertility. Journal of Andrology, [s. l.], v. 33, ed. 4, p. 515-528, 2013. GNOTH, C. et al. Definition and prevalence of subferti- lity and infertility. Human Reproduction, [s. l.], v. 20, ed. 5, p. 1144-1147, 2005. GOLDMAN, M.B et al. A randomized clinical trial to de- termine optimal infertility treatment in older couples: the Forty and Over Treatment Trial (FORT-T). Fertility and Sterility, v. 101, n. 6, p. 1574-1581, 2014 HORNSTEIN, M.D. & GIBBONS, W.E. Unexplained in- fertility. UpToDate, Waltham, MA., v. 3, n. 22, p. 17, 2020. KATZ, D.J. et al. Male infertility-the other side of the equation. Australian family physician, v. 46, n. 9, p. 641- 646, 2017. KUOHUNG, W. & HORNSTEIN, M. D. Treatments for female infertility. Treatments for female infertility. [S. l.], 2018. Disponível em: <https://medilib.ir/uptodate/show/5 448>. Acesso em: 15 jul. 2022. LAMAITA, R.M et al. Propedêutica básica da infertili- dade conjugal. São Paulo: Federação Brasileira das Asso- ciações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo); (Proto- colo Febrasgo – Ginecologia, nº 46/Comissão Nacional Especializada em Reprodução Humana), 2018. MARANHÃO, K. S et al. Factors related to infertility in Brazil and their relationship with success rates after assis- ted reproduction treatment: an integrative review. JBRA Assist Reprod, [s. l.], v. 1, ed. 25, p. 136-149, 2021. PREFEITURA DE BELO HORIZONTE. Diretoria de Assistência à Saúde. Protocolo Infertilidade Conjugal. [S. l.: s. n.], 2022. Disponível em: <https://prefeitura.pbh.gov .br/sites/default/files/estrutura-de-governo/saude/2022/ protocolo-de-infertilidade-conjugal.pdf.> Acesso em: 15 jul. 2022. SZAMATOWICZ, M. & SZAMATOWICZ, J. Proven and unproven methods for diagnosis and treatment of in- fertility. Advances in Medical Sciences, vol 65, p. 93-96, 2020. THURSTON, L. et al. Investigation and management of subfertility. Journal of clinical pathology, v. 72, n. 9, p. 579-587, 2019. VANDER BORGHT, M. & WYNS, C. Fertility and in- fertility: Definition and epidemiology. Clinical bioche- mistry, v. 62, p. 2-10, 2018. WESSELINK, A. K. et al. Prospective study of cigarette smoking and fecundability. Human Reproduction, [s. l.], v. 34, ed. 3, p. 558-567, 2019. 102 | Página WHO - WORLD HEALTH ORGANIZATION. Pro- gramme of Maternal and Child Health and Family Plan- ning Unit. Infertility : a tabulation of available data on prevalence of primary and secondary infertility. World Health Organization, [s. l.], 1 jan. 1991. Disponível em: <https://apps.who.int/iris/handle/10665/59769>. Acesso em: 15 jul. 2022. WHO - WORLD HEALTH ORGANIZATION (Cam- bridge University Press). Sexual and Reproductive Health and Research. WHO Manual for the Standardized Inves- tigation and Diagnosis of the Infertile Male. [S. l.: s. n.], 2000. ZEGERS-HOCHSCHILD, F. et al. The international glossary on infertility and fertility care. Human reproduc- tion, v. 32, n. 9, p. 1786-1801, 2017. 103 | P á g i n a Palavras Chave: Histerectomia; Miomas uterinos; Cirurgia ginecológica. Capítulo 12 ANA CLARA DOS SANTOS SOUZA1 DANIELA BORGES MIELKE1 ISADORA AMABILE LOPES FABRES1 KAMILA JALES CORTELETI1 1. Discente – Faculdade de Medicina MULTIVIX. HISTERECTOMIA 104 | P á g i n a INTRODUÇÃO A histerectomia consiste na remoção cirúr- gica do útero e é um dos procedimentos cirúrgi- cos ginecológicos mais comuns. E é realizado principalmente em casos de ciclos menstruais ir- regulares, intensos ou dolorosos, e quando tra- tamentos prévios menos invasivo, como ablação endometrial, não foram suficientes para resolu- ção do quadro. Sendo utilizada como tratamento de leomiomas uterinos, dor pélvica, sangra- mento uterino anormal, endometriose e prolapso uterino (BICKERSTAFF & LOUISE, 2017). O procedimento pode ser realizado de dife- rentes formas, como por meio da histerectomia vaginal, laparoscópica e abdominal. A histerec- tomia vaginal é realizada através da vagina, pro- voca menos desconforto e possibilita uma recu- peração mais rápida. A laparoscópica consiste na remoção do útero por meio da inserção de instrumentos inseridos através de pequenos cor- tes no abdômen, enquanto o médico realiza o procedimento com a ajuda de uma câmera aco- plada a um telescópio. E por fim, a histerecto- mia abdominal consiste na remoção do útero feita através de uma incisão no abdômen. Este método é escolhido para a retirada de grandes tumores, pode causar mais desconforto, além de exigir mais tempo e cuidados na recuperação da paciente (PASSOS et al., 2017). A histerectomia abdominal pode ser total ou subtotal. Geralmente, a subtotal é realizada quando encontra-se dificuldade técnica intrao- peratória. É importante ressaltar que menos epi- sódios febris ocorrem na histerectomia abdomi- nal subtotal quando comparada a histerectomia total (PASSOS et al., 2017). É importante ressaltar que a histerectomia por qualquer via pode acarretar algumas com- plicações específicas, como hemorragia, trom- bose venosa profunda, aparecimento de sinto- mas de bexiga como bexiga hiperativa e incon- tinência por estresse, lesão retal, tromboembo- lismo, entre outros. Porém, alguns riscos podem ser minimizados pelo planejamento cirúrgico adequado (BICKERSTAFF & LOUISE, 2017). Em um estudo observacional, mulheres que realizaram a histerectomia tiveram melhora na qualidade de vida nos 10 anos subsequentes à cirurgia (PASSOS et al., 2017). Diagnóstico A principal indicação da histerectomia são os leomiomas uterinos, o que pode diferir de acordo com a idade do paciente. Por isso, no caso dos leimiomas, a decisão de se submeter a histerectomia é a necessidade de tratarem os sin- tomas, os quais são sangramento uterino anor- mal, sensação de pressão e dor pélvica (BE- REK, 2014). No caso da realização da histerectomia de- vido aos leiomiomas, a cirurgia só poderá ser re- alizada em mulheres sintomáticas que não dese- jamengravidar (BEREK, 2014). A cirurgia his- teroscópica, minimamente invasiva, pode ser usada para eliminar um mioma submucoso ou pólipo fibroide, o que ajuda a resolver os sinto- mas de sangramento anormal intenso, mesmo com presença de outros tipos de mioma. Outros- sim, se o útero miomatoso provocar sintomas de compressão e sangramento uterino anormal re- fratária a intervenções médicas, as opções são miomectomia ou histerectomia (BICKERS- TAFF & LOUISE, 2019). Enquanto o sangramento uterino disfuncio- nal é outra causa importante para realização de histerectomia, por estar associada síndrome de ovários policísticos (SOP), no qual ocorre ciclos anovulatórios. Antes da histerectomia há inter- venções clínicas, como administração de pro- gestágenos, estrogênio ou pela combinação oral dos dois citados. É controlado também por anti- 105 | P á g i n a inflamatórios não esteroides, intervenção hor- monal, ácido tranexâmico ou dispositivo intrau- terino (DIU) de levonorgestrel. E nessas pacien- tes é necessário coletar uma amostra do endo- métrio antes da histerectomia (BEREK, 2014). Ademais, o diagnóstico de miomas é usual- mente clínico, baseado no achado de um útero aumentado, móvel e com contornos irregulares ao exame bimanual ou um achado ultrassono- gráfico frequentemente casual. No entanto, exa- mes de imagens são necessários para confirmar o diagnóstico e definir a localização do tumor (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010). Dentre as opções de exames complementa- res estão a histerosalpingografia, a histerosco- pia, a ultrassonografia, a histerossonografia, a tomografia computadorizada e a ressonância magnética, sendo a ultrassonografia o exame mais utilizado por não ser invasivo, de baixo risco, com acurácia adequada e de baixo custo em relação aos demais, sendo o indicado no Pro- tocolo do Ministério da Saúde (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010). Portanto, especificando a ultrassonografia, pode ser realizada por via transabdominal ou transvaginal. Sendo a via transabdominal um meio de importante diagnóstico em centros me- nores. Enquanto o método transvaginal apre- senta alta sensibilidade (95%-100%) para detec- ção de miomas em úteros com tamanho menor ao equivalente a 10 semanas de gestação. A lo- calização de miomas em úteros muito grandes ou quando os tumores são múltiplos pode ser di- fícil (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010). Sintomatologia A decisão cirúrgica fundamenta-se no trata- mento de sintomas, sendo esses: sangramento uterino disfuncional, dor pélvica ou sensação de pressão (BEREK, 2014). O sangramento uterino disfuncional refere- se a um sangramento supostamente anormal sem causa anatômica aparente. Além disso, o sangramento uterino anovulatório está associ- ado, em geral, à síndrome do ovário policístico (SOP), distúrbio no qual os ciclos anovulatórios são comuns. Esse sangramento é controlado por intervenções clínicas, as quais utilizam-se da administração de progestágenos, estrogênio ou pela combinação de progestágeno e estrogênio administrados como contraceptivos orais (CO); e pode ser controlado por anti-inflamatórios não esteroides, intervenção hormonal, ácido trane- xâmico ou dispositivo intrauterino (DIU) de le- vonorgestrel. Nesse sentido, cerca de 20% das histerectomias são indicadas quando há a pre- sença desse sangramento (BEREK, 2014). A dor pélvica, sendo crônica, é a dor na re- gião pélvica que persiste na mesma localização por mais de 6 meses e causa incapacidade fun- cional ou requer tratamento, que pode ser a his- terectomia. Os seguintes parâmetros devem ser levados em consideração para a verificação dessa dor: localização, irradiação, intensidade, fatores que agravam e aliviam, efeito do clico menstrual, estresse, trabalho, exercício, relação sexual e orgasmo, além de saber o contexto no qual a dor surgiu. Quando a dor é de origem gi- necológica e não responde a tratamentos não ci- rúrgicos, a histerectomia deve ser realizada (BEREK, 2014). A respeito da dismenorreia secundária, ela é a dor menstrual cíclica associada à doença pél- vica de base. A dor costuma surgir 1 a 2 sema- nas antes do fluxo menstrual e persiste até al- guns dias após o fim do sangramento. Essa dor pode apresentar algumas causas como exem- plos, sendo essas, a endometriose, a adenomi- ose, a endometrite e a doença inflamatória pél- vica. A endometriose pode ser tratada com anti- inflamatórios não esteroides isolados ou associ- ados a CO (ou o DIU com levonorgestrel) que reduzem ou interrompem o fluxo menstrual. 