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11 Wagner Cid Palmeira Cavalcante CLÍNICA MÉDICA II TRANSTORNOS DO MOVIMENTO 2 SUMÁRIO TRANSTORNOS DO MOVIMENTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 1. Parkinsonismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 1.1. Doença de parkinson. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 1.2. Parkinsonismo atípico (parkinson-plus) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 1.3. Parkinsonismo secundário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 2. Coreias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 2.1. Coreia de Huntington . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 2.2. Coreia de Sydenham . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 3. Tremor essencial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 4. Doença de Wilson. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 4.1. Diagnóstico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 4.2. Tratamento. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 Questões comentadas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 3 TRANSTORNOS DO MOVIMENTO O QUE VOCÊ PRECISA SABER? u Os transtornos de movimento se dividem em síndromes hipocinéticas (parkinsonismos) e hipercinéticas (tremor, coreia, outros). u Parkinsonismo é uma síndrome clínica caracterizada por uma combinação variável de bradicinesia, rigidez, tremor de repouso e instabilidade postural. u Existem várias causas para os parkinsonismos, com destaque para a Doença de Parkinson. u O tremor essencial é o transtorno do movimento mais comum. u Causas de destaque das coreias são a Doença de Huntington e a Coreia de Sydenham. u Doença de Wilson deve ser lembrada no diagnóstico diferencial de distúrbios de movimentos em adultos jovens (menores de 40 anos). 1. PARKINSONISMO BASES DA MEDICINA O parkinsonismo é um transtorno do movimento hipo- cinético resultante do déficit de um neurotransmissor conhecido como dopamina. A síndrome parkinsoniana ou parkinsonismo pode ser decorrente de diversas etiologias e é composta por bradicinesia associada a pelo menos uma das seguintes alterações: tremor de repouso, rigidez muscular e instabilidade postural. A bradicinesia é manifesta por pobreza de movimen- tos e por lentidão na iniciação e na execução de atos motores. É testada pedindo para o paciente mover rapidamente o dedo indicador com o polegar (finger- -tapping), checando se há redução da velocidade de movimento. Pode haver redução da expressão facial (hipomimia), redução ou ausência dos movimentos associados dos membros superiores durante a marcha (marcha em bloco) e redução do tamanho da letra (micrografia). A marcha se desenvolve em pequenos passos, às vezes arrastando os pés, com hesitações no seu início e com acelerações involuntárias (festinação). A rigidez é uma forma de hipertonia, denominada plástica, que pode ser observada ao se manipular passivamente as articulações, em que é possível perceber o fenômeno da roda dentada, que com- preende resistência intermitente à manipulação. O tremor é clinicamente descrito como de repouso, de baixa frequência e de alta amplitude, também denominado tremor “em contar moedas”. Pode ser exacerbado durante a marcha, no esforço mental e em tensão emocional. A instabilidade postural é decorrente da perda de reflexos de readaptação postural. Geralmente se manifesta com o avançar da doença e pode ser caracterizado por perda da capacidade de o indi- víduo se reequilibrar quando desestabilizado. É testada dando um pequeno empurrão para trás no paciente (pull test), avaliando se há perda excessiva do equilíbrio em seguida. Estabelecido o diagnóstico clínico sindrômico de par- kinsonismo, passa-se à identificação de sua causa. importância/prevalência Transtornos do movimento 4 Neurologia As diversas formas de parkinsonismo podem ser classificadas de acordo com informações clínicas e com exames complementares em 3 tipos básicos: Doença de Parkinson idiopática, parkinsonismo secundário e parkinsonismo atípico (parkinsonis- mo-plus). Figura 1. Diagnóstico da doença de Parkinson. Fonte: Gagliardi et al.¹ DIA A DIA MÉDICO Não confunda parkinsonismo com Doença de Parkinson. O parkinsonismo é uma síndrome clínica com várias causas diferentes, enquanto a doença de Parkinson é apenas uma das etiologias, como veremos abaixo. Quadro 1. Causas de Parkinsonismo. Doença de Parkinson idiopática Parkinsonismo atípico (Parkinson-plus): • Paralisia supranuclear progressiva • Atrofia de múltiplos sistemas • Degeneração corticobasal • Demência por Corpos de Lewy Parkinsonismo secundário: • Vascular • Fármacos (bloqueadores dopaminérgicos: neurolépticos, antieméticos, antivertiginosos: flunarizina, cinarizina) • Intoxicação exógena (manganês, metilfenoltetraidropi- ridina – MPTP, monóxido de carbono) • Pós-encefalítico • Hidrocefalia de pressão normal • Traumatismo cranioencefálico • Doenças genéticas (doença de Wilson, doença de Hun- tington, distonia dopa-responsiva) Fonte: Modificado de Jankovic2. Transtornos do movimento 5 Cap. 3 1 .1 . DOENÇA DE PARKINSON BASES DA MEDICINA A fisiopatogenia da Doença de Parkinson é complexa e decorre de processo degenerativo com perda de neurônios dopaminérgicos do sistema nigroestriatal, sobretudo na substância negra. É a principal causa de parkinsonismo, sendo uma doença neurodegenerativa. A maioria dos casos de Doença de Parkinson (DP) é esporádica, e ape- nas 20% dos indivíduos têm história familiar posi- tiva. Pode ocorrer em qualquer faixa etária, sendo mais comum depois dos 50 anos, e sua incidência aumenta com a idade. 