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GEOGRAFIA DA SAÚDE AULA 5 Prof. Thiago Kich Fogaça 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula, prosseguiremos discutindo sobre a acessibilidade aos serviços de saúde no Brasil, levando em consideração o Sistema Único de Saúde (SUS) e as principais dificuldades encontradas principalmente nas periferias geográficas. A acessibilidade aos serviços da medicina tradicional será um tema introdutório para discutirmos, em seguida, a questão dos tratamentos complementares e alternativos utilizados no mundo e que já são expressivos no país, como a acupuntura e os probióticos. Quando a medicina tradicional não supre as demandas das sociedades é possível encontrar os saberes histórico-culturais sendo fortalecidos, como mecanismos para curar os doentes, por meio de rezas e manipulação de ervas medicinais. Esse último é característica marcante em regiões nas quais as tecnologias e os profissionais de saúde não estão presentes, destacando o papel de cura e o papel social executado pelas benzedeiras. TEMA 1 – O CONTEXTO GEOGRÁFICO DA ACESSIBILIDADE AOS SERVIÇOS DE SAÚDE NO BRASIL Para iniciarmos nossa discussão precisamos salientar que trataremos primeiro de ferramentas utilizadas para medir a acessibilidade aos serviços de saúde, sendo necessário frisar que são as técnicas e os dados coletados que determinarão o grau de dificuldade e aplicabilidade dos estudos e que estes deverão ser adaptados para as realidades locais. Duas maneiras de medir a acessibilidade levam em consideração a distância até os provedores dos serviços. A primeira é a “Acessibilidade Real”, que ocorre por meio do registro quantitativo de pacientes em determinada unidade de saúde, sendo definido, por exemplo, o período de análise e os tipos de tratamentos fornecidos. A segunda é a “Acessibilidade física potencial” na qual utiliza-se cálculos estatísticos levando em consideração a quantidade de médicos por população ao redor da unidade de saúde serviço (Joseph eBantock, 1982, citado por Ferreira e Raffo, 2012). Outras técnicas que buscam refinar os estudos estão apresentadas no Quadro 1: 3 Quadro 1 – Medidas de acessibilidade aos serviços de saúde A maioria das medidas publicadas de acessibilidade espacial para cuidados de saúde pode ser classificada de forma mais simples em quatro categorias: relações provedor-para- população, distância para o provedor mais próximo, distância média para um conjunto de provedores e modelos gravitacionais de influência do provedor. • Relações provedor-para-população, também chamadas de proporções de oferta, são calculadas dentro das áreas fronteiriças. Eles são o tipo mais populares de medida de acessibilidade espacial porque são altamente intuitivos, as fontes de dados estão prontamente disponíveis e não requerem necessariamente ferramentas e conhecimentos de GIS. Eles também são o tipo de medida que tem sido usado na literatura sentinela sobre condições sensíveis à atenção ambulatorial (ACSCs). As taxas são calculadas para áreas fronteiriças, como estados, condados, áreas estatísticas metropolitanas ou áreas de serviços de saúde. Estas são as unidades geográficas de análise. O numerador é algum indicador da capacidade do serviço de saúde, como número de médicos, clínicas ou leitos hospitalares. O denominador é o tamanho da população na área. • Distância para o provedor mais próximo é outra medida de acessibilidade espacial muito intuitiva e comumente usada. É normalmente medido a partir da residência de um paciente ou de um centro populacional, como o centroide geométrico do condado de residência, dependendo da resolução dos dados disponíveis. O custo de viagem, é frequentemente medido em unidades de distância euclidiana (linha reta), distância de viagem ao longo de uma rodovia e/ou sistema ferroviário ou tempo estimado de viagem por meio de uma rede de transporte. • Distância média para um conjunto de provedores é intrigante porque é uma medida combinada de acessibilidade e disponibilidade. Ela também