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TERAPIA NUTRICIONAL NO PACIENTE CRÍTICO Prof.: Thalita Véras Introdução • O suporte nutricional do paciente grave é um dos maiores desafios clínicos dentro da UTI. • Estudos recentes destacam que a terapia nutricional é fundamental na recuperação de pacientes críticos. (CASTRO et al., 2009) • Há algumas décadas a comunidade científica específica ressalta à associação entre desnutrição e pior evolução clínica do paciente grave. • Portanto, sabe-se que se não bem conduzidos, estes podem evoluir para desnutrição e complicações metabólicas, sendo a relação de perda de massa magra e peso corporal diretamente proporcional à morbi- mortalidade, destes pacientes. Introdução (FERREIRA, 2007) Paciente Crítico • Em geral, esta população envolve pacientes criticamente enfermos, instalados normalmente, em uma UTI e em estado hipermetabólico em resposta à um trauma e/ou estresse. (CÔRTES et al., 2003) Trauma / Estresse Um evento agudo que altera a homeostase do organismo, desencadeando uma complexa resposta neuroendócrina e imunobiológica, com o objetivo de preservar: • Débito cardíaco (volume e frequência); • Volemia; • Oxigenação tecidual; • Oferta e utilização de substratos energéticos. (CASTRO et al., 2009) • Pode ser consequência de várias situações clínicas de diferentes natureza e etiologia como politrauma, intervenções cirúrgicas, sepse, queimadura, pancreatite aguda. Essas situações têm as seguintes características em comum: Trauma / Estresse (CASTRO et al., 2009) Características do Paciente Crítico • Hipermetabolismo e hipercatabolismo. • Perda de massa magra (resistente a TN). • Resistência à insulina e hiperglicemia. • Glucagon: estimula a gliconeogênese. • Glicocorticóides: provoca resistência a insulina. • Catecolaminas: reduz a secreção de insulina • Mobilização de reservas lipídicas do tecido adiposo. • Hiperinsulinemia➪ inibição das lipases. (FERREIRA, 2007) Avaliação Nutricional no Paciente Crítico Avaliação do estado nutricional • Idealmente, seria indicada a medida real do gasto calórico por meio da calorimetria indireta (determinação do Vo2consumido e Vco 2 produzido). • As ferramentas tradicionais de avaliação nutricional • Antropometria • Bioquímica e medida dos compartimentos corporais • A ASG tem sido utilizada como ferramenta para avaliação e quantificação do estado nutricional, também no paciente grave. (FERREIRA, 2007) Alerta! Não há ferramenta ideal para avaliação e monitorização do estado nutricional do paciente grave, deve-se utilizar a associação entre as distintas técnicas disponíveis para melhorar a sensibilidade dos métodos. (ASPEN, 2009) NECESSIDADES NUTRICIONAIS • O gasto energético varia de acordo com: • O tipo de agressão (infecção, queimadura, cirurgia) • Estágio da doença; • Estado nutricional prévio do paciente; (Oliveira; Amaral; Batista, 2005) Calorias Os métodos mais comuns para determinação das necessidades energéticas são através de fórmulas: Equações Preditivas “De Bolso” (CUPPARI, 2009) • Cuidado com os extremos. Calorias Depleção Hiperalimentação Ambas as situações são danosas! Hiperalimentar o paciente é tão deletério quanto o jejum! (WAITZBERG, 2004) Equações Preditivas • A fórmula mais amplamente utilizada é a equação de Harris-Benedict, juntamente ao fator injúria. • FI = 1,3 a 1,5 • Para a estimativa por equação, é preferível o uso do peso “atual” em pacientes eutróficos e desnutridos, e, em obesos, deve-se utilizar o peso ajustado para obesidade. (OLIVEIRA; AMARAL; BATISTA, 2005) Evidências Científicas • No estudo de Colleto et al, 2003, observaram que há uma pequena diferença clínica quando se calcula o gasto energético pela equação com a calorimetria indireta, mas que quando se aplica os fatores de correção de injúria, superestima-se o gasto energético real em mais