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TECNOLOGIA DE ALIMENTOS AULA 2 Profª Suelen Ávila 2 CONVERSA INICIAL Como vimos anteriormente, nos primórdios da civilização humana não existiam geladeiras, freezers e conservantes químicos para facilitar a conservação dos alimentos. A conservação dos alimentos sempre foi um desafio para o ser humano. Foi somente com a evolução do homem e da tecnologia que se tornou possível preservar e estocar a comida em casa e nas indústrias da forma como realizamos atualmente, utilizando diferentes métodos, minimizando a deterioração e preservando seu valor nutritivo com maior facilidade. Nesta etapa, estudaremos os métodos gerais de conservação de alimentos utilizados pela indústria alimentícia. Veremos os princípios e fundamentos em que se baseiam a conservação pela temperatura (uso do calor e do frio), pelo controle de umidade, por meio de fermentações, pela adição de solutos, pelo uso de aditivos e por meio de métodos inovadores. TEMA 1 – MÉTODOS DE CONSERVAÇÃO DE ALIMENTOS Nossos ancestrais, com a descoberta do fogo, começaram a usar a defumação, utilizada até hoje na preservação de certas carnes e derivados. Depois aprenderam a usar o sal na conservação de carnes e peixes, condimentos para melhorar a palatibilidade de certos alimentos e realizavam fermentações de produtos vegetais e animais. Os antigos egípcios usavam corantes e aromatizantes e os romanos empregavam nitratos, especiarias e corantes para conservar os alimentos e melhorar a aparência. Hoje, os consumidores exigem e desfrutam de uma oferta de alimentos saborosa, nutritiva, segura, conveniente, colorida e acessível (Gava et al., 2009; IFIC/FDA, 2010). A maior parte dos alimentos de origem animal e vegetal pode se deteriorar com facilidade. Para os alimentos serem conservados, deve-se impedir toda a modificação ocasionada pelos microrganismos, enzimas e outras causas deteriorantes (Evangelista, 2008; Gava et al., 2009). Assim, os métodos de conservação têm como objetivo a eliminação total ou parcial, ou a modificação dos agentes que alteram os alimentos, de forma que o meio se torne não propício a qualquer manifestação vital ou atividade bioquímica. A melhor metodologia de conservação a ser empregada será aquela 3 que garanta de maneira satisfatória a conservação do produto com a menor alteração das condições naturais dos alimentos (Gava et al., 2009). Os principais métodos de conservação de alimentos podem ser agrupados nas seguintes categorias: • Pelo calor; • Pelo frio; • Pelo controle de umidade; • Fermentações; • Pela adição de solutos; • Pelo uso de aditivos; • Métodos inovadores. TEMA 2 – CONSERVAÇÃO DE ALIMENTOS PELA TEMPERATURA A temperatura é um dos agentes que mais influenciam no crescimento microbiano, na atividade das enzimas e na velocidade de muitas reações químicas (Ordóñez et al., 2005). Sendo assim, o uso de temperatura alta ou baixa é um método de conservação que visa modificar ou extinguir as condições térmicas que são ótimas para a atividade dos agentes microbiológicos, das enzimas e das reações químicas. 2.1 Conservação de alimentos pela aplicação de calor A destruição dos microrganismos pelo calor segue uma trajetória logarítmica, indicando que, a uma determinada temperatura, destroem-se em tempos iguais porcentagens idênticas de microrganismos (Ordóñez et al., 2005). Os tratamentos térmicos aplicados nos alimentos correspondem a quatro modalidades: 2.1.1 Esterilização Operação unitária que visa destruir os microrganismos para obter a esterilidade comercial. Esterilidade comercial significa que um produto alimentício poderá até conter certo número de microrganismos e esporos viáveis, porém estes não têm condições de se desenvolver e o produto é seguro (Ordóñez et al., 2005). O alimento é aquecido a uma temperatura alta suficiente 4 por um tempo adequadamente longo para destruir a atividade microbiana e enzimática (Fellows, 2006). Os alimentos podem ser esterilizados já acondicionados (em autoclave ou esterilizadores hidrostáticos) ou sem acondicionar (tratamentos UHT direto e indireto), com o posterior acondicionamento asséptico (Ordóñez et al., 2005). 