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O PSICÓLOGO ESCOLAR E OS PROCESSOS DE IMPLANTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS Atuação e formação INTRODUÇÃO A relação entre a Psicologia e as políticas públicas tem sido objeto de crescente reflexão por parte de muitos psicólogos, sendo tratada, essencialmente, em duas direções. Primeiramente, há o esforço em compreender e promover o papel da nossa ciência na elaboração de políticas sociais, dada a importância de, no seu delineamento, ter em conta aspectos essenciais do funcionamento humano, visando seu desenvolvimento e bem-estar. Assim, como representante do debate sobre o compromisso social da Psicologia, Gonçalves (2003, p. 279) afirma: Nesse sentido e já particularizando a discussão, quero destacar o papel da Psicologia em relação à formulação de políticas públicas. A atuação em defesa da elaboração e implementação de políticas públicas de saúde, de educação, lazer, participação e organização popular, convivência social, circulação humana, proteção ambiental, segurança pública, nas quais a contribuição da Psicologia é fundamental, pode representar uma possibilidade de atuação transformadora e deve expressar essa posição, de defesa de uma Psicologia voltada para as necessidades de nossa sociedade, acessível a todos, contribuindo para a emancipação das pessoas e engajada na transformação social que leve à superação da desigualdade. Casa Realce Casa Realce Em segundo lugar, o interesse na relação entre a Psicologia e as políticas públicas se expressa claramente na tentativa de analisar qual tem sido a inserção dos psicólogos no desenvolvimento de políticas públicas específicas; seja para fazer uma análise crítica, como no caso da participação do psicólogo em políticas públicas no campo da saúde (Yamamoto, 2003); seja para mostrar suas possibilidades de ação como, por exemplo, no caso de políticas direcionadas à infância e à adolescência (Contini, 2003; Campos, 2005). Apesar do reconhecimento de que a adesão dos envolvidos é essencial para a eficácia das políticas públicas (Gonçalves, 2003), não temos encontrado, no campo da Educação, referências a trabalhos sobre o papel do psicólogo nas mudanças institucionais geradas por tais políticas, nem sobre suas possibilidades de ação em relação a promover o envolvimento dos implicados nas políticas propostas. Tem sido precisamente esse aspecto, ainda pouco estudado, nosso objeto de reflexão nos últimos anos, especialmente por nosso interesse nas particularidades das instituições educativas como organizações, nas quais, por sua própria natureza, os processos de mudança originados por causas externas costumam ser mais complexos que em outros tipos de organizações. Nos so in te res se pe los te mas de cri a ti vi da de e de ino va ção, as sim como nos so tra ba lho na edu ca ção bá si ca tem nos le va do a acom pa nhar os es for ços de di fe ren tes ins tân ci as go ver na men ta is para im ple men tar po lí ti cas pú bli cas que se tra du zam numa me lho - ria do sis te ma edu ca ci o nal e que pos sam con tri bu ir para me lho rar os in di ca do res que po si ci o nam o país no ran king mun di al de qua li - da de na edu ca ção. A im ple men ta ção de no vas po lí ti cas edu ca ci o - na is cons ti tui um pro ces so com ple xo, que ne ces sa ri a men te en vol ve as re pre sen ta ções, as cren ças e os sen ti dos da que les a quem cabe exe cu tá-las. A des va lo ri za ção do peso que este as pec to tem no su - ces so da im plan ta ção de uma po lí ti ca tem sido um dos ele men tos que ex pli cam a re la ti va dis tân cia, na prá ti ca, en tre os ob je ti vos e me tas pla ne ja das a ní vel go ver na men tal e sua con cre ti za ção real no con tex to es co lar. Existe já uma razoável produção científica em relação aos processos de inovação em geral e especificamente de inovação educacional (De la Torre, 1997, 1998; Fernández, 1998; Hernández, 2000; Thurler, 2001; Grande & Pemoff, 2002; Carbonell, 2002; 110 ALBERTINA MITJÁNS MARTÍNEZ Casa Realce Casa Realce O PSICÓLOGO ESCOLAR E OS PROCESSOS DE IMPLANTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS: ATUAÇÃO E FORMAÇÃO 111 Abromovay, 2003; Farias, 2006; entre outros), na qual se podem identificar configurações de elementos que favorecem os processos de mudança e inovação, assim como barreiras que com freqüência os dificultam. A partir da produção científica nesse campo e de nossa experiência no acompanhamento da implantação das políticas relacionadas com a inclusão escolar, propomo-nos, neste trabalho, a analisar o papel do psicólogo escolar no processo de implantação de políticas educacionais que implicam algum tipo de inovação na instituição escolar, assim como os desafios que essa tarefa apresenta para sua formação profissional. MUDANÇA, CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO NA ESCOLA: OS DESAFIOS DA IMPLANTAÇÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS A reflexão sobre a atuação do psicólogo perante o processo de implantação de políticas públicas na instituição escolar nos coloca de imediato na interface de no mínimo três campos da Psicologia que têm se desenvolvido de forma paralela e com muito pouca articulação no percurso histórico da construção da Psicologia como ciência: a Psicologia da Criatividade, a Psicologia Organizacional e a Psicologia Escolar. Em cada um deles, podem ser encontrados conjuntos de conhecimentos imprescindíveis para elaborar uma representação – em seu papel de modelo de orientação da ação – de qual o lugar do psicólogo escolar perante o processo de implantação das políticas educacionais. Também a produção científica oriunda de outros campos como Administração e Inovação Educacional deve ser considerada, já que se trata de compreender os processos de mudança, criatividade e inovação promovidos pela necessidade de implantar políticas na escola, geradas, via de regra, em outros níveis do sistema de ensino. Assumimos, como muitos autores, distinções conceituais entre mudança, criatividade e inovação. Para os fins deste trabalho, consideramos como mudança organizacional qualquer alteração, planejada ou não, ocorrida na organização, decorrente de fatores internos e/ou externos à mesma , e que tenha algum impacto nos resultados e/ou nas relações entre as pessoas no trabalho (Bruno-Faria, 2003, p. 128). Casa Realce Casa Realce Casa Realce Nesse sentido, as políticas públicas, no