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GEOGRAFIA DA SAÚDE 
AULA 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Thiago Kich Fogaça 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Nesta aula, prosseguiremos discutindo sobre a acessibilidade aos 
serviços de saúde no Brasil, levando em consideração o Sistema Único de 
Saúde (SUS) e as principais dificuldades encontradas principalmente nas 
periferias geográficas. 
A acessibilidade aos serviços da medicina tradicional será um tema 
introdutório para discutirmos, em seguida, a questão dos tratamentos 
complementares e alternativos utilizados no mundo e que já são expressivos no 
país, como a acupuntura e os probióticos. 
Quando a medicina tradicional não supre as demandas das sociedades é 
possível encontrar os saberes histórico-culturais sendo fortalecidos, como 
mecanismos para curar os doentes, por meio de rezas e manipulação de ervas 
medicinais. Esse último é característica marcante em regiões nas quais as 
tecnologias e os profissionais de saúde não estão presentes, destacando o papel 
de cura e o papel social executado pelas benzedeiras. 
TEMA 1 – O CONTEXTO GEOGRÁFICO DA ACESSIBILIDADE AOS SERVIÇOS 
DE SAÚDE NO BRASIL 
Para iniciarmos nossa discussão precisamos salientar que trataremos 
primeiro de ferramentas utilizadas para medir a acessibilidade aos serviços de 
saúde, sendo necessário frisar que são as técnicas e os dados coletados que 
determinarão o grau de dificuldade e aplicabilidade dos estudos e que estes 
deverão ser adaptados para as realidades locais. 
Duas maneiras de medir a acessibilidade levam em consideração a 
distância até os provedores dos serviços. A primeira é a “Acessibilidade Real”, 
que ocorre por meio do registro quantitativo de pacientes em determinada 
unidade de saúde, sendo definido, por exemplo, o período de análise e os tipos 
de tratamentos fornecidos. A segunda é a “Acessibilidade física potencial” na 
qual utiliza-se cálculos estatísticos levando em consideração a quantidade de 
médicos por população ao redor da unidade de saúde serviço (Joseph eBantock, 
1982, citado por Ferreira e Raffo, 2012). Outras técnicas que buscam refinar os 
estudos estão apresentadas no Quadro 1: 
 
 
 
3 
Quadro 1 – Medidas de acessibilidade aos serviços de saúde 
A maioria das medidas publicadas de acessibilidade espacial para cuidados de saúde 
pode ser classificada de forma mais simples em quatro categorias: relações provedor-para-
população, distância para o provedor mais próximo, distância média para um conjunto de 
provedores e modelos gravitacionais de influência do provedor. 
• Relações provedor-para-população, também chamadas de proporções de oferta, são 
calculadas dentro das áreas fronteiriças. Eles são o tipo mais populares de medida de 
acessibilidade espacial porque são altamente intuitivos, as fontes de dados estão 
prontamente disponíveis e não requerem necessariamente ferramentas e 
conhecimentos de GIS. Eles também são o tipo de medida que tem sido usado na 
literatura sentinela sobre condições sensíveis à atenção ambulatorial (ACSCs). As 
taxas são calculadas para áreas fronteiriças, como estados, condados, áreas 
estatísticas metropolitanas ou áreas de serviços de saúde. Estas são as unidades 
geográficas de análise. O numerador é algum indicador da capacidade do serviço de 
saúde, como número de médicos, clínicas ou leitos hospitalares. O denominador é o 
tamanho da população na área. 
• Distância para o provedor mais próximo é outra medida de acessibilidade espacial 
muito intuitiva e comumente usada. É normalmente medido a partir da residência de 
um paciente ou de um centro populacional, como o centroide geométrico do condado 
de residência, dependendo da resolução dos dados disponíveis. O custo de viagem, 
é frequentemente medido em unidades de distância euclidiana (linha reta), distância 
de viagem ao longo de uma rodovia e/ou sistema ferroviário ou tempo estimado de 
viagem por meio de uma rede de transporte. 
• Distância média para um conjunto de provedores é intrigante porque é uma medida 
combinada de acessibilidade e disponibilidade. Ela também é medida a partir de 
qualquer paciente ou ponto de interesse da população. A partir desse ponto, o custo 
de viagem para todos os provedores dentro de um sistema é somado e calculado a 
média. O "sistema" pode ser uma cidade ou condado. 
• Modelos gravitacionais de influência do provedor também são um indicador 
combinado de acessibilidade e disponibilidade. Uma versão modificada da Lei da 
Gravitação de Newton, eles foram desenvolvidos inicialmente para prever viagens de 
varejo e ajudar no planejamento do uso da terra. Eles podem fornecer as medidas 
mais válidas de acessibilidade espacial, seja o cenário urbano ou rural. Os modelos 
de gravidade tentam representar a interação potencial entre qualquer ponto de 
população e todos os pontos de serviço dentro de uma distância razoável, 
descontando o potencial com o aumento da distância ou custo de viagem. 
 
