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Literatura comparada e 
dependência cultural
Analogia e dependência
Como vimos até agora, diversos autores nos ajudam a pensar sobre 
noções que são fundamentais para os estudos literários comparados e que, 
vistas sob outro prisma, permitem a revitalização dos estudos de fontes e de 
influências, que sempre foram o cavalo de batalha do comparativismo 
tradicional.
Convém nos determos ainda no que foi um aspecto vital para aqueles 
estudos: a busca de analogias.
Ao empreenderem a investigação da "fortuna de um verso" ou das 
"fontes remotas" de determinado texto, os comparativistas clássicos tinham 
uma idéia fixa: identificar a semelhança ou identidade entre as obras 
aproximadas. Daí a formação dos longos paralelismos, já referidos e 
criticados. Mas havia nesse procedimento uma outra intenção: estabelecida 
a analogia, instalava-se o débito. E a relação se convertia num saldo de 
créditos e débitos.
É possível ainda descobrir, subjacente a esses procedimentos e a 
essas conclusões, outra intenção mais oculta: a demarcação da dependência 
cultural. Reconheci-
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da a semelhança, contraída a dívida, chegava-se, com naturalidade, a uma 
conclusão: a dominação cultural de um pais (de uma cultura) sobre outro 
(ou outra).
Na prática mais convencional, isso deixava transparecer uma 
ideologia colonizadora, que fortalecia os sentimentos nacionais.
Vista assim, a literatura comparada tinha uma falsa feição de 
internacionalismo e de espírito de abertura e aceitação. Investigar uma 
influência, cavoucar as fontes, significava descobrir que determinada 
cultura era superior a outra, portanto, dominante.
Tal perspectiva só podia beneficiar os sistemas culturais 
consolidados, dos quais os mais novos seriam sempre "parentes pobres" ou 
herdeiros remotos. Em geral, retardatários, pois acabavam recebendo 
tardiamente o que já deixara de ser "a ordem do dia" no país de origem.
A formação de linhagens ou "famílias" não estava longe desse 
sentido: crescia a importância de um autor quando era possível dizer que 
ele pertencia à casta de um nome célebre. A dívida sempre estigmatizando 
a produção mais recente: ou bem ela é devedora (portanto, copiadora, 
simples reprodução sem originalidade), ou bem ela tem valor por "parecer-
se" com a obra que a antecedeu. Nesse contexto, a "fonte remota" torna-se 
um valor do qual dependem as obras que influencia. Com razão Silviano 
Santiago aponta esse dado em seu estudo "O entre-lugar do discurso latino-
americano", que abre o volume intitulado Uma literatura nos trópicos 49. 
Vale a pena transcrevê-lo:
A fonte torna-se a estrela intangível e pura que, sem se deixar 
contaminar, contamina, brilha para os artistas dos países da 
América Latina, quando estes dependem da sua luz para o 
trabalho de expressão. Ela ilumina os movimentos das mãos, 
mas ao mesmo tempo torna os
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artistas súditos de seu magnetismo superior. O discurso crítico 
que fala das influências estabelece a estrela como único valor 
que conta (p. 20).
49 São Paulo, Perspectiva, 1978.

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