Prévia do material em texto
Copyright© 2018 by Literare Books International. Presidente: Mauricio Sita Capa: Riven Melito Andre Caliman Bruna Pirolo Assad Diagramação e Ebook: Nathalia Parente Revisão: Bárbara Cabral Parente Gerente de Projetos: Gleide Santos Diretora de Operações: Alessandra Ksenhuck Diretora Executiva: Julyana Rosa Relacionamento com o cliente: Claudia Pires Formatação e qualidade exclusivas do canal Ebooks Demais https://t.me/ebooksdemais Literare Books Rua Antônio Augusto Covello, 472 – Vila Mariana – São Paulo, SP. CEP 01550-060 Fone/fax: (0**11) 2659-0968 site: www.literarebooks.com.br e-mail: contato@literarebooks.com.br Agradecimentos Especiais Ao meu pai, Coronel Artigas, maior gigante que conheci; diante dele qualquer Everest se torna pequeno. A minha mãe, Vera Artigas, a expressão mais pura de força, coragem, garra e luta pela sobrevivência. Ao meu marido, Claudio Diogo, grande incentivador que, com seu amor incondicional, ensinou-me a ser mais paciente e a acreditar que os relacionamentos podem ser sólidos. As minhas filhas Thaís e Alice, o amor mais puro e sublime que pode existir. Aos meus amigos e mestres que, de coração, sabem a importância que eles têm na minha vida. A José Luiz Tejon, sou fã incondicional, mestre e amigo, que me ajudou a praticar a Inteligência Relacional e a quem com muito carinho e admiração escolhi para prefaciar este livro. Às equipes da Tekoare e TNB Studio. A todos os seres humanos, na plenitude da palavra, que compartilharam comigo seu amor, ensinaram-me a importância dos relacionamentos, dedico-lhes, de coração e alma, este livro. Sumário Prefácio Introdução Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Inteligência Interpessoal + Inteligência Intrapessoal Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Conclusões AVALIANDO SUAS HABILIDADES RELACIONAIS Apêndice A – Sistema Cerebral – Cérebro Social Relacional Referências bibliográficas Prefácio Uma obra de arte de Ana Artigas: Inteligência Relacional Ana registra numa passagem deste livro o que gostaria que fosse escrito na sua lápide, eu diria, o que ficaria eternizado com sua alma nesta jornada terrena: “aqui jaz uma mulher que deixou o seu legado e fez as pessoas acreditarem que podem se tornar seres humanos melhores, mais inteligentes e mais felizes, na forma como se relacionam, escolhendo melhor com quem dividir a sua existência”. Antes de comentar este livro sensacional, que ilustra pedagogicamente seus conceitos, um livro sério, profundo e ao mesmo tempo humano e comovente, preciso deixar aqui meu depoimento sobre essas respostas que Ana nos instiga a respeito de: “ como você quer atrair as pessoas e ser visto por elas?” e “qual é a imagem e o legado que você deseja deixar aos outros?” Ana alterou e mudou a minha vida. Além da competência da inteligência relacional, sou uma testemunha viva da força desse ato, e, claro, acrescento, para agirmos no tom ascensional da inteligência relacional, a capacidade de amar, e a generosidade de saber dar e doar é um ingrediente sine qua non. Estava eu, como diretor executivo de uma das empresas do Grupo do jornal O Estado de São Paulo, “O Estadão”. Conheci a Ana, quando ela já realizava um trabalho de vanguarda na área humana ao lado da Caliper, empresa americana sediada em Princeton, Estados Unidos. Certo dia, ela me liga e pede para que eu receba um dos pesquisadores dessa organização exemplar no mundo do comportamento humano, o escritor Patrick Sweeney. Ele, ao lado de Herb Greenberg, fundador e criador do sistema de avaliação Caliper, outro ser humano com uma historia incrível de vida e de superação. Eles estavam preparando o lançamento mundial, de um novo livro chamado: “Succeed on your own terms”, traduzido e lançado no Brasil como: “O Sucesso tem Fórmula?”. Esse encontro promovido pela Ana, teve o condão de transformar minha vida. Descobri, graças à Ana, angulações de mim mesmo que, se não fosse a sua presença cruzando a minha própria vida, eu não teria descoberto. Com isso pude também estabelecer uma linda amizade com o Maestro João Carlos Martins, da mesma forma entrevistado nessa obra, e isso estará para sempre registrado naquele livro de Patrick & Greenberg . Obrigado, Ana, o seu legado vive em mim. Mudanças e adaptações fazem parte da vida, diz Ana. A sua própria estória de vida desde a infância, registra muitas mudanças. Cidades, amizades, escolas novas. Neste livro Ana busca marcos históricos e fundamentos teóricos de alta relevância. Traz logo na abertura uma pesquisa fantástica e única, com pessoas ao longo de muitos anos, onde a busca era descobrir o que, depois de anos, os seres humanos atribuíam como o máximo e o melhor de uma vida. Aí partimos para o desenrolar de toda a contribuição deste livro. O que este estudo revela não aponta para a riqueza, nem para a fama, o sucesso termina sendo o que você vai ler neste livro, o que nos faz verdadeiramente felizes e saudáveis. Ao contrário de muitos livros superficiais, este livro me impressionou pela qualidade técnica. Abre portais sérios para ótimas imersões dos leitores. A reunião das distintas inteligências é exemplar: musical, linguística, lógica matemática, espacial, corporal, interpessoal, intrapessoal, naturalista, existencial e a inteligência espiritual. Ao ler cada uma delas fui compreendendo como seria importante, por exemplo, na educação de nossos filhos, cuidarmos do desenvolvimento de cada uma dessas inteligências, ou seja, a leitura deste livro não serve apenas para professores, estudantes, executivos, líderes, ou outros profissionais, mas serve para mães, pais e educadores, e lógico, para uma autopedagogia, uma autossuperação. Ao conhecer melhor cada uma dessas 10 inteligências identifiquei o quanto precisei sofrer para aprender, a muito custo, algumas delas. Sem dúvida, este livro será também de grande valia para todos os nossos jovens, adolescentes, que podem se preparar muito melhor para os desafios nas escolas, faculdades, e nos primeiros passos nos estágios e na iniciação corporativa. Ainda espetacular nesta obra são as noções da neurociência, como neurônio-espelho, e as substâncias químicas indutoras e seus efeitos no cérebro, como a dopamina, a testosterona e a serotonina. Esse saber é de singular importância na arte de liderar, por exemplo. E na área do autoconhecimento de forma inigualável. O livro apresenta guias práticos, muito simples de serem absorvidos. Por exemplo, quando Ana traça quadros relacionais entre pessoas com baixa inteligência relacional versus com alta inteligência relacional. Ao ler essa passagem, será impossível você não identificar amigos, pessoas, colegas, com notas distintas dentro desses quadros, acima disso, irá se enxergar ali também. A arte da vida será sempre a arte das escolhas, e precisamos gostar, amar o fundamento de aprender a aprender. Seres que vão ao futuro são aqueles que aprendem a aprender em altíssima velocidade. No meu último livro: “Guerreiros não nascem prontos”, trato intensamente desse fundamento, e nos meus estudos, amparado também por pensadores eternos como Victor Frankl, criador da logoterapia, aprendemos que nos transformamos na qualidade dos seres humanos, os quais, admiramos e que recebe a nossa autoridade para nos influenciar. Sem dúvida, ao estudarmos a vida de todas as pessoas as quais consideramos admiráveis, iremos ver ali um talento superante essencial: competência de saber ser amado, ser amável. Esse dom acessa poderosamente a arte das artes, a Inteligência Relacional. Ana, continua nesta obra, preocupada em oferecer meios pragmáticos para os leitores assimilarem esses saberes. Então criou seis passos para esta prática: CLASSE - Consciência, Liberdade, Atração, Segurança, Sabedoria e Empatia. Adorei a fórmula C.L.A.S.S.E, até porque a polidez costuma ser a primeira de todas as virtudes. Ana registra a expressão de “Coco Chanel: não é a aparência, é a essência. Não é o dinheiro é a educação. Não é a roupa é a classe”.De novo, nestes capítulos, dicas simples operacionais e essenciais estão à disposição do leitor, desde saber dizer bom dia, boa tarde, boa noite, muito obrigado e por favor; até aspectos evolutivos do auto conhecimento profundo de cada um de nós. Adorei quando Ana trata também dos vampiros emocionais. Se, sem dúvida, a arte relacional é segredo importantíssimo numa carreira e na vida, saber colocar os vampiros emocionais fora da possibilidade parasitária ou predadora da nossa vida, é, da mesma forma, excelente opção. No capítulo da empatia, Ana também nos ajuda na relação de casais e nos relembra a Gestalt terapia, a realidade do aqui e agora. A importância da individualidade, e de que relações saudáveis são complementares. Perguntaram-me sobre isso um dia, e criei uma figura de imagem assim: “um casal que se ama é como duas linhas paralelas, que se encontrarão um dia, no infinito”. Quero dizer, são indivíduos, paralelos, mas não se colam, destinos próprios, paralelos, mas cada um, cada um....e um dia, nos encontramos no infinito, assim como todas as linhas paralelas. Amor e sexo estão aqui também e nas conclusões à convergência de toda a proposta da autora Ana Artigas: “ bons relacionamentos nos mantêm felizes e saudáveis”. Os vampiros emocionais são comparados aos nossos anjos. As relações tóxicas versus as saudáveis, e, ao término, estamos abertos para continuar a exploração dessa inteligência relacional. “Cada um de nós faz o seu hoje, consequentemente o seu amanhã, e juntos fazemos os nossos – os amanhãs que queremos.” Assim: Ana encerra. E ao ter o privilégio de ter acesso a este livro, e ao prefaciá-lo, só posso acrescentar mais uma vez : Muito obrigado Ana, já incorporei novos saberes e procedimentos de imensa utilidade na minha vida com este livro. Afinal, aprender a aprender é tudo, e, escolher com quem devemos aprender a ignição positiva de todo esse processo. Escolho você Ana, pois um dia você me escolheu. Não somos mais os mesmos, eu sei, a lei de causa e efeito continua sendo uma lei da mais plena sabedoria. Sua obra, a inteligência relacional, agrega um valor evolutivo humano de inestimável valor. Seus leitores todos ganham agora um imenso presente. Este livro, neste presente, aqui e agora. Gratidão ao momento presente. Boa leitura. José Luiz Tejon Autor e coautor de 33 livros e o Último best seller – “Guerreiros não nascem prontos”. Mestre em Arte e Cultura pela Universidade Mackenzie, doutorando em Ciências da Educação com a tese: “A pedagogia da superação”. Professor de Pós-graduação na França e ESPM, palestrante Top of Mind – Prêmio Estadão RH. Introdução Como tudo na vida começa com uma estória, e somos exímios em contá-las por trazerem conteúdos originais, inesquecíveis e muitas vezes emocionantes, vou contar uma fase importante da minha infância para vocês. Sou filha de militar, e, como é natural nesta carreira, as mudanças de patente nas forças militares envolvem a troca de quartéis e cidades. Da quinta série à conclusão do ensino médio, passei por três grandes mudanças. A primeira delas certamente foi a mais traumática. Tinha estudado da pré-escola ao quinto ano no mesmo colégio de freiras, com a mesma turminha de meninas, já que nesta época os meninos eram “proibidos” de entrar na escola. Só nos assistiam do lado de fora do muro pelas brechas dos portões que davam vista ao grande pátio. Conhecia as meninas da sala desde muito pequenas, e consequentemente seus irmãos e pais, como se fôssemos todos uma única e grande família. Embora as freiras fossem bem duronas, também eram parte integrante da nossa vida e aprendemos a respeitá-las como ninguém. Irmã Giselda era a diretora, a mais temida e com quem precisávamos “conversar” sempre que aprontávamos alguma coisa. Não tenha dúvida de que eu era chamada semanalmente a sua sala. Com suas sobrancelhas grossas encrustadas em seu rosto fino e branquelo, ela dizia: “Dona Bijú (este era meu carinhoso apelido de infância), você por aqui de novo”? Nunca entendi como não fui expulsa; acho que minhas bagunças eram razoáveis, e tenho a impressão de que o fato da minha avó ter sido professora e minha mãe e tias terem estudado no mesmo colégio por anos, amenizava a repreensão. Assim cresci. Apesar das broncas, protegida e cercada de cuidados. Ainda na primeira série perdi minha irmã. Eu tinha seis anos, e ela quase oito, quando faleceu. Foram poucos meses da descoberta ao dia fatídico da sua morte, mas um sofrimento extremo para toda família, já que o câncer tomou conta de seu cérebro rapidamente. Logo depois que a perdemos, tia Sandra – naquela época era permitido chamar a professora de tia – ministrava algumas aulas comigo no colo, pois de uma hora para outra eu começava a chorar. Como sempre fui muito pequena, ela conseguia dar a aula e andar comigo no colo, pela sala. Imagine então a minha reação quando meus pais me contaram que nós iríamos mudar de cidade. Como assim? Aquele colégio era a minha vida. Tinha ali minhas melhores amigas, meu suporte, minhas tias queridas e as broncas da madre superiora! Como poderia viver sem aquilo? Além de tudo, eu era a bagunceira da escola. A representante de turma que inventava e contava longas estórias sobre o fantasma do bebê que morava no porão do teatro, já que lá tinha sido enterrado. Sobre a esfirra de carne que eu jurava que vinha com tatu de nariz. Quase quebrei a cantina, e a madre superiora quase me quebrou também. Ter que deixar tudo isso? Meu mundo caiu. De novo, eu chorava em desespero. Mais uma grande perda! Meus pais foram firmes. É assim e pronto. Esse era o trabalho do meu pai, o sustento da casa e não podíamos viver sem isso. Ele tinha que assumir o comando do corpo de bombeiros em uma cidade do interior. Então, lá fomos nós morar em Paranaguá, um município localizado no litoral do estado do Paraná. Quando pensava em reclamar, meu pai me dizia: “Ana, você tem certeza de que isso é realmente um problema? Você se lembra da doença da sua irmã e da perda que tivemos? Pois bem, essas pessoas vão continuar aqui e você vai poder vê-las de novo sempre que quiser. Então, isso não é um problema. Mudanças e adaptações fazem parte da vida.” No começo, tive bastante dificuldade para digerir a mudança. Para mim, era sim um problema e daqueles enormes, bem maior do que eu, a pequena Bijú, conseguia aguentar. Aliás, esse apelido fora dado pela minha professora da pré-escola porque eu era muito pequena, a menor da turma, então, ela me chamava de Bijuzinha, e o apelido pegou. Lá fomos nós. Cidade nova, casa nova, colégio novo, amigos novos. Sim, e dessa vez havia meninos na minha nova escola. Mil perguntas rondavam a minha cabeça. Como seria a nova escola? Será que as pessoas seriam legais? Com quem será que eu teria que conversar quando fosse mandada para a diretoria? Porque eu sabia que mais cedo ou mais tarde eu certamente iria. Enfim, tive que enfrentar os primeiros desafios de como fazer novos relacionamentos e conquistar as pessoas. Eu já não lembrava como tinha feito os meus. Eles tinham crescido comigo. Eu tinha os amigos na escola e os que brincavam comigo na rua de casa, e eles eram o máximo! Na minha cabeça, isso não precisava mudar, eu sentia como se conhecesse o mundo todo, mas ele chegou. O primeiro dia de aula! Não conhecia absolutamente ninguém. Aquelas pessoas eram estranhas e tinham um sotaque diferente, falavam meio cantadinho, às vezes eu nem conseguia entender o que diziam. Os meninos faziam mais bagunça do que eu nos tempos áureos. Essa foi a parte mais divertida, e eles até que eram bem bonitinhos. Tive que começar a criar mecanismos para me aproximar, conhecer as pessoas e fazer amigos. Foi neste momento, com 11 anos de idade, que comecei a entender a importância dos relacionamentos e que não somos absolutamente nada sem eles. São a base da nossa sobrevivência em qualquer situação. Conhecer pessoas seria a minha felicidade ou o meu fracasso naquele novo lugar. Nos primeiros dias de aula, quando chamavam meu nome, mesmo que fosse pararesponder à chamada, eu ficava roxa de vergonha. Não conhecia ninguém e nunca tinha estudado com meninos. A duras penas, descobri que saber tratar bem as pessoas e fazer amigos são o maior dilema que um indivíduo precisa encarar, principalmente quando chega a um lugar completamente novo. Poucos meses depois já fazíamos festinhas de garagem todos os fins de semana. Os meninos levavam refrigerantes e, as meninas, doce ou salgado. Às vezes, um pacote de chips resolvia. Aquilo tudo começou a ficar bem divertido e conheci muita gente legal. Como na vida nem tudo são flores, meu pai recebeu uma promoção para assumir o comando em uma cidade maior. Promoção! Só na cabeça deles. Para mim, era uma completa desgraça. Para piorar um pouco mais, a mudança aconteceu no meio do ano. Os colégios tinham métodos de estudo e matérias diferentes. Como minhas notas já não estavam aquela maravilha, juntando com o desafio da mudança, fui para uma quase reprovação. Fiquei de recuperação em quase todas as matérias. Meu mundo caiu de novo. Cidade nova, colégio novo, outro método de ensino e muita gente me observando de canto de olho. Mudei no meio da oitava série, hoje seria o nono ano. Eu estava com 14 anos, no auge da adolescência. Além de todos os receios comuns dessa fase, na qual existe uma imensa necessidade de sermos aceitos, eu precisava ganhar meu espaço e os grupos já pareciam formados. Reconheço que foi preciso muito esforço, observação, esperteza, análise dos estilos de cada um, até que eu entendesse como deveria me aproximar das pessoas para conquistar novos amigos, fazer parte dos times e ser convidada para as festinhas nos fins de semana. Uma pena que naquela época não existisse um livro como este. Seria de um valor inestimável para mim, porque eu realmente tive que aprender sozinha, por ensaio e erro. A vida me ensinou muito com essas mudanças. Acabei me apaixonando por Londrina e foi maravilhoso curtir minha adolescência em uma cidade que, com o tempo, me acolheu de forma realmente calorosa. Tive certeza de que podemos nos dar muito bem ou muito mal dependendo de como fazemos nossas escolhas, com quem andamos e com quem nos relacionamos. Compreendi que precisava entender as pessoas e lidar com elas. Comecei a estudar melhor os conflitos com os quais me deparei e sempre me questionava: “Que erros cometi?” “O que fiz estava correto? Deveria ter agido de outra forma?” “Que lições posso tirar dessa experiência?” Foi aí que eu realmente comecei a entender a importância dos relacionamentos e o impacto que eles causam na vida das pessoas, porém, só mais tarde a eles batizei de Inteligência Relacional. Muitas coisas aconteceram depois dessa fase; voltei a morar em Curitiba para fazer faculdade, me formei em psicologia, casei e tive duas filhas. Depois, eu mesma cavei algumas grandes mudanças, quando as meninas estavam maiores, em que ficamos quase dois anos morando no exterior. Vou contar melhor essa história no decorrer do livro. Hoje sou alucinada por mudanças e desafios, e eles se tornaram absolutamente necessários para a minha vida. O que quero registrar aqui é que apesar dessas vivências e da bagagem de mais de 25 anos como psicóloga, coach e consultora de executivos, conversei e troquei experiências com muitas pessoas para conseguir escrever este livro. Aliás, este livro não foi escrito, ele cresceu como uma criança, através da observação e do relacionamento com milhares de pessoas. Demorei mais do que eu imaginava para escrevê-lo e continuo achando pesquisas, casos e histórias que ainda precisam ser contadas, mas se continuasse buscando-as jamais conseguiria editá-lo, porque os relacionamentos são dinâmicos, constantes e eternos. Passei muito tempo observando os modelos de relacionamento à minha volta e, sempre que tinha oportunidade, conversava com as pessoas sobre seus sucessos e conflitos. Fiz uma extensa pesquisa no Brasil e nos EUA. Perguntava e observava como as pessoas se relacionavam nas empresas, nos eventos, nos jantares com a família, nas confraternizações, nas longas conversas com amigos mais próximos, nos breves encontros nas poltronas de avião, no salão de beleza ou em qualquer situação que tivesse um pouco de abertura para perguntar e escutar as pessoas. Notei como elas têm necessidade e gostam de falar sobre suas relações pessoais. Essa experiência me deu a certeza de que todos nós precisamos de ajuda para compreendermos uns aos outros. Comecei a entender o que as pessoas buscam, o que valorizam em um relacionamento e a importância e o impacto que isso tem na vida de cada um de nós. É muito claro perceber que todas as pessoas têm relacionamentos fáceis e prazerosos em suas vidas e outros bem difíceis, e que algumas pessoas são transitórias em nossa vida, no trabalho ou na vida social e terão um contato superficial conosco. Certamente sofreremos menos influência delas, e fica mais fácil administrar as energias ruins ou até mesmo evitá-las. O problema é quando as pessoas têm um forte vínculo afetivo conosco e convivem com a gente diariamente. Essas realmente causam impacto na nossa vida, como filhos, pais, irmãos, amigos, pares/cônjuges, líderes, colegas de trabalho, clientes e fornecedores. Neste livro vou falar sobre como tomar alguns cuidados, fazer melhores escolhas, aprender a nos blindar de algumas armadilhas e principalmente nos voltarmos para nós mesmos e entendermos que, muitas vezes, inconscientemente, nós também sabotamos os nossos relacionamentos, ou pior, a nossa felicidade. Muitas vezes precisamos recuar um pouco para enxergar o nosso papel na relação. Também vou falar sobre o que geralmente funciona e o que não funciona em um relacionamento e o que as pessoas gostam de receber e como querem ser tratadas. Vou compartilhar histórias e experiências pessoais com vocês. Situações nas quais tive que me afastar de pessoas que amava para me reorganizar, me reconstruir e voltar melhor e mais fortalecida para as minhas relações. Navego para a segunda grande e motivadora história, também baseada em histórias reais. Trata-se da pesquisa mais longa já feita sobre a vida adulta. Imagine se pudéssemos assistir às pessoas desde sua adolescência até a velhice para ver o que realmente as mantêm felizes e saudáveis enquanto vivem. Pois é, fantasticamente alguns pesquisadores engajados fizeram isso. Desde 1938, acompanham a vida de dois grupos de homens. O primeiro pesquisador começou o estudo quando estava no segundo ano da Universidade de Harvard. Pesquisou um grupo de jovens que fez faculdade durante a Segunda Guerra Mundial, e a maioria serviu durante a guerra. O segundo grupo que foi acompanhado era de garotos dos bairros mais pobres de Boston, que foram escolhidos para o estudo especialmente porque eram as famílias mais problemáticas e desfavorecidas na Boston da década de 30. Robert Waldinger é hoje o diretor desse projeto, intitulado Harvard Study of Adult Development1. Ele é psiquiatra, psicanalista e sacerdote zen, além de ser o professor clínico de psiquiatria na Harvard Medical School. Durante 75 anos, os pesquisadores acompanham as vidas de 724 homens, ano após ano, perguntando sobre seus trabalhos, vida doméstica, saúde e agora seguem com os filhos, para entender como a experiência da infância pôde afetar a saúde e o bem-estar na meia-idade. Estudos assim são extremamente raros. Quase todos os projetos desse tipo se encerram dentro de uma década porque as pessoas os abandonam, ou o dinheiro para a pesquisa acaba, ou os pesquisadores morrem e ninguém mais dá continuidade. O estudo tem por princípio entender o que torna as pessoas realmente felizes até o final de suas vidas. Muitas pessoas acreditam que o dinheiro e a fama são os fatores mais importantes para termos uma vida boa. Como resultado, gastam seu tempo precioso priorizando coisas e ignorando seus relacionamentos. Isso prova que precisamos de uma melhor compreensão do que “vida boa” parece ser. Quase tudo que sabemos sobre a vida humana descobrimos ao perguntar para as pessoas do queelas se lembram do passado, mas as retrospectivas nem sempre são apuradas. Esquecemos a maior parte do que nos acontece na vida, e às vezes a memória é criativa, assim imaginamos uma parte do que pensamos que lembramos. Aproximadamente 60 dos 724 homens que participaram dos estudos ainda estão vivos, a maioria deles na casa dos 90 anos. Tornaram-se operários, advogados, pedreiros e médicos. Um deles tornou-se presidente dos Estados Unidos, alguns desenvolveram alcoolismo, uns poucos sofreram de esquizofrenia. Alguns ascenderam socialmente do fundo até o topo e outros fizeram a jornada na direção oposta. Os fundadores desse estudo, nem nos seus sonhos mais loucos imaginariam que depois de 75 anos ainda estaríamos aqui, contando que ele continua. A cada dois anos, a equipe dedicada contata seus voluntários para saber se podem enviar-lhes mais um bocado de perguntas sobre suas vidas. Além das perguntas, eles também os entrevistam em suas salas de estar. Pegam informações com seus médicos, tiram sangue, escaneiam seus cérebros, falam com seus filhos e filmam conversas com suas esposas sobre suas maiores preocupações. Afinal, o que aprenderam até agora? Quais são as lições extraídas das dezenas de milhares de páginas de informação geradas sobre essas vidas? As lições não são sobre riqueza, fama ou trabalho em excesso. A mensagem mais clara que tiramos desse estudo de 75 anos é esta: Bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis. Ponto final. Aprendi três grandes lições sobre relacionamentos neste estudo e você poderá saber quais são no final deste livro. Quero agradecer desde já a todas as pessoas que convivem e conviveram comigo e que certamente me deram excelentes contribuições. Se você teve algum contato ou já conversou comigo em alguma situação, tenha certeza de que contribuiu para este livro existir. Suas histórias, com todo o cuidado ético e de privacidade, ajudaram a iluminar esta obra, e se está tendo um primeiro contato comigo, agora, tenha certeza de que suas estórias poderão ser retratadas nos próximos livros. Torna-se absolutamente necessário avaliarmos a relevância dos relacionamentos na nossa vida e a forma como aceitamos e influenciamos as pessoas. Vale lembrar que um dos maiores best-sellers no assunto, o livro de Dale Carnegie, intitulado Como fazer amigos e influenciar pessoas, foi escrito em 1930, e que o autor faleceu em 1955. Ele foi um mestre no assunto, mas não é possível que não tenha nada novo depois de todos esses anos, principalmente com a invenção da internet. Sabemos que a forma de se relacionar mudou completamente. Ele não tinha site, nem nunca navegou pelas mídias sociais. Hoje acontecem coisas que Dale Carnegie se contorceria no caixão caso soubesse. Não é à toa que as mídias e redes sociais como Twitter, Facebook, Linkedin, Periscope, Snapchat, WhatsApp, Viber e outras ferramentas conhecidas no mercado fazem tanto sucesso e tornam- se febre em tão pouco tempo. Porque ninguém vive sem informações sobre os outros. Temos necessidade de saber como as pessoas são, como vivem, como aprendem, como superam obstáculos e dificuldades. Além disso, nossa atual geração tem sede por informação. Feliz ou infelizmente, não sabemos mais viver sem isso, e acaba sendo confortador quando identificamos problemas parecidos com os nossos; é como se imediatamente nosso coração nos dissesse: “Calma, isso não acontece só com você!” Se de fato fomos programados a nos conectar, precisamos desenvolver e aprimorar a nossa INTELIGÊNCIA RELACIONAL. Nossos gestos e comportamentos podem ser melhorados a cada dia para que possamos desenvolver mais aptidão e talento na forma como tratamos as pessoas. Através desse conceito, você vai aprender a gerenciar seus relacionamentos e entender os caminhos que podem torná-lo uma pessoa mais inteligente no convívio social, entendendo melhor como lidar com as pessoas, respeitando as diferenças e levando-as a pensar como você, persuadindo-as de forma mais natural e positiva. Claro que alguns parecem ter mais facilidade e talento para se relacionar do que outros. Mas o que importa aqui é que essas aptidões podem desabrochar como botões de talentos, e quanto mais cedo iniciamos essa prática mais fácil e rápido será para obtermos sucesso nas nossas relações, pois o conhecimento e a inteligência são aprendidos e podemos treinar para nos tornarmos experts nessa área. A relação entre as pessoas, apesar de prazerosa, é complicada e um dos assuntos mais comentados no nosso dia a dia. Em qualquer lugar que frequentamos, as pessoas estão sempre falando bem ou mal umas das outras, seja nas empresas, nos clubes, nos cabeleireiros, nos condomínios ou em qualquer outro lugar que você tenha por hábito frequentar. Sabemos que as relações que temos com as pessoas nos impulsionam ou nos destroem. Elas podem nos dar energia e nos incentivar para o sucesso ou podem nos conduzir à derrota e à falência emocional, independentemente de ser através de uma análise de desempenho ou de um bate-papo informal. O que já sabemos há muito tempo é que 15% do sucesso das pessoas são devidos ao seu conhecimento profissional, os outros 85% são atribuídos à competência e habilidade de se relacionar. Isso explica por que precisamos nos relacionar bem com os outros. Importante lembrar que as nossas relações não se limitam a pares românticos, mas a chefe e subordinado, relações de trabalho, vizinhos, familiares, amigos, professor-aluno ou qualquer outro tipo de convivência envolvendo pessoas e grupos. Qual é o propósito dos relacionamentos? O que ganhamos se aprendermos a nos relacionar de forma inteligente? Por que algumas pessoas se “afinam” mais conosco do que outras? O que existe em cada um de nós que facilita ou dificulta o convívio? Envolver mais de um ser humano gera a possibilidade de grandes emoções. Isso que você verá neste livro, a razão pura dos relacionamentos. É preciso entender a forma como as pessoas agem, pensam, decidem, lideram ou se relacionam. Cada um traz consigo seu estilo, personalidade, perfil, cultura, vivências e valores próprios, e por isso é tão importante conviver, ou melhor, viver com outros, para aprendermos com essas diferenças e com as possíveis trocas que podem acontecer. Não tenho a intenção de ser a última palavra sobre o assunto, tampouco a pioneira, é apenas uma aspiração que deve contribuir de forma evolucionista nos resultados que cada um de vocês pode obter nos negócios, na forma de aprender e educar, na maneira como lideram, nas relações com a família, com as pessoas que convivem e trabalham, enfim, aprimorar as suas relações com as pessoas, com as suas coisas, com o mundo. No decorrer dessa história, você certamente se identificará com alguns exemplos e poderá entender melhor o que acontece em essência no coração das pessoas, mesmo aquelas que lhe parecem bizarras ou completamente diferentes de você. Espero que você se divirta e aprenda a tirar o melhor proveito das suas relações, de uma forma saudável e positiva. Você também verá que existem recursos dentro de si, que muitas vezes deixa de usar. Você pode ser mais otimista quando está interagindo com as pessoas, e assim vai atrair coisas boas para si e para os outros. A inteligência relacional, que também gosto de titular de educação social, é a habilidade de sabermos enfrentar as situações do nosso dia a dia, dos encontros e desencontros com as pessoas e com a vida. Divirta-se, mande e-mail, mensagem via site ou Facebook e faça suas sugestões, pois quero contar com você para o próximo livro. De uma forma ou de outra, quero agradecer por já fazer parte dos meus relacionamentos e da minha vida. Afinal, a chance de sermos realmente felizes vem do modo inteligente pelo qual podemos nos relacionar. Ana Artigas 1. Estudo dirigido atualmente por Robert Waldinger, intitulado Harvard Study of Adult Development na Harvard Medical School. Durante 75 anos, os pesquisadores acompanham as vidas de 724 homens. Fonte: https://goo.gl/dO0bbL Endereço do vídeo do TED: https://goo.gl/glPTXLCapítulo 1 O que é e de onde vem a inteligência? Você já parou para pensar na quantidade de informações que recebe todos os dias? Como será que a nossa mente processa essas informações para que não aconteça um congestionamento de pensamentos, mensagens, ideias e imagens? O cérebro precisa de muito vigor para registrar com o mesmo entusiasmo tanta informação. Mas temos a nosso favor a memória, e, para nos ajudar ainda mais, ela é seletiva e auxilia a nossa mente a filtrar o que mais nos interessa. O restante das informações a gente não descarta, mas joga em alguma “pasta” que fica guardada no fundo da nossa cabeça. A memória seletiva protege a nossa mente contra esse turbilhão de informações vindo da internet, do smartphone, da televisão, do rádio, do que lemos: seja em cartazes, livros, outdoors, além das informações que captamos com as pessoas com quem conversamos todos os dias e que nos ensinam muito. Na introdução deste livro você deve ter lido como as conversas que tive com as pessoas foram enriquecedoras para que essa obra existisse. Apesar do conhecimento, das pesquisas que realizei, dos livros que li e da base conceitual que construí no decorrer desses anos, os relacionamentos diários com as pessoas foram de uma contribuição inigualável. Aliás, gostar de conversar é uma característica comum nas pessoas relacionais e que gostam de estar entre outras. Inclusive atribuo a essa habilidade de fazer e manter relacionamentos, extraindo o melhor das pessoas, uma das principais ações para que eu pudesse escrever este livro. As nossas habilidades e inteligências são construídas de várias maneiras. São milhares de correlações e influências, que veremos adiante, mas antes de entendermos mais sobre Inteligência Relacional, precisamos entender o que é Inteligência e como fazemos para processar de forma adequada as informações que recebemos no nosso dia a dia. Durante quase 250 mil anos na Terra, o ser humano foi dominado pelo pensamento mitológico e suas lendas. Há 2.500 anos surgiram a Filosofia e a razão, que conduzem à indução ou dedução de algo e que tentam buscar essa resposta, abrindo caminho para algo além dos mitos e crenças. Há muitos anos – e por que não dizer séculos – diferentes autores e filósofos tentaram definir e conceituar Inteligência. Os primeiros filósofos da Grécia antiga procuraram respostas sobre questões como consciência, mente, corpo e como estruturar a sociedade, a política, as regras e o “viver bem”. De lá para cá, tivemos muitos avanços e vale entender um pouco dessa evolução. Vamos começar por Sócrates, conceituado filósofo. Ele acreditava que a inteligência estava ligada puramente ao raciocínio abstrato – linguagem e matemática. Considerava que as inteligências eram diferentes e inerentes a cada pessoa, que cada um nasce com habilidades inatas, ou seja, com uma predisposição para determinado aprendizado. Platão e Aristóteles entenderam a inteligência como uma habilidade voltada para a lógica, para a geometria e a argumentação. Os filósofos buscaram pessoas sábias e testaram seus conhecimentos com o objetivo de identificar a inteligência nestas pessoas, como se as outras não a tivessem. Descartes, em torno do ano de 1600 d.C., em suas reflexões, propôs a separação entre o corpo e a mente, dizendo que o corpo, sendo material, poderia ser estudado, enquanto a mente, por ter origem divina, somente poderia ser conhecida e tratada a partir do processo introspectivo2. Locke argumentou que não nascemos com conhecimentos, mas que os adquirimos por meio de nossas experiências com o mundo e por meio de nossa capacidade de refletir sobre o que nos acontece e sobre o que vivenciamos. Como materialista, ele afirmava que a mente poderia ser estudada também, mas, naquela época, por falta de recursos, não sabiam exatamente como fazê-lo. Lembre-se de que naquele período não havia exames capazes de “ler” o cérebro como: ultrassonografia, ressonância magnética, entre outros. Donders, Helmholtz e Broca foram grandes estudiosos da fisiologia cerebral, que descobrindo e aprimorando o estudo da transmissão neuronal, conexão entre os neurônios (lembrando que neurônios são as células do nosso cérebro). Estudaram a velocidade do impulso nervoso e algumas interessantes interligações dentro de suas capacidades de observação. Durante os tempos de guerra, estudaram as pessoas com graves sequelas e acidentes cerebrais e fizeram, a partir daí, belíssimas descobertas. Paul Broca, médico francês, revolucionou a ciência com a descoberta da localização do centro da fala no cérebro, intitulada e conhecida como área de Broca. No próximo capítulo, você verá ilustrações de onde fica essa área no cérebro humano. Renomados autores, filósofos, médicos, fisiologistas e neurologistas exploraram a natureza material do corpo e descobriram que havia relações entre os sentidos humanos e o sistema nervoso, ou seja, correlação entre o cérebro e as habilidades humanas. Vamos falar um pouco sobre essas descobertas. Em 1859, o cientista Charles Darwin causou um poderoso impacto sobre o estudo da inteligência com a sua Teoria da Evolução. Essa teoria fez surgir a estimulante possibilidade de a mente humana ter evoluído a partir de mentes mais primitivas. Darwin apresentou semelhanças no funcionamento mental dos homens e dos animais e fez cair por terra a separação entre animais e homens proposta dois séculos antes por Descartes. Com Darwin, o estudo do comportamento animal passou a ser considerado vital para a compreensão do comportamento humano. A teoria evolutiva provocou também uma mudança no objeto de estudo e no objetivo da psicologia. A obra de Darwin inspirou o debate que perdura até hoje: até que ponto a inteligência é advinda de herança genética ou poderia ser modificada pelas circunstâncias? A partir desses questionamentos temos a defesa e a discordância de filósofos, psicólogos, médicos, cientistas e estudiosos. Antes de debatermos de onde advém a inteligência, a pergunta é ainda mais básica: de onde viemos? Desde os tempos mais remotos indagamos sobre a origem dos seres vivos, incluindo a nós mesmos, e durante todo esse tempo sempre tivemos “respostas” na forma de fantasias, estórias fantásticas, mitológicas e recheadas de alegorias que foram transmitidas de geração em geração. Com o surgimento da filosofia e da razão tentou-se buscar respostas, mas essa “era de lucidez” racional foi por anos obscurecida pelas sombras da Idade Média e seus dogmas de fé baseados na antiga mitologia judaico-cristã. No Oriente Médio, boa parte dessa cultura racional sobreviveu disputando lugar com a crença na mitologia islâmica, e no Extremo Oriente, desde vinte e cinco séculos atrás, outro tipo de filosofia, mais mística, se espalhava, baseada no Hinduísmo, Taoísmo e Budismo. Só há pouco mais de duzentos e cinquenta anos outra área do potencial humano amadureceu e se consolidou: a ciência. A ciência nada mais é que a fusão da razão com a experimentação. Pensar, experimentar e alcançar o conhecimento prático de processos. É tão eficiente que seus resultados e materiais em menos de meio século foram muito mais marcantes do que as dezenas de milhares de anos de misticismo e magia. A ciência pode não ter algumas respostas para nossas indagações interiores, e com certeza não tem a chave da felicidade, mas ninguém pode negar que ela é muito eficaz em entender, explicar e controlar a natureza. A ciência também nos deu sua resposta para a grande pergunta sobre a origem da vida: a Teoria da Evolução. Não é de se admirar que essa explicação só tenha surgido há tão pouco tempo. Primeiro, porque não se mudam rapidamente centenas de milhares de anos de pensamento mitológico e, depois, porque essa questão realmente não é fácil de ser respondida, tanto por ter acontecido há muitos anos e por ninguém a ter presenciado. As primeiras descobertas trouxeram um forte quadro de resistência. O processo de elaboração de pensamento foi tomando corpo aos poucos, já que o evolucionismo apresenta uma resposta diferente daquelareferência que dominou toda a Idade Média, a Bíblia. A Ciência teve dificuldades para se estabelecer, enfrentando toda estrutura de repressão religiosa que até hoje não foi totalmente vencida. Afinal, como enfrentar o Mito da Criação? Algo do qual depende boa parte de toda a teologia cristã e suas diretrizes de comportamento. Até hoje é questionável, compreensível e complicado. Continua o trabalho árduo de vários pesquisadores, cientistas e filósofos, e encontramos respostas e evoluções na forma de se “pensar”, embora a teoria da evolução pareça ser a mais precisa explicação para a origem da vida. Enfim, o que são a Teoria da Evolução e o Evolucionismo3? O Evolucionismo não é produto de uma só pessoa, é o resultado inevitável de um processo de evolução científica. A Ciência lida com fatos explicáveis e controláveis, previsíveis e reproduzíveis. Só pode aceitar explicações que se baseiem em fenômenos comprovados e observáveis na natureza. Ninguém jamais viu algo surgir do nada, ou uma transformação tão radical quanto um organismo complexo como o humano surgir do barro. Isso não existe na natureza. Portanto, a explicação religiosa criacionista é inaceitável, no pensamento científico, mas completamente aceitável na crença e no coração dos fiéis e devotos a Cristo, o que precisa ser respeitado. A natureza e os seres humanos, lenta e progressivamente, nascem, crescem, e se desenvolvem até atingir a maturidade, e morrerem. Uma pequena semente se torna uma imensa árvore enquanto um aglomerado de células menores que a cabeça de um alfinete pode se tornar um grande animal. Sendo assim, a evolução está em tudo o que existe. É antes de tudo uma transformação, uma mudança lenta e gradual, desde o mundo físico até os processos sociais. Nada acontece sem ser resultado de estágios progressivos de evolução e é justamente aí que a Teoria da Evolução se torna base da Inteligência Relacional, já que o ser humano só se desenvolve através do contato com os outros. Isso veremos com mais detalhe nos próximos capítulos. Continuando no caminho da evolução, Darwin abriu campo para Galton, seu primo. Francis Galton, matemático, estatístico e antropólogo, defendia a herança da inteligência e seus aspectos eugênicos4. Galton acreditava que a raça humana poderia ser melhorada caso fossem evitados “cruzamentos indesejáveis”. O objetivo de Galton era incentivar o nascimento de indivíduos mais notáveis ou mais aptos para a sociedade e desencorajava o nascimento dos inaptos. Propôs o desenvolvimento de testes de inteligência para selecionar homens e mulheres brilhantes, destinados à reprodução seletiva. Os estudos e conclusões de Galton influenciaram fortemente a criação de métodos estatísticos. Foi ele quem deu origem ao conceito de testes de inteligência, elaborando a aplicação de testes em relação às habilidades motoras e à capacidade sensorial dos indivíduos. Estudou a diversidade e o tempo necessário para a produção de associações de ideias, complementações riquíssimas para a psicologia e para o processo de estudo das habilidades cognitivas (conhecimento). Dando continuidade a esse estudo, entre os séculos XIX e XX, um