é medida a partir de qualquer paciente ou ponto de interesse da população. A partir desse ponto, o custo de viagem para todos os provedores dentro de um sistema é somado e calculado a média. O "sistema" pode ser uma cidade ou condado. • Modelos gravitacionais de influência do provedor também são um indicador combinado de acessibilidade e disponibilidade. Uma versão modificada da Lei da Gravitação de Newton, eles foram desenvolvidos inicialmente para prever viagens de varejo e ajudar no planejamento do uso da terra. Eles podem fornecer as medidas mais válidas de acessibilidade espacial, seja o cenário urbano ou rural. Os modelos de gravidade tentam representar a interação potencial entre qualquer ponto de população e todos os pontos de serviço dentro de uma distância razoável, descontando o potencial com o aumento da distância ou custo de viagem. Fonte: Guagliardo, 2004, p. 4-5, tradução nossa. 4 Para iniciarmos nossa discussão sobre a acessibilidade aos serviços de saúde no Brasil é necessário questionar alguns processos históricos, culturais e de planejamento urbano, pois diferentes autores desenvolveram técnicas para mensurar o acesso da população, mas que foram utilizados em países distintos. No Brasil, muitos destes processos interferem na acessibilidade aos serviços de saúde. Os últimos dados oficiais sobre a população brasileira datam do ano de 2010 e já foram amplamente utilizados para caracterizar a estrutura da população e elaboração de índices de desenvolvimento humano. O fato é que se trata de um país com altos índices de desigualdade socioambiental e com graves problemas urbanos, como falta de saneamento básico em áreas periféricas das cidades (mesmo aquelas situadas nas regiões mais desenvolvidas do país). Outro fato relevante se refere ao nível de instrução da população. Bairros periféricos tendem a fornecer menores condições de educação pública. A educação é um dado essencial nos cuidados de saúde, pois quanto maior o nível de instrução, maior serão os cuidados com a saúde. A questão cultural, de uma história recente, na qual a figura masculina era considerada forte, interfere na aderência dos homens com os cuidados de saúde. Doenças como a dengue e a Zika, por exemplo, possuem registro oficial predominantemente em mulheres, mas justificado pela busca delas aos serviços de saúde pública e registro da doença. Desta maneira, a cultura se torna uma barreira ao acesso aos serviços de saúde. Uma característica marcante nas cidades brasileiras, sobretudo as grandes, é a presença de um sistema de transporte público deficitário e que, em muitas vezes, não tem o alcance de toda a cidade. Logo, ao estudarmos sobre a acessibilidade aos serviços de saúde será necessário compreender a dinâmica de mobilidade urbana. Analisar a mobilidade urbana deverá levar em consideração a relação centro-periferia que determinará os investimentos em infraestrutura urbana. Não devemos encarar esses fatos como prejudiciais aos estudos, apenas precisamos ter em mente que as características locais precisam fornecer elementos que aprimorem as análises (o que vale para muitos tipos de estudos geográficos). A renda e o IDH também são indicadores utilizados para caracterizar populações e, desta maneira, relacionar com a acessibilidade aos serviços de 5 saúde. Este fato nos ajuda fechar nosso texto e refletirmos sobre a contradição que existe nos serviços de saúde do país. No geral, os bairros com populações de menor poder aquisitivo dispõem de menor infraestrutura de transporte e equipamentos urbanos, devido a desigualdade dos investimentos públicos nesses locais. Os serviços de saúde também são afetados por esta dinâmica e, em muitos casos, são insuficientes. A população com maior poder aquisitivo tem acesso aos planos de saúdeprivados. A contradição existe pelo fato dos locais onde existe a maior necessidade de investimento público serem aqueles onde permaneçam as maiores fragilidades socioambientais. Os estudos geográficos sobre a acessibilidade aos serviços de saúde são