2ª doença neurodegenerativa mais comum Surge geralmente após os 50 anos Ligeiramente mais comum no sexo masculino Caráter predominantemente motor e progressivo Anormalidades não motoras incluem distúrbios cognitivos, psiquiátricos e autonômicos, hiposmia, fadiga e dor Fluxograma 1. Introdução à Doença de Parkinson. Fonte: Radhakrishnan et al.³ Transtornos do movimento 6 Neurologia Fluxograma 2. Fisiopatologia da Doença de Parkinson. • Fatores genéticos • Fatores ambientais • Envelhecimento Etiologia Fisiopatologia Etiopatogenia Anatomo-Patologia • Deficiência na transmissão dopaminérgica na via nigroestriatal • Depósitos anormais de alfassinucleína • Proteinopatia da classe das sinucleinopatias • Perda neuronal • Corpúsculos de Lewy Fonte: Cacabelos4. 1 .1 .1 . Quadro clínico O quadro clínico da DP compreende sobretudo os 4 sinais cardinais do parkinsonismo: u Bradicinesia: lentidão e decréscimo na ampli- tude e velocidade dos movimentos. Pode haver dificuldade de iniciar o movimento (hesitação). u Rigidez (roda dentada): resistência tipo “cano de chumbo” (independe da velocidade utilizada no movimento passivo). u Instabilidade postural.u Tremor de repouso: distal, baixa frequência (“con- tar moedas”) e início unilateral. Na DP, os sintomas são assimétricos, muitas vezes unilaterais no início da doença, acometendo o outro lado com o avançar do quadro. Sintomas simé- tricos são um sinal para pensar em diagnósticos diferenciais. Outros sintomas, como micrografia (paciente escreve com letras cada vez menores), hipomi- mia facial (redução da mímica facial) e festina- ção (marcha acelerada com passos curtos), são frequentemente observados em pacientes com a doença. Vários outros sinais e sintomas não motores podem estar presentes, como alterações do olfato (hiposmia), depressão, transtorno comportamental do sono REM, mudanças emocionais, distúrbios da fala, constipação intestinal, sialorreia e dificuldades de mastigação e deglutição. Transtornos do movimento 7 Cap. 3 Figura 2. Principais manifestações motoras (em laranja) e não motoras (em marrom) da doença de Parkinson ao longo de sua evolução. Legenda: TCSR: Transtorno Comportamental do Sono REM. Fonte: Gagliardi et al.¹ DIA A DIA MÉDICO Na prática clínica, o parkinsonismo pode se apresen- tar com uma forma predominantemente tremulante ou rígido-acinética. 1 .1 .2 . Diagnóstico O diagnóstico de DP é estabelecido quando há síndrome parkinsoniana assimétrica, responsiva à terapia dopaminérgica (levodopa) e ausência de sinais de alarme (medicação causadora de parkin- sonismo, alteração precoce marcada da marcha, disfagia ou disartria precoce, disautonomia precoce, quedas recorrentes precoces, sinais piramidais, sinais cerebelares, alteração do olhar conjugado vertical). Apesar de não obrigatório, é prudente ter exame de neuroimagem excluindo outras causas. Exames de neuroimagem funcional (PET e SPECT) e cintilografia cerebral com TRODAT utilizam mar- cadores de dopamina e podem auxiliar no diagnós- tico diferencial. É importante também identificar as causas de parkinsonismo secundário que são potencialmente reversíveis. DIA A DIA MÉDICO O diagnóstico da DP é clínico, os exames complementares servem principalmente para excluir causas estruturais secundárias (ex.: tumor). 1 .1 .3 . Tratamento O tratamento medicamentoso da DP tem como objetivo aumentar a quantidade de dopamina nas fendas sinápticas e é essencialmente sintomático, embora diversos estudos tenham demonstrado algum papel neuroprotetor na maior parte das medi- cações disponíveis. Transtornos do movimento 8 Neurologia Quadro 2. Medicamentos para tratamento da Doença de Parkinson. Fármacos Mecanismo Indicação Efeitos adversos Levodopa Precursor da dopamina Tratamento inicial. Droga antiparkinsoniana mais eficaz Náusea, vômitos, hipotensão postural, alucinações e discinesias (uso crônico) Benserazida e carbidopa Inibidores da DOPA- descarboxilase periférica Utilizados em combinação com a levodopa para impedir metabolização perifericamente, permitindo que maior dose de levodopa atravesse a barreira hematoencefálica Reduzem efeitos colaterais da levodopa por permitir que seja utilizada dose menor da droga Pramipexol, ropinirol, rotigotina, bromocriptina Agonistas dopaminérgicos Permitem estimulação mais duradoura dos receptores dopaminérgicos (meia-vida mais longa) Náusea, vômitos, sonolência, alterações psiquiátricas (transtornos de controle de impulso, hipersexualidade, compulsão por compras ou atividades de organização) Entacapona, tolcapona Inibidores da COMT – inibem a metabolização da levodopa na fenda sináptica Potencializa o efeito sintomático da levodopa Hepatotoxicidade, aumentam o risco de discinesias Selegilina e rasagilina Inibidores da MAO-B – inibem a