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117 UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • conhecer o conceito de negociação internacional; • identificar os fatores que promoveram as negociações no âmbito internacional; • examinar os fatores culturais que impactamas negociações internacionais; • realizar negociações estratégicas; • criar o BATNA e a ZOPA; • reconhecer a importância da comunicação; • realizar negociações integrativas e distributivas; Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – NEGOCIAÇÃO: DESAFIOS E OPORTUNIDADES TÓPICO 2 – NEGOCIAÇÃOMULTICULTURAL TÓPICO 3 – DESAFIOS DA NEGOCIAÇÃO 118 Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 119 UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Acadêmico, você chegou à última etapa deste livro. Vimos, no decorrer da leitura das Unidades 1 e 2, os conceitos fundamentais sobre conflito e negociação e a importância desses temas no atual cenário. Vimos que a negociação pode ocorrer nas áreas de interesse público ou privado no âmbito doméstico. A partir de agora, veremos como as negociações ocorrem no âmbito internacional. Nesta unidade, ampliaremos o nosso campo de visão e aprenderemos a negociação em ambientes multiculturais. Examinaremos os aspectos que influenciam e promovem as negociações internacionais, identificando as variáveis envolvidas neste processo. Então, vamos lá! TÓPICO 1 — NEGOCIAÇÃO: DESAFIOS E OPORTUNIDADES 2 NEGOCIAÇÃO INTERNACIONAL Ao abordar o tema negociação internacional, inúmeras questões podem ser levantadas, tais como: quais são as diferenças da negociação doméstica para a negociação internacional? Será que a cultura impacta no comportamento do negociador? Outro importante questionamento é: será que as mesmas estratégias adotas em negociações domésticas podem ser aplicadas em negociações internacionais? Esses e outros apontamentos serão discutidos nesta unidade, porém, essa discussão não se limita ao conteúdo presente neste livro, dado a complexidade do tema e as constantes transformações do mundo. Caro acadêmico, reúna-se com seus colegas e liste possíveis respostas para os questionamentos supracitados. Esta tarefa visa identificar o grau de conhecimento que vocês possuem sobre o tema. DICAS UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS 120 As negociações internacionais podem ser definidas como transações que ocorrem entre instituições de diferentes países, que podem abranger diferentes campos, como: militar, econômico, psicossocial e político (RACY, 2006). Observa- se, neste tipo de negociação, um grau de complexidade muito maior que as negociações domésticas, uma vez que o número de variáveis envolvidas é bem maior (MARTINELLI; VENTURA; MACHADO, 2008). Diplomatas e negociadores afirmam que além de uma ciência, a negociação internacional é também uma arte, parte importante da tradicional prática humana (RAIFFA; RICHARDSON; METCALFE, 2002). É considerada uma negociação internacional todo tipo de negociação em que as partes provenientes de diferentes países sentam-se face a face (ou on-line) para negociar um acordo de negócio, envolvendo qualquer tipo de transação internacional, como a venda de produtos para um comprador estrangeiro, formaçãode JointVenture entre empresasdediferentes nacionalidadesparadividir canais de distribuição em um terceiro país, fusões, aquisições e licenciamento entre empresas de diferentes nacionalidades (PHATAK; HABIB, 1996). A negociação internacional vai além da troca de mercadoria e serviços com outro país. Segundo Oliveira e Granato (2017, p. 2): A negociação internacional compreende também a interação e a socialização entre os povos, o que exige dos negociadores um conhecimento específico sobre aspectos culturais dos países onde estão sendo criadas condições para uma negociação, considerando que diante da existência de uma grande variedade cultural os costumes, visões de mundo, formas de agir e de se relacionar diferem uns dos outros. Agora que você já conheceu o conceito de negociação internacional, vamos refletir dois dos principais fatores que têm promovido as negociações no âmbito internacional, a saber: a globalização e a internacionalização. Você sabe o que é globalização? Tem noção de como esse fenômeno impacta no seu dia a dia? Vejamos o que Mello (1999, p. 165) afirma sobre o tema: A globalização deve ser entendida como um processo, um padrão histórico de mudança estrutural, mais do que uma transformação política e social já plenamente realizada. Ela é um fenômeno aomesmo tempo amplo e limitado: amplo, porque ela cobre transformações políticas, econômicas e culturais; limitado, porque não se trata de um processo completo e terminado, e ele não afeta a todos da mesma maneira. O processo de globalização é caracterizado pela intensa mudança estrutural da economia internacional, com o peso crescente de transações e conexões organizacionais que ultrapassam a fronteira dos Estados. Observa-se que o processo de globalização passa por algumas fases, destacadas no quadro a seguir. TÓPICO 1 — NEGOCIAÇÃO: DESAFIOS E OPORTUNIDADES 121 QUADRO 1 – FASES DA GLOBALIZAÇÃO Fase da Globalização Período Aproximado Fatores desencadeadores Principais características Primeira fase 1830 até o final da década de 1800, com pico em 1880 Introdução das ferrovias e o transporte marítimo. Aumento da manufatura: comércio através das fronteiras de commodities, em grande parte por trading companies. Segunda fase 1900 a 1930 Aumento da produção de eletricidade e aço. Surgimento e domínio das primeiras empresas multinacionais (principalmente europeias e norte- americanas) nos setores industrial, extrativista e agrícola Terceira fase 1948 à década de 1970 Formação do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT, do inglês General Agreement on Tariff and Trade); fim da Segunda Guerra Mundial; Plano Marshall para reconstrução da Europa. Esforço concentrado da parte dos países industrializados ocidentais para redução gradual de barreiras ao comércio; crescimento das multinacionais japonesas; comércio entre países de bens de marca; fluxo entre países de moeda em paralelo ao desenvolvimento de mercados globais de capital. UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS 122 Quarta fase Década de 1980 até o presente Expressivos avanços nas tecnologias de informação, comunicações, manufatura e consulta; privatização de empresas estatais em países em transição; notável crescimento econômico nos mercados emergentes. Taxa de crescimento sem precedentes no comércio entre fronteiras de bens e serviços e capital; participação nos negócios internacionais de empresas de pequeno e grande porte, originárias de vários países; foco nos mercados emergentes para atividades de exportação, IDE e suprimento. FONTE: Erbesdobler (2015) apud Teixeira (2018, p. 179) Mendes (2020) enfatiza que com a globalização e evolução do comércio e das empresas, o mercado mundial começa a entrar em uma expansão comercial, exigindo aperfeiçoamento dos setores das companhias. Essas necessitam cada vez mais de profissionais capacitados e qualificados para atuar em áreas que maximizam seus lucros com os menores gastos possíveis. Nesse contexto, o negociador tem um papel importante, possibilitando a expansão de sua empresa no mercado, conquistando reconhecimento além das fronteiras. Quer saber mais sobre esse tema tão importante? Assista no Youtube ao vídeo intitulado “O que é globalização”. Basta clicar no link a seguir: https://www.youtube.com/ watch?v=h5WjNMGztvE. DICAS Você já parou para pensar como a globalização afeta o seu dia a dia? Se analisarmos as propagandas e embalagens dos produtos que consumimos diariamente, veremos que boa parte deles são de empresas que operamtêm interesses comuns e conflitantes. A questão é se as diferenças culturais fazem tanta diferença quando interesses importantes estão em jogo. Em geral, os interesses comuns transcendem às diferenças culturais e, até mesmo existem independentemente dessas diferenças. Os negociadores bem-sucedidos identificam esses interesses em termos de senso comum. Eles se perguntam: “o que temos em comum nessa situação?” Eles sabem, no fundo de suas mentes e do processo de negociação, que esses interesses comuns são típicos: o objetivo de lucro, evitar problemas a longo prazo, fazer “boa figura” diante dos familiares, deixar as portas abertas para futuras negociações etc. Essas semelhanças são transculturais e os negociadores bem-sucedidos não se esquecem delas. Ninguém se prejudica por lembrar-se ou ser lembrado de que compartilha de alguns interesses com os outros – isso é humano. Pelo simples fato de que as partes envolvidas, por definição, não se sentem muito à vontade nas negociações transculturais, esses interesses comuns têm que ser considerados e reconhecidos. Dar-lhes a ênfase adequada e permanente é responsabilidade que TÓPICO 3 — DESAFIOS DA NEGOCIAÇÃO 165 toca aos parceiros em uma negociação. Quando os interesses conflitantes são examinados, o negociador bem-sucedido não só encara os pontos em conflito como continuamente se questiona sobre se sua origem é “normal” ou devido às diferenças culturais. Devem-se esperar os conflitos normais acerca dos preços, controle de qualidade, prazos de entrega, planos de pagamento etc. A razão de sua presença é resolver esses problemas e atender aos interesses comuns. Alguns conflitos de interesse podem surgir de diferenças culturais, o que ambos os negociadores devem ter em mente. O perigo está em localizar erradamente a origem desses conflitos. Um fabricante ocidental de máquinas agrícolas, por exemplo, ao negociar com distribuidores indianos não deve presumir, gratuitamente, que o conflito é devido a questões de preço. A ênfase do indiano na competição e na necessidade premente pode, muito possivelmente, derivar de uma visão do mundo, baseada em sua