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TEOLOGIA DOS DONS ESPIRITUAIS AULA 3 Prof. Josadaque Lima da Silva CONVERSA INICIAL Os Dons Espirituais e o Ministério Cristão Olá estudante! Nesta aula, vamos considerar os dons espirituais no contexto do ministério cristão, observando que os dons consistem em uma concessão especial e sobrenatural de Deus para o seu povo, visando ao exercício do sacerdócio universal de todos os crentes. TEMA 1 – O SACERDÓCIO UNIVERSAL DE TODOS OS CRENTES Não há nada mais gratificante para um crente em sua convivência na igreja local que ter a oportunidade de assumir o seu lugar e sentir-se útil, usando seus dons e talentos. Certamente, essa é uma das dimensões mais importantes do cristianismo. Nesse sentido, nos últimos cinco séculos, o cristianismo tem uma grande dívida de gratidão para com Lutero, pois a "bandeira da reforma" levantada por Lutero, foi o Sacerdócio Universal de todos os crentes. Ele advogou que fomos chamados para ser parte ativa do corpo de Cristo a partir dos dons e ministérios que o Senhor confere a cada um dos fiéis. Em outras palavras, os dons e os ministérios devem ser exercidos de forma pessoal, sem que isso signifique atuar de uma maneira individualista e independente dos demais membros do corpo Cristo. Para Lutero, a Igreja era, essencialmente o povo de Deus a ‘Comunhão dos Santos’. Ele interpretou a Comunhão dos Santos, no credo apostólico, como uma expressão parentética que definitivamente qualquer sugestão de que a Igreja, na essência, seja a hierarquia... Não existirá mais uma classe (casta!) clerical, outra laica, ou seja, os vocacionados e os leigos. Para Lutero, cada ofício ou profissão é um serviço a Deus e à comunidade e merece ser considerado uma vocação. [...] Resumindo, Lutero redescobriu o sacerdócio universal do crente (cf. 1Pe 2.5,9,15; Ap 16.5,20-26), o que não significa nenhuma compreensão individualista da fé cristã e nem uma desvalorização da Igreja e a celebração comunitária da fé. Significa, sim, um aprofundamento do sentido comunitário da fé. Significa que meu irmão passa a ser confissão, para me perdoar, para ser meu apoio. E significa que eu passo a ser seu sacerdote também. (Josgrilberg, 1991, p. 41) Paul Landrey, no décimo nono Encontro Sepal, contou que na época de Oliver Cromwell, na Grã-Bretanha, houve um problema muito grave com relação à prata. O estoque de prata caiu muito e esta era usada para cunhar moedas. Então, Cromwell convidou os líderes da sua terra para que procurassem meios de descobrir mais prata. E eles voltaram, depois de passarem um tempo procurando, com notícias surpreendentes, dizendo: a maior concentração de prata que nós temos está nas catedrais, especialmente, nas imagens dos santos das catedrais. Ao que Cromwell respondeu prontamente: "derretam os santos e os coloquem em circulação". Landrey ressaltou que, de certa forma, esse é o problema que temos em nossas igrejas. Nós precisamos colocar os santos em circulação. Somos chamados de sal da terra, mas infelizmente o sal está dentro do saleiro e não na sopa. Ficamos felizes em constatar como temos uma quantidade de sal no saleiro, falamos até de quão belo é o saleiro, do ar condicionado, se o temos ou não, se nessa semana tivemos mais quantidade de sal do que na semana passada. No entanto, esquecemo-nos de que o princípio básico de utilidade para o sal é de o colocarmos na sopa. Os santos são bons quando estão espalhados e circulando. Os individualistas ficam no saleiro! O conceito do sacerdócio universal de todos os crentes sugere uma “nova diáspora”, isto é: a igreja espalhada por todos os segmentos da sociedade, em seu caráter missionário e evangelístico. “Na Igreja Primitiva, nos tempos do Novo Testamento, isso era regra. Certamente devia ter persistido até os anos 400, a proibição do papa Leão I denuncia o fato da pregação leiga, e não o contrário” (Josgrilberg, 1991, p. 41). A base bíblica do sacerdócio universal de todos os crentes mais frequentemente utilizada nesse sentido é 1 Pedro 2.4-5,9, pois, entende-se que se trata de uma base bíblica convincente quanto ao sacerdócio universal de todos os crentes. A metáfora da “pedra” retrata a