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Direito do Trabalho Carla Romar Doutora e Mestre pela PUC-SP. Bacharel em Direito pela USP. Perita em relações trabalhistas – Organização Internacional do Trabalho (OIT). Professora Doutora dos Cursos de Pós-Graduação stricto sensu, de Pós-Graduação lato sensu e de Graduação da Faculdade de Direito da PUC-SP. Advogada trabalhista. Sumário DIREITO INDIVIDUAL DO TRABALHO – 1. Conceito de Direito do Trabalho: 1.1. Origem histórica do Direito do Trabalho; 1.1.1. Constitucionalismo social; 1.2. ‐ Direito do Trabalho no Brasil – 2. Princípios do Direito do Trabalho: 2.1. Princípios específicos do Direito do Trabalho; 2.1.1. Princípio protetor; 2.1.2. Princípio da irrenunciabilidade; 2.1.3. Princípio da continuidade da relação de emprego; 2.1.4. Princípio da primazia da realidade; 2.1.5. Princípio da razoabilidade; 2.1.6. Princípio da boa-fé – 3. Fontes do Direito do Trabalho: 3.1. Fontes formais heterônomas; 3.1.1. Constituição Federal; 3.1.2. Lei; 3.1.3. Ato administrativo; 3.1.4. Sentença normativa; 3.1.5. Jurisprudência; 3.1.6. Sentença arbitral; 3.2. Fontes formais autônomas; 3.2.1. Convenção coletiva de trabalho; 3.2.2. Acordo coletivo de trabalho; 3.2.3. Costume; 3.2.4. Regulamento de empresa; 3.3. Hierarquia das fontes no Direito do Trabalho – 4. Relação de emprego: 4.1. Características; 4.2. Sujeitos; 4.3. Natureza jurídica – 5. Relação de trabalho: 5.1. Trabalho autônomo; 5.2. Trabalho eventual; 5.3. Trabalho temporário; 5.4. Trabalho avulso; 5.5. Trabalho voluntário; 5.6. Estagiário; 5.7. Cooperativa de trabalho; 5.8. Terceirização de serviços – 6. Empregado – 7. Empregador: 7.1. Poder de direção do empregador; 7.2. Grupo econômico; 7.3. Sucessão de empregadores – 8. Empregado doméstico – 9. Empregado rural – 10. Contrato de trabalho: 10.1. Características do contrato de trabalho; 10.2. Elementos do contrato de trabalho; 10.3. Nulidade do contrato de trabalho; 10.4. Prova do contrato de trabalho; 10.5. Efeitos do contrato de trabalho; 10.6. Duração do contrato de trabalho – 11. Duração do trabalho: 11.1. Jornada de trabalho; 11.1.1. Jornada normal; 11.1.2. Jornadas especiais; 11.2. Jornada e horário de trabalho; 11.3. Controle de horário; 11.4. Jornada extraordinária; 11.4.1. Compensação da jornada de trabalho; 11.4.2. Horas extras decorrentes de força maior ou de serviços inadiáveis; 11.4.3. Integração das horas extras; 11.4.4. Supressão das horas extras; 11.4.5. Empregados excluídos das regras de limitação de jornada; 11.5. Jornada noturna; 11.6. Períodos de repouso; 11.6.1. Intervalos intrajornada; 11.6.2. Intervalos interjornadas – 12. Férias – 13. Salário e remuneração: 13.1. Natureza das verbas pagas pelo empregador ao empregado; 13.2. Formas de pagamento do salário; 13.3. Meios de pagamento do salário; 13.4. Regras de proteção ao salário; 13.4.1. Periodicidade do pagamento; 13.4.2. Prova do pagamento; 13.4.3. Inalterabilidade; 13.4.4. Irredutibilidade; 13.4.5. Impenhorabilidade; 13.4.6. Intangibilidade; 13.4.7. Pagamento em moeda corrente; 13.5. Salário mínimo, salário normativo, salário profissional, piso salarial; 13.6. Salário complessivo; 13.7. Equiparação salarial; 13.8. Décimo terceiro salário (ou gratificação de Natal); 13.9. Adicionais de remuneração – 14. Alteração do contrato de trabalho – 15. Suspensão e interrupção do contrato de trabalho – 16. Extinção do contrato de trabalho: 16.1. Extinção do contrato de trabalho por prazo determinado; 16.2. Extinção do contrato por prazo indeterminado – 17. Aviso-prévio – 18. Estabilidade no emprego: 18.1. Gestante; 18.2. Dirigente sindical; 18.3. Membro da CIPA (cipeiro); 18.4. Empregado acidentado no trabalho; 18.5. Diretores de sociedades cooperativas; 18.6. Membro da comissão de representantes dos empregados; 18.7. Estabilidade provisória – disposições gerais – 19. FGTS – 20. Rescisão do contrato de trabalho – formalidades – 21. Prescrição e