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AULA 2 
DIREITO DE FAMÍLIA 
Prof. Ricardo Calderón 
 
 
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INTRODUÇÃO 
O que se entende por família sofre alterações de acordo com as 
características de cada momento histórico, bem como variam conforme as 
peculiaridades de cada país e cada cultura. Desde a idade antiga até a época 
atual, o conceito de família não foi único e sofreu inúmeras alterações, que não 
são lineares. Um mesmo significante (família) recebe vários significados. 
No início do século passado, a família clássica brasileira tinha a sua 
organização em um modelo baseado no casamento formalizado, sempre 
heteroafetivo e usualmente com filhos. Fora do casamento, não havia família para 
o Direito daquele período. Assim, sempre que se pensava em família, vinha à 
mente esse modelo: um homem e uma mulher unidos pelo casamento civil, com 
o dever de gerar filhos (Dias, 2016, p. 228). 
Devido à forte hierarquia do período, o homem era tido como o chefe da 
família, com poder superior ao da mulher. O casal também era visto como detentor 
da “chefia” dos filhos, e não existia uma preocupação em priorizar o interesse das 
crianças, com um período claramente denominado como de “adultocêntrico”. 
A afetividade entre os membros da família não era intensa e nem mesmo 
relevante para o Direito, com outros fatores sendo mais preponderantes. Havia 
pouco espaço para a subjetividade dos integrantes da família, de modo que as 
manifestações afetivas restavam mitigadas. Prevalecia a ideia de que os 
indivíduos se uniam, principalmente, com o propósito de melhor subsistência, 
conservação dos bens, ter filhos, para a prática comum de um ofício e, nos casos 
de crises, para a preservação da honra e das vidas. 
Esse modelo de família e de casamento foi o retratado pelo Código Civil 
de 1916, sendo recorrente classificar aquela família como: matrimonializada, 
patriarcal, hierarquizada, fortemente influenciada pela religião, com prevalência 
do interesse dos adultos em detrimento do das crianças. Estas eram as 
características da chamada “família clássica” brasileira do início do século 
passado, com o casamento cumprindo a “função social” naquele modelo. 
Nesta aula, vamos aprender que as mudanças sociais ocorridas no 
decorrer do século XX não apenas resultaram em alterações na forma de viver 
em família, como também no próprio Direito de família. A partir da Segunda Guerra 
Mundial, o mundo passaria a perceber essas transformações com mais vigor, o 
que ficaria claro nos agitados “anos 60”. Os relacionamentos familiares se 
 
 
3 
alterariam sobremaneira, passando a possuir outras características. O casamento 
civil, dia a dia, iria perdendo relevância. 
Nesse período, crescia a busca por igualdade entre homem e mulher, a 
luta pela redução do patriarcado, a priorização dos interesses das crianças, a 
assimilação de um maior espaço de subjetividade, a valorização da afetividade, a 
redução de influências externas (como da religião), entre outras. Nem todos 
queriam mais se casar, com diversos casais optando por viver sob união estável. 
Inequivocamente, tratava-se de uma nova família, na qual o casamento passaria 
a integrar outras formas de convivência. 
O Brasil passaria a constatar essa nova forma de se viver em família 
algumas décadas depois, com a aprovação da Lei do Divórcio, em 1977: a partir 
dessa data, seria possível colocar fim ao vínculo conjugal. Paulatinamente, a nova 
forma de viver em família iria se disseminar, e a prova disso seria o número de 
uniões estáveis que passaram a se estabelecer no país (o que era muito menos 
expressivo até então). 
No apagar das luzes do século passado, já era outra a faceta da família 
brasileira, não sendo mais possível ver família apenas onde houvesse um 
casamento civil: era impossível ignorar a união estável, que ganhava corpo. As 
mudanças eram significativas e de diversas ordens. A chamada família 
constitucional foi bem representada pela Constituição Federal de 1988. Uma nova 
realidade exigia um novo Direito, que passou a ser descortinado a partir da nova 
Carta Federal, que – nesse aspecto – foi revolucionária. O direito constitucional 
da família é outra face a que regia a legislação civil. 
Admissão da união estável como entidade familiar, com o mesmo status 
que o casamento, igualdade entre homem e mulher, igualdade entre os filhos, 
acolhimento implícito da afetividade, melhor interesse da criança e do 
adolescente, respeito às uniões homoafetivas, são, entre outras, algumas das 
características da “família contemporânea” brasileira. 
A partir de então, a noção de entidade familiar acabaria por apresentar 
um conceito plural, tendo o vínculo da afetividade como principal elemento de sua 
estruturação, não sendo mais reconhecida apenas quando formada pelo 
casamento, mas também em famílias nascidas de uma união estável, famílias 
recompostas, monoparentais e homoafetivas. É possível afirmar que, na 
regulação da família, a pluralidade de entidades familiares é uma das principais 
marcas da Constituição Federal de 1988. 
 