de 50%. Fórmula “de bolso” • Fase aguda inicial: uma oferta de 20 a 25 kcal/kg/dia. • Fase de recuperação: 25 a 30 kcal/kg/dia. • Em pacientes obesos: recomenda-se ofertar de 20 a 30 kcal/kg/dia, com base no peso ajustado para obesidade. (ESPEN,2006) Avaliação Nutricional de Paciente Crítico Profª Esp: Thalita Véras • Existem diferentes parâmetros destinados à avaliação do estado nutricional. • Contudo, sua aplicação no paciente crítico é problemática devido à interferência originária da doença aguda ou das medidas terapêuticas sobre os resultados, afetando a interpretação. Problemática Avaliação Nutricional no Paciente Crítico • A avaliação nutricional do paciente grave tem como objetivos: • Estimar o risco de mortalidade e morbidade da desnutrição, identificando e individualizando as suas causas e consequências; • Com indicação e intervenção mais precisa daqueles pacientes com maior possibilidade de beneficiar-se do suporte nutricional. Objetivos • Pressupõe, o acompanhamento e monitorização da eficácia da terapêutica nutricional. E ainda... • Em geral, para a avaliação do estado nutricional do paciente crítico, recorre-se aos métodos habitualmente empregados em outros pacientes; • Embora limitações tanto na aplicação quanto na interpretação dos resultados dificultem esta prática tão importante. A avaliação nutricional • Devido às características observadas em pacientes críticos: • Alterações metabólicas; • Inflamações sistêmicas • Uso de corticoides • Hiperglicemia, • Desnutrição • Expansão do volume de água corporal • Imobilização • Procedimentos. • Para a estimativa da estatura em pacientes críticos, o método de menor dificuldade é a altura recumbente. • Outros métodos como a envergadura dos braços e a semi- envergadura também podem ser utilizados. Porém, podem ser inviáveis no paciente crítico com múltiplos acessos venosos constituindo obstáculos à obtenção da medida. Estatura Calcular a altura com base na seguinte fórmula: • Mulheres Altura em cm = (1.35 x semi-envergadura em cm) + 60.1 • Homens Altura em cm =(1.40 x semi-envergadura em cm) + 57.8 Medida da semi-envergadura MEDIDA DA SEMI-ENVERGADURA • Já a utilização da altura do joelho, embora de fácil obtenção, encontra limitações uma vez que há relatos de que esta seja subestimada em relação à estatura real dos pacientes. Homem: (2,02 x altura do joelho) – (0,04 x idade (anos)) + 64,19 Mulher: (1,83 x altura do joelho) – (0,24 x idade (anos)) + 84,88 AJ = Altura do Joelho (cm) (Chumlea e cols., 1985) Altura do joelho Altura relatada??? Não se recomenda a utilização da estatura relatada por familiares ou responsável, especialmente em pacientes idosos, uma vez que possivelmente se estará superestimando a estatura real dos pacientes, que perdem, por década, 1 a 2,5 cm. (MOURILHE et al, 2007) Peso: maca balança Adequação do peso • A porcentagem de adequação do peso atual em relação ao peso ideal ou desejável é calculada a partir da fórmula: Adequação do peso Peso Ajustado P ajustado= (peso ideal – peso atual) x 0,25 + peso ideal. Mudança de peso Estimativa de peso pela compleição corporal: • É utilizada em adultos a partir de 18 anos de idade. Utiliza a relação (R) entre a estatura (E) e o perímetro/circunferência de pulso (PP). • A partir do cálculo da compleição pode se avaliar a estrutura física do indivíduo e então se classifica o seu estado nutricional. Estimativa de peso pela compleição corporal: Estimativa de peso corporal pela Fórmula de Chumlea onde, CP = circunferência da panturrilha AJ = Altura do Joelho CB = circunferência do braço PSCE = prega cutânea subescapular Fonte: Chumlea, 1985 Homens= [(0,98 x CP) + (1,16 x AJ) + (1,73 x CB) + (0,37 x PSCE) – 81,69] Mulher = [(1,27 x CP) + (0,87 x AJ) + (0,98 x CB) + (0,4 x PSCE) – 62,35] Estimativa de peso na Amputação: (100% - % do segmento