renomado estudioso francês teve grande impacto no desenvolvimento e avaliação das Inteligências: Jean Piaget (1896- 1980). Sua abordagem é construtivista, uma corrente teórica que procura explicar como a inteligência humana se desenvolve. Parte do pressuposto de que a inteligência é determinada pela ação mútua entre o indivíduo e o meio, ou seja, defende que o homem não nasce inteligente, mas também não fica passivo sob a influência do meio. Ele interage com o meio e por isso aprende e responde aos estímulos do meio ambiente e do meio social. Assim, constrói e organiza o seu próprio conhecimento através do contato com as pessoas com quem interage. Para isso, utiliza-se de um mecanismo autorregulatório que tem como base suas condições biológicas (inatas) ativadas pela interação do organismo com o meio ambiente. O estudo de Piaget foi o verdadeiro motor do desenvolvimento e do progresso intelectual humano. A partir dessa evolução histórica, acreditou-se durante boa parte do século XIX e XX que a Inteligência podia ser mensurada e comparada por meio de testes que estabeleciam numericamente o QI – Quociente de Inteligência. Isto é, media-se o grau de inteligência de uma pessoa a partir das suas competências numéricas, lógicas e racionais. Assim, deve-se destacar a imensa contribuição do psicólogo francês Alfred Binet e seus sucessores, que observaram e estudaram a inteligência com o objetivo de medi-la por meio de testes. Pouco depois, o alemão Wilhem Stern criou um sistema de pontuação padrão para medir o teste e lhe deu o nome de Intelligenz-Quotient, conhecidos como Avaliação do QI5. O fascínio de Binet pelo estudo da inteligência humana foi despertado com o desenvolvimento de suas filhas. Percebeu que a facilidade com que elas aprendiam e absorviam as informações variava de acordo com a quantidade de atenção que depositavam no assunto, o que reforça a seletividade da memória e como registramos as informações conforme o nosso nível de interesse em cada processo. Binet descobriu o teste de Francis Galton e resolveu realizar uma profunda pesquisa para avaliar as diferenças das habilidades em profissionais como matemáticos, escritores e artistas. Na sequência, aplicou testes e validou seus experimentos com mais de 50 crianças e tornou-se um pesquisador educacional. Passou a fazer parte da sociedade para o estudo da Psicologia Infantil e publicou vários artigos na época que ajudaram professores e profissionais de educação. Também contou com a colaboração de Theodore Simon e juntos criaram o que foi denominado Escala Binet-Simon. Essas escalas foram divididas por grau de dificuldade, o que facilitava a descoberta da “idade mental” da criança. De qualquer forma, a conclusão de Binet foi fantástica. Deixou claro que a inteligência atua num mundo de constante transformação e que cresce conforme a criança ou o ser humano se desenvolve, por isso não pode ser medida como comprimento ou volume, mas se pudesse ser acompanhada poderíamos ter uma noção mais completa da aptidão intelectual. Colaborou muito com a classificação das aptidões e permitiu, com a criação do teste de QI, alargar o conhecimento sobre a inteligência humana. Com o tempo, o teste de QI foi caindo em descrédito, pois de maneira notória, as pessoas mais inteligentes matematicamente, ou no estabelecimento de conexões numéricas e lógicas, nem sempre eram as mais bem-sucedidas ou as que alcançavam os melhores resultados no desempenho de seu trabalho ou na sua vida pessoal. A partir disso novas descobertas foram feitas. Lembre-se dos melhores alunos da sua sala de aula quando você era criança ou mesmo no ensino médio ou faculdade. Será que os mais estudiosos são hoje os mais bem-sucedidos, ou existem outras características que determinam o sucesso e os resultados? As pessoas que estudam bastante, ou que têm resultado alto em testes de QI, podem obter sucesso em várias áreas, principalmente as que exigem raciocínio lógico e estratégico, mas podem apresentar pouco conhecimento em áreas que exigem desembaraço, flexibilidade, facilidade de contato ou persuasão. Isso não é uma regra, há pessoas com alto QI que também são inteligentes emocionais e relacionais, mas o que vamos mostrar aqui é que as pessoas podem apresentar tendências, facilidades e dificuldades em áreas distintas. Da mesma forma que algumas pessoas com alta Inteligência Emocional (IE) ou alta Inteligência Relacional (IR) podem apresentar baixo potencial nas escalas de QI (quociente de inteligência). Dificilmente apresentamos potencial alto em todas as áreas ou competências. Além do mais, a tendência é que o ser humano desenvolva mais as inteligências e habilidades que são exigidas no seu dia a dia, no trabalho ou mesmo as que estão atreladas aos seus talentos naturais. É muito comum também desenvolverem as que gostam mais, como ler, escrever, fazer música, por exemplo,ou que utilizam com mais frequência. O que quero ressaltar aqui é que cada um tem suas próprias habilidades e dificuldades, e o desempenho delas vai favorecer ou dificultar os resultados em sua atuação profissional e na sua vida pessoal. Sabe-se que para ter sucesso em uma organização, por exemplo, ou para ser um alto potencial (high potencial), o profissional precisa ter um desempenho acima da média. Desempenhar significa fazer, mostrar, colocar em prática aquilo que a pessoa diz saber ou conhecer. Um profissional considerado um “alto potencial” faz algo de forma surpreendente, mais rápido ou superior às pessoas que parecem ter o mesmo conhecimento, mas não se destacam tão bem no mesmo cenário ou circunstância. O conceito de competências, que citamos acima, foi nomeado pelos RHs (áreas de recursos humanos) com uso do acróstico: CHA – que nada mais é do que a soma de: Conhecimento – o que aprendemos/informações, Habilidades – o que as pessoas mostram facilidade para fazer/talento. Atitudes – o que é colocado em prática/ação. Esses três pilares definem o conceito de competência e juntos mostram o desempenho de um profissional. De nada adianta termos habilidade e conhecimento se não temos atitude para colocar em prática e também de nada vale termos atitude sem conhecimento e habilidade. Vale lembrar que atitude sem conhecimento é risco e irresponsabilidade. As pessoas com muita atitude e pouco conhecimento tendem a sair por aí fazendo absurdos e agindo de forma inconsequente. Atitude é fundamental, mas deve sempre vir temperada com conhecimento e habilidade. Em função desses princípios, o conceito de sucesso vem mudando nos últimos anos. Psicólogos, estudiosos e pesquisadores perceberam que algumas pessoas podem obter resultados baixos nos testes de QI ou de raciocínio lógico, mas podem ter sucesso na conexão pessoal, emocional e relacional. Essas habilidades favorecem o desempenho e a forma como alcançam objetivos e resultados em suas vidas. Da mesma maneira, pessoas muito inteligentes, como doutores, pesquisadores, cientistas e professores universitários, nem sempre obtêm sucesso profissional ou pessoal, apesar de seu vasto conhecimento teórico sobre determinado tema ou assunto. Muitas vezes são reconhecidos no mundo acadêmico ou na região onde vivem, mas nem sempre conseguem se destacar ou ganhar dinheiro com seu conhecimento ou suas criações. Então, lanço algumas perguntas desafiadoras que me proponho a responder no decorrer deste livro: que características determinam o sucesso? Como podemos usar as nossas inteligências e habilidades para chegar aonde pretendemos? Como podemos nos tornar mais inteligentes nos nossos relacionamentos e com isso ter uma vida melhor e mais feliz? Venho estudando e descobrindo respostas para essas questões há mais de vinte anos. Avaliei mais de quatro mil perfis profissionais com a utilização de um dos mais renomados perfis de avaliação do mundo, o Perfil Caliper – instrumento de assessment (avaliação), que avalia a capacidade de raciocínio abstrato (conhecimento lógico-matemático), habilidades, atitudes e comportamentos voltados para o mundo do trabalho. Descobri, com isso, uma correlação entre traços de personalidade que podem favorecer ou comprometer a procura por sucesso e por resultados nos diversos âmbitos da vida pessoal e profissional. Além das habilidades pessoais, precisamos entender o que é considerado sucesso. Existem diferentes significados para a palavra sucesso, dependendo muito dos níveis de cobrança, exigência e desejos de cada um. O que é ser bem-sucedido para uma pessoa pode não ser para outra. Não devemos nos limitar às conquistas profissionais. A descoberta das nossas inteligências e habilidades traz muito sucesso na vida pessoal. É possível obter ganhos em muitas áreas, e veremos que esses ganhos podem ser aprimorados, favorecidos e desenvolvidos também através do contato com as pessoas com quem convivemos e nos relacionamos. Afinal, por que algumas pessoas que obtêm sucesso na vida e se mostram determinadas, disciplinadas ou incrivelmente persistentes foram consideradas pessoas “limitadas” pelos testes de QI? Compor uma sinfonia, recitar um poema, ministrar uma palestra encantadora, convencer uma plateia exigente ou ganhar uma partida de tênis utilizam o mesmo tipo de inteligência? Como e por que essas pessoas conseguem obter tanto sucesso em diferentes áreas? Que habilidades e inteligências são importantes, por exemplo, para mantermos bons relacionamentos interpessoais? A resposta começa a ser delineada quando estudamos os vários tipos de inteligência. Quando o ser humano vivencia experiências relacionadas a sua mais alta inteligência (inteligência pura ou talento), ele geralmente sofre uma forte reação emocional, capaz de transformar sua vida e levá-la ao alto desempenho. Você já deve ter visto crianças que, por exemplo, ao ouvir um violino ou uma orquestra sinfônica se emocionam. Ou que, de repente, mal aprendem a ler e entonam um texto com tal expressividade que surpreende a todos. Estamos falando de Inteligências naturais? 2. Introspecção - ato pelo qual o sujeito observa os conteúdos de seus estados mentais com consciência deles. Dentre eles destacam-se crenças, imagens mentais, memórias (visuais, auditivas, olfativas, sonoras, táteis), as intenções, as emoções e o conteúdo do pensamento em geral (conceitos, raciocínios, associações de ideias). https://goo.gl/yyU6dq 3. Teoria da evolução: https://goo.gl/z8sdY3 4. Eugenia - termo criado em 1883 por Francis Galton, significando “bem nascido”. Galton definiu eugenia como “o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente”. O tema é bastante controverso, particularmente após o surgimento da eugenia nazista, que veio a ser parte fundamental da ideologia de “pureza racial”, a qual culminou no Holocausto. Fonte: https://goo.gl/yGRGgf 5. QI – Quociente de inteligência: medida padronizada obtida por meio de testes desenvolvidos para avaliar as capacidades cognitivas, a inteligência de um sujeito. Expressão do nível de habilidade de um indivíduo num determinado momento em relação ao padrão (ou normas) comum à sua faixa etária. Capítulo 2 Quais as inteligências mais conhecidas e como podemos desenvolvê-las Certo dia, fui visitar uma amiga que tinha ganhado bebê. A criança era linda, mas o que me chamou mesmo a atenção foi seu filho de três anos que, enquanto conversávamos, imitava ser um maestro ao ouvir a música clássica que envolvia o ambiente. Ele interpretava aquela música com tanta emoção que seu corpo inteiro parecia flutuar, completamente envolto em uma atmosfera diferente daquela em que estávamos. Ele não estava ali. Sua mente parecia estar distante e sua expressão facial era suave, encantadora. Já havia estudado as diferentes inteligências nesta época e pela observação dessas situações, tive certeza de que nascemos mesmo com algumas predisposições para determinadas inteligências e que certamente não existe um único tipo ou forma de inteligência. No início da década de 1980, estudiosos da Universidade de Harvard, liderados pelo psicólogo Howard Gardner, apresentaram uma revolucionária pesquisa, denominada inteligências múltiplas. Esse estudo identifica e descreve didaticamente sete tipos de inteligências possíveis de serem encontradas nos seres humanos. Essa forma de demonstrar as inteligências revolucionou e obteve um eco gigantesco no campo da educação. Você vai conhecer quais são essas inteligências e vai poder identificar pessoas e personalidades conhecidas que possuem esses tipos de inteligência. Segundo Gardner, a inteligência “pura” aparece no primeiro ano de vida, mas nem sempre é fácil de ser percebida. Embora as crianças mostrem qual é a sua área de interesse desde pequenas, os prodígios e o aparecimento precoce das inteligências não são comuns. Podemos observar quando algumas crianças desde cedo gostam de música ou escrevem e desenhamantes ou melhor que outras. Algumas mostram uma capacidade espacial acima da média, montando blocos lógicos com facilidade, mas o desempenho maduro, geralmente, vem com o tempo. Apesar de as pessoas apresentarem mais facilidade para desempenhar algumas tarefas do que outras, a excelência vem com o treino e o desenvolvimento da habilidade que possuem de forma inata, ou seja, mesmo que alguém nasça com uma inteligência natural (voltada para a música, como exemplifiquei), se não desenvolver ou treinar, pode ser que nunca se torne um expert ou um excelente músico. Por isso a atenção às habilidades dos nossos filhos e das pessoas com quem convivemos, e a estimulação destas, são fundamentais. Nesse momento se inicia a nossa responsabilidade como pais, educadores, líderes ou facilitadores de um brilhante processo de aprendizado e desenvolvimento. É importante lembrar que o bom desempenho em uma área não implica da realização talentosa em outra, mas é bem comum apresentarmos e desenvolvermos mais de uma inteligência, no decorrer da vida, sendo elas complementares ou não. De forma interessante, vamos ver cada uma dessas inteligências estudadas pela equipe de Gardner e como podemos identificá-las e desenvolvê-las em nós mesmos, em nossos filhos e na nossa equipe de trabalho. 1. Inteligência Lógico-matemática – pessoas com esse perfil de inteligência geralmente apresentam uma alta capacidade estratégica, raciocínio abstrato, fácil memorização e um grande talento para lidar com cálculos numéricos, matemáticos e com a lógica de modo geral. Elas têm facilidade para encontrar solução para problemas complexos e capacidade para dividi-los em “subproblemas” a fim de resolvê-los até chegar à resposta final. Sentem-se motivadas pelo desafio de investigar soluções complexas e podem desenvolver fórmulas matemáticas ou resoluções diferentes para um problema. Essas pessoas geralmente organizam suas coisas por tamanho, cores ou procuram por alguma forma de classificação. Tendem também a manter a atenção e a disciplina em atividades que exigem concentração a detalhes. Essa inteligência é muitas vezes encontrada em engenheiros, líderes estratégicos, financistas, contadores, matemáticos, desenvolvedores de jogos e sistemas e outros profissionais que gostam desse tipo de desafio intelectual. Na década de 1980, acreditava-se que a inteligência lógico- matemática estava fortemente relacionada ao lado esquerdo do cérebro e que existia uma dominância cerebral para as inteligências. No entanto, as novas descobertas neurofisiológicas, ainda em franca evolução, estão trazendo inovações. Alguns autores já defendem que a atividade dos neurônios (nome que se dá à célula do sistema nervoso responsável pela transmissão de sinais químicos e elétricos no cérebro) é sempre probabilística, ou seja, pode mudar. Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro da Universidade Duke (EUA), defende que nem sempre os mesmos neurônios produzem a mesma ação. Sendo assim, a atividade cerebral flutua. Se essa observação se confirmar em outros estudos, o neurocientista diz que será preciso derrubar de vez a ideia de hemisférios especializados em determinada área, porque eles podem mudar ou refazer seus caminhos6. Cientistas da Universidade de Utah (EUA) estão desacreditando a teoria de que há diferenças entre as pessoas de acordo com o desenvolvimento dos lados do cérebro. Até há pouco tempo, acreditava-se que as pessoas lógicas, metodológicas e analíticas possuíam o lado esquerdo do cérebro dominante, enquanto os criativos e artísticos têm o lado direito mais desenvolvido. O problema é que a ciência nunca conseguiu comprovar essa noção. Esses novos cientistas estão desmistificando de vez essa ideia com uma análise de mais de 1.000 cérebros. Eles não encontraram nenhuma evidência de que as pessoas preferencialmente utilizam a parte esquerda ou direita do cérebro. Todos os participantes do estudo – e, sem dúvida, os cientistas – estavam usando todo o seu cérebro da mesma forma, durante todo o curso do experimento7. Alguns exemplos de pessoas famosas com essa habilidade foram: Albert Einstein, Pitágoras, Platão, Tales de Mileto, entre outros. No Brasil, destacamos Benjamin Constant, engenheiro militar e doutor em Matemática que construiu pontes, trincheiras e desenhou mapas que contribuíram para planejar estrategicamente ações militares. Também o matemático Oswald de Souza, que se tornou conhecido a partir da década de 70 quando calculava a probabilidade de acertos na loteria esportiva no programa Fantástico da Rede Globo. Existem profissionais magníficos nesta área, inclusive os que desenvolvem sistemas e aplicativos para smartphones e computadores. São exemplos de pessoas que apresentam rapidez de raciocínio na forma como perseguem a solução para seus problemas e lidam com muitas variáveis numéricas e lógicas ao mesmo tempo. Esses indivíduos parecem capazes de criar numerosas hipóteses que podem ser avaliadas e depois aceitas ou rejeitadas, mas fazem tentativas incríveis. Você já obteve resultados favoráveis usando esse tipo de inteligência ou conhece pessoas que são capazes de correlacionar e fazer diferentes e surpreendentes análises? Existem pessoas com essa habilidade próximas a você ou na sua equipe de trabalho? Fique atento, uma série de benefícios e resultados pode surgir no desenvolvimento de planos e soluções estratégicas e inovadoras, se você souber captar e fazer um bom uso dessa habilidade. Eis algumas formas lúdicas de desenvolver essa inteligência: jogos com graus de dificuldade variados, como xadrez, sudoku, jogos de computador ou videogames, em que você é desafiado a pensar e conquistar novas fases; materiais manipulativos (quebra- cabeças e brinquedos de montar), categorização de fatos e de informação, muito comuns em brinquedos com letras e números, associação de fatos e figuras, analogias, experiências laboratoriais, jogos de memória e o desdobramento de mapas. 2. Inteligência Linguística – caracteriza-se pelo domínio e gosto especial pelas palavras, sentenças, frases e pelo desejo de explorá-las. As pessoas que possuem este tipo de inteligência geralmente apresentam facilidade para se expressar e se comunicar, tanto verbalmente quanto na forma escrita. Muitas vezes apreciam aprender idiomas ou linguagens com símbolos. Mostram grande expressividade no momento de se comunicar e podem usar a linguagem para convencer, persuadir, agradar, estimular ou transmitir ideias de forma clara. Podem apresentar um alto grau de atenção e sensibilidade para entender pontos de vista alheios, o que demonstra empatia. É predominante em poetas, escritores, linguistas, jornalistas, professores e consultores. Gardner destaca também que a inteligência linguística é uma das inteligências mais comuns, porque usamos a escrita e a leitura com certa frequência, somos comunicadores e estimulamos essa área diariamente. No capítulo 1 falamos sobre Paul Broca, que descobriu onde fica localizado o centro da fala, por isso essa região foi batizada com seu nome, “centro de broca”, área do cérebro responsável pela produção de sentenças gramaticais, região especial no córtex pré- frontal que contém um circuito necessário para a formação da palavra. Esta área está localizada parcialmente no córtex pré-frontal postero-lateralmente e parcialmente na área pré-motora, mais predominante no lado direito do cérebro. É onde ocorre o planejamento dos padrões motores para a expressão de palavras individuais. Uma pessoa com lesão nesta área pode ser capaz de compreender palavras e frases simples, mas tem dificuldade de juntá-las e conectá-las, dificultando a formação de frases e de ideias mais complexas. O estudo dos prejuízos adquiridos da linguagem, as afasias, passou a se relacionar com a investigação do comportamento neurofisiológico natural da linguagem, por técnicas de imagem e do aprimoramento no estudo dos potenciais bioelétricos do tecido cerebral. Os estudos iniciais das afasias revelaram que os danos em duas áreas corticais estavam associados a prejuízosimportantes e nitidamente distintos da linguagem, nas áreas descobertas por Broca e Wernicke. A área de Wernicke é uma região do cérebro humano responsável pelo conhecimento, interpretação e associação das informações, mais especificamente a compreensão da linguagem. Graves danos na área de Wernicke podem fazer com que uma pessoa que escuta perfeitamente e reconhece bem as palavras seja incapaz de agrupar estas palavras para formar um pensamento coerente, caracterizando doença conhecida como afasia de Wernicke. A descoberta dessas áreas trouxe ganhos riquíssimos para o estudo das habilidades e das inteligências8. Enquanto a motricidade (ação da comunicação) acontece na área de Broca, na área de Wernicke acontece a compreensão do que os outros dizem e que dá ao indivíduo a possibilidade de organizar as palavras de forma sintaticamente correta, um papel muito importante na produção de discurso. Essa zona é onde convergem os lobos occipital, temporal e parietal (são as três áreas do cérebro, que se localizam na parte posterior, na lateral ou na parte superior do cérebro), chamada de Fascículo Arqueado ou Arcuato. Localização: porção posterior do Giro Temporal Superior do Córtex Cerebral. A área de Wernicke recebe o nome em homenagem a Karl Wernicke, um neurologista e psiquiatra alemão que descobriu e estudou essa área do cérebro. Alguns grandes e conhecidos profissionais que se destacam com a Inteligência Linguística são: Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, grandes intelectuais e escritores franceses que revolucionaram a filosofia contemporânea. Em especial, destaca-se a obra e vida de Simone de Beauvoir, precursora de seu tempo em sua gênese feminista. Revolucionou uma época e conquistou seu espaço no fechado mundo intelectual masculino, escrevendo de forma sublime e impecável sobre militância socialista e o mundo feminino. Destacam-se, ainda, alguns grandes escritores, compositores e poetas brasileiros, como Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Luís Fernando Veríssimo, Mário Quintana, entre outros. Pessoas que, com suas habilidades específicas, contribuíram de forma memorável para a cultura linguística do nosso país e demonstraram uma inteligência linguística acima da média. Eis algumas formas lúdicas para desenvolver essa inteligência: invista em atividades como desenho, pintura, escrita, leitura, jogos e associações com palavras e letras, palavras cruzadas, caça- palavras etc. Se quiser saber mais sobre atividades dirigidas para crianças, pesquise sobre os melhores brinquedos para cada idade e fase, pois essas mesmas atividades podem variar entre mais fáceis ou mais complexas de acordo com cada idade. Como pai, estimule desde cedo que as crianças tenham seus próprios diários, cadernos de anotações ou agendas, onde possam vivenciar a melhor forma de relatar suas experiências. Quando maiores podem ter uma pasta ou arquivo em seu computador, tablet ou celular, onde podem contar tudo o que acontece com eles na escola, nas festas, nos intervalos de aula ou nos momentos de maior alegria ou tristeza. É costume em muitas culturas contar histórias para crianças e elas ajudam a desenvolver a inteligência linguística. Melhor ainda é quando as próprias crianças são capazes de contar suas histórias de forma original, muitas vezes com clareza e riqueza de detalhes, relatando suas experiências com graça e precisão. Aproveite quando a criança começa a descrever seu dia de forma rica, cronológica e detalhada, e, se você se enche de orgulho com a forma como seu filho ou outras crianças da família se comunicam, fique atento, essa pode ser sua inteligência mais relevante. É possível também estimular idosos, portadores de Alzheimer ou pessoas com outras debilidades que envolvam a perda neurológica da linguagem, para que se sintam estimulados a continuar exercitando partes do cérebro que não devem entrar em desuso e são importantes para manter a comunicação e a conexão com o mundo. 3. Inteligência Musical – essa inteligência é identificável pela habilidade para compor e executar padrões musicais, escutando e discernindo sons. Pessoas com este perfil de inteligência têm uma grande facilidade para, ao escutar uma música, identificar diferentes padrões, ritmos, timbres e notas musicais. São capazes de ouvir e processar sons com certa facilidade e podem, também, criar músicas e harmonias inéditas. Pessoas com este perfil parecem “enxergar” através dos sons. Muitas vezes mostram-se capazes de aprender a tocar instrumentos musicais sozinhas. Este é um tipo de inteligência fortemente relacionado à criatividade. Essa característica geralmente está associada a outras inteligências, como a linguística, espacial ou corporal-cinestésica. É predominante em músicos, compositores, maestros e críticos de música. É considerado um tipo mais raro de inteligência. Essa inteligência pode ser identificada logo cedo, e é importante ficar atento às crianças que tendem a cantar para si mesmas. Elas também se mantêm atentas a sons diferentes do ambiente. Podem aprender a tocar um instrumento musical com facilidade, inclusive sozinhas. Essa inteligência é uma das mais fortes para comprovar que parece mesmo existir uma influência biológica, genética ou hereditária no aprendizado, ou seja, podemos nascer com algumas predisposições a aprender. As pesquisas sobre esse tema continuam em franca expansão, algumas sérias experiências já comprovam que a música tem ajudado crianças autistas (o autismo é um transtorno de desenvolvimento que geralmente aparece nos três primeiros anos de vida e compromete as habilidades de comunicação e interação social). O comportamento autista é exteriorizado pela pobreza de contato visual e interação emocional com outras pessoas, prejuízo na fala, estereotipias, obsessão por rotinas e fascinação por determinados objetos (Gadia et. al., 2004). Essas crianças com graves comprometimentos emocionais e incapacidade de fazer vínculos, nem mesmo com a mãe, se mostram capazes de tocar instrumentos musicais de forma admirável. A musicoterapia (terapia que usa a música e seus elementos – som, ritmo, melodia e harmonia – para a reabilitação física, mental e social) tem uma longa tradição no transtorno autista, e há muitos relatos na literatura sugerindo que pode ser usada para melhorar as habilidades de comunicação social, como iniciar e responder a atos comunicativos (Geretsegger et. al., 2012). Estímulos musicais têm sido responsáveis por ativar regiões do cérebro associadas ao processamento de emoções (Wan; Schlaug, 2010). Pesquisas em psicologia da música enfatizaram a natureza intensamente social das atividades musicais, que proporcionam interação com outras pessoas e participação em atividades que podem facilitar o convívio social e a aquisição de linguagem e de habilidades motoras. Por esse motivo, atividades musicais são constantemente usadas no tratamento de autistas, podendo assim justificar o potencial da música como instrumento terapêutico e educacional (Molnar- Szakacs et. al., 2009)9. Alguns estudiosos acreditam que a capacidade musical, ao contrário da linguística e matemática, concentra-se mais no hemisfério direito do cérebro, embora, como falamos, existam vários questionamentos em relação às áreas de dominância cerebral. Alguns grandes e conhecidos profissionais com esse tipo de Inteligência apresentam uma particularidade: começaram muito cedo a desenvolvê-la. Músicos e compositores como Mozart, Beethoven, Bach e Ravel iniciaram, respectivamente, suas vidas musicais aos 5, 6, 7 e 8 anos de idade. O mesmo acontece com grandes cantores e compositores brasileiros. Chico Buarque de Hollanda, aos cinco anos de idade, materializou seu primeiro interesse pela música, montando um álbum de recortes com fotos de cantores do rádio. Não parou nunca mais de compor e cantar. Roberto Carlos, ainda criança, aprendeu a tocar violão e piano, e assim foi com Djavan, Noel Rosa e outros grandes compositores e músicos que marcaram época e ainda emocionam com suas melodias e composições. Formaslúdicas de desenvolver essa inteligência: utilize todos os tipos de brinquedos musicais, desde chocalhos até minibaterias (os pais não gostam muito, mas as crianças adoram!), violão, guitarra, pianinho, etc. Escutar música na gravidez também é uma ótima opção. Estudiosos defendem que a mãe se acalma e consequentemente o bebê fica tranquilo também. As músicas clássicas ou mais tranquilas são as mais indicadas, mas outros estilos também podem estimular a inteligência musical. Lembre-se de que algumas músicas podem deixar tanto a mamãe como o bebê mais agitados, por isso não são indicadas. Leve as crianças desde pequenas a shows e concertos musicais que sejam permitidos e seguros para elas10. 4. Inteligência Espacial – pessoas com este perfil de inteligência têm uma enorme facilidade para criar, imaginar e desenhar imagens multidimensionais. Elas se expressam pela capacidade de compreender o mundo visual com precisão, permitindo transformar, modificar e recriar percepções e experiências visuais até mesmo sem estímulos físicos, sem ter que olhar para desenhos, imagens ou objetos. Acredita-se que o hemisfério direito é o local mais crucial do processamento espacial. As pessoas com essa inteligência geralmente têm um enorme talento para as artes gráficas ou pensamentos que envolvam relações multidimensionais e abstratas. Apresentam como principais características a criatividade e a sensibilidade, sendo capazes de imaginar, criar e enxergar coisas que quem não tem esse tipo de inteligência sente muita dificuldade em executar. Essa inteligência é predominante em arquitetos, artistas, escultores, desenhistas, geógrafos, navegadores, cientistas e inventores. Um conhecido profissional com esse tipo de Inteligência no mundo é Roger L. Easton, cientista americano e o principal inventor do Sistema de Posicionamento Global (GPS – Global Positioning System). Um exímio inventor que, com esse perfil de inteligência, revolucionou a localização espacial e trouxe facilidade para a vida de milhões de pessoas no mundo todo. O sistema foi projetado para permitir o lançamento de mísseis americanos durante a Guerra Fria. O sistema deu tão certo que hoje é utilizado não apenas pelo exército, mas por vários meios de locomoção como navios, caminhões, ônibus e carros comuns. Hoje, inclusive, acoplado nos celulares/smartphones para orientação geográfica e de rota. A partir do GPS outros sistemas deverão ser lançados dentro dos próximos anos, por alguma outra pessoa que apresente forte inteligência espacial. Formas lúdicas de desenvolver essa inteligência: desenhar e pintar em papéis sem linha, sem espaço delimitado. Brincar de descobrir a forma dos objetos sem poder vê-los. Existe uma brincadeira de que as crianças gostam muito: com os olhos vendados, procurar, tatear procurando por objetos (dentro de alguma caixa ou sacola) e descrevê-los sem enxergá-los. Primeiro, descrevem o que estão percebendo, se o objeto é redondo, quadrado, frio, quente, etc. Devem enumerar o maior número possível de detalhes. Depois “arriscam” dizer qual é o objeto. Dentro do saco (ou caixa) pode ter uma variedade enorme de objetos, como chaves, fone de ouvido, bolinha de gude, caneta, carrinhos de brinquedo, panelinhas, etc. Brincadeiras como essas são divertidas e ajudam muito a desenvolver o cérebro e a inteligência espacial. Brincar de andar no escuro, ou de “gato mia” (procurar as pessoas no escuro, com os olhos vendados, sem poder enxergá-las) também ajudam o desenvolvimento dessa inteligência. 5. Inteligência Corporal- cenestésica ou motora – pessoas com este tipo de inteligência possuem um grande talento e facilidade para controlar o corpo e orquestrar atividades corporais. Conseguem fazer uso da expressão corporal e geralmente têm uma noção admirável de espaço, flexibilidade, distância e profundidade. Geralmente são capazes de realizar movimentos complexos e graciosos ou que exijam força, com enorme precisão e facilidade. A parte do cérebro relacionada a essa inteligência alcançaria o cerebelo, gânglios e o córtex pré-frontal motor, que integra os impulsos motores no tempo, permitindo a criação de movimentos habilidosos e voluntários do corpo. É um dos tipos de inteligência diretamente relacionada à coordenação e capacidade motoras. Ela está presente em esportistas olímpicos, bailarinos, ginastas, atletas de alta performance, artistas circenses e entre aqueles que praticam outros movimentos que exigem controle do corpo. Alguns grandes e conhecidos profissionais com esse tipo de inteligência, no mundo, são os bailarinos do Cirque du Soleil. É nítida a capacidade corporal que os atores apresentam. A facilidade que demonstram ao se locomover, pular grandes alturas e sua elasticidade é simplesmente fascinante aos olhos humanos. Claro que também é fruto de muito treinamento, mas para chegar àquela quase perfeição eles certamente apresentam alta inteligência cenestésica. Alguns grandes atletas brasileiros merecem destaque, como nossos craques de futebol Pelé, Ronaldo Gaúcho, Ronaldinho, Neymar, entre outros. Os irmãos Hypólito (Daniele e Diego) da ginástica olímpica e demais bailarinos e atletas olímpicos do Brasil e do mundo. Essa capacidade também pode ser vista em cirurgiões, médicos e dentistas, pois denota acuidade manual precisa. Eis algumas formas lúdicas de desenvolver essa inteligência: todas as atividades que estimulem o movimento corporal, inclusive jogos com bola, como caçador, futebol, handebol, basquete, tênis ou vôlei. Outras possibilidades incluem ainda polo aquático, dança, ginástica rítmica ou artística, balé, judô, natação ou qualquer outra atividade que exija atenção aos movimentos corporais, como mímica ou jogos como “Imagem & Ação” (onde os jogadores descobrem o nome de músicas através do uso da mímica) e jogos de diversão similares a este. 6. Inteligência Interpessoal – Esta inteligência pode ser descrita como uma habilidade para entender e responder adequadamente a humores, temperamentos, motivações e desejos de outras pessoas. A inteligência interpessoal é expressa pela habilidade de entender as intenções, motivações e desejos dos outros. Por essa razão, é um tipo de inteligência ligada à capacidade natural de liderar, pois mostra a facilidade em entender o que as pessoas trabalham com outras, como pensam, sentem e desejam, e o que as motiva, ao que, hoje, chamamos de empatia. Pessoas com esse perfil de inteligência são extremamente ativas e, em geral, causam grande admiração nos outros. São líderes capazes de identificar as qualidades das pessoas e extrair o melhor delas, organizando equipes e coordenando trabalho em conjunto, além de reagir apropriadamente a partir dessa percepção. Está mais desenvolvida em escritores, psicoterapeutas, coaches, conselheiros, padres, pastores, mentores, líderes natos, vendedores bem- sucedidos, políticos, religiosos, professores, etc. As pesquisas sobre as atividades cerebrais sugerem que os lobos frontais desempenham um papel importante na sabedoria interpessoal. Alguns estudos relatam que danos nesta área pode provocar profundas mudanças de comportamento no indivíduo lesionado. Um renomado profissional com esse tipo de Inteligência é Daniel Goleman, criador e autor de best-sellers mundiais, como Inteligência emocional. Trata-se de uma tese científica que apresenta uma visão admirável do conhecimento humano. O autor busca a ciência como guia da mente humana e, sem fórmulas mágicas, revela como conhecimentos científicos e as emoções podem efetivamente atuar na transformação do homem. Utilizaremos conceitos interessantes e consistentes desse autor, no decorrer do livro, pois sua teoria é uma grande fonte de inspiração e informação. Goleman demonstra como a incapacidade de lidar com as próprias emoções e a dos outros pode destruir vidas e acabar com carreiras promissoras. Apresenta uma forma de explicar como o controle da emoção pode trazer mais equilíbrio às pessoas. Formas lúdicas para desenvolver essa inteligência: uma forma interessante de desenvolvê-la é ater-seàs pessoas ao nosso redor, escutá-las com atenção genuína e perceber seu estado de ânimo. A dica é dedicar tempo e atenção para escutar, observar, descobrir, entender e procurar formas de desenvolver habilidades nos outros. Essa inteligência requer que a pessoa possa avaliar com mais atenção o temperamento, os sentimentos, as motivações e intenções dos outros, mesmo que eles tentem escondê-la. Líderes, pais e educadores podem ensinar melhor as pessoas a entenderem como perceber e lidar com as emoções delas e dos outros. As crianças precisam entender, por exemplo, que os pais também têm sentimentos, choram, ficam chateados, sentem as perdas, sorriem, brincam e têm momentos tristes e felizes. Alguns pais têm a tendência de esconder seus sentimentos dos filhos, mas isso só os torna analfabetos emocionais. É importante que as crianças entendam que perdas acontecem, que animais de estimação ou pessoas queridas morrem, que as pessoas adoecem e envelhecem. Precisamos ensinar a criança a entender essas questões e a lidar com perdas, sofrimentos, desilusões e frustrações que são inevitáveis na vida de qualquer ser humano. Deixá-las mais preparadas para essas situações vai permitir que mais tarde se tornem inteligentes emocional e relacionalmente. Vamos ter um capítulo dedicado a essas questões. 7. Inteligência Intrapessoal – Esta inteligência destaca o autoconhecimento, o reconhecimento de habilidades, necessidades, desejos e percepções próprios, incluindo a capacidade para formular uma imagem precisa de si. Trata da habilidade para acessar os próprios sentimentos, sonhos e ideias, para que as pessoas tenham consciência do que é importante para elas e como procuram solução para seus problemas pessoais. É considerado um raro tipo de inteligência, porque as pessoas têm a tendência a evitar entrar em contato com suas próprias dores e dificuldades, o que faz com que, muitas vezes, dificulte o autoconhecimento. Esta inteligência ajuda e apoia a inteligência interpessoal, porque, quando conhecemos a nós mesmos, temos mais chance de entender, conhecer e apoiar as outras pessoas. Gardner descobriu que, assim como na inteligência interpessoal, os lobos frontais desempenham um papel central na mudança de comportamentos. Um dano na área inferior dos lobos frontais provavelmente produzirá irritabilidade ou euforia, ao passo que um dano nas regiões mais altas provavelmente produzirá indiferença, desatenção, lentidão e apatia, ou seja, um tipo de personalidade mais depressiva. A criança autista, como já dito, é um exemplo de um indivíduo com a inteligência intrapessoal prejudicada. Acredita-se que essas crianças nunca foram capazes de se referir a si mesmas, têm uma baixa noção do que sentem e menos ainda do que as pessoas ao seu redor sentem, mas podem apresentar notáveis capacidades nos domínios musicais, espaciais ou computacionais. Difícil destacar pessoas com esse tipo de inteligência, pois não sabemos avaliar com precisão o quanto as pessoas verdadeiramente se conhecem. Impossível saber se é o suficiente para que tomem decisões adequadas em sua vida. Estas questões têm sido amplamente debatidas pela psicologia, psicanálise, filosofia, neuropsicologia, neurociência, medicina e ciências afins, mas seu processo de descoberta e progresso está apenas começando. Aqueles que passam por processos de avaliação e evolução pessoal geralmente se conhecem melhor. A percepção de habilidades e competências profissionais pode evoluir para um processo de autoconhecimento mais aprofundado, como processos terapêuticos. O importante é que as pessoas procurem formas de conhecer melhor suas habilidades para organizar sua rota de desenvolvimento. Essa capacidade apresenta um modelo acurado para operar efetivamente a vida. Falaremos mais sobre isso no capítulo de Inteligência Relacional. Vale ressaltar que o conhecimento da personalidade humana se encontra em caráter embrionário. Muito já se falou, já se estudou, mas muito há por vir. Formas lúdicas de desenvolver essa inteligência: processo terapêutico, psicanálise, processo de coaching, ferramentas de avaliação de potencial ou de competências, avaliação de desempenho em todos os níveis, feedbacks, orientação de carreira e acompanhamento de habilidades pelos gestores são alguns processos que ajudam na autopercepção e no autoconhecimento. Tanto na vida pessoal como profissional existem várias formas de aprender sobre nós. O importante é acreditar nesta possibilidade e pesquisar uma forma genuína de aprender cada vez mais sobre si. Em 1996, Gardner fez a primeira ampliação da sua listagem original das 7 (sete) inteligências até aqui apresentadas. As duas últimas inteligências abaixo descritas são as inteligências de tipo “naturalista” e “existencial”, que foram definidas e estudadas mais tarde. A inteligência espiritual e artificial são mais recentes e não entraram na classificação de Gardner. 8. Inteligência Naturalista – foi caracterizada como a capacidade de discernir, identificar e classificar plantas e animais. Essa não é necessariamente uma habilidade de conviver com a natureza, mas de cuidar dela. A Inteligência Naturalista traduz a sensibilidade para compreender e organizar fenômenos e padrões da natureza, como reconhecer e classificar plantas, animais, minerais, incluindo rochas, gramíneas e toda a variedade de fauna, flora, meio ambiente e seus componentes. É característica comum em paisagistas, defensores da natureza, ambientalistas e pessoas que são capazes de fazer distinções relativas ao mundo natural e usar essa habilidade produtivamente na agricultura ou nas ciências biológicas. O termo naturalista refere- se ao indivíduo que estuda as ciências naturais – notadamente botânica, zoologia e geologia. Existem muitos profissionais famosos nesta área e o mais conhecido é Charles Darwin, naturalista britânico que desenvolveu a teoria da evolução e propôs uma teoria para explicar como se dá a seleção natural e sexual. Formas lúdicas para desenvolver essa inteligência: manter as crianças desde pequenas em contato com a natureza, explicar a importância da fauna, flora e do equilíbrio ambiental. Essa inteligência será fundamental para o futuro da humanidade, e será muito importante desenvolvê-la, pois com o aquecimento global e com as tragédias climáticas e naturais causadas pelo desequilíbrio ambiental, devemos desde já manter uma atenção maior pela natureza e pela ecologia. Se não for para classificá-la ou estudá-la em detalhes, que seja ao menos para respeitá-la e aprender a preservar o que a natureza proporciona a quem vive e habita este planeta. 