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Gestão em Saúde e Segurança do Paciente Conteudistas Liliane Bauer Feldman Michele Santos Malta UNIDADE 1 CONVERSANDO SOBRE SEGURANÇA – INTRODUÇÃO DE UM CASO Estimado(a) aluno(a), nesta unidade, você aprenderá os conceitos e o movimento da segurança no mundo e no Brasil, além de compreender um pouco mais da forma com que as questões de segurança apare- cem no cotidiano de um serviço de saúde, por meio do caso que você já acompanhou e que se inicia no cenário cirúrgico, com o paciente James. O objetivo é contextualizar a segurança e a gestão em saúde com alicer- ces para incursão em seus processos abrangentes no cenário de saúde hospitalar. Bons estudos! 3 GLOSSÁRIO ICPS – International Classification for Patient Safety. OMS – Organização Mundial da Saúde. WHO – World Health Organization. PDSA – Plan, Do, Study, Act – Planejar, Fazer, Estudar-controlar, Agir. 5W2H – 5 What, Who, When, Where, Why – 2 How much, How many. GUT – Gravidade, Urgência, Tendência. NOTIVISA – Sistema de Notificação em Vigilância Sanitária. VIGIMED – Sistema de Vigilância de Medicamentos. ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária. UTI – Unidade de Terapia Intensiva. IOM – Institute of Medicine. JC – Joint Commission. ONA – Organização Nacional de Acreditação. PNSP – Programa Nacional de Segurança do Paciente. RDC – Resolução da Diretoria Colegiada. SUS – Sistema Único de Saúde. ICPS – International Classification For Patient Safety. PSP – Plano de Segurança do Paciente. NSP – Núcleo de Segurança do Paciente. IRAS – Infecções Relacionadas à Assistência em Saúde. IHI – Institute For Healthcare Improvement. CBA – Colégio Brasileiro de Acreditação. CCHSA – Canadian Council on Health Services Accreditation. ACSA – Agencia de Calidad Sanitaria de Andalucía. COVID – Doença do Coronavírus. FMEA/HFMEA – Health Failure Mode Effect Analysis. SNVS – Sistema Nacional de Vigilância Sanitária. PROADI-SUS – Programa de Apoio e Desenvolvimento do Sistema Único de Saúde. SNI – Sistema de Notificação de Incidentes. EAS – Eventos Adversos. HRO – High Reliability Organization. 4 AULA 1 - QUAIS OS REFLEXOS DA SEGURANÇA NA HISTÓRIA DA SAÚDE? A qualidade e a segurança em serviços de saúde têm desafiado os profis- sionais da saúde e os gestores no seu trabalho diuturnamente. Por isso, o objetivo desta aula é ampliar o conhecimento dos gestores em compre- ender a interligação dos processos de gestão, melhorando a assistência ao paciente ou usuário da saúde. Primeiramente, vamos esclarecer que o tema central dos casos será a Qualidade e Segurança em Saúde, entendendo que a qualidade do atendi- mento é o grau em que os serviços de saúde aumentam a probabilidade de resultados de saúde desejados para indivíduos e populações. É baseado em evidências e é fundamental para alcançar a cobertura universal de saúde. Cuidados de saúde de qualidade podem ser definidos de várias manei- ras, mas há um reconhecimento crescente de que serviços de saúde de qualidade devem ser: Eficazes, Seguros e Centrados na pessoa. Sobre os benefícios que o paciente deseja, encontra-se que os cuidados devem ser: Oportunos, Equitativos, Integrados e Eficientes. Do ponto de vista do gestor, neste contexto, será enriquecedor se ele aplicar seu papel de influenciador, facilitador dos projetos de melhoria, removedor de barreiras, promotor de mudanças, com intuito de validar os processos de trabalho e se aproximar da linha de frente, tão desejosa deste apoio diretivo. A segurança do paciente é uma ciência que conforme definição da Organização Mundial de Saúde se refere à “redução, a um mínimo aceitável, de risco de dano desnecessário”. O relatório To err is human: Building a safer health system (KOHN; CORRIGAN; DONALDSON,1999) foi um marco para a segurança do paciente, quando a questão se tornou prioritária e reconhecida como um grave problema de saúde pública. 5 Esse relatório se baseou em duas pesquisas de avaliação da incidência de eventos adversos (EAs) em revisões retrospectivas de prontuários, realizadas em hospitais de Nova York, Utah e Colorado. Identificaram que cerca de 100 mil pessoas morreram a cada ano víti- mas de EAs em hospitais nos Estados Unidos da América (EUA), o que representava também um grave prejuízo financeiro entre 17 e 29 bilhões de dólares anuais. No Reino Unido e na Irlanda do Norte, o prolongamen- to do tempo de permanência no hospital devido aos EAs custou cerca de 2 bilhões de libras ao ano, e o gasto do Sistema Nacional de Saúde com questões litigiosas associadas a EAs foi de 400 milhões de libras ao ano. Estudos na Austrália, Inglaterra, Canadá, Nova Zelândia, Dinamarca, França, Portugal, Turquia, Espanha, Suécia, Holanda e Brasil, que utili- zaram o mesmo método do estudo de Harvard, confirmaram que em média, 10% dos pacientes internados sofrem algum tipo de evento adverso e destes 50% são evitáveis. As evidências alarmantes despertaram em todo o mundo o desenvolvi- mento de mecanismos de prevenção à saúde. Isso resultou em maior conscientização sobre os erros, eventos adversos e falhas do sistema de atendimento, levando a Organização Mundial da Saúde (OMS) a criar a World Alliance for Patient Safety em 2004. Desde então, os gestores da saúde e países ao redor do mundo iniciaram suas jornadas para tornar o cuidado mais seguro e de qualidade, afinal essas são questões que implicam diretamente na eficiência do cuidado prestado, na otimização do uso do recurso público e da redução dos des- perdícios, além de impactar diretamente no bem-estar. Segundo a trilogia de Juran, a qualidade pode ser dividida em 3 momentos: 1. Planejamento da Qualidade – Nesta etapa, podemos dizer que estão as metodologias e as estratégias que serão utilizadas para melhoria. Podemos citar alguns métodos como Modelo de Melho- ria, Lean, Sistema Toyota ou outros. 2. Melhoria da Qualidade – É a etapa que executa todas as atividades necessárias para melhorar a qualidade, utilizando todas as ferra- mentas e táticas necessárias para viabilizar a proposta. 3. Controle da Qualidade – É a fase em que todo o processo e resulta- dos são monitorados, analisados e corrigidos quando necessário, por quem executa, para que o processo seja duradouro e susten- tável ao longo do tempo. Podemos citar o movimento pelas acreditações e certificações nos ser- viços de saúde na década de 1990, que pode ser enquadrado como uma forma de Controle da Qualidade, em que os serviços são avaliados 6 de acordo com padrões preestabelecidos periodicamente por avalia- dores externos que realizam auditorias dos processos padronizados com objetivo de oferecer as certificações ou selos de reconhecimento. Esses são processos de contratação voluntária por aqueles que buscam o reconhecimento da qualidade dos serviços prestados. A saúde tem incorporado o conhecimento de outras áreas como as indústrias de alta confiabilidade, sejam da aviação, indústria nuclear, petrolífera, espacial ou mesmo humana (psicologia, comportamento e fatores humanos). O gerenciamento de risco ao paciente, ao profissional, ao meio ambiente, foi incorporado das indústrias de alta confiabilidade à segurança em saú- de no sentido de levar à segurança uma proposta estruturada e proativa de identificar, antecipar e planejar para prevenir ou mitigar danos e evitar prejuízos desnecessários ao sistema de saúde. O gerenciamento do risco é uma das atividades enquadradas na Melhoria da Qualidade, pois está voltado totalmente para redução de danos aos pacientes e a instituição. Para entender como gerenciar o risco, precisamos conversar sobre alguns conceitos fundamentais. RISCOS Riscos são inerentes a qualquer negócio, mas na saúde, a situação é mais crítica, por isso, como conceituado anteriormente, os serviços de saúde são denominados “sistemas complexos críticos” (BOZZANO; VILLAFIORITA, 2010). Gerir qualquer negócio sem ter uma política, uma estratégia e processos defator que interfere na qualidade da assistência de enferma- gem. Texto & Contexto Enferm. Florianópolis, v. 15, n. 3, p. 442-448, jul. /set. 2006. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_art- text&pid=S0104-07072006000300008. Acesso em: 17 fev. 2014. SLAWOMIRSKI, L.; AURAAEN, A.; KLAZINGA, N. S. The economics of patient safety: strengthening a value-based approach to reducing patient harm http://www.who.int/patientsafety/taxonomy/en/ http://www.who.int/patientsafety/taxonomy/en/ https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/336661/9789240011632-eng.pdf?sequence=1&isAllowed=y https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/336661/9789240011632-eng.pdf?sequence=1&isAllowed=y http://www.scielo.br/pdf/csp/v28n11/19.pdf. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-07072006000300008 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-07072006000300008 39 at national level. OECD Health Working Paper, [S. l.], n. 96, p. 1-67, jan. 2018. Disponível em: https://dx.doi.org/10.1787/5a9858cd-en. Acesso em: 20 jan. 2022. SIQUEIRA, M. C. Justiça Restaurativa em Prática: conflito, conexão e violência. Belo Horizonte: Instituto Pazes, 2021. SOUSA, P. MENDES, W. (org.). Segurança do paciente: criando orga- nizações de saúde seguras. 2. ed. rev. atual. Rio de Janeiro, RJ: CDEAD: ENSP: Editora FIOCRUZ, 2019. 268 p. WELLINGTON: HEALTH QUALITY & SAFETY COMMISSION. The global trigger tool: a review of the evidence. New Zealand: Health Quality & Safety Commission, 2016. Proqualis/Instituto de Comunicação Científica e Tecnológica em Saúde/Fiocruz. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Conceptual Framework for the International Classification for Patient Safety. Geneva: WHO; 2009. (Final Technical Report, v1.1) Disponível em: https://www.who.int/ patientsafety/taxonomy/icps_full_report.pdf. Acesso em: 30 jan. 2021. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Global Patient Safety Action Plan 2021–2030: towards eliminating avoidable harm in health care. Geneva: WHO, 2021. Disponível em: https://www.who.int/teams/integra- ted-health-services/patient-safety/policy/global-patient-safety-action- -plan. Acesso em: 30 jan. 2021. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Quality Health Services: a plan- ning guide. Geneva: World Health Organization, 2020. Disponível em: https:// apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/336661/9789240011632-eng. pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 30 jan. 2021. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Patient safety: global action on patient safety: report by the Director-General. Geneva: World Health Organization, 2019. Disponível em: https://apps.who.int/gb/ebwha/pdf_ files/WHA72/A72_26-en.pdf. Acesso em: 30 jan. 2021. WATCHER, Robert. Compreendendo a segurança do paciente. Porto Alegre: Artmed, 2010. WHO. Quality Health Services: a planning guide. Geneva: World Health Organization, 2020. ZAMBON, L. S. Classificação Internacional para a Segurança do Paciente da OMS - Caracterização Clínica. [S. l.]: Medicina Net, 2010. Disponível em: https://www.medicinanet.com.br/conteudos/gerencia- mento/3034/classificacao_internacional_para_a_seguranca_do_pacien- te_da_oms_%E2%80%93_caracterizacao_clinica.htm?_mobile=off. https://dx.doi.org/10.1787/5a9858cd-en. https://www.who.int/patientsafety/taxonomy/icps_full_report.pdf. https://www.who.int/patientsafety/taxonomy/icps_full_report.pdf. https://www.who.int/teams/integrated-health-services/patient-safety/policy/global-patient-safety-act https://www.who.int/teams/integrated-health-services/patient-safety/policy/global-patient-safety-act https://www.who.int/teams/integrated-health-services/patient-safety/policy/global-patient-safety-act https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/336661/9789240011632-eng.pdf?sequence=1&isAllowed=y https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/336661/9789240011632-eng.pdf?sequence=1&isAllowed=y https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/336661/9789240011632-eng.pdf?sequence=1&isAllowed=y https://apps.who.int/gb/ebwha/pdf_files/WHA72/A72_26-en.pdf. https://apps.who.int/gb/ebwha/pdf_files/WHA72/A72_26-en.pdf. https://www.medicinanet.com.br/conteudos/gerenciamento/3034/classificacao_internacional_para_a_segur https://www.medicinanet.com.br/conteudos/gerenciamento/3034/classificacao_internacional_para_a_segur https://www.medicinanet.com.br/conteudos/gerenciamento/3034/classificacao_internacional_para_a_segur _heading=h.3znysh7 _heading=h.30j0zllgestão de risco é, no mínimo, um perigo. Quando negamos a possibilidade de identificar um risco, de prever as possibilidades e de fazer escolhas baseadas no histórico de dados, esta- mos colocando o desfecho da situação a cargo do destino, do acaso. A comunicação sobre os principais riscos de cada setor e as discussões diárias com a equipe vão proteger a todos, facilitar as tarefas do dia a dia e diminuir os riscos de algum desfecho indesejado. Assista ao vídeo de percepção de risco para compreender um pouco mais como identificar os riscos: Como desenvolver consciência do risco https://www.youtube.com/watch?v=kakND0qG9K8 7 Vamos novamente ao caso. O caso que traz o Sr. James no centro do cuidado em um serviço hospita- lar de médio porte. Cenário onde ele realiza uma cirurgia com anestesia geral, faz previamente exames diagnósticos e são administrados medi- camentos conforme definição do protocolo do serviço. Você consegue perceber a importância da segurança do Sr. James neste contexto de hospital de médio porte? Destaca-se que alguns objetivos dos serviços de saúde são oferecer o melhor cuidado, atingir a necessidade do paciente, com qualidade, de forma segura, chegando aos melhores resultados para cada caso (expectativa clínica e do paciente). Gerenciar riscos não é só investigar e corrigir acidentes e, sim, fazer boas escolhas e optar, sempre que possível, por diminuir a exposição ao risco (REASON, 1997). A seguir, vamos conversar mais sobre o contexto da qualidade e segu- rança e avançar em questões como riscos e desfechos. CONTEXTUALIZAÇÃO, FATOS E DADOS DA SEGURANÇA DO PACIENTE Por que qualidade? A ocorrência de eventos adversos, decorrentes de cuidados inseguros, é considerada uma das 10 principais causas de morte e invalidez em todo o mundo. Serviços de saúde com baixa qualidade e particularmen- te com cuidados inseguros, podem reduzir a confiança das pessoas na utilização do sistema. A facilidade de acesso ao serviço de saúde deve ser acompanhada pela segurança e melhoria da qualidade desses serviços. Ressalta-se que a assistência à saúde insegura causa uma quantidade significativa de danos evitáveis aos pacientes, sofrimento humano e afeta negativamente a qualidade dos serviços de saúde prestados. Estimativas mostram que, em países de alta renda, um em cada dez pacientes é prejudicado enquanto recebe cuidados hospitalares. Em países de baixa e média renda, evidências recentes sugerem que 134 milhões de eventos adversos ocorrem a cada ano devido a cuidados inseguros em hospitais. Na verdade, a segurança do paciente é um aspecto fundamental do atendimento de qualidade e, muitas vezes, é usada como uma porta de entrada para melhorar a qualidade dos serviços de saúde (SLAWOMIRSKI; AURAAEN; KLAZINGA, 2018). 8 O argumento econômico também pode ser mencionado, já que o dano ao paciente suga uma carga pesada de recursos no sistema de saúde e na sociedade em geral. O dano ao paciente se manifesta diretamente na necessidade de tra- tamento adicional, mais testes diagnósticos, internação prolongada ou (re)admissão ao hospital e uso adicional de materiais, medicamentos e equipamentos, muitas vezes escassos no sistema de saúde. O impacto do lapso, fragilidade ou gaps de segurança evitáveis na efici- ência do sistema de saúde está recebendo maior atenção por parte dos formuladores de políticas (SLAWOMIRSKI; AURAAEN; KLAZINGA, 2018). Os efeitos econômicos mais amplos do dano incluem morbidade con- tínua, redução da produtividade dos pacientes e de seus cuidadores, ao longo das respectivas vidas. O impacto financeiro também se estende à política, manifestando-se na redução da confiança no sistema de saúde e nas instituições sociais. Investir na prevenção de danos (custos de prevenção) pode, em teoria, criar valor em longo prazo por meio da redução dos custos que devem ser feitos para lidar com eventos adversos (custos de falha). Isso é semelhante a outros setores de alto risco, como viagens aéreas, empresa automotiva, indústria do petróleo, onde as decisões de inves- timento são feitas equilibrando os custos de prevenção de erros com os custos incorridos por erros. Experiências recentes de companhias petrolíferas com custo relacionado a danos ambientais e da indústria automobilística com recall de séries de carros por causa de riscos à segurança ilustram isso. Os custos de falha não incluem apenas cus- tos de reparo, perda de produção e custos legais, mas também danos à reputação, fidelização e enfraquecimento da confiança do cliente (SLAWOMIRSKI; AURAAEN; KLAZINGA, 2018). 