106 | P á g i n a Além do mais, é necessário tratar primeiro o dis- túrbio de base (p. ex., endometriose). Entre- tanto, caso o tratamento clínico falhe ou a paci- ente não possua mais o intuito de preservar a fer- tilidade, a histerectomia é indicada (BEREK, 2014). No que tange a endometriose, esta consiste em uma ocorrência de tecido endometrial (glân- dulas e estroma) fora do útero. Os locais mais frequentes de implantação são as vísceras pélvi- cas e o peritônio. Há uma alta prevalência em mulheres com dor pélvica. À vista disso, quando a mulher com endometriose sente dor pélvica persistente ou tem dismenorreia, a histerectomia é indicada, porque os procedimentos clínicos e cirúrgicos conversadores não foram bem-suce- didos. Outras situações quando a cirurgia supra- cita é indicada acontece quando a paciente não deseja mais engravidar e tem endometriose com acometimento de outros órgãos pélvicos, como o ureter ou o cólon (BEREK, 2014). Após a cirurgia, as mulheres apresentam uma melhora considerável em relação aos sinto- mas supracitados. Entretanto, cada satisfação está relacionada a indicação inicial da cirurgia e a expectativa da paciente. Ademais, a maioria das mulheres não possuem modificação ou me- lhora na função sexual, ou seja, relatam pouco impacto sobre a frequência da relação sexual, da libido e do interesse sexual (BEREK, 2014). Além disso, torna-se necessário a discussão com a paciente, pois a remoção dos ovários não é essencial se a histerectomia estiver sendo rea- lizada para indicações benignas. Para uma mu- lher que está menstruando regularmente, seria normal preservar os ovários e prevenir o início precoce dos sintomas da menopausa. Para as mulheres que estão no período da perimeno- pausa e apresentam alguns sintomas precoce- mente e certo grau de irregularidade menstrual, a decisão de remoção de ovários deve ser indi- vidualizada. A relação fortalecida entre o mé- dico e a paciente é importante pois a conversa- ção de ovários é um assunto bastante delicado para a maioria das mulheres (BICKERSTAFF & LOUISE, 2019). Complicações Dentre as complicações pós-operatórias pode-se listar as infecções da ferida e complica- ções urinárias, como retenção urinária, lesão do ureter, prolapso da tuba uterina e deiscência da cúpula vaginal (BEREK, 2014). A bexiga e os ureteres estão intimamente re- lacionados com o útero, o colo do útero e os va- sos uterinos, e existe um risco de lesão durante a histerectomia. A histerectomia abdominal tem um tempo de recuperação mais longo do que a histerectomia vacinal, mas facilita a remoção de grandes miomas e ovários. A histerectomia por qualquer via aumenta o risco do aparecimento de sintomas urinários e do prolapso. A decisão de remover os ovários deve considerar a idade do paciente, a presença de sintomas da meno- pausa, a dor e o risco individual de câncer ova- riano tardio (BICKERSTAFF & LOUISE, 2017). As infecções de ferida ocorrem em 4 a 6% das histerectomias abdominais. As medidas que reduzem as infecções incluem banho pré-opera- tório, não remoção de pelos ou a remoção des- tes, caso seja necessário. Além do uso de cam- pos adesivos e antibióticos profiláticos e fecha- mento primário tardio (BEREK, 2014). A retenção urinária após histerectomia é in- comum.No caso de a uretra estar desobstruída e houver retenção, normalmente é devido a dor ou da atonia vesical decorrente da anestesia, as quais tem efeitos temporários. No caso da não inserção de cateter após a cirurgia, a retenção pode ser aliviada inicialmente com a inserção de um cateter de Foley por 12 a 24h. A maioria das 107 | P á g i n a pacientes é capaz de urinar após a retirada do cateter no dia seguinte (BEREK, 2014). Enquanto na lesão do ureter deve-se suspei- tar de obstrução ureteral em pacientes com dor no flanco após a histerectomia. A ocorrência de lesão ureteral é menor na histerectomia vaginal que na histerectomia abdominal e maior na his- terectomia laparoscópica. Nessas pacientes deve-se realizar urografia por tomografia com- putadorizada e exame de urina (BEREK, 2014). Outrossim, o prolapso da tuba uterina pós- histerectomia é raro e pode ser confundido com tecido de granulação no ápice da vagina. Os fa- tores predisponentes são hematoma e abcesso no ápice da vagina. Deve-se suspeitar de pro- lapso da tuba uterina nas pacientes em que o te- cido de granulação persiste após tentativas de cauterização ou que sentem dor quando se pro- cura removê-lo (BEREK, 2014). Do mesmo modo, em pacientes com deis- cência da cúpula vaginal há a presença de dor, sangramento vaginal, corrimento vaginal ou sa- ída de líquido de 2 a 5 meses após a cirurgia, o que ocorre mais casualmente durante o coito (BEREK, 2014). Tratamento A cirurgia de histerectomia pode ser feita por três técnicas diferentes, sendo elas, cirurgia abdominal, vaginal (Imagem 12.1) ou laparoscópica. Dentre elas, a histerectomia abdominal é a técnica mais invasiva, onde é realizado uma incisão na parte inferior do abdome. Nos últimos anos, muitos esforços foram feitos para reduzir o número de histerectomias abdominais, como o desenvolvi- mento da tecnologia para cirurgias minima- mente invasivas. As vantagens da abordagem minimamente invasiva são amplamente conhe- cidas e consistem em incisões menores, levando a menos dor pós-operatória, rápida recuperação retorno às atividades e menor morbidade cirúr- gica (BEREK, 2014). Imagem 12.1 Retirada do útero por transecção da vagina Fonte: BEREK, 2014. Na técnica da histerectomia vaginal, é feito uma incisão circunferencial no epitélio vaginal ao re- dor do colo uterino, após isso, uma dissecção romba ou cortante de toda a espessura do epité- lio vaginal, abre-se o fundo de saco posterior, a cavidade pélvica posterior é examinada à pro- cura de alterações patológicas do útero ou de aderências no fundo de saco. Se a reflexão peri- toneal vesicovaginal não for facilmente identifi- 108 | P á g i n a cada, é preferível não abrir o espaço vesicovagi- nal (fundo de saco). Uma revisão Cochrane va- lidou a ideia de que o acesso vaginal é a via ci- rúrgica de escolha para histerectomia (Imagem 12.2) (BEREK, 2014). Imagem 11.2 Bácula posterior do útero. Fonte: BEREK, 2014. A histerectomia laparoscópica, tem uma abordagem menos invasiva, podendo também ser realizada por mecanismo robótico. Vários estudos apontam que essa abordagem é terapeu- ticamente satisfatória para muitas condições gi- necológicas, além de melhorarem a qualidade de vida das pacientes. Pode ser feita por duas vias, umbilical ou laparoscopia aberta, a região umbilical é rotineiramente usada em pacientes sem história pregressa de cirurgias ou infecções intra-abdominais (SANTIAGO et al., 2020). Na histerectomia laparoscópica robótica, o cirurgião manipula um console responsável pelo movimento de instrumentos e da tela. Esta téc- nica possui vantagens em relação a laparoscó- pica, sendo elas, visão tridimensional e instru- mentos com extremidades articuladas que con- ferem mais ergonomia ao movimento (SANTI- AGO et al., 2020). A escolha da via de cirurgia é influenciada por diversos fatores, como o tamanho e formato da vagina e do útero, acessibilidade, doenças ex- trauterinas, necessidade de intervenções conco- mitantes a cirurgia, experiencia do médico, tec- nologia e recursos disponíveis no hospital e a preferência da paciente (BEREK, 2014). É de extrema importância ressaltar que a perda do momento certo para conversão de ci- rurgia vaginal para abdominal, é o fator predi- tivo mais importante para complicações, princi- palmente as hemorrágicas (PACE et al., 2022). Por mais volumoso que o corpo uterino possa ser, mais firme sua aderência a parede ab- dominal ou ante a presença de fatores que impe- çam seu descenso, a inelasticidade da cérvice, bem como a proximidade constante do com- plexo ligamentar cardinal-útero-sacro e do pedí- culo uterino em relação a vagina, fará que na maioria dos casos, a decisão de converter para via abdominal já encontre o útero relativamente avascular e com complexo ligamentar seccio- nado. Em muitas situações já ocorreu o com- pleto descolamento cérvice-bexiga ou mesmo a cérvice pode ter sido amputada (PACE et al., 2022). A histerectomia vaginal difícil é aquela que requer algo mais do que a habitual habilidade da maioria dos cirurgiões, ela exige perspicácia e avaliação pré-operatória cuidadosa, o que so- mente se consegue com uma firme base teórica e muita prática (PACE et al., 2022). A pré-avaliação cirúrgica é uma parte im- portante do atendimento ao paciente e permite que planos personalizados de cuidado sejam fei- tos para aqueles com comorbidades específicas. Revisão multidisciplinar de casos planejados 109 | P á g i n a pode ser útil para decidir sobre a abordagem se- gura para pacientes de maior complexidade. A decisão sobre o tipo de incisão cirúrgica deve ser feita após consideração dos requisitos bási- cos de acesso cirúrgicos e de dificuldades poten- ciais e devem ser considerados a resistência do fechamento e o tempo de recuperação para cada tipo de incisão. Muitos procedimentos ginecoló- gicos são realizados por técnicas minimamente invasivas, reduzindo a dor associada à incisão e otimizando a recuperação (PASSOS et al., 2017). 110 | P á g i n a REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS SANTIAGO, W.S. et al (2020). Abnormal uterine blee- ding: hysterectomy versus resection. Revista Da Associa- ção Médica Brasileira, 66(12), 1731–1735. BEREK, J.S. Histerectomia. In: Grupo GEN, editora. Tratado de Ginecologia. Rio de Janeiro, 2014. BICKERSTAFF, H. & LOUISE C. K. Condições benig- nas do útero, cérvice uterina e endométrio. In: Thieme Brazil, editora. Ginecologia: by TenTeachers (20th edi- ção). Thieme Brazil, 2019. PACE, W.A.P. et al. Ginecologia Minimamente Invasiva: Cirurgia Vaginal e Uroginecologia. MedBook Editora. Texto e Atlas, 2022. PASSOS, E.P. In: Rotinas em ginecologia (7th ed.). Grupo A, 2017. MINISTÉRIO DA SAÚDE. LEIOMIOMA DE ÚTERO. Disponível em: <https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudele- gis/sas/2010/prt0495_23_09_2010.html> Acesso em: 24 mai. 2023. 111 | P á g i n a Palavras Chave: Climatério; Sintomas da menopausa; Menopausa Capítulo 13 JÚLIA BENEVENUTO MOREIRA¹ MARIANA BARINO MELO¹ GABRIELA NEVES DE SOUZA¹ MARIA GUIMARÃES PETRY¹ 1. Discente – Medicina da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora – Suprema. CLIMATÉRIO 112 | P á g i n a INTRODUÇÃO Ao longo da vida a mulher apresenta dife- rentes ciclos hormonais que têm início com a menarca e se estendem até a menopausa, quando termina a ciclicidade. A liberação dos hormô- nios femininos pelos ovários, sob estímulo hi- pofisário, estabelece os diferentes períodos do ciclo hormonal feminino. O estrogênio e a pro- gesterona são hormônios importantes no ciclo biológico feminino e determinam as caracterís- ticas sexuais secundárias, a liberação do óvulo, manutenção da gestação e do comportamentofeminino. (SELBAC et al., 2018) A perimenopausa refere-se aos sinais de de- clínio ovariano até 1 ano após a última menstru- ação da mulher. A menopausa é a data da última menstruação (constitui apenas um marco dentro do climatério). Já o climatério é caracterizado por uma diminuição significativa da produção de estrogênio e progesterona e pelo aumento dos níveis de hormônio folículo-estimulante (FSH) (HAO et al., 2022; UFJF, 2009). Ele consiste em uma fase biológica e não um processo pato- lógico que compreende a transição entre o perí- odo reprodutivo e o não reprodutivo da mulher (pós-menopausa) (MS, 2008). Durante o climatério, há algumas mudanças decorrentes do declínio da função ovariana. Es- sas mudanças podem ocorrer em maior ou me- nor intensidade e são diretamente relacionadas à diminuição dos níveis de estrogênio. No entanto é fundamental que haja, nessa fase da vida, um acompanhamento sistemático visando à promo- ção da saúde, o diagnóstico precoce, o trata- mento imediato dos agravos e a prevenção de danos (MS, 2008). Epidemiologia A idade em que ocorre a menopausa parece estar geneticamente programada para cada mu- lher, pelo número de folículos ovarianos, mas pode ser influenciada por diversos fatores, como: fatores socioeconômicos e culturais, pa- ridade, tabagismo, altitude e nutrição. Mulheres que apresentam longa jornada de trabalho e exercem atividades estressantes têm mais chance de entrar na menopausa mais cedo (FE- BRASGO, 2010). Há diferenças culturais como na Índia, onde as mulheres anseiam pela menopausa, visto que esse período as coloca em posição mais elevada socialmente. Além disso, sabe-se que mulheres nulíparas têm menopausa mais precocemente, enquanto multíparas apresentam menopausa mais tardia (FEBRASGO, 2010). Estudos demonstram que o tabaco antecipa a menopausa em 12 a 18 meses. Essa antecipa- ção em fumantes tem sido explicada pela defici- ência estrogênica causada diretamente pelo ta- baco. Assim como mulheres com nutrição defi- ciente e baixo peso apresentam precocemente a idade da menopausa (FEBRASGO, 2010). Esses fatores explicam a variação da idade da menopausa nos diferentes países: México – 44,3 anos; África do Sul – 46,7 anos; China – 48,9 anos; Arábia Saudita – 48,9 anos; Bélgica – 50,0 anos; Inglaterra – 50,7 anos; Estados Uni- dos – 51,4 anos e Holanda – 51,4 anos. No Bra- sil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Ge- ografia e Estatística, a média etária da ocorrên- cia da menopausa é de 48 anos (FEBRASGO, 2010). 