decadência: 21.1. Prescrição; 21.2. Decadência – 22. Flexibilização do Direito do Trabalho – 23. Proteção ao trabalho do menor: 23.1. Aprendizagem – 24. Proteção ao trabalho da mulher – DIREITO COLETIVO DO TRABALHO – 1. Conceito de Direito Coletivo do Trabalho – 2. Conteúdo do Direito Coletivo do Trabalho – 3. Funções do Direito Coletivo do Trabalho – 4. Princípios do Direito Coletivo do Trabalho – 5. Liberdade sindical – 6. Relações coletivas e relações individuais de trabalho – 7. Autonomia privada coletiva – 8. Organização sindical brasileira – 9. Categorias profissionais e econômica – 10. Base territorial – 11. Unicidade sindical – 12. Fontes de receita das entidades sindicais – 13. Formas de solução dos conflitos coletivos de trabalho: 13.1. Negociação coletiva; 13.2. Convenção e acordo coletivo de trabalho – 14. Greve – Referências bibliográficas – Questões – Material digital exclusivo ■ ■ DIREITO INDIVIDUAL DO TRABALHO 1. CONCEITO DE DIREITO DO TRABALHO Direito do Trabalho é o ramo da ciência do Direito composto pelo conjunto de normas que regulam, no âmbito individual e coletivo, a relação de trabalho subordinado, que determinam seus sujeitos (empregado e empregador) e que estruturam as organizações destinadas à proteção do trabalhador. 1.1. Origem histórica do Direito do Trabalho A origem do Direito do Trabalho está vinculada à Revolução Industrial, nome pelo qual é conhecida a longa série de mudanças tecnológicas, econômicas, sociais e políticas ocorridas no século XIX. O Direito do Trabalho nasce, assim, com a sociedade industrial e o trabalho assalariado, sob influência de razões de ordem econômica, política e jurídica. A principal causa econômica foi a própria Revolução Industrial (fins do século XVIII, início do século XIX), que trouxe mudanças tecnológicas que incluíram o uso de novos materiais básicos, tais como o ferro e o aço, a descoberta de novas fontes de energia, tais como o carvão, a máquina a vapor, a eletricidade, os motores de combustão, a máquina de fiar, o tear mecânico. Também o desenvolvimento dos transportes, como a locomotiva a vapor e o navio, e das comunicações, como o telégrafo e o rádio. Essas modificações tecnológicas levaram às modificações econômicas, que ocorreram em virtude da transformação da produção artesanal em uma produção em larga escala, o que levou ao desenvolvimento do comércio e à definição dos conceitos de lucro e acumulação de riquezas. Com a expansão da indústria e do comércio, houve a substituição do trabalho escravo, servil e corporativo pelo trabalho assalariado em larga escala, do mesmo modo que a manufatura cedeu lugar à fábrica e, mais tarde, à linha de produção. A principal causa política foi a transformação do Estado Liberal (da plena liberdade contratual) em Estado Neoliberal (o Estado intervém na ordem econômica e social, limitando a liberdade plena das partes). As formas extremadas de intervenção do Estado foram o corporativismo e o socialismo, com características fortemente autoritárias, transferindo a ordem trabalhista para o âmbito das relações de natureza pública. A principal causa jurídica foi a justa reivindicação dos trabalhadores, de um sistema de direito destinado à sua proteção, passando alguns direitos básicos a ser garantidos, com o reconhecimento da necessidade de se assegurar uma igualdade jurídica a uma relação (entre empregado e empregador) na qual não há uma igualdade natural. Uma consequência importantíssima dessa causa jurídica foi o surgimento do sindicalismo, como forma de união dos trabalhadores para conseguirem melhores condições de trabalho. ■ ■ Começa a surgir uma legislação em condições de coibir os abusos do empregador e preservar a dignidade do homem no trabalho, ao contrário do que ocorria com o proletariado exposto a jornadas diárias excessivas, salários extremamente baixos, exploração de menores e mulheres e desproteção total diante de acidentes no trabalho e riscos sociais como a doença, o desemprego etc. Essas modificações contribuíram decisivamente, como uma reação contra a QUESTÃO SOCIAL, pois traziam a ideia de justiça social. 