essenciais para o planejamento das ações que levem em consideração a realidade local. TEMA 2 – MEDICINA COMPLEMENTAR E ALTERNATIVA – CONCEITO A problemática da acessibilidade aos serviços de saúde nos direciona para outro campo de estudo que se refere à medicina não científica, amplamente utilizada desde os primórdios das civilizações. Parte dos conhecimentos milenares deram embasamento para a medicina tradicional, demonstrando-se a importância das práticas alternativas. Neste texto trabalharemos apenas a questão conceitual, levando em consideração estudos internacionais do começo deste século e as novas nomenclaturas apresentadas no final da década de 2010. O primeiro conceito que abordaremos é o de Medicina Complementar e Alternativa (CAM, na sigla em inglês): Tem havido muitos debates em torno de uma única definição de medicina complementar e alternativa (CAM), mas nenhum foi conclusivo. Considerando a diversidade das modalidades de CAM, as definições de CAM na literatura atual são inconsistentes e variam significativamente em diferentes contextos sociais. O termo “medicina complementar e alternativa” e sua forma abreviada, “CAM”, são os termos mais comumente usados na literatura. “Complementar” geralmente significa que tal medicamento (incluindo terapias e produtos) está sendo usado além da medicina ocidental convencional. “Alternativa” implica que está sendo usado de forma independente. Outros termos são amplamente difundidos e usados alternadamente para descrever o CAM. Eles incluem: medicina tradicional, oriental, holística, não convencional, não convencional, não ortodoxa, essencial e não comprovada. (Zhang, 2006, p. 15) 6 São diferentes abordagens que são consideradas CAM e que foram classificadas pelo Centro Nacional de Medicina Complementar e Alternativa (NCCAM, na sigla em inglês): Quadro 2 – Abordagens de Medicina Complementar e Alternativa Sistemas Médicos Alternativos - Medicina Homeopática: lei dos semelhantes. - Medicina Naturopática: cura pela natureza - Medicina Chinesa Tradicional: tradição milenar - Medicina Ayurvédica: tradicional na Índia Intervenções mente-corpo - Meditação, oração, cura mental e terapias que usam atividades criativas, como arte, música ou dança. Terapias baseadas em Biologia Suplementos dietéticos: vitaminas, minerais, ervas ou outros produtos botânicos, aminoácidos e substâncias, tais como enzimas, tecidos de órgãos e metabolitos. Métodos corporais Quiropraxia (músculo e coluna); Osteopática (articulações; fisioterapia); Massagem. Terapias Energéticas Qigong, reiki, toque terapêutico, campos pulsados e campos magnéticos. Fonte: Zhang, 2006, p. 19. Essas discussões sobre a medicina complementar foram aprimoradas, e, na atualidade, a OMS utiliza a denominação “medicinas tradicionais, complementares e integrativas – MTCI”. As medicinas tradicionais, complementares e integrativas (MTCI) – denominação utilizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – se refere à um amplo conjunto de práticas de atenção à saúde baseado em teorias e experiências de diferentes culturas utilizadas para promoção da saúde, prevenção e recuperação, levando em consideração o ser integral em todas as suas dimensões. As MTCI constituem importante modelo de cuidado à saúde, sendo em muitos países a principal oferta de serviços à população. Em outros países, a forma de inserção nos sistemas de saúde acontece de forma complementar ao sistema convencional. (OPAS, 2021, s/p) A inclusão do termo “integrativas” ocorreu a partir do ano de 2017: 7 Em meados de 2017, a unidade técnica de Medicina Tradicional e Complementar da OMS adicionou o termo “Medicina Integrativa” para abordagens integrativas de MTCI e medicina convencional em relação a políticas, conhecimentos e prática. Um projeto está em andamento para definir e melhor compreender essa integração, assim como a medicina integrativa, e fornecer orientação aos Estados Membros sobre os critérios e elementos das melhores práticas para integrar as MTCI nos sistemas de saúde nacionais. Os