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1 Dor visceral A dor visceral é causada por anormalidades de órgãos como o estômago, rim, bexiga, vesícula biliar, intestinos ou outros e inclui distensão, isquemia, inflamação e tração do mesentério. É responsável por incapacidade física e psíquica, absenteísmo do trabalho e má qualidade de vida. A incidência anual de dor abdominal crônica é de 15 casos para 1.000 indivíduos. As doenças viscerais podem determinar dores de vários tipos: visceral verdadeira, visceral referida, parietal localizada ou parietal referida. Não é precisa geralmente é difusa e mal localizada, pode ser referida em locais distantes da víscera acometida, devido a organização das vias nocicepivas viscerais no SNC ascenderem conjuntamente com as de origem somática. É acompanhada de reflexos autonômicos e motores que servem como sistema mantenedor e facilitador da transmissão dolorosa; Dentre as causas mais frequentes de dor abdominal citam-se os processos inflamatórios de origem infecciosa ou química, as doenças isquêmicas, as doenças disfuncionais e as neoplasias; A dor visceral não costuma ser evocada pelas vísceras e órgãos sólidos como fígado, rins, parênquima pulmonar, entre outras; Não está sempre associada a lesão visceral. Um baixo estimulo limiar pode provocar ativação de aferentes sensoriais como a pressão gasosa intraluminal. É referida para outros locais; Descrita como um dolorimento ou uma dor surda, vaga, contínua, profunda, que tende a acentuar-se com a solicitação funcional do órgão acometido. Nos danos viscerais muito localizados raramente causam dor grave mas lesões que estimulam várias fibras dolorosas difusas ao mesmo tempo podem resultar dor extrema. Ex: isquemia. De um modo geral, a dor visceral pode ser relacionada com quatro condições: (a) comprometimento da própria víscera (dor visceral verdadeira); (b) comprometimento secundário do peritônio ou pleura parietal (dor somática profunda); (c) irritação do diafragma ou do nervo frênico; (d) reflexo viscerocutâneo (dor referida). Qualquer estímulo que excite as terminações nervosas para a dor, em áreas difusas das vísceras, pode causar dor visceral. Esses estímulos incluem isquemia do tecido visceral, lesão química das superfícies das vísceras, espasmo da musculatura lisa de víscera oca, distensão excessiva de víscera oca e distensão do tecido conjuntivo que circunda ou é localizado na víscera. Essencialmente, qualquer dor que se origine nas cavidades – 2 torácica ou abdominal é transmitida pelas fibras delgadas do tipo C e, portanto, só podem transmitir o tipo crônico-persistente de dor. Não é precisa e localizada e habitualmente descrita como cólica e associa-se a náuseas, vômitos, sudorese ou palidez. Isquemia. A isquemia causa dor visceral da mesma forma que causa dor em outros tecidos, presumivelmente, devido à formação de produtos finais metabólicos ácidos ou produtos degenerativos dos tecidos como a bradicinina, enzimas proteolíticas ou outras que estimulem as terminações nervosas para dor. Estímulos Químicos. Algumas vezes, substâncias nocivas escapam do trato gastrointestinal para a cavidade peritoneal. Por exemplo, o suco gástrico ácido proteolítico pode escapar por úlcera gástrica ou duodenal perfurada. Esse suco causa digestão disseminada do peritônio visceral, estimulando amplas áreas de fibras dolorosas. A dor geralmente é excruciante e grave. Espasmo de Víscera Oca. O espasmo de porção da alça intestinal, da vesícula biliar, do dueto biliar, do ureter ou de qualquer outra víscera oca pode causar dor, possivelmente, pela estimulação mecânica das terminações nervosas da dor. Ou o espasmo pode causar diminuição do fluxo sanguíneo para o músculo, combinado com o aumento das necessidades metabólicas do músculo para nutrientes, causando dor grave. Em geral, a dor de víscera espástica ocorre na forma de cólicas, com a dor chegando a alto grau de gravidade e depois diminuindo. Esse processo continua de modo intermitente, uma vez a cada poucos minutos. Os ciclos intermitentes resultam de períodos de contração da musculatura lisa. Por exemplo, a cólica ocorre toda vez que a onda peristáltica percorre a alça intestinal excessivamente excitável. Essa dor do tipo cólica frequentemente ocorre na apendicite, gastroenterite, constipação, menstruação, parto, doenças da vesícula biliar ou obstrução ureteral. Distensão Excessiva de Víscera Oca. O preenchimento excessivo de víscera oca também pode resultar em dor, presumivelmente, devido à distensão excessiva dos tecidos propriamente ditos, estimulam as fibras aferentes a nível de T8 e T10. A distensão excessiva também pode interromper os vasos sanguíneos que circundam a víscera ou que passam por sua parede, talvez promovendo dor isquêmica. Vísceras Insensíveis. Poucas áreas viscerais são quase completamente insensíveis à dor de qualquer tipo. Elas incluem o parênquima do fígado e os alvéolos pulmonares. Por sua vez, a cápsula hepática é extremamente sensível tanto ao trauma direto quanto à sua distensão, e os duetos biliares também são sensíveis à dor. Nos pulmões, embora os alvéolos sejam insensíveis, tanto os brônquios, como a pleura parietal são bastante sensíveis à dor. A dor oriunda de diferentes vísceras frequentemente é difícil de localizar, por inúmeras razões. Primeiro, o sistema nervoso do paciente não reconhece de experiência anterior, a existência dos diferentes órgãos internos; portanto, qualquer dor que se origine internamente pode apenas ser localizada com imprecisão. Segundo, as sensações do abdome e do tórax são transmitidas por meio das duas vias para o sistema nervoso central - a via víscera/ verdadeira e a via parietal. A dor visceral verdadeira é transmitida pelas fibras sensoriais para dor, nos feixes nervosos autônomos, e as sensações são referidas para as áreas da superfície do corpo, geralmente longe do órgão doloroso. Inversamente, as sensações parietais são conduzidas diretamente para os nervos espinhais locais do peritônio parietal, da pleura ou do pericárdio, e essas sensações geralmente se localizam diretamente sobre a área dolorosa. 