metabolização da levodopa na fenda sináptica Potencializa o efeito sintomático da levodopa Hipotensão postural e insônia (rasagilina não causa insônia) Amantadina Ação anticolinérgica e antiglutamatérgica, aumenta a liberação de levodopa na fenda sináptica Nas fases iniciais, controla o tremor. Nas fases avançadas, reduz as discinesias. Insônia, livedo reticularis, constipação, retenção urinária Biperideno Ação anticolinérgica Efeito sintomático nos tremores Boca seca, constipação, retenção urinária, perda cognitiva (principalmente nos idosos), confusão mental e alucinações. São pouco utilizados na prática, devido ao perfil de efeitos colaterais. Fonte: Adaptado de Connolly5. É importante ressaltar que, toda vez que o paciente com Parkinson tiver alucinações e delírios, devemos ficar atentos, uma vez que neurolépticos podem oca- sionar ou agravar o parkinsonismo. Dessa maneira, devemos dar preferência à quetiapina e clozapina, por menor chance de ocorrência de tais alterações. O tratamento cirúrgico pode ser indicado para pacientes com terapia medicamentosa otimizada e que ainda apresentam sintomas motores impor- tantes ou efeitos colaterais das medicações, como discinesias incapacitantes. Pode ser realizado por cirurgia ablativa, com lesões nos núcleos subtalâmi- cos ou globo pálido interno ou Estimulação Cerebral Profunda (DBS). DIA A DIA MÉDICO Iniciamos o tratamento com levodopa em paciente com DP para indivíduos acima de 65 anos ou naqueles mais jovens nos quais a sintomatologia afeta marcadamente a funcionalidade. Transtornos do movimento 9 Cap. 3 1 .2 . PARKINSONISMO ATÍPICO (PARKINSON-PLUS) BASES DA MEDICINA Constitui um grupo de doenças neurodegenerativas que se expressam por parkinsonismo associadas a outros sinais e sintomas que as distinguem da Doença de Parkinson. O parkinsonismo atípico, ao contrário do que ocorre na DP, geralmente se apresenta sem tremor, instala- -se de forma simétrica e responde mal ao tratamento com fármacos antiparkinsonianos, como a levodopa. Devido à má resposta medicamentosa, o tratamento se concentra em medidas de suporte que também podem ser empregadas na Doença de Parkinson, devendo ser direcionado de acordo com as mani- festações clínicas presentes, além de reabilitação com fisioterapia, fonoterapia, terapia ocupacional e orientação nutricional. A sobrevida média desses pacientes varia de 5 a 10 anos. 1 .2 .1 . Atrofia de múltiplos sistemas Manifesta-se por parkinsonismo, associado a sinto- mas disautonômicos precoces (hipotensão ortos- tática, disfunção erétil, incontinência urinária) e ataxia cerebelar. Podem ocorrer sinais piramidais de liberação (espas- ticidade, hiper-reflexia profunda e Sinal de Babinski) e em alguns casos podem manifestar distonia cervical e laríngea (com estridor laríngeo). Exame de ressonância magnética pode revelar o sinal da cruz na ponte. 1 .2 .2 . Paralisia supranuclear progressiva É caracterizada por parkinsonismo associado à alteração da marcha, com tendência a quedas desde o início dos sintomas e paralisia ou paresia dos movimentos oculares verticais, especialmente no olhar para baixo. O paciente cursa com distonia cervical para trás (retrocolo), alterações na fala e na voz e disfagia. Exame de ressonância magnética pode demonstrar atrofia da região do mesencéfalo (sinal do beija-flor). 1 .2 .3 . Degeneração corticobasal Forma mais rara e de mais difícil caracterização, é marcada por sinais parkinsonianos, geralmente assimétricos, com distonia de membro superior ou cervical, apraxia unilateral e presença de “membro alienígena” (levitação de membro quando o paciente está concentrado em alguma atividade). Geralmente apresenta comprometimento cognitivo e alterações comportamentais. 1 .2 .4 . Demência com Corpúsculos de Lewy Caracteriza-se pela tríade: alucinações visuais bem- -elaboradas, flutuações cognitivas e parkinsonismo. Deve-se suspeitar sempre que houver alterações cognitivas muito precoces em paciente com par- kinsonismo ou antecedendo os sintomas motores. A doença está mais bem detalhada no capítulo “Demências”. DIA A DIA MÉDICO O tratamento dos parkinsonismos atípicos pode ser tentado com as medicações utilizadas para a Doença de Parkinson, apesar de apresentarmenos eficácia clínica. 1 .3 . PARKINSONISMO SECUNDÁRIO DIA A DIA MÉDICO Medicações com efeito em receptores dopaminérgicos ou lesões estruturais nos núcleos da base podem causar parkinsonismo. 1 .3 .1 . Parkinsonismo medicamentoso É a causa mais frequente de parkinsonismo secundá- rio, com quadro clínico praticamente indistinguível da Doença de Parkinson, mas os sintomas costumam ser simétricos. Transtornos do movimento 10 Neurologia Os principais medicamentos associados a parkin- sonismo são antipsicóticos ou neurolépticos (prin- cipalmente típicos), antieméticos (metoclopramida) e antivertiginosos bloqueadores de canal de cálcio (cinarizina, flunarizina). O tratamento consiste na retirada do fármaco ou substituição por fármacos mais seguros. Neuro- lépticos mais seguros para evitar parkinsonismo, e que são preferíveis em caso de necessidade de uso em paciente com parkinsonismo, são quetiapina e clozapina. 