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Artrite infecciosa

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Artrite infecciosa – Dra. Joara Martins 
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Artrite infecciosa 
Existem inúmeros tipos de artrites, como artrite séptica com presença de microrganismos no líquido sinovial, 
artrite pós-infecciosa causada por antígenos microbianos decorrentes de infecções, artrite reativa decorrente 
de um processo inflamatório secundário a infecção a distância e artrite inflamatória decorrente de 
colagenoses e outras doenças reumatológicas. 
A artrite séptica – bacteriana, purulenta, infecciosa ou piogênica – é a principal emergência reumatológica, 
essa que pode levar à destruição articular e dano irreversível. Nesse caso, a monoartrite aguda é o 
diagnóstico sindrômico, sendo decorrente de um processo inflamatório da membrana sinovial de caráter 
supurativo. A incidência de artrite séptica é de aproximadamente 2 a 10 casos a cada 100 mil pessoas na 
população geral, média que sobe para 30 a 70 casos nos portadores de desordens imunológicas e próteses. 
Fisiopatologia: uma lesão cutânea recente em área próxima 
a uma articulação pode servir como porta de entrada para um 
agente bacteriano. Além disso, a infecção pode ocorrer por via 
hematogênica de um foco à distância, por osteomielite 
adjacente, via linfática e por iatrogenia após punção articular 
ou artroscopia. Qualquer organismo pode infectar articulações, 
mas os mais frequentes são Staphylococcus aureus (60%), 
Neisseria gonorrhoeae (> 50% e mais frequente nos adultos 
jovens) e estreptococos beta-hemolíticos (15%), esses que 
apresentam alta seletividade para a membrana sinovial – 
relacionada à aderência e produção de toxinas. 
As bactérias colonizam a articulação e ativam a resposta imune 
do hospedeiro, aumentando os níveis de citocinas 
inflamatórias e proteínas de fase aguda. Assim, tem-se um 
intenso recrutamento de células para tentar fagocitar o patógeno, elevando ainda mais a liberação de 
mediadores que levam à destruição articular. Além disso, os níveis de metaloproteinases estão aumentados 
e iniciam o processo de degradação da cartilagem em associação a toxinas bacterianas. 
Quadro clínico: as articulações mais envolvidas são joelhos, coxofemorais, ombros, tornozelos, cotovelos 
e punhos. De modo geral, a artrite séptica pode ser classificada em gonocócica e não gonocócica, essas 
que apresentam aspectos clínicos e terapêuticos distintos. 
O acometimento pelo gonococo é mais frequente em populações sexualmente ativas, tendo disseminação 
hematogênica após transmissão sexual, de modo que acompanha a doença venérea em 25% dos casos. 
Os sintomas articulares podem aparecer 1 dia ou várias semanas após o contato sexual, sendo que as 
mulheres são mais acometidas, principalmente durante a gestação e próximo à menstruação por alteração 
do pH. Como fatores de risco tem-se múltiplos parceiros, deficiências do sistema complemento (C6 e C8) – 
pesquisar se infecções de repetição por gonorreia, asplenia ou disfunção reticuloendotelial. 
A artrite gonocócica ocorre mais tipicamente em joelhos, quadris, cotovelos e punhos, surgindo como uma 
poliartralgia migratória ou aditiva, evoluindo com monoartrite e dor desproporcional aos achados do exame 
físico. Além disso, se manifesta conjuntamente com tenossinovite e pequenas pústulas não dolorosas na 
pele do tronco e das extremidades – menos frequentemente pode ocorrer bolhas hemorrágicas, vasculites 
e eritema multiforme. 
Na artrite não-gonocócica tem-se manifestação monoarticular, dor, eritema, edema, calor e febre, 
acometendo principalmente crianças, idosos e adultos com doenças prévias. A maior parte é causada por 
Staphylococcus aureus, Streptococcus pneumoniae, bacilos gram negativos e anaeróbios, sendo que nas 
crianças os patógenos mais comuns são: em neonatos Staphylococcus aureus, estreptococos e bacilos 
gram negativos, em < 2 anos Haemophilus influenzae e Staphylococcus aureus e de 2 a 15 anos tem-se 
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prevalência de Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes. A articulação de joelho (48%) é a mais 
afetada, sendo a coxofemoral a segunda (24%). 
Como fatores de risco para artrite não-gonocócica tem-se queda de defesa do hospedeiro, idosos, 
neoplasias, doenças crônicas graves, uso de imunossupressores, uso de drogas ilícitas endovenosas, 
procedimentos invasivos, artrocentese, artroscopia, infiltração com corticoesteroides, artrite reumatoide 
(aumenta em 10x a chance), LES, gota, osteoartrite, próteses articulares, hemartrose, AIDS, entre outros. 
 
