Prévia do material em texto
1 Finanças Comportamentais PROFESSOR MORGAN HOUSEL 2 Sumário O comportamento como fator de enriquecimento ........................................ 3 O limite do conhecimento do mercado .......................................................... 7 O papel da sorte ............................................................................................... 9 Riqueza é aquilo que não se pode ver.......................................................... 14 O custo e a mentalidade para enriquecer no mercado de ações ............... 15 Otimismo ou pessimismo? ............................................................................ 16 Disposição para assumir riscos ................................................................... 17 Vieses sobre o risco ...................................................................................... 19 Dívidas, dinheiro poupado e habilidade de resistir ao bear market .......... 21 Tomando o controle do tempo com dinheiro .............................................. 24 Ninguém pensa em você tanto quanto você mesmo .................................. 26 Lidando com os ciclos de mercado pelo otimismo racional ...................... 27 Vantagens e desvantagens ........................................................................... 29 3 O comportamento como fator de enriquecimento Podemos começar esta disciplina abordando uma questão essencial para os investidores: por que eles continuam a cometer os mesmos erros que cometiam há 100 anos? Para entender melhor esse ponto, Morgan Housel explora o comportamento relacionado ao investimento, destacando a psicologia do dinheiro como a resposta para a questão. A verdade é que lidar bem com o dinheiro não está relacionado à inteligência, à instituição de ensino que você frequentou ou à complexidade das equações matemáticas que aprendeu a fazer. O que realmente faz a maior diferença no investimento é a psicologia. No final das contas, não se trata exatamente daquilo que você sabe, mas sim de como você se comporta. Uma história que resume a psicologia do dinheiro é a de Grace Groner. Nascida em uma fazenda perto de Chicago, em 1910, Grace teve uma vida difícil. Ela ficou órfã ainda na infância, nunca se casou, não teve filhos e viveu em uma casa simples, de apenas um quarto, vestindo roupas usadas e trabalhando como secretária. Descrita como uma mulher amável, ela levou uma vida humilde e faleceu em 2010, aos 100 anos. 4 Quando Grace Groner morreu, deixou todos que a conheciam chocados ao descobrirem que ela havia doado 7 milhões de dólares para instituições de caridade. Aqueles que a conheciam ficaram perplexos e se perguntaram como uma humilde secretária órfã conseguiu acumular uma quantia tão grande. Ao investigarem suas contas bancárias e relatórios financeiros, perceberam que ela não ganhou na loteria, nem recebeu uma herança milionária. O que Grace fez foi pegar o pouco dinheiro que conseguiu economizar de seu trabalho como secretária, investir no mercado de ações e deixá-lo intocado por 80 anos. Esta, basicamente, foi toda a sua história. Em contraste, vamos comparar o feito notável de Grace com a vida de Richard Fuscone. Nascido em uma família rica, ele frequentou a Universidade de Harvard e obteve um MBA na Universidade de Chicago. Trabalhou em Wall Street nos anos 1980, tornando-se um dos homens mais importantes e poderosos no mundo das finanças. Richard foi vice-presidente do Merrill Lynch e dirigiu uma de suas maiores divisões, antes de se aposentar aos 40 anos para se tornar filantropo. Resumindo, Richard foi extremamente bem-sucedido em sua carreira nas finanças. Aqui temos uma coincidência temporal: duas semanas após a morte de Grace Groner, que deixou toda a sua fortuna para instituições de caridade, Richard declarou falência. Ele informou ao juiz que a crise financeira de 2008 o destruiu completamente. Richard não tinha 5 renda, nem ativos, estava completamente falido. Sua única maneira de alimentar a família era vendendo os móveis de sua casa. Essas histórias de Grace e Richard são particularmente reveladoras. Perceba que em nenhuma outra área é possível que alguém sem formação acadêmica, experiência ou família rica se saia muito melhor do que uma pessoa com a melhor educação, experiência e apoio financeiro familiar. Esse tipo de discrepância não ocorre em nenhum outro campo. O que isso demonstra? Que lidar bem com o dinheiro não está relacionado ao conhecimento formal sobre finanças, à inteligência ou à instituição de ensino frequentada. Afinal de contas, Richard possuía todas essas vantagens, mas isso não importou no final. Lidar bem com o dinheiro depende muito mais do comportamento. Grace, por exemplo, tinha paciência e um pensamento voltado para o longo prazo, o que foi importante para seu acúmulo de capital. Esse comportamento é essencial, mas difícil de ensinar, pois não pode ser facilmente resumido em gráficos e fórmulas. A verdade é que a questão da psicologia do investimento é frequentemente ignorada, mesmo sendo o aspecto mais importante do investimento. Um dos pontos mais importantes sobre dinheiro, que é fácil de entender, mas raramente ensinado nas escolas, é a diferença entre finanças e matemática. Em matemática, há uma resposta certa para todos: 2 mais 2 sempre será 4, independentemente de quem você é 6 ou de onde você vem. Essa abordagem tende a ser aplicada também ao ensino das finanças, mas isso é equivocado. A realidade das finanças é que pessoas de diferentes origens, partes do mundo, idades e níveis de renda chegam a conclusões diferentes sobre o que é certo para elas. Não existe uma resposta universalmente correta. Isso é particularmente evidente quando se compara a experiência financeira de pessoas em diferentes países. Nos EUA, por exemplo, a geração atual nunca experimentou realmente uma inflação significativa. Em contraste, em muitas outras partes do mundo, a inflação é uma realidade constante. Na Austrália, antes da Covid, não houve recessão por 30 anos, um cenário bem diferente de muitas outras economias. Essa diversidade de experiências molda as percepções e estratégias de investimento de cada indivíduo. Portanto, é fundamental entender que o que funciona para um investidor pode não funcionar