Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

Copyright© 2018 by Literare Books International.
Presidente:
Mauricio Sita
Capa:
Riven Melito
Andre Caliman
Bruna Pirolo Assad
Diagramação e Ebook:
Nathalia Parente
Revisão:
Bárbara Cabral Parente
Gerente de Projetos:
Gleide Santos
Diretora de Operações:
Alessandra Ksenhuck
Diretora Executiva:
Julyana Rosa
Relacionamento com o cliente:
Claudia Pires
 
Formatação e qualidade exclusivas do canal Ebooks Demais
 
https://t.me/ebooksdemais
Literare Books
Rua Antônio Augusto Covello, 472 – Vila Mariana – São Paulo, SP.
CEP 01550-060
Fone/fax: (0**11) 2659-0968
site: www.literarebooks.com.br
e-mail: contato@literarebooks.com.br
Agradecimentos Especiais
Ao meu pai, Coronel Artigas, maior gigante que conheci; diante
dele qualquer Everest se torna pequeno.
A minha mãe, Vera Artigas, a expressão mais pura de força,
coragem, garra e luta pela sobrevivência.
Ao meu marido, Claudio Diogo, grande incentivador que, com
seu amor incondicional, ensinou-me a ser mais paciente e a
acreditar que os relacionamentos podem ser sólidos.
As minhas filhas Thaís e Alice, o amor mais puro e sublime que
pode existir.
Aos meus amigos e mestres que, de coração, sabem a
importância que eles têm na minha vida.
A José Luiz Tejon, sou fã incondicional, mestre e amigo, que me
ajudou a praticar a Inteligência Relacional e a quem com muito
carinho e admiração escolhi para prefaciar este livro.
Às equipes da Tekoare e TNB Studio.
A todos os seres humanos, na plenitude da palavra, que
compartilharam comigo seu amor, ensinaram-me a importância dos
relacionamentos, dedico-lhes, de coração e alma, este livro.
Sumário
Prefácio
Introdução
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Inteligência Interpessoal + Inteligência Intrapessoal
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Conclusões
AVALIANDO SUAS HABILIDADES RELACIONAIS
Apêndice A – Sistema Cerebral – Cérebro Social Relacional
Referências bibliográficas
Prefácio
Uma obra de arte de Ana Artigas: Inteligência Relacional
Ana registra numa passagem deste livro o que gostaria que
fosse escrito na sua lápide, eu diria, o que ficaria eternizado com
sua alma nesta jornada terrena: “aqui jaz uma mulher que deixou o
seu legado e fez as pessoas acreditarem que podem se tornar seres
humanos melhores, mais inteligentes e mais felizes, na forma como
se relacionam, escolhendo melhor com quem dividir a sua
existência”.
Antes de comentar este livro sensacional, que ilustra
pedagogicamente seus conceitos, um livro sério, profundo e ao
mesmo tempo humano e comovente, preciso deixar aqui meu
depoimento sobre essas respostas que Ana nos instiga a respeito
de: “ como você quer atrair as pessoas e ser visto por elas?” e “qual
é a imagem e o legado que você deseja deixar aos outros?”
Ana alterou e mudou a minha vida. Além da competência da
inteligência relacional, sou uma testemunha viva da força desse ato,
e, claro, acrescento, para agirmos no tom ascensional da
inteligência relacional, a capacidade de amar, e a generosidade de
saber dar e doar é um ingrediente sine qua non.
Estava eu, como diretor executivo de uma das empresas do
Grupo do jornal O Estado de São Paulo, “O Estadão”. Conheci a
Ana, quando ela já realizava um trabalho de vanguarda na área
humana ao lado da Caliper, empresa americana sediada em
Princeton, Estados Unidos.
Certo dia, ela me liga e pede para que eu receba um dos
pesquisadores dessa organização exemplar no mundo do
comportamento humano, o escritor Patrick Sweeney. Ele, ao lado de
Herb Greenberg, fundador e criador do sistema de avaliação
Caliper, outro ser humano com uma historia incrível de vida e de
superação. Eles estavam preparando o lançamento mundial, de um
novo livro chamado: “Succeed on your own terms”, traduzido e
lançado no Brasil como: “O Sucesso tem Fórmula?”. Esse encontro
promovido pela Ana, teve o condão de transformar minha vida.
Descobri, graças à Ana, angulações de mim mesmo que, se não
fosse a sua presença cruzando a minha própria vida, eu não teria
descoberto. Com isso pude também estabelecer uma linda amizade
com o Maestro João Carlos Martins, da mesma forma entrevistado
nessa obra, e isso estará para sempre registrado naquele livro de
Patrick & Greenberg . Obrigado, Ana, o seu legado vive em mim.
Mudanças e adaptações fazem parte da vida, diz Ana. A sua
própria estória de vida desde a infância, registra muitas mudanças.
Cidades, amizades, escolas novas. Neste livro Ana busca marcos
históricos e fundamentos teóricos de alta relevância. Traz logo na
abertura uma pesquisa fantástica e única, com pessoas ao longo de
muitos anos, onde a busca era descobrir o que, depois de anos, os
seres humanos atribuíam como o máximo e o melhor de uma vida.
Aí partimos para o desenrolar de toda a contribuição deste livro. O
que este estudo revela não aponta para a riqueza, nem para a fama,
o sucesso termina sendo o que você vai ler neste livro, o que nos
faz verdadeiramente felizes e saudáveis.
Ao contrário de muitos livros superficiais, este livro me
impressionou pela qualidade técnica. Abre portais sérios para
ótimas imersões dos leitores. A reunião das distintas inteligências é
exemplar: musical, linguística, lógica matemática, espacial, corporal,
interpessoal, intrapessoal, naturalista, existencial e a inteligência
espiritual. Ao ler cada uma delas fui compreendendo como seria
importante, por exemplo, na educação de nossos filhos, cuidarmos
do desenvolvimento de cada uma dessas inteligências, ou seja, a
leitura deste livro não serve apenas para professores, estudantes,
executivos, líderes, ou outros profissionais, mas serve para mães,
pais e educadores, e lógico, para uma autopedagogia, uma
autossuperação. Ao conhecer melhor cada uma dessas 10
inteligências identifiquei o quanto precisei sofrer para aprender, a
muito custo, algumas delas. Sem dúvida, este livro será também de
grande valia para todos os nossos jovens, adolescentes, que podem
se preparar muito melhor para os desafios nas escolas, faculdades,
e nos primeiros passos nos estágios e na iniciação corporativa.
Ainda espetacular nesta obra são as noções da neurociência,
como neurônio-espelho, e as substâncias químicas indutoras e seus
efeitos no cérebro, como a dopamina, a testosterona e a serotonina.
Esse saber é de singular importância na arte de liderar, por
exemplo. E na área do autoconhecimento de forma inigualável.
O livro apresenta guias práticos, muito simples de serem
absorvidos. Por exemplo, quando Ana traça quadros relacionais
entre pessoas com baixa inteligência relacional versus com alta
inteligência relacional. Ao ler essa passagem, será impossível você
não identificar amigos, pessoas, colegas, com notas distintas dentro
desses quadros, acima disso, irá se enxergar ali também.
A arte da vida será sempre a arte das escolhas, e precisamos
gostar, amar o fundamento de aprender a aprender. Seres que vão
ao futuro são aqueles que aprendem a aprender em altíssima
velocidade. No meu último livro: “Guerreiros não nascem prontos”,
trato intensamente desse fundamento, e nos meus estudos,
amparado também por pensadores eternos como Victor Frankl,
criador da logoterapia, aprendemos que nos transformamos na
qualidade dos seres humanos, os quais, admiramos e que recebe a
nossa autoridade para nos influenciar.
Sem dúvida, ao estudarmos a vida de todas as pessoas as quais
consideramos admiráveis, iremos ver ali um talento superante
essencial: competência de saber ser amado, ser amável. Esse dom
acessa poderosamente a arte das artes, a Inteligência Relacional.
Ana, continua nesta obra, preocupada em oferecer meios
pragmáticos para os leitores assimilarem esses saberes. Então criou
seis passos para esta prática: CLASSE - Consciência, Liberdade,
Atração, Segurança, Sabedoria e Empatia.
Adorei a fórmula C.L.A.S.S.E, até porque a polidez costuma ser
a primeira de todas as virtudes. Ana registra a expressão de “Coco
Chanel: não é a aparência, é a essência. Não é o dinheiro é a
educação. Não é a roupa é a classe”.De novo, nestes capítulos, dicas simples operacionais e
essenciais estão à disposição do leitor, desde saber dizer bom dia,
boa tarde, boa noite, muito obrigado e por favor; até aspectos
evolutivos do auto conhecimento profundo de cada um de nós.
Adorei quando Ana trata também dos vampiros emocionais. Se, sem
dúvida, a arte relacional é segredo importantíssimo numa carreira e
na vida, saber colocar os vampiros emocionais fora da possibilidade
parasitária ou predadora da nossa vida, é, da mesma forma,
excelente opção. No capítulo da empatia, Ana também nos ajuda na
relação de casais e nos relembra a Gestalt terapia, a realidade do
aqui e agora. A importância da individualidade, e de que relações
saudáveis são complementares.
Perguntaram-me sobre isso um dia, e criei uma figura de
imagem assim: “um casal que se ama é como duas linhas paralelas,
que se encontrarão um dia, no infinito”. Quero dizer, são indivíduos,
paralelos, mas não se colam, destinos próprios, paralelos, mas cada
um, cada um....e um dia, nos encontramos no infinito, assim como
todas as linhas paralelas.
Amor e sexo estão aqui também e nas conclusões à
convergência de toda a proposta da autora Ana Artigas: “ bons
relacionamentos nos mantêm felizes e saudáveis”.
Os vampiros emocionais são comparados aos nossos anjos. As
relações tóxicas versus as saudáveis, e, ao término, estamos
abertos para continuar a exploração dessa inteligência relacional.
“Cada um de nós faz o seu hoje, consequentemente o seu amanhã,
e juntos fazemos os nossos – os amanhãs que queremos.” Assim:
Ana encerra. E ao ter o privilégio de ter acesso a este livro, e ao
prefaciá-lo, só posso acrescentar mais uma vez :
Muito obrigado Ana, já incorporei novos saberes e
procedimentos de imensa utilidade na minha vida com este livro.
Afinal, aprender a aprender é tudo, e, escolher com quem devemos
aprender a ignição positiva de todo esse processo. Escolho você
Ana, pois um dia você me escolheu. Não somos mais os mesmos,
eu sei, a lei de causa e efeito continua sendo uma lei da mais plena
sabedoria. Sua obra, a inteligência relacional, agrega um valor
evolutivo humano de inestimável valor. Seus leitores todos ganham
agora um imenso presente. Este livro, neste presente, aqui e agora.
Gratidão ao momento presente.
Boa leitura.
José Luiz Tejon
Autor e coautor de 33 livros e o Último best seller – “Guerreiros
não nascem prontos”. Mestre em Arte e Cultura pela Universidade
Mackenzie, doutorando em Ciências da Educação com a tese: “A
pedagogia da superação”. Professor de Pós-graduação na França e
ESPM, palestrante Top of Mind – Prêmio Estadão RH.
Introdução
Como tudo na vida começa com uma estória, e somos exímios
em contá-las por trazerem conteúdos originais, inesquecíveis e
muitas vezes emocionantes, vou contar uma fase importante da
minha infância para vocês.
Sou filha de militar, e, como é natural nesta carreira, as
mudanças de patente nas forças militares envolvem a troca de
quartéis e cidades. Da quinta série à conclusão do ensino médio,
passei por três grandes mudanças.
A primeira delas certamente foi a mais traumática. Tinha
estudado da pré-escola ao quinto ano no mesmo colégio de freiras,
com a mesma turminha de meninas, já que nesta época os meninos
eram “proibidos” de entrar na escola. Só nos assistiam do lado de
fora do muro pelas brechas dos portões que davam vista ao grande
pátio.
Conhecia as meninas da sala desde muito pequenas, e
consequentemente seus irmãos e pais, como se fôssemos todos
uma única e grande família.
Embora as freiras fossem bem duronas, também eram parte
integrante da nossa vida e aprendemos a respeitá-las como
ninguém. Irmã Giselda era a diretora, a mais temida e com quem
precisávamos “conversar” sempre que aprontávamos alguma coisa.
Não tenha dúvida de que eu era chamada semanalmente a sua
sala.
Com suas sobrancelhas grossas encrustadas em seu rosto fino e
branquelo, ela dizia: “Dona Bijú (este era meu carinhoso apelido de
infância), você por aqui de novo”?
Nunca entendi como não fui expulsa; acho que minhas bagunças
eram razoáveis, e tenho a impressão de que o fato da minha avó ter
sido professora e minha mãe e tias terem estudado no mesmo
colégio por anos, amenizava a repreensão.
Assim cresci. Apesar das broncas, protegida e cercada de
cuidados.
Ainda na primeira série perdi minha irmã. Eu tinha seis anos, e
ela quase oito, quando faleceu. Foram poucos meses da descoberta
ao dia fatídico da sua morte, mas um sofrimento extremo para toda
família, já que o câncer tomou conta de seu cérebro rapidamente.
Logo depois que a perdemos, tia Sandra – naquela época era
permitido chamar a professora de tia – ministrava algumas aulas
comigo no colo, pois de uma hora para outra eu começava a chorar.
Como sempre fui muito pequena, ela conseguia dar a aula e andar
comigo no colo, pela sala.
Imagine então a minha reação quando meus pais me contaram
que nós iríamos mudar de cidade.
Como assim?
Aquele colégio era a minha vida. Tinha ali minhas melhores
amigas, meu suporte, minhas tias queridas e as broncas da madre
superiora!
Como poderia viver sem aquilo? Além de tudo, eu era a
bagunceira da escola. A representante de turma que inventava e
contava longas estórias sobre o fantasma do bebê que morava no
porão do teatro, já que lá tinha sido enterrado. Sobre a esfirra de
carne que eu jurava que vinha com tatu de nariz. Quase quebrei a
cantina, e a madre superiora quase me quebrou também.
Ter que deixar tudo isso? Meu mundo caiu. De novo, eu chorava
em desespero. Mais uma grande perda!
Meus pais foram firmes. É assim e pronto. Esse era o trabalho
do meu pai, o sustento da casa e não podíamos viver sem isso. Ele
tinha que assumir o comando do corpo de bombeiros em uma
cidade do interior. Então, lá fomos nós morar em Paranaguá, um
município localizado no litoral do estado do Paraná.
Quando pensava em reclamar, meu pai me dizia: “Ana, você tem
certeza de que isso é realmente um problema? Você se lembra da
doença da sua irmã e da perda que tivemos? Pois bem, essas
pessoas vão continuar aqui e você vai poder vê-las de novo sempre
que quiser. Então, isso não é um problema. Mudanças e adaptações
fazem parte da vida.”
No começo, tive bastante dificuldade para digerir a mudança.
Para mim, era sim um problema e daqueles enormes, bem maior do
que eu, a pequena Bijú, conseguia aguentar. Aliás, esse apelido fora
dado pela minha professora da pré-escola porque eu era muito
pequena, a menor da turma, então, ela me chamava de Bijuzinha, e
o apelido pegou.
Lá fomos nós. Cidade nova, casa nova, colégio novo, amigos
novos. Sim, e dessa vez havia meninos na minha nova escola.
Mil perguntas rondavam a minha cabeça. Como seria a nova
escola? Será que as pessoas seriam legais? Com quem será que
eu teria que conversar quando fosse mandada para a diretoria?
Porque eu sabia que mais cedo ou mais tarde eu certamente iria.
Enfim, tive que enfrentar os primeiros desafios de como fazer
novos relacionamentos e conquistar as pessoas. Eu já não lembrava
como tinha feito os meus. Eles tinham crescido comigo. Eu tinha os
amigos na escola e os que brincavam comigo na rua de casa, e eles
eram o máximo!
Na minha cabeça, isso não precisava mudar, eu sentia como se
conhecesse o mundo todo, mas ele chegou. O primeiro dia de aula!
Não conhecia absolutamente ninguém. Aquelas pessoas eram
estranhas e tinham um sotaque diferente, falavam meio cantadinho,
às vezes eu nem conseguia entender o que diziam.
Os meninos faziam mais bagunça do que eu nos tempos áureos.
Essa foi a parte mais divertida, e eles até que eram bem bonitinhos.
Tive que começar a criar mecanismos para me aproximar,
conhecer as pessoas e fazer amigos. Foi neste momento, com 11
anos de idade, que comecei a entender a importância dos
relacionamentos e que não somos absolutamente nada sem eles.
São a base da nossa sobrevivência em qualquer situação.
Conhecer pessoas seria a minha felicidade ou o meu fracasso
naquele novo lugar. Nos primeiros dias de aula, quando chamavam
meu nome, mesmo que fosse pararesponder à chamada, eu ficava
roxa de vergonha. Não conhecia ninguém e nunca tinha estudado
com meninos.
A duras penas, descobri que saber tratar bem as pessoas e fazer
amigos são o maior dilema que um indivíduo precisa encarar,
principalmente quando chega a um lugar completamente novo.
Poucos meses depois já fazíamos festinhas de garagem todos
os fins de semana. Os meninos levavam refrigerantes e, as
meninas, doce ou salgado. Às vezes, um pacote de chips resolvia.
Aquilo tudo começou a ficar bem divertido e conheci muita gente
legal.
Como na vida nem tudo são flores, meu pai recebeu uma
promoção para assumir o comando em uma cidade maior.
Promoção!
Só na cabeça deles. Para mim, era uma completa desgraça.
Para piorar um pouco mais, a mudança aconteceu no meio do
ano. Os colégios tinham métodos de estudo e matérias diferentes.
Como minhas notas já não estavam aquela maravilha, juntando com
o desafio da mudança, fui para uma quase reprovação. Fiquei de
recuperação em quase todas as matérias.
Meu mundo caiu de novo. Cidade nova, colégio novo, outro
método de ensino e muita gente me observando de canto de olho.
Mudei no meio da oitava série, hoje seria o nono ano. Eu estava
com 14 anos, no auge da adolescência. Além de todos os receios
comuns dessa fase, na qual existe uma imensa necessidade de
sermos aceitos, eu precisava ganhar meu espaço e os grupos já
pareciam formados.
Reconheço que foi preciso muito esforço, observação,
esperteza, análise dos estilos de cada um, até que eu entendesse
como deveria me aproximar das pessoas para conquistar novos
amigos, fazer parte dos times e ser convidada para as festinhas nos
fins de semana.
Uma pena que naquela época não existisse um livro como este.
Seria de um valor inestimável para mim, porque eu realmente tive
que aprender sozinha, por ensaio e erro.
A vida me ensinou muito com essas mudanças. Acabei me
apaixonando por Londrina e foi maravilhoso curtir minha
adolescência em uma cidade que, com o tempo, me acolheu de
forma realmente calorosa. Tive certeza de que podemos nos dar
muito bem ou muito mal dependendo de como fazemos nossas
escolhas, com quem andamos e com quem nos relacionamos.
Compreendi que precisava entender as pessoas e lidar com elas.
Comecei a estudar melhor os conflitos com os quais me deparei
e sempre me questionava:
“Que erros cometi?”
“O que fiz estava correto? Deveria ter agido de outra forma?”
“Que lições posso tirar dessa experiência?”
Foi aí que eu realmente comecei a entender a importância dos
relacionamentos e o impacto que eles causam na vida das pessoas,
porém, só mais tarde a eles batizei de Inteligência Relacional.
Muitas coisas aconteceram depois dessa fase; voltei a morar em
Curitiba para fazer faculdade, me formei em psicologia, casei e tive
duas filhas.
Depois, eu mesma cavei algumas grandes mudanças, quando as
meninas estavam maiores, em que ficamos quase dois anos
morando no exterior. Vou contar melhor essa história no decorrer do
livro.
Hoje sou alucinada por mudanças e desafios, e eles se tornaram
absolutamente necessários para a minha vida.
O que quero registrar aqui é que apesar dessas vivências e da
bagagem de mais de 25 anos como psicóloga, coach e consultora
de executivos, conversei e troquei experiências com muitas pessoas
para conseguir escrever este livro.
Aliás, este livro não foi escrito, ele cresceu como uma criança,
através da observação e do relacionamento com milhares de
pessoas.
Demorei mais do que eu imaginava para escrevê-lo e continuo
achando pesquisas, casos e histórias que ainda precisam ser
contadas, mas se continuasse buscando-as jamais conseguiria
editá-lo, porque os relacionamentos são dinâmicos, constantes e
eternos.
Passei muito tempo observando os modelos de relacionamento à
minha volta e, sempre que tinha oportunidade, conversava com as
pessoas sobre seus sucessos e conflitos.
Fiz uma extensa pesquisa no Brasil e nos EUA. Perguntava e
observava como as pessoas se relacionavam nas empresas, nos
eventos, nos jantares com a família, nas confraternizações, nas
longas conversas com amigos mais próximos, nos breves encontros
nas poltronas de avião, no salão de beleza ou em qualquer situação
que tivesse um pouco de abertura para perguntar e escutar as
pessoas. Notei como elas têm necessidade e gostam de falar sobre
suas relações pessoais.
Essa experiência me deu a certeza de que todos nós precisamos
de ajuda para compreendermos uns aos outros. Comecei a
entender o que as pessoas buscam, o que valorizam em um
relacionamento e a importância e o impacto que isso tem na vida de
cada um de nós.
É muito claro perceber que todas as pessoas têm
relacionamentos fáceis e prazerosos em suas vidas e outros bem
difíceis, e que algumas pessoas são transitórias em nossa vida, no
trabalho ou na vida social e terão um contato superficial conosco.
Certamente sofreremos menos influência delas, e fica mais fácil
administrar as energias ruins ou até mesmo evitá-las.
O problema é quando as pessoas têm um forte vínculo afetivo
conosco e convivem com a gente diariamente. Essas realmente
causam impacto na nossa vida, como filhos, pais, irmãos, amigos,
pares/cônjuges, líderes, colegas de trabalho, clientes e
fornecedores.
Neste livro vou falar sobre como tomar alguns cuidados, fazer
melhores escolhas, aprender a nos blindar de algumas armadilhas e
principalmente nos voltarmos para nós mesmos e entendermos que,
muitas vezes, inconscientemente, nós também sabotamos os
nossos relacionamentos, ou pior, a nossa felicidade. Muitas vezes
precisamos recuar um pouco para enxergar o nosso papel na
relação.
Também vou falar sobre o que geralmente funciona e o que não
funciona em um relacionamento e o que as pessoas gostam de
receber e como querem ser tratadas.
Vou compartilhar histórias e experiências pessoais com vocês.
Situações nas quais tive que me afastar de pessoas que amava
para me reorganizar, me reconstruir e voltar melhor e mais
fortalecida para as minhas relações.
Navego para a segunda grande e motivadora história, também
baseada em histórias reais. Trata-se da pesquisa mais longa já feita
sobre a vida adulta. Imagine se pudéssemos assistir às pessoas
desde sua adolescência até a velhice para ver o que realmente as
mantêm felizes e saudáveis enquanto vivem.
Pois é, fantasticamente alguns pesquisadores engajados fizeram
isso. Desde 1938, acompanham a vida de dois grupos de homens.
O primeiro pesquisador começou o estudo quando estava no
segundo ano da Universidade de Harvard. Pesquisou um grupo de
jovens que fez faculdade durante a Segunda Guerra Mundial, e a
maioria serviu durante a guerra. O segundo grupo que foi
acompanhado era de garotos dos bairros mais pobres de Boston,
que foram escolhidos para o estudo especialmente porque eram as
famílias mais problemáticas e desfavorecidas na Boston da década
de 30.
Robert Waldinger é hoje o diretor desse projeto, intitulado
Harvard Study of Adult Development1. Ele é psiquiatra, psicanalista
e sacerdote zen, além de ser o professor clínico de psiquiatria na
Harvard Medical School. Durante 75 anos, os pesquisadores
acompanham as vidas de 724 homens, ano após ano, perguntando
sobre seus trabalhos, vida doméstica, saúde e agora seguem com
os filhos, para entender como a experiência da infância pôde afetar
a saúde e o bem-estar na meia-idade.
Estudos assim são extremamente raros. Quase todos os projetos
desse tipo se encerram dentro de uma década porque as pessoas
os abandonam, ou o dinheiro para a pesquisa acaba, ou os
pesquisadores morrem e ninguém mais dá continuidade.
O estudo tem por princípio entender o que torna as pessoas
realmente felizes até o final de suas vidas. Muitas pessoas
acreditam que o dinheiro e a fama são os fatores mais importantes
para termos uma vida boa. Como resultado, gastam seu tempo
precioso priorizando coisas e ignorando seus relacionamentos.
Isso prova que precisamos de uma melhor compreensão do que
“vida boa” parece ser. Quase tudo que sabemos sobre a vida
humana descobrimos ao perguntar para as pessoas do queelas se
lembram do passado, mas as retrospectivas nem sempre são
apuradas. Esquecemos a maior parte do que nos acontece na vida,
e às vezes a memória é criativa, assim imaginamos uma parte do
que pensamos que lembramos.
Aproximadamente 60 dos 724 homens que participaram dos
estudos ainda estão vivos, a maioria deles na casa dos 90 anos.
Tornaram-se operários, advogados, pedreiros e médicos. Um deles
tornou-se presidente dos Estados Unidos, alguns desenvolveram
alcoolismo, uns poucos sofreram de esquizofrenia. Alguns
ascenderam socialmente do fundo até o topo e outros fizeram a
jornada na direção oposta. Os fundadores desse estudo, nem nos
seus sonhos mais loucos imaginariam que depois de 75 anos ainda
estaríamos aqui, contando que ele continua. A cada dois anos, a
equipe dedicada contata seus voluntários para saber se podem
enviar-lhes mais um bocado de perguntas sobre suas vidas.
Além das perguntas, eles também os entrevistam em suas salas
de estar. Pegam informações com seus médicos, tiram sangue,
escaneiam seus cérebros, falam com seus filhos e filmam conversas
com suas esposas sobre suas maiores preocupações. Afinal, o que
aprenderam até agora? Quais são as lições extraídas das dezenas
de milhares de páginas de informação geradas sobre essas vidas?
As lições não são sobre riqueza, fama ou trabalho em excesso.
A mensagem mais clara que tiramos desse estudo de 75 anos é
esta:
Bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis.
Ponto final.
Aprendi três grandes lições sobre relacionamentos neste estudo
e você poderá saber quais são no final deste livro.
Quero agradecer desde já a todas as pessoas que convivem e
conviveram comigo e que certamente me deram excelentes
contribuições. Se você teve algum contato ou já conversou comigo
em alguma situação, tenha certeza de que contribuiu para este livro
existir. Suas histórias, com todo o cuidado ético e de privacidade,
ajudaram a iluminar esta obra, e se está tendo um primeiro contato
comigo, agora, tenha certeza de que suas estórias poderão ser
retratadas nos próximos livros.
Torna-se absolutamente necessário avaliarmos a relevância dos
relacionamentos na nossa vida e a forma como aceitamos e
influenciamos as pessoas.
Vale lembrar que um dos maiores best-sellers no assunto, o livro
de Dale Carnegie, intitulado Como fazer amigos e influenciar
pessoas, foi escrito em 1930, e que o autor faleceu em 1955. Ele foi
um mestre no assunto, mas não é possível que não tenha nada
novo depois de todos esses anos, principalmente com a invenção
da internet. Sabemos que a forma de se relacionar mudou
completamente. Ele não tinha site, nem nunca navegou pelas
mídias sociais. Hoje acontecem coisas que Dale Carnegie se
contorceria no caixão caso soubesse.
Não é à toa que as mídias e redes sociais como Twitter,
Facebook, Linkedin, Periscope, Snapchat, WhatsApp, Viber e outras
ferramentas conhecidas no mercado fazem tanto sucesso e tornam-
se febre em tão pouco tempo. Porque ninguém vive sem
informações sobre os outros. Temos necessidade de saber como as
pessoas são, como vivem, como aprendem, como superam
obstáculos e dificuldades.
Além disso, nossa atual geração tem sede por informação. Feliz
ou infelizmente, não sabemos mais viver sem isso, e acaba sendo
confortador quando identificamos problemas parecidos com os
nossos; é como se imediatamente nosso coração nos dissesse:
“Calma, isso não acontece só com você!”
Se de fato fomos programados a nos conectar, precisamos
desenvolver e aprimorar a nossa INTELIGÊNCIA RELACIONAL.
Nossos gestos e comportamentos podem ser melhorados a cada
dia para que possamos desenvolver mais aptidão e talento na forma
como tratamos as pessoas. Através desse conceito, você vai
aprender a gerenciar seus relacionamentos e entender os caminhos
que podem torná-lo uma pessoa mais inteligente no convívio social,
entendendo melhor como lidar com as pessoas, respeitando as
diferenças e levando-as a pensar como você, persuadindo-as de
forma mais natural e positiva.
Claro que alguns parecem ter mais facilidade e talento para se
relacionar do que outros. Mas o que importa aqui é que essas
aptidões podem desabrochar como botões de talentos, e quanto
mais cedo iniciamos essa prática mais fácil e rápido será para
obtermos sucesso nas nossas relações, pois o conhecimento e a
inteligência são aprendidos e podemos treinar para nos tornarmos
experts nessa área.
A relação entre as pessoas, apesar de prazerosa, é complicada
e um dos assuntos mais comentados no nosso dia a dia. Em
qualquer lugar que frequentamos, as pessoas estão sempre falando
bem ou mal umas das outras, seja nas empresas, nos clubes, nos
cabeleireiros, nos condomínios ou em qualquer outro lugar que você
tenha por hábito frequentar.
Sabemos que as relações que temos com as pessoas nos
impulsionam ou nos destroem. Elas podem nos dar energia e nos
incentivar para o sucesso ou podem nos conduzir à derrota e à
falência emocional, independentemente de ser através de uma
análise de desempenho ou de um bate-papo informal.
O que já sabemos há muito tempo é que 15% do sucesso das
pessoas são devidos ao seu conhecimento profissional, os outros
85% são atribuídos à competência e habilidade de se relacionar.
Isso explica por que precisamos nos relacionar bem com os
outros.
Importante lembrar que as nossas relações não se limitam a
pares românticos, mas a chefe e subordinado, relações de trabalho,
vizinhos, familiares, amigos, professor-aluno ou qualquer outro tipo
de convivência envolvendo pessoas e grupos.
Qual é o propósito dos relacionamentos?
O que ganhamos se aprendermos a nos relacionar de
forma inteligente?
Por que algumas pessoas se “afinam” mais conosco do
que outras? O que existe em cada um de nós que facilita
ou dificulta o convívio?
Envolver mais de um ser humano gera a possibilidade de
grandes emoções. Isso que você verá neste livro, a razão pura dos
relacionamentos. É preciso entender a forma como as pessoas
agem, pensam, decidem, lideram ou se relacionam.
Cada um traz consigo seu estilo, personalidade, perfil, cultura,
vivências e valores próprios, e por isso é tão importante conviver, ou
melhor, viver com outros, para aprendermos com essas diferenças e
com as possíveis trocas que podem acontecer.
Não tenho a intenção de ser a última palavra sobre o assunto,
tampouco a pioneira, é apenas uma aspiração que deve contribuir
de forma evolucionista nos resultados que cada um de vocês pode
obter nos negócios, na forma de aprender e educar, na maneira
como lideram, nas relações com a família, com as pessoas que
convivem e trabalham, enfim, aprimorar as suas relações com as
pessoas, com as suas coisas, com o mundo.
No decorrer dessa história, você certamente se identificará com
alguns exemplos e poderá entender melhor o que acontece em
essência no coração das pessoas, mesmo aquelas que lhe parecem
bizarras ou completamente diferentes de você.
Espero que você se divirta e aprenda a tirar o melhor proveito
das suas relações, de uma forma saudável e positiva.
Você também verá que existem recursos dentro de si, que
muitas vezes deixa de usar. Você pode ser mais otimista quando
está interagindo com as pessoas, e assim vai atrair coisas boas
para si e para os outros.
A inteligência relacional, que também gosto de titular de
educação social, é a habilidade de sabermos enfrentar as situações
do nosso dia a dia, dos encontros e desencontros com as pessoas e
com a vida.
Divirta-se, mande e-mail, mensagem via site ou Facebook e faça
suas sugestões, pois quero contar com você para o próximo livro.
De uma forma ou de outra, quero agradecer por já fazer parte
dos meus relacionamentos e da minha vida.
Afinal, a chance de sermos realmente felizes vem do modo
inteligente pelo qual podemos nos relacionar.
Ana Artigas
1. Estudo dirigido atualmente por Robert Waldinger, intitulado Harvard Study of Adult
Development na Harvard Medical School. Durante 75 anos, os pesquisadores
acompanham as vidas de 724 homens. Fonte: https://goo.gl/dO0bbL Endereço do vídeo do
TED: https://goo.gl/glPTXLCapítulo 1
O que é e de onde vem a
inteligência?
Você já parou para pensar na quantidade de informações que
recebe todos os dias?
Como será que a nossa mente processa essas informações para
que não aconteça um congestionamento de pensamentos,
mensagens, ideias e imagens?
O cérebro precisa de muito vigor para registrar com o mesmo
entusiasmo tanta informação. Mas temos a nosso favor a memória,
e, para nos ajudar ainda mais, ela é seletiva e auxilia a nossa mente
a filtrar o que mais nos interessa. O restante das informações a
gente não descarta, mas joga em alguma “pasta” que fica guardada
no fundo da nossa cabeça.
A memória seletiva protege a nossa mente contra esse turbilhão
de informações vindo da internet, do smartphone, da televisão, do
rádio, do que lemos: seja em cartazes, livros, outdoors, além das
informações que captamos com as pessoas com quem
conversamos todos os dias e que nos ensinam muito.
Na introdução deste livro você deve ter lido como as conversas
que tive com as pessoas foram enriquecedoras para que essa obra
existisse. Apesar do conhecimento, das pesquisas que realizei, dos
livros que li e da base conceitual que construí no decorrer desses
anos, os relacionamentos diários com as pessoas foram de uma
contribuição inigualável. Aliás, gostar de conversar é uma
característica comum nas pessoas relacionais e que gostam de
estar entre outras. Inclusive atribuo a essa habilidade de fazer e
manter relacionamentos, extraindo o melhor das pessoas, uma das
principais ações para que eu pudesse escrever este livro.
As nossas habilidades e inteligências são construídas de várias
maneiras. São milhares de correlações e influências, que veremos
adiante, mas antes de entendermos mais sobre Inteligência
Relacional, precisamos entender o que é Inteligência e como
fazemos para processar de forma adequada as informações que
recebemos no nosso dia a dia.
Durante quase 250 mil anos na Terra, o ser humano foi
dominado pelo pensamento mitológico e suas lendas. Há 2.500
anos surgiram a Filosofia e a razão, que conduzem à indução ou
dedução de algo e que tentam buscar essa resposta, abrindo
caminho para algo além dos mitos e crenças.
Há muitos anos – e por que não dizer séculos – diferentes
autores e filósofos tentaram definir e conceituar Inteligência. Os
primeiros filósofos da Grécia antiga procuraram respostas sobre
questões como consciência, mente, corpo e como estruturar a
sociedade, a política, as regras e o “viver bem”. De lá para cá,
tivemos muitos avanços e vale entender um pouco dessa evolução.
Vamos começar por Sócrates, conceituado filósofo. Ele
acreditava que a inteligência estava ligada puramente ao raciocínio
abstrato – linguagem e matemática. Considerava que as
inteligências eram diferentes e inerentes a cada pessoa, que cada
um nasce com habilidades inatas, ou seja, com uma predisposição
para determinado aprendizado.
Platão e Aristóteles entenderam a inteligência como uma
habilidade voltada para a lógica, para a geometria e a
argumentação. Os filósofos buscaram pessoas sábias e testaram
seus conhecimentos com o objetivo de identificar a inteligência
nestas pessoas, como se as outras não a tivessem.
Descartes, em torno do ano de 1600 d.C., em suas reflexões,
propôs a separação entre o corpo e a mente, dizendo que o corpo,
sendo material, poderia ser estudado, enquanto a mente, por ter
origem divina, somente poderia ser conhecida e tratada a partir do
processo introspectivo2.
Locke argumentou que não nascemos com conhecimentos, mas
que os adquirimos por meio de nossas experiências com o mundo e
por meio de nossa capacidade de refletir sobre o que nos acontece
e sobre o que vivenciamos. Como materialista, ele afirmava que a
mente poderia ser estudada também, mas, naquela época, por falta
de recursos, não sabiam exatamente como fazê-lo. Lembre-se de
que naquele período não havia exames capazes de “ler” o cérebro
como: ultrassonografia, ressonância magnética, entre outros.
Donders, Helmholtz e Broca foram grandes estudiosos da
fisiologia cerebral, que descobrindo e aprimorando o estudo da
transmissão neuronal, conexão entre os neurônios (lembrando que
neurônios são as células do nosso cérebro). Estudaram a
velocidade do impulso nervoso e algumas interessantes
interligações dentro de suas capacidades de observação. Durante
os tempos de guerra, estudaram as pessoas com graves sequelas e
acidentes cerebrais e fizeram, a partir daí, belíssimas descobertas.
Paul Broca, médico francês, revolucionou a ciência com a
descoberta da localização do centro da fala no cérebro, intitulada e
conhecida como área de Broca. No próximo capítulo, você verá
ilustrações de onde fica essa área no cérebro humano.
Renomados autores, filósofos, médicos, fisiologistas e
neurologistas exploraram a natureza material do corpo e
descobriram que havia relações entre os sentidos humanos e o
sistema nervoso, ou seja, correlação entre o cérebro e as
habilidades humanas. Vamos falar um pouco sobre essas
descobertas.
Em 1859, o cientista Charles Darwin causou um poderoso
impacto sobre o estudo da inteligência com a sua Teoria da
Evolução. Essa teoria fez surgir a estimulante possibilidade de a
mente humana ter evoluído a partir de mentes mais primitivas.
Darwin apresentou semelhanças no funcionamento mental dos
homens e dos animais e fez cair por terra a separação entre animais
e homens proposta dois séculos antes por Descartes.
Com Darwin, o estudo do comportamento animal passou a ser
considerado vital para a compreensão do comportamento humano.
A teoria evolutiva provocou também uma mudança no objeto de
estudo e no objetivo da psicologia. A obra de Darwin inspirou o
debate que perdura até hoje: até que ponto a inteligência é advinda
de herança genética ou poderia ser modificada pelas
circunstâncias?
A partir desses questionamentos temos a defesa e a
discordância de filósofos, psicólogos, médicos, cientistas e
estudiosos.
Antes de debatermos de onde advém a inteligência, a pergunta é
ainda mais básica: de onde viemos?
Desde os tempos mais remotos indagamos sobre a origem dos
seres vivos, incluindo a nós mesmos, e durante todo esse tempo
sempre tivemos “respostas” na forma de fantasias, estórias
fantásticas, mitológicas e recheadas de alegorias que foram
transmitidas de geração em geração.
Com o surgimento da filosofia e da razão tentou-se buscar
respostas, mas essa “era de lucidez” racional foi por anos
obscurecida pelas sombras da Idade Média e seus dogmas de fé
baseados na antiga mitologia judaico-cristã.
No Oriente Médio, boa parte dessa cultura racional sobreviveu
disputando lugar com a crença na mitologia islâmica, e no Extremo
Oriente, desde vinte e cinco séculos atrás, outro tipo de filosofia,
mais mística, se espalhava, baseada no Hinduísmo, Taoísmo e
Budismo.
Só há pouco mais de duzentos e cinquenta anos outra área do
potencial humano amadureceu e se consolidou: a ciência.
A ciência nada mais é que a fusão da razão com a
experimentação. Pensar, experimentar e alcançar o conhecimento
prático de processos. É tão eficiente que seus resultados e materiais
em menos de meio século foram muito mais marcantes do que as
dezenas de milhares de anos de misticismo e magia.
A ciência pode não ter algumas respostas para nossas
indagações interiores, e com certeza não tem a chave da felicidade,
mas ninguém pode negar que ela é muito eficaz em entender,
explicar e controlar a natureza.
A ciência também nos deu sua resposta para a grande pergunta
sobre a origem da vida: a Teoria da Evolução.
Não é de se admirar que essa explicação só tenha surgido há
tão pouco tempo. Primeiro, porque não se mudam rapidamente
centenas de milhares de anos de pensamento mitológico e, depois,
porque essa questão realmente não é fácil de ser respondida, tanto
por ter acontecido há muitos anos e por ninguém a ter presenciado.
As primeiras descobertas trouxeram um forte quadro de
resistência. O processo de elaboração de pensamento foi tomando
corpo aos poucos, já que o evolucionismo apresenta uma resposta
diferente daquelareferência que dominou toda a Idade Média, a
Bíblia. A Ciência teve dificuldades para se estabelecer, enfrentando
toda estrutura de repressão religiosa que até hoje não foi totalmente
vencida.
Afinal, como enfrentar o Mito da Criação? Algo do qual depende
boa parte de toda a teologia cristã e suas diretrizes de
comportamento. Até hoje é questionável, compreensível e
complicado.
Continua o trabalho árduo de vários pesquisadores, cientistas e
filósofos, e encontramos respostas e evoluções na forma de se
“pensar”, embora a teoria da evolução pareça ser a mais precisa
explicação para a origem da vida.
Enfim, o que são a Teoria da Evolução e o Evolucionismo3?
O Evolucionismo não é produto de uma só pessoa, é o resultado
inevitável de um processo de evolução científica. A Ciência lida com
fatos explicáveis e controláveis, previsíveis e reproduzíveis. Só pode
aceitar explicações que se baseiem em fenômenos comprovados e
observáveis na natureza.
Ninguém jamais viu algo surgir do nada, ou uma transformação
tão radical quanto um organismo complexo como o humano surgir
do barro. Isso não existe na natureza. Portanto, a explicação
religiosa criacionista é inaceitável, no pensamento científico, mas
completamente aceitável na crença e no coração dos fiéis e devotos
a Cristo, o que precisa ser respeitado.
A natureza e os seres humanos, lenta e progressivamente,
nascem, crescem, e se desenvolvem até atingir a maturidade, e
morrerem. Uma pequena semente se torna uma imensa árvore
enquanto um aglomerado de células menores que a cabeça de um
alfinete pode se tornar um grande animal.
Sendo assim, a evolução está em tudo o que existe. É antes de
tudo uma transformação, uma mudança lenta e gradual, desde o
mundo físico até os processos sociais.
Nada acontece sem ser resultado de estágios progressivos de
evolução e é justamente aí que a Teoria da Evolução se torna base
da Inteligência Relacional, já que o ser humano só se desenvolve
através do contato com os outros. Isso veremos com mais detalhe
nos próximos capítulos.
Continuando no caminho da evolução, Darwin abriu campo para
Galton, seu primo.
Francis Galton, matemático, estatístico e antropólogo, defendia a
herança da inteligência e seus aspectos eugênicos4. Galton
acreditava que a raça humana poderia ser melhorada caso fossem
evitados “cruzamentos indesejáveis”. O objetivo de Galton era
incentivar o nascimento de indivíduos mais notáveis ou mais aptos
para a sociedade e desencorajava o nascimento dos inaptos.
Propôs o desenvolvimento de testes de inteligência para selecionar
homens e mulheres brilhantes, destinados à reprodução seletiva.