 
4 
Para o professor Paulo Lôbo (2011, p. 37), a família é sempre afetiva, em 
razão de ser um grupo social considerado como base da sociedade e unida 
essencialmente pela afetividade. Na visão desse mesmo autor, na atualidade, o 
elemento distintivo da família é justamente a afetividade, vetor que – aliado a 
outros elementos - a coloca sob o manto da juridicidade. 
Nessa perspectiva, família poderia ser representada como uma união que 
conta com um vínculo afetivo, público e estável, que une pessoas com identidade 
em projetos de vida e propósitos comuns, gera comprometimento mútuo e 
convivência (conceito tido a partir dos elementos estruturais do professor Paulo 
Lôbo). Como se pode perceber, essa visão não tem o matrimônio como elemento 
definidor da família, o que demonstra a abertura dessa concepção. 
Há uma reconfiguração da conjugalidade (entendida como abrangente 
das relações de casamento e também das uniões estáveis). A afetividade passa 
a ser o grande vetor dos relacionamentos e o Direito de família brasileiro começa 
a veicular isso, tendo como regente o consagrado princípio da afetividade. 
TEMA 1 - CASAMENTO 
O art. 1.511 do Código Civil (Brasil, 2002), apesar de não conceituar o 
casamento1, traz como sua finalidade consolidar a comunhão plena de vida, com 
base na igualdade de direitos e deveres dos cônjuges.2 
Quanto à capacidade civil para o casamento, o Código Civil, em seu art. 
1.517, estabelece que a capacidade para casar é alcançada quando os nubentes 
tiverem 16 anos, a idade núbil, de acordo com o dispositivo legal: 
Art. 1.517. O homem e a mulher com dezesseis anos podem casar, 
exigindo-se autorização de ambos os pais, ou de seus representantes 
legais, enquanto não atingida a maioridade civil. 
Parágrafo único. Se houver divergência entre os pais, aplica-se o 
disposto no parágrafo único do art. 1.631. 
Uma recente alteração legislativa merece destaque: não é possível a 
antecipação da idade núbil, porque o Código Civil estabelece expressamente essa 
impossibilidade, conforme dispõe o seu art. 1.520: 
 
1 “O casamento, portanto, pode ser definido atualmente como a união legal de duas pessoas, com 
diversidade ou igualdade de sexos, em razão da Resolução CNJ n. 175/2013, com o intuito de 
constituir família, vivendo em plena comunhão de vida e em igualdade de direitos e deveres. É um 
contrato especial de Direito de família vinculado a normas de ordem pública [...].” (CARVALHO, 
2015, p. 153). 
2 Art. 1.511:o casamento estabelece comunhão plena de vida, com base na igualdade de direitos 
e deveres dos cônjuges. 
 