seu caráter de influência externa, sempre produzem alterações nas escolas, seja na sua estrutura, nas suas formas de funcionamento ou na configuração da sua subjetividade social. O desafio consiste em favorecer mudanças que efetivamente contribuam para a obtenção dos resultados desejados e que não se constituam apenas em mudanças “cosméticas”, que inclusive podem representar uma negação dos fundamentos da política. A partir de um conjunto de trabalhos, Thurler (2001, p. 11) apresenta algumas características da cultura e do funcionamento institucional que favorecem mudanças das práticas no seu interior: • Organização flexível e negociável, recomposta em função das necessidades, das iniciativas, dos problemas; • Colegiatura e cooperação, trocas sobre os problemas profissionais, empreendimentos comuns; • Os professores imaginam sua profissão como estando voltada para a resolução de problemas e para a prática pensada; • O projeto é o resultado de um processo de negociação ao fim do qual a maioria da equipe adere aos objetivos, aos conteúdos, à estratégia de aplicação; • Existe liderança cooperativa e prática de uma autoridade negociada. O papel e a função do diretor de escola inscrevem-se nesse modo de exercício do poder; • Eles se reconhecem em um modelo profissional, abordam os problemas e o desenvolvimento da qualidade. Existe a obrigação de competências, prestam-se contas a seus pares. Na prática, é difícil encontrar escolas que reúnam todas as características apontadas, inclusive a autora reconhece que muitos estabelecimentosescolares apresentam características até contrárias a estas, porém seu trabalho mostra como a dimensão organizacional da instituição educativa constitui um importante elemento a ser considerado nos processos de mudança e inovação. Evidentemente, esse elemento ganha particular importância para a implantação de políticas públicas na instituição escolar. 112 ALBERTINA MITJÁNS MARTÍNEZ Casa Realce Casa Realce Consideramos a criatividade como um processo complexo da subjetividade humana, na sua simultânea condição de subjetividade individual e social, que se expressa na produção de “algo” que é considerado ao mesmo tempo “novo” e “ valioso” em um determinado campo da ação humana (Mitjáns Martínez, 2000a, 2004). Assim entendida, a criatividade na instituição escolar se expressa em três direções principais: a criatividade no trabalho pedagógico do professor, a criatividade no processo de aprendizagem do aluno e a criatividade da instituição educativa enquanto organização (Mitjáns Martínez, 2003a). A relevância desta terceira forma de expressão da criatividade no contexto escolar para a implantação de políticas públicas coloca em relevo os trabalhos direcionados à compreensão do caráter criativo da organização (por exemplo: Majaro, 1994; Amabile, 1996; Bruno-Faria, 1996; Stacey, 1996; Mitjáns Martínez, 1999, 2000b), já que este pode favorecer a disposição para assumir e implantar políticas que, como elementos externos, são geradoras de mudanças significativas no interior da instituição. Caracterizar as três direções anteriormente mencionadas como as principais nas quais pode se manifestar a criatividade na instituição escolar não significa desconhecer a importância da criatividade de outros indivíduos ou grupos integrantes da organização, como, por exemplo, a criatividade do psicólogo no seu trabalho profissional ou a criatividade da equipe de direção pedagógica. Aliás, quando se trata da implantação de políticas públicas na instituição escolar, a criatividade de ambos se reveste de importância significativa. Afinal, pelo caráter de influência externa dessas políticas, são imprescindíveis os esforços criativos desses profissionais para promover mudanças efetivas na direção desejada. Assumimos como inovação a seqüência de atividades pelas quais um novo elemento é introduzido em uma unidade social, com a intenção de beneficiar a unidade, alguma parte dela ou a sociedade mais ampla. O elemento não necessita ser inteiramente novo ou não familiar para os membros da unidade, mas ele envolve alguma mudança perceptível ou desafio ao status quo (West & Farr apud Bruno-Faria , 2003, p. 121). O PSICÓLOGO ESCOLAR E OS PROCESSOS DE IMPLANTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS: ATUAÇÃO E FORMAÇÃO 113 Casa Realce Casa Realce Assim, a inovação implica um tipo específico de mudança estreitamente ligada ao elemento de novidade (ao menos no contexto em que se introduz), que constitui um dos dois elementos definidores da criatividade. Podemos afirmar que o processo de implantação das políticas públicas sempre gera mudanças institucionais mesmo que estas nem sempre possam ser consideradas inovações; o caráter inovador ou não das mudanças produzidas dependerá da natureza da própria política, das características de seu processo de implantação e das especificidades concretas da instituição. No entanto, a criatividade sempre se faz necessária ao longo do processo da implantação de uma política pública, já que se demanda criatividade para delinear estratégias que contribuam para minimizar as resistências à mudança e para adequar o processo de implantação ao contexto da escola concreta, contribuindo para que os elementos essenciais da política sejam assumidos como próprios pelos atores principais desse contexto. Os desafios do psicólogo escolar que se depara com a necessidade de contribuir com a implementação de uma política pública no contexto escolar estão relacionados com o processo de compreensão, aceitação e motivação dos membros do coletivo escolar para ativa e criativamente efetivá-la. Disso depende, em grande medida, o sucesso real do processo de implantação da política e dos resultados que dele podem ser esperados. Acompanhar o processo de implantação, procurando indicadores de sua evolução e avaliando os resultados que vão sendo obtidos também constitui um desafio importante a ser assumido, porque permite elaborar sugestões para as correções das estratégias em execução e para a criação de novas ações que contribuam para atingir os resultados desejados. Esses desafios abrem novas possibilidades de ação do psicólogo no contexto escolar. A IMPLANTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS: POSSIBILIDADES DE AÇÃO O psicólogo escolar, como membro da equipe pedagógica, pode ser, pela especificidade da sua formação, um importante fator para favorecer os processos de mudanças