cuidados de saúde integrativos muitas vezes reúnem abordagens convencionais e complementares de forma coordenada. Enfatizam uma abordagem holística e focada no paciente para cuidados de saúde e bem-estar – muitas vezes incluindo aspectos mentais, emocionais, funcionais, espirituais, sociais e comunitários – e tratam a pessoa como um todo e não só sua condição/doença isolada. (OPAS, 2021, s/p) No Brasil, as práticas alternativas integrativas são realidade na maior parte das unidades de saúde do país. O principal documento normativo sobre o assunto foi publicado no ano de 2015 e apresenta a “Política Nacional de práticas integrativas e complementares no SUS (PNPIC)”. Desde o ano de 2006 foram sendo incorporados diferentes tratamentos, que na atualidade totalizam 29 procedimentos: Acupuntura; Homeopatia; Fitoterapia; Antroposofia; Termalismo; Arteterapia; Ayurveda; Biodança; Dança circular; Meditação; Musicoterapia; Naturoterapia; Osteopatia; Quiropraxia; Reflexoterapia; Reiki; Shantala; Terapia comunitária integrativa; Ioga; Apiterapia; Aromaterapia; Bioenergética; Constelação familiar; Cromoterapia; Geoterapia; Hipnoterapia; Imposição de mãos; Ozonioterapia; Terapia de florais. No próximo tópico selecionaremos alguns dos tratamentos mais utilizados. TEMA 3 – MEDICINA COMPLEMENTAR E ALTERNATIVA - EXEMPLOS Neste tópico serão apresentados alguns exemplos de tratamentos disponíveis no SUS e classificados como alternativos integrativos retirados do documento “Política Nacional de práticas integrativas e complementares no SUS” (PNPIC). 8 Quadro 3 – Exemplos Acupuntura Figura 1 – Linhas Vitais Créditos: Bjoern Wylezich/Shutterstock A acupuntura é uma tecnologia de intervenção em saúde que aborda de modo integral e dinâmico o processo saúde-doença no ser humano, podendo ser usada isolada ou de forma integrada com outros recursos terapêuticos. Originária da medicina tradicional chinesa (MTC), a acupuntura compreende um conjunto de procedimentos que permitem o estímulo preciso de locais anatômicos definidos por meio da inserção de agulhas filiformes metálicas para promoção, manutenção e recuperação da saúde, bem como para prevenção de agravos e doenças. Homeopatia Figura 2 – Almofariz 9 Créditos: Microgen/Shutterstock A homeopatia, sistema médico complexo de caráter holístico, é baseada no princípio vitalista e no uso da lei dos semelhantes, enunciada por Hipócrates no século IV a.C. Foi desenvolvida por Samuel Hahnemann no século XVIII. Após estudos e reflexões baseados na observação clínica e em experimentos realizados na época, Hahnemann sistematizou os princípios filosóficos e doutrinários da homeopatia em suas obras Organon da Arte de Curar e Doenças Crônicas. (continua) 10 (quadro 3: continuação) Plantas Medicinais e Fitoterapia Figura 3 – Plantas Medicinais Créditos: istetiana/Shutterstock A fitoterapia é uma “terapêutica caracterizada pelo uso de plantas medicinais em suas diferentes formas farmacêuticas, sem a utilização de substâncias ativas isoladas, ainda que de origem vegetal”. O uso de plantas medicinais na arte de curar é uma forma de tratamento de origens muito antigas, relacionada aos primórdios da medicina e fundamentada no acúmulo de informações por sucessivas gerações. Ao longo dos séculos, produtos de origem vegetal constituíram as bases para tratamento de diferentes doenças. Termalismo Social/Crenoterapia O uso das águas minerais para tratamento de saúde é um procedimento dos mais antigos,utilizado desde a época do Império Grego. Foi descrita por Heródoto (450 a.C.), autor da primeira publicação científica termal. O termalismo compreende as diferentes maneiras de utilização da água mineral e sua aplicação em tratamentos de saúde. Medicina Antroposófica A medicina antroposófica (MA) foi introduzida no Brasil há aproximadamente 60 anos e apresenta-se como abordagem médico-terapêutica complementar, de base vitalista, cujo modelo de atenção está organizado de maneira transdisciplinar, buscando a integralidade do cuidado em saúde. [...] (continua) 11 (quadro 3: conclusão) [...] Entre os recursos que acompanham a abordagem médica, destaca-se o uso de medicamentos baseados na homeopatia, fitoterapia e outros específicos da medicina antroposófica. Integrada ao trabalho médico está prevista a atuação de outros profissionais da área da Saúde, de acordo com as especificidades de cada categoria. Fonte: Brasil, 2015, p. 19-27. As atividades listadas estão presentes na rotina dos profissionais de saúde da rede pública do Brasil e são incorporadas como complemento de tratamentos. A inclusão destas atividades demonstra a preocupação em utilizar diferentes tratamentos que buscam a manutenção da saúde. No entanto, conforme evidenciamos anteriormente, a utilização dos tratamentos alternativos está relacionada a diferentes fatores, de ordem socioeconômica e cultural. Os geógrafos poderão utilizar dados sobre a acessibilidade aos serviços para analisar características locais, como padrão de uso, período do ano com mais procura, relação entre centro e periferia e os tratamentos alternativos. TEMA 4 – OS SABERES HISTÓRICO-CULTURAIS E O TRATAMENTO DE DOENÇAS NO BRASIL Para iniciarmos a discussão sobre os saberes histórico-culturais, são feitas algumas provocações: De onde vem os medicamentos? Quando e com quais processos foram estabelecidos os tratamentos com soluções ou comprimidos? Se a medicina científica atual é resultante das últimas revoluções tecnológicas, como as pessoas curavam as doenças na antiguidade? Parte destas questões já foram respondidas no decorrer de nossa disciplina, porém, passaremos a reforçar alguns processos históricos. Este assunto é confortável, por sempre utilizar nas aulas sobre o conhecimento científico e os métodos para produção e averiguação dos resultados. Você deve ter em sua casa diferentes produtos que possuem extratos de plantas, por exemplo, e que são utilizados com diferentes finalidades, desde medicamentos até produtos de higiene, por exemplo. Todos decorrentes da história da humanidade e da manipulação dos recursos naturais. Desta maneira, é necessário falarmos dos saberes histórico-culturais e da relação com o processo de colonização do Brasil. Estudamos em diferentes 12 disciplinas geográficas sobre os impactados da colonização portuguesa no meio ambiente, das imposições religiosas e culturais (modo de vida) e na dinâmica econômica. Nas questões de saúde, é importante reforçarmos o aspecto do homem branco encontrar um ambiente com características distintas da realidade de Portugal e com a transmissão de doenças ainda não conhecidas por eles. O conhecimento sobre essas doenças só foi possível com o contato dos nativos e aprendizado das experiências por eles vividas, mas ainda insuficientes para a produção dos medicamentos, visando o bem-estar dos colonizadores. Os médicos portugueses encontraram respostas por meio de curandeiros, pajés e rezadeiras, que atuavam no tratamento dos doentes. A chegada do homem branco ao território do Brasil atual não significou substituição das práticas de cura, pois, além da resistência dos nativos em relação aos colonizadores e vice-versa, existiam locais onde os medicamentos importados de Portugal não eram acessíveis. Logo, os tratamentos alternativos empregados pelos curandeiros se fortaleceram e ainda permanecem utilizados em diferentes contextos. Além disso, os saberes dos indígenas auxiliavam os médicos e os jesuítas no tratamento das doenças: O crescente emprego da farmacopeia indígena na cura de determinadas doenças, não só ampliou as possibilidades terapêuticas dos missionários, como reduziu significativamente o caráter depreciativo atribuído às práticas indígenas – quando, como se pode prever, esta não era utilizada pelos nativos, mas sim pelos religiosos. Um dos mais conhecidos compostos jesuíticos da época é a triaga brasílica, cuja fórmula manteve-se em segredo até a expulsão da Ordem da colônia. Diversas são as notícias de suas contribuições no mapeamento de plantas e no desenvolvimento de receitas úteis aos médicos, a exemplo da herva