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Didáctica do Atletismo Púbere e Pós-Púbere 165 7.4. Salto com Vara 7.4.1. Introdução O salto com vara, tal como o vemos na televisão, é uma disciplina tecnicamente muito complexa, se não mesmo a mais complexa do Atletismo moderno. Quando entendida na lógica do rendimento desportivo, a sua aprendizagem é demorada e exigente, apelando a condições estruturais e materiais, de segurança e de disponibilidade de tempo, bastante afastadas das existentes na realidade das nossas escolas. A corroborar esta perspectiva, Maurice Houvion, referência mundial do salto com vara, antigo atleta e treinador responsável por esta disciplina na Federação Francesa de Atletismo, define o varista como: — “um velocista–saltador que se transforma em ginasta logo que abandona o solo” (tradução nossa). Esta actual visão de elevada complexidade sobre o salto com vara, nem sempre foi assim. Ao longo da história do Atletismo, as evoluções verificadas, nas condições de realização deste salto (observe-se a título ilustrativo as fotografias da página seguinte), no seu regulamento técnico e, particularmente, no material com que as varas eram fabricadas, possibilitaram a utilização das actuais técnicas de salto. Assim, a história deste salto encontra-se muito ligada, à evolução das varas, dos regulamentos e às condições de realização (colchões de queda, zona de encaixe, etc.). Didáctica do Atletismo Púbere e Pós-Púbere 166 Em termos históricos, acredita-se que a génese deste salto, ainda longe da sua configuração como desporto, está ligada a um conjunto de destrezas e acrobacias que foram sendo praticadas ao longo dos tempos por malabaristas e exibidas em feiras e locais de diversão (cf. figura). No que concerne às varas, as inicialmente utilizadas eram de madeira. Dependendo da região do globo e do tipo de árvores disponíveis, as varas habitualmente mais usadas eram de pinheiro, abeto, freixo e castanheiro. Quando a vertente competitiva deste salto começa a proliferar e a ganhar adeptos, os praticantes desta modalidade, que até então usavam varas de madeira, muito pesadas e rígidas, começaram a procurar outros materiais, para daí retirarem alguma vantagem e conseguir saltar mais alto com a ajuda da vara. Assim, em 1878 começa a ser usada a vara de bambu. Apesar de serem varas pouco estáveis e quebrarem com alguma frequência, dadas as suas características de leveza e Didáctica do Atletismo Púbere e Pós-Púbere 167 flexibilidade, o bambu ganhou desde logo muitos adeptos, tornando-se, a partir de 1909 e até 1947, a vara predilecta da quase totalidade dos varistas internacionais. Dada a pouca consistência desta vara, ao longo do tempo vão sendo feitas tentativas de introdução de varas mais resistentes, leves e igualmente flexíveis. Surgem assim as varas de alumínio (fabricadas em França a partir de 1943), de aço sueco, de ebonite, etc. Em 1948 começam a ser fabricadas as varas de vidro estratificado que, anos mais tarde, vão dar origem às actuais varas. Ao mesmo tempo que a construção das varas foi evoluindo, as zonas de queda, tal como vimos no caso do salto em altura, foram melhorando, tornando a queda cada vez mais segura. Apesar das propostas, a seguir avançadas, não pressuporem a utilização grandes recursos materiais e instalações, quando muito a caixa de areia, é perfeitamente possível improvisar um local de queda (cf. figura sobre improvisação de colchões). Com pneus velhos correctamente colocados sobre um estrado, com os espaços preenchidos por aparas de esponja, um tapete de 10 cm a cobrir toda a superfície superior e, por último, um oleado bem seguro a envolver todo este material, poderá ser uma interessante estratégia para que, com a ajuda dos alunos, conseguirmos uma zona de queda segura e a custo muito reduzido. Além das condições de segurança impostas pela queda, a evolução das técnicas utilizadas pelos atletas, em boa medida, reflectiam também as Didáctica do Atletismo Púbere e Pós-Púbere 168 características das varas utilizadas (flexibilidade, peso, consistência, durabilidade, etc.). Em termos olímpicos, esta disciplina, na versão masculina, fez parte dos primeiros Jogos da era moderna, mantendo-se no calendário do Atletismo Olímpico até aos dias de hoje. Quanto ao Atletismo feminino, apenas no ano 2000, com mais de 100 anos de atraso, é que a vara passou a figurar no Atletismo Olímpico feminino. 