3 A dor oriunda de vísceras frequentemente se localiza em duas áreas na superfície do corpo ao mesmo tempo, por causa da dupla transmissão da dor pela via visceral referida e a via parietal direta. Dessa forma, a dupla transmissão oriunda de apêndice inflamado. Os impulsos dolorosos passam inicialmente do apêndice por fibras dolorosas viscerais, localizadas nos fascículos nervosos simpáticos, seguindo para a medula espinhal ao nível de T-10 ou T-11; essa dor é referida para área ao redor do umbigo e é do tipo persistente e espasmódica. Os impulsos dolorosos, geralmente, se originam no peritônio parietal, onde o apêndice inflamado toca ou está aderido à parede abdominal. Eles causam dor do tipo pontual diretamente sobre o peritônio irritado, no quadrante inferior direito do abdome. A dor parietal localizada ou a dor parietal não referida resulta da irritação do peritônio parietal e localiza-se na parede abdominal correspondente ao local da lesão. Quando a doença afeta a víscera, o processo doloroso geralmente se dissemina para o peritônio, a pleura ou o pericárdio parietal. Essas superfícies parietais, como a pele, são supridas com extensa inervação dolorosa, originada nos nervos espinhais periféricos. Portanto, a dor da parede parietal sobre a víscera é frequentemente aguda. Exemplo pode enfatizar a diferença entre essa dor e a dor visceral verdadeira: incisão do peritônio parietal é muito dolorosa, enquanto incisão similar do peritônio visceral ou da parede intestinal pode não ser muito dolorosa ou até mesmo ser indolor. Assim como os nociceptores, o receptor visceral geralmente é uma terminação nervosa livre, embora existam também corpúsculos de Vater Paccini na cápsula de algumas vísceras. Os impulsos nervosos originadosnas vísceras em sua maioria são inconscientes, relacionando-se com a regulação reflexa da atividade visceral. Os exteroceptores, como o nome sugere, estão na superfície externa do corpo e respondem a estímulos externos como a luz, pressão sonora e mecânica, contato com objetos e substancias químicas. Os proprioceptores por sua vez, ficam nos músculos esqueléticos, tendões, articulações, seio carotídeo e paredes gastrointestinais. Estes detectam estímulos gerados pelo movimento do corpo ou por alterações na tensão muscular. Os interoceptores ou visceroceptores respondem a substâncias ingeridas ou inaladas, além de sensações como fome, sede, prazer sexual e alterações das pressões osmóticas e arterial do sangue. Estão presentes nas mucosas de revestimento dos órgãos e, na maioria das vezes, transmitem impulsos inconscientes de regulação ao sistema nervoso central. Especificamente o trato gastroinstestinal possui receptores químicos e mecânicos de adaptação lenta e rápida que são classificados em dois grupos: o grupo de receptores de alto limiar para estímulos mecânicos leves, e o grupo de baixo limiar para estímulos mecânicos que responde a estímulos agressivos e não agressivos. O primeiro grupo (alto limiar) é encontrado no esôfago, sistema biliar, intestino delgado e cólon e o segundo (baixo limiar), apenas, no esôfago e cólon. A relação entre a intensidade do estímulo e a atividade nervosa é somente evocada após a estimulação nociva. Há muito se sabe que as vísceras apresentam receptores (aferentes) que se projetam ao sistema nervoso central através do sistema nervoso simpático e parassimpático. Alguns desses aferentes possuem função apenas regulatória (autonômica) enquanto outros geram respostas sensitivas, particularmente de dor. Esses 4 aferentes são formados por fibras nervosas finas que podem ser pouco mielinizadas (A delta) ou amielinizadas (fibras C). Uma questão ainda não resolvida diz respeito à existência de aferentes puramente dolorosos para determinado estímulo (específicos) ou se tais fibras teriam função mista (regulatória e sensitiva), passando a responder de uma forma ou outra de acordo com a intensidade do estímulo (teoria do padrão e intensidade). A maior parte das fibras aferentes viscerais, antes de se dirigirem à medula espinal, trafegam para gânglios simpáticos pré-vertebrais e paravertebrais. Os gânglios pré-vertebrais são representados pelos gânglios celíaco e mesentéricos superior e inferior. Os gânglios paravertebrais são representados pelos gânglios cervicais superior, médio e inferior, gânglio estrelado, gânglios toracolombares, gânglio sacral e gânglio ímpar coccígeo (gânglio de Walther). Um a pequena parte dos estímulos dolorosos, no entanto, trafega por nervos do sistema nervoso parassimpático. Enquanto as fibras aferentes somáticas são numerosas e penetram na medula espinal em determinado segmento, as fibras aferentes viscerais são poucas e penetram no corno posterior da medula espinal em vários níveis, o que justifica a pouca localização espacial dessas dores. Na medula espinal, as fibras se dirigem especialmente à lâmina superficial (lâmina I de Rexed) e a outras mais profundas (V e X). Daí, os estímulos são transmitidos pelas mesmas vias da dor superficial. Mais comumente, cruzam a linha média e ascendem pelo trato espinotalâmico lateral até os núcleos ventrais do tálamo e daí ao córtex cerebral. Outras vias, tais com o a espinorreticular e a espinomesencefálica, devem ter papel importante em fenômenos associados, tais como o alerta à dor e aos fenômenos neurovegetativos que o acompanham. A dor visceral promove hiperalgesia em estruturas somáticas superficiais, na proximidade dos segmentos espinais acometidos. Existe uma grande quantidade de mediadores periféricos (bradicinina, citocinas, prostaglandinas, serotonina, ATP, prótons H+) que agem diretamente nos receptores nociceptivos gastrintestinais e iniciam a transmissão dolorosa. Podem ativar imunócitos locais ou outras células, como mastócitos e varicosidades simpáticas, que liberam interleucinas e substâncias adrenérgicas, perpetuando e facilitando, assim, a hiper-excitabilidade neuronal. Na sensibilização periférica, ocorre, então, a redução da intensidade dos estímulos necessários para iniciar a despolarização neuronal e o aumento do número ou da amplitude de descarga neuronal, em resposta a certos estímulos químicos ou mecânicos. As neurocininas (fator de crescimento nervoso - FCN) estão presentes no tecido intestinal e nos mastócitos e são liberadas durante a degranulação mastocitária. Estão envolvidas na plasticidade neuronal e podem alterar a distribuição de nociceptores e o limiar de sensibilidade para os estímulos mecânicos e químicos. Em decorrência do fato de as fibras C intestinais possuírem muitos “receptores silenciosos” para as neurocininas, essas substâncias possuem um papel importante na transmissão das mensagens nociceptivas do intestino. A serotonina, dentre os mediadores, é a única que parece ter alta seletividade para a nocicepção visceral. E liberada no intestino por células enterocromafins, plaquetas e degranulação dos mastócitos, e, subsequentemente, age nos aferentes viscerais por meio de receptores específicos, expressados também no SNC (estruturas límbicas, tronco cefálico e cordão espinal). (Apetite, temperatura...) 