1.1.1. Constitucionalismo socialConstitucionalismo social é o movimento que se caracteriza pela inserção de direitos trabalhistas e sociais fundamentais nos textos das Constituições dos países. A Constituição mexicana de 1917 foi a primeira a construir uma estrutura significativa de direitos sociais dos trabalhadores, seguida pela Constituição alemã (Constituição de Weimar) de 1919. Aos poucos, as Constituições modernas dos Estados democráticos foram reproduzindo os princípios das Constituições do México e da Alemanha. 1.2. Direito do Trabalho no Brasil Pode-se afirmar que o Direito do Trabalho no Brasil inicia-se a partir da Revolução de 1930, quando o Governo Provisório chefiado por Getúlio Vargas criou o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e deu início à elaboração de uma legislação trabalhista ampla e geral. Em 1943 é aprovada a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), estruturando a legislação trabalhista e assegurando direitos muito importantes aos trabalhadores. Com a Constituição Federal de 1988, os direitos dos trabalhadores são elevados a categoria de direitos fundamentais. ■ 2. PRINCÍPIOS DO DIREITO DO TRABALHO Os princípios do Direito do Trabalho se constituem nas linhas diretrizes ou postulados que inspiram o sentido das normas trabalhistas e configuram a regulamentação das relações de trabalho. A doutrina identifica as seguintes funções dos princípios: Função informadora – servem de fonte de inspiração ao legislador e de fundamento para as normas jurídicas. Função normativa – servem como fonte supletiva, nas lacunas ou nas omissões da lei. Função interpretativa – servem como critério orientador para os intérpretes e aplicadores da lei. De acordo com o art. 4º da LINDB, quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito. O art. 8º da CLT disciplina claramente que, na falta de disposições legais ou contratuais, o intérprete pode socorrer-se dos princípios do Direito do Trabalho. Evidencia-se, pois, o caráter informador dos princípios no sentido de orientar o legislador na fundamentação das normas jurídicas, assim como o de fonte normativa, para suprir lacunas ou omissões da lei. A Constituição Federal de 1988 não enumerou expressamente os princípios do Direito do Trabalho. No entanto, é inquestionável a existência no texto constitucional de princípios que são aplicáveis no âmbito do Direito do Trabalho (art. 1º, ■ ■ ■ III e IV; art. 193; art. 170, caput, III e VIII; art. 5º, caput, I, X, XIII, XVII a XX, XLI e XLII; art. 170, caput, III e VIII; art. 193). 2.1. Princípios específicos do Direito do Trabalho 2.1.1. Princípio protetor Refere-se a um critério fundamental orientador do Direito do Trabalho: em vez de inspirar-se em um propósito de igualdade, baseia-se em um amparo preferencial a uma das partes da relação de emprego: o trabalhador. O fundamento deste princípio está ligado à própria razão de ser do Direito do Trabalho: nivelar desigualdades. No entanto, com a Reforma Trabalhista trazida pela Lei n. 13.467/2017, a sistemática do Direito do Trabalho brasileiro, fundada na proteção do trabalhador enquanto parte hipossuficiente na relação laboral, restou afetada, o que alterou significativamente o princípio em estudo. Embora não tenha sido extinto, o princípio protetor foi atingido pela Reforma Trabalhista. Aspectos da Lei n. 13.467/2017 que mitigaram a amplitude e a força do princípio protetor: ampliação da autonomia individual do trabalhador, permitindo e considerando válida a negociação direta entre este e o empregador sobre diversos aspectos como, por exemplo, para pactuação de compensação de jornada por meio de banco de horas (§ 5º, art. 59, CLT) e das regras do teletrabalho (art. 75-C, CLT), a rescisão do contrato de trabalho sem necessidade