na instituição escolar, especialmente aqueles que acompanham necessariamente a 114 ALBERTINA MITJÁNS MARTÍNEZ Casa Realce Casa Realce Casa Realce Casa Realce Casa Realce implantação de políticas públicas. Em um trabalho anterior, quando nos referíamos aos desafios da inclusão escolar para o trabalho do psicólogo escolar (Mitjáns Martinez, 2005a), mencionávamos entre eles a promoção de mudanças na subjetividade social da instituição escolar, o que constitui um exemplo dos eixos de trabalho que podem (e devem) nortear o trabalho do psicólogo perante a implantação de novas políticas. No entanto, quando falamos em um sentido mais amplo do processo de implantação de políticas educacionais e, de fato, em muitos casos, de processos inovadores, o papel do psicólogo pode-se expressar de formas muito diversas: contribuindo para adequar a política proposta às condições específicas da escola, identificando barreiras ao processo de mudanças e promovendo estratégias para sua superação, contribuindo para os processos de esclarecimento e envolvimento em relação aos objetivos a serem alcançados e muitas outras. Em trabalho anterior (Mitjáns Martinez, 2003b, p. 107), retomamos nossa caracterização da Psicologia Escolar como ... um campo de atuação profissional do psicólogo (e eventualmente, de produção científica) caracterizado pela utilização da Psicologia no contexto escolar, com o objetivo de contribuir para otimizar o processo educativo, entendido este como complexo processo de transmissão cultural e de espaço de desenvolvimento da subjetividade. Destacamos que a Psicologia Escolar não está conceitualizada em função de um campo específico de saberes, mas a partir da configuração de um campo de atuação profissional – o contexto concreto do sistema educativo -, que requer a utilização, entre outros muitos, dos saberes organizados disciplinarmente numa ciência concreta – a Psicologia – com objetivos caracterizados por sua complexidade, como o é a otimização do processo educativo. O arcabouço de saberes que o psicólogo escolar utiliza na sua ação profissional está determinado pelas tarefas que enfrenta, pelos desafios que sua prática lhe coloca e, sem dúvida, pela representação que tem dos elementos envolvidos nos problemas a enfrentar, independentemente do campo ou área da Psicologia em que esses conhecimentos tenham sido originariamente produzidos. Por isso faz-se compreensível que, para favorecer a implantação de políticas públicas, o psicólogo O PSICÓLOGO ESCOLAR E OS PROCESSOS DE IMPLANTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS: ATUAÇÃO E FORMAÇÃO 115 Casa Realce Casa Realce Casa Realce escolar precise de conhecimentos correspondentes a áreas que podem parecer distantes em função da fragmentação que tem caracterizado a constituição histórica da Psicologia como ciência, como, por exemplo, a Psicologia da Criatividade, a Psicologia Organizacional e a própria Psicologia Escolar. Se temos em conta, a partir da caracterização da Psicologia Escolar apresentada,que o objetivo mais geral do trabalho do psicólogo escolar é favorecer a otimização do processo educativo, inúmeras são as funções que esse profissional pode desenvolver na instituição escolar. Diversos trabalhos têm contribuído para identificar e caracterizar as funções do Psicólogo Escolar,muitos dos quais formam parte da produção científica do Grupo de Trabalho Psicologia Escolar/Educacional da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (Wechsler, 1996; Guzzo, 1999; Del Prette, 2001; Almeida, 2003; Mitjáns Martínez, 2005b). A partir do estado da arte nesse campo e de nossos próprios trabalhos no campo da Psicologia Escolar, apresentamos uma classificação das funções do psicólogo escolar em dois grandes grupos: funções tradicionais e funções emergentes. Existem muitas classificações possíveis e essa, como qualquer outra, responde ao olhar de quem a elabora. Nesse caso, tem-nos interessado focalizar a mudança que há alguns anos, mesmo que lentamente, vem se produzindo no campo de atuação do psicólogo na instituição educativa, assim como mostrar, cada vez com maior nitidez, novas possibilidades de ação profissional em prol da consecução do objetivo norteador do trabalho do psicólogo escolar, de otimização do processo educativo compreendido na sua complexidade. Funções tradicionais: • Avaliação, diagnóstico e encaminhamento de alunos com dificuldades escolares; • Orientação a alunos e pais; • Orientação profissional; • Orientação sexual; • Formação e orientação a professores; • Elaboração e coordenação de projetos educativos específicos (por exemplo em relação à violência, uso de drogas, relações interpessoais e outros). 116 ALBERTINA MITJÁNS MARTÍNEZ Casa Realce Funções emergentes: • Assessoria para a elaboração, implementação e avaliação da Proposta Pedagógica da escola; • Assessoria e participação no processo de seleção dos membros da equipe pedagógica e de avaliação dos resultados do trabalho docente; • Contribuição para a formação técnica e para a coesão da equipe de direção pedagógica; • Realização da análise institucional e muito especialmente dos aspectos da subjetividade social da instituição escolar, com o objetivo de delinear estratégias de trabalho favorecedoras de mudanças necessárias a nível institucional; • Coordenação de disciplinas e oficinas direcionadas ao desenvolvimento integral dos alunos; • Caracterização da população estudantil com o objetivo de contribuir para subsidiar o ensino personalizado; • Realização de pesquisas diversas com objetivo de melhorar o processo educativo; • Fa ci li tar de for ma crí ti ca, re fle xi va e cri a ti va a im ple men ta - ção das po lí ti cas pú bli cas. Esta última função, que não tem sido foco da ação intencional do psicólogo na instituição escolar devido à tendência dominante de conceber o processo de ensino-aprendizagem fora da complexa rede de elementos que configuram sua qualidade, evidencia-se como essencial quando se adota um olhar mais abrangente desse fenômeno, não centrado apenas e fundamentalmente nos indivíduos, mas nos processos subjetivos da escola como espaço social. O exercício dessa função constitui uma importante forma de contribuir para a otimização do processo educativo, já que muitas políticas educativas são elaboradas com esse objetivo e sua implantação real depende dos processos da subjetividade social dos espaços sociais onde devem ser inseridas e das subjetividades