amputado) x Peso ideal 100 Estimativa de peso corporal em pacientes com edema Edema Localização Excesso de peso hídrico + Tornozelo 1 kg ++ Joelho 3 a 4 kg +++ Base da coxa 5 a 6 kg ++++ Anasarca 10 a 12 kg Fonte: Martins, C., 2000 Estimativa de peso corporal em pacientes com ascite Grau da ascite Peso ascítico Edema periférico Leve 2,2 kg 1 kg Moderada 6,0 kg 5 kg Grave 14,0 kg 10 kg Fonte: James, 1989 • Este apresenta desvantagem quando utilizado para avaliação corporal do estado nutricional em pacientes críticos: • superestimado ou subestimado A relação entre peso corporal e mortalidade em pacientes críticos não é clara. Poucos estudos do IMC em pacientes críticos estão disponíveis. Índice de massa corporal (IMC) • A espessura das dobras cutâneas e da circunferência do braço, utilizadas, respectivamente, para estimar a gordura corporal e a proteína muscular, deve ser usada no paciente grave como forma de monitoração da evolução, sem considerar os valores de referência. Circunferências e Dobras • A circunferência muscular do braço e a dobra triciptal, são de escassa utilidade no paciente crítico. • ???????? Circunferências e Dobras CP (Circunferência da Panturrilha) Tem sido sugerido que a circunferência da panturrilha seja considerado uma medida mais sensível da massa muscular em idosos. Pontos de Corte adotados: > 31 cm : eutrofia < 31 cm : marcador de desnutrição • Outros métodos, tecnicamente mais precisos, como a bioimpedância elétrica precisam ser mais testados antes de se poder recomendá-los a estes pacientes. • ???????? Bioimpedância elétrica • Os marcadores bioquímicos (índice creatinina/altura, albumina sérica e outros) encontram-se também alterados como consequência das mudanças metabólicas que afetam os processos de síntese e degradação Avaliação Laboratorial • A albumina sérica é o indicador bioquímico de desnutrição mais utilizado, sendo considerado também um bom preditor de mortalidade e morbidade. • Paciente crítico? A albumina • É mais comumente um indicador da resposta inflamatória. • No entanto, seu uso tem algumas limitações, principalmente entre os pacientes que utilizam nutrição parenteral. • Além disso, ela possui meia-vida longa e grande concentração A albumina • Tem sido considerada por muitos autores, como o melhor indicador de desnutrição protéica devido à sua meia-vida curta de ação, e pequeno tamanho, ela é capaz de refletir modificações no estado de nutricional de pacientes graves, num curto espaço de tempo, o que não ocorre com a albumina. Pré-albumina • O déficit crônico de ferro, as múltiplas transfusões e alterações na absorção intestinal invalidam a transferrina como parâmetro no paciente crítico. Transferrina • São empregados para a identificação dos pacientes com comprometimento nutricional que poderão beneficiar-se da terapia nutricional. • excreção da uréia. • balanço nitrogenado. • Índice creatinina-altura Índices de prognóstico • Neste contexto, faz-se necessário o desenvolvimento de mais estudos para verificação dos métodos mais práticos e adequados para avaliação nutricional do paciente crítico. Conclusão • Carboidratos • 30 a 70% das calorias totais devem ser fornecidas na forma de carboidratos, na dose de 2 a 5 g/kg/dia. • A oferta de glicose deve ser ajustada para evitar níveis de glicemia > 140 mg/dL. • Lipídios • 15 a 30% das calorias devem ser oferecidas na forma de lipídeos. A quantidade mínima a oferecer é de 1g/kg/dia, sem exceder a 1,5 g/kg/dia. • A proporção dos vários tipos de ácidos graxos também é importante, pois pode influenciar na síntese de eicosanoides. NECESSIDADES NUTRICIONAIS (OLIVEIRA; AMARAL; BATISTA, 2005) • Proteínas • 15 a 20% do total de calorias devem ser fornecidos como proteína ou aminoácido. Deve-se iniciar com aporte de 1 a 1,5 g/kg/dia. • Em pacientes obesos, recomenda-se aporte