1 .3 .2 . Parkinsonismo vascular Afeta indivíduos com fatores de risco para doença cerebrovascular. Os sintomas parkinsonianos pre- dominam nos membros inferiores, com compro- metimento importante do equilíbrio e da marcha. Incontinência urinária, declínio cognitivo e sinais piramidais de liberação frequentemente estão asso- ciados aos sintomas. Os exames de neuroimagem geralmente evidenciam múltiplos infartos na região dos núcleos da base ou doença difusa da substância branca (leucoaraiose). O tratamento consiste no controle dos fatores de risco, e mais de 50% dos pacientes apresentam alguma resposta à levodopa. DIA A DIA MÉDICO Sempre questionar pacientes com parkinsonismo sobre uso crônico de medicações para tontura ou medicamentos psiquiátricos, assim como solicitar neuroimagem para excluir causas estruturais. 2. COREIAS BASES DA MEDICINA A coreia caracteriza-se por movimentos involuntários de início abrupto, explosivo, geralmente de curta duração, repetindo-se com intensidade e topografia variáveis, assumindo caráter migratório e errático. A Doença de Huntington é a principal causa de coreia hereditária, e a Coreia de Sydenham é a principal causa de coreia adquirida em crianças. 2 .1 . COREIA DE HUNTINGTON É uma doença genética autossômica dominante, degenerativa, caracterizada por sintomas cogniti- vos, comportamentais (depressão, agressividade, impulsividade) e motores. Em geral, a idade de início é entre 30 e 50 anos, mas pode manifestar-se em qualquer idade. O diagnóstico é confirmado por teste genético. O tratamento é sintomático, podendo utilizar neuro- lépticos para o controle dos movimentos, além de suporte fisioterápico, fonoaudiológico, nutricional e psicoterapêutico. A sobrevida média é de 15 anos. 2 .2 . COREIA DE SYDENHAM É um dos critérios maiores do diagnóstico da febre reumática, e a forma mais comum de coreia em crianças e adolescentes. Está relacionada a infecções por estreptococo beta-hemolítico do grupo A; embora o mecanismo patogênico não esteja bem estabelecido, sabe-se que o mimetismo molecular entre antígenos do estreptococo e antígenos neuronais tem papel importante no desenvolvimento da doença. O diagnóstico é clínico e deve-se sempre suspeitar dele em crianças com quadro de coreia aguda. É importante buscar evidências de infecção estrep- tocócica prévia por meio de culturas de orofaringe, detecção de anticorpos antiestreptolisina O (ASLO) e anti-DNAse. Todas as crianças com suspeita de Coreia de Syde- nham devem ser submetidas à avaliação cardíaca, à procura de sinais de cardite. O tratamento consiste em sintomáticos para a coreia (ácido valproico, haloperidol, risperidona), profilaxia com penicilina benzatina mensal por 10 anos ou até os 21 anos em caso de cardite, ou 5 anos ou até 21 anos em casos não associados à cardite (o que for mais longo). Transtornos do movimento 11 Cap. 3 DIA A DIA MÉDICO Quadros de coreia com curso relativamente benigno tam- bém podem ocorrer durante a gestação, sendo conhecidos como coreia gravidarum. 3. TREMOR ESSENCIAL É a causa mais comum de tremores, e o tipo de distúrbio de movimento mais comum. Consiste em tremor cinético (presente durante o movimento) e postural de alta frequência e baixa amplitude, simétrico, que acomete membros superiores e/ou região cervical e pode envolver também a voz e os membros inferiores. História familiar está presente em metade dos casos, e uma característica típica é a melhora com o uso de bebidas alcoólicas. O tratamento deve ser realizado quando há pre- juízo funcional para o paciente. Os medicamentos mais utilizados são propranolol e primidona. Outras opções são topiramato e gabapentina. Em casos refratários, pode-se lançar mão do tratamento cirúr- gico com talamotomia ou implante de eletrodo de DBS. Quadro 3. Diagnóstico diferencial entre tremor parkinsoniano e tremor essencial. Tremor parkinsoniano Tremor essencial Repouso Postural Unilateral/assimétrico Simétrico/discreta assimétria Pode acometer áreas localizadas do segmento cefálico Pode acometer segmento cefálico História familiar positiva em 5-10% dos casos História familiar positiva em 30-40% dos casos Responde a drogas dopaminérgicas e anticolinérgicas Responde a betabloqueadores e primidona Melhora com álcool Fonte: Gagliardi et al.¹ 4. DOENÇA DE WILSON BASES DA MEDICINA Também chamada de degeneração hepatolenticular, é uma doença genética autossômica recessiva que leva ao comprometimento do transporte celular de cobre. O prejuízo na excreção de cobre pelas vias biliares leva ao acúmulo dessa substância em vários órgãos, principalmente fígado, cérebro e córneas. É causa de transtorno de movimento que deve sempre ser lembrada, principalmente em indivíduos adultos jovens (menores de 40 anos). Quadro 4. Manifestações clínicas da Doença de Wilson. Sistêmicas Hepáticas, oftalmológicas (Anéis de Kayser- Fleischer), hematológicas (anemia hemolítica), renais, esqueléticas, cardíacas e dermatológicas Neurológicas Distonia, riso sardônico, parkinsonismo, ataxia, tremor postural em “bater de asas”, disartria Psiquiátricas Depressão, psicose, alteração de comportamento Fonte: Adaptado de Lorincz6. 