5 O peptídeo relacionado ao gene calcitonina (CGRP) está presente na maioria dos aferentes esplâncnicos e, quando liberado perifericamente, pode modificar a descarga sensorial, causando alterações no fluxo sanguíneo, contração da musculatura lisa, reação imune e degranulação dos mastócitos. A maioria dos mediadores liberados no local da lesão é algogênica e pró-inflamatória e contribui para a sensibilização periférica. Existe a participação de canais de sódio tetrodoxina-resistente (tipo Nav 1.8) e receptores vanilóides transitórios tipo 1 (TRPV1). Os canais de sódio tetrodoxina-resistente (TTX-r) se expressam após inflamação ou estímulo com substâncias algogênicas nos aferentes nervosos do colón ou da bexiga. A sensibilização central é um processo resultante da atividade sustentada que acontece na fibra aferente primária, após a sensibilização periférica, favorecendo a liberação de neurotransmissores excitatórios. Estes aumentam a eficácia da transmissão sináptica, entre os neurônios aferentes primários e os do corno dorsal, envolvendo, portanto, receptores pré e pós-sinápticos específicos. Embora o mecanismo de sensibilização visceral central não seja totalmente conhecido, acredita-se que alguns mediadores, como substância P, CGRP, aspartato, glutamato, neurocininas, somatostatina e VIP, estejam envolvidos no desenvolvimento e na manutenção da sensibilização central induzida pela inflamação. A ação desses neuromediadores em receptores específicos ionotrópicos (AMPA, cainato) e metabotrópicos (NMDA) ativa segundos mensageiros (AMPc, PKC, fosfatidilinositol, fosfolipase C) para abertura de canais de cálcio e entrada dessas substâncias para o interior das membranas celulares. Ocorre então produção de outros mediadores (óxido nítrico e metabólitos do ácido araquidônico) e formação de oncogenes (cfos, fos B, C jun, jun B e D), que provavelmente alteram a transmissão do potencial de ação e ultra-estrutura dos nervos e suas sinapses e sensibilização medular e fenômeno de wind up (aumento da duração da resposta de certos neurônios). Atenção! Períodos prolongados de estimulação provocam a liberação de neuromediadores centrais (substância P e glutamato), aumentando a eficácia sináptica da transmissão entre aferentes primários e neurônios espinais com sensibilização central. O neurotransmissor glutamato e o receptor N-metil-D- aspartato (NMDA) parecem estar mais envolvidos na hiperalgesia visceral e na dor persistente. Neurônios de projeção noradrenérgico, serotoninérgico e colinérgico parao córtex pré-frontal e subcortical (incluindo núcleo paraventricular, amígdala, hipocampo e núcleo do trato solitário) possuem um papel importante na modulação do sistema emocional e motor. Por exemplo, a modulação noradrenérgica da transmissão sináptica vagal no núcleo do trato solitário pode estar envolvida no controle dos reflexos vagovagais e duodenogástricos, na acomodação gástrica e no relaxamento do esfincter esofagiano inferior. Uma hiperativação desse sistema no estresse repetido está associada a uma regulação para baixo de receptores a2 e serotoninérgico (5-HTA1a) e a um aumento da liberação de noradrenalina e serotonina. Isso, por outro lado, provoca uma regulação para baixo de receptores adrenérgicos. Assim, as alterações neuroplásticas iniciais aumentam a liberação pré-sináptica de noradrenalina e diminuem a ação pós-sináptica dos neurônios. Desse modo, o estresse pode alterar a efetividade da rede neuronal central, sendo responsável por uma série de respostas mal adaptadas. Alterações relacionadas às doenças gastrintestinais vinculadas ao estresse: 1. Retardo do esvaziamento gástrico 2. Aumento da motilidade do cólon distal 6 3. Elevação do trânsito intestinal 4. Regulação para cima dos neurônios do locus ceruleus que contém CRF 5. Redução da atividade motora do antro 6. Distensão duodenal após a alimentação 7. Alteração do tônus da cárdia e fluxo sanguíneo da mucosa 8. Diminuição do cortisol sistêmico 9. Redução da resposta de liberação do cortisol ao estímulo agressivo 10. Aumento da permeabilidade intestinal e hiperplasia das células enterocromafins 11. Hiperalgesia visceral e hipoalgesia somática 12. Diminuição da atividade do córtex perigenual e mediai pré-frontal 13. Sensibilização de linfócitos Quando a dor visceral é referida para a superfície do corpo, a pessoa, em geral, a localiza no segmento dermatômico de origem do órgão visceral no embrião, e não necessariamente no local atual do órgão visceral. Por exemplo, o coração se origina do dermátomo do pescoço e da região superior do tórax, assim as fibras para a dor visceral do coração cursam de forma ascendente ao longo dos nervos simpáticos sensoriais e entram na medula espinhal entre os segmentos C-3 e T-5. Portanto, a dor cardíaca é referida ao lado do pescoço, sobre o ombro, sobre os músculos peitorais, ao longo do braço e na área subesternal da região superior do tórax. Essas são as áreas da superfície corporal que enviam suas próprias fibras nervosas somatossensoriais para os segmentos C-3 a T-5 da medula espinhal. Geralmente, a dor se localiza no lado esquerdo, porque o lado esquerdo do coração está envolvido com maior frequência na doença coronariana. O estômago se origina, aproximadamente, entre o sétimo e o nono segmento torácico do embrião. Portanto, a dor do estômago é referida ao epigástrio anterior acima do umbigo, que é a área de superfície do corpo suprida pelos segmentos torácicos de sete a nove. A Figura 48-6 mostra várias outras áreas de superfície em que a dor visceral de outros órgãos é referida, representando em geral as áreas no embrião, das quais os respectivos órgãos se originaram. Pode ser definida como uma sensação dolorosa superficial, que está distante da estrutura profunda (visceral ou somática) cuja estimulação nóxica é a responsável pela dor. Obedece à distribuição metamérica. A explicação mais aceita para esse fenômeno é a convergência de impulsos dolorosos viscerais e somáticos superficiais e profundos para neurônios nociceptivos comuns localizados no corno dorsal da medula espinal (sobretudo na lâmina V). Visto que o tegumento apresenta um suprimento nervoso nociceptivo muito mais exuberante do que o das estruturas profundas somáticas e viscerais, a representação talâmica e cortical destas é muito menor do que a daquela. Por conseguinte, os impulsos dolorosos provenientes das estruturas profundas seriam interpretados pelo cérebro como oriundos do tegumento e o paciente apontaria a dor neste local. O apêndice parece não ser sede de dor visceral verdadeira. Na apendicite, a dor começa na região epigástrica ou periumbilical (dor referida) e, posteriormente, por irritação do peritônio parietal suprajacente, passa a ser sentida na fossa ilíaca direita (dor somática profunda). A irritação do diafragma ou do nervo frênico não é incomum nas doenças de órgãos torácicos e do andar superior do abdome. Quando ocorre, o paciente apresenta