113 | P á g i n a Fisiopatologia A senescência ovariana é um processo que se inicia efetivamente na vida intrauterina, no interior do ovário embrionário, em razão da atresia de oócitos programada. Há uma diminui- ção progressiva do número de folículos primor- diais desde a vida fetal até a menopausa. O nú- mero de folículos passa de 7 milhões na vigé- sima semana de vida intrauterina, aproximada- mente 2 milhões de folículos primordiais ovari- anos que nascem com a menina e dos quais exis- tem em média quatrocentos mil na ocasião da puberdade para 10 mil na idade de 40 anos e so- mente algumas centenas ainda a acompanham no climatério e os demais evoluem contínua e permanentemente para a atresia na evolução do ovário pré-menopáusico. (FILHO et al., 2017; MS, 2008; HOFFMAN, et al., 2014). Há, também, uma diminuição do tamanho dos ovários. O volume médio dos ovários na menacme é de 8 a 9 centímetros e passa para aproximadamente 2 a 3 centímetros alguns anos após a menopausa. A redução mais proeminente ocorre no córtex devido à intensa diminuição do número e das dimensões dos folículos. Pode-se ainda observar fibrose intensa e esclerose arteri- olar obliterante, fenômenos que contribuem para o aspecto irregular do ovário na pós-meno- pausa. Ocorre ainda a deposição de pigmentos e aumento da espessura da túnica albugínea (FI- LHO et al., 2017; MS, 2008). A produção hormonal de estrogênios e de androgênios, com predomínio do estradiol du- rante todo o período reprodutivo, tende a oscilar significativamente durante os anos que antece- dem a cessação dos ciclos, diminuindo gradati- vamente com a instalação da menopausa. Isso ocorre devido às mudanças no eixo hipotálamo- hipofisário-ovariano, e que são responsáveis pela irregularidade menstrual associada com esse período (FILHO et al., 2017; MS, 2008). Durante os anos reprodutivos, o estrogênio e a progesterona exercem feedback positivo e nega- tivo sobre a produção das gonadotrofinas hipo- fisárias e sobre a amplitude e a frequência da li- beração de Hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH). Por sua vez, a Inibina que é produzida nas células da granulosa exerce uma importante influência no feedback negativo sobre a secreção de FSH pela adeno-hipófise (HOFFMAN et al., 2014). Os ciclos, inicialmente, tendem a encurtar. Paralelamente, observa-se um aumento progres- sivo de FSH (o hormônio luteinizante – LH - ainda permanecendo normal) que leva o au- mento da resposta folicular ovariana. Esse au- mento, por sua vez, produz elevação global nos níveis de estrogênios. O FSH eleva-se isolada- mente no início, gerando uma diminuição da sensibilidade hipotálamo-hipofisária ao feed- back do estradiol, que está em níveis normais ainda, e diminuição da inibina, que exercia feed- back negativo sobre a secreção de FSH. Após isso, o LH eleva-se também: um ano antes da menopausa a taxa de FSH já se encontra 10 a 15 vezes aumentada e o LH, 3 vezes mais alto, em comparação com os níveis de uma fase folicular normal. Essa hipersecreção gonadotrófica per- manece por toda a vida. No final da transição menopáusica, a mulher apresenta redução da fo- liculogênese e maior incidência de ciclos ano- vulatórios (alternando ciclos curtos com ciclos longos) e a ovulação torna-se mais rara até de- saparecer (MS, 2008; HOFFMAN, et al., 2014). As hemorragias de privação ocorrem irregular- mente, já que não existe mais a ciclicidade. Ape- sar disso, após a menopausa permanece uma produção basal de estrona, androstenediona, tes- tosterona e mínima de estradiol e progesterona (MS, 2008). 114 | P á g i n a Manifestações clínicas Os níveis estrogênicos exercem papel coad- juvante de maior ou menor importância sobre a maioria das manifestações clínicas no período climatérico, mas de fato estarão implicados inú- meros outros fatores, como perfil psicológico, de sua vida sexual e social e, sobretudo, da forma como ela encara o climatério e o envelhe- cimento (FILHO et al., 2017). As primeiras manifestações clínicas na peri- menopausa são as alterações menstruais (FI- LHO et al., 2017). Durante a fase da transição menopausal, os ciclos menstruais apresentam variações na regularidade e nas características do fluxo. Inicialmente pode ocorrer encurta- mento gradativo da periodicidade, devido à ma- turação folicular acelerada e consequente ovula- ção precoce, o que pode ser seguido por uma fase lútea com baixa produção de progesterona e instalação de fluxo diminuído ou aumentado (MS, 2008). Com o evoluir da insuficiência ova- riana se constatam ciclos com fluxo escasso e, finalmente, instala-se a menopausa (FILHO et al., 2017). Os mais comuns sintomas da menopausa ca- pazes de afetar a qualidade de vida são os rela- cionados com a termorregulação, que podem ser descritos como ondas de calor, fogachos e suo- res noturnos (HOFFMAN, et al., 2014). Sua in- tensidade varia desde muito leves a intensos, ocorrendo esporadicamente ou várias vezes ao dia e durando alguns segundos a 30 minutos (MS, 2008). O período de duração dos fogachos é de 3 a 5 anos, se encerrando, na maioria das vezes, sem que qualquer tratamento seja feito. Entretanto, algumas mulheres irão permanecer por vários anos após a menopausa (FILHO et al., 2017). Os sintomasneuropsíquicos compreendem a labilidade emocional, ansiedade, irritabili- dade, melancolia, baixa de autoestima, tristeza e depressão, podendo apresentar-se isoladamente ou em conjunto em algum período do climatério em intensidade variável (MS, 2008). Além disso, alguns sintomas e sinais clíni- cos relacionados ao processo de envelhecimento podem ocorrer durante o climatério (MS, 2008). São comuns as queixas de disfunções sexuais, muitas vezes associadas à atrofia urogenital, como secura vaginal, dispareunia, poliúria, ur- gência e incontinência urinária. Essas queixas, ao contrário da sintomatologia vasomotora, têm manifestação mais tardia, com incidência variá- vel (FEBRASGO, 2016). A osteoporose é um distúrbio ósseo metabó- lico que tem uma etiologia multifatorial, mas o papel dos estrógenos tem sido estudado, mos- trando que atuam tanto antagonizando os efeitos do paratormônio que estimula a reabsorção ós- sea como também ao nível de receptores estro- gênicos nas células do osso. As principais mani- festações são as fraturas que ocorrem mais fre- quentemente nas vértebras, terço distal do rádio, fêmur, úmero e pequenos ossos periféricos (FI- LHO et al., 2017). Propedêutica Durante o climatério, é essencial que a mu- lher seja avaliada de forma individualizada para que suas necessidades de prevenção de doenças e promoção de saúde sejam supridas, detectando tão cedo quanto possível doenças como hiper- tensão, cardiopatia, diabetes mellitus e câncer. Deve-se ainda avaliar no geral aspectos da audi- ção, visão, dentição e metabolismo ósseo. A anamnese e o exame físico completos são fun- damentais e deverão ser realizados periodica- mente (FILHO et al., 2017; BACCARO et al., 2022). Para rastreio do câncer de mama, a Febrasgo sugere que, para mulheres com risco habitual, seja iniciado aos 40 anos e a mamografia é o exame recomendado, com periodicidade anual 115 | P á g i n a (se estiver normal) (BACCARO et al., 2022). Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) reco- menda mamografias de triagem a cada 2 anos para mulheres entre 50 e 69 anos. Avaliações clínicas das mamas e autoexame não são reco- mendados (FILHO et al., 2017). Já para rastreio do câncer de colo uterino, o Ministério da Saúde do Brasil recomenda o exame citopatológico como método de escolha para o rastreamento de lesões precursoras, inici- ando aos 25 anos de idade para mulheres que já iniciaram atividade sexual, com intervalo anual entre os dois primeiros exames. Se os dois pri- meiros resultados forem normais, a coleta passa a ser realizada com intervalo trienal (INCA, 2016). Para rastreio de câncer colorretal no Brasil, o Ministério da Saúde considera que pessoas com risco habitual devem realizar pesquisa de sangue oculto nas fezes, anualmente, ou colo- noscopia, a partir dos 50 anos (BACCARO et al., 2022). Após a menopausa, o efeito benéfico do es- trogênio endógeno no sistema cardiovascular é mitigado, e o número de eventos cardiovascula- res aumenta, devendo-se rastrear fatores de risco como diabetes mellitus, hipertensão arte- rial, dislipidemia, tabagismo e obesidade (BAC- CARO et al., 2022). Os exames laboratoriais obrigatórios são triglicérides, colesterol total e frações, glicemia de jejum e os facultativos (a critério clínico), FSH, Hormônio Tireo- estimulante (TSH), entre outros (FEBRASGO, 2016). A identificação das pacientes de risco para osteoporose é também considerada fundamental na assistência à mulher climatérica (FE- BRASGO, 2016). Recomenda-se que a densi- tometria óssea seja realizada em todas as mulhe- res acima dos 65 anos de idade e inferior a 65 anos que apresentem algum fator de risco para baixa massa óssea (BACCARO et al., 2022). A ultrassonografia pélvica no climatério está indicada nas seguintes situações: diagnós- tico de doenças endometriais e ovarianas; san- gramento genital; massa pélvica a esclarecer (FILHO et al., 2017). Já o rastreamento de In- fecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) deve ser realizado com base nos dados da histó- ria clínica de cada paciente (BACCARO et al., 2022). Terapia hormonal No período do climatério, durante a transi- ção menopáusica, ocorre diminuição dos níveis de estrogênio ocasionada pelo declínio da fun- ção ovariana. Em média, 60% das mulheres so- frem com os sintomas próprios desse período, dos quais os mais característicos e denunciati- vos do déficit hormonal subjacente são os sinto- mas vasomotores, que são ondas de calor e su- dorese noturna, conhecidos como “fogachos” e os sintomas urogenitais. A terapêutica hormonal (TH) é considerada o melhor tratamento para es- ses sintomas e é indicada com grande frequência como medida terapêutica para aliviá-los nessa etapa da vida, com benefícios consideráveis para a qualidade de vida das pacientes que rece- bem esse tratamento (FEBRASGO, 2016). A TH não é uma medida isolada e única, por isso deve ser parte de uma estratégia global que inclui, entre outras ações, recomendações sobre o estilo de vida relativas à dieta, exercícios, ta- bagismo e álcool com o objetivo de manter a sa- úde das mulheres na pós-menopausa. A terapêu- tica deve ser individualizada e ajustada de acordo com os sintomas, as necessidades de pre- venção, a história pessoal e familiar, os resulta- dos de investigações pertinentes, as preferências da mulher e suas expectativas (FEBRASGO, 2016). 