4 .1 . DIAGNÓSTICO Diante de um quadro sugestivo, deve-se solicitar ceruloplasmina sérica, cobre sérico, cobre em urina de 24 horas e exame oftalmológico com lâmpada de fenda. A presença de ceruloplasmina ou cobre sérico baixos, cobre urinário elevado e evidência de Anéis de Kayser-Fleischer no exame oftalmológico levam ao diagnóstico, não sendo necessários todos os quesitos. A ressonância magnética pode apresentar hipersinal em T2 e FLAIR em núcleos da base e tronco (sinal do panda). Transtornos do movimento 12 Neurologia Figura 3. RM com sinal do panda em paciente com doença de Wilson. Em FLAIR, nota-se substância negra e núcleos rubros circundados por hipersinal. Fonte: Yang et al.7 4 .2 . TRATAMENTO A primeira escolha para o tratamento da doença de Wilson é a D-penicilamina, um quelante de cobre. Em caso de efeitos colaterais intoleráveis, pode-se utilizar sais de zinco, que interferem na absorção do cobre. DIA A DIA MÉDICO Sempre pensar em doença de Wilson para transtornos do movimento iniciados em adultos, particularmente abaixo de 40 anos, sobretudo pelo potencial de terapia específica. REFERÊNCIAS 1. Gagliardi RJ, Takayanagui OM. Tratado de neurologia da Academia Brasileira de Neurologia. 2. ed. GEN; 2019. 2. Jankovic, J, Lang, AE. Movement disorders: Diagnosis and Assessment. Neurology in Clinical Practice. 5. ed. Philadelphia: Elsevier; 2007. 3. Radhakrishnan DM, Goyal V. Parkinson's disease: A review. Neurol India [Internet]; 2018 [acesso em 13 jul 2022]; 66(7):26-35. Disponível em: https://www.neurologyindia.com/article.asp?iss- n=0028-3886;year=2018;volume=66;issue=7;spage=- 26;epage=35;aulast=Radhakrishnan. 4. Cacabelos R. Parkinson's Disease: From Pathogenesis to Pharmacogenomics. Int J Mol Sci [Internet]; 2017 [acesso em 10 jul 2022];18(3):551. Disponívvel em: https://www. mdpi.com/1422-0067/18/3/551 5. Connolly BS, Lang AE. Pharmacological treatment of Parkinson disease: a review. JAMA. 2014; 311: 1670-83. 6. Lorincz MT. Neurologic Wilson’s disease. Ann N Y Acad Sci. 2010; 1184: 173-87. 7. Yang J et al. Susceptibility-Weighted Imaging Manifesta- tions in the Brain of Wilson's Disease Patients. PLoS One [Internet]; 2015 [acesso em 10 jul 2022]; 10(4):e0125100. Disponível em: https://openi.nlm.nih.gov/detailedresul- t?img=PMC4411130_pone.0125100.g001&query=Wil- son%27s%20disease&it=xg&lic=by&req=4&npos=51. Transtornos do movimento 13 Cap. 3 QUESTÕES COMENTADAS Questão 1 (SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE DE GOIÁS – GO – 2022) Leia o caso clínico a seguir. Um homem de 52 anos apresentou-se ao neurolo- gista queixando-se de um tremor. Sua esposa havia notado que o sintoma teve início há um ano, princi- palmente quando estava em repouso. Ele também reclamou de andar mais devagar, e sua esposa re- latou que sua voz estava mais suave. Relatou que sua caligrafia havia ficado menor e que era saudável e não tinha queixas de problemas cognitivos. No exame físico, ele tinha um tremor de repouso com frequência moderada na mão direita, com leve roda dentada no braço direito. Ao exame da marcha, ele tinha uma postura ligeiramente flexionada e balan- çou o braço direito menos do que o esquerdo. Qual é o diagnóstico mais provável para esse paciente? ⮦ Doença de Parkinson idiopática. ⮧ Demência com Doença do Corpo de Lewy (DLB). ⮨ Parkinsonismo vascular. ⮩ Parkinsonismo induzido por drogas. Questão 2 (ASSOCIAÇÃO MÉDICA DO PARANÁ – PR – 2021) Na Doença de Parkinson, patologicamente falando, existe a degeneração dos neurônios dopaminérgicos na substância negra, redução da dopamina estriatal e inclusões proteináceas intraneuronais conheci- das como corpos de Lewy que contêm a proteína alfa-sinucleina. Mas existe também o comprometi- mento não dopaminérgico (neurônios colinérgicos, neurônios noradrenergicos e serotoninérgicos) que são responsáveis por manifestações mais preco- ces e não dopaminérgicas. Qual das manifestações abaixo faz parte do conjunto “não dopaminérgico”? ⮦ Rigidez. ⮧ Anosmia. ⮨ Constipação intestinal. ⮩ Desnervação cardíaca. ⮪ Distúrbio comportamental do sono REM (rapid eye movement). Questão 3 (FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DA UNICAMP – SP – 2021). Na avaliação de pacientes com suspeita de doença de Parkinson, tremor induzido por medicamento é um diagnóstico diferencial muito importante. Todas as medicações abaixo podem causar tremor, exceto: ⮦ Risperidona. ⮧ Amitriptilina. ⮨ Ácido valproico. ⮩ Propranolol. Questão 4 (HOSPITAL NAVAL MARCÍLIO DIAS – RJ – 2021). O distúrbio do movimento hipercinético caracterizado por contra- ções musculares sustentadas ou repetidas, padro- nizadas e involuntárias, frequentemente associadas a movimentos de torção e postura anormal é: ⮦ Mioclonia. ⮧ Distonia. ⮨ Atetose. ⮩ Coreia. ⮪ Tique. Transtornos do movimento 14 Neurologia Questão 5 (INSTITUTO DE ASSISTÊNCIA MÉDICA AO SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL – SP – 2021) O diagnóstico da doença de Par- kinson é clínico, ou seja, é feito quando surgem os sintomas motores, como, por exemplo, bradicinesia, rigidez e tremor de repouso, porém, na fase pré- -clínica, já aparecem sintomas não motores muito característicos da doença. São eles: ⮦ Hiposmia; depressão; constipação intestinal; e distúrbio do sono. ⮧ Distúrbio do