dor referida no ombro (dermátomo de C4) porque o nervo frênico, responsável pela inervação do diafragma, origina-se predominantemente do quarto segmento medular cervical. Porém, as afecções da vesícula biliar (colecistite, colelitíase), que não têm qualquer relação com o diafragma, também podem cursar 7 com dor referida no ombro. Neste caso, ela é explicada pela participação do nervo frênico na inervação nociceptiva da vesícula biliar. Exemplos de dor referida: • Apêndice: dor na região epigástrica ou periumbilical (dermátomos de T6-T1) • Vesícula, fígado: dor na escápula e no ombro • Ureter: dor na virilha e genitália externa • Coração: dor na face mediai do braço. (dermátomo de T1) Caracteriza-se por ser sentida a distância de sua origem, porém ocorre obrigatoriamente em estruturas inervadas pela raiz nervosa ou em nervo cuja estimulação nóxica é responsável pela dor. Um exemplo clássico é a ciatalgia, provocada pela compressão de uma raiz nervosa por uma hérnia de disco lombar. O reconhecimento da localização inicial da dor e de sua irradiação pode indicar a estrutura nervosa comprometida. Assim: 8 • Radiculopatia de SI (lombociatalgia): dor lombar com irradiação para a nádega e face posterior da coxa e da perna, até a região do calcanhar • Radiculopatia de LS (lombociatalgia): dor lombar com irradiação para a nádega e face posterolateral da coxa e da perna, até a região maleolar lateral • Radiculopatia de IA (lombociatalgia): dor lombar com irradiação para a virilha, face anterior da coxa e borda anterior da canela (também face mediai da perna), até a região maleolar mediai • Radiculopatia de LI: dor dorsal na transição toracolombar, com irradiação anterior e inferior para a virilha • Radiculopatia de T4: dor dorsal com irradiação anterior, passando pela escápula, para a área mamilar • Radiculopatia de C6 (cervicobraquialgia): dor cervical com irradiação para a face lateral do braço e antebraço • Neuralgia occipital (radiculopatia de C2 e/ou C3): dor na transição occipitocervical, com irradiação superior, anterior e lateral, podendo atingir vértex, globos oculares, ouvidos e, às vezes, até a face. A dor irradiada pode surgir em decorrência do comprometimento de praticamente qualquer raiz nervosa, podendo ser o território de irradiação predito pelo exame do mapa dermatomérico. Também chamada de dor radicular, é produzida pelo estiramento, torção, compressão ou irritação de uma raiz espinhal, central ao forame intervertebral. É relatada como uma dor aguda e muito intensa, que quase sempre se inicia em uma região central, próxima à coluna, e se dirige para uma parte da extremidade inferior. Um exemplo clássico deste último caso é a ciatalgia, provocada pela compressão de uma raiz nervosa por uma hérnia de disco lombar. Assim como o paciente com hérnia discal entre L4 e L5 (lombociatalgia) comprimindo a raiz de L5, onde a dor é irradiada para a nádega, face posterolateral da coxa e posterolateral da perna. A apendicite aguda constitui a emergência cirúrgica mais comum no nosso meio. Seu diagnóstico e o tratamento cirúrgico precoce influem diretamente no prognóstico dessa patologia. De uma intervenção cirúrgica de execução fácil nas primeiras 24 horas, sua abordagem cirúrgica vai progressivamente tornando- 9 se mais complexa, sobretudo após as primeiras 48 horas. A partir do terceiro dia de evolução do quadro, a frequência decomplicações passa a ter um impacto cada vez maior na forma de tratamento e, de uma simples apendicectomia, realizada nos casos de evolução precoce, essa patologia, nas suas formas mais avançadas, pode exigir abordagem escalonada com drenagens percutâneas e até laparotomias extensas com ressecção do cólon direito e reintervenções para tratamento de peritonite generalizada associada. A apendicite aguda resulta da obstrução da luz do apêndice provocada por – na grande maioria das vezes – fecalito ou hiperplasia linfoide (folículo linfático tem contato com os patógenos locais) e, mais raramente, por corpo estranho, parasitas, cálculo biliar ou tumores. A fisiopatologia é bem conhecida: a configuração própria do apêndice, de diâmetro pequeno e de comprimento longo, predispõe a obstrução em alça fechada. A oclusão da sua porção proximal leva ao aumento da secreção de muco pela mucosa apendicular distal à obstrução; seu lúmen reduzido leva à distensão da sua parede e a uma rápida elevação da pressão, que pode alcançar até 65mm Hg. A distensão estimula fibras nervosas aferentes, produzindo dor abdominal difusa, geralmente periumbilical seguida de náuseas e vômitos. A obstrução da luz do apêndice promove acumulo de secreções e aumento da pressão intraluminal a drenagem venosa diminui, o que desencadeia isquemia da mucosa. O evento seguinte é a trombose das pequenas vênulas e, ao continuar o fluxo arteriolar, a parede se torna cada vez mais edemaciada. A mucosa torna-se progressivamente isquêmica, surgindo ulcerações, levando à quebra da barreira mucosa e à invasão da parede apendicular pela flora bacteriana intraluminal. O processo inflamatório deflagrado progride, então, até atingir a camada serosa e, por contiguidade, o peritônio parietal vizinho, resultando na mudança da localização da dor, que passa a ser referida no quadrante inferior direito, associada à defesa localizada. A persistência da obstrução leva, finalmente, à necrose e à perfuração do apêndice. Além disso, a estase intraluminar contribui para o crescimento bacteriano e espessamento do muco. Nos casos de perfuração, forma-se abscesso bloqueado ou peritonite localizada que pode até evoluir para generalizada. O tempo transcorrido, desde o início da dor até os eventos de gangrena e perfuração, é imprevisível, mas, na maioria dos casos, situa-se em torno de 48 horas para a necrose e 70 horas para a perfuração. Embora, na grande maioria dos casos, estes eventos relatados constituam a evolução natural da doença, em alguns casos pode ocorrer uma regressão espontânea. O que fica bem claro, quando os pacientes são operados com apendicite aguda, são relatos de episódios prévios semelhantes, com involução completa. Da mesma forma, o cirurgião, às vezes, se depara com um apêndice fibrosado e aderências antigas, revelando inflamação anterior (Lewis e colaboradores). Numa análise de 1000 pacientes operados com apendicite aguda, 9% destes relatavam um episódio anterior idêntico e 4%, mais de uma crise prévia. 10 A obstrução da luz do apêndice é a regra para o desenvolvimento fisiopatológico da apendicite aguda; mas, em certas ocasiões, o apêndice removido, embora visivelmente inflamado, não demonstra um sítio de obstrução clara ou a presença de um fecalito. Estes achados reforçam a ideia da importância da hiperplasia linfoide como causa maior do desencadeamento da patologia, o que talvez seja devido à reação dos folículos linfáticos a patógenos intestinais. De fato, por vezes, encontramos episódios de apendicite que sucedem imediatamente a quadros de infecções intestinais bem reconhecidas com mudança clara do quadro clínico. 