9. Inteligência Existencial – abrange a capacidade de refletir e ponderar sobre questões fundamentais da existência e que levem à compreensão de que a vida tem um significado. É característica de líderes espirituais e pensadores filosóficos. Ter alto quociente espiritual (chamado de QS) ou existencial implica em ser capaz de usar o viés espiritual para ter uma vida mais rica e mais cheia de sentido, que leve à direção pessoal e ao amadurecimento existencial. Está ligada à necessidade humana de ter propósito na vida, para desenvolver valores éticos e crenças que vão nortear nossas ações. 10. Inteligência Espiritual – no livro QS (Quociente Espiritual), lançado em 2010, Dana Zohar, física e filósofa americana, aborda esse tema como novo e polêmico: a existência de um tipo de inteligência que aumenta os horizontes das pessoas, torna-as mais criativas e se manifesta em sua necessidade de encontrar um significado para a vida. É possível que outros autores continuem aprofundando suas descobertas sobre este tema. Formas lúdicas para desenvolver essas inteligências: o contato com religiões e crenças, o estudo estreito da filosofia, da meditação e de técnicas de concentração, atenção e foco, são interessantes caminhos para exercitarmos essas inteligências. Sabe-se que a meditação e as técnicas de concentração e foco têm ajudado CEOs e demais líderes a tomar grandes e estratégicas decisões. O assunto é tão atual que foiabordado em recentes reportagens de capa pelas revistas americanas New York Times, Newsweek e Fortune. Dana Zohar afima: “A inteligência espiritual coletiva é baixa na sociedade moderna. Vivemos numa cultura espiritualmente estúpida, mas podemos agir para elevar nosso quociente espiritual”. Quem quiser conhecer mais sobre essa Inteligência pode pesquisar essa autora e outros autores citados a seguir. Ainda é uma Inteligência nova e que pode ser incorporada ao mundo das Inteligências Humanas. No final dos anos 70, o professor Jon Kabat-Zinn, diretor fundador da Clínica de Redução do Estresse e do Centro de Atenção Plena em Medicina, na Escola Médica da Universidade de Massachusetts, criou a técnica de “Atenção plena” (em inglês, Mindfulness), como forma de divulgar a importância da meditação e seus benefícios para a saúde e redução do stress. O tema acabou virando moda e passou a ser utilizado por executivos, atletas e celebridades. Hoje Kabat-Zinn tem vários livros editados e outros autores vieram na mesma esteira. Dan Harris, em seu livro: 10% mais feliz, ensina a “silenciar” a mente e reduzir o estresse. Ele relata que era descrente com meditação ou técnicas dessa natureza, mas, com certa relutância, descobriu que a fonte de seus problemas era justamente aquilo que considerava seu maior aliado: a voz incessante dentro da sua cabeça, que o impelia sempre a querer mais, fazer mais, esforçar-se mais. Todos nós temos essa voz, acrescenta. Ela nos leva a ter preocupações excessivas, julgar os outros, ruminar o passado e temer o futuro. É ela que nos deixa tensos, ansiosos, irritados e frustrados. Dan encontrou, na meditação, um modo eficaz de acalmar seus pensamentos, equilibrar suas emoções e se tornar uma pessoa melhor, mas sem perder a energia para lutar por aquilo que deseja. Livro altamente recomendado. Depois dos estudos de Howard Gardner, outros pesquisadores têm realizado propostas ousadas no desenvolvimento e na descoberta de novas formas de inteligência. Daniel Goleman, autor já citado anteriormente, inovou com o lançamento do livro “Inteligência Emocional”, que revolucionou a história das aptidões, mostrando que é possível ensinar o alfabeto emocional para as crianças. Karl Albrecht e o próprio Daniel Goleman também escreveram sobre um tipo especial de inteligência: a “Inteligência Social”. Ela mostra o quanto as nossas reações com os outros têm impacto no nosso organismo, no nosso coração e, inclusive, no sistema imunológico, o que também defendo em Inteligência Relacional. O que diferencia o conceito de Inteligência Relacional é a amplitude da relação entre as pessoas, a conexão que estabelecemos umas com as outras. Não basta entendermos nossas emoções e/ou as emoções dos outros se não soubermos como interagir e como tirar bom proveito disso para nosso sucesso e a nossa satisfação pessoal e profissional. Precisamos aprender a nos comportar melhor socialmente e entender o que devemos fazer para que as nossas relações sejam sadias e agregadoras, de forma que possamos trazer mais qualidade à nossa vida. Nos países desenvolvidos, as crianças aprendem desde cedo como devem se comportar nos ambientes públicos como restaurantes, elevadores, supermercados, mas, infelizmente, nos países mais carentes, a preocupação maior ainda é a sobrevivência e a manutenção da segurança e da saúde e esquecemos de educá- las como seres sociais. De qualquer forma, nós precisamos começar a pensar além do básico. É a única maneira de modificarmos a nossa sociedade. Para concluir este capítulo, é importante ressaltar que as inteligências não apresentam diferença no grau de significância, ou seja, uma não é mais ou menos importante que a outra. Todas têm a mesma força e podem levar o ser humano para a alta performance. Vale lembrar, também, que podemos apresentar e desenvolver mais de uma inteligência no decorrer da vida, aliás, isso é muito comum. Quantos indivíduos são ótimos músicos e também exímios escritores? Quantos não se destacam em esportes e também são excelentes advogados, médicos ou arquitetos? Também encontramos líderes que são ótimos para desenvolver pessoas e também são capazes de planejar e desenvolver ideias estratégicas e soluções desafiadoras. Sendo assim, as inteligências estão geralmente inter- relacionadas. Podem ser apresentados e desenvolvidos diferentes tipos de inteligência no decorrer da vida, mas é possível que cada ser humano apresente, por característica genética ou social, mais facilidade para desempenhar algumas em função de outras. Quanto mais nos conhecermos, mais podemos otimizar nosso talento e nosso potencial. Se descobrirmos o caminho da nossa inteligência predominante, temos mais chance de ter sucesso na nossa vida e, principalmente, nos resultados que podemos obter na nossa atuação profissional. Se formos capazes de fazer uma avaliação ou levantamento adequado das nossas habilidades, poderemos desenvolvê-las com mais facilidade, e, assim, aumentarmos a oportunidade de sucesso e de realização. As pessoas tendem a achar que talento, habilidades ou inteligência são dons para pessoas privilegiadas, mas a grande verdade é que todos nós somos inteligentes, todos nós temos dons e talentos, basta descobrirmos quais são e nos esforçarmos para desenvolvê-los. Estes conceitos estão diretamente relacionados ao que antes era chamado de “dons” ou “talentos” memoráveis (como a música de Mozart, a linguística de Vinícius de Moraes e tantos outros). A questão é que todos nós temos algum talento. Se você faz o melhor “doce típico” da sua cidade, aquele que ninguém consegue fazer igual, você é um indivíduo talentoso. O aspecto revolucionário da teoria das Inteligências Múltiplas está em mostrar que todos os seres humanos possuem algum tipo de inteligência, em diferentes graus de desenvolvimento. Ninguém recebeu dádivas especiais e exclusivas. O que falta é entender, conhecer e treinar as nossas principais habilidades e principalmente o nosso cérebro. Assim, podemos otimizar o que temos facilidade em desempenhar. Também devemos minimizar nossas vulnerabilidades ou dificuldades. Podemos apostar nos nossos pontos a desenvolver, sem, contudo, perdermos muito tempo e energia naquilo que não é prazeroso para nós. As pessoas tendem a investir muito tempo para desenvolver habilidades que não são naturais a elas. Não há nada de errado nisso, o problema é que, provavelmente, nunca se tornarão excelentes naquilo que não lhe é nato ou fácil, o que pode causar uma sensação de inutilidade ou fracasso. Quando se deposita muito tempo para ajustar os pontos de dificuldade, as pessoas terão que gastar o máximo de sua energia para chegar à média daqueles que são naturalmente bons naquilo. Outro risco comum nesta situação é “deixar de lado” seus pontos positivos, desequilibrando e comprometendo a performance. Fugir das habilidades naturais pode diminuir a chance de conquista dos resultados efetivos. É importante que possamos identificar o quanto antes quais são nossas principais inteligências e habilidades. Dessa forma temos chance de cuidar e de procurar caminhos alternativos para planejar, com cuidado e respeito, nosso aprendizado e desenvolvimento pessoal e profissional. Como descobrir habilidades? Existem várias formas e instrumentos de avaliação que podem ajudá-lo, porém há uma sugestão que pode fazer uma incrível diferença no futuro do nosso país. É fundamental que os pais e educadores de hoje sejam capazes de escolher a melhor escola e o melhor método de aprendizado para os seus filhos, respeitando as habilidades que apresentam desde pequenos. Não se escolhe escola pela cor da parede da sala ou dos brinquedos do parquinho. A escola é uma escolha séria e a criança deve se ajustar ao método e às pessoas que terão o propósito de ensiná-la e desenvolvê-la. Essa escolha fará diferença no futuro dos seus filhos, na sua carreira profissional, na sua vida e na sua felicidade. Faça uma breve reflexão e pense em si quando era criança. Que tipo de atividades fazia com facilidade? Do que gostavade brincar? As atividades que desempenha hoje têm alguma ligação com essas atividades ou brincadeiras de infância? A resposta a essas questões deve estar relacionada com o fato de você ser ou não feliz com seu trabalho e com as tarefas que hoje desempenha. As pessoas são diferentes porque possuem diversas combinações de inteligências, habilidades e personalidade. Neste livro, você verá que as combinações dessa correlação mudam a forma como cada um pensa, age e principalmente se relaciona. Entender essa diferença e reconhecer as aptidões das pessoas com quem convivemos aumenta a condição de lidarmos melhor com muitos problemas que enfrentamos na nossa vida, melhorando a nossa relação com os outros. Se pudermos entender melhor a capacidade e as limitações humanas, podemos aprimorar nossas relações e nos respeitar mais como pessoas, profissionais e seres humanos. Muita coisa ainda será descoberta. Existe uma ampla linha de pesquisa ligada às questões neurológicas e científicas, neurociência, neuropsicologia, neurofisiologia, neuromarketing, o estudo da capacidade intelectual, de cognição, percepção e memória, incluindo as descobertas sobre a inteligência artificial. Já existem estudos avançados investigando formas de “colocar” sentimento em máquinas. Imagine quando elas puderem pensar e sentir como nós? Será que vão competir conosco ou superar as habilidades humanas? A inteligência artificial, se dedica a buscar métodos e dispositivos computacionais que simulem a capacidade racional e a forma de resolver problemas, de pensar ou de “ser inteligente” que até hoje é considerada exclusiva e própria do ser humano, mas até quando? Filmes como Matrix ou A.I. – Inteligência Artificial já despertam para esse tema e são apenas a ponta do iceberg. De qualquer forma, jamais podemos perder o caráter existencial, ético, moral e recheado de princípios e valores que embasam a capacidade de articulação e a forma de “sermos inteligentes” que só nós, seres humanos, somos capazes de apresentar. De qualquer forma, se você chegou até aqui, está pronto para quebrar paradigmas e “pensar fora da caixa”. Abra seu coração, de agora em diante você verá o mundo e as pessoas de outra maneira. 6. Revista Superinteressante: https://goo.gl/e32JKf 7. https://goo.gl/1BlnwW 8. https://goo.gl/jZSoKn 9. https://goo.gl/RJS2Oa 10. Se quiser saber mais sobre música para crianças autistas, acesse: https://goo.gl/lALJte Capítulo 3 Por que as emoções e os sentimentos são tão importantes para a nossa vida? Desde a publicação do best-seller de Daniel Goleman denominado Inteligência Emocional, o mundo entendeu a importância de interagir levando-se em conta os sentimentos, as emoções e o coração. Ele revolucionou a forma de pensar e a capacidade de agir e de decidir das pessoas, mostrando o respeito e a importância que o ser humano precisa colocar na compreensão das emoções. Segundo Goleman, a inteligência emocional é moldada desde a infância e as experiências determinam os hábitos emocionais básicos que governam nossas vidas. Afinal, existe diferença entre sentimento e emoção? O estado emocional é determinado pelo momento como a pessoa se sente, que acontece continuamente, muitas vezes sem que a pessoa perceba, por ser inconsciente, em função do conjunto de suas experiências emocionais: felicidade, ânimo, calma, tensão, tristeza, etc. É formado por dois componentes distintos: Emoção: refere-se a respostas corporais, fisiológicas, como a sudorese nas mãos, lágrima nos olhos, o coração batendo forte e envolve estruturas subcorticais como a amígdala, o hipotálamo e o tronco encefálico. Sentimento: é uma representação interna, cognitiva, às vezes inconsciente, às vezes consciente; por exemplo, você se dá conta que está com saudade de alguém, e isso é um sentimento. É mediado pelo córtex cerebral, pelo córtex cingulado e pelos lobos frontais. (fonte: Gondim & Taunay, 2009, p. 177) As emoções dão origem aos sentimentos, e sem dúvida ambos estão totalmente relacionados. Da mesma forma que uma emoção desperta um sentimento, um sentimento é capaz de gerar mais emoções. Ter consciência de como você reage e se sente diante de cada emoção, portanto, é fundamental para manter o equilíbrio emocional. Para entendermos melhor as emoções e sentimentos precisamos entender primeiro como o nosso cérebro funciona, porque as emoções são uma das partes que regem essa “máquina” fabulosa e capaz de nos levar a qualquer lugar, seja pelo uso das inteligências ou pela capacidade de imaginação. Usamos a analogia do coração como representante da emoção, paixão ou amor, mas na realidade esse órgão, apesar de bater mais forte quando estamos apaixonados, também recebe comandos do cérebro para executar tal função. O cérebro é o “computador central” de nosso corpo, localizado dentro da caixa craniana, fazendo parte do sistema nervoso central (reúne as estruturas neurais situadas dentro do crânio e da coluna vertebral), para onde convergem todas as informações que recebemos. O cérebro representa apenas 2% da nossa massa corporal, porém, consome mais de 20% do nosso oxigênio. Comanda as atividades como o controle da ações motoras, a integração dos estímulos sensoriais e as atividades neurológicas, como a memória e a fala. O cérebro humano contém cerca de 85 bilhões de neurônios que, interligados, formam mais de 10 mil sinapses, que pode gerar infindáveis conexões, mais de 1 quatrilhão de circuitos neurais. Um imenso desafio para a geração de robôs que queiram pensar como nós, não acham? Quem será capaz de copiar a mente humana? Neurônio – é a célula do sistema nervoso responsável pela condução do impulso nervoso – localizado no cérebro. O neurônio pode ser considerado a unidade básica da estrutura do cérebro e do sistema nervoso. Circuito Sináptico Neuronal (Capa deste livro) – é a ligação entre os neurônios. A sinapse é o chip do sistema nervoso e é capaz de transmitir mensagens entre duas células, bloqueá-las ou ainda modificá-las inteiramente: realiza um verdadeiro processo de informação. (Cem milhões de neurônios – Robert Lent – 2ª ed.). Em 1990, tivemos mais uma espetacular contribuição, o neurocientista Paul Maclean apresentou, em seu livro, a teoria do cérebro trino. Essa teoria começou a ser desenvolvida em 1970, mas apresentada no seu livro The Triune Brain in evolution: Role in paleocerebral functions vinte anos depois. Destaca que nós, seres humanos, temos o cérebro dividido em três unidades funcionais diferentes. Cada uma dessas unidades representa uma parte do nosso sistema nervoso. Cada uma dessas áreas é responsável por um comando diferente que auxilia as nossas ações e decisões. Cérebro Reptiliano O Cérebro Reptiliano ou cérebro basal é formado apenas pela medula espinhal e pelas porções basais do prosencéfalo (parte primitiva do embrião, que forma a parte frontal do cérebro). Esse primeiro nível de organização cerebral é capaz apenas de promover reflexos simples, o que ocorre em répteis, por isso o nome “cérebro instintivo” ou “reptiliano”, que tem como característica a sobrevivência, responsável pelas emoções primárias como, fome, sede, ameaça ou perigo. Cérebro Límbico O Cérebro límbico, cérebro emocional ou ainda cérebro dos mamíferos inferiores, é o segundo nível funcional do sistema nervoso, responsável por controlar o comportamento emocional dos indivíduos. Esse nível de organização corresponde ao cérebro da maioria dos mamíferos e envolve algumas áreas do cérebro, denominadas: tálamo, amígdala, hipocampo, hipotálamo, entre outras. Neocórtex Também pode ser chamado de área pré-frontal ou cérebro racional. Segundo Paul MacLean, é pela presença do neocórtex que o homem consegue desenvolver o pensamento abstrato e tem capacidade de gerar invenções; é o que diferencia o homem dos demais animais. É compostos pelo córtex telencefálico (maior porção do encéfalo), que por sua vez é dividido em lobos: Frontal: mais derivado dos lobos cerebrais, responsável pelas funções executivas, planejamento, consciência e controleconsciente da vida social. É uma área muito importante para a Inteligência relacional); Parietal: responsável pelas sensações gerais: pele (temperatura e dor), língua, informações sensoriais dos olhos e ouvidos; Temporal: responsável pela audição, pelo olfato e reconhecimento de faces; Occipital: responsável pela visão, processa todas as informações visuais envolvidas pela retina; Insular: responsável pelo paladar e gustação (alguns autores não o destacam como lobo cerebral, por estar situado em uma camada muito interna). Fonte: Cem bilhões de Neurônios de Robert Lent e Fisiologia Humana de GUYTON, A. C.; HALL, J. E. Lobo da ínsula: é um lobo profundo, situado no fundo do sulco lateral, no encéfalo. A ínsula tem forma triangular e está separada dos lobos vizinhos por sulcos. Possui cinco giros (curtos e longos). Suas principais funções são fazer parte do sistema límbico e coordenar emoções, além de ser responsável pelo paladar. A ínsula funciona como uma espécie de intérprete do cérebro ao traduzir sons, cheiros ou sabores em emoções e sentimentos como nojo. Agora que destacamos a importância do Cérebro Trino, mesmo que resumidamente, é válido lembrar que o neocórtex é o grande gerenciador do cérebro, ele é capaz de controlar nossas ações, principalmente o comportamento social, por isso é tão importante para a Inteligência Relacional. Dependemos dessa área para termos mais consciência e defesa de pontos de vista com o uso da capacidade de análise crítica, do pensar e da linguagem. O que essa teoria defende nos faz chegar a algumas conclusões importantes para a perfeita compreensão deste livro, ou seja, temos um suposto cérebro consciente que pensa e faz a análise das nossas decisões, um cérebro que sente e é responsável pelas nossas emoções e sentimentos, e um cérebro que decide, baseado em impulsos inconscientes e instintivos. De acordo com o brilhante professor e doutor em Filosofia em Administração de Negócios, Marcelo Peruzzo, defende em seu livro: As três mentes do neuromarketing, leitura altamente recomendada, nos faz lembrar que essa divisão é didática, porque, na prática, não é bem assim que acontece, afinal, a mudança de um estado para outro acontece em milésimos de segundos e fica difícil separar, por exemplo, se uma decisão foi mais emocional, racional ou instintiva. Quando estamos diante das pessoas em uma discussão, ou negociação, por exemplo, geralmente usamos essas três partes do cérebro para defender o nosso ponto de vista, argumentar e tentar convencer o oponente. No entanto, dificilmente saberemos exatamente em que momento cada uma delas teve maior peso nas decisões que tomamos, mas podemos entender se temos uma tendência maior para uma área do que para outra. Sendo assim, o que quero deixar como contribuição para vocês é que a partir do momento que entendemos esse conceito e sabemos como a mente humana funciona, teremos maior capacidade de rever as nossas decisões e entender se estamos agindo mais pela razão, emoção ou por instinto e se precisamos estabelecer mais equilíbrio nessas áreas para decidirmos de forma mais sensata e equilibrada. Dito isso, onde entra a Inteligência Emocional? Quando falamos de emoção, estamos falando do nosso sistema límbico, que envolve diretamente as nossas emoções e sentimentos. A Inteligência Emocional abrange uma série de questões e está relacionada a algumas habilidades, tais como: motivar a si mesmo e persistir mediante frustrações; controlar impulsos, canalizando emoções para situações apropriadas; praticar gratificação prorrogada e entender melhor as pessoas e suas motivações para conseguir o engajamento dos outros em prol de objetivos e interesses comuns. O fato é que precisamos antes de tudo entender as pessoas, o que as motiva e como viver e trabalhar cooperativamente com elas. Por isso precisamos, sobretudo, treinar a Inteligência Relacional. Se formos capazes de entender o que é nosso e o que é do outro, separando e respeitando o que é de cada um, seremos capazes de ajudar as pessoas de forma genuína. Precisamos ter claro para nós o impacto que causamos no outro e a influência que as pessoas têm na formação da nossa personalidade. Fazendo uma revisão das inteligências do capítulo anterior, já sabemos que para alcançarmos a Inteligência Emocional, duas inteligências são fundamentais: Inteligência Interpessoal + Inteligência Intrapessoal É bom lembrar que a Inteligência Interpessoal é a capacidade de compreender as pessoas e de interagir bem com elas, o que significa ter sensibilidade para captar o sentido de expressões faciais, voz, gestos e posturas das pessoas que interagem conosco. É se ater à forma e à essência do que está sendo comunicado, é prestar a atenção e mostrar capacidade para “ler” as emoções dos outros, característica fundamental na liderança e em todas as áreas que exigem contato com pessoas. A Inteligência Intrapessoal denota a capacidade de conhecer e de estar bem consigo mesmo, de administrar os próprios sentimentos e direcioná-los para que o auxiliem a atingir suas metas e objetivos, sejam eles pessoais ou profissionais. Pode parecer fácil, mas essa capacidade inclui disciplina, autoestima, autoaceitação e muita percepção e conhecimento de si próprio. O desenvolvimento dessa característica é importante para o desempenho das nossas funções fundamentais, como filhos, pais, educadores e profissionais. Daniel Goleman mapeou a Inteligência Emocional em cinco áreas de habilidades: 1. Autoconhecimento Emocional – reconhecer um sentimento enquanto ele ocorre. 2. Controle Emocional – habilidade de lidar com os próprios sentimentos, adequando-os para a situação. 3. Automotivação – dirigir emoções a serviço de um objetivo é essencial para manter-se caminhando sempre na descoberta dos resultados importantes para a vida pessoal e profissional. 4. Reconhecimento de emoções em outras pessoas. 5. Habilidade em relacionamentos interpessoais. As três primeiras se referem à Inteligência Intrapessoal, e as duas últimas à Inteligência Interpessoal. No mundo corporativo e do trabalho, sabemos a importância de entender as necessidades das pessoas. Na descoberta de Goleman, é surpreendente a forma como ele apresenta e defende a raiz da empatia, que é a capacidade de nos colocarmos no lugar das pessoas e entendermos como pensam e agem. Você já recebeu uma avaliação de potencial ou de desempenho de seu líder do RH ou de algum consultor e coach experiente e ficou surpreso como a pessoa foi capaz de desvendá-lo e perceber o seu estilo e seu funcionamento? Como foi difícil ouvir coisas que não queria aceitar. Ou pior ainda, será que essa pessoa estava preparada para lhe dar um feedback de tamanha importância? Muitas pessoas vivem experiências como essas, e é sensacional quando isso acontece de forma positiva. Práticas como essas causam mudanças significativas no desenvolvimento pessoal e profissional, por mais difíceis que sejam. Também é encantador quando as pessoas têm a capacidade de fazer uma “leitura” adequada do que somos e de como nos comportamos. Você se acha capaz de entender as pessoas dessa forma? Já experimentou dar feedback para alguém? Entenda que feedback não é conselho, é uma técnica na qual devemos apresentar os pontos fortes das pessoas e destacar o que pode ser aprimorado, sem fazer julgamento. Apenas procure entender quem está diante de você e como essa pessoa pode se desenvolver. Essa prática permite não apenas a ampliação da nossa capacidade de entender as pessoas, mas principalmente de sermos generosos, altruístas e acima de tudo mais humanos. Como já falamos, quanto mais individualistas e instintivos, mais próximos estamos da natureza animal. Ao nos aproximarmos de forma genuína das pessoas, tentando entendê-las de forma verdadeira, nos distanciamos da agressividade instintiva e desumana que nos aproxima mais dos selvagens do que dos homens de paz. O maior desafio, entretanto, está em conseguirmos entender o outro sem precisar nos “misturarmos” com seus problemas e desafios. Só assimpodemos fazer algo por eles, sem que as emoções se contaminem a ponto de não conseguirmos ajudar. Infelizmente essas “misturas” acontecem muito com pais e filhos, marido e mulher, líder e subordinado. E, quando acontece, fica cada vez mais difícil entender o que é de cada um e o que cada pessoa precisa aprender ou desenvolver. Goleman defende que podemos ler a emoção das pessoas, sem nenhum senso de necessidade ou desespero do outro. Segundo ele, não precisa haver envolvimento, mas, sim, compreensão. Pode parecer óbvio, mas agir assim é difícil para a nossa sociedade católica-cristã, que moldou a educação brasileira. O brasileiro sempre tem a impressão de que, se não estiver sofrendo junto, não está sendo humano, não está sendo amigo de verdade. Infelizmente, esse comportamento “misturado” só atrapalha e confunde as pessoas. Quando passamos a sofrer junto, não conseguimos entender, compreender e realmente apoiar. Entramos em um misto confuso de dor e pena, que não nos leva a lugar nenhum. A boa notícia é que comportamentos podem ser mudados e aprendidos, e você saberá em breve como modificar isso. Nós precisamos mudar nossos modelos mentais enraizados, ou seja, a forma repetida como fazemos as coisas. Acredite, isso é possível! Somos capazes de treinar nosso cérebro emocional a manter autocontrole, e para tanto é preciso exercitar, como qualquer coisa que queremos melhorar. É possível fazer um “bloqueio positivo”, sem excesso de pena ou “síndrome de coitadismo”, para que possamos realmente ajudar as pessoas, sem que seja preciso abrir mão da nossa própria estrutura, do nosso equilíbrio e da nossa base de personalidade para nos relacionarmos ou ajudarmos alguém. É necessário que haja uma troca equilibrada. Em muitos relacionamentos, um dá muito mais do que o outro e não há dúvida de que mais cedo ou mais tarde a relação vai se quebrar. O desequilíbrio leva ao rompimento. Já entendemos um pouco de como somos por dentro e de que o cérebro tem uma influência gigantesca nas nossas ações e no nosso comportamento, no entanto, o cérebro humano não está formado no nascimento, continua se moldando durante toda a vida (GOLEMAN, 1995, p. 239). Essa capacidade auxilia o constante crescimento, aprendizado e desenvolvimento de cada um de nós. Veja com mais detalhes onde estão localizadas algumas áreas que definem as nossas inteligências e onde ficam armazenados nossos aprendizados. Fonte: www.smartkids.com.br As crianças nascem com mais neurônios11 do que vão precisar na sua idade adulta, mas, num processo conhecido como “poda”, o cérebro vai perdendo as ligações neuronais (ligação entre os neurônios) menos usadas, e forma outras, ainda mais fortes nos circuitos sinápticos12 mais utilizados. Entenda por sinapse a região localizada entre neurônios onde agem os neurotransmissores (mediadores químicos), transmitindo o impulso nervoso de um neurônio a outro, ou de um neurônio para uma célula muscular ou glandular. O cérebro reforça os caminhos que mais utilizamos e enfraquece aqueles que pouco exercitamos. Existe uma capacidade no nosso cérebro chamada de neuroplasticidade, também conhecida como plasticidade neural, que se refere à capacidade do sistema nervoso de mudar, adaptar-se e moldar-se estruturalmente ao longo do desenvolvimento neuronal, quando “sofremos” novas experiências. Por isso devemos manter o cérebro ativo para evitar que ele perca a capacidade de raciocínio, memória e percepção. (https://pt.wikipedia.org/wiki/neuroplasticidade). Vamos aprimorando ações e habilidades e conforme exercitamos nos tornamos excelentes naquilo que fazemos, principalmente o que repetimos demasiadamente. Então, se você quer aprender comportamentos que não pratica ou mesmo uma outra língua, seu cérebro precisa se reorganizar e criar alternativas diferentes, já que com o tempo ele vai perdendo a plasticidade para algumas atividades. Você tem que praticar e ativar os músculos cerebrais que estão se tornando preguiçosos, da mesma forma que faz quando inicia exercícios físicos em uma academia. Por outro lado, nosso cérebro, quando pouco utilizado ou com o avançar da idade, vai “atrofiando”, o que torna cada vez mais difícil aprender coisas novas ou nunca experimentadas, mas não devemos parar, existem várias formas de estimulá-lo. Se quiser saber mais procure informações sobre exercícios cerebrais, encontrará opções para várias idades e situações. Existem empresas e institutos responsáveis por esse tipo de estimulação. Da mesma forma que aprendemos conceitos e conteúdos, também aprendemos com as nossas vivências emocionais. Os valores que absorvemos na convivência em família, na escola e com as pessoas nos tornam mais aptos ou inaptos a desenvolver a Inteligência Emocional e, futuramente, a Inteligência Relacional (IR), que nos conecta de forma genuína às pessoas. A neurociência e a neuropsicologia têm feito brilhantes descobertas e defendem que o cérebro é sociável, ou seja, o ser humano de forma geral foi programado para se conectar. Somos inexoravelmente atraídos para uma íntima ligação cérebro/cérebro sempre que nos entrosamos com outra pessoa. Podemos avaliar um relacionamento em termos do impacto de uma pessoa sobre nós e do nosso impacto sobre ela. Por isso, com o avanço da ciência, da tecnologia, da medicina e dos exames de ressonância, ultrassonografia, eletroencefalograma e outros surpreendentes aparelhos que devem surgir no decorrer dos anos, já é possível avaliar como poderemos tornar nossos relacionamentos mais inteligentes. Nossas relações e nosso crescimento pessoal só têm a ganhar na medida em que nos tornarmos inteligentes relacionais. Este livro abordará, nos próximos capítulos, como podemos viver de forma mais harmônica em sociedade, aprendendo com o melhor das pessoas. A maturidade relacional navega na tranquilidade em aceitar as diferenças, entendendo o quanto elas nos são complementares. Goleman, ao escrever sobre Inteligência Social, a chama também de sensibilidade social. Ele aborda que “o cérebro social é a soma dos mecanismos neurais que orquestram nossas interações, bem como nossos sentimentos e pensamentos a respeito das pessoas e dos relacionamentos que temos com elas.” (GOLEMAN, Inteligência Social, p. 5- 13). Ele explica que as interações sociais são tão fortes que chegam a moldar o cérebro por meio da neuroplasticidade por experiências que se repetem e passam a esculpir os neurônios. Estudos novos e surpreendentes quebram paradigmas até hoje desconhecidos. O estudo, não apenas do cérebro, mas da genética, nos permite compreender a essência do nosso comportamento enquanto ser biológico. Anteriormente, acreditava-se que não seria possível modificar os genes (a parte funcional do DNA) ou os genomas ( toda a informação hereditária – que passa para seus descendentes - de um organismo que está codificada em seu DNA). Com as novas descobertas da ciência, principalmente pela pesquisa incessante para a cura do câncer e outras doenças, já sabemos que algumas modificações podem acontecer e são passadas de geração a geração. Isso se chama epigenética. A epigenética, ou a nova genética, desponta como uma fronteira a ser alcançada e transposta no cenário médico-científico. A compreensão dos mecanismos envolvidos, no silenciamento e ativação de genes, permite a criação de modelos para tratamento de doenças como o câncer. Um dos pioneiros no estudo da epigenética, Feinberg, doutor em medicina e oncologia, diretor do Centro de Epigenética, na Johns Hopkins University School of Medicine in Baltimore, USA, define epigenética como modificações do genoma, mas que não envolve uma mudança na sequência do DNA (ou ácido desoxirribonucleico, um composto orgânico cujas moléculas contêm as instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos), mas que são herdáveis pela mitose (divisão celular) ao longo das gerações. Por que eu trouxe este tema para um livro que trata de relacionamentos? Porque se o organismo pode sofrer mutações nos genomas, imagine ocomportamento ou a personalidade? Além disso, conhecer a nossa essência e o que pode a partir de agora ser modificado é algo extraordinário. Corre-se o risco de entrarmos em uma nova era, onde tudo pode ser de alguma forma modificado ou adaptado. Tenho observado a influência de pessoas-chave na nossa história e percebi que podem mudar completamente o rumo da nossa vida e carreira. Resolvi estudar este tema na minha tese de mestrado e assim que tiver mais dados vou apresentá-los a vocês. Afinal, até que ponto copiamos o comportamento dos nossos pais por imitação ou por influência genética? Será que nossos genomas carregam também aspectos herdados da personalidade? Será que poderemos fazer mutações para que as doenças não se repitam em uma família que transmite alto grau de hereditariedade? Será que se desenvolvermos a inteligência relacional agora, podemos passar isso para os nossos filhos e netos? Isso é absolutamente fascinante. Escutamos os pais dizerem: “esse é bravo, puxou a personalidade do pai”. Dizemos isso em tom de brincadeira, mas até que ponto isso não pode ser cientificamente comprovado? Mesmo que a ciência consiga provar que determinadas características são herdadas, ainda assim conseguiremos mudar o nosso comportamento se quisermos? Fica ai uma boa tese ou tema para o próximo livro. Enquanto a ciência evolui, vamos entender um pouco mais o que nós já podemos controlar: as emoções. A sensibilidade social é o condutor de sucesso da Inteligência Relacional. O conceito de Inteligência Emocional de Goleman revolucionou de tal forma, a ponto de nos instigar a entender como podemos transportar inteligência à emoção, ou seja, cognição ao campo do sentimento. Assim, nos tornamos mais capazes de resolver problemas de foma adequada, pensando melhor nas nossas ações, mesmo que exista uma forte dose de emoção envolvida na decisão. Emoção e razão são as funções mais complexas que o cérebro é capaz de executar. No nosso dia a dia, essas duas operações mentais estão sempre engrenadas. Se você precisa se preparar para uma apresentação muito importante, por exemplo, você compra livros sobre o tema, lê, escreve, estuda, organiza as informações, desmarca compromissos, memoriza, raciocina, ensaia. Essa é a parte racional operando. Até aqui você fez pleno uso da razão, mas na véspera da apresentação você pode ficar nervoso, perder o sono, ter dor de barriga, o coração dispara, a boca fica seca, ou seja, seu corpo sofre fortes ações emocionais. Em alguns momentos, predomina a razão e em outros a emoção. Pode ser que você consiga controlar essas variáveis e tudo dará certo, mas nem sempre a história tem final feliz. Na realidade, razão e emoção são aspectos de um mesmo e ininterrupto processo, expressam as mais sofisticadas propriedades do cérebro humano. Por isso mesmo, difíceis de serem definidas. Mesmo para os neurocientistas, é difícil conceituá-las, porque são operações mentais acompanhadas de experiência interior, e essa tal “experiência interior” é diferente para cada um de nós. Logo, muito difícil de ser medida, e nem sempre apresenta repercussões orgânicas observáveis. Por exemplo, como podemos medir a quantidade de medo ou de ansiedade que cada um sofre em determinada situação? Sabemos que não é igual para todo mundo, mas como podemos quantificá- las? A razão também tem operações mentais difíceis de definir e classificar. Como podemos avaliar o raciocínio, a forma de resolver problemas ou de fazer cálculos em cada cérebro humano? Afinal, pensamos de forma igual ou diferente, neurologicamente falando? O que sabemos é que tanto a emoção quanto a razão usam fortemente o sistema nervoso central, ou seja, nosso cérebro trabalha o tempo todo para tentar equilibrar nossas ações e reações, sejam racionais ou emocionais. Destacamos pelo menos cinco utilidades fundamentais para as emoções: A sobrevivência da espécie: nossas emoções foram desenvolvidas naturalmente em milhões de anos de evolução. Como resultado, nossas emoções possuem o potencial de nos servir como um sofisticado e delicado sistema interno de orientação. Elas nos alertam quando as necessidades humanas naturais não são encontradas. Por exemplo, quando nos sentimos sós, nossa necessidade é encontrar outras pessoas. Quando nos sentimos receosos, nossa necessidade é buscar por segurança. Quando nos sentimos rejeitados, nossa necessidade é encontrar aceitação. Movimentos básicos para a sobrevivência emocional humana. Tomadas de decisão: nossas emoções são uma fonte valiosa de informação e nos ajudam a tomar decisões. Estudos mostram que quando as conexões emocionais de uma pessoa estão danificadas, no cérebro, ela pode ter dificuldade de tomar decisões simples. Basicamente porque não sentirá nada sobre suas escolhas. As decisões estão sempre atreladas ao comportamento. No dia a dia, avaliamos as informações comparando-as com os arquivos que estão na nossa memória, ponderados de acordo com o significado emocional. E assim tomamos as decisões, avaliamos o custo/benefício fazendo uma previsão dos prováveis resultados das nossas ações e finalmente tomamos a decisão que orienta o nosso comportamento. Isso acontece muitas vezes por dia, em milésimos de segundo, desde a escolha do que vestir, até o lado da rua pelo qual se vai andar, ou mesmo decisões mais importantes e complexas. Os estudos de neuromarketing estão nos ajudando a entender como fazemos a escolha de um produto em detrimento de outro, por exemplo. Já existem equipamentos de última geração, como o eye tracking, óculos capazes de monitorar o movimento ocular e mapear para onde nossos olhos se fixam ao visualizarmos um produto, um cartaz de propaganda, um site, etc. Assim podemos descobrir o que chamou mais a atenção e o que nos faz comprar, ou seja, entender como nossas decisões funcionam dentro do nosso cérebro. Se olhamos para o desconto, para as características técnicas ou para a descrição da qualidade do produto. Isso é fascinante, não acham? Outras ferramentas complementam estudos como esses, como a ressonância magnética funcional, o eletroencefalograma, as respostas galvânicas da pele, o face reading e estudo das expressões facial e da fisionomia. Psicólogos, estudiosos e cientistas procuram entender as diferentes particularidades faciais e, em seguida, relacioná-las aos traços de personalidade correspondente, o que tem ajudado a desvendar crimes, entender se as pessoas estão ou não mentindo, se gostam ou não de alguém, o que pode evoluir para soluções de problemas nos relacionamentos interpessoais. Ajuste de limites: quando nos sentimos incomodados com o comportamento de uma pessoa, nossas emoções nos alertam. Se nós aprendermos a confiar em nossas emoções, sensações e na nossa intuição, isto nos ajudará a ajustar nossos limites, que são necessários para proteger nossa saúde física e mental. Esse é um aspecto que precisamos respeitar e um dos princípios que mais ajudam a nos tornarmos inteligentes relacionais. Você já se “pegou” tomando uma decisão rápida sem saber exatamente o porquê? Às vezes uma ótima ideia ou solução surge aparentemente do nada. Essa intrigante capacidade de acessar a resposta correta rapidamente e sem esforço é o que chamamos de intuição. A palavra intuitione, de origem latina, é formada pela junção de in– dentro e tuere – olhar para. Seria a capacidade de voltar-se para si mesmo e ouvir-se. Por isso é tão importante percebermos o que acontece conosco e com o nosso organismo quando conhecemos alguém. Se a sua intuição não for positiva, redobre seus cuidados, até porque a intuição é difícil de ser explicada, mas o fato de não sermos capazes de compreender algo tão claramente não significa que não possamos recorrer à poderosa força de armazenamento da memória. Não é possível sermos intuitivos em áreas pelas quais temos pouco ou nenhum conhecimento prático. Sendo assim, até os mais vagos palpites são baseados em algo tangível e só não conseguimos muitas vezes explicar exatamente de onde eles vêm, nem qual foi o registro que nos imprimiuessa informação. É importante chamar a atenção para o fato de que não existe intuição sem conteúdo e informação. Precisamos acessá-la de algum lugar do nosso cérebro. Existem estudos surpreendentes a respeito do impacto da intuição nas nossas decisões e realmente parece haver uma sabedoria biológica por trás desses sentimentos instantâneos. O que precisamos lembrar é que a história de vida de cada um de nós contém uma enorme reserva de experiências que modulam nosso comportamento. Dessa forma, se um estranho se parece com alguém que nos ameaçou ou machucou, no passado, é muito provável que tenhamos uma reação cautelosa ou antipatizemos com a pessoa, mesmo sem nos lembrarmos da experiência anterior. Isso justifica por que muitas vezes não simpatizamos de cara com alguém, mas precisamos cuidar com essas reações e ir um pouco mais a fundo, para diferenciarmos se é uma intuição, um “aviso” de que essa pessoa realmente não é bacana o suficiente para a termos por perto, ou se por “azar” ela só se parece com alguém que está no nosso registro, mas que pode ser uma excelente pessoa. Comunicação: as emoções também comunicam. Nossas expressões faciais, por exemplo, podem demonstrar uma grande quantidade de emoções. Com o olhar, podemos sinalizar quando precisamos de ajuda. A habilidade verbal, juntamente com nossas expressões, nos dá uma possibilidade infinita de expressar