pessoa de Jesus-Messias (Isaias 8.14-15), como o Cabeça vivo de um povo cuja própria vida deriva dele. Na sequência, os crentes são classificados como “pedras que vivem”, significando que nossa união com Cristo nos possibilita compartilhar a vida ressuscitada dele. Assim, fica claro que todas as “pedras que vivem” compõem a “casa espiritual” (família), e todas são incorporadas no “sacerdócio santo” (Shedd, 1993, p. 41). Observe que a igreja é chamada de “sacerdócio santo”, por ter sido escolhida por Deus para tornar sua presença conhecida na terra. Além disso, primeiramente, o texto aborda o sacerdócio de Cristo por meio de seu povo, a Igreja, relacionado com uma realidade rigorosamente coletiva, que consiste em uma vida de justiça e santidade. A lógica desse sacerdócio universal é uma lógica de união espiritual, com o sacrifício de Cristo. Portanto, ao professar a nossa própria fé em Cristo, manifestamos visivelmente tal união mística. Logo, vivenciamos a realidade espiritual do corpo de Cristo e participamos de sua comunhão por meio do exercício dos dons espirituais, respondendo aos apelos da missão evangelizadora da igreja. Hebreus 5.1-3 também apresenta uma realidade sacerdotal que tem função ministerial, mas o texto não se refere especificamente ao sacerdócio universal de todos os crentes. Trata-se de Jesus como o mais perfeito sacerdote, que apresentou o mais perfeito sacrifício, no mais perfeito tabernáculo (Hebreus 9.1-15), abrindo um “novo e vivo caminho” que permite a cada cristão entrar com ousadia no Santo Lugar, prerrogativa que outrora era somente do Sumo- Sacerdote (Hebreus 10.19-21). Por outro lado, alguns questionam que o Novo Testamento não fundamenta o ministério cristão na linha do sacerdócio, como visto na posição da tribo de Levi, dentro da nação de Israel, mas na diversidade dos dons espirituais. Todavia, o conceito “sacerdócio” universal visa mostrar que “assim como o acesso a Deus está aberto a todas as pessoas por meio de Jesus Cristo (1Tm 2.5), a responsabilidade de fazer a ponte entre Deus e os homens repousa sobre todos os cristãos, [...] de modo que nenhum cristão está excluído do processo de abençoar pessoas e exercer a autoridade do Senhor Jesus no mundo” (Kivitz, 1995, p. 49). Em outras palavras, após a experiência da conversão, paulatinamente, o crente vai assumindo o compromisso de pautar a sua vida pelo viver o Evangelho e pelo serviço cristão, em que “a descoberta e o uso dons espirituais é a única forma de colocarmos em prática novamente o conceito dos reformadores do sacerdócio universal dos crentes” (Schwarz, 2010, p. 26). O chamado para servir é uma ação da vontade livre e pessoal de Deus; é a manifestação de um ato de sua vontade benevolente que leva em conta que somos seres pensantes, capazes de raciocinar, sentir, tomar decisões e expressar vontade. Quero dizer que os trabalhos nas igrejas são, em sua maioria, voluntários: pessoas que doam seu tempo e energia para o Reino de Deus. Das pessoas que servem, sem demérito à remuneração, pouquíssimas são remuneradas (que recebem um salário). Podemos resumir o serviço como um princípio espiritual da seguinte maneira: • servir é a razão pela qual Jesus Cristo nos chamou; • servir é a responsabilidade de todo cristão; • servir é um ato de amor e devoção a Deus; • servir é, em essência, doar-se a si mesmo aos outros, em nome de Jesus. De fato, sem os serviços voluntários, a igreja local simplesmente estagnaria. As pessoas remuneradas jamais conseguirão fazer todo o trabalho. Lamentavelmente, essa visão distorcida ainda está em voga nos dias de hojeem alguns lugares. Em algumas igrejas há um número reduzidíssimo, ou, às vezes, somente o pastor, fazendo todas as pregações, todas as visitas aos enfermos e necessitados, todo serviço social, todas as reuniões de grupos etc. Quanto ao voluntariado, requer alguns cuidados nos serviços da igreja: • colocar a pessoa certa, no lugar certo, pela motivação certa. Ninguém deve estar ensinando se o seu dom principal não for o de ensino; ninguém deve estar administrando se o seu dom principal não for o de administração. Quem não tem o dom em determinada área, facilmente se desencoraja e