para outro, devido às suas experiências e contextos únicos. O comportamento financeiro e a adaptação às circunstâncias pessoais são mais importantes do que seguir uma fórmula única ou um conselho padronizado. Todo mundo enxerga o mundo através da lente de suas próprias experiências. Essas experiências moldam a visão de mundo de cada indivíduo, levando a diferentes compreensões de como a economia funciona. Diferente de matemática ou ciências exatas, onde há uma compreensão fundamental uniforme, a economia é vista de maneiras variadas por diferentes pessoas. Essas diferentes visões resultam em objetivos, tolerâncias de risco e aspirações diversos. Em vez de buscar uma resposta certa para as finanças, o mais eficaz é ser introspectivo. Cada pessoa deve avaliar sua própria visão do mundo, objetivos e tolerância ao risco. O que funciona para um pode não funcionar para outro, e isso é aceitável. É essencial encontrar o que funciona para cada pessoa individualmente, em vez de tentar aplicar uma resposta universal a questões financeiras. Esse é um ponto importante que Morgan Housel destaca ao discutir o universo dos investimentos. Ele menciona que, ao longo da última 7 década, mudou sua perspectiva sobre o julgamento das estratégias de investimento alheias. Antes, ele acreditava que havia uma única maneira correta de investir, e qualquer abordagem diferente estava errada. Agora, ele reconhece que há inúmeras formas de investir com sucesso, desde quese encaixem na personalidade e nos objetivos de cada investidor. Esse reconhecimento leva a uma compreensão mais profunda de que, ao aprender sobre finanças, muitas pessoas buscam tomar decisões financeiras racionais, acreditando que existe uma resposta certa a ser seguida. No entanto, Housel sugere que, em vez de focar em ser racional, as pessoas deveriam buscar ser razoáveis. Ser razoável envolve entender e aceitar a diversidade de estratégias de investimento e encontrar a abordagem que melhor se adapta às circunstâncias individuais, em vez de tentar seguir uma fórmula universal de sucesso financeiro. A forma como cada pessoa toma decisões financeiras deve estar alinhada com sua personalidade e objetivos, mesmo que outros não concordem. Se as decisões forem razoáveis e funcionarem para o indivíduo, isso é o mais importante. O limite do conhecimento do mercado Housel menciona que, ao viajar para fora dos EUA, fica surpreso com a frequência com que as pessoas discutem os preços das moedas estrangeiras e o valor de suas moedas em relação a outras. Nos EUA, esse não é um tema comum. Cada pessoa tem sua própria visão de como a economia e o mercado funcionam, baseadas em suas experiências individuais. Isso resulta em percepções incompletas da realidade econômica, pois ninguém tem uma visão perfeita de como a economia funciona. Housel enfatiza que todos somos prisioneiros das experiências que tivemos, e essas experiências moldam nossa compreensão do mundo. Portanto, é preciso reconhecer que nossa visão é limitada e aceitar 8 que outras perspectivas podem ser igualmente válidas, mesmo que diferentes das nossas. Ele destaca a dificuldade de entender plenamente as experiências dos outros, mesmo com empatia e leitura sobre diferentes realidades. Ele menciona uma palestra que fez com Daniel Kahneman, psicólogo e economista que ganhou o Prêmio Nobel em Economia e que cresceu na França ocupada pelos nazistas. Kahneman explicou como essas experiências o tornaram pessimista sobre o mundo e a humanidade. Housel reconhece que, embora tenha empatia com aqueles que cresceram em situações difíceis, como zonas de guerra ou pobreza, nunca terá a mesma compreensão emocional profunda que aqueles que realmente viveram essas experiências possuem. No final, todos somos prisioneiros do nosso passado quando pensamos sobre como o mundo funciona. Ao perguntar a Kahneman como os investidores podem abrir suas mentes para as experiências dos outros, Kahneman respondeu que não há muito que se possa fazer; é um fato da vida. No entanto, ao insistir um pouco mais, Kahneman sugeriu duas coisas que poderiam ser feitas. Uma das sugestões de Kahneman para abrir a mente dos investidores é conversar com pessoas que estão em situações diversas, especialmente de gerações ou países diferentes. Essas pessoas tiveram experiências econômicas muito distintas, e tentar entender suas visões do mundo pode expandir os horizontes para partes do mundo que normalmente não se consideraria. Daniel Kahneman, que ganhou o prêmio Nobel de Economia 9 A outra sugestão é ficar próximo de alguém que esteja em uma situação emocional diferente da sua, alguém que não seja da família ou um colaborador próximo. Essa pessoa deve ser alguém com quem se pode falar sobre dinheiro sem carregar o mesmo peso emocional ou vieses que se tem sobre o próprio dinheiro. De acordo com Kahneman, ter uma perspectiva externa e emocionalmente diferente pode ajudar a tomar decisões financeiras melhores e mais equilibradas. O papel da sorte Uma parte importante no universo dos investimentos que é frequentemente ignorada é o papel da sorte. A sorte é uma força poderosa que influencia muitos aspectos do sucesso financeiro, mas frequentemente é desconsiderada por duas razões principais. Primeiramente, reconhecer a sorte no sucesso de alguém pode soar rude ou desmerecer o esforço dessa pessoa. Em segundo lugar, admitir para si mesmo que seu próprio sucesso pode ser resultado de sorte pode ser desconfortável e prejudicial ao ego. Em todos os casos de grande sucesso financeiro, a sorte tem algum papel, embora não seja o único fator. Reconhecer isso é fundamental para uma compreensão mais equilibrada do sucesso nos investimentos. Por exemplo, figuras como Elon Musk, Warren Buffett e Bill Gates são frequentemente citadas como modelos de sucesso. Embora seja possível aprender muito com essas pessoas, não se pode replicar a sorte que contribuiu para seus sucessos. Bill Gates, por exemplo, frequentou a única escola secundária nos Estados Unidos que possuía um computador na época, o que foi um golpe de sorte que facilitou o início de sua trajetória na Microsoft. Portanto, é fundamental reconhecer que, além da inteligência, talento e trabalho duro, a sorte desempenhou um papel significativo no sucesso dessas