2.1.2 Pasteurização Esse processo consiste em destruir os microrganismos patogênicos não esporulados e/ou reduzir significativamente a microbiota (Ordóñez et al., 2005; Evangelista, 2008). A temperatura empregada não ultrapassa 100 °C, sob pressão atmosférica normal, podendo esse aquecimento ser produzido por vapor, água quente, radiações ionizantes, calor seco e micro-ondas (Fellows, 2006; Evangelista, 2008; Gava et al., 2009). Emprega-se a pasteurização quando os tratamentos térmicos mais elevados podem interferir na característica sensorial do produto (leite, sucos); quando os agentes microbianos de alterações não são muito termorresistentes, como as leveduras nos sucos de frutas e, quando destruímos os agentes competitivos, permitindo uma fermentação benéfica, que geralmente se realiza pela adição de um inóculo (fermento), como na elaboração de queijos (Gava et al., 2009). Pode-se conseguir a estabilidade microbiológica do produto. Como é o caso do vinagre, em que se pretende destruir a microbiota mais termorresistente (mofos e leveduras), capaz de desenvolver-se em pH tão baixo (Ordóñez et al., 2005). Geralmente completa-se o processo de pasteurização com um outro método, como a refrigeração (no caso do leite); adicionando concentrações altas de açúcar (leite condensado); criando condições anaeróbicas pelo fechamento de recipientes a vácuo. As categorias desse tratamento são: a) LTH (low temperature holding) ou pasteurização lenta: emprega-se tempos longos (aproximadamente 30 minutos) e temperaturas baixas (62 °C a 68 °C) (Ordóñez et al., 2005). b) HTST (high temperature, short time) ou pasteurização rápida: emprega- se temperaturas altas (72 °C a 85 °C) e tempos curtos (15 a 20 segundos) (Ordóñez et al., 2005; Gava et al., 2009). 5 Os alimentos pasteurizados devem ser consumidos dentro de um curto espaço de tempo, de 2 a 16 dias para o caso do leite e de 30 a 60 dias para os sucos de frutas. 2.1.3 Termização É um processo em fluxo contínuo, similar à pasteurização HTST, mas é um tratamento menos intenso (10 a 15 segundos; 60 a 65 °C; devendo ser imediatamente estocado a 4 °C ou menos). Tem-se aplicado na recepção do leite cru para estocagem por horas ou dias, com o objetivo de manter baixa a taxa de bactérias psicotrópicas, que são muito termolábeis. Não é capaz de eliminar os microrganismos não esporulados, como o processo de pasteurização elimina (Ordóñez et al., 2005; Gava et al., 2009). 2.1.4 Apertização Consiste no tratamento térmico aplicado em recipientes hermeticamente fechados, na ausência relativa de ar, até uma certa temperatura e num tempo suficiente para a destruição dos microrganismos. Esse processo tem sido mundialmente utilizado pela indústria e na produção doméstica. É também chamado de conservas de alimento enlatado, por ser a lata a embalagem mais usada, mas pode-se usar vidros e até embalagens flexíveis (Gava et al., 2009). Como ocorre a esterilização do conjunto embalagem/produto, consequentemente os alimentos podem ser guardados na temperatura ambiente por mais tempo. Uma vez aberto, o alimento deverá ser consumido rapidamente, podendo ser guardado por alguns dias, dependendo do caso (Gava et al., 2009). Como exemplos de alimentos apertizados temos as conservas vegetais (tomate, ervilha, milho, feijão, cogumelo, palmito), frutas enlatadas ou compotas (abacaxi, pêssego, figo, pera), pescado (sardinha, atum, marisco),carnes (bovina e frango), sopas e derivados de frutas (geleias e doces em massa) (Gava et al., 2009). Produtos ácidos, com pH abaixo de 4,5, como suco de frutas, suco de tomate, bebidas isotônicas e energéticas, podem ser processados por aquecimento em água fervente sob pressão atmosférica em cozinhadores. Os alimentos de baixa acidez (ervilha, milho, feijão, carnes, leite, soja, e água de coco) requerem altas temperaturas sob pressão de vapor. A diferença entre os 6 dois tipos de tratamento está no fato de que, para produtos de baixa acidez, o processamento deve ser suficiente para eliminar os esporos do Clostridium botulinum, enquanto nos produtos ácidos, a alta acidez dos produtos elimina a possibilidade de desenvolvimento desses microrganismos, não havendo, dessa maneira, a produção de toxinas, embora os esporos possam estar presentes e sobreviver ao tratamento (Fellows, 2006; Gava et al., 2009). A aplicação de calor suficiente para obter a esterilidade comercial do produto apertizado resultará em alterações organolépticas e nutritivas, como alterações de cor, sabor, aroma, textura, viscosidade e perda de certas vitaminas (Fellows, 2006; Gava et al., 2009). 