Diagnóstico: pela anamnese deve-se procurar histórico de trauma no local, excluindo outras doenças pela 
realização de uma radiografia da articulação – na presença de condrocalcinose ou osteoartrite deve fazer 
artrocentese. Se não for relatado trauma, na presença de edema ou inflamação, tenta-se realizar 
artrocentese para análise do líquido sinovial. Se não for possível puncionar faz-se exames de sangue para 
avaliação do paciente, como hemograma, ácido úrico, proteínas de fase aguda, entre outros. Na ausência 
de edema ou inflamação, mas com sintomas severos, deve-se referenciar o paciente para realização de 
exames de imagem e laboratoriais objetivando atingir o diagnóstico correto. 
De acordo com a aparência do líquido sinovial na artrocentese, tem-se um diagnóstico e um tratamento 
específico. Um líquido sinovial com presença de 2.000 a 100.000 células inflamatórias justifica a presença 
de uma artrite inflamatória, podendo pensar em artrite séptica de > 50.000, confirmando o diagnóstico se > 
100.000 que exige tratamento imediato. O normal do líquido sinovial é uma alta viscosidade, cor amarelo-
palha, aspecto transparente e com cerca de 200 leucócitos, tendo características inflamatórias e sépticas se 
baixa viscosidade, alteração de cor, aspecto translúcido ou turvo e aumento de leucócitos com predomínio 
de polimorfonucleares. 
Tratamento: varia conforme os possíveis agentes envolvidos. 
 
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As doses devem ser efetivas de modo a penetrarem no osso e nas articulações em concentrações 
suficientes para inibir ou matar os patógenos, como ampicilina (2g IV 4/4h), oxacilina (2g IV 4/4h), 
clindamicina (600mg IV 6/6h), ceftriaxona (1g IV 12/12h ou 1g IV/dia na gonocócica), ciprofloxacino (750mg 
IV 12/12h ou 500mg IV 12/12 na gonocócica), entre outros. Sabe-se que os pacientes com artrite gonocócica 
e seus parceiros sexuais devem receber tratamento empírico para infecção por Chlamydia coexistente e/ou 
infecciosa com doxiciclina 100mg VO 2x/dia ou eritromicina. 
Na artrite gonocócica a terapêutica antimicrobiana deve ser mantida por no mínimo 2 a 3 semanas, 
inicialmente por via intravenosa e, depois, por via intramuscular ou oral. Enquanto isso, a não-gonocócica 
deve ser tratada por 4 a 6 semanas a depender da resposta clínica e da bactéria causal, sendo que os 
antibióticos são administrados por via intravenosa nas duas primeiras semanas e, depois, por via 
intramuscular ou oral. Se presença de artrite séptica a articulação deve ser drenada e lavada, devendo 
ressecar o osso infectado se presença de osteomielite – melhor exame de detecção é a ressonância 
magnética. 
Diagnóstico diferencial: outras patologias também podem gerar uma monoartrite articular, como necrose 
avascular, depósito de cristais, hemartrose, espondilite anquilosante, trauma, osteoartrite, osteomielite, 
tumores ósseos, hemoglobinopatias, corpos estranhos, artrite reumatoide, sarcoidose, lúpus eritematoso 
sistêmico, artrite psoriásica, artrite enteropática, entre outros. Sabe-se que uma história anterior de artrite 
crônica ou episódios de artrite geralmente não estão associados à infecção articular.