figuras. Tentar copiar apenas suas estratégias sem levar em consideração a sorte pode ser perigoso e levar a uma compreensão distorcida do que é necessário para alcançar o 10 sucesso nos investimentos. Apreciar o papel da sorte ajuda a formar uma visão mais realista e equilibrada sobre como alcançar objetivos financeiros. Por isso, é mais eficaz identificar aspectos das vidas destas pessoas bem-sucedidas que podem ser replicados. Por exemplo, pode-se buscar imitar a paciência de Warren Buffett (que investe por décadas no mesmo ativo), a ética de trabalho de Elon Musk, que trabalha 20 horas por dia, e a tenacidade e competitividade de Bill Gates. Essas são qualidades que podem ser replicadas independentemente das circunstâncias pessoais ou da sorte que cada um desses investidores teve. Um exemplo notável da importância dessas qualidades na gestão de investimentos é a história do fundo de investimento Long-Term Capital Management (LTCM) que quebrou em 1998 nos Estados Unidos. Este fundo tinha em sua equipe algumas das mentes mais brilhantes do mundo financeiro, incluindo ganhadores do Prêmio Nobel em Economia e doutores de Harvard e MIT. Apesar disso, o fundo quebrou devido ao uso excessivo de dívida para alavancar seus investimentos. Quando houve uma pequena instabilidade no mercado, o fundo não conseguiu se sustentar e faliu. 11 Essa história ilustra que, além de inteligência e conhecimento técnico, a gestão prudente e a compreensão dos riscos são essenciais. O uso excessivo de alavancagem pode ser desastroso, e a falta de preparação para adversidades pode levar ao fracasso mesmo os investidores mais inteligentes. Portanto, ao buscar modelos a seguir, é crucial focar nas qualidades que podem ser controladas e desenvolvidas, como paciência, ética de trabalho e resiliência, em vez de tentar replicar circunstâncias fortuitas. Warren Buffett fez um comentário incisivo após a falência do fundo Long-Term Capital Management, dizendo: "Se você arrisca o que precisa para ganhar o que não precisa, isso é tolice." Ele se referia aos investidores brilhantes que perderam tudo, apesar de já serem extremamente ricos, porque assumiram riscos excessivos para ganhar mais dinheiro – algo que eles não precisavam. Outra história relevante é a de Bernie Madoff, conhecido por provocar a maior fraude financeira de todos os tempos. Seu esquema Ponzi roubou 20 bilhões de dólares de investidores. Um aspecto interessante é que, nos anos 1980, antes de iniciar a fraude, Madoff ganhava cerca de 30 milhões de dólares por ano de maneira totalmente legal. Ele era um dos empresários mais bem-sucedidos do mundo antes de começar suas atividades fraudulentas. Essas histórias destacam a importância de reconhecer os riscos desnecessários e o papel que a sorte e o comportamento desempenham no sucesso financeiro. Tomar riscos excessivos para ganhar mais do que o necessário pode levar a consequências desastrosas, independentemente da inteligência ou do sucesso anterior. O que é fascinantesobre esse assunto é que, se alguém está em uma situação desesperadora, como ter um filho com fome em casa, roubar uma mercearia pode ser compreensível. No entanto, quando uma pessoa é extremamente bem-sucedida e rica e ainda assim decide assumir riscos excessivos para ganhar mais dinheiro, isso não faz sentido. A ideia de arriscar o que se precisa para ganhar o que não se precisa é a raiz de muitas decisões financeiras equivocadas. É importante para todos ter uma noção clara do que é suficiente em termos de dinheiro, risco e tempo de trabalho. Definir o que é 12 suficiente ajuda a evitar a tentação de assumir riscos desnecessários, que podem levar à ruína financeira. Sem essa clareza, a aprendizagem pode vir de forma dolorosa, quando esses riscos excessivos resultam em perdas significativas. Um dado interessante ilustra a importância da paciência e do pensamento a longo prazo nos investimentos. Warren Buffett, um dos investidores mais bem-sucedidos do mundo, tem um patrimônio líquido de cerca de 100 bilhões de dólares. Surpreendentemente, 99% desse valor foi acumulado após seu 50º aniversário, e 98% após seu 65º aniversário. Isso demonstra que a acumulação de riqueza significativa leva tempo e é resultado de paciência e estratégias de investimento a longo prazo. Compreender o que leva ao sucesso nos investimentos é essencial. Na indústria de investimentos, passamos muito tempo tentando responder como Buffett conseguiu ser tão bem-sucedido. Analisamos minuciosamente como ele pensa sobre ciclos de negócios, equipes de gestão e valorizações, todos tópicos complicados e importantes. No entanto, uma razão crucial para sua riqueza é que ele investiu por 80 anos. Se Buffett tivesse se aposentado aos 60 anos, como muitas pessoas fazem, ele nunca teria se tornado um nome famoso e não teria acumulado 99% de sua fortuna. O fator determinante de sua riqueza não é apenas sua habilidade como investidor, mas o fato de ter sido um bom investidor por um longo período. Isso destaca a importância do tempo nos investimentos. Para pessoas normais, não há aspecto mais importante para o sucesso nos investimentos do que o tempo. A variável mais crucial que determinará o sucesso ou fracasso é a duração do investimento. Muitos investidores focam em como obter os maiores retornos, mas a questão mais importante é quanto tempo você pode manter seus investimentos. O tempo é um fator não óbvio, mas faz toda a diferença no resultado final dos investimentos. A questão mais importante que um investidor deve se fazer não é "como posso obter os maiores retornos?", mas sim "quais são os melhores retornos que posso obter ao longo de um período prolongado?". Dado que o tempo é um fator fundamental nos investimentos, é isso que realmente leva ao sucesso. Obter retornos consistentes por um longo período de tempo resultará em muito mais 13 sucesso e riqueza do que tentar conseguir os maiores retornos em um curto período. Howard Marks, considerado um dos maiores investidores da atualidade, conta a história de um amigo cujos retornos anuais nunca ficavam acima da metade superior dos outros investidores. Geralmente, ele estava no 50º percentil quando consideravam o retorno da sua carteira apenas em um determinado ano. No entanto, considerando um período de 10 anos, ele estava entre os 5% melhores. Isso mostra que retornos medianos sustentados ao longo do tempo podem levar à geração significativa de riqueza. Uma verdade nos investimentos que confunde muitas pessoas é que é possível estar errado metade do tempo e ainda assim ter um desempenho excelente. Nos últimos 40 anos, 40% das empresas listadas em Bolsa nos EUA foram à falência, mas o índice S&P 500 ainda apresentou bons retornos. Isso ocorre porque uma minoria dos investimentos gera a maior parte dos retornos. Portanto, mesmo que muitos investimentos falhem ao longo do tempo, os poucos que têm sucesso podem compensar consideravelmente. O mesmo acontece nos últimos anos, quando olhamos o desempenho de empresas como Amazon, Apple e Facebook (Meta): o desempenho dessas ações compensa a baixa performance de diversos outros papéis, fazendo com que, na média, o índice tenha uma boa valorização. 