Os estudos e conclusões de Galton influenciaram fortemente a
criação de métodos estatísticos. Foi ele quem deu origem ao
conceito de testes de inteligência, elaborando a aplicação de testes
em relação às habilidades motoras e à capacidade sensorial dos
indivíduos. Estudou a diversidade e o tempo necessário para a
produção de associações de ideias, complementações riquíssimas
para a psicologia e para o processo de estudo das habilidades
cognitivas (conhecimento).
Dando continuidade a esse estudo, entre os séculos XIX e XX,
um renomado estudioso francês teve grande impacto no
desenvolvimento e avaliação das Inteligências: Jean Piaget (1896-
1980). Sua abordagem é construtivista, uma corrente teórica que
procura explicar como a inteligência humana se desenvolve. Parte
do pressuposto de que a inteligência é determinada pela ação
mútua entre o indivíduo e o meio, ou seja, defende que o homem
não nasce inteligente, mas também não fica passivo sob a influência
do meio. Ele interage com o meio e por isso aprende e responde
aos estímulos do meio ambiente e do meio social. Assim, constrói e
organiza o seu próprio conhecimento através do contato com as
pessoas com quem interage. Para isso, utiliza-se de um mecanismo
autorregulatório que tem como base suas condições biológicas
(inatas) ativadas pela interação do organismo com o meio ambiente.
O estudo de Piaget foi o verdadeiro motor do desenvolvimento e
do progresso intelectual humano.
A partir dessa evolução histórica, acreditou-se durante boa parte
do século XIX e XX que a Inteligência podia ser mensurada e
comparada por meio de testes que estabeleciam numericamente o
QI – Quociente de Inteligência. Isto é, media-se o grau de
inteligência de uma pessoa a partir das suas competências
numéricas, lógicas e racionais.
Assim, deve-se destacar a imensa contribuição do psicólogo
francês Alfred Binet e seus sucessores, que observaram e
estudaram a inteligência com o objetivo de medi-la por meio de
testes. Pouco depois, o alemão Wilhem Stern criou um sistema de
pontuação padrão para medir o teste e lhe deu o nome de
Intelligenz-Quotient, conhecidos como Avaliação do QI5.
O fascínio de Binet pelo estudo da inteligência humana foi
despertado com o desenvolvimento de suas filhas. Percebeu que a
facilidade com que elas aprendiam e absorviam as informações
variava de acordo com a quantidade de atenção que depositavam
no assunto, o que reforça a seletividade da memória e como
registramos as informações conforme o nosso nível de interesse em
cada processo.
Binet descobriu o teste de Francis Galton e resolveu realizar uma
profunda pesquisa para avaliar as diferenças das habilidades em
profissionais como matemáticos, escritores e artistas. Na sequência,
aplicou testes e validou seus experimentos com mais de 50 crianças
e tornou-se um pesquisador educacional. Passou a fazer parte da
sociedade para o estudo da Psicologia Infantil e publicou vários
artigos na época que ajudaram professores e profissionais de
educação. Também contou com a colaboração de Theodore Simon
e juntos criaram o que foi denominado Escala Binet-Simon. Essas
escalas foram divididas por grau de dificuldade, o que facilitava a
descoberta da “idade mental” da criança.
De qualquer forma, a conclusão de Binet foi fantástica. Deixou
claro que a inteligência atua num mundo de constante
transformação e que cresce conforme a criança ou o ser humano se
desenvolve, por isso não pode ser medida como comprimento ou
volume, mas se pudesse ser acompanhada poderíamos ter uma
noção mais completa da aptidão intelectual. Colaborou muito com a
classificação das aptidões e permitiu, com a criação do teste de QI,
alargar o conhecimento sobre a inteligência humana.
Com o tempo, o teste de QI foi caindo em descrédito, pois de
maneira notória, as pessoas mais inteligentes matematicamente, ou
no estabelecimento de conexões numéricas e lógicas, nem sempre
eram as mais bem-sucedidas ou as que alcançavam os melhores
resultados no desempenho de seu trabalho ou na sua vida pessoal.
A partir disso novas descobertas foram feitas.
Lembre-se dos melhores alunos da sua sala de aula quando
você era criança ou mesmo no ensino médio ou faculdade. Será que
os mais estudiosos são hoje os mais bem-sucedidos, ou existem
outras características que determinam o sucesso e os resultados?
As pessoas que estudam bastante, ou que têm resultado alto em
testes de QI, podem obter sucesso em várias áreas, principalmente
as que exigem raciocínio lógico e estratégico, mas podem
apresentar pouco conhecimento em áreas que exigem
desembaraço, flexibilidade, facilidade de contato ou persuasão. Isso
não é uma regra, há pessoas com alto QI que também são
inteligentes emocionais e relacionais, mas o que vamos mostrar
aqui é que as pessoas podem apresentar tendências, facilidades e
dificuldades em áreas distintas.
Da mesma forma que algumas pessoas com alta Inteligência
Emocional (IE) ou alta Inteligência Relacional (IR) podem apresentar
baixo potencial nas escalas de QI (quociente de inteligência).
Dificilmente apresentamos potencial alto em todas as áreas ou
competências. Além do mais, a tendência é que o ser humano
desenvolva mais as inteligências e habilidades que são exigidas no
seu dia a dia, no trabalho ou mesmo as que estão atreladas aos
seus talentos naturais.
É muito comum também desenvolverem as que gostam mais,
como ler, escrever, fazer música, por exemplo,ou que utilizam com
mais frequência. O que quero ressaltar aqui é que cada um tem
suas próprias habilidades e dificuldades, e o desempenho delas vai
favorecer ou dificultar os resultados em sua atuação profissional e
na sua vida pessoal.
Sabe-se que para ter sucesso em uma organização, por
exemplo, ou para ser um alto potencial (high potencial), o
profissional precisa ter um desempenho acima da média.
Desempenhar significa fazer, mostrar, colocar em prática aquilo que
a pessoa diz saber ou conhecer. Um profissional considerado um
“alto potencial” faz algo de forma surpreendente, mais rápido ou
superior às pessoas que parecem ter o mesmo conhecimento, mas
não se destacam tão bem no mesmo cenário ou circunstância. O
conceito de competências, que citamos acima, foi nomeado pelos
RHs (áreas de recursos humanos) com uso do acróstico: CHA – que
nada mais é do que a soma de:
Conhecimento – o que aprendemos/informações,
Habilidades – o que as pessoas mostram facilidade para
fazer/talento.
Atitudes – o que é colocado em prática/ação.
Esses três pilares definem o conceito de competência e juntos
mostram o desempenho de um profissional. De nada adianta termos
habilidade e conhecimento se não temos atitude para colocar em
prática e também de nada vale termos atitude sem conhecimento e
habilidade.
Vale lembrar que atitude sem conhecimento é risco e
irresponsabilidade. As pessoas com muita atitude e pouco
conhecimento tendem a sair por aí fazendo absurdos e agindo de
forma inconsequente. Atitude é fundamental, mas deve sempre vir
temperada com conhecimento e habilidade.
Em função desses princípios, o conceito de sucesso vem
mudando nos últimos anos. Psicólogos, estudiosos e pesquisadores
perceberam que algumas pessoas podem obter resultados baixos
nos testes de QI ou de raciocínio lógico, mas podem ter sucesso na
conexão pessoal, emocional e relacional. Essas habilidades
favorecem o desempenho e a forma como alcançam objetivos e
resultados em suas vidas.
Da mesma maneira, pessoas muito inteligentes, como doutores,
pesquisadores, cientistas e professores universitários, nem sempre
obtêm sucesso profissional ou pessoal, apesar de seu vasto
conhecimento teórico sobre determinado tema ou assunto. Muitas
vezes são reconhecidos no mundo acadêmico ou na região onde
vivem, mas nem sempre conseguem se destacar ou ganhar dinheiro
com seu conhecimento ou suas criações.
Então, lanço algumas perguntas desafiadoras que me proponho
a responder no decorrer deste livro: que características determinam
o sucesso? Como podemos usar as nossas inteligências e
habilidades para chegar aonde pretendemos? Como podemos nos
tornar mais inteligentes nos nossos relacionamentos e com isso ter
uma vida melhor e mais feliz?
Venho estudando e descobrindo respostas para essas questões
há mais de vinte anos. Avaliei mais de quatro mil perfis profissionais
com a utilização de um dos mais renomados perfis de avaliação do
mundo, o Perfil Caliper – instrumento de assessment (avaliação),
que avalia a capacidade de raciocínio abstrato (conhecimento
lógico-matemático), habilidades, atitudes e comportamentos
voltados para o mundo do trabalho. Descobri, com isso, uma
correlação entre traços de personalidade que podem favorecer ou
comprometer a procura por sucesso e por resultados nos diversos
âmbitos da vida pessoal e profissional.
Além das habilidades pessoais, precisamos entender o que é
considerado sucesso. Existem diferentes significados para a palavra
sucesso, dependendo muito dos níveis de cobrança, exigência e
desejos de cada um. O que é ser bem-sucedido para uma pessoa
pode não ser para outra. Não devemos nos limitar às conquistas
profissionais.
A descoberta das nossas inteligências e habilidades traz muito
sucesso na vida pessoal. É possível obter ganhos em muitas áreas,
e veremos que esses ganhos podem ser aprimorados, favorecidos e
desenvolvidos também através do contato com as pessoas com
quem convivemos e nos relacionamos.
Afinal, por que algumas pessoas que obtêm sucesso na vida e
se mostram determinadas, disciplinadas ou incrivelmente
persistentes foram consideradas pessoas “limitadas” pelos testes de
QI?
Compor uma sinfonia, recitar um poema, ministrar uma palestra
encantadora, convencer uma plateia exigente ou ganhar uma
partida de tênis utilizam o mesmo tipo de inteligência?
Como e por que essas pessoas conseguem obter tanto sucesso
em diferentes áreas? Que habilidades e inteligências são
importantes, por exemplo, para mantermos bons relacionamentos
interpessoais?
A resposta começa a ser delineada quando estudamos os vários
tipos de inteligência.
Quando o ser humano vivencia experiências relacionadas a sua
mais alta inteligência (inteligência pura ou talento), ele geralmente
sofre uma forte reação emocional, capaz de transformar sua vida e
levá-la ao alto desempenho. Você já deve ter visto crianças que, por
exemplo, ao ouvir um violino ou uma orquestra sinfônica se
emocionam. Ou que, de repente, mal aprendem a ler e entonam um
texto com tal expressividade que surpreende a todos.
Estamos falando de Inteligências naturais?
2. Introspecção - ato pelo qual o sujeito observa os conteúdos de seus estados mentais
com consciência deles. Dentre eles destacam-se crenças, imagens mentais, memórias
(visuais, auditivas, olfativas, sonoras, táteis), as intenções, as emoções e o conteúdo do
pensamento em geral (conceitos, raciocínios, associações de ideias). https://goo.gl/yyU6dq
3. Teoria da evolução: https://goo.gl/z8sdY3
4. Eugenia - termo criado em 1883 por Francis Galton, significando “bem nascido”. Galton
definiu eugenia como “o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou
empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente”. O
tema é bastante controverso, particularmente após o surgimento da eugenia nazista, que
veio a ser parte fundamental da ideologia de “pureza racial”, a qual culminou no
Holocausto. Fonte: https://goo.gl/yGRGgf
5. QI – Quociente de inteligência: medida padronizada obtida por meio de testes
desenvolvidos para avaliar as capacidades cognitivas, a inteligência de um sujeito.
Expressão do nível de habilidade de um indivíduo num determinado momento em relação
ao padrão (ou normas) comum à sua faixa etária.
Capítulo 2
Quais as inteligências mais
conhecidas e como podemos
desenvolvê-las
Certo dia, fui visitar uma amiga que tinha ganhado bebê. A
criança era linda, mas o que me chamou mesmo a atenção foi seu
filho de três anos que, enquanto conversávamos, imitava ser um
maestro ao ouvir a música clássica que envolvia o ambiente. Ele
interpretava aquela música com tanta emoção que seu corpo inteiro
parecia flutuar, completamente envolto em uma atmosfera diferente
daquela em que estávamos. Ele não estava ali. Sua mente parecia
estar distante e sua expressão facial era suave, encantadora.
Já havia estudado as diferentes inteligências nesta época e pela
observação dessas situações, tive certeza de que nascemos mesmo
com algumas predisposições para determinadas inteligências e que
certamente não existe um único tipo ou forma de inteligência.
No início da década de 1980, estudiosos da Universidade de
Harvard, liderados pelo psicólogo Howard Gardner, apresentaram
uma revolucionária pesquisa, denominada inteligências múltiplas.
Esse estudo identifica e descreve didaticamente sete tipos de
inteligências possíveis de serem encontradas nos seres humanos.
Essa forma de demonstrar as inteligências revolucionou e obteve
um eco gigantesco no campo da educação.
Você vai conhecer quais são essas inteligências e vai poder
identificar pessoas e personalidades conhecidas que possuem
esses tipos de inteligência.
Segundo Gardner, a inteligência “pura” aparece no primeiro ano
de vida, mas nem sempre é fácil de ser percebida. Embora as
crianças mostrem qual é a sua área de interesse desde pequenas,
os prodígios e o aparecimento precoce das inteligências não são
comuns. Podemos observar quando algumas crianças desde cedo
gostam de música ou escrevem e desenhamantes ou melhor que
outras. Algumas mostram uma capacidade espacial acima da
média, montando blocos lógicos com facilidade, mas o desempenho
maduro, geralmente, vem com o tempo.
Apesar de as pessoas apresentarem mais facilidade para
desempenhar algumas tarefas do que outras, a excelência vem com
o treino e o desenvolvimento da habilidade que possuem de forma
inata, ou seja, mesmo que alguém nasça com uma inteligência
natural (voltada para a música, como exemplifiquei), se não
desenvolver ou treinar, pode ser que nunca se torne um expert ou
um excelente músico.
Por isso a atenção às habilidades dos nossos filhos e das
pessoas com quem convivemos, e a estimulação destas, são
fundamentais. Nesse momento se inicia a nossa responsabilidade
como pais, educadores, líderes ou facilitadores de um brilhante
processo de aprendizado e desenvolvimento.
É importante lembrar que o bom desempenho em uma área não
implica da realização talentosa em outra, mas é bem comum
apresentarmos e desenvolvermos mais de uma inteligência, no
decorrer da vida, sendo elas complementares ou não.
De forma interessante, vamos ver cada uma dessas inteligências
estudadas pela equipe de Gardner e como podemos identificá-las e
desenvolvê-las em nós mesmos, em nossos filhos e na nossa
equipe de trabalho.
1. Inteligência Lógico-matemática – pessoas com esse perfil
de inteligência geralmente apresentam uma alta capacidade
estratégica, raciocínio abstrato, fácil memorização e um grande
talento para lidar com cálculos numéricos, matemáticos e com a
lógica de modo geral. Elas têm facilidade para encontrar solução
para problemas complexos e capacidade para dividi-los em
“subproblemas” a fim de resolvê-los até chegar à resposta final.
Sentem-se motivadas pelo desafio de investigar soluções
complexas e podem desenvolver fórmulas matemáticas ou
resoluções diferentes para um problema. Essas pessoas geralmente
organizam suas coisas por tamanho, cores ou procuram por alguma
forma de classificação. Tendem também a manter a atenção e a
disciplina em atividades que exigem concentração a detalhes. Essa
inteligência é muitas vezes encontrada em engenheiros, líderes
estratégicos, financistas, contadores, matemáticos, desenvolvedores
de jogos e sistemas e outros profissionais que gostam desse tipo de
desafio intelectual.
Na década de 1980, acreditava-se que a inteligência lógico-
matemática estava fortemente relacionada ao lado esquerdo do
cérebro e que existia uma dominância cerebral para as inteligências.
No entanto, as novas descobertas neurofisiológicas, ainda em
franca evolução, estão trazendo inovações. Alguns autores já
defendem que a atividade dos neurônios (nome que se dá à célula
do sistema nervoso responsável pela transmissão de sinais
químicos e elétricos no cérebro) é sempre probabilística, ou seja,
pode mudar. Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro da
Universidade Duke (EUA), defende que nem sempre os mesmos
neurônios produzem a mesma ação. Sendo assim, a atividade
cerebral flutua. Se essa observação se confirmar em outros estudos,
o neurocientista diz que será preciso derrubar de vez a ideia de
hemisférios especializados em determinada área, porque eles
podem mudar ou refazer seus caminhos6.
Cientistas da Universidade de Utah (EUA) estão desacreditando
a teoria de que há diferenças entre as pessoas de acordo com o
desenvolvimento dos lados do cérebro. Até há pouco tempo,
acreditava-se que as pessoas lógicas, metodológicas e analíticas
possuíam o lado esquerdo do cérebro dominante, enquanto os
criativos e artísticos têm o lado direito mais desenvolvido. O
problema é que a ciência nunca conseguiu comprovar essa noção.
Esses novos cientistas estão desmistificando de vez essa ideia com
uma análise de mais de 1.000 cérebros. Eles não encontraram
nenhuma evidência de que as pessoas preferencialmente utilizam a
parte esquerda ou direita do cérebro. Todos os participantes do
estudo – e, sem dúvida, os cientistas – estavam usando todo o seu
cérebro da mesma forma, durante todo o curso do experimento7.
Alguns exemplos de pessoas famosas com essa habilidade
foram: Albert Einstein, Pitágoras, Platão, Tales de Mileto, entre
outros. No Brasil, destacamos Benjamin Constant, engenheiro
militar e doutor em Matemática que construiu pontes, trincheiras e
desenhou mapas que contribuíram para planejar estrategicamente
ações militares. Também o matemático Oswald de Souza, que se
tornou conhecido a partir da década de 70 quando calculava a
probabilidade de acertos na loteria esportiva no programa Fantástico
da Rede Globo.
Existem profissionais magníficos nesta área, inclusive os que
desenvolvem sistemas e aplicativos para smartphones e
computadores. São exemplos de pessoas que apresentam rapidez
de raciocínio na forma como perseguem a solução para seus
problemas e lidam com muitas variáveis numéricas e lógicas ao
mesmo tempo. Esses indivíduos parecem capazes de criar
numerosas hipóteses que podem ser avaliadas e depois aceitas ou
rejeitadas, mas fazem tentativas incríveis.
Você já obteve resultados favoráveis usando esse tipo de
inteligência ou conhece pessoas que são capazes de correlacionar
e fazer diferentes e surpreendentes análises? Existem pessoas com
essa habilidade próximas a você ou na sua equipe de trabalho?
Fique atento, uma série de benefícios e resultados pode surgir no
desenvolvimento de planos e soluções estratégicas e inovadoras, se
você souber captar e fazer um bom uso dessa habilidade.
Eis algumas formas lúdicas de desenvolver essa inteligência:
jogos com graus de dificuldade variados, como xadrez, sudoku,
jogos de computador ou videogames, em que você é desafiado a
pensar e conquistar novas fases; materiais manipulativos (quebra-
cabeças e brinquedos de montar), categorização de fatos e de
informação, muito comuns em brinquedos com letras e números,
associação de fatos e figuras, analogias, experiências laboratoriais,
jogos de memória e o desdobramento de mapas.
2. Inteligência Linguística – caracteriza-se pelo domínio e
gosto especial pelas palavras, sentenças, frases e pelo desejo de
explorá-las. As pessoas que possuem este tipo de inteligência
geralmente apresentam facilidade para se expressar e se
comunicar, tanto verbalmente quanto na forma escrita. Muitas vezes
apreciam aprender idiomas ou linguagens com símbolos. Mostram
grande expressividade no momento de se comunicar e podem usar
a linguagem para convencer, persuadir, agradar, estimular ou
transmitir ideias de forma clara. Podem apresentar um alto grau de
atenção e sensibilidade para entender pontos de vista alheios, o que
demonstra empatia. É predominante em poetas, escritores,
linguistas, jornalistas, professores e consultores. Gardner destaca
também que a inteligência linguística é uma das inteligências mais
comuns, porque usamos a escrita e a leitura com certa frequência,
somos comunicadores e estimulamos essa área diariamente.
No capítulo 1 falamos sobre Paul Broca, que descobriu onde fica
localizado o centro da fala, por isso essa região foi batizada com
seu nome, “centro de broca”, área do cérebro responsável pela
produção de sentenças gramaticais, região especial no córtex pré-
frontal que contém um circuito necessário para a formação da
palavra. Esta área está localizada parcialmente no córtex pré-frontal
postero-lateralmente e parcialmente na área pré-motora, mais
predominante no lado direito do cérebro. É onde ocorre o
planejamento dos padrões motores para a expressão de palavras
individuais. Uma pessoa com lesão nesta área pode ser capaz de
compreender palavras e frases simples, mas tem dificuldade de
juntá-las e conectá-las, dificultando a formação de frases e de ideias
mais complexas. O estudo dos prejuízos adquiridos da linguagem,
as afasias, passou a se relacionar com a investigação do
comportamento neurofisiológico natural da linguagem, por técnicas
de imagem e do aprimoramento no estudo dos potenciais
bioelétricos do tecido cerebral.
Os estudos iniciais das afasias revelaram que os danos em duas
áreas corticais estavam associados a prejuízosimportantes e
nitidamente distintos da linguagem, nas áreas descobertas por
Broca e Wernicke.
A área de Wernicke é uma região do cérebro humano
responsável pelo conhecimento, interpretação e associação das
informações, mais especificamente a compreensão da linguagem.
Graves danos na área de Wernicke podem fazer com que uma
pessoa que escuta perfeitamente e reconhece bem as palavras seja
incapaz de agrupar estas palavras para formar um pensamento
coerente, caracterizando doença conhecida como afasia de
Wernicke. A descoberta dessas áreas trouxe ganhos riquíssimos
para o estudo das habilidades e das inteligências8.
Enquanto a motricidade (ação da comunicação) acontece na
área de Broca, na área de Wernicke acontece a compreensão do
que os outros dizem e que dá ao indivíduo a possibilidade de
organizar as palavras de forma sintaticamente correta, um papel
muito importante na produção de discurso. Essa zona é onde
convergem os lobos occipital, temporal e parietal (são as três áreas
do cérebro, que se localizam na parte posterior, na lateral ou na
parte superior do cérebro), chamada de Fascículo Arqueado ou
Arcuato.
Localização: porção posterior do Giro Temporal Superior do
Córtex Cerebral. A área de Wernicke recebe o nome em
homenagem a Karl Wernicke, um neurologista e psiquiatra alemão
que descobriu e estudou essa área do cérebro.
Alguns grandes e conhecidos profissionais que se destacam com
a Inteligência Linguística são: Jean-Paul Sartre e Simone de
Beauvoir, grandes intelectuais e escritores franceses que
revolucionaram a filosofia contemporânea. Em especial, destaca-se
a obra e vida de Simone de Beauvoir, precursora de seu tempo em
sua gênese feminista. Revolucionou uma época e conquistou seu
espaço no fechado mundo intelectual masculino, escrevendo de
forma sublime e impecável sobre militância socialista e o mundo
feminino. Destacam-se, ainda, alguns grandes escritores,
compositores e poetas brasileiros, como Carlos Drummond de
Andrade, Vinícius de Moraes, Luís Fernando Veríssimo, Mário
Quintana, entre outros. Pessoas que, com suas habilidades
específicas, contribuíram de forma memorável para a cultura
linguística do nosso país e demonstraram uma inteligência
linguística acima da média.
Eis algumas formas lúdicas para desenvolver essa inteligência:
invista em atividades como desenho, pintura, escrita, leitura, jogos e
associações com palavras e letras, palavras cruzadas, caça-
palavras etc. Se quiser saber mais sobre atividades dirigidas para
crianças, pesquise sobre os melhores brinquedos para cada idade e
fase, pois essas mesmas atividades podem variar entre mais fáceis
ou mais complexas de acordo com cada idade. Como pai, estimule
desde cedo que as crianças tenham seus próprios diários, cadernos
de anotações ou agendas, onde possam vivenciar a melhor forma
de relatar suas experiências. Quando maiores podem ter uma pasta
ou arquivo em seu computador, tablet ou celular, onde podem contar
tudo o que acontece com eles na escola, nas festas, nos intervalos
de aula ou nos momentos de maior alegria ou tristeza.
É costume em muitas culturas contar histórias para crianças e
elas ajudam a desenvolver a inteligência linguística. Melhor ainda é
quando as próprias crianças são capazes de contar suas histórias
de forma original, muitas vezes com clareza e riqueza de detalhes,
relatando suas experiências com graça e precisão. Aproveite
quando a criança começa a descrever seu dia de forma rica,
cronológica e detalhada, e, se você se enche de orgulho com a
forma como seu filho ou outras crianças da família se comunicam,
fique atento, essa pode ser sua inteligência mais relevante.
É possível também estimular idosos, portadores de Alzheimer ou
pessoas com outras debilidades que envolvam a perda neurológica
da linguagem, para que se sintam estimulados a continuar
exercitando partes do cérebro que não devem entrar em desuso e
são importantes para manter a comunicação e a conexão com o
mundo.
3. Inteligência Musical – essa inteligência é identificável pela
habilidade para compor e executar padrões musicais, escutando e
discernindo sons. Pessoas com este perfil de inteligência têm uma
grande facilidade para, ao escutar uma música, identificar diferentes
padrões, ritmos, timbres e notas musicais. São capazes de ouvir e
processar sons com certa facilidade e podem, também, criar
músicas e harmonias inéditas. Pessoas com este perfil parecem
“enxergar” através dos sons. Muitas vezes mostram-se capazes de
aprender a tocar instrumentos musicais sozinhas. Este é um tipo de
inteligência fortemente relacionado à criatividade. Essa
característica geralmente está associada a outras inteligências,
como a linguística, espacial ou corporal-cinestésica. É predominante
em músicos, compositores, maestros e críticos de música. É
considerado um tipo mais raro de inteligência.
Essa inteligência pode ser identificada logo cedo, e é importante
ficar atento às crianças que tendem a cantar para si mesmas. Elas
também se mantêm atentas a sons diferentes do ambiente. Podem
aprender a tocar um instrumento musical com facilidade, inclusive
sozinhas. Essa inteligência é uma das mais fortes para comprovar
que parece mesmo existir uma influência biológica, genética ou
hereditária no aprendizado, ou seja, podemos nascer com algumas
predisposições a aprender.
As pesquisas sobre esse tema continuam em franca expansão,
algumas sérias experiências já comprovam que a música tem
ajudado crianças autistas (o autismo é um transtorno de
desenvolvimento que geralmente aparece nos três primeiros anos
de vida e compromete as habilidades de comunicação e interação
social). O comportamento autista é exteriorizado pela pobreza de
contato visual e interação emocional com outras pessoas, prejuízo
na fala, estereotipias, obsessão por rotinas e fascinação por
determinados objetos (Gadia et. al., 2004).
Essas crianças com graves comprometimentos emocionais e
incapacidade de fazer vínculos, nem mesmo com a mãe, se
mostram capazes de tocar instrumentos musicais de forma
admirável.
A musicoterapia (terapia que usa a música e seus elementos –
som, ritmo, melodia e harmonia – para a reabilitação física, mental e
social) tem uma longa tradição no transtorno autista, e há muitos
relatos na literatura sugerindo que pode ser usada para melhorar as
habilidades de comunicação social, como iniciar e responder a atos
comunicativos (Geretsegger et. al., 2012). Estímulos musicais têm
sido responsáveis por ativar regiões do cérebro associadas ao
processamento de emoções (Wan; Schlaug, 2010). Pesquisas em
psicologia da música enfatizaram a natureza intensamente social
das atividades musicais, que proporcionam interação com outras
pessoas e participação em atividades que podem facilitar o convívio
social e a aquisição de linguagem e de habilidades motoras. Por
esse motivo, atividades musicais são constantemente usadas no
tratamento de autistas, podendo assim justificar o potencial da
música como instrumento terapêutico e educacional (Molnar-
Szakacs et. al., 2009)9.
Alguns estudiosos acreditam que a capacidade musical, ao
contrário da linguística e matemática, concentra-se mais no
hemisfério direito do cérebro, embora, como falamos, existam vários
questionamentos em relação às áreas de dominância cerebral.
Alguns grandes e conhecidos profissionais com esse tipo de
Inteligência apresentam uma particularidade: começaram muito
cedo a desenvolvê-la. Músicos e compositores como Mozart,
Beethoven, Bach e Ravel iniciaram, respectivamente, suas vidas
musicais aos 5, 6, 7 e 8 anos de idade. O mesmo acontece com
grandes cantores e compositores brasileiros. Chico Buarque de
Hollanda, aos cinco anos de idade, materializou seu primeiro
interesse pela música, montando um álbum de recortes com fotos
de cantores do rádio. Não parou nunca mais de compor e cantar.
Roberto Carlos, ainda criança, aprendeu a tocar violão e piano, e
assim foi com Djavan, Noel Rosa e outros grandes compositores e
músicos que marcaram época e ainda emocionam com suas
melodias e composições.
Formaslúdicas de desenvolver essa inteligência: utilize todos os
tipos de brinquedos musicais, desde chocalhos até minibaterias (os
pais não gostam muito, mas as crianças adoram!), violão, guitarra,
pianinho, etc. Escutar música na gravidez também é uma ótima
opção. Estudiosos defendem que a mãe se acalma e
consequentemente o bebê fica tranquilo também. As músicas
clássicas ou mais tranquilas são as mais indicadas, mas outros
estilos também podem estimular a inteligência musical. Lembre-se
de que algumas músicas podem deixar tanto a mamãe como o bebê
mais agitados, por isso não são indicadas. Leve as crianças desde
pequenas a shows e concertos musicais que sejam permitidos e
seguros para elas10.
4. Inteligência Espacial – pessoas com este perfil de
inteligência têm uma enorme facilidade para criar, imaginar e
desenhar imagens multidimensionais. Elas se expressam pela
capacidade de compreender o mundo visual com precisão,
permitindo transformar, modificar e recriar percepções e
experiências visuais até mesmo sem estímulos físicos, sem ter que
olhar para desenhos, imagens ou objetos. Acredita-se que o
hemisfério direito é o local mais crucial do processamento espacial.
As pessoas com essa inteligência geralmente têm um enorme
talento para as artes gráficas ou pensamentos que envolvam
relações multidimensionais e abstratas. Apresentam como principais
características a criatividade e a sensibilidade, sendo capazes de
imaginar, criar e enxergar coisas que quem não tem esse tipo de
inteligência sente muita dificuldade em executar. Essa inteligência é
predominante em arquitetos, artistas, escultores, desenhistas,
geógrafos, navegadores, cientistas e inventores.
Um conhecido profissional com esse tipo de Inteligência no
mundo é Roger L. Easton, cientista americano e o principal inventor
do Sistema de Posicionamento Global (GPS – Global Positioning
System). Um exímio inventor que, com esse perfil de inteligência,
revolucionou a localização espacial e trouxe facilidade para a vida
de milhões de pessoas no mundo todo.
O sistema foi projetado para permitir o lançamento de mísseis
americanos durante a Guerra Fria. O sistema deu tão certo que hoje
é utilizado não apenas pelo exército, mas por vários meios de
locomoção como navios, caminhões, ônibus e carros comuns. Hoje,
inclusive, acoplado nos celulares/smartphones para orientação
geográfica e de rota. A partir do GPS outros sistemas deverão ser
lançados dentro dos próximos anos, por alguma outra pessoa que
apresente forte inteligência espacial.
Formas lúdicas de desenvolver essa inteligência: desenhar e
pintar em papéis sem linha, sem espaço delimitado. Brincar de
descobrir a forma dos objetos sem poder vê-los. Existe uma
brincadeira de que as crianças gostam muito: com os olhos
vendados, procurar, tatear procurando por objetos (dentro de
alguma caixa ou sacola) e descrevê-los sem enxergá-los. Primeiro,
descrevem o que estão percebendo, se o objeto é redondo,
quadrado, frio, quente, etc. Devem enumerar o maior número
possível de detalhes. Depois “arriscam” dizer qual é o objeto. Dentro
do saco (ou caixa) pode ter uma variedade enorme de objetos,
como chaves, fone de ouvido, bolinha de gude, caneta, carrinhos de
brinquedo, panelinhas, etc. Brincadeiras como essas são divertidas
e ajudam muito a desenvolver o cérebro e a inteligência espacial.
Brincar de andar no escuro, ou de “gato mia” (procurar as pessoas
no escuro, com os olhos vendados, sem poder enxergá-las) também
ajudam o desenvolvimento dessa inteligência.
5. Inteligência Corporal- cenestésica ou motora – pessoas
com este tipo de inteligência possuem um grande talento e
facilidade para controlar o corpo e orquestrar atividades corporais.
Conseguem fazer uso da expressão corporal e geralmente têm uma
noção admirável de espaço, flexibilidade, distância e profundidade.
Geralmente são capazes de realizar movimentos complexos e
graciosos ou que exijam força, com enorme precisão e facilidade. A
parte do cérebro relacionada a essa inteligência alcançaria o
cerebelo, gânglios e o córtex pré-frontal motor, que integra os
impulsos motores no tempo, permitindo a criação de movimentos
habilidosos e voluntários do corpo. É um dos tipos de inteligência
diretamente relacionada à coordenação e capacidade motoras. Ela
está presente em esportistas olímpicos, bailarinos, ginastas, atletas
de alta performance, artistas circenses e entre aqueles que praticam
outros movimentos que exigem controle do corpo.
Alguns grandes e conhecidos profissionais com esse tipo de
inteligência, no mundo, são os bailarinos do Cirque du Soleil. É
nítida a capacidade corporal que os atores apresentam. A facilidade
que demonstram ao se locomover, pular grandes alturas e sua
elasticidade é simplesmente fascinante aos olhos humanos. Claro
que também é fruto de muito treinamento, mas para chegar àquela
quase perfeição eles certamente apresentam alta inteligência
cenestésica.
Alguns grandes atletas brasileiros merecem destaque, como
nossos craques de futebol Pelé, Ronaldo Gaúcho, Ronaldinho,
Neymar, entre outros. Os irmãos Hypólito (Daniele e Diego) da
ginástica olímpica e demais bailarinos e atletas olímpicos do Brasil e
do mundo.
Essa capacidade também pode ser vista em cirurgiões, médicos
e dentistas, pois denota acuidade manual precisa.
Eis algumas formas lúdicas de desenvolver essa inteligência:
todas as atividades que estimulem o movimento corporal, inclusive
jogos com bola, como caçador, futebol, handebol, basquete, tênis ou
vôlei. Outras possibilidades incluem ainda polo aquático, dança,
ginástica rítmica ou artística, balé, judô, natação ou qualquer outra
atividade que exija atenção aos movimentos corporais, como
mímica ou jogos como “Imagem & Ação” (onde os jogadores
descobrem o nome de músicas através do uso da mímica) e jogos
de diversão similares a este.
6. Inteligência Interpessoal – Esta inteligência pode ser
descrita como uma habilidade para entender e responder
adequadamente a humores, temperamentos, motivações e desejos
de outras pessoas. A inteligência interpessoal é expressa pela
habilidade de entender as intenções, motivações e desejos dos
outros. Por essa razão, é um tipo de inteligência ligada à
capacidade natural de liderar, pois mostra a facilidade em entender
o que as pessoas trabalham com outras, como pensam, sentem e
desejam, e o que as motiva, ao que, hoje, chamamos de empatia.
Pessoas com esse perfil de inteligência são extremamente ativas e,
em geral, causam grande admiração nos outros. São líderes
capazes de identificar as qualidades das pessoas e extrair o melhor
delas, organizando equipes e coordenando trabalho em conjunto,
além de reagir apropriadamente a partir dessa percepção. Está mais
desenvolvida em escritores, psicoterapeutas, coaches, conselheiros,
padres, pastores, mentores, líderes natos, vendedores bem-
sucedidos, políticos, religiosos, professores, etc.
As pesquisas sobre as atividades cerebrais sugerem que os
lobos frontais desempenham um papel importante na sabedoria
interpessoal. Alguns estudos relatam que danos nesta área pode
provocar profundas mudanças de comportamento no indivíduo
lesionado.
Um renomado profissional com esse tipo de Inteligência é Daniel
Goleman, criador e autor de best-sellers mundiais, como Inteligência
emocional. Trata-se de uma tese científica que apresenta uma visão
admirável do conhecimento humano. O autor busca a ciência como
guia da mente humana e, sem fórmulas mágicas, revela como
conhecimentos científicos e as emoções podem efetivamente atuar
na transformação do homem. Utilizaremos conceitos interessantes e
consistentes desse autor, no decorrer do livro, pois sua teoria é uma
grande fonte de inspiração e informação. Goleman demonstra como
a incapacidade de lidar com as próprias emoções e a dos outros
pode destruir vidas e acabar com carreiras promissoras. Apresenta
uma forma de explicar como o controle da emoção pode trazer mais
equilíbrio às pessoas.
Formas lúdicas para desenvolver essa inteligência: uma forma
interessante de desenvolvê-la é ater-seàs pessoas ao nosso redor,
escutá-las com atenção genuína e perceber seu estado de ânimo. A
dica é dedicar tempo e atenção para escutar, observar, descobrir,
entender e procurar formas de desenvolver habilidades nos outros.
Essa inteligência requer que a pessoa possa avaliar com mais
atenção o temperamento, os sentimentos, as motivações e
intenções dos outros, mesmo que eles tentem escondê-la. Líderes,
pais e educadores podem ensinar melhor as pessoas a entenderem
como perceber e lidar com as emoções delas e dos outros.
As crianças precisam entender, por exemplo, que os pais
também têm sentimentos, choram, ficam chateados, sentem as
perdas, sorriem, brincam e têm momentos tristes e felizes. Alguns
pais têm a tendência de esconder seus sentimentos dos filhos, mas
isso só os torna analfabetos emocionais. É importante que as
crianças entendam que perdas acontecem, que animais de
estimação ou pessoas queridas morrem, que as pessoas adoecem
e envelhecem. Precisamos ensinar a criança a entender essas
questões e a lidar com perdas, sofrimentos, desilusões e frustrações
que são inevitáveis na vida de qualquer ser humano. Deixá-las mais
preparadas para essas situações vai permitir que mais tarde se
tornem inteligentes emocional e relacionalmente. Vamos ter um
capítulo dedicado a essas questões.
7. Inteligência Intrapessoal – Esta inteligência destaca o
autoconhecimento, o reconhecimento de habilidades, necessidades,
desejos e percepções próprios, incluindo a capacidade para
formular uma imagem precisa de si. Trata da habilidade para
acessar os próprios sentimentos, sonhos e ideias, para que as
pessoas tenham consciência do que é importante para elas e como
procuram solução para seus problemas pessoais. É considerado um
raro tipo de inteligência, porque as pessoas têm a tendência a evitar
entrar em contato com suas próprias dores e dificuldades, o que faz
com que, muitas vezes, dificulte o autoconhecimento. Esta
inteligência ajuda e apoia a inteligência interpessoal, porque,
quando conhecemos a nós mesmos, temos mais chance de
entender, conhecer e apoiar as outras pessoas.
Gardner descobriu que, assim como na inteligência interpessoal,
os lobos frontais desempenham um papel central na mudança de
comportamentos. Um dano na área inferior dos lobos frontais
provavelmente produzirá irritabilidade ou euforia, ao passo que um
dano nas regiões mais altas provavelmente produzirá indiferença,
desatenção, lentidão e apatia, ou seja, um tipo de personalidade
mais depressiva.
A criança autista, como já dito, é um exemplo de um indivíduo
com a inteligência intrapessoal prejudicada. Acredita-se que essas
crianças nunca foram capazes de se referir a si mesmas, têm uma
baixa noção do que sentem e menos ainda do que as pessoas ao
seu redor sentem, mas podem apresentar notáveis capacidades nos
domínios musicais, espaciais ou computacionais.
Difícil destacar pessoas com esse tipo de inteligência, pois não
sabemos avaliar com precisão o quanto as pessoas
verdadeiramente se conhecem. Impossível saber se é o suficiente
para que tomem decisões adequadas em sua vida. Estas questões
têm sido amplamente debatidas pela psicologia, psicanálise,
filosofia, neuropsicologia, neurociência, medicina e ciências afins,
mas seu processo de descoberta e progresso está apenas
começando. Aqueles que passam por processos de avaliação e
evolução pessoal geralmente se conhecem melhor. A percepção de
habilidades e competências profissionais pode evoluir para um
processo de autoconhecimento mais aprofundado, como processos
terapêuticos. O importante é que as pessoas procurem formas de
conhecer melhor suas habilidades para organizar sua rota de
desenvolvimento. Essa capacidade apresenta um modelo acurado
para operar efetivamente a vida. Falaremos mais sobre isso no
capítulo de Inteligência Relacional. Vale ressaltar que o
conhecimento da personalidade humana se encontra em caráter
embrionário. Muito já se falou, já se estudou, mas muito há por vir.
Formas lúdicas de desenvolver essa inteligência: processo
terapêutico, psicanálise, processo de coaching, ferramentas de
avaliação de potencial ou de competências, avaliação de
desempenho em todos os níveis, feedbacks, orientação de carreira
e acompanhamento de habilidades pelos gestores são alguns
processos que ajudam na autopercepção e no autoconhecimento.
Tanto na vida pessoal como profissional existem várias formas de
aprender sobre nós. O importante é acreditar nesta possibilidade e
pesquisar uma forma genuína de aprender cada vez mais sobre si.
Em 1996, Gardner fez a primeira ampliação da sua listagem
original das 7 (sete) inteligências até aqui apresentadas. As duas
últimas inteligências abaixo descritas são as inteligências de tipo
“naturalista” e “existencial”, que foram definidas e estudadas mais
tarde. A inteligência espiritual e artificial são mais recentes e não
entraram na classificação de Gardner.
8. Inteligência Naturalista – foi caracterizada como a
capacidade de discernir, identificar e classificar plantas e animais.
Essa não é necessariamente uma habilidade de conviver com a
natureza, mas de cuidar dela. A Inteligência Naturalista traduz a
sensibilidade para compreender e organizar fenômenos e padrões
da natureza, como reconhecer e classificar plantas, animais,
minerais, incluindo rochas, gramíneas e toda a variedade de fauna,
flora, meio ambiente e seus componentes.
É característica comum em paisagistas, defensores da natureza,
ambientalistas e pessoas que são capazes de fazer distinções
relativas ao mundo natural e usar essa habilidade produtivamente
na agricultura ou nas ciências biológicas. O termo naturalista refere-
se ao indivíduo que estuda as ciências naturais – notadamente
botânica, zoologia e geologia. Existem muitos profissionais famosos
nesta área e o mais conhecido é Charles Darwin, naturalista
britânico que desenvolveu a teoria da evolução e propôs uma teoria
para explicar como se dá a seleção natural e sexual.
Formas lúdicas para desenvolver essa inteligência: manter as
crianças desde pequenas em contato com a natureza, explicar a
importância da fauna, flora e do equilíbrio ambiental. Essa
inteligência será fundamental para o futuro da humanidade, e será
muito importante desenvolvê-la, pois com o aquecimento global e
com as tragédias climáticas e naturais causadas pelo desequilíbrio
ambiental, devemos desde já manter uma atenção maior pela
natureza e pela ecologia. Se não for para classificá-la ou estudá-la
em detalhes, que seja ao menos para respeitá-la e aprender a
preservar o que a natureza proporciona a quem vive e habita este
planeta.