Fonte: Guagliardo, 2004, p. 4-5, tradução nossa. 
 
 
4 
Para iniciarmos nossa discussão sobre a acessibilidade aos serviços de 
saúde no Brasil é necessário questionar alguns processos históricos, culturais e 
de planejamento urbano, pois diferentes autores desenvolveram técnicas para 
mensurar o acesso da população, mas que foram utilizados em países distintos. 
No Brasil, muitos destes processos interferem na acessibilidade aos serviços de 
saúde. 
Os últimos dados oficiais sobre a população brasileira datam do ano de 
2010 e já foram amplamente utilizados para caracterizar a estrutura da 
população e elaboração de índices de desenvolvimento humano. O fato é que 
se trata de um país com altos índices de desigualdade socioambiental e com 
graves problemas urbanos, como falta de saneamento básico em áreas 
periféricas das cidades (mesmo aquelas situadas nas regiões mais 
desenvolvidas do país). 
Outro fato relevante se refere ao nível de instrução da população. Bairros 
periféricos tendem a fornecer menores condições de educação pública. A 
educação é um dado essencial nos cuidados de saúde, pois quanto maior o nível 
de instrução, maior serão os cuidados com a saúde. A questão cultural, de uma 
história recente, na qual a figura masculina era considerada forte, interfere na 
aderência dos homens com os cuidados de saúde. Doenças como a dengue e a 
Zika, por exemplo, possuem registro oficial predominantemente em mulheres, 
mas justificado pela busca delas aos serviços de saúde pública e registro da 
doença. Desta maneira, a cultura se torna uma barreira ao acesso aos serviços 
de saúde. 
Uma característica marcante nas cidades brasileiras, sobretudo as 
grandes, é a presença de um sistema de transporte público deficitário e que, em 
muitas vezes, não tem o alcance de toda a cidade. Logo, ao estudarmos sobre 
a acessibilidade aos serviços de saúde será necessário compreender a dinâmica 
de mobilidade urbana. Analisar a mobilidade urbana deverá levar em 
consideração a relação centro-periferia que determinará os investimentos em 
infraestrutura urbana. Não devemos encarar esses fatos como prejudiciais aos 
estudos, apenas precisamos ter em mente que as características locais precisam 
fornecer elementos que aprimorem as análises (o que vale para muitos tipos de 
estudos geográficos). 
A renda e o IDH também são indicadores utilizados para caracterizar 
populações e, desta maneira, relacionar com a acessibilidade aos serviços de 
 