individuais daqueles que devem assumi-las e de fato implementá-las. O reconhecimento de que a efetivação de qualquer mudança ou inovação idealizada fora do contexto escolar passa necessariamente pela forma como os atores da escola assumem-na tem sido evidenciado na produção científica sobre inovação educativa. No entanto, na tentativa de implantar as O PSICÓLOGO ESCOLAR E OS PROCESSOS DE IMPLANTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS: ATUAÇÃO E FORMAÇÃO 117 Casa Realce Casa Realce políticas públicas, não se prioriza suficientemente esse aspecto. A desconsideração das opiniões dos professores em relação às mudanças é expressada claramente por Hargraves (1996, p. 330) quando afirma: Na debandada política para implantar a reforma, se tem prescindido das vozes dos professores, se tem passado por alto suas opiniões e desestimado suas preocupações. A mudança se tem desenvolvido e imposto em um contexto no qual se concede pouco crédito ou reconhecimento aos professores em relação com a sua própria transformação e com a sua capacidade para distinguir entre o que pode-se mudar razoavelmente e o que não pode modificar-se . Também nesse sentido, a partir de uma interessante pesquisa realizada no Brasil tomando como foco o sistema de organização escolar por ciclos e ações desencadeadas pelo Fundo de Fortalecimento da Escola (FUNDESCOLA), Farias (2006, p. 197) conclui: Por último cabe lembrar que as considerações feitas evidenciam que a alteração da vida predominante na escola, através da introdução de inovações , é uma possibilidade e não uma garantia. Ela é ensejada pela presença de elementos de identificação e de possível articulação dessas propostas com os saberes e crenças internalizados pelos professores e reinantes em sua prática. É esse movimento que promove a mudança e engendra renovação da cultura docente na escola, que exige tempo e apoio real das políticas e reformas educativas. Muitas das dificuldades evidenciadas no processo de implantação das políticas de inclusão escolar são derivadas da forma como têm sido colocadas para as escolas. Os promotores dessas políticas parecem desconhecer elementos essenciais relativos à participação dos indivíduos que integram os espaços sociais onde se produzem os processos de mudança institucional. A falta de credibilidade nas possibilidades reais da inclusão tal como tem sido proposta e, em alguns casos, até mesmo a rejeição implícita a sua implementação poderia ter sido, se não evitada, ao menos minimizada com delineamentos diferentes de seu processo de implantação. 118 ALBERTINA MITJÁNS MARTÍNEZ Casa Realce Casa Realce Casa Realce Casa Realce Sem dúvida, os erros estratégicos no processo da implantação das políticas públicas correspondem às instâncias em que são geradas e às equipes técnicas que têm a seu cargo sua operacionalização. Mesmo assim, o psicólogo escolar, por seus conhecimentos do funcionamento dos processos subjetivos de indivíduos, grupos e instituições, pode favorecer, em alguma medida, o processo de implantação das políticas na instituição escolar, contribuindo para otimizar o processo educativo, tendo em conta as particularidades propostas pela política em foco. Seu papel facilitador sempre deve estar orientado por sua análise crítica e reflexiva da política em questão e por seu conhecimento sobre a configuração específica da instituição onde trabalha. O conhecimento sobre a instituição e seus membros lhe permitirá compreender as formas como a política pode se converter realmente em mobilizadora de mudanças efetivas e, conseqüentemente, possibilitará delinear estratégias para favorecer sua implantação. A partir da produção no campo da inovação educativa, especialmente dos trabalhos de Thurler (2001) e Carbonell (2002), assim como de nossas próprias experiências em relação à implantação da política de inclusão escolar (Mitjáns Martínez, 2005a, 2006a, 2006b), identificamos um conjunto de ações possíveis: • Analisar criticamente as políticas a serem implantadas, reconhecendo seus pontos fortes e seus aspectos vulneráveis, visando a difusão de seus fundamentos na comunidade escolar; • Analisar criticamente as estratégias utilizadas em macroestruturas para a implantação das políticas, visando delinear estratégias para sua adequação ao contexto concreto da escola onde atua; • Analisar as experiências na implantação de políticas similares ou da mesma políticaem outros contextos, nos seus aspetos positivos e negativos; • Identificar os pontos que possam se constituir em empecilhos para o processo de mudanças e delinear estratégias para neutralizá-los; O PSICÓLOGO ESCOLAR E OS PROCESSOS DE IMPLANTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS: ATUAÇÃO E FORMAÇÃO 119 Casa Realce Casa Realce • Favorecer formas abertas de comunicação e de gestão participativa que possibilitem o envolvimento dos professores no processo de tomada de decisões; • Favorecer a coesão da equipe pedagógica e potenciar a receptividade da comunidade educativa às mudanças; • Contribuir para a difusão de conhecimentos que possam favorecer a criatividade e a inovação; • Contribuir para enfrentar e negociar os conflitos que comumente acompanham os processos de mudanças; • Favorecer a criação de sistemas de estímulos e de premiação dos resultados positivos alcançados. Dada a complexidade inerente aos processos de mudança, essas ações devem ser concebidas como um sistema, já que dificilmente ações isoladas podem dar conta de processos facilitadores intencionais reais. A definição das ações necessárias e seu delineamento específico dependerão da natureza da própria política e da configuração de cada instituição, o que demanda a ação reflexiva e criativa do psicólogo, elementos que desafiam sua formação. QUAL A FORMAÇÃO NECESSÁRIA? Qual a formação necessária para poder enxergar a complexidade dos processos gerados pela necessidade de implantar, nas instituições concretas, as políticas públicas? Qual a formação necessária para elaborar estratégias e desenvolver ações nessa direção? A quem cabe proporcionar a formação básica para que isso seja possível? Muitas respostas diversas podem ser dadas a essas perguntas, essencialmente porque elas dependem das concepções e, por que não dizer, das convicções que os respondentes tenham sobre o que é ser psicólogo, o que é formação e muito especialmente sobre o que é ser um sujeito capaz de orientar produtivamente sua ação