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e-Book 4 Simone Negrão Moerman NEGOCIAÇÃO E GESTÃO DE CONFLITOS Sumário INTRODUÇÃO ������������������������������������������������� 3 O CONFLITO ��������������������������������������������������� 4 Definição de conflito ������������������������������������������������������������� 4 Tipos de conflitos ����������������������������������������������������������������� 8 Causas e condições que estimulam o conflito ����������������� 13 NEGOCIAÇÃO E CONFLITOS ������������������������17 DIFERENÇA ENTRE NEGOCIAÇÃO, MEDIAÇÃO E ARBITRAGEM �������������������������26 RESOLUÇÃO DE CONFLITOS �����������������������29 No caminho da resolução de conflitos ������������������������������ 34 CONSIDERAÇÕES FINAIS ����������������������������39 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS & CONSULTADAS ��������������������������������������������41 3 INTRODUÇÃO Neste e-book você irá estudar o conceito de conflito, além de propormos fundamentos para que você possa refletir se o conflito é considerado bom ou ruim, a visão antiga e atual do conflito� Em seguida, você adentrará o conhecimento dos tipos de conflitos, incluindo as causas e condições que geram situações potenciais para os conflitos� Você verá também como é a relação dos conflitos e processos de negociação, situação que ocorre com muita frequência na barganha� Para complementar seus conhecimentos, você poderá aprender qual a diferença entre negociação, mediação e arbitragem, que são diferentes abor- dagens para se obter um resultado favorável na negociação, incluindo quando as partes não con- seguem obter um acordo� Incluímos neste e-book o papel da liderança, importante em processos de negociação que ocorrem nas organizações� Por fim, você compreenderá quais as formas de resolução de conflitos, pois sem solucioná-los dificilmente haverá acordo final� 44 O CONFLITO DEFINIÇÃO DE CONFLITO O tema conflito tem sido muito discutido nas últi- mas décadas, principalmente no meio corporativo, quando a questão envolve a gestão de pessoas e equipes� Mas nem sempre esse tema é encarado de frente pelas pessoas e gestores, pois somente pensar na palavra conflito já gera certo incômodo, uma vez que logo vem à mente a ideia de confronto, de embate, e uma série de sentimentos negativos envolvidos� Contudo, o conflito não precisa ser ne- gativo e tem a sua função, por exemplo, mobilizar um tema específico e criatividade na solução do problema� Pesquisas apontam que os brasileiros gastam, em média, quase duas horas por semana na solução de conflitos mal resolvidos nas organizações, sendo o estresse e o choque de valores as prin- cipais causas apontadas na pesquisa� Você acha que isso afeta diretamente a produtividade? É evidente que sim� Vale ressaltar-se que o conflito sempre existiu na história� Sempre houve choque de expectativas, valores e desejos e a tendência é que continue assim no futuro� Por exemplo, as pessoas torcem para um determinado time de futebol, enquanto outras torcem para outros times 55 e cada lado defende suas preferências como sen- do “a melhor”� Assim, o mesmo acontece para a preferência política, até mesmo a religiosa� O que foi mudando com o tempo é como lidamos com o conflito, ou seja, enquanto no passado era visto como algo negativo, a ser evitado a todo custo, hoje o conflito é visto como inevitável e passível de ser administrado� Para entendermos melhor esse tema complexo, revisitaremos o conceito de autores reconhecidos� Para Robbins, Judge e Sobral (2010), o conflito está intimamente ligado à percepção, ou seja, se uma pessoa percebe que a outra parte pode afetar negativamente algo importante para a pessoa, pode-se instaurar um conflito� Também pode ser conflitante o desacordo de expectativas, fatos interpretados de formas diferentes, ameaças ao poder ou status dentro da organização, entre outros� Chiavenato (2014) conceitua o conflito como “um processo de oposição e confronto que pode ocorrer entre indivíduos ou grupos nas organizações”, es- pecialmente quando envolve poder entre as partes e uma interfere na busca de metas ou objetivos da outra� Garbelini (2016) define o conflito como o embate de interesses e necessidades, passando por divergência de opiniões� Qualquer que seja o conceito definido por dife- rentes autores, todos concordam que um conflito 66 é a divergência de pensamentos, expectativas e objetivos entre duas ou mais partes� O conflito é bom ou ruim? Como, na maioria das vezes, o conflito é acompa- nhado de sentimentos negativos, é comum haver a associação do conflito a coisas negativas� De fato, os teóricos do passado, como Taylor e Fayol, defendiam que o conflito era negativo e deveria ser evitado a todo custo, pois causavam ressenti- mentos e outros sentimentos negativos e somente prejudicavam a produtividade� Robbins, Judge e Sobral (2010) argumentam que os conflitos dessa época eram fruto das falhas de comunicação, da inexistência de abertura ao diálogo e da descon- fiança entre as pessoas, além da falta de enten- dimento dos gestores com relação às aspirações e necessidades dos liderados� Mas essa visão do conflito foi perdendo força com o tempo, quando os pesquisadores sociais perceberam que, muitas vezes, o conflito era inevitável� Na visão antiga do conflito, os empregados que estives- sem envolvidos em conflitos poderiam ser demitidos sem espaço para argumentação, pois o conflito deveria ser suprimido a todo custo� REFLITA 77 Os teóricos administrativos modernos têm outra concepção do assunto� Wagner e Rollenbeck (2020) comentam que o conflito muitas vezes é funcional e pode resultar em efeitos positivos, como: y Pode amenizar tensões sociais, estabilizando e integrando