0 normal 1 hiperemiado e edemaciado 2 exsudato fibrinoso 3 abcesso e necrose 4 perfurado (ultimo, mais grave) Classificação laparoscópica da apendicite aguda: correlação entre graus da doença e as variáveis perioperatórias (scielo.br) 05 (scielo.br) A apendicite aguda é a causa mais comum de abdome agudo de tratamento cirúrgico. É uma doença típica dos adolescentes e adultos jovens, e é incomum antes dos cinco e após os 50 anos. O risco geral de apendicite é de 1/35 em homens e 1/50 em mulheres. A partir dos 70 anos, este risco é de 1/100. A apendicite aguda parece mais frequentemente em países industrializados com hábito alimentar pobre em fibras. Em estudo realizado em 1997, observou-se uma incidência anual de 1/1000 habitantes nos EUA e de 86/100.000 no mundo. As muitas formas de apresentação atípica ainda levam, não raramente, à falha em estabelecer o diagnóstico precoce – que continua sendo o padrão ouro no manejo destes pacientes – pois vai resultar num ato cirúrgico mais simples, mais fácil e com grande impacto no prognóstico, em especial na morbidade, mas até na mortalidade pós-operatória. O quadro clínico é muito característico e, na maioria absoluta dos casos, o diagnóstico é dado por meios semióticos clínicos, raramente necessitando-se de exames complementares a não ser para confirmação do diagnóstico. A dor localizada na região epigástrica ou periumbilical inicia subitamente, quase sempre acompanhada de náuseas e vômitos. Algumas horas depois, ela estaciona na fossa ilíaca direita, indicando o comprometimento do peritônio periapendicular. A febre não costuma ser elevada (37,5 a 38°C) e pode não ocorrer em idosos, dificultando o diagnóstico. A dissociação entre a temperatura retal e a axilar pode ser maior que 0,5°C, dado que deve ser valorizado. A palpação abdominal encontra-se dor na fossa ilíaca direita (ponto de McBurney), hipersensibilidade e defesa muscular nesta região. https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-69912006000500006#:~:text=A%20doen%C3%A7a%20foi%20classificada%20em,ap%C3%AAndice%3B%205%20%2D%20Peritonite%20difusa. https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-69912006000500006#:~:text=A%20doen%C3%A7a%20foi%20classificada%20em,ap%C3%AAndice%3B%205%20%2D%20Peritonite%20difusa. https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-69912006000500006#:~:text=A%20doen%C3%A7a%20foi%20classificada%20em,ap%C3%AAndice%3B%205%20%2D%20Peritonite%20difusa. https://www.scielo.br/pdf/rcbc/v33n5/v33n5a05.pdf 11 A descompressão brusca, após compressão vagarosa, acompanha-se de uma sensação dolorosa que assusta o paciente (sinal de Blumberg). Outra manobra que pode provocar dor na região da fossa ilíaca direita é a palpação profunda e ascendente do hemicólon esquerdo (sinal de Rowsing). Na maioria das vezes, os movimentos peristálticos ficam inibidos, com desaparecimento dos ruídos hidroaéreos (silêncio abdominal). Outra característica é o Sinal do Psoas, o qual é caracterizado por dor após extensão de articulação do quadril direito, já que isso acaba esticando o músculo iliopsoas e acaba pressionando o apêndice retrocecal inflamado. O sinal do psoas é indicativo de irritação do músculo psoas, sendo um dos sinais de apendicite aguda. Posiciona-se o paciente em decúbito lateral esquerdo, e o examinador deve realizar a hiperextensão passiva de membro inferior direito (ou flexão ativa contra resistência com o paciente em decúbito dorsal). Em caso de dor a hiperextensão passiva ou a flexão ativa, o sinal é positivo. O Quarto sinal, Sinal do Obturador, é designado por a presença de dor após a realização do movimento rotação interna da coxa flexionada. Para realizá-lo, com o paciente em decúbito dorsal, faz-se a flexão passiva da perna sobre a coxa e da coxa sobre a pelve, então procede-se com uma rotação interna da coxa. É um dos sinais da apendicite.Tem maior sensibilidade nas apendicites com posição retrocecal, aderido ao músculo obturador. Dá-se positivo quando refere-se dor no hipogastro. Quando ocorre peritonite franca, os sintomas e sinais desta afecção dominam o quadro clínico. A leucocitose com neutrofilia e desvio para a esquerda tem valor diagnóstico. A radiografiasimples do abdome só fornece dados após a instalação da peritonite. A tomografia computadorizada pode oferecer elementos importantes nos casos de diagnóstico difícil. De um modo geral, diante de qualquer dor de caráter agudo, que envolve o quadrante inferior direito do abdômen, devemos pensar na possibilidade de tratar-se de um quadro de apendicite. O diagnóstico diferencial deve ser baseado na idade e no sexo. Em crianças, é importante lembrar que a apendicite é pouco frequente abaixo dos cinco anos, sendo muito rara em lactentes. Em crianças, doenças extra-abdominais tais como a otite média, a meningite e a pneumonia podem manifestar-se com desconforto e distensão abdominal, náuseas e vômitos. Embora a diarreia não exclua o diagnóstico de apendicite, quando ela se manifesta por episódios copiosos, o diagnóstico de gastrenterite ou de infecção intestinal viral são mais prováveis, especialmente se houver pródromos de febre e mialgia. A grande maioria dos falsos diagnósticos de apendicite aguda ocorre em mulheres jovens onde a incidência de problemas ginecológicos é alta. Mulher em idade fértil apresenta ausência de menstruação, dor no quadrante inferior direito ou dor na pelve com algum grau de sangramento vaginal, podendo este ser mínimo. Pode haver dor à mobilização do colo no exame pélvico. O nível hormonal de gonadotrofina coriônica humana é alto no soro e na urina. Uma ultrassonografia revela a presença de massa nas tubas uterinas. Atraso menstrual. A queda do hematócrito e o exame ultrassonográfico, mostrando sangue no fundo do saco retovaginal, selam o diagnóstico. A punção do fundo de saco vem sendo cada vez menos realizada por conta da introdução da ultrassonografia. 