em condições de alta complexidade. A nosso modo de ver, a análise do papel do psicólogo perante a implantação das políticas públicas constitui um bom espaço para a reflexão sobre aspectos medulares de sua formação, questão que foi 120 ALBERTINA MITJÁNS MARTÍNEZ Casa Realce Casa Realce objeto de meu trabalho em Cuba (Mitjáns Martínez, 1983,1987) e de especial reflexão nos últimos anos a partir de minha inserção no Brasil (Mitjáns Martínez, 2003c). Em continuação, apresentaremos três teses em relação à formação do psicólogo que podem constituir o suporte necessário à sua preparação para assumir os desafios de funções novas e complexas, como a facilitação da implantação de políticas educacionais no contexto escolar. Tese 1: A formação inicial do psicólogo precisa ter como foco sua formação como sujeito Partimos da idéia que de que o psicólogo é antes de tudo um sujeito que, munido de um conjunto de conhecimentos, essencialmente constituídos em uma ciência particular – a Psicologia –, atua profissionalmente num determinado campo de atividade para cumprir determinados objetivos. De sua condição de sujeito e de sua configuração subjetiva dependerão em grande medida a forma de apropriação dos conhecimentos e o desenvolvimento de habilidades e competências no processo de formação profissional. Também a posterior utilização desses recursos dependerá de suas expectativas, valores, projetos, concepção do mundo, enfim, de sua subjetividade individual, subjetividade que está em constante processo de constituição nos espaços sociais onde está inserido, em função, entre outros elementos, da subjetividade social que os caracteriza. O psicólogo na sua condição pessoal constitui o eixo de sua ação profissional, daí a necessidade de colocar em foco a formação pessoal do psicólogo na sua condição de sujeito. Utilizamos a categoria sujeito tal como formulada na teoria da subjetividade de González Rey para nos referir ao indivíduo concreto portador de personalidade que se caracteriza por ser atual, interativo, consciente, intencional e emocional (González Rey, 1999, p. 108). É o sujeito, entendido nessa perspectiva, quem toma decisões, interage com os outros, aprende, produz idéias, forma representações da realidade e vivencia emoções, expressão dos sentidos subjetivos que gera nas situações em que se encontra. O PSICÓLOGO ESCOLAR E OS PROCESSOS DE IMPLANTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS: ATUAÇÃO E FORMAÇÃO 121 Casa Realce Casa Realce Casa Realce Casa Realce A formação do psicólogo como sujeito, com foco no seu caráter intencional, interativo, autônomo e criativo, constitui um objetivo essencial da sua formação: um sujeito que expresse seu caráter ativo na capacidade de questionar e de problematizar a informação que recebe e a realidade em que está inserido, de se questionar, e de se perguntar sobre seu papel e sobre sua ação, um sujeito capaz de produzir idéias e de planejar ações em correspondência com as variadas e complexas situações em que tem que desenvolver sua ação profissional. É a condição de sujeito que lhe permitirá ter autoria sobre seu próprio comportamento, e na sua força, radicarão as maiores ou menores possibilidades de atuar em contextos de significativa complexidade como o é o contexto escolar. Insistimos na necessidade de considerar a condição de sujeito como essencial para a própria formação profissional. A aprendizagem escolar, como uma forma complexa de aprendizagem humana, requer, para ser realmente efetiva, a implicação do sujeito que aprende (González Rey, 1999). A partir da perspectiva histórico-cultural da subjetividade assumida, a aprendizagem constitui um processo da subjetividade, na medida em que é uma função exercida pelo sujeito no seu caráter ativo, consciente, intencional e emocional. Também na aprendizagem, participam diferentes configurações subjetivas constituídas no percurso de história de vida singular, bem como as características da relação pedagógica e as da subjetividade dos espaços sociais onde a aprendizagem acontece (González Rey, 2006; González Rey & Mitjáns Martinez, 2003). Em um trabalho anterior (Mitjáns Martínez, 2006b), fundamentamos a consideração da aprendizagem escolar como um processo da subjetividade a partir de três elementos: a. O reconhecimento das configurações de sentido que participam do processo de aprender; b. A consideração da aprendizagem escolar como uma das funções do sujeito; c. O reconhecimento de que na aprendizagem escolar se expressa não apenas a subjetividade individual, mas também a subjetividade social. 122 ALBERTINA MITJÁNS MARTÍNEZ Casa Realce Casa Realce Casa Realce A aprendizagem escolar no nível superior não foge desses princípios, pelo contrário, pela sua maior complexidade, confirma-os. Assim, a significação da aprendizagem no processo de formação profissional dependerá da implicação ativa, criativa e emocional do sujeito, questão pouco trabalhada intencionalmente nos cursos de formação de psicólogos. Infelizmente, a fragmentação, o reducionismo e o instrumentalismo que têm sido muito fortes na Psicologia têm tido um grande impacto na compreensão da aprendizagem. E o cognitivismo e o instrumentalismo dominantes têm dificultado enxergar a complexidade constitutiva do processo educativo, essencialmente os aspectos subjetivos que o caracterizam. Não é casual, então, que na formação de psicólogos, como na educação em geral, tenha prevalecido a ênfase na transmissão de conteúdos e no desenvolvimento de habilidades e competências fragmentadas, desconhecendo-se o papel do sujeito e das configurações subjetivas individuais e sociais a partir das quais os conteúdos, habilidades e competências vão se constituir ou não como elementos de sentido, processo essencial para a caracterização do aprendido. Muitos psicólogos desenvolvema sua condição de sujeitos por diferentes vias e mecanismos, com independência do delineamento intencional dos sistemas de formação nessa direção. De fato, junto a psicólogos essencialmente passivos, reprodutivos e pouco criativos na sua prática profissional, encontram-se psicólogos que, na sua condição de sujeitos, constituem-se em verdadeiros agentes de mudanças nos espaços onde atuam. Nesses casos, o processo de desenvolvimento se produz com independência dos esforços das instituições formadoras, as quais, presumivelmente, com outros delineamentos, poderiam favorecê-lo em muitas mais pessoas. Apesar