as relações sociais; y Quando resolvido, permite a discussão e a dissipação de desacordos, aliviando pressões acumuladas ao longo do tempo; y Permite a discussão de recursos rivais, oti- mizando os recursos mais eficazmente devido a mudanças induzidas pelo conflito; y Induz a operar de modo inovador, sendo uma fonte de adaptação na direção da mudança adaptativa; y Proporciona conscientização sobre a interde- pendência e a distribuição de poder na organização; y Fornece um senso de identidade e propósito por apontar diferenças e fronteiras entre as pes- soas e grupos� Como você pode observar, há diversos fatores po- sitivos que podem resultar de um conflito, mas o mais evidente deles é a necessidade de mudança, ou seja, a ideia de que deve haver harmonia plena, cooperação, calma e tranquilidade em um grupo de pessoas inevitavelmente é acompanhada de estagnação e inércia, a busca da manutenção do status quo� Os gestores contemporâneos sabem disso e, antes de evitar ou reprimir um conflito, 88 procuram encará-lo de frente e solucioná-lo da melhor forma possível� Robbins, Judge e Sobral (2010) salientam que os gestores buscam instau- rar um nível mínimo de conflito para promover a criatividade, a inovação e a autocrítica no grupo, visando ao aumento da produtividade� TIPOS DE CONFLITOS Nem todos os conflitos são iguais, por isso é necessário identificarmos o tipo de conflito para sabermos como administrá-lo de forma assertiva, seja no ambiente do trabalho, seja nos relaciona- mentos da vida diária� O conflito pode chegar a um nível generalizado ou estar localizado em um único departamento� Alguns autores facilitaram as coisas e classificaram os tipos de conflitos para melhor entendimento� É válido você conhecer essas abordagens� Wachowicz (2013) lista níveis diferen- tes de conflitos, conforme veremos na sequência: Intrapessoal Trata-se de dificuldades internas da própria pessoa que podem interferir no relacionamento com ou- tros� Exemplo desse nível de conflito são pessoas com sentimentos contraditórios acerca de um assunto, uma organização, um grupo de pessoas etc� Por exemplo: uma pessoa que ame animais, mas, por falta de oportunidade de emprego, tenha que trabalhar em um matadouro� Essas pessoas99 têm muita dificuldade em manter relacionamentos que fluam de forma espontânea devido ao conflito interno não resolvido� Chiavenato (2014) também menciona esse nível de conflito: [���] é o conflito que ocorre intimamente dentro de uma pessoa em relação a sentimentos, opiniões, desejos e motivações divergentes e antagônicas� Quando uma pessoa quer trabalhar em uma organi- zação porque esta lhe dá prestígio e dinheiro, mas ao mesmo tempo não quer trabalhar nela porque não gosta dos dirigentes� É o chamado conflito psicológico ou intraindividual� É um conflito interno que provoca um colapso nos mecanismos decisó- rios normais provocando dificuldades na escolha entre várias alternativas de ação (CHIAVENATO, 2014, p�279)� Interpessoal São problemas e divergência na relação com outras pessoas� Você deve conhecer alguém que tem a fama de “dono da verdade”, não é mesmo? Certamente que sim, porque há muitas delas� Os indivíduos com esse perfil creem que estão sempre certos e, em virtude disso, provocam conflitos com outros que têm opiniões e ideias divergentes� Chia- venato (2014) conceitua este nível de conflito da mesma forma� Para o autor, trata-se de um conflito 1010 interativo que envolve uma ou mais pessoas com diferentes objetivos e interesses em jogo� Interorganizacional Referem-se à rivalidade da organização com seus stakeholders externos (clientes, fornecedores, mercado de atuação etc�)� Esse tipo de rivalidade pode ser oriundo da concorrência acirrada ou ina- bilidade da empresa em manter relações políticas ou cordiais com as organizações externas com que realiza alguma transação� Uma empresa, por exemplo, pode ter dificuldades em negociar o frete com a empresa externa de logística e as relações ficarem bem tensas, prejudicando a produtividade de ambas as empresas� Chiavenato (2014, p� 279) define esse conflito como intergrupal e se refere ao “conflito que ocorre entre grupos organizacio- nais quando os participantes se identificam com um grupo e percebem que outros grupos podem bloquear a realização da meta ou expectativas do seu grupo”� O autor diferencia, ainda, que o conflito se parece com a competição, porém se vincula à rivalidade entre grupos quando buscam conquistar um prêmio em comum� Por outro lado, no caso do conflito, ele interfere diretamente na realização de metas� 1111 Intraorganizacional Trata-se da rivalidade ou concorrência entre as diversas unidades de uma mesma empresa� A matriz de uma organização pode ter problemas com uma ou mais filiais, assim como uma filial pode ter problemas ou entrar em conflito com outra filial por choque de interesses� Há, ainda, conflitos que diferem conforme a direção: vertical ou horizontal� A seguir você encontra mais detalhes sobre o que significam: Conflitos verticais São os que ocorrem em diferentes níveis hierárqui- cos, por exemplo, entre um diretor e um supervisor� Esse tipo de conflito sempre envolve um indivíduo que ocupa uma posição superior e outro em posição inferior� Podemos encontrar diversos fatores que podem desencadear os conflitos verticais, como: o estilo de liderança exercido pelos gestores, a di- ferença de faixa etária do comando (por exemplo, gestores muito novos comandando equipes mais velhas e experientes) e o conhecimento sobre as atividades do departamento, entre outros� Conflitos horizontais Referem-se aos conflitos que ocorrem dentro do mesmo nível hierárquico� Percebemos esse tipo de conflito emergir quando há escassez de recursos 