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CENTRO UNIVERSITÁRIO CELSO LISBOA HISTÓRIA - 2024.2 DIDÁTICA E AVALIAÇÃO - FASE 3 1. DEFINIÇÃO E IMPORTÂNCIA DA AVALIAÇÃO O conceito de "avaliar" na educação é amplamente discutido por diversos autores, que definem a avaliação como um processo contínuo de reflexão e ação que acompanha educadores e educandos na construção do conhecimento. Hoffmann (2006) destaca que a avaliação deve ser uma reflexão transformada em ação, enquanto Luckesi (2000, 2005) a considera um ato acolhedor e amoroso, integrando o acompanhamento dos estudantes em seu processo de aprendizagem e desenvolvimento. Libâneo (2013) reforça que a avaliação orienta as atividades didáticas futuras, e Esteban (2003) enfatiza o papel reflexivo da avaliação como uma forma de retorno ao que está sendo realizado no ensino. A avaliação é vista como uma ferramenta essencial para diagnosticar o progresso dos alunos, planejar o ensino e ajustar as práticas pedagógicas. Haydt (2008) apresenta quatro princípios fundamentais da avaliação: Avaliação contínua e sistemática: ● Deve ocorrer de forma constante e planejada, integrando-se ao processo ensino-aprendizagem. Avaliação funcional: ● Realiza-se com base nos objetivos propostos, verificando se os alunos estão atingindo as metas estabelecidas. Avaliação orientadora: ● Não busca eliminar alunos, mas guiá-los para que alcancem os objetivos, ajustando o processo de aprendizagem. Avaliação integral: ● Considera todas as dimensões do comportamento do aluno, analisando-o como um todo. Assim, a avaliação não deve ser vista como um mecanismo de exclusão, mas como uma aliada no processo de aprendizagem e na melhoria da prática pedagógica. 2. FUNÇÕES DA AVALIAÇÃO Avaliação Mediadora (Jussara Hoffman, 2006) A avaliação mediadora envolve o papel ativo do professor na observação e reflexão sobre as melhores estratégias para promover a aprendizagem de cada aluno. O professor deve interagir constantemente com os alunos, o que inclui diálogo, questionamento e observação. Essa abordagem permite que o educador entenda melhor as necessidades individuais dos estudantes e adapte suas práticas pedagógicas para facilitar o aprendizado. Avaliação como Ato Amoroso (Luckesi, 2005) Luckesi propõe que a avaliação deve ser vista como um ato amoroso, ou seja, deve acolher a realidade do aluno, independentemente de ser positiva ou negativa. O objetivo da avaliação é diagnosticar as dificuldades e incluir o aluno no processo de aprendizagem, respeitando suas experiências e vivências. Essa abordagem permite que o educador compreenda melhor os alunos e crie um ambiente de aprendizado inclusivo. Avaliação Reflexiva (Maria Teresa Esteban, 2003) A avaliação reflexiva permite que o professor analise o que foi realizado e projete novos caminhos para o processo educativo. Essa dimensão investigativa da avaliação é essencial, pois ajuda a potencializar o processo educacional. Por meio da reflexão, o educador pode identificar práticas eficazes e áreas que precisam de melhorias, promovendo um ciclo contínuo de aprendizado e adaptação. Avaliação Emancipatória (Saul, 1999) A avaliação é vista como um processo emancipatório, que envolve crítica e transformação da realidade. Essa abordagem compromete-se a permitir que os envolvidos no processo educacional – tanto alunos quanto educadores – gerem suas próprias alternativas e escrevam suas próprias histórias. A avaliação emancipatória busca promover a autonomia dos alunos, capacitando-os a refletir sobre suas próprias experiências e a desenvolver suas trajetórias. Funções da Avaliação (Luckesi, 2011) ● Autocompreensão: A avaliação deve promover uma aliança entre educador e educando, visando a busca conjunta por melhores resultados. Essa função ajuda ambos a compreenderem suas respectivas condições e progressos. ● Motivação para o crescimento: A avaliação deve estimular o aluno a superar obstáculos e avançar no aprendizado, criando um desejo interno de melhoria contínua. ● Aprofundamento da aprendizagem: A avaliação deve ser encarada como um exercício de aprendizagem, permitindo que tanto educador quanto educando manifestem a qualidade de seus conhecimentos e habilidades. ● Auxílio à aprendizagem: O professor deve estar atento e disposto a contribuir para o crescimento e desenvolvimento dos alunos, mantendo uma mente e um coração abertos às suas necessidades e progressos. Essas perspectivas destacam a avaliação como um processo inclusivo, reflexivo e transformador, que vai além do julgamento e classificação. 