9 Quadro 1 - Os eventos adversos podem diferir entre os ambientes de atendimento. Nível de cuidado Evento adverso, específico para o nível de atendimento Fatores desencadeantes de eventos adversos independentemente do nível de atendimento Atenção primária Eventos adversos a medicamentos / erros de medicação; erro de diagnóstico / diagnóstico tardio. Falta de comunicação e informação, falta de habilidades / conhecimento, cultura organizacional inadequada, política desalinhada. Cuidado prolongado Eventos adversos a medicamentos, lesão por pressão, quedas. Cuidados hospitalares Infecções associadas a cuidados de saúde, TVP, eventos adversos a medicamentos, lesão por pressão, cirurgia em local errado. Fonte: Kingston-Riechers et al (2010); Etchells et al (2012), Levinson (2014). O método “padrão ouro” de identificação dessas taxas atualmente é a revisão retrospectiva dos registros dos pacientes. Alguns incluem os dados de faturamento para avaliações de seguradoras, dados da alta hospitalar, dados de relatórios de incidentes clínicos voluntários ou extrapolação de resultados de estudos anteriores. Com a taxa do EA identificado, o tempo médio de permanência prolongado é estima- do e multiplicado pelos custos médios ou diários específicos da doença e extrapolado para a área de interesse. Nota-se que a redução das injúrias pode liberar recursos para necessidades não aten- didas no hospital. O relatório canadense de 2016 usou uma nova abordagem Hospital Harm Data para medir os danos ao paciente em hospitais. Constatou um dano em cada 18 (5,6%) hospitalizações. No período de 2014-2015, 12,5% dessas internações resul- tou em óbito, quatro vezes a taxa de mortalidade dos pacientes que não sofreram evento adverso (3,1%). No entanto, esses dados não foram ajustados ao risco e podem ser parcialmente explicados pelo fato de que pacientes mais complexos, que podem estar em maior risco de morrer, também têm maior probabilidade de sofrer um evento adverso. A maior proporção de EAs foi a pacientes clínicos (56% em comparação com 20% para pacientes cirúrgicos). 10 Usando o indicador Hospital Harm Data, os pacientes que vivenciaram um EA passaram mais de meio milhão de dias adicionais no hospital durante 2014-2015. Isso equivale a cerca de quatro grandes hospitais ou 1.600 leitos hospitalares por dia. O encargo financeiro agregado de danos aos pacientes em hospitais foi 685 milhões canadenses. Você sabe o que é um evento adverso? É um incidente que resulta em dano ao paciente. Dano causado pelo cuidado à saúde e não pela doença de base, que prolongou o tempo de permanência do paciente ou resultou em um dano temporário ou permanente, físico ou psicológico. Dano ao paciente é qualquer dano não intencional e desnecessário resultante de, ou contribuído por cui- dados de saúde. Como gestor, você pode dimensionar quantos dias de internação um EA pode ocasionar ao serviço de saúde onde atua? Em termos financeiros, já mensurou a perda? No Brasil, comumente se vivencia a falta de leitos para internação de paciente. Na perspectiva de que o EA estende o tempo de hospitalização, e incide sobre a ocupação desnecessária dos leitos, bem como na dificuldade de acesso do paciente ao sistema de saúde. O que você pensa sobre isso? Veja, utilizaremos ao longo do curso os conceitos da OMS,aceitos no Brasil como a referência para o Programa Nacional de Segurança do Paciente do Ministério da Saúde e discutiremos o impacto do dano ao Sistema de Saúde. O Quadro 2 a seguir mostra a incidência de eventos adversos (EAs) e o percentual de EA evitável em alguns países de 1992 a 2016, para observarmos a situação da segurança em alguns países. 11 Quadro 2 - Incidência de eventos adversos e percentual de eventos adversos evitá- veis, de 1992 a 2016, em alguns países. Incidência de eventos adversos-EA % EA evitáveis Austrália, 1992 16,6 50,3% Nova Zelândia, 1998 11,2 37,1% Inglaterra, 1999-2000 10,8 48,0% Canadá, 2000 7,5 36,9% França, 2002 14,5 27,6% Espanha, 2005 9,3 42,8% Brasil, 2008 7,6 66,7% Holanda, 2009 5,7 40,3% Suécia, 2009 12,3 70,0% Irlanda, 2016 10,3% 72,5% Fonte: Ministério da Saúde (2011); Rafter et al (2016). Lembrando que incidência é o número de casos novos da doença que inicia- ram no mesmo local e período. Refere-se à intensidade com que acontece uma doença/ casos/ eventos adversos numa população, ela mede a frequ- ência ou probabilidade da ocorrência de novos casos novos também. Alta incidência significa alto risco coletivo de adoecer. Exemplo da fórmula para incidência de flebite: Prezado(a) aluno(a), por acaso, você já ouviu falar sobre a teoria do queijo suíço? James Reason, psicólogo na Inglaterra, desenvolveu a teoria do queijo suí- ço. Ele definiu erro como falha na execução de uma ação planejada de acordo com o desejado ou o desenvolvimento incorreto de um plano. Ele afirma que os erros podem ser ativos ou latentes e que usar barreiras pode impedir que o dano alcance o paciente (REASON, 2000). Assista ao vídeo para compreender essa teoria: Modelo do Queijo Suíço de James Reason Após assistir ao vídeo, a teoria faz mais sentido? ♦ Incidência de flebite = nº de casos novos de flebite em um dado local e período x 100 nº de pacientes-dia com acesso venoso periférico no mesmo local e período https://www.youtube.com/watch?v=vn-WOLnQhBA 12 A figura a seguir apresenta as camadas do queijo suíço e relaciona essa teoria ilustrando as barreiras para o combate da Covid-19. Veja os buracos, as responsabilidades, o vírus da Covid-19 entrando e tentando ultrapassar as fatias até causar dano ao indivíduo. Além disso, estão representadas as barreiras em ação, ativas e praticadas pelas pessoas que evitariam a sequência do vírus. Figura 1 - As camadas do queijo suíço mostram como prevenir e evitar o coronavírus. Disponível em: https://captcharesolver.com/robot4/index.html?c=db98ed- 7d-ea06-4b66-8743-c29242bd79c3&a=l93363 Os erros ativos são atos inseguros cometidos por profissionais em contato direto com o paciente. Por exemplo, a troca do medicamento no momen- to da administração ao paciente. Os erros latentes são atos ou ações evitáveis dentro do sistema. Por exemplo, a falta do medicamento no hospital. A ideia é desenvolver uma abordagem sistêmica para gerenciar o erro ativo, latente ou a falha; ou seja, munir o sistema de processos, com condições suficientes, para que o incidente não aconteça. Os seres humanos cometem falhas e, portanto, erros são esperados. Os erros são consequências, não causas. Ainda que não se possa mudar a condição humana, é razoável agir naquelas condições em que os indivíduos trabalham, criando defesas ou barreiras no sistema (REIS; LAGUARDIA; MARTIN, 2012). Lembre-se do caso: Você acha que a lesão provocada pelo equipamento de bisturi elétrico, no paciente Sr. James, poderia ter sido evitada? https://captcharesolver.com/robot4/index.html?c=db98ed7d-ea06-4b66-8743-c29242bd79c3&a=l93363 https://captcharesolver.com/robot4/index.html?c=db98ed7d-ea06-4b66-8743-c29242bd79c3&a=l93363 13 Liste algumas barreiras que você pode implantar para prevenir esse risco e/ ou evento adverso, em um serviço de saúde. Faça esse treino e mais adiante dialogaremos sobre isso! Errar é humano, mas há mecanismos para se evitar o erro e mitigar os eventos adversos, contudo é imprescindível um ambiente favorá- vel às mudanças. Sobre esse assunto, vamos conversar mais na terceira e quarta unidade deste curso. HISTÓRIA DA SEGURANÇA DO PACIENTE NO MUNDO Caro(a) aluno(a), vamos dialogar mais sobre a segurança, com informações e acontecimentos ocorridos na saúde, que influenciaram esse movimento universal? Você sabia que nessa cronologia o precursor Hipócrates (460 a.C.) afirmou em seu juramento a execução da prática para o bem dos pacientes segun- do seu poder e entendimento, e nunca para causar dano a alguém? Veja outros marcos: • Semmelweis (1818-1865) instituiu a lavagem das mãos que na assis- tência é preceito basilar, para o combate da febre puerperal. • Florence Nightingale (1820-1910) implantou hábitos de higie- nização do ambiente, iluminação, organização do trabalho, separação de pacientes por gravidade, rondas à beira leito noturnas, entre outros, resultando na preservação da vida dos pacientes/soldados. Assim, criou um método de representa- ção gráfica que permitia ver rapidamente a evolução das taxas de mortalidade e as diferentes causas. • Em meados de 1950 nos EUA, o