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75 5 Literatura comparada e dependência cultural Analogia e dependência Como vimos até agora, diversos autores nos ajudam a pensar sobre noções que são fundamentais para os estudos literários comparados e que, vistas sob outro prisma, permitem a revitalização dos estudos de fontes e de influências, que sempre foram o cavalo de batalha do comparativismo tradicional. Convém nos determos ainda no que foi um aspecto vital para aqueles estudos: a busca de analogias. Ao empreenderem a investigação da "fortuna de um verso" ou das "fontes remotas" de determinado texto, os comparativistas clássicos tinham uma idéia fixa: identificar a semelhança ou identidade entre as obras aproximadas. Daí a formação dos longos paralelismos, já referidos e criticados. Mas havia nesse procedimento uma outra intenção: estabelecida a analogia, instalava-se o débito. E a relação se convertia num saldo de créditos e débitos. É possível ainda descobrir, subjacente a esses procedimentos e a essas conclusões, outra intenção mais oculta: a demarcação da dependência cultural. Reconheci- 76 da a semelhança, contraída a dívida, chegava-se, com naturalidade, a uma conclusão: a dominação cultural de um pais (de uma cultura) sobre outro (ou outra). Na prática mais convencional, isso deixava transparecer uma ideologia colonizadora, que fortalecia os sentimentos nacionais. Vista assim, a literatura comparada tinha uma falsa feição de internacionalismo e de espírito de abertura e aceitação. Investigar uma influência, cavoucar as fontes, significava descobrir que determinada cultura era superior a outra, portanto, dominante. Tal perspectiva só podia beneficiar os sistemas culturais consolidados, dos quais os mais novos seriam sempre "parentes pobres" ou herdeiros remotos. Em geral, retardatários, pois acabavam recebendo tardiamente o que já deixara de ser "a ordem do dia" no país de origem. A formação de linhagens ou "famílias" não estava longe desse sentido: crescia a importância de um autor quando era possível dizer que ele pertencia à casta de um nome célebre. A dívida sempre estigmatizando a produção mais recente: ou bem ela é devedora (portanto, copiadora, simples reprodução sem originalidade), ou bem ela tem valor por "parecer- se" com a obra que a antecedeu. Nesse contexto, a "fonte remota" torna-se um valor do qual dependem as obras que influencia. Com razão Silviano Santiago aponta esse dado em seu estudo "O entre-lugar do discurso latino- americano", que abre o volume intitulado Uma literatura nos trópicos 49. Vale a pena transcrevê-lo: A fonte torna-se a estrela intangível e pura que, sem se deixar contaminar, contamina, brilha para os artistas dos países da América Latina, quando estes dependem da sua luz para o trabalho de expressão. Ela ilumina os movimentos das mãos, mas ao mesmo tempo torna os 77 artistas súditos de seu magnetismo superior. O discurso crítico que fala das influências estabelece a estrela como único valor que conta (p. 20). 49 São Paulo, Perspectiva, 1978.