experiência cultural de escassez e limitação de recursos. O conflito de interesses, neste caso, pode ser mais uma questão de experiências culturais de escassez e de fartura, que uma questão de preço para cada um dos contendores. Neste caso, como aliás na maioria dos casos de negociação, o requisito principal para o sucesso é a compreensão doponto de vista do oponente. Devemos compreender claramente o modo de pensar e de agir de pessoas de diferentes países para que possamos distinguir as divergências verdadeiras daquelas que decorrem de vieses culturais. Em qualquer negociação, os conflitos de interesses podem ou não estar baseados em diferenças culturais. Os outros dois pontos que decorrem da definição de negociação estão no nível de ação: discussão e acordo. Esses termos se referem às técnicas de negociação, à maximização dos interesses comuns e à minimização dos interesses conflitantes, demodo que a negociação resulte em ganho para ambos os parceiros. Esses estágios de discussão e acordo são normalmente entendidos pelos negociadores em termos de quatro estágios em que na prática evolui uma negociação. Isso equivale a afirmar que, atualmente, quase todos os negociadores bem-sucedidos devem entender (e entendem) que as ações de desenvolvem em quatro fases. Um entendimento compartilhado dessas fases, independentemente das origens culturais, é aquilo que os negociadores têm em comum. Esses quatro estágios são os seguintes: 1) Abertura; 2) Exploração; 3) Apresentação e 4) Clarificação, Ação final, Avaliação e Controle. Oqueéculturalmenteinfluenciadoe,àsvezesdemuitosmodossignificativos, são as expectativas que os negociadores possam ter quanto à maneira “normal” de desenvolver o processo da negociação. A questão, que é responsabilidade de cada negociador, é verificar o que está ocorrendo em cada uma dessas quatro fases e as diferentes expectativas ligadas às diferenças culturais. 166 UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS Na etapa de abertura (estabelecimento de uma relação pessoal adequada) os americanos, por exemplo, tendem a dispender muito menos tempo que os japoneses. Os japoneses têm a expectativa de que é normal dispender um tempo considerável e uma boa soma de dinheiro para estabelecer uma relação harmoniosa com aqueles com quem tencionam fazer negócios. Alguns finlandeses tenderão a comportar-se de um modo muito formal e silencioso nessa fase e esperam que o relacionamento e a fase de exploração evoluam numa semana. Os russos são notórios por misturarem negócios (e apenas negócios) com vodka. Para os japoneses é normal perguntar muito e falar o mínimo, e esse mínimo é dito de maneira ambígua na fase de exploração. Eles tendem a firmar suas intenções à medida que juntam as informações e ouvem as ofertas e propostas. Os alemães tendem a superestimar o entendimento técnico do parceiro, a serem mais diretos e francos nessa fase, o que, com frequência, faz os japoneses sentirem-se mal. Na fase de apresentação, pode parecer normal para muitos londrinos discordar abertamente na medida em que o oponente faça um esforço para moldá-los ou use técnicas agressivas – suas normas culturais estabelecem que o desacordo não atinge as relações pessoais e a persuasão agressiva é uma habilidade valorizada. Os japoneses, que já deram ênfase à etapa anterior, procuram evitar confrontações, tendem a não requerer nem esperar persuasão e, muito provavelmente, manifestarão um considerável silêncio nessa fase. Está claro que ninguém vai muito longe na negociação se tenta persuadir na base do estereótipo, confundindo o comportamento de vendedores de carros usados, antiquários e feirantes com uma negociação para valer. Há, então, o estágio final – Clarificação, Ação final, Avaliação e Controle. Os americanos, por exemplo, tendem a pensar que é normal fazer concessões ao longo do processo, de modo que a ação final para eles tenda a constituir-se num sumário dos itens em que foram feitas concessões em termos de interesses conflitantes. Os japoneses tendem a fazer todas as concessões ao final do processo. Pode parecer aos outros que o acordo é feito de maneira abrupta e sem muita consistência. De modo diferente, os soviéticos, com frequência, ouvem as concessões do outro e depois procuram adiar o acordo por acharem que o tempo, inevitavelmente, trabalha a seu favor. É uma aplicação prática da teoria do materialismo dialético, segundo a qual o adversário fará ainda mais concessões se houver uma demora significativa. Quem está “certo” nessas ilustrações é algo que pode ser discutido eternamente – nunca haverá uma conclusão. O certo é que as pessoas de diferentes culturas têm diferentes expectativas sobre o que deva ser considerado comportamento normal na prática das várias fases do processo de negociação”. TÓPICO 3 — DESAFIOS DA NEGOCIAÇÃO 167 Flexibilidade e receptividade de um lado tendem a provocar sempre a reciprocidade no oponente. O negociador ágil vê contrastar essas diferenças culturais com o processo de negociação em si. Quantomais os parceiros conhecem o processo, tanto mais podem tornar-se, mutuamente, conscientes das diferenças culturais quando elas surgirem e, então, poderão lidar adequadamente com elas. O entendimento é o nosso objetivo. Entender o processo de negociação. Estar alerta para as sutis diferenças. Os alemães usam a expressão: “Andere lande andere site” (cada terra tem seu uso). Os americanos preferem: “When in Rome, do as the Romans do” (em Roma aja à maneira dos romanos). Em negociação, justamente, aprende-se à maneira dos romanos, observando e ouvindo. FONTE: JUNQUEIRA, L. A. C. Negociação: tecnologia e comportamento. Rio de Janeiro: Suma Econômica, 1995.e/ou comercializam seus produtos também em outras nações. TÓPICO 1 — NEGOCIAÇÃO: DESAFIOS E OPORTUNIDADES 123 FIGURA 1 – EXEMPLOS DE MULTINACIONAIS FONTE: . Acesso em: 7 jul. 2021. Vale ressaltar que não é necessário que uma empresa possua uma unidade instalada em outro país para comercializar ali seus produtos. Por meio do comércio eletrônico (e-commerce), o consumidor pode estar localizado em um país e o prestador em outro. São notórias as profundas transformações causadas pela internet. É cada vez mais comum a prática do home office, por exemplo, em que um profissional pode residir em um país e trabalhar em uma empresa que possui a sua sede em outro, ou outra região. Agora, imagine a seguinte questão: se um consumidor compra um produto de uma empresa estrangeira e por algum motivo se sente lesado, qual legislação ele deve recorrer? A legislação do país em que ele reside ou do país em que a empresa possui sua sede? A despeito disso, a OMC (Organização Mundial do Comércio) vem organizando rodas de negociações, a fim de que os países estabeleçam regras de tributação que assegure os direitos do consumidor em situações como na compra de bens e serviços em países distintos do seu. Esse tema vem sendo tratado há pelo menos duas décadas. Certamente, esse é um dos desafios de um mundo globalizado e cada vez mais digitalizado. As rodadas de negociação promovidas pela OMC buscam promover o diálogo e o estabelecimento de acordos, contudo, no caso em que tratam da tributação e regras para o comércio internacional, estas já se estendem por um longo período. UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS 124 A Organização Mundial do Comércio (OMC) possui atualmente 164 membros e nasceu como resultado de negociações da Rodada Uruguai (1986-1994). NOTA As negociações comerciais podem ser classificadas em negociação bilateral, multilateral e negociações regionais, como veremos a seguir. Os tratados ou acordos bilaterais são contratos negociados entre dois países, sobre diferentes temas. De acordo com Lopes e Carvalho (2010, p. 644), os acordos bilaterais de comércio tornaram-se uma tendênciamundial, explicada como reação às dificuldades experimentadas por diferentes tipos de países para fazer valer seus interesses em negociações no âmbito do multilateralismo defendido peloAcordo Geral sobre Tarifas e Comércio (em inglês, General Agreement on Tariffs and Trade (GATT)) e pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Por sua vez, os acordos ou tratados multilaterais são alianças firmadas entre três ou mais países chamados de signatários, geralmente, esses acordos possuem caráter econômico ou político. As negociações multilaterais tendem a ser mais complexas do que em processos bilaterais, essencialmente, porque esses processos são caracterizados pela multiplicidade de partes e de assunto. Neste contexto, os acordos tendem a ser alcançados por meio de consenso (SARFATI, 2006). Ainda no que diz respeito aos acordos, observa-se um processo gradual de integração e cooperação entre os países o que pode culminar na formação de blocos econômico (quando dois ou mais países se unem com mesmo propósito) pode-se citar, como exemplo, a união europeia – o maior bloco econômico do mundo. TÓPICO 1 — NEGOCIAÇÃO: DESAFIOS E OPORTUNIDADES 125 FIGURA 2 – UNIÃO EUROPEIA FONTE: . Acesso em: 7 jul. 2021. Outro exemplo é a emenda de Kigali, firmada a fim de reduzir a emissão de gases do efeito estufa. Este acordo segue o legado do Protocolo de Montreal e delimita ações como: diminuição do uso de hidrofluorcarbonetos (HFC), redução dos gases do efeito estufa etc. Enquanto os acordos bilaterais dizem respeito às relações econômicas, socioculturais, ambientais e políticas entre dois países, os acordos multilaterais são os que envolvem três ou mais Estados. Exemplos de acordos multilaterais amplamente conhecidos: – Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares Firmado em 1968 por vários países, entrando em vigor em 1970, o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares é composto por 189 países. O objetivo é impedir o uso de tecnologia na produção de armas nucleares. Não participam deste acordo