1212 ou quando há uma competitividade muito grande entre os gestores� A divergência pode vir à tona também quando há incompatibilidade entre os benefícios e privilégios que alguns profissionais ou grupos recebem� Outros autores também realizaram classificações do conflito para melhor entendimento� Para Robbins, Judge e Sobral (2010), há os chamados conflitos funcionais, que apoiam os resultados e objetivos da empresa e são considerados construtivos� Burbridge e Burbridge (2012) defendem que es- ses tipos de conflitos são aqueles que provocam mudanças, agregando valor para os gestores e para a organização� Por outro lado, há os conflitos disfuncionais, que são considerados destrutivos e obstaculizam o desempenho de pessoas e grupos� Burbridge e Burbridge (2012) também concordam que os conflitos disfuncionais destroem valores e geram prejuízos significativos� Esses autores ainda classificam o conflito em três níveis, vamos conhece-los: Conflito de tarefa Relaciona-se ao conteúdo e objetivos do trabalho� Pode ocorrer tanto dentro de um departamento quanto entre departamentos quando não se chega a um acordo sobre como realizar uma atividade� 1313 Conflito de relacionamento São os ligados às relações interpessoais, sejam dentro das organizações ou na vida privada da pessoa� Conflito de processo Inerente a como o trabalho é realizado� Um exemplo desse tipo de conflito ocorre quando o departamento de transportes pede ao departamento de produção para realizar uma pequena modificação do produto para facilitar o transporte, mas o departamento de produção não aceita essa modificação� Pronto, o conflito está formado� CAUSAS E CONDIÇÕES QUE ESTIMULAM O CONFLITO Existe uma diversidade de situações que podem causar ou estimular um conflito� Wagner e Hol- lenbeck (2020) argumentam que há três condições para que ocorra um conflito: a interdependência, o indeterminismo político e a divergência� Observe- mos a seguir cada uma dessas condições: y A interdependência: ocorre quando as pes- soas, grupos ou organizações dependem uns dos outros para ajuda, informações, feedback ou outras relações� Para os autores, qualquer tipo de interdependência pode ser fonte de conflitos� O contrário também é valido, na inexistência da 1414 interdependência as partes não têm motivo para entrarem em conflito; y O indeterminismo político: trata-se de uma situação em que a hierarquia política entre as pes- soas ou grupos é mal definida, vaga e passível de questionamentos� Em uma situação hierárquica, onde as relações de poder estão definidas e institu- cionalizadas, há menos chances de se estabelecer o conflito porque as diferenças são solucionadas em favor dos que detêm o poder� Já em situações em que a linha de comando não está clara, os in- divíduos tendem a se envolver mais em conflitos, pois as pessoas não têm uma noção clara de até onde devem avançar ou quando têm que recuar� Essa confusão, além de causar estresse, tem um potencial grande de se tornar um conflito; y A divergência: é a divergência propriamente dita, o desacordo e diferenças� Um exemplo claro de divergência dentro de organizações são as metas que são perseguidas pelos diferentes depar- tamentos na empresa, principalmente as chama- das “metas compartilhadas”� O departamento de marketing geralmente tem metas de faturamento compartilhadas com o departamento comercial, mas no desempenho diário, o foco de atuação do Marketing pode ser diferente do foco da área comercial, que tem responsabilidade direta pelo faturamento� 1515 Além dessas três condições que podem gerar conflitos, há outras citadas pelos autores: y Orientações de tempo: quando pessoas e grupos têm orientações de tempo diferentes (cur- to, médio ou longo prazo), podem surgir conflitos, principalmente se também estão passíveis de alguma interdependência; y Alocações de recursos desiguais: essa é uma fonte comum de conflitos e ocorre quando um departamento ou determinado profissional consegue recursos diferenciados (novos computa- dores, equipamentos, uma sala mais bem decorada, celulares mais modernos etc�); y Métodos de avaliação e premiação: essa é outra prática que geralmente causa conflito, ou, no mínimo, questionamentos e insatisfações, quando os critérios não estão claros para toda a organi- zação� Por exemplo, quando o departamento de vendas oferece descontos e prazos de pagamento vantajosos aos clientes visandoa aumentar as vendas, a área financeira, por outro lado, pode ficar bastante insatisfeita com essa prática, pois tem como meta o aumento do faturamento� Dessa forma, se o departamento de vendas é premiado com bonificações pelo aumento das vendas, o departamento financeiro, que ficou prejudicado em suas metas, pode questionar fortemente essa prática e haver um campo fértil para um conflito; 1616 y Disputas de jurisdição: ocorre quando não há clareza de quem detém o poder ou a responsa- bilidade por alguma situação, assim, pode haver conflito quando dois indivíduos ou grupos disputam quem irá “levar o troféu”; y Diferenças de valores, premissas e percep- ções: trata-se das situações em que o desempenho é orientado segundo diferentes valores, premissas e percepções de pessoas e grupos� Um exemplo claro disso é o que valoriza, de uma forma geral, o pessoal da produção (praticidade, informalidade, relações interpessoais próximas) versus o que valoriza o pessoal administrativo (procedimentos, formalidade, relações interpessoais instrumentais)� Em resumo, há as mais variadas situações que servem como campo fértil para surgir um conflito� Contudo, aprendemos que o conflito, às vezes, é inevitável, ou seja, é inerente ao ser humano haver diferenças de pensamentos e opiniões� A questão que fica é como lidamos com ele e