3. AS MODALIDADES DA AVALIAÇÃO 1) Avaliação Diagnóstica: Realizada no início de um ciclo (ano, semestre, unidade de ensino), essa avaliação busca identificar o que o aluno já sabe, suas dificuldades e necessidades, traçando seu perfil. Ela auxilia o professor a adaptar o ensino conforme as capacidades e interesses do aluno, permitindo um avanço eficaz no processo de aprendizagem. 2) Avaliação Formativa: Acontece durante o processo de ensino e é contínua. O objetivo é acompanhar o progresso do aluno, identificar dificuldades e fornecer feedback, tanto ao aluno quanto ao professor. Essa avaliação orienta o aluno em sua aprendizagem e permite ajustes no método de ensino, tornando o processo mais inclusivo e centrado no desenvolvimento contínuo. 3) Avaliação Somativa: Essa modalidade ocorre ao final de um ciclo (unidade, semestre ou ano letivo) e é usada para classificar os alunos com base em seus resultados. É mais tradicional e foca no desempenho quantitativo (notas). Embora amplamente usada, a avaliação somativa tende a avaliar o produto final, sem muita atenção ao processo de aprendizagem. 4. CONCEPÇÕES DE AVALIAÇÃO: EXAMINAR PARA AVALIAR E MEDIR PARA AVALIAR 1. Exame e Avaliação ● Diferença entre Examinar e Avaliar: Luckesi (2011) define a avaliação como um ato que parte do presente, envolvendo investigação e diagnóstico, para propor soluções futuras. Em contraste, o exame é um ato pontual e seletivo, focado no passado e em resultados finais, que leva à aprovação ou reprovação com base no aprendizado até o momento da prova. 2. A Concepção de Medir para Avaliar ● Origem da Medição na Avaliação: A avaliação como medida surgiu no início do século XX, nos Estados Unidos, com o desenvolvimento de testes educacionais padronizados para medir habilidades dos alunos. ● Confusão entre Avaliação e Medida: Dias Sobrinho (2003) observa que, nas primeiras décadas do século passado, avaliação e medida eram considerados sinônimos, com foco em testes técnicos de mensuração de resultados. ● Pedagogia Tecnicista: A avaliação atingiu seu auge na "Pedagogia Tecnicista", que se preocupa com mudanças comportamentais quantificáveis, como indicado por Bloom et al. (1975), que definem avaliação como um sistema de dados para determinar mudanças de comportamento do aluno. 3. Críticas à Avaliação Tradicional ● Ruptura com o Paradigma: Há a necessidade de romper a confusão entre examinar e avaliar a aprendizagem, que persiste na prática educativa. Muitos educadores reproduzem modelos tradicionais que priorizam exames em vez de processos formativos. ● Equívoco na Prática Escolar: Luckesi (2011) argumenta que nas escolas atuais se anuncia a avaliação, mas se pratica o exame, revelando um equívoco na compreensão e execução desse conceito. 4. Utilidade dos Exames ● Exames e Classificação: Luckesi (2008) reconhece a necessidade de exames para situações que exigem classificação, como concursos, mas defende que a sala de aula deve priorizar diagnósticos como ferramentas de acompanhamento e reorientação da aprendizagem, ao invés de focar em exames classificatórios. 5. CONCEPÇÕES DE AVALIAÇÃO: AVALIAR PARA CLASSIFICAR Avaliação como uma ferramenta tradicional voltada para a classificação e regulação do desempenho dos alunos. Segundo Perrenoud (1999), essa avaliação é entendida como uma forma de certificação, onde o diploma atesta que o aluno completou sua formação e, assim, não precisa passar por novos exames. Nesse contexto, a prática avaliativa é caracterizada por uma lógicaclassificatória, que se concentra na verificação da aquisição de conhecimento ao final de unidades de estudo, semestres ou anos letivos. Assim, enfatiza-se a modalidade somativa da avaliação, que visa medir o desempenho dos alunos em momentos finais do processo educacional. 