sono; fadiga; psicose; e depressão. ⮨ Constipação intestinal; incontinência urinária; demência; e dor. ⮩ Disautonomia; hiposmia; depressão; e dor. ⮪ Distúrbio do sono; hiposmia; fadiga; e demência. Questão 6 (HOSPITAL SANTO AMARO/GUARUJÁ – 2018) A coreia reumá- tica de Sydenham é um distúrbio neurológico que afeta a coordenação motora dos portadores de fe- bre reumática. Qual droga abaixo é indicada para controle sintomático nos casos graves? ⮦ Ácido valproico. ⮧ Haloperidol. ⮨ Fenitoína. ⮩ Fenobarbital. ⮪ Midazolan. Questão 7 (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – 2018) Menino de 12 anos é trazido pela mãe à consulta devido a quadro de mo- vimentos involuntários. Na última semana, a mãe e os professores haviam notado que a criança estava mais desatenta e apresentava hiperatividade. Há dois dias, os movimentos involuntários iniciaram, de forma aguda. O menino não tinha antecedentes mórbidos relevantes e não usava medicamentos. A última intercorrência clínica foi uma faringite há um mês, tratada com antibiótico. No exame neu- rológico, observam-se movimentos involuntários generalizados, de curta duração, com intensidade variável e de caráter migratório. Quando o paciente anda, esses movimentos parasitam a marcha e também os movimentos voluntários, e muitas ve- zes o próprio paciente incorpora deliberadamente o movimento involuntário em um movimento vo- luntário originando uma gesticulação exagerada. Não há outras alterações no exame clínico. Qual é a principal hipótese? ⮦ Meningoencefalite herpética. ⮧ Coreia de Sydenham. ⮨ Doença de Parkinson juvenil. ⮩ Doença de Huntington. Questão 8 (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – 2018) Homem de 50 anos, empresário, apresenta tremores nas mãos desde a juventude, que pioraram nos últimos dois anos. Os tremores atrapalham suas atividades profis- sionais. Também se sente inibido quando almoça com clientes ou frequenta festas e jantares, pois os tremores o atrapalham para alimentar-se ou ingerir líquidos. Os tremores melhoram com o consumo de uma taça de vinho, mas não tem o hábito de in- gerir bebidas alcoólicas, especialmente durante o trabalho. Tem dificuldade na escrita. Nos últimos meses, notou aparecimento de tremor cefálico e, mais recentemente, voz trêmula. Seu avô paterno e um tio apresentaram tremor semelhante ao longo da vida. No exame neurológico, apresenta tremor de ação postural e cinético, assimétrico (maior à direita), nos membros superiores. Tem tremor vo- cal e cefálico. Não há outras alterações do exame neurológico. Qual é a principal hipótese diagnóstica? ⮦ Doença de Parkinson. ⮧ Tremor cerebelar. ⮨ Abstinência alcoólica. ⮩ Tremor essencial. Questão 9 (CASA DE CARIDADE DE ALFENAS NSP SOCORRO – 2017) A doença de Parkinson (DP) é uma doença degene- rativa cujas alterações motoras decorrem princi- palmente da morte de neurônios dopaminérgicos da substância nigra que apresentam inclusões Transtornos do movimento 15 Cap. 3 intracitoplasmáticas conhecidas como corpúscu- los de Lewy. A afirmativa INCORRETA com relação à DP é: ⮦ A redução da progressão da DP é uma meta ainda não atingida até o momento, e nenhum medicamento pode ter recomendação na práti- ca clínica com esse propósito. ⮧ A introdução da levodopa representou o maior avanço terapêutico na DP, produzindo benefícios clínicos para praticamente todos os pacientes e reduzindo a mortalidade por essa doença. ⮨ As principais manifestações motoras da DP in- cluem tremor de repouso, bradicinesia, rigidez, roda dentada e anormalidades posturais. ⮩ A prevenção primária (antes que a DP tenha sur- gido) é possível devido ao estudo de marcado- res biológicos associado a fatores de risco am- bientais identificáveis para o desenvolvimento da doença. Questão 10 (SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE DE GOIÁS – 2016) Na doença de Parkinson, qual é a principal deficiência neuro- química e em que via anatômica ela se encontra? ⮦ Dopamina – via mesolímbica. ⮧ Carbidopa – via nigroestriatal. ⮨ Levodopa – via nigrolenticular. ⮩ Dopamina – via nigroestriatal. Questão 11 (FUNDAÇÃO DE BENEFICÊNCIA HOSPITAL DE CIRURGIA – 2020) Em relação à Doença de Parkinson, assinale a afir- mativa INCORRETA: ⮦ A terapia com levodopa pode ser considerada curativa, impedindo a progressão da doença. ⮧ Anticolinérgicos e agonistas dopaminérgicos são exemplos de tratamento da doença. ⮨ Está relacionada à depleção de dopamina na substância negra e núcleo estriado. ⮩ Doença clinicamente caracterizada por uma combinação detremor, rigidez, bradicinesia e instabilidade postural. ⮪ Em casos selecionados, estimulação cerebral profunda pode ser uma alternativa terapêutica. Transtornos do movimento 16 Neurologia GABARITO E COMENTÁRIOS Questão 1 dificuldade: Y Dica do professor: Diante de pacientes com apre- sentação de tremor, devemos identificar suas prin- cipais características para diagnóstico diferencial. Os tremores podem ser de repouso, e tremor em que a atividade oscilatória se manifesta durante a inati- vidade do grupo muscular e melhora com a mobili- zação, é o tremor característico do parkinsonismo. De forma oposta, existem também os tremores de ação, em que o movimento