das reformulações curriculares derivadas das concepções e indicações contidas nas Diretrizes Curriculares para os Cursos de Graduação em Psicologia (2004), continuamos vendo com preocupação, na formação inicial dos psicólogos, uma marcada orientação à transmissão de conhecimentos e não à formação do sujeito que supostamente deve se apropriar desse conhecimento e operar com ele nas condições da prática profissional. É sintomático que, no artigo 4º das Diretrizes, afirme-se: A formação em Psicologia tem por objetivos gerais dotar o profissional dos conhecimentos requeridos para o exercício das seguintes competências e habilidades gerais... (p. 205) (grifo nosso). Se O PSICÓLOGO ESCOLAR E OS PROCESSOS DE IMPLANTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS: ATUAÇÃO E FORMAÇÃO 123 Casa Realce Casa Realce bem se relacionam um conjunto de habilidades e capacidades importantes, essas se fazem depender, em última instância, dos conhecimentos, como se fossem estes os que poderiam garantir o desenvolvimento das capacidades almejadas. Sem ne gar o pa pel do co nhe ci men to no de sen vol vi men to, sabe-se que o de sen vol vi men to dos ele men tos que ca rac te ri zam o su je i - to psi co ló gi co – in ten ci o na li da de, au to no mia, ca pa ci da de de re fle xão, ca pa ci da de de to mar de ci sões, pro du ção cri a ti va e per so na li za da – não de pen de es sen ci al men te do co nhe ci men to trans mi ti do, mas da in ser ção dos su je i tos em es pa ços so ci o re la ci o na is que, por sua di ver si da de e com ple xi da de cons ti tu ti va, fa vo re çam a cons ti tu i ção de tais ca rac te rís - ti cas. Pro mo ver es pa ços que con tri bu am para o de sen vol vi men to des ses ele men tos de ve ria ser ob je ti vo das ins ti tu i ções edu ca ti vas que for mam psi có lo gos, no en tan to, no seu de li ne a men to con cre to, os cur sos de for - ma ção es tão lon ge de ter esse como um ob je ti vo edu ca ti vo real. O ca rá - ter pas si vo-re pro du ti vo que ca rac te ri za a for ma ção ini ci al dos psi có lo gos pou co con tri bui para o de sen vol vi men to do ca rá ter pro du ti - vo, cri a ti vo e au tô no mo que a prá ti ca pro fis si o nal de man da. Essa cons ti - tui uma das ra zões pe las qua is mu i tos psi có lo gos que tra ba lham no sis te ma edu ca ti vo sen tem-se de sar ma dos e iner mes pe ran te a com ple xi - da de des se con tex to e os de sa fi os que co lo ca para eles. Alguns – com sen si bi li da de, po rém sem re cur sos sub je ti vos para pro por ações, de fen - der com ar gu men tos seus cri té ri os, en con trar um es pa ço de ação pro du - ti vo e cri a ti vo nos li mi tes que o con tex to so ci al pro fis si o nal im põe – sen tem-se pou co pro du ti vos e não ob têm de seu tra ba lho a sem pre ne - ces sá ria sa tis fa ção e re a li za ção pro fis si o nal. Muitos psicólogos, interessados em superar o impasse no qual sua própria prática os coloca, procuram nos cursos de formação continuada solução para seus problemas, pensando que novos conhecimentos – entenda-se aqui novos conteúdos – vão efetivamente resolvê-los. Estão, no entanto, longe de perceber que os cursos de pós-graduação reproduzem o mesmo delineamento que os cursos de formação inicial e que novos conhecimentos, mesmo que importantes, não necessariamente serão a solução para os problemas que têm de resolver, ainda mais se trabalham em contextos perpassados pela implantação de políticas públicas causadoras de, como vimos, mudanças na instituição escolar que adicionam novos elementos à complexidade de um contexto, por si só já complexo. 124 ALBERTINA MITJÁNS MARTÍNEZ Casa Realce Casa Realce Casa Realce Casa Realce Tese 2: A formação inicial deve estar direcionada ao desenvolvimento de representações abrangentes da complexidade do funcionamento psicológico humano, tanto na dimensão individual quanto na social Desde nosso ponto de vista, torna-se um objetivo essencial da formação que o psicólogo construa uma representação geral de como funcionam, na sua complexidade, os indivíduos e os espaços sociais. A ação profissional, como qualquer outra, está mediatizada pelas representações que o sujeito constrói e, no caso do psicólogo, sua ação profissional estará orientada pela representação que tem de como as coisas funcionam, mesmo que necessariamente isso não seja consciente para ele. No entanto, a construção intencional de uma representação do funcionamento humano em correspondência com sua complexidade constitutiva real não é um objetivo nem explícito nem implícito da maioria dos cursos de formação. O delineamento curricular tradicional por disciplinas, expressão da fragmentação do próprio conhecimento psicológico, sem espaços de integração nem de interdisciplinaridade no próprio interior da Psicologia, não só não favorece como dificulta a construção de representações gerais que sirvam como marco para compreender a ação dos indivíduos em situações complexas e a configuração de espaços sociais também complexos como a instituição escolar. A maioria dos psicólogos tem dificuldade de integrar na sua prática profissional conhecimentos que estudou de forma fragmentada e inclusive contraditória. Geralmente os cursos não têm um eixo teórico norteador claro na compreensão do homem e é comum que cada professor, na sua disciplina, focalize dogmaticamente uma ou outra concepção teórica, freqüentemente contraditória com a concepção apresentada por outro professor em uma outra disciplina ministrada, possivelmente, no mesmo dia ou no mesmo semestre. A falta de um eixo teórico norteador ou de uma estratégia consensual para fugir dos dogmas e verdades absolutas em muitos casos é justificada pelo apelo à democratização do saber ou pela necessidade de que o aluno faça suas próprias escolhas. No entanto, essa ausência pouco contribui para a construção, no O PSICÓLOGO ESCOLAR E OS PROCESSOS DE IMPLANTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS: ATUAÇÃO E FORMAÇÃO 125 Casa Realce Casa Realce próprio processo de formação, de representações coerentes que permitam orientar a prática profissional. Sabemos que nessa fragmentação do conhecimento se expressa também a dificuldade dos professores e das instituições formadoras de encontrar estratégias de trabalho coletivo que impliquem colocar os interesses da formação do aluno acima dos interesses e escolhas pessoais, questão muito difícil de conseguir nas condições de