116 | P á g i n a Critérios para indicação da TH: A TH tem indicação não contestada para as seguintes situações clínicas: 1. Tratamento dos sintomas vasomotores graves e moderados: a TH é o tratamento mais efetivo para os sintomas vasomotores na peri e na pós-menopausa, sendo especialmente indi- cada para mulheres sintomáticas, abaixo dos 60 anos e com menos de 10 anos de menopausa (FEBRASGO, 2016); 2. Tratamento dos sintomas relacionados à atrofia urogenital: a terapia estrogênica vaginal é efetiva e preferível para tratamento de sinto- mas isolados da atrofia vaginal e dispareunia (FEBRASGO, 2016); 3. Tratamento e prevenção de fraturas oste- oporóticas em mulheres na pós-menopausa (FE- BRASGO, 2016). Critérios de contraindicação da TH: São consideradas contraindicações absolu- tas para TH: 4. Doença trombótica ou tromboembólica venosa atual; 5. Doença hepática descompensada; 6. Câncer de mama aguardando trata- mento. Janela de oportunidade: A observação de que quanto mais precoce o início da TH maior o benefício alcançado origi- nou o conceito de janela de oportunidade. O ra- ciocínio baseia-se na prevenção dos efeitos de- letérios do hipoestrogenismo nos tecidos-alvo, quando a TH é iniciada precocemente. No des- fecho clínico relacionado à doença coronariana, por exemplo, há: início precoce, menor dano in- flamatório no endotélio vascular, menor proba- bilidade de desenvolvimento de aterosclerose e menor chance de infarto do miocárdio (FE- BRASGO, 2016). Por quanto tempo manter a TH: A duração do tratamento da sintomatologia climatérica com a TH na pós-menopausa conti- nua sendo um assunto controverso. A controvér- sia baseia-se na avaliação do tempo de trata- mento em que a TH é benéfica e supera a ocor- rência de eventuais riscos. Entre os riscos que podem ser motivo de limitar o tempo de utiliza- ção da TH, o câncer de mama é o mais impor- tante (FEBRASGO, 2016). Desse modo, deve-se ressaltar que o tempo de manutenção da TH deve ser considerado de acordo com os objetivos da prescrição e com os critérios de segurança na utilização. O uso da TH é uma decisão individualizada para a qual a qualidade de vida e os fatores de risco como idade, tempo de pós-menopausa, risco indivi- dual de tromboembolismo, doença cardiovascu- lar e câncer de mama devem sempre ser avalia- dos (FEBRASGO, 2016). Vias de administração: O estradiol e o progestógeno, quandoadmi- nistrados por via não oral, impedem o metabo- lismo de primeira passagem pelo fígado, ocasi- onando, assim, menor potencial para estímulo das proteínas hepáticas, fatores de coagulação e perfil metabólico neutro, o que pode ser mais fa- vorável em termos de risco cardiovascular e fe- nômenos tromboembólicos. O risco de trom- boembolismo venoso se mostrou menor quando usado o estradiol por via transdérmica compa- rado com o estradiol por via oral. A primeira passagem uterina da administração vaginal de progestógenos acarreta concentrações locais adequadas e boa proteção endometrial com ní- veis sistêmicos do progestógeno menores (PARDINI, 2014). Segundo a Tabela 13.1, há vantagens e des- vantagens em relação às vias de administração dos hormônios. 117 | P á g i n a Tabela 13.1 Vias de administração do estrógeno. Via oral Via não oral Vantagens Mais difundida Custo menor Menos alérgica Aumento de HDL Diminuicao do LDL Relacao E2/E1 > 1 Queda do triglicerides Evita os efeitos da passagem hepatica. Desvantagens Angiotensinogênio Aumento de SBGH, TBG e CBG. Aumento do triglicerides Relacao E2/E1 < 1 Custo maior Alergia cutânea local 2-24% Impacto discreto no HDL e LDL Fonte: Adaptado de Pardini, 2014. Classificação dos estrógenos: Sintéticos: os principais são o etiniles- tradiol, mestranol, quinestrol e dietilestilbestrol. Devido ao fato de não serem oxidados pela de- sidrogenase que oxida o 17-β estradiol, seu efeito no fígado é acentuado, levando-o à pro- dução de proteínas como SHBG, substrato de renina e outras, às vezes indesejáveis, indepen- dentemente da via de administração. Por esse motivo, embora exerça efeito no osso, seu uso é restrito aos anticoncepcionais orais (PARDINI, 2014). Naturais: os mais frequentemente utili- zados na TH são os estrogênios conjugados e o estradiol transdérmico ou percutâneo, seguidos pelo valerianato de estradiol e o estradiol micro- nizado. Quando administrados por via oral, to- dos resultam em níveis mais elevados de estrona e seus conjugados do que de estradiol, sendo que essa transformação se processa na mucosa gastrintestinal e no fígado. O estriol, apesar de provocar poucos efeitos colaterais, não previne a perda de massa óssea. Tanto os estrogênios sintéticos como os naturais têm se mostrado úteis na preservação da massa óssea e na me- lhora da sintomatologia, entretanto na terapia de reposição hormonal do climatério e menopausa os naturais estão mais indicados (PARDINI, 2014). Progestágenos: a associação do proges- tágeno ao estrógeno é obrigatória em pacientes com útero intacto ou em pacientes com histerec- tomia parcial em que existe resíduo de cavidade endometrial. A indicação primária da adição do progestágeno à estrogenoterapia refere-se à pro- teção endometrial contra a hiperplasia e o ade- nocarcinoma associados à reposição isolada de estrógeno. Não está recomendada quando bai- xas doses de estrógeno são administradas por via vaginal no tratamento da atrofia vaginal iso- ladamente (PARDINI, 2014). Esquemas terapêuticos: São inúmeras as formas de administrar a TH, visando ao alívio dos sintomas e, acima de tudo, à proteção endometrial quando associa- mos a progesterona e estrógeno. Os consensos atuais recomendam minimizar a exposição ao progestágeno. Os esquemas combinados podem ser cíclicos ou contínuos. No primeiro o estró- geno é dado de forma contínua e o progestágeno é dado 10-12 dias por mês e, no segundo, ambos são administrados conjuntamente de forma inin- terrupta. No esquema cíclico, a mulher apre- 118 | P á g i n a senta sangramento ao final de cada ciclo de pro- gesterona e, no contínuo, a grande maioria entra em amenorreia. Quando isso não ocorre, deve- mos investigar as condições do endométrio. De qualquer forma, a escolha do esquema é sempre individualizada, priorizando-se a vontade da pa- ciente e o tempo de menopausa (PARDINI, 2014). Terapias alternativas: a) Tibolona: é um esteroide sintético apro- vado em 90 países para tratar os sintomas me- nopausais e, em 45 países, está aprovado para prevenção de osteoporose. A tibolona também diminui os níveis circulantes de SHBG aumen- tando a testosterona livre e contribuindo para a androgenicidade da droga. A tibolona alivia os sintomas vasomotores, melhora a atrofia uroge- nital, previne a perda de massa óssea e acarreta aumento da densidade óssea. Devido ao seu per- fil androgênico, pode melhorar a libido e elevar os níveis de Lipoproteína de Baixa Densidade (LDL) circulantes. Prescreve-se a tibolona de forma contínua acarretando atrofia endometrial com consequente amenorreia (PARDINI, 2014). b) Raloxifeno: exerce efeitos estrogênicos no osso e lípides e antiestrogênicos na mama, no útero, no epitélio vaginal e em centros cerebrais promotores dos fogachos. Como resultado de suas ações antiestrogênicas, o raloxifeno reduz a incidência de câncer de mama e endométrio, entretanto piora os sintomas vasomotores (PARDINI, 2014). Riscos e benefícios: Com base na literatura disponível, atual- mente o TH é indicado apenas para tratamento de sintomas vasomotores e atrofia vaginal, bem como para prevenção ou tratamento de osteopo- rose. O padrão atual de atenção à saúde reco- menda reavaliar a necessidade de manter a tera- pia em intervalos de 6 a 12 meses. Portanto, em mulheres que necessitem de prevenção ou trata- mento em longo prazo de osteoporose, a melhor opção provavelmente é o uso de agentes com ação específica sobre os ossos (HOFFMAN, et al., 2014). Benefício definido em: - Sintomas vasomotores: os sintomas vaso- motores (fogachos) sem tratamento, podem de- saparecer em um a dois anos, o que justifica te- rapia por curto prazo. Tratamentos combinados não diferiram significativamente do uso de es- trógenos isolados, demonstrando que a associa- ção desses a progestógenos não conferiu maior alívio dos sintomas vasomotores. Desse modo, é importante considerar que progestógenos rara- mente são empregados de forma isolada para manejo dos sintomas e, quando o são, necessi- tam de doses elevadas (de 20 a 400 mg/dia de acetato de medroxiprogesterona, por via oral), frequentemente determinando ocorrência de efeitos indesejáveis (WANNMAHER & LUBI- ANCA, 2004). - Sintomas urogenitais: estrógenos têm-se mostrado úteis no controle de ressecamento da mucosa vaginal e dispareunia associados à defi- ciência hormonal na menopausa. Ensaios clíni- cos randomizados evidenciaram melhora signi- ficativa da lubrificação vaginal com a adminis- tração de estrógenos, independentemente da via empregada. A administração vaginal de estró- geno é eficaz e acarreta menos efeitos adversos (WANNMAHER & LUBIANCA, 2004). Benefício provável em: - Redução de fraturas por osteoporose: estudos mostram que usuárias correntes de TH, quando comparadas às não usuárias, tiveram di- minuição de risco de cerca de 6% para cada ano de terapia. O benefício perdurou por cinco anos 119 | P á g i n a após a suspensão do uso continuado, além dos quais grande parte do efeito protetor foi perdido. Dez anos após a suspensão, densidade óssea e risco de fratura mostraram-se similares entre usuárias e não-usuárias de estrógenos (WANN- MAHER & LUBIANCA, 2004). Risco definido ou ineficácia em: - Tromboembolismo venoso: TH aumenta o risco de fenômenos tromboembólicos em duas vezes aproximadamente, risco esse incremen- tado pela obesidade, trombofilia, idade superior a 60 anos, cirurgia e imobilização. A via de ad- ministração do estrógeno, a dosagem e o tipo de progestágeno associado ao estrógeno podem afetar o risco do evento tromboembólico. A te- rapia combinada com estrógeno mais progeste- rona aumenta o risco de tromboembolismo quando comparado com a monoterapia estrogê- nica. A reposição estrogênicapor via transdér- mica tem se mostrado mais segura quanto aos fenômenos tromboembólicos que a via oral (WANNMAHER & LUBIANCA, 2004). - Endométrio: a administração de estró- geno sem oposição induz a estímulo do endomé- trio, aumentando risco de hiperplasia endome- trial. A associação estroprogestativa confere proteção endometrial e, por isso, as mulheres com útero devem receber a associação com prostágeno por, no mínimo, 12 dias por mês nos esquemas sequenciais. Por outro lado, os esque- mas combinados contínuos conferem uma pro- teção endometrial maior quando comparados aos esquemas cíclicos (WANNMAHER & LU- BIANCA, 2004). - Acidente vascular cerebral: o risco de acidente vascular cerebral (AVC) aumenta ex- ponencialmente com o avançar da idade e a TH não reduz a incidência de AVC em mulheres idosas com doença vascular pré-existente. O risco de AVC, além da idade, também pode ser dependente da dose, da via de administração