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1 Eixo temático: Questões Agrária, Urbana e Ambiental DESASTRES SOCIOAMBIENTAIS EM JABOATÃO DOS GUARARAPES - PE: RELAÇÕES ENTRE DESIGUALDADE E POBREZA Solange Santos de Santana1 Resumo Este artigo visa analisar os desastres socioambientais em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco (PE), tendo como marco o ano de 2022. A proposta do artigo é trazer discussões sobre os desastres socioambientais e sua relação com a pobreza e as desigualdades. Trata-se de uma pesquisa fundamentada no materialismo histórico-dialético, buscando interpretar a realidade a partir de uma abordagem totalizadora dos fenômenos. Palavras-chave: Desastres socioambientais; desigualdade; pobreza; Jaboatão dos Guararapes-PE. Abstract This article aims to analyze socio-environmental disasters in Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco (PE), focusing on the year 2022. The article proposes to discuss socio-environmental disasters and their relationship with poverty and inequality. This is a study based on historical-dialectical materialism, seeking to interpret reality through a comprehensive approach to the phenomena. Keywords: Socio-environmental disasters; inequality; poverty; Jaboatão dos Guararapes-PE. 1. INTRODUÇÃO Este artigo analisa os desastres socioambientais ocorridos em 2022 no município de Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, com foco nas estruturas sociais, econômicas e políticas que influenciam a realidade local. O principal objetivo é compreender como esses 1 solange.santana@ufpe.br. Universidade Federal de Pernambuco. 2 eventos se relacionam com a pobreza e a desigualdade, evidenciando as conexões entre fatores sociais e os impactos ambientais. Ao longo da pesquisa, foi realizado um levantamento de dados sobre o número de habitantes, a densidade populacional e a quantidade de pessoas vivendo em áreas de risco. Também foi apresentado um breve histórico dos desastres socioambientais no município, além da análise dos dados sobre o número de vítimas e a resposta do Governo do Estado de Pernambuco em relação a esses eventos. Simultaneamente, foi realizada uma análise crítica dos indicadores socioeconômicos de Jaboatão dos Guararapes, destacando como esses dados revelam a condição de pobreza da população e desigualdade no acesso à terra. O estudo se propôs a analisar como esses fatores impactam a vida da classe trabalhadora e de que maneira são moldados pelo modo de produção capitalista, ressaltando as contradições, desigualdades e injustiças. Ao final, com base nas discussões levantadas, este estudo pretende contribuir para uma compreensão dos desastres socioambientais, a partir da realidade do município de Jaboatão dos Guararapes-PE, destacando sua relação com a desigualdade, a pobreza e as políticas públicas insuficientes que afetam de maneira desproporcional a classe trabalhadora, especialmente a população mais pobre. Além disso, a partir do estudo, busca- se também enfatizar a relevância da discussão sobre essa temática para o campo do Serviço Social, uma vez que os desastres socioambientais revelam diversas expressões da questão social advindas pelo modo de produção capitalista. Assim, a apresentação deste artigo é estruturada em três partes: a primeira aborda Jaboatão dos Guararapes e os desastres socioambientais; a segunda explora a relação entre pobreza, desigualdade e esses desastres; e a terceira apresenta as considerações finais, nas quais se destaca a importância do tema para o Serviço Social, além de reflexões sobre o município de Jaboatão dos Guararapes, PE. 2. JABOATÃO DOS GUARARAPES E OS DESASTRES SOCIOAMBIENTAIS Jaboatão dos Guararapes, situado no estado de Pernambuco, faz parte da Região Metropolitana do Recife (RMR) e está localizado na região Nordeste do Brasil. Segundo os últimos dados do Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a área total de Jaboatão dos Guararapes é de 258.724 km², e sua população é de aproximadamente 643.759 habitantes, com uma densidade demográfica de 2.488,21 habitantes por quilômetro quadrado. 