desiste. O mais difícil é quando a pessoa insiste, afetando os outros, ao ponto de desistirem até da igreja; • nenhum voluntário deve ficar sobrecarregado com atividades em demasia, mesmo que sejam focadas em seu chamado. Não é saudável ocupar três ou mais funções, ou atuar em três ou mais áreas diferentes; • o voluntário bem posicionado em determinada área do ministério na igreja é suficiente. Não é importante se ele está servindo durante uma ou duas horas semanais. A pessoa que prega, por exemplo, além da responsabilidade de expor o texto bíblico, precisa ter a certeza de que está apresentando a mensagem específica de Deus, naquele momento. Por outro lado, a igreja local precisa criar um mecanismo de estímulo para seus membros quanto a realizar sua função no corpo de Cristo, nos mais diferentes campos de missão, como: a política, a economia, a cultura, as ciências, os meios de comunicação, a educação e outros, contribuindo no processo de transformação da sociedade e fazendo o Reino de Deus acontecer. Com efeito, todo cristão tem a responsabilidade de intermediar o propósito de Deus para abençoar as pessoas. Todos têm igual posição diante de Deus, tornando desnecessário um sistema sacramental terreno, com seus rituais e sacerdotes. Nesse sentido, como diz Kivitz (1995, p. 49), “a distinção entre evangelistas, profetas, apóstolos e pastores-mestres (Efésios 4.11) é apenas e tão somente funcional, uma vez que o corpo de Cristo é edificado e cresce mediante o ‘auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte’ (Ef 4.16)”. Fica claro que a separação tradicional de algumas ações como ‘espirituais’ e de outras como ‘mundanas’ surge diretamente da limitação do ‘sacerdócio’ a apenas alguns cristãos dotados ou ‘vocacionados’, relegando o restante da igreja a obras fora da esfera do culto (Shedd, 1993, p. 41). Portanto, não espere uma visitação sobrenatural (por assim dizer) para se envolver no Reino de Deus. Envolva-se com base em seu dom espiritual fundamental. Há um chamado divino para todo crente, dado somente por Deus. A confirmação desse chamado é o seu dom. Quando me refiro ao chamado, não falo de ministério tempo integral; isto é outra questão. Os mesmos dons que operam no ministério tempo integral operam no ministério não integral. É fácil chamar alguém de algo, mas isso não fará dele esse algo. Você pode ser chamado de pastor, mas isso não faz de você um pastor. Você pode ser chamado de apóstolo, mas isso não faz de você um apóstolo. O ministério pelo qual você é chamado a servir precisa se evidenciar pelo seu dom. O ministério total da igreja local em suas esferas de atividades se defronta constantemente com novas frentes de trabalho e novas oportunidades de testemunhar o Evangelho. A igreja local precisa se estruturar de tal maneira que seus membros possam atuar com seus dons. TEMA 2 – A IDENTIDADE CRISTÃ DO MINISTÉRIO PESSOAL 1 Pedro 4.10, declara: “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus”. A teologia dos dons espirituais não é apenas uma constatação sobre o que a Bíblia diz a respeito do ministério que devemos buscar, mas a valorização da identidade ministerial do crente e da própria comunidade em que esse está inserido, para que a relação indivíduo-comunidade desemboque em um ministério realmente bíblico e contextualizado, expressando o encorajamento a todos os que desejarem realizar a vontade de Deus na sua vida e no Reino. Não há cristãos sem dom! Nosso dom espiritual fundamental define o nosso ministério ou fazer-ministerial: “servir uns aos outros, conforme o dom que recebeu”. O que queremos dizer é que esses dons vocacionais funcionam continuamente, não importando em que área ministerial a pessoa esteja envolvida na igreja. No entanto, precisamos ter o cuidado de não impor limites aos dons que Deus escolhe, em sua soberana vontade, para conceder a cada crente. Por exemplo: alguém que tem o dom vocacional de ensino, pode muito bem ministrar em uma equipe do ministério de louvor ou evangelismo. De modo geral, em qualquer área a pessoa com esse dom descobrirá formas de exercê- lo. O dom vocacional é a locomotiva (ou motivação) de nosso ministério. Significa que Deus escolheu