nossas emoções. Atermo-nos à expressão das pessoas também nos torna mais hábeis para entendermos os problemas dos outros. Já dizia Pierre Weil, em O corpo fala. Se você ainda não leu esse livro é uma excelente indicação de leitura. União: nossas emoções são, talvez, a maior fonte potencial capaz de unir todos os membros da espécie humana. Claramente, as diferenças religiosas, culturais e políticas não permitem isso, apesar das emoções serem “universais”. Como apresentamos no início deste livro, muitos estudiosos têm contribuído com informações riquíssimas a respeito do desenvolvimento dos seres humanos e a forma como agimos e pensamos. Charles Darwin (1809-1882) observou semelhanças entre os animais e os indivíduos, na expressão corporal, facial e de comportamentos como raiva, medo, fuga. Acredita-se que a expressão das emoções é inata e não há dúvida de que garante a sobrevivência da espécie. Como acontece com os animais, também acontece conosco. De forma instintiva, um animal predador só sobrevive quando consegue dominar ou matar a presa. Isso explica por que alguns indivíduos se comportam até hoje de forma tão primária e instintiva, muitas vezes exagerada e descompassada, para tentar “controlar sua presa”. No entanto, vale lembrar que a presa no mundo animal geralmente é outro animal, e no mundo das pessoas, é outra pessoa. Por vezes, algumas pessoas, quando estão em desequilíbrio consigo próprias ou com o ambiente, agem de forma instintiva, predadora e pouco inteligente. Bater, espancar, exercer força física ou psíquica sobre os outros, ou, ainda pior, matar e dominar outras pessoas, é um comportamento esperado dos animais que agem por instinto, não de seres humanos. Por falta de controle das nossas emoções e de baixa inteligência emocional e relacional, infelizmente, esse comportamento acaba por existir em maior ou menor grau também nas pessoas. Não há dúvida de que agimos em prol das nossas necessidades e em defesa do que consideramos importante, mas precisamos temperar as nossas ações com cautela, nos diferenciando dos animais irracionais. Por isso, é possível dizer que não é exatamente ou só a inteligência e o aprendizado que nos diferenciam dos animais, até porque através de experiências já sabemos que animais também aprendem. O que de fato nos diferencia é a nossa capacidade de controlar, respeitar e amar. A capacidade de sabermos agir de modo ponderado, nos ajustando a diferentes situações e ocasiões, independente de estarmos utilizando a intuição (cérebro reptiliano), a emoção (cérebro límbico) ou a razão (cérebro racional ou neocórtex). A birra, a teimosia ou a necessidade de suprir imediatamente os desejos de fome, sede ou qualquer necessidade básica são facilmente verificadas nos bebês. Eles choram e se mostram impacientes quando sentem qualquer desconforto, no entanto, quanto mais amadurecemos, mais devemos ser capazes de controlar nossos instintos de suprimento imediato, ou seja, deixamos de agir apenas embasados no cérebro instintivo e começamos a amadurecer e a usar as áreas mais elaboradas para um processo decisório, como o neocórtex. O amadurecimento deve nos levar a controlar o instinto básico e a procurar, através de atitudes conscientes e consistentes, nosso sustento e o suprimento das nossas necessidades básicas de sobrevivência e de segurança. Enquanto o ser humano se mostra dependente de alguém, financeira ou emocionalmente, ainda não é maduro o suficiente para se “bancar” sozinho, seja ele criança, adolescente ou adulto. De fato, quanto mais conseguimos enfrentar os problemas da vida, mais maduros nos tornamos. O contrário disso retrata um imenso analfabetismo emocional. De acordo com Goleman, esse conceito descreve a falta de controle sobre nossas emoções (falta de controle do sistema límbico e cérebro instintivo). Sendo assim, se não pensarmos racionalmente antes de agirmos, acabamos tomando decisões de forma excepcionalmente instintiva e nos tornamos analfabetos emocionais, nos comportando como animais irracionais. Então, de fato, o que nos diferencia enormemente dos animais é o equilíbrio entre a emoção, a razão e a capacidade de nos ajustarmos a diferentes situações. O fato de nos livrarmos do analfabetismo emocional e relacional é o que pode unir os membros da espécie humana visando mais equilíbrio, amor e paz no mundo. Vamos falar um pouco sobre maturidade emocional. Você sabe o que significa e o impacto disso para a nossa vida? Como já vimos, fomos programados para nos conectar. As constantes descobertas sobre a arquitetura emocional do cérebro retratam, nos exames de última geração, momentos de excepcional excitação cerebral quando estamos repletos de felicidade ou de tristeza, o que comprova existir constatação científica de que sofremos o impacto dos relacionamentos no nosso cérebro, em consequência, em todo o funcionamento do organismo. A neurociência e a neuropsicologia têm trazido descobertas brilhantes nessa área. Tudo indica que existe uma dinâmica neural dos relacionamentos humanos. Uma das primeiras teorias para explicar emoções data do século XIX, trazida pelo psicólogo americano William James (1842-1910) e por Carl Lange (1834-1910). Ambos defendiam que não existe emoção sem que haja uma manifestação fisiológica, ou seja, tudo o que sentimos causa impacto no organismo. James e Lange defendiam que estímulos produzem mudanças corporais que, por sua vez, geram emoções. Essa teoria sugere que os estímulos estão primeiramente vinculados a respostas físicas, que somente depois serão interpretadas como emoção, ou seja, acreditava que primeiro chorávamos e depois ficávamos tristes. Um pouco controverso. Uma segunda teoria faz crítica a James e Lange, defendendo que as mesmas manifestações fisiológicas podiam estar presentes em emoções diferentes. Por exemplo, o choro ou aquela sensação chamada de “aperto no peito” podem ser sentidas independentemente de estarmos muito alegres ou muito tristes. Defende então que o sistema nervoso central pode ser o causador tanto de reações emocionais, como fisiológicas e comportamentais, dando a entender que essas reações acontecem praticamente ao mesmo tempo. Em 1920, foram realizadas transecções do sistema nervoso central com o fisiologista Walter Cannon (1871-1945), e essas experiências levaram a surpreendentes descobertas. Primeiro, foram feitas em animais e só mais tarde em humanos, em que foi possível perceber que quando os cérebros sofrem lesões, geram mudanças de comportamento e causam reações diferentes das habituais, ou seja, pessoas dóceis e tranquilas, que se relacionavam de forma amistosa, quando lesionadas em determinadasáreas do cérebro, mudavam radicalmente seu comportamento para mais agressivas e arredias. Essa mudança comportamental pode acontecer também pelo uso de medicamentos fortes, drogas psicotrópicas e psicoativas e excesso de bebida. Todas as substâncias que estimulam excessivamente o córtex e o sistema nervoso central levam a mudanças bruscas de comportamento. Por isso as pessoas agem de forma diferente quando estão “embriagadas” com essas substâncias. A teoria de Cannon-Bard foi a primeira tentativa concreta de elucidar as bases neurais das emoções. Bard explica que, quando um estímulo é recebido pelo córtex13, é reconhecido como produtor de emoção e enviado para ativar os centros encefálicos no hipotálamo14 e do sistema límbico15. Desta parte do encéfalo os sinais são, então, enviados simultaneamente aos músculos externos e órgãos internos e de volta ao neocórtex. Os músculos e órgãos reagem e produzem reações fisiológicas para a emoção, como taquicardia, por exemplo, enquanto o córtex percebe o sinal como emoção. Assim, a teoria propõe que as reações fisiológicas e psicológicas ocorrem simultaneamente. Não podemos deixar de destacar a importância da amígdala, uma das partes que compõem o sistema límbico. Revelou-se uma estrutura de enorme relevância na descoberta das emoções. Chama-se amígdala cerebelosa, ou simplesmente amígdala, e funciona como uma espécie de “botão de disparo” e modulador de toda a experiência emocional. Ela leva esse nome por ser parecida com uma “amêndoa”, que em grego chama-se amígdala. Ela compõe um conjunto de neurônios que formam uma massa esfenoide de substância cinzenta. Esta região do cérebro, que faz parte do sistema límbico, é um importante centro regulador do comportamento agressivo, sexual e de respostas emocionais a estímulos biologicamente relevantes. Você deve estar se perguntando, mas o que isso tudo tem a ver com relacionamentos? Logo você entenderá como podemos, através dessas informações, regular as nossas atitudes com relação aos outros. Por ora, o que precisamos saber é que estas descobertas esclarecedoras também nos ajudam a entender a dinâmica neural dos relacionamentos humanos. Desde a época de Freud, os psicoterapeutas observam que o corpo espelha as emoções que o paciente está sentindo. Quando um paciente começa a narrar uma lembrança dolorosa, o terapeuta percebe que os olhos se enchem de lágrimas e a sensação parece tomar conta de seu organismo, na junção mente e corpo. Muitos terapeutas também parecem sentir a emoção e seu estômago parece se contorcer diante de alguns relatos, além de uma situação que chamamos de rapport, conceito que vem da psicologia e compreende uma técnica usada para criar uma ligação de sintonia e empatia com outra pessoa. Pode também ser usado nos relacionamentos pessoais ou profissionais, porque cria laços de compreensão entre dois ou mais indivíduos. Não significa aceitar todas as opiniões da outra pessoa, nem se misturar com ela. Lembrem-se de que só conseguimos verdadeiramente ajudar se nos diferenciarmos, mas devemos ouvi-la e fazer com que ela veja que o seu ponto de vista ou seus valores são compreendidos e respeitados. Além disso, também existe o conceito de neurônio-espelho, que vamos ver a seguir. Existem estudos inovadores e valiosos sobre o funcionamento da nossa mente e o impacto disso nas nossas relações: 1. Um neurônio recém-descoberto, chamado célula fusiforme, atua no cérebro com extrema velocidade, permitindo que o ser humano tome decisões em milésimos de segundos. Essas células existem em maior quantidade no cérebro humano do que em qualquer outra espécie. Como as células fusiformes estão envolvidas em rápidas decisões, acredita-se que também ajudam no momento de fazer julgamentos imediatos e intuitivos a respeito de alguém que acabamos de conhecer. Embora os estudos ainda sejam inconclusivos, Daniel Goleman destaca em seu livro que essas células são parte do sistema cerebral que gera o amor, ou pelo menos, o desejo sexual ou “amor à primeira vista”. 2. Pesquisas recentes mostram a importância do neurônio- espelho. Essas células foram descobertas por acaso em 1994, na Universidade de Parma, na Itália, pelos neurocientistas Giacomo Rizzolatti, Leonardo Fogassi e Vittorio Gallese. Eles constataram que a simples observação de ações alheias ativava as mesmas regiões do cérebro dos observadores. Ao que tudo indica, nossa percepção visual inicia uma espécie de simulação ou duplicação interna dos atos de outros. Em 2001, um grupo coordenado por Giovanni Buccino, também de Parma, resolveu estudar esses neurônios mais a fundo. Usando ressonância magnética funcional (fMRI), os pesquisadores mediram a atividade cerebral de voluntários enquanto eles assistiam a um vídeo que mostrava sequências de movimentos de boca, mãos e pés. Dependendo da parte do corpo que aparecia na tela, o córtex motor dos observadores se ativava com maior intensidade na região que correspondia à parte do corpo em questão, ainda que eles se mantivessem absolutamente imóveis. O mais impressionante é que essa descoberta tem levado médicos e fisioterapeutas a lidar melhor com pacientes com sequelas motoras decorrentes de acidente vascular cerebral – AVC. Estudos feitos no Hospital Universitário de Schleswig-Holstein, em Lübeck, na Alemanha, foram capazes de acelerar a reabilitação de pacientes cujas regiões corticais motoras haviam sido lesionadas por AVC. Os pacientes assistiam a vídeos e tentavam imitar o que acabavam de ver, a fim de consolidar a representação da sequência no cérebro. Depois de 40 dias de treinamento, a habilidade motora dos participantes melhorou muito mais rápido do que a dos indivíduos do grupo de controle, que não assistiram a nenhum vídeo. O neurônio-espelho ativa um ato recíproco de imitação entre dois ou mais animais. Nos humanos pode ser observado no córtex pré- motor e no lobo parietal inferior. Dizem que o neurônio espelho é o gatilho do meme16 (que nada tem a ver com os memes do Facebook ou redes sociais; o meme é na realidade uma unidade da cultura, que pode ser um comportamento, uma música, uma ideia, um aprendizado, que pode ser passado de geração a geração pela imitação. Arrisco-me a dizer que mais ou menos um “inconsciente coletivo” moderno). 3. Quando as pessoas se olham e sentem-se atraídas umas pelas outras, o cérebro imediatamente libera dopamina, substância química indutora do prazer. Aliás, aqui não podemos deixar de falar sobre a importância e o impacto dos neurotransmissores no nosso comportamento e nas nossas relações. Neurotransmissor é uma substância química (neuroquímica) produzida em uma célula do cérebro, o neurônio. Ele é capaz de conduzir e transmitir uma informação de um neurônio a outro, ou seja, a sinapse. Já falamos um pouco sobre isso nos primeiros capítulos. Os neurotransmissores são como combustíveis para o cérebro realizar determinadas funções, e os clássicos são: a acetilcolina, as catecolaminas (dopamina, adrenalina e noradrenalina) e a artista principal, a serotonina. A serotonina vem sendo utilizada no senso comum como a substância sinônimo de felicidade. De fato, ela é responsável por manter em equilíbrio diversas ações comportamentais. É uma substância que em maior ou menor quantidade pode causar depressão, ansiedade, agressividade, raiva, irritabilidade ou trazer mais felicidade e tranquilidade. Participa também de outras funções importantes no organismo, como apetite, controle de temperatura, sono, náuseas e vômitos, sexualidade e, é claro, tem um impacto avassalador no sistema de dor. A carência ou desequilíbrio dessa substância leva a transtornos do humor e ansiedade. A deficiência na sua transmissão através das fendas sinápticas dos neurônios pode levar à depressão. Dessa forma, a ação da maioria dos antidepressivos é retardar a metabolização da serotonina fazendo com que ela fique por mais tempo atuando nos espaços entre os neurônios. O que queremos ressaltar com essas informações é que o nosso organismo precisa estar em equilíbrio paraconseguirmos nos relacionar bem. Se estiver em estado depressivo, você não vai ter vontade de sair de casa, de conhecer pessoas e de se relacionar de forma efetiva e positiva. Se os neurotransmissores atuam diretamente no nosso cérebro e no nosso humor, precisamos mantê-los em equilíbrio para que a nossa motivação e a maneira como nos comportamos não altere o nosso vínculo com as pessoas que convivem conosco. Afinal, ninguém gosta de conviver com pessoas carrancudas, mal-humoradas ou pessimistas. Se você identifica esses sintomas em si mesmo ou em pessoas próximas, procure ajuda. O uso de medicamentos não é a única nem a melhor alternativa. Existem várias possibilidades ainda mais saudáveis para equilibrar o impacto dessas substâncias, como exercício físico, ioga, relaxamento, meditação, reiki, homeopatia, psicoterapia, terapias holísticas e alternativas, entre outros. Procure o método que melhor lhe convém. Se você quiser saber mais pesquise sobre hormônios e neurotransmissores e entenda o enorme impacto que eles causam na nossa vida e nas nossas relações pessoais e profissionais. 11. Neurônio – célula do sistema nervoso responsável pela condução do impulso nervoso – localizado no cérebro. Pode ser considerado a unidade básica da estrutura do cérebro e do sistema nervoso. 12. Circuito sináptico neuronal – ligações entre os neurônios. A sinapse é o chip do sistema nervoso e é capaz de transmitir mensagens entre duas células, bloqueá-las ou ainda modificá-las inteiramente. (Cem milhões de neurônios – Robert Lent – 2 ed.). 13. O córtex cerebral corresponde à camada mais externa do cérebro dos vertebrados, sendo rico em neurônios e o local do processamento neural mais sofisticado e distinto. Desempenha papel central em funções complexas do cérebro como na memória, atenção, consciência, linguagem, percepção e pensamento. https://goo.gl/eJDB4n 14. Hipotálamo, região do encéfalo dos mamíferos (tamanho aproximado ao de uma amêndoa) localizada sob o tálamo. Liga o sistema nervoso ao endócrino, sintetizando a secreção de neuro-hormônios, por isso é também chamado de “liberador de hormônios”, sendo necessário no controle da secreção de hormônios da glândula pituitária, entre eles na liberação da gonadotrofina. https://goo.gl/GPBnRz 15. Sistema límbico, localizado na superfície medial do cérebro dos mamíferos. É a resposta cerebral para atividades e comportamentos sociais. Sua função é integrar informações sensitivo-sensoriais com o estado psíquico interno, onde se atribui um conteúdo afetivo a esses estímulos, a informação é registrada e relacionada com as memórias pré-existentes, o que leva à produção de uma resposta emocional adequada, consciente e/ou vegetativa. https://goo.gl/54ZDQ3 16. Meme: Richard Dawkins, em seu livro O gene egoísta, de 1976, apresenta uma perspectiva genética da evolução e introduz o termo meme para designar unidades de informação autorreplicáveis que, a partir de alguma mutação aleatória, se reproduzem em nossos genes pela seleção natural genética. A ideia coloca toda a cultura humana como fruto de informação copiada, modificada e selecionada. Assim como nossas características físicas e biológicas, nossas ideias e nossa própria cultura também teriam passado pelo crivo da seleção natural. Os memes são padrões cognitivos que atravessam gerações e moldam a percepção da realidade. Capítulo 4 O que é inteligência relacional e qual a sua importância para o sucesso e a felicidade? Dalai Lama disse certa uma vez: “Quando aprendemos a usar a inteligência e a bondade ou afeto em conjunto, os atos humanos passam a ser construtivos. Amor e compaixão são necessidades, não luxos. Sem eles, a humanidade não pode sobreviver.” Parece simples, mas se olharmos com cuidado e profundidade para essa frase, podemos entender melhor a base da Inteligência Relacional. Você já pensou nestas questões? 1. Sobrevivemos sem os outros? 2. Como eram as pessoas que mais influenciaram a sua infância e consequentemente seus valores? 3. Quem ajudou a moldar suas emoções? 4. Você gosta da forma como age com as pessoas? 5. Se tivesse que mudar algo no seu comportamento e na forma como trata as pessoas, o que você mudaria? Se eu lhe der a garantia de que pode modificar isso em você, tenho certeza de que vai caminhar comigo até o final deste livro, porque será uma pessoa bem mais interessante e mais bem- sucedida em várias áreas da sua vida, quando for capaz de desenvolver sua inteligência relacional e controlar algumas reações quase instintivas que gerenciam o seu comportamento. Minha proposta é que você trabalhe seus relacionamentos de forma que consiga sentir prazer em estar com as pessoas e que saiba escolher aquelas que podem despertar o que há de melhor em si e que você seja capaz de estimular o que há de melhor nos outros. Chega de apostar em relacionamentos tóxicos ou em pessoas que pouco acrescentam ou que te ferem. Como já falamos, Goleman trouxe o conceito da inteligência emocional como maior responsável pelo sucesso ou insucesso das pessoas. Praticamente todas as situações da nossa vida e do nosso trabalho são envolvidas por relacionamentos entre as pessoas. Ele defende que pessoas com qualidades de relacionamento humano, como afabilidade, compreensão e gentileza, têm mais chances de obter o sucesso. Como o ser humano é por natureza um ser relacional e precisamos dessa troca e desse convívio para a nossa sobrevivência, desenvolvi o conceito de IR – INTELIGÊNCIA RELACIONAL e algumas técnicas para otimizá-la, já que nossas relações precisam de uma configuração saudável e de constante aprendizado. Inteligência Relacional é a inteligência que nos conecta ao mundo pelas pessoas. É a habilidade de nos relacionarmos de forma positiva com os outros, entendendo suas necessidades e estabelecendo uma conexão que traga cooperação, ganhos e boas energias para as partes. Contam-se em milhares os anos de prática que trazemos na arte dos relacionamentos, porque o ser humano é relacional desde sempre. No instante em que nascemos, confiamos nossa vida à outra pessoa, e essa é a chance que temos para sobreviver. Lembre-se de que enquanto bebês, somos completamente dependentes de alguém que supra as nossas necessidades básicas de alimento, higiene, segurança e proteção. Desde o nascimento aprendemos também a imitar os que nos cercam em todas as tarefas do cotidiano, desde a forma de comer, os hábitos de escovar os dentes, de tomar banho e, assim, até as estratégias que mantêm a nossa sobrevivência, como estudo, aprendizado, desenvolvimento pessoal e trabalho. É mais confortável para o ser humano agir sustentado no que é familiar e conhecido. Por isso tantos filhos imitam a profissão dos pais e seus comportamentos. Passamos boa parte da nossa vida imitando comportamentos e aprimorando o que achamos ou não correto nas pessoas. É claro que a convivência também estimula algumas habilidades, como, por exemplo, famílias de músicos ou artistas, em que todos acabam aprendendo desde cedo a cantar ou a tocar instrumentos. Famílias com vários médicos, advogados, marceneiros, caminhoneiros, etc. Assim pode acontecer com várias profissões. O que vem em mente quando você pensa em relacionamento? Os relacionamentos existentes em sua vida acrescentam ou subtraem? Sabemos que eles podem ser deliciosos, ofensivos, agradáveis, enganosos, sinceros, doentios, afáveis ou preconceituosos. Certamente você já sentiu essas emoções no convívio com outras pessoas ou nas relações que teve no decorrer da sua vida. Como devemos agir, então? Sempre que as pessoas se juntam em pares ou grupos, existe algum tipo de reação. Como já dissemos, cada pessoa tem um estilo, uma personalidade, um perfil, absorveu a sua cultura, suas vivências e valores próprios e por isso mesmo é tão difícil conviver. Cada um traz para suas relações a sua bagagem anterior e reage a uma situação de acordo com as suas vivências e com os princípios e valores que absorve no decorrer de sua vida. Por isso precisamos entender comopodemos tirar proveito das nossas relações, nos afastarmos de relacionamentos que nos fazem mal, que confundimos com amor, mas que são pura dependência afetiva e psicológica. Partindo do princípio de que as relações humanas são vitais para a nossa sobrevivência e para o nosso bem-estar, precisamos trazer alegria e suavidade aos nossos relacionamentos. Quem não tem alguém próximo com dificuldade para se relacionar? Seja um filho, chefe, alguém da equipe, vizinho, amigo, ou mesmo um irmão? Por que isso acontece? Por que nos frustramos com as pessoas? Simplesmente porque nós existimos em relação “ao outro”. Como vimos, desde que nascemos, crescemos respaldados no que aprendemos com as pessoas que cuidam de nós, e, por isso, acabamos depositando expectativas nos outros e desejamos que correspondam com o que esperamos deles. Esquecemos as diferenças e esperamos que as pessoas reajam às situações como nós reagiríamos. Acreditamos que devem fazer as coisas como nós faríamos, mas não é assim que acontece, e, desculpe frustrá-lo, isso não vai acontecer exatamente como você quer que aconteça. As pessoas são diferentes de você e aí é que está a grande frustração dos relacionamentos e ao mesmo tempo o grande brilhantismo das relações. É exatamente aqui que surgem os maiores conflitos relacionais. Expectativas são reais ou fantasias? A vida é repleta de aprendizados e desafios. Não há dúvida de que trabalhar ou conviver com pessoas com quem não temos um forte vínculo afetivo ou que não têm uma influência significativa sobre nós é mais simples. O problema está nas convivências afetivas, das quais nos enchemos de expectativa. Sempre colocamos muitas expectativas na relação com o outro, e quando elas não se realizam nos sentimos frustrados. O mais interessante é que criamos a nossa própria fantasia de como queríamos que a pessoa fosse e achamos que ela tem que corresponder com o que imaginamos e criamos a respeito dela. Na maioria das vezes, elas não sabem sequer o que queremos, não dizemos isso a elas, mas esperamos que se comportem como gostaríamos. Isso não é fantasioso? Como podemos esperar algo de alguém que não sabe o que nós esperamos dela? Certa vez, atendi uma mulher no consultório que já tinha mais ou menos uns cinquenta anos de idade e quase trinta anos de casada. Ela chorou em uma sessão me contando que nestes anos todos nunca ganhou um relógio do marido e que esse era seu maior sonho. Ele deu muitas outras coisas a ela, mas nunca lhe dera o relógio que tanto esperava. Perguntei quantas vezes ela pediu o relógio e, para a minha surpresa, ela respondeu: nenhuma! Quem afinal agiu errado? Ele, que nunca soube que ela queria um relógio e por isso nunca o deu, ou ela, que nunca teve a objetividade de, em trinta anos de casada, dizer a ele que queria um relógio? Depositar de forma cega e exacerbada nossas expectativas nas pessoas, esperando que elas sejam o que nós gostaríamos que elas fossem, é sinal de baixa inteligência relacional. O que seria um alto índice de Inteligência Relacional é simplesmente aceitar as pessoas como elas são, respeitando o modo e o jeito de ser de cada um. Além da aceitação, devemos falar de forma mais clara o que esperamos delas e que expectativa colocamos nessa relação. Essa comunicação transparente e clara é importante desde o começo do relacionamento. O mesmo acontece com as situações que vivemos no nosso dia a dia. Elas também são recheadas de expectativa. Uma outra cliente estava me contando sobre a decepção que teve no seu aniversário de casamento. Ela imaginou que o marido deveria acordá-la com flores e/ou um café da manhã na cama. Que, no almoço, mesmo que rápido, eles fariam um brinde para comemorar, e que à noite sairiam para jantar. Contou detalhes de como ela achava que ele deveria se comportar, como ele deveria ser gentil e abrir a porta do carro, puxar a cadeira do restaurante, dizer que a amava e que ela era a mulher da vida dele. Ao contrário de tudo isso, ele não se lembrou do aniversário de casamento nem pela manhã, nem na hora do almoço. No meio da tarde, ela mandou uma mensagem (já meio irritada, mas, segundo ela, se esforçou para ser carinhosa), lembrando-o da data para ver se ele a convidava, enfim, para jantar e comemorar. Isso aconteceu. Ele acabou se desculpando e saíram para jantar, embora não tenha puxado a cadeira do restaurante e nem aberto a porta do carro. O fato é que, depois de tanta imaginação e expectativa, nada, a partir daquele momento, foi muito legal. A questão é: se ela não tivesse colocado tanta expectativa, não tivesse imaginado tantos detalhes e tivesse lembrado seu marido uns dias antes, poderia ter sido tudo diferente, não poderia? Entendo que esquecer datas importantes não é bacana, mas algumas pessoas são mais distraídas e talvez não valha a pena fazermos disso um caminhão de batalhas. O que será que essas pessoas têm de bom? Por que você escolheu essa pessoa? Será que existem outras características ou aptidões que eles apresentam que compensam essas falhas e que também sejam importantes para o casamento? Criar expectativa não é errado, mas esperar que as pessoas ajam da maneira que nós agiríamos ou como nós gostaríamos que elas agissem é, sim, bastante fantasioso e utópico. Por isso constatamos que a expectativa é uma projeção do nosso inconsciente e que dificilmente será correspondida. Como o outro não é você, as decepções certamente vão acontecer e consequentemente os conflitos. Então é isso! A expectativa é uma imaginação que, na maioria das vezes, é frustrada porque nunca vai corresponder exatamente ao que pensamos ou queremos. Por conta disso, uma grande batalha se inicia e essa falta de ajuste dos desejos e expectativas de cada um é sem dúvida um dos maiores causadores do fracasso e dos conflitos de uma relação. Como você pode fazer para manter relacionamentos saudáveis? Esta é a pergunta que sempre recebo. Vale pensar que estas coisas acontecem por algumas razões: 1. Esperamos que as pessoas ajam como nós gostaríamos, mas esquecemos de falar a elas o que pensamos, queremos e imaginamos. Devo lembrar que ninguém nasce com uma bola de cristal acoplada ao corpo. Mesmo as pessoas que te conhecem profundamente não vão conseguir corresponder com tudo o que você pensa ou imagina a respeito delas. Sendo assim, imagine menos e se comunique mais e melhor. 2. A segunda é que não podemos controlar o comportamento dos outros. Mesmo que esse outro seja nosso filho ou outra a quem amamos, cada um de nós tem sua própria personalidade. Se não tiverem, algo está errado. Cada um precisa tornar-se um ser único e individual, pois esta é a base da sobrevivência humana. Para sobreviver precisamos estruturar nossa personalidade. Somos seres singulares, únicos e donos das nossas próprias emoções e reações. 3. A terceira razão é que precisamos nos enxergar e enxergar o nosso papel na relação com os outros, antes de sairmos por aí sempre culpando o outro e achando que tudo o que ele faz está errado. Pense um pouco nas características e nas habilidades de cada um. Assim, respeitando os “estilos”, cada um pode colaborar da sua maneira. Se você é mais detalhista, por exemplo, faça coisas que podem ajudar nesse sentido, e se o outro é mais aventureiro, deixe que ele ouse e quebre a rotina da relação. Aproveitem as diferenças e usem-nas a favor da relação e não contra. Enquanto continuarmos sempre colocando a culpa “no outro”, esperando que as pessoas ajam como agiríamos, encontraremos dificuldade para resolver as situações com as quais nos deparamos todos os dias, seja com as pessoas do nosso convívio pessoal ou profissional. Quando os relacionamentos nos causam angústia, precisamos recuar um pouco para enxergar nosso papel na relação. Claro que existem pessoas complicadas, que trazem problemas, e das quais devemos mesmo nos afastar ou no mínimo evitar o envolvimento. Para isso podemos usar uma série de mecanismos, como a intuição, como já falamos no capítulo anterior. Precisamos antes entender nossa dor e nossosmedos. Entender nosso mecanismo e nossas carências é o primeiro passo para enfraquecer o poder que esses sentimentos ruins exercem sobre nós. Quando conhecemos a nós mesmos fica bem mais fácil entrar em um relacionamento e fazê-lo funcionar plenamente. O que precisamos ter claro é que a mudança tem de partir de nós. Perdemos muito tempo culpando as pessoas e deixamos de ser humanos, de ter compaixão, generosidade, paciência e sensibilidade. Estamos sempre reativos e prontos a atacar, o que acaba gerando ainda mais revolta e conflito. É preciso nos darmos conta de que o melhor caminho é a autoconsciência e o autoconhecimento. Explorar melhor e entender a fundo nossa dor, nossas dificuldades e nossos medos é a única forma de fortalecer imensamente as nossas relações. A psicologia explica claramente que temos a tendência a culpar as pessoas por nossos fracassos, por simples falta de segurança em olharmos para nós mesmos e corrigirmos nossos próprios erros. É importante que possamos nos dar conta de que sabotamos nossos relacionamentos involuntariamente, em função dos nossos próprios receios e “fantasmas”. Na maioria das vezes, basta uma mudança de atitude diante de uma relação para que toda a dinâmica do relacionamento se refaça, ou seja, as pessoas que agiam de determinada forma conosco acabam tendo que se readaptar e modificar o seu jeito também. Se as pessoas fazem conosco o que nós permitimos, quando não permitimos elas param de fazer. Se não param é a hora de cairmos fora dessa relação. Aí, sim, são relações tóxicas que não merecem a nossa consideração. Relacionamentos funcionam como um sistema. Por isso, costumo comparar um relacionamento com uma teia de aranha. Quando puxamos um fio, ela toda se refaz. Muitas vezes basta uma única pessoa mover-se em prol de uma ação positiva como terapia, coach ou algum trabalho de autoconhecimento, que a dinâmica de todo o sistema se modifica, seja na família, na empresa ou qualquer outra instituição social. Tenho escutado muitas estórias assim, nas quais a mudança de atitude de uma única pessoa modifica a dinâmica do relacionamento como um todo. Certa vez, passei por uma situação conflituosa e desgastante com duas amigas de que gostava muito. Em determinado momento da vida apresentei uma à outra, ambas eram minhas amigas da época da adolescência. Imaginei que poderiam ter coisas em comum, já que os filhos tinham idades próximas, os maridos trabalhavam com atividades semelhantes, tinham a mesma crença religiosa, enfim, acreditei que seria uma relação boa para todos. O relacionamento delas, talvez por essas afinidades, deu tão certo que, em pouco tempo, ficaram superamigas. Passaram a viajar juntas, a sair juntas e não me convidavam ou avisavam em cima da hora, de forma que eu não teria tempo de me organizar e estar presente. Também comecei a notar que, quando saíamos todas juntas elas conversavam entre elas, até porque estavam se encontrando mais, tinham mais histórias em comum e eu ficava meio como uma “carta fora do baralho”. Percebi que começaram a me tratar de um jeito diferente, me contavam pouco de si próprias, tornaram-se mais arredias, mas eu não tinha a menor ideia do por que isso acontecia. Já aconteceu algo semelhante com você? Cada vez que saíamos juntas eu voltava com uma sensação estranha, como se estivesse com vinte quilos a mais, com um mal- estar gigantesco, dor de cabeça ou nas costas e não conseguia entender direito o que estava acontecendo. Como psicóloga e estudiosa dos relacionamentos humanos, comecei a dar um pouco mais de importância às minhas sensações, intuições e emoções e percebi que a coisa mais saudável a ser feita naquele momento seria me afastar. Dias depois, por acaso, li em um caderno velho da faculdade a frase de Timothy Leary, que dizia assim: “Ligue-se, sintonize-se e caia fora.” Naquele momento, essa frase fez um imenso sentido para mim. Passei algum tempo tentando entender esse fato. Embora já tivesse escrevendo este livro, essa situação me ajudou a reconhecer como realmente os relacionamentos são importantes para nós e como uma situação como essa traz desconforto e certo mal-estar difícil de explicar. Fato! Quando temos dificuldades com os nossos relacionamentos ficamos desconcertados e tristes. Eu percebi que era hora de usar a minha inteligência relacional para entender como me deixei envolver naquela situação, o que eu deixei de enxergar, de aprender e, principalmente, o que eu precisava mudar. Tenho claro que as coisas não acontecem conosco por acaso e talvez eu também tivesse que rever minhas atitudes, meus conceitos, minhas escolhas, minha maneira de agir, pensar ou falar. Não há dúvida de que essa situação me trouxe um belíssimo aprendizado. Nessa mesma época, estava em uma fase de constante questionamento com várias áreas da minha vida e sabia que era hora de mudar. Andava desanimada até com a minha vida profissional, e isso parecia muito estranho, já que sempre amei meu trabalho. Percebia que ele estava repetitivo e pouco desafiador. Meu marido andava reclamando que precisa oxigenar e fazer algo diferente também e nosso relacionamento estava entrando em um comodismo perigoso. Também estava com uma filha no auge da adolescência, que começou a apresentar dificuldades na escola e conviver com amigos que não pareciam muito legais. Ela queria passar mais tempo na rua do que em casa. A única coisa que parecia bem era a nossa filha mais velha, que estava na faculdade, trabalhava o dia inteiro, corria muito, e parecia estar feliz, mas tinha muito pouco tempo para nós. Alerta vermelho! Era hora de mudar! Por coincidência (embora eu não acredite muito em coincidências, acho que as coisas conspiram a favor quando realmente desejamos), eu tinha um projeto para passar um tempo fora do país, já que precisava reforçar o inglês e sempre quis morar fora. Naquele momento tive a certeza de que chegara a hora. Eu, meu marido e minha filha mais nova ficamos quase dois anos fora do Brasil, em uma imersão de experiências novas e muito conhecimento. Foi um aprendizado cultural, linguístico, dos costumes e da rica observação do comportamento e de outras formas de se relacionar, que era a minha grande necessidade e fome de conhecimento. Estávamos sedentos por estudar e observar os costumes americanos, como compram e vendem, como consomem, como negociam, como interagem e como convivem. Parece ter nascido com eles a forma de manter respeito e educação em determinadas situações, como no trânsito ou em lugares públicos. Analisei a rica diferença na formação e na educação dos alunos, por acompanhar minha filha no ensino médio/high school. Enfim, aprendemos como os americanos vivem. Resolvi também experimentar uma nova religião e na igreja que frequentei conheci pessoas maravilhosas, que se tornaram referência de bondade para mim. Tivemos ainda a sorte de conviver e contar com o apoio incondicional de amigos brasileiros que moravam lá e que foram excepcionais conosco em todo o período da nossa estada, da chegada à partida. Vivemos a experiência do compartilhamento e da solidariedade. A experiência de viver e morar em outra sociedade é um crescimento pessoal inigualável. Tive a chance de falar com pessoas que nunca tinha visto e provavelmente nunca mais verei. Também tive a oportunidade de me manter em contato estreito com a minha solidão. Como meu marido viajava muito para o Brasil (por causa do trabalho) e minha filha tinha várias atividades durante o dia, eu passava horas sozinha, pensando, estudando e escrevendo, sem falar com absolutamente ninguém. Às vezes, falava por mensagem com algumas pessoas e me tornei mais interativa nas redes sociais, mas naquele momento vivi a mais rica experiência que alguém poderia ter. Constatei que a troca, a amizade, a saudade, a família e a importância das pessoas na nossa vida são de fato o que nos mantém vivos. Essa experiência, somando a tudo o que vivi na infância e as mudanças que tive no decorrer da minha vida, e contei para vocês na introdução deste livro,me proporcionaram ainda maior consciência e autoconhecimento a respeito das relações. Tenho clareza de que a nossa felicidade e realização só dependem de nós. É através da convivência e da troca com outras pessoas que alcançamos aprendizado, equilíbrio e harmonia para a nossa vida. Durante esse tempo passei por experiências riquíssimas e algumas muito dolorosas. Tive a plena convicção de que as pessoas que amamos e que nos amam também nos machucam, e que nós também muitas vezes as magoamos, mas que, apesar de tudo, o sofrimento e a solidão nos tornam ainda mais humanos. Enfim, depois de quase vinte meses de imersão entendi que podemos escolher um caminho de mais profundidade e relevância e que as pequenas coisas pouco importam. As marcas, as grifes, as futilidades são completamente descartáveis quando entendemos que sem as pessoas não somos nada, não somos ninguém. Quando entendemos de forma verdadeira que o ser importa muito mais que o ter, e que os verdadeiros relacionamentos nos enobrecem, todo o resto perde força, fica pequeno, desnecessário. Os pequenos conflitos também perdem a força e o espaço em nosso coração. Depois de todo esse aprendizado, concluí que fiz a coisa certa e que, naquela situação, tinha mesmo que me afastar do Brasil e das atividades repetitivas e pouco desafiadoras que estava vivendo. Precisava de um momento de introspecção e aprendizado, então foi o momento ideal para uma imersão completa e profunda. Passei a ter mais clareza do que me fazia falta e do que poderia ser descartado sem absolutamente nenhum problema. Para ser honesta, descartei coisas e me afastei de pessoas com um pouco de dor, mas com a certeza de que relacionamentos tóxicos são desnecessários e precisam ser afastados. O que aprendi com a distância e com meus novos amigos na América do Norte? 1. A ser mais inteligente na forma de me relacionar, 2. A fazer melhores escolhas respeitando a intuição e os sinais que as pessoas nos dão, 3. Relacionamentos são desafios que só errando nos levam a acertar, 4. A me blindar de pessoas tóxicas, entendendo que algumas pessoas não têm maturidade para se relacionar de forma inteligente, 5. A perdoar a atitude daqueles que ainda não têm inteligência relacional e emocional para lidar com situações incomuns ou que requerem mais percepção e cuidado com o outro, 6. Que a distância é positiva em várias situações e que dedicar tempo para estar só é um dos processos de análise mais profundos que o ser humano pode experimentar, 7. Que muitas vezes as pessoas tomam decisões por imaturidade, insegurança, medo ou pela incapacidade e desconhecimento emocional de como fazer escolhas melhores, 8. A desvendar as pessoas mais próximas e a respeitar as diferenças. Entendi acima de tudo que só conhecemos verdadeiramente as pessoas com quem convivemos quando nos afastamos do dia a dia e do convívio social com outros, dedicando tempo para as nossas relações, 9. Conheci a melhor forma de “ler” as pessoas e entender melhor o que era realmente importante para elas. Neste turbilhão de aprendizado, hoje sei que sou capaz de lidar de forma mais inteligente com as pessoas. Enriqueci o que estudava sobre inteligência nos relacionamentos, e com minha própria experiência enriqueci os conceitos deste livro. Lembram-se da estória das minhas amigas? Pois é, o mais estranho, para minha surpresa, é que poucos meses depois que fui embora a relação delas esfriou, elas se distanciaram. Até hoje eu não sei direito o porquê. Acredito que houve várias razões, que a mim, não cabe julgar. Vamos nos limitar a entender que para termos uma relação mais saudável com as pessoas precisamos: 1. conhecer melhor a nós mesmos e ter clareza da importância de cada relacionamento na nossa vida, 2. perdoar as pessoas e tentar relevar seus medos, inseguranças e fraquezas, 3. observar melhor e tentar conhecer com mais profundidade as pessoas antes de assumirmos um relacionamento mais próximo ou íntimo com elas, 4. evitar muita proximidade com pessoas que podem nos parecer mais “tóxicas” para que os relacionamentos não interfiram negativamente no dia a dia ou nas decisões e escolhas mais relevantes, 5. entender que existem várias formas de amar e que, para muitos, a competição e a disputa também mantêm uma relação, e quando o “objeto” de disputa desaparece a relação pode simplesmente deixar de existir, 6. aprender com os erros que cometemos nos nossos relacionamentos e evitar repeti-los em outras situações. O que vale é que devemos aprender por que os relacionamentos e as pessoas são tão importantes para nós e como tirar proveito de cada experiência, de cada relacionamento. Elas devem servir de apoio para que escolhas melhores sejam feitas e para que a gente não repita o mesmo erro em outras relações. O aprendizado que levamos de cada vivência, por mais doloroso ou tóxico que pareça, sempre nos ensina. BAIXA INTELIGÊNCIA RELACIONAL ALTA INTELIGÊNCIA RELACIONAL 1. Desconfiança em excesso não leva a lugar nenhum. 