 
5 
saúde. Este fato nos ajuda fechar nosso texto e refletirmos sobre a contradição 
que existe nos serviços de saúde do país. No geral, os bairros com populações 
de menor poder aquisitivo dispõem de menor infraestrutura de transporte e 
equipamentos urbanos, devido a desigualdade dos investimentos públicos 
nesses locais. Os serviços de saúde também são afetados por esta dinâmica e, 
em muitos casos, são insuficientes. A população com maior poder aquisitivo tem 
acesso aos planos de saúdeprivados. A contradição existe pelo fato dos locais 
onde existe a maior necessidade de investimento público serem aqueles onde 
permaneçam as maiores fragilidades socioambientais. 
Os estudos geográficos sobre a acessibilidade aos serviços de saúde são 
essenciais para o planejamento das ações que levem em consideração a 
realidade local. 
TEMA 2 – MEDICINA COMPLEMENTAR E ALTERNATIVA – CONCEITO 
A problemática da acessibilidade aos serviços de saúde nos direciona 
para outro campo de estudo que se refere à medicina não científica, amplamente 
utilizada desde os primórdios das civilizações. Parte dos conhecimentos 
milenares deram embasamento para a medicina tradicional, demonstrando-se a 
importância das práticas alternativas. 
Neste texto trabalharemos apenas a questão conceitual, levando em 
consideração estudos internacionais do começo deste século e as novas 
nomenclaturas apresentadas no final da década de 2010. 
O primeiro conceito que abordaremos é o de Medicina Complementar e 
Alternativa (CAM, na sigla em inglês): 
Tem havido muitos debates em torno de uma única definição de 
medicina complementar e alternativa (CAM), mas nenhum foi 
conclusivo. Considerando a diversidade das modalidades de CAM, as 
definições de CAM na literatura atual são inconsistentes e variam 
significativamente em diferentes contextos sociais. O termo “medicina 
complementar e alternativa” e sua forma abreviada, “CAM”, são os 
termos mais comumente usados na literatura. “Complementar” 
geralmente significa que tal medicamento (incluindo terapias e 
produtos) está sendo usado além da medicina ocidental convencional. 
“Alternativa” implica que está sendo usado de forma independente. 
Outros termos são amplamente difundidos e usados alternadamente 
para descrever o CAM. Eles incluem: medicina tradicional, oriental, 
holística, não convencional, não convencional, não ortodoxa, essencial 
e não comprovada. (Zhang, 2006, p. 15) 
 
 
6 
São diferentes abordagens que são consideradas CAM e que foram 
classificadas pelo Centro Nacional de Medicina Complementar e Alternativa 
(NCCAM, na sigla em inglês): 
Quadro 2 – Abordagens de Medicina Complementar e Alternativa 
Sistemas Médicos Alternativos 
- Medicina Homeopática: lei dos semelhantes. 
- Medicina Naturopática: cura pela natureza 
- Medicina Chinesa Tradicional: tradição milenar 
- Medicina Ayurvédica: tradicional na Índia 
Intervenções mente-corpo 
- Meditação, oração, cura mental e terapias que usam atividades criativas, 
como arte, música ou dança. 
Terapias baseadas em Biologia 
Suplementos dietéticos: vitaminas, minerais, ervas ou outros produtos 
botânicos, aminoácidos e substâncias, tais como enzimas, tecidos de órgãos 
e metabolitos. 
Métodos corporais 
Quiropraxia (músculo e coluna); Osteopática (articulações; fisioterapia); 
Massagem. 
Terapias Energéticas 
Qigong, reiki, toque terapêutico, campos pulsados e campos magnéticos. 
Fonte: Zhang, 2006, p. 19. 
Essas discussões sobre a medicina complementar foram aprimoradas, e, 
na atualidade, a OMS utiliza a denominação “medicinas tradicionais, 
complementares e integrativas – MTCI”. 
As medicinas tradicionais, complementares e integrativas (MTCI) – 
denominação utilizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – 
se refere à um amplo conjunto de práticas de atenção à saúde baseado 
em teorias e experiências de diferentes culturas utilizadas para 
promoção da saúde, prevenção e recuperação, levando em 
consideração o ser integral em todas as suas dimensões. As MTCI 
constituem importante modelo de cuidado à saúde, sendo em muitos 
países a principal oferta de serviços à população. Em outros países, a 
forma de inserção nos sistemas de saúde acontece de forma 
complementar ao sistema convencional. (OPAS, 2021, s/p) 
A inclusão do termo “integrativas” ocorreu a partir do ano de 2017: 
 