do estrógeno e da associação com progestágenos. A via não oral em alguns estudos está associada a um menor risco de AVC (PARDINI, 2014). - Cognição: diversos estudos sugerem que se o estrógeno for prescrito na mulher jovem em perimenopausa acarreta uma diminuição do risco de doença de Alzheimer ou retarda seu aparecimento. Contudo, a TH não está indicada para a prevenção primária ou secundária de de- mência, uma vez que o estrógeno parece possuir diferentes efeitos no cérebro dependentes da idade da paciente, idade no início da reposição, tipo de menopausa (natural ou induzida) e tipo de reposição utilizada (PARDINI, 2014). -- Mama: o grau de associação entre o cân- cer de mama e a TH continua controverso. En- tretanto, o único dado considerado com grau de evidência A é que a administração de estrógeno isolado ou associado à progesterona aumenta a percentagem de densidade mamária (PMD) e o raloxifeno diminui o risco de câncer de mama (PARDINI, 2014). - Doença cardiovascular: o consenso da sociedade internacional de menopausa afirmou que a TH não está contraindicada a mulheres hi- pertensas e, em alguns casos, a TH pode reduzir a pressão arterial. Por outro lado, a TH está con- traindicada a mulheres com história de infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e em- bolia pulmonar (PARDINI, 2014). Terapia não hormonal: A terapia com estrogênios permanece como a mais efetiva para os sintomas vasomotores. No entanto, em decorrência de contraindicações ou pelos conceitos próprios do que seja seguro, muitas mulheres relutam em utilizá-la. Alguns tratamentos farmacológicos não hormonais têm sido avaliados em estudos randomizados, clíni- cos e prospectivos para alívio destes sintomas. (FÉLIX LMC, et al., 2009) 120 | P á g i n a Atualmente, os inibidores de recaptação se- letiva da serotonina (SSRIs) e os inibidores de recaptação da serotonina e norepinefrina (SNRIs) são os agentes mais estudados para mu- lheres sintomáticas com ou sem história prévia de câncer de mama. Contudo, há outros medica- mentos que vem se mostrando eficazes no trata- mento para mulheres que não desejam ou não podem tratar com estrogênio, os veremos a se- guir (FÉLIX LMC, et al., 2009). Antidepressivos Os agentes da família dos inibidores seleti- vos de recaptação da serotonina e os inibidores de recaptação de serotonina e norepinefrina (SSRI/ SNRI) reduzem os fogachos de 50 a 60% segundo estudos clínicos placebo-controlados (FÉLIX LMC, et al., 2009). Para o tratamento de sintomas vasomotores, foi evidenciado que a utilização de Venlafaxina 75mg/dia tem sido efetiva na redução significa- tiva na percepção dos fogachos (FÉLIX LMC, et al., 2009). Investigadores avaliaram a eficácia do cita- lopram (SSRI) em nove meses de estudo pla- cebo-controlado, que incluiu 150 mulheres na pós-menopausa. Nos seis meses de terapia, fo- gachos foram reduzidos em 58, 62 e 64% nos grupos de placebo, fluoxetina e citalopram, res- pectivamente (FÉLIX LMC, et al., 2009). Isoflavonas As isoflavonas são as formas mais comuns de fitoestrógenos e são encontradas na soja, pro- dutos de soja (leite de soja, tofu, bebidas de soja e farinhas de soja), lentilhas, ervilhas verdes e alfafa e brotos de feijão (CARBONEL et al., 2018). Uma capacidade de ligação seletiva de alta afinidade aos receptores de estrogênio, permite que esses compostos químicos se envolvam em atividade estrogênica em tecidos humanos (CARBONEL et al., 2018). As isoflavonas desempenham muitos papéis na compensação de diversos sintomas da meno- pausa, entretanto ainda persistem dúvidas sobre os efeitos benéficos das isoflavonas no sistema reprodutor feminino e seus apêndices, principal- mente nos seios. Portanto, há uma demanda por estudos baseados em evidências do consumo de isoflavonas na prevenção e tratamento dos efei- tos indesejáveis do hipoestrogenismo. A exigên- cia está sendo atendida por meio de estudos ex- perimentais e epidemiológicos (CARBONEL et al., 2018). Anticonvulsivantes A gabapentina é um anticonvulsivante apro- vado pela Food and Drug Administration dos Estados Unidos como terapia adjuvante para convulsões parciais e neuralgia pós-herpé- tica.Estudos mostraram que a gabapentina é se- gura e eficaz no tratamento de fogachos (AL- LAMEH et al., 2013). Seu mecanismo de ação para aliviar os fo- gachos é desconhecido. A droga possivelmente afeta os centros termorreguladores no hipotá- lamo e pode possuir propriedades nociceptivas devido aos seus sítios de ligação de alta afini- dade nos canais de cálcio. A Sociedade Norte- Americana de Menopausa e o Colégio Ameri- cano de Obstetras e Ginecologistas recomen- dam o uso de gabapentina como uma opção para controlar os fogachos em mulheres que não de- sejam tomar suplementos contendo estrogênio (ALLAMEH et al., 2013). 121 | P á g i n a Terapia não medicamentosa: Mente-corpo: Controle do estresse, relaxamento, respira- ção profunda e ioga podem ser úteis para algu- mas pessoas, mas os resultados do estudo foram inconsistentes; no entanto, essas abordagens provavelmente não são prejudiciais e podem ter outros benefícios. Outras abordagens, como hipnose, bloqueio do gânglio estrelado (entorpe- cimento de um nervo no pescoço com uma inje- ção) e acupuntura também não demonstraram reduzir os fogachos, embora algumas pessoas as considerem úteis (possivelmente devido a um efeito placebo) (INNES et al., 2011). 122 | P á g i n a REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA ALLAMEH, Z. et al. Comparison of Gabapentin with Es- trogen for treatment of hot flashes in post-menopausal women. Journal of Research in Pharmacy Practice. v. 2, n. 2, p 64-69, 2013. BACCARO, L.F. et al. Propedêutica mínima no climaté- rio. Femina, v. 50, p. 263, 2022. CARBONEL, A.A.F. et al. Isoflavones in gynecology. Revista Da Associação Médica Brasileira, v. 64, n. 6, p. 560–564, 2018. FILHO, A.X.F. et al. Manual de Ginecologia da Socie- dade de Ginecologia e Obstetrícia de Brasília. Editor: Edi- tora Luan Comunicação. Brasília; 2017. p.109-137. HAO, S.M. et al. The effect of diet and exercise on cli- macteric symptomatology. Asia Pac J Clin Nutr, v. 31, p. 362-370, 2022. INNES, K.E. et al. Mind-body therapies for menopausal symptoms: a systematic review. Maturitas. v. 66 (2), p. 135-149, 2010. PARDINI, D. Terapia de reposição hormonal na meno- pausa. Arq Bras Endocrinol Metab., v. 2, p. 172-180, 2014. SELBAC, M.T. et al. Mudanças comportamentais e fisi- ológicas determinadas pelo ciclo biológico feminino – cli- matério à menopausa. Aletheia, v. 51, no 1-2, 2018. WANNMAHER, L. & LUBIANCA, J.N. Terapia de re- posição hormonal na menopausa: evidências atuais. Pro- jeto de Medicamentos e Tecnologias, v. 1, p.1-5, 2004. HOFFMAN, et al. editor. AMGH Editora Ltda. Gineco- logia de Williams. New York: The McGraw-Hill Global EducationHoldings; 2014. INCA - Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero. Rio de Janeiro; 2016. MS - Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. edi- tor. Editora do Ministério da Saúde. Manual de Atenção à Mulher no Climatério / Menopausa. Brasília; 2008. FEBRASGO. Urbanetz AA. Ginecologia e obstetrícia Fe- brasgo para o médico residente. São Paulo: Manole; 2016. FEBRASGO. Climatério: conceitos, etiopatogenia, endo- crinologia e epidemiologia, 2010. Disponível em: <https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4236559/mod _page/content/3/Climaterio.pdf >. Acesso em 20 Abr. 2023. UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora. Menopausa e climatério, 2009. Disponível em: < https://drive.goo- gle.com/file/d/1f_THtynY_tp3Gl8_PjZ5suevu8Lc5ORJ/ view >. Acesso em 15 Abr. 2022. 123 | P á g i n a Palavras Chave: Planejamento familiar; Contracepção; Reprodução. Capítulo 14 GIOVANNA MARTINS OLIVEIRA MAGALHÃES¹ GIULIA MESSIAS CADAVAL PESSOA¹ ISABELLA SOUZA ASSUNÇÃO¹ THAÍS VIANA DE ÁVILA OLIVEIRA¹ 1. Docente – Acadêmica do curso de Medicina da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais PLANEJAMENTO FAMILIAR 124 | P á g i n a INTRODUÇÃO A Organização Mundial de Saúde define planejamento familiar como uma possibilidade de escolha do número desejado de filhos, do momento em que o casal deseja tê-los e do es- paçamento entre as gestações, através do uso de métodos contraceptivos (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2012). Desde que os direitos reprodutivos foram in- cluídos como Direitos Humanos na Conferência Internacional dos Direitos Humanos em Teerã em 1968, o planejamento familiar vem sendo amplamente discutido no mundo todo como uma forma de garantir às mulheres e seus par- ceiros a decisão sobre sua vida reprodutiva (FERNANDES & DE SÁ, 2019) No Brasil, o planejamento familiar ganhou notoriedade quando, em 12 de janeiro de 1996, foi aprovado a lei n° 9263 que declarou o planejamento fami- liar como direito de todo cidadão, além de esta- belecer que o Sistema Único de Saúde (SUS), em todos os seus níveis, deve garantir à mulher, ao homem ou ao casal, assistência à concepção e contracepção. (BRASIL, 1996) Essa medida foi um passo fundamental na democratização ao acesso aos meios de contra- cepção nos serviços públicos de saúde, que de- vem fornecer todos os métodos anticoncepcio- nais recomendados pelo Ministério da Saúde (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2002). Neste sen- tido, o Planejamento Familiar deve ser tratado dentro do contexto dos direitos reprodutivos, tendo, portanto, como principal objetivo garan- tir às mulheres e aos homens o direito básico de ter ou não filhos/as e o momento em que deseja tê-los, garantindo uma maternidade e paterni- dade responsáveis, além de promoção da saúde sexual e reprodutiva. Para o exercício pleno do direito ao planeja- mento familiar, é necessário cuidado e avaliação criteriosa dos profissionais de saúde para que se indique o melhor método para cada paciente, de forma que não coloque em risco a saúde ou a vida de quem deseja iniciar a contracepção. Para isso, a Organização Mundial de Saúde desen- volveu os critérios de elegibilidade médica para a seleção de métodos contraceptivos, que levam em consideração condições clínicas específicas dos pacientes, como por exemplo idade, taba- gismo, obesidade, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, doenças neurológicas, distúr- bios depressivos, entre outros (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2015). Os crité- rios são divididos em quatro categorias, descri- tos na Tabela 14.1 Tabela 14.1 Critérios médicos de elegibilidade para o uso de métodos anticoncepcionais Categoria Com critério clínico Com critério clínico limitado 1 Não há nenhuma contraindicação ao uso desse método contraceptivo. Sim (use o método) 2 Os benefícios do uso do método contraceptivo superam os possíveis riscos relacionados à saúde Sim (use o método) 3 Os possíveis riscos superam os benefícios do uso do método contraceptivo Não (não use o método) 4 O uso do método contraceptivo é contraindicado devido ao alto risco para a saúde Não (não use o método) Fonte: World Health Organization, 2015. 