1. Nascemos relacionais e precisamos do outro para sobreviver, então, com cuidado atribua importância, acredite e confie nas pessoas. 2. Culpar os outros sempre ou por suas próprias falhas. 2. Antes de culpar os outros, procure entender seus medos, receios e suas dores. 3. Depositar de forma cega e exacerbada nossas expectativas nas pessoas. Elas são fantasias e não realidade; não vai acontecer exatamente como você quer. 3. Seja realista em seus relacionamentos; imagine menos e se comunique mais e melhor; alinhe e faça ajustes avaliando o que as pessoas podem lhe entregar. 4. Não perceber pessoas complicadas e difíceis. 4. Fique atento à sua intuição e a possíveis sinais positivos e negativos que as pessoas dão. 5. Tentar controlar o comportamento do outro. 5. Entenda que cada ser humano tem sua própria personalidade, suas emoções e reações individuais. individuais. 6. Não enxergar o que é seu e o que é do outro e não diferenciar características e habilidades pessoais. 6. Saiba diferenciar o papel de cada um na relação; use as diferenças a seu favor e não como competidores dentro da relação; respeite as diferenças e o jeito de ser de cada um. 7. Não assumir que você precisa procurar ajuda ou mudar o seu comportamento ao tratar e se relacionar com os outros. 7. Olhe para si próprio e para os seus defeitos e dificuldades, sem deixar de valorizar as suas habilidades também. Capítulo 5 Desafios e conflitos: por que repetimos erros nos relacionamentos? Pode parecer óbvio, mas é incrível o quanto as pessoas caem na mesma “armadilha” sem perceber. Muitos casais se separam, criticam o parceiro anterior, dizem que jamais se envolverão com pessoas parecidas com a/o ex, no entanto, não só se envolvem como acabam casando ou se relacionando com outra pessoa muito parecida com a anterior. Isso acontece por várias razões: 1. Porque nossa história e nossas experiências delimitam um tipo de comportamento e de admiração por algumas personalidades que nos vão atrair no decorrer da vida. 2. Por identificação com as pessoas que influenciaram nossa educação e nosso comportamento. 3. Por influência da cultura e dos nossos antepassados, que nem imaginamos nos afetar, mas que ficam registrados na nossa memória emocional, o que Carl Gustav Jung chamou de inconsciente coletivo e a nova genética, a Epigenética. Jung afirmava que os mitos e símbolos são surpreendentemente parecidos ao longo dos séculos em diferentes culturas ao redor do mundo. Essas sociedades, mesmo que distantes, quando estudadas por ele, apresentavam um misterioso compartilhamento de mitos e símbolos (que segundo ele ficam registrados na nossa memória sob a forma de arquétipos, ou padrões de comportamento que repetimos sem nos darmos conta), o que o fez acreditar que a psique humana é fruto de algo maior do que meramente as nossas experiências individuais. Dessa forma, sofremos influências que podem advir da cultura, da família ou da genética/epigenética.Tudo isso forma a nossa personalidade e está enraizado no nosso comportamento17. A questão é que o fato de ser inconsciente faz com que as pessoas reproduzam o mesmo comportamento sem se dar conta. Por isso, processos terapêuticos ou de análise têm a pretensão de trazer à tona essas percepções, blindando-nos de armadilhas inconscientes que não somos capazes de perceber sem a ajuda de questionamentos mais aprofundados. Tudo que vem para a consciência pode ser modificado, mas o que não vem fica escondido, camuflado e sem oportunidade de mudança ou melhoria. Há alguns anos conheci uma moça muito meiga, que estava no seu segundo casamento, que, por sinal, também já estava em crise. Tive um contato razoavelmente estreito com o casal e pude acompanhar um pouco dessa tumultuada relação. Ela me relatava o que acontecia e contava algumas brigas com seu parceiro. Uma vez me perguntou: – Ana, o que você faria com um marido como esse? Respondi: – Eu não sei, não tenho a menor ideia, simplesmente porque jamais o teria escolhido. Depois disso tudo, com muito cuidado a incentivei a fazer terapia. Alguns meses depois voltamos a conversar, e ela relatou as impressionantes descobertas que tinha feito em seu processo terapêutico. Contou, por exemplo, que os seus dois ex-maridos (acabou se separando do segundo também) bebiam demasiadamente e que ela não entendia por que não enxergava isso no início dos relacionamentos. Além disso, repetiu o mesmo erro. Pela condução adequada do seu terapeuta, lembrou que seu pai também bebia bastante, mas que isso ficava velado, pois ele não deixava as crianças, no caso ela e os irmãos, perceberem. Bebia todos os dias, no almoço, exagerava ainda mais nos fins de semana e depois ia dormir. Ela disse que teve que fazer certo esforço para se lembrar das coisas que aconteceram na infância, já que seu pai faleceu enquanto ainda era criança, mas que ao perceber tudo isso entendeu por que fizera essas escolhas. Provavelmente passou por situações desconfortáveis na infância e seus mecanismos de defesa18 se encarregaram de protegê-la e de “empurrar” as memórias para o inconsciente. Mesmo assim, elas continuam ali, latentes e encobertas, mas que, por padrão inconsciente, acabam se repetindo. Sigmund Freud (1856-1939), médico neurologista e criador da psicanálise, defendia que somos controlados pelos processos internos da nossa própria mente, em especial pelo inconsciente e pelo Complexo de Édipo19, que não deve ser esquecido nem reprimido. Mesmo depois de tantos anos, é o conceito que melhor descreve por que repetimos, principalmente com nossos parceiros, o modelo de relacionamento de nossos pais. Junto com a nossa formação de personalidade, que já falamos um pouco no início deste livro, também formamos nosso protótipo de “homens” e “mulheres” muito baseados no modelo de pai e de mãe ou das pessoas com as quais temos uma forte identificação, que introjetamos20 e aprendemos desde a infância. O processo terapêutico e alguns outros processos de autoconhecimento nos ajudam a trazer à consciência essa identificação. Quando ela é saudável e pode ser “replicada”, fica mais fácil, mas precisa ser trabalhada quando nos incomoda ou não queremos que seja repetida. Vale reforçar que, independentemente do conteúdo dessa identificação, não adianta negarmos, elas fazem parte da nossa história e precisam ser “respeitadas”, porque vieram de pessoas que amamos e que certamente queriam o melhor para nós, mas não sabiam de que forma fazer isso. Infância é destino, diria Freud, mas não podemos viver indefesos por toda a nossa vida sob a desculpa de que tivemos uma infância complicada e longe de ser a ideal. Devemos interiorizar a mensagem de que não importa o quão destrutivas tenham sido as nossas relações entre pais e filhos. As perspectivas sobre o nosso futuro correspondem a nós, e o que precisamos, de fato, é ficar atentos para não repetirmos os mesmos erros com os nossos filhos. A questão é: podemos mudar e agir diferente dos nossos pais ou cuidadores? Sim. Se os seus comportamentos incomodam a você e às pessoas com quem convive, ou não são saudáveis como gostaria, eles podem ser trazidos à consciência para serem trabalhados e, a partir disso, modificados. Todo comportamento pode ser modificado. Ter o conhecimento e a clareza dessas questões é um dos mais sublimes e saudáveis caminhos para a qualidade dos nossos relacionamentos e para o nosso equilíbrio pessoal. A tendência a repetir comportamentos na nossa vida e nas nossas relações são naturais e propensos a acontecer, mas podem ser “controlados” e muitas vezes modificados. Freud foi precursor e pioneiro ao descrever como a mente funcionava, segmentando-a em três estágios: o Ego, o Id e o Superego, que funcionam em diferentes níveis de consciência, mas interagem entre si em um constante movimento de lembranças e impulsos de um para o outro: Ego – consciente – o ego – que pode ser chamado de “eu” – representa a razão ou a racionalidade. Segundo ele, essa parte pode refrear de forma mais racional e consciente as demandas pela busca incessante do prazer (o que chama de Id). O ego está ligado ao princípio da realidade, enquanto o Id está ligado ao princípio do prazer. O ego serve como mediador, um facilitador da interação entre o Id e as circunstâncias do mundo externo, ao contrário da paixão insistente e irracional do Id. Por isso, o ser humano quer o prazer quase o tempo todo e acaba sendo mais cômodo comer em excesso (Id) do que controlar a alimentação (ego), começar a beber e ter dificuldade para parar. Ir para a praia e não querer voltar ao trabalho e outras muitas ações que precisamos controlar o tempo todo na nossa vida, temperam esse conflito entre Ego x Id. Sendo assim, o ego cuida dos impulsos do Id. Na teoria do Cérebro Trino de MacLean seria o Neocórtex, capaz de atuar no pensamento abstrato, estratégico e criativos. Id – inconsciente – a parte mais primitiva da mente, persegue constantemente o prazer. Dizemos que as pessoas que não fazem “filtros” ou são movidas por uma necessidade de suprir seus desejos de forma imediata são regidas pelo Id. Acontece muito com as crianças, e é nosso papel “podá-las” quando fazem escândalos nas lojas de brinquedo ou mercado, porque querem satisfazer seu desejo imediato de comer uma bala ou comprar um brinquedo. Estão agindo sem filtro e precisamos ensiná-las a controlar seus impulsos primitivos e inconscientes. Na teoria do Cérebro Trino de MacLean, esse seria o Cérebro Reptiliano/instintivo. Superego – pré-consciente – desenvolve-se desde o início da vida, quando a criança assimila as regras de comportamento ensinadas pelos pais ou responsáveis mediante o sistema de recompensas e punições. O comportamento inadequado sujeito à punição torna-se parte da consciência da criança, uma porção do superego. Dessa forma, o comportamento é determinado inicialmente pelas ações dos pais; no entanto, uma vez formado o superego, o comportamento é determinado pelo autocontrole. Nesse ponto, a pessoa administra as próprias recompensas ou punições. O termo cunhado por Freud para o superego/über-ich significa literalmente “sobre-eu”. Funciona como um freio a partir da internalização das proibições, dos limites e da autoridade. É algo além do ego que fica sempre censurando e dizendo: isso não está certo, não faça; é o nosso “freio”, por isso é chamado de superego. Na teoria do Cérebro Trino de MacLean, esse seria o cérebro Límbico, que permite que os processos de sobrevivência básicos do cérebro réptil possam interagir com os elementos do mundo externo, o que resulta na expressão da emoção.* *A conexão de concordância entre essas duas teorias, de Freud e MacLean é muito interessante e, apesar de existirem outras fontes, se quiser conhecer mais eu indico novamente o livro do Dr. Marcelo Peruzzo, pela forma didática com a qual ele apresenta essa correlação, inclusive com outras teorias. A bibliografia está no final deste livro. Vale ressaltar, então, que existem componentes não apenas emocionais, masbiológicos e hereditários, que nos fazem, por muitas vezes, repetir exatamente o mesmo comportamento dos nossos pais. É muito comum as pessoas dizerem, principalmente na adolescência, que jamais farão com seus filhos o que seus pais fazem com eles, mas depois que os filhos nascem acabam por repetir o mesmo comportamento. O modelo é sempre mais forte que o discurso ou até que a razão. Crescemos e aprendemos esses comportamentos e temos uma forte tendência a repeti-los. Como abordamos antes, não somos escravos do nosso comportamento. Podemos nos “livrar” e nos desapegar do modo com que aprendemos a agir. Claro que mudaremos ou ajustaremos uma parte dele, já que algumas características sempre vão nos acompanhar, afinal, estamos falando da nossa personalidade. Se fôssemos nos livrar dela, completamente, correríamos um sério risco de ficarmos à deriva. Não existem seres “sem personalidade”. A ideia não é abandoná-la, mas aprimorá-la, e para isso temos que: 1. primeiro, trazer nosso comportamento (inadequado ou que precisa ser modificado) para a consciência. Não modificamos o que não acreditamos ser nosso; 2. segundo, separarmos o que é “meu” do que é do “outro” (falo aqui do comportamento dos nossos pais ou educadores), ou seja, tentarmos nos diferenciar, entendendo com mais clareza os comportamentos que repetimos; 3. terceiro, só depois de nos diferenciarmos é que formamos com maturidade a nossa própria personalidade. Assim escolhemos o que queremos ser e conseguimos controlar a repetição dos comportamentos que nos incomodam, ou que incomodam as pessoas ao nosso redor. Isso pode mudar para sempre a forma como nos relacionamos? Sim. Essa consciência mudará para sempre a forma como nos relacionamos com filhos, parceiros, família, amigos, colegas de trabalho, chefes, etc. Podemos aprimorar o modelo aprendido e, ao conseguirmos fazer isso, nosso comportamento torna-se polido e mais adequado. Garanto que é simplesmente sensacional! Agora vocês podem entender por que os relacionamentos entre as pessoas são tão complicados. Na educação dos filhos, então!!! Cada um traz na bagagem suas próprias experiências, seus próprios modelos e ambos querem de forma consciente ou inconsciente replicar os valores e aprendizados aos filhos. Quando eles são parecidos, os problemas são menores, os casais concordam com a educação e o que querem transmitir a seus filhos, mas e quando não são? É preciso muita inteligência relacional para lidar com esses desafios, e é por isso que muitos conselheiros defendem que quando temos os mesmos valores, um estilo de vida parecido, a mesma religião, padrão financeiro parecido e similaridade no convívio social, fica mais fácil manter o equilíbrio entre o casal. Assim ambos procuram transmitir os mesmos valores para a nova família. Concordar nesses aspectos é muito mais importante do que aspectos físicos, a idade, a cor da pele ou outras características que as pessoas às vezes consideram relevantes. Conheço uma família maravilhosa. Tanto o marido quanto a mulher são pessoas excepcionais, mas eles vêm de religiões e culturas muito diferentes. Vieram de países distintos, foram criados de forma completamente oposta e com valores diferentes. Não há dúvida de que se amam e por isso estão juntos há mais de dez anos, mas percebo que fazem um esforço enorme para ceder e rever seus conceitos diariamente. Ele acredita que a mulher deve ser submissa ao marido, que é dever dela cozinhar, cuidar da casa e dos filhos e lhe desagrada o fato de ela trabalhar fora; isso realmente é o que mais o incomoda. Ela, por outro lado, adora trabalhar, começou muito cedo para ajudar os pais e acha que o trabalho a deixa melhor, sente-se mais útil e gosta de colaborar com a renda da casa. Eles conseguem lidar razoavelmente bem com a situação, mas o assunto sempre vem à tona e surgem alguns comentários, às vezes, um pouco ácidos. Mesmo na frente dos amigos, ele diz que é uma besteira a mulher trabalhar, que esse não é o seu papel. Para ele, seu papel social é ser mãe e esposa e costuma frisar que pagaria para ela ficar em casa. Ela, por sua vez, acredita que o trabalho a dignifica e que o fato de estar fora de casa, conversando com pessoas, aprendendo, trocando informações e, principalmente, tendo uma alternativa financeira, faz com que se sinta mais digna. Além de manter sua inteligência estimulada, para ela, trabalhar fora a deixa mais feliz e segura, acredita que lhe dará mais perspectiva de futuro e pode mantê-la “em pé” se alguma coisa acontecer entre eles. O fato é que cada um, dentro de suas experiências e culturas, tem a sua própria razão. Foram criados dessa forma, possivelmente seus pais agiram assim, cada um carrega o seu modelo e dentro dos seus parâmetros consideram correto dentro da educação que receberam. Torço para que esse casal consiga administrar suas diferenças, mas quando se torna desconfortável ou insuportável para um dos dois ou para ambos, o relacionamento está fadado ao insucesso, ou a uma imensa frustração e sofrimento para os dois lados. O grande complicador é que uma situação como essa pode gerar a não realização daquilo que a pessoa acredita que pode conquistar dentro do seu padrão de felicidade e realização pessoal. Por isso as nossas escolhas são tão importantes e difíceis. Quando as pessoas se apaixonam, ficam cegas, e é comprovado que deixam de enxergar o que está embaixo de seus olhos por estarem inebriadas de paixão, mas para que uma relação seja duradoura, para viver junto com outra pessoa e constituir família, é necessário mais do que paixão, mais do que tesão, mais do que gostar do cheiro ou da cor do olho e do cabelo. Viver e conviver exigem respeito pela personalidade do outro, pelas diferenças de cada um dos parceiros. Envolve cuidado com o que se diz, com o que se faz para o outro. É preciso muito amor, troca, paciência, respeito, cumplicidade, companheirismo, compreensão e, acima de tudo, muito diálogo. Então, ter semelhanças com o parceiro é uma garantia de sucesso nos relacionamentos? Ter semelhanças com o parceiro não é uma regra ou garantia de sucesso nos relacionamentos, mas quando conseguimos minimizar as diferenças mantendo valores e crenças parecidas, é muito mais fácil administrar as diferenças e evitar conflitos. Isso pode acontecer tanto entre parceiros conjugais, como com sócios ou pessoas que trabalham ou decidem fazer negócios juntas. Por que ter valores parecidos aumenta a possibilidade de sucesso nos relacionamentos? Como possível saída para essa enrascada, sugiro que cada pessoa faça a sua própria lista de valores e que, depois, discutam juntos as respostas de cada um. Esse pode ser um excelente exercício para determinar o sucesso em uma relação. Geralmente as pessoas apresentam valores que consideram básicos e fundamentais para suas vidas ou para a manutenção de um negócio. Se esses princípios e valores não coincidirem pelo menos em alguns pontos ou não tiverem nada em comum, avalie o risco. Existe uma enorme chance de insucesso. Por outro lado, pequenas diferenças são interessantes, inclusive porque também há verdade na frase “os opostos se atraem”. Muitas vezes, encontramos no outro a nossa complementação. Quando as diferenças são moldadas por uma questão de estilos ou perfil pessoal, e não por mudança de valores, por exemplo, um é mais rápido e o outro mais lento, um é mais tímido e o outro mais extrovertido, um é mais calmo e o outro mais agitado, isso pode ser excelente. São diferenças complementares, que podem, além de equilibrar a relação, ajudar a ponderar ou impulsionar o parceiro em algumas situações. Conheço pessoas muito agitadas e impacientes que casaram com seus opostos, parceiros extremamente calmos. Quando estão próximos, ficam mais serenos e acabam se acalmando também. Vale lembrar também que não podemos ficar tentando impor as nossas características pessoais aos outros. Por exemplo, o ritmo é uma questão biológica e difícil de ser mudada. É quase impossível acelerar quem é calmo ou querer acalmar quem éagitado. Causa estranheza e desconforto quando tentamos empregar um ritmo que não é nosso. Ao fazermos escolhas complementares, não adianta tentar mudar o outro. É preciso respeitar e aceitar as diferenças. Divirta-se com elas, assim ficará positivo para ambos. Com relação às experiências de trabalho, ressalto nos meus workshops para líderes que, quando temos na equipe pessoas com habilidades distintas, temos nosso melhor cenário, porque elas são complementares e capazes de fazer diferentes entregas e assumir diferentes desafios e responsabilidades. Quando estamos diante de pessoas que possuem uma habilidade diferente e complementar a nossa, é com elas que devemos trabalhar. Quando são muito parecidas conosco, tendem a acertar nas mesmas coisas, mas podem errar nas mesmas também, o que vai deixar alguma área sempre descoberta. Empresários e líderes devem ater-se ao fato de que vocês podem complementar suas equipes com pessoas que apresentem diferentes habilidades, conhecimentos e atitudes, e assim podem ter mais qualidade e agilidade de resposta e de resultado aos seus clientes. Muitos sócios encontram dificuldade para tocar um negócio juntos por essa razão. Eles geralmente têm um excelente conhecimento técnico ou específico sobre o mesmo assunto, seus perfis são semelhantes, às vezes se formaram juntos, são amigos, mas nem por isso terão sucesso. Pelo contrário, se não agirem rápido para trazer pessoas que os complementem, seja na área comercial, financeira, RH ou outras, terão forte risco de submergir. A área comercial, então, é uma das mais difíceis de atuar para pessoas com perfis muito técnicos. Esses profissionais precisam de ajuda. Quantas pessoas têm excelentes ideias, mas não sabem vendê-las? Quantos profissionais liberais querem vender o seu trabalho e não sabem a melhor forma de fazê-lo? Se isso acontece com você, procure um sócio ou outras pessoas com um perfil mais comercial. Contrate um bom vendedor. Durante mais de 20 anos ajudo empresas a selecionar, avaliar e manter equipes campeãs (tenho um DVD com esse tema), e sei que os líderes tendem a contratar a sua imagem e semelhança. Isso é natural, pois as pessoas se encantam e se identificam com quem lhes é parecido, o que acaba por reforçar o que dissemos acima; cometem os mesmos erros e acertos, diminuem o alcance do sucesso. Para concluir este tema, ressalto que os problemas que enfrentamos nos relacionamentos tendem a se intensificar quando os valores pessoais se diferenciam. Quando as crenças, os princípios ou a missão das pessoas ou das empresas são diametralmente opostos, os ajustes são trabalhosos e os problemas certamente são maiores. Então o problema está nos valores? É muito mais fácil administrar as diferenças quando elas estão nas habilidades ou nas atitudes. O que devemos evitar é a dessincronia dos valores. Acompanhei algumas funções e aquisições (joint ventures) que deram muito certo e outras que deram muito errado. Analisando-as mais a fundo, concluí que o que fez diferença para o sucesso ou o fracasso foi sem dúvida a escala de valores de cada empresa. O restante, como produtos, finanças, técnicas de venda, forma de produção ou mesmo a estratégia do negócio, pode ser ajustado e resolvido, desde que a linha de conduta relacionada aos valores seja linear. Assim acontece em todos os relacionamentos. Se você está procurando emprego, apesar da crise, avalie se essa empresa tem os mesmos valores que os seus. Se será confortável para você ir para lá todos os dias, se o que fará não estará avançando o sinal dos seus valores. Entendo que muitas vezes, pela questão financeira as pessoas acabam cedendo, aceitando e deixando isso de lado, mas em pouco tempo a motivação será reduzida a nada. Perde-se a vontade de acordar pela manhã e tudo tende a ficar escuro e nublado. A segunda-feira passa a ser realmente uma tortura. Geralmente isso acontece porque o lugar ou as pessoas que ali trabalham não apresentam os mesmos valores e crenças que as suas, e aí passa a ser um caos, um grande problema. Não há alegria nem sensação de realização, o que não deve acontecer no trabalho, já que você passará a maior parte do seu dia e da sua vida embebido nele. Costumo dizer que, quando aceitamos estar em situações como estas na nossa vida pessoal ou profissional, é como se estivéssemos nos prostituindo. A palavra é um pouco forte, mas o sentimento é muito verdadeiro. Acabamos aceitando uma condição que nos dá dinheiro, mas nenhum prazer. Será que vale a pena? Qual o impacto das escolhas na nossa vida? O que precisamos ter claro é que a consequência das ações e das escolhas que fazemos na vida é o que nos impulsiona para o sucesso ou para o fracasso. Cada escolha que você faz, desde acordar pela manhã para ter um dia feliz ou triste, vai mudar o panorama da sua vida, naquele momento ou para a vida toda. Essas mudanças só dependem de você. Essas escolhas são suas e mesmo que possa parecer difícil, sempre é possível recomeçar, com cuidado, preparo, planejamento e organização. Tenho acompanhado muitas pessoas que se achavam incapazes e hoje estão muito mais perto de sua realização pessoal e profissional do que eram capazes de imaginar. Com meu trabalho de coach descobri que as pessoas podem, sim, mudar e agir diferente, desde que realmente queiram e dediquem tempo, vontade e energia para isso. Ainda falando de escolhas, sempre dediquei tempo para observar como as pessoas captam as informações vindas dos outros. Quero apresentar a vocês uma pesquisa que destaca a influência dos comentários negativos e o impacto deles na nossa vida e por que algumas conversas podem ser tão improdutivas ou produtivas. Trabalhei durante mais de vinte anos com análise de potencial, usando o sistema de Avaliação chamado Perfil Caliper. Fiz uma análise interessante e profunda de centenas de pessoas e descobri questões surpreendentes sobre semelhanças e diferenças a respeito do funcionamento de gênero, função, posição hierárquica, funcionamento racional, emocional e relacional. Embora o enfoque fosse sempre profissional, as pessoas constantemente se abriam e acabavam trazendo questões importantes sobre si e seu funcionamento. A vasta experiência, nesta área, o estudo de pesquisas inovadoras, o tempo em consultório e os atendimentos de coaching me levaram a perceber a importância e o impacto do que falamos para as pessoas. Podemos de fato conduzi-las para a alta performance ou levá-las a se sentirem estagnadas e fracassadas. É claro que aplicamos uma metodologia altamente eficaz ao dar o feedback de uma avaliação de potencial, que é usada de forma adequada e respeitada por mim e por todas as consultoras responsáveis por essa atividade. O feedback sempre começa destacando os pontos positivos e, mesmo deixando os pontos de desenvolvimento para o final, terminamos sempre em um clima bastante positivo e harmonioso. As pessoas elogiam, sentem-se confortáveis em falar e gostam muito disso. Isso não nos deixa distantes do peso da responsabilidade que temos, como líderes e educadores, em trilhar o melhor para as pessoas e influenciá-las de forma positiva. Um feedback adequado e bem direcionado é tão importante para a otimização de potencial e do desempenho de cada pessoa com quem conversamos. É interessante perceber como as pessoas têm necessidade de aprovação e reconhecimento. Mesmo que seu líder, seus pais ou seus professores o elogiem vinte vezes, basta uma crítica, mesmo que construtiva, para colocar tudo a perder. Parece que mil palavras boas não são suficientes diante de dez ruins. Isso de certa forma é preocupante, porque impacta diretamente na autoestima das pessoas e como elas se relacionam umas com as outras. As pessoas esquecem o quanto disseram que você era talentoso, organizado ou inteligente. Basta dizer que você está desorganizado, ou confuso, que todo o resto some como num piscar de mágica. Como já citamos, os neurotransmissores, ou a química, desempenham um papel importante neste fenômeno. Quando enfrentamos uma crítica,rejeição ou medo, quando nos sentimos marginalizados ou minimizados, nosso corpo produz níveis elevados de cortisol, o hormônio que desliga o centro de pensamento de nossos cérebros e ativa aversão ao conflito, disparando o medo e a necessidade de proteção. Tornamo-nos mais reativos e sensíveis. Muitas vezes sentimos ainda maior julgamento e negatividade do que realmente existe. E esses efeitos podem durar dias. Além disso, faz uma impressão negativa nas nossas memórias e amplia o impacto que elas têm sobre o nosso comportamento futuro. O cortisol funciona como um comprimido de liberação sustentada – quanto mais nos entregamos ao medo, mais tempo parece levar o impacto. Claro que comentários positivos e conversas positivas também produzem uma reação química e estimulam a produção de oxitocina, o hormônio que melhora a nossa capacidade de nos comunicarmos, de colaborarmos e confiarmos nos outros ativando redes em nosso córtex pré-frontal, mas a oxitocina é metabolizada mais rapidamente do que o cortisol, por isso seus efeitos são menos dramáticos e de menor duração. Percebia isso de forma empírica, mas só depois fui estudando e descobrindo que já existem pesquisas sérias que certificam o impacto químico que as conversas positivas, negativas ou os elogios causam nas pessoas. Essa “química das conversas” é importantíssima e, quando bem compreendida, causa mudanças significativas na forma como lideramos e educamos nossos filhos, alunos e liderados. Comportamentos que aumentam os níveis de cortisol reduzem o que Judith e Richard Glaser chamam de “Inteligência conversacional” ou “C-IQ”. Descrevem a capacidade que uma pessoa apresenta em se conectar e pensar de forma inovadora, empática, criativa e estratégica. Comportamentos que desencadeiam oxitocina e elevam o C-IQ21. Quantas vezes será que nós, como pais, líderes ou educadores, não produzimos mais cortisol do que oxitocina nas pessoas? Que tal em vez de fazermos críticas perguntarmos mais como estão se sentindo? Precisamos dedicar um pouco mais de tempo para entendermos melhor as pessoas. Se formos capazes de destacar mais habilidades e pontos fortes, mostrarmos uma preocupação genuína e partilharmos o sucesso, certamente poderemos trazer as pessoas para mais próximo de nós, envolvendo-as em nossas ideias, convencendo melhor e entrando em sintonia com o que pode ser considerado importante para cada lado, respeitando pontos de vista opostos. Só assim podemos valorizar as pessoas e considerar diferentes ideias e ideais. De fato, ninguém consegue se conectar se não for capaz de despertar o entusiasmo no outro. Nós só conseguimos fazer isso se formos capazes de valorizar as pessoas naquilo que elas sabem fazer bem. Vale ressaltar que eu não estou sugerindo aqui que você tenha que aceitar erros ou deixar de exigir resultados. Muito pelo contrário, é através do feedback, da insistência pelo resultado e pela descoberta e orientação do que precisamos aprender que nos desenvolvemos. Chamo a atenção para a forma como devemos fazer isso. Meus anos de prática me mostraram que feedbacks são difíceis, mas não impossíveis, e funcionam como suporte imediato para o amadurecimento e para a otimização de resultados. Lembre-se sempre de primeiro elevar o nível de oxitocina, falando dos pontos positivos, e nunca começar com um banho de cortisol, só falando de coisas ruins. Isso fará com que as pessoas fechem os ouvidos para você, bloqueiem sua mente e deixem de prestar atenção no que você tem para lhes ensinar. Mantenha-se sempre aberto aos comportamentos que abrem seus ouvidos e seu coração e que podem dar vazão à melhoria dos relacionamentos e não aos que fecham e inibem as relações. Aproveite e aprenda com a boa química das conversas. Elas me mostraram que podemos ter aprendizados riquíssimos, que carregaremos para sempre. No próximo capítulo, vamos abordar os seis passos para nos tornarmos um inteligente relacional, a começar por nós mesmos, fortalecendo nossas escolhas, nossa maneira de nos comportar, utilizando melhor a educação, as crenças e os valores de cada um de nós. 17. O livro da Psicologia, Globo Livros, p. 104, e Teorias da Personalidade. 2ª edição, 2003. Título original: Theories of personality. 18. Mecanismos de defesa - ações psicológicas com a finalidade de reduzir qualquer manifestação que coloque em perigo a integridade do ego, em que o indivíduo não consiga lidar com situações que por algum motivo considere ameaçadoras. São processos subconscientes ou inconscientes que permitem à mente encontrar uma solução para conflitos não resolvidos no nível da consciência. As bases dos mecanismos de defesa são as angústias. Quanto mais angustiados estivermos, mais fortes os mecanismos de defesa ficarão ativados. 19. Complexo de Édipo – o termo criado por Freud, inspirado na tragédia grega Édipo Rei (personagem da Mitologia Grega famoso por matar o pai e casar-se com a própria mãe). Designa o conjunto de desejos amorosos e hostis que o menino enquanto ainda criança experimenta com relação à própria mãe. 20. Introjeção – mecanismo de defesa que consiste na adoção de regras e comportamentos que podem nos livrar de uma situação ameaçadora ou perigosa. Inicia-se na infância, quando começamos a aceitar como nossas as regras e valores impostos pela família ou sociedade. 21. Artigo da Harvard Business School: The neurochemistry of positive conversation, Judith and Richard Glaser. https://goo.gl/sNHqAx Capítulo 6 Classe - Seis passos para nos tornarmos mais inteligentes e o “C” de CLASSE: Consciência “Não é a aparência, é a essência. Não é o dinheiro, é a educação. Não é a roupa, é a classe.” Coco Chanel Para explicar melhor como nos tornarmos mais inteligentes na forma como nos relacionamos, desenvolvi seis estágios fáceis de entender e que podem nos ajudar a fazer ajustes no nosso comportamento em diversas situações. Para sermos inteligentes nas relações, a CLASSE é fundamental. Ter classe não significa ser chique na arte do vestir, como a maioria das pessoas pensa, mas ser elegante na maneira como nos comportamos todos os dias, em qualquer ambiente. Classe é ser elegante, ter graça nas maneiras: de vestir, de comer, de se comunicar e principalmente de se comportar. É ser harmonioso, coerente, estar em ‘acordo’ com o todo, com as pessoas e com o ambiente. Esses passos são importantes porque sabemos que os relacionamentos são confusos e complicados. Temos que fazer um trabalho duro para conseguirmos “zelar” por nossas relações, seja com a família, amigos, vizinhos, parceiros de trabalho e todos os contatos relacionais e sociais que fazemos. Nunca para; conversamos com pessoas em média setenta por cento (70%) do nosso tempo diário. Além disso, não é necessariamente um investimento glamouroso, pelo contrário, é incessante e muitas vezes cansativo. Não temos mais nenhuma dúvida de que as pessoas que se dão melhor na vida são as mais bem relacionadas. Escolher perder menos tempo com a TV e investir mais tempo convivendo, fazendo algo novo juntos, é sem dúvida uma ótima opção, principalmente quando se escolhe dividir tempo com pessoas inteligentes, educadas, sensatas e que se preocupam conosco, em nos ajudar, e não em nos atrapalhar ou machucar. É sensacional quando você escolhe amigos dos quais se orgulha e sabe que se orgulham de você também. Essas pessoas certamente o respeitam, o admiram e podem fazer o seu dia mais brilhante simplesmente por estarem nele. Essas pessoas têm CLASSE. Por outro lado, você já deve ter sentido o peso de pessoas que só sabem reclamar ou se colocam sempre na condição de vítimas do destino. Basta você perguntar como a pessoa está e ela vem logo discorrendo sobre uma série de dramas e tragédias que rondam a sua vida. Muitas vezes você não tem nem muito tempo ou disposição para ouvir aquele monte de lamúria. E a sequência é sempre a soma de lamentações, dores, tragédias e desgraças. O mais incrível é que essas pessoas não conseguem entender por que ninguém quer estar perto delas. Em geral,a solidão as assombra, justamente porque têm o costume de criticar em excesso, acham que ninguém as entende ou que ninguém as escuta. Todo mundo tem seus problemas e entendo que falar alivia. Freud já dizia que a cura vem pela fala. As pessoas gostam e precisam contar suas histórias para se sentirem melhores ou mais aliviadas, mas isso tem hora e lugar. Existem profissionais que são preparados para ajudar. Alguns cobram e outros trabalham de forma voluntária e são orientados para dar a melhor orientação. São terapeutas, coaches, educadores, pastores, padres ou pessoas que têm como dom ou profissão dar suporte aos outros. Existem programas evangélicos que ajudam e dão apoio 24 horas às pessoas que estão em uma situação de tristeza profunda ou desespero. Conheço alguns amigos que trabalham nessas rádios, nos Estados Unidos. São profissionais preparados para atender o telefone em todas as línguas e ajudam pessoas que estão desesperadas, desacreditadas, tristes ou que apresentam algum risco de suicídio. Se você realmente precisa desabafar é compreensivo, todo mundo precisa e também pode conversar com um amigo ou alguém em quem confie e que esteja “disponível” para escutar. Sempre existe um caminho e uma solução, por isso é importante pedir ajuda. Existe uma necessidade natural que todos nós temos de desabafar em momentos de crise ou real tristeza, mas algumas pessoas parecem criar problema, e de forma repetitiva e desgastante estão sempre “para baixo”, reclamando e atravessando a vida de forma pessimista. Falam demais sobre si ou sobre outras pessoas em momentos inconvenientes e sempre acham que todos têm todo o tempo e disponibilidade do mundo para escutá-las. Procure se blindar dessas pessoas, pois elas certamente não têm CLASSE, mas você deve ter, não seja deselegante, sugira com cuidado que essa pessoa busque por suporte e uma ajuda profissional mais efetiva. Não tenha receio de colocar limites, dizendo a ela que infelizmente você não pode falar naquele instante, mas que torce para que tudo fique bem. Infelizmente essas pessoas são, além de deselegantes, vampiros emocionais, e precisamos ajudar a “estancar” sua maldade e controlar sua “baba sangrenta”, porque do contrário nós também ficaremos mal e assim entraremos em uma espiral pesada e negativa, que pode bloquear nossa felicidade, sucesso e crescimento pessoal. Para que você se torne mais inteligente relacionalmente é fundamental que preste atenção em como tem se posicionado. Muitas vezes percebemos esse comportamento nos outros, mas esquecemos de olhar para nós mesmos. Se tiver a tendência a falar demais sobre seus problemas observe isso melhor e passe a tomar mais cuidado. Analise cada situação, valorize o tempo das pessoas e procure perceber se elas podem conversar naquele momento. Evite falar em excesso. Seja um bom ouvinte e estimule as pessoas a falarem sobre elas. Todo mundo gosta e precisa de atenção. Exija menos e dê um pouco do seu tempo para os outros também. Mais adiante falaremos um pouco mais sobre os vampiros emocionais dos quais realmente precisamos ficar distantes, porque a vida é muito curta para perdermos tempo com quem suga a nossa energia e tem tão pouco a nos oferecer. A criação dos seis passos a que me refiro vão tornar você um inteligente relacional e pode ajudar as pessoas a se tornarem também: 1. C ONSCIÊNCIA 2. L IBERDADE 3. A TRAÇÃO 4. S EGURANÇA 5. S ABEDORIA 6. E MPATIA Vamos ao primeiro, nosso C de Consciência. 