7.4.2. Justificação para a Abordagem deste Salto na Escola Antes de começarmos propriamente a falar sobre, por muitos considerada, a disciplina mais radical do Atletismo, e para justificar o porquê da abordagem e inclusão do salto com vara na escola, lançamos as seguintes questões de partida: — Porquê propor a abordagem desta disciplina na escola, se não faz parte dos programas de Educação Física dos diferentes anos do ensino básico e secundário? — Porquê propor a abordagem desta disciplina, se a generalidade das escolas não possuem infra-estruturas (colchões, postes, zona de encaixe) nem material (varas) que dêem resposta satisfatória e segura ao seu ensino de acordo com o modelo técnico actual? — Porquê propor a abordagem desta disciplina na escola, se o salto com vara, tal como o vemos na televisão, é um salto tecnicamente muito complexo, cuja aprendizagem se revela demorada e difícil, exigindo redobrados cuidados com a segurança? — Porquê abordar este salto, se os alunos à partida não aderem, nem estão num estádio de desenvolvimento que permita o seu ensino? Contrariando as ideias plasmada nas questões aqui levantadas, lembramos que: a) quanto aos programas imanados do ME, cada escola tem autonomia de introduzir alterações nos programas de EF, desde que convenientemente justificadas; Didáctica do Atletismo Púbere e Pós-Púbere 169 b) no que concerne à nossa proposta para se abordar este salto na escola, ela não faz apelo a materiais sofisticados (varas e colchões), nem a situações cujo grau de complexidade coloque em causa a segurança dos alunos. Em boa medida, parte do pressuposto que, todos nós, de alguma forma, realizámos nas nossas brincadeiras durante a infância algum salto apoiados numa vassoura ou numa vara de madeira. Este tipo de deslocamento com a ajuda da vassoura, sem ser propriamente um salto com vara, já constituía um primeiro esboço, elementar é certo, deste tipo de salto; c) relativamente à aderência, ou não, por parte dos alunos ao salto com vara, isso apenas depende de nós. A nossa experiência aponta em sentido contrário, ou seja, os alunos revelam grande entusiasmo e empenhamento na aprendizagem desta disciplina; d) esta nossa proposta de abordagem exige, do aluno, o domínio de um elevado número de destrezas e coordenações, sem paralelo nas demais disciplinas do Atletismo, daí não prescindirmos da sua abordagem na escola. Assim, ao contrário daquilo que se pode pensar, a abordagem do salto com vara na escola é fácil, necessitando, inclusive, de material pouco sofisticado. Sugestões para a improvisação das varas As varas mais indicadas para a escola são as varas de bambu (canas da Índia). A melhor forma de as conseguir é em hortos. Normalmente estas casas importam o bambu da Índia. Se bem negociadas consegue-se preços na ordem dos 2 a 3 ! por cana, nada que o orçamento da EF não possa cobrir. Uma outra ideia poderá passar pelo apelo à colaboração dos alunos na improvisação desse material. A busca em canaviais, caso existam na região onde a escola se enquadra, será sempre um recursobem aceite. Como temos vindo a afirmar, a solicitação dos alunos para este tipo de cooperação voluntária acarreta benefícios importantes para as aulas de EF (Rolim, 2001). Didáctica do Atletismo Púbere e Pós-Púbere 170 7.4.3. Metodologias para Ensinar o Salto com Vara Entre os habituais métodos para se ensinar o Atletismo na escola, a saber: 1. Método Analítico Abordagem do salto segue a normal sequência das suas fases (pega - corrida – apresentação - encaixe/impulsão - …) 2. Método Analítico-Reversivo Segue uma abordagem do tipo exploratório, de descoberta, durante a qual vão sendo colocados desafios adequados aos alunos, para os quais estes vão encontrando a resposta mais apropriada. Parte-se de acções e gestos simples e atractivos, até se chegar, eventualmente, aos elementos mais complexos e mais próximos do salto com vara, decorrendo isso da resposta dos alunos e das condições logísticas reunidas. 7.4.3.1. Exercícios Introdutórios e de Familiarização com a Vara A vara é um engenho novo para a quase totalidade dos alunos. Daí que se imponha uma progressão dos exercícios, de tal modo que a vara comece a fazer gradualmente parte de um conjunto vara – aluno. Um bom ponte de partida, de sentido exploratório e de busca de respostas criativas dos alunos, são as habituais brincadeiras diárias. Provavelmente que, nessas brincadeiras e com ajuda de uma vassoura, alguma vez fizemos de coxo. Este exercício de aparência simples encerra as regras básicas fundamentais do salto com vara, levando o aluno, de forma intuitiva, a discriminar (tome-se como exemplo um aluno dextrímano): — a posição das mãos na pega correcta da vara, a mão dominante em cima (mão direita); — o pé que realiza a impulsão (pé esquerdo); — o lado de encaixe da vara, na direcção do pé de impulsão (sob o lado esquerdo); — o local de encaixe (inicialmente próximo do aluno); Didáctica do Atletismo Púbere e Pós-Púbere 171 — o lado de passagem do corpo relativamente à vara (o corpo passa pelo lado direito da vara); — o utilizar cada vez mais a vara para se deslocar, etc. Para constatar isso, basta organizar uma pequena competição individual ou por grupos, cujo objectivo é percorrer determinado espaço, fazendo de coxo com ajuda da vara. Acreditamos que a maioria dos alunos vão tomar as opções correctas relativamente aos aspectos técnicos atrás destacados. Se