proteico de 1,5 a 2 g/kg/dia de peso ideal. • A dose proteica deve ser reduzida nos casos da perda de nitrogênio urinário exceder a 100 mg/dL ou o nível de amônia sanguínea se associar a encefalopatia clínica. NECESSIDADES NUTRICIONAIS (OLIVEIRA; AMARAL; BATISTA, 2005) • Água, Eletrólitos e Vitaminas • Não estão bem estabelecidas as necessidades de vitaminas, minerais e elementos-traço nos pacientes críticos. • A determinação das necessidades de água e eletrólitos deve ser baseada na determinação do balanço diário destes elementos, incluindo parâmetros cardiovascular, renal, hepático e testes bioquímicos. • É necessário 1 mL de água por caloria administrada. NECESSIDADES NUTRICIONAIS (HEYLAND; DHALIWAL, 2005) TERAPIA NUTRICIONAL NO PC Como conduta geral, deve-se instituir terapia nutricional, se: • Pacientes de alto risco - com infecção grave, queimado, com traumatismo grave. • Sem nutrição há sete dias com índice de massa corporal (IMC) >18 kg/m2; • Sem nutrição há mais de três dias, se IMC ≤ 18 kg/m2; • Estimativa da duração da doença, que impossibilita a ingestão, via oral, de alimentos, acima de 10 dias; • Pacientes com perda ponderal, aguda, maior que 10%; (CASTRO et al., 2009) TERAPIA NUTRICIONAL • Denomina-se terapia nutricional a oferta de nutrientes pelas vias oral, enteral e/ou parenteral, visando à oferta terapêutica de proteínas, energia, minerais, vitaminas e água, adequadas às condições do paciente enfermo. (WAITZBERG, 2004) Escolha da Terapia Nutricional Em todas essas situações, iniciar terapia nutricional após estabilização hemodinâmica do paciente !!! Em vigência de instabilidade hemodinâmica, que tipo de suporte nutricional pode ser oferecido? • O suporte nutricional enteral não deve ser iniciado em vigência de hipofluxo sistêmico e(ou) do uso de drogas vasopressoras em doses elevadas (i.e. noradrenalina >50- 100 µg/min com sinais de baixa perfusão tecidual). • A hidratação criteriosa, para correção do hipofluxo (volemia), sem a intenção de nutrir o paciente é a conduta mais adequada Terapia Nutricional Enteral (TNE) A via preferencial de oferta nutricional para o paciente grave é a via enteral: • Trato gastrointestinal (TGI) funcionante. • O uso de NE deve ser precoce, com início em 24-48 horas após a admissão em UTI. (grau A) • Caso o paciente não tenha risco de aspiração a sonda pode ser posicionada em região gástrica, porém se há risco posiciona-se em região jejunal. (ESPEN, 2009) Lembrete: • Não é necessária a presença de ruídos hidroaéreos ou liberação de gases para início da administração enteral de nutrientes ao paciente grave. Terapia nutricional parenteral (TNP) • A nutrição parenteral (NP) é uma opção segura aos pacientes impossibilitados de utilizar o trato gastrintestinal, durante 7 a 10 dias; • Apresentam perda de peso superior a 10% do usual; • Quando estão impossibilitados de tolerar a NE. (ESPEN, 2009) NE ASSOCIADA À NP • Quando a necessidade nutricional não é atingida com o uso de nutrição enteral (NE), a suplementação com nutrição parenteral (NP) é uma possibilidade. • Quando a NE e NP são iniciadas simultaneamente e a NP é interrompida quando o paciente tolera totalmente a NE. • Quando a NP é introduzida apenas após alguns dias de NE, quando confirmada a intolerância a NE. (ESPEN, 2009) REFERÊNCIAS • 1.Básica: • Oliveira RMC, Amaral ACK-B, Batista MC - Terapia Nutricional: Avaliação do Gasto Energético, em: Oliveira RMC, Cal, RGR - Terapia Intensiva. Nutrição. São Paulo: Atheneu,2005; 19-26. • FERREIRA IKC. Terapia Nutricional em Unidade de Terapia Intensiva. Revista Brasileira de Terapia Intensiva. vol. 19. n. 1, 2007. • 2. Complementar: • CUPPARI, L. Nutrição nas doenças crônicas não-transmissíveis. São Paulo. Manole, 2009. • WAITZBERG, D. L. Nutrição oral, enteral e parenteral na prática clínica. São Paulo: Atheneu, 2004.