2.2 Conservação de alimentos pela aplicação do frio A aplicação do frio proporciona o aumento da vida útil dos alimentos, sejam frescos ou processados, durante mais tempo, com mínimas modificações de suas características nutritivas e organolépticas (Ordóñez et al., 2005). A ação do frio na conservação dos alimentos é tanto mais eficiente quanto mais baixa for a temperatura e quanto mais rápido for resfriado o alimento. A aplicação do frio na conservação dos alimentos está dividida em duas categorias: refrigeração e congelamento. 2.2.1 Refrigeração Ocorre a redução e a manutenção da temperatura dos alimentos acima de seu ponto de congelamento, sendo mais usuais as temperaturas compreendidas entre 8 °C e -1 °C. Essa redução de temperatura retarda o crescimento dos microrganismos, as atividades metabólicas dos tecidos animais e vegetais depois do sacrifício e da colheita, das reações químicas e enzimáticas e da perda de umidade por um período limitado de dias ou semanas dependendo das características do produto e da temperatura de armazenamento (Ordóñez et al., 2005). A refrigeração pode ser usada como meio de conservação básica ou como conservação temporária até que se aplique outro método de conservação. Os alimentos refrigerados sofrem mudanças mínimas em suas características sensoriais e nutricionais, dentro de um certo período, razão pela qual são aceitos pelo consumidor como produtos de alta qualidade (Gava et al., 2009). 7 2.2.2 Congelamento Ocorre uma maior redução da temperatura do alimento, abaixo do seu ponto de congelamento, considerando que a maioria dos alimentos se inicia em temperaturas menores que 0 °C. Para se conservar por longos períodos, normalmente os alimentos são congelados e mantidos a -18 °C. Nesse processo, uma parte da água líquida do alimento se transforma em gelo (Ordóñez et al., 2005). Assim, o crescimento e a atividade dos microrganismos são impedidos e a velocidade das reações químicas e enzimáticas diminui substancialmente, permitindo a conservação dos alimentos por longos de meses ou até anos. Pode- se encontrar, também, na tecnologia de alimentos, o termo ultracongelado, que define os produtos que foram congelados o mais rapidamente possível em torno de -10 °C no congelador ou abaixo -18 °C nos freezers e armazenados em temperatura inferior a -18 °C. Nessas condições, assegura-se a ótima qualidade do alimento (Ordóñez et al., 2005; Gava et al., 2009). Quanto menor for a temperatura, melhor será a retenção de nutrientes. As operações de lavagem, corte e branqueamento, tratamentos que podem anteceder o processo de congelação, poderão causar a perda de alguns nutrientes (Gava et al., 2009). O que congela no alimento é a água, mas nem toda água é congelada, mesmo em baixíssimas temperaturas, e sim a chamada água livre, uma vez que a outra porção, a água ligada, encontra-se intimamente combinada a solutos diversos, o que impede seu congelamento. Entre os principais produtos que se prestam para congelamento estão incluídos carnes, ervilha, morango, milho e hortaliças em geral (Gava et al., 2009). TEMA 3 – CONSERVAÇÃO POR UMIDADE Sabe-se que a umidade é necessária ao crescimento dos microrganismos; assim, se diminuirmos bastante o seu conteúdo nos alimentos, criaremos condições desfavoráveis para o crescimento microbiano (Gava et al., 2009). A secagem é definida como a remoção deliberada e em condições controladas da água, ou qualquer outro líquido, de um material sólido como os alimentos (Ordóñez et al., 2005; Gava et al., 2009). Essa operação é realizada 8 por evaporação ou, no caso da liofilização, por sublimação da água, e ocorre em uma temperatura inferior à temperatura de ebulição do líquido que ser quer retirar do material sólido. Na maioria dos casos, o produto resultante apresenta umidade inferior a 3% (Ordóñez et al., 2005; Gava et al., 2009). Os objetivos da secagem consistem em aumentar a vida útil dos alimentos, reduzir o peso e o volume, e em algumas situações permitem obter produtos de mais fácil utilização e com características organolépticas distintas. Como exemplo de produtos pode-se mencionar frutas secas (figos, banana- passa e uva-passa), nozes, peixes e carnes (Ordóñez et al., 2005; Gava et al., 2009). Os diversos processos de secagem dos produtos de origem vegetal e animal podem ser enquadrados dentro de dois grupos: secagem natural ou ao sol; e secagem artificial ou desidratação. A secagem natural é mais econômica, porém é mais lenta, requer mão de obra e área para realização da secagem e os alimentos ficam sujeitos a contaminações e perdas devido ao contato com poeira, insetos, pássaros e roedores. A desidratação é mais rápida e ocorre em condições de temperatura, umidade, tempo e corrente de ar criteriosamente controladas e as condições sanitárias são mais controláveis (Gava et al., 2009). A concentração consiste na eliminação de água dos alimentos líquidos por ebulição, ou seja, a evaporação ocorre na temperatura de ebulição do líquido que se quer retirar da solução líquida, para concentrar os sólidos totais e assim reduzir a atividade de água (aw). Mas pode ser realizada também com outros fins, como para concentração de líquidos antes da aplicação de outras operações (desidratação, congelamento, esterilização) facilitando o processamento e proporcionando considerável economia de energia; para redução do peso e do volume para facilitar e baratear os custos de transporte, armazenamento e distribuição; e para facilitar o uso e diversificar a oferta de produtos (Ordóñez et al., 2005). A remoção de água pode ser executada pelo processo de evaporação, em forma de vapor; pelo processo de crio concentração, em forma de gelo; pelo processo de membranas, em forma líquida e, ainda, por outros métodos. A evaporação se distingue da secagem pelo produto final, que ainda é líquido. As características sensoriais mais afetadas durante a evaporação são o aroma e a cor. Esta operação é utilizada para a produção de leite concentrado ou 9 condensado, suco de frutas concentrados, geleias, doces em massa, sal marinho, purês e extrato de tomate (Ordóñez et al., 2005; Gava et al., 2009). TEMA 4 – CONSERVAÇÃO POR ADIÇÃO DE SOLUTOS E ADITIVOS A conservação por adição de solutos consiste na adição elevada de sal ou de açúcar, que faz com que os microrganismos que causariam a deterioração dos alimentos percam água do seu interior para o meio externo que está concentrado com soluto (sal ou açúcar), processo chamado de pressão osmótica. Quanto maior a concentração de soluto, maior a pressão osmótica, menor a atividade de água, criandocondições desfavoráveis para o crescimento e a reprodução da maioria das espécies de bactérias, leveduras e bolores. A função dos aditivos também é prevenir a deterioração por microrganismos com a adição de substâncias químicas, que além de atuarem como conservantes, podem também melhorar outras propriedades dos alimentos. O uso do sal e da fumaça normalmente associados ao aquecimento, secagem e outros processos, já foi uma das melhores maneiras de aumentar a vida de prateleira dos alimentos. No entanto, com o uso de técnicas alternativas como refrigeração, congelamento e desidratação, a salga e a defumação são mais usados para transmitir aroma, sabor e coloração, características sensoriais apreciadas pelos consumidores (Gava et al., 2009). As carnes (boi, ovelha, porco, búfalo, aves etc.), os pescados, alguns derivados de leite e certas hortaliças são tipos de alimentos que usam a salga e/ou defumação. Exemplos são a carne bovina salgada dessecada (charque e carne-de-sol), carne bovina salgada curada seca (jerked beef) e pescado (bacalhau, salmão defumado, haddock, tambaqui, tucunaré, pescada, sardinha e outros peixes/crustáceos) (Gava et al., 2009). A salga é muitas vezes uma operação intermediária na obtenção de um alimento defumado. É praticada por métodos artesanais e industriais, mediante a aplicação dos processos conhecidos como salga seca, salga úmida (salmoura) e salga mista, dependendo da matéria-prima, objetivo do tratamento e fatores econômicos. A salga a seco consiste na simples deposição do sal, 20-30%, sobre as peças ou no friccionamento nas superfícies dos alimentos por um determinado tempo. Na salga em salmoura, a matéria-prima é colocada em recipientes (tanques) onde se encontra uma salmoura concentrada em quantidade suficiente para submergir as peças. Na salga mista, as peças 10 salgadas são colocadas