 
7 
Em meados de 2017, a unidade técnica de Medicina Tradicional e 
Complementar da OMS adicionou o termo “Medicina Integrativa” para 
abordagens integrativas de MTCI e medicina convencional em relação 
a políticas, conhecimentos e prática. Um projeto está em andamento 
para definir e melhor compreender essa integração, assim como a 
medicina integrativa, e fornecer orientação aos Estados Membros 
sobre os critérios e elementos das melhores práticas para integrar as 
MTCI nos sistemas de saúde nacionais. Os cuidados de saúde 
integrativos muitas vezes reúnem abordagens convencionais e 
complementares de forma coordenada. Enfatizam uma abordagem 
holística e focada no paciente para cuidados de saúde e bem-estar – 
muitas vezes incluindo aspectos mentais, emocionais, funcionais, 
espirituais, sociais e comunitários – e tratam a pessoa como um todo e 
não só sua condição/doença isolada. (OPAS, 2021, s/p) 
No Brasil, as práticas alternativas integrativas são realidade na maior 
parte das unidades de saúde do país. O principal documento normativo sobre o 
assunto foi publicado no ano de 2015 e apresenta a “Política Nacional de práticas 
integrativas e complementares no SUS (PNPIC)”. Desde o ano de 2006 foram 
sendo incorporados diferentes tratamentos, que na atualidade totalizam 29 
procedimentos: Acupuntura; Homeopatia; Fitoterapia; Antroposofia; Termalismo; 
Arteterapia; Ayurveda; Biodança; Dança circular; Meditação; Musicoterapia; 
Naturoterapia; Osteopatia; Quiropraxia; Reflexoterapia; Reiki; Shantala; Terapia 
comunitária integrativa; Ioga; Apiterapia; Aromaterapia; Bioenergética; 
Constelação familiar; Cromoterapia; Geoterapia; Hipnoterapia; Imposição de 
mãos; Ozonioterapia; Terapia de florais. 
No próximo tópico selecionaremos alguns dos tratamentos mais 
utilizados. 
TEMA 3 – MEDICINA COMPLEMENTAR E ALTERNATIVA - EXEMPLOS 
Neste tópico serão apresentados alguns exemplos de tratamentos 
disponíveis no SUS e classificados como alternativos integrativos retirados do 
documento “Política Nacional de práticas integrativas e complementares no 
SUS” (PNPIC). 
 
 
 
 
 
 
8 
Quadro 3 – Exemplos 
Acupuntura 
Figura 1 – Linhas Vitais 
 
Créditos: Bjoern Wylezich/Shutterstock 
A acupuntura é uma tecnologia de intervenção em saúde que aborda de modo 
integral e dinâmico o processo saúde-doença no ser humano, podendo ser 
usada isolada ou de forma integrada com outros recursos terapêuticos. 
Originária da medicina tradicional chinesa (MTC), a acupuntura compreende 
um conjunto de procedimentos que permitem o estímulo preciso de locais 
anatômicos definidos por meio da inserção de agulhas filiformes metálicas 
para promoção, manutenção e recuperação da saúde, bem como para 
prevenção de agravos e doenças. 
Homeopatia 
Figura 2 – Almofariz 
 
 
9 
 
Créditos: Microgen/Shutterstock 
A homeopatia, sistema médico complexo de caráter holístico, é baseada no 
princípio vitalista e no uso da lei dos semelhantes, enunciada por Hipócrates 
no século IV a.C. Foi desenvolvida por Samuel Hahnemann no século XVIII. 
Após estudos e reflexões baseados na observação clínica e em experimentos 
realizados na época, Hahnemann sistematizou os princípios filosóficos e 
doutrinários da homeopatia em suas obras Organon da Arte de Curar e 
Doenças Crônicas. 
(continua) 
 
 
 
 
10 
(quadro 3: continuação) 
Plantas Medicinais e Fitoterapia 
Figura 3 – Plantas Medicinais 
 
Créditos: istetiana/Shutterstock 
A fitoterapia é uma “terapêutica caracterizada pelo uso de plantas medicinais 
em suas diferentes formas farmacêuticas, sem a utilização de substâncias 
ativas isoladas, ainda que de origem vegetal”. O uso de plantas medicinais na 
arte de curar é uma forma de tratamento de origens muito antigas, relacionada 
aos primórdios da medicina e fundamentada no acúmulo de informações por 
sucessivas gerações. Ao longo dos séculos, produtos de origem vegetal 
constituíram as bases para tratamento de diferentes doenças. 
Termalismo Social/Crenoterapia 
O uso das águas minerais para tratamento de saúde é um procedimento dos 
mais antigos,utilizado desde a época do Império Grego. Foi descrita por 
Heródoto (450 a.C.), autor da primeira publicação científica termal. O 
termalismo compreende as diferentes maneiras de utilização da água mineral 
e sua aplicação em tratamentos de saúde. 
Medicina Antroposófica 
A medicina antroposófica (MA) foi introduzida no Brasil há aproximadamente 
60 anos e apresenta-se como abordagem médico-terapêutica complementar, 
de base vitalista, cujo modelo de atenção está organizado de maneira 
transdisciplinar, buscando a integralidade do cuidado em saúde. [...] 
(continua) 
 