Israel, Paquistão, Índia e Coreia do Norte. – Mercosul Mercado Comum do Sul é uma organização intergovernamental fundada a partir do Tratado de Assunção de 1991. Estabelece uma integração, inicialmente, econômica configurada atualmente em uma união aduaneira, na qual há livre comércio intrazona e política comercial comum entre os países-membros. DICAS UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS 126 ACORDOS BILATERAIS E MULTILATERAIS FONTE: . Acesso em: 7 jul. 2021. Pode-se afirmar que é por meio da internacionalização que as empresas conseguem ampliar sua representatividade e também seus lucros. Machado (2014) afirma que a internacionalização de uma empresa, além de fomentar os ganhos financeiros, melhora sua imagem, proporciona reconhecimento em nível mundial e o desenvolvimento econômico. Neste contexto, o concorrente não é apenas a empresa localizada próximo à companhia, mas omundo inteiro. Com efeito, o grau de complexidade aumenta e o nível de detalhamentos que os empresários devem considerar e dominar também (leis, impostos, cultura, marca, política, governo, meio ambiente). Vale trazer o conceito de internacionalização proposto por Oliveira (2010, p. 95): Por internacionalização considera-se a obtenção de parte ou totalidade do faturamento a partir de operações internacionais, seja pela exportação, pelo licenciamento, com alianças estratégicas, aquisições de empresas em outros países ou construção de subsidiárias próprias. Do ponto de vista dos países em desenvolvimento, este é um tema que deve assumir papel cada vez mais relevante no ambiente de negócios, na medida em que parece haver grande potencial não realizado de internacionalização por parte de empresas oriundas de importantes economias emergentes como Índia, México e Brasil. Ampliando ainda mais a discussão, é possível enquadrar as empresas em vários estágios: empresadoméstica,multidoméstica, internacional,multinacional, global e transnacional. Observe com mais detalhes essa configuração no quadro a seguir: TÓPICO 1 — NEGOCIAÇÃO: DESAFIOS E OPORTUNIDADES 127 QUADRO 2 – CARACTERÍSTICAS DE EMPRESAS MULTINACIONAIS FONTE: Adaptado de Bartlett e Ghoshal (2000, s. p.) A configuração apresentada no quadro é proposta por Bartlett e Ghoshal (200), os autores propõem quatro categorias específicas representadas pela empresa Multinacional, Global, Internacional e Transnacional. A configuração apresentada por Bartlett e Ghoshal (2000) traz uma realidade de desenvolvimento em conjunto no que diz respeito à empresa transnacional, em que há presença da ação local em sua estratégia.A configuração de empresa multinacional representa a importância de cada unidade da empresa, havendo também um foco nas ações locais. No entanto, no que diz respeito às empresas globais e internacionais, percebe-se uma valorização da empresa mãe da organização, em que há um direcionamento de suas ações conforme a sua realidade. Neste sentido, as localidades subsidiárias do negócio não são consideradas de acordo com suas especificidades. Características Multinacional Global Internacional Transnacional Configuração de ativos e recursos Descentralizado e nacionalmente autossuficiente Centralizado e em escala global Fontes de competências essenciais centralizadas, outras descentralizadas Disperso, independente e especializado Função das operações no exterior Identificação e exploração de oportunidades locais Implementação das estratégias da empresa mãe Adaptação e desenvolvimento das competências da empresa mãe Diferenciadas por unidades nacionais de operações mundiais integradas Desenvolvimento edifusão do conhecimento Conhecimento desenvolvido e mantido no interior de cada unidade Conhecimento desenvolvido e mantido no centro Conhecimento desenvolvido no centro e transferido para unidades no exterior Desenvolvimento do conhecimento em conjunto e compartilhado mundialmente Organograma UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS 128 Caro acadêmico, você percebeu que à medida que a globalização se intensifica, a internacionalização de empresas também acelera? Há empresas que já nascem internacionalizadas são as Born Global. Por vezes, as empresas utilizam-se de estratégia de fusão para alcançar o mercado internacional, sobre isso leia o texto a seguir, que narra um pouco da história da Natura, empresa que inaugurou sua história em 1969 e se transformou na maior multinacional de cosméticos. NOTA NATURAAGORA TEM UMDESAFIO GLOBAL TRÊS VEZES MAIOR Em sua primeir a entrevista, o executivo titular do grupo Natura diz como pretende comandar uma operação cuja presença global mais que triplicou. OpaulistanoRobertoMarques costumavaviajar comumaviãodeNovaYork, onde mora, uma vez a cada dois meses para frequentar, em São Paulo, os encontros do conselho de administração da fabricante de cosméticos Natura, do qual faz parte há dois anos. Nos últimos meses, ele passou a colecionar muito mais milhagens. O executivo, que fez carreira internacional nas fabricantes de bens de consumo americanas Johnson&Johnson e Mondeléz, envolveu-se diretamente na avaliação da compra da britânica The Body Shop, por 1 bilhão de euros. Desde setembro, Marques é o principal executivo do novo grupo Natura, constituído também pela australiana Aesop, adquirida em 2012. De uma hora para a outra, o escopo da empresa, antes restrito a 20 países, passou a atuar em 70. Com pouco mais de 200 lojas, somandoAesop e Natura, agora são mais de 3000 espalhadas mundo afora. Como não existe a estrutura jurídica de uma holding, o cargo oficial de Marques é presidente executivo do conselho de administração, que continua sob o comando compartilhado dos três fundadores da empresa, Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passos. De São Paulo, Marques falou a EXAME, em sua primeira entrevista no cargo. Em vez de constituir uma holding, a Natura criou uma estrutura de grupo que chamou de “lean”. O que é e como funcionará? Não queremos uma estrutura corporativa pesada, e sim privilegiar as unidades de negócios como empresas independentes. Queremos manter o poder decisório com os presidentes de cada uma delas, aomesmo tempo que eles devem buscar sinergias. Por isso, eles participamdoque chamamosde comitê operacional do grupo, comandado por mim. Participam também outros quatro executivos de áreas como recursos humanos e logística, as quais terão duplo chapéu ao manter suas funções anteriores nas empresas. Três executivos vêm da Natura, e um, da Aesop. Como sou um conselheiro, esse formato permite a conexão entre o comitê e o conselho, que terá um papel mais ativo neste momento. TÓPICO 1 — NEGOCIAÇÃO: DESAFIOS E OPORTUNIDADES 129 O único integrante com dedicação exclusiva é o chief transformation ocer. Qual é o papel dele? É um cargo ocupado por Robert Chatwin, há cinco anos vice-presidente de internacionalização da Natura. Na nova posição, ele será responsável por organizar e dar ritmo à busca de sinergias. Essa será uma estrutura temporária? Não. As empresas continuam se transformando, independentemente deste momento. O comitê terá um papel estratégico e de longo prazo. O senhormora emNova York.ANatura tem sede emSão Paulo; aAesop, na Austrália; e a The Body Shop, em Londres. Como será a rotina do grupo? Teremos seis encontros presenciais em 2018, um a cada dois meses. O local vai variar. No restante do tempo, vamos nos comunicar virtualmente. No geral, as viagens se tornarão mais frequentes. Pela primeira vez na história, a reunião do conselho da Natura não acontecerá em São Paulo, e sim em Londres, na sede da The Body Shop. Em janeiro, vamos realizar a primeira reunião com a participação de executivos das três empresas. Serão 100 profissionais juntos, em São Paulo, para trocar informações. Será um marco histórico para o grupo. O senhor foi contratado como conselheiro há dois anos. Já havia a previsão de que assumiria um cargo executivo na Natura? Não. Quando fui contratado para o conselho, era presidente da Mondeléz para a América do Norte. Já estava havia 15 anos fora do Brasil e queria ter uma ligação comopaís.ANatura, por sua vez, já vinha articulandomaneiras de crescer internacionalmente. Em abril, com a compra da The Body Shop, deixei minha posição na Mondeléz. Foi tudo muito intenso e rápido. Em junho, começamos a pensar como iríamos nos organizar. Qual será a prioridade do comitê? Vamos investir muito tempo na integração da equipe. Essas pessoas nunca trabalharam juntas. Alguns acabaram de chegar ao cargo, como o recém- contratado presidente da The Body Shop, que chegou oficialmente em 11 de dezembro. A primeira reunião de todo o grupo aconteceu nesse mesmo dia. Já foram mapeadas as oportunidades? Teremos um centro de excelência de varejo, no qual vamos usar muitos recursos e informações da Aesop. Outro será sobre digitalização e comércio eletrônico – áreas em que o Brasil já avançou e nas quais a The Body Shop está tentando avançar. UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS 130 Qual será o maior desao para melhorar os resultados da The Body Shop, cujas vendas vinham encolhendo? Precisamos revigorar a marca, muito reconhecida, mas com espaço para resgatar sua essência ativista. É necessário aumentar sua voz e trabalhar a narrativa damarca.Além demelhorar a eficiência operacional, pois algumas lojas não estão apresentando resultados satisfatórios e é preciso fazer ajustes. Só recentemente a Natura investiu no varejo. Como resolver esses problemas com pouca experiência nessa área? OnovopresidentedaTheBodyShop,DavidBoynton,que já tevepassagens pela L’Occitane, vai trazer um conhecimento enorme nessa área. Temos também a experiência de Michael O’Keeffe, presidente da Aesop, à frente de uma rede de quase 200 lojas que não param de crescer. Ao mesmo tempo, contratamos Peter Saunders para o conselho de administração. Ele foi presidente da The Body Shop no