você para cumprir um papel que só você, com sua personalidade e dom, pode fazer do jeito que Ele planejou. Você só precisa descobrir e desenvolver o seu dom fundamental e, ao mesmo tempo, lançar seus olhos à frente em busca de ações condizentes com a visão de Deus para sua vida. Que você possa ganhar uma forte convicção bíblica acerca do dever de todo cristão em cultivar e desenvolver o seu dom vocacional, para ser cada vez mais excelente em seu ministério cristão. Certamente, esse discernimento pode provocar uma explosão de reflexão em relação à prática dos ministérios nas comunidades de fé locais, deixando de lado aquele perfil de igreja clericalizada, no qual os membros são inativos e toda demanda ministerial fica a cargo do clérigo, pois a tendência desse padrão cristalizado de igreja é limitar os dons ao clero, atrofiando assim o fluir dos dons entre todos os membros do corpo de Cristo. A Bíblia diz que o crente é parte do sacerdócio real. Um sacerdote é um ministro. O crente serve por meio dos dons. Cada um tem um chamado específico que é diferente para cada membro do corpo de Cristo. Fomos chamados para cumprir um papel no Reino de Deus que só nós, com nosso dom, personalidade, paixão e experiência, podemos realizar da forma que Deus planejou. A Igreja, cuja existência tem por fundamento a pessoa de Jesus Cristo, vive para proclamar o Evangelho e a fé em Jesus, de modo que a História e a História da salvação formam uma unidade, baseada no Cristo e representada no seu corpo – a Igreja. O povo de Deus é sinal vivo da História da salvação no mundo. A Igreja, movida pelo Espírito Santo, consciente de sua vocação e de sua missão no mundo, torna-se presente no mundo por meio de seus membros. O cristão, com sua história pessoal, acha-se em meio à tarefa histórica do povo de Deus, pela sua vida e serviço espiritual. “A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso” (1 Coríntios 12.7). TEMA 3 – RECONHECENDO A IMPORTÂNCIA DOS DONS ESPIRITUAIS O reconhecimento da importância dos dons espirituais para a prática dos serviços na igreja implica considerar que cada membro do corpo de Cristo tem pelo menos um dom, que é fundamental: “o dom que recebeu” (1 Pedro 4.11). Daí vem a pergunta: por que muitos membros das comunidades de fé não estão entregando ao chamado que Deus como deveriam? A raiz do problema é a falta de reconhecimento da importância dos dons espirituais! Nesse processo de reconhecimento dos dons espirituais o primeiro passo é descobri-los é usá-los de modo adequado. Logo, as igrejas locais precisam chegar a um consenso verdadeiramente razoável, à luz do ensino das Escrituras Sagradas, acerca da importância dos dons como experiência espiritual essencial aos fiéis, abrindo espaços para a criatividade e sonhos das pessoas. Isso implica reformular a estrutura da igreja e fazer ajustes para mobilização dos membros para as “diversidades nos serviços” (1 Coríntios12.4). Esse entendimento lucido é dado sentido de direção, estabelece limites e orienta a experimentação dos dons. Compreender os dons espirituais é importante, porém, a questão mais fundamental é vivenciá-los. Esse é o chamado para exercermos nossa missão como discípulos de Jesus dentro dos vários contextos em que nos encontramos inseridos, e participarmos ativamente no processo de transformação da sociedade. A falta de um entendimento claro acerca da importância dos dons espirituais impede de crermos neles. E, sem crer, não é possível a experiência. A rigor, somente quando cremos, de fato, nos dons espirituais é que eles passam a fazer parte da nossa experiência pessoal, como é propósito divino. “Porque, em tudo, fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento; assim como o testemunho de Cristo tem sido confirmado em vós, de maneira que não vos falte nenhum dom […]” (1 Coríntios 1.5-7). À luz desse texto, tudo indica que os fiéis da comunidade de fé em Corinto conheciam todos os dons espirituais e que muitos os possuíam. Contudo, não era suficiente conhecê-los e mesmo tê-los. Com efeito, eles precisavam dar mais um passo: saber como usá-los, a fim de obter os resultados esperados por Deus. Portanto, o conhecimento integral acerca