voluntário desencadeia a atividade oscilatória. Vamos então analisar cada uma das alternativas e associar os outros sintomas para definir a principal suspeita diagnóstica! Alternativa A: CORRETA. A Doença de Parkinson (DP) é uma doença neurodegenerativa por morte neuro- nal na região da substância negra, que acaba por hipoestimular a via talâmica, que facilita o movimen- to, e hiperestimular a via inibitória do movimento. Assim, instala-se um quadro de tremor de repouso assimétrico que, apesar de ser o sintoma mais co- nhecido, não é o principal da Doença de Parkinson. O principal sintoma é a bradicinesia, associa-se ainda rigidez ao movimento, que se traduz como fenômeno da roda denteada. A presença desses 3 sinais e sintomas permite o diagnóstico clínico da DP. Os pacientes costumam ainda apresentar voz baixa, letra pequena e instabilidade postural. Perceba que o paciente do quadro se encaixa nas características dessa doença! Alternativa B: INCORRETA. A Demência dos Corpús- culos de Lewy são o segundo tipo mais comum de demência do tipo neurodegenerativa, corresponde ao acúmulo de Corpos de Lewy (aglomerados pro- teicos) em regiões específicas do encéfalo, como córtex e tronco cerebral. O paciente pode apresentar sintomas autonômicos, neuropsiquiátricos, altera- ções do sono, do movimento e declínio cognitivo, com comprometimento da memória e da atenção que afetam as atividades cotidianas. É um quadro mais comum em pacientes mais jovens, por volta dos 50 anos, e o declínio cognitivo pode aparecer junto com os sintomas motores (os mesmos pre- sentes no Parkinson podem estar presentes aqui), porém uma característica marcante desse quadro é a flutuação dos sintomas ao longo do dia. Para diferenciar da Doença de Parkinson é importante identificar que nesses casos a demência precede o quadro de alterações motoras. Perceba que o pa- ciente do caso não apresentava declínio cognitivo, o que afasta a suspeita de Demência dos Corpos de Lewy. Alternativa C: INCORRETA. Parkinsonismo é uma sín- drome hipocinética que se apresenta com bradici- nesia, rigidez, instabilidade postural e tremor em repouso. Desse modo, já ficamos em alerta, pois percebemos que nem todo paciente com essa apre- sentação clínica é portador de Doença de Parkinson, mas sim de parkinsonismo. O parkinsonismo vascu- lar, é um tipo secundário dessa síndrome, caracte- riza-se por um acometimento vascular, como AVC isquêmico por exemplo, em regiões que modulam o movimento. Um fator fundamental para diagnósti- co diferencial é que nos parkinsonismo vascular os sintomas hipocinéticos são exclusivos dos mem- bros inferiores. Com isso, afastamos também essa suspeita no paciente em questão. Alternativa D: INCORRETA. O parkinsonismo induzido por drogas também é um parkinsonismo secundário, apresentando os mesmos sintomas da síndrome hipocinética descrita na alternativa anterior, po- rém aqui o quadro se instala após o uso de alguma droga, sendo o mais comum após uso de neuro- lépticos, como o haloperidol. Os sintomas podem persistir mesmo após a retirada do medicamento, Transtornos do movimento 17 Cap. 3 mas a associação do início dos sintomas ao uso da medicação é fundamental para o diagnóstico. Como o paciente apresentado não traz na história uso de medicações como fator desencadeante para os sintomas motores, afastamos também esse diagnóstico. ✔ resposta: ⮦ Questão 2 dificuldade: Y Dica do professor: As manifestações motoras clás- sicas da Doença de parkinson relacionadas ao dé- ficit de dopamina são bradicinesia, rigidez, tremor de repouso e instabilidade postural. Entretanto, é bem reconhecido que a doença começa muitos anos antes, até mesmo em outros órgãos do cor- po com manifestações que não necessariamente estão associadas ao déficit dopaminérgico como anosmia, constipação, transtorno comportamental do sono REM e disautonomia cardíaca. Alternativa A: CORRETA. Rigidez é manifestação do- paminérgica. Alternativa B: INCORRETA. Anosmia é manifestação não-dopaminérgica. Alternativa C: INCORRETA. Constipação é manifesta- ção não-dopaminérgica. Alternativa D: INCORRETA. A desnervação cardíaca é manifestação não-dopaminérgica. Alternativa E: INCORRETA. O transtorno comporota- mental do sono REM é manifestação não-dopami- nérgica. ✔ resposta: ⮦ Questão 3 dificuldade: Y Dica do professor: As principais causas de tre- mor em pacientes atendidos na Atenção Primária à Saúde são: exacerbação de tremor fisiológico, tremor essencial (acomete 5% da população aci- ma de 40 anos) e as síndromes parkinsonianas. É importante definir corretamente sua origem, pois o tratamento e o prognóstico são variados. Medi- cações e substâncias associadas a exacerbação de tremor: ácido valproico, agonistas beta-adre- nérgicos, amiodarona, antidepressivos tricíclicos, anfetaminas, atorvastatina, cafeína, carbamazepina, ciclosporina, corticoesteroides, fluoxetina, antipsi- cóticos, hipoglicemiantes, hormônios tireoidianos, lítio, metilfenidato, metoclopramida, pseudoefedri- na, terbutalina e verapamil. Alternativa A: CORRETA. É um antipsicótico. Alternativa B: CORRETA. É um antidepressivo tricíclico. Alternativa C: CORRETA. O ácido valprocio é uma das medicações associadas