Prévia do material em texto
PRIMEIRO SEMESTRE LETIVO DE 2023/01 POLIOENCEFALOMACIA EM BOVINOS Introdução A polioencefalomalácia ou necrose cerebrocorticalé uma doença (representada pela sigla PEM) que acomete o sistema nervoso de ruminantes que pode ser causada por condições multifatoriais, por agentes que alteram o metabolismo neuronal com alterações morfológicas causando necrose e amolecimento (malacia) da substância cinzenta (pólio) do córtex encefálico. Fisiopatogenia Existem cinco causadores da doença: Deficiência de vitamina B1 (tiamina); Intoxicação por enxofre; Intoxicação por cloreto de sódio; Intoxicação por chumbo; Herpesvírus bovino tipo 5 (BoHV-5). Deficiência de Vitamina B1 (TIAMINA) As bactérias do rúmen são responsáveis pela produção de tiamina nos ruminantes, de forma que dietas ricas em grãos promovem acidose lática e este quadro reduz as colônias produtoras de tiamina ou predispõe o crescimento de bactérias que sintetizam a enzima tiaminase, esta enzima Curso Medicina Veterinária Disciplina Seminário: Polioencefalomacia em Bovinos Turma 5° Semestre Data de entrega: 18/05/2023 Professor(a) Dra. Leslie Domingues Aluno(a) Bruna Aparecida Seizes Brau RGM: 2610513-6 Aluno(a) Eliza Wiltemburg Antunes Terra RGM: 2704477-7 Aluno(a) Maria Fernanda S. Gimenes RGM: 2545000-0 degrada a tiamina, e as bactérias Bacillus thiaminollitycus e o Clostridium sporogenes que degradam a tiamina. O fornecimento de dietas com muito concentrado e pouco volumoso podem levar à acidose ruminal por conta do aumento do ácido lático sendo capaz de reduzir a síntese e a absorção de tiamina. A tiamina pirofosfato é a forma de tiamina encontrada na célula que age como coenzima de importantes reações do metabolismo de carboidratos. Essa coenzima presente no ciclo de Krebs atua na descarboxilação oxidativa, durante a conversão de piruvato em acetil-Coa e na conversão do alfa-cetoglutarato em succinil-Coa. Portanto, a tiamina é essencial para a produção de ATP na célula. A tiamina também é cofator da transcetolase, enzima pertencente a via das pentoses- fosfato que produz NADPH, que é necessário para síntese de gorduras que interferem na integridade de membrana celular. O controle osmótico intracelular é realizado pela bomba sódio- potássio (Na+/K+) dependente de ATP, o qual é obtido no sistema nervoso central principalmente a partir da oxidação da glicose. A disfunção nesta bomba gera acúmulo de sódio e, consequentemente, aumenta o volume de água dentro das células nervosas, levando à tumefação e necrose neuronal, que é agravada pela incapacidade de expansão do crânio, provocando aumento da pressão intracraniana, o que causa ainda mais edema e necrose compressiva. Intoxicação por Enxofre Os altos níveis de enxofre (sulfatos, sulfitos ou sulfetos) na alimentação ou na água e as fontes desses compostos são variáveis e incluem aditivos no concentrado, como o gipso (sulfato de cálcio) ou acidificadores de urina (sais de sulfato inorgânico ou sulfato de amônia) tagens (por absorção do elemento no solo ou por contaminação com subprodutos industriais ou animais e fertilizantes), fontes de água com altos teores de enxofre e, mais raramente, erros na formulação de rações. A microbiota ruminal adaptada a dietas ricas em sulfatos produz grandes concentrações de sulfeto de hidrogênio parte das quais é detoxificada pela produção bacteriana de aminoácidos sulfurados; outra parte é absorvida pelas mucosas ruminal e intestinal ou ainda pode ser eructada. Como o SNC depende de níveis altos de energia, esse é o principal sistema afetado. Contudo, outros mecanismos de ação também podem estar envolvidos. O enxofre pode se ligar a hemoglobina formando a sulfemoglobina, que, por sua vez, reduz a capacidade de condução de oxigênio no sangue. As bactérias que degradam sulfatos podem ser dissimilatórias e assimilatórias. As dissimilatórias usam enxofre como um receptor de elétrons e produzem sulfetos como um produto metabólico final necessário, enquanto as assimilatórias reduzem enxofre, mas o utilizam para sintetizar aminoácidos contendo enxofre. Produção e acúmulo excessivos de sulfeto no rúmen poderiam ser causados pela predominância de bactérias dissimilatórias ou por capacidade assimilatória insuficiente. Duas bactérias dissimilatórias isoladas do fluido ruminal de ovinos e bovinos, Desulfovibrio spp. e Desulfotomaculum spp., são os principais microorganismos produtores de sulfeto no rúmen. Intoxicação por Cloreto de Sódio Sabe-se que o sódio é o principal determinante da osmolaridade extracelular e passa lentamente pela barreira hematoencefálica. Quando as concentrações de sódio sanguíneo estão elevadas no sangue (145-185mE/L), o encéfalo também possui altas concentrações desse mineral, o que inibe a glicólise anaeróbica. Com o acesso a água, as concentrações de sódio no sangue voltam ao normal, mas no encéfalo permanecem altas. Como a glicólise anaeróbica está comprometida, não há transporte ativo para fora do sistema nervoso. Assim, cria-se um gradiente osmótico e a água passa do sangue para o encéfalo, levando ao edema cerebral. Na reidratação rápida, o