14 Riqueza é aquilo que não se pode ver É importante diferenciar entre "ficar rico" e "manter-se rico". Ficar rico exige otimismo e disposição para correr riscos. Manter-se rico, por outro lado, requer uma abordagem conservadora e aversão a riscos, costumeiramente entendida como pessimista. Para alcançar sucesso nos investimentos e manter a riqueza, é preciso equilibrar otimismo e pessimismo. Guardar dinheiro como um pessimista significa estar preparado para surpresas, recessões e quedas de mercado, assegurando que se possa sobreviver financeiramente a esses períodos difíceis. Investir dinheiro como um otimista, por outro lado, envolve acreditar no crescimento e no poder dos juros compostos a longo prazo, apostando no potencial de recuperação e expansão dos mercados. O segredo é aprender a fazer esses dois aspectos coexistirem. Quem guarda dinheiro precisa estar preparado para as adversidades inevitáveis, garantindo que possa aproveitar as oportunidades de crescimento quando surgirem. Por outro lado, quem investe de forma otimista aposta no futuro, mas precisa ter uma base financeira sólida para suportar períodos de instabilidade. Uma história pessoal ilustra bem esse ponto. Quando Housel estava na faculdade, trabalhou como manobrista em um hotel de luxo em Los Angeles. Frequentemente, ele via pessoas dirigindo Ferraris, Lamborghinis e Rolls Royces. Inicialmente, pensava que todas essas pessoas eram ricas. Com o tempo, começou a conhecê-las melhor e percebeu que nem todas eram financeiramente estáveis, apesar das aparências. Algumas tinham gastado todo dinheiro que tinham para comprar o carro, por exemplo. A lição que ficou é que a verdadeira riqueza é aquilo que você não vê. Podemos ver seu carro, sua casa e suas roupas, mas não podemos ver sua conta bancária ou seus investimentos. Não sabemos, portanto, quão rica uma pessoa é. A riqueza verdadeira é o dinheiro que você não gastou. São os carros, casas e roupas que você não comprou. Essa é a verdadeira definição de riqueza, e ela é invisível no mundo. 15 Isso é diferente de como a maioria das coisas funciona. Se alguém está em boa forma física, é fácil perceber. Mas não podemos ver sua conta bancária. Isso engana muitas pessoas, fazendo com que admirem modelos financeiros que não são realmente ricos. Você nunca sabe quanto dinheiro as pessoas têm até que as conheça bem. Portanto, vamos reforçar: a riqueza é o que você não vê. O custo e a mentalidade para enriquecer no mercado de ações O mercado de ações tem o potencial de gerar muita riqueza ao longo do tempo. No entanto, isso tem um custo. Assim como em qualquer coisa na vida, se você deseja algo valioso, há um preço a pagar. No contexto do mercado de ações, o custo de admissão é suportar muita volatilidade e incerteza. O mercado pode subir e descer, e é fundamental entender como lidar com essa volatilidade. Existem duas maneiras de enxergar a volatilidade. A primeira é vê-la como uma multa. Nesse caso, se o seu portfólio cair 20%, isso é interpretado como um erro. A visão de multa implica que você fez algo errado, deve se sentir culpado e aprender a nunca repetir o erro. A segunda maneira de encarar a volatilidade é como uma taxa. Uma taxa, diferente de uma multa, é simplesmente o preço de admissão para obter algo valioso no futuro. Se o seu portfólio cair 20%, isso é visto como a taxa necessário para obter os benefícios do crescimento a longo prazo. A maioria dos investidores encara a volatilidade como uma multa, pensando que cometeram um erro. No entanto, ver a volatilidade como uma taxa de admissão pode mudar a perspectiva, permitindo lidar melhor com as oscilações domercado e focar nos ganhos a longo prazo. O mercado de ações engloba dezenas de milhões de investidores ao redor do mundo, desde adolescentes aprendendo a investir até 16 fundos de doações (conhecidos como endowments) que se planejam para investir pelos próximos 100 anos. O importante é entender que cada investidor tem um horizonte de tempo diferente. Alguns estão investindo para as próximas décadas, enquanto outros estão focados nos próximos minutos. Todos participam do mesmo mercado, mas jogam jogos diferentes com regras diferentes. Para um day trader, o objetivo e as estratégias são muito diferentes de um investidor de longo prazo que visa os próximos 10 ou 20 anos. Reconhecer seu próprio horizonte de tempo e entender que ele difere dos outros é fundamental para uma abordagem de investimento bem-sucedida. Isso ajuda a manter a perspectiva correta e a tomar decisões que estejam alinhadas com seus próprios objetivos e tolerância ao risco. Um erro comum que os investidores cometem é ser um investidor de longo prazo, mas começar a seguir as dicas dos traders, que estão jogando um jogo completamente diferente. Esses investidores podem ver traders vendendo rapidamente e pensar que deveriam fazer o mesmo, sem perceber que os horizontes de tempo e as estratégias são bem distintas. Estabelecer seu próprio horizonte de tempo e seguir as regras que se aplicam a ele é fundamental para o sucesso. Não se deve buscar orientações ou informações de pessoas que jogam um jogo diferente, pois isso pode levar a decisões equivocadas. Otimismo ou pessimismo? Quando se discute economia, o pessimismo tende a soar mais inteligente do que o otimismo. Se alguém afirma que uma recessão está chegando, isso atrai mais atenção