passado e tem muito conhecimento sobre varejo e sobre a empresa. Hoje ele está no conselho de redes como [de chocolates] a Godiva. A Natura anunciou projeções para dobrar o lucro operacional da The Body Shop nos próximos cinco anos. De onde virá boa parte desse ganho? Há oportunidades de ganhos na área de compras, onde existe muita coincidência entre as empresas. E melhorias na eciência operacional da The Body Shop. E há novas oportunidades de crescimento para a empresa? Sim. Com a The Body Shop, adquirimos uma base presente em 70 países. Uma rede de franqueados que podem nos ajudar a levar a marca Natura para fora. A expansão da The Body Shop com a venda direta é outra possibilidade. A empresa já usa o modelo na Austrália e na Inglaterra e vai bem. Ainda não temos todas as respostas. Estamos aprendendo. FONTE: . Acesso em: 22 abr. 2021. Observa-se que para muitas organizações a internacionalização é o caminho que conduz ao crescimento. Para que isso seja possível, diversas estratégias são implementadas, ponderando não apenas o crescimento para além do território nacional, mas também a eficiência das operações a nível global. Dunning (1979) em seu estudo conhecido como paradigma eclético teve como objetivo explicar a atuação e o padrão das firmas no exterior, de modo a entender como funcionava a produção internacional, e identificou três fatores determinantes para internacionalização da produção de uma empresa, a saber: (I) TÓPICO 1 — NEGOCIAÇÃO: DESAFIOS E OPORTUNIDADES 131 capacidade de desenvolver um projeto por ter uma habilidade gerencial superior; (II) benefícios associados a logística e a melhor acesso a fontes de matérias-primas e, por fim,(III) o desenvolvimento de processos produtivos de formamais eficiente. Conforme aponta Oliveira Júnior (2010, p. 40): As teorias convencionais de negócios internacionais pressupõem que as firmas irão se internacionalizar combase emvantagens competitivas definidas que lhes possibilitam assegurar retornos suficientes para cobrir os custos adicionais e riscos associados com operações no exterior. O paradigma eclético desenvolvido por Dunning (1981, 2001) apresenta elementos de teorias anteriores para identificar vantagens de propriedade, localização e internalização (ownership, location, internalization – OLI), que motivam a internacionalização. As vantagens de propriedade são fatores específicos da firma, tais como propriedade superior de recursos ou capacidades gerenciais, que podem ser aplicadas competitivamente num país no exterior. As vantagens de localização se dão por decisões de investir em países que oferecem oportunidades de mercado ou de produção superiores. As vantagens de internalização se dão para firmas que conseguem reduzir custos de transação por meio de investimentos no exterior, assim eles empreendem transformações ou processos de forma mais eficiente do que mantendo operações de mercado. A internalização pode oferecer vantagens no gerenciamento de interdependências relativas a know-how, reputação, cadeia de valor e marketing, e essas vantagens oferecem uma poderosa explicação para o crescimento da empresa multinacional. A realização das vantagens de internalização depende das capacidades de propriedade e, em geral, é o que foi acordado nas principais explicações teóricas para IDE e internacionalização. Caro acadêmico, você consegue perceber que há dois motivos principais para se tornar um negociador de nível internacional? (1) o surgimento de uma economia global e (2) a grande diversidade de acordos empresariais internacionais (ACUFF, 2004). Neste contexto, Acuff (2004) aponta seis etapas a serem cumpridas em negociações internacionais, a saber: (1) orientação e pesquisa; (2) resistência; (3) reformulaçãodas estratégias; (4) discussõesdifíceis e tomadadedecisões; (5) acordo e (6) seguimento. Vejamos a seguir cada uma dessas etapas commais detalhes. • Orientação e pesquisa A primeira etapa é fundamental para a negociação, pois quanto maiores forem as informações adquiridas, melhores serão os resultados no decorrer do processo. A busca de informações é extremamente importante para se conhecer o objeto de negociação, bem como seu ambiente e as questões envolvidas. Esta etapa consiste principalmente na busca por conhecimento, como: o estudo da organização envolvida, o histórico das negociações semelhantes anteriores, a verificação do poder que seu parceiro de negociação possui em sua organização ou mesmo no meio em que está inserido. Esta fase inicial também compreende o Planejamento. O êxito de uma negociação depende de um planejamento bem elaborado. Para tanto, há a necessidade de examinar interesses e definir metas, UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS 132 bem como identificar quais serão os interesses e objetivos do outro, através da coleta de informações necessárias, com o intuito de se prever possíveis impasses e buscar a maneira de evitá-los e superá-los. Efetivamente deve-se programar as apresentações na mesa de negociação. Através do planejamento, ainda, pode-se ter uma visão geral da situação para então definir os assuntos a serem abordados – no intuito de estabelecer as prioridades. Não se deve, entretanto, deixar de lado a criação de um ambiente favorável à negociação, a fim de reduzir eventuais tensões, para facilitar a busca pelo consenso e pela cooperação. • Resistência O segundo ponto é referente à resistência da outra parte com quem se está negociando. Neste estágio é importante identificar a origem da resistência para, então, superar as objeções. Com relação às objeções que podem surgir nas negociações, indicamos o vídeo “Técnicas de negociação: Como lidar com objeções em negociações?”, do consultor Erik Guttmann. Confira em: https://www.youtube.com/watch?v=8rMT78QXwIo. DICAS Há de se considerar que em uma negociação pode haver resistência por parte do outro negociador. A resistência existe até mesmo para caracterizar a importância relativa da negociação. Se o seu oponente não apresentar certa resistência, você deve verificar qual a real importância do objeto que está sendo negociado. De qualquer forma, é importante se preparar para enfrentar a resistência, buscando formas de quebrá-la. Isto é alcançado ao assumir posições, buscando sempre ter um ponto de vista lógico, debatendo e argumentando seus motivos. É importante também ser compreensivo com o outro negociador, e isso se dá através do conhecimento profundo do mesmo e do objeto da negociação. • Reformulação das estratégias A reformulação das estratégias deve ser colocada em prática assim que novas informações pertinentes à negociação são adquiridas. Você sempre deve elaborar estratégias de negociação, antes mesmo de partir para o processo em si. Entretanto, novos fatores podem surgir durante o processo e você deve estar preparado para enfrentá-los, inclusive reavaliando as estratégias previamente estabelecidas. É possível trabalhar a reformulação de estratégias a partir da introdução de dados novos, da redefinição de algumas questões, mas, principalmente, através da efetiva reavaliação das estratégias originais. TÓPICO 1 — NEGOCIAÇÃO: DESAFIOS E OPORTUNIDADES 133 • Discussões difíceis e tomada de decisões No quarto passo é o momento em que deve-se avaliar as necessidades de todos os envolvidos e apresentar opções para ganhos recíprocos. Todo negociador deve concentrar seus esforços nas reais necessidades das partes envolvidas no processo. Quando uma discussão está difícil, o objetivo maior é buscar o real motivo do que se está negociando. Este é o momento exato para se tomar decisões com base efetiva na busca por resultados recíprocos: ganha-ganha, ou seja, deve se criar alternativas de ganho mútuo, perguntando-se: o que a outra parte pode ganhar com a negociação? É extremamente importante nas discussões, na tomada de decisões, explorar e compreender todas as variáveis envolvidas, a fim de clarificar pontos obscuros na intenção de superar impasses existentes. • Acordo Na etapa do acordo são definidos os detalhes do negócio, em que é importante verificar se todos compreendem o que foi acertado. É o momento de traçar todos os detalhes da negociação e garantir a compreensão deles por todos os envolvidos. Os negociadores ratificam os acordos com suas organizações. Dessa forma, são fatores que envolvem o acordo: busca de área de entendimento; revisão de todo o processo de negociação, a fim de garantir a compreensão mútua do que foi acordado; revisar e redigir o acordo; recapitular os benefícios mútuos alcançados com a negociação. • Seguimento O último ponto, muitas vezes esquecido, porém de extrema importância, é o seguimento, onde se prepara o terreno para uma próxima negociação. Esta etapa é primordial para o alcance de sucesso de uma próxima negociação emuitas vezes ela é negligenciada. Logo após o acordo firmado, é necessário manter um bom relacionamento com seu oponente, enfatizando que a sua tomada de decisão foi acertada e que ambos fizeram bons negócios. Enfatizar um relacionamento é tambémuma chave para o sucesso de umenegociação. Dessa forma, o seguimento consiste em supervisionar a implementação do acordo negociado e destacar que você acaba de fazer um bom negócio. Conclui-se que o que diferencia uma negociação comum da negociação internacional é o ambiente em que ela ocorre, por isso, o negociador deve estar atento às regras, sinais e comportamentos locais (STELLE; MURPHIL; RUSSILL, 1995). Assim, o êxito em negociações corporativas internacionais, conforme afirmamAyerbe e Bojikian (2011, p. 75): UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS 134 “depende, emgrandemedida, da habilidade dos atores que participam desse processo – seus estilos denegociar, seus conhecimentos sobre o negócio/assunto em questão, seus modos de se relacionar com outras pessoas. Depende, também, das estratégias adotadas, da capacidade de entender diferentes idiomas e da forma de comunicação, além da capacidade de gerar uma interação positiva, compreendendo o outro negociador (que, no caso de negociações internacionais, será de uma cultura distinta)”. A respeito disso, acompanhe o tópico a seguir. 