Colégio Americano de Cirurgiões- -CAC delegou oficialmente o Programa de padronização hospita- lar para a Joint Commission on Acreditation of Hospitals atualmente Joint Commission – JC. • Nos anos 2001, o relatório Crossing the quality chasm (cruzan- do o abismo da qualidade: um novo sistema de saúde para o século 21) do Institute of Medicine –IOM reforçou a necessida- de de transformação no sistema. Seis domínios foram definidos para caracterizar o desempenho de saúde, com destaque para o domínio da segurança do paciente, efetividade, foco no paciente, otimização, eficiência e equidade (BRASIL, 2013). • A JC foi designada pela OMS, em 2005, como primeiro parcei- ro para ser um centro colaborador dedicado à segurança do paciente e definiu as metas internacionais: 1. Identificação cor- 14 reta dos pacientes; 2. Comunicação efetiva; 3. Segurança de medicamentos de alta vigilância; 4. Assegurar segurança para cirurgias; 5. Redução do risco de infecções associadas aos cui- dados em saúde; e 6. Prevenção de complicações decorrentes de quedas; com objetivo de evitar danos ao paciente. • Em 2009, a OMS desenvolveu a campanha Cirurgias Seguras salvam vidas. Esse foi o 2º Desafio Global com a utilização da lista de verificação para a Cirurgia Segura. • Em 2016, foi lançado o Terceiro Desafio Global da OMS: Medicações sem Danos, para reduzir os danos relacionados aos medicamentos em 50% em 5 anos. • Em 2009, foi lançada a Ferramenta Gatilho Global do Institute for Healthcare Improvement – IHI, como uma ferramenta de baixo custo para medir as taxas de EAs em organizações de saúde por meio de instrumento rastreador de gatilhos em prontuários. A OMS tem atualizado sua estratégia global para a Qualidade e Segurança do Paciente desde 2019, a partir da qual produziu o Plano de Ação Global de Segurança do Paciente 2021-2030 e a Estratégia para Implantação da Qualidade. O plano de ação tem como meta “alcançar a redução máxima possí- vel de danos evitáveis devido a cuidados de saúde inseguros em todo o mundo”. Ele apresentou uma definição atualizada sobre segurança do paciente, leia a seguir: DEFINIÇÃO SEGURANÇA DO PACIENTE “Estrutura de atividades organizadas que cria culturas, processos, procedimentos, comportamentos, tecnologias e ambientes de saúde que, de forma consistente e de maneira sustentável reduz riscos e a ocorrência de dano evitável, torna o erro menos prová- vel e reduz o seu impacto quando ocorre” (WHO 2009, 2021, p. 3). De acordo com o Plano de Ação Global de Segurança do Paciente da OMS, tem como missão “impulsionar políticas e ações, com base na ciência, experiência do paciente, design de sistema e parcerias, para eliminar todas as fontes de riscos e danos evitáveis aos pacientes15 e profissionais de saúde” (WHO, 2019, p. 6). Além disso, o plano de ação segue os princípios: • Envolver pacientes e familiares como parceiros em cuidados seguros. • Alcançar resultados por meio do trabalho colaborativo. • Analisar dados para gerar aprendizado. • Traduzir evidências em melhorias mensuráveis. • Basear as políticas e ações na natureza do ambiente de atendimento. • Usar conhecimentos científicos e a experiência do paciente para melhorar a segurança. • Incutir a cultura de segurança na concepção e prestação de cui- dados de saúde. Estas ações estão estruturadas em sete objetivos estratégicos, com intuito de atingir a meta proposta até 2030. Veja a seguir. 16 Propostas para impulsionar a segurança do paciente em dez anos. • Políticas para eliminar danos evitáveis: Faça do “zero dano” um estado de espírito e uma regra de engajamento no pla- nejamento e na prestação de cuidados, em todos os lugares. • Sistemas de alta confiabilidade: Os sistemas de saúde alta- mente confiáveis e organizações de saúde que protejam os pacientes diariamente dos danos. • Segurança dos processos clínicos: Garantia da segurança de cada processo clínico. • Envolvimento do paciente e da família: Envolva e capacite pacientes e familiares para ajudar e apoiar a jornada para um cuidado mais seguro. • Educação, habilidades e segurança do trabalhador de saúde: Inspire, eduque e qualifique os profissionais de saúde para contribuir para o design e para a entrega de cuidados seguros. • Informação, pesquisa, gestão de risco e melhoria: Garan- ta um fluxo constante de informação e conhecimentos para conduzir a mitigação do risco, a redução nos níveis de dano evitável e a melhoria na segurança do cuidado • Sinergias, parcerias e solidariedade: Desenvolva e mantenha sinergia multissetorial e multinacional, solidariedade e par- ceria para melhorar a segurança do paciente. Veja que as propostas dependem da iniciativa e orientação do gestor da saúde. Patrocinar a implantação das diretrizes de segurança ao paciente cabem ao dirigente do serviço. Quando os profissionais e equipes estão motivadas e cientes do propósito do trabalho, esse processo pode ser agilizado. Contudo, a participação efetiva do gestor de secretaria de saú- de, do diretor hospitalar, da UPA ou de algum serviço do SUS é condição sine qua non para fortalecer e sedimentar a segurança do paciente em todo território brasileiro. Como mostra a estratégia da OMS, a segurança do paciente é feita em um ecossistema como mostra o esquema a seguir. 17 Figura 2 - O Ecossistema para Implementação do Plano de Ação Global de Segurança do Paciente 2021–2030 Fonte: Global Patient Safety Action Plan 2021-2030. 3 aug. 2021. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240032705. Leia o parágrafo a seguir e pense no caso problematizador. Reflita, e tente entender os aspectos positivos e negativos desse status. “No meio assistencial, o uso seguro e racional de tecnolo- gias passa por muitos processos, em geral, fragmentados. O cuidado é multidisciplinar, baseado em diversos conheci- mentos técnicos e em muitas informações sobre o paciente e, em geral, é consequência de decisões inter-relacionadas, e por vezes, diante de complexas situações, uma elevada probabilidade de falhas é esperada” (SILVA, et al, 2006). E, então... conseguiu perceber que o sistema de saúde é complexo? Muitas vezes há limitação de estrutura, disponibilidade de recursos humanos e gestão qualificados. Fica claro que os desafios são imensos na saúde e que a evolução desse sistema passa pela qualificação dos gestores, dos processos de gestão e pelo desenvolvimento de um sistema mais seguro para todos. Esse ciclo virtuoso inicia-se pela identificação de problemas, percepção dos https://www.who.int/publications/i/item/9789240032705 18 riscos e atuação estruturada para reduzir as falhas, mitigar os riscos e reagir para que o sistema esteja em modo de melhoria contínua e sus- tentada ao longo do tempo. As decisões estratégicas e táticas podem ter resultados mais efetivos com a sua participação como gestor de secretaria de saúde ou do serviço de saúde. HISTÓRICO DA SEGURANÇA DO PACIENTE NO BRASIL Estimado(a) aluno(a), que tal conhecermos o histórico da segurança do paciente no Brasil? Vamos lá! Em 2013, o Ministério da Saúde instituiu o Programa Nacional de Segurança do Paciente – PNSP por meio da Portaria nº 529, de 1º de abril de 2013 com o objetivo geral de contribuir para a qualificação do cuidado em saúde, em todos os estabelecimentos de Saúde do terri- tório nacional, públicos e privados; e estabeleceu os seis protocolos bási- cos de segurança do paciente a serem adotados por todos os serviços de saúde no país (BRASIL, 2013b; BRASIL, 2013c). Em seguida, a Resolução da Diretoria Colegiada-RDC nº 36, publicada em 25 de julho de 2013, teve o intuito de regular as ações de segurança do paciente nos serviços de saúde com objetivo de instituir ações para a promoção da segurança do paciente e a melhoria da qualidade nos serviços de saúde. Nesta normativa, a direção de todos os serviços de saúde tem obriga- toriedade de criar o Núcleo de Segurança do Paciente – NSP e elaborar o seu Plano de Segurança do Paciente – PSP em estabelecimentos de saúde de todos os níveis de atenção. A configuração depende do gestor local. Desde então, a segurança do paciente foi inserida em diversas norma- tivas e também passou a fazer parte das ações dos gestores em saúde que desejam estar atualizados com as boas práticas de gestão. O movimento da qualidade, portanto, tornou-se a mola propul- sora da adoção de conceitos como melhoria, processos e sistemas no ambiente da saúde. A adoção de concepções advindas da teoria geral de sistemas permi- te que passemos a compreender a organização composta por linhas de força hierárquica em que as partes são representantes dinâmicos e interdependentes de um todo. Assim, de nada adianta planejamento e estratégia sem que cada parte, ou seja, cada unidade, adapte-se e implemente as linhas de ação definidas. 