em tanques onde se acumula uma salmoura da própria umidade devido à penetração do sal (Gava et al., 2009). A defumação consiste em impregnar nas carnes, embutidos e queijos, a fumaça obtida da combustão incompleta de madeira ou serragem ou carvão. A ação conservadora dos produtos defumados ocorre devido ao efeito combinado da salga, cozimento, secagem e de certas substâncias químicas presentes na fumaça (Gava et al., 2009). O açúcar, especialmente quando aliado ao aquecimento, é um bom agente de conservação dos produtos alimentícios. A adição de açúcar tem como objetivo conservar o alimento por mecanismo osmótico, diminuindo a atividade de água. As geleias, doces em massa, frutas cristalizadas, em conserva e glaceadas, leite condensado, melaço e mel, são exemplos de produtos conservados pela presença de açúcar (Gava et al., 2009). Cada país possui sua própria legislação sobre aditivos alimentares. No Brasil, segundo a RDC n. 540 de 27/10/1997, da Anvisa, aditivo alimentar é qualquer ingrediente adicionado intencionalmente aos alimentos, sem propósito de nutrir, com o objetivo de modificar as características físicas, químicas, biológicas ou sensoriais, durante a fabricação, processamento, preparação, tratamento, embalagem, acondicionamento, armazenagem, transporte ou manipulação de um alimento. Ao agregar-se poderá resultar em que o próprio aditivo ou seus derivados se convertam em um componente de tal alimento. Esta definição não inclui os contaminantes ou substâncias nutritivas que sejam incorporadas ao alimento para manter ou melhorar suas propriedades nutricionais. (Brasil, 1997) O uso de aditivos justifica-se por razões tecnológicas, sanitárias, nutricionais ou sensoriais, sempre que sejam utilizados aditivos autorizados em concentrações tais que sua ingestão diária não supere os valores de ingestão diária aceitável recomendados e atenda as exigências de pureza estabelecidas pela FAO/OMS ou pelo Food Chemical Codex. E assim, sirva a um dos seguintes propósitos: a) Aumentar a conservação ou a estabilidade com resultante diminuição nas perdas de alimentos; b) Manter ou melhorar o valor nutritivo dos alimentos; c) Tornar os alimentos mais atrativos aos consumidores, porém sem levá-los a uma confusão; e d) Fornece condições essenciais ao processamento do alimento (Brasil, 1997; Gava et al., 2009). 11 Entretanto, o uso de aditivos não é justificável e não é permitido quando: a) Houver evidência ou suspeita de que o aditivo possui toxicidade real; b) Interferir sensível ou desfavoravelmente no valor nutritivo do alimento; c) Servir para encobrir falhas no processamento e nas técnicas de manipulação do alimento; d) Encobrir alteração na matéria-prima do produto já elaborado; e) Induzir o consumidor a erro, engano ou confusão; e e) Não satisfazer a legislação de aditivos em alimentos (Brasil, 1997; Gava et al., 2009). A legislação brasileira define 23 funções de aditivos alimentares: 1. Agente de massa: substância que proporciona o aumento de volume e/ou da massa dos alimentos, sem contribuir significativamente para o valor energético do alimento. 2. Antiespumante: substância que previne ou reduz a formação de espuma. 3. Antiumectante: substância capaz de reduzir as características higroscópicas dos alimentos e diminuir a tendência de adesão, umas às outras, das partículas individuais. 4. Antioxidante: substância que retarda o aparecimento de alteração oxidativa no alimento. 5. Corante: substância que confere, intensifica ou restaura a cor de um alimento. 6. Conservador: substância que impede ou retarda a alteração dos alimentos provocada por microrganismos ou enzimas. 7. Edulcorante: substância diferente dos açúcares, que confere sabor doce ao alimento. 8. Espessantes: substância que aumenta a viscosidade de um alimento. 9. Geleificante: substância que confere textura por meio da formação de um gel. 10. Estabilizante: substância que torna possível a manutenção de uma dispersão uniforme de duas ou mais substâncias imiscíveis em um alimento. 11. Aromatizante: substância ou mistura de substâncias com propriedades aromáticas e/ou sápidas, capazes de conferir ou reforçar o aroma e/ou sabor dos alimentos. 12 12. Umectante: substância que protege os alimentos da perda de umidade em ambiente de baixa umidade relativa ou que facilita a dissolução de uma substância seca em meio aquoso. 