139 UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Vimos que a globalização e a internacionalização de empresas são dois dos principais fatores que promoveram as negociações internacionais. Neste tópico, vamos examinaremos os impactos que a cultura exerce em negociações internacionais. A cultura compreende os fatores culturais, elementos psicológicos, normas, valores e crenças, que são compartilhados pelos membros de um grupo social. Aprenderemos, neste tópico, quais são os impactos que esses fatores exercem em negociações internacionais. Você perceberá, acadêmico, o quão importante é o conhecimento da cultura da outra parte, o que pode determinar o fechamento de um bom acordo comercial, amenizar problemas gerados pelo choque cultural e dificuldades de interação e comunicação. TÓPICO 2 — NEGOCIAÇÕES MULTICULTURAIS 2 O IMPACTO DA CULTURA NAS NEGOCIAÇÕES O termo cultura é complexo e de difícil definição. Segundo Pires eMacêdo (2006, p. 83), “possui inúmeros significados, todos derivados de sua raiz latina, que se refere à plantação no solo. Em muitas línguas ocidentais, cultura significa civilização ou refinamento da mente e, em particular, os resultados desse refinamento, como educação, arte e literatura”. Considera-se a cultura como um conjunto de expressões e representações simbólicas de uma sociedade, ou ainda, a interpretação do significado das formas simbólicas, o modo através do qual se busca compreender a cultura de um grupo (MUSSKOPF, 2017). Para Arruda (2001, p. 59): Se comunicação é um processo, podemos dizer que a cultura é a estrutura por meio da qual a comunicação é formulada e interpretada. Cultura diz respeito à forma como as pessoas vivem e se relacionam. Quando uma negociação envolve pessoas de culturas distintas, 140 UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS é preciso que ocorra uma adaptação entre as partes, a fim de que a comunicação efetivamente flua. Lidar com elementos interculturais em uma negociação significa lidar com signos, símbolos e índices diversos, em suas distintas similaridades e diferenças. Na literatura é possível encontrar diversos conceitos para o termo, mas não há um consenso quanto à definição. Pastore (2015) considera que a maioria das definições compartilha três características principais sobre cultura, a saber: • Cultura é um fenômeno de grupo: embora cada grupo consiste essencialmente em indivíduos e, apesar do fato de que a cultura é manifestada através de indivíduos, ela em si é um fenômeno que só pode ser observado na medida em que é compartilhado pela grande maioria dos indivíduos pertencentes a um determinado grupo. • Cultura é adquirida pelos indivíduos a partir do grupo a que pertencem, através de socialização ou aculturação. Isso implica que a cultura não só tem que ser compartilhada pelos indivíduos pertencentes a um determinado grupo, mas também tem que ser preservada no tempo e transmitida de uma geração para outra. • Cultura é um conjunto exclusivo de atributos que englobará todas as áreas da vida social, e esses atributos podem possuir características intangíveis ou incorpóreas. O primeiro grupo, por exemplo, inclui significados, valores, crenças etc. O segundo, suas expressões, tais como padrões de comportamento e artefatos. O que a cultura tem a ver com negociação? Bom, primeiramente diversos estudos apontam que a cultura é um dos principais fatores a serem considerados em negociações internacionais. Conforme Musskopf (2017), com a ampliação de mercados e alianças com empresas estrangeiras – e para que um negócio seja bem-sucedido – deve-se considerar vários fatores, sendo observada, em primeiro lugar, a língua falada, em segundo, a cultura e, em terceiro, as diferenças sistêmicas, como legislação e restrições tarifárias. Segundo Jacobus e Muller (2013), na negociação internacional existem diversos fatores que influenciam diretamente o resultado do processo, uma delas é a cultura, que está presente em cada negociador, fazendo com que haja diferenças e semelhanças nas características negociais de cada indivíduo. Para Musskopf (2017), a cultura tem o poder de intervir a qualquer momento na negociação, pois ela é inegociável e inalterável, antecedendo a própria negociação. O negociador necessita desenvolver técnicas e estratégias para conseguir lidar com fatores peculiares que surgem durante uma negociação. TÓPICO 2 — NEGOCIAÇÕES MULTICULTURAIS 141 Umexemplo claro é a história do executivo americano que presenteou a filha de seu sócio chinês com um relógio, por ocasião do casamento desta, sem saber que relógios são presentes inapropriados na China, porque são associados à morte. Este insulto resultou no término do relacionamento de negócios com seu sócio. Observa-se que, conforme aponta Acuff (2004), os principais fatores culturais que interferem nas negociações são: I. uso do tempo; II. individualismo vs. Orientação coletiva; III. estabilidade de funções e conformidade; IV. padrões de comunicação. O uso do tempo diz respeito à relação das culturas com o horário e prazos. Como exemplo, utilizamos o povo suíço, onde atrasos são faltas graves – ao contrário das culturas latinas. O segundo ponto trata da consciência do “eu” (individualismo) em contraste com a consciência do “nós” (Orientação coletiva). Deste modo, pode-se explicar a velocidade das negociações. Como exemplo, podemos mencionar os Estados Unidos, onde uma decisão pode ser tomada imediatamente, devido à cultura individualista – ao contrário do que ocorre no Japão, onde uma decisão normalmente é tomada por um grupo de pessoas. O terceiro fator, estabilidade de funções e conformidade, caracteriza- se pela necessidade ou não de haver conformidade e estabilidade nas funções, enfatizando mais ou menos a estrutura do comportamento do que o conteúdo. Como exemplo, podemos mencionar o povo alemão, que prioriza o conteúdo dos negócios, deixando de lado o relacionamento interpessoal – ao contrário dos povos asiáticos, onde antes de qualquer negociação é necessário o relacionamento profundo com o interlocutor. O quarto, padrões de comunicação, é um dos principais pontos a ser levado em consideração para uma negociação bem-sucedida, devendo ser bem entendido por todas as partes para evitar divergências. Como exemplo, podemos utilizar o sinal de polegar levantado, que no Brasil tem como significado uma afirmação positiva, indicando que algo está correto ou de acordo, mas já em outras culturas, pode ser visto como grande ofensa. Acuff (2004) aponta ainda que quando o negociador desconhece os marcos de referência habituais de como agir, ocorre o choque cultural. Estes marcos podem incluir atividades básicas, como apertar as mãos, como se dirigir às pessoas, a quem dirigir os comentários, nível de franqueza ou se deve ou não discutir sobre o negócio durante os jantares. 142 UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS Brett (2001) enfatiza que a cultura é formada por elementos psicológicos, normas e valores, que são compartilhados pelos membros de um grupo social, sendo que quando duas partes negociam, trazem consigo sua cultura, interesses, prioridades e estratégias de negociação. Os valores culturais podem, na maioria das vezes, revelar tendências comuns de negociadores de alguns países. A autora desenvolveu um modelo que apresenta a influência que a cultura exerce sobre os negociadores. Observe na figura a seguir: FIGURA 3 – MODELO DE BRETT FONTE: Brett (2001, p. 102) No modelo de Brett é possível perceber que a cultura afeta os elementos da negociação – tais como interesses, prioridades ou a seleção de estratégias. Valoresculturais têm uma influência notável sobre os interesses e as prioridades das negociações, enquanto normas culturais afetam os padrões de interações e estratégias de negociação (PASTORE, 2015). Também nos apropriamos dos estudos de Salacuse (2004), que realizou entrevistas com 400 pessoas de 12 nacionalidades diferentes, a fim de conhecer dez elementos que podem interferir em negociações interculturais. Veja na tabela a seguir: TÓPICO 2 — NEGOCIAÇÕES MULTICULTURAIS 143 TABELA 1 – COMO A CULTURA AFETA AS NEGOCIAÇÕES FONTE: Adaptado de Salacuse (2004) Pessoas de culturas distintas negociam de forma diferente, comportam- se de maneira diferente e, além disso, interpretam o processo de negociação de forma distinta (FLORIANI, 2003). A respeito disso, acompanhe o texto a seguir. PARA NEGOCIAR BEM NO EXTERIOR É PRECISO ESTARATENTO ÀS TRADIÇÕES E COSTUMES O tempo de negociação e a construção dos relacionamentos mudam de um país para outro. Karla Kalef, da NSO Borrachas: "Para fazer negócios na Arábia Saudita, a mulher deve ter postura". 