19 Resultante da adoção dessas concepções colocadas, passamos a com- preender que qualquer unidade ou pessoa envolvida na composição do serviço está em uma posição em que tem a capacidade de aumentar a probabilidade de obter o resultado desejado pela instituição, com o apoio de seus gestores, diminuindo, assim, a chance de resultados indesejados. A seguir, faremos um resumo das normativas no Sistema Único de Saúde, seu conteúdo e suas implicações para o gestor da saúde. Quadro 3 - Resumo das normativas no SUS Tema Normativa Implicações Regulação - Anvisa RDC/Anvisa nº 36/2013 institui ações para a segurança do paciente em serviços de saúde e dá outras providências; Normativa relacionada às ações da vigilância sanitária para avaliação da Saúde. Educação Resolução CNE/CES nº 3 2014 - Institui Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina. Normativa que institui e inclui no currículo da medicina do paciente Educação Resolução CNRMS Nº 5 de 07/11/2014 - Residência Multiprofissional em Saúde Normativa que institui e inclui nas residência a segurança do paciente Educação Resolução nº 569/ 2017. DCN de todos os cursos de graduação da área da saúde. Inclui as diretrizes de segurança em Saúde. Gestão Hospitalar Portaria GM/MS nº 3.390/ 2013. Política Nacional de Atenção Hospitalar (PNHOSP) Inclui a qualidade e segurança do paciente na política de Gestão Hospitalar Gestão Hospitalar Portaria GM/MS nº 3.410/2013. Diretrizes para a contratualização de hospitais no SUS Inclui a qualidade e segurança do paciente na diretriz de contratualização dos serviços Gestão Hospitalar e Educação Portaria Interministerial nº 285/2015. Programa de Certificação de Hospitais de Ensino (HE). Inclui a qualidade e segurança do paciente para a certificação dos hospitais de Ensino DoençasCrônicas Portaria nº 389/ 2014 Linha de cuidado da Pessoa com Doença Renal Crônica (DRC) Inclui a segurança do paciente para a linha de cuidado Vigilância em Saúde Portaria nº 183/ 2014. Vigilância em saúde. Inclui a participação da Vigilância epidemiológica hospitalar - VEH no núcleo de segurança do paciente, como um agravo à saúde. Atenção Primária Portaria nº 2.436/ 2017 - Política Nacional de Atenção Básica Inclui a qualidade e segurança do paciente na PNAB. Gestão Portaria nº 774, DE 13 DE ABRIL DE 2017 . Define normas para o cadastramento dos NSP no CNES Orienta como realizar o cadastro dos Núcleos de Segurança do Paciente em serviços de saúde no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) Educação Resolução nº 569/ 2017. DCN de todos os cursos de graduação da área da saúde. Normativa que institui e inclui no currículo da farmácia as diretrizes de segurança do paciente. Fonte: Autoria própria. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2013/rdc0036_25_07_2013.html https://www.gov.br/saude/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/pnsp/legislacao/resolucoes/rces003_14.pdf/view#:~:text=Institui%20Diretrizes%20Curriculares%20Nacionais%20do,Medicina%20e%20d%C3%A1%20outras%20provid%C3%AAncias. https://www.saude.go.gov.br/images/imagens_migradas/upload/arquivos/2018-11/resolucao-cnrms-no_-5-de-7-de-novembro-de-2014-retificacao.pdf https://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2017/Reso569.pdf https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2013/prt3390_30_12_2013.html https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2013/prt3390_30_12_2013.html https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2014/prt3410_30_12_2013.html https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2014/prt3410_30_12_2013.html https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2015/prt0285_24_03_2015.html https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2015/prt0285_24_03_2015.html https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2014/prt0389_13_03_2014.html https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2014/prt0183_30_01_2014.html https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2017/prt2436_22_09_2017.html https://www.in.gov.br/materia/-/asset_publisher/Kujrw0TZC2Mb/content/id/20170661/do1-2017-04-19-portaria-n-774-de-13-de-abril-de-2017-20170605 https://www.in.gov.br/materia/-/asset_publisher/Kujrw0TZC2Mb/content/id/20170661/do1-2017-04-19-portaria-n-774-de-13-de-abril-de-2017-20170605 https://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2017/Reso569.pdf 20 Conheça outros materiais e referências no link do Programa Nacional de Segurança do Paciente: https://www.gov.br/ saude/pt-br/composicao/saes/dahu/seguranca-do-paciente/ seguranca-do-paciente Na biblioteca do curso está disponível para você acessar tanto a portaria que instituiu o Programa Nacional de Segurança do Paciente como a resolução RDC nº 36 da ANVISA que regula a segurança do paciente nos serviços de saúde. Recomendamos que você acesse para direcionar ou contri- buir com seu trabalho na prática! Aprecie a leitura! Saiba mais Os Conselhos Profissionais, os serviços e os estudiosos também têm colaborado para a segurança em saúde na medida em que produzem materiais educativos, guias, protocolos, diretrizes entre outros. Por exemplo, o Conselho Regional de Enfermagem Coren-SP publicou e distribuiu o Guia: Uso Seguro de Medicamentos, composto por cinco videoaulas, handout e cartaz. Veja no link: https://portal.coren-sp.gov.br/ wp-content/uploads/2018/05/Uso-seguro-de-medicamentos-Handout- 29.11.2017-web.pdf A segurança do paciente também tem implicações na esfera do direito e necessita da atenção dos gestores, pois pode ser relacionada aos direi- tos humanos, direito civil, direito público e direito penal. Normalmente, os problemas da segurança do paciente só chegam aos advogados pela via das reações aos danos ocorridos nos serviços de saú- de, isto é, quando os pacientes-familiares interpõem queixa contra o pro- fissional ou a empresa em que foi atendido (Faria, Moreira, Pinto; 2019). Recentemente, novos caminhos para a resolução de conflitos têm sido apli- cados na área da saúde, quando se enfrenta um EA como, por exemplo, a utilização da justiça restaurativa e da mediação-conciliação-arbitragem. O intuito é promover a paz social, ampliar a prática da comunicação não violenta e contribuir com o ganha-ganha. A abordagem restaurativa é um método de solução de incidentes que estimula a pessoa à responsabiliza- ção consigo mesma, com o outro (a vítima, no caso) e com a família e comu- nidade (GOUVEIA; CASOTTI, 2019; ANTONIASSI et al, 2019; ALVES, 2021). https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/dahu/seguranca-do-paciente/seguranca-do-paciente https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/dahu/seguranca-do-paciente/seguranca-do-paciente https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/dahu/seguranca-do-paciente/seguranca-do-paciente https://portal.coren-sp.gov.br/wp-content/uploads/2018/05/Uso-seguro-de-medicamentos-Handout-29.11.2017-web.pdf https://portal.coren-sp.gov.br/wp-content/uploads/2018/05/Uso-seguro-de-medicamentos-Handout-29.11.2017-web.pdf https://portal.coren-sp.gov.br/wp-content/uploads/2018/05/Uso-seguro-de-medicamentos-Handout-29.11.2017-web.pdf 21 Gestor, na sua prática, você acredita que o método restaurativo ou a mediação de conflitos podem ser um elementos-chave para melhorar a segurança do paciente e favorecer as relações nos serviços de saúde? Podemos citar alguns exemplos reais trazidos pela Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética publicados na obra “Segurança do Paciente e Qualidade em Saúde”. Exemplo 1: Os exemplos mencionados a seguir apresentam ações e recursos em procedimentos médicos, citados na obra, para minimizar danos e ele- var a segurança assistencial. Os médicos ao usarem a videolaparosco- pia para o procedimento cirúrgico permitem que o procedimento seja menos invasivo e acelere o restabelecimento do paciente. A utilização dos protocolos de prevenção de trombose venosa profunda –TVP, de prevenção de infecções relacionadas à assistência em saúde – IRAS, reforça as metas de segurança do paciente. O estímulo e persistência para a lavagem das mãos, para o uso da pulsei- ra de identificação do paciente, no uso seguro de medicamentos, entre outros contribuem no envolvimento do profissional para prevenção de incidentes e eventos adversos. Exemplo 2: Dar voz ao paciente: o caso Betsy Lehman (1993) “Betsy Lehman, de 37 anos, jornalista do jornal Boston Globe, tinha duas filhas. Em 1993, em tratamento de quimioterapia do câncer da mama, recebeu, durante quatro dias, por engano, uma dose muito mais elevada do que o prescrito. Apesar das suas inúmeras e repetidas queixas de dores e mal-estar, ela não foi avaliada pelos clínicos ou por exames. Seu coração, entre outros órgãos, já estava acometido, e um eletrocardiograma feito a tempo, na primeira queixa, teria mostrado que algo estava errado. O fato de ter falecido após ter telefonado a uma amiga e dizer que se sentia muito mal e de ter sido apurado que, desde o telefonema até ser encontrada morta, passaram 45 minutos sem que ninguém tivesse res- pondido aos seus apelos. O caso Betsy Lehman foi de extrema gravidade e consequências dra- máticas. Ela era jornalista, casada com um médico (curiosamente do mesmo hospital onde ocorreu seu tratamento e posterior falecimento) e vivia perto de Harvard. 