à exacerbação do tremor. Alternativa D: INCORRETA. O propranolol não causa exacerbação do tremor. ✔ resposta: ⮩ Questão 4 dificuldade: Y Dica do professor: Questão boa para revisar os principais transtornos do movimento. Vamos co- mentar cada alternativa. Alternativa A: INCORRETA. A mioclonia é um abalo breve e rápido de duração de poucos segundos. Alternativa B: CORRETA. Boa descrição para distonia. Alternativa C: INCORRETA. Atetose é um movimento vermicular de extremidades semelhante à coreia. Alternativa D: INCORRETA. A coreia é um movimento hipercinético arrítmico e imprevisível de extremida- des que lembra uma dança. Alternativa E: INCORRETA. Os tiques são movimentos rápidos, recorrentes e não rítmicos (tiques moto- res) ou sons vocais (tiques vocais) incontroláveis. ✔ resposta: ⮧ Questão 5 dificuldade: Y Dica do professor: A Doença de Parkinson (DP) possui sintomas motores (bradicinesia, rigidez e tre- mor de repouso) e diversos sintomas não motores, como constipação, hiposmia, transtorno compor- tamental do sono REM e depressão. Esses sinto- mas podem surgir até décadas antes do início dos sintomas motores. Y Alternativa A: CORRETA. Vide dica do professor. Y Alternativa B: INCORRETA. Psicose não é um sin- toma típico de DP, devendo levantar dúvida quanto ao diagnóstico. Transtornos do movimento 18 Neurologia Y Alternativa C: INCORRETA. Incontinência urinária não é comum na DP. No contexto de sintomas par- kinsonianos presentes, devemos pensar em outras patologias, como Atrofia de Múltiplos Sistemas. Y Alternativa D: INCORRETA. Disautonomia não é comum na DP. No contexto de sintomas parkinso- nianos presentes, devemos pensar em outras pato- logias, como Atrofia de Múltiplos Sistemas. Y Alternativa E: INCORRETA. A demência pode ocor- rer na DP, porém geralmente em fases mais tardias, anos a décadas após o surgimentos dos sintomas motores. ✔ resposta: ⮦ Questão 6 dificuldade: Y Dica do professor: A Coreia de Sydenham é um quadro autolimitado, não deixando sequelas.Faloperidol é o medicamento mais usado no trata- mento da Coreia de Sydenham muito sintomática. O haloperidol, além de reduzir a intensidade dos movimentos coreicos, também produz melhora dos sintomas psiquiátricos associados ao quadro. ✔ resposta: ⮧ Questão 7 dificuldade: Y Dica do professor: Questão que traz um paciente com descrição de um quadro de coreia. A causa mais comum na faixa pediátrica é a Coreia de Syde- nham, que pode ocorrer em até 20% dos pacientes com febre reumática. Essa informação nos cha- ma a atenção, pois na questão é informado que o paciente apresentou quadro de faringite há 1 mês. Logo, a principal hipótese diagnóstica é de Coreia de Sydenham. ✔ resposta: ⮧ Questão 8 dificuldade: Y Dica do professor: A questão nos faz pensar em tremor essencial, uma vez que o paciente tem histó- rico familiar de tremor semelhante, sendo que esse tremor é de ação e postura, além de referir melhora com pouca quantidade de álcool e apresentar exa- me neurológico normal. ✔ resposta: ⮩ Questão 9 dificuldade: Y Dica do professor: A rigidez da DP é descrita como tipo “roda dentada”; a do AVC, do tipo “canivete”. Alternativa A: INCORRETA. O tratamento da DP visa ao controle dos sintomas com o objetivo de manter o portador de DP com o máximo de autonomia e independência funcional possível, porém não mo- difica o curso progressivo da doença. Alternativa B: INCORRETA. O tratamento com levodo- pa traz grande alívio sintomático para os pacientes com DP, reduz quedas e impacta na mortalidade. Alternativa C: INCORRETA. Descreve corretamente o quadro clínico da DP. Alternativa D: CORRETA. Ainda não há marcadores biológicos para DP usados na prática clínica que possam indicar medidas eficazes de prevenção primária. ✔ resposta: ⮩ Questão 10 dificuldade: Y Dica do professor: A Doença de Parkinson (DP) é resultante da morte dos neurônios produtores de dopamina da substância negra. A DP ocorre por disfunção do sistema nigroestriatal, com diminuição da concentração de dopamina ao nível dos receptores dopaminérgicos situados nos núcleos da base. ✔ resposta: ⮩ Questão 11 dificuldade: Y Dica do professor: A doença de Parkinson é um transtorno do movimento hipocinético de origem neurodegenerativa causado por redução na produ- ção de dopamina na substância negra e resultando em uma combinação variável de bradicinesia, hiper- tonia, tremor de repouso e instabilidade postural. O tratamento é sintomático e não curativo, podendo ser utilizados diversos fármacos com esse objeto Transtornos do movimento 19 Cap. 3 (levodopa, agonistas dopaminérgicos, anticolinér- gicos, inibidores da monoaminoxidase). Casos re- fratários podem ser candidatos a terapia cirúrgica com estimulação cerebral profunda. ✔ resposta: ⮦ Fixe seus conhecimentos! 20 FIXE SEU CONHECIMENTO COM RESUMOS Use esse espaço para fazer resumos e fixar seu conhecimento! _____________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ Transtornos do movimento Parkinsonismo Doença de parkinson Parkinsonismo atípico (parkinson-plus) Parkinsonismo secundário Coreias Coreia de Huntington Coreia de Sydenham Tremor essencial Doença de Wilson Diagnóstico Tratamento Referências Questões comentadas