1. Consciência: está relacionada tanto à “leitura” que fazemos de nós mesmos – a autoconsciência – como também à consciência do ambiente e das pessoas que estão à nossa volta. É a habilidade de perceber, de ter clareza das nossas ações e intenções e da forma como nós agimos e interagimos com o meio. Por exemplo, muitas vezes as pessoas não percebem que estão falando muito alto em ambientes que exigem mais cuidado e silêncio, como velórios, igrejas, livrarias, bibliotecas, elevadores, teatros, etc. Falta consciência do comportamento exercido; as pessoas esquecem que devem manter mais respeito com quem está dividindo o mesmo espaço. Para que possamos perceber melhor como nos comportamos e manter controle sobre essas atitudes, precisamos nos conhecer mais a fundo. É fundamental que possamos aprender melhores práticas de como devemos nos comportar em diferentes situações. O primeiro passo é observar e perceber a nossa forma de agir e se ela está adequada a cada situação. Isso pode ser feito pela observação de como nos comportamos e de como as pessoas reagem em cada situação. Assim podemos mudar e ajustar a nossa atitude, para nos tornarmos mais inteligentes na arte de nos relacionarmos. A medida que nos tornarmos mais alertas ao nosso comportamento, podemos nos tornar pessoas melhores, mais humanas e mais agradáveis, principalmente quando estamos em contato com outros. Como devemos agir? Essa resposta não é muito simples, porque é baseada no bom senso. Bom senso, em uma de suas melhores descrições “é um conceito estritamente ligado às noções de ponderação e de razoabilidade, que define a capacidade média que uma pessoa possui, ou deveria possuir, de adequar regras e costumes a determinadas realidades, considerando as consequências e assim fazendo bons julgamentos e escolhas”22. Supõe certa capacidade de autocontrole e independência de quem analisa a experiência de vida cotidiana, ou seja, é muito particular e está relacionada a nossa percepção e observação do ambiente. É a análise do que funciona, e do que não funciona quando estamos interagindo com pessoas. De forma geral, gostamos de observar o comportamento dos outros, e a maneira discreta e equilibrada como algumas pessoas se colocam soa interessante. É agradável observar um jeito “elegante” e sutil de se comportar. Observar, aprender e repetir essas atitudes pode nos ensinar a controlar nosso próprio comportamento e nos levará a agir de forma mais adequada em situações que sugerem certa postura ou discrição. Esse aprendizado nos torna mais inteligentes relacionalmente. Comportarmo-nos de forma inteligente com as pessoas vai muito além da capacidade de discernir o certo do errado. Está relacionado ao bom senso, à capacidade intuitiva do ser humano de fazer a coisa certa, e é elementar que esteja ligado à moral. Por essa razão e por sofrermos influência da sociedade em que vivemos, precisamos observar e respeitar as diferenças culturais, morais e religiosas. Por exemplo, o bom senso praticado por um cristão poderá ser interpretado de forma diferente por um islã ou judeu. Os muçulmanos fazem sua oração ajoelhados e virados à direção de Meca. Meca é a cidade natal do profeta Maomé. Para todos os muçulmanos do mundo, ela é a cidade mais sagrada do planeta. Segundo o Alcorão, escritura do Islamismo, o devoto deve cumprir os cinco pilares: o testemunho da fé; orar cinco vezes ao dia em direção à Meca; jejuar no ramadã (um mês por ano); praticar a caridade; e peregrinar até Meca, mesmo que através de procuração escrita, caso não tenha recursos. Eles seguem essa doutrina à risca. Quando morava nos Estados Unidos, parei meu carro no estacionamento em frente a um supermercado. Ao meu lado estava estacionado um furgão branco. Observei que o senhor ao lado abria o porta-malas de seu furgão. Tirou um tapetinho, estendeu-o no chão, ajoelhou-se e começou a rezar, certamente em direção à Meca. Não me pergunte como ele sabia qual era a direção. Dizem que os muçulmanos nascem com um “GPS religioso”. Brincadeiras à parte, descobri que fica a leste, mesmo lado do nascer do sol, o que certamente facilita bastante no momento de acertar a direção. Vale lembrar que para sermos inteligentes relacionais precisamos respeitar outras culturas, religiões e civilizações. Pode parecer “maluquice” um homem ajoelhar-se no chão em um estacionamento de supermercado, mas para ele essa é a sua verdade, a sua paz, o seu conforto. O bom senso não envolve uma reflexão aprofundada sobre determinado tema ou situação, mas sim a capacidade de agir e interagir, obedecendoa certos parâmetros da normalidade, face a uma situação qualquer, guiando-se por bom senso e senso comum, quase que de forma completamente intuitiva. Já que falamos de bom senso, o que seria o senso comum? “Senso comum resulta das experiências realizadas por um determinado grupo, a compreensão do mundo advinda da herança de um grupo social. O senso comum descreve as crenças e suposições que surgem como ‘normais’, sem depender de uma investigação detalhada para alcançarem verdades mais profundas ou científicas”. A busca do bom senso, então, mais uma vez está relacionada à consciência individual e do ambiente, à autopercepção e à autoanálise. Desde a Grécia Antiga, Sócrates (470-399 a.C.) acreditava que a autoanálise tornaria o indivíduo mais feliz. Para ele, essa era a função principal da Filosofia. Ficou famoso com a frase: “uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida”, ou seja, se passarmos pela vida de forma automática, superficial, sem trazermos para o consciente nossas razões inconscientes, viveremos sem nenhuma noção ou percepção clara de quem nós somos. O ser humano reluta e enfrenta uma série de resistências. Às vezes nega seu verdadeiro “eu”, não quer enxergar as dificuldades e seus lapsos de comportamento. A maioria das pessoas diz que terapia é coisa para louco. De certa forma concordo, pois tem que ser muito forte, meio “louco”, e muito “macho”, para peitar um processo terapêutico ou de autoconhecimento. Poucos têm coragem de aprofundar seu “eu” verdadeiro e descobrir a fundo o seu potencial. É coisa para louco mesmo. Para louco muito corajoso. A principal questão é que, quando entendemos a nós mesmos, conseguimos nos diferenciar e entender melhor o que é “meu” e o que é de outra pessoa, ou de outra cultura ou civilização. Aprendemos a verdadeiramente respeitar o jeito de ser de cada um. Essa percepção pode diminuir consideravelmente as brigas, as desavenças, os conflitos e atentados no mundo todo. Para ampliar a nossa consciência devemos observar a nós mesmos, as pessoas ao nosso redor e absorver práticas de comportamento em público, para nos relacionarmos de forma mais harmônica e digna com os outros. Quando estamos em público vale tomar alguns cuidados com a forma como nos comportamos: 1. evite falar alto e dar gargalhadas em locais que exigem silêncio; 2. evite o uso do celular em lugares que atrapalham outras pessoas, como teatro, cinema, igrejas, museus, reuniões etc. 3. não se prenda no celular ou escreva mensagens enquanto conversa com as pessoas; 4. evite esbarrar nas pessoas ou empurrá-las dentro de mercados, farmácias, ônibus, trens, metrôs e outros lugares públicos; 5. não deixe sacolas, malas ou carrinhos de compras “jogados” em corredores de mercado ou lugares onde outras pessoas precisam passar; 6. não pare em locais que interrompem o fluxo de pessoas, como saída de cinemas, teatros, convenções etc. Afaste-se o máximo que puder da porta da saída (principalmente se estiver conversando com um grupo de pessoas), assim quem ainda precisa sair pode ter melhor acesso e espaço de circulação; 7. espere as pessoas saírem do elevador antes de entrar, pois evita o embate corporal e você facilitará o fluxo de entrada e saída; 8. evite encostar no painel do elevador; as pessoas que entram precisam digitar o seu andar; 9. respeite filas, pois não foram feitas para serem furadas, mas para serem respeitadas; 10. quando estiver em espaços pequenos, evite encostar na pessoa da frente ou bater com sacolas e mochilas nos outros. Deixe um espaço de pelo menos um braço entre uma pessoa e outra; 11. se não tiver intimidade, evite ficar encostando ou pegando nas pessoas enquanto conversa com elas. Algumas pessoas acham natural, outras se sentem incomodadas; 12. respeite as escadas rolantes. Nos países desenvolvidos, é “educado” que você se mantenha sempre do lado direito da escada rolante ou das esteiras de passagem, nos aeroportos, metrôs ou shoppings, assim quem está com pressa pode continuar andando com mais rapidez pelo lado esquerdo; 13. evite buzinar sem necessidade, fechar a frente de outros carros, ficar acelerando enquanto o carro está parado, xingar no trânsito, dirigir em alta velocidade na cidade e usar o carro como um brinquedo de competição, pois são atitudes pouco inteligentes e que só contribuem para causar acidente e morte; 14. procure dar bom dia, boa tarde, sorria, procure ser cordial com as pessoas. Não custa nada e você pode contribuir para melhorar o dia das pessoas e tornar nosso mundo um pouco mais humano e feliz. Existem outras dicas úteis de que ainda vamos falar no decorrer deste livro, mas esta já é uma excelente amostra que destaca nosso comportamento social e sugere respeito à individualidade e às pessoas. São ações importantes e simples, que podemos assimilar com tranquilidade, sem grande esforço, e que nos ajudam a contribuir para relações mais positivas com a sociedade e com as pessoas, mesmo com aquelas que temos menos intimidade ou um contato mais superficial. Para concluir, desenvolver o C de CLASSE ajuda a trabalhar a nossa musculatura relacional e a consciência do nosso comportamento, ajudando a sociedade. Não custa sermos agradáveis com os outros; é uma pequena parcela de contribuição que podemos dar para um mundo melhor. 22. https://goo.gl/UKMp5d Capítulo 7 A letra “L” de CLASSE: Liberdade “A melhor liberdade é quando você se livra do que te faz mal.” 2. Liberdade: nós temos liberdade de expressão, de pensamento e de posicionamento frente às situações. Liberdade essa conquistada principalmente após o regime militar que durou 21 anos no Brasil. Naquela época, o regime censurava os meios de comunicação, nas quais as notícias eram filtradas ou proibidas. Criticar a política, o regime militar, expor pontos de vista diferentes, contestar ou protestar levava o indivíduo ao cárcere privado, tortura, extradição ou até a morte. Muitas histórias daquela época foram abafadas e até hoje pouco se pode provar, o real e a especulação se misturam com o intuito de “proteger” culpados influentes. Conseguimos grandes conquistas pós-censura, mas nosso país também perdeu uma boa parcela de limite e de pudor. Passamos de uma polaridade para a outra. Embora absurdos tenham acontecido no governo militar, a liberação total da expressividade também levou a exageros que confundem e estimulam crianças, adolescentes e adultos. O estímulo à sexualidade e à sensualidade exageradas acabam por banalizar o sexo com cenas que, quando não são bem compreendidas, estimulam a prostituição infantil, a gravidez precoce e elevam o número de estupros. O excesso de imagens com danças e roupas sensuais, infelizmente, levam cabeças “fracas” a pensar o pior ou a agir de forma agressiva com as pessoas, sejam mulheres, homens, homoafetivos ou crianças. Podemos e devemos nos expressar, temos liberdade para isso, além de pensarmos o que quisermos, mas devemos sempre respeitar alguns limites e manter mais atenção ao “como” as pessoas sentem ou sofrem as ações da mídia, dos meios de comunicação e de comportamentos excessivos, que podem estimular pessoas com instintos aflorados e pouca polidez. Infelizmente a frase “em cada cabeça, uma sentença” é verdadeira e homens que têm por histórico, por exemplo, desvalorizar mulheres ou ser agressivos com elas, acabam por se sentirem estimulados com essa exposição. É alarmante o número de mulheres que sofrem violências morais e físicas, que são violentadas por homens do seu convívio social, como tios, padrastos, primos, vizinhos, amigos etc. Quem tiver interesse pode pesquisar melhor esses índices nas delegacias da mulher, no IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) ou em estudos recentes que abordam esses temas. Claro que nada justifica esse comportamento, e a exposição na mídia está longe de ser a única causa. Também não temos nenhum estudo ou previsão de que diminuir o estímulo diminuiria a violência sexual, mas se acompanharmos a mídia em outros países, como nos Estados Unidos e em países europeus, podemosobservar que canais com conteúdos eróticos ou de violência são mais selecionados, nos quais é preciso pagar para ter acesso. O que pode dificultar o estímulo, principalmente às crianças, adolescentes e pessoas muito influenciáveis, que ainda não têm uma personalidade fortemente formada e nem uma ideia muito clara de suas escolhas ou do seu comportamento sexual. Não há dúvida de que com isso existem comportamentos maldosos e personalidades perversas e cruéis, mas teríamos que abrir um capítulo novo só para falar sobre psicose e perversão. Vamos resumir explicando por que essas pessoas são perigosas. Um sujeito que sofre de psicose acredita que suas próprias representações fantasiosas são reais. O psicótico não consegue ver o absurdo, por exemplo, da afirmação de ser um super-herói ou Jesus Cristo. O psicótico fica alheio à realidade, isto é, torna-se um alienado e perde totalmente a noção do que suas ações causam nas pessoas a sua volta. Quanto aos pervertidos, esses são tão ligados aos seus objetos de prazer (que pode ser uma criança, um adolescente, etc.), que se tornam impedidos de enxergar seu mau comportamento diante de crianças, por exemplo, ou quando percebem, não conseguem frear. Essas pessoas precisam ser tratadas de forma mais incisiva; não é apenas a consciência e a compreensão da Inteligência Relacional que vão ajudá-los. Nestes casos, precisam buscar na psicologia e na psiquiatria o controle de suas patologias. O que vale destacar é que em muitos países, principalmente naqueles que brigam por diferenças religiosas e culturais, os conflitos e guerras são fruto da incompreensão das diferenças. A intolerância com as diferenças culturais e religiosas torna o relacionamento entre as culturas tenso, cheio de ruídos e disputas, o que acaba por gerar “pré” conceitos, resistências entre estados, países, pessoas, religiões, classes e raças, e o pior, atentados violentos que vêm aumentando e chocando o mundo a cada ano. Lamentavelmente, radicais extremistas não mudarão seu comportamento simplesmente por entenderem que não é adequado ou honroso agir assim, como nós, seres humanos mais sensatos, inteligentes emocionais e menos radicais. Essa parcela doente e fanática que vem aumentando consideravelmente nos últimos anos precisa também de um tipo de intervenção mais firme, uma contenção, já que o seu comportamento ultrapassa o que julgamos ser sadio para o bem comum e a convivência social. Muitos cresceram e foram educados acreditando que morrer e matar são atitudes heroicas ou corriqueiras e infelizmente pouco podemos fazer por eles, a não ser nos protegermos e rezarmos para que passem a ver o mundo de uma forma mais humana e menos cruel. Enquanto não podemos ajudar diretamente o mundo todo, principalmente os povos em guerras religiosas ou envolvidos em embates violentos, que já estão cegos por suas crenças, vamos entender o que podemos ajustar dentro da nossa cultura, do que é possível fazer próximo da nossa realidade. Não precisamos ir muito longe. Os questionamentos podem ser observados no comportamento das pessoas que vivem em diferentes estados brasileiros. Algumas atitudes que são consideradas naturais em alguns estados são pouco usuais em outros. Por exemplo, a décima dica da letra C (capítulo anterior) fala sobre uma tendência muito forte em alguns estados brasileiros de encostar ou pegar nas pessoas enquanto está interagindo com elas. Nos estados do Norte e Nordeste, esse comportamento é muito natural e corriqueiro, já no Sul e Sudeste, é menos comum. Não há nada de errado nisso, são apenas diferenças culturais que intervêm no comportamento das pessoas, mas que em alguns momentos podem causar embaraço. Algumas pessoas podem se sentir incomodadas com o toque, enquanto outras não entendem por quê, já que o gesto tem o intuito de ser natural e carinhoso. De nada adianta dizer: – Nossa, essas pessoas são estranhas, elas são distantes e esquisitas, a gente pega nelas e parece que olham para a gente com cara de espanto. Ou: – Nossa, que gente estranha, eles ficam pegando e cutucando a gente enquanto conversam conosco. É interessante observar essas diferenças culturais. Pessoas que viajam bastante já devem ter ouvido essas duas frases em diferentes estados brasileiros, mas será que essas diferenças precisam ser encaradas como possibilidade de conflito relacional? Presenciamos essas e tantas outras diferenças comportamentais também no sotaque, nas roupas, na bebida, na comida. Aliás, a nossa diversidade culinária é sensacional. Acho que em nenhum lugar do mundo se come tão bem como no Brasil. O que importa é que, ao mesmo tempo em que temos liberdade de agir como aprendemos e como estamos acostumados, também devemos controlar os nossos impulsos e nos tornarmos mais adequados e adaptáveis, respeitando as diferenças e fazendo delas uma imensa oportunidade de aprendizado e crescimento. Ambientes diferentes que permitem essa troca divertida estimulam nossos sentidos, nosso raciocínio, nosso aprendizado e com certeza ajudam a polir e educar nosso comportamento. Ajudam-nos a fazer ajustes e a ter mais respeito pelas pessoas quando estamos diante do “diferente”, seja no mesmo estado, no mesmo país ou em qualquer outro lugar. A dificuldade de controlar o excesso de liberdade é uma das razões pelas quais temos tantas guerras e discórdias no mundo, porque as pessoas não conseguem aceitar as diferenças. Estão sempre tentando impor seus conceitos, suas próprias regras, seus limites, sua religião e sua conduta, como se todos devessem jogar sempre o mesmo jogo. Para termos relacionamentos mais justos e verdadeiros com as pessoas precisamos manter a cabeça mais aberta e menos preconceituosa, evitando manter um comportamento engessado e intolerante, o que causa discórdia e revolta. É por essas razões que ainda vemos pessoas agredindo homoafetivos, negros, deficientes mentais, prostitutas, etc. Isso se chama dificuldade de aceitar e lidar com as diferenças. Respeitar a liberdade de cada um e nos trabalharmos para mudar o conceito de que essas pessoas devem ser vistas como inaptas, incapazes ou desiguais é fundamental para nos tornarmos mais inteligentes na forma como nos relacionamos. A alta inteligência relacional prevê um mundo mais humano, com mais respeito às diferenças e aos valores. Um mundo com mais dignidade. Faltam discussões com esse tema, nas escolas, nas universidades, nas igrejas, nas empresas ou instituições que têm o claro objetivo de educar e otimizar o potencial das pessoas. É necessário desenvolver a sensibilidade de como devemos viver em sociedade, já que comprovadamente sabemos que somos seres sociais. Enquanto nada for feito, continuaremos abusando da nossa liberdade como uma imensa cegueira social, o que sem dúvida gera egoísmo, individualismo e falta de percepção do que devemos fazer para genuinamente trazer bem-estar e melhorar a qualidade de vida e de interação com os outros. O respeito a essa liberdade de opinião é parte integrante da CLASSE e precisamos desenvolver a nossa inteligência para podermos nos relacionar melhor, deixando de lado esse disparate como se só pudesse existir um único modelo cultural, religioso ou social, como se houvesse uma única forma certa ou correta de fazermos as coisas. Será que conseguiremos sacrificar nossa liberdade pessoal pelo bem comum? Será que conseguiremos respeitar mais quem está a nossa volta e nos livrarmos do preconceito, permitindo que o outro seja o que ele quer ser? Será que conseguiremos respeitar a opinião dos outros? Deixemos aqui esta excelente reflexão. Capítulo 8 A letra “A” de CLASSE - Atração “Uma vez que você acreditar que é emocionalmente forte, você inconscientemente atuará de maneira mais firme e assertiva e começará a assumir o controle sobre seus caprichos emocionais”. Senora Roy 3. Atração: está relacionada à forma como atraímos a atenção das pessoas e como elas captam as nossas ações, reações e sinais. Dependendo da forma como chamamos a atenção, seremos vistos como pessoas confiáveis,simpáticas, chatas, inteligentes, interessantes, bem ou mal-intencionadas, etc. Esse é um dos principais princípios da Inteligência Relacional: como queremos ser vistos e notados pelas pessoas; que impressão queremos passar e, também, como captamos a forma de ser das pessoas. Esse indicador nos leva a perceber como e por que escolhemos algumas pessoas para fazer parte da nossa vida e deixamos outras de lado, e também como e por que as pessoas nos “escolhem” para fazer parte da vida delas. Afinal, o que nos parece atraente, interessante ou desinteressante quando conversamos pela primeira vez com alguém? Imagine que você está em um aniversário e por acaso senta-se para conversar com uma pessoa que ainda não conhecia. Várias coisas vão passar em pouco tempo pela sua cabeça, como, por exemplo: “Eu seria capaz de ficar horas conversando com essa pessoa”, ou “eu preciso arranjar uma desculpa para sair daqui o mais rápido possível”. Certamente isso acontece ou porque você se identificou ou porque alguma coisa te incomodou. Por que isso acontece? Algumas pessoas parecem naturalmente mais atraentes para nós do que outras, por diversas razões: 1. por lembrarem pessoas das quais gostamos, tom da voz, cheiro, estilo, cabelo, maneira de se vestir ou de falar; 2. por nos identificarmos com suas histórias, valores ou por falarem alguma coisa com a qual nos identificamos; 3. por estarem em uma mesma situação de vida, filhos na mesma idade, mesma profissão ou passando por dificuldades/satisfações parecidas; 4. por se mostrarem atraentes ou admiráveis pela forma como se comportam, se vestem ou se comunicam; 5. por terem a mesma educação, valores ou serem da mesma cultura que você (isso acontece muito quando estamos em regiões distantes de casa e encontramos pessoas do mesmo país ou área geográfica); 6. por curiosidade, por serem famosos ou terem uma profissão de destaque, como atores, cantores, artistas; 7. por parecerem cativantes, interessantes ou bonitas; 8. por serem engraçadas e divertidas; 9. por contarem estórias curiosas sobre lugares, pessoas ou assuntos que nos interessam; 10. por terem o mesmo gosto musical, esporte, hobby, ou outras afinidades conosco; 11. por uma necessidade de nos sentirmos aceitos ou respeitados naquele lugar ou ocasião; 12. porque podemos ter visto na pessoa a possibilidade de ser um grande amigo ou até o homem ou a mulher de nossos sonhos, uma “paixão à primeira vista”. Existem diversas formas de nos aproximarmos e de estabelecermos bons vínculos com as pessoas e aprendermos muito com elas. Podemos sem dúvida nenhuma tirar um bom proveito das nossas relações. Quando não nos identificamos com nenhuma dessas coisas, as pessoas nos parecem desinteressantes e, consciente ou inconscientemente, nos afastamos delas. Nosso cérebro nos envia um sinal de que aquela pessoa é pouco atrativa para dedicarmos tempo a ela. Como já vimos anteriormente, a nossa conexão com as pessoas começa desde a nossa formação embrionária, pelo vínculo materno, e continua durante a infância e no decorrer de toda a vida. Precisamos de cuidados básicos enquanto bebês e acabamos por traçar paralelos fascinantes entre a maneira como formamos nossos apegos e nossa conexão com as pessoas, principalmente com aquelas por quem nos apaixonamos. Quando percebemos que os relacionamentos (amorosos ou não) nos oferecem aconchego e uma base segura, parece que nos acalmamos e reforçamos nossa energia para enfrentarmos os desafios. Por isso escolhas corretas e o cuidado com a atração, quando nos relacionamos, são fundamentais. Nosso corpo passa a agir de forma positiva, nos tornamos mais amáveis, mais compreensivos, como realmente ficamos quando estamos apaixonados. Podemos nos apaixonar por diferentes pessoas. Não precisa ser uma paixão amorosa ou sexual. Pode ser uma paixão pelo lado intelectual, pela forma carinhosa de ser da pessoa, pela paz que ela transmite, pelo afeto que tem pelos filhos, pais, irmãos, amigos e pessoas que são queridas para nós. Como e por que devemos nos mostrar encantadores para as pessoas? Porque vivemos em sociedade. Logo, a convivência amigável e os relacionamentos são fundamentais para a nossa vida pessoal e profissional. Quanto mais agradáveis, estimados e amados nos tornamos, mais retorno teremos em troca. As relações precisam ser uma troca positiva, mesmo que não sejam constantes. Não importa a frequência, mas a qualidade. É importante que o contato seja agradável. Precisamos desenvolver a capacidade de encantar, envolver, surpreender e admirar os outros e a nós mesmos, e, isso não deve ser feito de forma superficial ou mecânica, tem que ser natural e genuína. É por isso que precisamos começar a expandir a nossa CLASSE pela letra C, conhecendo a nós mesmos para entendermos como somos, como nos comportamos, observando, assim, quais atitudes podemos desenvolver de forma mais confortável e segura para nós. Só depois disso é que estaremos preparados para perceber a intenção das outras pessoas e passarmos a fazer escolhas melhores e que nos tragam menos problemas e mais felicidade. Precisamos pensar qual comportamento é confortante para nós, o que de positivo queremos absorver e como escolhemos encarar a vida. Apesar dos problemas que enfrentamos, podemos pesquisar mecanismos saudáveis para deixar a vida mais suave e singela, vivendo melhor, amando mais, curtindo cada momento. Nada melhor do que um sorriso para quebrar o gelo e iniciar qualquer conversa. Não custa nada e é uma linguagem absolutamente universal. Esse é um dos únicos gestos que em qualquer lugar do mundo quer dizer a mesma coisa. Um sorriso é sempre um sorriso. O importante é que seja verdadeiro. Não quer dizer que tenhamos de sair por aí abraçando as pessoas que nem conhecemos, ou distribuindo sorrisos e beijos na panificadora. Não é esse o intuito, mas devemos demonstrar mais carisma e altruísmo, para que possamos inspirar e influenciar as pessoas ao nosso redor. É muito frustrante quando entramos em um estabelecimento comercial e somos recebidos com mau humor ou de forma rude. O ambiente parece tenso, pesado e perdemos imediatamente a vontade de estar ali. Nada é mais constrangedor e nos oferece tamanha vontade de “sumir” do que ambientes que deixam claro que as pessoas estão ali sem nenhuma vontade ou por pura obrigação. É incrível como as pessoas que trabalham em lugares assim estão sempre carrancudas e frustradas e se acostumam com o clima pesado, competitivo, a ponto de nem conseguirem perceber, e menos ainda mudar. Normalmente esses estabelecimentos, quando privados, vão à falência, e quando se trata de órgãos públicos, logo são batizados de lugares inconvenientes, onde ninguém quer estar e que afastam as pessoas. Lá só vamos em caso de extrema necessidade. Tenho acompanhado empresas e pontos de vendas que estavam indo à falência, mas, muitas vezes, só o fato de mudar a forma de atender seus clientes, sorrir, ser educado, dar bom dia ou boa tarde, chamar as pessoas pelo nome, influencia o sucesso e a prosperidade do negócio. Atrair positivamente as pessoas pode mudar tudo, pois elas passam a sentir prazer de entrar e comprar ali. A atração não está só relacionada a contatos pessoais, mas a ambientes e empresas também. No final de tudo, o cliente dá valor à experiência gerada pelo relacionamento. É na forma de se relacionar com o mundo que as empresas se destacam. Elas devem ser atraentes para seus clientes, para seus colaboradores e fornecedores. Essa é a razão pela qual algumas empresas estão sempre entre as melhores: porque se preocupam em manter um bom relacionamento e ficam atentas ao que proporcionam aos outros. Querem ser vistos e lembrados de forma positiva por seus clientes e pelo mercado. Não podemos esquecer que os relacionamentos na percepção de valor do cliente, são muitas vezes mais importantes do que o próprio produto, até porque muitos são commodities (produtos padronizados, cujo preço não é definido pelo produtor, mas pelo mercado, como farinha, grãos, açúcar, metais eoutros). Precisamos nos preocupar com a forma como atraímos as pessoas e como podemos nos mostrar atraentes para as empresas também. A isso se atribuiu o nome de Marketing Pessoal, que é a arte de vender a si próprio. É claro que o nosso conteúdo e a nossa forma de ser sempre serão importantes, mas precisamos dar ao conteúdo uma “embalagem” convidativa. Quem conhece um pouco de vendas e marketing sabe o quanto as embalagens ajudam a vender o produto. Quantas vezes você já comprou um produto porque a embalagem lhe chamou a atenção por ser bonita ou parecer confiável? Se entrássemos em marketing e merchandising, teríamos muita coisa para falar, mas esse não é o propósito deste livro, então, vamos nos concentrar no que devemos fazer para nos mantermos atraentes e assim alcançarmos nossos objetivos pessoais e profissionais. Perguntas interessantes: 1. o que é atraente no comportamento de algumas pessoas e que você poderia trazer para o seu modo de ser e modificar algo legal em si mesmo? 2. o que você faz para chamar a atenção das pessoas de forma positiva? 3. como quer ser visto e que impressão quer passar aos outros? 4. como quer que os seus clientes e as empresas com quem se relaciona vejam você? Que tipo de profissional você é? 5. o seu comportamento pessoal transmite profissionalismo? 6. que imagem você quer deixar como legado? Se morresse amanhã, como gostaria de ser lembrado? Algumas pessoas acham que o comportamento pessoal não impacta no profissional. Será? Trabalhei anos com desenvolvimento de carreira e ouvi pessoas falarem: “Não importa para a empresa ou para os meus clientes o que eu faço na minha vida pessoal”. Questionável, não? A forma como nos comportamos interfere diretamente na nossa imagem e como queremos ser vistos e lembrados pelas pessoas. Pense neste exemplo: imagine se você fosse fazer uma cirurgia delicada e visse na noite anterior o seu cirurgião saindo completamente alcoolizado de um restaurante. O que você pensaria? Você não mudaria em nada a sua percepção sobre ele? Você estaria absolutamente tranquilo para fazer a cirurgia no dia seguinte? Um outro caso: um líder que você admira, que mostra um forte domínio sobre o time e um excelente conhecimento sobre a sua área de atuação, mas por acaso é visto por você batendo na namorada no estacionamento de um supermercado. O que você pensaria? No mínimo iria ficar um tanto decepcionado, não é? O seu conceito sobre ele não mudaria? A admiração ainda seria a mesma? Claro que todos temos defeitos, cometemos erros e não podemos sair por aí fazendo julgamentos precipitados sobre as pessoas, mas não há dúvida de que a forma como nos comportamos influencia diretamente a percepção que as pessoas têm sobre nós. Isso é fato. Hoje, com a vida exposta nas mídias sociais, acabamos tendo mais acesso ao que acontece com cada um. Não estou dizendo que você não possa se divertir, sair, ter vida social, amigos, etc. Todo mundo deve ter seus momentos de prazer e lazer, mas precisamos cuidar da nossa imagem e de como queremos ser vistos pelas pessoas, principalmente o zelo à imagem profissional. Sabemos que as empresas e os RHs vasculham as mídias sociais antes de contratar profissionais e, dependendo do que descobrem, desistem da contratação. Essa atitude se tornou uma prática, assim como a investigação de ações contra outras empresas ou comprometimento jurídico e inquéritos policiais. Provavelmente, neste momento, várias coisas estejam passando por sua cabeça e de nada adianta entrarmos em uma discussão polêmica se isso é certo ou errado. A questão é que faltam argumentos diante dos fatos. As atitudes e comportamentos falam mais alto do que qualquer palavra. Assim é desde o tempo dos nossos avós e continuará sendo por muitos e muitos anos, independentemente de concordarmos ou não. O que nos favorece é que o comportamento é uma escolha. Lembre-se de que já falamos sobre isso anteriormente e não estamos presos a ele. O comportamento pode e deve ser modificado, e aprimorá-lo é um forte indício de inteligência relacional e maturidade pessoal. O A de CLASSE nos leva a pensar: Como você quer atrair as pessoas e ser visto por elas? Qual é a imagem e o legado que você deseja deixar aos outros? As respostas a essas questões podem proporcionar a você um caminho brilhante rumo à vitória e ao sucesso. No mínimo, você definirá qual a imagem que quer passar e de que forma quer ser visto e lembrado pelas pessoas. O que quer deixar escrito na sua lápide? Aqui jaz......... que ...... porque ............ . Na minha eu quero: “Aqui jaz uma mulher que deixou o seu legado e fez as pessoas acreditarem que podem se tornar seres humanos melhores, mais inteligentes e mais felizes na forma como se relacionam, escolhendo melhor com quem dividir a sua existência.” Capítulo 9 A primeira letra “S” de CLASSE - Segurança 4. Segurança: está relacionada à forma firme como defendemos nossas ideias, princípios e valores, o que realmente acreditamos. Se soubermos defender nossos pontos de vista de maneira segura, sem uso da imposição ou agressão, facilmente conquistaremos a cooperação das pessoas. Não precisamos necessariamente concordar ou assimilar os valores de outras pessoas, nem elas os nossos, mas devemos respeitá-los para sermos respeitados. Se agirmos dessa forma, seremos certamente mais inteligentes relacionalmente. Além disso, só conseguiremos trazer as pessoas a pensar como nós se soubermos usar a persuasão de forma positiva, sensata e segura. Já temos a compreensão de que na vida e no mundo corporativo manter bons relacionamentos é fundamental, e para isso precisamos ter clareza de quais são as nossas crenças e a partir disso descobrir a melhor forma de defendê-las. Só assim seremos respeitados e poderemos respeitar sentimentos e pensamentos diferentes dos nossos. Há alguns anos li um livro sobre educação infantil que ressaltava a importância de preparar nossos filhos para serem atores sociais e não espectadores passivos. Essa questão me fez refletir profundamente sobre a importância que temos como pais, educadores e líderes em colaborar com a possibilidade de reforçar e estabelecer a segurança e a autoestima das pessoas. A influência que temos sobre elas, os valores que passamos e a forma como as educamos pode levá-las a ter uma boa autoestima e a respeitar ou não a opinião e as considerações dos outros. Alguns pais, líderes e educadores acreditam que as pessoas não devem questionar suas ordens. Não permitem que debatam seus pontos de vista e seus princípios, o que acaba por criar seres humanos dependentes, inseguros e sem opinião. Debater e questionar são formas primorosas de estimular o raciocínio, a astúcia, o poder de argumentação, o humanismo e a segurança dos nossos filhos e das pessoas com quem convivemos. Recentemente, conversando com minha filha (que trabalhou em uma das empresas de Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico da América do Sul e um dos donos do Burger King, Heinz, Kero, Budweiser e outras marcas presentes na sua mesa todos os dias), sobre como o bilionário brasileiro deixa claro que prefere pessoas que criem algum problema por quererem andar sozinhas, em vez daquelas que esperam por ordens. “Não gostamos de soldados disciplinados que só vão seguir ordens”, diz. Sendo assim, entendemos que pessoas que sabem o que querem, têm brilho nos olhos e energia para realizar são realmente essenciais. Pessoas e profissionais que querem se destacar precisam aprimorar sua comunicação e a forma de argumentar e defender ideias. Muitas pessoas apresentam baixa resiliência (capacidade de se recuperar de uma crítica ou objeção), ou baixa capacidade para persuadir, não só porque se mostram mais inseguras, mas também porque não foram ensinadas a defender seus pontos de vista com firmeza e convicção. Não lhes deram o “espaço” necessário para questionar, pontuar ou defender o que acreditam. Muitas vezes vemos pessoas se comportando de forma agressiva ou rígida, porque não aprenderam a negociar, apenas a impor suas ideias ou seus desejos,sem entrar em um acordo que possa ser favorável aos dois lados. Algumas pessoas não conseguem se defender de forma assertiva e segura ou não conseguem se colocar no lugar dos outros para poder entendê-los e consolidar soluções aceitáveis para os dois lados, logo falaremos sobre a importância da empatia na vida pessoal e profissional. A baixa autoestima e a baixa segurança são características que normalmente se formam na infância. Infelizmente não existe manual que ensine aos pais a como preparar emocionalmente as crianças, aliás, na maioria das vezes, acabam por repetir o que aprenderam com seus pais, mas existem algumas atitudes que, quando tomadas, ajudam as crianças a se preparar melhor para os desafios que a vida impõe. Por exemplo, frases como: “engula esse choro”, “cale a boca”, ou ainda, “você não serve para nada” são colocações pejorativas que só levam a experiências de incompreensão e frustração. A criança vai deixando de se expressar e passa a acreditar que manifestar sentimento é inadequado ou errado. Existem vários estudos e livros com dicas muito legais sobre como encorajar nossos filhos a ser uma pessoa mais sensata e segura, mas são poucas a se preocupar verdadeiramente com isso, o que é uma pena para a sociedade e para o crescimento do nosso país. Reforçar a autoestima e a segurança dos nossos filhos pode ajudá-los a empreender mais, acreditar em suas habilidades e a ousar em proveito de soluções e desafios nunca tentados, o que, de fato, muda o mundo. As crianças que são amadas, queridas e sentem menos medo e sensação de abandono tornam-se mais seguras em seus relacionamentos, não se retraindo nem se apegando demais. No entanto, as pessoas cujos pais negligenciam seus sentimentos e que se sentem ignoradas tendem a adotar um estilo evitativo, como se estivessem desistindo da esperança de encontrar um amor sincero, e as crianças cujos pais são ambivalentes, oscilando entre raiva e ternura de uma hora para a outra, tornam-se ansiosas e inseguras. Claro que as crianças também precisam de limite, pois muitas vezes realmente “passam do ponto”, e nada funciona melhor do que limites bem definidos para moldar uma personalidade saudável. Criatividade, firmeza e amor são fundamentais. É necessário permitir a expressividade, dar espaço para que a criança experimente suas emoções e sentimentos, mas também é preciso que exista direção e limite. Os excessos precisam ser evitados de forma justa e firme, correspondente com a faixa etária de cada criança. Nada de punições severas ou qualquer tipo de violência no trato aos pequenos. Alguns educadores defendem que o castigo deve ter o tempo proporcional à idade da criança. Por exemplo, se ela tem três anos, são três minutos de castigo sem sair daquele lugar ou falar com ninguém da casa. Veja abaixo algumas outras dicas e se quiser saber mais, procure artigos e livros sobre esse tema, você vai encontrar informações interessantíssimas. Sabemos, claro, que o equilíbrio entre essas duas vertentes é difícil de encontrar. Alguns pais são permissivos demais, outros exigentes demais. A fronteira entre essas duas questões é difícil, mas pode ser encontrada. No livro Inteligência emocional – A arte de educar nossos filhos, de John Gottman e Joan Declaire (p. 79), os autores destacam alguns passos que, quando seguidos, ajudam a preparar emocionalmente as crianças e que podemos estender para as pessoas de modo geral. Eu li, resumi e exemplifiquei: 1. ajude-os a perceber e a entender o que estão sentindo; 2. reconheça a emoção como uma oportunidade de intimidade e transmissão de experiências. Conte à criança que você também sente ou já sentiu aquilo, como medo de barulhos estranhos na casa, por exemplo, ou emoções como tristeza e raiva; 3. escute com empatia para legitimar e respeitar os sentimentos; 4. ajude a nomear e verbalizar as emoções; 5. determine limites e, ao mesmo tempo, ajude a resolver seus problemas. Essas são algumas formas que nós, pais, educadores, terapeutas, coaches e líderes deveríamos trabalhar para preparar emocionalmente nossos filhos, clientes ou colaboradores. Depois que alguns sentimentos já estão cristalizados é mais difícil de serem modificados, mas enquanto a personalidade está sendo formada, é fundamental que a criança perceba que pode, de forma segura, sem birra, expor suas emoções e sentimentos. Nossa infância nem sempre deixa marcas saudáveis, mas sem dúvida imprime sentimentos fortes no nosso “sistema de apego”, e que vem à tona cada vez que nos relacionamos, principalmente nas relações afetivas e nas ligações românticas, e essas impressões têm consequências marcantes na forma como agimos com nossos parceiros. Um psicólogo da Califórnia, Philip Shaver, liderou uma pesquisa sobre “apego e relacionamentos” e classificou os grupos estudados em adultos seguros, ansiosos ou evitativos. Ele descobriu que as pessoas seguras iniciam um relacionamento esperando que seus parceiros sejam disponíveis e sintonizados, que estejam ao seu lado nos momentos difíceis, e tendem a agir assim em relação ao outro. Geralmente veem os relacionamentos como confiáveis e acreditam nas intenções do parceiro. Por outro lado, os adultos mais ansiosos e inseguros em seus relacionamentos são mais propensos a achar que seus parceiros não os amam o suficiente ou não querem ficar ao lado deles. Tendem a gerar uma dependência tão apreensiva e uma necessidade tão intensa de reafirmação que, sem querer, acabam afastando o parceiro. É bastante contraditório e sofrido para eles, porque, ao mesmo tempo que se sentem indignos de amor, também tendem a idealizar seus parceiros românticos. As pessoas mais inseguras tendem a ser mais carentes e sentem receio do abandono, apresentando sinais de “dependência amorosa e emocional”. Tornam-se hipervigilantes, mais controladoras, mostram ciúmes excessivos e podem criar casos imaginários, achando que o parceiro as está traindo. Muitas vezes transferem essa mesma preocupação para as relações futuras. Os adultos do tipo evitativo são aqueles que procuram fugir das relações. Eles não se sentem à vontade em situações que levem à proximidade emocional. Mostram dificuldade de confiar no parceiro e compartilhar emoções e ficam nervosos quando o parceiro deseja maior intimidade emocional. Evitam o envolvimento, suprem e sufocam o próprio sentimento por medo de sofrer. Acham que o parceiro não é digno de confiança e têm dificuldade em manter relacionamentos. O tipo ansioso e o evitativo têm um ponto em comum: a rigidez. A sugestão é que busquem ajuda ou uma psicoterapia para lidar melhor com isso e quebrar esse padrão de funcionamento, porque, quando um dos parceiros é seguro, ainda é possível que o relacionamento se mantenha com poucos conflitos e crises, mas quando os tipos evitativos ou ansiosos se juntam, tendem a ficar mais propensos a brigas e separações e vão precisar de mais manutenção e cuidado nesses relacionamentos. Afinal, apreensão, ressentimento, angústia e mágoa são contagiosos. De fato, certo grau de ansiedade é o que pagamos pela verdadeira intimidade emocional. Isso é comum nos relacionamentos para qualquer pessoa, pois nos apegamos, amamos, logo, sofremos quando nos desentendemos. Vale lembrar que os estilos são moldados em grande parte na infância, mas se forem aprendidos podem ser modificados, principalmente se tiverem uma experiência positiva e um relacionamento reparador. Fortalecer e reforçar a segurança e a autoestima da criança fará com que mais tarde seja capaz de defender com mais firmeza e convicção o que acredita, tornando-se uma pessoa e uma profissional mais madura e focada em suas crenças. Defendo que muitos dos “bons líderes ou vendedores” já vêm pré-formados de casa. Entre as fortes capacidades que definem personalidades determinadas e seguras está a assertividade, para defender pontos de vista, a segurança e autoestima, para lidar com objeções, e a empatia, para entender necessidades individuais. Essas características são formadas na infância. Ser emocionalmente madurosignifica ter capacidade para reconhecer e identificar as próprias emoções e as do outro. Essa experiência só acontece à medida que permitimos que os sentimentos se manifestem desde a infância. O problema é que muitas vezes os pais ou líderes não sabem lidar com as próprias emoções e, por medo de se descontrolarem, acabam por inibir qualquer possibilidade de expressão de emoção ou sentimento aos outros. Ignorar sentimentos como raiva, medo, ciúmes, escondendo o que se sente ou o que se deseja, acaba por limitar a oportunidade de lidar de forma positiva com as emoções negativas ou as frustrações. Negar e fingir que não existem só dificulta a experimentação das emoções que são naturais e aparecerão repetidas vezes na nossa vida. Para ilustrar essa questão, vou contar sobre uma paciente que atendi há alguns anos no consultório. Ela tinha uma imensa dificuldade de expressar suas emoções. Quando começava a se emocionar ao relatar um fato, logo parava, respirava fundo e segurava o choro. Tentei encorajá-la algumas vezes a colocar para fora, mas ela sempre dizia: “Minha mãe me treinou a engolir o choro e é isso que faço até hoje”. Quando seus filhos começaram a ter problemas comportamentais, na escola, como brigar com amigos, chutar e mostrar atitudes emocionalmente descontroladas, ela percebeu que eles estavam buscando alguma forma de externar o que sentiam, porque ela nunca permitiu que demonstrassem nenhum tipo de emoção em casa, nem mesmo ciúmes, ira ou raiva. Procurou a psicóloga escolar, que atendeu as crianças, e esta encaminhou a mãe para o meu consultório. Durante o processo, ela foi descobrindo que as emoções precisam ser experimentadas, sem dose exagerada, mas não podem ser reprimidas ou ignoradas. Certa vez ela me disse que leu isso em um livro e que caiu como uma luva: “Me sinto como se tivesse em um avião com meus filhos sentados ao lado. Sei que em caso de turbulência preciso primeiro colocar a máscara em mim, e depois nas crianças”. Sábia constatação. Ela entendeu que precisava aprender a exibir suas emoções de forma saudável e equilibrada, para então poder ensinar e permitir que suas crianças fizessem o mesmo. É natural que os pais cometam erros, é um “ensaio e erro” para tentar acertar, contudo, alguns cuidados são fundamentais para que possamos estruturar a nossa vida e para criarmos filhos com segurança e autoestima mais fortes. Fique atento a essas situações: 1. os sentimentos fortes podem e devem ser expressados e administrados. Permita que seus filhos demonstrem raiva, medo ou outros sentimentos negativos, mas sem extrapolar. Esses sentimentos existem e devem ser sentidos, mas precisam ser controlados. Não pode deixar seus filhos quebrarem a casa, mas pode permitir que expressem suas emoções e falem sobre o assunto. Deixe que chorem um pouco e contem como a situação lhes fez mal ou os incomodou. 