 
 
11 
(quadro 3: conclusão) 
[...] Entre os recursos que acompanham a abordagem médica, destaca-se o 
uso de medicamentos baseados na homeopatia, fitoterapia e outros 
específicos da medicina antroposófica. Integrada ao trabalho médico está 
prevista a atuação de outros profissionais da área da Saúde, de acordo com 
as especificidades de cada categoria. 
Fonte: Brasil, 2015, p. 19-27. 
As atividades listadas estão presentes na rotina dos profissionais de 
saúde da rede pública do Brasil e são incorporadas como complemento de 
tratamentos. A inclusão destas atividades demonstra a preocupação em utilizar 
diferentes tratamentos que buscam a manutenção da saúde. No entanto, 
conforme evidenciamos anteriormente, a utilização dos tratamentos alternativos 
está relacionada a diferentes fatores, de ordem socioeconômica e cultural. 
Os geógrafos poderão utilizar dados sobre a acessibilidade aos serviços 
para analisar características locais, como padrão de uso, período do ano com 
mais procura, relação entre centro e periferia e os tratamentos alternativos. 
TEMA 4 – OS SABERES HISTÓRICO-CULTURAIS E O TRATAMENTO DE 
DOENÇAS NO BRASIL 
Para iniciarmos a discussão sobre os saberes histórico-culturais, são 
feitas algumas provocações: De onde vem os medicamentos? Quando e com 
quais processos foram estabelecidos os tratamentos com soluções ou 
comprimidos? Se a medicina científica atual é resultante das últimas revoluções 
tecnológicas, como as pessoas curavam as doenças na antiguidade? 
Parte destas questões já foram respondidas no decorrer de nossa 
disciplina, porém, passaremos a reforçar alguns processos históricos. Este 
assunto é confortável, por sempre utilizar nas aulas sobre o conhecimento 
científico e os métodos para produção e averiguação dos resultados. Você deve 
ter em sua casa diferentes produtos que possuem extratos de plantas, por 
exemplo, e que são utilizados com diferentes finalidades, desde medicamentos 
até produtos de higiene, por exemplo. Todos decorrentes da história da 
humanidade e da manipulação dos recursos naturais. 
Desta maneira, é necessário falarmos dos saberes histórico-culturais e da 
relação com o processo de colonização do Brasil. Estudamos em diferentes 
 
 
12 
disciplinas geográficas sobre os impactados da colonização portuguesa no meio 
ambiente, das imposições religiosas e culturais (modo de vida) e na dinâmica 
econômica. Nas questões de saúde, é importante reforçarmos o aspecto do 
homem branco encontrar um ambiente com características distintas da realidade 
de Portugal e com a transmissão de doenças ainda não conhecidas por eles. O 
conhecimento sobre essas doenças só foi possível com o contato dos nativos e 
aprendizado das experiências por eles vividas, mas ainda insuficientes para a 
produção dos medicamentos, visando o bem-estar dos colonizadores. Os 
médicos portugueses encontraram respostas por meio de curandeiros, pajés e 
rezadeiras, que atuavam no tratamento dos doentes. 
A chegada do homem branco ao território do Brasil atual não significou 
substituição das práticas de cura, pois, além da resistência dos nativos em 
relação aos colonizadores e vice-versa, existiam locais onde os medicamentos 
importados de Portugal não eram acessíveis. Logo, os tratamentos alternativos 
empregados pelos curandeiros se fortaleceram e ainda permanecem utilizados 
em diferentes contextos. Além disso, os saberes dos indígenas auxiliavam os 
médicos e os jesuítas no tratamento das doenças: 
O crescente emprego da farmacopeia indígena na cura de 
determinadas doenças, não só ampliou as possibilidades terapêuticas 
dos missionários, como reduziu significativamente o caráter 
depreciativo atribuído às práticas indígenas – quando, como se pode 
prever, esta não era utilizada pelos nativos, mas sim pelos religiosos. 
Um dos mais conhecidos compostos jesuíticos da época é a triaga 
brasílica, cuja fórmula manteve-se em segredo até a expulsão da 
Ordem da colônia. Diversas são as notícias de suas contribuições no 
mapeamento de plantas e no desenvolvimento de receitas úteis aos 
médicos, a exemplo da herva de cobra, por eles beneficiada e 
extremamente eficaz no combate aos efeitos das picadas do animal, 
como salientou o botânico Bernardino Antônio Gomes: “por meio deste 
remédio nenhum morria, ainda que já estivesse inchado, com ânsias, 
e deitando sangue por toda a parte”. Além da feitura e distribuição de 
fórmulas como a triaga, os religiosos das mais diversas ordens foram 
responsáveis pela criação e manutenção das Santas Casas de 
Misericórdia, instituições “especialmente recomendadas pela Coroa 
portuguesa” e propagadas por todo Ultramar. (Viotti, 2012, p. 18) 
Desta maneira fica evidente a importância dos saberes histórico-culturais 
nos períodos de colonização do país. Além disso, devemos ter em mente que a 
chegada dos africanos incorporou novas dinâmicas culturais, sobretudo para a 
cura das doenças: 
Com a chegada dos africanos ao Brasil a partir do tráfico de escravos, 
outros diversos elementos místicos foram introduzidos no conjunto das 
práticas da Medicina Tradicional no período da colonização do Brasil, 
exercendo sua influência não apenas nos indígenas, mas também nos 
 