12 A endometriose pélvica também deve ser lembrada, na sua apresentação cíclica da dor abdominal relacionada com a menstruação, quando a dor é isolada sem sinais inflamatórios sistêmicos, e até a própria dismenorreia não pode ser esquecida. No homem jovem, a orquiepididimite, a torção do testículo e a litíase ureteral direita podem manifestar-se por dor na fossa ilíaca direita e, eventualmente, induzirem ao diagnóstico errôneo da doença apendicular num exame menos atento. Geralmente localiza-se no ceco, mas pode aparecer em outros segmentos do cólon. Também é chamado divertículo congênito. É mais comum em indivíduos jovens e evolui com pouco ou nenhum sintoma, mas, eventualmente, pode causar hemorragia. Adquire maior importância clínica quando é sede de processo inflamatório (diverticulite), cujo diagnóstico de certeza é praticamente impossível quando localizado no ceco, sendo confundido com apendicite aguda. Ao se fazer a laparotomia, percebe-se que se trata de diverticulite e não de apendicite. Geralmente assintomática. O quadro clínico de diverticulite é semelhante ao de apendicite aguda. O teste de pertecnetato de tecnécio poderá mostrar o aumento do divertículo, se a mucosa gástrica estiver presente. Geralmente se apresenta em crianças com história recente de infecção do trato respiratório superior. A dor no abdome é geralmente difusa, com sensibilidade não localizada no quadrante inferior direito. Pode ocorrer contração muscular, mas geralmente não há rigidez. Pode ser observada linfadenopatia generalizada. Não há um teste específico para confirmar o diagnóstico. A linfocitose relativa em contagens diferenciais de leucócitos é sugestiva. Comum em crianças; causada por vírus, bactérias ou toxinas. Caracterizada por diarreia aquosa profusa, náuseas e vômitos. Dores em cólica frequentemente precedem a diarreia, e não há sinais de localização. Se for causada por febre tifoide, a perfuração intestinal pode causar dor abdominal localizada e/ou generalizada e dor à descompressão brusca. Nesse cenário, o exantema maculopapular associado, bradicardia inadequada e leucopenia diferenciarão o diagnóstico da apendicite. Não tem peritonite. Não há teste específico, exceto se for decorrente de febre tifoide (a presença de Salmonella typhi nas fezes ou no sangue confirmará o diagnóstico). Ocorre em crianças pequenas (com 4 horas. A maioria dos pacientes apresenta dor abdominal abrupta, febre, distensão e dor à descompressão brusca. História de nefrose ou cirrose avançada. Uma TC pode revelar líquido no abdome. O líquido peritoneal mostra uma contagem de >500/microlitro e >25% de leucocitose polimorfonuclear. Ocorre em mulheres, geralmente com idades entre 20 e 40 anos. Apresenta-se com sensibilidade nos quadrantes inferiores de ambos os lados, geralmente em até 5 dias a partir do último período menstrual. Secreção purulenta do óstio cervical. O uso de swab endocervical pode confirmar a doença inflamatória pélvica decorrente de Chlamydia trachomatis. Na metade do ciclo menstrual, breve período de dor na parte inferior do abdome, geralmente não associada a náuseas e vômitos nem a febre. Ainda a torção ou a rotura de cisto de ovário, sobretudo à direita, também 14 fazem parte do diagnóstico diferencial; um toque vaginal que provoque dor abdominal, embora não exclua definitivamente apendicite aguda, é fortemente sugestivo de doença ginecológica. Mulher com dor no quadrante inferior direito. Ocasionalmente, apresenta-se com massa no quadrante inferior direito. A ultrassonografia mostra cisto ovariano e fluxo sanguíneo diminuído. 1337427821ApendAguda.pdf (saudedireta.com.br) Apendicite aguda - Diagnósticos diferenciais | BMJ Best Practice 1. Discutir a propedêutica no quadro de dor visceral (apendicite aguda) e os exames complementares; O fator mais importante para diagnostico é a história O exame mais importante é o hemograma,que mostra uma variação entre 10.000 e 18.000 leucócitos, com uma média de 15.000/mm³ com desvio para a esquerda. Leucometria acima de 18.000 é incomum em apendicite não perfurada. É preciso atentar que aumentos muito discretos podem ocorrer nas primeiras 24 horas, atingindo, no máximo, 11.000 leucócitos por mm³, em mais de 65% dos casos. Cifras acima de 18.000/ mm³ são vistas, com frequência, em apendicites perfuradas, com ou sem a formação de abscesso. Leucócitos normais de 3.600 a 11.000 Outros exames comumente solicitados incluem a dosagem de amilase para afastar quadros abdominais de pancreatite ou perfurações altas do tubo digestivo e a pesquisa de elementos anormais e sedimento na urina para diferenciar de quadros de origem urinária. (Urina tipo 1-EAS) É preciso lembrar que o EAS pode mostrar alterações, como piócitos e hemáceas, em pacientes com apendicite aguda, consequência da inflamação contígua do ureter ou bexiga, quando houver contato próximo do apêndice. É claro, quadros de hematúria ou piúria macroscópica ou maciça são fortemente sugestivos de patologia urológica. Se o hemograma revelar uma queda significativa do hematócrito e da hemoglobina em mulheres em idade fértil com dor abdominal aguda, o diagnóstico diferencial de gravidez tubária rota se impõe. Embora os exames de imagem estejam disponíveis em hospitais terciários, muitos diagnósticos de apendicite aguda podem ser realizados somente com base na história, exame físico e hemograma. O mais importante é termos um alto índice de suspeição, tendo em vista a frequência desta doença e gravidade de suas complicações que incluem perfuração, formação de abscessos, sepse e peritonite. Nesse sentido, Alvarado desenvolveu uma escala para identificar a probabilidade de estarmos diante de um paciente com apendicite aguda, baseada unicamente em achados físicos e no hemograma. https://www.saudedireta.com.br/docsupload/1337427821ApendAguda.pdf https://bestpractice.bmj.com/topics/pt-br/290/differentials 15 Uma pontuação de três para baixo (índice baixo), quase exclui apendicite aguda (96,2% de achados normais na tomografia computadorizada). Com sete pontos ou mais (índice alto), encontramos 78% de casos positivos em mulheres e 94% em homens. Entre quatro e seis pontos (índice intermediário), a sensibilidade é de 35% de casos positivos para a apendicite. Em locais onde exames de imagem – ultrassonografia e, sobretudo, a tomografia computadorizada – não são disponíveis, escores com três ou menos pontos podem ter alta para casa com instruções para retorno em 12 horas; escores de quatro a seis podem ser observados – internados – e com sete ou mais pontos podem ser levados à cirurgia, aceitando-se um índice geral de erro diagnóstico entre 10 a 20%, em laparotomias ou laparoscopias brancas – ou não terapêuticas. A escala de Alvarado pode também ser útil na seleção de pacientes para complementação diagnóstica por tomografia computadorizada, sendo indicada nos casos intermediários (quatro a seis pontos) e dispensável abaixo de três. Dos sete pontos para cima, a TC serve mais para a localização do apêndice do que para firmar um diagnóstico. A rotina radiológica simples de abdome agudo constituída – no mínimo – de uma radiografia simples de tórax em PA, ortostática e de dois filmes do abdome (de pé e deitado) é solicitada de uma