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Avaliar a escola e a gestão escolar: elementos para uma reflexão crítica Segundo Afonso (2003:38), "a avaliação da gestão das escolas é uma dimensão especifica da avaliação das escolas, sendo as escolas, por sua vez, unidades ou contextos organizacionais que podem inserir-se no âmbito mais abrangente da chamada avaliação institucional". Especificamente, neste texto, são apontados, numa dimensão crítica, os elementos pertinentes para pensar a avaliação das escolas e o lugar dos seus gestores ou diretores neste processo. Com o propósito de reflexão, é prerrogativa inicial a discussão sobre o papel dos seus gestores ou diretores e as atribuições daqueles que são incumbidos da responsabilidade da gestão. Neste sentido, avaliar as escolas envolve também avaliar a gestão escolar e, consequentemente, avaliar as formas de gestão, "como os diretores ou gestores atuam, não somente como intermediários entre Estado e a comunidade, mas também quando ajudam (ou não) a criar condições para o exercício de uma autonomia real, mobilizando (ou desvitalizando) sinergias e aprofundamento (ou cerceando) as práticas de participação democrática e incluindo nas suas tarefas as questões pedagógicas e educacionais, ou pelo contrário, ficando apenas nas tarefas administrativas e burocráticas". (Afonso:39) Com isso, ao avaliar a gestão escolar, é preciso avaliar a própria escola no seu todo, uma vez que os responsáveis pelos órgãos de gestão não podem se indiferentes a nada do que ocorre no âmbito da escola. E são muitas as dimensões e aspectos que o gestor deve ter em consideração quando nos referimos à escola, enquanto uma organização educativa complexa. As fronteiras da avaliação da escola como organização educativa complexa Segundo Afonso (op. cit.), duas conceituações de escolas são apontadas. Ao ser abordada esta conceituação, elas direcionam os gestores ou diretores para determinada prática no cumprimento de tarefas inerentes ao cargo. Para tanto, aos gestores ou diretores cabe selecionar qual das duas ele segue. A primeira conceituação de escola, está relacionada à dimensão de organização burocrática, e a segunda, à dimensão de organização educativa complexa. A escola é considerada, por muitos gestores, enquanto organização, focada numa concepção racional e burocrática, significando que a escola não é fruto de uma evolução social espontânea, mas, ao contrário, querendo indicar que ela deve atender aos fins ou objetivos educacionais já concluídos e prontos, os currículos e programas a lecionar, a definição e articulação dos espaços e tempos pedagógicos, as relações possíveis e previsíveis de autoridade, ou de poder hierárquico, as formas de participação legítima dos diferentes sujeitos e atores educativos, os tipos de funções individuais e coletivas, as tecnologias ou meio disponíveis para alcançar os objetivos, os mecanismos de enquadramento ou de sanção, e, ainda, as formas de avaliação e controle. Assim, segundo Afonso (2003:40), a escola é resultado de, "actos¹ de vontade (individuais ou coletivos, públicos ou privados) e que implicam a prévia definição e formalização de algumas das suas regras e pilares fundadores e estruturantes". A segunda conceituação de escola está pautada no conceito de organização educativa complexa, pressupondo que o lócus escolar integra outros aspectos e dimensões que estão muito longe de configura- se como organização burocrática. Conforme Afonso (2003:40), "embora apresente algumas dimensões formais, a escola tem um textura social e organizacional muito mais heterogénea² e diversa (...)". Neste sentido, os professores e outros atores escolares sabem que a escola, para além das regras formais e não-formais, desenvolve no seu cotidiano relações de poder que muitas das vezes são determinantes na hierarquização das funções dos gestores ou diretores. Portanto, os gestores ou diretores, ao realizar as suas tarefas devem pautar-se nos objetivos coletivos, nas funções de socialização e de promoção da cidadania, de instrução, de estimulação, de integração e de controle social, mesmo confrontando-se ainda com os dilemas que advêm de mandatos sociais, políticos, pedagógicos que apontam na contramão dos objetivos. Afonso (2003: 43) afirma que "a escola pública democrática é uma organização educativa complexa, não apenas pelos seus aspectos formais, morfológicos ou materiais, mas também (e sobretudo) pela diversidade de funções que cumpre e de desafios que tem pela frente, bem como heterogeneidade e pluralidade de experiências e necessidades de que são portadores todos os sujeitos que a habitam". Neste sentido, os gestores ou diretores, ao conceber uma escola enquanto organização educativa complexa, respaldada em ideais democráticos, a avaliação tem que ter a prerrogativa de desenvolvimento pessoal e coletivo, ou seja, deve estar prioritariamente a serviço de projetos de natureza emancipatória. Assim, a avaliação deve ter em consideração todos os aspectos da vida da escola, no que diz respeito a sua organização, aos órgãos de administração e gestão, aos meios e recursos, às finalidades educativas, aos currículos, às formas de participação de todos sos atores educativos e suas práticas pedagógicas, aos valores, às expectativas, aos constrangimentos, às dimensões simbólicas e materiais, às relações interpessoais e às interações com o Estado, com a sociedade e com o meio local, aos sucessos e insucessos, aos percursos realizados e às propostas futuras contidas nos projetos escolares. Portanto pensar a gestão e a avaliação da gestão de uma escola pública implica que sejam levados em consideração pelos gestores ou diretores aspectos e pressupostos como os fatos de que: a escola pública não é uma empresa, muito menos uma empresa que oferece seus produtos no mercado ou que vise fins lucrativo; deve-se priorizar os valores do domínio público, como os valores coletivos da justiça, da eqüidade e da cidadania. Os valores de domínio público visam a atender às necessidades, preocupações e propósitos coletivos da sociedade. Neste contexto, a gestão de uma escola pública é também uma gestão de processos políticos, éticos e sociais que implica reconhecer que em seu âmago existe conflito e confronto. Em síntese, os gestores ou diretores devem considerar que a qualidade da educação escolar não se consubstancia apenas na qualidade científica e pedagógica, mas também na qualidade democrática, devendo exigir, tanto às suas práticas quanto aos atores envolvidos, que a avaliação das escolas públicas se estruture através de procedimentos mais complexos, diversificados e distintos daqueles utilizados nos exames de larga escala. Tal defesa aponta que o papel dos gestores ou diretores deve estar equivalente com o discurso democrático, ao conceber a escola como uma esfera pública e democrática, dando voz aos atores educativos, na construção de alternativas para a construção dos encaminhamentos avaliativos emancipatórios. REFERÊNCIA ESTEBAN, Maria Teresa (Org.). Escola, Currículo e Avaliação. São Paulo: Cortez, 2003. AFONSO, Almerindo Janela. "Avaliar a escola e a gestão escolar: elementos para uma reflexão crítica." In: ESTEBAN, Maria Teresa (Org). Escola, Currículo e Avaliação. São Paulo: Cortez, 2003.