o que extraímos como aprendizado� 17 NEGOCIAÇÃO E CONFLITOS O conflito e a negociação andam de mãos dadas� Às vezes ocorre primeiro o conflito e faz-se necessário partir para uma negociação para a sua solução, outras vezes o fato de negociar interesses dife- rentes – e o estilo de negociação adotado – pode fazer surgir um conflito� Mas de quem é a respon- sabilidade de intermediar todas essas situações? Nas empresas não existe uma função específica de gestor de conflitos, pois esse papel geralmente é cumulativo com a função de gestor (gerente ou líder), mas não limitado ao papel de gestor, é uma responsabilidade de todos da organização� Um gestor de conflitos eficaz realiza um diagnóstico semelhante ao do médico que busca a compreen- são completa da situação conflitante através de perguntas como: quem são as pessoas envolvidas na situação? Como ocorreu? A divergência é séria ou foi apenas um leve desentendimento? Entre outras� Essa é uma abordagem de lidar com o conflito baseada em fatos e dados visando à reso- lução do problema� E para se resolver um conflito de maneira assertiva é crucial identificar-se as razões emocionais e instrumentais que geraram o conflito, assim, sua solução torna-se mais acertada e baseada no ganha-ganha para ambas as partes� 18 Wagner e Hollenbeck (2020) argumentam que as formas mais efetivas de resolução do conflito são a barganha ou negociação� Segundo Robbins, Ju- dge e Sobral (2010), há cinco estágios do conflito, e para cada um deles um tipo de negociação se faz necessário� Vamos entender cada um desses estágios: Estágio 1: oposição potencial ou incompatibilidade São as condições potenciais para que o conflito seja instaurado, não necessariamente leva a essa situação, mas uma das condições precisa estar presente para surgir o conflito� Vamos ver quais são essas condições: y Comunicação: quando é ruim, pouco clara, confusa; y Estrutura: grau de especialização das tarefas, ambiguidade na definição de tarefas e responsa- bilidades, estilos de liderança, sistemas de recom- pensa, interdependência entre grupos, pessoas e departamentos que perseguem metas e objetivos diferentes na mesma organização etc� Todos são exemplos de condições estruturais que potencia- lizam um conflito; y Variáveis pessoais: refere-se a variáveis que não controlamos, como personalidade, emoções e valores� Por exemplo, trabalhar com uma pessoa de que não gostamos, pessoas com personalidades difíceis e conflitantes etc� 19 Estágio 2: cognição e personalidade Um conflito percebido pelas partes não significa que será personalizado, é necessário que o conflito seja sentido, ou seja, as partes vivenciam ansie- dade, tensão, frustração ou hostilidade� Com isso, constatamos que as emoções exercem um papel fundamental na percepção do conflito� Se um indivíduo percebe negativamente uma situação, como resposta, seu nível de confiança na outra parte irá diminuir e irá interpretar a experiencia como negativa� Por outro lado, se a experiencia foi interpretada como positiva, os envolvidos são capazes de ampliar o potencial da situação, a visão é ampliada e soluções inovadoras podem emergir dessa interação� Estágio 3: definição das estratégicas de resolução de conflitos É a predisposição para a resolução do conflito, através de uma estratégia de negociação adotada pelas partes, podendo ser baseada nos interesses próprios ou interesse dos outros� Assim, cinco estratégias podem ser apontadas como: y Competição: estratégia assertiva, mas não cooperativa� Está baseada na satisfação dos próprios interesses, independentemente de qual impacto terá na outra parte� Nesse caso, para um ganhar o outro tem que perder; 20 y Colaboração: abordagem assertiva e coopera- tiva, quando as partes desejam satisfazer a ambos os interesses, visando a solucionar o problema; y Evitamento ou fuga: abordagem não assertiva e não cooperativa� Há reconhecimento do conflito, mas a pessoa prefere suprimi-lo ou evitá-lo, incluindo evitar ter contato com pessoas de quem discorda; y Acomodação: é uma abordagem não asser- tiva e cooperativa, quando uma das partes renun- cia a seus próprios interesses para favorecer o interesse da parte contrária a fim de favorecer o relacionamento; y Compromisso: é uma posição intermediária entre a assertividade e a cooperação� Nessa es- tratégia não há vencedores ou perdedores, mas sim uma predisposição de ambas as partes em ceder uma parte de seus interesses em prol da resolução do problema� Estágio 4: comportamento Nesse estágio os conflitos emergem e tornam-se visíveis a todos� A Figura 2 ilustra a intensidade de como ele se desenvolve, desde os mais leves até os mais nefastos� Os conflitos de intensidade leve são as provocações, indiretas e manifestações de desacordo, ocorrendo muito frequentemente em organizações� Os conflitos de intensidade alta são devastadores, podendo ser enquadrados nessa categoria as guerras, revoltas e greves� 21 Um conflito pode permanecer nos níveis de in- tensidade mais baixos ou evoluir, a depender das partes, caso não sejam capazes de abrir mão de alguns de seus interesses e expandir a visão� Por exemplo, após pegar o transporte público super lotado em um dia chuvoso, você chega ao trabalho mal-humorado� Seu colega, que adora fazer provo- cações, pensando ser engraçado, fala algo a você que beira a ofensa� Você, que já está mal-humora- do, não encara bem a provocação e responde ao colega gritando� Os dois começam uma discussão verbal que vai esquentendo à medida que trocam ofendas e xingamentos� A coisa vai aumentando a um ponto de quase partirem para agressão física, e por aí vai� Se ninguém intervir, o conflito pode acabar muito mal, no mínimo com demissões e, algumas vezes, em caso de