 
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Art. 1.520. Não será permitido, em qualquer caso, o casamento de 
quem não atingiu a idade núbil, observado o disposto no art. 1.517 
deste Código. 
Essa regra visa impedir o chamado casamento infantil, um problema 
grave em muitos países e que também aflige o Brasil. As hipótesesanteriores de 
exceção acabavam permitindo a união, de modo que a redação atual visa tornar 
clara a atual impossibilidade. 
Quanto aos impedimentos matrimoniais, existem duas ordens de 
impedimentos, conforme Dias (2016, p. 255): (a) impedimentos de caráter 
absoluto (CC 1.521) e (b) impedimentos de caráter relativos, chamados de causas 
suspensivas (CC 1.523). 
Vejamos os impedimentos absolutos, ou seja, aqueles em razão dos quais 
as pessoas “não podem” casar, pois há vedação pela lei: 
Art. 1.521. Não podem casar: 
I - os ascendentes com os descendentes, seja o parentesco natural ou 
civil; 
II - os afins em linha reta; 
III - o adotante com quem foi cônjuge do adotado e o adotado com quem 
o foi do adotante; 
IV - os irmãos, unilaterais ou bilaterais, e demais colaterais, até o terceiro 
grau inclusive; 
V - o adotado com o filho do adotante; 
VI - as pessoas casadas; 
VII - o cônjuge sobrevivente com o condenado por homicídio ou tentativa 
de homicídio contra o seu consorte. 
Conforme o art. 1.522 do Código Civil, os impedimentos anteriormente 
descritos podem ser suscitados até o momento da celebração, por qualquer 
pessoa capaz, e, se o juiz ou oficial de registro tiver conhecimento da existência 
de algum impedimento, ficará obrigado a declará-lo: 
Art. 1.522. Os impedimentos podem ser opostos, até o momento da 
celebração do casamento, por qualquer pessoa capaz”. 
Parágrafo único. Se o juiz, ou o oficial de registro, tiver conhecimento da 
existência de algum impedimento, será obrigado a declará-lo. 
No que diz respeito aos impedimentos relativos, esses também são 
chamados de causas suspensivas. O Código Civil traz a advertência de que “não 
devem” casar, ou seja, não há proibição em si, mas sim uma recomendação. 
Vejamos as hipóteses legais de impedimento relativos (causas suspensivas): 
Art. 1.523. Não devem casar: 
I - o viúvo ou a viúva que tiver filho do cônjuge falecido, enquanto não 
fizer inventário dos bens do casal e der partilha aos herdeiros; 
II - a viúva, ou a mulher cujo casamento se desfez por ser nulo ou ter 
sido anulado, até dez meses depois do começo da viuvez, ou da 
dissolução da sociedade conjugal; 
 
 
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III - o divorciado, enquanto não houver sido homologada ou decidida a 
partilha dos bens do casal; 
IV - o tutor ou o curador e os seus descendentes, ascendentes, irmãos, 
cunhados ou sobrinhos, com a pessoa tutelada ou curatelada, enquanto 
não cessar a tutela ou curatela, e não estiverem saldadas as respectivas 
contas. 
As causas suspensivas trazem restrições ao referido casamento, como no 
regime de bens (impondo o da separação obrigatória, por exemplo). Caso os 
nubentes provem a ausência de prejuízo, em alguns casos, o juiz poderá autorizar 
o casamento sem aplicar as consequências das causas suspensivas (art. 1.523, 
parágrafo único, CC): 
Parágrafo único. É permitido aos nubentes solicitar ao juiz que não lhes 
sejam aplicadas as causas suspensivas previstas nos incisos I, III e IV 
deste artigo, provando-se a inexistência de prejuízo, respectivamente, 
para o herdeiro, para o ex-cônjuge e para a pessoa tutelada ou 
curatelada; no caso do inciso II, a nubente deverá provar nascimento de 
filho, ou inexistência de gravidez, na fluência do prazo. 
Os impedimentos relativos, também denominados de causas suspensivas, 
podem ser arguidos pelas pessoas determinadas no art. 1.524 do Código Civil. 
Vejamos: 
Art. 1.524. As causas suspensivas da celebração do casamento podem 
ser arguidas pelos parentes em linha reta de um dos nubentes, sejam 
consanguíneos ou afins, e pelos colaterais em segundo grau, sejam 
também consanguíneos ou afins. (grifo nosso). 
TEMA 2 - REGIME DE BENS 
Na celebração do casamento, as partes devem definir o regime de bens, 
que contêm as regras que irão reger as questões patrimoniais dos consortes. 
Dispõe o art. 1.639 do Código Civil: 
Art. 1.639. É lícito aos nubentes, antes de celebrado o casamento, 
estipular, quanto aos seus bens, o que lhes aprouver. 
§ 1 O regime de bens entre os cônjuges começa a vigorar desde a data 
do casamento. 
§ 2 É admissível alteração do regime de bens, mediante autorização 
judicial em pedido motivado de ambos os cônjuges, apurada a 
procedência das razões invocadas e ressalvados os direitos de terceiros. 
Este regime vigora da data da celebração do matrimônio até o seu término 
(o que, em regra, se dá com a separação ou com o divórcio). Entretanto, o 
entendimento prevalecente atual é que a separação, de fato, põe fim ao regime 
patrimonial de bens - portanto, ela já faz cessar a comunhão se ela constar do 
aludido regime (Dias, 2016, p. 538). 
O Código Civil descreve e regulamenta quatro regimes de bens: a 
 