6. CONCEPÇÕES DE AVALIAÇÃO: AVALIAR PARA QUALIFICAR Alternativa ao enfoque tecnicista e quantitativo da avaliação tradicional. Essa abordagem, conhecida como "avaliação emancipatória" segundo Saul (1988), se baseia em um processo progressivo, sucessivo e seletivo durante o ensino-aprendizagem. Na perspectiva de Demo (2004), a avaliação qualitativa busca superar a avaliação quantitativa, mas não a descarta completamente, quando necessário. Esteban (2003) descreve a avaliação qualitativa como um modelo em transição que foca na compreensão dos processos de aprendizagem dos indivíduos. Ela enfatiza a importância da dimensão reflexiva da avaliação, permitindo que os professores explorem novas possibilidades e questionamentos a partir dos procedimentos avaliativos. 7. COMO AVALIAR: PROCEDIMENTOS x INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO 1. Observação Informal ● A observação informal é realizada sem planejamento e muitas vezes não é reconhecida como parte do processo avaliativo. ● Os dados coletados durante essa observação podem ser negligenciados, resultando em oportunidades perdidas para melhorar o ensino. ● Exemplo: um professor observa um aluno confuso durante uma atividade e tenta ajudá-lo, mas sem uma estrutura formal, os insights podem se perder. 2. Observação Formal ● A observação formal é planejada e estruturada, permitindo o acompanhamento contínuo do aluno. ● O professor deve evitar a subjetividade, utilizando fichas organizadas para registrar dados. ● Essa prática é comum na Educação Infantil e pode ser aplicada em anos iniciais do Ensino Fundamental, proporcionando uma visão mais completa do desempenho do aluno. 3. Relatórios como Instrumento de Avaliação ● Relatórios são documentos narrativos que expressam atividades ou estudos desenvolvidos pelos alunos. ● Podem ser estruturados pelo professor ou elaborados em conjunto com os alunos e são úteis para relatar experiências práticas, como excursões. ● A apresentação prévia dos elementos que compõem o relatório ajuda os alunos a refletir sobre os aspectos importantes das atividades. 4. Portfólio como Instrumento de Autoavaliação ● O portfólio é uma coletânea organizada de registros sobre as aprendizagens do aluno. ● Os alunos selecionam, após análise crítica, os trabalhos mais relevantes para incluir no portfólio. ● O foco do portfólio não é apenas o produto final, mas o aprendizado adquirido durante sua construção, promovendo a reflexão sobre o próprio processo de aprendizagem. ● Também serve como um meio de avaliação da atuação do professor, pois as discussões sobre o portfólio incentivam o desenvolvimento do pensamento crítico. 8. O PROCEDIMENTO DE AUTOAVALIAÇÃO E DO CONSELHO DE CLASSE A autoavaliação é um procedimento de avaliação, por meio da apreciação feita pelo próprio aluno, quanto ao processo de ensino-aprendizagem vivenciado. Pode ser realizada por meio de uma ficha de autoavaliação, criada pelo professor, ou em parceria com a turma. Alguns instrumentos de ficha de autoavaliação como exemplo: EXEMPLO I: EXEMPLO II: FICHA DE AUTOAVALIAÇÃO Escola: ___________________________________________________________________ Aluno:____________________________________________________________________ Turma:____________________________________________________________________ EXEMPLO III: Ao invés de proposta em ficha, a autoavaliação também pode ser apresentada na forma de provocação de reflexão, como por exemplo: ─ No presente bimestre, meu aproveitamento em língua portuguesa foi ________ ─ Na área afetiva (hábitos de trabalho, atitudes para com o professor e colegas) meu crescimento foi _______________ ─ Na área psicomotora cresci porque ____________________ O Conselho de Classe como Instrumento de Avaliação ● Definição e Propósito: O Conselho de Classe (COC) é um instrumento de avaliação que deve promover discussões e reflexões sobre a aprendizagem dos alunos, buscando alternativas para melhorar tanto a turma quanto cada aluno individualmente, e não se limitar a avaliar comportamentos. ● Práticas na Realidade Escolar: Muitas vezes, o COC é apenas um espaço para desabafos dos professores, sem ações concretas. O foco deve ser nos critérios de avaliação estabelecidos no projeto político-pedagógico da escola. ● Critérios de Avaliação: É comum haver divergências entre os educadores quanto à avaliação de certos