polícia� Todos os con- flitos existentes estão em algum ponto da régua de intensidade ilustrada na Figura 1: 22 Figura 1: Intensidade dos conflitos� Fonte: Robins, Judge e Sobral (2010, p� 443)� Estágio 5: consequências Todo conflito tem suas consequências, sejam funcionais (positivas, quando melhoram o de- sempenho do grupo ou pessoas) ou disfuncionais (negativas, atrapalham o desempenho do grupo ou pessoas)� Veremos a seguir mais detalhes dessas consequências� y Funcionais: quando a intensidade do conflito permanece nos níveis mais baixos ou moderados é possível fomentar amplas discussões que pro- movam a criatividade e inovação, melhoria das decisões e um canal para se expressar ideias e arejar as tensões� Pelo fato do conflito questio- nar o status quo, tende a estimular a geração de ideias inovadorase a mudança, tão necessária nas organizações� Chiavenato (2014) ressalta que o conflito frequentemente gera a mudança, pois chama a atenção para problemas preexistentes e serve para evitar os mais sérios; y Disfuncionais: no exemplo dado no estágio 4 (chegar ao trabalho mal-humorado e ter um conflito 23 sério com um colega), você consegue imaginar essa situação como uma força impulsionadora para melhoria do seu desempenho ou do seu colega? No calor do conflito, dificilmente isso acontece, ao contrário, o desfecho de um conflito de intensidade alta geralmente é muito negativo� Robins, Judge e Sobral (2010) apontam que “todas as formas de conflito, até mesmo as funcionais, parecem redu- zir a satisfação e confiança entre os membros do grupo� De fato, a comunicação fica prejudicada, a coesão do grupo sofre um descompasso e as metas ficam em segundo plano, pois o foco está em vencer as disputas das pessoas� Pesquisas nesse campo apontam que a diversidade pode contribuir para a melhoria do desempenho grupal, pois os membros do grupo têm de praticar a flexibilidade e ouvir o outro, colocando os obje- tivos do departamento e da empresa antes das diferenças de opiniões e ideias� Agora que você já conhece como se dá o processo de conflito, é possível fazer uma gestão de conflitos assertiva e positiva, que impacte positivamente no desempenho das pessoas� Você já aprendeu que um conflito pode ser positivo, e até necessário, para promover mudanças na organização� Mas e se o grupo é muito pacífico e acomodado, do tipo que faz concessões para evitar conflitos a todo custo? Nesse caso, o gestor tem um problema a 24 lidar: a estagnação da equipe� É preciso atuar de forma que se crie um movimento, um certo incô- modo que faça as pessoas saírem de suas zonas de conforto, pois somente assim haverá espaço para a geração de ideias para soluções inovadoras e criativas� Como o gestor pode provocar esse movimento no grupo? A seguir indicamos algumas técnicas que criam situações potenciais para a criação de conflitos visando a movimentar a equipe e que devem ser fortemente acompanhados pelo gestor para que permaneçam em intensidades leves e moderadas e não saiam do controle: y Comunicação: quando o gestor usa mensa- gens pouco claras, ambíguas ou ameaçadoras isso pode aumentar os níveis de conflitos; y Inserção de pessoa estranha ao grupo: quando uma pessoa que tem valores, atitudes e estilo diferente dos demais membros do grupo é inserida no grupo, em um primeiro momento há rejeição a ela, mas gradualmente os demais membros têm que aprender a se relacionar com à nova pessoa com flexibilidade; y Reestruturação: mudança de regras e proce- dimentos, alteração de tarefas e grupos de traba- lho e qualquer medida que altere o status quo da organização; 25 y Advogado do diabo: designar um colabora- dor para questionar propositadamente a opinião e posição da maioria do grupo� Conhecendo como o conflito se inicia, desenvol- ve-se e até onde ele pode chegar fica mais claro para o gestor administrá-lo� Primeiro é necessário avaliar como está o grupo, se estagnado ou há condições potenciais de conflito� Caso o gestor opte por criar condições de conflito administrado, é necessária uma boa gestão para que o conflito não avance em intensidade� Em resumo, considerando o potencial de movimento que tem o conflito ele acaba se tornando uma ferramenta gerencial, se bem administrado� 2626 DIFERENÇA ENTRE NEGOCIAÇÃO, MEDIAÇÃO E ARBITRAGEM A conciliação é uma técnica que muitas vezes é confundida com a mediação, mas na verdade são distintas� Garbelini (2016) define os processos como: y Conciliação: é a negociação que entrou em conflito� Nesse método o conciliador sugere, interfe- re, dá conselhos, tudo na tentativa de se chegar ao acordo, mas sem pender para nenhum dos lados; y Mediação: nesse processo o mediador tem a missão principal de facilitar a comunicação, sem interferir ou induzir as partes ao acordo, que será apenas a consequência da comunicação entre as partes que evoluiu de forma positiva� O mediador refaz as “pontes” e os vínculos que foram perdidos no processo de negociação sem sucesso; y Arbitragem: quando o acordo não conseguiu ser realizado na mediação, pode-se recorrer a um árbitro para proferir a sentença sobre o assunto pendente� Esse estágio ainda não chegou ao Ju- diciário, ou seja, todo o processo é realizado dire- tamente entre as partes e uma terceira parte que exerce o papel de árbitro� Nesse caso, as partes têm o controle total do processo e podem impor limites de atuação ao árbitro com relação ao tempo ou legislações aplicadas à solução do problema� 2727 Quando chega ao Judiciário Quando o conflito chega aos tribunais, estratégias semelhantes são utilizadas e, nesse caso, desig- nadas pelo juiz – se conciliação ou mediação� Burbridge e Burbridge (2012) ressaltam que “é fácil confundir os dois procedimentos, mesmo dentro do