9. Inteligência Existencial – abrange a capacidade de refletir e
ponderar sobre questões fundamentais da existência e que levem à
compreensão de que a vida tem um significado. É característica de
líderes espirituais e pensadores filosóficos. Ter alto quociente
espiritual (chamado de QS) ou existencial implica em ser capaz de
usar o viés espiritual para ter uma vida mais rica e mais cheia de
sentido, que leve à direção pessoal e ao amadurecimento
existencial. Está ligada à necessidade humana de ter propósito na
vida, para desenvolver valores éticos e crenças que vão nortear
nossas ações.
10. Inteligência Espiritual – no livro QS (Quociente Espiritual),
lançado em 2010, Dana Zohar, física e filósofa americana, aborda
esse tema como novo e polêmico: a existência de um tipo de
inteligência que aumenta os horizontes das pessoas, torna-as mais
criativas e se manifesta em sua necessidade de encontrar um
significado para a vida. É possível que outros autores continuem
aprofundando suas descobertas sobre este tema.
Formas lúdicas para desenvolver essas inteligências: o contato
com religiões e crenças, o estudo estreito da filosofia, da meditação
e de técnicas de concentração, atenção e foco, são interessantes
caminhos para exercitarmos essas inteligências.
Sabe-se que a meditação e as técnicas de concentração e foco
têm ajudado CEOs e demais líderes a tomar grandes e estratégicas
decisões.
O assunto é tão atual que foiabordado em recentes reportagens
de capa pelas revistas americanas New York Times, Newsweek e
Fortune. Dana Zohar afima: “A inteligência espiritual coletiva é baixa
na sociedade moderna. Vivemos numa cultura espiritualmente
estúpida, mas podemos agir para elevar nosso quociente espiritual”.
Quem quiser conhecer mais sobre essa Inteligência pode pesquisar
essa autora e outros autores citados a seguir. Ainda é uma
Inteligência nova e que pode ser incorporada ao mundo das
Inteligências Humanas.
No final dos anos 70, o professor Jon Kabat-Zinn, diretor
fundador da Clínica de Redução do Estresse e do Centro de
Atenção Plena em Medicina, na Escola Médica da Universidade de
Massachusetts, criou a técnica de “Atenção plena” (em inglês,
Mindfulness), como forma de divulgar a importância da meditação e
seus benefícios para a saúde e redução do stress. O tema acabou
virando moda e passou a ser utilizado por executivos, atletas e
celebridades. Hoje Kabat-Zinn tem vários livros editados e outros
autores vieram na mesma esteira.
Dan Harris, em seu livro: 10% mais feliz, ensina a “silenciar” a
mente e reduzir o estresse. Ele relata que era descrente com
meditação ou técnicas dessa natureza, mas, com certa relutância,
descobriu que a fonte de seus problemas era justamente aquilo que
considerava seu maior aliado: a voz incessante dentro da sua
cabeça, que o impelia sempre a querer mais, fazer mais, esforçar-se
mais. Todos nós temos essa voz, acrescenta. Ela nos leva a ter
preocupações excessivas, julgar os outros, ruminar o passado e
temer o futuro. É ela que nos deixa tensos, ansiosos, irritados e
frustrados. Dan encontrou, na meditação, um modo eficaz de
acalmar seus pensamentos, equilibrar suas emoções e se tornar
uma pessoa melhor, mas sem perder a energia para lutar por aquilo
que deseja. Livro altamente recomendado.
Depois dos estudos de Howard Gardner, outros pesquisadores
têm realizado propostas ousadas no desenvolvimento e na
descoberta de novas formas de inteligência. Daniel Goleman, autor
já citado anteriormente, inovou com o lançamento do livro
“Inteligência Emocional”, que revolucionou a história das aptidões,
mostrando que é possível ensinar o alfabeto emocional para as
crianças. Karl Albrecht e o próprio Daniel Goleman também
escreveram sobre um tipo especial de inteligência: a “Inteligência
Social”. Ela mostra o quanto as nossas reações com os outros têm
impacto no nosso organismo, no nosso coração e, inclusive, no
sistema imunológico, o que também defendo em Inteligência
Relacional. O que diferencia o conceito de Inteligência Relacional é
a amplitude da relação entre as pessoas, a conexão que
estabelecemos umas com as outras. Não basta entendermos
nossas emoções e/ou as emoções dos outros se não soubermos
como interagir e como tirar bom proveito disso para nosso sucesso
e a nossa satisfação pessoal e profissional. Precisamos aprender a
nos comportar melhor socialmente e entender o que devemos fazer
para que as nossas relações sejam sadias e agregadoras, de forma
que possamos trazer mais qualidade à nossa vida.
Nos países desenvolvidos, as crianças aprendem desde cedo
como devem se comportar nos ambientes públicos como
restaurantes, elevadores, supermercados, mas, infelizmente, nos
países mais carentes, a preocupação maior ainda é a sobrevivência
e a manutenção da segurança e da saúde e esquecemos de educá-
las como seres sociais. De qualquer forma, nós precisamos
começar a pensar além do básico. É a única maneira de
modificarmos a nossa sociedade.
Para concluir este capítulo, é importante ressaltar que as
inteligências não apresentam diferença no grau de significância, ou
seja, uma não é mais ou menos importante que a outra. Todas têm a
mesma força e podem levar o ser humano para a alta performance.
Vale lembrar, também, que podemos apresentar e desenvolver mais
de uma inteligência no decorrer da vida, aliás, isso é muito comum.
Quantos indivíduos são ótimos músicos e também exímios
escritores? Quantos não se destacam em esportes e também são
excelentes advogados, médicos ou arquitetos?
Também encontramos líderes que são ótimos para desenvolver
pessoas e também são capazes de planejar e desenvolver ideias
estratégicas e soluções desafiadoras.
Sendo assim, as inteligências estão geralmente inter-
relacionadas. Podem ser apresentados e desenvolvidos diferentes
tipos de inteligência no decorrer da vida, mas é possível que cada
ser humano apresente, por característica genética ou social, mais
facilidade para desempenhar algumas em função de outras.
Quanto mais nos conhecermos, mais podemos otimizar nosso
talento e nosso potencial. Se descobrirmos o caminho da nossa
inteligência predominante, temos mais chance de ter sucesso na
nossa vida e, principalmente, nos resultados que podemos obter na
nossa atuação profissional.
Se formos capazes de fazer uma avaliação ou levantamento
adequado das nossas habilidades, poderemos desenvolvê-las com
mais facilidade, e, assim, aumentarmos a oportunidade de sucesso
e de realização.
As pessoas tendem a achar que talento, habilidades ou
inteligência são dons para pessoas privilegiadas, mas a grande
verdade é que todos nós somos inteligentes, todos nós temos dons
e talentos, basta descobrirmos quais são e nos esforçarmos para
desenvolvê-los.
Estes conceitos estão diretamente relacionados ao que antes era
chamado de “dons” ou “talentos” memoráveis (como a música de
Mozart, a linguística de Vinícius de Moraes e tantos outros). A
questão é que todos nós temos algum talento. Se você faz o melhor
“doce típico” da sua cidade, aquele que ninguém consegue fazer
igual, você é um indivíduo talentoso.
O aspecto revolucionário da teoria das Inteligências Múltiplas
está em mostrar que todos os seres humanos possuem algum tipo
de inteligência, em diferentes graus de desenvolvimento. Ninguém
recebeu dádivas especiais e exclusivas. O que falta é entender,
conhecer e treinar as nossas principais habilidades e principalmente
o nosso cérebro. Assim, podemos otimizar o que temos facilidade
em desempenhar.
Também devemos minimizar nossas vulnerabilidades ou
dificuldades. Podemos apostar nos nossos pontos a desenvolver,
sem, contudo, perdermos muito tempo e energia naquilo que não é
prazeroso para nós. As pessoas tendem a investir muito tempo para
desenvolver habilidades que não são naturais a elas. Não há nada
de errado nisso, o problema é que, provavelmente, nunca se
tornarão excelentes naquilo que não lhe é nato ou fácil, o que pode
causar uma sensação de inutilidade ou fracasso. Quando se
deposita muito tempo para ajustar os pontos de dificuldade, as
pessoas terão que gastar o máximo de sua energia para chegar à
média daqueles que são naturalmente bons naquilo. Outro risco
comum nesta situação é “deixar de lado” seus pontos positivos,
desequilibrando e comprometendo a performance. Fugir das
habilidades naturais pode diminuir a chance de conquista dos
resultados efetivos.
É importante que possamos identificar o quanto antes quais são
nossas principais inteligências e habilidades. Dessa forma temos
chance de cuidar e de procurar caminhos alternativos para planejar,
com cuidado e respeito, nosso aprendizado e desenvolvimento
pessoal e profissional.
Como descobrir habilidades? Existem várias formas e
instrumentos de avaliação que podem ajudá-lo, porém há uma
sugestão que pode fazer uma incrível diferença no futuro do nosso
país. É fundamental que os pais e educadores de hoje sejam
capazes de escolher a melhor escola e o melhor método de
aprendizado para os seus filhos, respeitando as habilidades que
apresentam desde pequenos.
Não se escolhe escola pela cor da parede da sala ou dos
brinquedos do parquinho. A escola é uma escolha séria e a criança
deve se ajustar ao método e às pessoas que terão o propósito de
ensiná-la e desenvolvê-la. Essa escolha fará diferença no futuro dos
seus filhos, na sua carreira profissional, na sua vida e na sua
felicidade.
Faça uma breve reflexão e pense em si quando era criança. Que
tipo de atividades fazia com facilidade? Do que gostavade brincar?
As atividades que desempenha hoje têm alguma ligação com essas
atividades ou brincadeiras de infância? A resposta a essas questões
deve estar relacionada com o fato de você ser ou não feliz com seu
trabalho e com as tarefas que hoje desempenha.
As pessoas são diferentes porque possuem diversas
combinações de inteligências, habilidades e personalidade. Neste
livro, você verá que as combinações dessa correlação mudam a
forma como cada um pensa, age e principalmente se relaciona.
Entender essa diferença e reconhecer as aptidões das pessoas
com quem convivemos aumenta a condição de lidarmos melhor com
muitos problemas que enfrentamos na nossa vida, melhorando a
nossa relação com os outros. Se pudermos entender melhor a
capacidade e as limitações humanas, podemos aprimorar nossas
relações e nos respeitar mais como pessoas, profissionais e seres
humanos.
Muita coisa ainda será descoberta. Existe uma ampla linha de
pesquisa ligada às questões neurológicas e científicas,
neurociência, neuropsicologia, neurofisiologia, neuromarketing, o
estudo da capacidade intelectual, de cognição, percepção e
memória, incluindo as descobertas sobre a inteligência artificial. Já
existem estudos avançados investigando formas de “colocar”
sentimento em máquinas. Imagine quando elas puderem pensar e
sentir como nós? Será que vão competir conosco ou superar as
habilidades humanas?
A inteligência artificial, se dedica a buscar métodos e dispositivos
computacionais que simulem a capacidade racional e a forma de
resolver problemas, de pensar ou de “ser inteligente” que até hoje é
considerada exclusiva e própria do ser humano, mas até quando?
Filmes como Matrix ou A.I. – Inteligência Artificial já despertam para
esse tema e são apenas a ponta do iceberg.
De qualquer forma, jamais podemos perder o caráter existencial,
ético, moral e recheado de princípios e valores que embasam a
capacidade de articulação e a forma de “sermos inteligentes” que só
nós, seres humanos, somos capazes de apresentar.
De qualquer forma, se você chegou até aqui, está pronto para
quebrar paradigmas e “pensar fora da caixa”. Abra seu coração, de
agora em diante você verá o mundo e as pessoas de outra maneira.
6. Revista Superinteressante: https://goo.gl/e32JKf
7. https://goo.gl/1BlnwW
8. https://goo.gl/jZSoKn
9. https://goo.gl/RJS2Oa
10. Se quiser saber mais sobre música para crianças autistas, acesse: https://goo.gl/lALJte
Capítulo 3
Por que as emoções e os
sentimentos são tão importantes
para a nossa vida?
Desde a publicação do best-seller de Daniel Goleman
denominado Inteligência Emocional, o mundo entendeu a
importância de interagir levando-se em conta os sentimentos, as
emoções e o coração. Ele revolucionou a forma de pensar e a
capacidade de agir e de decidir das pessoas, mostrando o respeito
e a importância que o ser humano precisa colocar na compreensão
das emoções.
Segundo Goleman, a inteligência emocional é moldada desde a
infância e as experiências determinam os hábitos emocionais
básicos que governam nossas vidas.
Afinal, existe diferença entre sentimento e emoção?
O estado emocional é determinado pelo momento como a
pessoa se sente, que acontece continuamente, muitas vezes sem
que a pessoa perceba, por ser inconsciente, em função do conjunto
de suas experiências emocionais: felicidade, ânimo, calma, tensão,
tristeza, etc. É formado por dois componentes distintos:
Emoção: refere-se a respostas corporais, fisiológicas, como a
sudorese nas mãos, lágrima nos olhos, o coração batendo forte e
envolve estruturas subcorticais como a amígdala, o hipotálamo e o
tronco encefálico.
Sentimento: é uma representação interna, cognitiva, às vezes
inconsciente, às vezes consciente; por exemplo, você se dá conta
que está com saudade de alguém, e isso é um sentimento. É
mediado pelo córtex cerebral, pelo córtex cingulado e pelos lobos
frontais.
(fonte: Gondim & Taunay, 2009, p. 177)
As emoções dão origem aos sentimentos, e sem dúvida ambos
estão totalmente relacionados. Da mesma forma que uma emoção
desperta um sentimento, um sentimento é capaz de gerar mais
emoções. Ter consciência de como você reage e se sente diante de
cada emoção, portanto, é fundamental para manter o equilíbrio
emocional.
Para entendermos melhor as emoções e sentimentos
precisamos entender primeiro como o nosso cérebro funciona,
porque as emoções são uma das partes que regem essa “máquina”
fabulosa e capaz de nos levar a qualquer lugar, seja pelo uso das
inteligências ou pela capacidade de imaginação.
Usamos a analogia do coração como representante da emoção,
paixão ou amor, mas na realidade esse órgão, apesar de bater mais
forte quando estamos apaixonados, também recebe comandos do
cérebro para executar tal função.
O cérebro é o “computador central” de nosso corpo, localizado
dentro da caixa craniana, fazendo parte do sistema nervoso central
(reúne as estruturas neurais situadas dentro do crânio e da coluna
vertebral), para onde convergem todas as informações que
recebemos.
O cérebro representa apenas 2% da nossa massa corporal,
porém, consome mais de 20% do nosso oxigênio. Comanda as
atividades como o controle da ações motoras, a integração dos
estímulos sensoriais e as atividades neurológicas, como a memória
e a fala. O cérebro humano contém cerca de 85 bilhões de
neurônios que, interligados, formam mais de 10 mil sinapses, que
pode gerar infindáveis conexões, mais de 1 quatrilhão de circuitos
neurais. Um imenso desafio para a geração de robôs que queiram
pensar como nós, não acham? Quem será capaz de copiar a mente
humana?
Neurônio – é a célula do sistema nervoso responsável pela
condução do impulso nervoso – localizado no cérebro. O neurônio
pode ser considerado a unidade básica da estrutura do cérebro e do
sistema nervoso.
Circuito Sináptico Neuronal (Capa deste livro) – é a ligação
entre os neurônios. A sinapse é o chip do sistema nervoso e é
capaz de transmitir mensagens entre duas células, bloqueá-las ou
ainda modificá-las inteiramente: realiza um verdadeiro processo de
informação. (Cem milhões de neurônios – Robert Lent – 2ª ed.).
Em 1990, tivemos mais uma espetacular contribuição, o
neurocientista Paul Maclean apresentou, em seu livro, a teoria do
cérebro trino. Essa teoria começou a ser desenvolvida em 1970,
mas apresentada no seu livro The Triune Brain in evolution: Role in
paleocerebral functions vinte anos depois. Destaca que nós, seres
humanos, temos o cérebro dividido em três unidades funcionais
diferentes. Cada uma dessas unidades representa uma parte do
nosso sistema nervoso.
Cada uma dessas áreas é responsável por um comando
diferente que auxilia as nossas ações e decisões.
Cérebro Reptiliano
O Cérebro Reptiliano ou cérebro basal é formado apenas pela
medula espinhal e pelas porções basais do prosencéfalo (parte
primitiva do embrião, que forma a parte frontal do cérebro). Esse
primeiro nível de organização cerebral é capaz apenas de promover
reflexos simples, o que ocorre em répteis, por isso o nome “cérebro
instintivo” ou “reptiliano”, que tem como característica a
sobrevivência, responsável pelas emoções primárias como, fome,
sede, ameaça ou perigo.
Cérebro Límbico
O Cérebro límbico, cérebro emocional ou ainda cérebro dos
mamíferos inferiores, é o segundo nível funcional do sistema
nervoso, responsável por controlar o comportamento emocional dos
indivíduos. Esse nível de organização corresponde ao cérebro da
maioria dos mamíferos e envolve algumas áreas do cérebro,
denominadas: tálamo, amígdala, hipocampo, hipotálamo, entre
outras.
Neocórtex
Também pode ser chamado de área pré-frontal ou cérebro
racional. Segundo Paul MacLean, é pela presença do neocórtex que
o homem consegue desenvolver o pensamento abstrato e tem
capacidade de gerar invenções; é o que diferencia o homem dos
demais animais.
É compostos pelo córtex telencefálico (maior porção do
encéfalo), que por sua vez é dividido em lobos:
Frontal: mais derivado dos lobos cerebrais, responsável pelas
funções executivas, planejamento, consciência e controleconsciente da vida social. É uma área muito importante para a
Inteligência relacional);
Parietal: responsável pelas sensações gerais: pele (temperatura
e dor), língua, informações sensoriais dos olhos e ouvidos;
Temporal: responsável pela audição, pelo olfato e
reconhecimento de faces;
Occipital: responsável pela visão, processa todas as
informações visuais envolvidas pela retina;
Insular: responsável pelo paladar e gustação (alguns autores
não o destacam como lobo cerebral, por estar situado em uma
camada muito interna).
Fonte: Cem bilhões de Neurônios de Robert Lent e Fisiologia
Humana de GUYTON, A. C.; HALL, J. E.
Lobo da ínsula: é um lobo profundo, situado no fundo do sulco
lateral, no encéfalo. A ínsula tem forma triangular e está separada
dos lobos vizinhos por sulcos. Possui cinco giros (curtos e longos).
Suas principais funções são fazer parte do sistema límbico e
coordenar emoções, além de ser responsável pelo paladar. A ínsula
funciona como uma espécie de intérprete do cérebro ao traduzir
sons, cheiros ou sabores em emoções e sentimentos como nojo.
Agora que destacamos a importância do Cérebro Trino, mesmo
que resumidamente, é válido lembrar que o neocórtex é o grande
gerenciador do cérebro, ele é capaz de controlar nossas ações,
principalmente o comportamento social, por isso é tão importante
para a Inteligência Relacional. Dependemos dessa área para termos
mais consciência e defesa de pontos de vista com o uso da
capacidade de análise crítica, do pensar e da linguagem.
O que essa teoria defende nos faz chegar a algumas conclusões
importantes para a perfeita compreensão deste livro, ou seja, temos
um suposto cérebro consciente que pensa e faz a análise das
nossas decisões, um cérebro que sente e é responsável pelas
nossas emoções e sentimentos, e um cérebro que decide, baseado
em impulsos inconscientes e instintivos.
De acordo com o brilhante professor e doutor em Filosofia em
Administração de Negócios, Marcelo Peruzzo, defende em seu livro:
As três mentes do neuromarketing, leitura altamente recomendada,
nos faz lembrar que essa divisão é didática, porque, na prática, não
é bem assim que acontece, afinal, a mudança de um estado para
outro acontece em milésimos de segundos e fica difícil separar, por
exemplo, se uma decisão foi mais emocional, racional ou instintiva.
Quando estamos diante das pessoas em uma discussão, ou
negociação, por exemplo, geralmente usamos essas três partes do
cérebro para defender o nosso ponto de vista, argumentar e tentar
convencer o oponente. No entanto, dificilmente saberemos
exatamente em que momento cada uma delas teve maior peso nas
decisões que tomamos, mas podemos entender se temos uma
tendência maior para uma área do que para outra. Sendo assim, o
que quero deixar como contribuição para vocês é que a partir do
momento que entendemos esse conceito e sabemos como a mente
humana funciona, teremos maior capacidade de rever as nossas
decisões e entender se estamos agindo mais pela razão, emoção ou
por instinto e se precisamos estabelecer mais equilíbrio nessas
áreas para decidirmos de forma mais sensata e equilibrada.
Dito isso, onde entra a Inteligência Emocional?
Quando falamos de emoção, estamos falando do nosso sistema
límbico, que envolve diretamente as nossas emoções e
sentimentos.
A Inteligência Emocional abrange uma série de questões e está
relacionada a algumas habilidades, tais como: motivar a si mesmo e
persistir mediante frustrações; controlar impulsos, canalizando
emoções para situações apropriadas; praticar gratificação
prorrogada e entender melhor as pessoas e suas motivações para
conseguir o engajamento dos outros em prol de objetivos e
interesses comuns.
O fato é que precisamos antes de tudo entender as pessoas, o
que as motiva e como viver e trabalhar cooperativamente com elas.
Por isso precisamos, sobretudo, treinar a Inteligência Relacional. Se
formos capazes de entender o que é nosso e o que é do outro,
separando e respeitando o que é de cada um, seremos capazes de
ajudar as pessoas de forma genuína.
Precisamos ter claro para nós o impacto que causamos no outro
e a influência que as pessoas têm na formação da nossa
personalidade.
Fazendo uma revisão das inteligências do capítulo anterior, já
sabemos que para alcançarmos a Inteligência Emocional, duas
inteligências são fundamentais:
Inteligência Interpessoal +
Inteligência Intrapessoal
É bom lembrar que a Inteligência Interpessoal é a capacidade de
compreender as pessoas e de interagir bem com elas, o que
significa ter sensibilidade para captar o sentido de expressões
faciais, voz, gestos e posturas das pessoas que interagem conosco.
É se ater à forma e à essência do que está sendo comunicado, é
prestar a atenção e mostrar capacidade para “ler” as emoções dos
outros, característica fundamental na liderança e em todas as áreas
que exigem contato com pessoas.
A Inteligência Intrapessoal denota a capacidade de conhecer e
de estar bem consigo mesmo, de administrar os próprios
sentimentos e direcioná-los para que o auxiliem a atingir suas metas
e objetivos, sejam eles pessoais ou profissionais. Pode parecer fácil,
mas essa capacidade inclui disciplina, autoestima, autoaceitação e
muita percepção e conhecimento de si próprio. O desenvolvimento
dessa característica é importante para o desempenho das nossas
funções fundamentais, como filhos, pais, educadores e profissionais.
Daniel Goleman mapeou a Inteligência Emocional em cinco
áreas de habilidades:
1. Autoconhecimento Emocional – reconhecer um sentimento
enquanto ele ocorre.
2. Controle Emocional – habilidade de lidar com os próprios
sentimentos, adequando-os para a situação.
3. Automotivação – dirigir emoções a serviço de um objetivo é
essencial para manter-se caminhando sempre na descoberta dos
resultados importantes para a vida pessoal e profissional.
4. Reconhecimento de emoções em outras pessoas.
5. Habilidade em relacionamentos interpessoais.
As três primeiras se referem à Inteligência Intrapessoal, e as
duas últimas à Inteligência Interpessoal.
No mundo corporativo e do trabalho, sabemos a importância de
entender as necessidades das pessoas. Na descoberta de
Goleman, é surpreendente a forma como ele apresenta e defende a
raiz da empatia, que é a capacidade de nos colocarmos no lugar
das pessoas e entendermos como pensam e agem.
Você já recebeu uma avaliação de potencial ou de desempenho
de seu líder do RH ou de algum consultor e coach experiente e ficou
surpreso como a pessoa foi capaz de desvendá-lo e perceber o seu
estilo e seu funcionamento? Como foi difícil ouvir coisas que não
queria aceitar. Ou pior ainda, será que essa pessoa estava
preparada para lhe dar um feedback de tamanha importância?
Muitas pessoas vivem experiências como essas, e é sensacional
quando isso acontece de forma positiva. Práticas como essas
causam mudanças significativas no desenvolvimento pessoal e
profissional, por mais difíceis que sejam. Também é encantador
quando as pessoas têm a capacidade de fazer uma “leitura”
adequada do que somos e de como nos comportamos.
Você se acha capaz de entender as pessoas dessa forma? Já
experimentou dar feedback para alguém? Entenda que feedback
não é conselho, é uma técnica na qual devemos apresentar os
pontos fortes das pessoas e destacar o que pode ser aprimorado,
sem fazer julgamento. Apenas procure entender quem está diante
de você e como essa pessoa pode se desenvolver.
Essa prática permite não apenas a ampliação da nossa
capacidade de entender as pessoas, mas principalmente de sermos
generosos, altruístas e acima de tudo mais humanos. Como já
falamos, quanto mais individualistas e instintivos, mais próximos
estamos da natureza animal. Ao nos aproximarmos de forma
genuína das pessoas, tentando entendê-las de forma verdadeira,
nos distanciamos da agressividade instintiva e desumana que nos
aproxima mais dos selvagens do que dos homens de paz.
O maior desafio, entretanto, está em conseguirmos entender o
outro sem precisar nos “misturarmos” com seus problemas e
desafios. Só assimpodemos fazer algo por eles, sem que as
emoções se contaminem a ponto de não conseguirmos ajudar.
Infelizmente essas “misturas” acontecem muito com pais e filhos,
marido e mulher, líder e subordinado. E, quando acontece, fica cada
vez mais difícil entender o que é de cada um e o que cada pessoa
precisa aprender ou desenvolver. Goleman defende que podemos
ler a emoção das pessoas, sem nenhum senso de necessidade ou
desespero do outro. Segundo ele, não precisa haver envolvimento,
mas, sim, compreensão.
Pode parecer óbvio, mas agir assim é difícil para a nossa
sociedade católica-cristã, que moldou a educação brasileira. O
brasileiro sempre tem a impressão de que, se não estiver sofrendo
junto, não está sendo humano, não está sendo amigo de verdade.
Infelizmente, esse comportamento “misturado” só atrapalha e
confunde as pessoas. Quando passamos a sofrer junto, não
conseguimos entender, compreender e realmente apoiar. Entramos
em um misto confuso de dor e pena, que não nos leva a lugar
nenhum.
A boa notícia é que comportamentos podem ser mudados e
aprendidos, e você saberá em breve como modificar isso. Nós
precisamos mudar nossos modelos mentais enraizados, ou seja, a
forma repetida como fazemos as coisas. Acredite, isso é possível!
Somos capazes de treinar nosso cérebro emocional a manter
autocontrole, e para tanto é preciso exercitar, como qualquer coisa
que queremos melhorar. É possível fazer um “bloqueio positivo”,
sem excesso de pena ou “síndrome de coitadismo”, para que
possamos realmente ajudar as pessoas, sem que seja preciso abrir
mão da nossa própria estrutura, do nosso equilíbrio e da nossa base
de personalidade para nos relacionarmos ou ajudarmos alguém.
É necessário que haja uma troca equilibrada. Em muitos
relacionamentos, um dá muito mais do que o outro e não há dúvida
de que mais cedo ou mais tarde a relação vai se quebrar. O
desequilíbrio leva ao rompimento.
Já entendemos um pouco de como somos por dentro e de que o
cérebro tem uma influência gigantesca nas nossas ações e no
nosso comportamento, no entanto, o cérebro humano não está
formado no nascimento, continua se moldando durante toda a vida
(GOLEMAN, 1995, p. 239). Essa capacidade auxilia o constante
crescimento, aprendizado e desenvolvimento de cada um de nós.
Veja com mais detalhes onde estão localizadas algumas áreas
que definem as nossas inteligências e onde ficam armazenados
nossos aprendizados.
Fonte: www.smartkids.com.br
As crianças nascem com mais neurônios11 do que vão precisar
na sua idade adulta, mas, num processo conhecido como “poda”, o
cérebro vai perdendo as ligações neuronais (ligação entre os
neurônios) menos usadas, e forma outras, ainda mais fortes nos
circuitos sinápticos12 mais utilizados. Entenda por sinapse a região
localizada entre neurônios onde agem os neurotransmissores
(mediadores químicos), transmitindo o impulso nervoso de um
neurônio a outro, ou de um neurônio para uma célula muscular ou
glandular.
O cérebro reforça os caminhos que mais utilizamos e enfraquece
aqueles que pouco exercitamos. Existe uma capacidade no nosso
cérebro chamada de neuroplasticidade, também conhecida como
plasticidade neural, que se refere à capacidade do sistema nervoso
de mudar, adaptar-se e moldar-se estruturalmente ao longo do
desenvolvimento neuronal, quando “sofremos” novas experiências.
Por isso devemos manter o cérebro ativo para evitar que ele perca a
capacidade de raciocínio, memória e percepção.
(https://pt.wikipedia.org/wiki/neuroplasticidade).
Vamos aprimorando ações e habilidades e conforme exercitamos
nos tornamos excelentes naquilo que fazemos, principalmente o que
repetimos demasiadamente.
Então, se você quer aprender comportamentos que não pratica
ou mesmo uma outra língua, seu cérebro precisa se reorganizar e
criar alternativas diferentes, já que com o tempo ele vai perdendo a
plasticidade para algumas atividades. Você tem que praticar e ativar
os músculos cerebrais que estão se tornando preguiçosos, da
mesma forma que faz quando inicia exercícios físicos em uma
academia. Por outro lado, nosso cérebro, quando pouco utilizado ou
com o avançar da idade, vai “atrofiando”, o que torna cada vez mais
difícil aprender coisas novas ou nunca experimentadas, mas não
devemos parar, existem várias formas de estimulá-lo. Se quiser
saber mais procure informações sobre exercícios cerebrais,
encontrará opções para várias idades e situações. Existem
empresas e institutos responsáveis por esse tipo de estimulação.
Da mesma forma que aprendemos conceitos e conteúdos,
também aprendemos com as nossas vivências emocionais. Os
valores que absorvemos na convivência em família, na escola e com
as pessoas nos tornam mais aptos ou inaptos a desenvolver a
Inteligência Emocional e, futuramente, a Inteligência Relacional (IR),
que nos conecta de forma genuína às pessoas.
A neurociência e a neuropsicologia têm feito brilhantes
descobertas e defendem que o cérebro é sociável, ou seja, o ser
humano de forma geral foi programado para se conectar. Somos
inexoravelmente atraídos para uma íntima ligação cérebro/cérebro
sempre que nos entrosamos com outra pessoa. Podemos avaliar
um relacionamento em termos do impacto de uma pessoa sobre nós
e do nosso impacto sobre ela. Por isso, com o avanço da ciência, da
tecnologia, da medicina e dos exames de ressonância,
ultrassonografia, eletroencefalograma e outros surpreendentes
aparelhos que devem surgir no decorrer dos anos, já é possível
avaliar como poderemos tornar nossos relacionamentos mais
inteligentes. Nossas relações e nosso crescimento pessoal só têm a
ganhar na medida em que nos tornarmos inteligentes relacionais.
Este livro abordará, nos próximos capítulos, como podemos viver
de forma mais harmônica em sociedade, aprendendo com o melhor
das pessoas. A maturidade relacional navega na tranquilidade em
aceitar as diferenças, entendendo o quanto elas nos são
complementares.
Goleman, ao escrever sobre Inteligência Social, a chama
também de sensibilidade social. Ele aborda que “o cérebro social é
a soma dos mecanismos neurais que orquestram nossas interações,
bem como nossos sentimentos e pensamentos a respeito das
pessoas e dos relacionamentos que temos com elas.” (GOLEMAN,
Inteligência Social, p. 5- 13). Ele explica que as interações sociais
são tão fortes que chegam a moldar o cérebro por meio da
neuroplasticidade por experiências que se repetem e passam a
esculpir os neurônios.
Estudos novos e surpreendentes quebram paradigmas até hoje
desconhecidos. O estudo, não apenas do cérebro, mas da genética,
nos permite compreender a essência do nosso comportamento
enquanto ser biológico.
Anteriormente, acreditava-se que não seria possível modificar os
genes (a parte funcional do DNA) ou os genomas ( toda a
informação hereditária – que passa para seus descendentes - de um
organismo que está codificada em seu DNA). Com as novas
descobertas da ciência, principalmente pela pesquisa incessante
para a cura do câncer e outras doenças, já sabemos que algumas
modificações podem acontecer e são passadas de geração a
geração. Isso se chama epigenética.
A epigenética, ou a nova genética, desponta como uma fronteira
a ser alcançada e transposta no cenário médico-científico. A
compreensão dos mecanismos envolvidos, no silenciamento e
ativação de genes, permite a criação de modelos para tratamento de
doenças como o câncer. Um dos pioneiros no estudo da
epigenética, Feinberg, doutor em medicina e oncologia, diretor do
Centro de Epigenética, na Johns Hopkins University School of
Medicine in Baltimore, USA, define epigenética como modificações
do genoma, mas que não envolve uma mudança na sequência do
DNA (ou ácido desoxirribonucleico, um composto orgânico cujas
moléculas contêm as instruções genéticas que coordenam o
desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos), mas
que são herdáveis pela mitose (divisão celular) ao longo das
gerações.
Por que eu trouxe este tema para um livro que trata de
relacionamentos?
Porque se o organismo pode sofrer mutações nos genomas,
imagine ocomportamento ou a personalidade? Além disso,
conhecer a nossa essência e o que pode a partir de agora ser
modificado é algo extraordinário. Corre-se o risco de entrarmos em
uma nova era, onde tudo pode ser de alguma forma modificado ou
adaptado. Tenho observado a influência de pessoas-chave na nossa
história e percebi que podem mudar completamente o rumo da
nossa vida e carreira. Resolvi estudar este tema na minha tese de
mestrado e assim que tiver mais dados vou apresentá-los a vocês.
Afinal, até que ponto copiamos o comportamento dos nossos pais
por imitação ou por influência genética? Será que nossos genomas
carregam também aspectos herdados da personalidade? Será que
poderemos fazer mutações para que as doenças não se repitam em
uma família que transmite alto grau de hereditariedade? Será que se
desenvolvermos a inteligência relacional agora, podemos passar
isso para os nossos filhos e netos? Isso é absolutamente fascinante.
Escutamos os pais dizerem: “esse é bravo, puxou a
personalidade do pai”. Dizemos isso em tom de brincadeira, mas até
que ponto isso não pode ser cientificamente comprovado?
Mesmo que a ciência consiga provar que determinadas
características são herdadas, ainda assim conseguiremos mudar o
nosso comportamento se quisermos? Fica ai uma boa tese ou tema
para o próximo livro.
Enquanto a ciência evolui, vamos entender um pouco mais o que
nós já podemos controlar: as emoções.
A sensibilidade social é o condutor de sucesso da Inteligência
Relacional.
O conceito de Inteligência Emocional de Goleman revolucionou
de tal forma, a ponto de nos instigar a entender como podemos
transportar inteligência à emoção, ou seja, cognição ao campo do
sentimento. Assim, nos tornamos mais capazes de resolver
problemas de foma adequada, pensando melhor nas nossas ações,
mesmo que exista uma forte dose de emoção envolvida na decisão.
Emoção e razão são as funções mais complexas que o cérebro é
capaz de executar. No nosso dia a dia, essas duas operações
mentais estão sempre engrenadas.
Se você precisa se preparar para uma apresentação muito
importante, por exemplo, você compra livros sobre o tema, lê,
escreve, estuda, organiza as informações, desmarca compromissos,
memoriza, raciocina, ensaia. Essa é a parte racional operando. Até
aqui você fez pleno uso da razão, mas na véspera da apresentação
você pode ficar nervoso, perder o sono, ter dor de barriga, o coração
dispara, a boca fica seca, ou seja, seu corpo sofre fortes ações
emocionais. Em alguns momentos, predomina a razão e em outros
a emoção. Pode ser que você consiga controlar essas variáveis e
tudo dará certo, mas nem sempre a história tem final feliz.
Na realidade, razão e emoção são aspectos de um mesmo e
ininterrupto processo, expressam as mais sofisticadas propriedades
do cérebro humano. Por isso mesmo, difíceis de serem definidas.
Mesmo para os neurocientistas, é difícil conceituá-las, porque
são operações mentais acompanhadas de experiência interior, e
essa tal “experiência interior” é diferente para cada um de nós.
Logo, muito difícil de ser medida, e nem sempre apresenta
repercussões orgânicas observáveis.
Por exemplo, como podemos medir a quantidade de medo ou de
ansiedade que cada um sofre em determinada situação? Sabemos
que não é igual para todo mundo, mas como podemos quantificá-
las? A razão também tem operações mentais difíceis de definir e
classificar. Como podemos avaliar o raciocínio, a forma de resolver
problemas ou de fazer cálculos em cada cérebro humano? Afinal,
pensamos de forma igual ou diferente, neurologicamente falando?
O que sabemos é que tanto a emoção quanto a razão usam
fortemente o sistema nervoso central, ou seja, nosso cérebro
trabalha o tempo todo para tentar equilibrar nossas ações e
reações, sejam racionais ou emocionais.
Destacamos pelo menos cinco utilidades fundamentais para as
emoções:
A sobrevivência da espécie: nossas emoções foram
desenvolvidas naturalmente em milhões de anos de evolução.
Como resultado, nossas emoções possuem o potencial de nos
servir como um sofisticado e delicado sistema interno de orientação.
Elas nos alertam quando as necessidades humanas naturais não
são encontradas. Por exemplo, quando nos sentimos sós, nossa
necessidade é encontrar outras pessoas. Quando nos sentimos
receosos, nossa necessidade é buscar por segurança. Quando nos
sentimos rejeitados, nossa necessidade é encontrar aceitação.
Movimentos básicos para a sobrevivência emocional humana.
Tomadas de decisão: nossas emoções são uma fonte valiosa de
informação e nos ajudam a tomar decisões. Estudos mostram que
quando as conexões emocionais de uma pessoa estão danificadas,
no cérebro, ela pode ter dificuldade de tomar decisões simples.
Basicamente porque não sentirá nada sobre suas escolhas. As
decisões estão sempre atreladas ao comportamento. No dia a dia,
avaliamos as informações comparando-as com os arquivos que
estão na nossa memória, ponderados de acordo com o significado
emocional. E assim tomamos as decisões, avaliamos o
custo/benefício fazendo uma previsão dos prováveis resultados das
nossas ações e finalmente tomamos a decisão que orienta o nosso
comportamento. Isso acontece muitas vezes por dia, em milésimos
de segundo, desde a escolha do que vestir, até o lado da rua pelo
qual se vai andar, ou mesmo decisões mais importantes e
complexas.
Os estudos de neuromarketing estão nos ajudando a entender
como fazemos a escolha de um produto em detrimento de outro, por
exemplo. Já existem equipamentos de última geração, como o eye
tracking, óculos capazes de monitorar o movimento ocular e mapear
para onde nossos olhos se fixam ao visualizarmos um produto, um
cartaz de propaganda, um site, etc. Assim podemos descobrir o que
chamou mais a atenção e o que nos faz comprar, ou seja, entender
como nossas decisões funcionam dentro do nosso cérebro. Se
olhamos para o desconto, para as características técnicas ou para a
descrição da qualidade do produto. Isso é fascinante, não acham?
Outras ferramentas complementam estudos como esses, como a
ressonância magnética funcional, o eletroencefalograma, as
respostas galvânicas da pele, o face reading e estudo das
expressões facial e da fisionomia. Psicólogos, estudiosos e
cientistas procuram entender as diferentes particularidades faciais e,
em seguida, relacioná-las aos traços de personalidade
correspondente, o que tem ajudado a desvendar crimes, entender
se as pessoas estão ou não mentindo, se gostam ou não de
alguém, o que pode evoluir para soluções de problemas nos
relacionamentos interpessoais.
Ajuste de limites: quando nos sentimos incomodados com o
comportamento de uma pessoa, nossas emoções nos alertam. Se
nós aprendermos a confiar em nossas emoções, sensações e na
nossa intuição, isto nos ajudará a ajustar nossos limites, que são
necessários para proteger nossa saúde física e mental. Esse é um
aspecto que precisamos respeitar e um dos princípios que mais
ajudam a nos tornarmos inteligentes relacionais.
Você já se “pegou” tomando uma decisão rápida sem saber
exatamente o porquê? Às vezes uma ótima ideia ou solução surge
aparentemente do nada.
Essa intrigante capacidade de acessar a resposta correta
rapidamente e sem esforço é o que chamamos de intuição. A
palavra intuitione, de origem latina, é formada pela junção de in–
dentro e tuere – olhar para. Seria a capacidade de voltar-se para si
mesmo e ouvir-se. Por isso é tão importante percebermos o que
acontece conosco e com o nosso organismo quando conhecemos
alguém. Se a sua intuição não for positiva, redobre seus cuidados,
até porque a intuição é difícil de ser explicada, mas o fato de não
sermos capazes de compreender algo tão claramente não significa
que não possamos recorrer à poderosa força de armazenamento da
memória. Não é possível sermos intuitivos em áreas pelas quais
temos pouco ou nenhum conhecimento prático. Sendo assim, até os
mais vagos palpites são baseados em algo tangível e só não
conseguimos muitas vezes explicar exatamente de onde eles vêm,
nem qual foi o registro que nos imprimiuessa informação.
É importante chamar a atenção para o fato de que não existe
intuição sem conteúdo e informação. Precisamos acessá-la de
algum lugar do nosso cérebro.
Existem estudos surpreendentes a respeito do impacto da
intuição nas nossas decisões e realmente parece haver uma
sabedoria biológica por trás desses sentimentos instantâneos.
O que precisamos lembrar é que a história de vida de cada um
de nós contém uma enorme reserva de experiências que modulam
nosso comportamento. Dessa forma, se um estranho se parece com
alguém que nos ameaçou ou machucou, no passado, é muito
provável que tenhamos uma reação cautelosa ou antipatizemos com
a pessoa, mesmo sem nos lembrarmos da experiência anterior.
Isso justifica por que muitas vezes não simpatizamos de cara
com alguém, mas precisamos cuidar com essas reações e ir um
pouco mais a fundo, para diferenciarmos se é uma intuição, um
“aviso” de que essa pessoa realmente não é bacana o suficiente
para a termos por perto, ou se por “azar” ela só se parece com
alguém que está no nosso registro, mas que pode ser uma
excelente pessoa.
Comunicação: as emoções também comunicam. Nossas
expressões faciais, por exemplo, podem demonstrar uma grande
quantidade de emoções. Com o olhar, podemos sinalizar quando
precisamos de ajuda. A habilidade verbal, juntamente com nossas
expressões, nos dá uma possibilidade infinita de expressar nossas
emoções. Atermo-nos à expressão das pessoas também nos torna
mais hábeis para entendermos os problemas dos outros. Já dizia
Pierre Weil, em O corpo fala. Se você ainda não leu esse livro é
uma excelente indicação de leitura.
União: nossas emoções são, talvez, a maior fonte potencial
capaz de unir todos os membros da espécie humana. Claramente,
as diferenças religiosas, culturais e políticas não permitem isso,
apesar das emoções serem “universais”.
Como apresentamos no início deste livro, muitos estudiosos têm
contribuído com informações riquíssimas a respeito do
desenvolvimento dos seres humanos e a forma como agimos e
pensamos. Charles Darwin (1809-1882) observou semelhanças
entre os animais e os indivíduos, na expressão corporal, facial e de
comportamentos como raiva, medo, fuga. Acredita-se que a
expressão das emoções é inata e não há dúvida de que garante a
sobrevivência da espécie. Como acontece com os animais, também
acontece conosco.