13. Regulador de acidez: substância que altera ou controla a acidez ou alcalinidade dos alimentos. 14. Acidulante: substância que aumenta a acidez ou confere um sabor ácido aos alimentos. 15. Emulsionante/emulsificante: substância que torna possível a formação ou manutenção de uma mistura uniforme de duas ou mais fases imiscíveis no alimento. 16. Melhorador de farinha: substância que, agregada à farinha, melhora sua qualidade tecnológica para os fins a que se destina. 17. Realçador de sabor: substância que ressalta ou realça o sabor/aroma de um alimento. 18. Fermento químico: substância ou mistura de substâncias que liberam gás e, desta maneira, aumentam o volume da massa. 19. Glaceante: substância que, quando aplicada na superfície externa de um alimento, confere uma aparência brilhante ou um revestimento protetor. 20. Agente de firmeza: substância que torna ou mantém os tecidos de frutas ou hortaliças firmes ou crocantes, ou interage com agentes geleificantes para produzir ou fortalecer um gel. 21. Sequestrante: substância que forma complexos químicos com íons metálicos. 22. Estabilizante de cor: substância que estabiliza, mantém ou intensifica a cor de um alimento. 23. Espumante: substância que possibilita a formação ou a manutenção de uma dispersão uniforme de uma fase gasosa em um alimento líquido ou sólido. TEMA 5 – FERMENTAÇÃO E IRRADIAÇÃO A fermentação é um processo no qual existem trocas químicas em um substrato orgânico pela ação das enzimas elaboradas por certos tipos de microrganismos e pode ser classificada pelo materiala fermentar, pelo produto da fermentação ou pelo agente de fermentação. Quanto aos materiais podemos 13 citar os açúcares, celulose, pectina e a albumina. Quanto ao produto de fermentação, temos: alcoólica, acética, lática, propionica, butirica, vitaminas, antibióticos, cítrica e acetona-butanol. Quanto ao agente de fermentação, podem ser provocadas por leveduras, bactérias e bolores (Gava et al., 2009). Os alimentos/bebidas em que ocorrem tais fermentações, isoladas ou em conjunto, são bebidas alcoólicas, panificação, queijos, iogurtes, hortaliças (picles e chucrute), azeitonas, carnes (salame), café, cacau, produtos de soja, fermentados de milho, mandioca e vinagre (Fellows, 2006; Gava et al., 2009). As principais vantagens da fermentação como método de conservação de alimentos são: • O uso de condições brandas de pH e temperatura, que mantêm (e geralmente melhoram) as propriedades nutricionais e as características sensoriais dos alimentos; • A produção de alimentos que possuem aroma e textura que não podem ser obtidos por outros métodos; • O baixo consumo de energia devido às condições de operações brandas; • Custos de investimento e operação relativamente baixos; • Tecnologias relativamente simples (Fellows, 2006). O uso de um processo físico chamado irradiação vem sendo utilizado em grande escala, melhorando a qualidade e a durabilidade dos produtos. Essa tecnologia consiste em submeter o alimento, já embalado ou a granel, a doses controladas de radiação ionizante (raios X, raios gama ou feixe de elétrons), com finalidades sanitária, fitossanitária e ou tecnológica (Brasil, 2001; Gava et al., 2009). É um método de conservação permitido em 38 países, para destruição microbiana ou inibição de alterações bioquímicas (Fellows, 2006). Poderão ser utilizadas nos alimentos as irradiações ionizantes, em geral, cuja energia seja inferior ao limiar das reações nucleares que poderiam induzir radioatividade no material irradiado. A irradiação de alimentos para fins de sua exposição à venda, ou entrega ao consumo, ou à industrialização, só poderá ser efetuada por estabelecimentos devidamente licenciados pela autoridade competente e após autorização da Comissão Nacional de Energia Nuclear. A irradiação, assim como qualquer outro processo de tratamento de alimentos, não deve ser utilizada em substituição as boas práticas de fabricação e/ ou agrícolas (Brasil, 1973, 2001; Gava et al., 2009). A principal desvantagem da irradiação é 14 o custo elevado de uma planta de irradiação e as principais vantagens são as seguintes: • Há pouco ou nenhum aquecimento do alimento e, portanto, alterações negligenciáveis das características sensoriais; • Os