dos dons espirituais nos leva, enfim, a uma experiência mais frutífera no contexto da igreja. Para alcançar tal objetivo, precisamos começar com um estudo sobre os dons espirituais, como graças dadas por Deus aos crentes, que orientam os serviços espirituais no reino de Deus. O poder pelo qual servimos vem de Deus! Assim, percebemos também a dimensão e a prioridade da gratuidade que recebemos de Deus e que faz da generosidade o princípio fundamental da vida em comunidade, como proximidade com o outro. Como já afirmamos, os dons espirituais são concedidos pelo Espírito Santo, individualmente, mas sua finalidade é coletiva: em benefício do corpo de Cristo. Isso significa que, a priori, se um crente tem um dom, fica claro para todos. Portanto, se você não sabe ainda qual é o seu dom, precisa estudar a Bíblia sobre o assunto e receber orientação que lhe auxilie a descobrir e desenvolver o seu dom. Como afirma Anders (2001, p. 105), “deste modo, seremos poupados do trauma de tentar ministrar numa área para a qual não somos dotados ou na qual até mesmo podemos ser deficientes”. TEMA 4 – EXERCENDO SERVIÇOS ORIENTADOS PELOS DONS Como sabemos, o serviço cristão nasce dos dons e é orientado por eles. Cabe, pois, à igreja local, reconhecer a diversidade dos dons e ministérios, e investir sistematicamente em superar uma estrutura de cargos por meio de uma nova estruturação de ministérios. Nesse sentido, os ministérios podem ser estabelecidos por um tempo mais longo, por exemplo, para toda a vida, ou para um período breve. Só para relembrar, a lista dos dons em 1Coríntios 12 é expressa de forma deliberada. Certamente, os dons são arrolados a título de exemplo, o apóstolo Paulo não tinha a intenção de formular uma lista completa de dons. O fato é que os coríntios supervalorizavam (apregoavam) alguns dons, como o dom de línguas, em detrimento de outros dons. Diante disso, o apóstolo Paulo procurou mostrar-lhes que o mais importante é utilizar nossos dons para edificar e fortalecer o corpo de Cristo, e não para destruí-lo, como estavam fazendo (1 Coríntios 3.16-17). Portanto, é decisiva a perspectiva da igualdade de todos os dons do Espírito e, por conseguinte, também de todos os serviços, mesmo que determinados dons e serviços – mas não sempre e em todos os lugares – sejam particularmente importantes para a edificação da igreja. Os cristãos de Corinto precisavam entender que os dons espirituais estão distribuídos no corpo de Cristo e devem ser desenvolvidos com uma dedicação ardente e cuidadosa. Eles precisavam compreender que nenhum dom espiritual pode ocupar todos os espaços da comunidade de fé. Se, por exemplo, todos na igreja tivessem o dom de profeta e, assim, profetizassem, isso seria qualquer outra coisa, menos a igreja de Jesus. Portanto, na prática, cada cristão tem seu chamado definido pelo seu dom fundamental e, assim, recebe capacitação necessária de Deus para ocupar seu lugar no corpo de Cristo. Schweitzer (2003, p. 65) afirma: “por mais que seja correto reconhecer o empenho especial de alguns membros da igreja, nem por isso eles têm, por princípio, uma posição de destaque diante dos outros”. O possuidor de um dom espiritual não adquire um caráter imutável. Assim, o que acontece na comunidade de fé pode ser classificado sob o aspecto da origem e, por isso, também da capacitação e, por decorrência, ser definido como “dádiva da graça”. Somente assim a manifestação do Espírito cumpre seu objetivo, para “um fim proveitoso” (1 Coríntios 12.7), no qual todos os serviços são sobrenaturais, quando realmente o Espírito de Deus atua neles. Reafirmo, portanto, que nenhum cristão pode dizer que não possui dom; pois todo cristão possui pelo menos um dom. Essa é a visão bíblica da diversidade dos dons, pelos quais “todos servem uns aos outros” (1Pe 4.10). Nesse caso, uma igreja local que se diz orientada por dons e ministérios, mas que se apega tenazmente às estruturas de títulos e não às pessoas, demonstra uma profunda incoerência entre o dizer e o fazer. Com efeito, o sentido profundo de uma igreja orientada por títulos e cargos inibe o impulso do Espírito Santo e fluir dos dons. Observe que os dons são enumerados, especialmente