De forma instintiva, um animal predador só sobrevive quando
consegue dominar ou matar a presa. Isso explica por que alguns
indivíduos se comportam até hoje de forma tão primária e instintiva,
muitas vezes exagerada e descompassada, para tentar “controlar
sua presa”. No entanto, vale lembrar que a presa no mundo animal
geralmente é outro animal, e no mundo das pessoas, é outra
pessoa.
Por vezes, algumas pessoas, quando estão em desequilíbrio
consigo próprias ou com o ambiente, agem de forma instintiva,
predadora e pouco inteligente. Bater, espancar, exercer força física
ou psíquica sobre os outros, ou, ainda pior, matar e dominar outras
pessoas, é um comportamento esperado dos animais que agem por
instinto, não de seres humanos. Por falta de controle das nossas
emoções e de baixa inteligência emocional e relacional,
infelizmente, esse comportamento acaba por existir em maior ou
menor grau também nas pessoas.
Não há dúvida de que agimos em prol das nossas necessidades
e em defesa do que consideramos importante, mas precisamos
temperar as nossas ações com cautela, nos diferenciando dos
animais irracionais.
Por isso, é possível dizer que não é exatamente ou só a
inteligência e o aprendizado que nos diferenciam dos animais, até
porque através de experiências já sabemos que animais também
aprendem. O que de fato nos diferencia é a nossa capacidade de
controlar, respeitar e amar. A capacidade de sabermos agir de modo
ponderado, nos ajustando a diferentes situações e ocasiões,
independente de estarmos utilizando a intuição (cérebro reptiliano),
a emoção (cérebro límbico) ou a razão (cérebro racional ou
neocórtex).
A birra, a teimosia ou a necessidade de suprir imediatamente os
desejos de fome, sede ou qualquer necessidade básica são
facilmente verificadas nos bebês. Eles choram e se mostram
impacientes quando sentem qualquer desconforto, no entanto,
quanto mais amadurecemos, mais devemos ser capazes de
controlar nossos instintos de suprimento imediato, ou seja,
deixamos de agir apenas embasados no cérebro instintivo e
começamos a amadurecer e a usar as áreas mais elaboradas para
um processo decisório, como o neocórtex.
O amadurecimento deve nos levar a controlar o instinto básico e
a procurar, através de atitudes conscientes e consistentes, nosso
sustento e o suprimento das nossas necessidades básicas de
sobrevivência e de segurança.
Enquanto o ser humano se mostra dependente de alguém,
financeira ou emocionalmente, ainda não é maduro o suficiente para
se “bancar” sozinho, seja ele criança, adolescente ou adulto.
De fato, quanto mais conseguimos enfrentar os problemas da
vida, mais maduros nos tornamos. O contrário disso retrata um
imenso analfabetismo emocional. De acordo com Goleman, esse
conceito descreve a falta de controle sobre nossas emoções (falta
de controle do sistema límbico e cérebro instintivo). Sendo assim, se
não pensarmos racionalmente antes de agirmos, acabamos
tomando decisões de forma excepcionalmente instintiva e nos
tornamos analfabetos emocionais, nos comportando como animais
irracionais.
Então, de fato, o que nos diferencia enormemente dos animais é
o equilíbrio entre a emoção, a razão e a capacidade de nos
ajustarmos a diferentes situações.
O fato de nos livrarmos do analfabetismo emocional e relacional
é o que pode unir os membros da espécie humana visando mais
equilíbrio, amor e paz no mundo.
Vamos falar um pouco sobre maturidade emocional. Você sabe o
que significa e o impacto disso para a nossa vida?
Como já vimos, fomos programados para nos conectar. As
constantes descobertas sobre a arquitetura emocional do cérebro
retratam, nos exames de última geração, momentos de excepcional
excitação cerebral quando estamos repletos de felicidade ou de
tristeza, o que comprova existir constatação científica de que
sofremos o impacto dos relacionamentos no nosso cérebro, em
consequência, em todo o funcionamento do organismo.
A neurociência e a neuropsicologia têm trazido descobertas
brilhantes nessa área. Tudo indica que existe uma dinâmica neural
dos relacionamentos humanos.
Uma das primeiras teorias para explicar emoções data do século
XIX, trazida pelo psicólogo americano William James (1842-1910) e
por Carl Lange (1834-1910). Ambos defendiam que não existe
emoção sem que haja uma manifestação fisiológica, ou seja, tudo o
que sentimos causa impacto no organismo.
James e Lange defendiam que estímulos produzem mudanças
corporais que, por sua vez, geram emoções. Essa teoria sugere que
os estímulos estão primeiramente vinculados a respostas físicas,
que somente depois serão interpretadas como emoção, ou seja,
acreditava que primeiro chorávamos e depois ficávamos tristes. Um
pouco controverso.
Uma segunda teoria faz crítica a James e Lange, defendendo
que as mesmas manifestações fisiológicas podiam estar presentes
em emoções diferentes. Por exemplo, o choro ou aquela sensação
chamada de “aperto no peito” podem ser sentidas
independentemente de estarmos muito alegres ou muito tristes.
Defende então que o sistema nervoso central pode ser o causador
tanto de reações emocionais, como fisiológicas e comportamentais,
dando a entender que essas reações acontecem praticamente ao
mesmo tempo.
Em 1920, foram realizadas transecções do sistema nervoso
central com o fisiologista Walter Cannon (1871-1945), e essas
experiências levaram a surpreendentes descobertas. Primeiro,
foram feitas em animais e só mais tarde em humanos, em que foi
possível perceber que quando os cérebros sofrem lesões, geram
mudanças de comportamento e causam reações diferentes das
habituais, ou seja, pessoas dóceis e tranquilas, que se relacionavam
de forma amistosa, quando lesionadas em determinadasáreas do
cérebro, mudavam radicalmente seu comportamento para mais
agressivas e arredias.
Essa mudança comportamental pode acontecer também pelo
uso de medicamentos fortes, drogas psicotrópicas e psicoativas e
excesso de bebida. Todas as substâncias que estimulam
excessivamente o córtex e o sistema nervoso central levam a
mudanças bruscas de comportamento. Por isso as pessoas agem
de forma diferente quando estão “embriagadas” com essas
substâncias.
A teoria de Cannon-Bard foi a primeira tentativa concreta de
elucidar as bases neurais das emoções.
Bard explica que, quando um estímulo é recebido pelo córtex13, é
reconhecido como produtor de emoção e enviado para ativar os
centros encefálicos no hipotálamo14 e do sistema límbico15. Desta
parte do encéfalo os sinais são, então, enviados simultaneamente
aos músculos externos e órgãos internos e de volta ao neocórtex.
Os músculos e órgãos reagem e produzem reações fisiológicas para
a emoção, como taquicardia, por exemplo, enquanto o córtex
percebe o sinal como emoção. Assim, a teoria propõe que as
reações fisiológicas e psicológicas ocorrem simultaneamente.
Não podemos deixar de destacar a importância da amígdala,
uma das partes que compõem o sistema límbico. Revelou-se uma
estrutura de enorme relevância na descoberta das emoções.
Chama-se amígdala cerebelosa, ou simplesmente amígdala, e
funciona como uma espécie de “botão de disparo” e modulador de
toda a experiência emocional. Ela leva esse nome por ser parecida
com uma “amêndoa”, que em grego chama-se amígdala. Ela
compõe um conjunto de neurônios que formam uma massa
esfenoide de substância cinzenta.
Esta região do cérebro, que faz parte do sistema límbico, é um
importante centro regulador do comportamento agressivo, sexual e
de respostas emocionais a estímulos biologicamente relevantes.
Você deve estar se perguntando, mas o que isso tudo tem a ver
com relacionamentos?
Logo você entenderá como podemos, através dessas
informações, regular as nossas atitudes com relação aos outros.
Por ora, o que precisamos saber é que estas descobertas
esclarecedoras também nos ajudam a entender a dinâmica neural
dos relacionamentos humanos.
Desde a época de Freud, os psicoterapeutas observam que o
corpo espelha as emoções que o paciente está sentindo. Quando
um paciente começa a narrar uma lembrança dolorosa, o terapeuta
percebe que os olhos se enchem de lágrimas e a sensação parece
tomar conta de seu organismo, na junção mente e corpo.
Muitos terapeutas também parecem sentir a emoção e seu
estômago parece se contorcer diante de alguns relatos, além de
uma situação que chamamos de rapport, conceito que vem da
psicologia e compreende uma técnica usada para criar uma ligação
de sintonia e empatia com outra pessoa. Pode também ser usado
nos relacionamentos pessoais ou profissionais, porque cria laços de
compreensão entre dois ou mais indivíduos. Não significa aceitar
todas as opiniões da outra pessoa, nem se misturar com ela.
Lembrem-se de que só conseguimos verdadeiramente ajudar se nos
diferenciarmos, mas devemos ouvi-la e fazer com que ela veja que o
seu ponto de vista ou seus valores são compreendidos e
respeitados.
Além disso, também existe o conceito de neurônio-espelho, que
vamos ver a seguir.
Existem estudos inovadores e valiosos sobre o funcionamento
da nossa mente e o impacto disso nas nossas relações:
1. Um neurônio recém-descoberto, chamado célula
fusiforme, atua no cérebro com extrema velocidade, permitindo
que o ser humano tome decisões em milésimos de segundos.
Essas células existem em maior quantidade no cérebro humano
do que em qualquer outra espécie.
Como as células fusiformes estão envolvidas em rápidas
decisões, acredita-se que também ajudam no momento de fazer
julgamentos imediatos e intuitivos a respeito de alguém que
acabamos de conhecer. Embora os estudos ainda sejam
inconclusivos, Daniel Goleman destaca em seu livro que essas
células são parte do sistema cerebral que gera o amor, ou pelo
menos, o desejo sexual ou “amor à primeira vista”.
2. Pesquisas recentes mostram a importância do neurônio-
espelho.
Essas células foram descobertas por acaso em 1994, na
Universidade de Parma, na Itália, pelos neurocientistas Giacomo
Rizzolatti, Leonardo Fogassi e Vittorio Gallese. Eles constataram
que a simples observação de ações alheias ativava as mesmas
regiões do cérebro dos observadores. Ao que tudo indica, nossa
percepção visual inicia uma espécie de simulação ou duplicação
interna dos atos de outros.
Em 2001, um grupo coordenado por Giovanni Buccino, também
de Parma, resolveu estudar esses neurônios mais a fundo. Usando
ressonância magnética funcional (fMRI), os pesquisadores mediram
a atividade cerebral de voluntários enquanto eles assistiam a um
vídeo que mostrava sequências de movimentos de boca, mãos e
pés. Dependendo da parte do corpo que aparecia na tela, o córtex
motor dos observadores se ativava com maior intensidade na região
que correspondia à parte do corpo em questão, ainda que eles se
mantivessem absolutamente imóveis.
O mais impressionante é que essa descoberta tem levado
médicos e fisioterapeutas a lidar melhor com pacientes com
sequelas motoras decorrentes de acidente vascular cerebral – AVC.
Estudos feitos no Hospital Universitário de Schleswig-Holstein, em
Lübeck, na Alemanha, foram capazes de acelerar a reabilitação de
pacientes cujas regiões corticais motoras haviam sido lesionadas
por AVC.
Os pacientes assistiam a vídeos e tentavam imitar o que
acabavam de ver, a fim de consolidar a representação da sequência
no cérebro. Depois de 40 dias de treinamento, a habilidade motora
dos participantes melhorou muito mais rápido do que a dos
indivíduos do grupo de controle, que não assistiram a nenhum
vídeo.
O neurônio-espelho ativa um ato recíproco de imitação entre dois
ou mais animais. Nos humanos pode ser observado no córtex pré-
motor e no lobo parietal inferior. Dizem que o neurônio espelho é o
gatilho do meme16 (que nada tem a ver com os memes do Facebook
ou redes sociais; o meme é na realidade uma unidade da cultura,
que pode ser um comportamento, uma música, uma ideia, um
aprendizado, que pode ser passado de geração a geração pela
imitação. Arrisco-me a dizer que mais ou menos um “inconsciente
coletivo” moderno).
3. Quando as pessoas se olham e sentem-se atraídas umas
pelas outras, o cérebro imediatamente libera dopamina,
substância química indutora do prazer.
Aliás, aqui não podemos deixar de falar sobre a importância e o
impacto dos neurotransmissores no nosso comportamento e nas
nossas relações.
Neurotransmissor é uma substância química (neuroquímica)
produzida em uma célula do cérebro, o neurônio. Ele é capaz de
conduzir e transmitir uma informação de um neurônio a outro, ou
seja, a sinapse. Já falamos um pouco sobre isso nos primeiros
capítulos.
Os neurotransmissores são como combustíveis para o cérebro
realizar determinadas funções, e os clássicos são: a acetilcolina, as
catecolaminas (dopamina, adrenalina e noradrenalina) e a artista
principal, a serotonina.
A serotonina vem sendo utilizada no senso comum como a
substância sinônimo de felicidade. De fato, ela é responsável por
manter em equilíbrio diversas ações comportamentais.
É uma substância que em maior ou menor quantidade pode
causar depressão, ansiedade, agressividade, raiva, irritabilidade ou
trazer mais felicidade e tranquilidade. Participa também de outras
funções importantes no organismo, como apetite, controle de
temperatura, sono, náuseas e vômitos, sexualidade e, é claro, tem
um impacto avassalador no sistema de dor.
A carência ou desequilíbrio dessa substância leva a transtornos
do humor e ansiedade. A deficiência na sua transmissão através
das fendas sinápticas dos neurônios pode levar à depressão. Dessa
forma, a ação da maioria dos antidepressivos é retardar a
metabolização da serotonina fazendo com que ela fique por mais
tempo atuando nos espaços entre os neurônios.
O que queremos ressaltar com essas informações é que o nosso
organismo precisa estar em equilíbrio paraconseguirmos nos
relacionar bem. Se estiver em estado depressivo, você não vai ter
vontade de sair de casa, de conhecer pessoas e de se relacionar de
forma efetiva e positiva.
Se os neurotransmissores atuam diretamente no nosso cérebro
e no nosso humor, precisamos mantê-los em equilíbrio para que a
nossa motivação e a maneira como nos comportamos não altere o
nosso vínculo com as pessoas que convivem conosco.
Afinal, ninguém gosta de conviver com pessoas carrancudas,
mal-humoradas ou pessimistas.
Se você identifica esses sintomas em si mesmo ou em pessoas
próximas, procure ajuda. O uso de medicamentos não é a única
nem a melhor alternativa. Existem várias possibilidades ainda mais
saudáveis para equilibrar o impacto dessas substâncias, como
exercício físico, ioga, relaxamento, meditação, reiki, homeopatia,
psicoterapia, terapias holísticas e alternativas, entre outros. Procure
o método que melhor lhe convém.
Se você quiser saber mais pesquise sobre hormônios e
neurotransmissores e entenda o enorme impacto que eles causam
na nossa vida e nas nossas relações pessoais e profissionais.
11. Neurônio – célula do sistema nervoso responsável pela condução do impulso nervoso –
localizado no cérebro. Pode ser considerado a unidade básica da estrutura do cérebro e do
sistema nervoso.
12. Circuito sináptico neuronal – ligações entre os neurônios. A sinapse é o chip do sistema
nervoso e é capaz de transmitir mensagens entre duas células, bloqueá-las ou ainda
modificá-las inteiramente. (Cem milhões de neurônios – Robert Lent – 2 ed.).
13. O córtex cerebral corresponde à camada mais externa do cérebro dos vertebrados,
sendo rico em neurônios e o local do processamento neural mais sofisticado e distinto.
Desempenha papel central em funções complexas do cérebro como na memória, atenção,
consciência, linguagem, percepção e pensamento. https://goo.gl/eJDB4n
14. Hipotálamo, região do encéfalo dos mamíferos (tamanho aproximado ao de uma
amêndoa) localizada sob o tálamo. Liga o sistema nervoso ao endócrino, sintetizando a
secreção de neuro-hormônios, por isso é também chamado de “liberador de hormônios”,
sendo necessário no controle da secreção de hormônios da glândula pituitária, entre eles
na liberação da gonadotrofina. https://goo.gl/GPBnRz
15. Sistema límbico, localizado na superfície medial do cérebro dos mamíferos. É a
resposta cerebral para atividades e comportamentos sociais. Sua função é integrar
informações sensitivo-sensoriais com o estado psíquico interno, onde se atribui um
conteúdo afetivo a esses estímulos, a informação é registrada e relacionada com as
memórias pré-existentes, o que leva à produção de uma resposta emocional adequada,
consciente e/ou vegetativa. https://goo.gl/54ZDQ3
16. Meme: Richard Dawkins, em seu livro O gene egoísta, de 1976, apresenta uma
perspectiva genética da evolução e introduz o termo meme para designar unidades de
informação autorreplicáveis que, a partir de alguma mutação aleatória, se reproduzem em
nossos genes pela seleção natural genética. A ideia coloca toda a cultura humana como
fruto de informação copiada, modificada e selecionada. Assim como nossas características
físicas e biológicas, nossas ideias e nossa própria cultura também teriam passado pelo
crivo da seleção natural. Os memes são padrões cognitivos que atravessam gerações e
moldam a percepção da realidade.
Capítulo 4
O que é inteligência relacional e
qual a sua importância para o
sucesso e a felicidade?
Dalai Lama disse certa uma vez: “Quando aprendemos a usar a
inteligência e a bondade ou afeto em conjunto, os atos humanos
passam a ser construtivos. Amor e compaixão são necessidades,
não luxos. Sem eles, a humanidade não pode sobreviver.”
Parece simples, mas se olharmos com cuidado e profundidade
para essa frase, podemos entender melhor a base da Inteligência
Relacional.
Você já pensou nestas questões?
1. Sobrevivemos sem os outros?
2. Como eram as pessoas que mais influenciaram a sua infância
e consequentemente seus valores?
3. Quem ajudou a moldar suas emoções?
4. Você gosta da forma como age com as pessoas?
5. Se tivesse que mudar algo no seu comportamento e na forma
como trata as pessoas, o que você mudaria?
Se eu lhe der a garantia de que pode modificar isso em você,
tenho certeza de que vai caminhar comigo até o final deste livro,
porque será uma pessoa bem mais interessante e mais bem-
sucedida em várias áreas da sua vida, quando for capaz de
desenvolver sua inteligência relacional e controlar algumas reações
quase instintivas que gerenciam o seu comportamento.
Minha proposta é que você trabalhe seus relacionamentos de
forma que consiga sentir prazer em estar com as pessoas e que
saiba escolher aquelas que podem despertar o que há de melhor
em si e que você seja capaz de estimular o que há de melhor nos
outros. Chega de apostar em relacionamentos tóxicos ou em
pessoas que pouco acrescentam ou que te ferem.
Como já falamos, Goleman trouxe o conceito da inteligência
emocional como maior responsável pelo sucesso ou insucesso das
pessoas. Praticamente todas as situações da nossa vida e do nosso
trabalho são envolvidas por relacionamentos entre as pessoas. Ele
defende que pessoas com qualidades de relacionamento humano,
como afabilidade, compreensão e gentileza, têm mais chances de
obter o sucesso.
Como o ser humano é por natureza um ser relacional e
precisamos dessa troca e desse convívio para a nossa
sobrevivência, desenvolvi o conceito de IR – INTELIGÊNCIA
RELACIONAL e algumas técnicas para otimizá-la, já que nossas
relações precisam de uma configuração saudável e de constante
aprendizado.
Inteligência Relacional é a inteligência que nos conecta ao
mundo pelas pessoas. É a habilidade de nos relacionarmos de
forma positiva com os outros, entendendo suas necessidades e
estabelecendo uma conexão que traga cooperação, ganhos e boas
energias para as partes.
Contam-se em milhares os anos de prática que trazemos na arte
dos relacionamentos, porque o ser humano é relacional desde
sempre. No instante em que nascemos, confiamos nossa vida à
outra pessoa, e essa é a chance que temos para sobreviver.
Lembre-se de que enquanto bebês, somos completamente
dependentes de alguém que supra as nossas necessidades básicas
de alimento, higiene, segurança e proteção.
Desde o nascimento aprendemos também a imitar os que nos
cercam em todas as tarefas do cotidiano, desde a forma de comer,
os hábitos de escovar os dentes, de tomar banho e, assim, até as
estratégias que mantêm a nossa sobrevivência, como estudo,
aprendizado, desenvolvimento pessoal e trabalho.
É mais confortável para o ser humano agir sustentado no que é
familiar e conhecido. Por isso tantos filhos imitam a profissão dos
pais e seus comportamentos. Passamos boa parte da nossa vida
imitando comportamentos e aprimorando o que achamos ou não
correto nas pessoas. É claro que a convivência também estimula
algumas habilidades, como, por exemplo, famílias de músicos ou
artistas, em que todos acabam aprendendo desde cedo a cantar ou
a tocar instrumentos. Famílias com vários médicos, advogados,
marceneiros, caminhoneiros, etc. Assim pode acontecer com várias
profissões.
O que vem em mente quando você pensa em relacionamento?
Os relacionamentos existentes em sua vida acrescentam ou
subtraem? Sabemos que eles podem ser deliciosos, ofensivos,
agradáveis, enganosos, sinceros, doentios, afáveis ou
preconceituosos.
Certamente você já sentiu essas emoções no convívio com
outras pessoas ou nas relações que teve no decorrer da sua vida.
Como devemos agir, então?
Sempre que as pessoas se juntam em pares ou grupos, existe
algum tipo de reação. Como já dissemos, cada pessoa tem um
estilo, uma personalidade, um perfil, absorveu a sua cultura, suas
vivências e valores próprios e por isso mesmo é tão difícil conviver.
Cada um traz para suas relações a sua bagagem anterior e
reage a uma situação de acordo com as suas vivências e com os
princípios e valores que absorve no decorrer de sua vida.
Por isso precisamos entender comopodemos tirar proveito das
nossas relações, nos afastarmos de relacionamentos que nos fazem
mal, que confundimos com amor, mas que são pura dependência
afetiva e psicológica.
Partindo do princípio de que as relações humanas são vitais para
a nossa sobrevivência e para o nosso bem-estar, precisamos trazer
alegria e suavidade aos nossos relacionamentos. Quem não tem
alguém próximo com dificuldade para se relacionar? Seja um filho,
chefe, alguém da equipe, vizinho, amigo, ou mesmo um irmão?
Por que isso acontece? Por que nos frustramos com as
pessoas?
Simplesmente porque nós existimos em relação “ao outro”.
Como vimos, desde que nascemos, crescemos respaldados no que
aprendemos com as pessoas que cuidam de nós, e, por isso,
acabamos depositando expectativas nos outros e desejamos que
correspondam com o que esperamos deles.
Esquecemos as diferenças e esperamos que as pessoas reajam
às situações como nós reagiríamos. Acreditamos que devem fazer
as coisas como nós faríamos, mas não é assim que acontece, e,
desculpe frustrá-lo, isso não vai acontecer exatamente como você
quer que aconteça. As pessoas são diferentes de você e aí é que
está a grande frustração dos relacionamentos e ao mesmo tempo o
grande brilhantismo das relações. É exatamente aqui que surgem os
maiores conflitos relacionais.
Expectativas são reais ou fantasias?
A vida é repleta de aprendizados e desafios. Não há dúvida de
que trabalhar ou conviver com pessoas com quem não temos um
forte vínculo afetivo ou que não têm uma influência significativa
sobre nós é mais simples. O problema está nas convivências
afetivas, das quais nos enchemos de expectativa.
Sempre colocamos muitas expectativas na relação com o outro,
e quando elas não se realizam nos sentimos frustrados. O mais
interessante é que criamos a nossa própria fantasia de como
queríamos que a pessoa fosse e achamos que ela tem que
corresponder com o que imaginamos e criamos a respeito dela. Na
maioria das vezes, elas não sabem sequer o que queremos, não
dizemos isso a elas, mas esperamos que se comportem como
gostaríamos.
Isso não é fantasioso? Como podemos esperar algo de
alguém que não sabe o que nós esperamos dela?
Certa vez, atendi uma mulher no consultório que já tinha mais ou
menos uns cinquenta anos de idade e quase trinta anos de casada.
Ela chorou em uma sessão me contando que nestes anos todos
nunca ganhou um relógio do marido e que esse era seu maior
sonho. Ele deu muitas outras coisas a ela, mas nunca lhe dera o
relógio que tanto esperava. Perguntei quantas vezes ela pediu o
relógio e, para a minha surpresa, ela respondeu: nenhuma!
Quem afinal agiu errado? Ele, que nunca soube que ela queria
um relógio e por isso nunca o deu, ou ela, que nunca teve a
objetividade de, em trinta anos de casada, dizer a ele que queria um
relógio?
Depositar de forma cega e exacerbada nossas expectativas nas
pessoas, esperando que elas sejam o que nós gostaríamos que elas
fossem, é sinal de baixa inteligência relacional.
O que seria um alto índice de Inteligência Relacional é
simplesmente aceitar as pessoas como elas são, respeitando o
modo e o jeito de ser de cada um.
Além da aceitação, devemos falar de forma mais clara o que
esperamos delas e que expectativa colocamos nessa relação. Essa
comunicação transparente e clara é importante desde o começo do
relacionamento.
O mesmo acontece com as situações que vivemos no nosso dia
a dia. Elas também são recheadas de expectativa. Uma outra cliente
estava me contando sobre a decepção que teve no seu aniversário
de casamento.
Ela imaginou que o marido deveria acordá-la com flores e/ou um
café da manhã na cama. Que, no almoço, mesmo que rápido, eles
fariam um brinde para comemorar, e que à noite sairiam para jantar.
Contou detalhes de como ela achava que ele deveria se comportar,
como ele deveria ser gentil e abrir a porta do carro, puxar a cadeira
do restaurante, dizer que a amava e que ela era a mulher da vida
dele. Ao contrário de tudo isso, ele não se lembrou do aniversário de
casamento nem pela manhã, nem na hora do almoço. No meio da
tarde, ela mandou uma mensagem (já meio irritada, mas, segundo
ela, se esforçou para ser carinhosa), lembrando-o da data para ver
se ele a convidava, enfim, para jantar e comemorar. Isso aconteceu.
Ele acabou se desculpando e saíram para jantar, embora não tenha
puxado a cadeira do restaurante e nem aberto a porta do carro. O
fato é que, depois de tanta imaginação e expectativa, nada, a partir
daquele momento, foi muito legal.
A questão é: se ela não tivesse colocado tanta expectativa, não
tivesse imaginado tantos detalhes e tivesse lembrado seu marido
uns dias antes, poderia ter sido tudo diferente, não poderia?
Entendo que esquecer datas importantes não é bacana, mas
algumas pessoas são mais distraídas e talvez não valha a pena
fazermos disso um caminhão de batalhas. O que será que essas
pessoas têm de bom? Por que você escolheu essa pessoa? Será
que existem outras características ou aptidões que eles apresentam
que compensam essas falhas e que também sejam importantes
para o casamento?
Criar expectativa não é errado, mas esperar que as pessoas
ajam da maneira que nós agiríamos ou como nós gostaríamos que
elas agissem é, sim, bastante fantasioso e utópico.
Por isso constatamos que a expectativa é uma projeção do
nosso inconsciente e que dificilmente será correspondida. Como o
outro não é você, as decepções certamente vão acontecer e
consequentemente os conflitos.
Então é isso! A expectativa é uma imaginação que, na maioria
das vezes, é frustrada porque nunca vai corresponder exatamente
ao que pensamos ou queremos.
Por conta disso, uma grande batalha se inicia e essa falta de
ajuste dos desejos e expectativas de cada um é sem dúvida um dos
maiores causadores do fracasso e dos conflitos de uma relação.
Como você pode fazer para manter relacionamentos
saudáveis?
Esta é a pergunta que sempre recebo. Vale pensar que estas
coisas acontecem por algumas razões:
1. Esperamos que as pessoas ajam como nós gostaríamos, mas
esquecemos de falar a elas o que pensamos, queremos e
imaginamos. Devo lembrar que ninguém nasce com uma bola de
cristal acoplada ao corpo. Mesmo as pessoas que te conhecem
profundamente não vão conseguir corresponder com tudo o que
você pensa ou imagina a respeito delas. Sendo assim, imagine
menos e se comunique mais e melhor.
2. A segunda é que não podemos controlar o comportamento
dos outros. Mesmo que esse outro seja nosso filho ou outra a quem
amamos, cada um de nós tem sua própria personalidade. Se não
tiverem, algo está errado. Cada um precisa tornar-se um ser único e
individual, pois esta é a base da sobrevivência humana. Para
sobreviver precisamos estruturar nossa personalidade. Somos seres
singulares, únicos e donos das nossas próprias emoções e reações.
3. A terceira razão é que precisamos nos enxergar e enxergar o
nosso papel na relação com os outros, antes de sairmos por aí
sempre culpando o outro e achando que tudo o que ele faz está
errado. Pense um pouco nas características e nas habilidades de
cada um. Assim, respeitando os “estilos”, cada um pode colaborar
da sua maneira.
Se você é mais detalhista, por exemplo, faça coisas que podem
ajudar nesse sentido, e se o outro é mais aventureiro, deixe que ele
ouse e quebre a rotina da relação. Aproveitem as diferenças e
usem-nas a favor da relação e não contra.
Enquanto continuarmos sempre colocando a culpa “no outro”,
esperando que as pessoas ajam como agiríamos, encontraremos
dificuldade para resolver as situações com as quais nos deparamos
todos os dias, seja com as pessoas do nosso convívio pessoal ou
profissional.
Quando os relacionamentos nos causam angústia, precisamos
recuar um pouco para enxergar nosso papel na relação.
Claro que existem pessoas complicadas, que trazem problemas,
e das quais devemos mesmo nos afastar ou no mínimo evitar o
envolvimento. Para isso podemos usar uma série de mecanismos,
como a intuição, como já falamos no capítulo anterior.
Precisamos antes entender nossa dor e nossosmedos. Entender
nosso mecanismo e nossas carências é o primeiro passo para
enfraquecer o poder que esses sentimentos ruins exercem sobre
nós.
Quando conhecemos a nós mesmos fica bem mais fácil entrar
em um relacionamento e fazê-lo funcionar plenamente.
O que precisamos ter claro é que a mudança tem de partir de
nós. Perdemos muito tempo culpando as pessoas e deixamos de
ser humanos, de ter compaixão, generosidade, paciência e
sensibilidade. Estamos sempre reativos e prontos a atacar, o que
acaba gerando ainda mais revolta e conflito.
É preciso nos darmos conta de que o melhor caminho é a
autoconsciência e o autoconhecimento. Explorar melhor e entender
a fundo nossa dor, nossas dificuldades e nossos medos é a única
forma de fortalecer imensamente as nossas relações. A psicologia
explica claramente que temos a tendência a culpar as pessoas por
nossos fracassos, por simples falta de segurança em olharmos para
nós mesmos e corrigirmos nossos próprios erros.
É importante que possamos nos dar conta de que sabotamos
nossos relacionamentos involuntariamente, em função dos nossos
próprios receios e “fantasmas”.
Na maioria das vezes, basta uma mudança de atitude diante de
uma relação para que toda a dinâmica do relacionamento se refaça,
ou seja, as pessoas que agiam de determinada forma conosco
acabam tendo que se readaptar e modificar o seu jeito também.
Se as pessoas fazem conosco o que nós permitimos, quando
não permitimos elas param de fazer. Se não param é a hora de
cairmos fora dessa relação. Aí, sim, são relações tóxicas que não
merecem a nossa consideração.
Relacionamentos funcionam como um sistema. Por isso,
costumo comparar um relacionamento com uma teia de aranha.
Quando puxamos um fio, ela toda se refaz. Muitas vezes basta uma
única pessoa mover-se em prol de uma ação positiva como terapia,
coach ou algum trabalho de autoconhecimento, que a dinâmica de
todo o sistema se modifica, seja na família, na empresa ou qualquer
outra instituição social.
Tenho escutado muitas estórias assim, nas quais a mudança de
atitude de uma única pessoa modifica a dinâmica do relacionamento
como um todo.
Certa vez, passei por uma situação conflituosa e desgastante
com duas amigas de que gostava muito. Em determinado momento
da vida apresentei uma à outra, ambas eram minhas amigas da
época da adolescência. Imaginei que poderiam ter coisas em
comum, já que os filhos tinham idades próximas, os maridos
trabalhavam com atividades semelhantes, tinham a mesma crença
religiosa, enfim, acreditei que seria uma relação boa para todos.
O relacionamento delas, talvez por essas afinidades, deu tão
certo que, em pouco tempo, ficaram superamigas. Passaram a
viajar juntas, a sair juntas e não me convidavam ou avisavam em
cima da hora, de forma que eu não teria tempo de me organizar e
estar presente. Também comecei a notar que, quando saíamos
todas juntas elas conversavam entre elas, até porque estavam se
encontrando mais, tinham mais histórias em comum e eu ficava
meio como uma “carta fora do baralho”. Percebi que começaram a
me tratar de um jeito diferente, me contavam pouco de si próprias,
tornaram-se mais arredias, mas eu não tinha a menor ideia do por
que isso acontecia.
Já aconteceu algo semelhante com você?
Cada vez que saíamos juntas eu voltava com uma sensação
estranha, como se estivesse com vinte quilos a mais, com um mal-
estar gigantesco, dor de cabeça ou nas costas e não conseguia
entender direito o que estava acontecendo. Como psicóloga e
estudiosa dos relacionamentos humanos, comecei a dar um pouco
mais de importância às minhas sensações, intuições e emoções e
percebi que a coisa mais saudável a ser feita naquele momento
seria me afastar.
Dias depois, por acaso, li em um caderno velho da faculdade a
frase de Timothy Leary, que dizia assim: “Ligue-se, sintonize-se e
caia fora.”
Naquele momento, essa frase fez um imenso sentido para mim.
Passei algum tempo tentando entender esse fato. Embora já
tivesse escrevendo este livro, essa situação me ajudou a
reconhecer como realmente os relacionamentos são importantes
para nós e como uma situação como essa traz desconforto e certo
mal-estar difícil de explicar.
Fato! Quando temos dificuldades com os nossos
relacionamentos ficamos desconcertados e tristes.
Eu percebi que era hora de usar a minha inteligência relacional
para entender como me deixei envolver naquela situação, o que eu
deixei de enxergar, de aprender e, principalmente, o que eu
precisava mudar.
Tenho claro que as coisas não acontecem conosco por acaso e
talvez eu também tivesse que rever minhas atitudes, meus
conceitos, minhas escolhas, minha maneira de agir, pensar ou falar.
Não há dúvida de que essa situação me trouxe um belíssimo
aprendizado.
Nessa mesma época, estava em uma fase de constante
questionamento com várias áreas da minha vida e sabia que era
hora de mudar.
Andava desanimada até com a minha vida profissional, e isso
parecia muito estranho, já que sempre amei meu trabalho. Percebia
que ele estava repetitivo e pouco desafiador. Meu marido andava
reclamando que precisa oxigenar e fazer algo diferente também e
nosso relacionamento estava entrando em um comodismo perigoso.
Também estava com uma filha no auge da adolescência, que
começou a apresentar dificuldades na escola e conviver com
amigos que não pareciam muito legais. Ela queria passar mais
tempo na rua do que em casa. A única coisa que parecia bem era a
nossa filha mais velha, que estava na faculdade, trabalhava o dia
inteiro, corria muito, e parecia estar feliz, mas tinha muito pouco
tempo para nós.
Alerta vermelho! Era hora de mudar!
Por coincidência (embora eu não acredite muito em
coincidências, acho que as coisas conspiram a favor quando
realmente desejamos), eu tinha um projeto para passar um tempo
fora do país, já que precisava reforçar o inglês e sempre quis morar
fora. Naquele momento tive a certeza de que chegara a hora.
Eu, meu marido e minha filha mais nova ficamos quase dois
anos fora do Brasil, em uma imersão de experiências novas e muito
conhecimento. Foi um aprendizado cultural, linguístico, dos
costumes e da rica observação do comportamento e de outras
formas de se relacionar, que era a minha grande necessidade e
fome de conhecimento.
Estávamos sedentos por estudar e observar os costumes
americanos, como compram e vendem, como consomem, como
negociam, como interagem e como convivem.
Parece ter nascido com eles a forma de manter respeito e
educação em determinadas situações, como no trânsito ou em
lugares públicos. Analisei a rica diferença na formação e na
educação dos alunos, por acompanhar minha filha no ensino
médio/high school. Enfim, aprendemos como os americanos vivem.
Resolvi também experimentar uma nova religião e na igreja que
frequentei conheci pessoas maravilhosas, que se tornaram
referência de bondade para mim. Tivemos ainda a sorte de conviver
e contar com o apoio incondicional de amigos brasileiros que
moravam lá e que foram excepcionais conosco em todo o período
da nossa estada, da chegada à partida. Vivemos a experiência do
compartilhamento e da solidariedade. A experiência de viver e morar
em outra sociedade é um crescimento pessoal inigualável.
Tive a chance de falar com pessoas que nunca tinha visto e
provavelmente nunca mais verei. Também tive a oportunidade de
me manter em contato estreito com a minha solidão. Como meu
marido viajava muito para o Brasil (por causa do trabalho) e minha
filha tinha várias atividades durante o dia, eu passava horas
sozinha, pensando, estudando e escrevendo, sem falar com
absolutamente ninguém.
Às vezes, falava por mensagem com algumas pessoas e me
tornei mais interativa nas redes sociais, mas naquele momento vivi a
mais rica experiência que alguém poderia ter. Constatei que a troca,
a amizade, a saudade, a família e a importância das pessoas na
nossa vida são de fato o que nos mantém vivos.
Essa experiência, somando a tudo o que vivi na infância e as
mudanças que tive no decorrer da minha vida, e contei para vocês
na introdução deste livro,me proporcionaram ainda maior
consciência e autoconhecimento a respeito das relações. Tenho
clareza de que a nossa felicidade e realização só dependem de nós.
É através da convivência e da troca com outras pessoas que
alcançamos aprendizado, equilíbrio e harmonia para a nossa vida.
Durante esse tempo passei por experiências riquíssimas e
algumas muito dolorosas. Tive a plena convicção de que as pessoas
que amamos e que nos amam também nos machucam, e que nós
também muitas vezes as magoamos, mas que, apesar de tudo, o
sofrimento e a solidão nos tornam ainda mais humanos.
Enfim, depois de quase vinte meses de imersão entendi que
podemos escolher um caminho de mais profundidade e relevância e
que as pequenas coisas pouco importam. As marcas, as grifes, as
futilidades são completamente descartáveis quando entendemos
que sem as pessoas não somos nada, não somos ninguém. Quando
entendemos de forma verdadeira que o ser importa muito mais que
o ter, e que os verdadeiros relacionamentos nos enobrecem, todo o
resto perde força, fica pequeno, desnecessário. Os pequenos
conflitos também perdem a força e o espaço em nosso coração.
Depois de todo esse aprendizado, concluí que fiz a coisa certa e
que, naquela situação, tinha mesmo que me afastar do Brasil e das
atividades repetitivas e pouco desafiadoras que estava vivendo.
Precisava de um momento de introspecção e aprendizado, então foi
o momento ideal para uma imersão completa e profunda.
Passei a ter mais clareza do que me fazia falta e do que poderia
ser descartado sem absolutamente nenhum problema. Para ser
honesta, descartei coisas e me afastei de pessoas com um pouco
de dor, mas com a certeza de que relacionamentos tóxicos são
desnecessários e precisam ser afastados.
O que aprendi com a distância e com meus novos amigos na
América do Norte?
1. A ser mais inteligente na forma de me relacionar,
2. A fazer melhores escolhas respeitando a intuição e os sinais
que as pessoas nos dão,
3. Relacionamentos são desafios que só errando nos levam a
acertar,
4. A me blindar de pessoas tóxicas, entendendo que algumas
pessoas não têm maturidade para se relacionar de forma inteligente,
5. A perdoar a atitude daqueles que ainda não têm inteligência
relacional e emocional para lidar com situações incomuns ou que
requerem mais percepção e cuidado com o outro,
6. Que a distância é positiva em várias situações e que dedicar
tempo para estar só é um dos processos de análise mais profundos
que o ser humano pode experimentar,
7. Que muitas vezes as pessoas tomam decisões por
imaturidade, insegurança, medo ou pela incapacidade e
desconhecimento emocional de como fazer escolhas melhores,
8. A desvendar as pessoas mais próximas e a respeitar as
diferenças. Entendi acima de tudo que só conhecemos
verdadeiramente as pessoas com quem convivemos quando nos
afastamos do dia a dia e do convívio social com outros, dedicando
tempo para as nossas relações,
9. Conheci a melhor forma de “ler” as pessoas e entender melhor
o que era realmente importante para elas.
Neste turbilhão de aprendizado, hoje sei que sou capaz de lidar
de forma mais inteligente com as pessoas. Enriqueci o que estudava
sobre inteligência nos relacionamentos, e com minha própria
experiência enriqueci os conceitos deste livro.
Lembram-se da estória das minhas amigas? Pois é, o mais
estranho, para minha surpresa, é que poucos meses depois que fui
embora a relação delas esfriou, elas se distanciaram. Até hoje eu
não sei direito o porquê.
Acredito que houve várias razões, que a mim, não cabe julgar.
Vamos nos limitar a entender que para termos uma relação mais
saudável com as pessoas precisamos:
1. conhecer melhor a nós mesmos e ter clareza da importância
de cada relacionamento na nossa vida,
2. perdoar as pessoas e tentar relevar seus medos,
inseguranças e fraquezas,
3. observar melhor e tentar conhecer com mais profundidade as
pessoas antes de assumirmos um relacionamento mais próximo ou
íntimo com elas,
4. evitar muita proximidade com pessoas que podem nos parecer
mais “tóxicas” para que os relacionamentos não interfiram
negativamente no dia a dia ou nas decisões e escolhas mais
relevantes,
5. entender que existem várias formas de amar e que, para
muitos, a competição e a disputa também mantêm uma relação, e
quando o “objeto” de disputa desaparece a relação pode
simplesmente deixar de existir,
6. aprender com os erros que cometemos nos nossos
relacionamentos e evitar repeti-los em outras situações.
O que vale é que devemos aprender por que os relacionamentos
e as pessoas são tão importantes para nós e como tirar proveito de
cada experiência, de cada relacionamento. Elas devem servir de
apoio para que escolhas melhores sejam feitas e para que a gente
não repita o mesmo erro em outras relações. O aprendizado que
levamos de cada vivência, por mais doloroso ou tóxico que pareça,
sempre nos ensina.
BAIXA
INTELIGÊNCIA
RELACIONAL
ALTA
INTELIGÊNCIA
RELACIONAL
1. Desconfiança em
excesso não leva a
lugar nenhum.
1. Nascemos
relacionais e
precisamos do outro
para sobreviver,
então, com cuidado
atribua importância,
acredite e confie nas
pessoas.
2. Culpar os outros
sempre ou por suas
próprias falhas.
2. Antes de culpar
os outros, procure
entender seus
medos, receios e
suas dores.
3. Depositar de
forma cega e
exacerbada nossas
expectativas nas
pessoas. Elas são
fantasias e não
realidade; não vai
acontecer
exatamente como
você quer.
3. Seja realista em
seus
relacionamentos;
imagine menos e se
comunique mais e
melhor; alinhe e
faça ajustes
avaliando o que as
pessoas podem lhe
entregar.
4. Não perceber
pessoas
complicadas e
difíceis.