2. evite sarcasmo, desprezo e comentários que desmereçam ou intimidem a criança. Chamar a atenção e diminuí-las na frente dos outros só vai jogar sua autoestima para baixo e criar problemas maiores, como rebeldia, raiva e afastamento. 3. seja específico com a criança e deixe claro que não aprova tais comportamentos caso ela tenha “passado dos limites”. Ela precisa entender que isso afeta os pais, as pessoas e o ambiente como um todo e que pode se expressar, mas de forma controlada. 4. entenda como “passar dos limites” a criança que desrespeita e responde aos pais, bate, se joga no chão, grita, se recusa a comer, joga coisas nos outros, xinga etc. Esses comportamentos não devem ser reforçados. Pelo contrário, olhe firme para a criança, sem gritar, com um tom de voz claro e seguro, e explique que esse comportamento não é adequado, que não vemos as pessoas se jogando no chão nem batendo nos outros nas ruas ou nos ambientes que frequentamos, como restaurantes, supermercados, igrejas, e que isso não é um comportamento aceitável e não deve mais se repetir. 5. fique atento a sua raiva e à forma como você se expressa quando for brigar com a criança. Se sentir que pode agredi-la física ou verbalmente espere um momento melhor. Procure se acalmar, e, no momento em que puder ter uma conversa mais tranquila, que leve a um nível de compreensão e retidão, então prossiga. Escute o que a criança tem a dizer e só depois continue falando, mas não deixe de ter esta conversa; se deixar a situação “esfriar” você estará sendo conivente com o erro e perderá o momento certo de fazer a correção; 6. castigos exagerados, palmadas que machucam, comentários pejorativos e ameaças sempre devem ser evitados. Se quiser dar- lhe um castigo realista ou agir de forma corretiva, faça algo coerente com a idade da criança, como: tire um brinquedo de que ela gosta muito e guarde-o por um tempo; no dia da birra, deixe de ir a algum lugar de que ela goste, como parquinho ou casa de amigos; cancele o hambúrguer ou o sorvete daquele fim de semana; faça com que devolva o que pegou emprestado do amigo sem pedir; faça a criança pedir desculpas caso tenha batido, empurrado, gritado com alguém etc. Você, como educador, evite bater, gritar e ridicularizar a criança, principalmente na frente dos outros. São comportamentos que só levam a mais violência e menos autoestima. Lembre-se de que caso sinta remorso de algo que tenha feito, se tiver perdido a cabeça com seu filho em algum momento, não tenha medo de pedir perdão. Após os quatro anos de idade, a criança é capaz de entender esse conceito e, ao fazê-lo, vai ensinar que perdoar é um ato de amor e que não deixamos de amar porque eventualmente brigamos, nos desentendemos ou cometemos erros. Além de ser um processo de evolução para os pais, por saberem trabalhar melhor a própria emoção, também ajudará a criança a lidar de forma mais saudável com conflitos futuros e certamente vai reforçar sua segurança. Além de manter um relacionamento saudável entre vocês, seu filho entenderá que deve respeitar você e as pessoas com quem vai se relacionar mais tarde, por entender que podemos errar, consertar e perdoar. Embora o processo de aprendizado e de conscientização das emoções dure a vida inteira, reconhecer, expressar e falar sobre sentimentos sem dúvida permitirá que as pessoas se sintam mais aptas e confortáveis para trazerem suas emoções à tona e aprenderem a controlar e a lidar melhor com elas. O exercício desse aprendizado, além de reforçar a segurança, também ensina as pessoas a enfrentar problemas e a tomar melhores decisões. Quando compreendemos que é normal termos dúvida e sentimentos contraditórios, aprendemos que o processo de solução de problemas também acontece em partes e sempre levanta mais de um caminho e várias possibilidades ou alternativas de resolução. No tempo em que vivi na América do Norte, constatei que os americanos de modo geral lidam muito bem com o ato de encontrar soluções. Eles ensinam as crianças desde cedo a levantar hipóteses e alternativas possíveis e viáveis para chegar à resolução de um problema. Por exemplo, se cada criança quer fazer uma atividade diferente, mas ao mesmo tempo querem brincar todas juntas, eles pensam em soluções possíveis e ensinam as crianças a fazer matriz de priorização. Fazem uma lista e depois uma votação para organizar a ordem das brincadeiras, ou sorteiam as brincadeiras e decidem sua ordem. Enfim, pensam em como devem agir para resolver um problema ou um conflito, e assim podemos fazer com todos os embates que temos no nosso dia a dia. Todos nós nos lembramos de situações que trouxeram emoções contraditórias. Por exemplo, a primeira vez que viajamos sem os nossos pais. Certamente estávamos empolgadíssimos, ou por ser uma excursão da escola, um acampamento da colônia de férias, uma temporada na casa dos avós, enfim, não importa onde foi, mas é sempre um turbilhão de sentimentos. Ao mesmo tempo em que ficamos superalegres e com grande expectativa, também sentimos aquele frio na barriga e ficamos inseguros. Não sabíamos como seríamos tratados, o que faríamos se sentíssemos fome ou saudade de nossos pais, se olugar seria mesmo divertido e seguro. Surgiam várias dúvidas e interrogações. O fato é que quando experimentamos essas situações desde cedo e aprendemos a lidar com situações contraditórias, enfrentando e entendendo que são normais, conseguimos trabalhar melhor as decisões que teremos que tomar na vida adulta. Passamos a compreender que, quando o processo decisório é dividido em etapas, fica mais fácil resolvê-lo. Sendo assim, procure sempre: 1) identificar objetivos ou questões; 2) analisar os fatos ou os problemas; 3) procurar por possíveis soluções; 4) avaliar as alternativas; 5) escolher uma ou mais soluções; 6) desenvolver um plano de ação; 7) levantar o que é necessário para implementar; 8) tomar a decisão e agir. Parece complicado, mas se analisarmos qualquer situação é fácil perceber que agimos dessa forma na maioria das vezes. Quando aprendermos essa “fórmula”, com o tempo vamos automatizando esse processo e passamos a realizar essas ações rápida e automaticamente. Ensino essa “regrinha” aos meus clientes de coaching, e dessa forma conseguem solucionar seus problemas e alcançar seus objetivos, ou seja, existem formas de encontrar soluções para conflitos e problemas, sejam eles profissionais, pessoais ou emocionais. O que precisamos lembrar é que as soluções e sentimentos não devem ser reprimidos e sempre que conseguirmos identificar um problema seremos capazes de resolvê-los da melhor forma possível, mesmo que envolvam sentimentos negativos. Como falamos acima, de nada adianta dizer à criança: “pare de chorar” quando ela está triste, com medo ou com raiva. Isso só vai deixá-la confusa, pois não vai entender o que sente e vai acreditar que os sentimentos precisam ser reprimidos. O medo ou a tristeza não vão passar, e ela não saberá como deve expressar seu sentimento, o que só causará insegurança e frustração. Por outro lado, se dissermos à criança que ela tem o direito de sentir, mas deve controlar seu choro, sem que precise gritar, se jogar no chão ou fazer escândalo, ela entenderá que há outras formas de expressar o que sente e ficará com a segurança e a autoestima mais fortes, o que pode reforçar sua personalidade e garantir um comportamento mais firme e decidido no futuro. O limite não deixa de ser fundamental e as crianças responderão de forma positiva se você negociar com elas e aplicar as consequências combinadas sobre suas ações. Se, por exemplo, você combinou que, se ela insistisse em querer dormir na casa do amigo, não andaria de bicicleta no dia seguinte, a bicicleta terá que ser confiscada. Dar “brecha” à regra ou ser complacente com o castigo vai ensiná-la que regras foram feitas para ser quebradas e não cumpridas, além de causar insegurança por falta de parâmetros. Por outro lado, se as mantiver firme, a criança entenderá que regra dada é regra mantida e aprenderá que existem causas e consequências para suas ações, o que fará com que se torne um indivíduo mais maduro e consciente de suas ações. É importante não flexibilizar a regra por sua conveniência. Se não pode comer doces antes do almoço, isso tem que acontecer de segunda a segunda. Dependendo da idade da criança, ela ficará confusa se puder um dia e não puder em outro, mesmo que isso aconteça só nos fins de semana. Não será fácil para ela entender por que às vezes pode e às vezes não. Então, o ideal é que a regra definida seja mantida. Quando ela entende isso, nem questiona mais. Regra é regra e acabou. Quando impomos regras que a criança entende, ela se sente mais protegida, passa a se comportar melhor e percebe que pode ter os pais como aliados, justos e protetores, que podem ajudá-la a tomar decisões mais seguras e consistentes em qualquer momento da vida. Isso também acontece conosco. Não somos mais crianças, mas ao entender que podemos expressar e controlar nossos sentimentos, que dúvidas e problemas podem ser resolvidos quando pensamos em soluções e estabelecemos passos para resolvê-los, ficamos mais tranquilos, seguros e podemos defender com mais firmeza e convicção nossos valores e no que acreditamos. O sentimento nunca é um problema. O problema são os comportamentos e as atitudes, a forma que escolhemos agir para resolver um problema. Tudo depende das nossas escolhas. Existem maneiras seguras e equilibradas de fazer isso, mas se optarmos pela violência, agressão, incompreensão ou imposição, sempre será mais penoso ou difícil, além de trazer mais sofrimento. A pena de nós mesmos e o sentimento de “vítimas do destino” também só pioram o processo e pouco ajudam na solução. Para aprimorarmos a segurança, a forma de se posicionar e defender ideias são necessários trabalhos como coaching, terapia ou demais processos de crescimento e desenvolvimento. Também sugiro algumas ações que desenvolvo com meus clientes de coaching e que trazem excelentes resultados: treine expor suas ideias e peça a avaliação de pessoas que admira e que serão honestas ao lhe prover feedbacks; filme suas apresentações para que possa observar seu tom de voz, postura, expressão facial e presença de “palco”; prepare-se para suas apresentações, estude, planeje, procure pensar em possíveis objeções que pode receber de seu expectador; faça os passos que sugerimos acima, quando for tomar decisões, procure planilhar soluções e alternativas para resolver questões e problemas. Pratique, prepare-se e assimile que pode encontrar soluções viáveis e seguras. Faça ajustes no seu comportamento e torne-se um mestre nos relacionamentos. Todos sairemos ganhando, quando entendermos que precisamos respeitar mais as pessoas, regras, autoridades, leis, princípios e valores. Esse comportamento aumenta nossa segurança e nos permite defender nossas convicções, respeitando diferentes pontos de vista, o que favorece relacionamentos, negociações e acordos pessoais e profissionais. Por isso o S de CLASSE é tão importante. Faz com que nos tornemos profissionais e seres humanos melhores, mais seguros e com uma autoestima mais consistente. Capítulo 10 A segunda letra “S” de CLASSE - Sabedoria “Só a experiência própria é capaz de tornar sábio o ser humano.” Sigmund Freud 5. Sabedoria: essa habilidade é a arte de colocar em prática tudo o que aprendemos no decorrer da vida, captando as informações mais sutis. Tudo o que sabemos e conhecemos pode e deve ser usado ao nosso favor, e a forma como empregamos as palavras, o conhecimento, o comportamento e os movimentos são essenciais para o aprendizado e para percebermos melhor as pessoas a nossa volta. Essa característica está associada à nossa sensibilidade social, o coeficiente que possuímos para nos posicionar socialmente e para percebermos melhor as pessoas e suas reais intenções. Assim podemos trazer para nós pessoas boas e filtrar aquelas que podem prejudicar-nos. Pode parecer complexo, mas não é, vou explicar. Vamos aprender de que forma podemos perceber melhor os sinais sutis e evitar a insensibilidade social nossa e dos outros. Algumas pessoas têm o dom de dizer coisas tão impróprias, deselegantes ou rudes, demonstrando tão pouca percepção do ambiente e do contexto imediato que podem ser consideradas insensíveis sociais e tóxicas para os outros. São pessoas que não sabem usar o seu conhecimento de forma adequada, pelo contrário, muitas vezes são bem inteligentes, mas usam de sua astúcia para diminuir outros. Utilizam o “poder do conhecimento” para prevalecer e mostrar que sabem mais. Já sabemos que existem várias formas de inteligência e pode ser que essas pessoas realmente se destaquem em alguma área do conhecimento, mas ninguém é expert em tudo. Precisamos aprender como devemos usar de forma leve e positiva o conhecimento, as informações e principalmente a comunicação verbal e não verbal, que são os melhores caminhos para se transmitirem informações às pessoas. Essa descoberta vai nos proporcionar uma vida melhor, mais equilibrada, e nos tornar excelentes captadores de bons relacionamentos a cada dia. Conheço muitas pessoas que não percebem que excedem em seu comportamento, não dão atençãoà necessidade dos outros, falta-lhes sabedoria relacional. Por exemplo, às vezes estamos falando com alguém e damos vários sinais claros de que estamos atrasados ou com pressa e as pessoas ignoram nosso comportamento e continuam falando. Não adianta olharmos no relógio, andarmos mais rápido, nem mesmo falar que precisamos ir ou caminhar em direção à porta. Algumas pessoas continuam andando conosco e falando como se ignorassem o que acabamos de dizer. Essa tendência, na verdade, é um indicador de “dislexia social”. Esse termo não foi criado por mim, mas por Goleman. Ele cita exemplos interessantes de pessoas assim no seu livro: “FOCO – A atenção e o seu papel fundamental para o sucesso”.23 O contrário da dislexia social é a intuição social, quando decodificamos a mensagem que o outro está nos enviando e a compreendemos. Fazer o uso adequado da linguagem e da percepção não verbal é um sinal de inteligência relacional. Estabelecemos essa linguagem sempre que interagimos com as pessoas e se estivermos atentos a esses sinais podemos ganhar muito quando estamos conhecendo pessoas novas, em entrevistas de emprego ou em uma negociação importante. Podemos ser mais bem aceitos pelas pessoas à medida que ficamos atentos aos seus sinais. As pessoas falam com o corpo, com os gestos, com o olhar. Comunicamo-nos desta forma o tempo todo. Quando desenvolvemos nossa sensibilidade social nos tornamos captadores de pistas sutis que podem guiar a forma como nos comportamos. O melhor de tudo é que essa habilidade pode ser desenvolvida quando damos mais atenção ao que está a nossa volta e à reação das pessoas com quem nos relacionamos. Certa vez fui com uns amigos que trabalhavam no Bank of America fazer uma visita para conhecer a estrutura e matar a curiosidade de onde ficava a bolsa de valores, as instalações e as áreas internas do banco. O prédio é espetacular, uma vista linda, todo envidraçado, com um pé direito incrível. Fica no centro/uptown, em Charlotte, na Carolina do Norte. Pois bem, a maioria das pessoas já tinha ido embora quando chegamos. Era um final de tarde lindo, o sol já estava se pondo e ainda dava para ver o toque amarelado no horizonte através dos vidros. Diante daquele espetáculo da natureza, em sintonia com a modernidade do lugar, parei para observar as mesas, as ilhas de trabalho de cada pessoa. Consegui perceber quem era organizado, quem estava resfriado, quem gostava de café, quem era friorento, etc. E como? Mesmo sem que as pessoas estejam presentes, se dedicarmos um pouco de tempo e atenção conseguimos captar informações sobre elas, às vezes, em suas necessidades mais internas. Bastou observar a mesa mais arrumada, a que estava com uma caixa de lenço de papel e o lixo abarrotado de lencinhos, a imensa caneca térmica de café sobre uma das mesas e o casaquinho nas costas da cadeira de outra. Claro que isso demanda treino e atenção para aprender, e algumas pessoas têm mais habilidade para reparar nisso do que outras, mas é sem dúvida uma característica que podemos otimizar se quisermos entender melhor as pessoas. A clareza começa a acontecer quando percebemos o que não notamos – e não notamos que não notamos. Aprimorar o radar social pode nos tornar mais sensíveis para percebermos sinais sutis nas pessoas, como um levantar de sobrancelha, a dilatação da íris, o lacrimejar dos olhos, o chacoalhar das pernas ou pés, braços cruzados, etc. O desenvolvimento dessa habilidade nos torna socialmente perspicazes, capazes de sentir quando não devemos tratar de assuntos delicados, quando alguém precisa ficar sozinho ou quando palavras de conforto seriam bem- vindas. Um olhar treinado para as pistas sutis oferece vantagem em muitas áreas da vida, principalmente em negociações. Nosso próximo livro sobre “Inteligência Relacional em Vendas” vai abordar isso melhor. A diretora do Instituto de Interação Humano-Computador da Universidade Carnegie Mellon, Justine Cassell, coordenou interessantes pesquisas sobre “movimentos sutis” e afirma que “os gestos sempre ocorrem pouco antes da parte mais enfática do que estamos dizendo”. O timing do gesto fornece a interpretação de seu significado. Com o timing errado, uma declaração positiva pode ter um impacto negativo. Por isso alguns políticos podem parecer falsos em suas argumentações, porque não são naturais e não conseguem repetir o timing correto. O fato é que tudo em que prestamos a atenção nas pessoas nos gera significados, em níveis conscientes ou inconscientes, e não conseguimos não criar algum sentido a partir do que alguém nos diz. Devemos treinar mais para fazer interpretações mais corretas e adequadas do que as pessoas nos dizem ou estão tentando nos dizer através de sinais, gestos ou movimentos. Sabemos que o uso adequado do comportamento-espelho acaba gerando empatia e aceitação nas pessoas. A descoberta recente do neurônio-espelho foi tão instigante, porque confirma o que de forma empírica já sabíamos, que quando as pessoas repetem nossos gestos ou comportamentos, nós as aceitamos melhor. Mesmo que seja de forma inconsciente, acabamos criando maior empatia com a percepção da semelhança. Logo falaremos da letra E de CLASSE, a empatia, que pega carona na importância da sabedoria para o exercício e desenvolvimento da sensibilidade social e relacional. Essa habilidade nos permite também melhorar a percepção do comportamento das pessoas para que possamos criar escudos relacionais e melhor entendermos quem são os anjos (sensíveis relacionais) ou os vampiros (impróprios ou insensíveis relacionais) que surgem na nossa vida a todo o momento. Daniel Goleman deixa claro que as pessoas capazes de manter controle sobre seus impulsos e sentimentos conseguem passar emoções positivas aos outros. Aqueles que têm um comportamento amigável eu denominei de pessoas-anjo. Os anjos são pessoas que aparecem quando menos esperamos e nem sempre ficam por muito tempo na nossa vida, mas deixam uma impressão positiva inigualável. São sensíveis relacionais e são aqueles que somam e aparecem para nos tornar pessoas melhores: Ajudantes: sempre dispostos a prestar auxílio, parece que nasceram para ajudar os outros. Se precisarmos de um ombro amigo ou de ajuda na mudança eles terão o maior prazer em estar conosco; Aprendizes: parecem estar sempre atentos ao que temos a dizer e querem aprender com tudo. Geralmente gostam de ouvir histórias e nos ajudam a liberar a criatividade; Positivos e otimistas: sempre veem o lado bom das coisas, por mais trágicas que pareçam. São agradáveis e tranquilos para se conviver e acreditam que o final sempre acaba bem. Dizem: “Se ainda não deu certo, é porque não acabou”! Incentivadores: quando contamos uma ideia, eles dão sugestões interessantes, que podem aprimorar nossa criação. Colocam “pilha” para que sigamos em frente; Estudiosos: falam com sabedoria e saem com frases ou palavras brilhantes; dá vontade de anotar o que dizem para não esquecer. Nos encorajam a planilhar, planejar e pensar antes de fazer; Inteligentes: estão sempre pensando em soluções e estratégias interessantes e podem contribuir com inovações e ajudar-nos em nossas decisões, pois contribuem com sacadas sensacionais; Honestos: é uma desonra para eles enganar, roubar ou mentir. Podemos confiar e entregarmos a “chave do cofre” para eles. Bem-humorados: estão geralmente sorrindo e deixam o ambiente mais leve, acordam de “bem com a vida”. Divertidos: piadistas naturais, são engraçados e geralmente fazem todos rirem com suas brincadeiras e palhaçadas; Dinâmicos: parece que estão sempre com a bateria carregada, não sentem preguiça de fazer as coisas e procuram estar sempre em atividade. Geralmente fazem mais de uma coisa de cada vez. Em contraponto, àqueles que se comportam como se fossem o centro das atenções, são egoístas, egocêntricos, interesseiros e carentes de consideração pelos outros, chamamos de vampiros emocionais. Eles impõem egoisticamente seus interesses aos dos outros, abusam da educação alheia, pedindo favores impróprios às pessoas, e ainda falam coisassem se preocupar com o impacto que causam. Normalmente, o vampiro emocional tenta humilhar ou desqualificar os outros e, para piorar, esconde-se atrás de justificativas e pretextos para demonstrar o seu ponto de vista e “provar” que está correto ou agindo para o bem alheio. É claro que pode haver casos em que a personalidade do vampiro emocional não é experimentada conscientemente. Alguns vampiros emocionais não são capazes de perceber que se comportam assim, e não estão cientes dos efeitos negativos de suas ações sobre as pessoas ao seu redor24. Os vampiros emocionais são indivíduos que se alimentam da energia emocional dos outros, são suscetíveis a manipular emocionalmente suas “vítimas” para atingir seus objetivos. Eles se aproximam das pessoas para exteriorizar a sua negatividade e se aproveitar do poder do seu interlocutor, descarregando nos outros seu desconforto ou suas questões mal resolvidas. O fato é que essas pessoas transmitem uma energia tóxica que pode provocar uma série de emoções ruins que causam ansiedade, depressão e reações físicas que levam ao que chamo de doenças psicorrelacionais. São doenças causadas pelo impacto de relações ruins e tóxicas para o estado físico e emocional de cada um de nós. Os neurocientistas e neuropsicólogos já conseguem explicar muito melhor o impacto dessas relações doentias, no cérebro e no organismo humano. O que precisamos ter claro é que essas pessoas, inconscientemente ou não, têm a capacidade de roubar a energia de todos ao seu redor, criando uma aura de negatividade, seja em casa, na empresa, na escola ou em qualquer instituição social. Precisamos nos blindar e nos afastar deles, porque acabam gerando altos níveis de estresse e fadiga emocional que podem causar doenças sérias, que iniciam levemente, mas que, com o tempo, podem se tornar crônicas. Fique atento aos vampiros emocionais. Eles sugam completamente a sua energia, mesmo quando você está bem e tudo parece calmo, quando eles se aproximam o ambiente fica pesado, você sente um mal-estar, mas nem sempre consegue perceber que vem dessas pessoas. Perceba-os: Aproveitadores: estão sempre necessitados e pedindo a sua ajuda ou as suas coisas emprestadas, mas nunca oferecem nada em troca ou não têm tempo para ajudar você; Competidores: querem mostrar que são melhores que você e qualquer coisa que você fale eles sempre sabem mais ou fizeram melhor; Sabe-tudo: qualquer coisa que você diga ele aprendeu mais que você ou tem uma estória melhor ainda para contar, a sua tem que ficar menor ou menos importante que a dele; Traidores: fazem-se de amigos, mas sempre acabam apunhalando você pelas costas. Falsos: dizem que os outros não prestam, ou não são tão amigos, ou tão inteligentes ou bacanas quanto você, mas falam mal de você para os outros; Sofredores e vítimas: o mundo é cruel para eles, torturam-se com a autopiedade, todos os perseguem. Estão sempre doentes, tomam muitos remédios e a sua maior diversão é ir ao médico; Fofoqueiros: contam sempre aos outros o que você pediu encarecidamente que não falasse a ninguém e adoram espalhar boatos; Invejosos: querem ter o que você tem ou ser o que você é, mas nunca conseguem, pois pouco se esforçam; Críticos: reclamam de tudo o que você faz ou sugere, mas nunca dão solução, ou seus conselhos são indesejados; Pessimistas: são desmancha-prazeres, acham que nunca nada vai dar certo e jogam baldes de água fria nas suas ideias; Atropeladores: passam por cima de você como um rolo compressor, são mandões e querem que todos façam o que eles acham melhor; Nunca esqueça que para você se defender terá de usar os seus escudos emocionais, sendo fundamental que aprenda e pratique todos os passos da base da Inteligência Relacional: a CLASSE, identificando as características e os sinais que as pessoas mostram, a fim de saber bloquear as más vibrações. Além do mais, quando alguém descarrega em cima de você, procure manter-se em equilíbrio e não assuma automaticamente uma postura defensiva. É bem possível que o problema esteja no outro e não em você. Trazer para o pessoal ou devolver o lixo tóxico só vai piorar a situação. O melhor a fazer é manter o controle e a calma, porque quem os mantém, obtém poder na interação. Quando a pessoa se irrita sozinha sempre é perdedora. Esse é mais um escudo que pode usar a seu favor. A raiva vai bater no seu escudo e voltar para a pessoa. A medida que você reage, absorve e acaba assimilando a raiva do outro, o que será muito mais prejudicial para si. Não deixe de considerar que, infelizmente, em algumas situações você vai precisar romper um relacionamento que se tenha tornado sufocantemente tóxico, mas só faça isso se já tiver tentado fazer todos os ajustes possíveis, como entender, escutar, perguntar, avaliar a questão e, acima de tudo, perdoar, principalmente se isso não acontece a todo o momento. Às vezes, é apenas uma descarga por algo ruim que aconteceu, e a pessoa ainda não sabe como lidar com a situação por medo ou desespero, e descarrega em você. Lembre-se de não ter medo de ter dúvidas com relação aos desafios de um relacionamento! Viva as experiências que você deseja viver, aprenda com os erros e não tenha receio de tentar novamente após um fracasso. É vivendo e experimentando que aprendemos, mas de fato aprenda com os erros, use a sua sabedoria a seu favor e evite repetir os mesmos erros a cada nova relação. A sabedoria é construída a cada dia. A seguir, vamos falar da empatia, e você terá mais algumas dicas de como lidar de forma positiva com as situações conflitantes. 23. Texto traduzido e adaptado por Psiconlinews: https://goo.gl/1RgtJw 24. Daniel Goleman, Livro Foco, p. 116. Capítulo 11 A letra “E” de CLASSE - Empatia “Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.” Carl Rogers 6. Empatia: é a habilidade de conseguirmos ler a emoção das pessoas, de nos colocarmos no lugar do outro e de tentarmos pensar como pensam e sentir como sentem. Tornarmo-nos capazes de perceber melhor as dores, alegrias, tristezas e conquistas de cada pessoa, compartilhando de forma mais autêntica a cooperação e a percepção de como aquilo que pode parecer fácil para alguns, é muito difícil para outros. A empatia desempenha um papel essencial na capacidade de cuidar e está centrada em responder às necessidades de outros, e não a nossa necessidade. Freud observou uma notável semelhança na intimidade física entre os amantes e entre mães e bebês. Os amantes, como mães e filhos, passam a maior parte do tempo olhando nos olhos, tocando, acariciando e beijando – o contato físico é intenso e proporciona uma imensa sensação de felicidade. Para a maioria das mães, ouvir o choro de seus bebês tem uma força particular; elas identificam de longe e possuem uma capacidade de provocar um nível de compreensão tão grande que parecem sentir o que seus bebês estão sentindo. Essa habilidade acontece também com as fêmeas de outras espécies e, por isso mesmo, garantem a sobrevivência. Como já dissemos, somos seres relacionais desde sempre e precisamos dos outros para sobreviver. A oxitocina, considerada também o “hormônio do amor” materno e sexual, quando liberada pelo parto, amamentação ou orgasmo, inunda quimicamente o nosso organismo, liberando uma sensação de êxtase e de proteção e cuidado. Esse hormônio também cria sensações reconfortantes durante interações sociais e físicas. O neurologista sueco Kerstin Uvnas-Moberg estudou a fundo a oxitocina e afirma que essa inundação de substância química ocorre sempre que entramos em contato afetuoso com alguém de quem gostamos muito e estimula o que chamamos de cérebro social. Os benefícios da oxitocina parecem surgir nas interações sociais agradáveis, sempre que as pessoas trocam energia emocional. Associada com afetos relacionais e românticos, a oxitocina aumenta a libido e é conhecida por criar laços sociais, familiares e afetivos. É este hormônio que nos faz apaixonar por alguém. Não só paixão sexual, mas também amor fraternal e entre amigos.Quando conhecemos alguém, esta pessoa terá a capacidade de induzir a liberação de muita ou pouca oxitocina em nós. Quanto maior for esta indução, mais nos apegaremos e nos lembraremos dela. Aí é que encontramos novamente a empatia, porque pessoas que apresentam mais oxitocina circulando em seu sangue parecem mais apaixonantes e carismáticas. 25 Estudiosos afirmam que a oxitocina é uma substância neuroquímica essencial aos relacionamentos duradouros. John Gottman, pioneiro nas pesquisas sobre as emoções nos casamentos, expõe que alguns casais suprem a tal ponto as necessidades principais dos sistemas neurais um do outro que, quando vivem juntos e felizes durante muito tempo, tendem a ficar parecidos também no aspecto físico. As expressões e emoções que sentem desencadeiam os mesmos músculos faciais e acabam moldando sulcos, rugas e marcas de expressão similares, tornando- os cada vez mais similares entre si. Quando as interações positivas sobrepõem às negativas, entre casais ou pessoas que convivem juntas, passam a compartilhar emoções que levarão a um relacionamento robusto e duradouro. Por essas razões, sabemos que o amor e os relacionamentos fazem diferença na saúde e na doença das pessoas e que existem vários estudos realizados em hospitais com doentes coronarianos ou terminais que comprovam quanto os relacionamentos tóxicos elevam níveis de cortisol fazendo tão mal quanto o tabagismo, a hipertensão arterial, o colesterol, a obesidade ou o sedentarismo. Ressaltamos a nossa responsabilidade enquanto parceiros. Os dados colocam os relacionamentos entre os fatores de riscos, e com o aprendizado de que temos um cérebro social e hormônios e neurotransmissores que agem diretamente sobre o nosso organismo, entendemos o elo biológico que faltava para termos certeza de que as interações humanas nos influenciam para o bem ou para o mal, como falamos no capítulo anterior, e a escolha de como podemos agir com as pessoas para as deixarmos melhores ou piores também é nossa. Afinal, o que você quer deixar para as pessoas com quem convive? E para a humanidade? Que tipo de contribuição você quer dar para as pessoas? Quão empático e preocupado com os outros você quer ser? Ao mesmo tempo, você está pronto para ser você mesmo e respeitar os outros para que sejam eles mesmos também? Parece simples, mas vamos pensar um pouco mais a fundo sobre isso. Não podemos deixar de falar sobre uma questão muito importante, a humildade. Só conseguimos ser realmente empáticos à medida que conseguimos entender no outro o que mais questionamos. Por exemplo, vamos partir do princípio de que você “odeie” pessoas obesas, homoafetivos, tatuados ou drogados, enfim, você, em seu íntimo, sabe o que mais lhe causa estranheza. Cada um de nós tem algo forte que incomoda. Você conseguiria ser empático com essas pessoas e tentar entender por que elas gostam do que você não gosta, sem fazer críticas ou julgamentos? Ser empático com os amigos ou aqueles que são parecidos conosco é muito fácil, mas e com quem é diferente? O estranho, as pessoas com deficiências físicas ou emocionais, quem anda com dificuldade ou não tem pernas, quem não enxerga, quem grita ou fala alto por dificuldades reais com a fala, como devemos lidar com isso? Poucos pais ou poucas escolas ensinam como devemos agir, e a maior parte das pessoas fica perdida nessas situações. Não sabem se ajudam, se ignoram, e a grande maioria fica olhando como se aquele ser fosse um alienígena. Lembro-me de que na escola onde minhas filhas estudavam havia um programa de inserção a crianças com deficiências físicas ou mentais, que participavam junto das aulas e interagiam com todos na hora do intervalo ou no horário do almoço. Outra iniciativa da escola era o “projeto virtudes e atitudes”, no qual escolhiam um valor por ano para ser trabalhado, como verdade, fraternidade, diálogo, união, simplicidade. A ideia era a pesquisa constante para desenvolver um trabalho pautado em valores humanos e voltado para a formação de cidadãos conscientes de seu papel na sociedade. Procuravam colocar em prática iniciativas em que os alunos entram em contato com os valores humanos por meio de temáticas contextualizadas nas atividades escolares. Esse projeto, segundo me disseram, tem por objetivo inserir alunos, familiares e professores a partilhar o conhecimento e a consciência de responsabilidade social e de como tratar com as diferenças. Belíssimo! No papel e na leitura do site, então, lindíssimo! De fato, é essencial para a nossa sociedade resgatarmos os valores sociais, desenvolvendo o senso crítico e o pensamento ético, mas quantas escolas ou famílias fazem isso de verdade? Quantas conseguem fazer seus filhos, alunos ou professores exercer sua cidadania de forma plena e ampla? Todos nós queremos transformar o mundo em um lugar melhor e mais justo para se viver, por isso, meu caro, comece por si próprio. Deixe os seus preconceitos de lado e passe a aceitar as pessoas e suas dificuldades como elas devem ser vistas, com mais naturalidade. Se é difícil para você encarar uma pessoa com deficiência ou dificuldade, ou obesa, ou tatuada, não importa, imagine como é para os pais, para a família ou os amigos. E se fosse com você? Entende agora o poder da empatia? Ela pode mudar o mundo. A inteligência relacional pode mudar o mundo. E a empatia entre casais? Logo depois que me formei, fiz uma especialização em psicodrama. Na época também participei de alguns grupos terapêuticos nesta linha de abordagem que foram muito válidos para o meu desenvolvimento emocional e para a minha aprendizagem relacional. Fiz também alguns anos de formação em Gestalt-terapia. Aprendi a “Oração da Gestalt”, que norteia minhas relações até hoje. Eu a escolhi para ser a minha linha de conduta no que devemos considerar positivo e efetivo nos relacionamentos. A oração da Gestalt: “Eu sou eu, você é você. Eu faço as minhas coisas e você faz as suas coisas. Eu sou eu, você é você. Não estou neste mundo para viver de acordo com as suas expectativas. E nem você o está para viver de acordo com as minhas. Se por acaso nos encontrarmos, será lindo. Se não, não há nada a fazer”. Fritz Perls Friederich Salomon Perls (1893-1970) foi um psiquiatra e psicoterapeuta alemão que, com sua esposa, Laura Perls, fundou uma escola de estudo psicológico denominada Gestalt-terapia. Essa teoria, de forma bem simplificada, versa sobre a realidade do aqui e agora e do organismo como totalidade. Defendiam a importância da individualidade, reforçando que as relações saudáveis são complementares, mas não dependentes uma da outra. Por isso, defendo e acredito que “somos nós dentro de cada eu.” Partindo do princípio de que temos muitas vezes a necessidade de encontrar determinadas coisas nas pessoas com quem nos relacionamos, como se elas fossem capazes de tampar os nossos buracos internos, precisamos entender que essa busca só serve para criar uma imensa expectativa ilusória do que as pessoas não nos podem dar. Só podemos ser felizes e fazer as pessoas ao nosso redor felizes, a medida que nos tornamos únicos e temos em nós mesmos praticamente tudo de que precisamos. A partir disso, seremos capazes de dividir, compartilhar ou complementar. Se nos tornamos dependentes do outro, estamos sempre sujeitos a exigir demais ou achar que o outro é responsável pela nossa felicidade. Ninguém é obrigado a corresponder ou a viver de acordo com aquilo que nós queremos, e nem nós devemos viver de acordo com o que as pessoas querem e esperam de nós. Quando temos essa clareza, conhecemos as nossas limitações e o que podemos oferecer de bom aos outros, e, se houver um encontro dessas duas realidades, unindo o desejo de ambas, aí, sim, isso efetivamente será lindo. Quando não há esse encontro e essa troca, não adianta lutar, pois as coisas não darão certo, ambos vão se frustrar, e a tristeza se instala onde deveria perdurar a felicidade. Por outro lado, quando cada um traça o seu caminho, define e descobre as suas verdades, sendo capaz de ser verdadeiro,consigo e com os outros, aí poderão ser felizes. Afinal, já dizia Caetano Veloso, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.” O mais importante é que, mesmo apaixonado, amando outra pessoa ou envolvido em um relacionamento há muito tempo, é preciso manter a individualidade de cada um. É fundamental que possamos ser gentis conosco, que possamos manter alguns interesses e vínculos de amizade separados do parceiro. As pessoas ou casais que se “misturam” demais acabam por se “sufocar”, perdem a individualidade e, mesmo que exista muito amor, haverá também muita frustração e desejos não correspondidos. Infelizmente não podemos controlar o futuro e corremos o risco de termos a perda afetiva ou real da pessoa que amamos, por separação, doença ou morte. E aí? O que será de nós? Quantos anos a pessoa vai levar para se resgatar? Será que em algum momento ela voltará a ter clareza de quem ela é? Como pode viver sem a dependência do outro? Algumas vezes o relacionamento fica tão complicado e misturado que perde completamente o sentido de união e passa a ser de confusão; e isso não é uma alternativa saudável para ninguém. Claro que paixão e novos relacionamentos nos revigoram, são novas trocas, experiências e intimidades, mas é fundamental que cada um mantenha contato saudável com suas atividades favoritas, hobbies, academia, futebol, sonhos, metas, amigos, família. Isso significa que precisamos preservar e valorizar aquilo que somos e do que gostamos. Ao contrário disso, se houver um sufocamento exagerado por parte de um dos parceiros, ou ambos, a tendência é que surja a sensação sedutora de ter um segredo, de tentar esconder ao menos alguma coisa que o parceiro controlador não saiba, e, assim, surge a necessidade tácita de ataque (muitas vezes inconsciente) ao outro. Desta forma, muitas pessoas acabam, por excesso de pressão, procurando por pornografia, amantes, bebidas, compulsão alimentar, uso de medicação sem necessidade, drogas, etc. Começa a aparecer a sensação sedutora de cometer exageros, com a intenção de se diferenciar do outro, de ter um espaço reservado para si, que poderia perfeitamente ter sido resolvido com mais equilíbrio e nas atividades saudáveis acima descritas; com a cumplicidade sem “mistura”, com respeito às diferenças e com permissão de saídas saudáveis. Converse com o seu parceiro antes que o pior aconteça, e fale da importância de cada um ter suas próprias atividades de vez em quando. Manter um grupo de amigos da faculdade, reuniões com pessoas queridas, almoço com as amigas ou amigos, atividades físicas, jogos de futebol, viagens de moto ou rali, cabeleireiro, enfim, que cada um mantenha as atividades que podem ser prazerosas e não abusivas ou que levem a pessoa a sentir vontade de experimentar o que é “proibido” por excesso de controle ou por agressão à individualidade do outro. Se você conseguir colocar a EMPATIA em prática e entender melhor a necessidade das pessoas com quem convive, poderá delimitar fronteiras e se destacar por respeitar e ser respeitado. Assim finalizamos as dicas de CLASSE para que possamos viver de forma mais leve e feliz nas nossas interações. Exercitar estes passos é o que podemos chamar de Alta Inteligência Relacional – AIR. Para fechar com chave de ouro, vamos falar um pouco sobre amor e sexualidade, que, afinal, também fazem parte das nossas relações pessoais. 