em 1 Coríntios 12.7-11 e Romanos 12.6-8, não como ofícios e cargos. Por outro lado, nenhum crente possui todos os dons. Se uma pessoa possuísse todos os dons, não haveria a necessidade de outros crentes na igreja local. Tal pessoa seria a mão, ao mesmo tempo, o pé, o olho e o ouvido – o corpo todo –, e isso seria impossível. De fato, os crentes precisam uns dos outros, simplesmente porque ninguém possui todos os dons. Também, a diversidade de dons e ministérios não implica que a vida cristã tenha dois níveis, correspondendo a algo vagamente parecido com “líderes” (uma palavra que nunca aparece no Novo Testamento para descrever esses ofícios) e o povo. Essas reservas devem nos incitar à prudência. A igreja local tem um líder único e divinamente investido de autoridade. Entretanto, a distinção comumente feita no Novo Testamento entre esse ministério especializado e o serviço dos leigos, em geral, é puramente funcional. Então, espera-se que cada membro do corpo de Cristo forme com os demais um coro, a fim de que a harmonia do corpo revele o tom de Deus na unidade de uma só voz. Porque existe um só corpo de Cristo para nos unir. Assim, os que trabalham em tempo integral, qualquer que seja o título, não estão acima dos outros, nem mais próximos de Deus, nem são mais importantes do que os membros de sua igreja. Na verdade, não podemos negar que certos ministérios (não seus componentes) se sobressaem mais que outros no contexto da organização da igreja. São os serviços que incluem o púlpito, por exemplo, que recebem muito mais louvor e atenção. Todavia, isso não faz deles superiores àqueles menos vistos ou considerados “menos dignos”. Certamente, esse é um grande desafio para a comunidade, especialmente em relação àqueles membros que estão em posição de liderança, os quais precisam ser instruídos quanto a honrar os ministérios que, segundo o senso comum, parecem inferiores. A Bíblia não distingue sistematicamente os dons que vêm do Espírito, talvez para que os ministérios não possam ser estabelecidos, reconhecidos e aceitos na comunidade, uns em detrimento dos outros. Muitos dons espirituais, mesmo orientados para o serviço da comunidade, não precisam de ministérios reconhecidos ou instituídos para se manifestar. O que todos nós precisamos aprender é que, para Deus, não interessa o “ministériotal” – se ele é notado ou não –, ou “onde” servimos; o que importa é se estamos sendo fiéis no desempenho de nossa missão. Quando nossas atividades na igreja se integrarem – não estou me referindo a uma integração administrativa, mas espiritual, de visão de corpo –, então, nosso sonhado processo de estabelecimento acontece. TEMA 5 – A INTERDEPENDÊNCIA NO USO DOS DONS ESPIRITUAIS A figura da igreja como corpo ganha uma função pedagógica, na perspectiva estrutural, quanto à interdependência no uso dos dons. O ideal mostrado por essa figura é que não haja ciúmes e revolta entre os membros. Mas, temos que admitir que, na prática, o orgulho pode quebrar a unidade e a harmonia do corpo. Essa bela metáfora, além de ilustrar a união que deve haver na igreja, ensina-nos também a respeito de uma postura humilde em relação uns aos outros. Romanos 12.5 expõe claramente essa dinâmica espiritual e orgânica: “Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas, individualmente, somos membros uns dos outros”. Contudo, os problemas acerca dos dons e ministérios estão diante de nós: uma notável porcentagem de pessoas em nossas igrejas, com alta prevalência de inconsistência em seus trabalhos, tem abandonado seus postos, basicamente por razões de conflitos interpessoais. Por outro lado, não se pode atribuir essa negligência apenas a esse ponto. Uma possibilidade plausível é, então, a falta de uma visão clara do que é o corpo de Cristo. Sem essa compreensão, do que é o corpo de Cristo, o cristão é sufocado pela monotonia cotidiana e pelas atividades estéreis, em que a vida cristã, antes cheia de expectativas, transforma-se em uma rotina tediosa, na qual tudo se repete da mesma maneira durante dias, semanas, meses e anos. Da expectativa passam à desilusão. Seja onde for a comunidade de fé local, ela é parte espiritual do corpo universal