 
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comunhão parcial, a comunhão universal, a separação de bens (que pode ser 
legal ou convencional) e o regime de participação final nos aquestos. 
2.1 Comunhão parcial 
O regime da comunhão parcial de bens é o atual regime legal, o qual é 
aplicado se os nubentes silenciarem ou, então, se ocorrer nulidade ou ineficácia 
da escolha de outro regime: 
Art. 1.640. Não havendo convenção, ou sendo ela nula ou ineficaz, 
vigorará, quanto aos bens entre os cônjuges, o regime da comunhão 
parcial. 
Parágrafo único. Poderão os nubentes, no processo de habilitação, optar 
por qualquer dos regimes que este código regula. Quanto à forma, 
reduzir-se-á a termo a opção pela comunhão parcial, fazendo-se o pacto 
antenupcial por escritura pública, nas demais escolhas. 
As regras da comunhão parcial estão previstas nos arts. 1.658 ao 1.666 do 
Código Civil. Em síntese, esse regime é formado pelo conjunto de bens 
particulares dos cônjuges e também pelo conjunto de bens comuns (que são 
aqueles adquiridos na constância do casamento), conforme disposto no art. 1.658 
do Código Civil: 
Art. 1.658. No regime de comunhão parcial, comunicam-se os bens que 
sobrevierem ao casal, na constância do casamento, com as exceções 
dos artigos seguintes. 
O art. 1.659 dispõe sobre as hipóteses em que há incomunicabilidade dos 
bens: 
Art. 1.659. Excluem-se da comunhão: 
I - os bens que cada cônjuge possuir ao casar, e os que lhe sobrevierem, 
na constância do casamento, por doação ou sucessão, e os sub-rogados 
em seu lugar; 
II - os bens adquiridos com valores exclusivamente pertencentes a um 
dos cônjuges em sub-rogação dos bens particulares; 
III - as obrigações anteriores ao casamento; 
IV - as obrigações provenientes de atos ilícitos, salvo reversão em 
proveito do casal; 
V - os bens de uso pessoal, os livros e instrumentos de profissão; 
VI - os proventos do trabalho pessoal de cada cônjuge; 
VII - as pensões, meios-soldos, montepios e outras rendas semelhantes. 
Nesse regime, há um conjunto de bens exclusivos (particulares) de cada 
cônjuge e um conjunto dos bens comuns. Em apertada síntese, é possível dizer 
que os particulares são formados pelos bens anteriores ao matrimônio, pelos 
gratuitos e pelos sub-rogados; já os bens comuns são formados por aqueles 
adquiridos onerosamente durante a união. 
 