144 UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS FONTE: . Acesso em: 14 jul. 2021. Quem lida com negociação sabe que a tarefa não é para amadores. Dominar as técnicas, conhecer bem o negócio e o interlocutor são algumas das exigências, mas quando a missão envolve outro país, o que já era difícil torna-se mais desafiador. O negociador terá que dominar, também, as particularidades daquela nova cultura. E experiências internacionais serão cada vez mais frequentes com o fenômeno da globalização. O tempo de negociação, a construção de relacionamentos e até a postura, tudo muda de um lugar para outro. Para ter sucesso, é preciso aprender cada cultura, como fez a diretora administrativa e comercial da empresa joinvilense NSO Borrachas, Karla Rosane Ernst de Mello Kalef. Há quatro anos ela participa de feiras e rodadas de negócios durante missões empresariais para Arábia Saudita e no Sudão. Já fez bons negócios e, de tão acostumada, já sente até saudades. – Dizem que na Arábia Saudita não se negocia com mulheres, mas isto não é verdade. Negociam, desde que a mulher tenha postura – afirma. Logo ao desembarcar no aeroporto, Karla veste a roupa feminina padrão na Arábia Saudita: o véu e a abaya (vestido preto que cobre todo o corpo), mas não é só isso. Para impor respeito, cuida de cada gesto. Nas reuniões, as mãos ficam em cima damesa sobrepostas, a esquerda em cima da direita para mostrar a aliança. As mangas do vestido cobrem a pele até o punho. Os cabelos ficam, de preferência, totalmente cobertos pelo véu, mas, às vezes, o véu sai do lugar e os cabelos loiros aparecerem um pouquinho. Karla diz que não faz mal, por se tratar de uma estrangeira. TÓPICO 2 — NEGOCIAÇÕES MULTICULTURAIS 145 Embora muito comunicativa, quando está na Arábia Saudita, Karla também evita sorrir abertamente. E um aperto de mão é suficiente ao cumprimentar os interlocutores. Certa vez, um descuido acabou tendo um efeito inesperado. Ao ligar o notebook para projetar a apresentação de sua empresa, esqueceu que na tela inicial havia uma grande foto de sua família. Como a família é sagrada para eles, a cena foi o suficiente para ganhar o respeito e a simpatia entre os presentes. Karla também procura conhecer a região que visita, pois sabe que as oportunidades podem estar em qualquer lugar. Foi assim quando fechou um dos negócios internacionais mais recentes. Certo dia, no Sudão, percebeu muitos pneus jogados nas estradas e procurou entender o que ocasionava aquilo. Descobriu que os pneus estouram frequentemente devido à grande oscilação de temperatura. Da curiosidade, nasceu uma parceria para transferência tecnológica e de material para reciclagem do produto. • Planejamento, a palavra-chave em negociação Se você é iniciante no ramo de negociação e seu chefe lhe deu a missão de discutir negócios com estrangeiros, é bom se preparar com antecedência. Planejamento é a palavra-chave antes de qualquer negociação internacional, explica a assessora de relações internacionais e professora da Universidade da Região de Joinville (Univille), Jurema Tomelin Barg. Ela aconselha estudar sobre o país, seus costumes e ter bem claro o objetivo da viagem. Um cuidado simples para não errar logo de início é verificar os feriados locais. Algumas datas são tratadas com muita importância e marcar reuniões nesses dias é uma grande gafe. Vale a pena, também, dar uma olhadinha nos jornais locais ao chegar. Jurema afirma que isto demonstra interesse pela localidade e contribui para estabelecer uma conversa informal com os interlocutores. Gesticular demais é algo que deve ser evitado em qualquer lugar, diz Jurema, porque pode ser interpretado como falta de preparo. Alguns costumes são bem específicos, por isso, cada viagem é única. De acordo com a professora da Univille, os árabes querem conhecer a pessoa por trás do cartão de visita. E nessa cultura, nunca se deve mostrar a sola do sapato. Algo considerado indelicado. A troca de cartão acontece com as duas mãos e este nunca deve ser colocado imediatamente no bolso. Ainda que não entenda o idioma, o ideal é fazer uma expressãodeaprovação,olharatentamenteparaoqueestáescritonocartãoe, sóentão, deixá-lo namesma ao seu lado. Jamais colocá-lo no bolso ou na pasta imediatamente. 146 UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS Outro cuidado é não tirar conclusões precipitadas. Os japoneses escutam atentamente e fazem movimentos afirmativos com a cabeça, mas isto não é sinal de concordância, somente de educação. Depois farão as considerações. Para saber como agir em ambientes tão distintos quanto à China, Sudão ou Estados Unidos, uma dica é conhecer os padrões de comportamento descritos pelo mestre em negociação e escritor Frank L. Acuff. Entre eles, está o uso do tempo. A pontualidade tem peso diferente conforme a cultura. Também é importante saber em que regiões o negociador pensa de forma coletiva e onde é mais individualista, ou quem valoriza mais a forma da apresentação e quais focam o conteúdo. • Conra os padrões de comportamento mais comuns – Uso do tempo Os norte-americanos, suíços, alemães e australianos são normalmente exigentes e exatos na sua administração do tempo... na América Latina, pode- se pensar, e inclusive esperar, que uma sessão de negociação comece meia hora depois da hora marcada. Um atraso de dois meses num projeto no Oriente Médio pode ser consideradomais normal do que anormal. Talvez pensem: "O nosso país tem sobrevivido durante séculos sem esse novo equipamento, e não faz mal se esperamos mais dois meses". • Individualismo vs. Orientação coletiva Um estudo clássico do pesquisador holandês Geert Hofstede encontrou grandes diferenças entre países. Sendo 100 a nota mais alta, os gerentes norte- americanos obtiveram 91 pontos, os mais individualistas de todos os países pesquisados. Em seguida, vieram outros países ocidentais como Austrália, Grã- Betanha e Canadá. A maioria das culturas dos países da Orla do Pacífico tem contagem muito menor, indicativa de uma cultura coletiva, como Japão, Hong Kong, Cingapura e Taiwan. Em menor grau, isso também ocorre nos países latino-americanos, onde a contagem variou entre 46 (Argentina) e 16 (Venezuela). A ênfase ao grupo ajuda a explicar por que os japoneses são tão lentos ao tomar decisões nas negociações. Precisam de tempo para assegurarem-se de que todos os membros da equipe concordam com a decisão. A ênfase no grupo também condiciona a quem você tenta convencer na mesa de negociações. Os norte-americanos que negociam com outros norte-americanos normalmente procuram o representante mais importante do outro lado, porém, nas culturas centradas na coletividade, é o grupo que você deve convencer, não o indivíduo. • Estabilidade de funções e conformidade Algumas culturas, como as daOrla do Pacífico, frequentemente, enfatizam mais a forma ou estrutura do comportamento do que o conteúdo. Como fazem as coisas tem uma importância fundamental. Esse fatorajuda a explicar por que os TÓPICO 2 — NEGOCIAÇÕES MULTICULTURAIS 147 japoneses enfatizam mais o relacionamento com o interlocutor. Conhecer a outra pessoaajudaaestabilidadeeaprevisibilidadedoprocessodenegociação.Deforma semelhante, os japoneses prestam muita atenção ao ritual, como a apresentação de cartões de visita. Por outro lado, os negociadores norte-americanos, alemães e suíços tendem a enfatizar mais o conteúdo das negociações que a forma como se chega aos resultados finais. • Padrões de comunicação Os negociadores norte-americanos, especialmente, prezam a comunicação direta e aberta (vá direto ao assunto). Já as pessoas da Orla do Pacífico, por exemplo, de culturas de conteúdo denso (nas quais o significado da mensagem está embutido no contexto da comunicação) podem considerar essa abordagem agressiva e insensível. Os norte-americanos podem achar difícil acompanhar, julgando inclusive ser enganosa, a comunicação indireta daquela pessoa de sociedade de denso conteúdo, pensando que esta pessoa deve ser dissimulada já que não responde sim ou não. • Comunicação não verbal Saudações e aperto de mão se fazem de formas diferentes. Por exemplo, os negociadores norte-americanos, alemães e russos têm forte aperto de mão comparados com os demais. Os norte-americanos normalmente também gostam demuitoespaço físiconassuasvidasorganizacionais. Issose refletenumadistância física demais oumenos ummetro, em situações de conversas de negócios. Não há muito contato físico. Quando ocorre, geralmente há desconforto. Se apenas dois passageiros permanecem no elevador após o seu esvaziamento, imediatamente se dirigem para os lados. Em outras culturas, a proximidade física, em situações sociais ou de negócios, é muito maior que nos Estados Unidos. Em parte da América Latina e do Oriente Médio, é costume dois colegas de negócios se abraçarem, se beijarem levemente no rosto, e ficarem a apenas uma distância de 30 centímetros, ao conversar sobre negócios. O que faz com que um comportamento não verbal seja considerado exagerado ou apropriado é uma questão de interpretação cultural. Por exemplo, os latinos se tocam mais que os norte-americanos ou canadenses, que, por sua vez, se tocam mais que os suecos ou ingleses. FONTE: . Acesso em: 7 jul. 2021. 148 UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS A cultura pode ser comparada ao iceberg, em que a parte superior denota as questões visíveis enquanto a parte inferior submersa na água representa as questões não visíveis, mas que influenciam diretamente as negociações, observe a imagem a seguir. FIGURA 4 – ICEBERG DA CULTURA FONTE: Erbesdobler (2015, p. 60) De acordo com Erbesdobler (2015), a parte superior do iceberg acima da água representa o idioma, as emoções, comportamento etc. Já a parte submersa invisível e, por vezes, inconsciente nos seres humanos diz respeito a questões como religião, sentimentos, valores etc. Desse modo, é possível concluir que além do entendimento do estilo negocial da outra parte, em negociações internacionais deve-se estar atento as crenças e normas culturais da outra parte, pois estas, não só se manifestam no processo de negociação como também podem influenciar o resultado da negociação (SOBRAL; CARVALHAL; ALMEIDA, 2008; PASTORE, 2015). 