de homologação (art. 477, CLT) ■ ■ e a extinção do contrato de trabalho por comum acordo entre as partes (art. 484-A, CLT). previsão de que existem trabalhadores que não podem ser considerados economicamente mais fracos e sobre os quais não se pode pressupor desigualdade em relação ao empregador – os chamados “hipersuficientes” (art. 444, parágrafo único, CLT), assim considerados os trabalhadores portadores de diploma de nível superior e que percebam salário mensal igual ou superior a duas vezes o limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social, autorizando a livre estipulação pelos mesmos sobre os direitos em relação aos quais a negociação coletiva foi ampliada (art. 611-A, CLT). prevalência do negociado sobre o legislado – o legislador valorizou a negociação coletiva, considerando-a válida mesmo que esta contrarie certos preceitos legais e fixou como princípio a intervenção mínima na autonomia da vontade coletiva (§ 3º, do art. 8º; art. 611-A, caput e parágrafos; parágrafo único do art. 611-B e art. 620, todos da CLT). A questão sobre a validade de norma coletiva de trabalho que limita ou restringe direito trabalhista não assegurado constitucionalmente é objeto do Tema 1.046 de Repercussão Geral, que foi julgado em 2-6- 2022 pelo STF, tendo sido fixada a seguinte tese: “São constitucionais os acordos e as convenções coletivos que, ao considerarem a adequação setorial negociada, pactuam limitações ou afastamentos de direitos trabalhistas, independentemente da explicitação especificada de vantagens compensatórias, desde que respeitados os direitos absolutamente indisponíveis”. a) Apesar das modificações acima indicadas, a proteção do trabalhador permanece sendo o fundamento e o mais importante princípio do Direito do Trabalho, e deve ser analisado a partir das seguintes regras: Regra da norma mais favorável – é regra de aplicação de norma jurídica: sempre que existirem várias normas aplicáveis a uma mesma situação jurídica, deve-se aplicar a norma mais favorável ao trabalhador. No Direito do Trabalho não se considera uma ordem hierárquica de normas, mas, no caso concreto, deverá ser aplicada a norma mais favorável ao trabalhador. Assim, por exemplo, admite-se a prevalência de cláusula mais favorável de uma convenção coletiva de trabalho sobre uma lei trabalhista que regule a mesma matéria. Admite-se a prevalência de cláusula mais favorável de um acordo coletivo de trabalho sobre o quanto previsto na Constituição Federal1. Mas como comparar as normas para saber qual delas é a mais favorável? Adotando-se a chamada teoria do conglobamento, as normas devem ser comparadas em conjunto, ou seja, na sua integralidade, não sendo possível fazer a comparação extraindo- se de cada uma das normas apenas as disposições mais favoráveis2. Destaque-se, porém, que a redação do art. 620 da CLT, dada pela Lei n. 13.467/2017, fragiliza a regra da norma mais favorável, à medida que dispõe que as condições fixadas em b) c) acordo coletivo de trabalho sempre prevalecerão sobre as estipuladas em convenção coletiva de trabalho. Regra do “in dubio pro operario” – é regra de interpretação de norma jurídica: entre duas ou mais interpretações viáveis de uma norma jurídica, o intérprete deve optar pela mais favorável ao trabalhador. Este é o critério que o intérprete deve levar em conta todas as vezes que uma norma possuir vários sentidos diferentes e uma escolha tiver de ser feita: deve prevalecer aquele sentido que for o mais favorável ao trabalhador. No entanto, tal regra foi mitigada pela Reforma Trabalhista introduzida pela Lei n. 13.467/2017, em especial em relação à restrição de interpretação imposta à Justiça do Trabalho sobre o conteúdo das convenções coletivas e dos acordos coletivos de trabalho (art. 8º, § 3º e art. 611-A, § 1º, CLT). Regra da condição mais benéfica – pressupõe a existência de uma situação concreta, anteriormente reconhecida, e determina que