22 Do ponto de vista legal, nunca houve um processo contra os médicos que assistiram Betsy Lehman, e ninguém foi julgado ou condenado pelos erros fatais. Entretanto, o caso alavancou o estudo da segurança dos pacientes e a criação, em 2004, do Betsy Lehman Center for Patient Safety and Medical Error Reduction no Departamento de Saúde Pública do Estado do Massachusetts” (Sousa, Mendes; 2019). Se você quiser conhecer outros casos, destaco a troca de medicamentos no Hospital de Santa Maria em Portugal, que lesionou os olhos de seis pacien- tes, conforme dados do jornal Expresso: http://aeiou.expresso.pt/ceguei- ra-em-santa-maria=s25185 [citado 2014 jan. 10] (SOUSA; MENDES, 2019). Enfatiza-se o engajamento dos pesquisadores para evidenciar a mini- mização dos riscos, a diminuição dos prejuízos, aperfeiçoar a qualidade no dia a dia e ainda promover as publicações científicas que enaltecem instituições e os avanços na saúde. Valorizar e exaltar as ações individuais e coletivas reforçam a responsabi- lidade e o compromisso de todos com a segurança! Consegue perceber a importância destes materiais e métodos, caro(a) aluno(a)? Sabe-se que há muitos desafios... Entre eles, como tornar as unidades de saúde responsáveis por reporta- rem seus erros, evitando que o dano do EA se transforme numa imediata sentença condenatória por parte da imprensa ou numa ação em tribunal? Como conscientizar gestores de saúde pelo cumprimento das normas e práticas de melhoria da qualidade e das metas de segurança em situ- ações de crise e corte orçamentário? Será necessário a compreensão que a manutenção dos serviços necessita ser acompanhada de serviços minimamente seguros, mesmo em situa- ções desafiadoras, como são as emergências. Vejam que a segurança do paciente se reflete na rede assistencial do SUS, no acesso aos serviços, na disponibilidade para a realização dos exames diagnósticos-laboratoriais, na agilidade para as consultas solicitadas, na aplicação das metas de segurança, entre outros. O gestor engajado na segurança do paciente prioriza a segurança do paciente acima dos lucros isolados, elabora e define seus contratos de acordo com metas quantitativas de acesso ao serviço e qualitativas para a eficiência e efetividades dos procedimentos, além dos desfechos para o paciente, de modo que a rede de atenção à saúde seja universal e equitativa, prestada no tempo correto, local correto, paciente correto, no tempo oportuno e de acordo com as necessidades da população. http://aeiou.expresso.pt/ cegueira-em-santa-maria=s25185 http://aeiou.expresso.pt/ cegueira-em-santa-maria=s25185 23 Sugerimos que você gestor ou diretor do serviço obtenha mais informações em seu estado e ou em seu município, como anda a prática da segurança do pacien- te em seus serviços? Sendo um problema transversal, será também de solução compartilhada, seja dentro de um serviço ou em uma secretaria de saúde. Bem, chegamos ao final desta primeira aula. Aqui você pôde aprender mais sobre o alerta da (in)segurança no mundo; a incidência de eventos adversos em alguns países; as barreiras para evitar danos e prejuízos; formas de geren- ciar riscos; os recursos e a importância da participação do gestor do SUS, da UPA, do hospital público para sedimentar a qualidade e a segurança no país. Na próxima aula, aprofundaremos as questões relacionadas à taxonomia de segurança; os impactos de um incidente ou evento adverso; os modelos de segurança e o sistema de saúde. Caro(a) aluno(a), reflita sobre: Qual será a sua conduta, como gestor de um serviço, diante das diretrizes de qualidade e segurança promulgadas? Vamos seguir! 24 AULA 2 - QUAIS OS IMPACTOS DE UM EVENTO ADVERSO NA VIDA REAL E SUAS IMPLICAÇÕES? Claro, um evento adverso é sempre algo indesejado. O impacto do evento adverso para o paciente pode ser de intensidade leve até catastrófica quando causa a morte do indivíduo, e isso traz repercussões na família, trabalho e sociedade. Sendo assim, o objetivo desta aula é que você aprenda a identificar os riscos e gerenciá-los incorporando decisões com foco na segurança do paciente. Convidamos você a ler, compreender e a refletir sobre este tema. CONCEITOS E A TAXONOMIA SOBRE SEGURANÇA Utilizaremos a Classificação Internacional de Segurança do Paciente (International Classification for Patient Safety – ICPS) da Organização Mundial da Saúde como referencial de nosso aprendizado. As principais definições da ICPS estão listadas a seguir (OMS, 2009): Quadro 4 - Definições e exemplos de alguns conceitos relacionados aos riscos. Risco: Probabilidade de um incidente ocorrer. Ex.: Tipos de frascos de soro diferentes guardados na mesma prateleira. Near miss= Quase erro, Quase falha Incidente que não atingiu o paciente. Ex.: Medicamento trocado percebido antes da administração ao paciente. Incidente sem lesão Incidente que atingiu o paciente, mas não causou dano. Ex.: Dieta geral consumida, em vez de dieta leve prescrita. Never events Evento inadmissível Evento adverso que jamais deveria ter ocorrido. Ex.: Uso de ar comprimido no lugar de oxigênio; cirurgia em local errado. Circunstância de risco reportable circumstance Situação em que houve potencial significativo de dano, mas não ocorreu um incidente. Ex.: A escala de enfermagem da Unidade de Terapia Intensiva – UTI está defasada em um determinado plantão (Zambon, 2010). Fonte: OMS, 2009. 25 A Portaria nº 529 de 2013 e o Documento de Referência para o Programa Nacional de Segurança do Paciente definem con- ceitos, conforme a OMS (2014) também os utiliza. Eles são importantes para mensuração, classificação, comparação com outros serviços e padronização da literatura no mundo. A RDC nª 36 de 2013 assumiu algumas definições para fins de sua normativa. Elas contribuem para especificar o que significa gestão de riscos, o que é o Núcleo de Segurança do Paciente e qual é a função do Plano de Segurança. Leia mais sobre isso! Saiba mais COMPREENSÃO DA SEGURANÇA AMPLIADA PARA O SISTEMA DE SAÚDE Uma das características dos sistemas de saúde é a produção de resul- tados. Embora a garantia de qualidade defina que a totalidade das ações sistemáticas necessárias deva garantir que os serviços prestados estejam dentro dos padrões de qualidade exigidos para o fim a que se propõe, isso muitas vezes não ocorre. Cuidados inseguros, realiza- dos com falhas, complicações, desperdício, ineficiência e elevado grau de insatisfação pelo paciente-familiar são recorrentes. É curioso o fato de que as medidas tomadas para reduzir EA no sistema de saúde, como o uso de protocolos, metas, guias e tantas outras estratégias, não terem ainda, conseguido fazer a assistência de saúde uma atividade segura, eficiente, uniforme, geradora de valor e satisfação. Isso reforça sua “complexidade” e refuta ações mecânicas. De maneira simplificada podemos dizer que complexidade indica um processo que tem múltiplos passos e pontos de decisão. Os sistemas complexos necessitam da máxima atenção e muitas vezes os processos estão inter-relacionados. Exemplos: Uma caixa cirúrgica entregue sem um instrumento específico fundamental; um resultado de laboratório atrasado ou errado; se não há medidas de prevenção para estes eventos, há consequências significativas. Nestes casos, indica-se a abordagem de sistema para identificar o que levou aos erros. É uma investigação imediata e intensiva seguida de uma