do que dizer que há grandes oportunidades no mercado. O pessimismo chama a atenção e preocupa as pessoas, enquanto o otimismo pode parecer uma tentativa de vender algo. No entanto, manter uma perspectiva otimista e focar em um horizonte de longo prazo pode ser mais benéfico para os investimentos. Isso é particularmente relevante quando observamos as manchetes de jornais. As pessoas são mais impressionadas e prestam mais 17 atenção às notícias pessimistas, mesmo que as notícias otimistas sejam mais importantes ao longo do tempo. As boas notícias geralmente acontecem lentamente, enquanto as más notícias surgem de repente. Por exemplo, o crescimento econômico tende a ocorrer ao longo de muitos anos e não faz manchetes diárias. No entanto, eventos negativos como pandemias ou ataques terroristas podem ocorrer de repente e dominar as manchetes. Apesar de, no longo prazo, o crescimento ser mais poderoso e gerar a maior parte da riqueza, as notícias ruins sempre capturam nossa atenção de uma maneira que as boas notícias não conseguem. Isso reforça a importância de manter uma perspectiva otimista e focada no longo prazo, mesmo diante da volatilidade e das notícias negativas que podem surgir. Disposição para assumir riscos Seja na carreira ou nos investimentos, o sucesso ao longo do tempo está diretamente relacionado à disposição de assumir riscos. O risco é o que proporciona recompensas ao longo do tempo. No entanto, é fundamental entender que, apesar de ser importante assumir riscos para crescer, é igualmente importante evitar a ruína financeira. Querer tomar risco para aumentar a riqueza é essencial, mas é importante garantir que, em nenhuma circunstância, haja o risco de uma catástrofe financeira que o tire do jogo. Portanto, além de buscar o crescimento financeiro, o objetivo principal deve ser a resiliência financeira. Isso significa ter recursos suficientes para sobreviver a recessões, quedas de mercado ou pandemias, garantindo liquidez para enfrentar qualquer crise sem ser forçado a sair do mercado. Resumindo, a chave para o sucesso a longo prazo não é apenas conseguir grandes retornos, mas sim permanecer no jogo por um longo período. 18 Mesmo obtendo retornos médios, a consistência ao longo de 50 anos pode levá-lo a alcançar todos os objetivos financeiros e ainda mais. Assim, o objetivo é ser “financeiramente inquebrável”, podendo enfrentar adversidades e continuar investindo ao longo do tempo. Adotar essa mentalidade permite navegar pelos altos e baixos do mercado, focando na sustentabilidade e na continuidade, em vez de buscar ganhos rápidos que podem levar a riscos excessivos e potencial ruína. Há muitos anos, Housel conversou com um gestor de fundos chamado Mohnish Pabrai, um dos melhores investidores de nossa época e um dos seus favoritos. Ele havia investido em uma empresa chamada Delta Financial, que acabou falindo, resultando na perda total de seu investimento. Quando discutiram o que ele aprendeu com essa experiência, ele disse algo surpreendente: "Eu não me arrependo de nada. Ainda era um ótimo investimento. Mesmo tendo perdido todo o meu dinheiro, foi a decisão certa." E ainda afirmou que repetiria o investimento. Isso destaca um aspecto crucial sobre probabilidade e investimento. Muitas pessoas enxergam as decisões em termos de certo ou errado, mas a realidade é mais complexa. No mundo dos investimentos, é possível tomar uma boa decisão que não dá certo e, ao mesmo tempo, tomar uma decisão ruim que acaba funcionando. A probabilidade é o que importa. Pabrai explicou que as chances de sucesso estavam a seu favor com o investimento na Delta Financial. Se ele continuasse a tomar decisões com boas probabilidades, mesmo que algumas não dessem certo, ele se sairia bem no longo prazo. Essa perspectiva é contraintuitiva, mas essencial para o sucesso nos investimentos. Ela sublinha a importância de entender que, no mundo real, os resultados não são sempre uma simples questão de certo ou errado. O foco deve estar Mohnish Pabrai 19 nas decisões baseadas em boas probabilidades, independentemente dos resultados individuais. Muitas pessoas vão julgar se você estava certo ou errado com base nos resultados. No entanto, é crucial focar no processo de tomada de decisão ao investir. Analisar como as decisões são feitas, em vez de apenas os resultados, é a abordagem correta. Pensar em termos de probabilidade, ao invés de ver tudo como preto ou branco, é vital para ser um bom investidor. Vieses sobre o risco A maioria dos investidores não precisa ser o melhor do mundo para atingir seus objetivos financeiros, como aposentadoria ou educação dos filhos. Em vez de tentar superar a média, o objetivo deve ser evitar ser um mau investidor. Para a maioria, ser um investidor mediano é suficiente para alcançar tudo o que se deseja e até mais. Muitos erros e decisões ruins surgem quando as pessoas tentam ser excelentes investidores, buscando retornos excepcionais. Isso pode levar a comportamentos arriscados que resultam em perdas e retornos abaixo da média, comprometendo seus objetivos financeiros. Portanto, a melhor estratégia para a maioria das pessoas é ser um investidor “normal”, evitando riscos desnecessários e focando em consistência e longo prazo. Essa é a abordagem que Housel adota na gestão do seu próprio dinheiro. Muitas vezes, os erros dos investidores surgem quando eles não estão satisfeitos com a mediocridade e tentam ser melhores, mas acabam piorando seu retorno médio e às vezes até mesmo quebrando. Carl Richards, um planejador financeiro que Morgan Housel respeita e admira, diz que "o risco é o que resta quando você pensa que pensou em tudo". Isso significa que, apesar de todos os nossos esforços para analisar a economia e prever o mercado de ações, o que realmente importa são as surpresas e os riscos imprevistos que permanecem. Essa perspectiva pode parecer desesperadora, pois implica que não temos controle total sobre o que vai acontecer. O maior risco 20 econômico do próximo ano, ou dos próximos cinco ou dez anos, provavelmente será algo que ninguémestá discutindo hoje, pois será uma surpresa completa. Essa realidade enfatiza a importância de ser cauteloso e preparado para enfrentar o inesperado, mantendo uma abordagem de investimento equilibrada e a