4. Fique atento à
sua intuição e a
possíveis sinais
positivos e
negativos que as
pessoas dão.
5. Tentar controlar o
comportamento do
outro.
5. Entenda que cada
ser humano tem sua
própria
personalidade, suas
emoções e reações
individuais.
individuais.
6. Não enxergar o
que é seu e o que é
do outro e não
diferenciar
características e
habilidades
pessoais.
6. Saiba diferenciar
o papel de cada um
na relação; use as
diferenças a seu
favor e não como
competidores dentro
da relação; respeite
as diferenças e o
jeito de ser de cada
um.
7. Não assumir que
você precisa
procurar ajuda ou
mudar o seu
comportamento ao
tratar e se relacionar
com os outros.
7. Olhe para si
próprio e para os
seus defeitos e
dificuldades, sem
deixar de valorizar
as suas habilidades
também.
Capítulo 5
Desafios e conflitos: por que
repetimos erros nos
relacionamentos?
Pode parecer óbvio, mas é incrível o quanto as pessoas caem na
mesma “armadilha” sem perceber. Muitos casais se separam,
criticam o parceiro anterior, dizem que jamais se envolverão com
pessoas parecidas com a/o ex, no entanto, não só se envolvem
como acabam casando ou se relacionando com outra pessoa muito
parecida com a anterior. Isso acontece por várias razões:
1. Porque nossa história e nossas experiências delimitam um
tipo de comportamento e de admiração por algumas personalidades
que nos vão atrair no decorrer da vida.
2. Por identificação com as pessoas que influenciaram nossa
educação e nosso comportamento.
3. Por influência da cultura e dos nossos antepassados, que nem
imaginamos nos afetar, mas que ficam registrados na nossa
memória emocional, o que Carl Gustav Jung chamou de
inconsciente coletivo e a nova genética, a Epigenética.
Jung afirmava que os mitos e símbolos são surpreendentemente
parecidos ao longo dos séculos em diferentes culturas ao redor do
mundo. Essas sociedades, mesmo que distantes, quando estudadas
por ele, apresentavam um misterioso compartilhamento de mitos e
símbolos (que segundo ele ficam registrados na nossa memória sob
a forma de arquétipos, ou padrões de comportamento que repetimos
sem nos darmos conta), o que o fez acreditar que a psique humana
é fruto de algo maior do que meramente as nossas experiências
individuais.
Dessa forma, sofremos influências que podem advir da cultura,
da família ou da genética/epigenética.Tudo isso forma a nossa
personalidade e está enraizado no nosso comportamento17.
A questão é que o fato de ser inconsciente faz com que as
pessoas reproduzam o mesmo comportamento sem se dar conta.
Por isso, processos terapêuticos ou de análise têm a pretensão de
trazer à tona essas percepções, blindando-nos de armadilhas
inconscientes que não somos capazes de perceber sem a ajuda de
questionamentos mais aprofundados. Tudo que vem para a
consciência pode ser modificado, mas o que não vem fica
escondido, camuflado e sem oportunidade de mudança ou melhoria.
Há alguns anos conheci uma moça muito meiga, que estava no
seu segundo casamento, que, por sinal, também já estava em crise.
Tive um contato razoavelmente estreito com o casal e pude
acompanhar um pouco dessa tumultuada relação. Ela me relatava o
que acontecia e contava algumas brigas com seu parceiro.
Uma vez me perguntou:
– Ana, o que você faria com um marido como esse?
Respondi:
– Eu não sei, não tenho a menor ideia, simplesmente porque
jamais o teria escolhido.
Depois disso tudo, com muito cuidado a incentivei a fazer
terapia. Alguns meses depois voltamos a conversar, e ela relatou as
impressionantes descobertas que tinha feito em seu processo
terapêutico. Contou, por exemplo, que os seus dois ex-maridos
(acabou se separando do segundo também) bebiam
demasiadamente e que ela não entendia por que não enxergava
isso no início dos relacionamentos.
Além disso, repetiu o mesmo erro. Pela condução adequada do
seu terapeuta, lembrou que seu pai também bebia bastante, mas
que isso ficava velado, pois ele não deixava as crianças, no caso ela
e os irmãos, perceberem. Bebia todos os dias, no almoço,
exagerava ainda mais nos fins de semana e depois ia dormir. Ela
disse que teve que fazer certo esforço para se lembrar das coisas
que aconteceram na infância, já que seu pai faleceu enquanto ainda
era criança, mas que ao perceber tudo isso entendeu por que fizera
essas escolhas. Provavelmente passou por situações
desconfortáveis na infância e seus mecanismos de defesa18 se
encarregaram de protegê-la e de “empurrar” as memórias para o
inconsciente.
Mesmo assim, elas continuam ali, latentes e encobertas, mas
que, por padrão inconsciente, acabam se repetindo.
Sigmund Freud (1856-1939), médico neurologista e criador da
psicanálise, defendia que somos controlados pelos processos
internos da nossa própria mente, em especial pelo inconsciente e
pelo Complexo de Édipo19, que não deve ser esquecido nem
reprimido. Mesmo depois de tantos anos, é o conceito que melhor
descreve por que repetimos, principalmente com nossos parceiros,
o modelo de relacionamento de nossos pais.
Junto com a nossa formação de personalidade, que já falamos
um pouco no início deste livro, também formamos nosso protótipo
de “homens” e “mulheres” muito baseados no modelo de pai e de
mãe ou das pessoas com as quais temos uma forte identificação,
que introjetamos20 e aprendemos desde a infância.
O processo terapêutico e alguns outros processos de
autoconhecimento nos ajudam a trazer à consciência essa
identificação. Quando ela é saudável e pode ser “replicada”, fica
mais fácil, mas precisa ser trabalhada quando nos incomoda ou não
queremos que seja repetida.
Vale reforçar que, independentemente do conteúdo dessa
identificação, não adianta negarmos, elas fazem parte da nossa
história e precisam ser “respeitadas”, porque vieram de pessoas que
amamos e que certamente queriam o melhor para nós, mas não
sabiam de que forma fazer isso.
Infância é destino, diria Freud, mas não podemos viver indefesos
por toda a nossa vida sob a desculpa de que tivemos uma infância
complicada e longe de ser a ideal. Devemos interiorizar a
mensagem de que não importa o quão destrutivas tenham sido as
nossas relações entre pais e filhos. As perspectivas sobre o nosso
futuro correspondem a nós, e o que precisamos, de fato, é ficar
atentos para não repetirmos os mesmos erros com os nossos filhos.
A questão é: podemos mudar e agir diferente dos nossos
pais ou cuidadores?
Sim. Se os seus comportamentos incomodam a você e às
pessoas com quem convive, ou não são saudáveis como gostaria,
eles podem ser trazidos à consciência para serem trabalhados e, a
partir disso, modificados. Todo comportamento pode ser modificado.
Ter o conhecimento e a clareza dessas questões é um dos mais
sublimes e saudáveis caminhos para a qualidade dos nossos
relacionamentos e para o nosso equilíbrio pessoal. A tendência a
repetir comportamentos na nossa vida e nas nossas relações são
naturais e propensos a acontecer, mas podem ser “controlados” e
muitas vezes modificados.
Freud foi precursor e pioneiro ao descrever como a mente
funcionava, segmentando-a em três estágios: o Ego, o Id e o
Superego, que funcionam em diferentes níveis de consciência, mas
interagem entre si em um constante movimento de lembranças e
impulsos de um para o outro:
Ego – consciente – o ego – que pode ser chamado de “eu” –
representa a razão ou a racionalidade. Segundo ele, essa parte
pode refrear de forma mais racional e consciente as demandas pela
busca incessante do prazer (o que chama de Id). O ego está ligado
ao princípio da realidade, enquanto o Id está ligado ao princípio do
prazer. O ego serve como mediador, um facilitador da interação
entre o Id e as circunstâncias do mundo externo, ao contrário da
paixão insistente e irracional do Id. Por isso, o ser humano quer o
prazer quase o tempo todo e acaba sendo mais cômodo comer em
excesso (Id) do que controlar a alimentação (ego), começar a beber
e ter dificuldade para parar. Ir para a praia e não querer voltar ao
trabalho e outras muitas ações que precisamos controlar o tempo
todo na nossa vida, temperam esse conflito entre Ego x Id. Sendo
assim, o ego cuida dos impulsos do Id. Na teoria do Cérebro Trino
de MacLean seria o Neocórtex, capaz de atuar no pensamento
abstrato, estratégico e criativos.
Id – inconsciente – a parte mais primitiva da mente, persegue
constantemente o prazer. Dizemos que as pessoas que não fazem
“filtros” ou são movidas por uma necessidade de suprir seus desejos
de forma imediata são regidas pelo Id. Acontece muito com as
crianças, e é nosso papel “podá-las” quando fazem escândalos nas
lojas de brinquedo ou mercado, porque querem satisfazer seu
desejo imediato de comer uma bala ou comprar um brinquedo.
Estão agindo sem filtro e precisamos ensiná-las a controlar seus
impulsos primitivos e inconscientes. Na teoria do Cérebro Trino de
MacLean, esse seria o Cérebro Reptiliano/instintivo.
Superego – pré-consciente – desenvolve-se desde o início da
vida, quando a criança assimila as regras de comportamento
ensinadas pelos pais ou responsáveis mediante o sistema de
recompensas e punições. O comportamento inadequado sujeito à
punição torna-se parte da consciência da criança, uma porção do
superego. Dessa forma, o comportamento é determinado
inicialmente pelas ações dos pais; no entanto, uma vez formado o
superego, o comportamento é determinado pelo autocontrole. Nesse
ponto, a pessoa administra as próprias recompensas ou punições. O
termo cunhado por Freud para o superego/über-ich significa
literalmente “sobre-eu”. Funciona como um freio a partir da
internalização das proibições, dos limites e da autoridade. É algo
além do ego que fica sempre censurando e dizendo: isso não está
certo, não faça; é o nosso “freio”, por isso é chamado de superego.
Na teoria do Cérebro Trino de MacLean, esse seria o cérebro
Límbico, que permite que os processos de sobrevivência básicos do
cérebro réptil possam interagir com os elementos do mundo externo,
o que resulta na expressão da emoção.*
*A conexão de concordância entre essas duas teorias, de Freud
e MacLean é muito interessante e, apesar de existirem outras
fontes, se quiser conhecer mais eu indico novamente o livro do Dr.
Marcelo Peruzzo, pela forma didática com a qual ele apresenta essa
correlação, inclusive com outras teorias. A bibliografia está no final
deste livro.
Vale ressaltar, então, que existem componentes não apenas
emocionais, masbiológicos e hereditários, que nos fazem, por
muitas vezes, repetir exatamente o mesmo comportamento dos
nossos pais. É muito comum as pessoas dizerem, principalmente na
adolescência, que jamais farão com seus filhos o que seus pais
fazem com eles, mas depois que os filhos nascem acabam por
repetir o mesmo comportamento. O modelo é sempre mais forte que
o discurso ou até que a razão.
Crescemos e aprendemos esses comportamentos e temos uma
forte tendência a repeti-los. Como abordamos antes, não somos
escravos do nosso comportamento. Podemos nos “livrar” e nos
desapegar do modo com que aprendemos a agir. Claro que
mudaremos ou ajustaremos uma parte dele, já que algumas
características sempre vão nos acompanhar, afinal, estamos falando
da nossa personalidade. Se fôssemos nos livrar dela,
completamente, correríamos um sério risco de ficarmos à deriva.
Não existem seres “sem personalidade”. A ideia não é abandoná-la,
mas aprimorá-la, e para isso temos que:
1. primeiro, trazer nosso comportamento (inadequado ou que
precisa ser modificado) para a consciência. Não modificamos o que
não acreditamos ser nosso;
2. segundo, separarmos o que é “meu” do que é do “outro” (falo
aqui do comportamento dos nossos pais ou educadores), ou seja,
tentarmos nos diferenciar, entendendo com mais clareza os
comportamentos que repetimos;
3. terceiro, só depois de nos diferenciarmos é que formamos
com maturidade a nossa própria personalidade. Assim escolhemos
o que queremos ser e conseguimos controlar a repetição dos
comportamentos que nos incomodam, ou que incomodam as
pessoas ao nosso redor.
Isso pode mudar para sempre a forma como nos
relacionamos?
Sim. Essa consciência mudará para sempre a forma como nos
relacionamos com filhos, parceiros, família, amigos, colegas de
trabalho, chefes, etc. Podemos aprimorar o modelo aprendido e, ao
conseguirmos fazer isso, nosso comportamento torna-se polido e
mais adequado. Garanto que é simplesmente sensacional!
Agora vocês podem entender por que os relacionamentos entre
as pessoas são tão complicados. Na educação dos filhos, então!!!
Cada um traz na bagagem suas próprias experiências, seus
próprios modelos e ambos querem de forma consciente ou
inconsciente replicar os valores e aprendizados aos filhos. Quando
eles são parecidos, os problemas são menores, os casais
concordam com a educação e o que querem transmitir a seus filhos,
mas e quando não são?
É preciso muita inteligência relacional para lidar com esses
desafios, e é por isso que muitos conselheiros defendem que
quando temos os mesmos valores, um estilo de vida parecido, a
mesma religião, padrão financeiro parecido e similaridade no
convívio social, fica mais fácil manter o equilíbrio entre o casal.
Assim ambos procuram transmitir os mesmos valores para a nova
família. Concordar nesses aspectos é muito mais importante do que
aspectos físicos, a idade, a cor da pele ou outras características que
as pessoas às vezes consideram relevantes.
Conheço uma família maravilhosa. Tanto o marido quanto a
mulher são pessoas excepcionais, mas eles vêm de religiões e
culturas muito diferentes. Vieram de países distintos, foram criados
de forma completamente oposta e com valores diferentes. Não há
dúvida de que se amam e por isso estão juntos há mais de dez
anos, mas percebo que fazem um esforço enorme para ceder e
rever seus conceitos diariamente.
Ele acredita que a mulher deve ser submissa ao marido, que é
dever dela cozinhar, cuidar da casa e dos filhos e lhe desagrada o
fato de ela trabalhar fora; isso realmente é o que mais o incomoda.
Ela, por outro lado, adora trabalhar, começou muito cedo para
ajudar os pais e acha que o trabalho a deixa melhor, sente-se mais
útil e gosta de colaborar com a renda da casa. Eles conseguem lidar
razoavelmente bem com a situação, mas o assunto sempre vem à
tona e surgem alguns comentários, às vezes, um pouco ácidos.
Mesmo na frente dos amigos, ele diz que é uma besteira a mulher
trabalhar, que esse não é o seu papel. Para ele, seu papel social é
ser mãe e esposa e costuma frisar que pagaria para ela ficar em
casa. Ela, por sua vez, acredita que o trabalho a dignifica e que o
fato de estar fora de casa, conversando com pessoas, aprendendo,
trocando informações e, principalmente, tendo uma alternativa
financeira, faz com que se sinta mais digna. Além de manter sua
inteligência estimulada, para ela, trabalhar fora a deixa mais feliz e
segura, acredita que lhe dará mais perspectiva de futuro e pode
mantê-la “em pé” se alguma coisa acontecer entre eles.
O fato é que cada um, dentro de suas experiências e culturas,
tem a sua própria razão. Foram criados dessa forma, possivelmente
seus pais agiram assim, cada um carrega o seu modelo e dentro
dos seus parâmetros consideram correto dentro da educação que
receberam.
Torço para que esse casal consiga administrar suas diferenças,
mas quando se torna desconfortável ou insuportável para um dos
dois ou para ambos, o relacionamento está fadado ao insucesso, ou
a uma imensa frustração e sofrimento para os dois lados.
O grande complicador é que uma situação como essa pode
gerar a não realização daquilo que a pessoa acredita que pode
conquistar dentro do seu padrão de felicidade e realização pessoal.
Por isso as nossas escolhas são tão importantes e difíceis.
Quando as pessoas se apaixonam, ficam cegas, e é comprovado
que deixam de enxergar o que está embaixo de seus olhos por
estarem inebriadas de paixão, mas para que uma relação seja
duradoura, para viver junto com outra pessoa e constituir família, é
necessário mais do que paixão, mais do que tesão, mais do que
gostar do cheiro ou da cor do olho e do cabelo. Viver e conviver
exigem respeito pela personalidade do outro, pelas diferenças de
cada um dos parceiros. Envolve cuidado com o que se diz, com o
que se faz para o outro. É preciso muito amor, troca, paciência,
respeito, cumplicidade, companheirismo, compreensão e, acima de
tudo, muito diálogo.
Então, ter semelhanças com o parceiro é uma garantia de
sucesso nos relacionamentos?
Ter semelhanças com o parceiro não é uma regra ou garantia de
sucesso nos relacionamentos, mas quando conseguimos minimizar
as diferenças mantendo valores e crenças parecidas, é muito mais
fácil administrar as diferenças e evitar conflitos.
Isso pode acontecer tanto entre parceiros conjugais, como com
sócios ou pessoas que trabalham ou decidem fazer negócios juntas.
Por que ter valores parecidos aumenta a possibilidade de
sucesso nos relacionamentos?
Como possível saída para essa enrascada, sugiro que cada
pessoa faça a sua própria lista de valores e que, depois, discutam
juntos as respostas de cada um. Esse pode ser um excelente
exercício para determinar o sucesso em uma relação.
Geralmente as pessoas apresentam valores que consideram
básicos e fundamentais para suas vidas ou para a manutenção de
um negócio. Se esses princípios e valores não coincidirem pelo
menos em alguns pontos ou não tiverem nada em comum, avalie o
risco. Existe uma enorme chance de insucesso.
Por outro lado, pequenas diferenças são interessantes, inclusive
porque também há verdade na frase “os opostos se atraem”. Muitas
vezes, encontramos no outro a nossa complementação.
Quando as diferenças são moldadas por uma questão de estilos
ou perfil pessoal, e não por mudança de valores, por exemplo, um é
mais rápido e o outro mais lento, um é mais tímido e o outro mais
extrovertido, um é mais calmo e o outro mais agitado, isso pode ser
excelente. São diferenças complementares, que podem, além de
equilibrar a relação, ajudar a ponderar ou impulsionar o parceiro em
algumas situações.
Conheço pessoas muito agitadas e impacientes que casaram
com seus opostos, parceiros extremamente calmos. Quando estão
próximos, ficam mais serenos e acabam se acalmando também.
Vale lembrar também que não podemos ficar tentando impor as
nossas características pessoais aos outros.
Por exemplo, o ritmo é uma questão biológica e difícil de ser
mudada. É quase impossível acelerar quem é calmo ou querer
acalmar quem éagitado. Causa estranheza e desconforto quando
tentamos empregar um ritmo que não é nosso.
Ao fazermos escolhas complementares, não adianta tentar
mudar o outro. É preciso respeitar e aceitar as diferenças. Divirta-se
com elas, assim ficará positivo para ambos.
Com relação às experiências de trabalho, ressalto nos meus
workshops para líderes que, quando temos na equipe pessoas com
habilidades distintas, temos nosso melhor cenário, porque elas são
complementares e capazes de fazer diferentes entregas e assumir
diferentes desafios e responsabilidades.
Quando estamos diante de pessoas que possuem uma
habilidade diferente e complementar a nossa, é com elas que
devemos trabalhar. Quando são muito parecidas conosco, tendem a
acertar nas mesmas coisas, mas podem errar nas mesmas também,
o que vai deixar alguma área sempre descoberta.
Empresários e líderes devem ater-se ao fato de que vocês
podem complementar suas equipes com pessoas que apresentem
diferentes habilidades, conhecimentos e atitudes, e assim podem ter
mais qualidade e agilidade de resposta e de resultado aos seus
clientes.
Muitos sócios encontram dificuldade para tocar um negócio
juntos por essa razão. Eles geralmente têm um excelente
conhecimento técnico ou específico sobre o mesmo assunto, seus
perfis são semelhantes, às vezes se formaram juntos, são amigos,
mas nem por isso terão sucesso.
Pelo contrário, se não agirem rápido para trazer pessoas que os
complementem, seja na área comercial, financeira, RH ou outras,
terão forte risco de submergir.
A área comercial, então, é uma das mais difíceis de atuar para
pessoas com perfis muito técnicos. Esses profissionais precisam de
ajuda. Quantas pessoas têm excelentes ideias, mas não sabem
vendê-las? Quantos profissionais liberais querem vender o seu
trabalho e não sabem a melhor forma de fazê-lo? Se isso acontece
com você, procure um sócio ou outras pessoas com um perfil mais
comercial. Contrate um bom vendedor.
Durante mais de 20 anos ajudo empresas a selecionar, avaliar e
manter equipes campeãs (tenho um DVD com esse tema), e sei que
os líderes tendem a contratar a sua imagem e semelhança.
Isso é natural, pois as pessoas se encantam e se identificam
com quem lhes é parecido, o que acaba por reforçar o que dissemos
acima; cometem os mesmos erros e acertos, diminuem o alcance do
sucesso.
Para concluir este tema, ressalto que os problemas que
enfrentamos nos relacionamentos tendem a se intensificar quando
os valores pessoais se diferenciam. Quando as crenças, os
princípios ou a missão das pessoas ou das empresas são
diametralmente opostos, os ajustes são trabalhosos e os problemas
certamente são maiores.
Então o problema está nos valores?
É muito mais fácil administrar as diferenças quando elas estão
nas habilidades ou nas atitudes. O que devemos evitar é a
dessincronia dos valores.
Acompanhei algumas funções e aquisições (joint ventures) que
deram muito certo e outras que deram muito errado. Analisando-as
mais a fundo, concluí que o que fez diferença para o sucesso ou o
fracasso foi sem dúvida a escala de valores de cada empresa.
O restante, como produtos, finanças, técnicas de venda, forma
de produção ou mesmo a estratégia do negócio, pode ser ajustado e
resolvido, desde que a linha de conduta relacionada aos valores
seja linear.
Assim acontece em todos os relacionamentos. Se você está
procurando emprego, apesar da crise, avalie se essa empresa tem
os mesmos valores que os seus. Se será confortável para você ir
para lá todos os dias, se o que fará não estará avançando o sinal
dos seus valores.
Entendo que muitas vezes, pela questão financeira as pessoas
acabam cedendo, aceitando e deixando isso de lado, mas em pouco
tempo a motivação será reduzida a nada. Perde-se a vontade de
acordar pela manhã e tudo tende a ficar escuro e nublado. A
segunda-feira passa a ser realmente uma tortura.
Geralmente isso acontece porque o lugar ou as pessoas que ali
trabalham não apresentam os mesmos valores e crenças que as
suas, e aí passa a ser um caos, um grande problema. Não há
alegria nem sensação de realização, o que não deve acontecer no
trabalho, já que você passará a maior parte do seu dia e da sua vida
embebido nele.
Costumo dizer que, quando aceitamos estar em situações como
estas na nossa vida pessoal ou profissional, é como se
estivéssemos nos prostituindo. A palavra é um pouco forte, mas o
sentimento é muito verdadeiro. Acabamos aceitando uma condição
que nos dá dinheiro, mas nenhum prazer. Será que vale a pena?
Qual o impacto das escolhas na nossa vida?
O que precisamos ter claro é que a consequência das ações e
das escolhas que fazemos na vida é o que nos impulsiona para o
sucesso ou para o fracasso.
Cada escolha que você faz, desde acordar pela manhã para ter
um dia feliz ou triste, vai mudar o panorama da sua vida, naquele
momento ou para a vida toda.
Essas mudanças só dependem de você. Essas escolhas são
suas e mesmo que possa parecer difícil, sempre é possível
recomeçar, com cuidado, preparo, planejamento e organização.
Tenho acompanhado muitas pessoas que se achavam incapazes
e hoje estão muito mais perto de sua realização pessoal e
profissional do que eram capazes de imaginar.
Com meu trabalho de coach descobri que as pessoas podem,
sim, mudar e agir diferente, desde que realmente queiram e
dediquem tempo, vontade e energia para isso.
Ainda falando de escolhas, sempre dediquei tempo para
observar como as pessoas captam as informações vindas dos
outros.
Quero apresentar a vocês uma pesquisa que destaca a
influência dos comentários negativos e o impacto deles na nossa
vida e por que algumas conversas podem ser tão improdutivas ou
produtivas.
Trabalhei durante mais de vinte anos com análise de potencial,
usando o sistema de Avaliação chamado Perfil Caliper. Fiz uma
análise interessante e profunda de centenas de pessoas e descobri
questões surpreendentes sobre semelhanças e diferenças a
respeito do funcionamento de gênero, função, posição hierárquica,
funcionamento racional, emocional e relacional. Embora o enfoque
fosse sempre profissional, as pessoas constantemente se abriam e
acabavam trazendo questões importantes sobre si e seu
funcionamento.
A vasta experiência, nesta área, o estudo de pesquisas
inovadoras, o tempo em consultório e os atendimentos de coaching
me levaram a perceber a importância e o impacto do que falamos
para as pessoas.
Podemos de fato conduzi-las para a alta performance ou levá-las
a se sentirem estagnadas e fracassadas.
É claro que aplicamos uma metodologia altamente eficaz ao dar
o feedback de uma avaliação de potencial, que é usada de forma
adequada e respeitada por mim e por todas as consultoras
responsáveis por essa atividade. O feedback sempre começa
destacando os pontos positivos e, mesmo deixando os pontos de
desenvolvimento para o final, terminamos sempre em um clima
bastante positivo e harmonioso. As pessoas elogiam, sentem-se
confortáveis em falar e gostam muito disso.
Isso não nos deixa distantes do peso da responsabilidade que
temos, como líderes e educadores, em trilhar o melhor para as
pessoas e influenciá-las de forma positiva.
Um feedback adequado e bem direcionado é tão importante para
a otimização de potencial e do desempenho de cada pessoa com
quem conversamos.
É interessante perceber como as pessoas têm necessidade de
aprovação e reconhecimento. Mesmo que seu líder, seus pais ou
seus professores o elogiem vinte vezes, basta uma crítica, mesmo
que construtiva, para colocar tudo a perder.
Parece que mil palavras boas não são suficientes diante de dez
ruins. Isso de certa forma é preocupante, porque impacta
diretamente na autoestima das pessoas e como elas se relacionam
umas com as outras.
As pessoas esquecem o quanto disseram que você era
talentoso, organizado ou inteligente. Basta dizer que você está
desorganizado, ou confuso, que todo o resto some como num piscar
de mágica.
Como já citamos, os neurotransmissores, ou a química,
desempenham um papel importante neste fenômeno. Quando
enfrentamos uma crítica,rejeição ou medo, quando nos sentimos
marginalizados ou minimizados, nosso corpo produz níveis elevados
de cortisol, o hormônio que desliga o centro de pensamento de
nossos cérebros e ativa aversão ao conflito, disparando o medo e a
necessidade de proteção.
Tornamo-nos mais reativos e sensíveis. Muitas vezes sentimos
ainda maior julgamento e negatividade do que realmente existe. E
esses efeitos podem durar dias.
Além disso, faz uma impressão negativa nas nossas memórias e
amplia o impacto que elas têm sobre o nosso comportamento futuro.
O cortisol funciona como um comprimido de liberação sustentada –
quanto mais nos entregamos ao medo, mais tempo parece levar o
impacto.
Claro que comentários positivos e conversas positivas também
produzem uma reação química e estimulam a produção de
oxitocina, o hormônio que melhora a nossa capacidade de nos
comunicarmos, de colaborarmos e confiarmos nos outros ativando
redes em nosso córtex pré-frontal, mas a oxitocina é metabolizada
mais rapidamente do que o cortisol, por isso seus efeitos são menos
dramáticos e de menor duração.
Percebia isso de forma empírica, mas só depois fui estudando e
descobrindo que já existem pesquisas sérias que certificam o
impacto químico que as conversas positivas, negativas ou os
elogios causam nas pessoas.
Essa “química das conversas” é importantíssima e, quando bem
compreendida, causa mudanças significativas na forma como
lideramos e educamos nossos filhos, alunos e liderados.
Comportamentos que aumentam os níveis de cortisol reduzem o
que Judith e Richard Glaser chamam de “Inteligência
conversacional” ou “C-IQ”. Descrevem a capacidade que uma
pessoa apresenta em se conectar e pensar de forma inovadora,
empática, criativa e estratégica. Comportamentos que
desencadeiam oxitocina e elevam o C-IQ21.
Quantas vezes será que nós, como pais, líderes ou educadores,
não produzimos mais cortisol do que oxitocina nas pessoas?
Que tal em vez de fazermos críticas perguntarmos mais como
estão se sentindo? Precisamos dedicar um pouco mais de tempo
para entendermos melhor as pessoas.
Se formos capazes de destacar mais habilidades e pontos fortes,
mostrarmos uma preocupação genuína e partilharmos o sucesso,
certamente poderemos trazer as pessoas para mais próximo de nós,
envolvendo-as em nossas ideias, convencendo melhor e entrando
em sintonia com o que pode ser considerado importante para cada
lado, respeitando pontos de vista opostos. Só assim podemos
valorizar as pessoas e considerar diferentes ideias e ideais.
De fato, ninguém consegue se conectar se não for capaz de
despertar o entusiasmo no outro. Nós só conseguimos fazer isso se
formos capazes de valorizar as pessoas naquilo que elas sabem
fazer bem.
Vale ressaltar que eu não estou sugerindo aqui que você tenha
que aceitar erros ou deixar de exigir resultados. Muito pelo contrário,
é através do feedback, da insistência pelo resultado e pela
descoberta e orientação do que precisamos aprender que nos
desenvolvemos.
Chamo a atenção para a forma como devemos fazer isso. Meus
anos de prática me mostraram que feedbacks são difíceis, mas não
impossíveis, e funcionam como suporte imediato para o
amadurecimento e para a otimização de resultados.
Lembre-se sempre de primeiro elevar o nível de oxitocina,
falando dos pontos positivos, e nunca começar com um banho de
cortisol, só falando de coisas ruins. Isso fará com que as pessoas
fechem os ouvidos para você, bloqueiem sua mente e deixem de
prestar atenção no que você tem para lhes ensinar.
Mantenha-se sempre aberto aos comportamentos que abrem
seus ouvidos e seu coração e que podem dar vazão à melhoria dos
relacionamentos e não aos que fecham e inibem as relações.
Aproveite e aprenda com a boa química das conversas. Elas me
mostraram que podemos ter aprendizados riquíssimos, que
carregaremos para sempre.
No próximo capítulo, vamos abordar os seis passos para nos
tornarmos um inteligente relacional, a começar por nós mesmos,
fortalecendo nossas escolhas, nossa maneira de nos comportar,
utilizando melhor a educação, as crenças e os valores de cada um
de nós.
17. O livro da Psicologia, Globo Livros, p. 104, e Teorias da Personalidade. 2ª edição,
2003. Título original: Theories of personality.
18. Mecanismos de defesa - ações psicológicas com a finalidade de reduzir qualquer
manifestação que coloque em perigo a integridade do ego, em que o indivíduo não consiga
lidar com situações que por algum motivo considere ameaçadoras. São processos
subconscientes ou inconscientes que permitem à mente encontrar uma solução para
conflitos não resolvidos no nível da consciência. As bases dos mecanismos de defesa são
as angústias. Quanto mais angustiados estivermos, mais fortes os mecanismos de defesa
ficarão ativados.
19. Complexo de Édipo – o termo criado por Freud, inspirado na tragédia grega Édipo Rei
(personagem da Mitologia Grega famoso por matar o pai e casar-se com a própria mãe).
Designa o conjunto de desejos amorosos e hostis que o menino enquanto ainda criança
experimenta com relação à própria mãe.
20. Introjeção – mecanismo de defesa que consiste na adoção de regras e
comportamentos que podem nos livrar de uma situação ameaçadora ou perigosa. Inicia-se
na infância, quando começamos a aceitar como nossas as regras e valores impostos pela
família ou sociedade.
21. Artigo da Harvard Business School: The neurochemistry of positive conversation, Judith
and Richard Glaser. https://goo.gl/sNHqAx
Capítulo 6
Classe - Seis passos para nos
tornarmos mais inteligentes e o
“C” de CLASSE: Consciência
“Não é a aparência, é a essência.
Não é o dinheiro, é a educação.
Não é a roupa, é a classe.”
Coco Chanel
Para explicar melhor como nos tornarmos mais inteligentes na
forma como nos relacionamos, desenvolvi seis estágios fáceis de
entender e que podem nos ajudar a fazer ajustes no nosso
comportamento em diversas situações.
Para sermos inteligentes nas relações, a CLASSE é
fundamental. Ter classe não significa ser chique na arte do vestir,
como a maioria das pessoas pensa, mas ser elegante na maneira
como nos comportamos todos os dias, em qualquer ambiente.
Classe é ser elegante, ter graça nas maneiras: de vestir, de
comer, de se comunicar e principalmente de se comportar. É ser
harmonioso, coerente, estar em ‘acordo’ com o todo, com as
pessoas e com o ambiente.
Esses passos são importantes porque sabemos que os
relacionamentos são confusos e complicados. Temos que fazer um
trabalho duro para conseguirmos “zelar” por nossas relações, seja
com a família, amigos, vizinhos, parceiros de trabalho e todos os
contatos relacionais e sociais que fazemos. Nunca para;
conversamos com pessoas em média setenta por cento (70%) do
nosso tempo diário. Além disso, não é necessariamente um
investimento glamouroso, pelo contrário, é incessante e muitas
vezes cansativo.
Não temos mais nenhuma dúvida de que as pessoas que se dão
melhor na vida são as mais bem relacionadas. Escolher perder
menos tempo com a TV e investir mais tempo convivendo, fazendo
algo novo juntos, é sem dúvida uma ótima opção, principalmente
quando se escolhe dividir tempo com pessoas inteligentes,
educadas, sensatas e que se preocupam conosco, em nos ajudar, e
não em nos atrapalhar ou machucar.
É sensacional quando você escolhe amigos dos quais se orgulha
e sabe que se orgulham de você também. Essas pessoas
certamente o respeitam, o admiram e podem fazer o seu dia mais
brilhante simplesmente por estarem nele. Essas pessoas têm
CLASSE.
Por outro lado, você já deve ter sentido o peso de pessoas que
só sabem reclamar ou se colocam sempre na condição de vítimas
do destino. Basta você perguntar como a pessoa está e ela vem
logo discorrendo sobre uma série de dramas e tragédias que
rondam a sua vida. Muitas vezes você não tem nem muito tempo ou
disposição para ouvir aquele monte de lamúria. E a sequência é
sempre a soma de lamentações, dores, tragédias e desgraças. O
mais incrível é que essas pessoas não conseguem entender por que
ninguém quer estar perto delas. Em geral,a solidão as assombra,
justamente porque têm o costume de criticar em excesso, acham
que ninguém as entende ou que ninguém as escuta.
Todo mundo tem seus problemas e entendo que falar alivia.
Freud já dizia que a cura vem pela fala. As pessoas gostam e
precisam contar suas histórias para se sentirem melhores ou mais
aliviadas, mas isso tem hora e lugar.
Existem profissionais que são preparados para ajudar. Alguns
cobram e outros trabalham de forma voluntária e são orientados
para dar a melhor orientação. São terapeutas, coaches, educadores,
pastores, padres ou pessoas que têm como dom ou profissão dar
suporte aos outros. Existem programas evangélicos que ajudam e
dão apoio 24 horas às pessoas que estão em uma situação de
tristeza profunda ou desespero. Conheço alguns amigos que
trabalham nessas rádios, nos Estados Unidos. São profissionais
preparados para atender o telefone em todas as línguas e ajudam
pessoas que estão desesperadas, desacreditadas, tristes ou que
apresentam algum risco de suicídio.
Se você realmente precisa desabafar é compreensivo, todo
mundo precisa e também pode conversar com um amigo ou alguém
em quem confie e que esteja “disponível” para escutar. Sempre
existe um caminho e uma solução, por isso é importante pedir ajuda.
Existe uma necessidade natural que todos nós temos de
desabafar em momentos de crise ou real tristeza, mas algumas
pessoas parecem criar problema, e de forma repetitiva e
desgastante estão sempre “para baixo”, reclamando e atravessando
a vida de forma pessimista. Falam demais sobre si ou sobre outras
pessoas em momentos inconvenientes e sempre acham que todos
têm todo o tempo e disponibilidade do mundo para escutá-las.
Procure se blindar dessas pessoas, pois elas certamente não têm
CLASSE, mas você deve ter, não seja deselegante, sugira com
cuidado que essa pessoa busque por suporte e uma ajuda
profissional mais efetiva. Não tenha receio de colocar limites,
dizendo a ela que infelizmente você não pode falar naquele instante,
mas que torce para que tudo fique bem.
Infelizmente essas pessoas são, além de deselegantes,
vampiros emocionais, e precisamos ajudar a “estancar” sua
maldade e controlar sua “baba sangrenta”, porque do contrário nós
também ficaremos mal e assim entraremos em uma espiral pesada
e negativa, que pode bloquear nossa felicidade, sucesso e
crescimento pessoal.
Para que você se torne mais inteligente relacionalmente é
fundamental que preste atenção em como tem se posicionado.
Muitas vezes percebemos esse comportamento nos outros, mas
esquecemos de olhar para nós mesmos.
Se tiver a tendência a falar demais sobre seus problemas
observe isso melhor e passe a tomar mais cuidado. Analise cada
situação, valorize o tempo das pessoas e procure perceber se elas
podem conversar naquele momento. Evite falar em excesso. Seja
um bom ouvinte e estimule as pessoas a falarem sobre elas. Todo
mundo gosta e precisa de atenção. Exija menos e dê um pouco do
seu tempo para os outros também.
Mais adiante falaremos um pouco mais sobre os vampiros
emocionais dos quais realmente precisamos ficar distantes, porque
a vida é muito curta para perdermos tempo com quem suga a nossa
energia e tem tão pouco a nos oferecer.
A criação dos seis passos a que me refiro vão tornar você um
inteligente relacional e pode ajudar as pessoas a se tornarem
também:
1. C ONSCIÊNCIA
2. L IBERDADE
3. A TRAÇÃO
4. S EGURANÇA
5. S ABEDORIA
6. E MPATIA
Vamos ao primeiro, nosso C de Consciência.
1. Consciência: está relacionada tanto à “leitura” que fazemos
de nós mesmos – a autoconsciência – como também à consciência
do ambiente e das pessoas que estão à nossa volta. É a habilidade
de perceber, de ter clareza das nossas ações e intenções e da
forma como nós agimos e interagimos com o meio.
Por exemplo, muitas vezes as pessoas não percebem que estão
falando muito alto em ambientes que exigem mais cuidado e
silêncio, como velórios, igrejas, livrarias, bibliotecas, elevadores,
teatros, etc. Falta consciência do comportamento exercido; as
pessoas esquecem que devem manter mais respeito com quem
está dividindo o mesmo espaço.
Para que possamos perceber melhor como nos comportamos e
manter controle sobre essas atitudes, precisamos nos conhecer
mais a fundo. É fundamental que possamos aprender melhores
práticas de como devemos nos comportar em diferentes situações.
O primeiro passo é observar e perceber a nossa forma de agir e se
ela está adequada a cada situação. Isso pode ser feito pela
observação de como nos comportamos e de como as pessoas
reagem em cada situação. Assim podemos mudar e ajustar a nossa
atitude, para nos tornarmos mais inteligentes na arte de nos
relacionarmos.
A medida que nos tornarmos mais alertas ao nosso
comportamento, podemos nos tornar pessoas melhores, mais
humanas e mais agradáveis, principalmente quando estamos em
contato com outros.
Como devemos agir?
Essa resposta não é muito simples, porque é baseada no bom
senso.
Bom senso, em uma de suas melhores descrições “é um
conceito estritamente ligado às noções de ponderação e de
razoabilidade, que define a capacidade média que uma pessoa
possui, ou deveria possuir, de adequar regras e costumes a
determinadas realidades, considerando as consequências e assim
fazendo bons julgamentos e escolhas”22.
Supõe certa capacidade de autocontrole e independência de
quem analisa a experiência de vida cotidiana, ou seja, é muito
particular e está relacionada a nossa percepção e observação do
ambiente. É a análise do que funciona, e do que não funciona
quando estamos interagindo com pessoas.
De forma geral, gostamos de observar o comportamento dos
outros, e a maneira discreta e equilibrada como algumas pessoas se
colocam soa interessante. É agradável observar um jeito “elegante”
e sutil de se comportar.
Observar, aprender e repetir essas atitudes pode nos ensinar a
controlar nosso próprio comportamento e nos levará a agir de forma
mais adequada em situações que sugerem certa postura ou
discrição. Esse aprendizado nos torna mais inteligentes
relacionalmente.
Comportarmo-nos de forma inteligente com as pessoas vai muito
além da capacidade de discernir o certo do errado. Está relacionado
ao bom senso, à capacidade intuitiva do ser humano de fazer a
coisa certa, e é elementar que esteja ligado à moral.
Por essa razão e por sofrermos influência da sociedade em que
vivemos, precisamos observar e respeitar as diferenças culturais,
morais e religiosas. Por exemplo, o bom senso praticado por um
cristão poderá ser interpretado de forma diferente por um islã ou
judeu.
Os muçulmanos fazem sua oração ajoelhados e virados à
direção de Meca. Meca é a cidade natal do profeta Maomé. Para
todos os muçulmanos do mundo, ela é a cidade mais sagrada do
planeta. Segundo o Alcorão, escritura do Islamismo, o devoto deve
cumprir os cinco pilares: o testemunho da fé; orar cinco vezes ao dia
em direção à Meca; jejuar no ramadã (um mês por ano); praticar a
caridade; e peregrinar até Meca, mesmo que através de procuração
escrita, caso não tenha recursos. Eles seguem essa doutrina à
risca.
Quando morava nos Estados Unidos, parei meu carro no
estacionamento em frente a um supermercado. Ao meu lado estava
estacionado um furgão branco. Observei que o senhor ao lado abria
o porta-malas de seu furgão. Tirou um tapetinho, estendeu-o no
chão, ajoelhou-se e começou a rezar, certamente em direção à
Meca. Não me pergunte como ele sabia qual era a direção. Dizem
que os muçulmanos nascem com um “GPS religioso”. Brincadeiras
à parte, descobri que fica a leste, mesmo lado do nascer do sol, o
que certamente facilita bastante no momento de acertar a direção.
Vale lembrar que para sermos inteligentes relacionais
precisamos respeitar outras culturas, religiões e civilizações. Pode
parecer “maluquice” um homem ajoelhar-se no chão em um
estacionamento de supermercado, mas para ele essa é a sua
verdade, a sua paz, o seu conforto.
O bom senso não envolve uma reflexão aprofundada sobre
determinado tema ou situação, mas sim a capacidade de agir e
interagir, obedecendoa certos parâmetros da normalidade, face a
uma situação qualquer, guiando-se por bom senso e senso comum,
quase que de forma completamente intuitiva.
Já que falamos de bom senso, o que seria o senso comum?
“Senso comum resulta das experiências realizadas por um
determinado grupo, a compreensão do mundo advinda da herança
de um grupo social. O senso comum descreve as crenças e
suposições que surgem como ‘normais’, sem depender de uma
investigação detalhada para alcançarem verdades mais profundas
ou científicas”.
A busca do bom senso, então, mais uma vez está relacionada à
consciência individual e do ambiente, à autopercepção e à
autoanálise.