análise multidisciplinar de sistemas para descobrir tanto as causas pró- ximas como as causas sistemáticas dos erros. Baseia-se no conceito de 26 que embora os indivíduos cometam erros, as características dos sistemas dentro dos quais eles trabalham podem tornar os erros mais prováveis e também mais difíceis de descobrir e corrigir. Além disso, intui que embora os indivíduos devam ser responsáveis pela qualidade do seu trabalho, os erros serão mais facilmente eliminados se nos concentrarmos nos siste- mas em vez de nos indivíduos. Substitui a inquirição de culpa e centra-se nas circunstâncias e não no caráter A avaliação dos riscos incorpora alguns pontos como; exame detalhado de um processo, a sequência de eventos; avalia o risco real e potencial, a falha ou pontos de vulnerabilidade e, por um processo lógico, define as áreas prioritárias para a melhoria com base no impacto real ou potencial para o cuidado ao doente (criticidade). Analisa a estimativa qualitativa ou quantitativa da probabilidade de ocorrência de efeitos (adversos) que possam resultar daexposição a eventos ou processos específicos ou da ausência de influências benéficas. Essas avaliações ajudam as organizações a entender a variedade de ris- cos que enfrentam, tanto internamente como externamente, o nível de capacidade para controlar esses riscos, a probabilidade de recorrência e os seus potenciais impactos. Implica uma combinação da quantificação dos riscos e utilização do bom senso, avaliando e equilibrando esses riscos e os benefícios, ponderando inclusive sobre o custo para o sistema. Prevenir incidentes e danos é o que se almeja na segurança do sistema de saúde! A detecção é uma ação ou circunstância descoberta antes da ocorrência de um incidente.Por exemplo, revisar a pulsei- ra de identificação do paciente e confirmar com o medicamento a ser administrado. Agir ao ouvir o alarme do monitor ou bomba de infusão. Tomar medidas mediante a auditoria, revisão, ou avaliação de riscos. As estratégias de detecção podem estar incorporadas for- malmente no sistema (ex.: leitura do código de barra, grade contínua em todos os leitos), ou por meio das barreiras sistemáticas utilizadas (ex.: check list cirurgia segura, dupla checagem do medicamento). Fatores atenuantes são ações ou circunstâncias que previnem o inci- dente ou dano. Pode conter a progressão de um incidente em direção ao dano. Lembre-se dos buracos do queijo suíço. Eles têm o objetivo de minimizar o dano ao paciente, serviço, profissional, e meio ambiente depois da ocorrência; e principalmente acionar mecanismos de controle imediatamente (WHO, 2009). 27 Juntos, a detecção e os fatores atenuantes do dano podem impedir a pro- gressão (mais grave e catastrófica) de um EA, prejudicando um ou mais alvos. Sobre isso e lembrando-se do caso problematizador, você considera que a troca do resultado do exame diagnóstico do Sr. James poderia ter sido evitado? Você pode explicar como é e o que fazer para que o processo se torne mais seguro As ações geradas após a ocorrência de falhas e eventos adversos são chamadas de gestão reativa dos riscos, sendo por exemplo: • Análise de causa raiz • Revelação (disclosure) do EA ao paciente-usuário • Pedido de desculpas • Mediação de conflitos O debriefing As ações na gestão reativa de riscos servem para reduzir ou tratar os riscos com medidas tomadas para prevenir a repetição do EA e melhorar a resiliência do sistema. Elas devem reduzir, gerir ou controlar o dano. São ações dirigidas ao doente (ex.: aplicação das metas de segurança, seguimento das orientações); ao pessoal (ex.: capacitação em segurança, uso de ferramentas para análise de riscos); à organização (ex.: definição da política, princípios e diretrizes de segurança, avaliação proativa dos riscos) (OMS, 2009). “O perigo e o risco são componentes inerentes a qualquer atividade, mas existem algumas atividades onde o ‘risco potencial’ é mais alto do que das outras, onde qualquer erro pode levar a consequências desastrosas” (REASON, 1997; REASON, 2003). Quando estamos fazendo a gestão do risco, seja em nível estratégico, gerencial ou mesmo na gestão do risco do dia a dia, devemos estar aten- tos às condições em que o risco inerente da atividade seja alto. 28 Fazer gestão do risco não se trata de eliminar todos os riscos, e sim, de possuir ferramentas para identificar os pontos de maior potencial de risco, implantar e gerenciar as práticas de segurança e aumentar a chance de tudo dar certo. Quando nosso gerenciamento falha, devemos investigar as causas e implantar ações de melhoria (ISO, 2018). O objetivo da gestão do risco é a criação e proteção de valor em saúde. Melhorar a segurança, o desempenho, a eficiência e a experiência das pessoas, tanto dos profissionais de saúde como dos pacientes e seus familiares (ISO, 2018). Vejamos mais detalhes de como se dá a gestão proativa de riscos. Como identificar os riscos? Figura 3 - Passo a passo para avaliação simplificada de riscos em saúde. Fonte: National Patient Safety Agency-NHS. A Avaliação Simplificada de Riscos em Saúde,2017. METODOLOGIAS UTILIZADAS PARA A MELHORIA DA QUALIDADE E SEGURANÇA A OMS criou o programa Segurança do Paciente em 2004, designada a coor- denar, disseminar e acelerar as melhorias relativas à segurança do paciente. Iniciaram-se também os desafios globais, liderados pela OMS. 29 O 1º desafio global foi “Uma Assistência Limpa é uma Assistência mais Segura”, com intuito de prevenir infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS). O foco foi o protocolo de higiene das mãos. O 2º desafio global foi “Cirurgias Seguras Salvam Vidas”. O esco- po foi a implantação das listas de verificação da cirurgia: antes, durante e após o procedimento cirúrgico para reduzir a ocor- rência de eventos adversos. Em 2017, o 3º desafio global de segurança foi “Medicação sem Danos” para reduzir os danos relacionados à medicação. O Institute for Healthcare Improvement – IHI, nos EUA, lançou campanhas para salvar vidas com a utilização de pacotes de cuidado (bundles) e o Modelo de Melhoria, destinados às práticas de prevenção de infec- ções: respiratórias, cirúrgicas, associadas a cateteres venosos centrais, por estafilococos resistentes à meticilina; agilizar a assistência no infarto agudo do miocárdio e insuficiência cardíaca; aperfeiçoar a reconciliação medicamentosa e controle de medicamentos de alta vigilância; fortale- cer as estratégias de prevenção de lesões por pressão; criar mais times de resposta rápida e gerar programas de melhoria de qualidade. O Modelo de Melhoria, desenvolvido pela API (Associates in Process Improvement), é uma metodologia que agrega os princípios de gestão enfatizados pelo Dr. Deming na teoria de conhecimento profundo e de W. Shewhart para compreender que o processo é uma fase fundamental para garantir que determinado serviço possa ser realizado de manei- ra padronizada e o mais próximo possível do ideal, onde o Controle Estatístico de Processos (CEP) é o processo de mensuração utilizado ao longo do tempo para saber se houve uma melhoria. ♦ Caro gestor, você conhece o Modelo mencionado? Que tal compreen- der melhor sua aplicabilidade? A acreditação é um sistema de avaliação externa, voluntário, que verifica a conformidade dos padrões requeridos ao serviço. As instituições acre- ditadoras no Brasil são a Organização Nacional de Acreditação – ONA, a Comissão Conjunta Internacional (Joint Commission International – JCI), o Conselho Canadense de Acreditação de Serviços de Saúde – CCHSA (Canadian Council on Health Services Accreditation), representada pelo 30 Instituto Qualisa de Gestão, e a Agencia de Calidad Sanitaria de Andalucía. Todos os modelos incorporaram critérios de segurança, gestão e gerencia- mento de riscos nos respectivos nos manuais, ampliando em cada revisão os componentes de avaliação, tornando-se este, mais uma oportunidade de avanço para os serviços de saúde no país. Os protocolos incluem medidas voltadas para a segurança e devem ser aplicados, uma vez que previnem infecções, erros, incidentes, reduzem danos e prejuízos. Alguns são orientações simples, outros são algorit- mos complexos e múltiplas variáveis. Este ordenamento proporciona o cuidado assistencial mais seguro e qualificado, e inclusive é elemento obrigatório do Plano de Segurança do Paciente, o qual iremos abordar na próxima unidade deste curso. Se você for gestor de uma área clínica, sugere-se a leitura de pelo menos uma publicação ou artigo científico relativo à cada protocolo, para ajudar na implementação. Além disso, sugere-se o uso de indicadores para o monitoramento da implantação dos protocolos, bem como a sua adesão e o número de eventos adversos evitados. Se você é gestor de uma instituição ou gestor local de saúde, deve se impor- tar se os protocolos já estão implantados em seu local e caso não estejam, lidere junto às áreas um movimento para implantação e acompanhe se os eventos adversos estão reduzindo ao longo do tempo.Apoie também a educação permanente de seus trabalhadores, afinal, só realiza o cuidado padronizado o profissional que foi previamente capacitado para agir assim. A seguir, estão listados alguns exemplos de indicadores. 