forte individualismo que caracterizam a sociedade contemporânea e que têm na academia inúmeras formas de expressão. Deixa-se a responsabilidade da integração do fragmentado ao profissional isolado, o qual tem que enfrentar os desafios da prática com um conjunto de conhecimentos desconexos e descontextualizados que dificilmente pode integrar numa representação própria que não foi facilitada no seu processo de formação. Vemos, com alarme, que, perante essa dificuldade e sem ter consciência disso, muitos utilizam as representações sociais dominantes para orientar sua atuação profissional. Essas formas de expressão do conhecimento do senso comum tomam o lugar daquelas representações que poderiam ser construídas a partir do conhecimento científico com o qual esses profissionais estiveram em contato por no mínimo cinco anos e que deveriam ser essenciais na sua atuação.Um aspecto importante a destacar no caso do psicólogo escolar é a necessidade de que construa uma representação geral sobre a complexidade do processo educativo e da instituição escolar que lhe permita atuar eficientemente nesse campo. Essa representação implica necessariamente, por um lado, um conjunto de conhecimentos básicos sobre a organização do sistema educativo, delineamento curricular, didática etc. e, por outro lado, um conhecimento aprofundado das políticas a serem implantadas e em relação às quais terá que trabalhar: gênesis, fundamentos, experiências de sua aplicação em outros contextos, entre outros aspectos. A falta de conhecimentos básicos sobre educação que permitam um diálogo real com os membros da equipe pedagógica tem sido um dos muitos fatores que dificultam a aceitação do psicólogo como um membro da equipe, posição importante a conquistar em se tratando de exercer uma função que tem a ver com a escola no seu conjunto, como é a de favorecer a implantação de políticas educativas. A representação do psicólogo escolar, mesmo que em processo de mudança, ainda está 126 ALBERTINA MITJÁNS MARTÍNEZ vinculada à imagem de um profissional que atende demandas específicas, essencialmente relacionadas com dificuldades de alunos, e não à de um membro da equipe que participa do trabalho da escola na sua dimensão institucional. As questões que se trabalham e se debatem no espaço escolar são questões educativas que têm na sua base as representações e os sistemas conceituais próprios dessa prática social. O psicólogo contribui para o trabalho educativo e para os debates na escola a partir do arcabouço conceitual da Psicologia, porém a significação de sua participação está mediatizada pela articulação desse saber com os outros saberes que caracterizam o espaço escolar. Em escolas nas quais temos trabalhado como consultores, temos percebido que o psicólogo começa a ganhar um espaço real, inclusive como parte da equipe de direção técnica da escola, quando, entre outros importantes fatores, domina essas noções básicas, quando trabalha e dialoga com propriedade com elas em seus vínculos com os demais membros da equipe. Dessa forma, os conhecimentos sobre educação não constituem apenas um saber importante para o trabalho na escola, porém um elemento de aceitação e de reconhecimento do psicólogo como profissional, que indiretamente favorece sua própria ação. Como chegar a adquirir esses conhecimentos? Como se apropriar deles de forma significativa, de maneira que se constituam em conhecimentos significativos para a prática profissional? Em nosso ponto de vista, a solução não é encher os cursos de formação inicial ou de formação continuada com disciplinas que abordem essas questões reforçando o aspecto passivo-reprodutivo e pouco eficiente que caracteriza a maioria de nossos cursos, mas sim trabalhar intencionalmente em prol da sensibilidade, da responsabilidade e da orientação para o estudo, de forma tal a contribuir para que o futuro psicólogo procure, de forma autônoma, a formação complementar necessária para sua inserção no campo educativo. Os estágios em Psicologia Escolar, infelizmente inexistentes em muitos cursos, constituem um espaço ideal para tais ações, desde que incentivem os alunos a identificar de forma ativa os conhecimentos sobre educação necessários para uma inserção efetiva no espaço escolar, assim como os orientem sobre como e onde procurar tais conhecimentos. O estágio não pode se configurar como um mero espaço de aplicação de conhecimentos já aprendidos O PSICÓLOGO ESCOLAR E OS PROCESSOS DE IMPLANTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS: ATUAÇÃO E FORMAÇÃO 127 Casa Realce Casa Realce Casa Realce Casa Realce ou de treinamento de capacidades e competências, como na maioria dos cursos acontece. Ao invés disso, é essencial que seja um espaço de contato com a complexidade da escola, de sensibilização para com seus problemas, de desenvolvimento de um olhar crítico e criativo sobre a prática do psicólogo escolar e de identificação dos conhecimentos complementares sem os quais uma atuação significativa se torna difícil. Avanços nesse sentido estão representados nas experiências de estágios em Psicologia Escolar organizados na Universidade Federal de Rio Grande do Norte, onde ... a supervisão de estágio tem buscado articular um tripé composto pelo acompanhamento teórico do aluno, pelo acompanhamento de sua prática no interior das instituições educativas e por um acompanhamento mais pessoal, em que aspectos da subjetividade individual são conversados em grupo como forma de refletir sobre as características da inserção profissional. Busca-se garantir que o estágio proporcione a articulação da formação técnica com uma reflexão ético-política que tem a escola como referência (Campos, 2005, p. 68). Cursos de graduação de novo tipo podem ter como eixo central um sistema de estágios configurado criativamente, orientado a promover no aluno as características que definem o sujeito psicológico e a formar nele representações articuladas da complexidade das realidades e das possibilidades do trabalho do psicólogo nos diversos campos e, entre eles, no sistema educativo. Desse modo, tais cursos poderiam constituir experiências inovadoras e potencialmente mais efetivas de formação profissional. Tese 3: A formação continuada é uma responsabilidade do próprio psicólogo e o auto-didatismo sua principal forma de expressão Temos defendido que um dos principais aspectos na formação do psicólogo é o desenvolvimento de seu compromisso com um