Desde a Grécia Antiga, Sócrates (470-399 a.C.) acreditava que a
autoanálise tornaria o indivíduo mais feliz. Para ele, essa era a
função principal da Filosofia. Ficou famoso com a frase: “uma vida
irrefletida não vale a pena ser vivida”, ou seja, se passarmos pela
vida de forma automática, superficial, sem trazermos para o
consciente nossas razões inconscientes, viveremos sem nenhuma
noção ou percepção clara de quem nós somos.
O ser humano reluta e enfrenta uma série de resistências. Às
vezes nega seu verdadeiro “eu”, não quer enxergar as dificuldades e
seus lapsos de comportamento. A maioria das pessoas diz que
terapia é coisa para louco. De certa forma concordo, pois tem que
ser muito forte, meio “louco”, e muito “macho”, para peitar um
processo terapêutico ou de autoconhecimento. Poucos têm coragem
de aprofundar seu “eu” verdadeiro e descobrir a fundo o seu
potencial. É coisa para louco mesmo. Para louco muito corajoso.
A principal questão é que, quando entendemos a nós mesmos,
conseguimos nos diferenciar e entender melhor o que é “meu” e o
que é de outra pessoa, ou de outra cultura ou civilização.
Aprendemos a verdadeiramente respeitar o jeito de ser de cada um.
Essa percepção pode diminuir consideravelmente as brigas, as
desavenças, os conflitos e atentados no mundo todo.
Para ampliar a nossa consciência devemos observar a nós
mesmos, as pessoas ao nosso redor e absorver práticas de
comportamento em público, para nos relacionarmos de forma mais
harmônica e digna com os outros.
Quando estamos em público vale tomar alguns cuidados com a
forma como nos comportamos:
1. evite falar alto e dar gargalhadas em locais que exigem
silêncio;
2. evite o uso do celular em lugares que atrapalham outras
pessoas, como teatro, cinema, igrejas, museus, reuniões etc.
3. não se prenda no celular ou escreva mensagens enquanto
conversa com as pessoas;
4. evite esbarrar nas pessoas ou empurrá-las dentro de
mercados, farmácias, ônibus, trens, metrôs e outros lugares
públicos;
5. não deixe sacolas, malas ou carrinhos de compras “jogados”
em corredores de mercado ou lugares onde outras pessoas
precisam passar;
6. não pare em locais que interrompem o fluxo de pessoas, como
saída de cinemas, teatros, convenções etc. Afaste-se o máximo que
puder da porta da saída (principalmente se estiver conversando com
um grupo de pessoas), assim quem ainda precisa sair pode ter
melhor acesso e espaço de circulação;
7. espere as pessoas saírem do elevador antes de entrar, pois
evita o embate corporal e você facilitará o fluxo de entrada e saída;
8. evite encostar no painel do elevador; as pessoas que entram
precisam digitar o seu andar;
9. respeite filas, pois não foram feitas para serem furadas, mas
para serem respeitadas;
10. quando estiver em espaços pequenos, evite encostar na
pessoa da frente ou bater com sacolas e mochilas nos outros. Deixe
um espaço de pelo menos um braço entre uma pessoa e outra;
11. se não tiver intimidade, evite ficar encostando ou pegando
nas pessoas enquanto conversa com elas. Algumas pessoas acham
natural, outras se sentem incomodadas;
12. respeite as escadas rolantes. Nos países desenvolvidos, é
“educado” que você se mantenha sempre do lado direito da escada
rolante ou das esteiras de passagem, nos aeroportos, metrôs ou
shoppings, assim quem está com pressa pode continuar andando
com mais rapidez pelo lado esquerdo;
13. evite buzinar sem necessidade, fechar a frente de outros
carros, ficar acelerando enquanto o carro está parado, xingar no
trânsito, dirigir em alta velocidade na cidade e usar o carro como um
brinquedo de competição, pois são atitudes pouco inteligentes e que
só contribuem para causar acidente e morte;
14. procure dar bom dia, boa tarde, sorria, procure ser cordial
com as pessoas. Não custa nada e você pode contribuir para
melhorar o dia das pessoas e tornar nosso mundo um pouco mais
humano e feliz.
Existem outras dicas úteis de que ainda vamos falar no decorrer
deste livro, mas esta já é uma excelente amostra que destaca nosso
comportamento social e sugere respeito à individualidade e às
pessoas. São ações importantes e simples, que podemos assimilar
com tranquilidade, sem grande esforço, e que nos ajudam a
contribuir para relações mais positivas com a sociedade e com as
pessoas, mesmo com aquelas que temos menos intimidade ou um
contato mais superficial.
Para concluir, desenvolver o C de CLASSE ajuda a trabalhar a
nossa musculatura relacional e a consciência do nosso
comportamento, ajudando a sociedade. Não custa sermos
agradáveis com os outros; é uma pequena parcela de contribuição
que podemos dar para um mundo melhor.
22. https://goo.gl/UKMp5d
Capítulo 7
A letra “L” de CLASSE: Liberdade
“A melhor liberdade é quando você se livra do que te faz mal.”
2. Liberdade: nós temos liberdade de expressão, de
pensamento e de posicionamento frente às situações. Liberdade
essa conquistada principalmente após o regime militar que durou 21
anos no Brasil.
Naquela época, o regime censurava os meios de comunicação,
nas quais as notícias eram filtradas ou proibidas. Criticar a política, o
regime militar, expor pontos de vista diferentes, contestar ou
protestar levava o indivíduo ao cárcere privado, tortura, extradição
ou até a morte.
Muitas histórias daquela época foram abafadas e até hoje pouco
se pode provar, o real e a especulação se misturam com o intuito de
“proteger” culpados influentes. Conseguimos grandes conquistas
pós-censura, mas nosso país também perdeu uma boa parcela de
limite e de pudor.
Passamos de uma polaridade para a outra. Embora absurdos
tenham acontecido no governo militar, a liberação total da
expressividade também levou a exageros que confundem e
estimulam crianças, adolescentes e adultos. O estímulo à
sexualidade e à sensualidade exageradas acabam por banalizar o
sexo com cenas que, quando não são bem compreendidas,
estimulam a prostituição infantil, a gravidez precoce e elevam o
número de estupros. O excesso de imagens com danças e roupas
sensuais, infelizmente, levam cabeças “fracas” a pensar o pior ou a
agir de forma agressiva com as pessoas, sejam mulheres, homens,
homoafetivos ou crianças.
Podemos e devemos nos expressar, temos liberdade para isso,
além de pensarmos o que quisermos, mas devemos sempre
respeitar alguns limites e manter mais atenção ao “como” as
pessoas sentem ou sofrem as ações da mídia, dos meios de
comunicação e de comportamentos excessivos, que podem
estimular pessoas com instintos aflorados e pouca polidez.
Infelizmente a frase “em cada cabeça, uma sentença” é
verdadeira e homens que têm por histórico, por exemplo,
desvalorizar mulheres ou ser agressivos com elas, acabam por se
sentirem estimulados com essa exposição. É alarmante o número
de mulheres que sofrem violências morais e físicas, que são
violentadas por homens do seu convívio social, como tios,
padrastos, primos, vizinhos, amigos etc. Quem tiver interesse pode
pesquisar melhor esses índices nas delegacias da mulher, no IBGE
(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) ou em estudos
recentes que abordam esses temas. Claro que nada justifica esse
comportamento, e a exposição na mídia está longe de ser a única
causa. Também não temos nenhum estudo ou previsão de que
diminuir o estímulo diminuiria a violência sexual, mas se
acompanharmos a mídia em outros países, como nos Estados
Unidos e em países europeus, podemosobservar que canais com
conteúdos eróticos ou de violência são mais selecionados, nos
quais é preciso pagar para ter acesso. O que pode dificultar o
estímulo, principalmente às crianças, adolescentes e pessoas muito
influenciáveis, que ainda não têm uma personalidade fortemente
formada e nem uma ideia muito clara de suas escolhas ou do seu
comportamento sexual.
Não há dúvida de que com isso existem comportamentos
maldosos e personalidades perversas e cruéis, mas teríamos que
abrir um capítulo novo só para falar sobre psicose e perversão.
Vamos resumir explicando por que essas pessoas são
perigosas. Um sujeito que sofre de psicose acredita que suas
próprias representações fantasiosas são reais. O psicótico não
consegue ver o absurdo, por exemplo, da afirmação de ser um
super-herói ou Jesus Cristo. O psicótico fica alheio à realidade, isto
é, torna-se um alienado e perde totalmente a noção do que suas
ações causam nas pessoas a sua volta. Quanto aos pervertidos,
esses são tão ligados aos seus objetos de prazer (que pode ser
uma criança, um adolescente, etc.), que se tornam impedidos de
enxergar seu mau comportamento diante de crianças, por exemplo,
ou quando percebem, não conseguem frear. Essas pessoas
precisam ser tratadas de forma mais incisiva; não é apenas a
consciência e a compreensão da Inteligência Relacional que vão
ajudá-los. Nestes casos, precisam buscar na psicologia e na
psiquiatria o controle de suas patologias.
O que vale destacar é que em muitos países, principalmente
naqueles que brigam por diferenças religiosas e culturais, os
conflitos e guerras são fruto da incompreensão das diferenças. A
intolerância com as diferenças culturais e religiosas torna o
relacionamento entre as culturas tenso, cheio de ruídos e disputas,
o que acaba por gerar “pré” conceitos, resistências entre estados,
países, pessoas, religiões, classes e raças, e o pior, atentados
violentos que vêm aumentando e chocando o mundo a cada ano.
Lamentavelmente, radicais extremistas não mudarão seu
comportamento simplesmente por entenderem que não é adequado
ou honroso agir assim, como nós, seres humanos mais sensatos,
inteligentes emocionais e menos radicais.
Essa parcela doente e fanática que vem aumentando
consideravelmente nos últimos anos precisa também de um tipo de
intervenção mais firme, uma contenção, já que o seu
comportamento ultrapassa o que julgamos ser sadio para o bem
comum e a convivência social. Muitos cresceram e foram educados
acreditando que morrer e matar são atitudes heroicas ou
corriqueiras e infelizmente pouco podemos fazer por eles, a não ser
nos protegermos e rezarmos para que passem a ver o mundo de
uma forma mais humana e menos cruel.
Enquanto não podemos ajudar diretamente o mundo todo,
principalmente os povos em guerras religiosas ou envolvidos em
embates violentos, que já estão cegos por suas crenças, vamos
entender o que podemos ajustar dentro da nossa cultura, do que é
possível fazer próximo da nossa realidade.
Não precisamos ir muito longe. Os questionamentos podem ser
observados no comportamento das pessoas que vivem em
diferentes estados brasileiros. Algumas atitudes que são
consideradas naturais em alguns estados são pouco usuais em
outros.
Por exemplo, a décima dica da letra C (capítulo anterior) fala
sobre uma tendência muito forte em alguns estados brasileiros de
encostar ou pegar nas pessoas enquanto está interagindo com elas.
Nos estados do Norte e Nordeste, esse comportamento é muito
natural e corriqueiro, já no Sul e Sudeste, é menos comum. Não há
nada de errado nisso, são apenas diferenças culturais que intervêm
no comportamento das pessoas, mas que em alguns momentos
podem causar embaraço. Algumas pessoas podem se sentir
incomodadas com o toque, enquanto outras não entendem por quê,
já que o gesto tem o intuito de ser natural e carinhoso. De nada
adianta dizer:
– Nossa, essas pessoas são estranhas, elas são distantes e
esquisitas, a gente pega nelas e parece que olham para a gente
com cara de espanto.
Ou:
– Nossa, que gente estranha, eles ficam pegando e cutucando a
gente enquanto conversam conosco.
É interessante observar essas diferenças culturais. Pessoas que
viajam bastante já devem ter ouvido essas duas frases em
diferentes estados brasileiros, mas será que essas diferenças
precisam ser encaradas como possibilidade de conflito relacional?
Presenciamos essas e tantas outras diferenças comportamentais
também no sotaque, nas roupas, na bebida, na comida. Aliás, a
nossa diversidade culinária é sensacional. Acho que em nenhum
lugar do mundo se come tão bem como no Brasil.
O que importa é que, ao mesmo tempo em que temos liberdade
de agir como aprendemos e como estamos acostumados, também
devemos controlar os nossos impulsos e nos tornarmos mais
adequados e adaptáveis, respeitando as diferenças e fazendo delas
uma imensa oportunidade de aprendizado e crescimento.
Ambientes diferentes que permitem essa troca divertida
estimulam nossos sentidos, nosso raciocínio, nosso aprendizado e
com certeza ajudam a polir e educar nosso comportamento.
Ajudam-nos a fazer ajustes e a ter mais respeito pelas pessoas
quando estamos diante do “diferente”, seja no mesmo estado, no
mesmo país ou em qualquer outro lugar.
A dificuldade de controlar o excesso de liberdade é uma das
razões pelas quais temos tantas guerras e discórdias no mundo,
porque as pessoas não conseguem aceitar as diferenças. Estão
sempre tentando impor seus conceitos, suas próprias regras, seus
limites, sua religião e sua conduta, como se todos devessem jogar
sempre o mesmo jogo.
Para termos relacionamentos mais justos e verdadeiros com as
pessoas precisamos manter a cabeça mais aberta e menos
preconceituosa, evitando manter um comportamento engessado e
intolerante, o que causa discórdia e revolta.
É por essas razões que ainda vemos pessoas agredindo
homoafetivos, negros, deficientes mentais, prostitutas, etc. Isso se
chama dificuldade de aceitar e lidar com as diferenças.
Respeitar a liberdade de cada um e nos trabalharmos para
mudar o conceito de que essas pessoas devem ser vistas como
inaptas, incapazes ou desiguais é fundamental para nos tornarmos
mais inteligentes na forma como nos relacionamos.
A alta inteligência relacional prevê um mundo mais humano, com
mais respeito às diferenças e aos valores. Um mundo com mais
dignidade. Faltam discussões com esse tema, nas escolas, nas
universidades, nas igrejas, nas empresas ou instituições que têm o
claro objetivo de educar e otimizar o potencial das pessoas.
É necessário desenvolver a sensibilidade de como devemos
viver em sociedade, já que comprovadamente sabemos que somos
seres sociais.
Enquanto nada for feito, continuaremos abusando da nossa
liberdade como uma imensa cegueira social, o que sem dúvida gera
egoísmo, individualismo e falta de percepção do que devemos fazer
para genuinamente trazer bem-estar e melhorar a qualidade de vida
e de interação com os outros.
O respeito a essa liberdade de opinião é parte integrante da
CLASSE e precisamos desenvolver a nossa inteligência para
podermos nos relacionar melhor, deixando de lado esse disparate
como se só pudesse existir um único modelo cultural, religioso ou
social, como se houvesse uma única forma certa ou correta de
fazermos as coisas.
Será que conseguiremos sacrificar nossa liberdade pessoal pelo
bem comum? Será que conseguiremos respeitar mais quem está a
nossa volta e nos livrarmos do preconceito, permitindo que o outro
seja o que ele quer ser? Será que conseguiremos respeitar a
opinião dos outros? Deixemos aqui esta excelente reflexão.
Capítulo 8
A letra “A” de CLASSE - Atração
“Uma vez que você acreditar que é emocionalmente forte, você
inconscientemente atuará de maneira mais firme e assertiva e começará a assumir o
controle sobre seus caprichos emocionais”.
Senora Roy
3. Atração: está relacionada à forma como atraímos a atenção
das pessoas e como elas captam as nossas ações, reações e
sinais. Dependendo da forma como chamamos a atenção, seremos
vistos como pessoas confiáveis,simpáticas, chatas, inteligentes,
interessantes, bem ou mal-intencionadas, etc. Esse é um dos
principais princípios da Inteligência Relacional: como queremos ser
vistos e notados pelas pessoas; que impressão queremos passar e,
também, como captamos a forma de ser das pessoas. Esse
indicador nos leva a perceber como e por que escolhemos algumas
pessoas para fazer parte da nossa vida e deixamos outras de lado,
e também como e por que as pessoas nos “escolhem” para fazer
parte da vida delas.
Afinal, o que nos parece atraente, interessante ou
desinteressante quando conversamos pela primeira vez com
alguém?
Imagine que você está em um aniversário e por acaso senta-se
para conversar com uma pessoa que ainda não conhecia. Várias
coisas vão passar em pouco tempo pela sua cabeça, como, por
exemplo: “Eu seria capaz de ficar horas conversando com essa
pessoa”, ou “eu preciso arranjar uma desculpa para sair daqui o
mais rápido possível”. Certamente isso acontece ou porque você se
identificou ou porque alguma coisa te incomodou.
Por que isso acontece?
Algumas pessoas parecem naturalmente mais atraentes para
nós do que outras, por diversas razões:
1. por lembrarem pessoas das quais gostamos, tom da voz,
cheiro, estilo, cabelo, maneira de se vestir ou de falar;
2. por nos identificarmos com suas histórias, valores ou por
falarem alguma coisa com a qual nos identificamos;
3. por estarem em uma mesma situação de vida, filhos na
mesma idade, mesma profissão ou passando por
dificuldades/satisfações parecidas;
4. por se mostrarem atraentes ou admiráveis pela forma como se
comportam, se vestem ou se comunicam;
5. por terem a mesma educação, valores ou serem da mesma
cultura que você (isso acontece muito quando estamos em regiões
distantes de casa e encontramos pessoas do mesmo país ou área
geográfica);
6. por curiosidade, por serem famosos ou terem uma profissão
de destaque, como atores, cantores, artistas;
7. por parecerem cativantes, interessantes ou bonitas;
8. por serem engraçadas e divertidas;
9. por contarem estórias curiosas sobre lugares, pessoas ou
assuntos que nos interessam;
10. por terem o mesmo gosto musical, esporte, hobby, ou outras
afinidades conosco;
11. por uma necessidade de nos sentirmos aceitos ou
respeitados naquele lugar ou ocasião;
12. porque podemos ter visto na pessoa a possibilidade de ser
um grande amigo ou até o homem ou a mulher de nossos sonhos,
uma “paixão à primeira vista”.
Existem diversas formas de nos aproximarmos e de
estabelecermos bons vínculos com as pessoas e aprendermos
muito com elas. Podemos sem dúvida nenhuma tirar um bom
proveito das nossas relações.
Quando não nos identificamos com nenhuma dessas coisas, as
pessoas nos parecem desinteressantes e, consciente ou
inconscientemente, nos afastamos delas. Nosso cérebro nos envia
um sinal de que aquela pessoa é pouco atrativa para dedicarmos
tempo a ela.
Como já vimos anteriormente, a nossa conexão com as pessoas
começa desde a nossa formação embrionária, pelo vínculo materno,
e continua durante a infância e no decorrer de toda a vida.
Precisamos de cuidados básicos enquanto bebês e acabamos por
traçar paralelos fascinantes entre a maneira como formamos nossos
apegos e nossa conexão com as pessoas, principalmente com
aquelas por quem nos apaixonamos.
Quando percebemos que os relacionamentos (amorosos ou não)
nos oferecem aconchego e uma base segura, parece que nos
acalmamos e reforçamos nossa energia para enfrentarmos os
desafios. Por isso escolhas corretas e o cuidado com a atração,
quando nos relacionamos, são fundamentais.
Nosso corpo passa a agir de forma positiva, nos tornamos mais
amáveis, mais compreensivos, como realmente ficamos quando
estamos apaixonados. Podemos nos apaixonar por diferentes
pessoas. Não precisa ser uma paixão amorosa ou sexual. Pode ser
uma paixão pelo lado intelectual, pela forma carinhosa de ser da
pessoa, pela paz que ela transmite, pelo afeto que tem pelos filhos,
pais, irmãos, amigos e pessoas que são queridas para nós.
Como e por que devemos nos mostrar encantadores para as
pessoas?
Porque vivemos em sociedade. Logo, a convivência amigável e
os relacionamentos são fundamentais para a nossa vida pessoal e
profissional. Quanto mais agradáveis, estimados e amados nos
tornamos, mais retorno teremos em troca. As relações precisam ser
uma troca positiva, mesmo que não sejam constantes. Não importa
a frequência, mas a qualidade. É importante que o contato seja
agradável.
Precisamos desenvolver a capacidade de encantar, envolver,
surpreender e admirar os outros e a nós mesmos, e, isso não deve
ser feito de forma superficial ou mecânica, tem que ser natural e
genuína. É por isso que precisamos começar a expandir a nossa
CLASSE pela letra C, conhecendo a nós mesmos para entendermos
como somos, como nos comportamos, observando, assim, quais
atitudes podemos desenvolver de forma mais confortável e segura
para nós. Só depois disso é que estaremos preparados para
perceber a intenção das outras pessoas e passarmos a fazer
escolhas melhores e que nos tragam menos problemas e mais
felicidade.
Precisamos pensar qual comportamento é confortante para nós,
o que de positivo queremos absorver e como escolhemos encarar a
vida. Apesar dos problemas que enfrentamos, podemos pesquisar
mecanismos saudáveis para deixar a vida mais suave e singela,
vivendo melhor, amando mais, curtindo cada momento. Nada
melhor do que um sorriso para quebrar o gelo e iniciar qualquer
conversa. Não custa nada e é uma linguagem absolutamente
universal. Esse é um dos únicos gestos que em qualquer lugar do
mundo quer dizer a mesma coisa. Um sorriso é sempre um sorriso.
O importante é que seja verdadeiro.
Não quer dizer que tenhamos de sair por aí abraçando as
pessoas que nem conhecemos, ou distribuindo sorrisos e beijos na
panificadora. Não é esse o intuito, mas devemos demonstrar mais
carisma e altruísmo, para que possamos inspirar e influenciar as
pessoas ao nosso redor.
É muito frustrante quando entramos em um estabelecimento
comercial e somos recebidos com mau humor ou de forma rude. O
ambiente parece tenso, pesado e perdemos imediatamente a
vontade de estar ali. Nada é mais constrangedor e nos oferece
tamanha vontade de “sumir” do que ambientes que deixam claro
que as pessoas estão ali sem nenhuma vontade ou por pura
obrigação.
É incrível como as pessoas que trabalham em lugares assim
estão sempre carrancudas e frustradas e se acostumam com o
clima pesado, competitivo, a ponto de nem conseguirem perceber, e
menos ainda mudar.
Normalmente esses estabelecimentos, quando privados, vão à
falência, e quando se trata de órgãos públicos, logo são batizados
de lugares inconvenientes, onde ninguém quer estar e que afastam
as pessoas. Lá só vamos em caso de extrema necessidade.
Tenho acompanhado empresas e pontos de vendas que estavam
indo à falência, mas, muitas vezes, só o fato de mudar a forma de
atender seus clientes, sorrir, ser educado, dar bom dia ou boa tarde,
chamar as pessoas pelo nome, influencia o sucesso e a
prosperidade do negócio. Atrair positivamente as pessoas pode
mudar tudo, pois elas passam a sentir prazer de entrar e comprar
ali.
A atração não está só relacionada a contatos pessoais, mas a
ambientes e empresas também. No final de tudo, o cliente dá valor à
experiência gerada pelo relacionamento.
É na forma de se relacionar com o mundo que as empresas se
destacam. Elas devem ser atraentes para seus clientes, para seus
colaboradores e fornecedores. Essa é a razão pela qual algumas
empresas estão sempre entre as melhores: porque se preocupam
em manter um bom relacionamento e ficam atentas ao que
proporcionam aos outros. Querem ser vistos e lembrados de forma
positiva por seus clientes e pelo mercado. Não podemos esquecer
que os relacionamentos na percepção de valor do cliente, são
muitas vezes mais importantes do que o próprio produto, até porque
muitos são commodities (produtos padronizados, cujo preço não é
definido pelo produtor, mas pelo mercado, como farinha, grãos,
açúcar, metais eoutros).
Precisamos nos preocupar com a forma como atraímos as
pessoas e como podemos nos mostrar atraentes para as empresas
também. A isso se atribuiu o nome de Marketing Pessoal, que é a
arte de vender a si próprio. É claro que o nosso conteúdo e a nossa
forma de ser sempre serão importantes, mas precisamos dar ao
conteúdo uma “embalagem” convidativa. Quem conhece um pouco
de vendas e marketing sabe o quanto as embalagens ajudam a
vender o produto.
Quantas vezes você já comprou um produto porque a
embalagem lhe chamou a atenção por ser bonita ou parecer
confiável?
Se entrássemos em marketing e merchandising, teríamos muita
coisa para falar, mas esse não é o propósito deste livro, então,
vamos nos concentrar no que devemos fazer para nos mantermos
atraentes e assim alcançarmos nossos objetivos pessoais e
profissionais.
Perguntas interessantes:
1. o que é atraente no comportamento de algumas pessoas e
que você poderia trazer para o seu modo de ser e modificar algo
legal em si mesmo?
2. o que você faz para chamar a atenção das pessoas de forma
positiva?
3. como quer ser visto e que impressão quer passar aos outros?
4. como quer que os seus clientes e as empresas com quem se
relaciona vejam você? Que tipo de profissional você é?
5. o seu comportamento pessoal transmite profissionalismo?
6. que imagem você quer deixar como legado? Se morresse
amanhã, como gostaria de ser lembrado?
Algumas pessoas acham que o comportamento pessoal não
impacta no profissional. Será? Trabalhei anos com desenvolvimento
de carreira e ouvi pessoas falarem: “Não importa para a empresa ou
para os meus clientes o que eu faço na minha vida pessoal”.
Questionável, não?
A forma como nos comportamos interfere diretamente na nossa
imagem e como queremos ser vistos e lembrados pelas pessoas.
Pense neste exemplo: imagine se você fosse fazer uma cirurgia
delicada e visse na noite anterior o seu cirurgião saindo
completamente alcoolizado de um restaurante. O que você
pensaria? Você não mudaria em nada a sua percepção sobre ele?
Você estaria absolutamente tranquilo para fazer a cirurgia no dia
seguinte?
Um outro caso: um líder que você admira, que mostra um forte
domínio sobre o time e um excelente conhecimento sobre a sua
área de atuação, mas por acaso é visto por você batendo na
namorada no estacionamento de um supermercado. O que você
pensaria? No mínimo iria ficar um tanto decepcionado, não é? O seu
conceito sobre ele não mudaria? A admiração ainda seria a mesma?
Claro que todos temos defeitos, cometemos erros e não
podemos sair por aí fazendo julgamentos precipitados sobre as
pessoas, mas não há dúvida de que a forma como nos
comportamos influencia diretamente a percepção que as pessoas
têm sobre nós. Isso é fato.
Hoje, com a vida exposta nas mídias sociais, acabamos tendo
mais acesso ao que acontece com cada um. Não estou dizendo que
você não possa se divertir, sair, ter vida social, amigos, etc. Todo
mundo deve ter seus momentos de prazer e lazer, mas precisamos
cuidar da nossa imagem e de como queremos ser vistos pelas
pessoas, principalmente o zelo à imagem profissional.
Sabemos que as empresas e os RHs vasculham as mídias
sociais antes de contratar profissionais e, dependendo do que
descobrem, desistem da contratação. Essa atitude se tornou uma
prática, assim como a investigação de ações contra outras
empresas ou comprometimento jurídico e inquéritos policiais.
Provavelmente, neste momento, várias coisas estejam passando
por sua cabeça e de nada adianta entrarmos em uma discussão
polêmica se isso é certo ou errado. A questão é que faltam
argumentos diante dos fatos. As atitudes e comportamentos falam
mais alto do que qualquer palavra. Assim é desde o tempo dos
nossos avós e continuará sendo por muitos e muitos anos,
independentemente de concordarmos ou não.
O que nos favorece é que o comportamento é uma escolha.
Lembre-se de que já falamos sobre isso anteriormente e não
estamos presos a ele. O comportamento pode e deve ser
modificado, e aprimorá-lo é um forte indício de inteligência relacional
e maturidade pessoal. O A de CLASSE nos leva a pensar:
Como você quer atrair as pessoas e ser visto por elas?
Qual é a imagem e o legado que você deseja deixar aos outros?
As respostas a essas questões podem proporcionar a você um
caminho brilhante rumo à vitória e ao sucesso. No mínimo, você
definirá qual a imagem que quer passar e de que forma quer ser
visto e lembrado pelas pessoas.
O que quer deixar escrito na sua lápide?
Aqui jaz......... que ...... porque ............ .
Na minha eu quero:
“Aqui jaz uma mulher que deixou o seu legado e fez as pessoas
acreditarem que podem se tornar seres humanos melhores, mais
inteligentes e mais felizes na forma como se relacionam, escolhendo
melhor com quem dividir a sua existência.”
Capítulo 9
A primeira letra “S” de CLASSE -
Segurança
4. Segurança: está relacionada à forma firme como defendemos
nossas ideias, princípios e valores, o que realmente acreditamos. Se
soubermos defender nossos pontos de vista de maneira segura,
sem uso da imposição ou agressão, facilmente conquistaremos a
cooperação das pessoas. Não precisamos necessariamente
concordar ou assimilar os valores de outras pessoas, nem elas os
nossos, mas devemos respeitá-los para sermos respeitados. Se
agirmos dessa forma, seremos certamente mais inteligentes
relacionalmente.
Além disso, só conseguiremos trazer as pessoas a pensar como
nós se soubermos usar a persuasão de forma positiva, sensata e
segura.
Já temos a compreensão de que na vida e no mundo corporativo
manter bons relacionamentos é fundamental, e para isso
precisamos ter clareza de quais são as nossas crenças e a partir
disso descobrir a melhor forma de defendê-las. Só assim seremos
respeitados e poderemos respeitar sentimentos e pensamentos
diferentes dos nossos.
Há alguns anos li um livro sobre educação infantil que ressaltava
a importância de preparar nossos filhos para serem atores sociais e
não espectadores passivos. Essa questão me fez refletir
profundamente sobre a importância que temos como pais,
educadores e líderes em colaborar com a possibilidade de reforçar e
estabelecer a segurança e a autoestima das pessoas. A influência
que temos sobre elas, os valores que passamos e a forma como as
educamos pode levá-las a ter uma boa autoestima e a respeitar ou
não a opinião e as considerações dos outros. Alguns pais, líderes e
educadores acreditam que as pessoas não devem questionar suas
ordens. Não permitem que debatam seus pontos de vista e seus
princípios, o que acaba por criar seres humanos dependentes,
inseguros e sem opinião. Debater e questionar são formas
primorosas de estimular o raciocínio, a astúcia, o poder de
argumentação, o humanismo e a segurança dos nossos filhos e das
pessoas com quem convivemos.
Recentemente, conversando com minha filha (que trabalhou em
uma das empresas de Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico da
América do Sul e um dos donos do Burger King, Heinz, Kero,
Budweiser e outras marcas presentes na sua mesa todos os dias),
sobre como o bilionário brasileiro deixa claro que prefere pessoas
que criem algum problema por quererem andar sozinhas, em vez
daquelas que esperam por ordens. “Não gostamos de soldados
disciplinados que só vão seguir ordens”, diz. Sendo assim,
entendemos que pessoas que sabem o que querem, têm brilho nos
olhos e energia para realizar são realmente essenciais.
Pessoas e profissionais que querem se destacar precisam
aprimorar sua comunicação e a forma de argumentar e defender
ideias. Muitas pessoas apresentam baixa resiliência (capacidade de
se recuperar de uma crítica ou objeção), ou baixa capacidade para
persuadir, não só porque se mostram mais inseguras, mas também
porque não foram ensinadas a defender seus pontos de vista com
firmeza e convicção. Não lhes deram o “espaço” necessário para
questionar, pontuar ou defender o que acreditam.
Muitas vezes vemos pessoas se comportando de forma
agressiva ou rígida, porque não aprenderam a negociar, apenas a
impor suas ideias ou seus desejos,sem entrar em um acordo que
possa ser favorável aos dois lados. Algumas pessoas não
conseguem se defender de forma assertiva e segura ou não
conseguem se colocar no lugar dos outros para poder entendê-los e
consolidar soluções aceitáveis para os dois lados, logo falaremos
sobre a importância da empatia na vida pessoal e profissional.
A baixa autoestima e a baixa segurança são características que
normalmente se formam na infância. Infelizmente não existe manual
que ensine aos pais a como preparar emocionalmente as crianças,
aliás, na maioria das vezes, acabam por repetir o que aprenderam
com seus pais, mas existem algumas atitudes que, quando
tomadas, ajudam as crianças a se preparar melhor para os desafios
que a vida impõe.
Por exemplo, frases como: “engula esse choro”, “cale a boca”, ou
ainda, “você não serve para nada” são colocações pejorativas que
só levam a experiências de incompreensão e frustração. A criança
vai deixando de se expressar e passa a acreditar que manifestar
sentimento é inadequado ou errado.
Existem vários estudos e livros com dicas muito legais sobre
como encorajar nossos filhos a ser uma pessoa mais sensata e
segura, mas são poucas a se preocupar verdadeiramente com isso,
o que é uma pena para a sociedade e para o crescimento do nosso
país.
Reforçar a autoestima e a segurança dos nossos filhos pode
ajudá-los a empreender mais, acreditar em suas habilidades e a
ousar em proveito de soluções e desafios nunca tentados, o que, de
fato, muda o mundo.
As crianças que são amadas, queridas e sentem menos medo e
sensação de abandono tornam-se mais seguras em seus
relacionamentos, não se retraindo nem se apegando demais. No
entanto, as pessoas cujos pais negligenciam seus sentimentos e
que se sentem ignoradas tendem a adotar um estilo evitativo, como
se estivessem desistindo da esperança de encontrar um amor
sincero, e as crianças cujos pais são ambivalentes, oscilando entre
raiva e ternura de uma hora para a outra, tornam-se ansiosas e
inseguras.
Claro que as crianças também precisam de limite, pois muitas
vezes realmente “passam do ponto”, e nada funciona melhor do que
limites bem definidos para moldar uma personalidade saudável.
Criatividade, firmeza e amor são fundamentais. É necessário
permitir a expressividade, dar espaço para que a criança
experimente suas emoções e sentimentos, mas também é preciso
que exista direção e limite. Os excessos precisam ser evitados de
forma justa e firme, correspondente com a faixa etária de cada
criança. Nada de punições severas ou qualquer tipo de violência no
trato aos pequenos. Alguns educadores defendem que o castigo
deve ter o tempo proporcional à idade da criança. Por exemplo, se
ela tem três anos, são três minutos de castigo sem sair daquele
lugar ou falar com ninguém da casa. Veja abaixo algumas outras
dicas e se quiser saber mais, procure artigos e livros sobre esse
tema, você vai encontrar informações interessantíssimas. Sabemos,
claro, que o equilíbrio entre essas duas vertentes é difícil de
encontrar. Alguns pais são permissivos demais, outros exigentes
demais. A fronteira entre essas duas questões é difícil, mas pode
ser encontrada.
No livro Inteligência emocional – A arte de educar nossos filhos,
de John Gottman e Joan Declaire (p. 79), os autores destacam
alguns passos que, quando seguidos, ajudam a preparar
emocionalmente as crianças e que podemos estender para as
pessoas de modo geral. Eu li, resumi e exemplifiquei:
1. ajude-os a perceber e a entender o que estão sentindo;
2. reconheça a emoção como uma oportunidade de intimidade e
transmissão de experiências. Conte à criança que você também
sente ou já sentiu aquilo, como medo de barulhos estranhos na
casa, por exemplo, ou emoções como tristeza e raiva;
3. escute com empatia para legitimar e respeitar os sentimentos;
4. ajude a nomear e verbalizar as emoções;
5. determine limites e, ao mesmo tempo, ajude a resolver seus
problemas.
Essas são algumas formas que nós, pais, educadores,
terapeutas, coaches e líderes deveríamos trabalhar para preparar
emocionalmente nossos filhos, clientes ou colaboradores.
Depois que alguns sentimentos já estão cristalizados é mais
difícil de serem modificados, mas enquanto a personalidade está
sendo formada, é fundamental que a criança perceba que pode, de
forma segura, sem birra, expor suas emoções e sentimentos.
Nossa infância nem sempre deixa marcas saudáveis, mas sem
dúvida imprime sentimentos fortes no nosso “sistema de apego”, e
que vem à tona cada vez que nos relacionamos, principalmente nas
relações afetivas e nas ligações românticas, e essas impressões
têm consequências marcantes na forma como agimos com nossos
parceiros.
Um psicólogo da Califórnia, Philip Shaver, liderou uma pesquisa
sobre “apego e relacionamentos” e classificou os grupos estudados
em adultos seguros, ansiosos ou evitativos. Ele descobriu que as
pessoas seguras iniciam um relacionamento esperando que seus
parceiros sejam disponíveis e sintonizados, que estejam ao seu lado
nos momentos difíceis, e tendem a agir assim em relação ao outro.
Geralmente veem os relacionamentos como confiáveis e acreditam
nas intenções do parceiro.
Por outro lado, os adultos mais ansiosos e inseguros em seus
relacionamentos são mais propensos a achar que seus parceiros
não os amam o suficiente ou não querem ficar ao lado deles.
Tendem a gerar uma dependência tão apreensiva e uma
necessidade tão intensa de reafirmação que, sem querer, acabam
afastando o parceiro. É bastante contraditório e sofrido para eles,
porque, ao mesmo tempo que se sentem indignos de amor, também
tendem a idealizar seus parceiros românticos. As pessoas mais
inseguras tendem a ser mais carentes e sentem receio do
abandono, apresentando sinais de “dependência amorosa e
emocional”. Tornam-se hipervigilantes, mais controladoras, mostram
ciúmes excessivos e podem criar casos imaginários, achando que o
parceiro as está traindo. Muitas vezes transferem essa mesma
preocupação para as relações futuras.
Os adultos do tipo evitativo são aqueles que procuram fugir das
relações. Eles não se sentem à vontade em situações que levem à
proximidade emocional. Mostram dificuldade de confiar no parceiro
e compartilhar emoções e ficam nervosos quando o parceiro deseja
maior intimidade emocional. Evitam o envolvimento, suprem e
sufocam o próprio sentimento por medo de sofrer. Acham que o
parceiro não é digno de confiança e têm dificuldade em manter
relacionamentos.
O tipo ansioso e o evitativo têm um ponto em comum: a rigidez.
A sugestão é que busquem ajuda ou uma psicoterapia para lidar
melhor com isso e quebrar esse padrão de funcionamento, porque,
quando um dos parceiros é seguro, ainda é possível que o
relacionamento se mantenha com poucos conflitos e crises, mas
quando os tipos evitativos ou ansiosos se juntam, tendem a ficar
mais propensos a brigas e separações e vão precisar de mais
manutenção e cuidado nesses relacionamentos. Afinal, apreensão,
ressentimento, angústia e mágoa são contagiosos.
De fato, certo grau de ansiedade é o que pagamos pela
verdadeira intimidade emocional. Isso é comum nos
relacionamentos para qualquer pessoa, pois nos apegamos,
amamos, logo, sofremos quando nos desentendemos.
Vale lembrar que os estilos são moldados em grande parte na
infância, mas se forem aprendidos podem ser modificados,
principalmente se tiverem uma experiência positiva e um
relacionamento reparador.
Fortalecer e reforçar a segurança e a autoestima da criança fará
com que mais tarde seja capaz de defender com mais firmeza e
convicção o que acredita, tornando-se uma pessoa e uma
profissional mais madura e focada em suas crenças. Defendo que
muitos dos “bons líderes ou vendedores” já vêm pré-formados de
casa. Entre as fortes capacidades que definem personalidades
determinadas e seguras está a assertividade, para defender pontos
de vista, a segurança e autoestima, para lidar com objeções, e a
empatia, para entender necessidades individuais. Essas
características são formadas na infância.
Ser emocionalmente madurosignifica ter capacidade para
reconhecer e identificar as próprias emoções e as do outro. Essa
experiência só acontece à medida que permitimos que os
sentimentos se manifestem desde a infância.
O problema é que muitas vezes os pais ou líderes não sabem
lidar com as próprias emoções e, por medo de se descontrolarem,
acabam por inibir qualquer possibilidade de expressão de emoção
ou sentimento aos outros.
Ignorar sentimentos como raiva, medo, ciúmes, escondendo o
que se sente ou o que se deseja, acaba por limitar a oportunidade
de lidar de forma positiva com as emoções negativas ou as
frustrações. Negar e fingir que não existem só dificulta a
experimentação das emoções que são naturais e aparecerão
repetidas vezes na nossa vida.
Para ilustrar essa questão, vou contar sobre uma paciente que
atendi há alguns anos no consultório. Ela tinha uma imensa
dificuldade de expressar suas emoções. Quando começava a se
emocionar ao relatar um fato, logo parava, respirava fundo e
segurava o choro. Tentei encorajá-la algumas vezes a colocar para
fora, mas ela sempre dizia: “Minha mãe me treinou a engolir o choro
e é isso que faço até hoje”. Quando seus filhos começaram a ter
problemas comportamentais, na escola, como brigar com amigos,
chutar e mostrar atitudes emocionalmente descontroladas, ela
percebeu que eles estavam buscando alguma forma de externar o
que sentiam, porque ela nunca permitiu que demonstrassem
nenhum tipo de emoção em casa, nem mesmo ciúmes, ira ou raiva.
Procurou a psicóloga escolar, que atendeu as crianças, e esta
encaminhou a mãe para o meu consultório. Durante o processo, ela
foi descobrindo que as emoções precisam ser experimentadas, sem
dose exagerada, mas não podem ser reprimidas ou ignoradas.
Certa vez ela me disse que leu isso em um livro e que caiu como
uma luva: “Me sinto como se tivesse em um avião com meus filhos
sentados ao lado. Sei que em caso de turbulência preciso primeiro
colocar a máscara em mim, e depois nas crianças”.
Sábia constatação. Ela entendeu que precisava aprender a exibir
suas emoções de forma saudável e equilibrada, para então poder
ensinar e permitir que suas crianças fizessem o mesmo.
É natural que os pais cometam erros, é um “ensaio e erro” para
tentar acertar, contudo, alguns cuidados são fundamentais para que
possamos estruturar a nossa vida e para criarmos filhos com
segurança e autoestima mais fortes. Fique atento a essas situações:
1. os sentimentos fortes podem e devem ser expressados e
administrados. Permita que seus filhos demonstrem raiva, medo ou
outros sentimentos negativos, mas sem extrapolar. Esses
sentimentos existem e devem ser sentidos, mas precisam ser
controlados. Não pode deixar seus filhos quebrarem a casa, mas
pode permitir que expressem suas emoções e falem sobre o
assunto. Deixe que chorem um pouco e contem como a situação
lhes fez mal ou os incomodou.
2. evite sarcasmo, desprezo e comentários que desmereçam ou
intimidem a criança. Chamar a atenção e diminuí-las na frente dos
outros só vai jogar sua autoestima para baixo e criar problemas
maiores, como rebeldia, raiva e afastamento.
3. seja específico com a criança e deixe claro que não aprova
tais comportamentos caso ela tenha “passado dos limites”. Ela
precisa entender que isso afeta os pais, as pessoas e o ambiente
como um todo e que pode se expressar, mas de forma controlada.
4. entenda como “passar dos limites” a criança que desrespeita e
responde aos pais, bate, se joga no chão, grita, se recusa a comer,
joga coisas nos outros, xinga etc. Esses comportamentos não
devem ser reforçados. Pelo contrário, olhe firme para a criança, sem
gritar, com um tom de voz claro e seguro, e explique que esse
comportamento não é adequado, que não vemos as pessoas se
jogando no chão nem batendo nos outros nas ruas ou nos
ambientes que frequentamos, como restaurantes, supermercados,
igrejas, e que isso não é um comportamento aceitável e não deve
mais se repetir.