25. Oxytocin is an age-specific circulating hormone that is necessary for muscle maintenance and regeneration Christian Elabd, Wendy Cousin, Pavan Upadhyayula, Robert Y. Chen, Marc S. Chooljian, Ju Li, Sunny Kung, Kevin P. Jiang & Irina M. Conboy Are Plasma Oxytocin and Vasopressin Levels Reflective of Amygdala Activation during the Processing of Negative Emotions? A Preliminary Study. https://goo.gl/kQQ4Ir Capítulo 12 Amor & Sexo “Um coração feliz é o resultado inevitável de um coração ardente de amor.” Madre Tereza de Calcutá Amor e sexo, um assunto polêmico que gera uma série de comentários, discordâncias, consentimentos e conflitos. Cada um tem sua maneira de pensar e praticar amor e sexo. Para alguns, é impossível separar as duas coisas; para outros, é difícil uni-los, e há aqueles que acham possível viver as duas coisas; às vezes amor, às vezes sexo, vai depender da relação que se estabelece. Religião, futebol, política, amor e sexo estão entre os temas que mais causam discussão e contrariedade nas relações pessoais. Já dizia Ferreira Gullar: “Não quero ter razão, eu quero é ser feliz.” Mas as pessoas geralmente perdem um tempo enorme discutindo assuntos polêmicos, em que a opinião será divergente e discutir sobre eles só vai gerar briga e desentendimento. O que a maioria de fato acredita é que o amor é a realização mais completa e sublime das possibilidades humanas. Nele se busca a plenitude do ser, a única coisa que pode absorvê-lo inteiramente. E aí podemos considerar os vários tipos de amor, entre pais e filhos, irmãos, casais, família e amigos. Já a paixão pode ou não se transformar em amor, mas a princípio é puro prazer. Às vezes é tão intensa que retira o “ser” de si mesmo. Muitos se entregam a tal ponto que passam a viver quase inteiramente para o outro (o que pode ser perigoso, é preciso ter cuidado para não se despedaçar para manter o outro inteiro) ou para o objeto de desejo. A paixão é considerada um dos maiores prazeres que os seres humanos têm em sua vida. É puro êxtase e vontade de realizar. Usamos o termo paixão também quando amamos o trabalho que realizamos ou um projeto, ou uma nova descoberta, porque a paixão e o prazer motivam e impulsionam para a realização. O sexo está diretamente relacionado ao prazer, à relação corpo a corpo, e é talvez o mais intenso dos prazeres corporais. É visto como a energia que direciona os instintos vitais, ou seja, a libido26, que envolve encantamento, relaxamento e gozo. A satisfação sexual é apenas uma parte da alegria da entrega e, quando vem de alma e corpo, temperada com amor, fica sem dúvida ainda melhor. Quando se prima pela busca do simples prazer físico, esse prazer tende a converter-se em algo momentâneo, que pode funcionar como uma ótima descarga física e sexual, mas que também pode deixar um rastro de vazio e insatisfação. Quando os envolvidos sabem o que esperar da relação e quando está claro que o envolvimento é puramente sexual, pode ser bom e divertido para ambos. O problema é quando o relacionamento se reduz à simples fome de prazer, e um dos lados apenas “usa” a outra pessoa. Isso não é bom para nenhum dos dois. Quando se “usa” a outra pessoa, sem seu consentimento ou sem que ela tenha clareza de que é apenas prazer sexual, deixa de ser respeitoso, e o prazer pode ser imediato, mas vai sempre deixar um gosto amargo. Claro que os psicopatas ou pervertidos sexuais veem isso de uma outra forma, mas eles precisam de uma atenção particular. A questão é que o terreno sexual oferece ocasiões para se servir das pessoas como se fossem um objeto, ainda que seja inconscientemente. A dimensão sexual do amor faz com que o ser humano se incline para a busca do prazer em si mesmo, ou seja, uma necessidade de sentir prazer, sem necessariamente dar prazer. Esse tipo de relacionamento leva o outro a sentir-se rebaixado, pois afeta a sua mais profunda intimidade e relação de amor próprio. Então fica complicado, porque a pessoa tende a sentir-se usada, exposta e oprimida e começa a surgir uma série de problemas que vai afetar a vida pessoal e a autoestima e, com certeza, a relação torna-se pesada e corrosiva. Se encararmos o sexo como expressão da nossa capacidade de amar, de forma leve e íntima, envolvemo-nos até a mais pura totalidade. Aí o ato sexual pode ser muito bom e desencadear um valor positivo e digno de ser curtido. Quando o prazer e o amor se unem em entrega mútua, acreditamos que é possível alcançar um alto grau de felicidade, prazer, relaxamento e gozo. Se classificarmos amor, paixão e sexo como tipos ou diferentes formas de se relacionar, também percebemos que eles estão correlacionados, masdespertam substâncias bioquímicas diferentes no nível bioquímico. Os hormônios do sexo – androgênio e estrogênio – estimulam o desejo. A atração ou paixão parece ser impulsionada por uma mistura de altos níveis de dopamina e noropinefrina (que aumentam o prazer e o relaxamento) e baixos níveis de serotonina. Sendo assim, segundo o livro Why we love, da Helen Fisher, a química gerada nas formas de se relacionar é diferente, e o que faz os relacionamentos durarem é a variação dos níveis de oxitocina e vasopressina, transformando-se em amor. Vale considerar que esses três sistemas podem se conectar em um equilíbrio elegante, e que quando tudo sai bem, incrementa o plano da natureza de perpetuar a espécie, principalmente nas relações heterossexuais (veja a descrição abaixo). De qualquer forma, para todos os estilos de orientação sexual, quando os três caminham juntos, alimentam o romance, geram uma relação relaxada, sensual, afetuosa e de cuidado um com o outro, na qual a conexão tende a florescer. E quando um dos três está ausente, o amor romântico tropeça e pode ser preciso reavaliá-lo. Fiz uma pesquisa para entender os tipos de orientação sexual. São tantas variáveis que poderíamos rechear algumas páginas para descrevê-los, mas vamos destacar os mais comentados. Heterossexualidade É a orientação sexual caracterizada pela atração sexual e emocional entre pessoas de sexos opostos. Homoafetividade ou homossexualidade É a orientação sexual caracterizada pela atração sexual e afetiva entre indivíduos do mesmo sexo. Bissexualidade É a orientação sexual caracterizada pela atração sexual e sentimental entre pessoas tanto do mesmo sexo como do sexo oposto. A diferença entre a bissexualidade e a homossexualidade é que também pode haver hipótese de atração entre pessoas do sexo oposto. Transsexualidade Um transsexual é uma pessoa que não se sente identificada com o seu corpo, e o seu gênero psicológico não corresponde ao físico, ou seja, homens que se sentem como mulheres ou mulheres que se sentem como homens. A transsexualidade não está de todo relacionada com a homossexualidade. Um homem homossexual não se sente mulher, sente-se homem, mas gosta de pessoas do mesmo sexo. No caso de sentir-se como uma mulher, considera-se transsexual. Atualmente, é possível fazer uma operação de mudança de sexo para que o homem se converta em mulher e vice- versa. Panssexualidade A panssexualidade, também denominada omnissexualidade, polissexualidade ou trissexualidade, é caracterizada pela atração sexual ou romântica por pessoas independentemente do sexo ou gênero destas. Podem sentir-se atraídas por homens, mulheres ou também por pessoas que não se sentem identificadas com o seu gênero, incluindo interssexuais, transsexuais e intergêneros. Assexualidade É a falta de orientação e desejo sexual. As pessoas assexuais não sentem atração física ou sexual por nenhuma pessoa e não sentem desejo pelo prazer sexual, pois não se identificam com nenhuma orientação sexual definida. Não é habitual que se apaixonem ou tenham um namorado/a. Tendem a criar um laço afetivo com alguém ainda que não implique terem uma relação sexual. Intergênero A diferença entre intergênero e transsexual é que os intergêneros não se identificam nem como homens nem como mulheres. Podem se ver como homens ou mulheres. Algumas pessoas têm características do sexo oposto em junção com características do mesmo sexo. Alguns veem a sua identidade como uma junção entre o masculino e o feminino. Intergênero não designa uma orientação sexual, mas um conceito relacionado com a identidade de gênero27. As diferentes opções mostram que a sexualidade é mesmo de cada um e as escolhas são pessoais. São diferentes formas de se relacionar. Imagino que pode estar passando dois pensamentos diferentes na sua cabeça neste momento. Se você é uma pessoa mais tradicional ou religiosa e tem apenas relacionamentos com pessoas do sexo oposto ao seu, ou seja, é um heterossexual, talvez questione as outras escolhas, mas se você é mais aberto e encara uma variação ou novidade, creio que vai lidar de forma mais natural com as outras possibilidades. Não vem ao caso aqui julgarmos o que está certo ou errado quando falamos de opções sexuais. No contexto religioso, algumas escolhas podem ser vistas como pecado e as pessoas como pecadoras. Na psicologia, as escolhas são compreensíveis, aceitáveis e devem ser isentas de julgamento, e na vida temos que flexibilizar nossa forma de pensar e ter em mente que, embora talvez você nunca pudesse fazer escolhas que considere estranhas ou diferentes da sua, você pode e deve respeitar quem as faz. Esse é o mínimo do que podemos esperar quando falamos de inteligência relacional e respeito ao próximo. Mantenha a sua escolha se assim lhe convém e “permita” que cada um faça a sua. Não está em seu poder escolher pelo outro, mesmo que ele seja seu filho, sobrinho ou amigo próximo. Entendo que você pode questionar e até discordar, mas infelizmente é o máximo que você pode fazer. Querer mudar a opinião do outro ou obrigá-lo a pensar diferente será desgastante para todos e possivelmente não levará a lugar nenhum. É possível que as pessoas “finjam” que aceitam a sua opinião para evitar conflito, mas continuem fazendo as suas escolhas entre quatro paredes. Tudo o que as pessoas de fato querem é ter direito de amar e a opção sexual faz parte desse processo. Onde se desenvolve a trama mais instigante da sua história está, inquestionavelmente, a sexualidade. Se você tem algum problema nessa área, dificuldade de aceitar seu corpo, insegurança com relação a sua escolha sexual, dúvida com relação a dar ou receber prazer ou qualquer outra questão relacionada a esse campo, procure ajuda. Um bom terapeuta ou orientador certamente o ajudará a minimizar a angústia e o sofrimento causado pela dificuldade em fazer escolhas e a cuidar melhor de você e da instabilidade emocional que afeta esta e outras esferas da vida humana. Não sei se vocês já ouviram isso, mas cientificamente existe uma explicação para a frase: “quando o pênis endurece, o cérebro amolece.” De fato, isso acontece, porque o circuito neural para o sexo inibe as regiões subcorticais das vias secundárias, localizadas além do cérebro pensante (ego/consciente ou neocórtex). O cérebro social, aprende a ser empático e pode amar (superego/pré- consciente ou sistema límbico) e se importar com o outro, mas o desejo e a luxúria trafegam pelos ramos mais inferiores das vias secundárias e se tornam irracionais (id/inconsciente ou cérebro reptiliano). Sendo assim, embora a via secundária (são ligações rápidas dos neurônios-espelho, que atuam como uma espécie de sexto sentido, instigando-nos a sentir algo por outra pessoa, mesmo que seja de forma vaga) nos proporcione afinidade emocional instantânea, a via primária (parte mais pensante e racional do cérebro localizada no córtex pré-frontal ou neocórtex) gera um sentido social mais sofisticado, capaz de orientar uma resposta mais apropriada. Desta forma, é possível que o cérebro dispare inicialmente um interesse imediato, pelas vias secundárias, que detona um senso de atração quase irracional não só nos homens, mas também nas mulheres. Com o tempo, a via principal vai dando sentido ao interesse inicial. Sendo assim, é real quando dizemos que a paixão cega. Porque, de fato, quando estamos inebriados de paixão, as vias secundárias e os neurotransmissores do prazer estão em ação e não a via principal, que tem por princípio avaliar e nos proteger. Quanto mais ativa estiver a área pré-frontal/neocórtex (vias primárias), mais equilibradas serão as nossas decisões. Quando pensamos de forma mais ponderada sobre as situações (usando nosso cérebro mais racional/neocórtex), deixamos de “entrar em roubada”. Por isso, mesmo que esteja inebriado de paixão, procure avaliar as situações com um pouco mais de critério, colocando seu cérebro para funcionar, o que de fato vai protegê-lo e evitará que entre em ciladas difíceis de consertar ou resolver depois. Uma boadica aqui é escutar as pessoas próximas. Se todos que gostam de você dizem que a pessoa com quem está se relacionando é oportunista, ou já se aproveitou de outras pessoas ou situações para se dar bem, é egoísta ou mal-intencionada, pesquise mais, pense melhor, fale com os ex ou investigue de alguma outra forma seus relacionamentos anteriores, antes de ficar bravo com os amigos. Pode ser que a história que a pessoa lhe contou seja completamente diferente dos fatos reais. A única forma de descobrir é pensando, ponderando e investigando. Controle seu ímpeto e a sua paixão desenfreada e coloque seu cérebro para funcionar. Além disso, quero ressaltar alguns estudos que venho fazendo nos últimos dez anos. Ainda são empíricos e pouco comprovados, mas assim que conseguir me aprofundar nas pesquisas e comprovar algumas hipóteses, vou lançar as informações para vocês. Pode ser que muitos discordem do que vou colocar agora, talvez a maioria, mas, embora a história que carregamos, no decorrer dos anos, na qual alguns estudiosos e pesquisas apontem para uma imensa diferença entre o que as mulheres e homens pensam e sentem, eu particularmente acho que está na hora de rever essa questão. Por que não podemos pensar e sentir de forma igualitária, se por dentro somos quase idênticos? O que diferencia homens e mulheres são os órgãos sexuais, certo? Mas será que isso define os sentimentos, pensamentos, comportamentos e desejos de cada um? Nosso cérebro e coração são muito parecidos, não são? Já sabemos pela evolução da neurociência e dos estudos bioquímicos que os neurotransmissores e os hormônios têm uma influência relevante. Entendo que eles são diferentes em homens e mulheres e que não podemos deixar de considerar a influência deles, da maternidade, da procriação e da amamentação, isso é fato, mas vamos pensar que existem outros milhões de possíveis variáveis que definem um comportamento como: a personalidade, fatores biológicos, hereditários, a segurança, a autoestima, o nível de dependência e a forma como fomos criados, e não apenas gênero. Independe se somos homens ou mulheres, mas depende, sim, de todos os fatores acima citados. O que quero dizer é que muitos pesquisadores (a grande maioria é homem) defendem que homens e mulheres têm tendências diferentes nas moléculas do amor e do desejo, que os homens têm níveis mais altos de testosterona (o que de fato é verdade) e de outras substâncias que estimulam o desejo e níveis baixos das substâncias que estimulam o apego ou o amor romântico, ao contrário das mulheres. A minha pergunta é: será que isso é verdadeiro ou é conveniente que seja assim? Se voltarmos um pouco no tempo e lembrarmos que o mundo era completamente dominado pelos homens, podemos entender que é muito conveniente pensar que os homens precisam mais de sexo, que encaram de forma diferente amor e sexo, que podem ter uma relação e não se apegar, até porque é puro sexo, e que a atração visual é suficiente para desencadear paixão ou tesão, etc. Por que nas mulheres é diferente? Ouvimos sempre que as mulheres são mais maternais, estão sempre pensando no amor, na família, nos filhos, que elas não sentem prazer pelo prazer, só sentem prazer para procriar. Será que realmente é assim? Aprende-se na igreja, na escola, na família, na vida. Mulheres só sentem prazer para procriar? Não são visualmente estimuladas? Não sentem calor, tesão e não têm energia sexual? Tenho conversado com mulheres de diferentes idades, níveis sociais e hierárquicos, dependentes e independentes emocional e financeiramente de seus parceiros, solteiras, casadas, mães, e também fiz uma pesquisa com várias empresas e lojas que trabalham com artigos sexuais, produtos eróticos ou treinamentos nessa área. Sabe o que descobri? Que muitas mulheres se sentem estimuladas em ver homens sem roupa ou vídeos eróticos, que muitas sentem prazer em comprar ou usar “brinquedos” eróticos, que as mulheres sabem exatamente o que querem, do que gostam e o que lhes dá ou não prazer. Então pergunto... Será que é assim mesmo, ou será que agora que a censura é menor, e as mulheres estão mais independentes e donas do seu destino. Podem enfim mostrar que também sentem tesão e não precisam se apaixonar para ter atração, desejo ou sexo? Que podem ter uma relação passageira tanto quanto os homens? Que podem escolher se querem ou não casar? Que podem escolher se querem ou precisam de um parceiro, ou se querem ou não ter filhos? Enfim, não tenho a pretensão de causar polêmica e nem de criar conflitos, aliás, sou a primeira a fugir deles, mas só aproveito para lançar aqui uma nova forma de pensar, uma nova forma de se relacionar de modo melhor e mais inteligente. Sem tanta censura, sem tanto tabu, sem tanto julgamento ou crítica pelo que devemos ou não fazer, ou pelo que devemos ou não sentir. A escolha precisa ser de cada um, independentemente de sermos homens, mulheres, bi, tri ou heterossexuais. Escrevendo este capítulo me lembrei de um livro muito bacana que li logo que saí da faculdade: Meninas Boazinhas Vão para o Céu, as Más Vão à Luta, da psicóloga Ute Ehrhardt. É um livro interessante que fala do poder feminino e de como a mulher pode enfrentar seus medos, principalmente quando resolve “não ir para o céu”. Afinal, por que a mulher se obriga a pensar sempre nos outros e nunca nela própria? Por que teme tanto as críticas? Por que se preocupa tanto com o que os outros vão pensar? Enfim, fica aqui uma boa indicação, já que o livro revela um retrato multifacetado da mulher moderna. O importante é que os desejos sexuais sejam supridos com respeito e tolerância a nós mesmos e aos outros. A escolha precisa ser de cada um, independentemente de sermos homens, mulheres, bi, tri ou heterossexuais, e precisa, dentro do possível, vir recheada de amor pleno, porque não há dúvida de que o amor verdadeiro é o tesouro mais preciso que possuímos. 26. Libido - Substantivo feminino usado para descrever o desejo ou impulso sexual de um homem ou mulher. No âmbito da psicologia, é fundamental para entender o comportamento humano, porque o condiciona e é vista como a energia que direciona os instintos vitais. 27. https://goo.gl/3zJQ6D Conclusões Deixei para apresentar no final o resultado de um dos grandes motivadores dessa obra, aquela encantadora pesquisa baseada em histórias reais que falei na introdução deste livro e que acompanho há muitos anos. Trata-se da pesquisa mais longa já feita sobre a vida adulta28. Imagine que mais de 200 pessoas foram assistidas desde sua adolescência até a velhice para sabermos realmente o que as mantêm felizes e saudáveis enquanto desfrutam a vida. E, afinal, o que aprendemos? Quais são as lições extraídas das dezenas de milhares de páginas de informação geradas sobre essas vidas? As lições não falam sobre riqueza, fama, glamour ou sobre trabalho em excesso. A mensagem mais clara que tiramos desse estudo de 75 anos é esta: Bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis. Aprendemos três grandes lições sobre relacionamentos neste estudo. A primeira é que conexões sociais são muito boas para nós, e que a solidão mata. As pessoas que estão mais conectadas socialmente com a família, amigos e comunidade, são mais felizes, fisicamente mais saudáveis e vivem mais do que as pessoas que têm poucas conexões. A experiência de solidão é tóxica. Pessoas que são mais isoladas socialmente e desprovidas de relacionamento são mais infelizes, sua saúde decai precocemente na meia-idade, seus cérebros se deterioram mais cedo e vivem vidas mais curtas do que aquelas que não são solitárias, e o fato mais triste é que mais de um em cada cinco norte-americanos relata que está solitário. A solidão não é não ter ninguém por perto. Nós sabemos que podemos nos sentir sós numa multidão e também podemos nos sentir solitários num casamento, então a nossa segunda grande lição é que não é apenas o número de amigos que você tem, e não é se você está ou não em um relacionamento sério, mas sim a qualidade dos seus relacionamentos mais próximosque importa. Como dissemos no decorrer deste livro, viver no meio de conflitos é ruim para nossa saúde. Relacionamentos tóxicos são fator de risco para doença e morte, tão elevado quanto a hipertensão arterial, o colesterol, o tabagismo, etc. Uma pessoa tóxica é alguém que desperta o que há de pior em nós ou que nos exaure mental e fisicamente. Casamentos muito conflituosos e sem afeto podem ser piores do que o divórcio. Viver em meio a relações boas e reconfortantes nos protege, já que o apoio emocional baixa o estresse biológico e mantém o organismo em equilíbrio. Acompanhando os homens do estudo da meia-idade, para descobrir quais se tornariam octogenários felizes e saudáveis e quais não se tornariam, comprovaram que não eram os níveis de colesterol que os mataria, mas a qualidade de seus relacionamentos. As pessoas que estavam mais satisfeitas em seus relacionamentos aos cinquenta anos eram mais saudáveis aos oitenta. Relacionamentos bons e íntimos parecem proteger as pessoas de algumas circunstâncias adversas inerentes ao envelhecer. Os homens e mulheres mais felizes em uma relação relataram, aos oitenta anos, que nos dias que tinham mais dor física, seu humor e a convivência os mantinham mais animados. Já as pessoas que estavam em relacionamentos infelizes, nos dias que tinham dor física, sentiam que elas eram intensificadas pela dor emocional. A terceira grande lição que aprendemos sobre relacionamentos e nossa saúde é que as relações saudáveis protegem não apenas os nossos corpos, mas também o nosso cérebro. Comprovou-se que estar em um relacionamento íntimo e estável com outra pessoa aos oitenta anos é algo protetor. Quando as pessoas podem contar umas com as outras, em caso de necessidade, têm suas saúdes e suas memórias preservadas por mais tempo, e as pessoas em relacionamentos que não podem contar umas com as outras acabam infelizes, esquecem mais as coisas e têm um declínio de memória mais cedo. Sabemos que mesmo os relacionamentos bons não são tranquilos o tempo todo. Alguns dos casais octogenários estudados discutem um com o outro, mas sentem que podem contar com o parceiro quando as coisas ficam difíceis. Se comprovadamente já sabemos que as relações saudáveis são boas para a saúde e bem-estar, por que continuamos ignorando a importância das nossas relações? Ok, somos humanos e relacionamentos são confusos e complicados. Dá trabalho zelar pela família, pelos amigos e é um trabalho para a vida inteira, nunca cessa, mas podemos nos tornar mais inteligentes relacionalmente e melhorar nossa vida, nossa saúde e nossos estados de ânimo. Podemos fazer isso em pequenas ações: 1. substitua colegas de trabalho por companheiros; 2. mantenha bons relacionamentos com a família, amigos e com a comunidade; 3. pense no que você tem a oferecer aos seus relacionamentos, porque as possibilidades são infinitas; 4. troque o tempo na TV ou no telefone pelo contato com pessoas; 5. reviva uma relação antiga fazendo algo novo juntos; 6. faça caminhadas com quem ama; 7. encontre amigos para bater papo; 8. contate aquela pessoa da família com quem você não fala há anos, porque brigas de família deixam marcas terríveis nas pessoas que guardam rancor, então perdoe; 9. dedique dois minutos do seu dia para ligar ou mandar mensagem para alguém de que gosta muito e fale o quanto essa pessoa é importante para você; 10. o tempo é curto, não o desperdice. Dedique-o para amar e não para manter rancor e raiva. Enfim, uma vida boa se constrói com boas relações. 29 Como falei, no início, este livro tem a humilde intenção de apresentar o conceito de Inteligência Relacional, para que as pessoas possam se sentir melhor em relação a si próprias e nas suas relações com os outros. A partir das Inteligências desenvolvidas de forma brilhante, por Gardner, Goleman e outros autores e pesquisadores que demonstram preocupação genuína com o desenvolvimento das inteligências e das pessoas, entendo que você poderá se tornar mais inteligente e comprometido para lutar por seus objetivos, compreendendo seu papel no mundo e respeitando as escolhas que faz em seus relacionamentos e o jeito de ser de cada um. Em termos metafóricos, podemos pensar nos extremos da Inteligência Relacional (IR), muito baixa (BIR) ou muito alta (AIR). Se nossas atitudes podem ser “tóxicas” ou “saudáveis”, afinal, o que queremos para nós? Nossas amizades nos inspiram ou nos desestimulam? Os “vampiros emocionais” fazem os outros se sentirem desvalorizados e incapazes. Já as pessoas saudáveis, que chamaremos de “anjos”, fazem com que as pessoas se sintam valorizadas e respeitadas. Pessoas com baixa IR são tóxicas para os demais e as pessoas com alta IR fazem com que os outros se sintam bem em sua presença. Sabemos que todas as pessoas merecem e precisam de respeito e admiração. Desta forma, desenvolver a Inteligência Relacional pode reduzir conflitos, melhorar a saúde, gerar colaboração, ampliar resultados, trazer paz e tranquilidade para os relacionamentos, melhorar a performance, a memória, a saúde e, em equipe, mobilizar todos rumo a metas comuns. Ainda estamos engatinhando nesta área e precisamos ser menos analfabetos na arte de nos relacionarmos com os outros. Somos capazes de aprender e de aprimorar a forma como absorvemos o impacto das pessoas sobre nós, através de pequenas técnicas. Quando conhecemos alguém, podemos filtrar esse impacto decidindo se queremos ou não nos relacionar com essas pessoas e, também, melhorar a nossa forma de agir em relação aos outros. Muitas vezes tentamos mudar as pessoas, mas o que precisamos é mudar as nossas atitudes e sentimentos em relação aos outros, assim eles mudam também. Já sabemos por estudos do funcionamento cerebral e da neurociência, que podemos aprender a dominar nossas reações e controlar melhor nossos impulsos. Assim podemos moldar adequadamente nossos hábitos emocionais e ensinar nossos filhos, nossa equipe de trabalho e pessoas próximas a controlá-los, tornando o futuro da humanidade mais maduro para enfrentar situações desafiadoras, obtendo ganhos com nossas relações sociais. Valorizar a nós mesmos, reforçar a nossa energia emocional para lidarmos melhor com crises e decepções e buscar pessoas com quem possamos desenvolver uma amizade recíproca e recompensadora é a chave para a satisfação nos relacionamentos. As empresas e escolas têm feito um esforço louvável para elevar o nível de conhecimento das pessoas, mas ainda não evoluíram tanto a ponto de se preocupar se as pessoas sabem como agir nas situações imprevisíveis causadas pelas relações corriqueiras do dia a dia, como bullying, humilhações e agressões verbais, mas sabemos que sair do analfabetismo relacional fará muito bem ao futuro da humanidade. Algumas escolas já estão adaptando suas disciplinas escolares para abordar esses temas, ensinado as crianças como podemos nos tornar mais empáticos, como ter mais autoconsciência e controle emocional, além de ensinar como escutar com mais atenção os outros e suas necessidades. Existem extraordinários projetos educacionais para preparar melhor para a vida, e a nossa consultoria está trabalhando fortemente em um grande projeto que ajudará pais, educadores, crianças e adolescentes a somar mente e coração nas suas ações e decisões para sermos capazes de viver melhor em sociedade. Quero destacar que estamos trabalhando fortemente para que esse trabalho seja implementado nas escolas, tanto públicas como particulares e nosso objetivo é diminuir a evasão escolar, a redução da violência, a melhoria nos índices de aprendizagem, o controle do uso e abuso de drogas, melhores escolhas para o futuro com orientação de carreira, além de uma vida digna, feliz e sustentável. Esses projetos são inovadores, revolucionários e certamente farão mudanças avassaladoras na educação e consequentemente na cultura do país. Quanto mais educarmos nossas crianças neste sentido, menos precisaremos de presídios e hospitais. Afinal, como podemos melhorar nossos relacionamentos? Lembre-se do CLASSE e de mais algumasdicas abaixo: Consciência – procure saber o que o faz feliz, conheça a si mesmo antes de julgar o próximo e faça contratos de confiança. Converse e seja claro no que gosta, e no que não gosta conforme os relacionamentos vão se estreitando. Liberdade – respeite as pessoas e sua cultura, mas cuidado com as pessoas que logo no primeiro contato contam a vida toda delas. Em algum momento, elas vão querer saber tudo sobre a sua vida. Cuidado também com “favores excessivos” ou “pedidos de ajuda”. Analise o quanto isso é sadio para você, não passe do ponto só para agradar os outros. Atração – fale, se exponha, acredite, confie; a comunicação é a base de todo relacionamento. Segurança – tudo o que fica guardado vira mágoa, ressentimento e, consequentemente doenças como câncer, úlcera, doenças cardíacas, etc. Preste a atenção aos sinais que as pessoas dão a você: postura corporal mais agressiva, rigidez corporal, agitação motora ou procrastinação, corpo excessivamente arqueado ou excesso de tristeza ou depressão. Fique atento. As pessoas muitas vezes precisam de ajuda e tudo bem se você quiser optar por se aproximar delas para ajudá-las, mas o importante é que faça isso de forma consciente. Tem que ser uma “escolha”, e não uma “roubada”. Sabedoria – preste atenção no olhar. Pessoas que têm o que esconder quase nunca olham você nos olhos, a não ser que sejam muito tímidas ou tenham baixa autoestima. Mostre interesse e dignidade pelas pessoas, faça contato com os olhos, interaja, mas não invada e não se deixe invadir. As pessoas precisam e merecem manter o seu “espaço seguro” e desrespeitá-lo não é sinal de afeto, muitas vezes é pura invasão ou desrespeito. Cada um tem um jeito e ele tem que ser respeitado. Empatia – desenvolva a “escuta” e aprimore a empatia. Perceba nuances nas conversas, “leia” nas entrelinhas o que está sendo falado. Procure sintonizar-se com as pessoas sem necessariamente absorver a energia delas, pois empatia é entender e respeitar a necessidade das pessoas, não transformar a necessidade delas na sua própria. Principalmente: nunca faça aos outros o que não gostaria que fizessem para você. AVALIANDO SUAS HABILIDADES RELACIONAIS Desenvolvi uma ferramenta que o ajudará a treinar a Inteligência Relacional. Por favor, lembre-se que esse exercício não tem o intuito de apontar culpados ou de gerar discórdia e discussão. Pelo contrário, o objetivo é que você identifique em você e nas pessoas com quem se relaciona, as falhas que estão cometendo no ideograma CLASSE, para que possam fazer ajustes de comportamento para que possam “com-viver” de uma forma mais harmônica e feliz. Comece fazendo um inventário mental pensando nas pessoas que você conhece e que tenha uma interação direta. Escreva o nome dessas pessoas no lado esquerdo da planilha 01. AIR. – Alta Inteligência Relacional (que você encontrará a seguir). Coloque primeiro o nome das pessoas que você identifica com alta inteligência Relacional, e ao lado direito da planilha, cite qual letra do CLASSE você acha que essa pessoa apresenta como característica forte. Por exemplo, o C de Consciência. Depois repita o mesmo exercício com a Planilha 02. BIR - Baixa Inteligência Relacional e destaque as letras do CLASSE que você acha que essas pessoas precisam aprimorar. Pense calmamente em cada uma das 6 habilidades relacionais do CLASSE, enquanto avalia o comportamento das pessoas e o seu também. O ideal é que depois você possa dedicar um tempo com cada umas dessas pessoas para conversar a respeito, tanto daquelas com alta IR como aquelas com baixa IR. É possível que você repita as pessoas, e destaque tanto os pontos fortes, como os pontos a desenvolver de cada um. Não há problema nenhum, todos nós temos pontos altos e baixos, ou a desenvolver, no nosso perfil. Lembre de não fazer julgamentos. Procure ser honesto consigo mesmo e com os outros e não deixe de levar em consideração as técnicas de feedback colocadas neste livro, destacando primeiro os pontos fortes e as qualidades das pessoas, e depois coloque os pontos que acha que podem ser aprimorados. Faça a sua autoavaliação também, assim pode desenvolver uma conversa mais madura, de coração aberto e deixando claro o que cada um deve fazer para melhorar e otimizar ao máximo o relacionamento de vocês. Não exija apenas mudança no outro, você precisará se flexibilizar e se ajustar também para que seus relacionamentos possam melhorar. Planilha 01. AIR – Alta Inteligência Relacional: Identificando pessoas com alta inteligência relacional (I.R) Planilha 02. BIR - Baixa Inteligência Relacional: Identificando pessoas com baixa inteligência relacional (I.R) A inteligência relacional está totalmente relacionada à educação básica e ao controle das emoções e de como devemos cuidar e tratar as pessoas ao nosso redor. Dessa forma, será revolucionário para as nossas relações mais próximas e para compreendermos esse conceito para o controle da agressividade, não só no Brasil, mas no mundo todo. Só assim poderemos ter o que todos no fundo querem, menos dor e mais bem-estar, menos guerra e mais paz, menos ódio e mais amor. Lembre-se de que uma forma crucial de proteção nos relacionamentos é manter sempre a própria identidade, então, seja gentil consigo mesmo, não viva o desejo do outro, viva o seu desejo. Relacionamentos precisam de limites saudáveis e bem claros. Se não definirmos nossa individualidade e personalidade, nos misturamos com o outro, e os relacionamentos ficarão confusos e tornar-se-ão destrutivos, pouco saudáveis. Nossas ações e escolhas, por menores que pareçam, são capazes de mudar o mundo. A cada momento fazemos opções sobre nosso modo de vida. Se aprendermos a nos conectar de forma saudável e menos primitiva, uns com os outros, seremos uma ponte para um futuro maduro e sustentável. “Cada um de nós faz o seu hoje, consequentemente o seu amanhã. E juntos fazemos os nossos – os amanhãs que queremos”.30 Afinal, somos nós, dentro de cada eu. Apêndice A – Sistema Cerebral – Cérebro Social Relacional Grande parte do mapeamento cerebral é realizada por meio de imagens e exames de última geração, como ressonância magnética e ultrassonografia, mas as pesquisas nunca cessam e ainda temos muito a evoluir. A pergunta aqui é: Há um cérebro social/relacional humano? Sim! Os seres humanos são animais excessivamente sociais, mas os fundamentos neurais do comportamento e do conhecimento sociais ainda não são completamente conhecidos. Os estudos realizados com seres humanos e outros primatas têm revelado diversas estruturas neurais que desempenham um papel chave na construção dos comportamentos sociais. Partes do cérebro como: a amígdala, os córtices frontais ventromediais, e o córtex somatossensorial direito, entre outras estruturas (Adolphs, 1999), parecem mediar as representações perceptuais de estímulos socialmente relevantes. Ainda não sabemos se existe um lugar específico do cérebro responsável pelas interações sociais, porque há um conjunto neural que flui em todo o cérebro, é de amplo alcance e um está sintonizado com o outro, mas vou destacar algumas descobertas já realizadas e que mostram as áreas principais: – Reconhecimento das emoções sociais (culpa, arrogância, percepção do medo) – está localizado na amígdala. (Adolphs et al., 2002; Amaral et al., 2003; Kesler et al., 2001) – Prazer pessoal e julgamento social – Córtex pré-frontal ventromedial (Steffanaci & Amaral, 2002) – Amor, perda e vinculação romântica – foram realizados diversos estudos de fMRI e o estudo de Bartels & Zeki (2000) mostrou que o striatum, a ínsula medial, o córtex anterior do cíngulo e o córtex pré-frontal ventral direito estão envolvidos na resposta a esses aspectos e também a exclusão social e a sensibilidade à dor física. (Eisenberger et al., 2006). Obs.: notem que isso reforça e valida as doenças psicossomáticas, que eu chamo de doenças psicorrelacionais, já que a mesma área do cérebro é responsável pelo amor, pela perda e pela dor física. Estes estudos possibilitaram elaborar ahipótese do Cérebro Social. A sua formulação evolucionária foi feita por Robin I.M. Dunbar (1998, 2003), que, com base em sólida evidência empírica, a apresentou como alternativa às estratégias ecológicas, capaz de explicar os cérebros grandes dos primatas pelas exigências e pressões seletivas impostas pelos sistemas sociais complexos característicos desta ordem. O cérebro dos primatas é essencialmente um cérebro executivo, principalmente o neocórtex responsável pelos aspectos fundamentais da cognição social, em particular pela teoria da mente. Jean-Pierre Changeux reconheceu que a mais-valia da divergência evolutiva que conduziu ao Homo sapiens foi precisamente “o alargamento das capacidades de adaptação do encéfalo ao meio ambiente, acompanhado de um evidente aumento das aptidões para criar objetos mentais e para os combinar entre si”. A noção evolutiva do cérebro social, que sofre na sua evolução fisiológica e genética e no seu desenvolvimento, revela as marcas originais e indeléveis dos laços sociais, da “comunicação entre os indivíduos” e da cultura, o produto mais complexo da mente humana. Não foi a mera adaptação ao meio ambiente que desencadeou o aumento do encéfalo, mas a própria complexidade das sociedades dos primatas que culmina com as sociedades humanas. Neste sentido, a evolução do cérebro revela o aparecimento de características que melhoram a capacidade de atuação funcional: o cérebro humano torna-se dependente dos recursos culturais e sociais que aprimoram o seu funcionamento. Isso significa que esses recursos são essenciais para a própria atividade mental. O estudo mais recente sobre o tema, lançado em janeiro de 2017, na revista Science, liderada por Jesse Gómez, da Universidade de Stanford, afirma que a área cerebral responsável por reconhecer rosto humano (área fusiforme) cresce de forma relativa nos adultos, enquanto a zona que ajuda a reconhecer lugares permanece igual31. A capacidade de reconhecer rostos melhora nos indivíduos adultos, o que nos faz pensar que precisamos de mais “espaço” para armazenar as pessoas que conhecemos no decorrer da nossa vida. O que mais uma vez comprova que somos seres relacionais32. Lesões nesta região cerebral produzem déficit no reconhecimento de faces e reduções significativas no volume da sua matéria cinzenta. O circuito da informação social foi identificado por dois estudos de fMRI (Castelli et al., 2002; Martin & Weisberg, 2004) que procuraram saber como o cérebro responde enquanto atribui interação social a imagens abstratas: o circuito identificado compreende o segmento lateral do giro fusiforme, o sulco temporal superior, a amígdala e o córtex pré-frontal ventromedial, um circuito envolvido na percepção social de primatas e na cognição social humana (Adolphs, 2001). A identificação do circuito social no cérebro humano é de grande importância para identificar a neuropatologia do autismo (Lord et al., 2000). As crianças com autismo apresentam ausência de motivação social, dificuldade de manter contato visual e baixo interesse em olhar para faces (Klin et al., 2002). Isso pode indicar a ausência de atenção e falta de habilidade para processar faces. Porém, os indivíduos com autismo são inteligentes na realização de diversas tarefas, exceto nas do domínio social. As futuras descobertas da neurociência, da neuropsicologia, do neuromarketing e da neuroeconomia têm o potencial de revigorar as ciências sociais, relacionais e o comportamento humano. Assim, o campo dos novos testes de inteligência também parece estar pronto para que possamos repensar os pressupostos básicos. Hoje, torna-se fundamental significarmos o cérebro e o comportamento relacional, que são de importância vital para os nossos relacionamentos e a nossa sobrevivência em sociedade. Espero continuar meus estudos sobre inteligência social e relacional e tenho certeza de que surgirão novos modelos válidos sobre o tema, mas a minha forma de apresentar o respeito pelas pessoas dentro dos princípios e das habilidades do CLASSE é apenas uma maneira de categorizar o que certamente vai estimular novas linhas de pensamento. Referências bibliográficas ANTUNES, C. As inteligências múltiplas e os seus estímulos. Porto: Edições ASA, 2005. ARIELY, Dan. Previsivelmente Irracional como as decisões do dia a dia influenciam as nossas decisões. Elsevier, 2008. ALBRECHT, Karl. Inteligência social. São Paulo: Editora M.Books do Brasil Ltda, 2006. BERESFORD, Lucy. Como se libertar das relações tóxicas. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2004, Tradução de Simone Lemberg Reisner. LUCAS, Bill. Aumente sua inteligência: semana a semana, tradução de Ana carolina Mesquita. São Paulo: Publifolha: 2006. CHOPRA, Deepak; Tanzi, Rudolph E. Super genes. Harmony Books, 2015. CHAPMAN, C. If the shoe fits...How to develop multiple intelligences in the classroom. Palatine, Illinois: IRI/Skylight, Inc., 1993. CHAPMAN, C. & FREEMAN, L. Multiple intelligences: centers and projects.Palatine, Illinois: IRI/Skylight, Inc., 1997. CHAMINE, Shirzad. Inteligência positiva: por que só 20% das equipes e dois indivíduos alcançam seu verdadeiro potencial e como você pode alcançar o seu. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2013, Tradução: Regiane Winarski. DAWKING, Richard. O gene egoísta. Companhia das Letras, 1976. GARDNER, Howard. Frames of Mind: the theory of multiple intelligences. London: Fontana Press, 1993. GARDNER, Howard. Inteligência múltiplas: a teoria na prática. Porto Alegre: Editora Artmed. Tradução: Maria Adriana Verissimo Veronese, 1995. GINGER, Serge. Gestalt: A arte do contato. Editora Vozes, 2007. GOLEMAM, Daniel. Foco: a atenção e seu papel fundamental para o sucesso. 1 ed. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2014, Tradução: Focus, 294p. GOLEMAM, Daniel. Liderança: a inteligência emocional na formação do líder de sucesso. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2015, Tradução de: What Makes a Leader: Why Emotional Intelligence Matters. GOLEMAN, Daniel. O poder das relações humanas: inteligência social. Rio de Janeiro: Editora Elsevier Ltda, 2006, Tradução: Ana Beatriz Rodrigues. GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional. Rio de Janeiro: Editora Objetiva Ltda, 1995, Tradução: Marcos Santarrita. GONDIN, Francisco A.A, TAUNAY, Tauily C.E. Neuropsicofisiologia. Fortaleza: F. A. Aquino Gondim, 2009. GOTTMAN, John. Inteligência emocional: a arte de educar nossos filhos. Rio de Janeiro. Editora Objetiva, 1997. Título Original: The heart of parenting, Tradução de Adalgisa Campos da Silva. HARRIS, Dan. 10% mais feliz; título original: 10% happier. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2015. HICKORY, Gregory. The myth os mirror neurons. Norton, 2014. JUNG, Carl Gustav e LAURENS Van der Post. Jung & the story of our time. New York, First Edition, 1975. KABAT_ZINN, Jon. Mindfulness for beginners. E-book. Editor: Boulder, Idioma: inglês, 2012. LENT, Roberto. Cem bilhões de neurônios? Conceitos fundamentais de neurociência. 2 ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2010. LUCAS, Bill. Aumente sua inteligência: semana a semana: 52 técnicas para potencializar sua capacidade de aprendizado. São Paulo: Editora Publifolha, Tradução: Ana Carolina Mesquita, 2006. PERLS Frederick, HEFFERLINE Ralph e GOODMAN Paul. Gestalt-Terapia. São Paulo: Editora Summus Editorial Ltda. Tradução: Fernando F. da Rosa Ribeiro, 1969. PAGES Max. A vida afetiva dos grupos, esboço de uma Teoria da relação humana. 2ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes Ltda, 1975. Tradução: Luiza L. Leite Ribeiro. MLODINOW, Leonard. Subliminar. 1 ed. Tradução Cláudio Carina. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor, 2014. PERUZZO, Marcelo. As três mentes do neuromarketing. Rio de Janeiro: Alta Books, 2015. SIGMUND, Freud. Early papers: on the history of the, psychoanalytic movement. São Paulo: Editora Schwarcz Ltda. Vol. 1 a 5. New York Basic Books, Inc. Publishers, Authorized Translation Under The Supervision Of, No.7, edited by Ernest Jones, MD, 1989. SUSAN C., Cloninger. Teorias da personalidade. 1ed. São Paulo: Editora Martins Fontes Tradução: ClaudiaBerliner, 2003. TEJON MEGIDO, José Luiz, Guerreiros não nascem prontos. 1a ed. São Paulo: Editora Gente, 2016. ZENHAS, A., Silva, C., Januário, C., Malafaya, C., & Portugal, I. Ensinar a estudar aprender a estudar. 4 ed. Porto: Porto Editor, 2002. GUYTON, A. C.; HALL, J. E. Fisiologia humana e mecanismo das doenças. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 2008. 639p. 28. Ibidem, p. 17 29. Ibidem, p. 17 30. https://goo.gl/3dMBhT 31. https://goo.gl/EtFl6A - Publicado 30th July 2009 por J Francisco Saraiva de Sousa. 32. https://goo.gl/7N9eio - artigo também publicado na revista Science. Rosto Créditos Agradecimentos Especiais Prefácio Introdução Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Conclusões AVALIANDO SUAS HABILIDADES RELACIONAIS Apêndice A – Sistema Cerebral – Cérebro Social Relacional Referências bibliográficas