 
8 
2.2 Comunhão universal 
O regime da comunhão universal de bens está previsto nos arts. 1.667 ao 
1.671 do Código Civil. 
Art. 1.667. O regime de comunhão universal importa a comunicação de 
todos os bens presentes e futuros dos cônjuges e suas dívidas passivas, 
com as exceções do artigo seguinte. 
Até 1977, este era o regime legal, mas, com a entrada em vigência da Lei 
nº 6.515/77, o regime legal passou a ser o da comunhão parcial. Assim, 
atualmente, a opção pelo regime de comunhão universal deve constar de pacto 
antenupcial (Madaleno, 2002, p. 182). 
Importante destacar que, mesmo no regime da comunhão universal, a lei 
elenca algumas exceções, portanto, descreve bens que seriam incomunicáveis, 
ainda que nesse regime: 
Art. 1.668. São excluídos da comunhão: 
I - os bens doados ou herdados com a cláusula de incomunicabilidade e 
os sub-rogados em seu lugar; 
II - os bens gravados de fideicomisso e o direitodo herdeiro 
fideicomissário, antes de realizada a condição suspensiva; 
III - as dívidas anteriores ao casamento, salvo se provierem de despesas 
com seus aprestos, ou reverterem em proveito comum; 
IV - as doações antenupciais feitas por um dos cônjuges ao outro com a 
cláusula de incomunicabilidade; 
V - Os bens referidos nos incisos V a VII do art. 1.659. 
2.3 Separação obrigatória 
O regime de separação de bens está previsto nos arts. 1.687 e 1.688 do 
Código Civil. A separação possui duas modalidades: a convencional (eleita em 
pacto antenupcial) e a legal ou obrigatória (imposta por lei). No regime da 
separação obrigatória de bens, a lei impõe este regime: 
Art. 1.641. É obrigatório o regime da separação de bens no casamento: 
I - das pessoas que o contraírem com inobservância das causas 
suspensivas da celebração do casamento; 
II – da pessoa maior de 70 (setenta) anos; 
III - de todos os que dependerem, para casar, de suprimento judicial. 
Esse regime tem um aspecto que merece especial atenção, visto que 
pode trazer alguma espécie de comunicação patrimonial (ainda que o nome do 
regime indique o contrário). Isso porque, há a famosa Súmula 377 do STF3, a qual 
 
3 Súmula 377 do STF: No regime de separação legal de bens, comunicam-se os adquiridos na constância do 
casamento. 
 
 
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acaba impondo, quanto aos bens onerosos adquiridos na vigência do casamento, 
a sua comunicação. Atualmente, o Superior Tribunal de Justiça vincula tal 
entendimento a algum esforço comum (o que arrefece um pouco a súmula), mas 
– de certo modo –, segue a aplicar. Ainda assim, essa inusitada situação merece 
atenção, pois, como alerta Rolf Madaleno (2006, p. 191), mesmo sob o regime da 
separação obrigatória, os cônjuges poderão acabar por partilhar algum patrimônio 
em determinado momento da vida conjugal. 
Sobre o tema, destacamos o entendimento jurisprudencial do Tribunal de 
Justiça do Estado do Rio Grande do Sul: 
APELAÇÃO CÍVEL. DIVORCIO E PARTILHA. 1. O REGIME 
OBRIGATÓRIO DA SEPARAÇÃO LEGAL DE BENS PREVISTO NO 
ART. 1.641 DO CCB NÃO SE CONFUNDE COM O REGIME 
FACULTATIVO DA SEPARAÇÃO DE BENS PREVISTO NOS ARTS. 
1.687 E 1.688 DO MESMO DIPLOMA LEGAL. NAQUELA HIPÓTESE, 
OS BENS ADQUIRIDOS ONEROSAMENTE NA CONSTÂNCIA DO 
CASAMENTO DEVEM SER PARTILHADOS EM PROPORÇÃO 
IGUALITÁRIA. ESSE O TEOR DA SÚMULA 377 DO STF. PORTANTO, 
ALEGAÇÃO DE SUB-ROGAÇÃO DE BENS, IN CASU, CONSTITUI 
EXCEÇÃO À REGRA DA COMUNICABILIDADE, DE ACORDO COM 
AS HIPÓTESES DE EXCLUSÃO PREVISTAS NOS ARTS. 1.668 E 
1.659 DO CCB. 2. COMPROVADA A AQUISIÇÃO DE VEÍCULO 
DURANTE O MATRIMÔNIO, DEVE SER REALIZADA A PARTILHA 
IGUALITÁRIA, EM APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA 
COMUNICABILIDADE. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO 
(Apelação Cível, Nº 70079145207, Sétima Câmara Cível, Tribunal de 
Justiça do RS, Relator: Liselena Schifino Robles Ribeiro, Julgado em: 
31-10-2018) (grifo nosso). 
2.4 Separação convencional 
Na separação convencional de bens, os próprios cônjuges optam pela 
ideia de que os bens de um não se comunicarão com os do outro, mesmo depois 
do fim do matrimônio. Confiram-se os dispositivos legais que regem esse regime: 
Art. 1.687. Estipulada a separação de bens, estes permanecerão sob a 
administração exclusiva de cada um dos cônjuges, que os poderá 
livremente alienar ou gravar de ônus real. 
Art. 1.688. Ambos os cônjuges são obrigados a contribuir para as 
despesas do casal na proporção dos rendimentos de seu trabalho e de 
seus bens, salvo estipulação em contrário no pacto antenupcial. 
Importante anotar que, mesmo sob o regime da separação convencional 
de bens, o cônjuge é herdeiro necessário em caso de morte do seu consorte, o 
que é reiterado pelo Enunciado nº 15 do IBDFAM: 
Enunciado 15: Ainda que casado sob o regime da separação 
convencional de bens, o cônjuge sobrevivente é herdeiro necessário e 
concorre com os descendentes. 
 