assim não for, por tentativas, o professor vai fazer com que todos os alunos consigam alcançar esse desígnio. Este exercício por nós denominado de “jogo do coxo”, constitui-se, então, como um óptimo ponto de partida para se iniciar o salto com vara. Obviamente que este exercício deve ser apresentado de forma exploratória; é o aluno que, por tentativas, irá encontrar a melhor forma se deslocar rapidamente e com amplitude, fazendo de coxo. A partir daqui está lançada a curiosidade dos alunos relativamente a este salto. Todavia, antes do jogo do coxo, há todo um conjunto de exercícios que devem previamente surgir, realizados individualmente, aos pares e em grupos maiores, visando, entre outros aspectos, explorar, destrezas, coordenações e acrobacias simples, bem como a relação dos alunos com a vara: 1 – Uma vara por aluno. Sem deixar cair a vara, o aluno vai atirá-la de uma mão para outra com mais ou menos amplitude (ver figuras). Didáctica do Atletismo Púbere e Pós-Púbere 172 2 – Grupos de dois alunos com uma vara, um em cada extremidade. Explorar diversas situações de puxar e empurrar 3 – Alunos colocados dois a dois, frente a frente com uma vara, conforme é ilustrado na fotografia. À ordem do professor, a vara é empurrada com a mão dominante na direcção do colega num movimento contínuo, com a força necessária para vencer a vertical. A vara descreve um movimento com características pendulares, sem deslocar o local de apoio no solo. O parceiro após recepcionar a vara com ambas as mãos, envia-a de volta ao ponto de partida, também ao sinal do professor. Este exercício de familiarização com a vara pode incorporar diferentes variantes e evoluções como, por exemplo: — empurrar a vara com a mão não dominante; — empurrar a vara com ambas as mãos; — maior afastamento entre os alunos Didáctica do Atletismo Púbere e Pós-Púbere 173 — 3 alunos colocados nos vértices de um triângulo equilátero. Após receber a vara do colega da direita, coloca a extremidade inferior da vara no arco da esquerda e empurra a vara para o colega da esquerda e assim sucessivamente. — O mesmo exercício anterior mas com 4 alunos colocados nos vértices de um quadrado. — nestes dois últimos exemplos, podemos introduzir mais varas (cf. fotografias) o que obriga a uma sincronização do lançamento/recepção da vara. Podemos introduzir como variantes, mudar o sentido do empurrar da vara, alterar a mão que empurra a vara, etc. 4 – Jogo do equilibrista manual (variantes) — uma das extremidades da vara repousa sobre a palma da mão procurando o aluno manter a vara equilibrada; — mantendo a vara em equilíbrio, realizar trocas sucessivas de uma mão para a outra; Didáctica do Atletismo Púbere e Pós-Púbere 174 — o mesmo objectivo anterior, realizando deslocamentos em diversas direcções sob comando do professor; — o mesmo objectivo anterior, realizando um jogo de estafeta transportando a vara em equilíbrio sobre a palma da mão; Observações: os exercícios anteriores devem ser realizados quer com a mão dominante quer com a mão não dominante 5 – Jogo do equilibrista pedal (variantes) — uma das extremidades da vara repousa sobre o pé procurando o aluno manter a vara equilibrada; — quem consegue manter a vara equilibrada sobre o pé dominante durante mais tempo? — O mesmo desafio, agora para o pé não dominante — Quem consegue deslocar-se ao pé coxinho com a vara equilibrada sobre o pé? — O mesmo exercício anterior, agora vendo quem consegue chegar mais longe com a vara em equilíbrio. Outros desafios de equilibrista podem ser colocados como, por exemplo, equilibrar a vara sobre a testa, etc. Estes exercícios só devem ser realizados num espaço que possibilite um adequado afastamento entre os alunos, para que não haja o perigo da ocorrência de acidentes nos desequilíbrios da vara. 6 – Exercício do Abraço da Vara em Equilíbrio Explicação: Cada aluno com uma vara pousada no chão como mostra a figura. Com as duas mãos vão experimentando o ponto de equilíbrio de equilíbrio da vara, por forma a manter-se na vertical o maior tempo possível. À ordem do professor os alunos largam a vara na vertical, colocando os membros superiores à sua volta, formando a maior circunferência possível. Ganha o aluno cuja vara demorar mais tempo a inclinar-se para os membros superiores. Didáctica do Atletismo Púbere e Pós-Púbere 175 7 – O mesmo exercício anterior, mas agora, à ordem do professor, os alunos vão dar uma volta completa em torno da vara (cf. fotografias) sem esta cair ao chão. Se os alunos revelarem dificuldade, sugere-se inicialmente utilizar meia volta. 8 – Jogo das fileiras Uma vara por aluno, distribuídos frente a frente em duas filas (cf. figura). Ao sinal do professor, os alunos, deixando a sua vara em equilíbrio bem na vertical, trocam rapidamente de fileira com o colega posicionado imediatamente à sua frente. À medidaque os alunos vão ganhando confiança, as fileiras vão-se afastando.