125 | P á g i n a Métodos comportamentais Os métodos comportamentais são técnicas de contracepção que se baseiam na identificação do período fértil da mulher, que pode ser identi- ficado através de sinais e sintomas que ocorrem no organismo feminino durante esta fase do ci- clo menstrual. Durante esse período os casais se abstêm das relações sexuais ou praticam coito interrompido, a fim de diminuir a chance de uma gravidez indesejada (FERNANDES & DE SÁ, 2019). Como todo método anticoncepcional, os métodos comportamentais apresentam uma taxa de falha que depende de seu uso correto e con- sistente, sendo que, no primeiro ano de uso, a taxa de falha atinge mais de 20%, em seu uso habitual, comparado a 0,5 a 0,9% entre usuários adaptados ao método (uso correto). As limita- ções estão relacionadas à necessidade de absti- nência sexual periódica, o que é evidenciado pe- las taxas de falha relativamente altas com uso típico. Além disso, doenças, sono interrompido e uso de medicamentos podem alterar ou inter- ferir na observação e interpretação de alguns marcadores biológicos. Os métodos comporta- mentais são opções alternativas de planeja- mento familiar para as pacientes, que, motiva- das por uma opção religiosa, sociocultural ou fi- losófica, se interessam por um método mais “na- tural” de anticoncepção, independentemente das maiores taxas de falhas em relação aos métodos atuais, reversíveis, disponíveis no mercado (FERNANDES & DE SÁ, 2019). Temperatura basal Na primeira fase do ciclo menstrual (fase fo- licular), a temperatura corporal é mais baixa e permanece constante. Já na segunda fase (fase lútea), ocorre um aumento de pelo menos 0,2 ºC, decorrente da ação da progesterona na termorre- gulação. Esse método se baseia nessa leve alte- ração da temperatura basal durante o ciclo (FERNANDES & DE SÁ, 2019) A mulher que desejar utilizar o método da temperatura basal deve: Utilizar sempre o mesmo termômetro e a mesma via de mensuração Suspender as relações sexuais desprote- gidas a partir do 1º dia do ciclo Medir sua temperatura diariamente pela manhã, após o primeiro dia do ciclo, sempre no mesmo horário, antes de alimentar ou fazer qualquer atividade Após o aumento, de no mínimo 0,2 ºC por três dias consecutivos, o casal pode retomar as relações sexuais desprotegidas até o início da próxima menstruação. (O 3º dia consecutivo de aumento da temperatura marca o dia da ovula- ção e o fim do período fértil) (FEBRASGO, 2019; ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SA- ÚDE, 2007) Abaixo está representado um gráfico (Fi- gura 14.1) de temperatura basal em uma mulher com o ciclo de 28 dias, sendo que do 1º ao 13º dia representa a fase proliferativa, o 14º dia marca o dia da ovulação, e do 18º ao 28º dia re- presenta a fase lútea, em que a mulher está in- fértil. 126 | P á g i n a Figura 14.1 Curva de temperatura basal em um ciclo de 28 dias Legenda: Eixo Y - temperatura corporal basal em Celsius (ºC) - eixo X - dias do ciclo. Fonte: World Health Organiza- tion, 2007. Ogino-Knaus/Tabelinha Esse método consiste no casal se abster de relações sexuais durante o período fértil da mu- lher, que pode ser calculado através do método estatístico de probabilidade de Ogino-Knaus. Para estabelecer o período de fertilidade a mulher deve registrar o número de dias de cada ciclo menstrual durante pelo menos 6 meses. Tendo isso registrado, deve-se ter o conheci- mento quea ovulação ocorre de 12 a 16 dias an- tes da próxima menstruação, e que o espermato- zoide possui meia-vida de até 48 horas e óvulo de 24 horas. Sendo assim, pode ser usada uma regra prática para estabelecer o período fértil (FERNANDES & DE SÁ, 2019) Para estimar a data de início do período fér- til, deve-se subtrair 18 do número de dias do ci- clo mais curto (16 + 2, pois 16 é o primeiro dia em que pode ocorrer a ovulação e 2 é o tempo que o espermatozoide pode permanecer vivo). E para estimar o último dia do período fértil pode- mos subtrair 11 do número de dias do ciclo mais longo (11 + 1, pois 11 é o último dia em que pode ocorrer a ovulação e 1 é o tempo em que o óvulo permanece viável). Com isso, temos uma estimativa do período fértil da mulher (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2007) Muco cervical/Método de Billings Esse método se baseia nas características do muco cervical. O estímulo crescente do estrogê- nio na primeira fase do ciclo menstrual possui ação no muco cervical, que se torna mais abun- dante, aquoso (semelhante à clara de ovo) e fi- lante, à medida que se aproxima do dia da ovu- lação. A filância pode ser observada na Figura 14.2, quando o muco cervical é colocado entre o dedo polegar e indicador, e esta pode chegar a 10 cm no período ovulatório (BILLINGS & WESTMORE, 1993). Sendo assim, esse método consiste na abs- tenção sexual durante os dias que o muco está mais filante, isto é, elástico. Figura 14.2 Representação do muco cervical durante o ciclo Fonte: Febrasgo: Tratado de Ginecologia, 2019. 127 | P á g i n a Amenorreia lactacional O método contraceptivo da amenorreia lac- tacional se baseia no fato de que o aleitamento materno exclusivo promove alterações na libe- ração hormonal, consequentemente provocando a anovulação. Isso decorre de uma resposta ao estímulo da prolactina sobre o ovário, que inibe a secreção de estrogênio, consequentemente ini- bindo a ovulação e mantendo a amenorreia (ARAÚJO et al., 2020). Esse método possui diversos benefícios como: poder ser usado imediatamente após o parto, não ter custos diretos, não requerer o uso de medicamentos, não ter efeito secundário por hormônios ao binômio materno-fetal e possibi- litar que o casal tenha um tempo para discutir o planejamento após a parada da lactação, além de estimular a amamentação exclusiva. Além disso, todas as nutrizes podem optar pelo mé- todo de forma segura e eficaz, a menos que: os ciclos menstruais tenham retornado, estejam em uso de suplementação regular ou com intervalo grande entre as mamadas, ou que tenha um tempo superior a 6 meses após o parto (FER- NANDES &e DE SÁ, 2019). Sintotérmico Esse método combina os cálculos do calen- dário, do aumento da temperatura basal na fase lútea e do monitoramento do muco cervical, a fim de melhorar a estimativa do início e do fim do período fértil, aumentando a eficácia do mé- todo e diminuindo o tempo de abstinência se- xual. Além disso, as mulheres podem usar ou- tros sinais (consistência e posição do colo do útero) ou sintomas (sensibilidade mamária, dor ovulatória, sangramento de ovulação) para auxi- liar na identificação do período fértil (FER- NANDES & DE SÁ, 2019). Métodos de barreira Métodos de barreira são aqueles que consis- tem no bloqueio da passagem dos espermatozoi- des para o útero, de forma a impedir o encontro com o oócito. Os métodos podem ser mecâni- cos, como preservativos masculino, preservati- vos femininos e diafragma; podem ser quími- cos, como o espermicida; e podem ser mistos, como a esponja e o capuz cervical, que são dis- positivos mecânicos aliados a um espermicida. O diafragma, o capuz cervical e a esponja tam- bém são considerados um grupo à parte denomi- nado métodos de barreira cervical, por protege- rem justamente o cérvice (FEBRASGO, 2015). Preservativo masculino O preservativo masculino, popularmente conhecido como camisinha, é uma capa fina, ge- ralmente de látex, colocado na extensão do pê- nis para barrar o esperma no momento da ejacu- lação. Os preservativos, masculinos e femini- nos, são os únicos métodos capazes de proteger contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e, por esse motivo, o seu uso deve ser in- centivado mesmo quando são utilizados outros métodos contraceptivos. Além disso, é impor- tante colocá-lo desde o início da relação sexual e de forma correta (Figura 14.3), para evitar rompimento do material e extravasamento de esperma. Existe uma grande variedade de preservati- vos no mercado. Diferentes tamanhos, texturas, sabores e materiais. A disponibilidade de pre- servativos feitos de borrachas sintéticas como as de nitrilo, poli-isopreno e poliuretano é rele- vante, uma vez que reações alérgicas ao látex são comuns. No SUS, estão disponíveis as ca- misinhas de látex para todos os usuários. 128 | P á g i n a A eficácia do preservativo masculino para prevenção de gravidez varia de 85% a 98%. A taxa de falha é maior quando o método não é usado de forma correta pelos usuários. O uso de lubrificantes vaginais também pode ajudar a evitar rupturas no preservativo. Não é recomen- dado o uso de dois preservativos simultanea- mente (FERNANDES & DE SÁ, 2019). Figura 14.3 Como colocar a camisinha corretamente. Preservativo feminino O preservativo feminino é um dispositivo cilíndrico maleável, que reveste o canal vaginal no momento da relação sexual, prevenindo ISTs e gravidez. Ele possui uma das extremidades fe- chada e fixa ao cérvice por um anel e a outra aberta e encaixada na vulva por um segundo anel (Figura 14.4). Existem poucos modelos disponíveis no mercado, entretanto, são encon- tradas em látex, nitrilo e poliuretano. As cami- sinhas femininas tem duas versões, FC1 e FC2. Os estudos sobre taxa de falha existem apenas na versão anterior (FC1), apontando que a falha é de 12,4% para uso típico e 2,6% para uso per- feito. Todavia, pesquisas que comparam as duas versões do preservativo feminino revelam que a FC2 teve menos relatos de desconforto (CHAP- PELL et al., 2022). Figura 14.4 Forma correta de colocar a camisinha femi- nina. Diafragma O diafragma é um dispositivo reutilizável, feito de silicone ou látex, colocado no fundo do canal vaginal como uma barreira física que im- pede o esperma de chegar ao colo do útero. Existe em diferentes tamanhos (55 a 105 mm de diâmetro), o que o torna acessível para um maior número de mulheres. Ao ser colocado na posição correta, o diafragma se encaixa atrás do púbis, recobrindo a parede anterior do canal va- ginal e o colo uterino. Deve ser colocado antes da relação sexual e permanecer entre 6 e 30 ho- ras no canal (GALLO et al., 2002). Pode ser usado com espermicida, o que eleva a eficácia para 84% a 94% (FERNANDES & DE SÁ, 2019). Espermicidas Os espermicidas são produtos químicos, ge- ralmente de nonoxynol-9, que promovem a morte ou inativação dos espermatozoides por 129 | P á g i n a meio da dissolução de componentes lipídicos da membrana plasmática. Eles são encontrados na forma de géis, cremes, películas, espumas e su- positórios. A forma mais comum e aceita é o gel. O uso consiste na aplicação do espermicida no fundo do canal vaginal em até trinta minutos an- tes da relação sexual. Frequentemente, o esper- micida é utilizado com outros métodos de bar- reira, o que aumenta a eficácia da contracepção. Usado sozinho, o espermicida gel de nonoxynol-9 150 mg apresentou 86% de eficá- cia na prevenção de gravidez. Os géis com doses menores da mesma substância apresentaram menor eficácia (GRIMES et al., 2013). Segundo a Organização Mundial de Saúde, o uso de es- permicida é contraindicado para mulheres com alto risco de infecção por HIV e para mulheres já infectadas pelo vírus (WHO, 2010). Estudos apontam para o risco de alteração daflora vagi- nal no caso de uso contínuo dos espermicidas, o que pode levar também ao aumento do risco de infecções do trato urinário (SCHOLES, 2000). Esponjas A esponja é um dispositivo macio, feito de poliuretano, que é preenchido com espermicida e colocado no fundo do canal vaginal aderido ao cérvice para prevenir gravidez. É um dispositivo barato e que pode agir por um tempo prolongado de 24 horas sem necessidade de espermicida adicional. A desvantagem está no fato de que a esponja é descartável, o que pode impossibilitar seu uso a longo prazo. Estudos comparando a eficácia da esponja com a do diafragma de- monstram que a primeira tem maior taxa de fa- lha. Para uso típico, a taxa de falha da esponja varia de 16% a 32% e para uso perfeito a varia- ção é de 9% a 20% (KUYOH et al., 2002). Capuz cervical O capuz cervical é um dispositivo de bar- reira que é colocado aderido ao colo do útero anteriormente ao coito (FIGURA 14.5). Ele é menor que o diafragma e pode ficar mais tempo no canal vaginal, até 72 horas. Estudos compa- raram o capuz cervical com o diafragma no que diz respeito à eficácia e concluíram que ambos tiveram resultados similares (GALLO et al., 2002). A taxa de gravidez com esse método va- ria de 9% a 32% (FERNANDES e DE SÁ, 2019). A associação do capuz cervical com es- permicidas pode aumentar sua eficácia. Figura 14.5 Mecanismo de ação do capuz cervical Métodos hormonais Anticoncepcional hormonal combinado Os anticoncepcionais hormonais combina- dos (AHCs) são compostos por fármacos análo- gos aos esteroides sexuais estrógeno e progeste- rona, e atuam no eixo hipotálamo-hipófise-ová- rio. O componente progestagênio é responsável pelos principais efeitos contraceptivos, a partir da inibição do pico do hormônio luteinizante (LH) que precede a ovulação, evitando, assim, que ela ocorra. Outros efeitos esperados são o espessamento do muco cervical e a alteração da motilidade das trompas uterinas, que dificultam a movimentação e o encontro dos gametas, além do efeito antiproliferativo do endométrio, que evita a implantação no caso de uma possível fe- cundação (FERNANDES & DE SÁ, 2019). 