alimentos embalados ou congelados podem ser irradiados; • A energia requerida é muito baixa; • As alterações no valor nutricional dos alimentos são comparáveis com outros métodos de conservação de alimentos; • O processo é controlado automaticamente e tem baixo custo operacional (Fellows, 2006). Como exemplos de alimentos irradiados temos a batata, alho e cebola, que são irradiados para inibição do brotamento. As frutas, grãos, farinhas, cacau e alimentos desidratados são irradiados para desinfecção/ desinfestação; carne suína para inativação e controle de parasitas; frutas, peixes e carnes para aumentar a vida de prateleira refrigerada de cinco dias a um mês; condimentos, carne, frango e camarões congelados para destruição de microrganismos patógenos; frutas secas para controlar o crescimento de fungos; e rolhas de vinho, ervas e condimentos para esterilização (Fellows, 2006; Gava et al., 2009). NA PRÁTICA Hoje em dia é possível comprar qualquer produto em qualquer época do ano, graças aos métodos de conservação dos alimentos. Quase todos nós comemos diariamente alimentos que passam por um processo de conservação. No café da manhã, por exemplo, podemos consumir o leite UHT, que foi esterilizado, ou o leite de pacote ou garrafa, que foi pasteurizado, ou o leite em pó, que passou por um processo de desidratação. Mas para o estabelecimento do tratamento térmico a ser aplicado em um alimento, devem ser considerados os seguintes fatores: os parâmetros cinéticos de resistência térmica do microrganismo mais resistente, geralmente patogênico; e a sensibilidade ao calor dos atributos de qualidade do produto. Dessa forma, do ponto de vista tecnológico, nem sempre é possível aplicar as maiores temperaturas para o tratamento térmico de uma matéria-prima. Este é o caso da fabricação de queijos, que utiliza como matéria-prima o leite pasteurizado, e não o leite esterilizado. A pasteurização do leite, neste caso, possibilita a destruição dos microrganismos patogênicos (mas pode não eliminar toda a carga microbiana 15 presente) e preserva as características físico-químicas do leite, essenciais para a produção dos queijos. A esterilização do leite, por sua vez, teria um efeito mais severo na destruição da carga microbiana, porém, acarretaria a desnaturação das proteínas, interferindo no desenvolvimento dos queijos. FINALIZANDO Nesta etapa, vimos que a conservação de alimentos faz uso de técnicas capazes de aumentar a vida útil dos alimentos, para seu melhor aproveitamento. Você estudou os principais métodos que já eram aplicados desde a época da pré-história, que se baseiam na preservação dos alimentos pelo calor (esterilização, pasteurização, termização e apertização), pelo frio (refrigeração e congelamento), pelo controle de umidade (concentração e desidratação), pela fermentação, pela adição de solutos e aditivos e por métodos inovadores (irradiação). Você teve a oportunidade de conhecer as ações das técnicas sobre os microrganismos, reações químicas e enzimáticas, e os fatores que devem ser considerados nos alimentos para a aplicação de cada um dos métodos. 16 REFERÊNCIAS BRASIL. Decreto n. 72.718, de 29 de agosto de 1973. Estabelece normas gerais sobre irradiação de alimentos. Disponível em: . Acesso em: 27 fev. 2022. BRASIL. Resolução RDC n. 540, de 27 de outubro de 1997. Regulamento técnico: aditivos alimentares - definições, classificação e emprego. Disponível em: . Acesso em: 27 fev. 2022. BRASIL. Resolução RDC n. 21, de 26 de janeiro de 2001. Regulamento técnico para irradiação de alimentos. Disponível em: . Acesso em: 27 fev. 2022. EVANGELISTA, J. Tecnologia de alimentos. Sao Paulo: Atheneu, 2008. FELLOWS, P. J. Tecnologia do processamento de alimentos: princípios e prática. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. GAVA, A. J.; SILVA, C. A. B. da; FRIAS, J. R. G. Tecnologia de alimentos: princípios e aplicações. São Paulo, Brasil: Câmera Brasileira do Livro, 2009. IFIC/FDA. International Food Information Council (IFIC) and U.S. Food and Drug Administration (FDA). Disponível em: . Acesso em: 27 fev. 2022. ORDÓÑEZ, J. A.; RODRIGUES, M. I. C.; ALVAREZ, L. F. et al. Tecnologia de alimentos - Volume 1: componentes dos alimentos e processos. São Paulo: Artmed, 2005. Conversa inicial Na prática FINALIZANDO