de cobra, por eles beneficiada e extremamente eficaz no combate aos efeitos das picadas do animal, como salientou o botânico Bernardino Antônio Gomes: “por meio deste remédio nenhum morria, ainda que já estivesse inchado, com ânsias, e deitando sangue por toda a parte”. Além da feitura e distribuição de fórmulas como a triaga, os religiosos das mais diversas ordens foram responsáveis pela criação e manutenção das Santas Casas de Misericórdia, instituições “especialmente recomendadas pela Coroa portuguesa” e propagadas por todo Ultramar. (Viotti, 2012, p. 18) Desta maneira fica evidente a importância dos saberes histórico-culturais nos períodos de colonização do país. Além disso, devemos ter em mente que a chegada dos africanos incorporou novas dinâmicas culturais, sobretudo para a cura das doenças: Com a chegada dos africanos ao Brasil a partir do tráfico de escravos, outros diversos elementos místicos foram introduzidos no conjunto das práticas da Medicina Tradicional no período da colonização do Brasil, exercendo sua influência não apenas nos indígenas, mas também nos 13 próprios europeus, que utilizavam as tradições e, em algumas circunstâncias, valiam-se dos rituais vindos da África e incorporados à cultura brasileira. (Barbosa et. al., 2016, p. 73) Temos, portanto, as culturas dos indígenas e povos tradicionais, mais a influência religiosa e medicina dos colonizadores portugueses e as culturas dos africanos que foram escravizados no Brasil Colônia, formando um complexo diversificado de práticas de cuidados de saúde. Todos foram importantes na configuração das práticas de saúde e representam o arcabouço histórico do trato das doenças no país: As curas empregadas pelos africanos abrangiam as chamadas “moléstias do corpo”, entendidas como “quebranto”, feridas diversas, “lombrigas”, “sezões”, entre outras e as “moléstias da alma”, que – pelo que se entendia - eram causadas por feitiços. Era comum, portanto, a prática de rezas, de benzeduras e de rituais para restabelecer a saúde do enfermo. (Edler, 2010, citado por Barbosa et. al., 2016, p. 73) No entanto, os africanos não se detinham apenas às tradições ligadas ao sobrenatural, pois utilizavam plantas e animais nos processos de cura. O uso de animais não era rotina apenas brasileira e está enraizada no processo de cura de outras sociedades. Um exemplo consiste nas terras altas do Equador. Curandeiros daquela região utilizavam diferentes objetos, como ovos, água benta, crânio de cachorro e porquinho-da-índia, em diferentes processos para diagnosticar e curar os doentes. O porquinho-da-índia, por exemplo, era utilizado para diagnosticar problemas do coração, fígado, pulmão e estômago, no qual o curandeiro esfregava o animal no corpo do doente (processo de fricção) (Cavander e Albán, 2009, citados por Oliveira e Costa Júnior, 2011). Mediante os exemplos apresentados buscamos apresentar e ilustrar a importância dos saberes históricos culturais nos cuidados de saúde. Assim, para finalizamos esta aula, daremos maior ênfase ao contexto religioso e o curandeirismo no Brasil no próximo tópico. TEMA 5 – O CURANDEIRISMO NO BRASIL Para abordarmos a questão do curandeirismo no Brasil é necessário retomarmosà reflexão sobre os processos de cura e as realidades locais. Este fato foi frisado ao falarmos sobre os tratamentos alternativos, porém, também se refere aos processos de cura a partir da bendição ou oração. Logo, vamos tratar da relação entre o religioso, as benzedeiras e o contexto geográfico. 