fluxo de água para os eritrócitos frequentemente causa hemólise intravascular, que pode deixar o soro e a urina vermelhos ou marrons. Intoxicação por Chumbo Casos de intoxicação são frequentemente associados à exposição de rebanhos a resíduos de baterias, tintas, lubrificantes, óleos de motor, fumaça de indústrias, herbicidas, inseticidas e pastagens contaminadas por lixo industrial. As alterações nervosas são consequentes do edema devido ao depósito de chumbo no endotélio capilar, enquanto que lesões digestivas ocorrem pela ação cáustica dos sais de chumbo na mucosa. Após a ingestão, somente uma fração do chumbo é absorvida no trato gastrointestinal; dessa parte, uma quantidade é excretada na bile, urina e no leite e outra é depositada nos rins, fígado e medula espinhal na intoxicação aguda, e ossos na intoxicação crônica A maior parte do chumbo ingerido forma complexos insolúveis e é excretado nas fezes Quase todo chumbo absorvido é ligado irreversivelmente a proteínas de eritrócitos. Por isso, as concentrações do mineral são muito maiores no sangue total em comparação ao soro ou plasma. Quando os eritrócitos senis são removidos pelo baço, a maior parte do chumbo é depositada nos ossos sob a forma de sais trifosfatos e uma pequena quantidade é colocada em órgãos, como rim e fígado como sais difosfatos. Herpesvírus Bovino Tipo 5 (BOHV-5) A meningoencefalite por BoHV é uma doença infectocontagiosa, aguda ou subaguda, geralmente fatal e que afeta principalmente bovinos jovens submetidos a situações de estresse. A maioria dos bovinos que desenvolvem doença neurológica morre em decorrência de meningoencefalite, porém alguns podem desenvolver infecção subclínica e, após recuperação, permanecerem portadores da infecção. Os sinais clínicos e as lesões são semelhantes às observadas na PEM tradicional. Os achados de necropsia podem estar ausentes, mas normalmente se observa tumefação das porções rostrais do córtex telencefálico e achatamento das circunvoluções, com segmentos amarelados e amolecidos (malacia). Com a evolução da doença, essas áreas se tornam gelatinosas e acinzentadas, e em casos avançados ocorre o desaparecimento segmentar do córtex telencefálico frontal (lesão residual). Em muitos casos podem ser observados focos de malacia na substância cinzenta dos núcleos basais e do tálamo. Essas lesões tornam difíceis a separação dos casos de infecção por BoHV dos outros casos de PEM, as infiltrado inflamatório intenso no exame histológico ajuda na diferenciação das doenças. Sinais Clínicos A Polioencefalomacia manifesta-se de duas maneiras, subaguda e aguda. Na forma subaguda, os sinais podem se desenvolver em poucas horas ou ao longo de alguns dias. No estágio inicial da doença, os animais se isolam e entram em estado de depressão repentina, apresentam quadros de anorexia e distúrbiosde marcha, cegueira cortical, reflexo pupilar reservado, hipoatividade ruminal, estrabismo medial dorsal e opistotono moderado (espasmos da coluna vertebral). Outros sinais são, diarréia, hiperestesia (aumento da sensibilidade da pele), tremores musculares, mastigação repetitiva, nistagmo variável e inclinação da cabeça. A temperatura retal se mantém normal a menos que desenvolvam espasmos musculares excessivos, o pulso e a frequência respiratória geralmente aumentam. Se a Polioencefalomacia for por intoxicação ao enxofre, pode ser detectados um odor de sulfeto de hidrogênio na respiração. Já na forma aguda, o animal pode ser encontrado apoiado e em coma, geralmente esses animais sofrem episódios de convulsões tônico-clônico. Fase Tônica há perda de consciência, o animal cai e o corpo contrai e enrijece. A fase clônica o animal contrai e contorce as extremidades do corpo perdendo a consciência, mas após a crise se recupera gradativamente. A Polioencefalomacia geralmente está temporariamente associada à acidose láctica que se desenvolve após o consumo de quantidades excessivas de carboidratos prontamente fermentáveis. Animais com acidose láctica podem apresentar ataxia ou cegueira, além de terem diarréias com odor forte e um rúmen distendido e cheio de líquidos. A Polioencefalomacia simultânea pode não ser diagnosticada, ou os produtores podem confundir a Polioencefalomacia com acidose láctica ou tímpano ruminal primário em animais agudamente afetados que permaneceram reclinados por algum tempo. Diagnóstico Para alguns diagnósticos diferenciais para a Polioencefalomacia podem-se incluir enterotoxemia tipo D (forma de encefalomalácia simétrica focal), meningoencefálico de Haemophilus (meningoencefalite trombótica), coccidiose com envolvimento do sistema nervoso, meningoencefalite listeria, deficiência de vitamina A, envenenamento por etilenoglicol, raiva, rinotraqueíte infecciosa bovina. Exames Complementares Para os exames, é recolhido amostras de sangue e liquor, exame de grande importância para diagnósticos de doenças neurológicas. Referências: SANTOS, J. A. dos. Patologia Especial dos Animais Domésticos (Mamíferos e Aves). Rio de Janeiro: Interamericana, 1979, 185 p. SMITH, B. P. Medicina Interna de Grandes Animais. Germany, 3ª edição, 2005.