ela deve ser respeitada, na medida em que for mais favorável ao trabalhador do que a nova norma aplicável. A nova regulamentação deverá respeitar, em situações concretas reconhecidas em favor do trabalhador, as condições que lhe resultem mais benéficas do que as estabelecidas paraa matéria tratada pela nova regulamentação. Neste sentido, em relação ao regulamento de empresa, a Súmula 51 do TST estabelece: ■ I – As cláusulas regulamentares, que revoguem ou alterem vantagens deferidas anteriormente, só atingirão os trabalhadores admitidos após a revogação ou alteração do regulamento; II – Havendo a coexistência de dois regulamentos da empresa, a opção do empregado por um deles tem efeito jurídico de renúncia às regras do sistema do outro. Essa regra também foi impactada pela Reforma Trabalhista introduzida pela Lei n. 13.467/2017, em razão da ampliação da autonomia individual e da validação das pactuações decorrentes de acordo direto entre empregado e empregador, especialmente em relação aos empregados considerados pelo parágrafo único do art. 444 da CLT como “hipersuficientes”, sendo consideradas válidas as estipulações por eles negociadas diretamente com o empregador em relação aos direitos indicados no art. 611-A da CLT. 2.1.2. Princípio da irrenunciabilidade Refere-se à impossibilidade de o empregado abrir mão voluntariamente dos direitos que lhe são concedidos pela legislação trabalhista. Quais são os efeitos da violação do princípio da irrenunciabilidade? Tendo em vista que as normas trabalhistas são, em sua maioria, de ordem pública e, portanto, inderrogáveis, as renúncias que ocorrerem carecem de qualquer efeito no mundo do direito: são absolutamente ineficazes, ou seja, nulas de pleno direito3. No entanto, a irrenunciabilidade de direitos trabalhistas foi mitigada pela Reforma Trabalhista (Lei n. 13.467/2017), com a previsão da figura do trabalhador “hipersuficiente” (art. 444, ■ parágrafo único, CLT), que pode negociar condições de trabalho menos benéficas, em comparação com os direitos trabalhistas previstos na legislação, salvo aqueles garantidos pela Constituição Federal, ainda que isso signifique renúncia a tais direitos. Importante é a diferença no Direito do Trabalho entre renúncia e transação. Renúncia é ato unilateral e voluntário através do qual o titular de um direito certo desiste do referido direito, ou seja, abre mão dele. A renúncia pelo empregado de direitos que lhe são assegurados pelas normas de ordem pública não é permitida. Transação é ato bilateral através do qual as partes de uma relação jurídica, fazendo concessões recíprocas, extinguem obrigações litigiosas ou duvidosas. A transação no Direito do Trabalho é permitida, mas apenas de forma restrita, tendo em vista que sua validade depende da inexistência de qualquer prejuízo ao empregado. Neste sentido dispõe o art. 468 da CLT: Nos contratos individuais de trabalho só é lícita a alteração das respectivas condições por mútuo consentimento, e ainda assim desde que não resultem, direta ou indiretamente, prejuízos ao empregado, sob pena de nulidade da cláusula infringente desta garantia. 2.1.3. Princípio da continuidade da relação de emprego ■ ■ Expressa a tendência do Direito do Trabalho de atribuir à relação de emprego a mais ampla duração, sob todos os aspectos. Através deste princípio presume-se que o contrato de trabalho terá validade por prazo indeterminado. Tudo o que vise à conservação da fonte de trabalho e a dar segurança ao trabalhador gera um benefício não só a ele, mas também para a empresa e para a sociedade, na medida em que contribui para aumentar o lucro e para melhorar o clima social das relações entre as partes. O ônus de provar o término do contrato por iniciativa do obreiro é de iniciativa do empregador, pois o princípio da continuidade da relação de emprego constitui presunção favorável ao empregado (Súmula 212, TST). Também esse princípio foi relativizado pela Reforma