de Cristo. Observe, o corpo físico não tem um só membro, mas muitos. Os braços, pernas, dedos, coração etc., são diferentes membros do nosso corpo. De semelhante modo é o corpo de Cristo: “Porque, também, o corpo não é um só membro, mas muitos” (1 Coríntios 12.14). A lição básica é a seguinte: todo o membro no corpo de Cristo é uma parte muito importante: “Ora vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular” (1 Coríntios 12.27). Partindo do princípio de que cada membro do corpo tem uma função específica, o que faria do dedo grande do pé se ele não estivesse ligado ao corpo? Nada! Contudo, ao estar ligado ao corpo, o dedo grande do pé é uma parte importante desse. Sem ele, o corpo estaria limitado quanto ao que pode fazer. No corpo físico, a função do pé não é mesma que a do ouvido. Função quer dizer “tarefa ou dever especial”. Por exemplo, o olho tem a função de ver; o pé tem a função de dar sustentação ao corpo, funcionando como alavanca no processo de andar, que requer a ação de toda a perna. Todos os outros membros do corpo são beneficiados por ele. Sem o pé, caímos com mais facilidade e não somos capazes de correr tão bem. Podemos mesmo coxear. Portanto, todos os membros do corpo têm uma função e são importantes, não somente para a cabeça, mas também para os demais membros do corpo. Partindo da premissa de que todo membro é importante e tem sua função própria no corpo, fica claro que não podem comparar-se uns com os outros: “Porque não ousamos classificar-nos, ou comparar-nos com alguns, que se louvam a si mesmos; mas estes, que se medem a si mesmos, e se comparam consigo mesmos, estão sem entendimento” (2 Coríntios 10.12). Os dons que Deus têm para cada membro do corpo são adequados somente para eles. Então, não há nada que justifique nos compararmos uns com os outros. Todos nós beneficiamos uns aos outros. Por que nos comparar se não nos assemelhamos quanto aos dons? A comparação quase sempre desencoraja as pessoas à prática do serviço autêntico no reino de Deus. Aliás, quando comparamos os nossos dons com os de qualquer outra pessoa, duas coisas podem acontecer: • podemos ficar tristes porque os nossos dons não são como os de outras pessoas. Eles podem não parecer tão importantes como os dos outros; • podemos ficar orgulhosos por pensarmos que os nossos dons são os melhores. Desse modo, as orientações para o uso dos dons espirituais, no Novo Testamento, são diretrizes com vista à decência e à ordem, as quais aplicam de modo específico à vida comunitária – a comunidade de fé (1 Coríntios 14.26-33; 37-40). NA PRÁTICA Nesta aula, vimos os dons, como dádivas de Deus para seu povo, em vista da realização de sua obra no mundo, com graça e eficiência. Desse modo, os dons não são enfeites para a vida cristã, mas ferramentas para serviço. Analisamos, também, que para cada membro do corpo de Cristo Deus outorga dons os quais variam de pessoa para pessoa. FINALIZANDO Nesta aula vimos que os dons espirituais são dados apenas aos cristãos nascidos de novo, verdadeiros discípulos de Cristo. Significa que, quando uma pessoa se converte a Jesus Cristo, torna-se, automaticamente, parte da família espiritual de Deus. Daí o próximo passo é aprender sobre a essência do corpo de Cristo e o modo como ele funciona, para descobrir qual é o seu lugar no corpo de Cristo. Assim, a essência dos dons consiste em exercer uma função dinâmica e positiva no Reino de Deus, por intermédio do Espírito Santo. Por isso, a Bíblia utiliza a metáfora do corpo, que une de modo indissolúvel a pessoa de Jesus Cristo à igreja, em que são distribuídos os dons espirituais. REFERÊNCIAS ALMEIDA, A. J. Teologia dos ministérios não ordenados na América Latina. São Paulo: Loyola, 1989. ANDERS, M. O Espírito Santo – em 12 lições. São Paulo: Vida, 2001. BOOR, W. Evangelho de João II – Comentário Esperança. Curitiba: Esperança, 2002. CARSON, D.A. A manifestação do Espírito – a contemporaneidade dos dons à luz de 1Coríntios 12-14. São Paulo: Vida Nova, 2013. CARTA Pastoral sobre Dons e Ministérios. Biblioteca Vida e Missão. Pastorais. São Paulo: Cedro, 1988. CASTRO, C. P.; CUNHA, M. do N. 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