5. fique atento a sua raiva e à forma como você se expressa
quando for brigar com a criança. Se sentir que pode agredi-la física
ou verbalmente espere um momento melhor. Procure se acalmar, e,
no momento em que puder ter uma conversa mais tranquila, que
leve a um nível de compreensão e retidão, então prossiga. Escute o
que a criança tem a dizer e só depois continue falando, mas não
deixe de ter esta conversa; se deixar a situação “esfriar” você estará
sendo conivente com o erro e perderá o momento certo de fazer a
correção;
6. castigos exagerados, palmadas que machucam, comentários
pejorativos e ameaças sempre devem ser evitados. Se quiser dar-
lhe um castigo realista ou agir de forma corretiva, faça algo coerente
com a idade da criança, como:
tire um brinquedo de que ela gosta muito e guarde-o por
um tempo;
no dia da birra, deixe de ir a algum lugar de que ela goste,
como parquinho ou casa de amigos;
cancele o hambúrguer ou o sorvete daquele fim de
semana;
faça com que devolva o que pegou emprestado do amigo
sem pedir;
faça a criança pedir desculpas caso tenha batido,
empurrado, gritado com alguém etc.
Você, como educador, evite bater, gritar e ridicularizar a criança,
principalmente na frente dos outros. São comportamentos que só
levam a mais violência e menos autoestima.
Lembre-se de que caso sinta remorso de algo que tenha feito, se
tiver perdido a cabeça com seu filho em algum momento, não tenha
medo de pedir perdão. Após os quatro anos de idade, a criança é
capaz de entender esse conceito e, ao fazê-lo, vai ensinar que
perdoar é um ato de amor e que não deixamos de amar porque
eventualmente brigamos, nos desentendemos ou cometemos erros.
Além de ser um processo de evolução para os pais, por saberem
trabalhar melhor a própria emoção, também ajudará a criança a lidar
de forma mais saudável com conflitos futuros e certamente vai
reforçar sua segurança. Além de manter um relacionamento
saudável entre vocês, seu filho entenderá que deve respeitar você e
as pessoas com quem vai se relacionar mais tarde, por entender
que podemos errar, consertar e perdoar.
Embora o processo de aprendizado e de conscientização das
emoções dure a vida inteira, reconhecer, expressar e falar sobre
sentimentos sem dúvida permitirá que as pessoas se sintam mais
aptas e confortáveis para trazerem suas emoções à tona e
aprenderem a controlar e a lidar melhor com elas.
O exercício desse aprendizado, além de reforçar a segurança,
também ensina as pessoas a enfrentar problemas e a tomar
melhores decisões. Quando compreendemos que é normal termos
dúvida e sentimentos contraditórios, aprendemos que o processo de
solução de problemas também acontece em partes e sempre
levanta mais de um caminho e várias possibilidades ou alternativas
de resolução.
No tempo em que vivi na América do Norte, constatei que os
americanos de modo geral lidam muito bem com o ato de encontrar
soluções. Eles ensinam as crianças desde cedo a levantar hipóteses
e alternativas possíveis e viáveis para chegar à resolução de um
problema. Por exemplo, se cada criança quer fazer uma atividade
diferente, mas ao mesmo tempo querem brincar todas juntas, eles
pensam em soluções possíveis e ensinam as crianças a fazer matriz
de priorização. Fazem uma lista e depois uma votação para
organizar a ordem das brincadeiras, ou sorteiam as brincadeiras e
decidem sua ordem. Enfim, pensam em como devem agir para
resolver um problema ou um conflito, e assim podemos fazer com
todos os embates que temos no nosso dia a dia.
Todos nós nos lembramos de situações que trouxeram emoções
contraditórias. Por exemplo, a primeira vez que viajamos sem os
nossos pais. Certamente estávamos empolgadíssimos, ou por ser
uma excursão da escola, um acampamento da colônia de férias,
uma temporada na casa dos avós, enfim, não importa onde foi, mas
é sempre um turbilhão de sentimentos. Ao mesmo tempo em que
ficamos superalegres e com grande expectativa, também sentimos
aquele frio na barriga e ficamos inseguros. Não sabíamos como
seríamos tratados, o que faríamos se sentíssemos fome ou saudade
de nossos pais, se olugar seria mesmo divertido e seguro. Surgiam
várias dúvidas e interrogações.
O fato é que quando experimentamos essas situações desde
cedo e aprendemos a lidar com situações contraditórias,
enfrentando e entendendo que são normais, conseguimos trabalhar
melhor as decisões que teremos que tomar na vida adulta.
Passamos a compreender que, quando o processo decisório é
dividido em etapas, fica mais fácil resolvê-lo. Sendo assim, procure
sempre:
1) identificar objetivos ou questões;
2) analisar os fatos ou os problemas;
3) procurar por possíveis soluções;
4) avaliar as alternativas;
5) escolher uma ou mais soluções;
6) desenvolver um plano de ação;
7) levantar o que é necessário para implementar;
8) tomar a decisão e agir.
Parece complicado, mas se analisarmos qualquer situação é fácil
perceber que agimos dessa forma na maioria das vezes. Quando
aprendermos essa “fórmula”, com o tempo vamos automatizando
esse processo e passamos a realizar essas ações rápida e
automaticamente.
Ensino essa “regrinha” aos meus clientes de coaching, e dessa
forma conseguem solucionar seus problemas e alcançar seus
objetivos, ou seja, existem formas de encontrar soluções para
conflitos e problemas, sejam eles profissionais, pessoais ou
emocionais.
O que precisamos lembrar é que as soluções e sentimentos não
devem ser reprimidos e sempre que conseguirmos identificar um
problema seremos capazes de resolvê-los da melhor forma
possível, mesmo que envolvam sentimentos negativos.
Como falamos acima, de nada adianta dizer à criança: “pare de
chorar” quando ela está triste, com medo ou com raiva. Isso só vai
deixá-la confusa, pois não vai entender o que sente e vai acreditar
que os sentimentos precisam ser reprimidos. O medo ou a tristeza
não vão passar, e ela não saberá como deve expressar seu
sentimento, o que só causará insegurança e frustração. Por outro
lado, se dissermos à criança que ela tem o direito de sentir, mas
deve controlar seu choro, sem que precise gritar, se jogar no chão
ou fazer escândalo, ela entenderá que há outras formas de
expressar o que sente e ficará com a segurança e a autoestima
mais fortes, o que pode reforçar sua personalidade e garantir um
comportamento mais firme e decidido no futuro.
O limite não deixa de ser fundamental e as crianças responderão
de forma positiva se você negociar com elas e aplicar as
consequências combinadas sobre suas ações. Se, por exemplo,
você combinou que, se ela insistisse em querer dormir na casa do
amigo, não andaria de bicicleta no dia seguinte, a bicicleta terá que
ser confiscada. Dar “brecha” à regra ou ser complacente com o
castigo vai ensiná-la que regras foram feitas para ser quebradas e
não cumpridas, além de causar insegurança por falta de
parâmetros. Por outro lado, se as mantiver firme, a criança
entenderá que regra dada é regra mantida e aprenderá que existem
causas e consequências para suas ações, o que fará com que se
torne um indivíduo mais maduro e consciente de suas ações.
É importante não flexibilizar a regra por sua conveniência. Se
não pode comer doces antes do almoço, isso tem que acontecer de
segunda a segunda. Dependendo da idade da criança, ela ficará
confusa se puder um dia e não puder em outro, mesmo que isso
aconteça só nos fins de semana. Não será fácil para ela entender
por que às vezes pode e às vezes não. Então, o ideal é que a regra
definida seja mantida. Quando ela entende isso, nem questiona
mais. Regra é regra e acabou.
Quando impomos regras que a criança entende, ela se sente
mais protegida, passa a se comportar melhor e percebe que pode
ter os pais como aliados, justos e protetores, que podem ajudá-la a
tomar decisões mais seguras e consistentes em qualquer momento
da vida.
Isso também acontece conosco. Não somos mais crianças, mas
ao entender que podemos expressar e controlar nossos
sentimentos, que dúvidas e problemas podem ser resolvidos quando
pensamos em soluções e estabelecemos passos para resolvê-los,
ficamos mais tranquilos, seguros e podemos defender com mais
firmeza e convicção nossos valores e no que acreditamos.
O sentimento nunca é um problema. O problema são os
comportamentos e as atitudes, a forma que escolhemos agir para
resolver um problema. Tudo depende das nossas escolhas. Existem
maneiras seguras e equilibradas de fazer isso, mas se optarmos
pela violência, agressão, incompreensão ou imposição, sempre será
mais penoso ou difícil, além de trazer mais sofrimento. A pena de
nós mesmos e o sentimento de “vítimas do destino” também só
pioram o processo e pouco ajudam na solução.
Para aprimorarmos a segurança, a forma de se posicionar e
defender ideias são necessários trabalhos como coaching, terapia
ou demais processos de crescimento e desenvolvimento.
Também sugiro algumas ações que desenvolvo com meus
clientes de coaching e que trazem excelentes resultados:
treine expor suas ideias e peça a avaliação de pessoas
que admira e que serão honestas ao lhe prover feedbacks;
filme suas apresentações para que possa observar seu
tom de voz, postura, expressão facial e presença de
“palco”;
prepare-se para suas apresentações, estude, planeje,
procure pensar em possíveis objeções que pode receber
de seu expectador;
faça os passos que sugerimos acima, quando for tomar
decisões, procure planilhar soluções e alternativas para
resolver questões e problemas.
Pratique, prepare-se e assimile que pode encontrar soluções
viáveis e seguras. Faça ajustes no seu comportamento e torne-se
um mestre nos relacionamentos. Todos sairemos ganhando, quando
entendermos que precisamos respeitar mais as pessoas, regras,
autoridades, leis, princípios e valores. Esse comportamento
aumenta nossa segurança e nos permite defender nossas
convicções, respeitando diferentes pontos de vista, o que favorece
relacionamentos, negociações e acordos pessoais e profissionais.
Por isso o S de CLASSE é tão importante. Faz com que nos
tornemos profissionais e seres humanos melhores, mais seguros e
com uma autoestima mais consistente.
Capítulo 10
A segunda letra “S” de CLASSE -
Sabedoria
“Só a experiência própria é capaz de tornar sábio o ser humano.”
Sigmund Freud
5. Sabedoria: essa habilidade é a arte de colocar em prática
tudo o que aprendemos no decorrer da vida, captando as
informações mais sutis. Tudo o que sabemos e conhecemos pode e
deve ser usado ao nosso favor, e a forma como empregamos as
palavras, o conhecimento, o comportamento e os movimentos são
essenciais para o aprendizado e para percebermos melhor as
pessoas a nossa volta. Essa característica está associada à nossa
sensibilidade social, o coeficiente que possuímos para nos
posicionar socialmente e para percebermos melhor as pessoas e
suas reais intenções. Assim podemos trazer para nós pessoas boas
e filtrar aquelas que podem prejudicar-nos.
Pode parecer complexo, mas não é, vou explicar. Vamos
aprender de que forma podemos perceber melhor os sinais sutis e
evitar a insensibilidade social nossa e dos outros.
Algumas pessoas têm o dom de dizer coisas tão impróprias,
deselegantes ou rudes, demonstrando tão pouca percepção do
ambiente e do contexto imediato que podem ser consideradas
insensíveis sociais e tóxicas para os outros. São pessoas que não
sabem usar o seu conhecimento de forma adequada, pelo contrário,
muitas vezes são bem inteligentes, mas usam de sua astúcia para
diminuir outros. Utilizam o “poder do conhecimento” para prevalecer
e mostrar que sabem mais.
Já sabemos que existem várias formas de inteligência e pode ser
que essas pessoas realmente se destaquem em alguma área do
conhecimento, mas ninguém é expert em tudo. Precisamos
aprender como devemos usar de forma leve e positiva o
conhecimento, as informações e principalmente a comunicação
verbal e não verbal, que são os melhores caminhos para se
transmitirem informações às pessoas. Essa descoberta vai nos
proporcionar uma vida melhor, mais equilibrada, e nos tornar
excelentes captadores de bons relacionamentos a cada dia.
Conheço muitas pessoas que não percebem que excedem em
seu comportamento, não dão atençãoà necessidade dos outros,
falta-lhes sabedoria relacional. Por exemplo, às vezes estamos
falando com alguém e damos vários sinais claros de que estamos
atrasados ou com pressa e as pessoas ignoram nosso
comportamento e continuam falando. Não adianta olharmos no
relógio, andarmos mais rápido, nem mesmo falar que precisamos ir
ou caminhar em direção à porta. Algumas pessoas continuam
andando conosco e falando como se ignorassem o que acabamos
de dizer. Essa tendência, na verdade, é um indicador de “dislexia
social”. Esse termo não foi criado por mim, mas por Goleman. Ele
cita exemplos interessantes de pessoas assim no seu livro: “FOCO
– A atenção e o seu papel fundamental para o sucesso”.23
O contrário da dislexia social é a intuição social, quando
decodificamos a mensagem que o outro está nos enviando e a
compreendemos. Fazer o uso adequado da linguagem e da
percepção não verbal é um sinal de inteligência relacional.
Estabelecemos essa linguagem sempre que interagimos com as
pessoas e se estivermos atentos a esses sinais podemos ganhar
muito quando estamos conhecendo pessoas novas, em entrevistas
de emprego ou em uma negociação importante. Podemos ser mais
bem aceitos pelas pessoas à medida que ficamos atentos aos seus
sinais. As pessoas falam com o corpo, com os gestos, com o olhar.
Comunicamo-nos desta forma o tempo todo.
Quando desenvolvemos nossa sensibilidade social nos tornamos
captadores de pistas sutis que podem guiar a forma como nos
comportamos. O melhor de tudo é que essa habilidade pode ser
desenvolvida quando damos mais atenção ao que está a nossa
volta e à reação das pessoas com quem nos relacionamos.
Certa vez fui com uns amigos que trabalhavam no Bank of
America fazer uma visita para conhecer a estrutura e matar a
curiosidade de onde ficava a bolsa de valores, as instalações e as
áreas internas do banco. O prédio é espetacular, uma vista linda,
todo envidraçado, com um pé direito incrível. Fica no centro/uptown,
em Charlotte, na Carolina do Norte. Pois bem, a maioria das
pessoas já tinha ido embora quando chegamos. Era um final de
tarde lindo, o sol já estava se pondo e ainda dava para ver o toque
amarelado no horizonte através dos vidros. Diante daquele
espetáculo da natureza, em sintonia com a modernidade do lugar,
parei para observar as mesas, as ilhas de trabalho de cada pessoa.
Consegui perceber quem era organizado, quem estava resfriado,
quem gostava de café, quem era friorento, etc. E como? Mesmo
sem que as pessoas estejam presentes, se dedicarmos um pouco
de tempo e atenção conseguimos captar informações sobre elas, às
vezes, em suas necessidades mais internas.
Bastou observar a mesa mais arrumada, a que estava com uma
caixa de lenço de papel e o lixo abarrotado de lencinhos, a imensa
caneca térmica de café sobre uma das mesas e o casaquinho nas
costas da cadeira de outra.
Claro que isso demanda treino e atenção para aprender, e
algumas pessoas têm mais habilidade para reparar nisso do que
outras, mas é sem dúvida uma característica que podemos otimizar
se quisermos entender melhor as pessoas. A clareza começa a
acontecer quando percebemos o que não notamos – e não notamos
que não notamos.
Aprimorar o radar social pode nos tornar mais sensíveis para
percebermos sinais sutis nas pessoas, como um levantar de
sobrancelha, a dilatação da íris, o lacrimejar dos olhos, o chacoalhar
das pernas ou pés, braços cruzados, etc. O desenvolvimento dessa
habilidade nos torna socialmente perspicazes, capazes de sentir
quando não devemos tratar de assuntos delicados, quando alguém
precisa ficar sozinho ou quando palavras de conforto seriam bem-
vindas.
Um olhar treinado para as pistas sutis oferece vantagem em
muitas áreas da vida, principalmente em negociações. Nosso
próximo livro sobre “Inteligência Relacional em Vendas” vai abordar
isso melhor.
A diretora do Instituto de Interação Humano-Computador da
Universidade Carnegie Mellon, Justine Cassell, coordenou
interessantes pesquisas sobre “movimentos sutis” e afirma que “os
gestos sempre ocorrem pouco antes da parte mais enfática do que
estamos dizendo”. O timing do gesto fornece a interpretação de seu
significado. Com o timing errado, uma declaração positiva pode ter
um impacto negativo. Por isso alguns políticos podem parecer falsos
em suas argumentações, porque não são naturais e não conseguem
repetir o timing correto.
O fato é que tudo em que prestamos a atenção nas pessoas nos
gera significados, em níveis conscientes ou inconscientes, e não
conseguimos não criar algum sentido a partir do que alguém nos
diz. Devemos treinar mais para fazer interpretações mais corretas e
adequadas do que as pessoas nos dizem ou estão tentando nos
dizer através de sinais, gestos ou movimentos.
Sabemos que o uso adequado do comportamento-espelho
acaba gerando empatia e aceitação nas pessoas. A descoberta
recente do neurônio-espelho foi tão instigante, porque confirma o
que de forma empírica já sabíamos, que quando as pessoas
repetem nossos gestos ou comportamentos, nós as aceitamos
melhor. Mesmo que seja de forma inconsciente, acabamos criando
maior empatia com a percepção da semelhança.
Logo falaremos da letra E de CLASSE, a empatia, que pega
carona na importância da sabedoria para o exercício e
desenvolvimento da sensibilidade social e relacional. Essa
habilidade nos permite também melhorar a percepção do
comportamento das pessoas para que possamos criar escudos
relacionais e melhor entendermos quem são os anjos (sensíveis
relacionais) ou os vampiros (impróprios ou insensíveis relacionais)
que surgem na nossa vida a todo o momento.
Daniel Goleman deixa claro que as pessoas capazes de manter
controle sobre seus impulsos e sentimentos conseguem passar
emoções positivas aos outros.
Aqueles que têm um comportamento amigável eu denominei de
pessoas-anjo. Os anjos são pessoas que aparecem quando menos
esperamos e nem sempre ficam por muito tempo na nossa vida,
mas deixam uma impressão positiva inigualável. São sensíveis
relacionais e são aqueles que somam e aparecem para nos tornar
pessoas melhores:
Ajudantes: sempre dispostos a prestar auxílio, parece
que nasceram para ajudar os outros. Se precisarmos de
um ombro amigo ou de ajuda na mudança eles terão o
maior prazer em estar conosco;
Aprendizes: parecem estar sempre atentos ao que temos
a dizer e querem aprender com tudo. Geralmente gostam
de ouvir histórias e nos ajudam a liberar a criatividade;
Positivos e otimistas: sempre veem o lado bom das
coisas, por mais trágicas que pareçam. São agradáveis e
tranquilos para se conviver e acreditam que o final sempre
acaba bem. Dizem: “Se ainda não deu certo, é porque não
acabou”!
Incentivadores: quando contamos uma ideia, eles dão
sugestões interessantes, que podem aprimorar nossa
criação. Colocam “pilha” para que sigamos em frente;
Estudiosos: falam com sabedoria e saem com frases ou
palavras brilhantes; dá vontade de anotar o que dizem
para não esquecer. Nos encorajam a planilhar, planejar e
pensar antes de fazer;
Inteligentes: estão sempre pensando em soluções e
estratégias interessantes e podem contribuir com
inovações e ajudar-nos em nossas decisões, pois
contribuem com sacadas sensacionais;
Honestos: é uma desonra para eles enganar, roubar ou
mentir. Podemos confiar e entregarmos a “chave do cofre”
para eles.
Bem-humorados: estão geralmente sorrindo e deixam o
ambiente mais leve, acordam de “bem com a vida”.
Divertidos: piadistas naturais, são engraçados e
geralmente fazem todos rirem com suas brincadeiras e
palhaçadas;
Dinâmicos: parece que estão sempre com a bateria
carregada, não sentem preguiça de fazer as coisas e
procuram estar sempre em atividade. Geralmente fazem
mais de uma coisa de cada vez.
Em contraponto, àqueles que se comportam como se fossem o
centro das atenções, são egoístas, egocêntricos, interesseiros e
carentes de consideração pelos outros, chamamos de vampiros
emocionais. Eles impõem egoisticamente seus interesses aos dos
outros, abusam da educação alheia, pedindo favores impróprios às
pessoas, e ainda falam coisassem se preocupar com o impacto que
causam.
Normalmente, o vampiro emocional tenta humilhar ou
desqualificar os outros e, para piorar, esconde-se atrás de
justificativas e pretextos para demonstrar o seu ponto de vista e
“provar” que está correto ou agindo para o bem alheio.
É claro que pode haver casos em que a personalidade do
vampiro emocional não é experimentada conscientemente. Alguns
vampiros emocionais não são capazes de perceber que se
comportam assim, e não estão cientes dos efeitos negativos de
suas ações sobre as pessoas ao seu redor24.
Os vampiros emocionais são indivíduos que se alimentam da
energia emocional dos outros, são suscetíveis a manipular
emocionalmente suas “vítimas” para atingir seus objetivos. Eles se
aproximam das pessoas para exteriorizar a sua negatividade e se
aproveitar do poder do seu interlocutor, descarregando nos outros
seu desconforto ou suas questões mal resolvidas.
O fato é que essas pessoas transmitem uma energia tóxica que
pode provocar uma série de emoções ruins que causam ansiedade,
depressão e reações físicas que levam ao que chamo de doenças
psicorrelacionais. São doenças causadas pelo impacto de relações
ruins e tóxicas para o estado físico e emocional de cada um de nós.
Os neurocientistas e neuropsicólogos já conseguem explicar
muito melhor o impacto dessas relações doentias, no cérebro e no
organismo humano. O que precisamos ter claro é que essas
pessoas, inconscientemente ou não, têm a capacidade de roubar a
energia de todos ao seu redor, criando uma aura de negatividade,
seja em casa, na empresa, na escola ou em qualquer instituição
social.
Precisamos nos blindar e nos afastar deles, porque acabam
gerando altos níveis de estresse e fadiga emocional que podem
causar doenças sérias, que iniciam levemente, mas que, com o
tempo, podem se tornar crônicas.
Fique atento aos vampiros emocionais. Eles sugam
completamente a sua energia, mesmo quando você está bem e tudo
parece calmo, quando eles se aproximam o ambiente fica pesado,
você sente um mal-estar, mas nem sempre consegue perceber que
vem dessas pessoas. Perceba-os:
Aproveitadores: estão sempre necessitados e pedindo a
sua ajuda ou as suas coisas emprestadas, mas nunca
oferecem nada em troca ou não têm tempo para ajudar
você;
Competidores: querem mostrar que são melhores que
você e qualquer coisa que você fale eles sempre sabem
mais ou fizeram melhor;
Sabe-tudo: qualquer coisa que você diga ele aprendeu
mais que você ou tem uma estória melhor ainda para
contar, a sua tem que ficar menor ou menos importante
que a dele;
Traidores: fazem-se de amigos, mas sempre acabam
apunhalando você pelas costas.
Falsos: dizem que os outros não prestam, ou não são tão
amigos, ou tão inteligentes ou bacanas quanto você, mas
falam mal de você para os outros;
Sofredores e vítimas: o mundo é cruel para eles,
torturam-se com a autopiedade, todos os perseguem.
Estão sempre doentes, tomam muitos remédios e a sua
maior diversão é ir ao médico;
Fofoqueiros: contam sempre aos outros o que você pediu
encarecidamente que não falasse a ninguém e adoram
espalhar boatos;
Invejosos: querem ter o que você tem ou ser o que você
é, mas nunca conseguem, pois pouco se esforçam;
Críticos: reclamam de tudo o que você faz ou sugere,
mas nunca dão solução, ou seus conselhos são
indesejados;
Pessimistas: são desmancha-prazeres, acham que
nunca nada vai dar certo e jogam baldes de água fria nas
suas ideias;
Atropeladores: passam por cima de você como um rolo
compressor, são mandões e querem que todos façam o
que eles acham melhor;
Nunca esqueça que para você se defender terá de usar os seus
escudos emocionais, sendo fundamental que aprenda e pratique
todos os passos da base da Inteligência Relacional: a CLASSE,
identificando as características e os sinais que as pessoas mostram,
a fim de saber bloquear as más vibrações.
Além do mais, quando alguém descarrega em cima de você,
procure manter-se em equilíbrio e não assuma automaticamente
uma postura defensiva. É bem possível que o problema esteja no
outro e não em você. Trazer para o pessoal ou devolver o lixo tóxico
só vai piorar a situação. O melhor a fazer é manter o controle e a
calma, porque quem os mantém, obtém poder na interação. Quando
a pessoa se irrita sozinha sempre é perdedora. Esse é mais um
escudo que pode usar a seu favor. A raiva vai bater no seu escudo e
voltar para a pessoa. A medida que você reage, absorve e acaba
assimilando a raiva do outro, o que será muito mais prejudicial para
si.
Não deixe de considerar que, infelizmente, em algumas
situações você vai precisar romper um relacionamento que se tenha
tornado sufocantemente tóxico, mas só faça isso se já tiver tentado
fazer todos os ajustes possíveis, como entender, escutar, perguntar,
avaliar a questão e, acima de tudo, perdoar, principalmente se isso
não acontece a todo o momento. Às vezes, é apenas uma descarga
por algo ruim que aconteceu, e a pessoa ainda não sabe como lidar
com a situação por medo ou desespero, e descarrega em você.
Lembre-se de não ter medo de ter dúvidas com relação aos
desafios de um relacionamento! Viva as experiências que você
deseja viver, aprenda com os erros e não tenha receio de tentar
novamente após um fracasso. É vivendo e experimentando que
aprendemos, mas de fato aprenda com os erros, use a sua
sabedoria a seu favor e evite repetir os mesmos erros a cada nova
relação. A sabedoria é construída a cada dia.
A seguir, vamos falar da empatia, e você terá mais algumas
dicas de como lidar de forma positiva com as situações conflitantes.
23. Texto traduzido e adaptado por Psiconlinews: https://goo.gl/1RgtJw
24. Daniel Goleman, Livro Foco, p. 116.
Capítulo 11
A letra “E” de CLASSE - Empatia
“Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo
refletido nos olhos dele.”
Carl Rogers
6. Empatia: é a habilidade de conseguirmos ler a emoção das
pessoas, de nos colocarmos no lugar do outro e de tentarmos
pensar como pensam e sentir como sentem. Tornarmo-nos capazes
de perceber melhor as dores, alegrias, tristezas e conquistas de
cada pessoa, compartilhando de forma mais autêntica a cooperação
e a percepção de como aquilo que pode parecer fácil para alguns, é
muito difícil para outros.
A empatia desempenha um papel essencial na capacidade de
cuidar e está centrada em responder às necessidades de outros, e
não a nossa necessidade. Freud observou uma notável semelhança
na intimidade física entre os amantes e entre mães e bebês. Os
amantes, como mães e filhos, passam a maior parte do tempo
olhando nos olhos, tocando, acariciando e beijando – o contato
físico é intenso e proporciona uma imensa sensação de felicidade.
Para a maioria das mães, ouvir o choro de seus bebês tem uma
força particular; elas identificam de longe e possuem uma
capacidade de provocar um nível de compreensão tão grande que
parecem sentir o que seus bebês estão sentindo. Essa habilidade
acontece também com as fêmeas de outras espécies e, por isso
mesmo, garantem a sobrevivência. Como já dissemos, somos seres
relacionais desde sempre e precisamos dos outros para sobreviver.
A oxitocina, considerada também o “hormônio do amor” materno
e sexual, quando liberada pelo parto, amamentação ou orgasmo,
inunda quimicamente o nosso organismo, liberando uma sensação
de êxtase e de proteção e cuidado. Esse hormônio também cria
sensações reconfortantes durante interações sociais e físicas.
O neurologista sueco Kerstin Uvnas-Moberg estudou a fundo a
oxitocina e afirma que essa inundação de substância química ocorre
sempre que entramos em contato afetuoso com alguém de quem
gostamos muito e estimula o que chamamos de cérebro social. Os
benefícios da oxitocina parecem surgir nas interações sociais
agradáveis, sempre que as pessoas trocam energia emocional.
Associada com afetos relacionais e românticos, a oxitocina
aumenta a libido e é conhecida por criar laços sociais, familiares e
afetivos. É este hormônio que nos faz apaixonar por alguém. Não só
paixão sexual, mas também amor fraternal e entre amigos.Quando
conhecemos alguém, esta pessoa terá a capacidade de induzir a
liberação de muita ou pouca oxitocina em nós. Quanto maior for
esta indução, mais nos apegaremos e nos lembraremos dela. Aí é
que encontramos novamente a empatia, porque pessoas que
apresentam mais oxitocina circulando em seu sangue parecem mais
apaixonantes e carismáticas. 25
Estudiosos afirmam que a oxitocina é uma substância
neuroquímica essencial aos relacionamentos duradouros. John
Gottman, pioneiro nas pesquisas sobre as emoções nos
casamentos, expõe que alguns casais suprem a tal ponto as
necessidades principais dos sistemas neurais um do outro que,
quando vivem juntos e felizes durante muito tempo, tendem a ficar
parecidos também no aspecto físico. As expressões e emoções que
sentem desencadeiam os mesmos músculos faciais e acabam
moldando sulcos, rugas e marcas de expressão similares, tornando-
os cada vez mais similares entre si.
Quando as interações positivas sobrepõem às negativas, entre
casais ou pessoas que convivem juntas, passam a compartilhar
emoções que levarão a um relacionamento robusto e duradouro.
Por essas razões, sabemos que o amor e os relacionamentos
fazem diferença na saúde e na doença das pessoas e que existem
vários estudos realizados em hospitais com doentes coronarianos
ou terminais que comprovam quanto os relacionamentos tóxicos
elevam níveis de cortisol fazendo tão mal quanto o tabagismo, a
hipertensão arterial, o colesterol, a obesidade ou o sedentarismo.
Ressaltamos a nossa responsabilidade enquanto parceiros. Os
dados colocam os relacionamentos entre os fatores de riscos, e com
o aprendizado de que temos um cérebro social e hormônios e
neurotransmissores que agem diretamente sobre o nosso
organismo, entendemos o elo biológico que faltava para termos
certeza de que as interações humanas nos influenciam para o bem
ou para o mal, como falamos no capítulo anterior, e a escolha de
como podemos agir com as pessoas para as deixarmos melhores
ou piores também é nossa.
Afinal, o que você quer deixar para as pessoas com quem
convive? E para a humanidade? Que tipo de contribuição você quer
dar para as pessoas? Quão empático e preocupado com os outros
você quer ser? Ao mesmo tempo, você está pronto para ser você
mesmo e respeitar os outros para que sejam eles mesmos também?
Parece simples, mas vamos pensar um pouco mais a fundo
sobre isso. Não podemos deixar de falar sobre uma questão muito
importante, a humildade. Só conseguimos ser realmente empáticos
à medida que conseguimos entender no outro o que mais
questionamos. Por exemplo, vamos partir do princípio de que você
“odeie” pessoas obesas, homoafetivos, tatuados ou drogados,
enfim, você, em seu íntimo, sabe o que mais lhe causa estranheza.
Cada um de nós tem algo forte que incomoda. Você conseguiria ser
empático com essas pessoas e tentar entender por que elas gostam
do que você não gosta, sem fazer críticas ou julgamentos?
Ser empático com os amigos ou aqueles que são parecidos
conosco é muito fácil, mas e com quem é diferente? O estranho, as
pessoas com deficiências físicas ou emocionais, quem anda com
dificuldade ou não tem pernas, quem não enxerga, quem grita ou
fala alto por dificuldades reais com a fala, como devemos lidar com
isso?
Poucos pais ou poucas escolas ensinam como devemos agir, e a
maior parte das pessoas fica perdida nessas situações. Não sabem
se ajudam, se ignoram, e a grande maioria fica olhando como se
aquele ser fosse um alienígena.
Lembro-me de que na escola onde minhas filhas estudavam
havia um programa de inserção a crianças com deficiências físicas
ou mentais, que participavam junto das aulas e interagiam com
todos na hora do intervalo ou no horário do almoço. Outra iniciativa
da escola era o “projeto virtudes e atitudes”, no qual escolhiam um
valor por ano para ser trabalhado, como verdade, fraternidade,
diálogo, união, simplicidade. A ideia era a pesquisa constante para
desenvolver um trabalho pautado em valores humanos e voltado
para a formação de cidadãos conscientes de seu papel na
sociedade. Procuravam colocar em prática iniciativas em que os
alunos entram em contato com os valores humanos por meio de
temáticas contextualizadas nas atividades escolares. Esse projeto,
segundo me disseram, tem por objetivo inserir alunos, familiares e
professores a partilhar o conhecimento e a consciência de
responsabilidade social e de como tratar com as diferenças.
Belíssimo! No papel e na leitura do site, então, lindíssimo! De
fato, é essencial para a nossa sociedade resgatarmos os valores
sociais, desenvolvendo o senso crítico e o pensamento ético, mas
quantas escolas ou famílias fazem isso de verdade? Quantas
conseguem fazer seus filhos, alunos ou professores exercer sua
cidadania de forma plena e ampla?
Todos nós queremos transformar o mundo em um lugar melhor e
mais justo para se viver, por isso, meu caro, comece por si próprio.
Deixe os seus preconceitos de lado e passe a aceitar as pessoas e
suas dificuldades como elas devem ser vistas, com mais
naturalidade.
Se é difícil para você encarar uma pessoa com deficiência ou
dificuldade, ou obesa, ou tatuada, não importa, imagine como é para
os pais, para a família ou os amigos. E se fosse com você?
Entende agora o poder da empatia? Ela pode mudar o mundo. A
inteligência relacional pode mudar o mundo.
E a empatia entre casais?
Logo depois que me formei, fiz uma especialização em
psicodrama. Na época também participei de alguns grupos
terapêuticos nesta linha de abordagem que foram muito válidos para
o meu desenvolvimento emocional e para a minha aprendizagem
relacional. Fiz também alguns anos de formação em Gestalt-terapia.
Aprendi a “Oração da Gestalt”, que norteia minhas relações até
hoje. Eu a escolhi para ser a minha linha de conduta no que
devemos considerar positivo e efetivo nos relacionamentos.
A oração da Gestalt:
“Eu sou eu, você é você.
Eu faço as minhas coisas e você faz as suas coisas.
Eu sou eu, você é você.
Não estou neste mundo para viver de acordo com as suas expectativas.
E nem você o está para viver de acordo com as minhas.
Se por acaso nos encontrarmos, será lindo.
Se não, não há nada a fazer”.
Fritz Perls
Friederich Salomon Perls (1893-1970) foi um psiquiatra e
psicoterapeuta alemão que, com sua esposa, Laura Perls, fundou
uma escola de estudo psicológico denominada Gestalt-terapia. Essa
teoria, de forma bem simplificada, versa sobre a realidade do aqui e
agora e do organismo como totalidade.
Defendiam a importância da individualidade, reforçando que as
relações saudáveis são complementares, mas não dependentes
uma da outra.
Por isso, defendo e acredito que “somos nós dentro de cada eu.”
Partindo do princípio de que temos muitas vezes a necessidade
de encontrar determinadas coisas nas pessoas com quem nos
relacionamos, como se elas fossem capazes de tampar os nossos
buracos internos, precisamos entender que essa busca só serve
para criar uma imensa expectativa ilusória do que as pessoas não
nos podem dar.
Só podemos ser felizes e fazer as pessoas ao nosso redor
felizes, a medida que nos tornamos únicos e temos em nós mesmos
praticamente tudo de que precisamos. A partir disso, seremos
capazes de dividir, compartilhar ou complementar. Se nos tornamos
dependentes do outro, estamos sempre sujeitos a exigir demais ou
achar que o outro é responsável pela nossa felicidade.
Ninguém é obrigado a corresponder ou a viver de acordo com
aquilo que nós queremos, e nem nós devemos viver de acordo com
o que as pessoas querem e esperam de nós.
Quando temos essa clareza, conhecemos as nossas limitações e
o que podemos oferecer de bom aos outros, e, se houver um
encontro dessas duas realidades, unindo o desejo de ambas, aí,
sim, isso efetivamente será lindo.
Quando não há esse encontro e essa troca, não adianta lutar,
pois as coisas não darão certo, ambos vão se frustrar, e a tristeza se
instala onde deveria perdurar a felicidade.
Por outro lado, quando cada um traça o seu caminho, define e
descobre as suas verdades, sendo capaz de ser verdadeiro,consigo
e com os outros, aí poderão ser felizes. Afinal, já dizia Caetano
Veloso, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.”
O mais importante é que, mesmo apaixonado, amando outra
pessoa ou envolvido em um relacionamento há muito tempo, é
preciso manter a individualidade de cada um.
É fundamental que possamos ser gentis conosco, que possamos
manter alguns interesses e vínculos de amizade separados do
parceiro. As pessoas ou casais que se “misturam” demais acabam
por se “sufocar”, perdem a individualidade e, mesmo que exista
muito amor, haverá também muita frustração e desejos não
correspondidos.
Infelizmente não podemos controlar o futuro e corremos o risco
de termos a perda afetiva ou real da pessoa que amamos, por
separação, doença ou morte. E aí? O que será de nós? Quantos
anos a pessoa vai levar para se resgatar? Será que em algum
momento ela voltará a ter clareza de quem ela é? Como pode viver
sem a dependência do outro? Algumas vezes o relacionamento fica
tão complicado e misturado que perde completamente o sentido de
união e passa a ser de confusão; e isso não é uma alternativa
saudável para ninguém.
Claro que paixão e novos relacionamentos nos revigoram, são
novas trocas, experiências e intimidades, mas é fundamental que
cada um mantenha contato saudável com suas atividades favoritas,
hobbies, academia, futebol, sonhos, metas, amigos, família. Isso
significa que precisamos preservar e valorizar aquilo que somos e
do que gostamos.
Ao contrário disso, se houver um sufocamento exagerado por
parte de um dos parceiros, ou ambos, a tendência é que surja a
sensação sedutora de ter um segredo, de tentar esconder ao menos
alguma coisa que o parceiro controlador não saiba, e, assim, surge
a necessidade tácita de ataque (muitas vezes inconsciente) ao
outro.
Desta forma, muitas pessoas acabam, por excesso de pressão,
procurando por pornografia, amantes, bebidas, compulsão
alimentar, uso de medicação sem necessidade, drogas, etc.
Começa a aparecer a sensação sedutora de cometer exageros,
com a intenção de se diferenciar do outro, de ter um espaço
reservado para si, que poderia perfeitamente ter sido resolvido com
mais equilíbrio e nas atividades saudáveis acima descritas; com a
cumplicidade sem “mistura”, com respeito às diferenças e com
permissão de saídas saudáveis.
Converse com o seu parceiro antes que o pior aconteça, e fale
da importância de cada um ter suas próprias atividades de vez em
quando. Manter um grupo de amigos da faculdade, reuniões com
pessoas queridas, almoço com as amigas ou amigos, atividades
físicas, jogos de futebol, viagens de moto ou rali, cabeleireiro, enfim,
que cada um mantenha as atividades que podem ser prazerosas e
não abusivas ou que levem a pessoa a sentir vontade de
experimentar o que é “proibido” por excesso de controle ou por
agressão à individualidade do outro.
Se você conseguir colocar a EMPATIA em prática e entender
melhor a necessidade das pessoas com quem convive, poderá
delimitar fronteiras e se destacar por respeitar e ser respeitado.
Assim finalizamos as dicas de CLASSE para que possamos viver
de forma mais leve e feliz nas nossas interações. Exercitar estes
passos é o que podemos chamar de Alta Inteligência Relacional –
AIR.
Para fechar com chave de ouro, vamos falar um pouco sobre
amor e sexualidade, que, afinal, também fazem parte das nossas
relações pessoais.
25. Oxytocin is an age-specific circulating hormone that is necessary for muscle
maintenance and regeneration Christian Elabd, Wendy Cousin, Pavan Upadhyayula,
Robert Y. Chen, Marc S. Chooljian, Ju Li, Sunny Kung, Kevin P. Jiang & Irina M. Conboy
Are Plasma Oxytocin and Vasopressin Levels Reflective of Amygdala Activation during the
Processing of Negative Emotions? A Preliminary Study. https://goo.gl/kQQ4Ir
Capítulo 12
Amor & Sexo
“Um coração feliz é o resultado inevitável de um coração ardente de amor.”
Madre Tereza de Calcutá
Amor e sexo, um assunto polêmico que gera uma série de
comentários, discordâncias, consentimentos e conflitos. Cada um
tem sua maneira de pensar e praticar amor e sexo. Para alguns, é
impossível separar as duas coisas; para outros, é difícil uni-los, e há
aqueles que acham possível viver as duas coisas; às vezes amor,
às vezes sexo, vai depender da relação que se estabelece.
Religião, futebol, política, amor e sexo estão entre os temas que
mais causam discussão e contrariedade nas relações pessoais. Já
dizia Ferreira Gullar: “Não quero ter razão, eu quero é ser feliz.” Mas
as pessoas geralmente perdem um tempo enorme discutindo
assuntos polêmicos, em que a opinião será divergente e discutir
sobre eles só vai gerar briga e desentendimento.
O que a maioria de fato acredita é que o amor é a realização
mais completa e sublime das possibilidades humanas. Nele se
busca a plenitude do ser, a única coisa que pode absorvê-lo
inteiramente. E aí podemos considerar os vários tipos de amor,
entre pais e filhos, irmãos, casais, família e amigos.
Já a paixão pode ou não se transformar em amor, mas a
princípio é puro prazer. Às vezes é tão intensa que retira o “ser” de
si mesmo. Muitos se entregam a tal ponto que passam a viver quase
inteiramente para o outro (o que pode ser perigoso, é preciso ter
cuidado para não se despedaçar para manter o outro inteiro) ou
para o objeto de desejo. A paixão é considerada um dos maiores
prazeres que os seres humanos têm em sua vida. É puro êxtase e
vontade de realizar. Usamos o termo paixão também quando
amamos o trabalho que realizamos ou um projeto, ou uma nova
descoberta, porque a paixão e o prazer motivam e impulsionam para
a realização.
O sexo está diretamente relacionado ao prazer, à relação corpo
a corpo, e é talvez o mais intenso dos prazeres corporais. É visto
como a energia que direciona os instintos vitais, ou seja, a libido26,
que envolve encantamento, relaxamento e gozo.
A satisfação sexual é apenas uma parte da alegria da entrega e,
quando vem de alma e corpo, temperada com amor, fica sem dúvida
ainda melhor. Quando se prima pela busca do simples prazer físico,
esse prazer tende a converter-se em algo momentâneo, que pode
funcionar como uma ótima descarga física e sexual, mas que
também pode deixar um rastro de vazio e insatisfação.
Quando os envolvidos sabem o que esperar da relação e quando
está claro que o envolvimento é puramente sexual, pode ser bom e
divertido para ambos. O problema é quando o relacionamento se
reduz à simples fome de prazer, e um dos lados apenas “usa” a
outra pessoa. Isso não é bom para nenhum dos dois. Quando se
“usa” a outra pessoa, sem seu consentimento ou sem que ela tenha
clareza de que é apenas prazer sexual, deixa de ser respeitoso, e o
prazer pode ser imediato, mas vai sempre deixar um gosto amargo.
Claro que os psicopatas ou pervertidos sexuais veem isso de uma
outra forma, mas eles precisam de uma atenção particular.
A questão é que o terreno sexual oferece ocasiões para se servir
das pessoas como se fossem um objeto, ainda que seja
inconscientemente. A dimensão sexual do amor faz com que o ser
humano se incline para a busca do prazer em si mesmo, ou seja,
uma necessidade de sentir prazer, sem necessariamente dar prazer.