130 | P á g i n a Já o estrogênio tem sua ação focada no con- trole e na previsibilidade do sangramento mens- trual, estabilizando o endométrio e reduzindo a ocorrência de episódios de sangramentos de es- cape. Ademais, atua potencializando a eficácia contraceptiva do progestágeno, aumentando o número de receptores de progesterona intracelu- lares (TAYLOR et al., 2019). Outro efeito pro- duzido é a inibição do pico do hormônio folí- culo-estimulante (FSH), evitando a seleção e o crescimento do folículo dominante (FERNAN- DES & DE SÁ, 2019). Esses anticoncepcionais podem ser inicia- dos em qualquer período do ciclo menstrual, desde que não se suspeite de gravidez, e, caso se inicie nos primeiros cinco dias do ciclo, não se faz necessária a utilização de um método de apoio. Porém, caso o início aconteça após os pri- meiros cinco dias, recomenda-se o uso de um método complementar por sete dias (BLUMEN- THAL & EDELMAN, 2008). Os AHCs podem ser classificados de acordo com sua forma de administração: Anticoncepcional oral combinado Representam o método contraceptivo mais comum no mundo. Sua popularidade está asso- ciada ao reduzido índice de falhas que, quando utilizado de maneira correta, é inferior a uma a cada 100 mulheres/ ano. Comumente são apre- sentados em cartelas contendo 28 comprimidos, sendo que 7 desses são inativos e, geralmente, coincidem com o período em que ocorre a mens- truação, de modo que não são necessárias pau- sas entre as cartelas (FEBRASGO, 2015). Anticoncepcional injetável mensal Semelhante ao anticoncepcional oral combi- nado, os injetáveis mensais possuem em sua composição a associação de estrogênio natural e progestágeno, que podem estar presentes em di- ferentes formulações (FEBRASGO, 2015). É um método altamente eficaz, em uso per- feito, os índices de gravidez são inferiores a 1 em cada 100 mulheres por ano, sendo que esse risco aumenta significativamente quando as in- jeções não são retomadas no tempo adequado (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2018). Anel Vaginal (Nuvaring®) Consiste em um anel flexível, de diâmetro variado (54 a 58 mm), composto por silicone, que libera etonogestrel (120 ug/dia) e etiniles- tradiol (15 ug/dia) quando em contato com a va- gina (FERNANDES & DE SÁ, 2019). Deve ser inserido na vagina e mantido por de três semanas e, em seguida removido por du- ração de uma semana. Após esse período, um novo anel deve ser inserido (BLUMENTHAL & EDELMAN, 2008) Adesivo transdérmico O adesivo ou ‘patch’ é composto de etini- lestradiol (20 ug/ dia) e norelgestromina (150 ug/dia). É aplicado na superfície da pele uma vez na semana, durante três semanas, seguidas de uma semana livre de hormônio (FERNAN- DES & DE SÁ, 2019). Possui eficácia, contra- indicações e efeitos adversos que os anticoncep- cionais orais combinados, no entanto, são mais cômodos quanto à aplicação, além de não sofrer interferência do metabolismo gastrointestinal (FEBRASGO, 2015). Anticoncepcional hormonal de pro- gestágeno Os anticoncepcionais orais contendo apenas progestágeno são uma importante alternativa para mulheres que apresentam contraindicação ou efeito adverso ao uso de estrogênios, como trombofilia conhecida e trombose venosa pro- funda, lúpus eritematoso sistêmico, presença de múltiplos fatores de risco de doença cardiovas- cular, enxaqueca, puerpério e amamentação (BLUMENTHAL & EDELMAN, 2008) (FER- NANDES & DE SÁ, 2019). Os fármacos que atuam como a progeste- rona apresentam alguns mecanismos de ação 131 | P á g i n a que evitam tanto a fecundação, quanto a nida- ção, como a inibição da ovulação resultante do bloqueio da liberação das gonadotrofinas pela hipófise, o espessamento do muco cervical, a re- dução da motilidade tubária e a inibição da pro- liferação endometrial (FEBRASGO, 2015). Anticoncepcional oral de progestá- geno Também conhecida como ‘minipílula’, es- ses anticoncepcionais contêm pequenas doses de progestágenos, e não possuem estrógenos em sua composição. As pílulas anticoncepcionais de progesterona devem ser tomadas de maneira contínua, sendo um comprimido por dia sem in- tervalo entre as cartelas e, quando utilizadas de maneira adequada, possuem uma eficácia de aproximadamente 99% (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2018). Nos primeiros meses é comum que ocorram sangramentos irregulares, porém a tendência é de que, após alguns meses de uso, sua frequên- cia diminua, evoluindo, muitas vezes, para ame- norreia (FEBRASGO, 2019). Anticoncepcional injetável trimestral Os anticoncepcionais injetáveis trimestrais contêm apenas o fármaco de efeito análogo ao do hormônio progesterona (acetato de medroxi- progesterona), que é liberado na corrente san- guínea progressivamente após a injeção. No Brasil, está disponível na dosagem de 150mg, para administração intramuscular (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2018). Assim como os demais progestagênios, atua principalmente na inibição da ovulação, no es- pessamento do muco cervical e no afinamento do endométrio, possuindo uma elevada eficácia, com taxa de falha entre 0,3 e 3%, que está asso- ciada ao retorno para a aplicação das injeções regularmente (BLUMENTHAL; EDELMAN, 2008). Métodos reversíveis de longa duração Também chamados de LARC, sigla inglesa para Long-acting reversible contraception, os Métodos Contraceptivos de Longa Duração são aqueles capazes de prevenir a gestação por pelo menos 1 ano com uma única administração. Os LARCs incluem implantes hormonais, disposi- tivos intrauterinos (DIU) não hormonais e DIUs hormonais (BAKER & CREININ, 2022). Esses métodos anticoncepcionais são alta- mente eficazes, aproximadamente20 vezes mais eficazes que pílulas, adesivos ou anéis va- ginais (CURTIS & PEIPERT, 2017), e podem ser removidos ou interrompidos a qualquer mo- mento, permitindo que a fertilidade da usuária do método seja restaurada rapidamente. Uma vez que os LARCs não dependem da adesão da usuária após a colocação, os índices de falha de uso ideal e uso real são semelhantes (CURTIS & PEIPERT, 2017). Atualmente, são considerados métodos de primeira opção para adolescentes devido a sua alta eficácia, facili- dade de uso e tempo prolongado (FERNANDES & DE SÁ, 2019). DIU Constituem o método mais comum de con- tracepção reversível utilizado no mundo (FER- NANDES & DE SÁ, 2019). O principal efeito do DIU não é sistêmico, mas sim local, visto que todos esses dispositivos criam uma resposta in- flamatória, como um corpo estranho na cavi- dade endometrial, sendo espermicida e impe- dindo a fertilização (BAKER e CREININ, 2022). Levonorgestrel Os sistemas intrauterinos (SIU) liberadores de levonorgestrel (LNG) são endoceptivos re- versíveis que possuem reservatório de liberação de esteróides coberto por uma membrana limi- tadora de velocidade sobre a haste. Esses DIUs 132 | P á g i n a possuem meia-vida prolongada (5 anos) e são e altamente eficazes (índice de falha em uso ideal de 0,2% e índice de falha em uso real de 0,2%) (FERNANDES & DE SÁ, 2019). A liberação de levonorgestrel gera, princi- palmente, atrofia endometrial, proporcionando pouco efeito sobre o eixo hipotálamo-hipófise- ovariano. Assim, a maioria das mulheres que fa- zem seu uso ovula. Mirena® e Kyleena® são algumas das op- ções de SIU-LNG disponíveis no mercado. Cobre O DIU-Cu é um instrumento não hormonal que age desencadeando reação inflamatória en- dometrial através de seus sais de cobre e polie- tileno e então formando uma “espuma” nociva para os espermatozoides e óvulos, restringindo a capacidade de fertilização desses gametas (FERNANDES & DE SÁ, 2019). A meia-vida desse DIU é de 10 anos e seu índice de falha em uso ideal é de 0,8% e em uso real é de 2% (FERNANDES & DE SÁ, 2019). Contudo, esse tipo de dispositivo está asso- ciado ao aumento da dismenorreia, do volume e da duração do sangramento menstrual, especial- mente nos primeiros ciclos após sua inserção (BAKER & CREININ, 2022), o que pode cau- sar uma variação de posição do DIU, principal- mente nos 3 primeiros meses após a inserção, quando a taxa de expulsão é de 3% a 5% (FER- NANDES & DE SÁ, 2019). Esses efeitos adver- sos decrescem com o tempo. Implante contraceptivo No Brasil, o único implante liberado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (An- visa) é o Implanon, um implante subdérmico, não biodegradável, contendo etonogestrel, que é o metabólito biologicamente ativo do desoges- trel, uma forma sintética da progesterona. Ao implantar esse dispositivo, o etonoges- trel presente no implante se difunde rapida- mente para a circulação sistêmica em concentra- ções que causam supressão da ovulação, por meio do impedimento do aumento do hormônio luteinizante (BAKER & CREININ, 2022). Esse método contraceptivo possui grande eficácia (índice de falha em uso ideal de 0,05% e índice de falha em uso real de 0,05%), duração de 3 anos (FERNANDES & DE SÁ, 2019), sendo discreto e de fácil inserção. No entanto, a insatisfação em relação ao im- plante é um dos principais motivos para a taxa de descontinuação desse método ser de 44%. Aproximadamente metade dos usuários citaram o sangramento intermenstrual como o motivo de sua remoção (BAKER & CREININ, 2022). Métodos cirúrgicos Segundo a Lei 14.443, de 2 de setembro de 2022, alterando o texto anterior de 1996 sobre métodos e técnicas contraceptivas, a esteriliza- ção voluntária é permitida em homens e mulhe- res maiores de 21 anos de idade ou, pelo menos, com 2 filhos vivos, desde que observado o prazo mínimo de 60 dias entre a manifestação da von- tade e o ato cirúrgico além dos casos de risco à vida ou à saúde da mulher ou do futuro con- cepto. A esterilização cirúrgica em mulher du- rante o período de parto será garantida à solici- tante se observados o prazo mínimo de 60 dias entre a manifestação da vontade e o parto e as devidas