14 Primeiramente, é importante relacionarmos o ato da bendição com os preceitos religiosos. Segundo Morais (2016), a bendição consiste em prática relacionada com a Igreja Católica e com o poder de Deus se manifestando para curar pessoas doentes; nesse sentido, a benzedeira é um agente condutor da cura que, só poderá ocorrer se o doente também acreditar (fé) que as orações irão curá-los. O curandeirismo, no entanto, não é prática única com a bendição e, desta maneira, são executadas por diferentes povos, como os indígenas, por exemplo. As benzedeiras estão presentes em todos os locais do país, até mesmo nos centros urbanos e, geralmente, sua clientela advém da propaganda de pacientes anteriores, a famosa divulgação "boca a boca". São mulheres pobres, mães e casadas e que por meio das orações ajudam os doentes; além disso, a prática da rezação é sem custos para o paciente. Também praticam as simpatias para tratar diferentes problemas, e utilizando materiais como: "ramos verdes, gestos em cruz feitos com a mão direita, agulha, linha e pano" (Santos, 2009, p. 13). Outra característica importante consiste no próprio ritual de bendição executado pelas benzedeiras que, mesmo sendo atrelado à Igreja Católica, não segue padrões de rituais da igreja. Segundo Santos (2009), as benzedeiras possuem maior expressividade na região Nordeste do país; esse fato se justifica pelo acesso a urbanização e várias regiões do Nordeste não possuírem serviços de saúde. Este fato é relevante para nossa discussão, pois apresenta elementos geográficos essenciais no entendimento dos processos de cura em diferentes populações. Diferentes pesquisadores têm estudado aspectos do curandeirismo por diferentes regiões brasileiras e destacando práticas que variam da bendição ao uso de animais nos processos de cura. Agora, passaremos a verificar alguns exemplos dessas práticas. Na região da Serra das Almas, no estado do Paraná, existem benzedeiras atuando na cura dos doentes desde séculos passados. Um exemplo interessante executado na região consiste no uso de mel ou vinagre para tratar verminoses; o mel é esfregado três vezes do joelho até o pé do doente, na frente da perna e atrás e, em seguida, é oferecido o chá amargo, que deverá ser ingerido. Esse é um exemplo de simpatia, e o contexto histórico e geográfico que deu origem ao tratamento pode ser explorado por geógrafos da saúde (Floriani, et al., 2016). 15 Em outro estudo sobre o curandeirismo na cidade de Campinas-SP, foram encontradas diferentes práticas, conforme quadro abaixo: Quadro 4 – Domínios religiosos para a prática da benzeção em Campinas-SP a) Benzeção católica: O rezador identifica-se como adepto do catolicismo e, assim, os frequentadores de seus serviços o indicam. Caracteriza-se basicamente por professar a fé nos santos do catolicismo, na evocação da Santíssima Trindade e pela ausência de possessão mediúnica. Realizada em ambiente domiciliar, não reservado ao cliente, de modo que pode ser presenciada por todos. Geralmente não cobram retribuições ou a cobrança é implícita. b) Corrente católica: Os clientes indicam a benzeção como espírita, mas o benzedor se identifica como católico. Ocorre a evocação aos guias ou médicos espirituais que são incorporados na possessão. A cobrança é ainda menos implícita que a da católica. É utilizada uma sala reservada e caracterizada para a bênção do cliente. c) Kardecista: Professa o espiritismo kardecista como elemento coordenador da bênção. O agente do benzimento é possuído por espíritos, chamados guias, as mesmas da corrente católica. Existe espaço destinado e restrito ao beneficiado pelo serviço. A cobrança é explícita. d) Crente: Regida pela fé cristã e a Trindade. Vale-se de elementos típicos do universo evangélico: a imposição de Bíblias e óleo para unção. Existe a cobrança e local específico para o procedimento. e) Umbandista: Como na benzeção kardecista, e, na corrente católica, ocorre a possessão mediúnica pelas entidades, porém, estas, são as consagradas do culto umbandista e não os guias médicos. Cobra pelo serviço feito, com valores fixos e também executa trabalhos e demandas típicas da religião afro- brasileira, responsáveis pela ambiguidade e repulsa com que são vistas as práticas de qualquer ato relacionado a este culto. Pode realizar tarefas associadas ao esoterismo como leitura de mão, astrológicas e cartomancia. (continua) 16 (quadro 4: conclusão) f) Esotérica: Do mesmo modo que a corrente católica, apresenta um caráter intermediário entre o católico e o espírita. Não ocorrem as possessões, o