 
10 
Um aspecto que merece ser repisado é que a separação convencional 
difere da separação obrigatória em alguns aspectos, conforme lecionam Cristiano 
Chaves de Farias e Nelson Rosenvald: 
No regime de separação convencional não existem bens comuns, 
estabelecendo, pois, uma verdadeira separação absoluta de bens. No 
ponto, inclusive, ele se difere da separação obrigatória ou legal, 
submetida ao art. 1.641 do Código de 2002. Nesta (separação 
obrigatória), por conta da incidência da Súmula 377 da Suprema Corte, 
haverá comunhão dos aquestos (bens adquiridos onerosamente na 
constância do casamento), deixando claro que a separação não é total. 
Naquela (separação convencional), inexistem bens comuns, permitindo 
que seja, de fato denominada separação absoluta ou total. Isto, por si 
só, já serve para justificar a exigência de outorga, consentimento, do 
cônjuge para alienar ou onerar bens imóveis - e para prestar fiança ou 
aval - se o matrimônio estiver sob o regime de separação obrigatória, 
sendo totalmente desnecessária, por lógico, esta outorga se o 
casamento é regido pela separação convencional (Farias; Rosenvald, 
2010, p. 291. 
Em linhas gerais, é possível dizer que a Súmula 377 do STF incide apenas 
no regime da separação obrigatória e não no regime da separação convencional. 
A partir disso, decorrem outras consequências. 
2.5 Separação final nos aquestos 
O regime da participação final dos aquestos é de pouquíssima utilização no 
Brasil, sendo uma importação que “não pegou”. Para Rolf Madaleno, é uma mescla 
entre os regimes de separação total e da comunhão parcial, de modo que: na 
vigência do casamento, impera a separação total, pela qual cada cônjuge é 
responsável por administrar os seus bens particulares livremente; já na dissolução 
do matrimônio, incide regramento similar ao regime da comunhão parcial, pelo qual 
os bens amealhados pelo casal deverão ser apresentados e sofrerão a devida 
partilha (Madaleno, 2006, p. 183-184). 
Está previsto nos seguintes artigos do Código Civil: 
Art. 1.672. No regime de participação final nos aquestos, cada cônjuge 
possui patrimônio próprio, consoante disposto no artigo seguinte, e lhe 
cabe, à época da dissolução da sociedade conjugal, direito à metade dos 
bens adquiridos pelo casal, a título oneroso, na constância do 
casamento. 
Art. 1.673. Integram o patrimônio próprio os bens que cada cônjuge 
possuía ao casar e os por ele adquiridos, a qualquer título, na constância 
do casamento. 
Parágrafo único. A administração desses bens é exclusiva de cada 
cônjuge, que os poderá livremente alienar, se forem móveis. 
Nesse sentido, ensina o professor Flávio Tartuce: 
 