 
13 
próprios europeus, que utilizavam as tradições e, em algumas 
circunstâncias, valiam-se dos rituais vindos da África e incorporados à 
cultura brasileira. (Barbosa et. al., 2016, p. 73) 
Temos, portanto, as culturas dos indígenas e povos tradicionais, mais a 
influência religiosa e medicina dos colonizadores portugueses e as culturas dos 
africanos que foram escravizados no Brasil Colônia, formando um complexo 
diversificado de práticas de cuidados de saúde. Todos foram importantes na 
configuração das práticas de saúde e representam o arcabouço histórico do trato 
das doenças no país: 
As curas empregadas pelos africanos abrangiam as chamadas 
“moléstias do corpo”, entendidas como “quebranto”, feridas diversas, 
“lombrigas”, “sezões”, entre outras e as “moléstias da alma”, que – pelo 
que se entendia - eram causadas por feitiços. Era comum, portanto, a 
prática de rezas, de benzeduras e de rituais para restabelecer a saúde 
do enfermo. (Edler, 2010, citado por Barbosa et. al., 2016, p. 73) 
No entanto, os africanos não se detinham apenas às tradições ligadas ao 
sobrenatural, pois utilizavam plantas e animais nos processos de cura. 
O uso de animais não era rotina apenas brasileira e está enraizada no 
processo de cura de outras sociedades. Um exemplo consiste nas terras altas 
do Equador. Curandeiros daquela região utilizavam diferentes objetos, como 
ovos, água benta, crânio de cachorro e porquinho-da-índia, em diferentes 
processos para diagnosticar e curar os doentes. O porquinho-da-índia, por 
exemplo, era utilizado para diagnosticar problemas do coração, fígado, pulmão 
e estômago, no qual o curandeiro esfregava o animal no corpo do doente 
(processo de fricção) (Cavander e Albán, 2009, citados por Oliveira e Costa 
Júnior, 2011). 
Mediante os exemplos apresentados buscamos apresentar e ilustrar a 
importância dos saberes históricos culturais nos cuidados de saúde. Assim, para 
finalizamos esta aula, daremos maior ênfase ao contexto religioso e o 
curandeirismo no Brasil no próximo tópico. 
TEMA 5 – O CURANDEIRISMO NO BRASIL 
Para abordarmos a questão do curandeirismo no Brasil é necessário 
retomarmosà reflexão sobre os processos de cura e as realidades locais. Este 
fato foi frisado ao falarmos sobre os tratamentos alternativos, porém, também se 
refere aos processos de cura a partir da bendição ou oração. Logo, vamos tratar 
da relação entre o religioso, as benzedeiras e o contexto geográfico. 
 