31 Quadro 5 - Indicadores de segurança do paciente. 1. Higienização das mãos • Número de episódios de higienização das mãos realizado pelos profissio- nais de saúde/ número de oportunidades de lavá-las (enfermaria, unida- de ou serviço). • Monitoramento do volume de sabonete e ou antissépticos para lavagem das mãos associado à preparação da solução alcoólica ou não, utilizada para cada 1.000 pacientes-dia. 2. Identificação do paciente • Taxa de eventos adversos devido a falhas na identificação do paciente. • Proporção de pacientes com pulseiras padronizadas entre os pacientes atendidos na instituição. 3. Segurança na prescrição, uso e administração de medica- mentos • Taxa de erros na prescrição, dispensação e administração de medicamentos. 4. Cirurgia segura • Percentual de pacientes que recebeu antibioticoprofilaxia no momento adequado (em 60 min.). • Taxa de adesão à lista de verificação da cirurgia segura. • Taxa de infecção cirúrgica. 5. Prevenção de lesões (ou úlce- ras) por pressão • Percentual de pacientes submetidos à avaliação de riscos para UPP na admissão. • Percentual de paciente recebendo avaliação de risco diária para LPP. • Incidência de LPP. 6. Prevenção de quedas • Número de quedas sem dano. • Número de quedas com dano. • Índice de quedas: número de eventos /número de pacientes dia x 1000. 7. Comunicação efetiva • Proporção de prescrições verbais e telefônica. • Proporção de registro de comunicação de resultados críticos de exames diagnósticos. • Proporção de registro de transição do cuidado. 32 Ressalta-se a seguir que o mais importante para o gestor é: • Identificar quais os problemas prioritários a serem enfrentados para melhorar a qualidade e melhorar a segurança no nível local. • Priorizar a qualidade e a segurança do paciente no planeja- mento estratégico por meio de desfechos e redução de des- perdícios (tempo, profissionais ou financeiro). • Definir um método adequado para utilizar em sua realidade. • Monitorar por meio de indicadores estratégicos para saber se está evoluindo rumo à melhoria. • Apoiar as ações que acontecem no nível tático e operacional. • Remover as barreiras sempre que necessário. • Atuar para proporcionar um clima de segurança psicológica entre os trabalhadores. HOSPITAIS SEGUROS Caro(a) aluno(a), você sabe o que são os hospitais seguros? Bem, a OMS tem trabalhado com mais uma estratégia chamada Hospitais Seguros, para redução dos riscos em saúde e o desenvolvimento seguro do atendimento ao paciente em hospitais. Para se enquadrar, o hospi- tal deve ser capaz de garantir o seu funcionamento eficiente durante um desastre (incêndio, terremoto, fenômeno climático, etc.). Dessa forma, as construções e reformas precisam considerar a localização, a estrutura, os equipamentos e os recursos humanos, para resolutividade eficaz e efi- ciente no momento de enfrentamento da situação de contingência. Não obstante, na América Latina e Caribe, 67% das unidades hospitalares se encontram em zonas de risco, sendo afetadas, por exemplo, por fenôme- nos geológicos, hidrometeorológicos, sociais, ambientais e químico-tecno- lógicos; acarretando um cenário no qual mais de 45 milhões de pessoas ficam sem receber assistência a cada ano (ANVISA, 2019). Parece desanimador, mas há perspectivas! Vamos conhecê-las? 33 CONTEXTO ASSISTENCIAL NOS NÍVEIS LOCAL, MUNICIPAL E ESTADUAL DO CUIDADO DE SAÚDE O sucesso e a sustentabilidade dos esforços de melhoria da qualidade e segurança dependem do alinhamento e integração eficazes entre os níveis local, municipal e estadual. Além disso, a necessidade de líderes em cada nível para entender as atividades e recursos necessários não apenas dentro de sua própria área, mas em todo sistema para a atenção ao paciente-usuário. A OMS enfatizada e encoraja uma abordagem com foco no sistema, para melhorar a qualidade e a segurança do serviço prestado à população. Veja o esquema proposto. Figura 4 - Resumo sobre planejamento de qualidade em serviços de saúde. Fonte: Quality health services: a planning guide. Geneva: World Health Organization; 2020. 34 Essa abordagem de sistema tem cinco implicações importantes: 1. Os requisitos básicos relevantes para cada um dos três níveis – suporte no local; medição; compartilhar e aprender; envol- vimento das partes interessadas e da comunidade; e gestão – fornecer um ponto de ligação claro entre os respectivos níveis. 2. Cada uma das cinco alavancas dos sistemas de saúde deve ser considerada no planejamento de ações para a qualidade em cada um dos três níveis. Princípios orientadores para esforços de todo o sistema: a) Comece rápido; b) Baseie-se nas estrutu- ras e funções existentes; c) Apoie os profissionais de saúde; d) Melhore o atendimento às pessoas; e) Adapte-se ao contexto. 3. A cultura da qualidade deve se infiltrar em todos os níveis – sem atenção cuidadosa e ênfase na cultura de qualidade, mudanças significativas e sustentáveis em todo o sistema são improváveis. 4. A implementação de intervenções de qualidade deve ocor- rer nos três níveis – embora seja tentador reconhecer e focar apenas nas intervenções visíveis como nas instalações locais, as implementações também requerem atenção concentrada em nível municipal e estadual, especialmente nas cidades que estão distantes das capitais, no Brasil. 5. Reconhece-se que há uma diversidade de prioridades dentro de um sistema de saúde – uma visão compartilhada relativa aos aspectos da qualidade dos serviços, impulsionada por prá- ticas nacionais, pode aspirar melhorias. O teste decisivo para qualquer sistema de saúde é a qualidade oferecida no ponto do cuidado, exatamente pelo paciente-usuário que a recebe; em conjunto com os resultados que o sistema alcança para suas populações (WHO, 2020). Desafios e barreiras para o progresso na saúde são múltiplos e variados. Muitas vezes, ao examinar esses desafios e barreiras é que surgem soluções! Interessante, não é mesmo? Então, prezado(a) aluno(a), chegamos ao final da Unidade 1. Nesta uni- dade, estudamos como se desenvolveu o movimento da segurança no mundo e no Brasil, você conheceu alguns marcos regulatórios e as 35 legislações correlatas. O percurso do dano foi apresentado por meio dos buracos e barreiras do queijo suíço. Contemplou conceitos e definições para unificar a linguagem da segurança e possibilitar fazer correlações entre os serviços de outros países. Vimos algumas iniciativas, protocolos e campanhas, incluindo as metas de segurança como estratégias para disseminar a segurança, a gestão e o gerenciamento de riscos promo- vendo alicerces para minimização de prejuízos e eliminação de danos. Destacou-se que a segurança abrange o paciente-usuário, os profissionais, o serviço de saúde e o meio ambiente, extrapolando a organização de saú- de. Nesse sentido, os avanços em segurança direcionam-se para Hospitais Seguros, uma ciência mais ampla para enfrentar a falta de equipamentos (ex.: respiradores, tomógrafos, medicamentos etc.), a falta de recursos humanos (ex.: enfermeiros, médicos entre outros) especialmente durante a pandemia do Coronavírus (desde 2019); e lidar com projeções de situa- ções de risco, ações proativas, medidas preventivas. Na próxima unidade, vamos verificar o que os gestores podem fazer em prol da segurança. O que você, profissional da saúde, pode fazer sobre isso? Se existem normativas obrigatórias, que tipo de passo a passo pode ser realizado para desenvolvê-la? Atividade Avaliativa Unidade 1 36 REFERÊNCIAS ALVES, Caio de Carvalho. A Advocacia Consensual e os Métodos Adequadosde Resolução de conflitos. Monografia (TCC-Graduação de Direito) – Universidade Federal Fluminense, Volta Redonda (RJ), 2021. AMALBERTI, R.; ROCHA, R.; VILELA, R. A. G.; ALMEIDA, I. M. 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