agente só necessita de um esforço de concentração. Realiza trabalhos de quiromancia, cartomancia e contra feitiços. Cobra pelos serviços com taxas estabelecidas. Fonte: Oliveira, 1983, citado por Araújo, 2011, p. 84-85 Apesar dos resultados apresentados no Quadro 4 datarem de estudo de 1983, Araújo (2011) afirma que estas práticas ainda ocorrem na cidade. Nos deslocando da região Sudeste, passaremos a falar da região Norte do país, mais precisamente, sobre as práticas de curas executadas em populações ribeirinhas na Amazônia. Antes de destacarmos as práticas de cura é essencial pensarmos no contexto geográfico da Amazônia e sua biodiversidade, resultando em diferentes discussões sobre a exploração econômica daqueles recursos naturais. Comunidades locais vivem em constante preocupação devido as intrusões na região, buscando explorar os recursos naturais, como ouro, madeira, plantas e animais. Morais (2016) elaborou um estudo sobre o curandeirismo a partir de ervas e animais executados em Nazaré-RO, identificando-se nele diferentes práticas utilizadas por populações ribeirinhas. Dentre elas, destaca-se o uso de partes de animais para curar doenças respiratórias, circulatórias e cardíacas, reumatismo, dores em diferentes partes do corpo e doenças relacionadas ao útero (Morais, 2016). É importante mencionarmos que o curandeirismo é expressado por figuras importantes nas comunidades, representado pelas benzedeiras, curandeiros ou outros morados que se destacam no local. Este fato é ilustrativo na Comunidade Remanescente de Quilombolas (CRQ) de Palmital dos Pretos, no estado do Paraná, no qual identificou-se o papel de liderança das benzedeiras, destacando-se como líderes comunitárias. Naquele local, ocorre uma medicina baseada na “cosmo-medicina-religiosa” e executada estritamente por mulheres. A benzedeiras atuam para realizar a “costura” (apropriando-se do termo da medicina vernacular) simbólica entre o passado e o presente, reafirmando assim os laços de solidariedade e reciprocidade social entre territórios tradicionais” (Floriani et al., 2016, p. 333). 17 Os exemplos apresentados servem apenas para introduzir a discussão sobre o curandeirismo no Brasil. Existem muitas práticas e contextos geográficos que ainda não foram estudadas por geógrafos e que poderão subsidiar políticas públicas que permitam a manutenção das práticas alternativas. NA PRÁTICA Pesquise em sua cidade quais são as principais dificuldades que podem ser encontradas na acessibilidade aos serviços de saúde (desde o transporte, até estrutura física dos locais de atendimento à população). FINALIZANDO Nesta aula estudamos sobre o contexto da acessibilidade aos serviços de saúde no país, demonstrando que existe uma relação direta entre recursos tecnológicos e oferta/demanda por profissionais de saúde nas regiões mais periféricas do país. Além disso, estudamos sobre os CAM, técnicas diferenciadaspara tratar doenças, mais enraizadas na Europa, mas que já estão adquirindo espaço no mercado nacional, possuindo públicos diferenciados. Outra característica dos tratamentos alternativos consiste nos saberes histórico-culturais, com uso da fé e orações, via curandeiros e benzedeiras, que estão presente em todo o território nacional, mas em maior número nas regiões periféricas e com serviços de saúde precários. Sendo assim, ao analisar o viés do acesso aos serviços de saúde constatamos como as questões históricas e culturais são essenciais para a compreensão dos diversos mecanismos de cura existentes no país. 18 REFERÊNCIAS ARAÚJO, F. L. Representações de Doença e Cura no Contexto da Prática Popular da Medicina: Estudo de caso sobre uma benzedeira. CAOS – Revista Eletrônica de Ciências Sociais, n. 18, setembro de 2011, p. 81-97. BARBOSA, M. O.; LEMOS, I. C. S.; KERNTOPF, M. R.; FERNANDES, G. P. A Prática da Medicina Tradicional no Brasil: um resgate histórico dos tempos coloniais. Revista Interdisciplinar de Estudos em Saúde, 2016. p. 65-77. BRASIL. 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