trabalho profissional de qualidade e socialmente responsável (Mitjáns Martínez, 2003c, 2005a). Isso implica seu 128 ALBERTINA MITJÁNS MARTÍNEZ Casa Realce Casa Realce Casa Realce envolvimento em uma formação permanente que lhe permita aprimorar sua prática, enxergar novos problemas e assumir novos desafios. O desenvolvimento de sua condição de sujeito, como anteriormente foi colocado, pode lhe permitir conceber criativamente e com clareza a necessidade desse processo continuado de formação e, conseqüentemente, ir tomando em cada momento as decisões necessárias para efetivá-lo. Consideramos que a formação continuada institucionalizada por meio de palestras, cursos, especializações e eventualmente mestrados profissionalizantes é importante como oferta institucional, porém não é decisiva na formação real do profissional, já que esta última supõe sua implicação como sujeito nesse processo, o que não depende, de forma direta, dos espaços de formação. Além do quê, lamentavelmente a maioria das atividades hoje concebidas como formação continuada, assim como a formação inicial, reproduzem o sistema que a própria ciência psicológica questiona. É realmente paradoxal que as formas mais avançadas de formação incorram em um conjunto de erros que elas mesmas teoricamente criticam: foco quase exclusivamente na transmissão de conteúdos; alunos-psicólogos passivos em aulas expositivas, em que onde a condição de sujeito é basicamente exercida pelo professor; pouco incentivo real à leitura, à reflexão e ao estudo personalizados; formas de avaliação tradicionais com pouca exigência de reflexão própria e de criatividade etc. Por sua vez, os alunos-psicólogos, salvo exceções, constituem-se mais em objetos da ação pedagógica do professor do que como sujeitos ativos da sua própria formação. Sua postura nesse processo, mesmo que a partir de configurações subjetivas altamente singulares, não deixa de ser meramente passivo-reprodutiva. Sem pretender subvalorizar os importantes fatores de ordem subjetiva, cultural, social e econômica que podem explicar esta situação, chamo a atenção para a necessidade de introduzir mudanças mais significativas na formação profissional em geral e, como parte dela, nas ofertas da formação continuada. Tais mudanças precisam contribuir em maior medida para o desenvolvimentoefetivo dos psicólogos, em muitos casos reeducando-os em relação à formação inicial recebida. Nesse sentido, o trabalho personalizado de formação sob supervisão no exercício da própria prática profissional pode resultar promissor, O PSICÓLOGO ESCOLAR E OS PROCESSOS DE IMPLANTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS: ATUAÇÃO E FORMAÇÃO 129 Casa Realce Casa Realce Casa Realce Casa Realce Casa Realce Casa Realce podendo-se constituir em uma expressão relevante da denominada formação assistida (Araújo & Almeida, 2005). A formação e o desenvolvimento do sujeito, se bem acontece pela sua participação em espaços institucionalmente organizados para esse fim, também acontece pelas suas reflexões, ações e decisões sobre sua própria ação, e pelos diferentes espaços e alternativas que ele procura e cria. A formação permanente do psicólogo é uma responsabilidade sua como sujeito, responsabilidade pela representação que tem de suas carências e necessidades em função das demandas que lhe são colocadas e de seus projetos profissionais, e pelas decisões que está disposto a tomar perante as necessidades de trabalho que identifica. Cabe à academia oferecer espaços organizados e delineados criativamente que possam vir a ser úteis nessa formação, porém também lhe cabe mostrar que a formação não se esgota na utilização desses espaços, por muito bem delineados que estejam, mas que, por seu caráter singular, é uma responsabilidade pessoal que é exercida a partir do compromisso profissional assumido. A compreensão e essencialmente o exercício desse princípio é o que permite ao psicólogo deixar de ser um simples “consumidor” de formação para ir se tornando um produtor da formação própria. Além do mais, nenhum curso de formação pode abarcar todas as necessidades dos sujeitos singulares nem todas as necessidades de uma prática profissional altamente complexa e diferenciada como a que pode realizar um psicólogo concreto em uma escola concreta. Por isso é que o autodidatismo se constitui numa importante figura da formação. Em relação aos processos de implantação de políticas públicas, a capacidade autodidata ainda mais se evidencia como essencial. Os conhecimentos sobre as políticas que serão objeto de implantação, o aprofundamento necessário sobre os processos de mudanças e de inovação institucional, a singularidade das barreiras em relação à inovação pedagógica, entre outros, são temas sobre os quais os psicólogos escolares que trabalhem no favorecimento da implantação de políticas públicas têm que se debruçar de forma específica. Não significa que esses temas não sejam abordados nos sistemas de formação continuada. Na medida em que essa função ou possibilidade do trabalho do psicólogo na escola seja mais reconhecida e assumida, com certeza, diferentemente do que acontece hoje, tal temática constituirá parte da oferta dos sistemas institucionalizados de 130 ALBERTINA MITJÁNS MARTÍNEZ Casa Realce Casa Realce formação. No entanto, ainda assim não se esgotarão as necessidades de formação para a ação em contextos complexos concretos. Os desafios que o trabalho no sistema educativo coloca para o psicólogo são muitos, tanto pelas múltiplas possibilidades de atuação, quanto pelas exigências de uma formação sólida e permanente compatível com elas. Cabe ao psicólogo, na sua condição de sujeito, querer assumi-los. REFERÊNCIAS Abromovay, M. (2003) Escolas inovadoras: experiências bem sucedidas em escolas públicas. Brasília: UNESCO Almeida, S.F.C. (org.). (2003). Psicologia Escolar: ética e competências na formação e atuação profissional . Campinas : Alínea Amabile, T. (1996). Creativity in Context. Colorado : Westview Press. Bruno-Faria & Alencar , E . M. L. S. (1996). Estímulos e barreiras à criatividade no ambiente de trabalho. Revista de Administração. São Paulo, 31 (4),86-91 Araujo, C.M.M & Almeida, S.F.C. (2005). Psicologia escolar: recriando identidades, desenvolvendo competências. In Albertina Mitjáns Martínez (org.) Psicologia Escolar e Compromisso Social : novos discursos , novas práticas. 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