 
14 
Primeiramente, é importante relacionarmos o ato da bendição com os 
preceitos religiosos. Segundo Morais (2016), a bendição consiste em prática 
relacionada com a Igreja Católica e com o poder de Deus se manifestando para 
curar pessoas doentes; nesse sentido, a benzedeira é um agente condutor da 
cura que, só poderá ocorrer se o doente também acreditar (fé) que as orações 
irão curá-los. O curandeirismo, no entanto, não é prática única com a bendição 
e, desta maneira, são executadas por diferentes povos, como os indígenas, por 
exemplo. 
As benzedeiras estão presentes em todos os locais do país, até mesmo 
nos centros urbanos e, geralmente, sua clientela advém da propaganda de 
pacientes anteriores, a famosa divulgação "boca a boca". São mulheres pobres, 
mães e casadas e que por meio das orações ajudam os doentes; além disso, a 
prática da rezação é sem custos para o paciente. Também praticam as simpatias 
para tratar diferentes problemas, e utilizando materiais como: "ramos verdes, 
gestos em cruz feitos com a mão direita, agulha, linha e pano" (Santos, 2009, p. 
13). Outra característica importante consiste no próprio ritual de bendição 
executado pelas benzedeiras que, mesmo sendo atrelado à Igreja Católica, não 
segue padrões de rituais da igreja. 
 Segundo Santos (2009), as benzedeiras possuem maior expressividade 
na região Nordeste do país; esse fato se justifica pelo acesso a urbanização e 
várias regiões do Nordeste não possuírem serviços de saúde. Este fato é 
relevante para nossa discussão, pois apresenta elementos geográficos 
essenciais no entendimento dos processos de cura em diferentes populações. 
Diferentes pesquisadores têm estudado aspectos do curandeirismo por 
diferentes regiões brasileiras e destacando práticas que variam da bendição ao 
uso de animais nos processos de cura. Agora, passaremos a verificar alguns 
exemplos dessas práticas. 
Na região da Serra das Almas, no estado do Paraná, existem benzedeiras 
atuando na cura dos doentes desde séculos passados. Um exemplo interessante 
executado na região consiste no uso de mel ou vinagre para tratar verminoses; 
o mel é esfregado três vezes do joelho até o pé do doente, na frente da perna e 
atrás e, em seguida, é oferecido o chá amargo, que deverá ser ingerido. Esse é 
um exemplo de simpatia, e o contexto histórico e geográfico que deu origem ao 
tratamento pode ser explorado por geógrafos da saúde (Floriani, et al., 2016). 
 
 
15 
Em outro estudo sobre o curandeirismo na cidade de Campinas-SP, foram 
encontradas diferentes práticas, conforme quadro abaixo: 
Quadro 4 – Domínios religiosos para a prática da benzeção em Campinas-SP 
a) Benzeção católica: O rezador identifica-se como adepto do catolicismo e, 
assim, os frequentadores de seus serviços o indicam. Caracteriza-se 
basicamente por professar a fé nos santos do catolicismo, na evocação da 
Santíssima Trindade e pela ausência de possessão mediúnica. Realizada em 
ambiente domiciliar, não reservado ao cliente, de modo que pode ser 
presenciada por todos. Geralmente não cobram retribuições ou a cobrança é 
implícita. 
b) Corrente católica: Os clientes indicam a benzeção como espírita, mas o 
benzedor se identifica como católico. Ocorre a evocação aos guias ou médicos 
espirituais que são incorporados na possessão. A cobrança é ainda menos 
implícita que a da católica. É utilizada uma sala reservada e caracterizada para 
a bênção do cliente. 
c) Kardecista: Professa o espiritismo kardecista como elemento coordenador 
da bênção. O agente do benzimento é possuído por espíritos, chamados guias, 
as mesmas da corrente católica. Existe espaço destinado e restrito ao 
beneficiado pelo serviço. A cobrança é explícita. 
d) Crente: Regida pela fé cristã e a Trindade. Vale-se de elementos típicos do 
universo evangélico: a imposição de Bíblias e óleo para unção. Existe a 
cobrança e local específico para o procedimento. 
e) Umbandista: Como na benzeção kardecista, e, na corrente católica, ocorre 
a possessão mediúnica pelas entidades, porém, estas, são as consagradas do 
culto umbandista e não os guias médicos. Cobra pelo serviço feito, com 
valores fixos e também executa trabalhos e demandas típicas da religião afro-
brasileira, responsáveis pela ambiguidade e repulsa com que são vistas as 
práticas de qualquer ato relacionado a este culto. Pode realizar tarefas 
associadas ao esoterismo como leitura de mão, astrológicas e cartomancia. 
(continua) 
 