forma sistemática na abordagem do paciente com dor abdominal aguda. Entretanto, o RX simples em si não consegue confirmar o diagnóstico de apendicite aguda, e é mais útil no diagnóstico de outras patologias responsáveis pelo quadro de abdome agudo, como quadros de obstrução intestinal ou perfurações de víscera oca. Em raras situações, pode ser visto um coprolito (Apendicolito) na projeção do apêndice, sendo esse achado fortemente sugestivo de apendicite. Este sinal, porém, está presente em menos de 5% dos casos. No entanto, para a maioria dos autores, não há nos portadores de apendicite aguda alterações características e específicas ao RX simples: encontramos apenas a presença de um nível hidroaéreo no ceco e íleo terminal, distensão do delgado, escoliose com orientação para direita ou apagamento do psoas direito, sinais sem qualquer especificidade. A disponibilidade de exames de imagem modernos capazes de alto grau de resolução diagnóstica como a ultrassonografia e a tomografia computadorizada não deve substituir o diagnóstico clínico, pelo contrário, eles se complementam. É necessário conhecer bem os eventos patológicos das diversas formas de apresentação da apendicite aguda para procurar, nas imagens, o que suspeitamos que possa estar ocorrendo. “Quem não sabe o que procura, não enxerga o que encontra” (“Quand on ne sait pas ce que l’on cherche, on ne voit pas ce que l’on trouve” – Claude Bernard). A realização de enema baritado afasta a possibilidade de apendicite aguda quando este se enche de contraste, porém a ausência da sua visualização não confirma o diagnóstico, já que 10% dos apêndices normais não se contrastam no clister opaco. Ainda corre-se o risco de extravasamento de bário para a cavidade peritoneal se houver perfuração apendicular – sendo esse exame radiológico muito pouco efetuado. 16 A utilização da ultrassonografia no diagnóstico da apendicite aguda foi mais tardia do que para outras patologias devido à dificuldade inicialmente encontrada para vencer o obstáculo representado pelo acúmulo de gases intestinais, que obscurecem a visão do apêndice. Gás sempre atrapalha a visualização do apêndice. Quando inflamado, o apêndice se apresenta como uma estrutura em fundo cego, imóvel, não compressível, com lúmen anecoico, mucosa ecogênica e parede muscular espessada e hipoecoica ao seu longo, adjacente ao ceco, com diâmetro de 6 mm ou mais. No corte transversal, é vista uma imagem “em alvo” com a luz do órgão circundada pela parede espessada. O ultrassom também pode revelar coleções líquidas, fleimão e apendicolito. Entretanto, quando existe apendicite com perfuração, sua visualização é muito prejudicada na manobra de compressão progressiva do transdutor. Quando o exame é feito pelo Döppler colorido, verifica-se também o aumento do fluxo sanguíneo no apêndice inflamado com a imagem conhecida como “anel de fogo”. Já a demonstração do apêndice normal é a de uma estrutura tubular compressível com diâmetro máximo de 5 mm. A sensibilidade e a especificidade do US variam de 76% a 96% e de 47% a 94% respectivamente, pois é um exame essencialmente operador-dependente. A maior dificuldade na ultrassonografia é identificar um apêndice normal, sobretudo em pacientes obesos, nos apêndices retrocecais e quando há íleo paralítico associado ao quadro abdominal, o que nos leva a concluir que este exame é mais útil em detectar apendicite do que em afastá-la, pois é necessário ver o órgão normal. 17 Com uma sensibilidade de 87% a 100% e uma especificidade de 95% a 100%, a tomografia computadorizada é o exame de maior confiabilidade no diagnóstico da apendicite aguda. Seus achados habituais são: distensão do apêndice (diâmetro igual ou maior que 6 mm), espessamento da parede do apêndice, densificação da gordura pericecoapendicular e realce da parede do órgão; pode ocasionalmente mostrar a presença de coprolito. Mostra, também com precisão, os limites de fleimões e a presença de coleções intra-abdominais e abscessos associados, permitindo, muitas vezes, sua drenagem percutânea dirigida. Ela pode ser muito eficiente tanto sem contraste, ou com contraste retal, oral e venoso, ou combinados. O uso da TC permite reduzir muito o índice de laparotomias brancas e também o de perfurações adiantando o diagnóstico nos casos obscuros. A utilização dos exames de imagem, embora amplamente realizados de forma rotineira, não é um consenso nas apresentações clássicas da apendicite aguda, embora seja de grande importância nos casos atípicosou duvidosos. Anti espasmódicos Opioides Analgésicos comuns O tratamento da apendicite aguda é cirúrgico e deve ser efetuado tão logo o diagnóstico estiver estabelecido. Um preparo pré-operatório deve ser prontamente instituído, com avaliação clínica do paciente, dieta zero, hidratação parenteral e reposição eletrolítica, e introdução de antibióticos no pré-operatório – preferencialmente pelo cirurgião que tomou a decisão operatória. A apendicite aguda é uma infecção polimicrobiana com associação de germes aeróbios e anaeróbios, sendo os principais agentes encontrados nas culturas a Escherichia coli (gram negativa) e o Bacteroides fragilis (gram negativa). A antibioticoterapia é direcionada à flora bacteriana intestinal com abrangência para germes aeróbios e anaeróbios. As associações de ciprofloxacina com metronidazol, ou ainda de aminoglicosídeo com metronidazol ou clindamicina e ampicilina, ou até da amoxicilina-clavulanato, costumam ser a primeira opção no nosso meio. Há também a combinação de Metronidazol e Ceftriaxona. 18 A primeira dose, feita ainda no pré-operatório, reduz a ocorrência de infecções da ferida operatória, assim como de abscessos intraperitoneais. A duração do tratamento, no entanto, é discutida. Nos casos não complicados, não há evidência de benefício em manter a administração dos antibióticos por mais de 24 horas. Já nos casos de perfuração, necrose ou de abscessos localizados, o tratamento deve ser prolongado até, pelo menos, o paciente permanecer sem febre e com leucograma normal durante 24 horas seguidas. Muitos completam o esquema de tratamento até completar sete ou dez dias, dependendo da gravidade do caso. O tratamento cirúrgico consiste basicamente na apendicectomia, drenagem de abscesso e lavagem com soro fisiológico do campo operatório. O metronidazol foi apresentado como um agente antiprotozoário, mas também é ativo nas bactérias anaeróbias como Bacteroides, Clostridia spp e alguns estreptococos. É eficaz na terapia da Pseudomembranous colitis e importante no tratamento de infecções anaeróbias graves. O metronidazol destrói os trofozoítos da E. histolytica, porém não tem efeito sobre os cistos. Trata-se do fármaco de escolha para a amebíase invasiva