longo prazo. A Covid-19 é um exemplo clássico de risco imprevisto. Ninguém previu a pandemia e seu impacto devastador até que ela realmente aconteceu. Historicamente, sempre foi assim: os maiores riscos são aqueles que ninguém está discutindo ou prevendo. Existem duas maneiras principais de lidar com esses riscos. Primeiro, é importante reconhecer que a ilusão de controle é tentadora, mas enganosa. Em vez de tentar prever e controlar todos os eventos futuros, devemos nos preparar para lidar com o inesperado. Isso significa aceitar que não sabemos o que vai acontecer e garantir que nossas finanças tenham margem para absorver surpresas e incertezas. Em segundo lugar, é crucial distinguir entre expectativas e previsões específicas. Fazer uma previsão, como afirmar que a próxima recessão ocorrerá em junho de 2023, é bem diferente de ter uma expectativa baseada em padrões históricos, como esperar que haja duas recessões por década. Esta sim é uma abordagem mais realista. Não é necessário saber quando ou como a próxima recessão ocorrerá, mas sim ter uma expectativa baseada em tendências históricas. Preparar-se para o futuro envolve aceitar a incerteza e garantir que nossas finanças estejam robustas o suficiente para enfrentar quaisquer surpresas. Essa mentalidade ajuda a navegar pelas incertezas econômicas e a manter a resiliência financeira a longo prazo. 21 Quando alguém pergunta se haverá uma recessão ou se o mercado de ações vai cair, a resposta é sempre sim, mas sem precisão sobre quando ou o que causará isso. Ter expectativas em vez de previsões é essencial. Ninguém pode prever com exatidão o que acontecerá na economia ou no mercado de ações. Ao invés de tentar adivinhar esses eventos, o melhor é ter uma expectativa e estar preparado para lidar com eles quando ocorrerem. A forma de resumir isso é que você deve investir em preparação, não em previsão. Estar preparado significa ter uma estratégia financeira robusta que possa absorver choques inesperados e manter a resiliência a longo prazo. Essa preparação inclui ter liquidez suficiente, diversificação adequada e uma mentalidade de longo prazo que permita enfrentar a volatilidade e as surpresas inevitáveis. Não tente prever o que vai acontecer a seguir, apenas invista em sua própria preparação. Em vez de gastar tempo tentando prever o futuro, concentre-se em se tornar mais robusto financeiramente. Isso significa reduzir dívidas, aumentar a margem para erros e economizar mais dinheiro. Tornar-se mais financeiramente resiliente é a melhor maneira de se preparar para o futuro, em vez de assumir que podemos prever o que vai acontecer. Dívidas, dinheiro poupado e habilidade de resistir ao bear market Uma maneira de pensar sobre dívida e dinheiro poupado é que cada pequeno pedaço de dívida representa uma parte do seu futuro que pertence a outra pessoa. Por outro lado, cada pedaço de poupança é uma parte do seu futuro sob seu controle. Quando você pensa nesses termos, fica claro o quão poderoso e prejudicial a dívida e a poupança podem ser. A dívida tira opções de você, enquanto a poupança oferece opções. Dado que o futuro é incerto e ninguém sabe o que acontecerá nos próximos cinco ou dez anos, é essencial ter o máximo de opções possível para lidar com essa incerteza. Talvez a economia caia e 22 você precise se adaptar. Talvez surja uma nova oportunidade que você queira aproveitar. Não sabemos quando ou o que acontecerá, mas estar preparado e ter opções é a melhor estratégia para fazer bem financeiramente no longo prazo. Pensar na dívida como algo que tira opções e na poupança como algo que adiciona opções deixa claro o que é necessário financeiramente para prosperar a longo prazo. Quanto mais opções você tiver, melhor estará preparado para lidar com qualquer situação, seja ela boa ou ruim. A verdade é que durante um mercado em alta, todos parecem ser gênios e acreditam que são extremamente inteligentes e ricos. No entanto, a verdadeira habilidade de um investidor só é provada quando ele sobrevive a uma calamidade. As pessoas que se saem bem em um mercado em alta e conseguem continuar investindo durante períodos de baixa são aquelas que realmente demonstram habilidade. Avaliar o sucesso como investidor exige um horizonte de tempo mais longo do que muitas pessoas imaginam. Muitas vezes, aqueles que têm um bom desempenho em seis meses ou um ano acreditam que isso prova suas habilidades, mas o verdadeiro teste é a capacidade de se manter e prosperar a longo prazo, mesmo diante de adversidades. Você não pode realmente provar sua habilidade como investidor até enfrentar um grande mercado em baixa e sobreviver a ele. Em momentos de crise, muitos investidores que pensavam ser habilidosos percebem que estavam apenas surfando uma onda que estava fora de seu controle. Entenda que pode levar pelo menos 10 anos, ou mais, para avaliar se alguém é realmente hábil ou se estava apenas aproveitando um mercado favorável. Uma questão interessante é o motivo de as pessoas cometerem os mesmos erros de forma repetida, especialmente em momentos de bolhas de investimento. Mesmo após eventos como a bolha das empresas de tecnologia no início dos anos 2000, onde o mercado subiu rapidamente e depois colapsou, vemos os mesmos padrões se repetirem. Uma razão para isso é que todo investimento ruim começa como uma boa ideia que foi levada ao extremo. Cada vez que uma bolha 23 estoura, nos perguntamos por que fomos tão imprudentes. A realidade é que essas bolhas começam com boas ideias que são exageradas até níveis insustentáveis. Geralmente, uma nova tecnologia traz grandes promessas e expectativas de mudança no mundo. Nos anos 90, a internet foi um exemplo claro disso. As pessoas acreditavam que a internet mudaria o mundo, e estavam certas. No entanto, isso não significava que deveriam pagar qualquer preço pelas empresas de tecnologia, elevando os preços a níveis insustentáveis. Mesmo estando corretos sobre o impacto da tecnologia, muitos investidores perderam todo o seu dinheiro ao exagerar nas valorizações. Se olharmos para a história, vemos que isso é um padrão recorrente. No século XIX, nos Estados Unidos, as ferrovias representavam a grande inovação tecnológica. As pessoas acreditavam que as ferrovias mudariam o mundo, e realmente