tribunal”� Segundo os autores, os conceitos para as modalidades são: y Conciliação: usada para resultados mais rápi- dos e casos mais simples� O conciliador ouve as partes e propõe soluções no sentido de se chegar a um acordo razoável para ambas as partes; y Mediação: o mediador escuta as partes e propõe técnicas de diálogo, bem como se reúne separada- mente com as partes para melhor entendimento do conflito, muitas vezes oculto� Assim, ao invés de propor soluções diretamente, o mediador faz perguntas com o objetivo de as partes refletirem, empenhando-se na reconstrução do relacionamento entre as duas partes; y Arbitragem: a lei da arbitragem foi criada em 1996 no Brasil, mas somente em 2001 foi decretada constitucional, pois antes as partes apelavam para não a cumprir� É um processo sigiloso e, segundo Burbridge e Burbridge (2012), a maioria dos gran- des contratos ainda não contempla uma cláusula de arbitragem, mas estão se tornando cada vez mais comuns� Na arbitragem judicial, o árbitro é 2828 também um advogado que deve ser especialista no assunto objeto do conflito� Muitas vezes, mesmo com as estratégias de resolu- ção do conflito disponíveis, as empresas preferem litigar, porque é um caminho já conhecido, apesar de saberem que é moroso e custoso, sendo que muitos custos estão ocultos� O Poder Judiciário tenta fazer acordos extrajudiciários – como é o caso da mediação e arbitragem – para tentar minimizar o excesso de judicialização no Brasil, pois somente em 2019 os casos a serem julgados chegaram a 100 milhões� FIQUE ATENTO 29 RESOLUÇÃO DE CONFLITOS É certo que algumas posições dentro das orga- nizações têm um papel crucial nas negociações, porque o ato de negociar faz parte das atribuições desses cargos, como é o caso dos vendedores e compradores� Contudo, como já foi explicado anteriormente, a negociação ocorre em todos os níveis da empresa e em todas as posições, assim como os conflitos� Pode ocorrer conflitos em todos os níveis e cargos da empresa, porém, podemos observar que quanto mais alta a posição, mais política ela se torna� Nessa situação, os conflitos são velados e não aparentes, mas estão presentes� Um dos agentes que mais influenciam para a re- solução dos conflitos são os gestores, os líderes da empresa� Vimos em tópicos anteriores que os conflitos não são, necessariamente, ruins se forem mantidos em níveis baixos e, para que isso ocorra, os líderes da empresa precisam estar atentos e atuar, caso os conflitos tomem proporções maiores� O papel da liderança na resolução de conflitos 30 Ainda nos dias de hoje, a forma mais utilizada de se resolver um conflito é o uso do poder, pois o gestor não precisa de um treinamento, o poder vem com o cargo� O que não vem com o cargo é o uso inteligente do poder, que não destrói re- lacionamentos, importantes para o alcance dos resultados da empresa (BURBRIDGE; BURBRIDGE, 2012)� Contudo, não é sempre que é possível usar o consenso, por exemplo emsituações de emer- gência ou quando a decisão vem do “topo” e é inegociável� São exemplos de decisões gerenciais quando usam o poder: y Necessidade de cortar custos e posições na empresa; y Atendimento a legislações em curto espaço de tempo, sob pena de multas; y Situações urgentes em que a empresa pode ser penalizada� Em outras situações, o consenso pode (e deve) ser usado, pois decisões em que os colaboradores são envolvidos resultam em comprometimento das pessoas� Uma prática que tem resultados excelen- tes por partes dos gestores é o uso da empatia, que é mais do que se colocar no lugar do outro, é a compreensão respeitosa do que o outro está vivendo (ROSENBERG, 2006)� Nisso todos os ges- tores têm fundamental importância, como líderes das pessoas que estão sob sua administração, 31 como no papel de gestor de conflitos, utilizando técnicas de conciliação, mediação ou arbitragem, conforme estudamos no tópico anterior� Em todas essas funções a habilidade da escuta é essencial, sem a qual não se pode exercer esses papéis� De acordo com Rosenberg (2006): Quando sinto que fui ouvido e escutado, consigo perceber meu mundo de uma maneira nova e ir em frente� É espantoso como problemas que parecem insolúveis se tornam solúveis quando alguém es- cuta� Como confusões que parecem irremediáveis parecem riachos relativamente claros correndo, quando se é escutado (ROSENBERG, 2006)� Contudo, não basta somente escutar, pois uma das funções gerenciais é a de mediador de conflitos de seus colaboradores e isso toma 20% do tempo do gestor, aproximadamente� Uma pesquisa reali- zada por Cavalcanti (2006) com gerentes de uma cadeia de 14 lojas em Belo Horizonte revelou que a maioria absoluta dos gerentes age prontamente quando percebem um conflito� E assim deve ser, caso contrário o conflito pode tomar proporções que se tornam difíceis de ser controladas� Contudo, temos que fazer um questionamento se esse agir passa por uma reflexão sobre o tipo de conflito� Neste momento relembramos que nem todos os conflitos são considerados ruins ou dis- 32 funcionais, há conflitos positivos que movimentam a equipe, tiram as pessoas da zona de conforto e promovem ideias inovadoras� Ainda consideran- do a pesquisa de Cavalcanti (2006), na Tabela 1 convidamos você a aprofundar o estudo e analisar como atuam os gerentes entrevistados: Tabela 1: Ação do gerente diante do conflito Atuação dos gerentes diante dos conflitos na equipe Resposta dos gerentes (em %) Decide como juiz 30,8 Conversa individualmente 76,9 Conversa com ambos 84,6 Chama todos os envolvidos 23,0 Torna público na equipe 38,4 Outros 15,4 Usa o conflito 7,7 Não admite conflito 7,7 Não interfere - Fonte: adaptado de Cavalcanti (2006, p� 92)� Na Tabela 1 percebemos que a maioria dos gerentes