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Ambientes nutridores como modalidade de Prevenção Universal do Suicídio Ma. Flávia Caroline Figel¹ Anthony Biglan, psicólogo americano, é um dos principais estudiosos do tema da prevenção. Em 2015 ele publicou o livro “The Nurture Effect”² – Como a ciência do comportamento humano pode melhorar nossas vidas e nosso mundo, que nos traz um modelo bastante interessante de prevenção. O livro foi escrito com base em seus quarenta anos de experiência na área da prevenção, sendo uma leitura inspiradora para interessados no tema. Em termos bem gerais o livro defende a ideia de que uma sociedade nutridora² seria fundamental para tornar pessoas mais felizes e saudáveis, sendo esse o modo ideal para se prevenir toda a diversidade de problemas que podem surgir ao longo da vida de alguém. No decorrer do livro ele evidencia a importância da promoção do comportamento pró-social, que diz respeito a cooperar com os outros e trabalhar para seu bem-estar, desde o mais cedo possível. Ao mesmo tempo, é necessário diminuir as condições sociais e biológicas consideradas tóxicas, que possam influenciar de maneira negativa no desenvolvimento humano. O trabalho nessa área, portanto, consiste em auxiliar as famílias, escolas e comunidade a se tornarem um ambiente nutridor², tornando possível um mundo em que haja bem-estar para todos. Em artigo recente (2018), Biglan discute o objetivo da prevenção e a importância de que o conhecimento adquirido sobre o bem-estar humano seja mesmo colocado em prática, e para isso ele retoma a ideia dos ambientes nutridores². Para trabalhar com prevenção muitas estratégias devem ser utilizadas. Ter como alvo diversos problemas e ambientes que os produzem, por exemplo, parece ser fundamental para que mudanças ocorram, uma vez que diferentes tipos de comportamentos-problema podem surgir em ambientes semelhantes. A prevenção teria como foco o desenvolvimento de ambientes que prevenissem múltiplos problemas, além de estimular comportamentos pró-sociais, que beneficiam a sociedade como um todo (Wilson, 2011 apud Biglan, 2016). Os ambientes nutridores², capazes de prevenir problemas, reduziriam condições biológicas e psicológicas tóxicas, como a coerção; produziriam o desenvolvimento e manutenção de comportamentos pró-sociais; além de encorajarem famílias e escolas a reduzirem possíveis fatores de risco para comportamentos-problema. Precisaríamos, então, aumentar o número desses ambientes nutridores². Discutir a implementação e avaliação de estratégias de prevenção também é essencial. Tais estratégias são compostas por vigilância, garantindo que os dados a respeito do bem-estar sejam acurados para justificar e tornar as intervenções mais eficazes; implementação de programas que sejam baseados em evidências, constantemente avaliados e disseminados; políticas públicas que contribuam com o bem-estar humano, como aquelas que diminuem a desigualdade econômica e social; e mídia, uma vez que ela possui grande potencial para afetar um alto número de pessoas. Quando pensamos no tema do suicídio fica evidente que precisamos pensar na sua prevenção. Um dos modelos mais utilizados de Prevenção do Suicídio é baseado nos níveis de risco e contempla as seguintes modalidades: Universal, Seletiva e Indicada. A Prevenção Universal tem como objetivo impedir o início de um determinado problema, sendo destinada a toda a população, mesmo que não apresente nenhum risco de desenvolver o problema (Bertolote, 2012), sendo assim, ocorre no sentido de que o comportamento suicida nem chegue a ocorrer. A Prevenção Seletiva atua na redução dos fatores de risco para o suicídio, sendo destinada a indivíduos e populações que ainda não apresentam o comportamento-problema, mas que apresentam algum grau de vulnerabilidade. Enquanto a Prevenção Indicada é realizada com indivíduos e populações que já apresentam um risco considerável e/ou começaram a manifestar o comportamento suicida (Bertolote, 2012). Embora Biglan não fale especificamente sobre a prevenção do suicídio, ele dá indicações ao longo de seus textos de como todos aqueles ambientes tóxicos podem ocasionar diversos comportamentos-problema que podem preceder os comportamentos suicidas, e como a promoção de ambientes nutridores² atuariam na sua prevenção. O pesquisador da área do suicídio De Leo (2002) afirma que estratégias que tenham como foco a população em geral podem ser utilizadas, pois afetam um número maior de pessoas e afetam outras condições problemáticas, que podem estar associadas com comportamentos suicidas (isolamento social, baixa qualidade de vida, desemprego). Assim, o desenvolvimento de ambientes nutridores² condiz com o que consideramos como a Prevenção Universal do Suicídio. É claro que nossas intervenções precisam atingir pessoas que já apresentam o comportamento suicida, mas pelo que já foi discutido vocês podem imaginar como intervenções ambientais precoces são um caminho promissor. Não podemos perder de vista que as coisas seriam mais fáceis se todos problemas das pessoas que atendemos fossem prevenidos. ¹ Flávia Caroline Figel é Psicóloga, Especialista em Psicologia Clínica: Terapia Comportamental e Cognitiva e Mestre em Ciências pelo Programa de Psicobiologia da USP de Ribeirão Preto. Atualmente trabalha como técnica da Divisão de Saúde Mental de Secretaria de Saúde do Estado do Paraná. ²A palavra nurture pode ter diversos significados na língua inglesa, incluindo nutrir, alimentar e estimular. Neste texto optei por traduzir nurturing environment como ambiente nutridor, mas devemos considerar que tal palavra não contempla toda a riqueza do conceito, que refere-se a ambientes capazes de prover o necessário para o bem-estar dos indivíduos. Referências Bertolote, J.M. (2012). O suicídio e sua prevenção. São Paulo: Editora Unesp. Biglan, A. (2015) The Nurture Effect: How the science of human behavior can improve our lives and our world. New Harbinger Publications, Inc: Oakland Biglan, A. (2018) The ultimate goal of prevention and the larger context for translation. Prevention Science, 19(3). de Leo, D. (2002). Why are we not getting any closer to preventing suicide? British Journal of Psychiatry, 181, 372–74.