153 UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Há quem considere a negociação uma arte. Há também aqueles que consideram a negociação uma técnica, ou ainda, a junção da arte com técnicas específicas. De qualquer modo, sabemos que negociar é fundamental. Tornar-se umbomnegociador leva tempo. Bonsnegociadores são lapidados pelos aprendizados extraídos dos conflitos enfrentados, da prática do dia a dia, do domínio de técnicas de negociação e do convívio com bons negociadores. Também, há de se considerar que bons negociadores precisam ter domínio próprio e autoconhecimento. Vale citar a frase de Sun Tzu (2006, p. 60) “Conhece- te a ti mesmo, conhece teu inimigo. Tua vitória jamais correrá risco. Conhece o lugar, conhece o tempo. Então, tua vitória será total”. De acordo com o autor do provérbio chinês, se você conhecer o inimigo e conhecer a si mesmo, você não precisará temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória obtida você sofrerá também uma derrota. No entanto, se você não conhecer nem o inimigo e nem a si mesmo, você perderá todas as batalhas. TÓPICO 3 — DESAFIOS DA NEGOCIAÇÃO 2A IMPORTÂNCIA DACOMUNICAÇÃONAS NEGOCIAÇÕES Certamente, conhecer a si próprio é um dos desafios da negociação – além disso, outro desafio é a comunicação. Convém, portanto, abordar o conceito de comunicação:umamensagemqueenvolvea transmissãodeconteúdosemocionais ou intelectuais, ou ambos, que nem sempre são transmitidos pela fala, abrange, também a linguagem não verbal, como o tom de voz, a escrita, vestimenta, gestos e expressões faciais. 154 UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS Caro acadêmico, em negociações internacionais é muito importante o domínio de um outro idioma, como o inglês, considerado uma língua universal. A seguir, acompanhe algumas dicas para aprimorar o seu inglês. • Troque o idioma do seu celular e outros equipamentos eletrônicos para inglês. • Troque o idioma de suas redes sociais para o inglês. • Torne um hábito a leitura de sites de notícias internacionais. • Assista filmes e séries em inglês. DICAS A comunicação envolve um fluxo de mão dupla, com um emissor e um receptor, em que o que recebe a informação responde a ela de alguma forma, de imediato ou após certo tempo. A informação impacta no julgamento e comportamento das pessoas, alterando omodo como aquele que a recebe percebe alguma coisa. Para Almeida (2007, p. 200), “conseguir comunicar eficazmente é um dos objetivos mais importantes ao nível da gestão”. A comunicação para ser eficaz não compreende apenas o que você diz, mas o que o outro entende, nesse caso o mais importante é se fazer entendido. Um dos perigos da negociação intercultural é possibilidade de interpretação errônea, seja da comunicação verbal, quanto da não verbal, com maior possibilidade de enganos da segunda, pois o comportamento corporal é fruto, emgrande escala do inconsciente, a linguagemverbal pode ser rapidamente corrigida já um gesto pode ser mais difícil de corrigir. FIGURA 5 – GESTO MAL INTERPRETADO FONTE: . Acesso em: 7 jul. 2021. TÓPICO 3 — DESAFIOS DA NEGOCIAÇÃO 155 Na figura exposta, vemos um gesto que nos Estados Unidos tem uma conotação positiva associada ao time de futebol da Universidade do Texas. Entretanto, neste mesmo país, no meio de outras subculturas, ele também pode representar "cultos satânicos". Damesma forma, no Brasil, tanto pode representar "cultos satânicos" (indicando os chifres diabólicos), como também pode ser entendido como sinal de "sorte". Já na Itália a conotação é de insulto. Isto mostra que um gesto só deve ser usado, quando se tem certeza de que o seu interlocutor irá compreender exatamente o sentido que se quer transmitir (ARRUDA, 2001). Ainda, com relação à linguagem corporal, o autor ressalta que o modo de andar, sentar ou simplesmente permanecer parado pode comunicar mensagens positivas ou negativas. FIGURA 6 – POSTURA FONTE: . Acesso em: 7 jul. 2021. • Conforme Arruda (2001, p. 50): Comportar-se de forma muito relaxada e casual pode ser considerado rude em algumas culturas, como no caso da alemã. A forma de cruzar as pernas pode variar entre os gêneros feminino emasculino, e entre as culturas. Algumas costumam fazê-lo com mais frequência, enquanto outras não tem este hábito. No mundo árabe, a postura ao sentar-se é considerada muito importante. Deve-se evitar mostrar a sola do sapato, bem como apontar os pés na direção de outra pessoa, pois, está extremidade docorpo humano, por estar em contato com o chão não é considerada limpa. 156 UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS No que se refere à comunicação, observa-se que a maior facilidade proporcionada pelos recursos tecnológicos para transmitir informações não leva necessariamente a uma melhora na qualidade da informação, sobretudo em negociações internacionais. Deve-se selecionar o melhor canal de comunicação, criar um ambiente propício ao entendimento da mensagem, considerando as diferenças culturais, conforme aponta Arruda (2001, p. 85): “embora a boa comunicação não seja, por si só, o único elemento que garanta sucesso a uma negociação, indubitavelmente é o pilar que sustenta a argumentação, pois, a comunicação permeia todo processo negocial e é o ambiente, por meio do qual os interesses são evidenciados”. 3 NEGOCIAÇÃO ESTRATÉGICA A globalização aliada ao avanço da ciência e da tecnologia diminuíram barreiras possibilitando um número maior de trocas e compartilhamentos entre pessoas, entre empresas, entre países, entre blocos comerciais. Diante desse cenário, as corporações precisam ser flexíveis, proativas e com uma visão estratégica sempre presente em suas ações, inclusive nas negociações. Assim, necessitam de visão sistêmica para um melhor entendimento do contexto no qual estão inseridas, aperfeiçoando as relações entre seus Stakeholders internos e externos. Uma vez que o número de parcerias, acordos e contratos, e, como consequência, os conflitos se multiplicam, as negociações tornam-se vetores de mudança sendo uma das habilidades básicas dos membros das organizações do século XXI (CAVALCANTE; SAUAI, 2006). A negociação é considerada uma das softs skillsmais relevantes e mais requisitadas atualmente, posto que as empresas adotam cada vez mais uma estrutura em linha staff, com a participação de diversos parceiros atuantes em suas operações. As empresas que reconhecem as negociações como parte da estratégia organizacional possuem uma visão sistêmica dos relacionamentos estabelecidos. Assim, seus colaboradores carregam a responsabilidade de firmar, nutrir e também desvincular relacionamentos que não estejam alinhados à estratégia da empresa. NOTA TÓPICO 3 — DESAFIOS DA NEGOCIAÇÃO 157 É importante ampliar a visão e compreender que as organizações comerciais e industriais podem ser imaginadas como sistemas compostos de processos operacionais estruturados e regulados por um conjunto de estratégias, que são objeto de intensa pressão do ambiente no qual pertencem. Na figura a seguir é possível visualizar os fatores presentes no ambiente internos e externos e que impactam nas ações da organização: FIGURA 7 – AMBIENTE INTERNO E EXTERNO FONTE: . Acesso em: 7 jul. 2021. Ao analisar a imagem exposta é possível ampliar a visão quanto aos inúmeros agentes que impactam e são impactados pelas ações das empresas. Vale ressaltar que a empresapossuidomínio apenas sobreo ambiente interno composto de recursos de natureza física (homens, máquinas, materiais, equipamentos etc.) e não física (métodos, rotinas, tecnologias, conhecimentos, padrões, procedimentos etc.) necessários para a produção de bens e serviços. Quanto ao ambiente externo composto pelos bancos, concorrentes, clientes etc., a empresa não possui total domínio sendo impacta por estes agentes. Assim, as empresas podem adotar diversas táticas a fim de alcançar seus objetivos, aproveitando as oportunidades do mercado, ao mesmo tempo, permanecendo em harmonia com os seus ambientes. Quanto às estratégias, podemos citar: 158 UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS • Inovação. • Diversicação. • Expansão. • Diferenciação. • Alianças e parcerias. Uma empresa que adota a estratégia de alianças e parcerias, por exemplo, deve estarmuitomais atenta às negociações realizadas por seus colaboradores nas rodadas de negociação, pois, é justamente a qualidade da negociação realizada que irá possibilitar o crescimento ou até mesmo o fracasso da empresa. Vale relembrar aqui o conceito do BATNA (best alternative to no agreement) técnica que detalha o que seria um bom e o que seria um mau acordo (SARFATI, 2006). Além de criar o próprio BATNA, deve-se também tentar descobrir o BATNA da outra parte. Assim, para construção do BATNA é necessário seguir os seguintes passos: a) Quais as ações que se pode tomar se nenhum acordo for alcançado; b) Deve-se lapidar as ideias e transformá-las em alternativas concretas; c) Selecionar as melhores alternativas. Ainda, Sarfati (2006) argumenta que: • Quanto menor a obrigação de uma parte em seu fechar o acordo mais forte ela será em uma barganha. • O poder de uma negociação não está diretamente associado aos ativos de uma parte e sim aos incentivos que ela tem, ou não, para estar em uma mesa de negociação. • Quanto mais se entende as alternativas do outro lado, melhor preparado para se negociar. As partes ainda costumam estabelecer pontos de resistência ou pontos de reservas, a localização do ponto de resistências de um negociador depende de seu BATNA, que, por sua vez, possui relação com a ZOPA (Zona de possibilidade de acordo) ou em inglês zone of possible agrément, que são as alternativas de acordo de cada parte (RAIFFA, 1982). Considerando a ZOPA, as negociações podem ser do tipo distributivas ou integrativa, conforme aponta Sarfati (2006, p. 140): As negociações em toda ZOPA podem ser do tipo distributivas, quando as partes envolvidas consideram que exista uma 'torta fixa' para ser dividida entre os participantes. Nesse caso, os participantes discutem quem merece mais ou menos da torta (claiming value). As negociações podem também ser integrativas, quando as partes envolvidas reconhecem que possuem interesses em comum ou que tem oportunidades de ganho em conjunto, principalmente, nas trocas que envolvem múltiplos assuntos e partes. Nesse caso, as partes discutem como aumentar a torta (create value). TÓPICO 3 — DESAFIOS DA NEGOCIAÇÃO 159 Para relembrar sobre as negociações distributivas ou integrativa, observe a imagem a seguir: FIGURA 8 – NEGOCIAÇÕES INTEGRATIVA E DISTRIBUTIVA FONTE: . Acesso em: 7 jul. 2021. Relacionando os temas estratégia e negociação, podemos tomar como exemplo o caso da IBM que fez uma aliança com uma companhia transportadora francesa. Na parceria estabelecida criaram uma nova firma, da qual a IBM possui 49% das ações. Esta nova firma ficou responsável pela distribuição física dos microcomputadores IBM e se tornou uma especialista em entregas just-in-time com armazéns completamente automatizados. Este é um exemplo de negociação integrativa com o uso de estratégia de aliança e parceria. Toda empresa deve possuir uma estratégia. Não ter uma estratégia significa ser a estratégia de alguém. A negociação estratégica vai além das negociações comuns, pois são fundamentadas na estratégia macro da empresa. Assim, toda negociação é premeditada visando a sustentabilidade do negócio. Examine a figura a seguir. 