 
 
16 
(quadro 4: conclusão) 
f) Esotérica: Do mesmo modo que a corrente católica, apresenta um caráter 
intermediário entre o católico e o espírita. Não ocorrem as possessões, o 
agente só necessita de um esforço de concentração. Realiza trabalhos de 
quiromancia, cartomancia e contra feitiços. Cobra pelos serviços com taxas 
estabelecidas. 
Fonte: Oliveira, 1983, citado por Araújo, 2011, p. 84-85 
Apesar dos resultados apresentados no Quadro 4 datarem de estudo de 
1983, Araújo (2011) afirma que estas práticas ainda ocorrem na cidade. 
Nos deslocando da região Sudeste, passaremos a falar da região Norte 
do país, mais precisamente, sobre as práticas de curas executadas em 
populações ribeirinhas na Amazônia. Antes de destacarmos as práticas de cura 
é essencial pensarmos no contexto geográfico da Amazônia e sua 
biodiversidade, resultando em diferentes discussões sobre a exploração 
econômica daqueles recursos naturais. Comunidades locais vivem em constante 
preocupação devido as intrusões na região, buscando explorar os recursos 
naturais, como ouro, madeira, plantas e animais. 
Morais (2016) elaborou um estudo sobre o curandeirismo a partir de ervas 
e animais executados em Nazaré-RO, identificando-se nele diferentes práticas 
utilizadas por populações ribeirinhas. Dentre elas, destaca-se o uso de partes de 
animais para curar doenças respiratórias, circulatórias e cardíacas, reumatismo, 
dores em diferentes partes do corpo e doenças relacionadas ao útero (Morais, 
2016). 
É importante mencionarmos que o curandeirismo é expressado por 
figuras importantes nas comunidades, representado pelas benzedeiras, 
curandeiros ou outros morados que se destacam no local. Este fato é ilustrativo 
na Comunidade Remanescente de Quilombolas (CRQ) de Palmital dos Pretos, 
no estado do Paraná, no qual identificou-se o papel de liderança das 
benzedeiras, destacando-se como líderes comunitárias. Naquele local, ocorre 
uma medicina baseada na “cosmo-medicina-religiosa” e executada estritamente 
por mulheres. A benzedeiras atuam para realizar a “costura” (apropriando-se do 
termo da medicina vernacular) simbólica entre o passado e o presente, 
reafirmando assim os laços de solidariedade e reciprocidade social entre 
territórios tradicionais” (Floriani et al., 2016, p. 333). 
 
 
17 
Os exemplos apresentados servem apenas para introduzir a discussão 
sobre o curandeirismo no Brasil. Existem muitas práticas e contextos geográficos 
que ainda não foram estudadas por geógrafos e que poderão subsidiar políticas 
públicas que permitam a manutenção das práticas alternativas. 
NA PRÁTICA 
Pesquise em sua cidade quais são as principais dificuldades que podem 
ser encontradas na acessibilidade aos serviços de saúde (desde o transporte, 
até estrutura física dos locais de atendimento à população). 
FINALIZANDO 
Nesta aula estudamos sobre o contexto da acessibilidade aos serviços de 
saúde no país, demonstrando que existe uma relação direta entre recursos 
tecnológicos e oferta/demanda por profissionais de saúde nas regiões mais 
periféricas do país. 
Além disso, estudamos sobre os CAM, técnicas diferenciadaspara tratar 
doenças, mais enraizadas na Europa, mas que já estão adquirindo espaço no 
mercado nacional, possuindo públicos diferenciados. 
Outra característica dos tratamentos alternativos consiste nos saberes 
histórico-culturais, com uso da fé e orações, via curandeiros e benzedeiras, que 
estão presente em todo o território nacional, mas em maior número nas regiões 
periféricas e com serviços de saúde precários. 
Sendo assim, ao analisar o viés do acesso aos serviços de saúde 
constatamos como as questões históricas e culturais são essenciais para a 
compreensão dos diversos mecanismos de cura existentes no país. 
 
 
 
 
18 
REFERÊNCIAS 
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