procura conversar com as partes envolvidas, juntas ou separadamente, o que é muito bom� Procurar entender as motivações das partes e praticar a escuta e a empatia é um ótimo começo� Por outro lado, ainda há gestores que atuam como juízes ou simplesmente não admitem o conflito, conforme você pode observar� Uma vez percebido e identifi- cado que o conflito existe na equipe, é importante lembrarmos as abordagens das quais os gestores 33 podem se apoderar para melhor administrar os conflitos, listadas por Chiavenato (2014)� São elas: a) Abordagem estrutural: atua sobre uma con- dição existente que tende ao conflito afim de reestruturá-lo� Papel do gestor: atua no sen- tido de conscientizar as pessoas sobre seus interesses em comum, que é o alcance dos objetivos organizacionais� b) Abordagem de processo: tem como objeti- vo a mudança do processo, utilizando-se de elementos de barganha e negociação para administrar as divergências das partes� Papel do gestor: atua no sentido de ser o propulsor da mudança na busca do consenso� c) Abordagem mista: é a administração dos conflitos sobre os aspectos estruturais e de processo, ou seja, uma mescla das duas abor- dagens anteriores, a depender da situação� Pa- pel do gestor: faz uma mescla dos dois tipos de atuação, ou seja, busca a conscientização das pessoas sobre os interesses em comum e serve como propulsor da mudança na busca do consenso� Uma vez identificado o conflito e identificada a abordagem, é possível ao gestor decidir qual a 3434 melhor estratégia de resolução de conflito de forma que se adapte à situação exigida� Este artigo de Josemar N� Muniz aprofunda os conheci- mentos acerca do papel do líder da gestão de conflitos� O artigo traz mais informações e, como observamos, uma boa liderança é crucial para dosar o nível de tensão na equipe e saber até que ponto deixar as partes resol- verem suas questões ou ter que interferir como líder� Acesse o artigo aqui: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/administracao/ conflitos NO CAMINHO DA RESOLUÇÃO DE CONFLITOS Atualmente as empresas estão mais conscientes da necessidade de se realizar uma boa gestão de conflitos e que eles não devem ser evitados, mas sim administrados, por isso, muitos treinamentos sobre negociação e gestão de conflitos têm sido realizados com os colaboradores, Existem diversas formas de se realizar a negociação e gestão de conflitos� Chiavenato (2014) sugere que esse pro- cesso segue uma linha que vai desde a satisfação dos próprios interesses evoluindo para a satisfação SAIBA MAIS 3535 dos interesses da parte contrária� A seguir você irá conhecer os cinco estilos de resolução de conflitos propostos pelo autor: y Estilo de competição: é a imposição do in- teresse de uma das partes, geralmente a que tem mais poder (um gestor) a utiliza para impor ações importantes ou impopulares quando necessária, por exemplo em casos de urgência ou emergência� Nem sempre há tempo ou condições de se negociar um consenso� Outro exemplo de situações como essa ocorre quando o principal executivo de uma filial receber ordens da direção da empresa matriz para cortar pessoal e gastos� Nesta situação não há o que negociar, simplesmente cumpre-se; y Estilo de abstenção: refere-se a ações que não são nem assertivas nem cooperativas� Um gestor pode lançar mão deste estilo quando a obtenção de informação para solucionar o problema é muito morosa ou onerosa� Nesse caso, quando não há possibilidade de ganho, a melhor opção é a cautela; y Estilo de transigência: diz respeito a situações em que há moderação das duas partes, ou seja, em circunstâncias onde há equilíbrio de poder, os objetivos de ambos os lados são importantes e sabem que precisam chegar a um acordo, o que impera nesse caso é o jogo de cintura, a flexibi- lidade e as duas partes cedem para se chegar a um acordo; 3636 y Estilo de acomodação: reflete negociações cooperativas, onde as pessoas têm consciência de assuntos prioritários e buscam a construção de créditos sociais, ou seja, concordar com a outra parte para usar esse crédito em outra situação no futuro� Nesse caso, a manutenção da harmonia impera, busca-se não causar um desconforto im- portante na outra parte em nome das boas relações no ambiente de trabalho; y Estilo de cooperação: trata-se de alto grau de assertividade e cooperação na negociação� É o estilo ganha-ganha� Ocorre quando ambas as partes têm interesses importantes e os respectivos pontos de vista podem ser combinados para resultar em uma solução mais ampla� Requer consenso, por isso, é a melhor opção quando se requer compromisso e comprometimento de ambas as partes� Podemos afirmar que o conflito não significa, obrigatoriamente, agressividade ou hostilidade, como pensa a maioria das pessoas� Ao contrário, muitas vezes ele é até necessário� Em todas as situações o líder está envolvido, seja para admi- nistrar o conflito, seja para fomentá-lo no sentido de promover ação da equipe para o alcance das metas� O que não é aconselhável em nenhuma situação é o líder omitir a existência do conflito, ou, ainda, permanecer inerte diante da situaçãoconflituosa, achando que o conflito se resolverá 3737 sozinho com o tempo� Com essa postura, o líder pode acabar mantendo ou até mesmo alimentando o conflito pela não ação, podendo chegar ao ponto de se tornar incontrolável� O líder deve estar muito atento na gestão do con- flito porque, muitas vezes, ele não está explicito, ou seja, o conflito não está aparente, mas mesmo assim ele já existe e está instaurado na empresa� Por exemplo, no departamento financeiro de uma empresa, João, que é o analista de crédito, reduziu o crédito de um cliente devedor que não paga as faturas há dois meses� Marcelo, vendedor