critérios, como a participação dos alunos. Discussões são necessárias para entender as diferentes percepções. ● Momentos de Realização: O COC pode ocorrer no início do ano letivo (para diagnóstico), ao final de um período (para intervenções) ou ao final do ano letivo (para análise de promoção dos alunos). ● Funções do Conselho: O COC serve para acompanhar o desempenho dos alunos, avaliar a eficácia do trabalho docente e propor melhorias na prática educativa, além de incentivar a interação entre professores, pais e alunos. ● Cuidados Necessários: Sant’anna (1995) sugere cuidados durante as reuniões, como evitar rótulos, focar na aprendizagem, discutir o rendimento individual e coletivo, e refletir sobre o currículo e os instrumentos de avaliação usados. A reunião deve ser documentada em ata. 9. O PROCEDIMENTO DAS PROVAS E SEUS INSTRUMENTOS Tipos de Provas 1. Provas Orais ○ Realizadas individualmente ou em grupo, podem envolver arguições (sorteio de questões) ou discussões. 2. Provas Práticas ○ Envolvem a execução de tarefas, como experimentações. Também conhecidas como “provas de laboratório”. 3. Provas Escritas Objetivas ○ Estruturadas para facilitar a contagem de acertos e erros. São úteis para grandes turmas e abordam amplo conteúdo. Embora minimizem critérios subjetivos na correção, podem favorecer acertos acidentais e não são adequadas para avaliar síntese e aplicação. 4. Provas Escritas Discursivas (Subjetivas) ○ Permitem respostas livres, variando conforme a capacidade do aluno de organizar suas ideias. Avaliam a argumentação e a compreensão profunda do conteúdo. São vantajosas para turmas menores, mas difíceis de elaborar e corrigir devido à subjetividade. Considerações sobre Correção ● As provas objetivas são mais fáceis de corrigir, mas limitam a expressão do raciocínio do aluno. ● As provas discursivas exigem mais atenção na correção, refletindo a individualidade e a capacidade crítica dos alunos. Considerações sobre Provas 1. Interdependência de Vantagens e Desvantagens ○ As vantagens de um tipo de prova muitas vezes se tornam desvantagens em outro. É essencial considerar as características de cada tipo para uma avaliação equilibrada. 2. Critérios de Avaliação das Provas ○ Validade: Refere-se à capacidade da prova de medir o que realmente se pretende medir, utilizando uma amostragem significativa de conteúdo. ○ Precisão: Diz respeito à consistência e estabilidade da medida, assegurando que a avaliação é coerente ao longo do tempo. ○ Fidedignidade: A avaliação deve ser confiável, ou seja, os resultados não devem variar com base na pessoa que aplica ou julga a prova. ○ Aplicabilidade: A prova deve ser adequada ao grupo-alvo, simples em seu julgamento e viável em termos de custo e tempo, considerando os recursos disponíveis. Cuidados na Elaboração de Provas 1. Espaço para Respostas ○ A prova deve incluir espaço suficiente para que os alunos respondam, evitando questões que resultem em respostas simplistas como "sim" ou "não". 2. Clareza e Compreensão ○ As questões devem ser redigidas em linguagem simples e clara, alinhada com a metodologia utilizada nas aulas, garantindo que o significado das perguntas seja facilmente compreendido. 3. Objetivos Claros ○ Os objetivos da prova devem ser expressos de forma clara, orientando a elaboração das questões. Questões bem definidas facilitam respostas igualmente claras.4. Redação das Perguntas ○ As perguntas devem ser formuladas de maneira que os alunos compreendam o que se espera deles, evitando ambiguidades. Expressões vagas devem ser evitadas para não deixar a interpretação em aberto. 5. Contextualização das Questões ○ As questões devem ser contextualizadas para que os alunos não fiquem inseguros sobre o que o professor espera, evitando perguntas que gerem confusão sobre a resposta desejada. Cuidados na Aplicação de Provas 1. Evitar Estresse ○ A aplicação deve ser planejada para que não se torne uma situação estressante para os alunos e professores. 2. Dúvidas dos Alunos ○ Qualquer dúvida que um aluno tiver deve ser esclarecida em voz alta, para que todos os alunos possam ouvir, garantindo equidade e evitando favoritismos. O professor não deve interagir com alunos de forma individual durante a prova.