Esse tipo de relacionamento leva o outro a sentir-se rebaixado, pois
afeta a sua mais profunda intimidade e relação de amor próprio.
Então fica complicado, porque a pessoa tende a sentir-se usada,
exposta e oprimida e começa a surgir uma série de problemas que
vai afetar a vida pessoal e a autoestima e, com certeza, a relação
torna-se pesada e corrosiva.
Se encararmos o sexo como expressão da nossa capacidade de
amar, de forma leve e íntima, envolvemo-nos até a mais pura
totalidade. Aí o ato sexual pode ser muito bom e desencadear um
valor positivo e digno de ser curtido. Quando o prazer e o amor se
unem em entrega mútua, acreditamos que é possível alcançar um
alto grau de felicidade, prazer, relaxamento e gozo.
Se classificarmos amor, paixão e sexo como tipos ou diferentes
formas de se relacionar, também percebemos que eles estão
correlacionados, masdespertam substâncias bioquímicas diferentes
no nível bioquímico. Os hormônios do sexo – androgênio e
estrogênio – estimulam o desejo. A atração ou paixão parece ser
impulsionada por uma mistura de altos níveis de dopamina e
noropinefrina (que aumentam o prazer e o relaxamento) e baixos
níveis de serotonina. Sendo assim, segundo o livro Why we love, da
Helen Fisher, a química gerada nas formas de se relacionar é
diferente, e o que faz os relacionamentos durarem é a variação dos
níveis de oxitocina e vasopressina, transformando-se em amor.
Vale considerar que esses três sistemas podem se conectar em
um equilíbrio elegante, e que quando tudo sai bem, incrementa o
plano da natureza de perpetuar a espécie, principalmente nas
relações heterossexuais (veja a descrição abaixo). De qualquer
forma, para todos os estilos de orientação sexual, quando os três
caminham juntos, alimentam o romance, geram uma relação
relaxada, sensual, afetuosa e de cuidado um com o outro, na qual a
conexão tende a florescer. E quando um dos três está ausente, o
amor romântico tropeça e pode ser preciso reavaliá-lo.
Fiz uma pesquisa para entender os tipos de orientação sexual.
São tantas variáveis que poderíamos rechear algumas páginas para
descrevê-los, mas vamos destacar os mais comentados.
Heterossexualidade
É a orientação sexual caracterizada pela atração sexual e
emocional entre pessoas de sexos opostos.
Homoafetividade ou homossexualidade
É a orientação sexual caracterizada pela atração sexual e afetiva
entre indivíduos do mesmo sexo.
Bissexualidade
É a orientação sexual caracterizada pela atração sexual e
sentimental entre pessoas tanto do mesmo sexo como do sexo
oposto. A diferença entre a bissexualidade e a homossexualidade é
que também pode haver hipótese de atração entre pessoas do sexo
oposto.
Transsexualidade
Um transsexual é uma pessoa que não se sente identificada com
o seu corpo, e o seu gênero psicológico não corresponde ao físico,
ou seja, homens que se sentem como mulheres ou mulheres que se
sentem como homens. A transsexualidade não está de todo
relacionada com a homossexualidade. Um homem homossexual
não se sente mulher, sente-se homem, mas gosta de pessoas do
mesmo sexo. No caso de sentir-se como uma mulher, considera-se
transsexual. Atualmente, é possível fazer uma operação de
mudança de sexo para que o homem se converta em mulher e vice-
versa.
Panssexualidade
A panssexualidade, também denominada omnissexualidade,
polissexualidade ou trissexualidade, é caracterizada pela atração
sexual ou romântica por pessoas independentemente do sexo ou
gênero destas. Podem sentir-se atraídas por homens, mulheres ou
também por pessoas que não se sentem identificadas com o seu
gênero, incluindo interssexuais, transsexuais e intergêneros.
Assexualidade
É a falta de orientação e desejo sexual. As pessoas assexuais
não sentem atração física ou sexual por nenhuma pessoa e não
sentem desejo pelo prazer sexual, pois não se identificam com
nenhuma orientação sexual definida. Não é habitual que se
apaixonem ou tenham um namorado/a. Tendem a criar um laço
afetivo com alguém ainda que não implique terem uma relação
sexual.
Intergênero
A diferença entre intergênero e transsexual é que os
intergêneros não se identificam nem como homens nem como
mulheres. Podem se ver como homens ou mulheres. Algumas
pessoas têm características do sexo oposto em junção com
características do mesmo sexo. Alguns veem a sua identidade como
uma junção entre o masculino e o feminino. Intergênero não designa
uma orientação sexual, mas um conceito relacionado com a
identidade de gênero27.
As diferentes opções mostram que a sexualidade é mesmo de
cada um e as escolhas são pessoais. São diferentes formas de se
relacionar. Imagino que pode estar passando dois pensamentos
diferentes na sua cabeça neste momento. Se você é uma pessoa
mais tradicional ou religiosa e tem apenas relacionamentos com
pessoas do sexo oposto ao seu, ou seja, é um heterossexual, talvez
questione as outras escolhas, mas se você é mais aberto e encara
uma variação ou novidade, creio que vai lidar de forma mais natural
com as outras possibilidades.
Não vem ao caso aqui julgarmos o que está certo ou errado
quando falamos de opções sexuais. No contexto religioso, algumas
escolhas podem ser vistas como pecado e as pessoas como
pecadoras. Na psicologia, as escolhas são compreensíveis,
aceitáveis e devem ser isentas de julgamento, e na vida temos que
flexibilizar nossa forma de pensar e ter em mente que, embora
talvez você nunca pudesse fazer escolhas que considere estranhas
ou diferentes da sua, você pode e deve respeitar quem as faz. Esse
é o mínimo do que podemos esperar quando falamos de inteligência
relacional e respeito ao próximo. Mantenha a sua escolha se assim
lhe convém e “permita” que cada um faça a sua. Não está em seu
poder escolher pelo outro, mesmo que ele seja seu filho, sobrinho
ou amigo próximo. Entendo que você pode questionar e até
discordar, mas infelizmente é o máximo que você pode fazer.
Querer mudar a opinião do outro ou obrigá-lo a pensar diferente
será desgastante para todos e possivelmente não levará a lugar
nenhum. É possível que as pessoas “finjam” que aceitam a sua
opinião para evitar conflito, mas continuem fazendo as suas
escolhas entre quatro paredes.
Tudo o que as pessoas de fato querem é ter direito de amar e a
opção sexual faz parte desse processo. Onde se desenvolve a
trama mais instigante da sua história está, inquestionavelmente, a
sexualidade.
Se você tem algum problema nessa área, dificuldade de aceitar
seu corpo, insegurança com relação a sua escolha sexual, dúvida
com relação a dar ou receber prazer ou qualquer outra questão
relacionada a esse campo, procure ajuda. Um bom terapeuta ou
orientador certamente o ajudará a minimizar a angústia e o
sofrimento causado pela dificuldade em fazer escolhas e a cuidar
melhor de você e da instabilidade emocional que afeta esta e outras
esferas da vida humana.
Não sei se vocês já ouviram isso, mas cientificamente existe
uma explicação para a frase: “quando o pênis endurece, o cérebro
amolece.” De fato, isso acontece, porque o circuito neural para o
sexo inibe as regiões subcorticais das vias secundárias, localizadas
além do cérebro pensante (ego/consciente ou neocórtex). O cérebro
social, aprende a ser empático e pode amar (superego/pré-
consciente ou sistema límbico) e se importar com o outro, mas o
desejo e a luxúria trafegam pelos ramos mais inferiores das vias
secundárias e se tornam irracionais (id/inconsciente ou cérebro
reptiliano).
Sendo assim, embora a via secundária (são ligações rápidas dos
neurônios-espelho, que atuam como uma espécie de sexto sentido,
instigando-nos a sentir algo por outra pessoa, mesmo que seja de
forma vaga) nos proporcione afinidade emocional instantânea, a via
primária (parte mais pensante e racional do cérebro localizada no
córtex pré-frontal ou neocórtex) gera um sentido social mais
sofisticado, capaz de orientar uma resposta mais apropriada.
Desta forma, é possível que o cérebro dispare inicialmente um
interesse imediato, pelas vias secundárias, que detona um senso de
atração quase irracional não só nos homens, mas também nas
mulheres. Com o tempo, a via principal vai dando sentido ao
interesse inicial. Sendo assim, é real quando dizemos que a paixão
cega. Porque, de fato, quando estamos inebriados de paixão, as
vias secundárias e os neurotransmissores do prazer estão em ação
e não a via principal, que tem por princípio avaliar e nos proteger.
Quanto mais ativa estiver a área pré-frontal/neocórtex (vias
primárias), mais equilibradas serão as nossas decisões.
Quando pensamos de forma mais ponderada sobre as situações
(usando nosso cérebro mais racional/neocórtex), deixamos de
“entrar em roubada”. Por isso, mesmo que esteja inebriado de
paixão, procure avaliar as situações com um pouco mais de critério,
colocando seu cérebro para funcionar, o que de fato vai protegê-lo e
evitará que entre em ciladas difíceis de consertar ou resolver depois.
Uma boadica aqui é escutar as pessoas próximas. Se todos que
gostam de você dizem que a pessoa com quem está se
relacionando é oportunista, ou já se aproveitou de outras pessoas
ou situações para se dar bem, é egoísta ou mal-intencionada,
pesquise mais, pense melhor, fale com os ex ou investigue de
alguma outra forma seus relacionamentos anteriores, antes de ficar
bravo com os amigos. Pode ser que a história que a pessoa lhe
contou seja completamente diferente dos fatos reais. A única forma
de descobrir é pensando, ponderando e investigando. Controle seu
ímpeto e a sua paixão desenfreada e coloque seu cérebro para
funcionar.
Além disso, quero ressaltar alguns estudos que venho fazendo
nos últimos dez anos. Ainda são empíricos e pouco comprovados,
mas assim que conseguir me aprofundar nas pesquisas e
comprovar algumas hipóteses, vou lançar as informações para
vocês. Pode ser que muitos discordem do que vou colocar agora,
talvez a maioria, mas, embora a história que carregamos, no
decorrer dos anos, na qual alguns estudiosos e pesquisas apontem
para uma imensa diferença entre o que as mulheres e homens
pensam e sentem, eu particularmente acho que está na hora de
rever essa questão.
Por que não podemos pensar e sentir de forma igualitária, se por
dentro somos quase idênticos? O que diferencia homens e mulheres
são os órgãos sexuais, certo? Mas será que isso define os
sentimentos, pensamentos, comportamentos e desejos de cada
um? Nosso cérebro e coração são muito parecidos, não são? Já
sabemos pela evolução da neurociência e dos estudos bioquímicos
que os neurotransmissores e os hormônios têm uma influência
relevante. Entendo que eles são diferentes em homens e mulheres
e que não podemos deixar de considerar a influência deles, da
maternidade, da procriação e da amamentação, isso é fato, mas
vamos pensar que existem outros milhões de possíveis variáveis
que definem um comportamento como: a personalidade, fatores
biológicos, hereditários, a segurança, a autoestima, o nível de
dependência e a forma como fomos criados, e não apenas gênero.
Independe se somos homens ou mulheres, mas depende, sim, de
todos os fatores acima citados.
O que quero dizer é que muitos pesquisadores (a grande maioria
é homem) defendem que homens e mulheres têm tendências
diferentes nas moléculas do amor e do desejo, que os homens têm
níveis mais altos de testosterona (o que de fato é verdade) e de
outras substâncias que estimulam o desejo e níveis baixos das
substâncias que estimulam o apego ou o amor romântico, ao
contrário das mulheres.
A minha pergunta é: será que isso é verdadeiro ou é conveniente
que seja assim? Se voltarmos um pouco no tempo e lembrarmos
que o mundo era completamente dominado pelos homens, podemos
entender que é muito conveniente pensar que os homens precisam
mais de sexo, que encaram de forma diferente amor e sexo, que
podem ter uma relação e não se apegar, até porque é puro sexo, e
que a atração visual é suficiente para desencadear paixão ou tesão,
etc. Por que nas mulheres é diferente? Ouvimos sempre que as
mulheres são mais maternais, estão sempre pensando no amor, na
família, nos filhos, que elas não sentem prazer pelo prazer, só
sentem prazer para procriar.
Será que realmente é assim? Aprende-se na igreja, na escola,
na família, na vida. Mulheres só sentem prazer para procriar? Não
são visualmente estimuladas? Não sentem calor, tesão e não têm
energia sexual?
Tenho conversado com mulheres de diferentes idades, níveis
sociais e hierárquicos, dependentes e independentes emocional e
financeiramente de seus parceiros, solteiras, casadas, mães, e
também fiz uma pesquisa com várias empresas e lojas que
trabalham com artigos sexuais, produtos eróticos ou treinamentos
nessa área. Sabe o que descobri? Que muitas mulheres se sentem
estimuladas em ver homens sem roupa ou vídeos eróticos, que
muitas sentem prazer em comprar ou usar “brinquedos” eróticos,
que as mulheres sabem exatamente o que querem, do que gostam
e o que lhes dá ou não prazer.
Então pergunto... Será que é assim mesmo, ou será que agora
que a censura é menor, e as mulheres estão mais independentes e
donas do seu destino. Podem enfim mostrar que também sentem
tesão e não precisam se apaixonar para ter atração, desejo ou
sexo? Que podem ter uma relação passageira tanto quanto os
homens? Que podem escolher se querem ou não casar? Que
podem escolher se querem ou precisam de um parceiro, ou se
querem ou não ter filhos?
Enfim, não tenho a pretensão de causar polêmica e nem de criar
conflitos, aliás, sou a primeira a fugir deles, mas só aproveito para
lançar aqui uma nova forma de pensar, uma nova forma de se
relacionar de modo melhor e mais inteligente. Sem tanta censura,
sem tanto tabu, sem tanto julgamento ou crítica pelo que devemos
ou não fazer, ou pelo que devemos ou não sentir. A escolha precisa
ser de cada um, independentemente de sermos homens, mulheres,
bi, tri ou heterossexuais.
Escrevendo este capítulo me lembrei de um livro muito bacana
que li logo que saí da faculdade: Meninas Boazinhas Vão para o
Céu, as Más Vão à Luta, da psicóloga Ute Ehrhardt. É um livro
interessante que fala do poder feminino e de como a mulher pode
enfrentar seus medos, principalmente quando resolve “não ir para o
céu”. Afinal, por que a mulher se obriga a pensar sempre nos outros
e nunca nela própria? Por que teme tanto as críticas? Por que se
preocupa tanto com o que os outros vão pensar? Enfim, fica aqui
uma boa indicação, já que o livro revela um retrato multifacetado da
mulher moderna.
O importante é que os desejos sexuais sejam supridos com
respeito e tolerância a nós mesmos e aos outros. A escolha precisa
ser de cada um, independentemente de sermos homens, mulheres,
bi, tri ou heterossexuais, e precisa, dentro do possível, vir recheada
de amor pleno, porque não há dúvida de que o amor verdadeiro é o
tesouro mais preciso que possuímos.
26. Libido - Substantivo feminino usado para descrever o desejo ou impulso sexual de um
homem ou mulher. No âmbito da psicologia, é fundamental para entender o comportamento
humano, porque o condiciona e é vista como a energia que direciona os instintos vitais.
27. https://goo.gl/3zJQ6D
Conclusões
Deixei para apresentar no final o resultado de um dos grandes
motivadores dessa obra, aquela encantadora pesquisa baseada em
histórias reais que falei na introdução deste livro e que acompanho
há muitos anos.
Trata-se da pesquisa mais longa já feita sobre a vida adulta28.
Imagine que mais de 200 pessoas foram assistidas desde sua
adolescência até a velhice para sabermos realmente o que as
mantêm felizes e saudáveis enquanto desfrutam a vida.
E, afinal, o que aprendemos? Quais são as lições extraídas das
dezenas de milhares de páginas de informação geradas sobre
essas vidas?
As lições não falam sobre riqueza, fama, glamour ou sobre
trabalho em excesso. A mensagem mais clara que tiramos desse
estudo de 75 anos é esta:
Bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis.
Aprendemos três grandes lições sobre relacionamentos neste
estudo.
A primeira é que conexões sociais são muito boas para nós, e
que a solidão mata. As pessoas que estão mais conectadas
socialmente com a família, amigos e comunidade, são mais felizes,
fisicamente mais saudáveis e vivem mais do que as pessoas que
têm poucas conexões. A experiência de solidão é tóxica.
Pessoas que são mais isoladas socialmente e desprovidas de
relacionamento são mais infelizes, sua saúde decai precocemente
na meia-idade, seus cérebros se deterioram mais cedo e vivem
vidas mais curtas do que aquelas que não são solitárias, e o fato
mais triste é que mais de um em cada cinco norte-americanos relata
que está solitário. A solidão não é não ter ninguém por perto. Nós
sabemos que podemos nos sentir sós numa multidão e também
podemos nos sentir solitários num casamento, então a nossa
segunda grande lição é que não é apenas o número de amigos que
você tem, e não é se você está ou não em um relacionamento sério,
mas sim a qualidade dos seus relacionamentos mais próximosque
importa. Como dissemos no decorrer deste livro, viver no meio de
conflitos é ruim para nossa saúde. Relacionamentos tóxicos são
fator de risco para doença e morte, tão elevado quanto a
hipertensão arterial, o colesterol, o tabagismo, etc. Uma pessoa
tóxica é alguém que desperta o que há de pior em nós ou que nos
exaure mental e fisicamente.
Casamentos muito conflituosos e sem afeto podem ser piores do
que o divórcio. Viver em meio a relações boas e reconfortantes nos
protege, já que o apoio emocional baixa o estresse biológico e
mantém o organismo em equilíbrio. Acompanhando os homens do
estudo da meia-idade, para descobrir quais se tornariam
octogenários felizes e saudáveis e quais não se tornariam,
comprovaram que não eram os níveis de colesterol que os mataria,
mas a qualidade de seus relacionamentos.
As pessoas que estavam mais satisfeitas em seus
relacionamentos aos cinquenta anos eram mais saudáveis aos
oitenta. Relacionamentos bons e íntimos parecem proteger as
pessoas de algumas circunstâncias adversas inerentes ao
envelhecer. Os homens e mulheres mais felizes em uma relação
relataram, aos oitenta anos, que nos dias que tinham mais dor
física, seu humor e a convivência os mantinham mais animados. Já
as pessoas que estavam em relacionamentos infelizes, nos dias que
tinham dor física, sentiam que elas eram intensificadas pela dor
emocional. A terceira grande lição que aprendemos sobre
relacionamentos e nossa saúde é que as relações saudáveis
protegem não apenas os nossos corpos, mas também o nosso
cérebro. Comprovou-se que estar em um relacionamento íntimo e
estável com outra pessoa aos oitenta anos é algo protetor. Quando
as pessoas podem contar umas com as outras, em caso de
necessidade, têm suas saúdes e suas memórias preservadas por
mais tempo, e as pessoas em relacionamentos que não podem
contar umas com as outras acabam infelizes, esquecem mais as
coisas e têm um declínio de memória mais cedo. Sabemos que
mesmo os relacionamentos bons não são tranquilos o tempo todo.
Alguns dos casais octogenários estudados discutem um com o
outro, mas sentem que podem contar com o parceiro quando as
coisas ficam difíceis.
Se comprovadamente já sabemos que as relações saudáveis
são boas para a saúde e bem-estar, por que continuamos ignorando
a importância das nossas relações?
Ok, somos humanos e relacionamentos são confusos e
complicados. Dá trabalho zelar pela família, pelos amigos e é um
trabalho para a vida inteira, nunca cessa, mas podemos nos tornar
mais inteligentes relacionalmente e melhorar nossa vida, nossa
saúde e nossos estados de ânimo.
Podemos fazer isso em pequenas ações:
1. substitua colegas de trabalho por companheiros;
2. mantenha bons relacionamentos com a família, amigos e com
a comunidade;
3. pense no que você tem a oferecer aos seus relacionamentos,
porque as possibilidades são infinitas;
4. troque o tempo na TV ou no telefone pelo contato com
pessoas;
5. reviva uma relação antiga fazendo algo novo juntos;
6. faça caminhadas com quem ama;
7. encontre amigos para bater papo;
8. contate aquela pessoa da família com quem você não fala há
anos, porque brigas de família deixam marcas terríveis nas
pessoas que guardam rancor, então perdoe;
9. dedique dois minutos do seu dia para ligar ou mandar
mensagem para alguém de que gosta muito e fale o quanto essa
pessoa é importante para você;
10. o tempo é curto, não o desperdice. Dedique-o para amar e
não para manter rancor e raiva.
Enfim, uma vida boa se constrói com boas relações. 29
Como falei, no início, este livro tem a humilde intenção de
apresentar o conceito de Inteligência Relacional, para que as
pessoas possam se sentir melhor em relação a si próprias e nas
suas relações com os outros. A partir das Inteligências
desenvolvidas de forma brilhante, por Gardner, Goleman e outros
autores e pesquisadores que demonstram preocupação genuína
com o desenvolvimento das inteligências e das pessoas, entendo
que você poderá se tornar mais inteligente e comprometido para
lutar por seus objetivos, compreendendo seu papel no mundo e
respeitando as escolhas que faz em seus relacionamentos e o jeito
de ser de cada um.
Em termos metafóricos, podemos pensar nos extremos da
Inteligência Relacional (IR), muito baixa (BIR) ou muito alta (AIR).
Se nossas atitudes podem ser “tóxicas” ou “saudáveis”, afinal, o que
queremos para nós? Nossas amizades nos inspiram ou nos
desestimulam?
Os “vampiros emocionais” fazem os outros se sentirem
desvalorizados e incapazes. Já as pessoas saudáveis, que
chamaremos de “anjos”, fazem com que as pessoas se sintam
valorizadas e respeitadas. Pessoas com baixa IR são tóxicas para
os demais e as pessoas com alta IR fazem com que os outros se
sintam bem em sua presença. Sabemos que todas as pessoas
merecem e precisam de respeito e admiração. Desta forma,
desenvolver a Inteligência Relacional pode reduzir conflitos,
melhorar a saúde, gerar colaboração, ampliar resultados, trazer paz
e tranquilidade para os relacionamentos, melhorar a performance, a
memória, a saúde e, em equipe, mobilizar todos rumo a metas
comuns.
Ainda estamos engatinhando nesta área e precisamos ser
menos analfabetos na arte de nos relacionarmos com os outros.
Somos capazes de aprender e de aprimorar a forma como
absorvemos o impacto das pessoas sobre nós, através de pequenas
técnicas. Quando conhecemos alguém, podemos filtrar esse
impacto decidindo se queremos ou não nos relacionar com essas
pessoas e, também, melhorar a nossa forma de agir em relação aos
outros. Muitas vezes tentamos mudar as pessoas, mas o que
precisamos é mudar as nossas atitudes e sentimentos em relação
aos outros, assim eles mudam também. Já sabemos por estudos do
funcionamento cerebral e da neurociência, que podemos aprender a
dominar nossas reações e controlar melhor nossos impulsos. Assim
podemos moldar adequadamente nossos hábitos emocionais e
ensinar nossos filhos, nossa equipe de trabalho e pessoas próximas
a controlá-los, tornando o futuro da humanidade mais maduro para
enfrentar situações desafiadoras, obtendo ganhos com nossas
relações sociais.
Valorizar a nós mesmos, reforçar a nossa energia emocional
para lidarmos melhor com crises e decepções e buscar pessoas
com quem possamos desenvolver uma amizade recíproca e
recompensadora é a chave para a satisfação nos relacionamentos.
As empresas e escolas têm feito um esforço louvável para elevar
o nível de conhecimento das pessoas, mas ainda não evoluíram
tanto a ponto de se preocupar se as pessoas sabem como agir nas
situações imprevisíveis causadas pelas relações corriqueiras do dia
a dia, como bullying, humilhações e agressões verbais, mas
sabemos que sair do analfabetismo relacional fará muito bem ao
futuro da humanidade.
Algumas escolas já estão adaptando suas disciplinas escolares
para abordar esses temas, ensinado as crianças como podemos
nos tornar mais empáticos, como ter mais autoconsciência e
controle emocional, além de ensinar como escutar com mais
atenção os outros e suas necessidades. Existem extraordinários
projetos educacionais para preparar melhor para a vida, e a nossa
consultoria está trabalhando fortemente em um grande projeto que
ajudará pais, educadores, crianças e adolescentes a somar mente e
coração nas suas ações e decisões para sermos capazes de viver
melhor em sociedade.
Quero destacar que estamos trabalhando fortemente para que
esse trabalho seja implementado nas escolas, tanto públicas como
particulares e nosso objetivo é diminuir a evasão escolar, a redução
da violência, a melhoria nos índices de aprendizagem, o controle do
uso e abuso de drogas, melhores escolhas para o futuro com
orientação de carreira, além de uma vida digna, feliz e sustentável.
Esses projetos são inovadores, revolucionários e certamente farão
mudanças avassaladoras na educação e consequentemente na
cultura do país. Quanto mais educarmos nossas crianças neste
sentido, menos precisaremos de presídios e hospitais.
Afinal, como podemos melhorar nossos relacionamentos?
Lembre-se do CLASSE e de mais algumasdicas abaixo:
Consciência – procure saber o que o faz feliz, conheça a si
mesmo antes de julgar o próximo e faça contratos de confiança.
Converse e seja claro no que gosta, e no que não gosta conforme
os relacionamentos vão se estreitando.
Liberdade – respeite as pessoas e sua cultura, mas cuidado
com as pessoas que logo no primeiro contato contam a vida toda
delas. Em algum momento, elas vão querer saber tudo sobre a sua
vida. Cuidado também com “favores excessivos” ou “pedidos de
ajuda”. Analise o quanto isso é sadio para você, não passe do ponto
só para agradar os outros.
Atração – fale, se exponha, acredite, confie; a comunicação é a
base de todo relacionamento.
Segurança – tudo o que fica guardado vira mágoa,
ressentimento e, consequentemente doenças como câncer, úlcera,
doenças cardíacas, etc. Preste a atenção aos sinais que as pessoas
dão a você: postura corporal mais agressiva, rigidez corporal,
agitação motora ou procrastinação, corpo excessivamente arqueado
ou excesso de tristeza ou depressão. Fique atento. As pessoas
muitas vezes precisam de ajuda e tudo bem se você quiser optar
por se aproximar delas para ajudá-las, mas o importante é que faça
isso de forma consciente. Tem que ser uma “escolha”, e não uma
“roubada”.
Sabedoria – preste atenção no olhar. Pessoas que têm o que
esconder quase nunca olham você nos olhos, a não ser que sejam
muito tímidas ou tenham baixa autoestima. Mostre interesse e
dignidade pelas pessoas, faça contato com os olhos, interaja, mas
não invada e não se deixe invadir. As pessoas precisam e merecem
manter o seu “espaço seguro” e desrespeitá-lo não é sinal de afeto,
muitas vezes é pura invasão ou desrespeito. Cada um tem um jeito
e ele tem que ser respeitado.
Empatia – desenvolva a “escuta” e aprimore a empatia. Perceba
nuances nas conversas, “leia” nas entrelinhas o que está sendo
falado. Procure sintonizar-se com as pessoas sem necessariamente
absorver a energia delas, pois empatia é entender e respeitar a
necessidade das pessoas, não transformar a necessidade delas na
sua própria.
Principalmente: nunca faça aos outros o que não gostaria que
fizessem para você.
AVALIANDO SUAS
HABILIDADES RELACIONAIS
Desenvolvi uma ferramenta que o ajudará a treinar a Inteligência
Relacional. Por favor, lembre-se que esse exercício não tem o intuito
de apontar culpados ou de gerar discórdia e discussão. Pelo
contrário, o objetivo é que você identifique em você e nas pessoas
com quem se relaciona, as falhas que estão cometendo no
ideograma CLASSE, para que possam fazer ajustes de
comportamento para que possam “com-viver” de uma forma mais
harmônica e feliz.
Comece fazendo um inventário mental pensando nas pessoas
que você conhece e que tenha uma interação direta. Escreva o
nome dessas pessoas no lado esquerdo da planilha 01. AIR. – Alta
Inteligência Relacional (que você encontrará a seguir).
Coloque primeiro o nome das pessoas que você identifica com
alta inteligência Relacional, e ao lado direito da planilha, cite qual
letra do CLASSE você acha que essa pessoa apresenta como
característica forte. Por exemplo, o C de Consciência. Depois repita
o mesmo exercício com a Planilha 02. BIR - Baixa Inteligência
Relacional e destaque as letras do CLASSE que você acha que
essas pessoas precisam aprimorar.
Pense calmamente em cada uma das 6 habilidades relacionais
do CLASSE, enquanto avalia o comportamento das pessoas e o seu
também.
O ideal é que depois você possa dedicar um tempo com cada
umas dessas pessoas para conversar a respeito, tanto daquelas
com alta IR como aquelas com baixa IR. É possível que você repita
as pessoas, e destaque tanto os pontos fortes, como os pontos a
desenvolver de cada um. Não há problema nenhum, todos nós
temos pontos altos e baixos, ou a desenvolver, no nosso perfil.
Lembre de não fazer julgamentos. Procure ser honesto consigo
mesmo e com os outros e não deixe de levar em consideração as
técnicas de feedback colocadas neste livro, destacando primeiro os
pontos fortes e as qualidades das pessoas, e depois coloque os
pontos que acha que podem ser aprimorados. Faça a sua
autoavaliação também, assim pode desenvolver uma conversa mais
madura, de coração aberto e deixando claro o que cada um deve
fazer para melhorar e otimizar ao máximo o relacionamento de
vocês. Não exija apenas mudança no outro, você precisará se
flexibilizar e se ajustar também para que seus relacionamentos
possam melhorar.
Planilha 01. AIR – Alta Inteligência Relacional:
Identificando pessoas com alta inteligência relacional (I.R)
Planilha 02. BIR - Baixa Inteligência Relacional:
Identificando pessoas com baixa inteligência relacional (I.R)
A inteligência relacional está totalmente relacionada à educação
básica e ao controle das emoções e de como devemos cuidar e
tratar as pessoas ao nosso redor. Dessa forma, será revolucionário
para as nossas relações mais próximas e para compreendermos
esse conceito para o controle da agressividade, não só no Brasil,
mas no mundo todo. Só assim poderemos ter o que todos no fundo
querem, menos dor e mais bem-estar, menos guerra e mais paz,
menos ódio e mais amor.
Lembre-se de que uma forma crucial de proteção nos
relacionamentos é manter sempre a própria identidade, então, seja
gentil consigo mesmo, não viva o desejo do outro, viva o seu desejo.
Relacionamentos precisam de limites saudáveis e bem claros. Se
não definirmos nossa individualidade e personalidade, nos
misturamos com o outro, e os relacionamentos ficarão confusos e
tornar-se-ão destrutivos, pouco saudáveis.
Nossas ações e escolhas, por menores que pareçam, são
capazes de mudar o mundo. A cada momento fazemos opções
sobre nosso modo de vida. Se aprendermos a nos conectar de
forma saudável e menos primitiva, uns com os outros, seremos uma
ponte para um futuro maduro e sustentável. “Cada um de nós faz o
seu hoje, consequentemente o seu amanhã. E juntos fazemos os
nossos – os amanhãs que queremos”.30
Afinal, somos nós, dentro de cada eu.
Apêndice A – Sistema Cerebral –
Cérebro Social Relacional
Grande parte do mapeamento cerebral é realizada por meio de
imagens e exames de última geração, como ressonância magnética
e ultrassonografia, mas as pesquisas nunca cessam e ainda temos
muito a evoluir.
A pergunta aqui é: Há um cérebro social/relacional humano?
Sim! Os seres humanos são animais excessivamente sociais,
mas os fundamentos neurais do comportamento e do conhecimento
sociais ainda não são completamente conhecidos. Os estudos
realizados com seres humanos e outros primatas têm revelado
diversas estruturas neurais que desempenham um papel chave na
construção dos comportamentos sociais. Partes do cérebro como: a
amígdala, os córtices frontais ventromediais, e o córtex
somatossensorial direito, entre outras estruturas (Adolphs, 1999),
parecem mediar as representações perceptuais de estímulos
socialmente relevantes.
Ainda não sabemos se existe um lugar específico do cérebro
responsável pelas interações sociais, porque há um conjunto neural
que flui em todo o cérebro, é de amplo alcance e um está
sintonizado com o outro, mas vou destacar algumas descobertas já
realizadas e que mostram as áreas principais:
– Reconhecimento das emoções sociais (culpa, arrogância,
percepção do medo) – está localizado na amígdala. (Adolphs et al.,
2002; Amaral et al., 2003; Kesler et al., 2001)
– Prazer pessoal e julgamento social – Córtex pré-frontal
ventromedial (Steffanaci & Amaral, 2002)
– Amor, perda e vinculação romântica – foram realizados
diversos estudos de fMRI e o estudo de Bartels & Zeki (2000)
mostrou que o striatum, a ínsula medial, o córtex anterior do cíngulo
e o córtex pré-frontal ventral direito estão envolvidos na resposta a
esses aspectos e também a exclusão social e a sensibilidade à dor
física. (Eisenberger et al., 2006).
Obs.: notem que isso reforça e valida as doenças
psicossomáticas, que eu chamo de doenças psicorrelacionais, já
que a mesma área do cérebro é responsável pelo amor, pela perda
e pela dor física.
Estes estudos possibilitaram elaborar ahipótese do Cérebro
Social. A sua formulação evolucionária foi feita por Robin I.M.
Dunbar (1998, 2003), que, com base em sólida evidência empírica,
a apresentou como alternativa às estratégias ecológicas, capaz de
explicar os cérebros grandes dos primatas pelas exigências e
pressões seletivas impostas pelos sistemas sociais complexos
característicos desta ordem. O cérebro dos primatas é
essencialmente um cérebro executivo, principalmente o neocórtex
responsável pelos aspectos fundamentais da cognição social, em
particular pela teoria da mente. Jean-Pierre Changeux reconheceu
que a mais-valia da divergência evolutiva que conduziu ao Homo
sapiens foi precisamente “o alargamento das capacidades de
adaptação do encéfalo ao meio ambiente, acompanhado de um
evidente aumento das aptidões para criar objetos mentais e para os
combinar entre si”.
A noção evolutiva do cérebro social, que sofre na sua evolução
fisiológica e genética e no seu desenvolvimento, revela as marcas
originais e indeléveis dos laços sociais, da “comunicação entre os
indivíduos” e da cultura, o produto mais complexo da mente
humana.
Não foi a mera adaptação ao meio ambiente que desencadeou o
aumento do encéfalo, mas a própria complexidade das sociedades
dos primatas que culmina com as sociedades humanas. Neste
sentido, a evolução do cérebro revela o aparecimento de
características que melhoram a capacidade de atuação funcional: o
cérebro humano torna-se dependente dos recursos culturais e
sociais que aprimoram o seu funcionamento. Isso significa que
esses recursos são essenciais para a própria atividade mental.
O estudo mais recente sobre o tema, lançado em janeiro de
2017, na revista Science, liderada por Jesse Gómez, da
Universidade de Stanford, afirma que a área cerebral responsável
por reconhecer rosto humano (área fusiforme) cresce de forma
relativa nos adultos, enquanto a zona que ajuda a reconhecer
lugares permanece igual31. A capacidade de reconhecer rostos
melhora nos indivíduos adultos, o que nos faz pensar que
precisamos de mais “espaço” para armazenar as pessoas que
conhecemos no decorrer da nossa vida. O que mais uma vez
comprova que somos seres relacionais32.
Lesões nesta região cerebral produzem déficit no
reconhecimento de faces e reduções significativas no volume da sua
matéria cinzenta. O circuito da informação social foi identificado por
dois estudos de fMRI (Castelli et al., 2002; Martin & Weisberg, 2004)
que procuraram saber como o cérebro responde enquanto atribui
interação social a imagens abstratas: o circuito identificado
compreende o segmento lateral do giro fusiforme, o sulco temporal
superior, a amígdala e o córtex pré-frontal ventromedial, um circuito
envolvido na percepção social de primatas e na cognição social
humana (Adolphs, 2001).
A identificação do circuito social no cérebro humano é de grande
importância para identificar a neuropatologia do autismo (Lord et al.,
2000). As crianças com autismo apresentam ausência de motivação
social, dificuldade de manter contato visual e baixo interesse em
olhar para faces (Klin et al., 2002). Isso pode indicar a ausência de
atenção e falta de habilidade para processar faces. Porém, os
indivíduos com autismo são inteligentes na realização de diversas
tarefas, exceto nas do domínio social.
As futuras descobertas da neurociência, da neuropsicologia, do
neuromarketing e da neuroeconomia têm o potencial de revigorar as
ciências sociais, relacionais e o comportamento humano. Assim, o
campo dos novos testes de inteligência também parece estar pronto
para que possamos repensar os pressupostos básicos.
Hoje, torna-se fundamental significarmos o cérebro e o
comportamento relacional, que são de importância vital para os
nossos relacionamentos e a nossa sobrevivência em sociedade.
Espero continuar meus estudos sobre inteligência social e
relacional e tenho certeza de que surgirão novos modelos válidos
sobre o tema, mas a minha forma de apresentar o respeito pelas
pessoas dentro dos princípios e das habilidades do CLASSE é
apenas uma maneira de categorizar o que certamente vai estimular
novas linhas de pensamento.
Referências bibliográficas
ANTUNES, C. As inteligências múltiplas e os seus estímulos.
Porto: Edições ASA, 2005.
ARIELY, Dan. Previsivelmente Irracional como as decisões do dia
a dia influenciam as nossas decisões. Elsevier, 2008.
ALBRECHT, Karl. Inteligência social. São Paulo: Editora
M.Books do Brasil Ltda, 2006.
BERESFORD, Lucy. Como se libertar das relações tóxicas. Rio
de Janeiro: Editora Sextante, 2004, Tradução de Simone Lemberg
Reisner.
LUCAS, Bill. Aumente sua inteligência: semana a semana,
tradução de Ana carolina Mesquita. São Paulo: Publifolha: 2006.
CHOPRA, Deepak; Tanzi, Rudolph E. Super genes. Harmony
Books, 2015.
CHAPMAN, C. If the shoe fits...How to develop multiple
intelligences in the classroom. Palatine, Illinois: IRI/Skylight, Inc.,
1993.
CHAPMAN, C. & FREEMAN, L. Multiple intelligences: centers
and projects.Palatine, Illinois: IRI/Skylight, Inc., 1997.
CHAMINE, Shirzad. Inteligência positiva: por que só 20% das
equipes e dois indivíduos alcançam seu verdadeiro potencial e como
você pode alcançar o seu. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2013,
Tradução: Regiane Winarski.
DAWKING, Richard. O gene egoísta. Companhia das Letras,
1976.
GARDNER, Howard. Frames of Mind: the theory of multiple
intelligences. London: Fontana Press, 1993.
GARDNER, Howard. Inteligência múltiplas: a teoria na prática.
Porto Alegre: Editora Artmed. Tradução: Maria Adriana Verissimo
Veronese, 1995.
GINGER, Serge. Gestalt: A arte do contato. Editora Vozes, 2007.
GOLEMAM, Daniel. Foco: a atenção e seu papel fundamental
para o sucesso. 1 ed. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2014,
Tradução: Focus, 294p.
GOLEMAM, Daniel. Liderança: a inteligência emocional na
formação do líder de sucesso. Rio de Janeiro: Editora Objetiva,
2015, Tradução de: What Makes a Leader: Why Emotional
Intelligence Matters.
GOLEMAN, Daniel. O poder das relações humanas: inteligência
social. Rio de Janeiro: Editora Elsevier Ltda, 2006, Tradução: Ana
Beatriz Rodrigues.
GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional. Rio de Janeiro:
Editora Objetiva Ltda, 1995, Tradução: Marcos Santarrita.
GONDIN, Francisco A.A, TAUNAY, Tauily C.E.
Neuropsicofisiologia. Fortaleza: F. A. Aquino Gondim, 2009.
GOTTMAN, John. Inteligência emocional: a arte de educar
nossos filhos. Rio de Janeiro. Editora Objetiva, 1997. Título Original:
The heart of parenting, Tradução de Adalgisa Campos da Silva.
HARRIS, Dan. 10% mais feliz; título original: 10% happier. Rio de
Janeiro: Editora Sextante, 2015.
HICKORY, Gregory. The myth os mirror neurons. Norton, 2014.
JUNG, Carl Gustav e LAURENS Van der Post. Jung & the story
of our time. New York, First Edition, 1975.
KABAT_ZINN, Jon. Mindfulness for beginners. E-book. Editor:
Boulder, Idioma: inglês, 2012.
LENT, Roberto. Cem bilhões de neurônios? Conceitos
fundamentais de neurociência. 2 ed. São Paulo: Editora Atheneu,
2010.
LUCAS, Bill. Aumente sua inteligência: semana a semana: 52
técnicas para potencializar sua capacidade de aprendizado. São
Paulo: Editora Publifolha, Tradução: Ana Carolina Mesquita, 2006.
PERLS Frederick, HEFFERLINE Ralph e GOODMAN Paul.
Gestalt-Terapia. São Paulo: Editora Summus Editorial Ltda.
Tradução: Fernando F. da Rosa Ribeiro, 1969.
PAGES Max. A vida afetiva dos grupos, esboço de uma Teoria
da relação humana. 2ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes Ltda, 1975.
Tradução: Luiza L. Leite Ribeiro.
MLODINOW, Leonard. Subliminar. 1 ed. Tradução Cláudio
Carina. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor, 2014.
PERUZZO, Marcelo. As três mentes do neuromarketing. Rio de
Janeiro: Alta Books, 2015.
SIGMUND, Freud. Early papers: on the history of the,
psychoanalytic movement. São Paulo: Editora Schwarcz Ltda. Vol. 1
a 5. New York Basic Books, Inc. Publishers, Authorized Translation
Under The Supervision Of, No.7, edited by Ernest Jones, MD, 1989.
SUSAN C., Cloninger. Teorias da personalidade. 1ed. São Paulo:
Editora Martins Fontes Tradução: ClaudiaBerliner, 2003.
TEJON MEGIDO, José Luiz, Guerreiros não nascem prontos. 1a
ed. São Paulo: Editora Gente, 2016.
ZENHAS, A., Silva, C., Januário, C., Malafaya, C., & Portugal, I.
Ensinar a estudar aprender a estudar. 4 ed. Porto: Porto Editor,
2002.
GUYTON, A. C.; HALL, J. E. Fisiologia humana e mecanismo
das doenças. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 2008. 639p.
28. Ibidem, p. 17
29. Ibidem, p. 17
30. https://goo.gl/3dMBhT
31. https://goo.gl/EtFl6A - Publicado 30th July 2009 por J Francisco Saraiva de Sousa.
32. https://goo.gl/7N9eio - artigo também publicado na revista Science.
	Rosto
	Créditos
	Agradecimentos Especiais
	Prefácio
	Introdução
	Capítulo 1
	Capítulo 2
	Capítulo 3
	Capítulo 4
	Capítulo 5
	Capítulo 6
	Capítulo 7
	Capítulo 8
	Capítulo 9
	Capítulo 10
	Capítulo 11
	Capítulo 12
	Conclusões
	AVALIANDO SUAS HABILIDADES RELACIONAIS
	Apêndice A – Sistema Cerebral – Cérebro Social Relacional
	Referências bibliográficas

Mais conteúdos dessa disciplina