estavam certas. No entanto, quase todos que investiram nelas perderam seu dinheiro. Isso mostra que é possível ter a ideia certa e a tecnologia correta, mas ainda assim perder dinheiro ao levar essas ideias a extremos irracionais. Essas bolhas são enganosas por essa razão. Uma boa ideia e a tecnologia certa podem ser acompanhadas de avaliações completamente erradas sobre o valor que se deve pagar por essas empresas. É por isso que essas bolhas continuam ocorrendo repetidamente e provavelmente sempre ocorrerão. As pessoas são seduzidas pelas promessas das novas tecnologias, mas esquecem de avaliar racionalmente os preços que estão pagando. O planejamento financeiro é crucial para garantir que você possa pagar pela aposentadoria, pela educação dos filhos e por outras metas financeiras importantes. No entanto, a parte mais importante de qualquer planejamento financeiro é estar preparado para que o plano não saia exatamente como previsto. Podemos passar o dia todo planejando o que achamos que o futuro será, como o mercado de ações vai se comportar, como será nossa carreira e quais serão nossos gastos futuros. No entanto, não importa o quão detalhado seja o nosso planejamento, o futuro sempre traz surpresas. Isso é válido não só para a economia, mas também para nossas vidas pessoais. 24 A vida frequentemente segue caminhos diferentesdo que planejamos, tanto de formas positivas quanto negativas. Ninguém, aos 20 anos, sabe exatamente como será o resto da vida. Todos começam a planejar suas carreiras e finanças com base em suposições que frequentemente se mostram incorretas. Portanto, a chave para um bom planejamento financeiro é estar disposto a ajustá-lo conforme necessário. Isso inclui ter margem para erros, ficar aberto a mudar de ideia e aceitar surpresas. É essencial ter flexibilidade e resiliência financeira para adaptar-se às mudanças e imprevistos que inevitavelmente surgirão. A habilidade financeira mais importante é ter espaço para cometer erros sem que isso acabe com seu futuro. Você até pode ter um plano sobre o que você acha que pode acontecer, mas esteja sempre estar preparado para o caso de o mundo seguir um caminho completamente diferente do que você imaginou. Talvez você pense que o crescimento econômico será de 5%, mas se for de apenas 2%, você precisa estar preparado para isso também. Da mesma forma, se você espera que sua carreira dure mais 20 anos, mas ela terminar em 15, é necessário estar pronto para lidar com essa mudança. Planejar algo e não seguir este plano à risca não é intuitivo para a maioria das pessoas. Todos querem precisão ao prever o futuro, mas isso raramente acontece. Portanto, quanto mais espaço para erros podemos incluir em nossos investimentos e em nosso planejamento de carreira e futuro, melhor estaremos preparados para enfrentar imprevistos ao longo do tempo. Tomando o controle do tempo com dinheiro Uma pergunta fundamental, mas frequentemente subestimada, é: o que o dinheiro faz por você? A resposta imediata que muitos dariam é que o dinheiro permite comprar coisas, como uma casa mais bonita ou um carro mais luxuoso. No entanto, a verdadeira utilidade do 25 dinheiro vai além de comprar bens materiais, mas sim a possibilidade de trazer felicidade ao proporcionar controle sobre o seu tempo. Quando você pode usar o dinheiro para controlar seu calendário e fazer o que quiser, quando quiser, pelo tempo que desejar e com quem quiser, isso realmente melhora a qualidade de vida. Uma história ilustrativa sobre isso vem de uma empresa onde Morgan Housel trabalhou. O diretor de recursos humanos contou que quando um funcionário ameaçava sair caso não recebesse um aumento, raramente era apenas sobre o dinheiro. Havia um problema mais profundo, como insatisfação com o trabalho. Os funcionários pensavam que um aumento os faria mais felizes, mas isso raramente resolvia a questão. O verdadeiro desejo era por mais controle e flexibilidade em suas vidas. Portanto, o maior benefício que o dinheiro pode proporcionar é a capacidade de controlar seu tempo e ter flexibilidade para viver onde quiser, se aposentar quando desejar e dedicar tempo às atividades e pessoas que são importantes para você. Isso é o que realmente traz felicidade, mais do que simplesmente possuir bens materiais, embora eles também possam ser apreciados. Carl Pillemer, um gerontólogo nos Estados Unidos, realizou um projeto fascinante onde entrevistou mil americanos idosos, a maioria com idades entre 90 e 100 anos. Ele perguntou a eles sobre as lições que aprenderam ao longo da vida, e essas conversas foram transformadas em um livro chamado "30 Lessons for Living". Uma citação desse livro destaca que, entre as mil pessoas entrevistadas, nenhuma desejou ter ganhado mais dinheiro, trabalhado mais duro ou acumulado mais riquezas. 26 Ao contrário, quase todos disseram que desejavam ter passado mais tempo com a família e amigos, e se envolvido mais na comunidade para torná-la um lugar melhor. Isso mostra que, olhando para trás, o que realmente importa é o tempo dedicado às pessoas e atividades significativas. Essa lição é poderosa: embora coisas materiais possam proporcionar conforto e prazer, o uso do dinheiro para ganhar controle sobre o tempo e passar mais tempo com pessoas queridas é o que realmente traz satisfação duradoura. Portanto, enquanto é natural desejar uma vida confortável, o verdadeiro valor do dinheiro está em proporcionar liberdade para viver de acordo com os próprios termos, priorizando relacionamentos e experiências significativas. Usar o dinheiro dessa maneira, para ter mais controle sobre o próprio tempo, é essencial para uma vida bem vivida. Ninguém pensa em você tanto quanto você mesmo Um dos ensinamentos financeiros mais importantes que Morgan Housel aprendeu aconteceu quando ele trabalhava como valet em um hotel em Los Angeles durante a faculdade. Sempre que alguém chegava ao hotel dirigindo um carro luxuoso, como uma Ferrari ou um Lamborghini, ele nunca pensava "uau, essa pessoa é incrível". Em vez disso, pensava que, se estivesse no lugar do motorista, as pessoas achariam que ele era incrível. A ironia era que ele não se importava com o motorista, mas pensava que, se ele estivesse dirigindo aquele carro, as pessoas se importariam com ele. Essa lição