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RELATO DE EXPERIÊNCIA Material Complementar PNEUMONIAS ADQUIRIDAS NA COMUNIDADE Em 2014, eu discutia com um residente sobre as Pneumonias Adquiridas na Comunidade (PAC). Ele argumentava que uma publicação, do mesmo ano, dizia que os Streptococcus pneumoniae guardavam grande resistência bacteriana, e que o indicado, para o tratamento domiciliar, seria a combinação de antibióticos que cobrisse tanto germes Gram positivos quanto Gram negativos, como, também, os atípicos - o que resultaria, imediatamente, na ampliação do custo, além de contribuir, desnecessariamente, com a resistência bacteriana, como ocorreu nos anos 80, na Europa. Atento às últimas publicações, o residente de clínica médica apresentou um artigo da prestigiosa revista New England Journal of Medicine (v. 371, p. 1619-28, 2014). Material cedido pelo professor Ricardo Menezes Macedo. Trata-se de um relato de experiência entre ele e seus residentes. 1 Porém, numa leitura menos apressada, podemos verificar que o título do artigo, Community-Acquired Pneumonia, é contraditório com a visão microbiológica apresentada no texto, uma vez que, ao falar de resistência bacteriana, os autores se referem a germes colhidos em paciente hospitalizados, o que, por si só, seria uma incongruência. Da mesma forma, ao discorrerem sobre a era pré-antibiótica, em que os Streptococcus pneumoniae eram responsáveis por quase que 95% dos casos de Pneumonia, verificaram que havia um declínio desses germes, fazendo com que fossem responsáveis por cerca de apenas 10 – 15% dos casos em paciente “internados” nos EUA. Ora, o título do artigo não fala sobre pacientes internados! Portanto, não podemos usar dados de pacientes que demandaram internação, para qualificar microbiologicamente casos adquiridos na comunidade. 2 Além disso, ao sustentar o aumento da resistência bacteriana pelos Streptococcus pneumoniae, os autores se referem a germes coletados para estudo entre os anos de 2008 e 2013, em trabalhos multicêntricos, distantes milhares de quilômetros das cidades brasileiras, nas quais aplicaríamos cegamente suas recomendações. Alguns resultados de resistência são de referências datadas de 10 anos antes, colhidos entre 2004 e 2005. Não nos parece crível acharmos que esses dados possam ser atualizados, por estarem publicados no ano em que estamos lendo o artigo. 3 Do mesmo modo, os dados brasileiros sobre a resistência dos Streptococcus pneumoniae aos Beta-lactâmicos são escassos em nossos dias, e, mesmo aquelas cepas responsáveis por doença invasiva, antes e após a implementação da vacinação de crianças, em 2010, no Brasil, dão conta que essa resistência é baixa (Dos Santos et. al., 2013). Portanto, importar dados como se fosse uma amostra semelhante àquela brasileira é uma conclusão apressada e vazia de metodologia, para indicar tratamentos de antibióticos. TENHA EM MENTE QUE: É importante estar atento às informações e aos dados compartilhados nos artigos publicados de forma mais recente e contrapor com a realidade clínica vivenciada. Informações clínicas descritas e os aspectos epidemiológicos, radiológicos e microbiológicos são instrumentos, que devem ser analisados em conjunto, para o julgamento médico. 4