Trabalhista (Lei n. 13.467/2017), por exemplo, nos seguintes aspectos: previsão da possibilidade de rescisão do contrato de trabalho por comum acordo entre as partes (art. 484-A, CLT); previsão de possibilidade mais facilitada de o empregador proceder a dispensas coletivas ou plúrimas, não havendo, nesses casos, necessidade de autorização prévia de entidade sindical ou de celebração de convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho para sua efetivação (art. 477-A da CLT). A questão sobre a participação do sindicato nas dispensas coletivas ou plúrimas (dispensas em massa) é objeto do Tema 638 de Repercussão Geral, que foi julgado em 8-6-2022 pelo STF, tendo sido fixada a seguinte tese: “A intervenção sindical prévia é exigência procedimental imprescindível para a dispensa em massa de trabalhadores, que não se confunde com autorização prévia por parte da ■ entidade sindical ou celebração de convenção ou acordo coletivo”.4 2.1.4. Princípio da primazia da realidade Significa que, em caso de discordância entre o que ocorre na prática e o que emerge de documentos ou acordos, deve-se dar preferência aos fatos (contrato-realidade). O significado que deve se atribuir a este princípio é o da prevalência dos fatos sobre as formas, formalidades ou as aparências. Isto significa que, em matéria de trabalho, o que vai importar é o que ocorre na prática, muito mais do que aquilo que conste em documentos, formulários e instrumentos de controle. É claro que não se pode concluir absolutamente que esta primazia dos fatos sobre os documentos pactuados significa que as estipulações contratuais carecem de qualquer valor. O que não se pode fazer é invocar um texto escrito para pretender que ele se sobreponha aos fatos. Como exemplos de prevalência dos fatos sobre a formalidade de documentos, podemos citar: a) contrato expresso escrito: autônomo/contrato-realidade: empregado; b) vínculo de emprego – Carteira Profissional – data de ingresso: 15-9-2022/data real de ingresso: 15-9-2021; c) Aviso e recibo de férias: assinado pelo empregado/realidade: não recebeu, nem gozou de férias; d) horas extras: cartões de ponto: não registram horas extras/depoimentos de testemunhas: comprovam horas extras. Assim, com fundamento no art. 9º da CLT, verifica-se que, se o documento foi formalmente elaborado com o intuito de, encobrindo a realidade dos fatos, fraudar as normas trabalhistas, será nulo de pleno direito. ■ a) b) ■ 2.1.5. Princípio da razoabilidade Consiste na afirmação de que o ser humano, em suas relações trabalhistas, procede e deve proceder conforme a razão. Trata-se de um limite ou um freio formal a ser aplicado naquelas áreas do comportamento onde a norma não pode prescrever limites muito rígidos e onde a norma não pode prever a infinidade de circunstâncias possíveis. No Direito do Trabalho, este princípio, aplicado em relação a ambas as partes do contrato, tem duas grandes formas de aplicação: em alguns casos serve para medir a verossimilhança de determinada aplicação ou solução; em outros casos atua como obstáculo, como limite de certas faculdades cuja amplitude pode prestar-se à arbitrariedade. 2.1.6. Princípio da boa-fé O trabalhador deve cumprir o contrato de boa-fé, enquanto o empregador deve cumprir lealmente suas obrigações. Trata-se de princípio que abrange ambas as partes do contrato, e não apenas uma delas. Este princípio é visto como um princípio geral que deve ser levado em conta para a aplicação de todos os direitos e obrigações que as partes adquirem como consequência do contrato de trabalho e que informa a totalidade de regulamentação, com características de postulado moral e jurídico. A boa-fé se refere à conduta da pessoa que deve cumprir realmente com seu dever, pressupondo uma posição de honestidade e honradez na relação jurídica, porque contém implícita a consciência de não enganar, não prejudicar, nem causar danos. Direito do Trabalho – Carla Romar