mostrou-lhe que ninguém está pensando em você tanto quanto você imagina. Muitas vezes, as pessoas desejam mais dinheiro, um carro melhor ou uma casa maior, superestimando o benefício e a admiração que receberão dos outros. Na realidade, ninguém pensa em você tanto quanto você mesmo. Essa percepção limitou as aspirações de Housel de possuir coisas para impressionar os outros. Claro, ele queria um carro bom e uma casa confortável, mas entendeu que as pessoas superestimam a 27 admiração que receberão pelos seus bens. As pessoas podem pensar que são admiradas pelo que vestem ou dirigem, mas os outros realmente não se importam tanto quanto elas imaginam. Esse desejo de possuir coisas materiais para parecer bem aos olhos dos outros pode desviar a atenção das pessoas ao pensar sobre dinheiro. Elas aspiram bens materiais acreditando que isso trará mais felicidade e admiração dos outros, mas isso raramente acontece. Lidando com os ciclos de mercado pelo otimismo racional A história econômica de quase todos os países é marcada por ciclos de crescimento e recessão. Esses ciclos de "boom" e "bust" (altos e baixos) ocorrem repetidamente. A pergunta é: por que não podemos ter uma economia estável e moderada que permaneça em um nível razoável constantemente? A resposta é que otimismo e pessimismo sempre levarão a esses ciclos de crescimento e retração. O que a economia está tentando fazer é explorar todas as oportunidades disponíveis. Quando há uma oportunidade, alguém vai tentar aproveitá-la para ganhar dinheiro. No entanto, ninguém sabe exatamente onde estão os limites do otimismo e do pessimismo até que esses limites sejam ultrapassados. A economia se torna extremamente otimista porque as pessoas precisam testar esses limites para descobrir quanta oportunidade existe. Elas só sabem que exploraram todas as oportunidades possíveis quando começam a perceber os limites, e é aí que os ciclos de crescimento e retração se manifestam. Não há oportunidade para explorar até que se ultrapassem as fronteiras. É só depois de passar por esses limites que se pode olhar para trás e reconhecer que foi longe demais. Mesmo sabendo onde essa fronteira está, há sempre a possibilidade de mais oportunidades a serem exploradas. 28 Isso explica por que a economia sempre oscila entre altos e baixos extremos, nunca permanecendo em um nível calmo e estável. A única maneira de saber onde estão esses limites é ultrapassá-los. Esse ciclo de otimismo e pessimismo extremos se repete continuamente. Um conceito importante é o de ser um "otimista racional". Isso não significa acreditar que tudo será ótimo no futuro, o que seria uma visão complacente e irrealista do mundo. Um otimista racional entende e aceita que o futuro será uma sequência constante de contratempos, surpresas, recessões e notícias ruins, tanto na vida pessoal quanto globalmente. No entanto, se alguém conseguesuportar todas essas adversidades e continuar ao longo do tempo, eventualmente as boas notícias prevalecerão. Isso é o que define um otimista racional. Esse tipo de otimismo é fundamentado na confiança de que, apesar dos desafios e dos ciclos de pessimismo, as principais economias mundo serão mais ricas e desenvolvidas em 10, 20 ou 50 anos. Porém, é certo que o caminho até lá será marcado por uma sequência constante de surpresas e decepções. Haverá recessões, falências de empresas, inflação alta e aumentos nas taxas de juros ao longo do tempo. Esse processo será uma linha constante de desafios, mas ao olhar para trás, em 10, 20 ou 50 anos, será possível ver o progresso alcançado. Nos últimos 30 anos, as maiores economias do mundo cresceram significativamente, apesar de enfrentarem muitos obstáculos. Durante esse período, houve recessões, inflação alta e outros problemas econômicos que dominaram as notícias. Nos próximos 10 anos, as manchetes econômicas mais proeminentes provavelmente serão sobre riscos, recessões, pessoas ficando mais pobres, perda de dinheiro e inflação. No entanto, também haverá progresso, e olhando para trás, será possível ver o quanto a economia avançou. Esse otimismo racional reconhece as dificuldades, mas confia no crescimento a longo prazo, essencial para entender a dinâmica dos mercados e da economia global. Isso é o que define um otimista racional: ser otimista a longo prazo, mas aceitar e estar disposto a suportar uma linha constante de recessões no curto prazo. 29 Vantagens e desvantagens Há muitas coisas que parecem vantagens, mas acabam se tornando problemas. Um exemplo interessante disso é a história do alce irlandês. Há muitos anos, existia o alce irlandês, que possuía galhadas enormes. Essas galhadas eram uma vantagem porque podiam ser usadas para derrotar outros animais, servindo como proteção e armas. No entanto, os alces irlandeses estão agora extintos. O problema foi que essas galhadas enormes exigiam uma quantidade imensa de comida para crescer. Quando houve uma mudança climática e o ambiente não podia mais sustentar a necessidade alimentar desses animais, eles morreram. O que parecia uma grande vantagem acabou se tornando a ruína desse animal. No mundo dos investimentos, algo semelhante pode acontecer. Por exemplo, durante um mercado em alta, ter dinheiro em caixa pode parecer um problema, já que o mercado está subindo e o dinheiro não está rendendo nada, perdendo valor para a inflação. Essa situação, que parece uma âncora, pode, no entanto, se tornar uma grande vantagem quando o mercado inverte e cai. Nesse momento, ter liquidez permite aproveitar oportunidades de compra a preços baixos, demonstrando como algo que parecia desvantajoso pode, na verdade, se transformar em uma grande vantagem. 30 Quando o mercado está em alta e você tem dinheiro em caixa, você pode se sentir frustrado, questionando suas decisões financeiras e vendo o dinheiro como uma âncora que impede seu progresso. No entanto, ter liquidez permite aproveitar a queda dos preços para comprar ativos a valores mais baixos, garantindo a sobrevivência financeira durante períodos de crise. O que antes parecia um problema se transforma na chave para o sucesso a longo prazo. Essa abordagem garante que você não enfrente uma ruína financeira, como aconteceu com o alce irlandês, e permite que você prospere mesmo em tempos difíceis.