 
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De início, no regime de participação final nos aquestos, cada cônjuge 
possui patrimônio próprio, cabendo-lhe, à época da dissolução do 
casamento e da sociedade conjugal, direito à metade dos bens 
adquiridos pelo casal, a título oneroso, na constância do casamento (art. 
1.672 do CC). Desse modo, não há dúvidas de solução, não há 
propriamente uma meação, como estabelece o Código Civil, mas uma 
participação de acordo com a contribuição de cada um para a aquisição 
do patrimônio, a título oneroso [...] (Tartuce, 2021, p. 217). 
Importa dizer que, além dos regimes de bens expressamente previstos 
pelo Código Civil, podem ser estabelecidos outros regimes de bens, conforme 
aclara o Enunciado 331 da IV Jornada de Direito Civil: 
O estatuto patrimonial do casal pode ser definido por escolha de regime 
de bens distinto daqueles tipificados no Código Civil (art. 1.639 e 
parágrafo único do art. 1.640), e, para efeito de fiel observância do 
disposto no art. 1.528 do Código Civil, cumpre certificação a respeito, 
nos autos do processo de habilitação matrimonial. 
TEMA 3 - UNIÃO ESTÁVEL 
A união estável é uma das formas de vida comum que mais crescem no 
Brasil, conforme indicam as últimas pesquisas. O regramento da união estável 
feito pelo Código Civil deve ser realizado sempre à luz da Constituição Federal, 
que interfere em vários aspectos. 
O Código Civil rege a união estável no art. 1.723: 
Art.1.723. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o 
homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e 
duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família. 
§ 1º A união estável não se constituirá se ocorrerem os impedimentos 
do art. 1.521; não se aplicando a incidência do inciso VI no caso de a 
pessoa casada se achar separada de fato ou judicialmente. 
§ 2º As causas suspensivas do art. 1.523 não impedirão a caracterização 
da união estável. 
Art. 1.724. As relações pessoais entre os companheiros obedecerão aos 
deveres de lealdade, respeito e assistência, e de guarda, sustento e 
educação dos filhos. 
Art. 1.725. Na união estável, salvo contrato escrito entre os 
companheiros, aplica-se às relações patrimoniais, no que couber, o 
regime da comunhão parcial de bens. 
Para os conviventes é facultada também a escolha do regime de bens que 
regerá a união estável. Sobre o tema, diz o Enunciado 30 do IBDFAM: 
Enunciado 30 - Nos casos de eleição de regime de bens diverso do legal 
na união estável, é necessário contrato escrito, a fim de assegurar 
eficácia perante terceiros. 
Destaque-se, ainda, que é possível a conversão da união estável em 
casamento. Nessa hipótese, merece destaque os efeitos quanto ao regime de 
bens, como elucida o Enunciado 31 do IBDFAM: 
 