ansioso por bater suas metas de vendas, foi conversar com João para lhe pedir que não somente retomasse o crédito da empresa devedora, mas aumentasse em 15%, o que João negou veementemente� Os dois discutiram e não chegaram a um acordo� Depois desse dia, os dois profissionais passaram a falar mal um do outro pelos corredores com os demais colegas� Além disso, começaram a atrasar propo- sitadamente informações que são repassadas por eles aos departamentos financeiro e comercial� Além disso, toda vez que há uma reunião na área financeira para tratar de débitos dos clientes, con- vidam o Marcelo da área comercial, que sempre arranja uma desculpa de trabalho e não vai� João até agradece sua ausência� 3838 No exemplo acima, apesar dos envolvidos não partirem para agressão e hostilidade, o conflito já existe e está instalado entre as pessoas� Caso os gestores dos departamentos envolvidos não atuem, o conflito pode tomar proporções maiores e até envolver outras pessoas� Nesse caso, os gestores não devem fingir que o conflito não existe ou achar que João e Marcelo vão resolver sozinhos seus problemas� Em resumo, vimos neste e-book que os conflitos sempre existiram e sempre existirão� A diferença é que no passado ele era malvisto e evitado, com isso, os conflitos ficavam suprimidos e não re- solvidos, podendo vir a eclodir em situações não desejadas� Atualmente os conflitos são entendidos como necessários e gerenciáveis, o que exige uma atuação bem intensa da liderança� De acordo com Bennis (2010), um verdadeiro líder: Figura 2: Atuação do líder frente ao conflito� Não evita o conflito Não reprime o conflito Não nega o conflito Vê no conflito uma oportunidade Se o fizer é omisso� Se o fizer é um ditador� Se o fizer é utópico� É otimista e pode estimular mudanças realmente importantes� Fonte: adaptado de Bennis (2010)� 39 CONSIDERAÇÕES FINAIS Com este estudo você pôde conhecer o conceito de conflito à luz de diversos autores, incluindo a reflexão do caráter benéfico ou maléfico do conflito de acordo com as visões antiga e contemporânea� Em seguida, você conheceu os tipos de conflitos interativos, que são os intrapessoais, interpes- soais, intraorganizacional e interorganizacional� Conheceu também os conflitos de acordo com o sentido, que são os verticais, horizontais, de tarefa, de relacionamento e de processo� Aprofundamos o estudo apresentando as diversas causas e condições que são campos férteis para que os conflitos ocorram, conhecimento importan- te porque o conflito é inevitável e inerente ao ser humano� Propusemos uma relação entre conflito e negociação para a sua reflexão, incluindo os cinco estágios do conflito, uma vez que conflito e negociação são indissociáveis e um bom nego- ciador deve saber lidar com conflitos que surgem nesse processo� Para complementar o seu conhecimento, introdu- zimos conceitos sobre as diferenças entre conflito, mediação e arbitragem, que são formas diferentes de se chegar a um acordo razoável, mesmo em situações de conflitos� 40 Finalizamos o estudo com a abordagem do papel da liderança na gestão dos conflitos que ocorrem nas organizações, incluindo os cinco estilos de resolução de conflitos, que são de competição, abstenção, transigência, acomodação e cooperação� Referências Bibliográficas & Consultadas BENNIS, W� G� A essência do líder: o grande clássico de liderança� Rio de Janeiro: Elsevier, 2010� BURBRIDGE, R� M�; BURBRIDGE, A� Gestão de conflitos: desafios do mundo corporativo� São Paulo: Saraiva, 2012� CAVALCANTI, A� C� R�� O gestor e seu papel na gestão de conflitos: um estudo de caso em empresa de varejo de vestuário masculino� 2006� 120 f� Dissertação (Mestrado em Administração) – Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerais� 2006� CHIAVENATO, I� Comportamento organizacional: a dinâmica do sucesso das organizações� 3� ed� Barueri, SP: Manole, 2014� [Minha Biblioteca]� DIAS, R� Cultura Organizacional: construção, consolidação e mudanças� São Paulo: Atlas� [Minha Biblioteca]� GARBELINI, V� M� P� Negociação e conflitos. Curitiba: InterSaberes, 2016� [Biblioteca Virtual]� LACOMBE, F� Recursos Humanos: princípios e tendências� 2� ed� São Paulo: Saraiva, 2013� [Minha Biblioteca]� LEWICKI, R� J�; SAUNDERS, D� M�; BARRY, B� Fundamentos de Negociação� 5� ed� Porto Alegre: AMGH, 2014� [Minha Biblioteca]� MARTINELLI, D� P�; NIELSEN, F� A� C�; MARTINS, T� M� Negociação: conceitos e aplicações práticas� 2� ed� São Paulo: Saraiva, 2010� [Minha Biblioteca]� ROBINS, S� P�; JUDGE, T� A�; SOBRAL, F� Comportamento organizacional� 14� ed� São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010� [Biblioteca Virtual]� ROSENBERG, M� B� Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais� São Paulo: Ágora, 2006� [Biblioteca Virtual]� SARFATI, G� Manual de negociação� São Paulo: Saraiva, 2010� [Minha Biblioteca]� SCAVONE JUNIOR, L� A� Arbitragem: mediação, conciliação e negociação� 9� ed� Rio de Janeiro: Forense, 2019� [Minha Biblioteca]� TAJRA, T� F� Comunicação e Negociação: conceitos e práticas organizacionais� São Paulo: Érica, 2014� [Minha Biblioteca]� TORQUATO, G� Cultura, Poder, Comunicação, Crise e Imagem� 2� ed� São Paulo: Cengage Learning� [Minha Biblioteca]� WACHOWICZ, M� C� Conflito e negociação nas empresas� Curitiba: Intersaberes, 2013� WAGNER, J� A�, HOLLENBECK, J�R� Comportamento organizacional� 4� ed� São Paulo: Saraiva Educação SA, 2020� [Minha Biblioteca]� Introdução O conflito Definição de conflito Tipos de conflitos Causas e condições que estimulam o conflito Negociação e conflitos Diferença entre negociação, mediação e arbitragem Resolução de conflitos No caminho da resolução de conflitos Considerações finais Referências Bibliográficas & Consultadas