160 UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS FIGURA 9 – ESTRATÉGIA DE NEGOCIAÇÃO FONTE: Mello (2010 p.18) Com base na imagem, pode-se concluir que a negociação estratégica vai além das negociações comuns, pois é fundamentada a partir da estratégia organizacional visado o relacionamento. Assim, destacam-se seis suposições que justificariam os diferentes objetivos de um negociador: a) ganhar agora; b) ganhar agora e depois; c) ganhar depois; d) construir um relacionamento; e) manter um relacionamento; f) consertar um relacionamento; g) tudo junto. Na negociação cooperativa, as partem tem interesse em alcançarem um acordo.É fundamental a troca legítimade informaçõesparaumconhecimentopleno de ambos os lados; a construção de um relacionamento de confiança; ter percepção correta dos fatos e a atenção nas concepções diferentes e justas, chegando assim a uma solução compartilhada que atendam os interesses de todos. Em negociaçõesestratégias deve-se pensar até no ambiente em que a negociação irá ocorrer, as táticas usadas servem para conhecer e compreender as necessidades das partes. Segundo Mello (2010), deve-se seguir seis etapas: • Ouvir mais do que falar. • Separar as pessoas do problema. • Colocar-se do lugar da outra parte. • Compreender os interesses do outro. • Estabelecer normas de trabalho. • Táticas competitivas usadas de forma cooperativa (orçamento limitado, hipótese, agenda prévia, intimidade). TÓPICO 3 — DESAFIOS DA NEGOCIAÇÃO 161 O filme Jobs, lançado em 2013, retrata a história de Steve Jobs quando em 1976, abandona a faculdade e junto com seu amigo, o gênio da tecnologia Steve Wozniak, iniciaram uma revolução nos computadores com a invenção do Apple 1, o primeiro computador pessoal. Construído na garagem dos pais de Jobs, o Apple 1 e a formação da empresa Apple mudaram o mundo para sempre. Diretor: Joshua Michael Stern. Música composta por: John Debney. Bilheteria: 42,1 milhões USD. Produção: Joshua Michael Stern, Mark Hulme, Arthur Benjamin. DICAS FONTE: . Acesso em: 18 abr. 2021. 162 UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS LEITURA COMPLEMENTAR NEGOCIAÇÃO: QUAL É O PESO DAS DIFERENÇAS CULTURAIS? Luiz Augusto Costacurta Junqueira Um executivo de construção civil canadense estava feliz por estar em Paris com sua filha, que estudava francês na Sorbonne. Ele estava mais feliz ainda por ter acabado de negociar um conraomultimilionário com um soberano árabe. O jantar de comemoração estava em andamento. O canadense, como anfitrião, trouxe sua filha. O árabe entendeu tratar-se de um atraente presente. O acordo de negócios terminou: do lado canadense, com “os grosseiros avanços sexuais” feitos pelo árabe em relação a sua filha; e do lado árabe, o negócio acabou com o soco, nada convencional, que o canadense lhe aplicou no queixo. Em Londres, um grupo de homens de negócios americanos estava tentando acertar um difícil problema com um grupo de ingleses, em umamesa de conferência.Ambos os grupos estavam ficandoexasperados com seus adversários. Os ingleses insistiam que o problema fosse “colocado na mesa”. Os americanos, por sua vez, com igual ênfase se recusavam a fazê-lo. Só depois descobriram que em inglês londrino “to table” quer dizer discutir e agir sobre um problema, enquanto em inglês americano, que dizer adiar o problema. Em Leningrado, um argentino, disposto a vender produtos agrícolas, foi levado a uma protocolar visita a monumentos da Segunda Guerra Mundial, antes de iniciar as negociações. Ele viu, ouviu e manifestou um interesse bem- educado. Depois que os russos esfriaram as negociações, por acaso descobriu que os estrangeiros devem manifestar inequívocos e profundos protestos de horror e solidariedade diante dos terríveis sofrimentos infligidos aos russos durante a Segunda Guerra Mundial. Estas estórias ilustram um ponto importante a ser aprendido por todo homem de negócios no âmbito internacional: a consciência das diferenças culturais pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso. O fracasso nessas histórias vem no fim. O sucesso advém de uma consciência clara de como as outras pessoas pensam e agem no estabelecimento de relações de negócios, desde seu início. Homens de negócios devem estar sintonizados para onde se manifestam as diferenças culturais e quais os seus efeitos no processo de negociação. Quando a negociação funciona, os dois lados ganham. Esta é ameta. Para que isso funcione no comércio internacional atual, o negociador bem-sucedido é aquele que leva em conta os fatores culturais. TÓPICO 3 — DESAFIOS DA NEGOCIAÇÃO 163 Diplomatas de carreira há muito reconhecem esses fatos. Harold Nicholseon, um grande político inglês, escreveu em seu livro “Diplomacia”, em 1939, que “existem certos padrões de negociação que podem ser considerados permanentes e universais. A par desses, entretanto, há notáveis diferenças causadas por caráter nacional, tradição e rituais”. Todomundoacenasobriamentequandoessaafirmaçãoécitada,denotando uma compreensão dessa peça fundamental de sabedoria. Praticamente, todos que atuam transculturalmente aceitam o acerto dessa proposta alternativa e equilibrada – há similaridades e há diferenças. Fundamentalmente, somos todos seres humanos, seja qual for nosso contexto cultural e como seres humanos temos certos padrões em comum, aplicáveis independentemente do tom que possam assumir as negociações. Por outro lado, naturalmente, há diferenças culturais significativas que trazemos conosco à mesa de negociação, e que afetam nossas atitudes e nossos procedimentos. Naturalmente ambos os lados desta verdade elementar devem ser considerados. Mesmo o observador eventual “sabe”, por exemplo, que à medida que prosseguem as negociações, todos, independentemente das origens culturais, querem ser respeitados e levados a sério. Todos têm seus objetivos e querem vencer. Quase todos estão dispostos a fazer algumas concessões para alcançar acordos. As realidades transcendem às culturas. No entanto, o negociador inteligente também aceita as diferenças como parte do processo. Ele “sabe” que um “alemão típico” tenderá a considerar a oferta demuitas opções como um sinal de fraqueza da outra parte. Ele “sabe” que um japonês “típico” coloca muita ênfase no status da pessoa com quem está negociando. Ele “sabe” que a amistosidade, a hospitalidade e a informalidade de um americano “típico” não têm nada a ver com sua maneira de conduzir uma negociação. O negociador em contexto transcultural deve prestar atenção nas semelhanças, assim como nas diferenças. Decorre daí a pergunta crucial: como fazê-lo? Deve-se fazer um exaustivo estudo socioantropológico da cultura de seu oponente? Será que todohomemdenegócios temque fazer umcurso universitário sobre os costumes de todas as nações do mundo? Não parece ser muito prático e, felizmente, não é de fato necessário que se o faça. O que é prático e necessário é uma compreensão do fenômeno e do processo da negociação. Destemodo terá um referencial, uma sistemática de trabalho que propicie uma visão das diferenças culturais à medida que se evidenciam durante o processo da negociação. Este referencial emerge da própria definição de negociação. Se a natureza e os passos no processo da negociação são conhecidos, há um arcabouço conceitual que denuncia as semelhanças e diferenças culturais presentes no comportamento dos negociadores, na medida em que ocorram em uma situação concreta. 164 UNIDADE 3 — NEGOCIAÇÕES EM CONTEXTOS MULTICULTURAIS Estabelecemos uma definição: negociação é um processo através do qual duas ou mais facções que tenham interesses em comum e conitantes expõem e discutem propostas explícitas acerca dos termos especícos para um possível acordo. Resultam dessa definição quatro tópicos em que semelhanças e diferenças devem ser consideradas: 1. Interesses comuns. 2. Interesses conflitantes. 3. Discussão. 4. Acordo. Os dois primeiros situam-se mais no nível das ideias. Os dois últimos estão mais no nível da ação. Os negociadores de ambos os lados devem estar conscientes de seus próprios vieses culturais na medida em que possam surgir nesses quatro aspectos do processo. No mundo atual, simplesmente não é possível que seja apenas responsabilidade de alguém (seja quem for este alguém)manter-se sensível aos padrões culturais, de modo que apenas esse alguém possa “compreender” e se adaptar às maneiras “estranhas” dos outros. Deve haver uma reciprocidade entre as pessoas no pavor ou no encanto pela cultura do seu adversário. A questão é mais abrangente. O negociador atual tem consciência dos vieses culturais de sua origem, assim como dos de seu oponente. Se, de fato, sabe negociar, pode administrar esses vieses na medida em que ocorram nos aspectos básicos da negociação. Consideremos os dois tópicos no nível das ideias: interesses comuns e interesses conflitantes.Afinal, esta é a razão pela qual os negociadores estão àmesa. Ambos