condições médicas (BRASIL, 2022). Laqueadura tubária A principal função das tubas uterinas é transportar o esperma em direção ao óvulo e permitir que o óvulo fertilizado dirija-se nova- mente para o útero para sua implantação. A la- queadura tubária é um procedimento que pode ser feito por acesso lapatorômico, lapatoscó- 133 | P á g i n a pico, vaginal ou histeroscópico, a fim de inter- romper a permeabilidade tubária e bloquear a passagem dos espermatozoides (SUNG & ABRAMOVITZ, 2019). O índice de falha desse método contracep- tivo é de 0,5%, uma vez que há risco de recana- lização das tubas (FERNANDES & DE SÁ, 2019). Ademais, a laqueadura pode ter benefícios não contraceptivos, como melhora dos padrões de sangramento menstrual e diminuição dos ris- cos de câncer de ovário (SUNG & ABRAMO- VITZ, 2019). Vasectomia Trata-se de um método de esterilização mas- culina definitiva e suas opções incluem cauteri- zação da mucosa ou ligaduras aplicadas nos ductos deferentes; vasectomia aberta com cau- terização da mucosa e interposição fascial sobre a extremidade abdominal e extremidade testicu- lar não ocluída; e o método não divisional com eletrocautério estendido (VELEZ et al., 2021). O índice de falha desse método contracep- tivo é de 0,2%. Posto isso, verifica-se que o pa- ciente deve ser informado de que a vasectomia não é um método com efetividade imediata e que outro método de contracepção deve ser em- pregado até que a confirmação de oclusão ductal seja feita com um espermograma pós-procedi- mento. Ademais, esse procedimento não causa diminuição da libido, mudanças na atividade se- xual ou ereção e nem diminui o volume do eja- culado (FERNANDES & DE SÁ, 2019). Contracepção de emergência A contracepção de emergência (CE) diz res- peito aos métodos utilizados após um intercurso sexual que apresenta risco de gestação à mulher. Esses métodos são fundamentais para assegurar os direitos reprodutivos, visto que são mais uma possibilidade de controlar voluntariamente o número de filhos e seguir um planejamento fa- miliar. Além disso, são um pilar fundamental para a saúde pública, uma vez que a CE, ao evi- tar gestações indesejadas, reduz a ocorrência de abortos e complicações a eles relacionadas. É importante ressaltar que os mecanismos de ação das CEs interferem antes da fecundação, de modo que não podem ser considerados aborti- vos (FEBRASGO, 2015). As situações em que o uso da CE é indicada são relação sexual des- protegida, falha do método contraceptivo, uso incorreto de anticoncepcionais ou em casos de agressões sexuais (OMS). Os três métodos de CE utilizados no Brasil e que serão abordados neste capítulo são: pílulas anticoncepcionais de emergência (PAEs), método de Yuzpe e dispo- sitivos intrauterinos (DIU) de cobre. Pílulas anticoncepcionais de emergência As PAEs, amplamente conhecidas como pí- lula do dia seguinte, são medicamentos orais que devem ser usados dentro do prazo de cinco dias após o intercurso sexual para prevenir a gravidez. A recomendação da OMS inclui a pí- lula de levonorgestrel dose única 1,5 mg ou duas doses 0,75 mg com intervalo de 12h e a pílula de acetato de ulipristal dose única de 30 mg. Es- tudos apontam para uma maior eficácia do ace- tato de ulipristal (98%) comparado com o levo- norgestrel (52 a 94%) (SHEN et al., 2019). A eficácia é maior se o medicamento for tomado o mais rápido possível após a relação sexual. As PAEs têm como mecanismo de ação o impedimento ou atraso da ovulação se tomadas nos primeiros 14 dias do ciclo menstrual. Após esse período, atuam promovendo o espessa-mento do muco cervical e limitando a capaci- dade dos espermatozoides. Não há eficácia para mulheres grávidas e não existem evidências que as PAEs possam gerar efeitos no feto ou efeitos abortivos (FEBRASGO, 2015). Qualquer mu- 134 | P á g i n a lher pode fazer uso das PAEs, mas não é reco- mendado o uso regular devido a diminuição da eficácia e aumento dos efeitos colaterais. Os efeitos colaterais das pílulas de acetato de ulipristal incluem cefaleia, dor abdominal, náusea, dismenorreia, fadiga e tontura. As pílu- las de levonorgestrel incluem os mesmos efeitos colaterais e ainda existem relatos de alterações menstruais e êmese (TUROK, 2023). Método de Yuzpe O método de Yuzpe foi o primeiro método de concepção pós-coital e consiste em tomar duas doses de pílula anticoncepcional oral com- binada contendo 100 mcg de etinilestradiol e 500 mcg de levonorgestrel. As recomendações são que a primeira dose deve ser tomada assim que possível após o intercurso sexual em até 72 horas e a segunda dose 12 horas após a primeira (FEBRASGO, 2015). Segundo estudos, a chance de gravidez utilizando o método de Yuzpe é maior do que a chance de gravidez uti- lizando a PAE de levonorgestrel (SHEN et al.,2019). Dispositivos Intrauterinos de Cobre O DIU de cobre é um método reversível de longa duração que, quando inserido em até cinco dias após a relação sexual, pode atuar como contracepção de emergência. Seu meca- nismo de ação é a alteração química do esperma e do óvulo, impedindo a fecundação (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2022). Atual- mente é a forma de CE com maior eficácia e é a única que promove contracepção contínua de- pois de inserido (RAMANADHAN et al., 2023). Os efeitos colaterais são os mesmos de quando usado como método reversível de longa duração. Comparado com as PAEs, o DIU de cobre parece estar associado com um maior risco de dor abdominal (SHEN et al., 2019). 135 | P á g i n a REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Políticas de Saúde. Área Técnica de Saúde da Mulher . Assistência em planejamento familiar: manual técnico. 4. Ed. Brasília: Ministério da Saúde, p. 60, 2002. BAKER, C.C. & CREININ, M.D. Long-acting reversible contraception. Obstetrics & Gynecology, v. 140, n. 5, p. 883-897, 2022. BLUMENTHAL, P.D. & EDELMAN, A. Hormonal Contraception. Obstetrics & Gynecology, v. 112, n. 3, p. 670–684, set. 2008 CHAPPELL, B.T. et al. Mechanisms of action of curren- tly available woman-controlled, vaginally administered, non-hormonal contraceptive products. Ther Adv Reprod Health. 2022 CURTIS, K.M. & PEIPERT, J.F. Long-acting reversible contraception. New England Journal of Medicine, v. 376, n. 5, p. 461-468, 2017. DE ARAÚJO, A.S. et al. Revisão Integrativa: amenorreia lactacional como método contraceptivo para puérperas. Saúde em Redes, v. 8, n. sup1, p. 207-219, 2022. GALLO, M.F. et al. Cervical cap versus diaphragm for contraception. Cochrane Database of Systematic Reviews 2002, Issue 4. Art. No.: CD003551. DOI: 10.1002/14651858.CD003551. Acesso em: 22 abr 2023. GRIMES, D.A. et al. Spermicide used alone for contra- ception. Cochrane Database of Systematic Reviews 2013, Issue 12. Art. No.: CD005218. DOI: 10.1002/14651858.CD005218.pub4. Acesso em: 22 abr 2023. KUYOH, M.A. et al. Sponge versus diaphragm for con- traception. Cochrane Database of Systematic Reviews 2002, Issue 3. Art. No.: CD003172. DOI: 10.1002/14651858.CD003172. Acesso em: 22 mai 2023. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Departa- mento de saúde reprodutiva. Planejamento familiar: Um manual global para profissionais e serviços de saúde. [S. l.], 2007. Disponível em: https://apps.who.int/iris/bitstream/han- dle/10665/44028/9780978856304_por.pdf?sequence=6. Acesso em: 26 abr. 2023. RAMANADHAN, S. et al. Progestin intrauterine devices versus copper intrauterine devices for emergency contra- ception. Cochrane Database of Systematic Reviews 2023, Issue 2. Art. No.: CD013744. DOI: 10.1002/ 14651858.CD013744.pub2. Acesso em: 22 abr 2023. SHEN, J. et al. Interventions for emergency contracep- tion. Cochrane Database of Systematic Reviews 2019, Is- sue 1. Art. No.: CD001324. DOI: 10.1002/146518 58.CD001324.pub6. Accessed 22 April 2023. Acesso em: 22 abr 2023. TUROK, D. Emergency contraception. UpToDate, Wal- tham, MA, 2023. Disponível em: https://www.upto- date.com/contents/emergency-contraception#. Acesso em: 22 abr. 2023. VELEZ, D. et al. Vasectomy: a guidelines-based appro- ach to male surgical contraception. Fertility and Sterility, v. 115, n. 6, p. 1365-1368, 2021. WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO medical eligibility criteria wheel for contraceptive use. 2015. WORLD HEALTH ORGANIZATION. REPRODUC- TIVE HEALTH. Medical eligibility criteria for contra- ceptive use. World Health Organization, 2010. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Planejamento Familiar: Um Manual Global para Profissionais e Servi- ços de Saúde Critérios Médicos de Elegibilidade para Uso Métodos Anticoncepcionais. [s.l: s.n.]. Disponível em: <https://www.saudedireta.com.br/docsupload/13403751 31Portuguese-AppendixD.pdf>. Acesso em: 24 abr. 2023. BRASIL. Lei 9.263, de 12 de janeiro de 1996. Regula o § 7º do art. 226 da Constituição Federal, que trata do plane- jamento familiar, estabelece penalidades e dá outras pro- vidências. Diário Oficial da República Federal do Brasil, Brasília, DF; 1996. Disponível em: https://www.pla- nalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9263.htm Acesso em: 19 abr. 2023. BRASIL. Lei n. 14.443, de 2 de setembro de 2022. Altera a Lei nº 9.263, de 12 de janeiro de 1996, para determinar prazo para oferecimento de métodos e técnicas contracep- tivas e disciplinar condições para esterilização no âmbito do planejamento familiar. Diário Oficial da União, Brasí- lia, DF, 5 set. 2022. Disponível em: http://www.pla- nalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2022/Lei/L14443 .htm. Acesso em 21 abr. 2023. BILLINGS, E. & WESTMORE, A. The Billings Method: Controlling fertility without drugs or devices. Gracewing Publishing, 1993. https://www.nescon.medicina.ufmg.br/biblioteca/pesquisa/simples/BRASIL.%20Minist%C3%A9rio%20da%20Sa%C3%BAde.%20Secretaria%20de%20Politicas%20de%20Sa%C3%BAde.%20%C3%81rea%20T%C3%A9cnica%20de%20Sa%C3%BAde%20da%20Mulher/1010 https://www.nescon.medicina.ufmg.br/biblioteca/pesquisa/simples/BRASIL.%20Minist%C3%A9rio%20da%20Sa%C3%BAde.%20Secretaria%20de%20Politicas%20de%20Sa%C3%BAde.%20%C3%81rea%20T%C3%A9cnica%20de%20Sa%C3%BAde%20da%20Mulher/1010 https://www.nescon.medicina.ufmg.br/biblioteca/pesquisa/simples/BRASIL.%20Minist%C3%A9rio%20da%20Sa%C3%BAde.%20Secretaria%20de%20Politicas%20de%20Sa%C3%BAde.%20%C3%81rea%20T%C3%A9cnica%20de%20Sa%C3%BAde%20da%20Mulher/1010 https://www.nescon.medicina.ufmg.br/biblioteca/pesquisa/simples/BRASIL.%20Minist%C3%A9rio%20da%20Sa%C3%BAde.%20Secretaria%20de%20Politicas%20de%20Sa%C3%BAde.%20%C3%81rea%20T%C3%A9cnica%20de%20Sa%C3%BAde%20da%20Mulher/1010 136 | P á g i n a FERNANDES, C.E. & DE SÁ, M.F.S., eds. Tratado de Ginecologia Febrasgo. 1ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2019. SUNG, S. & ABRAMOVITZ, A. Tubal ligation. 2019. TAYLOR, H.S. et al. E. Speroff’s Clinical Gynecologic Endocrinology and Infertility. Philadelphia: Wolters Klu- wer, 2019. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Family Plan- ning: A Global Handbook for Providers 2022. 4th ed. Bal- timore: Jhpiego, 2022. 137 | P á g i n a Palavras Chave: Câncer de mama; Rastreio; Estado nutricional. Capítulo 15 BRENDA MIRELLY JASTROW1 MARIA EDUARDA PIFFER DE ALMEIDA1 ALANA SANTA ROSA SANTOS1 ALICE FREITAS1 1. Discente - Faculdade Multivix. MASTOLOGIA 138 | P á g i n a INTRODUÇÃO O câncer de mama é uma enfermidade que consiste na multiplicação desordenada de célu- las anormais da mama,