3 A alta densidade populacional é um reflexo de questões estruturais alicerçadas pelo modo de produção capitalista e intensificadas pelo neoliberalismo. Tendo em vista que a concentração populacional acirra a luta por espaço e recursos. A pressão sobre o mercado imobiliário se intensifica, resultando em uma escalada nos preços de imóveis e aluguéis, o que não só torna a habitação mais inacessível para grande parte da população, como também contribui para o surgimento de áreas superlotadas e de habitações precárias e informais. Essa relação entre a busca por recursos e a intensificação das desigualdades reflete o impacto das dinâmicas de mercado sobre as condições de vida das pessoas. Ianni (1989, p. 201), em uma discussão sobre as desigualdades sociais, observa que, enquanto os trabalhadores buscam terra e melhores condições de vida, a desigualdade tende a se aprofundar. As desigualdades sociais não se reduzem; ao contrário, reiteram-se ou agravam-se: vários itens da questão social atravessam a história das várias repúblicas: as lutas operárias e camponesas, as reivindicações do movimento negro, o problema indígena, a luta pela terra, a liberdade sindical, o direito de greve, as garantias do emprego, o salário-desemprego, o acesso à saúde, educação, alimentação e habitação. Essa realidade é particularmente evidente em localidades como Jaboatão dos Guararapes, que, segundo dados do IBGE de 2010, figura entre os 20 municípios com maiores números de moradores em domicílios particulares permanentes em áreas de risco no Brasil, ocupando a 6ª posição, apontando 29,2% da população em área de risco. Ao longo dos anos, as consequências desses riscos tornaram-se mais evidentes, especialmente com eventos climáticos extremos que agravaram a situação. Conforme o boletim da Secretaria Executiva de Assistência Social, em 2022, entre 23 de maio e 31 de julho. Pernambuco registrou 133 vítimas devido a deslizamentos de terra, choques elétricos e enchentes, o que representa o maior número de óbitos em desastres desde 1970. Jaboatão dos Guararapes foi o município mais afetado, contabilizando 64 mortes, especialmente nos bairros Zumbi do Pacheco e Curado IV. No ano anterior aos desastres (2021), a Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes destinou R$ 196 milhões para obras de infraestrutura do Programa de Financiamento à Infraestrutura e Saneamento da Caixa. O objetivo era avançar nas intervenções necessárias para a manutenção de encostas e a melhoria do sistema de drenagem da cidade. Entretanto, mesmo com esse investimento significativo, muitas áreas continuam a enfrentar alagamentos e a falta de infraestrutura adequada, resultando em impactos diretos na 4 qualidade de vida dos moradores. Além disso, um número expressivo de obras de infraestrutura permanece paralisado. De acordo com Vigolo (2010, p. 35), os impactos dos desastres socioambientais evidenciam as desigualdades sociais e a falta de atenção do poder público em atender às necessidades básicas, como a garantia de uma moradia digna, além de questões como a segregação urbana e a alta densidade populacional. No entanto, apesar de tornarem essas questões evidentes, a mídia e o Estado muitas vezes buscam revisar a situação e camuflar o fenômeno dos desastres socioambientais. A tentativa de mascarar a realidade se conecta diretamente aos problemas estruturais, perpetuando a desinformação e dificultando a conscientização sobre a gravidade da situação enfrentada pelos territórios afetados. O governo do Estado de Pernambuco categoriza os desastres socioambientais, resultantes da falta de políticas públicas em habitação e saneamento, como fenômenos e desastres naturais, atribuindo as mortes e perdas materiais às fortes chuvas e inundações.Um exemplo disso é o Boletim da Secretaria Executiva de Assistência Social, que afirma que “Pernambuco, em 2022, vivenciou a pior tragédia em decorrência das fortes chuvas que atingiram o estado”. No entanto, é importante destacar que os desastres não devem ser atribuídos exclusivamente às chuvas. Tendo em vista que os desastres resultam de uma combinação de fenômenos naturais e fatores sociais, econômicos e políticos que agravam a situação, refletindo uma realidade mais complexa, incluindo a ausência de políticas públicas por parte do Estado que garantam moradia digna. Em contrapartida, e não como uma resposta ao governo do estado de PE, mas em solidariedade às famílias afetadas e aos profissionais do Serviço Social, o Cress-PE emite uma nota intitulada “não se trata das chuvas, é sobre a falta das políticas públicas”, ressaltando que o problema em questão não foi causado pelas fortes chuvas, mas pela falta de políticas públicas. Levando em consideração todo o sistema que busca ocultar o fenômeno dos desastres socioambientais, existem diversas definições e interpretações sobre o que realmente os caracteriza. Neste artigo, o termo “desastre socioambiental” é baseado nas definições da autora Vigolo (2010), que aborda a questão em sua dissertação intitulada “Política de Assistência Social, Prevenção e Respostas aos Desastres Socioambientais” como: 5 Expressão da relação destrutiva entre sociedade e natureza que se manifesta em determinado momento e espaço, provocando prejuízos à vida humana e/ou à sua reprodução. Embora se manifeste em tempo e espaço delimitado, o desastre socioambiental é construído social, histórica e globalmente e atinge a população e os países de forma diferenciada, de acordo com variadas condições geológicas, hidrológicas, climáticas, econômicas, sociais, culturais, políticas, científicas, institucionais, etc. (2010, p. 63). A autora define o desastre socioambiental como uma intersecção entre fatores naturais e sociais, enfatizando que esses eventos não são meras consequências de fenômenos naturais, mas também refletem desigualdades estruturais e políticas públicas insuficientes. A autora também destaca que essa realidade afeta diferentes populações e países de maneiras distintas, destacando a urgência de abordagens integradas e contextualmente sensíveis nas questões socioambientais. Assim, é fundamental não apenas compreender os desastres em si, mas também reconhecer as dinâmicas sociais e históricas que os tornam possíveis. 