 
12 
Enunciado 31 - A conversão da união estável em casamento é um 
procedimento consensual, administrativo ou judicial, cujos efeitos serão 
ex tunc, salvo nas hipóteses em que o casal optar pela alteração do 
regime de bens, o que será feito por meio de pacto antenupcial, 
ressalvados os direitos de terceiros. 
TEMA 4 – DIREITOS SUCESSÓRIOS DOS COMPANHEIROS 
Um aspecto que merece destaque é que, atualmente, os companheiros 
possuem os mesmos direitos sucessórios que os cônjuges, ou seja, quem vive 
em união estável tem direito a mesma herança que possuem as pessoas casadas. 
Importa destacar que o Código Civil de 2002 trazia uma distinção na forma 
de participação sucessória dos cônjuges e dos companheiros, que era constante 
do art. 1.790. Entretanto, em 2017, o Supremo Tribunal Federal, no julgamento 
dos Recursos Extraordinários 646721 e 878694, julgou inconstitucional tal 
distinção, entendendo que tanto cônjuges como companheiros devem herdar na 
forma descrita pelo art. 1.829/CC. Portanto, a participação sucessória no 
casamento e na união estável é a mesma. 
Essa aproximação traz a reboque a discussão se os companheiros também 
seriam herdeiros necessários, tal qual são os cônjuges, conforme dispõe o art. 
1845/CC. A resposta para esta questão é de grande relevância prática, 
principalmente no momento do planejamento sucessório. 
TEMA 5 - FAMÍLIAS SIMULTÂNEAS 
Uma das questões polêmicas do Direito de família brasileiro 
contemporâneo diz respeito à possibilidade jurídica de conferir ou não efeitos para 
as chamadas famílias simultâneas, ou seja, relacionamentos paralelos que uma 
pessoa casada venha a travar com outrem. 
Exemplificando: um homem casado tem uma relação, paralela ao 
casamento, com uma outra mulher, a qual preenche todos os requisitos de uma 
união estável. Digamos que cada uma das mulheres viva em uma cidade distinta 
e, assim, não saibam uma da existência da outra. Mesmo o homem sendo casado, 
ele mantém com a segunda mulher uma relação de afetividade pública, contínua, 
duradoura, com a intenção de constituir família. Imaginemos que essa relação 
paralela dure quatro décadas, deixando cinco filhos. 
Nesses moldes, haverá a esposa e a companheira paralela. Seria 
possível declarar algum efeito jurídico para a segunda relação? 
 
 
13 
Ao analisar um pedido de efeito previdenciário, o Supremo Tribunal 
Federal declarou que isso não seria possível. O julgamento ocorreu no ano de 
2020, com a apreciação do Recurso Extraordinário (RE) 1045273, oportunidade 
na qual restou declarada a seguinte tese em Repercussão Geral: 
A preexistência de casamento ou de união estável de um dos 
conviventes, ressalvada a exceção do artigo 1.723, parágrafo 1º, do 
Código Civil, impede o reconhecimento de novo vínculo referente ao 
mesmo período, inclusive para fins previdenciários, em virtude da 
consagração do dever de fidelidade e da monogamia pelo ordenamento 
jurídico-constitucional brasileiro. 
As questões envolvendo relacionamentos paralelos e até poliafetivos (os 
chamados casos de poliamor) são um os desafios do porvir da nossa 
conjugalidade. 
 
 
14 
REFERÊNCIAS 
BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário 
Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 139, n. 8, p. 1-74, 11 jan. 2002. 
CARVALHO, D. M. de. Direito das famílias. São Paulo: Saraiva, 2015. 
DIAS, M. B Manual de Direito das famílias. 4. ed. São Paulo: Revista dos 
Tribunais, 2016. 
FARIAS, C. C. de; ROSENVALD, N. Direito das famílias. 2.ed. Rio de Janeiro: 
Lumen Juris, 2010. 
LÔBO, P. Despatrimonialização do Direito de família. Revista do Tribunal de 
Justiça do Estado do Maranhão, São Luiz: TJMA, v. 5, n. 2, p. 29-40, jul.-dez. 
2011. 
LÔBO, P. Direito Civil: famílias, São Paulo: Saraiva, 2008. 
MADALENO, R. Do regime de bens entre os cônjuges. 2006. In: DIAS, M. B.; 
PEREIRA, R. da C. (coords.). Direito de família e o novo Código Civil. 4. ed. 
2.tir. rev., atual. Belo Horizonte: Del Rey, 2006. 
MADALENO, R. Direito de família. 8. ed., rev., atual. e ampl. Rio de Janeiro, 
2018. 
TARTUCE, F. Direito Civil: Direito de família. Rio de Janeiro: Forense. 2021. v. 
5.

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