do intestino ou do fígado, porém mostra-se menos efetivo contra os microrganismos na luz do intestino. O metronidazol é ativado pelos microrganismos anaeróbicos para um composto que danifica o DNA, provocando, então, apoptose em células parasitárias. Interage com o DNA para causar perda da estrutura helicoidal do DNA e quebra da fita, resultando em inibição da síntese de proteínas e morte celular em organismos suscetíveis. Em geral, é adm VO e é completamente absorvido. Preparações retais e intravenosas também estão disponíveis. É rapidamente distribuído pelos tecidos, atingindo concentrações elevadas nos líquidos corporais, incluindo o líquido cerebroespinhal. Uma parte é metabolizada, porém a maior parte é eliminada na urina. Os efeitos adversos são leves. Foram relatadas alterações gastrointestinais menores, bem como sintomas do SNC (tonturas, cefaleia, neuropatias sensitivas). O fármaco provoca reação semelhante ao dissulfiram com o álcool, o qual deve ser estritamente evitado. O metronidazol não deve ser usado na gravidez. – As cefalosporinas e as cefamicinas são antibióticos β-lactâmicos, inicialmente isoladas a partir de fungos. Apresentam o mesmo mecanismo de ação das penicilinas. Mecanismo de ação das Penicilinas que é igual das cefalosporinas: Todos os beta-lactâmicos interferem na síntese do peptidoglicano. Depois de se fixarem às proteínas de ligação à penicilina nas bactérias, inibem as transpeptidases que cruzam as cadeias peptídicas ligadas à estrutura do peptidoglicano. A ação bactericida final é a inativação de um inibidor de enzimas autolíticas na parede celular, provocando a lise da bactéria. Alguns organismos, referenciados como “tolerantes”, possuem enzimas autolíticas deficientes, razão pela qual não ocorre a lise em resposta ao fármaco. Em suma inibe a síntese da parede celular bacteriana pela ligação a uma ou mais das proteínas de ligação à penicilina, que por sua vez inibe a etapa final de transpeptidação da síntese de peptideoglicano nas paredes celulares bacterianas. Aspectos farmacocinéticos Algumas cefalosporinas podem ser administradas oralmente a ceftrixona não tem VO, porém a maioria é administrada por via parenteral, intramuscular (o que pode ser doloroso) ou intravenosa. Após absorção, são amplamente distribuídas no corpo e algumas, como cefotaxima, cefuroxima e ceftriaxona, atravessam o líquido cefalorraquidiano. A excreção é feita majoritariamente pelos rins, principalmente por secreção tubular, mas 40% da ceftriaxona é eliminada na bílis. 19 Efeitos adversos Podem ocorrer reações de hipersensibilidade muito semelhantes às que ocorrem com as penicilinas, e pode haver alguma sensibilidade cruzada; cerca de 10% dos indivíduos sensíveis à penicilina apresentarão reação alérgica às cefalosporinas. Foi reportada nefrotoxicidade (especialmente com cefadrina), uma vez que existe intolerância ao álcool induzida pelo fármaco. A diarreia também é comum e pode ser causada pela C. difficile. São frequentemente combinadas com outros antibióticos, tem importância na quimioterapia antibacteriana, mas podem ser destruídas por enzimas amidases e β-lactamases, base de um dos principais tipos de resistência aos antibióticos. Primeiras penicilinas: benzilpenicilina (penicilina G) e congêneres, incluindo a fenoximetilpenicilina (penicilina V). As principais desvantagens são a má absorção através do trato gastrointestinal e sua suscetibilidade às β- lactamases. Semissintéticas: penicilinas resistentes às β-lactamases (ex., meticilina, 4-flucloxacilina, temocilina) e penicilinas de largo espectro (ex., ampicilina, amoxicilina). As penicilinas de largo espectro (p. ex., ticarcilina, piperacilina) e antipseudomonas conseguiram superar o problema causado por infecções graves decorrentes de P. aeruginosa. Aspectos farmacocinéticos A absorção oral varia dependendo de sua estabilidade. Podem ser adm por via IV e IM também. Não é mais adm por via intratecal pois pode causar convulsões. São amplamente distribuídas pelo corpo, penetrando nas articulações; nas cavidades pleural e pericárdica; na bílis, saliva e leite; e através da placenta. São lipoinsolúveis e apenas atravessam a barreira hematoencefálica se as meninges estiverem inflamadas; nesse caso, podem atingir concentrações terapeuticamente efetivas no líquido cefalorraquidiano. A eliminação da maior parte das penicilinas ocorre rápida e majoritariamente nos rins, sendo 90% através de secreção tubular. A meia-vida plasmática relativamente curta. Efeitos adversos Relativamente isentas de efeitos tóxicos diretos (exceto as convulsões quando administradas por via intratecal). Os efeitos adversos principais são hipersensibilidade. Erupções cutâneas e febre são comuns; um tipo tardio de doença do soro ocorre raramente. Muito mais grave é o choque anafilático agudo, que pode, embora raro, ser fatal. Por VO alteram a flora bacteriana do intestino, associado a distúrbios gastrointestinais e, em alguns casos, a suprainfecções através de outros microrganismos resistentes à penicilina, provocando problemas como a colite pseudomembranosa. Incluem agentes de largo espectro, como ciprofloxacina, levofloxacina, ofloxacina, norfloxacina e moxifloxacina, bem como ácido nalidíxico, um fármaco de pequeno espectro utilizado nas infecções do trato urinário. Esses agentes inibem a topoisomerase II (uma DNA girase bacteriana), a enzima que produz a super- helicoidização negativa do DNA e que permite, desse modo, a transcrição ou replicação. Espectro antibacteriano e uso clínico 20 Ciprofloxacina é a mais utilizada. Tem largo espectro antibiótico efetivo, tanto contra microrganismosGram- positivos quanto contra os Gram-negativos, incluindo muitos microrganismos resistentes à penicilina, cefalosporinas e aminoglicosídeos. Aspectos fármacocinéticos Bem absorvidas por via oral. Os fármacos acumulam-se em vários tecidos, principalmente nos rins, próstata e pulmões. Todas as quinolonas estão concentradas em fagócitos; a maioria não atravessa a barreira hematoencefálica, mas a ofloxacina sim. Os antiácidos de alumínio e magnésio interferem na absorção das quinolonas. Efeitos adversos Nos hospitais, podem surgir infecções por C. difficile. As manifestações mais frequentes são distúrbios gastrointestinais e erupções cutâneas. Além de artropatia em pacientes jovens, também foram observados sintomas do sistema nervoso central – dor de cabeça e tonturas – e, com menos frequência, convulsões. A moxifloxacina prolonga o intervalo QT do eletrocardiograma. 21 Hálan Coura Alves¹, Nardele Resende Costa², Vinicius Marins Carraro³. Antibioticoterapia como uma opção eficaz para o tratamento da apendicite aguda: revisão bibliográfica Rang e Dale Farmacologia ilustrada