3 DESIGUALDADE, POBREZA E DESASTRES SOCIOAMBIENTAIS As classes mais ricas ocupam as áreas secas e produtivas, enquanto as classes mais pobres são relegadas a locais insalubres (Lima, 2022, p. 42). Quando a temporada de chuvas se inicia na RMR, é frequente a divulgação de notícias sobre deslizamentos de terra, inundações e choques. Essas situações muitas vezes resultam em tragédias que impactam desproporcionalmente a população mais pobre. Pois, a desigualdade social é, em grande parte, consequência da dinâmica do modo de produção capitalista, que favorece a concentração de riqueza nas mãos de uma minoria, fazendo com que haja um acesso desigual a recursos, como terra e infraestrutura, que são cruciais para a segurança e qualidade de vida das pessoas. Dados do IBGE entre os anos de 2010 e 2024 indicam que mais da metade da população de Jaboatão dos Guararapes vive em situação de baixa renda e está inserida no CadÚnico. Além disso, também traz considerações de que, nos últimos dados, em 2010, 98% da população morava em áreas urbanas e 2% em área rural. Sendo assim, mesmo com os dados desatualizados, é fundamental destacar a distribuição da população entre as áreas urbana e rural. Tendo em vista que a desigualdade presente indica uma tendência à urbanização, levantando questões sobre o desenvolvimento urbano, acesso a serviços essenciais, emprego e moradia adequada. No 6 artigo Entre necessidade e ausência: O déficit habitacional na Região Metropolitana do Recife, Lima, Gondim e Souto (2022, p. 83) salientam que: Jaboatão dos Guararapes, segundo maior PIB do estado, contorna a cidade núcleo da metrópole. Na conformação física e geográfica, herda a composição de fileira de morros nos limites territoriais do Recife, expondo riscos para a população que habita as encostas sem tratamento apropriado. Traçada por canais, porções alagáveis e o Rio Jaboatão, detém uma parte rural oriunda de antigos engenhos de açúcar, sendo porções marcadas por ocupações de populações de baixa renda, moradias precárias e intermitência de acesso à água potável. As considerações acima ressaltam que, apesar de o município ter o segundo maior PIB do estado, a desigualdade persiste no que diz respeito ao acesso à terra, à moradia digna, à saúde, à segurança e às condições socioeconômicas. Além disso, evidencia a ineficiência dos serviços de água potável, de infraestrutura, e a insuficiência das políticas públicas, que faz com que os moradores dessas áreas sejam expostos ao risco de deslizamentos, afogamentos, perdas materiais e de vida, impactando não apenas a saúde, mas também a segurança e a qualidade de vida. Para Ianni (1989, p. 192), existe um paradoxo entre a prosperidade econômica e o sofrimento da classe trabalhadora, tanto no campo quanto nas cidades. Ele argumenta que a riqueza de alguns é construída sobre a exploração e a negação dos direitos dos trabalhadores, que são os mais afetados por essa dinâmica. Ao relacionar essa questão aos desastres socioambientais, fica claro que grande parte da classe trabalhadora enfrenta desafios significativos, como, por exemplo, a falta de moradia digna, perpetuando a desigualdade e o sofrimento humano. A privação do acesso à terra é uma negação de direitos básicos fundamentais à vida. A dificuldade de acesso à terra e à habitação de qualidade, juntamente com políticas públicas insuficientes, está diretamente ligada às expressões da questão social, conforme afirmado por Arcoverde (2008, p. 115): Expressões da questão social se manifestam em todos os espaços e tempos sociais e institucionais, conformando uma humanidade de privações e sem direitos — à vida, teto, terra, emprego estável protegido, escolarização, proteção social, alma, identidade — deixando visível e em situação desconfortável os sujeitos estratégicos para o enfrentamento dessas questões — o Estado, o mercado e a sociedade civil organizada. Assim, Arcoverde ressalta a interconexão entre desigualdade, privação de direitos e as instituições como Estado, mercado e sociedade civil organizada. Diante do fortalecimento das ideias neoliberais, que visam a diminuição dos gastos sociais, é crucial a restauração de um Estado que valorize a democracia e o bem-estar 7 social, atendendo efetivamente às necessidades da população, pois: “No contexto do neoliberalismo, a proteção social, que abrange ações relacionadas à garantia de bens públicos, é mercantilizada e deve ter no mercado a oferta de serviços para a satisfação das necessidades sociais” (Arcoverde e Chaves, 2021, p. 173). Nesse cenário, os serviços básicos de responsabilidade do Poder Público sofrem cada vez mais com o desmonte e com o desfinanciamento que impacta a vida da população mais pobre. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo analisou os desastres socioambientais em Jaboatão dos Guararapes, PE, com foco particular nos eventos ocorridos em 2022. A análise também se propôs a compreender as interações entre fatores sociais, econômicos e ambientais, destacando a ineficiência das políticas públicas. Além disso, enfatiza o papel do capitalismo como sistema econômico predominante, que, desde sua origem, tem gerado transformações e impactos significativos sobre a classe trabalhadora. Segundo Guerra (2021, p. 179): O resultado real: vidas humanas em condição de degradação total que não serviam mais para retornarem aomercado de trabalho, partes de uma classe perigosa, que colocavam as vidas das famílias burguesas em risco material e moral. Vivendo nas ruas, desempregados, trabalhadores individuais ou em família, para ter as condições mínimas de não perecerem, buscavam respostas por meio de diferentes maneiras, destacando as práticas de mendicância, o roubo e a prostituição de seus corpos. Assim, o artigo baseia-se em documentos institucionais disponíveis nos sites oficiais do Governo do Estado de Pernambuco e do Brasil, além de analisar dados e informações do IBGE. O artigo explora alguns fenômenos como pobreza e desigualdade, fundamentando-se em autores do Serviço Social. Além disso, analisa a qualidade de vida da população e a renda, que se revelaram determinantes na discussão sobre desastres socioambientais. Ao aprofundar essa análise, buscamos compreender como essas condições sociais influenciam diante de desastres. O município de Jaboatão dos Guararapes, situado na RMR, ilustra bem a intersecção entre desigualdade social, pobreza e desastres socioambientais. A alta densidade populacional, combinada com os índices de pobreza presentes na região, retrata uma situação alarmante das desigualdades estruturais, exacerbadas pelo capitalismo e pela ineficiência de políticas públicas. Os dados mostram que, mesmo em um município com o segundo maior PIB do estado de Pernambuco, a população mais pobre enfrenta sérias dificuldades, incluindo a precariedade na infraestrutura e no acesso a serviços básicos. 8 Portanto, a desigualdade no acesso à terra é uma realidade em Jaboatão dos Guararapes. Enquanto alguns desfrutam de áreas planas, a população mais pobre é relegada a locais insalubres, expostos ao risco de inundações e deslizamentos. Essa situação gera, diariamente, a falta de segurança e de qualidade de vida, além da ausência de políticas públicas que garantam moradia digna e bem-estar. Ao considerar a desigualdade e a pobreza como aspectos interconectados da questão social e dos desastres socioambientais, é essencial ressaltar a importância desse tema para o serviço social. Tendo em vista que é responsabilidade dos Assistentes Sociais : […] ações de resistência e alianças estratégicas no jogo da política em suas múltiplas dimensões, por dentro dos espaços institucionais e especialmente no contexto de lutas sociais. […] Seja no apoio às resistências cotidianas das classes subalternas em suas lutas em nossa sociedade, expressando que profissionalmente caminhamos junto aos nossos usuários (Yazbeck, p. 27). A citação de Yazbeck enfatiza que os Assistentes Sociais devem se envolver em ações de resistência e formar alianças estratégicas para enfrentar desigualdades e injustiças. Sua atuação deve ocorrer em diferentes esferas políticas, tanto dentro das instituições quanto nas lutas sociais mais amplas. Além de apoiar as resistências diárias das classes trabalhadoras, os profissionais devem caminhar lado a lado com seus usuários, demonstrando compromisso e solidariedade em suas lutas e desafios. Assim, os resultados deste estudo visam inspirar pesquisas e ações práticas sobre a questão dos desastres socioambientais. Recomenda-se que pesquisas futuras avaliem o impacto de políticas públicas de habitação e saneamento no município, monitorando o progresso ao longo do tempo para garantir melhorias sustentáveis. REFERÊNCIAS ARCOVERDE, Ana Cristina Brito; CHAVES, Helena Lúcia Augusto. Desigualdades e privação de direitos na sociabilidade capitalista e suas expressões no Brasil. 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